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Direito da Infância e da Juventude

Unidade 02
Direito da Infância e da Juventude - Unidade 02

Sumário

1. Introdução 18

2. Da Doutrina da Situação Irregular à Doutrina da Proteção Integral 19

3. Direitos Fundamentais: 20

3.1 Direito à vida 20

3.2 Direito à saúde 21

3.3 Direito à liberdade 22

3.4 Direito ao respeito 22

3.5 Direito à dignidade 23

3.6 Direito à educação 23

3.7 Direito à cultura, esporte e lazer 25

3.8 Direito à profissionalização e à proteção ao trabalho 25

Referências 29

Créditos 30

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Direito da Infância e da Juventude - Unidade 02

Unidade 02 - Direitos Fundamentais


Olá, essa é a Nota de Aula da 2ª unidade da disciplina Direito da Infância e da Juventude. Para alcançar
uma melhor compreensão do assunto é importante que você assista às web aulas e consulte dicas e complementos sugeridos no
decorrer da disciplina. Boa leitura!

Demonstrar a evolução no tratamento da problemática in-


fanto-juvenil, indicando a doutrina antiga e a atual, abor-
dando os direitos fundamentais da criança e do adolescente.
Objetivo

1. Introdução
Os Direitos Fundamentas são elementos basilares que norteiam toda a atividade legislativa e
concretude da ordem jurídica.
No que se refere aos direitos da infância e juventude, podemos afirmar que se encontram positivados
na Carta Magna no seu Art. 227 caput e outros artigos conexos: sendo duplamente encontrados no texto
constitucional, tanto no Capítulo VII - “Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso”,
como no TÍTULO II - “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”.
Assim, os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes têm um lugar todo especial no
universo dos direitos humanos. Isso porque além dos direitos fundamentais voltados a qualquer pessoa
humana, crianças e adolescentes gozam de direitos só seus, como o direito fundamental à convivência
familiar, ao lazer e a ser visto como pessoa em condição peculiar de desenvolvimento, levando à
consequência última de inimputabilidade penal.
Além de todos os direitos fundamentais, crianças e adolescentes contam com o princípio da prioridade
absoluta, ou seja, terão atendimento e proteção priorizados em quaisquer circunstâncias. Tais direitos fundamentais
são consagrados em diversos diplomas internacionais como a Declaração Universal dos Direitos das
Crianças, de 1959, e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, de 1989.
Em nosso ordenamento jurídico, seus direitos fundamentais são reconhecidos no caput do Art. 227
da Constituição Federal de 1988:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta


prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-
los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

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Em comunhão com o artigo constitucional supracitado, o ECA veio ratificar a proteção especial
direcionada às crianças e aos adolescentes quando prescreveu os primeiros artigos do Estatuto:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa


humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por
outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com
absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária.
Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e
à juventude.
Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou
omissão, aos seus direitos fundamentais.

O Art. 3º do ECA ratifica os princípios 1 e 2 da Declaração dos Direitos da Criança das Nações
Unidas, já os Arts. 4º e 5º foram extraídos dos Art. 6º e Art. 227 da Constituição Federal. Respaldado na
Doutrina da Proteção Integral, o Estatuto prevê ao longo dos seus ditames direitos específicos da criança
e do adolescente, além de tantos outros, peculiares a todos os seres humanos.
Buscaremos analisar cada um dos direitos fundamentais, expondo pontos mais importantes de cada um.

2. Da Doutrina da Situação Irregular à Doutrina da Proteção Integral


Conforme estudamos na Unidade I, o diploma protetivo da infância e juventude passou por importantes
mudanças, dando base para a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990.
Inicialmente tínhamos uma política social baseada na Doutrina da situação irregular, a qual
apregoava que a infância e juventude desamparada era considerada como detentora de uma patologia
social única, não havendo uma particularização entre os incontáveis casos nos quais se encontravam o
menor. Assim, qualquer situação socialmente condenável na qual a criança ou o adolescente se achasse era
denominada de “situação irregular”.
Nesse contexto sociolegal, não havia a análise do caso concreto, individualmente, todos
os eventos envolvendo menores eram abarcados em uma mesma condição, recebendo o mesmo
tratamento jurídico e social.

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Em decorrência das mudanças sociais já analisadas na unidade


passada, construiu-se a chamada Doutrina da proteção integral.
A nova visão protecionista dos direitos infantojuvenis consolidada
Importante na Constituição Federal de 1988 teve por base a Doutrina da
Proteção Integral, a qual fundamenta-se na ideia de que:
criança e adolescente são sujeitos de direitos
universalmente reconhecidos, não apenas direitos
comuns aos adultos, mas além desses, de direitos
especiais, provenientes de sua condição peculiar
de pessoas em desenvolvimento, que devem ser
assegurados pela família, Estado e sociedade.
(PONTES JR, 1996, p. 28)

Logo, toda criança e todo adolescente passaram a ser sujeitos de


direito protegidos integralmente, sendo-lhes oferecida prioridade
absoluta e imediata nas situações sociais que os envolvem.

Baseado nessa mudança de paradigma, estudaremos os direitos fundamentais das crianças e


adolescentes tendo por fundamento essa nova visão de prioridade absoluta.

3. Direitos Fundamentais

3.1 Direito à vida

Quando falamos em direito à vida é imperioso a compreensão de que não se restringe apenas à mera
sobrevivência. Ela implica, principalmente, no reconhecimento do direito de viver com dignidade,
direito assegurado a todo cidadão, viver com meios mínimos de sobrevivência adequada. No que se trata
da infância e adolescência, esses direitos necessitam ainda mais de uma concreta efetividade, garantidos
pela ordem jurídica desde o momento da concepção.
O Art. 7º do ECA estabelece que os direitos à vida e à saúde serão efetivados através de
políticas públicas que permitam o nascimento e desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições
dignas de existência:

Art. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de
políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em
condições dignas de existência.

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Dos Art. 7º ao 14 do ECA prevê-se regras gerais de garantia à


vida e à saúde da criança e do adolescente. Importa ressaltar que
havendo omissão do Estado na concretização desses direitos, é
Importante cabível a propositura de Ação Civil Pública.
As políticas públicas aqui referidas são de competência primor-
dialmente do Poder Executivo. Nesse diapasão, os poderes fe-
derais, estaduais e municipais devem agir conjuntamente para a
viabilização dos direitos aqui discutidos. Importa esclarecer que
compete ao Ministério Público, Defensoria Pública, ao Poder
Legislativo e à Sociedade a fiscalização das políticas públicas.

O direito à vida possui muitas ramificações de grande importância, como o direito à vida garantida
desde a concepção, a assistência às presidiarias para que possuam condições adequadas ao aleitamento
materno, inclusive aos filhos de mães submetidas a medidas privativas de liberdade.

3.2 Direito à Saúde

A Organização Mundial de Saúde entende que a saúde envolve não apenas o bem-estar físico,
mas também mental e social, trabalhando na prevenção de doenças.
No sistema de garantias preconizado pelo ECA, é dever da família, da comunidade e do poder
público assegurar esse direito fundamental às crianças e adolescentes, posto estar estreitamente vinculado
ao direito à vida.
O Art. 11 do ECA estabelece as obrigações dos estabelecimentos de saúde, abordando à
escrituração dos atendimentos e à identificação do neonato, com o escopo de evitar a troca acidental de
crianças recém-nascidas.

Art. 11. É assegurado acesso integral às linhas de cuidado voltadas à saúde da criança e do
adolescente, por intermédio do Sistema Único de Saúde, observado o princípio da equidade no
acesso a ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.
§ 1o A criança e o adolescente com deficiência serão atendidos, sem discriminação ou segregação,
em suas necessidades gerais de saúde e específicas de habilitação e reabilitação.
§ 2o Incumbe ao poder público fornecer gratuitamente, àqueles que necessitarem, medicamentos,
órteses, próteses e outras tecnologias assistivas relativas ao tratamento, habilitação ou reabilitação
para crianças e adolescentes, de acordo com as linhas de cuidado voltadas às suas necessidades
específicas.
§ 3o Os profissionais que atuam no cuidado diário ou frequente de crianças na primeira
infância receberão formação específica e permanente para a detecção de sinais de risco para o
desenvolvimento psíquico, bem como para o acompanhamento que se fizer necessário.
Art. 12. Os estabelecimentos de atendimento à saúde, inclusive as unidades neonatais, de terapia
intensiva e de cuidados intermediários, deverão proporcionar condições para a permanência em
tempo integral de um dos pais ou responsável, nos casos de internação de criança ou adolescente.
Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, de tratamento cruel ou degradante
e de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho

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Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.


§ 1o As gestantes ou mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção serão
obrigatoriamente encaminhadas, sem constrangimento, à Justiça da Infância e da Juventude.
§ 2o Os serviços de saúde em suas diferentes portas de entrada, os serviços de assistência social em
seu componente especializado, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e
os demais órgãos do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente deverão conferir
máxima prioridade ao atendimento das crianças na faixa etária da primeira infância com suspeita ou
confirmação de violência de qualquer natureza, formulando projeto terapêutico singular que inclua
intervenção em rede e, se necessário, acompanhamento domiciliar.

Quando falamos em direito fundamental à saúde, o Estado deve garantir uma abordagem global,
indo desde a prevenção ainda no útero materno à amamentação. Quando o ECA fala em atendimento integral
à saúde abrange tanto a assistência médico-hospitalar, passando pelo fornecimento de medicamentos, apoio
psicológico, dentre outros que se façam necessários em cada caso.
Nesse contexto, é imprescindível que o Estado crie mecanismos para efetivação do direito ao
atendimento integral à saúde.
Nesse Título do ECA referente ao direito à vida e à saúde, o legislador estabeleceu a obrigatoriedade
de encaminhamento à Justiça da Infância e Juventude às gestantes ou mães que manifestem o interesse
de entregar seus filhos à adoção, devendo, caso se julgue necessário, o acompanhamento da assistência
psicológica. Todas essas medidas visando o melhor interesse da criança.

3.3 Direito à Liberdade

O ECA ao disciplinar a matéria “liberdade” seguiu a linha constitucional, defendendo que a criança
e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo
de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis e sociais garantidos na Constituição e nas leis.
Ratificando o preceito constitucional, o legislador defendeu que o direito à liberdade, à dignidade e
ao respeito formam o alicerce para a formação do ser em desenvolvimento. Já no Art. 16 do ECA, houve
uma preocupação em especificar a abrangência do termo “liberdade”:
Art. 16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:
I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
II - opinião e expressão;
III - crença e culto religioso;
IV - brincar, praticar esportes e divertir-se;
V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação;
VI - participar da vida política, na forma da lei.

Do tema podemos citar vários aspectos importantes, quando fala em liberdade de opinião e expressão
percebe-se o cuidado do legislador em garantir que a criança e o adolescente possuam meios de livremente
formar seu entendimento sobre um determinado assunto, vez que não podemos cogitar do processo
educacional sem um raciocínio crítico da matéria discutida.

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Um detalhe interessante é que a opinião provêm de um aspecto íntimo e pessoal. Já quando falamos
em “expressão” entende-se como a opinião sendo externada, logo, encontra-se disciplinado no ordenamento
jurídico, vez que toda ação humana que pode causar danos a terceiros deve ser coibida, a exemplo da calúnia
e da injúria.

3.4 Direito ao Respeito

Interessante abordagem legislativa, a qual tratou do tema direito à liberdade, respeito e dignidade
de forma individualizada, particularizando cada qual de forma exaustiva. Determina em seu Art. 17, no
qual o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e
do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e
crenças, dos espaços e objetos pessoais.

Do artigo supracitado podemos tirar uma série de importantes


conclusões na defesa dos direitos aqui mencionados. O ser em
desenvolvimento deverá ser resguardado em suas mais diversas
Importante especificidades, não podendo sofrer qualquer tipo de violação
física, moral ou psíquica. Percebemos ao longo do Estatuto
diversos artigos concretizando a proteção supracitada, como
o Art. 76, o qual afirma que as emissoras de rádio e televisão
somente exibirão, no horário recomendado para o público
infanto-juvenil, programas com finalidades educativas, artísticas,
culturais e informativas. Essa é uma forma de prevenção visando
a inviolabilidade psíquica e moral da criança.

3.5. Direito à Dignidade

O direito à dignidade da pessoa humana, em especial do ser em desenvolvimento, pode ser


considerado mais do que um princípio, sendo um postulado normativo norteador da criação e aplicação
de todas as normas de direito.
A colocação desse direito no rol dos direitos do ECA tem o escopo de ratificar sua aplicação no
âmbito de proteção infantojuvenil. Valor que deve ser buscado por todos, Estado e sociedade, e merece
uma atenção especial quando falamos em criança e adolescente. Assim, disciplina o Estatuto ao preconizar
que é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer
tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

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3.6. Direito à Educação

Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua
pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;
V - acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.
Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como
participar da definição das propostas educacionais.

Embasados nos Arts. 205 e 206 da Constituição Federal, considera-se que a educação,
direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho.
O ECA estabelece diversos direitos da criança e do adolescente como ensino fundamental, obrigatório
e gratuito, inclusive para os que a eles não tiveram acesso na idade própria; atendimento educacional
especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; atendimento em
creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade; acesso aos níveis mais elevados do ensino,
da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; oferta de ensino noturno regular,
adequado às condições do adolescente trabalhador; atendimento no ensino fundamental, através de
programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.

Diante do exposto, importa salientar que, se é obrigação do Es-


tado ofertar o acesso ao ensino, cabe aos pais e responsáveis
Importante
pela criança e o adolescente a obrigação de matricular o filho
ou pupilo e controlar sua frequência e aproveitamento escolar.
Percebe-se que deve haver um trabalho conjunto entre Estado e
família visando o máximo de aproveitamento escolar do jovem.

Ainda, o estabelecimento de ensino fundamental tem a obrigação de comunicar ao Conselho Tutelar


todos os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes, bem como a
reiteração de faltas não justificadas e da evasão escolar. Busca-se aqui existir uma cooperação entre escola,
família e conselho tutelar no desenvolvimento da criança.
O ECA determina que é direito da criança e do adolescente ter acesso à escola pública e gratuita
próxima à sua residência. Nesse contexto, o mandamento do Estatuto deve ser entendido como um
benefício ao aluno e não uma imposição, logo, se tiver sido matriculado em escola distante da sua residência
não há qualquer lesão ao Estatuto.

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Leia também um Texto Complementar – INFORMATIVO 431


– STJ Reserva do Possível X Direito à Educação, disponível em PDF
na web aula da Unidade 2. Boa leitura!
Conversando

A Carta Magna prevê uma divisão de competências na esfera de responsabilidades para a educação.
Art. 211, CF/88: A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime
de colaboração seus sistemas de ensino.
§ 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições
de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva,
de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do
ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios;
§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil.
§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio.
§ 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino
obrigatório.
§ 5º A educação básica pública atenderá prioritariamente ao ensino regular.

Embora seja clara a previsão constitucional, percebemos uma realidade ainda distante da determinação
legal. Como direito fundamental à criança e ao adolescente, o ensino público vem se mostrando muito
abaixo do esperado para a concretização do princípio da prioridade absoluta.
No que se refere ao ensino ministrado à criança e ao adolescente portador de deficiência, a lei
específica diz que deve haver atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,
preferencialmente na rede regular de ensino. A ausência do Poder Público em implementar políticas
educacionais com o escopo de efetivar tal medida pode caracterizar responsabilidade civil e administrativa
do agente responsável pela omissão.
Por último, quando falamos no ensino noturno, o Estatuto não proíbe sua disponibilidade aos
menores de dezoito anos. Longe disso, procura incentivar os cursos noturnos para os adolescentes que
desenvolvam atividade laboral durante o dia, com o escopo de conjugar o ensino ao trabalho.

3.7. Direito à Cultura, Esporte e Lazer

Determina o ECA que no processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e


históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, sendo garantindo a liberdade da
criação e o acesso às fontes de cultura.
A necessidade do lazer faz parte do desenvolvimento da criança e do adolescente. Estudos vêm
comprovando o benefício do esporte associado ao processo de aprendizado, uma vez que o lúdico faz parte
do pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes. Preceitua o Art. 59 do ECA que os Municípios, com
apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações
culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude.

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3.8. Direito à Profissionalização e à Proteção ao Trabalho

O Estatuto da criança e do adolescente destinou especial atenção à profissionalização e proteção ao


trabalho infantojuvenil.
Primeiramente vale ressaltar o preceito constitucional sobre a matéria. O legislador constitucional
estabelece no Art. 7, inc. XXXIII, que é proibido o trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores
de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de
quatorze anos.
Já o ECA determina no seu Art. 60 que é proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos
de idade, salvo na condição de aprendiz. Tal preceito foi revogado pela Emenda à Constituição nº 20 de
1998, a qual alterou a redação do Art. 7º, elevando para dezesseis anos a idade mínima para o trabalho de
menores, salvo na condição de aprendiz para os maiores de quatorze anos (Art. 227, §3º, I, CF/88).
Essa proibição também tem por objetivo garantir que crianças e adolescentes tenham tempo de
estudar. Pois ao adentrarem no mundo do trabalho, além de não haver o tempo necessário para a frequência
regular às aulas, também retira-lhes o tempo de estudo, do lazer e do descanso.

Quando falamos em direito à profissionalização, abrangemos


o direito à proteção ao trabalho, direitos previdenciários
Importante
e garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola.
Importa ressaltar que qualquer trabalho executado pelo adoles-
cente deve respeitar a condição peculiar da pessoa em desenvol-
vimento, buscando a capacitação profissional e adequação ao
mercado de trabalho.

O Art. 63, ECA fala em três princípios norteadores na realização do trabalho pelo adolescente:
Art. 63. A formação técnico-profissional obedecerá aos seguintes princípios:
I - garantia de acesso e frequência obrigatória ao ensino regular;
II - atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente;
III - horário especial para o exercício das atividades.

O artigo supracitado preceitua que o trabalho do jovem deve levar em consideração as peculiaridades
da idade, tais como alterações de ânimo, força física, personalidade em fase de formação, bem como
variações hormonais. Recordando que quando fala em horário especial, busca-se priorizar o acesso escolar
de tal forma que o trabalho não atrapalhe a formação acadêmica do adolescente. Sendo expressamente
vetado o trabalho noturno.
Com escopo de proteção integral do jovem, dispõe o ECA, no Art. 67, que ao adolescente empregado,
aprendiz, em regime familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental ou
não-governamental, é proibido o trabalho:

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• Noturno, realizado entre as vinte e duas horas de um dia e as cinco horas do dia seguinte;
• Perigoso, insalubre ou penoso;
• Realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu desenvolvimento físico, psíquico,
moral e social;
• Realizado em horários e locais que não permitam a frequência à escola.

Tema muito discutido atualmente é a possibilidade de trabalho artístico e cultural ao menor de


quatorze anos. Não há regulamentação legal ao trabalho artístico. Encontramos correntes que defendem
sua total impossibilidade, embora seja minoritária, entendimento esse com base no Art. 7º, XXXIII da
Constituição Federal de 1988, anteriormente citado.
Já a Lei nº 6.533, de 24 de maio de 1978, que regulamenta a profissão de artista, não dispõe sobre
esse assunto. Para elucidar essa matéria, os aplicadores e doutrinadores do Direito têm se utilizado da
Convenção 138 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, ratificada pelo Brasil.
Essa convenção permite, em seu Art. 8º, incisos 1 e 2, que o Juiz de Direito conceda, por meio de
permissões individuais (alvarás judiciais) exceções à proibição de admissão ao emprego ou trabalho com
idade abaixo da mínima legal para participação em representações artísticas. Contudo importa esclarecer
que essas permissões devem limitar o número de horas do emprego ou trabalho autorizadas e prescrever
as condições em que poderá ser realizado, respeitando, assim, as normas constitucionais e do ECA que
norteiam a proteção do jovem na realização do trabalho.
Conclui-se que, pela Convenção da OIT, em regra, é proibido o trabalho ao menor de dezesseis
anos. Apenas se admite como exceção à regra o trabalho infantil artístico, para casos individuais, mediante
autorização judicial.
Logo, tem-se que o trabalho artístico infantil não se insere no preceito geral, mas foi colocado em um
dispositivo à parte. Sendo sempre necessário a autorização individual para regulamentar a forma de inserção
de crianças e adolescentes em atividades artísticas.
Um último assunto merece atenção no que tange a proteção ao trabalho do menor de dezoito anos.
Quando falamos em trabalhador rural entendemos que empregado rural é toda pessoa física que, em
propriedade rural ou prédio rústico, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural, sob
dependência deste e mediante salário.
No que se refere ao trabalho rural executado por menor de idade, encontramos na Lei 5889/73
alguma regulamentação, pois, no seu Art. 8º, veda aos menores de 18 (dezoito) anos o trabalho noturno, em
conformidade com o disposto no inciso XXXIII do Art. 7º da CF. Depois estabelece no parágrafo único
do Art. 10º que contra o menor não corre prescrição.

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Outro aspecto com relação ao menor de idade, e tratado pela Lei do Trabalho Rural, é com relação ao
salário desses trabalhadores. Determina o Art. 11 que os maiores de 16 anos que trabalhem no meio rural é
assegurado o salário-mínimo igual ao adulto trabalhador.
A Lei Rural traz horários diferenciados para o trabalho noturno, assim, para efeitos de trabalho rural,
o trabalho do menor de idade é proibido entre os períodos compreendidos entre 21 (vinte e uma) e 5 (cinco)
horas na lavoura, e na pecuária entre 20 (vinte) e 4 (quatro) horas.

Finaliza-se aqui a 2ª unidade da disciplina do Direito da Infância


e da Juventude!
Agora, acesse sua web-aula, lá você dispõe de vídeos, textos
Conversando complementares e um quiz acerca do conteúdo da unidade, e
não esqueça que você conta com o apoio do ambiente virtual
para esclarecer dúvidas e participar de discussões.
Bons estudos!

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Referências

AMIN, Andréa Rodrigues. In MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade (Coord). Curso

de Direito da Criança e do Adolescente. 4.ed. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Juris, 2010.

ALVES, Roberto Barbosa. Direito da Infância e da Juventude. São Paulo: Saraiva, 2005.

ISHIDA, Valter Kenji. Estatuto da Criança e do Adolescente: doutrina e jurisprudência.

15. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

CHAVES, Antônio. Comentários ao estatuto da criança e do adolescente. 2 ed. São Pau-

lo: Ltr, 1997.

VELÁSQUEZ, Miguel Granato. Direitos humanos de crianças e adolescentes. Rio Gran-

de do Sul, 2003.

CURY; GARRIDO; MARÇURA. Estatuto da Criança e do Adolescente Anotado. 3. ed.

São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.

TAVARES, José de Farias. Comentários ao Estatuto da Criança e do Adolescente. 6. ed.

Rio de Janeiro: Forense, 2006.

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Créditos

Núcleo de Educação a Distância


O assunto estudado por você nessa disciplina foi planejado pelo professor conteudista, que é o
responsável pela produção de conteúdo didático, e foi desenvolvido e implementado por uma equipe
composta por profissionais de diversas áreas, com o objetivo de apoiar e facilitar o processo ensino-
aprendizagem.

Coordenação do Núcleo de Educação Roteiro de Áudio e Vídeo


a Distância José Glauber Peixoto Rocha
Lana Paula Crivelaro Monteiro de Almeida
Produção de Áudio e Vídeo
Supervisão Administrativa José Moreira de Sousa
Denise de Castro Gomes
Identidade Visual / Arte
Produção de Conteúdo Didático Francisco Cristiano Lopes de Sousa
Anarda Pinheiro Araújo Viviane Cláudia Paiva Ramos
Ana Paula Araújo de Holanda
Programação / Implementação
Cláudio Alcântara Meireles Júnior
Jorge Augusto Fortes Moura
Diane Espindola Freire Maia

Design Instrucional Editoração


Andrea Chagas Alves de Almeida Camila Duarte do Nascimento Moreira

Projeto Instrucional Revisão Gramatical


Bárbara Mota Barros Luís Carlos de Oliveira Sousa

O trabalho Direito da Infância e da Juventude - Unidade 02: Direitos Fundamentais de Anarda Pinheiro Araújo, Ana Paula Araújo de Ho-
landa, Cláudio Alcântara Meireles Júnior, Diane Espindola Freire Maia, Núcleo de Educação a Distância da UNIFOR está licenciado com
uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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