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E BOOK CRIMINOLOGIA

PARA CONCURSOS

Professor: Rodolfo Laterza1

1
Delegado da Polícia Civil do ES. Mestre em Segurança Pública pela UVV. Coordenador do Curso Avançado de
Combate às Organizações Criminosas e à Corrupção, ministrado em 11 Estados. Especialista em Direito Penal,
Processo Penal e em Políticas e Gestão em Segurança Pública. Docente em Ensino Policial pelo Instituto de
Segurança Pública. Foi Professor de cursos de Graduação e Pós-Graduação e da Academia da Polícia Civil do ES.
Presidente da Fed. Nac. dos Delegados de Polícia Civil – FENDEPOL, do Sind. dos Delegados de Polícia do Espírito
Santo - SINDEPES e da ADEPOL-ES. Coautor e revisor do livro “Manual do Delegado: Teoria e Prática" - Editora
Forense. Coautor do livro “Temas Atuais de Polícia Judiciária". Instagram: rodolfolaterza
Sumário
CRIMINOLOGIA ............................................................................................................................5
Conceito .......................................................................................................................................5
Teorias Biológicas .........................................................................................................................8
Teorias Psicológicas ......................................................................................................................9
Teorias sociológicas ...................................................................................................................10
Criminologia Ambiental: quando o ambiente influencia o crime ...............................................11
Foco no Meio Ambiente .............................................................................................................11
Mapeamento de Crimes .............................................................................................................12
Identificação de Padrões ............................................................................................................12
Questão Aplicada _____________________________ .........................................................13
Teoria Da Tensão: A Pressão Da Sociedade Para Vencer E A Tensão Decorrente Do Fracasso ..14
Questão Aplicada _____________________________ .........................................................15
O Terrorismo à luz do pensamento criminológico contemporâneo ...........................................16
Questão Aplicada _____________________________ ........................................................19
Teoria da Atividade Rotineira: as oportunidades criadas para o crime a partir de situações
específicas ..................................................................................................................................20
Questão Aplicada _____________________________ ............................................................23
Teoria da Associação Diferencial: Edwin Sutherland e o Poder das influências sociais e do
processo de aprendizagem ........................................................................................................24
Questão Aplicada _____________________________ ........................................................25
Controle Social Formal: regras e mecanismos de orientação do comportamento em uma
sociedade ...................................................................................................................................25
Questão Aplicada ...................................................................................................................26
Teoria da Escolha Racional: quando o criminoso é visto como alguém que age pensando em si
e em prol de atingir seus objetivos plenos .................................................................................27
A abordagem da criminologia para o crime estatal ....................................................................30
Questão Aplicada ...................................................................................................................32
A síntese da prevenção criminal para a criminologia .................................................................33
Questão Aplicada ...................................................................................................................33
O tipo ideal genético do positivismo criminológico ...................................................................34
Questão Aplicada ...................................................................................................................35
A correlação entre fatores biológicos e ambientais com o crime: a criminologia biossocial ......36
Introdução ..................................................................................................................................36
Ambiente....................................................................................................................................36
Genética .....................................................................................................................................36
Neurofisiologia ...........................................................................................................................37

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Psicologia evolutiva ....................................................................................................................37
Aplicações concretas e críticas ...................................................................................................38
Questão Aplicada ...................................................................................................................39
Marxismo e Criminologia: o crime como expressão da luta de classes ......................................39
Questão Aplicada ...................................................................................................................42
O fenômeno da “cifra negra” .....................................................................................................43
Questão Aplicada ...................................................................................................................44
A expressão “cifra negra” ou oculta, refere-se: ...................................................................45
A Escola de Chigago (parte 1): ecologia social e o ambiente como relevâncias conceituais ......46
Histórico .....................................................................................................................................46
Características principais ............................................................................................................46
Críticas e Legado ........................................................................................................................48
Questão Aplicada ...................................................................................................................50
Escola de Chicago (parte 2): principais abordagens teóricas ......................................................50
Questão Aplicada ...................................................................................................................54
A Teoria da não-subordinação como reação à violência de gênero ...........................................54
Questão Aplicada ...................................................................................................................57
Skinheads, Satanistas, Hoolingans: as subculturas de delinquência ..........................................57
Principais estudos teóricos das subculturas ...............................................................................58
Questão Aplicada ...................................................................................................................60
O polêmico movimento ‘law and order” ....................................................................................61
Questão Aplicada ...................................................................................................................63
O crime como desobediência a uma decisão política da elite: a teoria do conflito....................64
Tipos de Teoria do Conflito ........................................................................................................65
Significado ..................................................................................................................................65
História .......................................................................................................................................65
Função ........................................................................................................................................66
Efeitos ........................................................................................................................................66
Questão Aplicada ...................................................................................................................67
Lombroso e sua tipologia de criminosos ....................................................................................67
Tipologia de criminosos na definição de Lomboso .....................................................................68
Questão Aplicada ...................................................................................................................68
Garofalo e seus conceitos de “mala in se” e “mala prohibita” ...................................................69
Questão Aplicada ...................................................................................................................70
A TEORIA DA FACILITAÇÃO DA VÍTIMA COMO EXPRESSÃO DA VITIMOLOGIA ...........................71
Questão Aplicada ...................................................................................................................72

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O crime político na visão da criminologia...................................................................................73
Questão Aplicada ...................................................................................................................75
A prevenção criminal na visão da criminologia ..........................................................................76
Questão Aplicada ...................................................................................................................76
Questão Aplicada ...................................................................................................................78

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CRIMINOLOGIA

O estudo das principais teorias da Criminologia é essencial para que o candidato


não seja surpreendido na prova e não perca pontos importantes para sua aprovação.
Diversos concursos públicos para a carreira de Delegado de Polícia, Ministério Público e
Magistratura exigem conhecimentos cada vez mais intercalados desta disciplina,
infelizmente desconsiderada nas universidades. Não deixe de dar relevância a este estudo,
pois é uma disciplina pouco enfatizada e cujo conhecimento gera um diferencial ao
candidato no momento da aprovação.

Ao estudar Criminologia, vale uma dica fundamental: não se baseie em uma


abordagem teórica positivista ou de construção doutrinária estritamente jurídico-penal,
pois a Criminologia tem uma abordagem multidisciplinar com interpenetração em outras
áreas do conhecimento, como a sociologia, a antropologia, a arquitetura, a psicologia, a
ciência política e a filosofia.

Vale frisar que a criminologia é uma ciência social mais vinculada à Sociologia,
não sendo caracterizada como uma ciência social independente. Em relação ao seu objeto
— a criminalidade — a criminologia é ciência geral porque cuida dela de um modo geral.
No seio da Sociologia e sob sua égide, trata, particularmente, da criminalidade e do
criminoso.

Conceito

A criminologia é o conjunto ordenado de conhecimento empírico do crime ,


o criminoso , a conduta socialmente desviante e controle de tal conduta e da vítima.

Do ponto de vista histórico, o primeiro alvorecer da criminologia é o surgimento


da cultura das Iluminações no século XVIII e, em particular, o jurista intelectual
italiano CesareBeccaria e seu tratado " Dei delitti e delle pene ". A chamada escola clássica,
baseada nos conceitos liberais do direito penal, nasce nesse contexto .

Posteriormente, no século XIX , com o desenvolvimento das ciências empíricas


( psicologia , sociologia , antropologia ), nasceu a escola positiva , que se divide em duas
direções: o estudo do homem que delineia de acordo com a abordagem médico-biológica
da antropologia criminoso ( CesareLombroso ) e o estudo sociológico das condições que
favorecem a comissão "diferencial" de crimes de acordo com a classe social a que
pertencem.

5
Mais tarde, com a multiplicação da pesquisa e do conhecimento psicológico, a
escola positiva assume uma orientação psicopatológica e psiquiátrica . A decepção
resultante das expectativas excessivas que se formaram em relação à possibilidade de
abordar cientificamente os problemas da criminalidade levará ao surgimento de
abordagens de criminologia crítica (de abordagem marxista ) e "anticriminologia", por um
lado, e, por outro, ao ressurgimento da escola clássica na área agora chamada
"neoclássica": esta na Itália, caracterizada, como é sabido, pela aversão às ciências sociais
pelas ideologias politicamente dominantes.

No EstadosUnidos e em países de língua Inglês, ao contrário da Itália,


Criminologia, desde os anos vinte do século XX , ela se qualifica como principalmente a
disciplina sociológica. Em última análise, pode-se dizer que a criminologia constitui o
ponto de encontro e o debate de todas as contribuições científicas para o problema do
delinquente como pessoa e da criminalidade como fenômeno social, bem como das formas
mais adequadas para fins de prevenção , tratamento e controle de crime.

A criminologia moderna não pode ser definida, portanto, como uma ciência em
sentido estrito, mas como um conjunto de disciplinas definidas por seu objeto comum, o
agressor e / ou o crime. Na realidade, está esgotado nas disciplinas que, por diversas
razões, lidam com cada objeto de acordo com próprio ponto de vista, tais como
a sociologia , a psicologia, a psiquiatria , a biologia , a genética , a Neurociências em geral
(embora sua contribuição para a criminologia tenha sido amplamente superestimada),
além de o direito penal das ciências normativas e o direito penitenciário .

A criminologia é hoje uma disciplina bastante eclética em termos metodológicos ,


precisamente porque não constitui uma ciência unitária, mas o lugar de aplicação do
conhecimento adquirido em vários contextos e pertencendo a diferentes campos
disciplinares ao problema do crime .

A criminologia tradicionalmente tratou do estudo da personalidade do ofensor,


ao qual as principais escolas desenvolvidas no campo psicológico-clínico contribuíram,
desde o nascimento da psicologia como ciência no século XIX ( psicologia
experimental , antropologia criminal, psicanálise e
principaisescolas psicodinâmicas , escolas escolas cognitivistas comportamentais e
maisrecentemente cognitivistas , escolas psicológicas, escolas sistêmicas e
dinâmicas familiares , estudo da delinquência através dos principais
reagentes psicodiagnósticos).

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Também foram importantes as contribuições das escolas sociológicas
desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos: por um lado, a sociologia da escola de
Chicago , com os desenvolvimentos subsequentes ( teoria das associações
diferenciais , teoria da subcultura , teorias de estratificação social , até a "criminologia
radical"); por outro lado, na sequência da psicologia social de George Herbert Mead ,
sociologia interacionista e fenomenológica , com as contribuições da teoria da rotulageme
o estudo de carreiras criminais. Outras pesquisas investigaram a percepção do fenômeno
criminoso e as emoções conectadas (medo do crime) na comunidade em geral.

Para obter esses resultados, a criminologia usou técnicas


de investigação quantitativa e técnicas qualitativas (atualmente em desenvolvimento após
a onda quantitativa dos anos setenta e oitenta do século passado), que estão mais tensas
para estudar casos individuais ou profundos pequenos grupos de
autores. As metodologias ligadas às escolas interacionistas não devem ser
esquecidas . " observação participante ", na qual o estudioso participa diretamente do
fenômeno que ele pretende estudar.

Do ponto de vista descritivo, criminologia trata tanto de " epidemiologia de


grandes crimes, ou seja, a forma como eles se manifestam
concretamente: assassinato , estupro , crimes relacionados ao uso de substâncias
entorpecentes, crimes económicos e de colarinho branco , crime comum
e organizado , terrorismo , etc. tanto as características dos próprios perpetradores quanto
a sua maior ou menor propensão a cometer crimes e os fatores de risco relacionados ao
comportamento criminoso.

A análise epidemiológica da criminalidade mostrou, por exemplo, que a tendência


para a ação criminal é muito mais frequente (cerca de dez vezes mais) em homens do que
em mulheres e está concentrada em grupos de jovens de 20 a 35 anos.

Muitas teorias foram propostas para explicar fenômenos criminais. Eles podem
ser divididos em:

• teorias neurobiológicas e neuropsicológicas;

• teorias psicológicas;

• teorias sociológicas.

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Teorias Biológicas

Entre as primeiras teorias biológicas, devemos lembrar os estudos


de CesareLombroso sobre o delinquente nascido e sobre o conceito de atavismo , bem
como as investigações sobre fatores genéticos, hormonais, psicopatológicos e neurológicos
da ação criminal.

Posteriormente, várias teorias sobre as origens biológicas da delinquência foram


avançadas. Nos últimos anos foi apresentada a teoria do cromossomo Y
supranumerário. No patrimônio genético humano normal há dois cromossomos
sexuais: XX no caso das fêmeas e XY no caso dos machos. O cromossomo Y é, portanto,
aquele que determina a aquisição do sexo masculino. Em vários casos de indivíduos
admitidos em asilo criminoso ou presos por crimes graves, observou-se a presença
de trissomia XYY , ou seja, a presença de um cromossomo Y adicional.

Uma vez que a freqüência estatística da anomalia XYY apareceu bastante elevada
entre os sujeitos internados e caracterizada por comportamento violento, pensou-se que
essa anomalia poderia estar na base da conduta criminal. De fato, do ponto de
vista metodológico , houve um grande problema nesses estudos: não houve comparação
com um grupo controle de não internados. Quando este estudo foi realizado, verificou-se
que a freqüência dos indivíduos XYY entre os delinquentes não era maior do que a da
população geral. Mais tarde, argumentou que os sujeitos que apresentavam essa anomalia
estavam presentes em maior número nas instalações da prisão, porque seu maior
desenvolvimento em altura e massa muscular os tornou mais visíveis para a polícia que
estava operando as prisões.

Outro campo amplamente estudado foi o de temperamento (especialmente o


conceito de "busca de sensações" por Robert Cloninger ), juntamente com o da relação
entre neurotransmissores e agressividade (em particular, pesquisas sobre o metabolismo
da serotonina). Posteriormente, no campo da neurociência , novas linhas de pesquisa
foram desenvolvidas sobre características genéticas, mesmo que em um contexto
profundamente modificado, no contexto dos chamados. " epigenética ", ou seja, o estudo
da interação entre genes e características do ambiente que podem ou não estimular o
desenvolvimento de comportamentos antissocial ou pro-social.

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Teorias Psicológicas

No campo psicológico, devemos primeiro mencionar as contribuições


da psicanálise , como a teoria da culpa-delinquente, que remonta a uma
incursão freudiana rara no campo, e a teoria da deficiência do superego, por sua vez,
relacionada ao conceito de "policial interno". Neste contexto, devemos também considerar
as contribuições da escola Kleinian (em torno dos anos trinta e cinquenta do século
passado) e as do famoso psicanalista britânico Donald W. Winnicott, famoso por seu
conceito de "tendência antisocial", segundo ele estimulado pela perda precoce do objeto
do amor materno, o que levaria à tentativa compensatória composta por atos desviantes e
criminosos.

Ao mesmo tempo, no campo de pesquisa menos diretamente clínico e


experimental, as idéias de Winnicott foram desenvolvidas com a contribuição de Sir John
Bowlby , que encontrou em uma primeira fase de sua pesquisa a presença de uma privação
materna nos assuntos que seriam tornam-se delinquentes; e depois desenvolveu
a teoria do anexo , que também leva em consideração a agressividade e a anti-socialidade,
fazendo com que voltem a uma forma particular de apego (anexo desorganizado) trazido
pelo autor e seus alunos ( Mary Ainsworth , Mary Main , Peter Fonagy ) a situações
traumáticas que produziriam estados dissociativos nos assuntos.

As contribuições da derivação comportamental , baseadas no conceito


de condicionamento e aquelas ligadas à teoria da "frustração-agressão" de Charles Dollard
e Kelly Miller, também foram mencionadas : estudos experimentais mostraram que a
frustração (isto é, impedir que um sujeito alcançar um objetivo ou objetivo importante
para ele) tende a gerar agressão , que pode ser baixada diretamente na causa ou fonte de
frustração, ou indiretamente em outros assuntos, por assim dizer, mais acessível. De
acordo com essa teoria, portanto, na base do comportamento criminal, pode haver uma
acumulação de agressão pela frustração .

Por outro lado, uma série adicional de contribuições destinadas a trazer de volta
à psiquiatria os problemas relacionados às ações anti-sociais, que os manuais
diagnósticos-estatísticos descrevem de forma exageradamente comportamental e não
descritiva das características psíquicas dos criminosos. Deste ponto de vista, destacam-
se os nomes de Robert D. Hare , revivendo o conceito de psicopatia , cunhado pelo
psiquiatra alemão Kurt Schneider e Otto Kernberg , que por seu treinamento cosmopolita
(alemão, chileno, americano ) foi capaz de introduzir o pensamento kleiniano na
psicanálise americana e unido entre si, no conceito de "organização

9
de personalidade limítrofe ",as contribuições
daprópria psicanálise , psicologia e psiquiatria da era do desenvolvimento .

Em particular, as vicissitudes do narcisismo , de acordo com Kernberg ,


produzem os problemas do comportamento anti-social. Kernberg fala mesmo de
um continuum que, no sentido de aumentar a gravidade, do transtorno narcisista (variante
da organização borderline ), do narcisismo maligno e da psicopatia ou desordem
antissocial propriamente dita, caracterizada pela ausência de uma "boa relação de objeto"
internalizada.

Teorias sociológicas

Finalmente, entre as teorias sociológicas, lembremos de ambientes ou contextos


criminais (teorias ecológicas da criminalidade), a teoria das associações diferenciais
de Edwin Sutherland ( ver acima ), a das identificações diferenciais , a teoria do conflito
cultural , teorias baseadas no conceito de anomia (quanto maior a tendência anômala de
uma empresa , maior a freqüência de crimes nessa empresa).

O comportamento criminal muitas vezes se manifesta no contexto


de subculturas criminosas que transmitem aos valores de seus membros , que revelam a
conduta do indivíduo como os da cultura geral não-criminal de que as mesmas subculturas
fazem parte.

Os sociólogos também destacaram a importância dos processos


de estigmatização na formação da identidade criminal e na consolidação de
um projeto real de vida desviante. Em outras palavras, às vezes é a mesma reação social
desqualificante e marginalizadora contra o desvio e a criminalidade para atuar como fator
criminal.

A teoria do etiquetamento ( rotulagem ) destaca as consequências negativas do


estigma, e é a abordagem básica para o crime juvenil, que se baseia em evitar tanto quanto
possível a prisão de menores e a sua consequente exclusão do circuito normais
das relações sociais .

10
Criminologia Ambiental: quando o ambiente influencia o crime

A criminologia ambiental é um campo crescente de estudo dentro da disciplina


de criminologia. Em essência, o termo descreve a relação dos ambientes individuais em
que os crimes ocorrem e como eles influenciam ou contribuem para a atividade criminosa
e comportamento.

Em geral, os criminólogos insistem que há quatro elementos necessários para um


crime a ocorrer. Se um desses elementos não estiver presente, então nenhum crime
ocorreu.

✓ Lei: Primeiro, deve haver uma lei a ser quebrada. Se a atividade não
é ilegal, então, obviamente, não pode ser criminoso.
✓ Ofensor: Em segundo lugar, alguém deve ter violado a lei. Se não há
nenhum ofensor, não há crime.
✓ Vítima ou Alvo: Terceiro, para que um ato seja criminoso, deve
haver uma vítima. Nos supostos crimes "sem vítimas", diz-se que o estado ou
comunidade como um todo é vítima por causa dos problemas que se acredita
serem resultado do comportamento.
✓ Lugar: Em quarto lugar, a atividade ou comportamento deve ter
ocorrido em um lugar. Não pode haver crime no vácuo

Foco no Meio Ambiente

Para os criminologistas ambientais, o quarto elemento, o lugar, é o foco principal


de seus estudos. Este campo de estudo começou a se desenvolver no início dos anos 80 e
foca nos fatores ambientais como determinantes para o surgimento do crime como
fenômeno social, posto que eles acreditam que podem levar a influenciar o crime em suas
etapas de execução e ao comportamento criminoso quanto a suas condições de
emergência e surgimento.

Ao estudar o lugar, os criminologistas ambientais não se concentram tanto


na localização geográfica, mas nos elementos ambientais de natureza urbana que e
apresentam no local, como as condições de iluminação, o estado de reparação ou de
degradação que os edifícios podem expor, bem como outras condições de vizinhança.

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A criminologia ambiental examinaportanto dados como a hora e o local dos
crimes, a fim de ajudar os agentes da lei a entender melhor onde os crimes estão
ocorrendo. Isso ajuda os policiais a concentrar suas patrulhas, a fim de tomar uma
abordagem mais preventiva para a resolução de crimes, em oposição a uma abordagem
reativa.

Desta forma, a criminologia ambiental é complementar ao policiamento


orientado para a comunidade.

Mapeamento de Crimes

Um dos reflexos práticos mais notórios da criminologia ambiental é o mapa do


crime. Sem dúvida, quem já viu programas de televisão ou filmes, ou talvez tenha ido até
um centro de comando e controle de alguma Secretaria de Segurança Pública viu um
grande mapa afixado em uma parede com pinos e outras marcas nele (atualmente são
digitalizados e totalmente informatizados).

Esses pinos ou marcas indicam áreas onde ocorreram crimes e são um exemplo
muito básico do que os criminologistas chamam de "mapeamento do crime". Os
criminologistas ambientais levam em extrema consideração este mapeamento,
debruçando-se sobre os dados para procurar padrões.

Identificação de Padrões

O objetivo final é usar todos os padrões que localizados para ajudar a identificar
as causas originárias dos crimes e ajudar a desenvolver soluções viáveis para o problema.
Por exemplo, se um grande número de roubos está ocorrendo em um local específico em
um momento específico, criminologistas ambientais vão querer olhar para esse local
naquele momento para determinar quais os fatores contribuintes podem ser os mais
notórios.

Para os criminologistas ambientais, vige o pensamento de que as pessoas agem


de acordo com o que elas percebem como as normas sociais de seu ambiente.

Como reflexo político-criminal da Criminologia Ambiental, a "Teoria das Janelas


Quebradas" sugere que o estado físico e visível dos edifícios, gramados, casas e empresas

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fornecem pistas importantes sobre como as pessoas se comportam nessa área. A idéia é
que quanto mais janelas quebradas houver no bairro, maior a probabilidade de haver
crime na área.

Questão Aplicada

A Criminologia Ambiental se tornou um dos principais focos de estudos da Criminologia


Moderna. Assinale a alternativa incorreta quanto a sua concepção dogmática desse campo
de estudo:

A A teoria das janelas quebradas é um desdobramento de seu estudo.


B O local do crime é o foco essencial na análise das causas do crime.
C A localização geográfica do criminoso e do fato em si são aspectos determinantes de
análise para esta teoria.
D São considerados como elementos relevantes de análise fatores urbanos como as
condições da vizinhança, o estado das estruturas de iluminação pública e o estado de
degradação dos edifícios do local.
E Para este vertente da criminologia, o mapeamento de crime pelas forças de segurança
se torna relevante para a prevenção e repressão aos comportamentos delituosos. A
transformação de um perfil delinqüente decorre da predominância de um conjunto de
fatores favoráveis à violação da lei em detrimento de sua observância.

RESPOSTA:

No caso da questão acima, a alternativa “c” está errada ao inferir que a localização
geográfica é um aspecto determinante a ser considerado na Criminologia Ambiental, pois é
justamente a conjunção de elementos presentes no local de crime como as características
da vizinhança, a iluminação pública, o nível de reparação dos edifícios que influenciam os
fatores causais do crime mais que a localização em si da área. Todas as demais alternativas
correspondem ao que aborda esta vertente da Criminologia.

GABARITO: letra “c”.

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Teoria Da Tensão: A Pressão Da Sociedade Para Vencer E A Tensão Decorrente Do
Fracasso

O conceito de teoria da tensão ganha bastante relevância no estudo da


criminologia a partir dos anos 70. Acaba sendo necessária sua compreensão, porque
muitas questões de concurso público exploram a influência da pobreza e da baixa
escolaridade nas respostas, usando do senso comum que jornalistas em geral exploram na
formação de uma opinião vaga sobre as causas da criminalidade. Dada a profundidade do
tema, faremos a explicação de modo único, para fins puramente didáticos.

A teoria da tensão é uma teoria da sociologia e da criminologia desenvolvida em


1938 por Robert K. Merton. A teoria afirma que a sociedade exerce pressão sobre os
indivíduos para alcançar objetivos socialmente aceitos (como o sonho americano), embora
eles não tenham muitas vezes os meios para tal, o que leva a uma situação de tensão que
pode levar os indivíduos a cometer crimes. Exemplos disso são a venda de drogas ou o
envolvimento na prostituição para ganhar segurança financeira.

A estirpe desta teoria pode ser:

✓ Estrutural: refere-se aos processos a nível societário que filtram e afetam o modo
como o indivíduo percebe as suas necessidades, isto é, se certas estruturas sociais
são inerentemente inadequadas ou se há regulação inadequada, isso pode alterar
as percepções do indivíduo quanto aos meios e oportunidades;
✓ Individual: refere-se às fricções e dores experimentadas por um indivíduo à
medida que procura formas de satisfazer as suas necessidades, ou seja, se os
objetivos de uma sociedade se tornam significativos para um indivíduo,
efetivamente consegui-los pode ser mais importante do que os meios adotados
para atingir tai fins, o que leva a transgressões diversas.

Robert King Merton argumentou que a sociedade pode incentivar o desvio em grande
medida. Merton acreditava que os objetivos socialmente aceitos pressionavam as pessoas
a se conformarem. As pessoas são forçadas a trabalhar dentro do sistema ou tornar-se
membros de uma subcultura desviante para alcançar a meta desejada. Merton continuou a
dizer quando os indivíduos são confrontados com uma lacuna entre seus objetivos
(geralmente finanças / dinheiro relacionado) e seu status atual, a tensão ocorre. Quando
confrontados com a tensão, as pessoas têm cinco maneiras de se adaptar:

✓ Conformidade: perseguir metas culturais através de meios socialmente aprovados.

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✓ Inovação: usando meios socialmente não aprovados ou não convencionais para
obter metas culturalmente aprovadas. Exemplo: lidar com drogas ou roubar para
alcançar segurança financeira.
✓ Ritualismo: usar os mesmos meios socialmente aprovados para atingir metas
menos elusivas (mais modestas e humildes). Ocorre com aqueles que compram em
um sistema de meios socialmente aprovados, mas perdem de vista os objetivos.
Merton acreditava que os usuários de drogas estão nesta categoria
✓ Retreatismo: rejeitar os objetivos culturais e socialmente aprovados , bem como os
meios para obtê-lo, encontrando assim uma maneira de escapar dele.
✓ Rebelião: rejeitar os objetivos e os meios culturais, trabalhando para substituí-los.
As pessoas negam objetivos e meios socialmente aprovados criando um novo
sistema de metas e meios aceitáveis para sua realidade, muitas vezes a partir de
transgressões e práticas antissociais.

Em seus estudos, observou que existem caminhos institucionalizados para o


sucesso na sociedade. A teoria da tensão sustenta que o crime é causado pela dificuldade
que aqueles em pobreza têm em conseguir objetivos socialmente avaliados por meios
legítimos. Um de suas ênfases está no argumento de que aqueles que têm, por exemplo,
uma escolaridade pobre têm dificuldade em obter riqueza e status ao obterem um
emprego bem remunerado, sendo, pois, mais propensos a usar meios criminosos para
alcançar esses objetivos.

Crítica

Uma dificuldade com a teoria da tensão é que ela não explora por que as crianças de
famílias de baixa renda teriam escolaridade pobre em primeiro lugar. Mais importante
ainda é o fato de que muitos crimes juvenis não têm uma motivação econômica. A teoria da
tensão não, portanto, explica o crime violento, o tipo de crime juvenil que causa mais
ansiedade para o público.

Questão Aplicada

A respeito da teoria da tensão e sua influência no surgimento da criminalidade, assinale a


alternativa incorreta.

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A O crime surge em função da dificuldade de pessoas inseridas em um contexto de
pobreza de atingir objetivos socialmente legítimos.
B Uma baixa escolaridade de uma pessoa a torna propensa a usar meios ilegais para
atingir objetivos profissionais quando adquire certo nível social e profissional.
C Indivíduos que negam meios socialmente aceitáveis criam um sistema com objetivos e
metas aceitáveis em sua realidade.
D Para esta teoria, a baixa escolaridade determina crimes violentos no seio da juventude.
E O crime emerge em uma dissociação entre a aquisição de algo por meios socialmente
legítimos e os objetivos alcançados, como no caso do tráfico de drogas.

RESPOSTA:

A única alternativa correta é a letra “d”, pois esta teoria justamente não explica o
surgimento de crimes violentos em segmentos sociais não necessariamente pobres ou de
baixa escolaridade. As demais alternativas se apresentam como características desta
teoria.

GABARITO: letra “d”.

O Terrorismo à luz do pensamento criminológico contemporâneo

O estudo do terrorismo conexo à criminologia moderna está ganhando cada vez


mais relevância, face a atualidade do tema e as inúmeras abordagens teóricas usadas pela
Criminologia Moderna para estudá-lo. Diante da atualidade do tema, esta questão ganha
importante relevância e ainda servirá como meio de revisão de algumas teorias já
estudadas nos módulos anteriores. Para melhor compreensão, faremos a explicação de
modo único.

Em geral, as ciências sociais contêm uma série de explicações sobre o terrorismo.


Mais especificamente, no entanto, nem todas as disciplinas das ciências sociais contêm
perspectivas igualmente bem desenvolvidas do estudo do terrorismo. Em particular, as
elucidações criminológicas do terrorismo são menos desenvolvidas do que os
esclarecimentos oferecidos em outras disciplinas de ciências sociais, como a ciência
política e a história Tipicamente, os criminologistas se baseiam em algumas teorias gerais
da violência para gerar hipóteses sobre o terrorismo. Geralmente, as hipóteses são

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extraídas da privação relativa ou de teorias subculturais da violência (papel das idéias em
causar comportamentos terroristas / ilícitos).

A privação relativa tem sido usada na literatura para expressar situações em que
os cidadãos através de medidas de padrões econômicos, políticos ou sociais mantiveram
sentimentos de privação quando equilibrados com outros cidadãos em seus postos
comparáveis na sociedade . De fato, a frustração gerada por sentimentos de privação
relativa tem sido representada como um antecedente provável de violência política, como
terrorismo, desrespeitos políticos e movimentos sociais. Deve-se enfatizar que os
criminologistas estão fazendo contribuições importantes para a literatura do terrorismo,
recorrendo a outras teorias, mesmo as de outras disciplinas no estudo do crime e do
terrorismo. Por exemplo, Laqueur (1999)2 aludiu a este ponto quando observa que o
estudo do terrorismo, bem como o foco criminológico no crime, tem sido amplamente
interdisciplinar. Laqueur (1999) insiste ainda que este foco interdisciplinar estimulou a
pesquisa e empurrou o estudo do terrorismo e do crime para além dos limites de uma
única disciplina. Na sua explicação sobre o terrorismo, a criminologia ainda não abraçou
questões históricas como o colonialismo, o imperialismo e o neocolonialismo como
sistemas de dominância econômica, política, social e cultural. Essas questões são
fundamentais na busca da criminologia para fornecer explicações sobre o terrorismo e
articular contramedidas importantes contra ele. Na verdade, como resultado do
reconhecimento de que as pessoas econômicas, políticas, sociais e culturalmente
colonizadas (dominadas e controladas) têm a capacidade de adotar o uso da força ou de
encetar lutas armadas em suas tentativas de alcançar ou alcançar a libertação, o
terrorismo internacional pode surgir como força de subversão. Por outro lado, os Estados
podem usar o terrorismo oficial para manter seus interesses econômicos, políticos, sociais
e culturais vitais sobre as sociedades dominadas ou oprimidas para manter o poder e a
influência. O terrorismo, portanto, tem duas faces. Uma representa indivíduos e grupos
dentro de uma nação que estão tentando manter seus recursos econômicos e manter a
independência; a outra reflete o interesse dos Estados, que querem dominar e controlar as
vidas dos subjugados. Cada esfera adota o terrorismo para alcançar a libertação através da
ação política. Durante a Guerra Fria, para combater a opressão colonial, os movimentos de
resistência praticavam por vezes ações terroristas como meio de alcançar visibilidade
internacional na tentativa de serem ouvidos. Alguns também adotam táticas e estratégias
terroristas para alcançar seu lugar político e econômico na distribuição econômica
mundial. Em contrapartida, os poderes que detêm a chave para a economia mundial

2
Walter Laqueur, The New Terrorism: FanaticismandtheArmsof Mass Destruction, Oxford University
Press, US, 1999

17
podem combater o terrorismo, resultando nos dois rostos do terrorismo. É também
através da violência que as massas podem ser suprimidas. As teorias prévias do crime e da
violência não se concentraram nas estruturas do colonialismo, imperialismo e
neocolonialismo. No entanto, algumas das perspectivas existentes sobre criminalidade e
justiça estão inseridas em implicações não desenvolvidas para o terrorismo.

Os pesquisadores biológicos do terrorismo acreditam que indivíduos envolvidos


na natureza cíclica da violência caracterizam-se por desequilíbrios hormonais e variações
neuroquímicas em suas funções cerebrais (Hubbard 1993). Eles afirmam que os
terroristas têm níveis anormais de compostos de norepinefrina, acetilcolina e endorfinas
na química corporal ( Hubbard 1993) 3. Eles também observam que a norepinefrina está
mais intimamente associada com o terrorismo do que os outros compostos, porque trata
de vôo ou luta (um estado de excitação sob o estresse em que os órgãos operam mais
proficientemente) na química do corpo individual. A aceitação do vínculo com doença
mental do terrorismo centra-se na premissa de que indivíduos doentios não observam
regras e regulamentos estabelecidos pela sociedade, são erráticos e são incapazes de
controlar suas emoções. Tendo em vista que eles estão dispostos a agir de forma irracional
em qualquer momento, as pessoas loucas são, portanto, potencialmente perigosas. Se
também assumimos que as pessoas que cometem atos violentos estão loucas e doentes,
também estamos supondo a visão de que os doentes mentais são inseguros e os indivíduos
que cometem atos bizarros são psicologicamente indispostos.

Alguns estudiosos argumentaram que a relativa impotência é um fator estrutural


significativo associado à evolução dos padrões de comportamento que os atores
poderosos podem definir como criminosos, incluindo atos de violência terroristas. Em seu
livro, The Social Reality of Crime, Quinney (1970) insiste em que o crime é uma definição
de conduta humana que é criada por agentes autorizados em uma sociedade politicamente
organizada. A visão de que existe um preconceito na definição criminológica do crime , que
favorece apenas os ricos e castiga os pobres também foi expressado por Chambliss
(1999)4. Ele afirma que o foco da criminologia tradicional em crimes predatórios é o
favoritismo da classe média da disciplina. Assim, junto com agências de aplicação da lei e
políticos, os criminologistas de tendência de classe média refletem o viés da classe média
em seus próprios contextos sociais. Apesar de uma preponderância de evidência da

3
Hubbard, R. S., & Power, B. M. (1993). Finding and framing a research question. In L. Patterson, C. M.
Santa, K. G. Short, & K. Smith (Eds.), Teachers are researchers: Reflection and action (pp. 19-25).
Newark, DE: International Reading Association.
4
Power, Politics, and Crime. Contributors: William J. Chambliss - Author. Publisher: Westview Press.
Place of publication: Boulder, CO. Publication year: 1999.

18
frequência e seriedade dos crimes de colarinho branco, corporativo e estadual, os
criminologistas da classe média continuam acreditando que os "problemas reais do crime"
são os crimes que são desproporcionalmente (embora não exclusivamente) cometidos por
membros do menor escalão da sociedade, tais como roubo, roubo, assassinato, estupro e
roubo. Além disso, a teoria da privação relativa não é principalmente uma teoria do crime,
mas pode ser usada para explicar o comportamento terrorista em um ambiente urbano
(Shelley, 1985). A privação relativa ocorre em sociedades industrializadas, onde homens
jovens de classe baixa ou minorias étnicas se sentem economicamente discriminados.
Também pode existir nas sociedades em desenvolvimento, onde novos residentes
metropolitanos procuram adquirir bens materiais que nunca foram disponibilizados para
eles devido a políticas externas e internas que negaram seu orgulho humano Portanto, a
privação relativa combina a desigualdade econômica com os sentimentos de
ressentimento e injustiça entre os grupos que têm menos em tais sociedades. Isso foi
demonstrado com os terroristas suicidas palestinos, onde tais sentimentos de
ressentimento caracterizados pela pobreza e desigualdade podem levar a atos terroristas
de violência. A criminologia precisa de novas ideias e perspectivas que incentivem a
diversidade no estudo da criminalidade e do terrorismo. Como revela esta breve revisão
da história e das teorias do terrorismo, a criminologia oferece uma visão monolítica que
tipicamente obstrui seu objeto de estudo a partir do contexto em que está enredado. A
criminologia deve fornecer um contexto apropriado no qual o terrorismo pode ser situado
e compreendido.

Questão Aplicada

O terrorismo um fenômeno complexo com profundas implicações na definição de


estratégias de controle e no direcionamento de uma Política Criminal sob certa
abordagem, também com influência sobre as esferas econômicas, sociais e culturais de
uma sociedade. Assinale a alternativa incorreta quanto aos fatores causais do
comportamento terrorista estudados pela criminologia moderna:

a) A privação relativa e as subculturas de violência são consideradas como fontes


causais do comportamento terrorista.
b) Estados podem usar estruturas institucionais para promover terrorismo como
meio de manutenção de equilíbrio de poder e continuidade de um sistema de
dominância social, econômica, política ou cultural.

19
c) O terrorismo não é considerado um método tático ou estratégico de conflito entre
sistemas estatais antagônicos, por caracterizar violação a ordem constitucional e a
todo um sistema de normas de direito internacional que regem os Estados
Modernos.
d) Pesquisadores biológicos consideram que terroristas usualmente sofrem de
desequilíbrios hormonais ou variações neuroquímicas em suas funções cerebrais.
e) Terrorismo pode ser característico de indivíduos com doenças mentais que os
tornem incapazes de atender a regras sistematizadas em uma ordem jurídica-
política e de controlar suas emoções em um contexto de dificuldade de integração
pessoal em dada comunidade.

RESPOSTA:

No caso da questão acima, a alternativa “c” está errada ao inferir os Estado não utilizam o
terrorismo como método de projeção de poder ou de alcance de objetivos políticos, na
medida em que o que se verifica é justamente o contrário em tempos modernos, os quais
estratégias de guerra híbrida combinam ações ilegais de subversão e de terrorismo
patrocinados por instituições estatais, independentemente de limites de ordem
constitucional ou legal. As demais alternativas são abordagens adotadas pela Criminologia
moderna.

Teoria da Atividade Rotineira: as oportunidades criadas para o crime a partir de


situações específicas

O estudo da teoria da atividade rotineira é relevante pra se compreender como o


crime de desenvolve por contextos situacionais propícios não atrelados a elementos de
ordem econômica e social puramente. Dada a profundidade do tema, faremos a explicação
de modo único, para fins puramente didáticos.

A teoria da atividade de rotina é um sub-campo da teoria da oportunidade


do crime que se concentra em situações de crimes. Foi desenvolvido por Marcus
Felson e Lawrence E. Cohen.

A premissa da teoria da atividade rotineira é que o crime não é afetado por


causas sociais como pobreza, desigualdade e desemprego. Por exemplo, após a
Segunda Guerra Mundial, a economia dos países ocidentais estava crescendo e os estados

20
de bem-estar estavam se expandindo. Apesar disso, o crime aumentou significativamente
durante esse período. De acordo com Felson e Cohen, o motivo do aumento é que a
prosperidade da sociedade contemporânea oferece mais oportunidades de crime;
ou seja, há muito mais para roubar.

A teoria da atividade de rotina é controversa entre os sociólogos que acreditam


nas causas sociais do crime. Mas vários tipos de crime são muito bem explicados pela
teoria da atividade de rotina. Por exemplo, violação de direitos autorais relacionada ao
compartilhamento de arquivos digitais; desvios de recursos públicos por servidores bem
qualificados; os distintos tipos de crime corporativo.

Os infratores motivados são indivíduos que não são apenas capazes de cometer
atividades criminosas, mas estão dispostos a fazê-lo. Alvos adequados podem ser uma
pessoa ou objeto que os infratores consideram vulneráveis ou particularmente atraentes.
Os fatores que tornam atraente um determinado alvo são específicos da situação e
do crime.

O foco analítico das atividades de rotina tem uma visão em nível macro e enfatiza
as mudanças em grande escala nos padrões de comportamento da vítima e do agressor.
Ele se concentra em eventos específicos de criminalidade e comportamentos / decisões
dos infratores. A teoria da atividade de rotina baseia-se no pressuposto de que o
crime pode ser cometido por qualquer pessoa que tenha a oportunidade. A teoria
também afirma que as vítimas recebem escolhas sobre se devem ser vítimas
principalmente por não se colocarem em situações em que um crime pode ser
cometido contra elas.

Como exemplos desta análise, citemos os estudos em que Holtfreter, Reisig e


Pratt [1] encontraram apoio para a premissa de que a falta de autocontrole produz
resultados de vitimização. Os seus estudos demonstraram que os indivíduos com baixo
autocontrole perceberam um risco aumentado, mas demonstraram uma diminuição nas
estratégias projetadas para proteger e / ou evitar a vitimização na Internet. Os teóricos
Marcus Felson e Lawrence E. Cohen [7] estabelecem que aqueles que vivem sozinhos são
mais propensos a estar sozinhos e a ter pouca ajuda para proteger seus bens, eles
provavelmente enfrentam taxas mais altas de vitimização para crimes pessoais e de
propriedade. O aumento de 30,6% nas taxas de participação das mulheres empregadas e
casadas não só sujeita essas mulheres a um maior risco de ataque de e para o trabalho,
mas também deixa suas casas e o carro menos protegidos da entrada ilegal. O aumento de
118% na proporção da população, composta por estudantes universitários, coloca mais

21
mulheres em risco de ataque ao realizar atividades diárias como estudantes, uma vez que
podem ser menos efetivamente protegidas por familiares ou amigos.

A descoberta mais importante é que tanto a criminalidade violenta como as


formas de fraude na internet de vitimização ainda compartilham o mesmo mecanismo
causal subjacente associado às atividades rotineiras de possíveis alvos criminosos. O
teórico do criminologista Lynch usa a teoria da rotina para explicar que as pessoas no
trabalho eram um importante determinante do risco de vitimização entre pessoas
ocupadas, mesmo quando a periculosidade da área de trabalho era constante. Além disso,
os atributos específicos das atividades prosseguidas na exposição ao trabalho, na tutela e
na atratividade estavam todos relacionados à vitimização de acordo com as previsões da
teoria da atividade. À vítima é geralmente atribuída ao descuido da pessoa que
desempenha um papel ocupacional específico. Essas descobertas indicam que as
diferenças no risco de vitimização no trabalho são mais determinadas pela tarefa realizada
que a pessoa propriamente em determinada função ocupacional. Além disso, esses
achados identificam atributos específicos de profissões que poderiam ser modificados
para reduzir o risco de vitimização no trabalho. A vitimização dos trabalhadores em suas
rotinas laborais diminuirá se a mobilidade, a acessibilidade pública e o manejo do dinheiro
como parte do papel ocupacional forem reduzidos.

Os indivíduos envolvidos em padrões de rotina enfrentaram pouco controle


social e têm taxas mais altas de crime. Para esta teoria, o envolvimento no padrão de
rotina com níveis mistos de visibilidade e padrões instrumentais, sociais e atléticos
tem pouco efeito na delinquência.

Críticas

A teoria da atividade de rotina é principalmente uma macro-teoria da


vitimização. Ele nos diz quem é mais provável que seja vítima. Mas quem são os
infratores? Existe uma correlação entre vítimas criminosas e infratores? Portanto, os
padrões encontrados pelos teóricos da atividade rotineira podem ser enganadores.

Além disso, as taxas de criminalidade são geralmente proporcionais ao número


de infratores motivados, como adolescentes e desempregados, na população. Claro, a
motivação pode ser reduzida quando os meios legítimos estão disponíveis para os
infratores alcançar seus objetivos. A motivação pode aumentar, quando a opção de crime é
a única opção viável disponível para um infrator atingir seus objetivos. Outra dissuasão

22
que influencia as atividades de rotina que produz o crime é a crença moral e a socialização
do ofensor. Se uma pessoa foi socializada para realizar crenças convencionais, mesmo na
presença de oportunidades criminosas, os infratores se absteriam de crime, quando tal é a
força dos laços sociais que servem de amortecedor para contrariar a atração de atividades
criminosas.

Questão Aplicada
A respeito da teoria da atividade rotineira e suas implicações para o estudo das causas do
comportamento criminoso, assinale a alternativa correta que configura uma de suas
premissas de estudo:

a) A pobreza e a desigualdade de renda são fatores que propiciam um contexto de


criminalidade e violência.
b) O maior controle dos índices de criminalidade após a Segunda Guerra Mundial
indicou que uma melhor distribuição de renda e menores taxas de desemprego
foram elementos preponderantes para sua concretização nas sociedades
capitalistas avançadas.
c) O crime pode ser cometido por qualquer pessoa desde que haja um contexto
favorável de oportunidade.
d) O comportamento da vítima em um contexto situacional propício para ser afetada
por um comportamento criminoso é um critério determinante.
e) As atividades rotineiras em determinado trabalho e os mecanismos de autocontrole
não são abordados pela Teoria da Atividade Rotineira.

A única alternativa correta é a letra “c”, pois para esta teoria o crime pode ser praticado
por uma questão de oportunidade em convergência com fatores situacionais propícios de
vitimação, conforme acima explicado, sem considerações de elementos sócio-econômicos
como fatores primordiais, como pobreza, miséria ou desigualdade de renda.

GABARITO: letra “c”.

23
Teoria da Associação Diferencial: Edwin Sutherland e o Poder das influências
sociais e do processo de aprendizagem

Edwin Sutherland, um dos maiores estudiosos de Criminologia do século XX, desenvolveu a


Teoria da Associação Diferencial, com uma abordagem metodológica próxima àquelas
firmadas por outras teorias científicas. Sutherland reconheceu que, embora alguns tipos de
crimes sejam mais prevalentes nas comunidades minoritárias, muitos indivíduos nessas
comunidades respeitam a lei e possuem um grau de observância conformista muito maior que
comunidades com maior renda. Da mesma forma, entre os poderosos e privilegiados, alguns são
violadores da lei recorrentes, enquanto que outros não o são. Esta teoria tem a intenção de
discriminar no nível individual entre aqueles que se tornam transgressores da lei e aqueles que
não desenvolvem comportamento transgressor, qualquer que seja sua raça, classe ou origem
étnica.

A Teoria da Associação Diferencial dá prioridade ao poder das influências sociais e


experiências de aprendizagem, podendo ser expressa em termos de uma série de proposições, a
seguir resumidas didaticamente:

1. O comportamento criminoso é assimilado em um processo de aprendizagem na interação com


outras pessoas em um processo de comunicação. A semiótica e a linguagem são elementos
considerados na constituição de um processo de aprendizagem evolutivo.

2. O processo de aprendizagem ocorre principalmente em grupos pessoais íntimos e inclui não


só as técnicas e práticas típicas do cometimento de certos crimes, mas leva em conta os motivos,
as racionalizações e as atitudes que acompanham o crime.

3. As associações diferenciais podem variar em freqüência, duração, prioridade e intensidade,


sendo que uma pessoa torna-se delinqüente devido a um excesso de condições favoráveis à
violação da lei que prevalecem sobre aquelas desfavoráveis à violação da lei. Os fatores
transgressores são mais fortes que os fatores conformistas e de obediência.

4. O processo de aprendizagem envolve os mesmos mecanismos quando uma pessoa desenvolve


a assimilação de comportamentos tipicamente criminosos ou inerentes a uma atitude de
conformidade perante à lei e às convenções sociais.

Assim, não é a ausência de uma organização social que caracteriza comunidades (ricas ou
pobres) em situação de intensa criminalidade, mas uma organização social diferenciada - um
conjunto de práticas e definições culturais que estão em desacordo com a lei e que emergem
favoravelmente aos receptores dos conceitos comportamentais criminosos. Um exemplo
interessante se verifica quando em uma região onde a taxa de delinqüência é alta, é muito
provável que um garoto sociável, ativo e atlético entre em contato com outros meninos do bairro
e aprenda o comportamento delinqüente deles e se torne um integrante de uma gangue. Tais
condições propícias ao processo de aprendizagem dos valores criminosos podem ser contidos
quando instituições de prevenção primária, como família, igreja e escola determinam um
conjunto de práticas comportamentais conformistas.

Para a Teoria da Associação Diferencial a maioria das comunidades é organizada para o


comportamento criminoso ou anticriminoso, dirigindo-nos para a rede de relações sociais chave
que diferencia o indivíduo desviante e o sujeito conformista.

24
Questão Aplicada

A Teoria da Associação Diferencial enfatiza o poder das influências dos fatores sociais e o
aprendizado de experiências desviantes em um contexto de criminalidade consolidado. Assinale
a alternativa que não configura uma abordagem dogmática desta teoria:

a) O comportamento criminoso se desenvolve em um processo e interação com outros


delinqüentes.
b) O processo de assimilação do comportamento criminoso inclui os motivos,
racionalizações e atitudes próprias da cultura delinqüente.
c) A transformação de um perfil delinqüente decorre da predominância de um conjunto de
fatores favoráveis à violação da lei em detrimento de sua observância.
d) Os fatores étnicos são conceitos relevantes para o aprendizado do processo criminoso.
e) O processo de construção do comportamento delinqüente no indivíduo envolve as mesmas
condições que determinam uma conduta conformista e de obediência.

No caso da questão acima, a alternativa “d” está errada ao inferir que os fatores étnicos são
determinantes para a associação diferencial do comportamento criminoso, pois é justamente o
contrário: analisa-se o processo de construção de um comportamento criminoso no indivíduo
sem considerar a raça, etnia ou a classe social a qual ele está inserido.

GABARITO: letra “d”.

Controle Social Formal: regras e mecanismos de orientação do comportamento em


uma sociedade

O conceito de controle social formal, muito adotado pela Criminologia a partir de


estudos próprios da Sociologia é importante para explicar a capacidade de projeção de
adequação social de indivíduos e grupos sociais perante um conjunto de regras e
convenções.

Os controles sociais formais são baseados em torno da idéia de mecanismos


formais, legais e moldados por normas de comportamento convencionadas. Baseiam-se na
imposição de regras de comportamento cogentes, definidas por instâncias sociais
superiores, com aplicação igualitária a todos os indivíduos destinatários em sociedades
submetidas a Estados Democráticos de Direito (não são todas as sociedades aplicam
regras formais igualmente). Nas sociedades modernas, por exemplo, a principal instância
de controle social formal é a polícia e o judiciário (tribunais), embora as Forças Armadas
podem, em certas ocasiões, servirem a tal missão.

25
No entanto, nem todas as normas derivadas de controles formais são
propriamente leis editadas por uma instância legislativa ou por um órgão
institucionalizado pelo Estado. Quando alguém é aceito e contextualizado em uma
organização social (como uma escola ou faculdade, por exemplo), o indivíduo concorda em
cumprir as regras formais que regem o comportamento nestas instituições. Neste
exemplo, se o aluno não participar das aulas, haverá variados tipos de punição, como
reprovação, exclusão, etc..

Em termos gerais, existem regras formais e controles sociais para orientar a


todos dentro de uma sociedade ou grupo social o que é e não é aceitável em termos de
comportamento. Esses controles formais geralmente existem quando um grupo humano é
muito grande e seus membros não estão em contato cotidiano um com o outro,
necessitando-se de previsão normativa e socialmente definida de regras de
comportamento para controle comportamental. O controle social formal é considerado em
termos existenciais até mesmo por aqueles que se opõem ou não os aceitam, já que de
alguma forma são ou serão sancionados.

Questão Aplicada

A respeito do controle social formal em uma determinada sociedade, assinale a alternativa


correta.

a) As Forças Armadas não são consideradas uma instância de controle social formal.
b) Um agrupamento humano situado em uma região não controlada por instituições
de um Estado mas sujeito a regras de uma organização paraestatal subversiva não
se sujeita a nenhum sistema de controle social formal.
c) Apenas comandos normativos genéricos definem a eficácia de um sistema de
controle social formal.
d) Organizações sociais como escolas e associações estabelecem mecanismos de
controle social formal.
e) O controle social formal não tem relevância para grupos com comportamento social
desviante.

A única alternativa correta é a letra “d”, pois as associações, como os sindicatos, a igreja e
as escolas exercem controle social formal ao ditarem regras de conduta aos participantes e
destinatários.

26
GABARITO: letra “d”.

Teoria da Escolha Racional: quando o criminoso é visto como alguém que age
pensando em si e em prol de atingir seus objetivos plenos

A escolha racional baseia-se em inúmeros pressupostos, um dos quais é o


individualismo. O ofensor vê-se como um indivíduo. O segundo pressuposto é que os
indivíduos têm que maximizar seus objetivos, e o terceiro é que os indivíduos são movidos
por interesse. Dessa forma, os infratores estão pensando em si mesmos e em como
avançar para atingir seus objetivos pessoais. Os pontos centrais da teoria são descritos da
seguinte forma5:

a) O ser humano é um ator racional.

b) A racionalidade envolve cálculos finais / significativos.

c) As pessoas (livremente) escolhem o comportamento, ambos conformistas ou


desviantes, com base em seus cálculos racionais.

d) O elemento central de cálculo envolve uma análise de custo-benefício bem


utilitária: prazer versus dor.

e) A escolha será direcionada para a maximização do prazer individual.

f) A escolha pode ser controlada através da percepção e compreensão da potencial


dor ou punição que advirá a partir de uma sanção aplicável a um ato julgado por
violar o bem social e o contrato social.

g) O Estado é responsável por manter a ordem e preservar o bem comum através de


um sistema de leis.

h) A rapidez, a gravidade e a certeza do castigo são os elementos-chave na


compreensão da capacidade dissuasória de uma lei para controlar o
comportamento humano.

A teoria da escolha racional decorreu de coleções mais antigas e mais


experimentais de hipóteses que envolvem o que foram essencialmente os achados

5
Gul, S. (2009). An evaluation of rational choice theory in criminology. Sociology and applied science,
4(8), 36-44.

27
empíricos de muitas investigações científicas sobre o funcionamento da natureza humana.
A teoria toma emprestado conceitos de teorias econômicas, para dar maior peso a motivos
não-instrumentais para o crime, bem como perante a natureza "ilimitada" ou "limitada" do
processo racional envolvido.

A teoria está relacionada com a teoria da “deriva anterior” (David Matza,


Delinquency e Drift, 1964), onde, em suma, as pessoas usam as técnicas de neutralização
para entrar e sair do comportamento delinquente, e a Teoria do Crime Sistemático (um
aspecto da Teoria da Desorganização Social desenvolvido pela Escola de), onde Edwin
Sutherland6 propôs que o fracasso das famílias e dos grupos de parentes expande o
domínio das relações que não são mais controladas pela comunidade e prejudica os
controles governamentais. Isso leva a um crime e uma delinquência "sistemática"
persistentes. Ele também acreditava que tal desorganização causa e reforça as tradições
culturais e os conflitos culturais que apoiam a atividade anti-social. A qualidade
sistemática do comportamento foi uma referência a eventos repetitivos, padronizados ou
organizados em oposição a eventos aleatórios. Ele descreveu a cultura respeitadora da lei
como dominante e mais extensa do que as opiniões culturais criminogênicas alternativas e
capaz de superar o crime sistemático se organizado para esse fim.

A teoria das atividades de rotina relaciona o padrão de infração com os padrões


cotidianos de interação social. Entre 1960 e 1980, as mulheres deixaram a casa para o
trabalho, o que levou à desorganização social, ou seja, a rotina de deixar a casa sem
vigilância e a ausência de uma figura de autoridade aumentou a probabilidade de atividade
criminosa. A teoria evita a especulação sobre a fonte da motivação dos infratores, que a
distingue imediatamente da maioria das outras teorias criminológicas.

Muitas características da perspectiva de escolha racional tornam-no


particularmente adequado para servir como uma "metateoria" criminológica com um
papel amplo na explicação de uma variedade de fenômenos criminológicos. Uma vez que a
escolha racional pode explicar muitos componentes diferentes, é suficientemente ampla
para ser aplicado não só ao crime, mas às circunstâncias da vida cotidiana. Os estudos
envolvem ofensores entrevistados sobre motivos, métodos e escolhas alvo.

A teoria da escolha racional insiste que o crime é calculado e deliberado. Todos os


criminosos são atores racionais que praticam a tomada de decisões conscientes, que
simultaneamente trabalham para obter o máximo benefício de sua situação atual. Outro

6
Simpson, S. (2000). Of crime and criminality: The use of theory in everyday life. Thousand Oaks, CA:
Pine Forge Press.

28
aspecto da teoria da escolha racional é o fato de que muitos infratores tomam decisões
baseadas em racionalidade limitada / limitada.

As idéias de racionalidade limitada enfatizam até que ponto os indivíduos e os


grupos simplificam uma decisão devido às dificuldades de antecipar ou considerar todas
as alternativas e toda a informação. A racionalidade limitada se relaciona com dois
aspectos, uma parte decorrente de limitações cognitivas e a outra de extremos nos casos
de excitação emocional. Às vezes, a excitação emocional no momento de um crime pode
ser aguda, portanto, os infratores se acham fora de controle e as considerações racionais
são muito menos salientes

O crime, portanto, pode ser influenciado pela oportunidade. A oportunidade de


um crime pode ser relacionada a benefícios de custo, status socioeconômico, risco de
detecção, relação com o contexto situacional, tipo de infração e acesso a benefícios
externos. Além disso, as oportunidades dependem do ambiente atual do indivíduo e dos
fatores conseqüentes disso. Esta teoria explica melhor os crimes instrumentais em vez de
crimes expressivos. Os crimes instrumentais envolvem o planejamento e a pesagem dos
riscos com uma mente racional. Um exemplo de um crime instrumental pode incluir:
evasão fiscal, violações de trânsito, beber e dirigir, crime corporativo, roubo e agressão
sexual. Por outro lado, o crime expressivo inclui crimes envolvendo emoção e falta de
pensamento racional sem se preocupar com as consequências futuras. Os crimes
expressivos podem incluir: assassinatos não pré-meditados, como homicídio culposo e
assalto. Como resultado, a punição só é eficaz para dissuadir o crime instrumental, em vez
de crime expressivo.

De acordo com O'Grady (2011) 7, as três principais críticas da


RationalChoiceTheory incluem:

- Assume que todos os indivíduos têm a capacidade de tomar decisões racionais, o que não
é o caso. Falha portanto em explicar a complexidade da inimputabilidade penal e fracassa
em dar uma solução para casos de ausência de entendimento e determinação psíquica do
criminoso. Choca-se com os fundamentos da teoria biopsicológica da culpabilidade.

- A teoria não explica por que o ônus da responsabilidade é dispensado de jovens


infratores em oposição a infratores adultos

7
O'Grady, William (2011). Crime in Canadian Context (2nd edition). Don Mills: Oxford University Press.
pp. 127–130. ISBN 978-0-19-543378-4.

29
- Essa teoria contradiz as premissas de funcionamento de nosso Sistema de Justiça
Criminal. Esta teoria não suporta a idéia de que nem todos os indivíduos são atores
racionais por causa da incapacidade cognitiva. Um exemplo de indivíduos que não
possuem uma mente racional inclui aqueles que não são responsáveis por crimes na conta
por transtorno mental.

Questão Aplicada

Assinale a alternativa incorreta quanto à abordagem criminológica teoria da escolha


racional, surgida no século XX a partir de estudos do utilitarismo:

a) O ser humano não é um ser racional, mas movido por fatores emocionais e
passionais.
b) As pessoas escolhem livremente seus comportamentos, por cálculos inclusive não
racionais no cometimento de ações desviantes.
c) A escolha não é maximizada para a satisfação individual, mas para a formação de
uma pretensão interindividual.
d) A escolha pode ser controlada através da percepção e compreensão da potencial
dor ou punição que se seguirá a um ato ilícito que venha violar o bem social.
e) A gravidade do castigo não é um elemento fundamental na aplicação da lei como
instrumento de controle do comportamento humano.

Resposta:

Correta somente a letra “d”, pois conforme a teoria da escolha racional, a escolha de um
comportamento transgressor pode ser sim neutralizada ou contida a partir de uma
avaliação da dor e sofrimento causado pela aplicação de uma sanção ao comportamento
desviante. As demais alternativas são claramente erradas, por contradizerem os
fundamentos da teoria.

GABARITO: letra “d”.

A abordagem da criminologia para o crime estatal

O conceito de crime estatal ou “crime de Estado” se relaciona profundamente


com o estudo de Direitos Humanos e é uma das vertentes mais enfocadas pela
criminologia contemporânea.

30
Na criminologia, o crime estatal ou de “Estado” é resultante de uma atividade ou
falha de ação que viola a Constituição e o direito penal do próprio Estado, ou o direito
internacional público. Para esses propósitos, definamos aqui um "Estado" como uma super
estrutura pública que inclua os funcionários eleitos e nomeados, a burocracia e as
instituições, os órgãos e as organizações que compõem o aparelho do governo.
Inicialmente, o estado era a agência de dissuasão, usando a ameaça de punição como uma
ferramenta utilitária para moldar o comportamento de seus cidadãos. Depois tornou-se o
mediador, interpretando os desejos da sociedade quanto à resolução de conflitos. Agora,
examina-se o papel do Estado como um dos possíveis perpetradores do crime seja
diretamente ou no contexto do crime corporativo estadual.

Os critérios para determinar se um Estado é "desviante" se basearão em normas


internacionais e padrões de comportamento para alcançar os objetivos operacionais
usuais do estado. Um desses padrões será se o Estado respeita os direitos humanos
no exercício de seus poderes. Mas, uma das dificuldades de definição é que os próprios
Estados definem o que é criminoso em seus próprios territórios no exercício de suas
jurisdições e, como poderes soberanos, não são responsáveis perante a comunidade
internacional, a menos que se submetam à jurisdição internacional em geral ou a
jurisdição penal em particular, algo difícil de ocorrer em sua plenitude.

Em crimes internacionais, um Estado pode se envolver em terrorismo estatal,


tortura, crimes de guerra e genocídio. Tanto a nível internacional como nacional, pode
haver corrupção, crime corporativo e crime organizado. Dentro de suas fronteiras
territoriais, alguns crimes são o resultado de situações em que o Estado não é o ator
criminoso direto, por exemplo, decorrentes de catástrofes naturais ou através da de
órgãos como a polícia e a Justiça, mas geralmente o Estado está diretamente envolvido no
segredo excessivo e práticas de encobrimentos, desinformação e falta de
responsabilização que muitas vezes refletem interesses da classe alta e não-pluralista e
violam os direitos humanos. Muitas vezes, os crimes do Estado são revelados por uma
agência de notícias de investigação que resulta em escândalos, mas, mesmo entre os
estados democráticos do primeiro mundo é difícil manter um controle genuinamente
independente sobre os mecanismos de execução criminal. Quando os cidadãos dos países
menos desenvolvidos, que são muitas vezes de natureza mais autoritária, buscam
responsabilizar seus líderes, os problemas se tornam mais agudos. A opinião pública, a
atenção da mídia e os protestos públicos, violentos ou não violentos, podem ser
criminalizados como crimes políticos e suprimidos, enquanto os comentários
internacionais críticos são de pouco valor real.

31
No contexto do crime estatal e corporativo, Green and Ward (2004) 8 examina
como os esquemas de reembolso da dívida nos países em desenvolvimento colocam um
fardo financeiro nos estados que eles geralmente concordam com as empresas que
oferecem perspectivas de crescimento do capital. Tal colusão freqüentemente implica o
amolecimento das regulamentações ambientais e outras. A obrigação do serviço da dívida
também pode exacerbar a instabilidade política em países onde a legitimidade do poder
do Estado é questionada. Essa volatilidade política leva os estados a adotar padrões de
governança clientelistas ou patrimonialistas, promovendo o crime organizado, a
corrupção e o autoritarismo. Em alguns países do terceiro mundo, essa atmosfera política
incentivou a repressão e o uso da tortura.

Questão Aplicada

Para a criminologia contemporânea, o Estado pode vir a ser um dos principais


catalisadores das atividades criminosas, naquilo que se conceitua como “crimes de Estado”
ou crimes estatais. Assinale a alternativa incorreta quanto aos seus aspectos
criminológicos:

a) Os Estados devem ser avaliados de acordo com parâmetros definidos no Direito


Internacional e outras convenções.
b) Uma de suas dificuldades de aplicação decorre da soberania do próprio Estado na
definição do que é criminoso no âmbito de sua jurisdição.
c) São exemplos comuns de crimes estatais o terrorismo, genocídio e crimes de
guerra.
d) Ações da polícia e do aparato judiciário não se relacionam intrinsecamente com
crimes praticados pelo Estado.
e) A supressão de funções democráticas pelo Estado pode desencadear cenários de
crimes estatais.

A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois certamente que para a criminologia na
definição dos crimes de Estado as aços do aparato policial e judiciário se relacionam sim
com crimes perpetrados pelo próprio Estado. Fácil questão.

8
Green, Penny & Ward, Tony. (2004) State Crime: Governments, Violence and Corruption. London:
Pluto Press.

32
GABARITO: letra “d”.

A síntese da prevenção criminal para a criminologia

O sistema de prevenção criminal é qualquer abordagem que causa uma redução


no nível de criminalidade, com foco na causa do crime em detrimento de seus efeitos e na
redução e eliminação dos fatores que podem eliminar a criminalidade.

A prevenção criminal pode ser escalonada em três estágios ou fases: prevenção


primária, secundária ou terciária.

A prevenção primária busca impedir o problema de natureza criminal antes que


ele ocorra. Foca em fatores sociais e situacionais. Fundamenta-se em programas e atuação
baseados na redução de oportunidades para o crime e em fortalecer a comunidade e as
estruturas sociais.

A prevenção secundária atua sobre pessoas em situação propícia para a


delinquência, com alto de risco de adotarem um comportamento criminoso. O foco pode
ser intervenções iniciais efetivas e rápidas, como programas para a juventude, bem como
ações tópicas em vizinhança de alto risco, normalmente situadas em comunidades
conflagradas.

Já a prevenção terciária focaliza a atuação do sistema de justiça criminal, seu


modo de operação e atuação, além de agir sobre o criminoso após o cometimento do
crime. Assim, sua atuação em programas sobre a população carcerária ganha alta
relevância. Seu escopo é agir sobre criminosos conhecidos e identificados, impedindo-os
de cometer novos crimes. Exemplos de operação do sistema de prevenção terciária
incluem programas focados na juventude em situação de risco e mecanismos de contenção
individual sobre o delinqüente através de sanções integradas com a comunidade e
intervenções para tratamentos pontuais e específicos sobre delinqüentes delimitados.

Questão Aplicada

Assinale a alternativa incorreta quanto à prevenção terciária do crime e seus aspectos


fundamentais:

a) Um de seus principais focos é a atuação do sistema de justiça criminal.

33
b) Seu escopo é a intervenção sobre conhecidos criminosos para que não
cometamnovos crimes.
c) Programas de conferência com juventude e mecanismos de contenção individual
são exemplos de prevenção terciária.
d) Estratégias específicas de intervenção sobre certas categorias de
criminososcorrespondem a uma abordagem da prevenção terciária.
e) A ordenação urbana e a população carcerária são focos específicos de atuação.

Incorreta a letra “e”, pois a ordenação urbana não é foco de atuação da prevenção
terciária,embora a população carcerária o seja, conforme já analisado.

GABARITO: letra “e”.

O tipo ideal genético do positivismo criminológico

A teoria do positivismo criminológico, que se relaciona com CesareLombroso,


Garofolo e Ferri como maiores contribuintes, é uma das teorias mais influentes no estudo
das causas da criminalidade. Para facilitar o estudo e a compreensão, faremos a
explanação em bloco único.

A escola do positivismo criminológico é uma das duas principais escolas de


criminologia. Em contraste com a escola clássica, que pressupõe que os atos criminosos
são o produto da livre escolha e do cálculo racional, o positivista vê as causas do crime em
fatores fora do controle do agressor. Estes fatores devem ser identificados utilizando
métodos empíricos, em particular a análise de estatísticas.

A primeira forma de positivismo, que surgiu no final do século XIX, envolveu uma
tentativa de correlacionar o comportamento criminoso com certas características
fisiológicas. Isso levou à identificação de um "tipo criminal" genético - uma idéia que
agora está totalmente desacreditada, assim como a eugenia, que buscava aplicar a biologia
e o conhecimento humano na configuração de seres humanos superores em perfis raciais.

Posteriormente, os positivistas psicológicos usaram estudos detalhados para


relacionar traços de personalidade com crimes específicos e para identificar aquelas
experiências formativas (por exemplo, negligência de pais) que poderiam produzir uma

34
predisposição geral para quebrar a lei. Alternativamente, os positivistas sociológicos
buscaram as causas do crime em fatores externos ao agressor, como pobreza, alienação,
alta densidade populacional e exposição a subculturas desviantes (por exemplo, gangues
ou consumidores de drogas). Uma abordagem particularmente influente foi aquela tomada
pela Escola de Chicago de meados do século XX, que usou métodos ecológicos para estudar
o colapso da ordem social em bairros do centro da cidade. Outras abordagens do
positivismo social incluem a criminologia marxista, que vê o crime como um produto
inevitável do conflito de classes e do sistema capitalista, ea criminologia crítica, que se
concentra no papel das elites de poder na definição do que e que é considerado criminoso.
Mais recentemente, houve um retrocesso geral da teoria social e uma ênfase mais
pragmática na prevenção do crime.

Questão Aplicada

A respeito da teoria do positivismo criminológico, assinale a alternativa correta.

a) Leva em consideração métodos empíricos e estatísticos para avaliação da


criminalidade.
b) Busca correlacionar o crime com certos traços psicológicos do indivíduo.
c) O tipo genético do criminoso foi uma de suas contribuições doutrinárias.
d) O livro arbítrio e a escolha racional são atributos fundamentais desta escola de
pensamento.
e) Sua abordagem psicológica relaciona traços de personalidade com tipos específicos
de crimes.

A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois o livre-arbítrio e a escolha racional são
atributos considerados na escola tradicional de criminologia.

GABARITO: letra “d”.

35
A correlação entre fatores biológicos e ambientais com o crime: a criminologia
biossocial

Introdução

A criminologia biossocial é um campo interdisciplinar que visa explicar o crime e


o comportamento antissocial explorando fatores biológicos e fatores ambientais. Embora a
criminologia contemporânea tenha sido dominada por teorias sociológicas, a
criminologia biossocial também reconhece as potenciais contribuições de campos
como genética, neuropsicologia e psicologia evolutiva.

Seu enfoque teórico se alicerça em três fatores correlatos: Ambiente;


Neuropsicologia; Psicologia Evolutiva.

Ambiente

O ambiente tem um efeito significativo na expressão genética. Os ambientes


desfavorecidos aumentam a expressão gênica antissocial, eliminam a ação genética
pro-social e impedem a realização do potencial genético.

Os genes e os ambientes que operavam em conjunto (interagindo) eram


necessários para produzir um comportamento antissocial significativo, enquanto que
nenhum dos dois era suficientemente poderoso para produzi-lo independentemente do
outro. Ou seja, crianças geneticamente ameaçadas de comportamento anti-social criadas
em ambientes familiares positivos não apresentaram comportamento anti-social, e as
crianças que não apresentam risco genético não se tornaram anti-sociais em ambientes
familiares desfavoráveis.

Genética

Uma abordagem para estudar o papel da genética para o crime é calcular o


coeficiente de hereditariedade, que descreve a proporção da variância que é devido aos
efeitos genéticos atualizados para algum traço em uma determinada população em um
ambiente específico em um momento específico. O coeficiente de hereditariedade para o
comportamento anti-social é estimado entre 0,40 e 0,589.

9
Kevin M. Beaver and Anthony Walsh. 2011. Biosocial Criminology. Chapter 1 in The Ashgate Research
Companion to Biosocial Theories of Crime. 2011. Ashgate.

36
Neurofisiologia

Outra abordagem é examinar a relação entre neurofisiologia e criminalidade. Um


exemplo é que os níveis medidos de neurotransmissores, como serotonina e dopamina,
foram associados a comportamentos criminosos. Outro é que os estudos de neuroimagem
dão fortes evidências de que a estrutura e a função do cérebro estão envolvidas em
comportamentos criminosos. O sistema límbico cria emoções como raiva e ciúme que, em
última instância, podem causar comportamentos criminosos. O córtex pré-frontal está
envolvido no atraso na gratificação e no controle de impulsos e modera os impulsos do
sistema límbico. Se esse equilíbrio for deslocado em favor do sistema límbico, isso pode
contribuir para o comportamento criminoso10. Por exemplo, a teoria do desenvolvimento
do crime de TerrieMoffitt argumenta que os "infratores persistentes no curso da vida"
compõem apenas 6% da população, mas comprometem mais de 50% de todos os crimes e
que isso se deve a uma combinação de déficits neurofisiológicos e um ambiente adverso
que cria uma trajetória criminal que é muito difícil de romper uma vez que começou11.

Psicologia evolutiva

Os homens podem potencialmente ter muitas crianças com pouco esforço;


mulheres apenas algumas com grande esforço. Assim, por esta premissa, os homens
têm um sucesso reprodutivo mais variável do que as mulheres. Isso levaria ao argumento
dedutivo de que os machos são mais agressivos e inclusive mais agressivos do que as
mulheres, pois enfrentam uma maior concorrência reprodutiva do seu próprio sexo do
que as mulheres. Em particular, os machos de baixo status podem ter mais chances de
permanecer completamente sem filhos. Sob tais circunstâncias, pode ter sido
evolutivamente útil tomar riscos muito elevados e usar agressões violentas para tentar
aumentar o status e o sucesso reprodutivo ao invés de se tornarem geneticamente
extintos. Isso pode explicar por que os homens têm taxas de criminalidade mais elevadas
do que as mulheres e por que o status baixo e não casado está associado à criminalidade.
Também poderia explicar por que o grau de desigualdade de renda de uma sociedade é um
melhor indicador do que o nível de renda absoluta da sociedade para homicídios
masculinos e masculinos; a desigualdade de renda cria disparidade social, enquanto que os
níveis de renda média diferentes podem não fazê-lo. Além disso, a concorrência sobre as
mulheres é argumentada ter sido particularmente intensiva no final da adolescência e na

10
Ob.cit.
11
Liddle, J. R.; Shackelford, T. K.; Weekes–Shackelford, V. A. (2012). "Why can't we all just get along?
Evolutionary perspectives on violence, homicide, and war". Review of General Psychology. 16: 24

37
idade adulta jovem, o que é teorizado para explicar por que as taxas de criminalidade são
particularmente altas durante este período12.

A "teoria neuroandrogênica evolutiva" concentra-se no hormônio testosterona


como um fator que influencia a agressão e a criminalidade e é benéfico durante certas
formas de competição. Na maioria das espécies, os machos são mais agressivos do que as
fêmeas. A castração de machos geralmente tem um efeito pacificador sobre o
comportamento agressivo nos machos. Nos seres humanos, os machos praticam
especialmente crimes mais violentos do que mulheres. O envolvimento no crime
geralmente aumenta no início da adolescência até meados dos adolescentes em correlação
com o aumento dos níveis de testosterona. A pesquisa sobre a relação entre
testosterona e agressão é difícil, uma vez que a única medida confiável da
testosterona cerebral é por punção lombar, o que não é feito para fins de pesquisa.
Alguns estudos até apoiam uma ligação entre a criminalidade adulta e a testosterona,
embora o relacionamento seja modesto se examinado separadamente para cada sexo. Não
foi estabelecida uma ligação significativa entre a delinquência juvenil e os níveis de
testosterona em termos conclusivos, portanto. Alguns estudos também encontraram
testosterona associada a comportamentos ou traços de personalidade ligados à
criminalidade, como comportamento antissocial e alcoolismo. Muitos estudos também
foram feitos sobre a relação entre comportamentos / sentimentos agressivos mais gerais e
a testosterona, porém sem conclusão definitiva.

Aplicações concretas e críticas

Os pesquisadores de psicologia evolutiva propuseram diversas explicações


evolutivas para a psicopatia. Uma delas é que a psicopatia representa uma estratégia
socialmente parasitária dependente da freqüência de sua ocorrência. Isso pode beneficiar
o psicopata, desde que haja alguns outros psicopatas na comunidade, já que mais
psicopatas significa aumentar o risco de encontrar outro psicopata, relativizando seu livre
arbítrio e deficiência de caráter por questões ético-morais.

As teorias sociobiológicas do estupro são teorias que exploram em que medida,


se houver, as adaptações evolutivas influenciam a psicologia dos estupradores. Tais
teorias são altamente controversas, já que as teorias tradicionais normalmente não
consideram a violação como uma adaptação comportamental. Alguns se opõem a tais
teorias sobre razões éticas, religiosas, políticas, bem como científicas. Outros argumentam

12
Buss, D. M. (2009). "How Can Evolutionary Psychology Successfully Explain Personality and
Individual Differences?". Perspectives on Psychological Science. 4 (4): 359–366.

38
que é necessário um conhecimento correto das causas da violação para desenvolver
medidas preventivas efetivas.

Questão Aplicada

Como vertente contemporânea cada vez mais relevante, a criminologia biossocial vem
criando forte impacto na explicação das causas do comportamento criminoso,
ultrapassando a os conceitos tradicionalmente definidos pelas teorias sociológicas.
Assinale a alternativa incorreta quanto aos preceitos adotados pela teoria biossocial:

A Leva em consideração as contribuições científicas da genética, neuropsicologia e


psicologia evolutiva para a compreensão do crime e do criminoso.

B Ambientes vulneráveis e com condições desfavorecias anulam o potencial genético pró-


social e ampliam as tendências genéticas antissociais.

C Alterações de neurotransmissores, como a dopamina e a serotonina podem desencadear


comportamentos criminosos.

D A capacidade evolutiva reprodutora do homem pode determinar um comportamento


naturalmente mais agressivo que as mulheres.

E Há correlação causal entre altos níveis de testosterona e elevados índices de


delinquência juvenil masculina.

A alternativa incorreta é a letra “e”, pois não há condição científica segura para se
correlacionar elevados níveis de testosterona com altos índices de delinquência juvenil. As
demais alternativas estão corretas, pois estão enquadradas em nossa explicação.

GABARITO: letra “e”.

Marxismo e Criminologia: o crime como expressão da luta de classes

Estudar a influência do marxismo na Criminologia é fundamental para entender


outras teorias, como a “labelling approach”, que rotula certas categorias como indesejáveis
e tipicamente criminosas.

A criminologia marxista é uma das escolas de criminologia. Paralisou o trabalho


da escola de funcionalismo estrutural que se concentra no que produz estabilidade e
continuidade na sociedade, mas, ao contrário dos funcionalistas, adota uma filosofia
política predefinida. Como uma “criminologia de conflito”, ele se concentra no motivo
pelo qual as coisas mudam, identificando as forças disruptivas nas sociedades
industrializadas e descrevendo como a sociedade é dividida pelo poder, riqueza, prestígio

39
e as percepções do mundo. Está preocupada com as relações causais entre a sociedade e o
crime, ou seja, estabelecer uma compreensão crítica de como o ambiente social imediato e
estrutural dá origem a crimes e condições criminogênicas.

Karl Marx argumentou que a lei é o mecanismo pelo qual uma classe social,
geralmente referida como a "classe dominante", mantém todas as outras classes em uma
posição desfavorecida. Assim, esta escola usa uma lente marxista através do qual
considera o processo de criminalização, por meio do qual explicam por que alguns atos são
definidos como desviantes enquanto outros não são. Por isso, interessa-se pelo crime
político e o crime estatal. O marxismo fornece uma base teórica sistemática sobre a qual
podemos interrogar quais são os arranjos estruturais sociais, e a hipótese de que o poder
econômico se traduz em poder político responde substancialmente ao
“desempoderamento” geral da maioria que vive no Estado Moderno e as limitações do
discurso político. Assim, direta ou indiretamente, informa muito sobre os fenômenos
sociais, não só na criminologia, mas também na semiótica e nas demais disciplinas que
exploram as relações estruturais de poder, conhecimento, significado e interesses
posicionais dentro da sociedade.

Muitos criminologistas concordam que, para uma sociedade funcionar de forma


eficiente, a ordem social é necessária e a conformidade é induzida através de um processo
de socialização. "Lei" é o rótulo dado a um dos meios utilizados para impor os
interesses do Estado.Portanto, como cada estado é soberano, a lei pode ser usada
para qualquer propósito. Também é pacífico que, se a sociedade é meritocrática,
democrática ou autocrática, um pequeno grupo emerge para liderar. A razão para o
surgimento deste grupo pode ser a sua capacidade de usar o poder de forma mais eficaz,
ou uma simples oportunidade em que, à medida que o tamanho da população cresça, a
delegação de poderes de decisão a um grupo representativo da maioria leva a mais
eficiência. Os marxistas criticam as ideias, os valores e as normas da ideologia capitalista e
caracterizam o Estado Moderno como estando sob o controle do grupo que possui os
meios de produção. Por exemplo, Chambliss (1973) examinou a forma como as leis de
“vagabundagem” foram alteradas para refletir os interesses da elite dominante. Ele
também analisou como a lei colonial britânica foi aplicada na África Oriental, de modo que
a "classe dominante" capitalista poderia lucrar com as plantações de café, e a lei na
Inglaterra medieval beneficiou os proprietários feudais. Similarmente, Pearce (2003)
analisa a evidência de que o crime corporativo (como corrupção e os crimes de colarinho-
branco) é generalizado, mas raramente é processado.

40
Esses pesquisadores afirmam que o poder político é usado para reforçar a
desigualdade econômica ao incorporar os direitos de propriedade individuais na lei e que
a pobreza resultante é uma das causas da atividade criminosa como meio de
sobrevivência. Os marxistas argumentam que uma sociedade socialista com
propriedade comunitária dos meios de produção teria muito menos crime. Na
verdade, Milton Mankoff afirma que há muito menos crime na Europa Ocidental do que
nos Estados Unidos porque a Europa é mais "socialista" do que a América. A implicação de
tais pontos de vista é que a solução para o "problema do crime" é se envolver em uma
revolução socialista.

Uma questão diferente surge ao aplicar a teoria da alienação de Marx. Uma


proporção do crime é dito ser o resultado da sociedade, oferecendo apenas trabalho
humilhante com pouco senso de criatividade. No entanto, a caracterização de algum crime
como típico "crime da classe trabalhadora" e retratá-lo como resposta à opressão é
problemática. Ele classifica seletivamente o crime cometido por pessoas
simplesmente com base na sua vinculação a uma classe, sem se envolver em
vitimologia para identificar se alguma classe ou grupo particular é mais provável de
ser vítima de tal crime (porque muitos criminosos não estão dispostos a tentar ir tão
longe em seus alvos, o crime da classe trabalhadora é muitas vezes dirigido a pessoas da
classe trabalhadora que vivem no mesmo bairro). De fato, a diferenciação social do crime
pode variar de acordo com a idade, classe, etnia, gênero e localidade.

CRÍTICAS

Em sua pesquisa, o marxismo tende a se concentrar nas forças sociais, em vez dos
motivos dos indivíduos e sua capacidade dualista tanto para o certo como para o errado,
moral e imoral. Isso pode levar a uma explicação menos abrangente de por que as pessoas
exercem sua autonomia optando por agir de maneiras particulares. Em comparação, na
sociologia do desvio, Robert K. Merton toma emprestado o conceito de anomia de
Durkheim para formar a Teoria da Depressão. Merton argumenta que o verdadeiro
problema da alienação não é criado por uma súbita mudança social, como proposto por
Durkheim, mas sim por uma estrutura social que mantém os mesmos objetivos para todos
os seus membros sem lhes dar meios iguais para alcançá-los. É essa falta de integração
entre o que a cultura exige e o que a estrutura permite que provoca comportamentos
desviantes. O desvio é então um sintoma da estrutura social.

41
O poder de rotular o comportamento como "desviante" surge em parte da
distribuição desigual do poder dentro do Estado, porque o julgamento possui a
autoridade soberana do estado, atribuindo maior estigma ao comportamento proibido.
Para a criminologia marxista isso é uma verdade absoluta, não importa qual seja a
orientação política do Estado. Todos os Estados estabelecem leis que, em maior ou menor
medida, protegem a propriedade. Isso pode assumir a forma de tipificação do roubo, dano
ou furto. Embora uma lei que criminalize o roubo possa não parecer rotuladora a
princípio, uma análise marxista das taxas de punição pode detectar desigualdades na
forma como a lei é aplicada. Assim, a decisão de processar ou condenar pode ser distorcida
quando quem sofre a punição tem menos recursos para contratar um bom advogado. A
mesma análise também pode mostrar que a distribuição de punição para qualquer crime
pode variar de acordo com a classe social do perpetrador. Mas, uma lei que criminalize o
comportamento de “roubar” existe para proteger os interesses de todos os que
possuem propriedade; Não discrimina por referência a classe do proprietário como
elemento jurídico isoladamente.

Na verdade, poucas leis dos Estados Modernos são elaboradas para proteger os
interesses da propriedade tomando por referência aclasse social.Portanto a aceitação e a
aplicação das leis geralmente dependem de um consenso dentro da comunidade de que
essas leis atendem às necessidades locais. Nessa comparação, a comparação das taxas
de criminalidade entre Estados mostra pouca correlação por referência à
orientação política. As correlações que existem tendem a refletir disparidades entre ricos
e pobres e características que descrevem o desenvolvimento do ambiente social e
econômico. Assim, as taxas de crimes são comparáveis nos Estados onde há maiores
disparidades de distribuição de riqueza, independentemente de serem primeiro, segundo
ou terceiro mundo.

Questão Aplicada

O marxismo se tornou uma filosofia política de múltiplas conseqüências teóricas na


economia, cultura, sociologia, ciência política e também na Criminologia. Com o fim da
Guerra Fria, suas implicações se remodelaram em outros campos de conhecimento, com
profunda influência metodológica. Assinale a alternativa correta quanto a seu foco teórico
e analítico para a compreensão do crime:

42
a) Tal como o funcionalismo estrutural, se baseia em uma filosofia política pré-
definida para explicar a influência de fatores estruturais de uma sociedade na
eclosão da criminalidade.
b) Fundamenta-se na estratificação social como principal explicação para o crime e
suas condições de ocorrência.
c) Não considera o crime político como expressão real da criminalidade.
d) A prerrogativa de se rotular ou definir um comportamento como crime é reflexo da
distribuição desigual de poder no âmbito do Estado, o que influencia a valoração
do comportamento incriminado.
e) Considera certas categorias individuais como mais propensas à vitimização.

A única alternativa correta é a letra “d”, pois para a criminologia marxista a definição do
crime é uma prerrogativa do Estado que reflete uma distribuição desigual de poder, o que
influencia na rotulação do que vem a ser definido ou não como crime. As demais
alternativas estão evidentemente erradas, pois se contrapõem aos fundamentos acima
explicados desta abordagem teórica.

GABARITO: letra “d”.

O fenômeno da “cifra negra”

O fenômeno denominado “cifra negra” representa o número de crimes que são


efetivamente praticados e que não aparecem nas estatísticas oficiais, demonstrando que
apesar de potencialmente todos os integrantes de certa sociedade ou comunidade terem,
em algum momento, praticado algum crime, verifica-se que apenas uma pequena parcela
dos delitos serão investigados e resultarão em processo judicial que se desdobre em uma
condenação criminal.

Com isto, o risco de ser etiquetado, ou seja, “aparecer no claro das estatísticas”,
não depende da conduta, mas da situação do indivíduo na pirâmide social. Por isso o
sistema penal é considerado por vertentes da Criminologia como sendo seletivo, pois
funciona segundo os estereótipos do criminoso, os quais são confirmados pelo próprio
sistema.

A ideia das “cifras negras” surgiu com o belga Adolphe Jacques Quetelet, (1796-
1874) considerado um dos precursores da sociologia moderna, da criminologia de bases

43
sociológicas, pertencente à denominada escola cartográfica. Quetelet era um matemático e
estatístico e trabalhava em pesquisas censitárias. Em seu trabalho, formulou a idéia de
“homem médio” (depois apropriado pelos estudos de Direito Penal) entendendo ser um
tipo ideal e abstrato de sujeito, visto como um padrão para diversas análises sociológicas.
Assim, como peculiar em sua época, conseguia estabelecer certa regularidade aos
fenômenos sociais, relacionando a criminologia clássica com a positivista.

Como inerente ao seu escopo de abordagem, esse autor estudava o delito de


forma peculiar, assim, considerava que os delinqüentes se limitavam a executar os fatos
preparados pela sociedade. Desse modo, a criminalidade, detalhadamente, poderia ser
representada por uma função matemática em decorrência dos estados econômicos e
sociais do momento objeto do estudo.

Especificamente, conseguiu caracterizar esse conceito de “cifra negra” ao


relacionar, de forma constante, a criminalidade real, aparente e a criminalidade legal, que
acabava levando a julgamentos. Assim, Adolphe Quetelet, anunciava as bases do conceito:
“Todo conhecimento sobre estatísticas de delitos e ofensas não será de nenhuma utilidade,
se não admitirmos tacitamente que existe uma relação quase invariavelmente a mesma
entre as ofensas conhecidas e julgadas e a soma total desconhecida dos delitos cometidos”
(MAÍLLO, Afonso Serrano. Introdução à criminologia. Tradução de Luiz Regis Prado. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 69)

Todo este acúmulo e desenvolvimento da estatística, embora possa ser


reducionista se utilizado isoladamente, permite um diagnóstico do problema da
criminalidade e a adoção de um prognóstico da intervenção estatal (preventiva ou
repressiva).Em tempos atuais, inúmeras políticas públicas se instrumentalizam em dados
e estatísticas, originados dos estudos de Quetelet.

O Prof. Juarez Cirino do Santos, bem define este fenômeno como “a diferença
entre aparência (conhecimento oficial) e a realidade (volume total) da criminalidade
convencional, constituída por fatos criminosos não identificados, não denunciados ou não
investigados (por desinteresse da polícia, nos crimes sem vítima, ou por interesse da
polícia, sobre pressão do poder econômico e político), além de limitações técnicas e
materiais dos órgãos de controle social”. (SANTOS, Juarez Cirino. A Criminologia radical.
Curitiba: IPCP: Lumen Juris, 2006. p. 13)

Questão Aplicada

44
A expressão “cifra negra” ou oculta, refere-se:

A ao grupo de egressos do sistema prisional que retorna à delinqüência sem previsão


estatística.

B ao fracasso das medidas de política criminal na prevenção primária do crime.

C à porcentagem de presos que evadidos que não retornam cárcere.

D à porcentagem de crimes não solucionados ou punidos porque, num sistema seletivo,


não caíram sob a égide da polícia ou da justiça ou da administração carcerária, porque nos
presídios “não estão todos os que são”.

E à porcentagem de criminalização da pobreza e à globalização, pelas quais o centro


exerce seu controle sobre a periferia, cominando penas e criando fatos típicos de acordo
com seus interesses econômicos.

A alternativa correta é a letra “d”, que tem relação exata com o sentido do termo “cifra
negra”.

As demais alternativas são misturam conceitos de outras teorias com temos adotados nos
estudos da cifra negra, justamente para confundir o candidato. Dessa forma, nas
alternativas “a”, “b”, “c”, embora haja relação pelo senso comum entre a falta de
estatísticas adequadas sobre a população carcerária e os indicadores de reincidência e
evasão do sistema penitenciário, não se relaciona com a cifra negra em si, atrelada à
desconsideração estatística de fatos criminosos em si devido a deficiências so aparato
repressivo estatal e sua seletividade intrínseca. Quanto à alternativa “e”, trata-se de
explicação própria dos conceitos da criminologia contemporânea, que estuda a exclusão
inerente aos processos de globalização e a marginalização de segmentos da sociedade.

GABARITO: letra “d”.

45
A Escola de Chigago (parte 1): ecologia social e o ambiente como relevâncias
conceituais

Histórico

A Escola de Chicago teve sua base no Departamento de Sociologia da


Universidade de Chicago, que é a mais antiga dos Estados Unidos e foi criada em 1892.
Chicago foi um grande centro ferroviário e tornou-se um enorme centro industrial por
direito próprio, notadamente sua indústria de embalagem de carne Além disso, Chicago
era um excelente lugar para realizar trabalhos de campo sociológicos porque
exemplificava a concentração pós-industrial da população em áreas urbanas. A cidade
cresceu de um milhão para dois milhões de pessoas entre 1890 e 1910), fornecendo uma
plataforma ideal para o estudo da Escola de Chicago sobre o comportamento humano. A
concentração da indústria e, por conseguinte, a oportunidade económica provocaram um
afluxo de imigrantes e conduziram a rápidas mudanças nos padrões de vida. A
urbanização foi uma das principais características da Revolução Industrial, e muitas
cidades cresceram muito rapidamente, de modo que os criminologistas de outras cidades
poderiam facilmente generalizar a partir do trabalho da Escola de Chicago.

Características principais

A contribuição mais significativa da Escola de Chicago é a idéia de ecologia


social. Por este conceito, considera que o crime é uma resposta ao ambiente instável e
condições anormais de vida. Esta não é mais uma idéia particularmente radical, que é um
indicador da proeminência continuada da Escola de Chicago. Durante séculos, o crime foi
visto como um fracasso moral na tradição judaico-cristã. Os criminosos eram pecadores. O
que a Escola de Chicago reconhecia era que a vida urbana era distinta da vida rural e sua
natureza agitada e anônima influenciava o comportamento das pessoas.

Os criminologistas da escola de Chicago foram rápidos em estabelecer um elo


entre a delinqüência juvenil e os padrões econômicos e geográficos do desenvolvimento
urbano. Graças ao boom demográfico, eles puderam estudar em detalhe, em um curto
espaço de tempo, os deslocamentos do centro da cidade para os subúrbios e as diferenças
nos índices de criminalidade entre os subúrbios afluentes e os pobres das cidades pobres.
Ainda é possível ler observações de primeira mão nas monografias da Escola de Chicago
escritas por sociólogos como Beirne e Thomas, sobre temas como vagabundos, prostitutas,
salões de dança e crime organizado. Estes livros são um testemunho permanente da

46
influência da Escola de Chicago, bem como oferecer um relato histórico contemporâneo do
desenvolvimento da criminologia.

As teorias desenvolvidas pela Escola de Chicago ainda são princípios centrais da


criminologia – ainda que os pesquisadores modernos por vezes tentem desacreditá-los.
Uma de suas principais afirmações foi que a ruptura, a migração, mudanças
econômicas e instabilidade familiar, são fatores que tendem a causar o crime, o que foi
afirmado por estudos modernos mostrando que a desordem social, redes de amizade
fraca e baixo envolvimento da comunidade produzem índices de criminalidade mais
altos A influência de Emile Durkheim, que acreditava que o crime é um fenômeno
inevitável e necessário da sociedade, está subjacente ao foco em identificar onde o crime
está localizado - geográfica e socialmente. Esta ideologia naturalmente tende a
identificar o crime e suas causas, ao invés de acreditar que ele pode ser eliminado. A
influência contínua da Escola de Chicago induziu estudos sociológicos adicionais com um
ethos similar de identificar de onde viria o crime. Nas décadas de 1930 e 1940, a sociologia
da psicologia social, um estudo de comportamento de grupo que enfatiza a dinâmica de
grupo e a socialização, desenvolveu-se baseado em princípios de ecologia social da Escola.
Uma das principais contribuições da Escola de Chicago para a criminologia são
seus métodos de pesquisa qualitativa. Esse padrão de estudo ofereceu às pessoas
marginalizadas o relato de suas próprias vidas. Posteriormente, a pesquisa tende a
gravitar em torno de métodos pioneiros da Escola de Chicago, como entrevistas diretas
com sujeitos. Porém, isso também foi interpretado como uma fraqueza da escola, , com os
críticos argumentando que a natureza qualitativa de seus estudos pode resultar na
influência indevida do viés pessoal do pesquisador. Embora isso tenha inspirado outros
sociólogos a dedicar mais atenção às técnicas de pesquisa, o método escolar subjetivista de
Chicago ainda é amplamente utilizado na criminologia.

Com base na abordagem do fator geográfico, os pesquisadores vinculados à


Escola de Chicago identificaram o que se tornou conhecido como "vôo branco" - o
fenômeno de pessoas ricas e bem-educadas (normalmente brancas) saindo de centros
urbanos para subúrbios mais afluentes, deixando cidades (no caso do Brasil, bairros da
periferia e favelas em locais de pior acesso e mobilidade) com concentrações de pobres,
normalmente menos educados e concentrados em grupos étnicos ou sociais específicos.
Este padrão de movimento e separação ajuda a explicar a observação de que certas áreas
são mais propensas ao crime. Não é o resultado pura e simples de mais criminosos
reunindo-se em determinadas áreas, mas sim que as más condições de vida e infra-

47
estrutura pobre criam barreiras comunitárias e oferecem oportunidades ou mesmo
incentivos para o comportamento criminoso.

Um de seus maiores expoentes, Edwin Sutherland apresentou a teoria de que o


comportamento criminoso é aprendido e assimilado, como qualquer outro tipo de
comportamento. A aprendizagem ocorre dentro de grupos, e inclui aprender a cometer
atos criminosos, e desenvolver justificativas para fazê-lo. Isto é, baseado na idéia de que se
as pessoas estão concentradas em áreas com oportunidades limitadas e / ou proximidade
com criminosos, eles são mais propensos a aprender comportamento desviante. No
entanto, uma linha igualmente válida de raciocínio seria – se todas as pessoas em uma
área particular são igualmente pobres, então elas se voltam para o crime não como um
comportamento aprendido, mas como uma resposta individual às condições econômicas.
Graças à Escola de Chicago, no entanto, a noção de comportamento criminoso aprendido
ganhou primazia. Isso pode ser visto no entretenimento, como na série de TV Prison
Break, cujas parcelas envolvem grupos de criminosos reunidos na prisão, que então
planejam e cometem mais crimes juntos. Apesar de fazer sua sociologia de foco principal a
Escola de Chicago reconhece que a economia é a raiz de um grande número de
comportamento criminoso. Para esta escola de pensamento criminológico, argumenta-se
que a "cultura da pobreza" leva à apatia, ao cinismo, uma análise sociológica de uma
situação econômica. Dessa forma, os extensos estudos da Escola de Chicago envolvendo
classes marginalizadas, como prostitutas e gangues, ofereceram dados ricos e padrões
estabelecidos para estudo posterior.

Críticas e Legado

Apesar de sua importância, não se deve exagerar a importância da Escola de


Chicago. Como observado anteriormente, Chicago no início do século XX sofreu mudanças
rápidas graças a uma combinação de fatores geográficos e econômicos que é improvável
que nunca seja repetido. O resultado é que algumas das conclusões da Escola de Chicago,
embora interessantes, são claramente limitadas em sua utilidade. Por exemplo, a teoria
dos anéis concêntricos do crescimento, que se baseia em observações sobre o
desenvolvimento de Chicago com um centro industrial com camadas de pobres e, em
seguida, cada vez mais afluentes em torno dele, embora seja padrão de desenvolvimento
se aplica a muitas cidades americanas, não é igualmente válido na Europa e, até mesmo, no
Brasil, onde bairros com maiores problemas de criminalidade ficam muitas vezes
distantes dos grandes centros industriais (caso de algumas comunidades da Biaxada
Fluminense no Rio de Janeiro). As principais cidades europeias, como Londres, Paris,

48
Barcelona e Amesterdão têm bairros extremamente ricos e desejáveis perto do coração da
cidade, com bairros mais pobres espalhados aleatoriamente pelos arredores.

A Escola de Chicago, trabalhando a partir de seu ponto de vista histórico


específico, não conseguiu levar em conta diferentes padrões de crescimento urbano. Ainda
mais crítica é a consideração de inovações em tecnologia e comunicações, que tem
implicações importantes sobre como o ambiente é definido. A Escola de Chicago ofereceu
um forte contraponto às explicações que culpavam os indivíduos por sua criminalidade,
justamente por ser focada na influência do ambiente. No entanto, eles estavam
estudando uma área urbana antes da era da comunicação de massa. A aplicação
contemporânea das idéias da Escola de Chicago deve levar em conta que a natureza da
tecnologia - e, portanto, a ecologia social - mudou. A urbanização ainda é uma poderosa
força motriz e ainda há uma extensa migração econômica, mas não ocorre na mesma taxa
que na Chicago e outras metrópoles no início do século XX. A tecnologia moderna permite
que as pessoas constantemente se comuniquem em rede e fora de seu ambiente físico, que
necessariamente muda a definição do que constitui a sua comunidade. Um imigrante que
vive em Londres pode ser isolado de seu próprio grupo cultural - o que a Escola de Chicago
argumentaria que é um risco para o aumento do comportamento criminoso -, mas eles
podem ir a um cyber café e trocar idéias em um vídeo-chat com amigos no país de origem.
Assim, de uma maneira importante eles estão mantendo um vínculo com a comunidade, e
eles não são interrompidos da mesma forma que um imigrante dos anos 1930 teria sido.
Onde a influência da Escola de Chicago ainda pode ser sentida é que ela continua a definir
termos de estudo, como "ambiente", mesmo se a natureza do que está sendo estudado
mudou. Outra área onde a Escola de Chicago é menos útil é em termos de elaboração de
planos para a prevenção do crime. Baseado na crença de que o crime é um comportamento
aprendido, causado pelo ambiente, argumentou-se que ele pode ser, em grande parte,
impedido por programas sociais, porém observam que a Escola de Chicago observou que
um dos fatores da desorganização social e, portanto, do crime, era a falta de respeito pela
autoridade e pouca fé nas organizações sociais. Todavia, é óbvio que as organizações
sociais (igreja, associações, escolas, clubes) não podem efetivamente combater o crime
cometido por pessoas com algum grau de convivência com eles. A Escola de Chicago não
oferece nenhuma solução firme para este problema. Sem dúvida que organizações sociais
informais, como igrejas, associações entre pais e professores e programas esportivos,
sugerem uma maneira de chegar às comunidades, e esses grupos desempenham um papel
importante na redução do comportamento criminoso, entretanto, o controle social formal
sob a forma de policiamento também é essencial para prevenir o crime com eficácia mais

49
imediata, por vezes. Em conclusão, Chicago foi uma potência de estudo social e intelectual
ao longo do século XX e influenciou muito a formulação de políticas nos Estados Unidos e
em muitas outras partes do mundo, porém, como toda teoria, sofre influência das
mudanças sociais.

Questão Aplicada

A contribuição da Escola de Chicago para o desenvolvimento da Criminologia permitiu


compreender como a confluência da geografia, da urbanização, da economia, da imigração
criaram novas formas de olhar para a sociedade. Assinale a alternativa que não identifica
uma de suas características:
a) Sua maior contribuição foi a idéia de ecologia social.
b) O crime vem a ser uma conseqüência de um ambiente instável e das condições
anormais de vida.
c) O ambiente urbano é um fator que impulsiona a criminalidade dependendo de certas
condições econômicas e geográficas.
d) Um de seus enfoques principais relaciona-se ao perfil delinqüente de certas categorias
de indivíduos em certos grupos sociais.
e) A Escola de Chicago considera a migração e a instabilidade familiar como um dos
fatores causais do crime.
A única alternativa incorreta é a letra “d”, pois a Escola de Chicago teve como premissa
maior justamente ser um contraponto às explicações que culpavam os indivíduos por sua
criminalidade, focada na influência do ambiente

GABARITO: letra “d”.

Escola de Chicago (parte 2): principais abordagens teóricas

A Escola de Chicago é uma das vertentes mais badaladas da Criminologia e é


muito enfatizada naquela ciência multidisplicinar. No Brasil lamentavelmente é muito
invocada por “policiólogos” de modo deturpado, sem consistência com suas bases teóricas.

Na sociologia e depois na criminologia, a Escola de Chicago (às vezes descrita


como Escola Ecológica) foi o primeiro grande conjunto de trabalhos que surgiram durante
os anos 1920 e 1930, baseados em estudos de sociologia urbana e em pesquisas focadas
no meio ambiente urbano, combinando teoria e trabalho de campo com objeto etnográfico

50
em Chicago, porém com aplicação geral de suas bases e premissas em outros lugares.
Enquanto envolve estudiosos de várias universidades da área de Chicago, o termo é
freqüentemente usado indistintamente para se referir ao departamento de sociologia da
Universidade de Chicago. Após a Segunda Guerra Mundial, surgiu uma "Segunda Escola de
Chicago" cujos membros usaram o interacionismo simbólico combinado com métodos de
pesquisa de campo (hoje, muitas vezes referida como etnografia), para criar um novo
campo de estudo e conhecimento.

Osprincipaispesquisadores da primeiraescola de Chicago incluíramNels


Anderson, Ernest Burgess, Ruth ShonleCavan, Edward Franklin Frazier, Everett Hughes,
Roderick D. McKenzie, George Herbert Mead, Robert E. Park, Walter C. Reckless, Edwin
Sutherland, WI Thomas , Frederic Thrasher, Louis Wirth, Florian Znaniecki.

A Escola de Chicago é mais conhecida pela sua sociologia urbana e pelo


desenvolvimento da abordagem interacionista simbólica, nomeadamente através do
trabalho de Herbert Blumer. Concentrou-se no comportamento humano como moldado
por estruturas sociais e fatores ambientais físicos, ao invés de características genéticas e
pessoais. Biólogos e antropólogos aceitaram a teoria da evolução demonstrando que os
animais se adaptam aos seus ambientes e ecossistemas. Aplicado aos seres humanos que
são considerados responsáveis por seus próprios destinos, os membros da Escola de
Chicago acreditavam que o ambiente natural, que a comunidade habita, é um fator
importante na formação do comportamento humano e que a cidade funciona como um
microcosmo.

Para esta vertente de estudo, nas grandes cidades, onde todas as paixões, todas as
energias da humanidade são liberadas, estamos em condições de investigar o processo da
civilização, por assim dizer, como um microscópio.

O trabalho de Frederic E. Clements (1916) foi particularmente influente13. Ele


propôs que uma comunidade de vegetação é um superorganismo e que as comunidades
desenvolvem um padrão fixo de estágios sucessionais desde o início até um estado clímax
único ou um estado de equilíbrio auto-regulável. Por analogia, um indivíduo nasce, cresce,
amadurece e morre, mas a comunidade que o indivíduo habitou continua a crescer e exibir
propriedades maiores que a soma das propriedades das partes.

13
Bulmer, Martin. (1984). The Chicago School of Sociology: Institutionalization, Diversity, and the Rise
of Sociological Research. Chicago: University of Chicago Press.

51
Os membros da Escola concentraram-se na cidade de Chicago como objeto de seu
estudo, procurando evidências de que a urbanização e o aumento da mobilidade social
foram as causas dos problemas sociais contemporâneos. Inicialmente, Chicago era uma
cidade limpa, com um ambiente físico vazio. Em 1860, Chicago era uma pequena cidade
com uma população de 10.000 habitantes. Houve um grande crescimento após o incêndio
de 1871. Em 1910, a população já superav dois milhões de habitantes. A rapidez do
aumento deveu-se a um influxo de imigrantes e produziu um significativo número de sem-
teto, condições precárias de habitação e condições de trabalho também precárias
baseadas em baixos salários e longas horas. Mas, igualmente, Thomas e Znaniecki (1918)
enfatizam que a súbita liberdade de imigrantes liberada dos controles da Europa para a
competição irrestrita da nova cidade foi uma dinâmica de crescimento.

Os estudos ecológicos consistiram em fazer mapas “spot” de Chicago para o local


de ocorrência de comportamentos específicos, incluindo alcoolismo, homicídios, suicídios,
psicoses e pobreza e, em seguida, taxas de computação com base em dados do censo. Uma
comparação visual dos mapas pode identificar a concentração de certos tipos de
comportamento em algumas áreas.

Burgess estudou a história do desenvolvimento da cidade e concluiu que ela não


havia crescido nas bordas. Embora a presença do Lago Michigan tenha impedido o cerco
completo, ele postulou que todas as principais cidades seriam formadas por expansão
radial do centro em anéis concêntricos que ele descreveu como zonas, ou seja, a área de
negócios no centro, a área da favela (chamada zona em transição) em torno da área
central, a zona das casas de trabalhadores mais adiante, a área residencial além desta
zona, e depois a área do bangalô e a zona do viajante na periferia . Sob a influência de
Albion Small, a pesquisa na Escola extraiu a massa de dados oficiais, incluindo relatórios
de censos, registros de habitação / bem-estar e índices de crime, e relacionou os dados
espacialmente com diferentes áreas geográficas da cidade. Shaw e McKay criaram mapas
com a seguinte finalidade14:

➢ Detectar mapas para demonstrar a localização de uma série de problemas


sociais com foco primário na delinquência juvenil;
➢ Tipos de mapas que dividiram a cidade em bloco de uma milha quadrada e
mostrou a população por idade, sexo, etnia, etc;
➢ Mapas de zonas que demonstraram que os principais problemas foram
agrupados no centro da cidade.

14
Cavan, Ruth Shonle (January 1983). "The Chicago School of Sociology, 1918-1933". Urban Life.

52
Três grandes temas caracterizaram esse período dinâmico de estudos de
Chicago15:

✓ Contato cultural e conflito: Isso surge de Thomas e Znaniecki (1918) e


estuda como os grupos étnicos interagem e competem em um processo de sucessão
comunitária e transformação institucional (Hughes e Hughes: 1952). Uma parte
importante desse trabalho diz respeito a afro-americanos.
✓ Sucessão em instituições comunitárias como partes interessadas e atores
no refluxo e fluxo de grupos étnicos.

A Escola é talvez mais conhecida pelas Teorias de Subcultura de Thrasher,


Frazier e Sutherland, e pela aplicação dos princípios da ecologia para desenvolver a Teoria
da Desordem Social que se refere às causas do crime como um fracasso de:

✓ Instituições sociais ou organizações sociais, incluindo a família, as escolas, a


igreja, as instituições políticas, o policiamento, os negócios, etc. em comunidades e / ou
bairros identificados, ou na sociedade em geral; e
✓ Relações sociais que tradicionalmente incentivam a cooperação entre
pessoas.

Thomas definiu a desorganização social como "a incapacidade de um bairro para


resolver seus problemas juntos", o que sugeriu um nível de patologia social e
desorganização pessoal, pelo que o termo "organização social diferencial" foi preferido por
muitos e pode ter sido a fonte de Sutherland (1947) na constituição da Teoria da
associação diferencial. Os pesquisadores forneceram uma análise clara de que a cidade é
um lugar onde a vida é superficial, onde as pessoas são anônimas, onde os
relacionamentos são transitórios e a amizade e os laços familiares são fracos.

O Chicago Area Project (CAP) foi uma tentativa prática de sociólogos de aplicar
suas teorias em um laboratório da cidade. Pesquisas subsequentes mostraram que as ligas
de atletismo juvenil, os programas de recreação e o acampamento de verão funcionaram
melhor juntamente com o planejamento urbano e como alternativas ao encarceramento e
como política de controle de crime. Tais programas são não empresariais e não são auto-
sustentáveis, de modo que eles falham quando o governo local ou central não faz um
compromisso financeiro sustentável. Embora em retrospectiva crítica possa se afirmar
que as tentativas da escola de mapear o crime podem ter produzido algumas distorções, o

15
McKenzie, R. D. "The Ecological Approach to the Study of the Human Community". American Journal
of Sociology 30 (1924)

53
trabalho foi valioso na medida em que se afastou de um estudo padrão e deu lugar para
um estudo mais sistemático em dados e escalas.

Questão Aplicada

A Escola de Chicago emergiu nas décadas de 20 e 30 do século XX a partir de estudos


baseados na influência do ambiente urbano e das variáveis etnográficas observadas na
cidade de Chicago, que vieram a ser consideradas em sua aplicação para qualquer outro
local social. Assinale a alternativa incorreta quanto aos seus fundamentos teóricos:

A Considera que o comportamento humano é determinado por estruturas sociais e fatores


ambientais físicos.

B Adota pressupostos extraídos da teoria da evolução quanto à adaptabilidade de animais


ao ecossistema.

C O conflito é influenciado pela interação entre os grupos étnicos e pela competição


decorrente de um processo de sucessão na comunidade.

D A maior mobilidade social em uma cidade influencia menores índices de criminalidade.

E Refletiu uma tentativa prática de se aplicar a sociologia tomando a cidade como um


laboratório.

Incorreta a letra “d”, pois de acordo com a Escola de Chicago é justamente o contrário:
quanto maior a mobilidade social, maior as taxas de crime em determinada cidade. As
demais alternativas são conceitos e abordagens adotadas pelas Escola de Chicago.

GABARITO: “D”.

A Teoria da não-subordinação como reação à violência de gênero

Trata-se de uma teoria que extrai aspectos estruturais da desigualdade de


gêneros, levando em consideração as relações de poder e de dominação que são
observadas em sociedades patriarcais ou com forte histórico de subjugação da mulher
perante o homem. Como inspira a política criminal da Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha),
deve ser bem estudada e compreendida.

54
A teoria da não-subordinação, às vezes chamada de teoria do domínio, é uma
área da teoria jurídica feminista que se concentra no diferencial de poder entre
homens e mulheres. A teoria da não-subordinação assume a posição de que a
sociedade, e mais especialmente os homens na sociedade, usam as diferenças de
sexo entre homens e mulheres para perpetuar esse desequilíbrio de poder. Ao
contrário de outros tópicos dentro da teoria jurídica feminista, a teoria da não-
subordinação se concentra especificamente em certos comportamentos sexuais,
incluindo o controle da sexualidade das mulheres, o assédio sexual, a pornografia e
a violência contra as mulheres em geral.Catharine MacKinnon argumenta que a teoria
da não-subordinação aborda melhor essas questões particulares porque elas afetam
mulheres "quase exclusivamente"16. MacKinnon defende a teoria da não-subordinação em
relação a outras teorias, como a igualdade formal, a igualdade substantiva e a teoria das
diferenças, porque a violência sexual e outras formas de violência contra as mulheres não
são uma questão de "semelhança e diferença", mas sim são melhor vistas como
desigualdades estruturais para as mulheres. Embora a teoria da não-subordinação tenha
sido discutida amplamente na avaliação de várias formas de violência sexual contra as
mulheres, ela também serve como base para a compreensão da violência doméstica e por
que ela ocorre. A teoria da não-subordinação aborda a questão da violência doméstica
como um subconjunto de um problema mais amplo da violência contra as mulheres
porque as vítimas da violência doméstica são esmagadoramente femininas.17

Os proponentes da teoria da não-subordinação propõem várias razões pelas


quais melhor explica a violência doméstica. Primeiro, existem certos padrões
recorrentes de violência doméstica que indicam que não é o resultado de raiva ou
argumento intenso, mas é uma forma de subordinação.Isto é evidenciado em parte
pelo fato de que as vítimas de violência doméstica são tipicamente abusadas em
uma variedade de situações e por uma variedade de meios. Por exemplo, as vítimas
às vezes são espancadas depois de terem dormido ou foram separadas do agressor e,
muitas vezes, o abuso assume uma forma financeira ou emocional além do abuso físico. Os
defensores da teoria da não-subordinação usam esses exemplos para dissipar a noção de
que a agressão é sempre o resultado do calor do momento, da raiva súbita ou por causa de
discussões intensas. Além disso, os agressores muitas vezes empregam táticas
manipuladoras e deliberadas ao abusar de suas vítimas, podendo atacá-la em áreas de seu

16
Bartlett et al., citing Mahoney, Martha R. (1991). "Legal Images of Battered Women: Redefining the
Issue of Separation". Michigan Law Review. 90: 1. JSTOR 1289533
17
Karmen, Andrew (2010), "Victims of rapes and other sexual assaults", in Karmen, Andrew, Crime
victims: an introduction to victimology (7th ed.), Belmont, California: Cengage Learning

55
corpo que não mostram contusões (por exemplo, seu couro cabeludo) ou em áreas onde
ela ficaria envergonhada de mostrar aos outros suas contusões. Esses comportamentos
podem ser ainda mais úteis para um autor do fato quando o agressor e a vítima
compartilham filhos, porque o agressor muitas vezes controla os recursos financeiros da
família, tornando a vítima menos resiliente, já que é provável que vá colocar seus filhos
em risco.

A professora Martha Mahoney, da Faculdade de Direito da Universidade de


Miami, também aponta para a noção de "assalto à separação"18 - um fenômeno em que um
agressor violenta ainda mais uma vítima que está tentando ou tentou deixar uma relação
abusiva - como evidência adicional de que a violência doméstica é usada para subordinar
vítimas aos seus agressores. A falta de vontade de um agressor para permitir que a vítima
abandone a relação sustenta a idéia de que a violência é usada para forçar a vítima a
continuar cumprindo os desejos do agressor de que ela lhe obedece e lhe pertence. Os
teóricos da não-subordinação argumentam que todas essas ações - a variedade de
comportamentos abusivos em várias configurações, a exploração dos filhos da vítima e o
ataque contra a separação - sugerem um problema maior do que apenas uma incapacidade
de gerenciar adequadamente a raiva, embora a raiva possa ser um subproduto desses
comportamentos. O objetivo dessas ações é manter a vítima, e às vezes toda a família,
subordinada ao agressor, de acordo com a teoria da não-subordinação19.

Os teóricos da não-subordinação argumentam que outras formas de teoria


jurídica feminista não oferecem nenhuma explicação para o fenômeno da violência
doméstica em geral ou a freqüência com que ela ocorre.

Já os críticos da teoria da não-subordinação afirmam que ela não oferece


soluções para os problemas que aponta. Por exemplo, os proponentes da teoria da não-
subordinação criticam certas abordagens que foram tomadas para abordar a violência
doméstica no sistema legal, como as sanções obrigatórias de prisão. Essas políticas
demandam o controle das forças policiais em focos específicos e selecionados, forçando os
policiais a prender supostos delinquentes e perpetradores de violência doméstica. Há
muitos discursos críticos em torno da prisão obrigatória, quando ela é considerada por
teorias diversas, como o garantismo penal, como uma exceção. Os oponentes argumentam
que o encarceramento como único meio de prevenção/repressão mina a autonomia da
vítima, desencoraja o empoderamento das mulheres, desconsiderando outros recursos

18
Bartlett et al, ob.cit.
19
Sanders, Cynthia K.; Schnabel, Meg (June 2006). "Organizing for economic empowerment of battered
women: women's savings accounts". Journal of Community Practice.

56
disponíveis e colocando as vítimas em maior risco de abuso doméstico. Nos Estados
Unidos, os Estados que implementaram leis de prisão obrigatórias têm taxas de homicídio
60% maiores, o que mostrou ser consistente com o declínio nas taxas de notificação dos
casos de violência doméstica. Os defensores dessas políticas de encarceramento de
suspeitos afirmam que o sistema de justiça criminal às vezes é o único meio de chegar às
vítimas de violência doméstica e que, se um agressor sabe que ele será preso, deterá a
futura conduta de violência doméstica.

Questão Aplicada

Assinale a alternativa correta que indica uma causa da violência doméstica de gênero para
a teoria da não subordinação :

a) Não leva em consideração a diferença potencial ou existencial entre homem e


mulher.
b) Diferente de outras teorias feministas foca especialmente em certos
comportamentos sexuais, como o controle da sexualidade da mulher.
c) Adota como abordagem principal a desigualdade formal e substantiva entre gêneros.
d) A variação de situações, circunstâncias e meios de violência não é considerada como
relevante para explicar a dinâmica de uma agressão doméstica a mulheres.
e) As reações somáticas de fúria e descontrole do agressor são um dos aspectos
principais para a determinação das causas da violência doméstica.

A única alternativa correta é a letra “b”, pois para a Teoria da Não-Subordinação, o


controle projetado sobre a mulher enfoca especificamente a subjugação de sua
sexualidade pelo homem, o que explica os índices esmagadoramente maiores de assédio
sexual, estupro e outros delitos sexuais cujas vítimas são mulheres. As demais alternativas
estão incorretas, pois confrontam a lógica da teoria.

GABARITO: letra “b”.

Skinheads, Satanistas, Hoolingans: as subculturas de delinquência

As Teorias de Subcultura são estudos criminológicos relevantes para a


compreensão das causas do crime, pois se expressam através de agrupamentos humanos
que se baseiam em convicções firmes em comum.

57
A teoria subcultural explica o desvio em termos de um grupo desviante, separado
do resto da sociedade que incentiva o desvio

As teorias de Subcultura são estudos criminológicos com abordagens


metodológicas específicas, que estudam o delito como opção coletiva, sendo considerado
crime apenas as manifestações em condutas legitimadas por determinado grupo através
da exteriorização dos princípios e valores que carregam em comum, mas que sofrem
rejeição da maioria da sociedade.

São exemplos mais notórios de subculturas de delinqüência estudadas os


hooligans, as torcidas organizadas de futebol, jovens praticantes de determinada arte
marcial que espaçam desafetos ou pessoas aleatoriamente durante a noite, gangues de
bailes “funk”, skinheads, grupos violentos de fãs de black metal com abordagem satanista.

Muitos destes crimes praticados por grupos que carregam subculturas são
multitudinários (praticados em multidões) e apresentam valores específicos que unem
seus integrantes, que buscam projetar externamente através do culto à força física.

Critica-se esta escola por ser muito reducionista, já que não justifica os crimes
provocados fora das subculturas e não considera que nem sempre há coesão de valores
dentro do mesmo grupo, ou seja, é possível que membros do grupo não comunguem com
todos os princípios lá desenvolvidos. Por exemplo, nem todos os lutadores de jiu-jitsu se
tornarão um “pitboy” ou nem todos os fãs de hardcore punk com cabeças raspadas serão
adeptos da subcultura “skinhead” ou nem todo fã de black metal satânico atacará igrejas
ou grupos rivais.

Diferentemente é o conceito de contracultura, que é desenvolvida em


determinados grupos mais articulados, questionadores e, na maioria das vezes, pacíficos,
formados, por exemplo, por hippies, intelectuais, artistas e ambientalistas.

Enquanto a subcultura não se importa em convencer os demais membros da


sociedade sobre seus valores (eles simplesmente agem segundo suas convicções), a
contracultura, ainda que passivamente, deseja mudar conceitos, ou pelo menos, que se
respeitem os valores desenvolvidos pelo grupo como expressão de mudança social.

Principais estudos teóricos das subculturas

Albert Cohen: Frustração de status como fator de formação das subculturas

58
✓ Os meninos da classe trabalhadora tentam ganhar o status dentro da escola
e falham, assim sofrem a frustração do status
✓ Alguns desses rapazes encontram um ao outro e formam uma subcultura
✓ Status é obtido dentro da subcultura, quebrando regras mainstream.

Cloward e Ohlin: Estrutura da Oportunidade Ilegítima (IOS)

✓ Uma combinação de teoria da tensão e teoria subcultural


✓ O tipo de subcultura que um indivíduo junta depende das subculturas
existentes (que formam um IOS)
✓ Existem três tipos de subcultura: Criminal (áreas de classe trabalhadora /
pequeno crime organizado), Conflito (menos populações vulneráveis) e (por exemplo,
subculturas de drogas) que Cloward e Ohlin viam como sendo formadas por pessoas que
não tinham as habilidades para se juntarem às outras duas).

Walter Miller: Preocupações Focais

✓ Viu a classe trabalhadora inferior como uma subcultura com seu próprio
conjunto de valores únicos
✓ A cultura da classe trabalhadora enfatizou seis preocupações focais (ou
valores fundamentais) que encorajavam o comportamento criminoso entre os jovens da
classe trabalhadora.
✓ Três exemplos dessas preocupações focais onde a dureza (proeza física), a
excitação (assunção de riscos) e a inteligência (ser inteligente na rua)

Charles Murray: Teoria da subclasse

✓ Na década de 1980, uma subclasse havia surgido na Grã-Bretanha.


✓ Principais características = desemprego de longa duração, taxas elevadas
de gravidez na adolescência e famílias monoparentais

59
✓ Significa que as crianças não são socializadas em normas e nos valores
mainstream (socialmente considerados superiores na sociedade) e se tornaram NEET 20
✓ A subclasse é 20 vezes mais criminosa do que o resto da sociedade.

Questão Aplicada

As Teorias Subculturais surgiram a partir dos anos 40 e criaram um conceito novo na


Criminologia, estudando o delito como opção coletiva de grupos com exteriorizações em
comum. Assinale a alternativa que não corresponda aos seus fundamentos teóricos:

A Focaliza as condutas criminosas exteriorizadas por um determinado grupo como


expressão de seus valores.

B São exemplos que a identificam a atuação das torcidas organizadas de futebol, grupos
de skinheads e o hooliganismo.

C A manifestação dos valores de um grupo pela força física corresponde a uma


característica de uma subcultura.

D Em uma subcultura grupal, seus integrantes procuram impor seus valores a outros
membros da sociedade através da força e da coerção.

E A frustração do status social é um dos aspectos relevantes da formação de uma


subcultura.

Resposta: A alternativa incorreta é a letra “d”, pois a subculturas grupais não procuram
modificar a opinião de uma sociedade a partir da projeção de seus valores; ao contrário,
afirmam seus valores contrariamente à maioria e normalmente pela coerção pura.

As demais alternativas são conceitos e abordagens adotadas pelas Teorias Subculturais.

GABARITO: “D”.

20
NEET, jovens (15-24 ou 15-29) sem emprego e que não estão a frequentar qualquer ação de educação
ou formação, englobam uma gama variada de situações pelo que deve ser decomposto em várias
categorias/ subgrupos. São os “nem-nem” do Brasil, ou seja, não trabalham nem estudam. No Brasil, de
acordo com índice do IBGE de 2016, atinge a proporção assustadora de 22,5% da população jovem (e
viva o funk ostentação, sertanejo universitário, balada da pegação...)

60
O polêmico movimento ‘lawandorder”

O movimento “LAW AND ORDER” (não confundir com a famosa série televisiva
ambientada em Nova York) é um dos temas mais abordados na Criminologia
contemporânea, sendo uma vertente de política criminal muito criticada pela doutrina
penal no Brasil. Assim pode vir a ser abordado esse tema em concursos públicos. Vamos à
explicação em bloco único para facilitar sua compreensão.

O movimento de política criminal intitulado “lei e a ordem” refere-se a um


conjunto de exigências de adoção de um sistema de justiça penal mais rigoroso,
especialmente em relação ao crime violento e patrimonial,através de penalidades
criminais mais rigorosas. Essas penalidades podem incluir marcos maiores de penas
abstratamente cominadas, sentença condenatórias com encarceramento já em primeira ou
segunda instância, e, em alguns países, a pena de morte.21

Os defensores do movimento da "lei e da ordem" argumentam que o


encarceramento é o meio mais eficaz de prevenção da criminalidade. Já os oponentes
do movimento da “lei e da ordem” argumentam que um sistema de punição criminal
severa é, em última instância, ineficaz porque não aborda causas subjacentes ou sistêmicas
do crime.

"Lei e ordem" tornou-se um poderoso tema conservador nos EUA na década


de 1960.Os principais defensores do final da década de 1960 foram os republicanos
Ronald Reagan (como governador da Califórnia) e Richard Nixon (como candidato
presidencial em 1968). Eles usaram isso para dissolver um consenso liberal sobre crime
que envolvia decisões judiciais federais mais flexíveis quanto ao encarceramento em
massa e um foco maior contra drogas ilegais e atividades violentas de gangues. As etnias
brancas nas cidades do norte se voltaram contra o então Partido Democrata no poder,
culpando-o por ser “manso” com o crime. Os políticos e intelectuais mais liberais teriam
segundo críticos ignorado a crise do crime que eclodia na época, pois alegavam que a lei e
a ordem eram uma artimanha “racista”, ou sustentavam que os programas sociais
resolveriam as "causas profundas" do transtorno civil e da criminalidade urbana, que em
1968 parecia cada vez mais improvável e contribuía para a perda de fé na capacidade do
governo de fazer o que foi creditado- proteger a segurança pessoal e a propriedade
privada. Os conservadores rejeitaram as noções liberais e adotaram o discurso de
fortalecimento do aparato policial e criminal. Como os conservadores construíram uma

21
"The Politics of Law and Order" by Platt, Anthony M. - Social Justice, Vol. 21, Issue 3, Fall 1994 |
Online Research Library: Questia Reader".

61
mensagem persuasiva que argumentava que o Movimento dos Direitos Civis tinha
contribuído para o conflito racial e a Grande Sociedade de Bem Estar do Governo de
Lyndon Johnson recompensou em vez de punir os perpetradores da violência, os
conservadores exigiram que o governo nacional promovesse o respeito pela lei e a ordem
e o desprezo por aqueles que a violaram, independentemente da causa.22

A demanda política por "lei e ordem" foi feita por John Adams e Thomas Jefferson
nos anos 1780 e 1790. Era um slogan político no Kentucky em torno de 1900 após o
assassinato do governador William Goebel. O termo foi usado por Barry Goldwater em sua
corrida para presidente dos EUA em 1964.

Depois que Reagan assumiu o cargo em 1981 e começou a nomear juízes


conservadores difíceis, “a lei e a ordem” tornou-se uma arma contra o crime. O número de
prisioneiros triplicou de 500 mil em 1980 para 1,5 milhões em 1994. Os conservadores no
nível estadual construíram muitas mais prisões, com mais privação de liberdade nas
condenações e menos livramento condicional. Adotou-se a premissa que no momento em
que foram libertados, os egressos eram muito mais velhos e, portanto, muito menos
violentos.

Os defensores de políticas mais rigorosas para o crime e os acusados de crime


ganharam muitas vitórias desde que a questão se tornou importante. Os destaques
incluem leis rigorosas que tratam da venda e uso de drogas ilícitas. Por exemplo, as leis de
drogas de Rockefeller passaram no estado de Nova York em 1973 - e mais tarde, as leis
que exigem penalidades mais duras para os reincidentes, além da retomada da legalização
da pena de morte em vários estados.

Grupos de direitos civis se opuseram firmemente à tendência em relação a


medidas mais severas em geral. A questão da lei e da ordem causou uma fenda profunda
dentro do Partido Democrata no final da década de 1960 e 1970, e essa fenda foi vista por
muitos cientistas políticos como um dos principais fatores contribuintes nas duas corridas
presidenciais de Ronald Reagan em 1980 e 1984. Em ambas eleições milhões de
democratas registrados votaram em favor de Reagan, e eles coletivamente se tornaram
conhecidos como "Reagan Democrats". Muitos desses eleitores finalmente mudaram seu
registro de filiação e se tornaram republicanos, especialmente no sul.

Embora os crimes violentos sejam o foco principal dos defensores da lei e da


ordem, os crimes relacionados à qualidade de vida às vezes também estão incluídos sob o

22
Michael W. Flamm, Law and Order: Street Crime, Civil Unrest, and the Crisis of Liberalism in the 1960s (2005).

62
guarda-chuva do movimento. Uma posição difícil sobre este assunto ajudou bastante Rudy
Giuliani a ganhar dois mandatos como prefeito de Nova York na década de 1990, e
também foi amplamente citada como impulsionando Gavin Newsom para a vitória sobre
um adversário mais liberal na eleição de prefeito de São Francisco de 2003. Richard
Riordan também se tornou o novo prefeito de Los Angeles em 1993 pela primeira vez em
20 anos depois que Tom Bradley se aposentou.

O movimento da “lei e da ordem” influenciou profundamente a América Latina,


com a militarização do combate às drogas através do “Plano Colômbia” e criminalização
mais gravosa do tráfico de drogas na região, ampliando maciçamente o encarceramento
por tais delitos, notadamente pequenos traficantes de entorpecentes.

Questão Aplicada

Assinale a alternativa incorreta que não corresponde a uma das características do


movimento de política criminal “Lei e Ordem”, surgido no Estados Unidos após a década
de 70 do século XX:

A O encarceramento em massa é identificado como uma das medidas mais eficazes de


prevenção criminal.

B Considera que o rigor no sistema de justiça criminal e a aplicação de penalidades mais


rigorosas são medidas determinantes para o controle da criminalidade.

C Tem maior atuação sobre crimes corporativos, violentos e patrimoniais.

D Emergiu nos Estados Unidos da América como uma reação política conservadora ao
crescimento vertiginoso da criminalidade a partir do final da década de 60 do século XX.

E A intensificação da quantidade de encarcerados foi uma de suas conseqüências


principais.

Resposta: A alternativa incorreta é a letra “c”, pois este movimento não foca
prioritariamente nos crimes “corporativos”, relacionados com o poder econômico e
político, focando-se realmente nos crimes violentos, patrimoniais e no confronto às
drogas.

GABARITO: “C”.

63
O crime como desobediência a uma decisão política da elite: a teoria do conflito

A Teoria do Conflito parte da premissa de que o crime é um fato político, ou seja,


o crime não existe como fato natural, mas sim pela desobediência a uma norma elaborada
através de decisões políticas, as quais geralmente refletem ou defendem os interesses da
classe dominante, sendo a lei um instrumento de controle social que visa satisfazer os
interesses das camadas superiores da sociedade. Tal teoria desmistifica o conceito de que,
por vivermos numa democracia, as leis produzidas e as decisões tomadas por nossos
governantes são a princípio legítimas, por representarem a vontade e os interesses do
povo.Assim, verifica-se uma relação de conflito permanente, onde a lei e a pena seria tão-
somente um novo grau deste mesmo conflito de poder, onde as autoridades agem
mediante a criação, interpretação e aplicação coativa das normas.

A lei de Crimes Hediondos (Lei 8072/90), em alguns tipos penais, como o de


latrocínio, para a Teoria do Conflito seria o reflexo da prevalência da importância do
patrimônio como bem jurídico maior de nossa sociedade capitalista, com preceito
sancionatório superior a crimes como o próprio homicídio.

64
Tipos de Teoria do Conflito

A teoria do conflito baseada em raças postula que o sistema de justiça criminal é


distorcido em favor dos membros da raça branca socialmente dominante, enquanto se
mostra preconceituoso contra membros de grupos raciais e étnicos hispânicos, negros ou
indígenas. A criminologia "radical" é uma teoria de conflito que segue as idéias marxistas
que sustentam a idéias segundo a qual a sociedade está dividida ao longo de linhas de
prosperidade econômica, com os ricos usando leis criminais e punição para oprimir as
classes pobres e operárias. Outros tipos de teorias de conflito da justiça criminal incluem a
percepção dos conflitos subjacentes ao que constitui um crime como decorrentes de
diferenças acadêmicas e filosóficas quanto ao que se compreende como o melhor curso de
ação para a sociedade, bem como os conflitos de valores sobre percepções de propriedade
privada ou de direitos e quais seriam as condições necessárias para uma vida pacífica.

Significado

As teorias do conflito da justiça criminal fornecem um argumento significativo


para avaliar a funcionalidade e os objetivos de todo o sistema de justiça criminal. Por
exemplo, de acordo com um documento de política da Sociedade Americana de
Criminologia, um terço de todos os homens negros nos Estados Unidos será encarcerado
em algum momento de sua vida, um número que é significativamente desproporcional à
taxa de encarceramento de homens brancos ou de fêmeas de qualquer raça. A teoria do
conflito racial apresenta uma explicação potencial a ser considerada na avaliação desses
dados.

História

Embora os crimes e as punições tenham sido prescritos pelos sistemas sociais


desde os tempos pré-bíblicos, a criminologia como uma instituição social envolvendo
policias, tribunais e prisões, é um desenvolvimento moderno com sementes de
desenvolvimento no século XVIII e um crescimento significativo no século XIX até os dias
atuais. Escrevendo em meados do século XIX, Karl Marx desenvolveu uma teoria do
conflito econômico aplicável à justiça penal, bem como a muitas outras instituições sociais,
postulando que a industrialização levou ao excesso de população, que foi social e
politicamente oprimido por aqueles que se beneficiaram do sistema capitalista em
desenvolvimento . Max Weber, escrevendo na virada do século 20, via a cultura humana
como mais benéfica do que Marx, vendo os conflitos subjacentes à justiça criminal como
valores concorrentes e não como uma opressão intencional. George Simmel observou
65
conceitos de crime decorrentes de confrontos entre grupos culturais que entraram em
contato uns com os outros abruptamente, aumentando assim os padrões de imigração.

Função

As teorias de conflitos funcionam como um meio de explicar as filosofias


abrangentes por trás de diferentes políticas e sistemas de justiça criminal. Como um ramo
da filosofia social, as teorias de conflitos de justiça criminal não procuram ditar o que é
certo ou errado, ou declarar qual o sistema de justiça penal é superior. Em vez disso, as
teorias de conflito são um modo de descrever e analisar as intenções e os impactos de
diferentes sistemas e eventos de justiça criminal. Por exemplo, uma análise normativa da
pena de morte pode levar em conta os custos, efeitos de dissuasão e salvaguardas
sistêmicas contra condenações impróprias para descrever se a pena de morte funciona
para impedir o crime. Uma análise da teoria de conflitos raciais examinaria a composição
racial de réus, vítimas, jurados e juízes para determinar se a pena de morte funciona como
um meio para os caucasianos oprimir os negros americanos.

Efeitos

A popularização das teorias de conflitos da justiça criminal tem vários efeitos. Um


efeito entre o público em geral pode ser, ironicamente, exacerbar as tensões raciais. A
publicação de relatórios apontando a desproporcionalidade do encarceramento de certas
raças pode resultar em uma severa reação pública e da mídia, afirmando que os dados são
devidos a certas raças com maior propensão para participar de atividades criminosas, em
detrimento de outros grupos étnicos ou definidos pela co da pele ou mesmo origem
geográfica. Outro efeito pode ser encorajar a classe política a mudar as leis com impactos
obviamente distorcidos. Por exemplo, o Congresso dos Estados Unidos está atualmente
sob pressão para mudar as diretrizes onerosas de condenação para o crack, uma droga
menos cara, favorecida por jovens de status socioeconômico inferior, com maior
equivalência ao castigo mais tolerante para a cocaína em pó, mais adotada por jovens
ricos, estudantes universitários e pessoas de negócios.

66
Questão Aplicada

Assinale a alternativa incorreta que caracteriza a Teoria do Conflito no estudo da


Criminologia Radical:

a) O crime é considerado essencialmente um fato político, decorrente da imposição de


um grupo que exerce o poder.
b) A lei é considerada como um instrumento de controle social de grupos dominantes
na sociedade.
c) A pena e a lei são instrumentos sociais que refletem um conflito permanente de
poder.
d) Alguns tipos penais, como alguns definidos pela lei de crimes hediondos, são
indicações do domínio de uma classe sobre outra considerada como marginal.
e) A representatividade popular na elaboração das leis por um órgão legislativo é um
mecanismo de resolução do conflito entre classes nas sociedades.

Resposta: A única alternativa incorreta é a letra “e”, pois para a Teoria do Conflito as leis
elaboradas por um órgãos legislativo do Estado, ainda que com representantes eleitos,
nada mais que refletem os interesses de uma classe superior no exercício do poder, em um
contexto permanente de conflito com outras categorias sociais oprimidas e
desfavorecidas.

GABARITO: letra “d”.

Lombroso e sua tipologia de criminosos

A ideia central do trabalho de Lombroso veio para ele quando realizava a


autópsia do corpo de um notório criminoso italiano chamado Giuseppe Villela. Ao
contemplar o crânio de Villela, Lombroso observou que certas características físicas
(especificamente, uma depressão na região occipital que ele chamou de fossa occipital
mediana) lembravam o crânio de "raças inferiores" e "os tipos mais baixos de macacos,
roedores e pássaros ". O termo usado por Lombroso para descrever o aparecimento de
organismos que se assemelham a formas de vida ancestrais (pré-humanas) é o atavismo.
Os criminosos natos (ou por natureza) foram assim vistos por Lombroso em seus
primeiros escritos como uma espécie de subespécie humana (em seus escritos

67
posteriores, ele os viu menos como retrocessos evolutivos e mais em termos de
desenvolvimento e degeneração).

Lombroso acreditava que o atavismo poderia ser identificado por uma série de
estigmas físicos mensuráveis, que incluíam mandíbulas salientes, olhos caídos, orelhas
grandes, nariz torcido, braços longos em relação aos membros inferiores, ombros
inclinados e um cóccix semelhante a uma cauda. O conceito de atavismo se relevou
incrivelmente errado, mas, como tantos outros de seu tempo, Lombroso procurou
compreender fenômenos comportamentais com referência aos princípios da
evolução como eram entendidos na época. Se a humanidade estava apenas em uma
extremidade da evolução contínua da vida animal fazia sentido para muitas pessoas que
os criminosos - que agiam "bestialmente" e que careciam de consciência racional – seriam
seres biologicamente inferiores.

Tipologia de criminosos na definição de Lomboso

Além do "criminoso nato atávico", Lombroso identificou dois outros tipos: o


"criminoso insano" e o "criminoso". Embora os criminosos insanos tenham algum estigma,
eles não eram "criminosos natos"; em vez disso, eles se tornam criminosos como resultado
"de uma alteração do cérebro, o que perturba completamente sua natureza moral". Entre
as fileiras de "criminosos insanos" estavam os alcoólatras, os cleptómaníacos, os
ninfomaníacos e os agressores de crianças. "Criminalóides" (os “delinqüentes por
profissão”) não tinham nenhuma das peculiaridades físicas do "nato" ou do "criminoso
insano", mas se envolviam no crime mais tarde ao longo da vida e tenderiam a cometer
crimes menos graves. Os "criminosos" foram categorizados como "criminosos habituais",
que se tornam assim por contato com outros criminosos, abuso de álcool ou motivados por
outras "circunstâncias angustiantes". Esta categoria incluiu "criminosos jurídicos", que
afligem a lei por acidente; e as pessoas identificadas como "criminosas por paixão", os
tipos excitantes e impulsivos que cometem atos violentos quando provocados.

Questão Aplicada

Os estudos de CesareLombroso marcaram profundamente a Criminologia, com influências


em distintos movimentos de política criminal e na composição de diversas escolas penais.
Assinale a alternativa incorreta que não caracteriza sua abordagem de estudo quanto ao
criminoso:

68
A O criminoso era identificado como uma subespécie humana com regressão atávica.

B Caracteres físicos eram determinantes para a propensão do comportamento criminoso.

C Estabelecia uma diferença entre criminosos insanos e por natureza.

D Exames do crânio por critérios biológicos e físicos indicariam criminosos por natureza.

E Não estabelecia estigmas raciais ou físicos mensuráveis.

Resposta : A alternativa incorreta é a letra “e”, pois esta abordagem teórica claramente se
utilizava de critérios raciais e de estigmas físicos específicos como identificação de um
indivíduo com propensão criminosa.

GABARITO: “E”.

Garofalo e seus conceitos de “mala in se” e “mala prohibita”

Garofalo se tornou conhecido na Criminologia por seus esforços destinados a


formular uma definição "natural" de crime. Os pensadores clássicos aceitaram a
definição legal do crime de forma acrítica; para eles, o crime é o que a lei diz que é.
Uma definição com foco jurídico-formal, portanto. Isso parecia ser bastante arbitrário
e "não científico" para Garofalo (como o sistema britânico-americano de medição linear)
que queria ancorar a definição de crime em algo natural. Garofalo sentiu que as definições
de crime deveriam estar ancoradas na natureza humana, pelo que ele quis dizer que um
determinado ato seria considerado como um crime se fosse condenado universalmente e
seria universalmente condenado se ofendesse os sentimentos altruístas naturais de
probidade (integridade, honestidade) e pena ( no sentido de compaixão, simpatia). Os
crimes naturais são maus em si mesmos (mala in se), enquanto outros tipos de crimes
(mala prohibita) são errôneos apenas porque eles foram definidos como tal pela lei.

Garofalo rejeitou o princípio clássico de que o castigo deveria caber ao


crime, argumentando que deveria caber ao criminoso. Como um bom positivista, ele
acreditava que os criminosos têm pouco controle sobre suas ações. Este repúdio ao livre-
arbítrio (e, portanto, à responsabilidade moral) e a adequação do castigo ao infrator
acabaria por levar a sentenças destinadas a objetivos humanos e liberais de tratamento e
reabilitação. Para Garofalo, no entanto, a única questão a ser considerada na sentença

69
foi o perigo que o ofensor representava para a sociedade, que deveria ser julgado
pelas "peculiaridades" de um delinquente.

Por "peculiaridades", Garofalo não estava se referindo a estigmas de Lombroso,


mas sim às características particulares que colocam os infratores em risco de
comportamento criminoso. Ele desenvolveu quatro categorias de criminosos, cada um
merecendo diferentes formas de punição: "extremo", "impulsivo", "profissional" e
"endêmico". A sociedade só poderia ser defendida contra criminosos extremos,
executando-os rapidamente, independentemente do crime pelo qual eles são punidos.
Aqui Garofalo partiu de Lombroso e Ferri, os dois que estavam contra a pena de morte,
embora Lombroso gradualmente a aceitasse para criminosos natos e por aqueles que
cometiam crimes particularmente hediondos. Criminosos impulsivos, uma categoria que
incluiu alcoólatras e os insanos, deveriam ser presos. Os criminosos profissionais eram
indivíduos psicologicamente normais que utilizam o cálculo hedonístico antes de cometer
seus crimes e, portanto, exigem "eliminação", seja por prisão perpétua ou mediante
transporte para uma colônia penal no exterior. "Crime endêmico" foi o conceito pelo qual
Garofalo caracterizou os crimes peculiares a um determinado local ou região (mala
prohibita), podendo ser melhor controlados por mudanças na lei e não impondo severas
punições aos infratores.

Questão Aplicada

A respeito da escola criminológica de Garofalo, assinale a alternativa correta:

a) Buscou formular uma definição jurídico-formal de crime.


b) Definiu o crime como o comportamento humano que viola a lei e seus princípios.]
c) O castigo deveria ser aplicado ao crime praticado e não ao criminoso.
d) O elemento determinante de uma sanção penal deve ser o perigo que o criminoso
oferece à sociedade levando-se em conta suas particularidades.
e) Considerou o livre-arbítrio como fator relevante no comportamento criminoso.

Resposta: A única alternativa correta é a letra “d”, pois para Garofalo a sanção penal
deveria justamente considerar o perigo causado pelo criminoso de acordo com suas
particularidades examinadas. As demais alternativas se opõem totalmente aos seus
conceitos, pois em relação à alternativa “a”, seus estudos contrariam justamente a
definição jurídico-formal do que é um crime; quanto à alternativa “b”, Garofalo estendeu o
conceito de crime muito além de ser um comportamento violador de alguma legislação;

70
em relação à alternativa “c”, o castigo deveria cingir-se ao criminoso e não ao crime;
quanto à alternativa “e”, é justamente o contrário: Garofalo como positivista repudiava a
noção do livre-arbítrio como elemento definidor da responsabilidade penal.

GABARITO: letra “D”.

A TEORIA DA FACILITAÇÃO DA VÍTIMA COMO EXPRESSÃO DA VITIMOLOGIA

A facilitação da vítima, um subtópico altamente controverso, encontra suas raízes nos


escritos de criminologistas como Marvin Wolfgang. A escolha de usar a facilitação da vítima
em oposição à "propensão da vítima" ou algum outro termo é que a facilitação da vítima
não está culpando a vítima propriamente, mas sim as interações da vítima que o tornam
vulnerável a um crime. Ao contrário do senso comum, não se atribui a uma prostituta ou
“periguetefunkeira ostentação” parcela de responsabilidade causal pelo ato criminoso;
analisa-se, isto sim, fatores externos intrínsecos ao comportamento da vítima que a
tornam mais vulnerável a determinadas modalidades de ofensas delituosas.

A teoria da facilitação da vítima requer o estudo dos elementos externos que


tornam uma vítima mais acessível ou vulnerável a um ataque . Em um artigo que resume
os principais movimentos em vitimologia internacionalmente, Schneider 23 expressa a
facilitação vítima como um modelo que, em última instância, descreve apenas a
interpretação errônea do ofensor do comportamento da vítima . Baseia-se na teoria de
uma interação simbólica e não alivia o infrator de sua responsabilidade exclusiva.

Como estudo de caso bem documentado de Hickey24, uma análise principal de


329 assassinos em série nos Estados Unidos classificou as vítimas como altas, baixas ou
misturadas em relação à facilitação da vítima do assassinato. A categorização baseou-se no
risco de estilo de vida (exemplo, quantidade de tempo gasto em interagir com estranhos),
tipo de emprego e sua localização no momento do assassinato (exemplo, bar, casa ou local
de trabalho). Hickey descobriu que 13-15% das vítimas tinham alta facilitação, 60-64%
das vítimas tinham baixa facilitação e 23-25% das vítimas tinham uma combinação de alta
e baixa facilitação. Hickey também observou que, entre as vítimas de assassinos em série
após 1975, uma em cada cinco vítimas correm maior risco de fazer carona, trabalhar como

23
Schneider, H. J. (2001). "Victimological developments in the world during the past three decades (I): A Study of comparative
victimology". International journal of offender therapy and comparative criminology. 45: 449–468.
24
Hickey, Eric W. (2006). The Male serial murderer. In Serial murderers and their victims (4th ed., pp. 152–159). Belmont, CA:
Wadsworth Group

71
prostituta ou se envolver em situações em que muitas vezes entraram em contato com
estranhos.

Há uma importância em estudar e compreender a teoria de facilitação da vítima,


bem como continuar a pesquisá-la como um sub-tópico de vitimização. Por exemplo, um
estudo sobre a facilitação das vítimas aumenta a conscientização pública, leva a mais
pesquisas sobre a relação vítima-infrator e promove a etiologia teórica do crime violento.
Um dos propósitos fundamentais desse tipo de conhecimento é informar o público e
aumentar a consciência para que menos pessoas se tornem vítimas. Outro objetivo do
estudo da facilitação da vítima é auxiliar nas investigações. Isso (o auxílio às investigações)
pode ser ligado à facilitação da vítima porque as redes sociais da vítima são os locais em
que a vítima é mais vulnerável a certas tipologias de crimes e a determinados criminosos
contumazes. Usando este processo, os investigadores podem criar um perfil de lugares
onde, por exemplo, o assassino em série e vítima se situam com freqüência.

Questão Aplicada

No campo da vitimologia, a facilitação da vítima dos fatores que levaram ao cometimento


do crime é um dos subtópicos mais controversos de estudo da Criminologia. Assinale a
alternativa incorreta que não caracteriza esta abordagem de estudo:

A As interações e comportamentos prévios da vítima contribuem para o surgimento do ato


criminoso.

B A vítima tem co-responsabilidade pela causalidade do crime.

C São considerados os elementos externos que tornam as vítimas mais acessíveis ou


propensas a uma ofensa criminosa. A manifestação dos valores de um grupo pela força
física corresponde a uma característica de uma subcultura.

D O estilo de vida associado a fatores de risco, a modalidade de emprego exercida a


localização no momento da ofensa são fatores criminógenos vinculados ao
comportamento da vítima.

E Um dos enfoques sociais práticos é a prevenção para diminuição de vítimas de certos


tipos de crimes e conscientizações públicas de caráter preventivo.

72
Resposta: A alternativa incorreta é a letra “b”, pois esta abordagem teórica não relaciona a
vítima à responsabilidade, ainda que parcial, pelo surgimento do ato criminoso contra si,
mas focaliza os fators externos que a tornam mais propensa a sofrer ofensas.

GABARITO: “B”.

O crime político na visão da criminologia

Na criminologia, um crime político ou delito político é uma ofensa que envolve


atos ou omissões manifestas (onde há um dever de agir), que prejudicam os interesses do
Estado, do seu governo ou do sistema político. É para ser distinguido do crime de Estado,
em que são os próprios Estados que quebram tanto suas próprias leis criminais ou normas
de direito internacional público.

Os Estados usualmente definem como crimes políticos qualquer comportamento


percebido como uma ameaça, real ou imaginária, à sobrevivência do Estado, incluindo
crimes violentos e não violentos de oposição. Uma conseqüência dessa criminalização
pode ser que uma série de direitos humanos, direitos civis e liberdades sejam restringidos
em circunstâncias de tempo, espaço e contexto histórico, no qual certas modalidades de
conduta que normalmente não seriam consideradas criminosa em si (ou seja, que não é
anti-social de acordo com aqueles que a praticam nem em uma ontologia definida por
critérios morais ou éticos socialmente padrões) são criminalizadas na conveniência de
manutenção de um sistema de poder constituído (que pode ou não ser socialmente
legitimado).

Assim, enquanto a maioria dos que apóiam o atual regime pode considerar a
criminalização de um comportamento politicamente motivado como uma resposta
aceitável quando o agressor é conduzido por crenças mais extremas de matizes políticas,
ideológicas, religiosas ou outras, pode haver um questionamento de moralidade de uma lei
que criminaliza simplesmente a dissidência política ordinária.

Em um extremo, crimes como traição e terrorismo são políticos porque


representam um desafio direto ao Governo no poder. A espionagem é geralmente
considerada um ato criminoso. Mas os infratores não têm como objetivo derrubar o
governo ou depor seus líderes para agir de uma forma percebida como "política". Um
Estado pode perceber que isso o ameaça se os indivíduos defendem a mudança para a
ordem estabelecida, ou argumentam a necessidade de reformas de políticas estabelecidas
há muito tempo, ou envolvem-se em atos que significam algum grau de deslealdade, como

73
por exemplo, queimar a bandeira da nação em público. Mas o alcance de tais crimes pode
ser bastante menos direto.

Os criminologistas funcionais estruturais reconhecem que os Estados investem


seus recursos na manutenção da ordem através da conformidade social, isto é, uma cultura
particular é incentivada e mantida através dos discursos sociais primários, que podem
incluir preocupações religiosas, econômicas, sociais ou outras menos formais. Qualquer
interferência com os meios de comunicação ou os conjuntos de sentidos embutidos nas
próprias comunicações pode ser percebida como uma ameaça à autoridade política do
Estado. Portanto, seja em cópia impressa ou eletronicamente, se os indivíduos
distribuírem material contendo informações não censuradas que minam a credibilidade
dos meios de comunicação controlados pelo Estado, isso pode ser considerado ameaçador.

Além disso, até mesmo uma ofensa contra instituições, pessoas ou práticas não-
governamentais pode ser considerada política. Violência ou até mesmo discriminação
contra um grupo étnico ou racial, bem como greves sindicais ou piquetes contra
empregadores privados, pode ser percebida como um crime político quando aqueles no
poder vêem tal conduta como minando a estabilidade política (e econômica) do Estado.
Neste contexto, note que o Código de Conduta dos Encarregado de Aplicação da Lei
aprovado pela Associação Internacional de Chefes de Polícia diz em parte: "Os deveres
fundamentais de um policial incluem servir a comunidade, salvaguardar vidas e
propriedade, proteger os inocentes, manter a paz, garantindo os direitos de todos à
liberdade, igualdade e justiça ". Este código exige que a polícia se comporte de maneira
cortês e justa, que trate todos os cidadãos de forma respeitável e decente, e que eles nunca
usem força desnecessária. Quando o fazem, argumenta-se que isso constitui um crime (por
exemplo, como um assalto) e que se for institucionalizado, com o passar do tempo, o uso
de força desnecessária, vem a se tornar um crime de Estado.

Os criminologistas marxistas argumentam que a maior parte do crime político


surge dos esforços do Estado para reproduzir as estruturas de desigualdade: racismo,
sexismo, preferência étnica e vantagens de classe. Assim, os Estados protegerão os direitos
de propriedade e reduzirão os direitos dos sindicatos de representar os interesses dos
pobres. Até mesmo a guerra deve se basear nos problemas dos capitalistas locais em
países ricos no esforço de mover matérias-primas, lucros e empregos em uma economia
política globalizada, e se opor a tal guerra será para esta abordagem um crime político. Os
marxistas não discutem que, para que uma sociedade funcione eficientemente, a ordem
social é necessária. Mas eles consideram que, em todas as sociedades, uma classe,

74
geralmente caracterizada como a "classe dominante", ganha muito mais do que outras
classes. Os marxistas concordam com os funcionalistas que a socialização desempenha um
papel crucial na promoção da conformidade e da ordem. No entanto, ao contrário dos
funcionalistas, eles são altamente críticos das idéias, valores e normas da "ideologia
capitalista". Os marxistas modernos apontam a educação e os meios de comunicação
como agências socializadoras, que iludem ou "mistificam" a classe operária para se
conformarem a uma ordem social prevalente.

Questão Aplicada

A respeito do crime político e suas variáveis criminológicas, assinale a alternativa correta:

a) O terrorismo como construção de um tipo penal não é considerado como crime


político.
b) Abrange apenas ações que atentam contra os poderes constituídos e a organização
estatal.
c) Os crimes de natureza étnica ou religiosa se enquadram como crimes políticos
apenas quando afetam número indeterminado de pessoas.
d) Podem ser enquadrados os comportamentos não violentos de oposição ao sistema
estatal.
e) A espionagem é considerada um crime político pela sua essência.

Resposta: A única alternativa correta é a letra “d”, pois o crime político pode categorizar
condutas não violentas de oposição a um sistema estatal de Governo ou aos poderes
constituídos vigentes. Em relação à alternativa “a”, o terrorismo é uma das principais
construções dogmáticas do gênero crime político; quanto à alternativa “b”, também
ofensas contra pessoas e instituições não governamentais podem ser esquematizadas
como crimes políticos; em relação à alternativa “c”, ainda que focalizado em grupo
específico e limitado de pessoas, crimes praticados com direcionamento étnico ou
religioso podem ser enquadrados como crimes políticos; quanto à alternativa “e”, a
espionagem não se destina a derrubar regimes de governo ou mudar formas de Estado
necessariamente; portanto, nem sempre é um crime político em sua essência,
normalmente se situa em crimes contra a segurança nacional, como no caso da Lei
7170/83.

GABARITO: letra “d”.

75
A prevenção criminal na visão da criminologia

O sistema de prevenção criminal é qualquer abordagem que causa uma redução


no nível de criminalidade, com foco na causa do crime em detrimento de seus efeitos e na
redução e eliminação dos fatores que podem eliminar a criminalidade.

A prevenção criminal pode ser escalonada em três estágios ou fases: prevenção


primária, secundária ou terciária.

A prevenção primária busca impedir o problema de natureza criminal antes que


ele ocorra. Foca em fatores sociais e situacionais. Fundamenta-se em programas e
atuação baseados na redução de oportunidades para o crime e em fortalecer a
comunidade e as estruturas sociais.

A prevenção secundária atua sobre pessoas em situação propícia para a


delinqüência, com alto de risco de adotarem um comportamento criminoso. O foco
pode ser intervenções iniciais efetivas e rápidas, como programas para a juventude,
bem como ações tópicas em vizinhança de alto risco, normalmente situadas em
comunidades conflagradas.

Já a prevenção terciária focaliza a atuação do sistema de justiça criminal, seu


modo de operação e atuação, além de agir sobre o criminoso após o cometimento do
crime. Assim, sua atuação em programas sobre a população carcerária ganha alta
relevância. Seu escopo é agir sobre criminosos conhecidos e identificados, impedindo-os
de cometer novos crimes. Exemplos de operação do sistema de prevenção terciária
incluem programas focados na juventude em situação de risco e mecanismos de contenção
individual sobre o delinqüente através de sanções integradas com a comunidade e
intrvenções para tratamentos pontuais e específicos sobre delinqüentes delimitados.

Questão Aplicada

Assinale a alternativa incorreta quanto à prevenção secundária do crime e seus aspectos


fundamentais:

a) Programas com foco em jovens em situação de risco é uma das medidas


consideradas na política de prevenção secundária.
b) Atua sobre pessoas com propensão à delinquência.

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c) Ações voltadas à redução de oportunidades para a criminalidade e no
fortalecimento dos laços da comunidade determinam o êxito desta política de
prevenção.
d) Estratégias específicas de intervenção sobre comunidades conflagradas são
relevantes para o êxito destas medidas .
e) Vizinhança de alto risco é um dos fatores determinantes para a prevenção
secundária.

Resposta: Incorreta a letra “c”, pois trata-se de uma característica própria da prevenção
primária.

GABARITO: letra “C”.

A escola do positivismo criminológico é uma das duas principais escolas de


criminologia. Em contraste com a escola clássica, que pressupõe que os atos criminosos
são o produto da livre escolha e do cálculo racional, o positivista vê as causas do crime em
fatores fora do controle do agressor. Estes fatores devem ser identificados utilizando
métodos empíricos, em particular a análise de estatísticas.

A primeira forma de positivismo, que surgiu no final do século XIX, envolveu uma
tentativa de correlacionar o comportamento criminoso com certas características
fisiológicas. Isso levou à identificação de um "tipo criminal" genético - uma idéia que
agora está totalmente desacreditada.

Posteriormente, os positivistas psicológicos usaram estudos detalhados para


relacionar traços de personalidade com crimes específicos e para identificar aquelas
experiências formativas (por exemplo, negligência de pais) que poderiam produzir uma
predisposição geral para quebrar a lei. Alternativamente, os positivistas sociológicos
buscaram as causas do crime em fatores externos ao agressor, como pobreza, alienação,
alta densidade populacional e exposição a subculturas desviantes (por exemplo, gangues
ou consumidores de drogas). Uma abordagem particularmente influente foi aquela tomada
pela Escola de Chicago de meados do século XX, que usou métodos ecológicos para estudar
o colapso da ordem social em bairros do centro da cidade. Outras abordagens do
positivismo social incluem a criminologia marxista, que vê o crime como um produto
inevitável do conflito de classes e do sistema capitalista, ea criminologia crítica, que se
concentra no papel das elites de poder na definição do que e que é considerado criminoso.

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Mais recentemente, houve um retrocesso geral da teoria social e uma ênfase mais
pragmática na prevenção do crime.

Questão Aplicada

A respeito da teoria do positivismo criminológico, assinale a alternativa incorreta.

a) Os atos criminosos são produtos do livre-arbítrio e do cálculo racional do ser


humano.
b) A causa do crime relaciona-se a fatores fora do controle do agressor.
c) A definição de traços de personalidade inerentes a crimes específicos explicam a
causalidade de delitos.
d) Análises estatísticas são consideradas como método de análise.
e) Pobreza, alienação e alta densidade populacional são exemplos de fatores externos
que contribuem para a criminalidade.

Resposta: A única alternativa incorreta é a letra “a”, pois o livre-arbítrio e a escolha


racional são atributos considerados na escola tradicional de criminologia, não no
positivismo clássico.

GABARITO: letra “A”.

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