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Razão da esperança

Teologia para hoje

Leandro Antonio de Lima


Razão da esperança - Teologia para hoje, de L eandro A n to n io de L im a © 2 0 0 6 E ditora C u ltu ra
C ristã. Todos os direitos são reservados.

I a edição —2 0 0 6
3 .0 0 0 exem plares

Revisão
H erm isten M aia Pereira d a C o sta
C lau d ete Á gua de M elo

Editoração
A ssisnet

Capa
M ag no Paganelli

Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:


Cláudio M arra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, André Luiz Ramos, Francisco Baptista de Mello, Mauro
Fernando Meister, Otávio Henrique de Souza, Ricardo Agreste, Sebastião Bueno Olinro, Valdeci da Silva
Santos.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lima, Leandro Antonio de

L732r Razão da esperança - teologia para hoje / Leandro Antonio de Lima. São
Paulo: C ultura Cristã, 2006.

672p. ; 16x23 cm.

ISBN 85-7622-140-3

1. Teologia Sistemática 2. Teologia Reformada 3. Doutrina ï . Lima, L.A. II.Tftulo.

CD D - 230.44

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Superintendente-, Haveraldo Ferreira Vargas


Editor. Cláudio Antônio Batista Marra
Sumário

Introdução......................................................................................................... 09
1. A revelação de D eus................................................................................... 13
2. Deus existe?.................................................................................................. 27
3. Conhecendo a D eus....................................................................................39
4. A Trindade: Da teoria à prática.................................................................51
5. Rocha eterna: O Deus imutável............................................................... 67
6. O teu Deus, onde está?...............................................................................77
7. Soberania de Deus ou livre-arbítrio?....................................................... 91
8. Predestinação: Deixando Deus ser D eus.............................................101
9. O Santo de Israel....................................................................................... 121
10. O enigma do m al.....................................................................................135
11. Criação ou evolução?..............................................................................147
12. Voltando ao início: A criação do hom em ......................................... 157
13. Providência: O Deus que trabalha......................................................173
14. Deus de m ilagres..................................................................................... 183
15. A queda: A mãe das tragédias..............................................................199
16. A morte: O último inim igo..................................................................209
17. O lugar dos mortos................................................................................ 217
18. O evento central da história.................................................................227
19. O filho de M aria......................................................................................243
20. A morte do Mediador............................................................................ 253
21. O substituto dos pecadores..................................................................267
22. A extensão da expiação de Cristo........................................................283
23. Ressurreição: A grande vitória.............................................................295
24. Ascensão: A coroação do Rei...............................................................309
25. A salvação pela graça............................................................................. 319
26. Cristo em nós: A união mística............................................................329
27. Muitos chamados, poucos escolhidos.............................................. 339
28. Regeneração: Da morte para a v id a ................................................... 353
29. Conversão: Uma guinada na existência........................................... 363
30. Justos pela f é ..........................................................................................373
31. Santificação: As alturas da f é ..............................................................383
32. A bênção da perseverança..................................................................399
33. O batismo com o Espírito Santo.......................................................409
34. Plenitude espiritual..................................................................................433
35. Mantendo a plenitude.......................................................................... 445
36. Os dons do E spírito............................................................................ 455
37. O pecado contra o Espírito................................................................475
38. A igreja verdadeira............................................................................... 483
39. Os sacramentos e a espiritualidade.....................................................497
40. Adoração: A grande prioridade.........................................................511
41. A ordem do culto..................................................................................525
42. Esperança escatológica........................................................................ 543
43. Imortalidade...........................................................................................561
44. Sinais do fim...........................................................................................569
45. A vinda do inim igo.............................................................................. 581
46. A segunda vinda de Cristo.....................................................................591
47. O Reino m ilenar......................................................................................599
48. A ressurreição fin al.................................................................................615
49. O dia do ju ízo ..........................................................................................623
50. A esperança da eternidade.................................................................... 631
Notas................................................................................................................. 643
Bibliografia...................................................................................................... 667
Prefácio
W W

João Calvino (1509-1554), comentando o texto de ITimóteo 6.3, diz


que “[a doutrina] só será consistente com a piedade se nos estabelecer no
temor e no cilto divino, se edificar a nossa fé, se nos exercitar na paciên­
cia e na humildade e em todos os deveres do amor”.1 Estamos convenci­
dos de que a genuína piedade bíblica começa pela compreensão correta
do mistério de Cristo, conforme nos diz Paulo: “Evidentemente, grande
é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justifi­
cado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido
no mundo, recebido na glória” (lTm 3.16). Todo o conhecimento cristão
deve vir acompanhado de piedade: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de
Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno
conhecimento da verdade segundo a piedade” (Tt 1.1). Portanto, deve­
mos indagar sempre, a respeito de doutrinas consideradas evangélicas, se
elas, de fato, contribuem para a piedade. A genuína ortodoxia será plena
de vida e piedade.
Partindo desses princípios, tenho a honrosa alegria de apresentar o livro
Ratção da Esperança: Teologia para Hoje. A obra do Rev. Ms. Leandro Antonio
de Lima, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, é um tratado de Teologia
que aborda de forma sistemática, profunda, simples e prática diversos tópi­
cos da chamada Teologia Sistemática sem perder o seu propósito de ser com­
preensível e edificante. Ela certamente é resultado do trabalho de vários anos
como escritor profícuo de lições para Escola Dominical da Igreja Presbite­
riana do Braáil, respeitado pastor em Guarapuava, Paraná, e professor de
teologia em diversas instituições teológicas. O autor, mesmo sendo muito
jovem, acumula ampla experiência docente, pastoral e administrativa.
O Rev. Leandro, como reformado que é, partindo da autoridade inerrante
e infalível daá Escrituras, propõe-se a apresentar a razão da nossa esperan­
ça (IPe 3.15,16), fundamentando-a não em lendas ou ficções, mas na Pala­
vra de Deus, que nos fala do nosso passado, orienta o nosso presente e
orienta-nos quanto ao futuro. Desse modo, o autor, de maneira séria e
corajosa vai desenleando diante de nós tópicos difíceis da Teologia, de­
monstrando çom fidelidade bíblica caminhos que podemos seguir de modo
coerente com a Palavra.
Este trabalho tem relevância acadêmica - podendo, portanto, ser usado
em Seminários, Faculdades de Teologia e Institutos Bíblicos e devocional,
constituindo-se num excelente manual de estudo para a Escola Dominical
e classes especiais de doutrina.
Portanto, o autor está de parabéns, bem como a Editora Cultura Cristã,
e o povo evangélico em geral, que busca uma literatura séria, esclarecedora
e edificante.

Maringá, agosto de 2005.


Hermisten Maia Pereira da Costa
A gr a d e cim en to s
A Deus, acima de tudo...
A minha esposa, Vivian, pelo companheirismo.
A minha família, pelo apoio.
A Igreja Presbiteriana Betei, pela compreensão.
Ao Rev. Hermisten, pela leitura, pelas sugestões e pela correção do texto.
Ao Rev. João Alves pelas sugestões.
Ao Rev. Cláudio Marra (editor), por acreditar neste trabalho.
Introdução

"Santificai a Cristo, c o m o Senhor, e m vo ss o coração, esta n d o s em p r e prep a ra d os


p ara re sp o n d e r a todo aquele que vos p ed ir razão da e sp e ra n ça que há e m vós,
fa z e n d o - o , todavia, c o m m a n s id ã o e temor, c o m boa con sciên cia"
(1 Pe 3 .1 5 ,1 6 - n egrito acrescentado).

Costuma-se dizer: “Repetir sem entender é coisa de papagaio”. Os do­


nos de papagaios os domesticam para que eles repitam palavras decoradas.
As vezes, se pensa que os papagaios estão sendo inteligentes por repetirem
o que foram condicionados a dizer. Porém, a verdade é que as pobres aves
literalmente “não sabem o que estão falando”. Pensamos que muitas vezes
uma situação semelhante ocorre na igreja. Os líderes eclesiásticos fazem as
pessoas engolirem um tipo de Cristianismo sem lhes dar explicações con­
vincentes sobre o que estão ensinando e sem demonstrar que os seus ensi­
nos têm base na Palavra de Deus. E esses “pobres cristãos” saem por aí
repetindo ensinos que foram condicionados a repetir. Talvez eles nunca
pensem sobre eles. Um cristão deveria ser alguém com discernimento; al­
guém que não pode engolir tudo o que ouve sem considerar atentamente o
que está sendo dito. O caos da irracionalidade moderna não deveria atingir
a fé. Porém, infelizmente, hoje em dia, as grandes doutrinas da Palavra de
Deus estão quase que esquecidas. Em geral, as pessoas sabem muito pouco
sobre os atributos de Deus, as naturezas de Cristo, ou sobre o verdadeiro
significado do batismo com o Espírito Santo. E quando elas sabem, não
parecem demonstrar muito interesse. As questões escatológicas são discu­
tidas, mas só em nível superficial e a respeito de determinados temas, como,
por exemplo, o milênio ou o arrebatamento. Uma das razões dessa falta de
conteúdo substancial nessas discussões tem a ver com as obras teológicas
publicadas. De modo geral, muitas vezes as boas obras de teologia são es­
critas em linguagem inacessível para os não-iniciados. Enquanto isso, as
prateleiras das livrarias cristãs estão cheias de livros de auto-ajuda, que pro­
metem soluções milagrosas em apenas “alguns passos”, mas que não tra­
zem verdadeiro crescimento na graça e no conhecimento de Deus (2Pe
3.18). O fato é que ser cristão, hoje, está se tornando apenas uma questão
10 Razão da esperança

de sentimentalismo. E, muitas vezes, até de gosto pessoal. No senso co­


mum dos nossos dias, o cristão verdadeiro não é aquele que “sabe” mais, e
sim aquele que “sente” mais (teve “experiências”). A ênfase no sentimenta­
lismo é uma das marcas do relativismo do mundo pós-moderno. Até mes­
mo porque os sentimentos são extremamente subjetivos e relativos.
De acordo com a Bíblia, como cristãos, devemos estar “sempre prepa­
rados para responder a todo aquele que nos pedir ra^ão da esperança que há
em nós” (IPe 3.15, ênfase acrescentada). Esperança é algo que aponta para
o futuro. Porém, a certeza do futuro se constrói a partir de um passado e de
um presente sólidos. A fé deve ser bem fundamentada e amplamente con­
vincente, não somente no aspecto emocional, mas também no racional.
Todo cristão sincero deve chegar a um estágio na sua vida em que precisa
perguntar a si mesmo: “Será que a minha religião é verdadeira?” E claro que
respostas pré-fabricadas não satisfazem e nem devem satisfazer a ninguém.
Como diz Michael Horton, todo cristão deveria relutar em aceitar com o
coração uma fé que falha em convencer a sua mente.2 Porém, a verdade é
que, muitas vezes, a igreja se torna o local em que a mente é menos exigida.
O fato é que, quando os rituais substituem a vida, “verdades”, que podem
ou não ser verdadeiras, são decoradas e repetidas quase que com desinte­
resse pela maioria dos “fiéis”. Infelizmente, os cristãos estão acostumados
a não pensar a respeito da sua fé. Eles são como papagaios, ensinados a
repetir coisas que não entendem, apenas para causar admiração nos outros.
Nestes tempos, quando a autojustificação ou a auto-ajuda têm domina­
do a pregação, as publicações e os programas televisionados, precisamos
desesperadamente voltar para a mensagem da graça, para a mensagem do
comprometimento bíblico-teológico. O nosso sentido e o nosso propósito,
como indivíduos e como igreja, dependem amplamente do grau de clareza
em compreendermos as verdades sobre quem Deus é, quem nós somos, e
o que o plano de Deus para a História envolve. Só assim poderemos dizer
por que a nossa esperança tem razão (é racional), e qual é essa razão.
Mesmo sabendo da complexidade de muitos dos temas aqui considera­
dos, objetivamos dialogar sobre questões que fazem parte do dia-a-dia dos
crentes (aqueles que têm fé) e mesmo dos não-crentes. Não queremos tra­
tar de assuntos teológicos como se eles nada tivessem a ver com a vida
prática das pessoas. O que se pretende é uma análise sincera, de uma pers­
pectiva bíblica, a respeito de temas selecionados que são vitais para um
verdadeiro conhecimento de Deus e uma vida cristã frutífera. Não importa
se as nossas fraquezas tenham que ser expostas para que a verdade de Deus
brilhe ainda mais forte diante de nossos olhos. E certo que, quando con-
Introdução II

frontamos as nossas crenças pessoais com a Escritura, percebemos que


muitas vezes essas crenças se mostram infundadas. A razão é que, talvez,
jamais tenhamos estudado seriamente o assunto de uma perspectiva bíbli­
ca. De qualquer modo, o nosso apego à Escritura deverá ser maior do que
qualquer coisa, até mesmo do que os nossos gostos pessoais.
Agora, uma palavra ao leitor com relação à metodologia adotada. Aqui
não faremos questionamentos sobre a Bíblia, mas a partir da Bíblia. A nossa
concepção é que muitos questionamentos e “releituras” da Bíblia já foram
feitos e pouco ou nenhum proveito resultou para o povo de Deus, especial­
mente para as pessoas mais simples. Este trabalho assume a inerrância e a
suficiência da Escritura para a fé cristã, e anela por colocar a teologia na
linguagem de todos os crentes, Não assumimos também a postura de que
haja uma teologia para a Europa, outra para a África e outra para a América
Latina. Teologia é teologia em qualquer lugar do mundo; é a busca pelo
conhecimento de Deus, e Deus é o mesmo em qualquer lugar. Por outro
lado, o estudante de teologia nunca pode se esquecer de um princípio funda­
mental: sua teologia precisa ser útil. Podemos perceber um excesso de abs­
trações teológicas em muitas obras - profundo conhecimento histórico e
pesquisa séria, porém, pouca aplicação. Enquanto os “intelectuais” cristãos
se deliciam com manjares, é possível que o povo simples esteja sem o ali­
mento de que ele tanto precisa.3 Precisamos mais do que nunca traduzir a
teologia para a linguagem do povo, uma teologia com aplicação prática. O
objetivo deste estudo é conhecer melhor o Deus da Escritura para desenvol­
ver um relacionamento melhor com ele, ou seja, uma teologia para a vida.
Ainda é importante que, por outro lado, se tenha em mente que vive­
mos dias em que o estudo das doutrinas bíblicas tem sido deixado para o
segundo plano. A doutrina tem sido associada à frieza espiritual. Chavões
como: “A letra mata”, “quem estuda esfria”, usados indiscriminadamente
ou fora de contexto, têm impedido muitos crentes de crescer em conheci­
mento espiritual. E claro que, se você está lendo este livro, é porque não
compactua com esse pensamento, mas, de qualquer modo, importa relembrar
que o conhecimento das doutrinas sempre foi uma das maiores preocupa­
ções de Jesus e da igreja primitiva. Conhecer as doutrinas bíblicas foi uma
das primeiras marcas da verdadeira espiritualidade na igreja primitiva (At
2.42).4 Quanto mais conhecemos Deus e suas obras, conforme ele se reve­
la na sua Palavra, melhor poderá ser o nosso relacionamento com ele. Se a
vida espiritual é a que importa, é interessante lembrar que Jesus disse que o
Espírito viria para nos guiar a toda a verdade (Jo 16.13). Segundo o entendi­
mento do próprio Jesus, a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.17). Desse
12 Razão da esperança

modo, entendemos que o Espírito Santo nos orienta no estudo dessa Pala­
vra. E isso é a verdadeira espiritualidade
A história da igreja tem demonstrado, ao longo dos séculos, que a coisa
que mais destrói a vida e a comunhão autêntica da igreja é a falsa doutrina,
especialmente os falsos ensinos sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O
Senhor Jesus, e especialmente seus apóstolos, demonstraram profunda pre­
ocupação com essa questão, e apontavam para o futuro como um tempo
muito conturbado nesse sentido (Mt 24.11; 2Tm 4,3,4). À luz do que temos
visto hoje, percebe-se que eles estavam rigorosamente certos. Entendimen­
tos errôneos acerca de Deus têm minado a verdadeira religião nos quatro
cantos do mundo, introduzindo erros e heresias destruidores, tanto na vida
individual do povo de Deus como também em denominações inteiras. Co­
nhecer doutrina não é coisa sem importância; é fundamental para os dias
em que vivemos.
O propósito deste trabalho é apresentar, numa linguagem simples e aces­
sível, os principais ensinamentos da teologia. Abordamos de forma breve
todas as oito disciplinas da Teologia Sistemática (Introdução, Teontologia,
Antropologia, Cristologia, Soteriologia, Pneumatologia, Eclesiologia e Es-
catologia)5, concentrando-nos nos principais temas da teologia que tenham
interesse para os teólogos e também para as pessoas em geral. De certo
modo, são capítulos avulsos que podem ser lidos em seqüência, ou aleato­
riamente, conforme o interesse ou a necessidade da pessoa. O nosso inte­
resse não é apenas o conhecimento intelectual sobre essas matérias, mas
também a aplicação prática delas. A nossa busca é pelo conhecimento que
pode e deve influenciar o nosso dia-a-dia, dando-nos maior firmeza na fé,
um relacionamento mais estreito com Deus e uma condição sempre pronta
para dar, a todo aquele que nos pedir, ra%ão da esperança que há em nós,
porém, fazendo isso com temor, mansidão e boa consciência.
A revelação de Deus1

Há dois modos de se fazer teologia, e isto depende de como se aborda a


Escritura. A teologia, necessariamente, precisa ser a Teologia da Bíblia,2
porém, há duas maneiras de nos aproximarmos da Escritura: 1) com o
pressuposto da fé; 2) com o pressuposto da dúvida. As duas maneiras têm
sido adotadas ao longo da História. Quem se aproxima com o pressuposto
da fé entende que a Escritura é inspirada, infalível e inerrante em tudo o
que ela ensina. Esse estudioso não se preocupará primariamente com ques­
tões a respeito de fontes, desenvolvimento de tradições, questionamento
de datas ou autorias. Ele procurará entender o ensino da Bíblia e se subme­
terá a ele, porque acredita ser verdadeiro e normativo. Além disso, entende
que, ao longo dos séculos, a Escritura já deu suficientes provas de sua au­
tenticidade. Essa posição não significa estar fechado para discussões, mas
que não se está disposto a abandonar a fé como pressuposto fundamental
da teologia. Anselmo, que foi Arcebispo da Cantuária (1033-1109), dizia
que teologia é a fé em busca de compreensão.3 E, de fato, não se estuda
teologia necessariamente para questionar a fé - embora algumas vezes ela
precise de questionamento - , mas para desenvolver e fundamentar a fé.4
Geralmente, aqueles que adotam essa perspectiva são chamados de “con­
servadores”, e, às vezes, até de “fundamentalistas”, o que nem sempre é um
rótulo adequado. E possível identificar uma linha histórica de estudiosos
desse tipo, desde os dias atuais até o tempo dos apóstolos. Recentemente,
tem surgido uma nova maneira de abordar a Escritura. Trata-se do que
chamamos aqui de pressuposto da dúvida. Especialmente a partir do
Iluminismo (séc. 17), e com as descobertas científicas dos séculos seguin­
tes, muitos estudiosos começaram a abordar a Bíblia como um livro mera­
mente histórico, que precisava ser analisado de uma perspectiva científica.
Já não se aceitava mais o pressuposto da fé. A partir daí, começou-se a
questionar as narrativas bíblicas, principalmente as que narram aconteci­
mentos sobrenaturais. Um grande esforço foi feito para recuperar o Jesus
histórico que teria sido distorcido pelos evangelhos. A autoria mosaica do
14 Razão da esperança

Pentateuco foi rejeitada e, em seu lugar, foi desenvolvida uma complexa


teoria de fontes. Assim, o Pentateuco foi dividido em diversas ramificações
que seguiriam fontes anteriores e que teriam sido compiladas por alguém
depois do Exílio. Essa abordagem ficou conhecida como Crítica das Fon­
tes. Posteriormente, falou-se em crítica das formas, crítica das tradições,
crítica da redação, etc. O que todas essas abordagens têm em comum é a
perspectiva de crítica da Escritura sem respeito ao seu caráter inspirado.
Esse pressuposto de abordagem não rejeita o Cristianismo, mas não está
disposto a aceitar que tudo o que está registrado na Bíblia é verdadeiro.
Depois de tantos estudos e especulações, no entendimento desses estudio­
sos, pouca coisa na Escritura permanece como verdadeira e acima de qual­
quer suspeita. Os adeptos dessa abordagem são geralmente rotulados de
“liberais”. Como já foi dito, essa abordagem começou a ser feita durante a
época do Iluminismo, e ela permanece até hoje como a forma mais predo­
minante nos meios acadêmicos teológicos do mundo todo, embora com
muitas variações.
Não é o propósito desta obra discutir profundamente esta questão, e o
estudante mais interessado deverá se preocupar em pesquisar outras fontes.
Justifica-se a opção pela primeira forma de abordagem por ser a forma
histórica mais praticada, a que não violenta os escritos bíblicos e a que
mantém as verdades essenciais do Cristianismo. O pressuposto da dúvida,
embora tenha fornecido alguma ajuda para o aprofundamento acadêmico,
tem causado esfacelamento no Cristianismo mundial ao retirar a sua base
de fé e comprometer o ensino bíblico sobre a Redenção e, assim, demolin­
do a própria estrutura do Cristianismo. Além disso, é necessário que se
esclareça que todas as teorias racionalistas permanecem apenas como teo­
rias, carecendo de provas documentais. Amplo trabalho apologético (defe­
sa da fé) tem sido feito pelos conservadores no sentido de rebater as teorias
racionalistas. Na verdade, até hoje não há razões suficientes para se aban­
donar o pressuposto de fé na integridade das Escrituras.

Propósito e progressividade
Uma vez que a integridade da Escritura é assumida, é necessário enten­
der como ela surgiu e chegou até nós. Neste capítulo, que talvez seja o mais
“técnico” do livro, veremos muito resumidamente como isso aconteceu.
A revelação especial é o ato divino pelo qual Deus se torna conhecido
de modo redentor ao homem decaído. Sem a revelação, Deus seria eter-
A revelação de Deus 15

namente o absconditus (escondido), pois a natureza de Deus é tão diferente


da dos homens, que os homens jamais conseguiriam descobrir qualquer
coisa de Deus por si mesmos. Talvez, por essa razão, Paulo faça eco às
palavras do Salmo 14 ao dizer: “Não há quem entenda, não há quem bus­
que a Deus” (Rm 3,11; SI 14.2). Isso parece contraditório diante do que se
vê no mundo, onde as pessoas, quase que freneticamente, procuram Deus
para resolver os seus problemas. Porém, esse é justamente o problema,
pois, no fundo, as pessoas não estão buscando Deus, mas simplesmente
buscando algo dele. A rotina comum do ser humano é fugir de Deus, como
Adão e Eva, que se esconderam entre as árvores do jardim (Gn 3.8). E,
nessa mesma cena, vemos Deus procurando o casal e chamando-o para
restaurar o relacionamento. Isso é revelação, pois se trata de um movimen­
to de Deus em direção ao homem, dando-se a conhecer, revelando o seu
plano redentor com o objetivo de restaurá-lo. A revelação especial, que
deve ser distinguida da revelação geral,5 concentra-se na revelação do pla­
no redentor de Deus. Adão, antes da queda recebeu revelação especial não-
redentora, mas, depois da queda, pode-se dizer que a revelação especial de
Deus é uma revelação com propósitos redentores. Portanto, é possível iden­
tificar a revelação especial com a Bíblia.
Um aspecto importante da revelação especial é que ela é progressiva. O
se quer dizer com isso é que a Escritura não foi revelada e registrada num
único momento, mas Deus usou diversas pessoas, em diversas épocas, para
registrar, parte por parte, a revelação que ele ia fazendo de si mesmo. De
certo modo, Gênesis 1.1 é o resumo de toda a Bíblia, pois contém
embrionariamente tudo o que foi explanado depois. Ao longo da História,
Deus foi oferecendo à humanidade mais conhecimento de si mesmo. Disso
decorre que é preciso entender o significado como um todo, em toda a
Escritura, entendendo que muitas coisas, que não estão claras a princípio,
serão esclarecidas depois. Isso pode ser visto nas várias ministrações da
aliança divina, que embora seja uma só, foi renovada em momentos subse­
qüentes, e elementos novos foram acrescentados, revelando mais do cará­
ter divino e do seu plano redentor.

M o d o s de revelação
O autor aos Hebreus diz: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes
e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou
pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também
16 Razão da esperança

fez o universo” (Hb 1.1,2). Mesmo antes de a Bíblia ter sido escrita, Deus já
se revelava de modo especial para o seu povo. Dois modos muito usados
por Deus na antiguidade foram: a teofania e a profecia.

Revelação p o r teofania
Teofania, que literalmente significa “manifestação de Deus”, refere-se
aos aparecimentos de Deus, bem como as demonstrações fantásticas do
seu poder. A teofania foi predominante até o período mosaico. Deus se
manifestou a homens como Adão (Gn 2.15-17, 22,23; 3.8), Abraão (Gn
12.2; 28.13) e, especialmente, Moisés. A Bíblia afirma que, depois de Moi­
sés, esta não seria mais a maneira “oficial” de revelação (Dt 34.10), embora
alguns homens do Antigo Testamento tenham recebido teofanias, como
Elias, por exemplo. A característica principal da teofania é o apelo ao físico,
ao sensitivo. Deus tomava a forma de um anjo ou de um homem e podia
ser visto, ouvido e até tocado. Evidentemente, essas eram formas temporá­
rias, assumidas por Deus para se comunicar com o ser humano.

Revelação p o r profecia
A partir de Moisés, Deus passou a usar mais amplamente um novo modo
de revelação. Ele começou a se revelar por meio de profecia (Nm 12.6-8). A
revelação por profecia é um modo mais indireto de revelação. O profeta
recebia algo de Deus, porém por meio de um sonho ou uma visão. Então,
o profeta tinha a responsabilidade de transmitir ao povo o que ele tinha
visto desse modo. Como sempre havia risco de falsificação, Deus estabele­
ceu testes para confirmar o profeta e a profecia. Esses testes eram basica­
mente dois, o da veracidade do fato profetizado (Dt 18.20-22) e o da con­
formidade com a Palavra escrita (Dt 13.1-5). O tempo predominante dos
profetas se estende da morte de Moisés até João Batista (Mt 11.13).
A função básica do profeta era ser um porta-voz de Deus. Por isso,
geralmente o profeta começava a sua mensagem com a seguinte expressão:
“Assim diz o Senhor...”. Isso indica que o próprio Deus colocava as pala­
vras na boca dos profetas (Jr 1.7; Is 51.14; Êx 4.10-12; Dt 18.18). Um deta­
lhe que não pode ser esquecido é o caráter orgânico da recepção e da entre­
ga da mensagem profética. Os profetas não falavam em transe, mas usavam
os seus próprios recursos, qualidades e talentos para transmitir a mensa­
gem de Deus. Esta era, de certo modo, acomodada à personalidade do
profeta.
A revelação de Deus 17

Revelação na pes so a do Filho


Jesus Cristo é o clímax de toda revelação de Deus (Hb 1.1,2). Nada
antes ou depois dele fala mais, ou melhor, do que ele sobre Deus. Aqui,
também podemos ver o caráter progressivo da revelação divina. Cristo é a
expressão máxima do ser de Deus. Ele é o próprio Emanuel, o Deus conosco.
Ele é o Deus manifestado na carne, pois nele habita toda a plenitude da
divindade (Cl 2.9). Jesus não é uma teofania nos moldes do Antigo Testa­
mento, pois não é uma manifestação temporária de Deus. Ele é a manifes­
tação plena e eterna de Deus. Ele é, e para sempre será, o Deus-homem. Na
pessoa de Jesus, estava o ápice da revelação. Ele próprio costumava dizer:
“Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9). Entretanto, só em algumas ocasi­
ões ele se descortinou mais amplamente aos olhos humanos (Lc 9.29).
Durante todo o seu ministério terreno permaneceu esvaziado de algumas
de suas prerrogativas divinas (Jo 17.5; Fp 2.5-8), carregando com alegria o
fardo dos homens e se submetendo a uma vida de servidão. Porém, seus
milagres, suas palavras e, especialmente, sua presença, foram a maior de­
monstração de Deus para o mundo, E sua morte na cruz foi a grande prova
do amor desse Deus (Rm 5.8).

0 registro da revelação - Inspiração6


Como diz a Bíblia, Deus se revelou de muitas maneiras; porém, houve
um processo pelo qual esta revelação foi registrada, ou seja, escrita e preser­
vada nas páginas da Escritura Sagrada. Na revelação de Deus, há o momen­
to do ato propriamente dito em que Deus revelou algo de si mesmo. Esse
ato é uma tarefa exclusiva de Deus. A inspiração é o momento em que essa
revelação foi registrada. O registro é uma tarefa tanto divina como humana.
Inspiração é a influência divina sobre os escritores da Bíblia a fim de preservá-
los de erros, e para que eles registrassem com toda a fidelidade os aconteci­
mentos revelatórios de Deus e mesmo os presenciados pelos escritores
(boa parte dos evangelhos e de Atos, por exemplo). Em alguns casos, como
nos salmos, o ato da revelação coincidiu com a escrituração, pois, no mo­
mento em que o salmista meditava sobre algum tema, tomava a pena para
escrever e acontecia simultaneamente a revelação e o registro. Isso pode ser
visto também nas epístolas. Porém, em outros casos, houve um intervalo
entre o ato divino da revelação e sua escrituração, como por exemplo, quando
o profeta recebia a visão, e só a registrava posteriormente. De qualquer
18 Razão da esperança

modo, todo o processo, desde o ato revelatório até o momento da escritu­


ração é revelação de Deus. A inspiração não é uma atividade à parte da reve­
lação. Fazemos essa distinção apenas para que possamos entender os dois
momentos, que às vezes ocorrem juntos, e às vezes separados.

Fatores que c o ntribuír am para o registro

É perfeitamente possível que alguns fatores tenham contribuído para o


ato de registrar a revelação. Porém, isso não anula e nem torna desnecessá­
ria a atuação divina. Os principais fatores que contribuíram para o registro
da revelação, especialmente nos registros posteriores aos acontecimentos,
foram a tradição oral e a tradição escrita. A tradição oral foi muitas vezes uma
intermediária entre os acontecimentos antigos e o registro inspirado. A tra­
dição oral pode ter tido, um papel muito importante antes da invenção da
escrita. Histórias que passavam de pai para filho podiam passar às gerações
subseqüentes importantes revelações de Deus. E provável que Adão tenha
transmitido revelações que ele havia recebido diretamente de Deus a seus
filhos, e estes às gerações seguintes. Desse modo, o conhecimento a respei­
to do Jardim do Éden, da expulsão do Jardim, da torre de Babel, do Dilú­
vio, provavelmente foi transmitido de pai para filho, tendo assim chegado
até Moisés, que escreveu o Pentateuco (Js 4.6, 21). Isso explicaria o fato de
haver relatos antigos em outras culturas primitivas, que são semelhantes
aos relatos bíblicos da criação e do dilúvio. E importante, porém, que seja
observado que essas tradições podem, muitas vezes, ter sido corrompidas
ao longo da História. De qualquer modo, isso não significa que Moisés e os
outros escritores bíblicos tenham feito os seus registros sobre a base exclu­
siva dessas tradições. É possível que as tradições tenham colaborado, mas
foi a inspiração divina que garantiu que fosse registrada a pura e exclusiva
verdade divina.
Quanto à tradição escrita, sabe-se que há muitos escritos antigos que
não são bíblicos, mas que eram tidos em grande consideração e, por certo,
continham dados históricos bastante precisos. Esses livros podem ter sido
usados como ajuda no processo de registro da Escritura. São exemplos
bem claros disso os seguintes: o Livro das Guerras do S e n h o r (Nm 21.14),
o Livro dos Justos (Js 10.13; 2Sm 1.18), o Livro das Crônicas de Samuel, o
vidente; Natã, o vidente; e Gade, o vidente (lC r 29.29), o Livro da História
de Salomão (lRs 11.41), o Livro da História de Semaías, o profeta e de Ido,
o vidente (2Cr 12,15). Nenhum desses livros existe mais, mas eles foram
úteis no registro da revelação de Deus,
A revelação de Deus 19

Um excelente exemplo do uso de tradições escritas e orais para o regis­


tro da revelação de Deus vem do Novo Testamento, mais precisamente dos
escritos de Lucas! Ele escreve: “Visto que muitos houve que empreende­
ram uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, con­
forme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas
oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois
de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito,
excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena
certeza das verdades em que foste instruído” (Lc 1.1-4). Lucas diz clara­
mente que tinha conhecimento de outros escritos que relatavam a vida de
Jesus, e que fez uma longa e acurada pesquisa histórica para relatar os fatos.
Isso em hipótese alguma tornou desnecessária a inspiração, mas a pesquisa
de Lucas transparece no texto, pois, de fato, Lucas é o que tem mais deta­
lhes da vida de Jesus, especialmente do seu nascimento e infância.

0 proces so de seleção

Nem toda revelação de Deus foi registrada. Deus superintendeu todo o


processo de seleção, para que fosse guardado para a posteridade o que ele
julgou mais importante. Grandes porções de revelação divina se perderam
ao longo da História. Possivelmente fossem revelações apropriadas para
uma determinada época, mas que Deus não julgou relevantes para a poste­
ridade (IR 4.32; Nm 11.26-29; lR s 22.5-28; Jr 36.1-3, 27-28; Jo 20.30-31;
21.25). Pelo menos duas das cartas do apóstolo Paulo também se perde­
ram. Ele diz ter escrito uma carta anterior aos Coríntios (ICo 5.9) e outra
para a igreja de Laodicéia (Cl 4.16). Possivelmente elas fossem aplicáveis
apenas à situação dessas igrejas, ou quem sabe, muito semelhantes a outras
cartas de Paulo. O fato é que não temos como saber o motivo de o Espírito
não ter preservado essas cartas para a posteridade. Só podemos dizer que
Deus, no seu processo de seleção, não julgou que elas, assim como muitas
outras revelações que não chegaram até nós, fossem necessárias.

Evidência bíblica da inspiração


As principais evidências da inspiração da Bíblia são internas, ou seja, pro­
vêm da própria Bíblia. A Bíblia reclama para si a inspiração divina: “Toda a
Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3.16), disse o apóstolo Paulo. Pedro
diz com relação aos escritores bíblicos: “Homens [santos] de Deus falaram
inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Os escritores do Antigo Testa-
20 R azão da esperança

mento tinham a convicção de que escreviam a Palavra de Deus (Dt 4.2; Am


3.7). O Novo Testamento claramente reconhece a autoridade divina do
Antigo Testamento em todas as citações que faz dele, e na consciência de
inspiração de seus próprios autores (Jo 20.30,31; At 4.25; 7.37,38; 28.25,26;
ICo 2.13; 7.10,12,17,40; 2Co 13.13; G13.8; lTs 2.13; 2Tm 3.16,17; Hb 1.1;
Tg 4.5; IPe 1.12; 2Pe 1.19-21). Jesus deu testemunho de que a Escritura do
Antigo Testamento era a Palavra de Deus (Mt 5.17-20; Jo 10.33-36; Mt
10.19,20; Jo 16.7,13). Além disso, os escritores do Novo Testamento de­
monstram ter consciência da inspiração dos outros escritores do Novo
Testamento (lTm 5.18; Lc 10.7; 2Pe 3.16).
Do mesmo modo, há evidências externas da inspiração da Bíblia, e quan­
to a isso existem muitos argumentos. Por exemplo, a credibilidade da Bí­
blia; suas histórias têm sido comprovadas cientificamente como verdadei­
ras; as descobertas arqueológicas não conseguem provar que a Bíblia esteja
errada, ao contrário a confirmam. A sobriedade das Escrituras é outro ar­
gumento em favor de sua inspiração; apesar de ser um livro tão antigo, ele
não contém nenhum absurdo; todos os livros religiosos antigos dos chine­
ses, dos árabes, dos persas, dos hindus, dos gregos, etc., estão cheios de
superstições e erros históricos, geográficos e científicos; a Bíblia, porém,
não afirma absurdos sobre o sol, a terra, ou as estrelas como aqueles livros
ensinam, ao contrário, seus ensinamentos são precisos (Jó 26.7; SI 135.7;
Ec 1.7; Is 40.22). O mesmo pode ser dito de sua coerência e unidade. E
difícil imaginar um livro escrito por mais de quarenta autores diferentes
num espaço de mais de 1.500 anos, que conte uma história homogênea,
com começo, meio e fim. A Bíblia é esse livro.

Teorias a respeito da inspiração


Dissemos que a inspiração é uma obra divina que conta com a participa­
ção humana. Uma das coisas mais difíceis de explicar é justamente esse
relacionamento entre o aspecto divino e o aspecto humano na inspiração.
Qual é a função de cada parte? Algumas teorias foram formuladas a respei­
to desse processo.

In spiração m e c â n i c a

Essa teoria concebe o ato da inspiração como um tipo de ditado divino.


Desse modo, Deus teria ditado literalmente todas as palavras que foram
A revelação de Deus 21

registradas. Ao homem não coube qualquer participação emocional ou in­


teligente na obra. Ele foi apenas um instrumento, praticamente inanimado,
que Deus usou para registrar a sua Palavra. Essa teoria lembra um pouco a
idéia espírita da “psicografia”. Ela torna a Bíblia um livro totalmente divi­
no, um tipo de “telegrama celestial”. A principal falha dessa teoria pode ser
verificada ao se observar que a Bíblia não tem uma uniformidade literária.
E difícil conciliar a idéia de ditado divino com a percepção de que há aspec­
tos variados e estilos pessoais na Bíblia. Se tudo tivesse sido “ditado”, deve­
ria haver uma uniformidade de estilo, o que não ocorre. Geralmente, os
estudiosos rotulados de “fundamentalistas” advogam essa teoria. Os
“fundamentalistas” são os mais radicais na defesa do conservadorismo bí­
blico. A intenção é boa, mas para evitar qualquer possibilidade de erro, eles
concebem a inspiração como um ditado. Assim, a Bíblia seria totalmente
divina. Entretanto, essa teoria não nos parece fazer justiça ao caráter literá­
rio da Bíblia.

Inspiração m e n t a l

Essa teoria é praticamente o oposto da teoria da inspiração mecânica.


Muitos autores que se dizem ortodoxos defendem a idéia de que os pensa­
mentos dos autores foram inspirados, mas que eles foram livres para regis­
trar as suas idéias. A inspiração mental advoga inspiração apenas dos concei­
tos e não das palavras. Essa idéia encontra maior aceitação no liberalismo
teológico. Uma vez que os teólogos liberais têm dificuldades para acreditar
que Deus se revelou por meio de atos e principalmente de palavras, eles
preferem pensar que o autor teve um tipo de “elevação” em seu raciocínio,
que, então, pode ser considerado inspirado. Essa idéia elimina completa­
mente a noção de uma ação direta do Espírito sobre os homens na produção
dos livros da Bíblia. O autor bíblico seria inspirado como qualquer outro
autor o pode ser na composição de uma poesia ou de uma música. Desse
modo, Deus não é o autor da Bíblia, ele apenas é a fonte da vida dos autores
bíblicos que falaram, com palavras imperfeitas, o que vem de Deus. No con­
ceito mental de inspiração, a Bíblia está condicionada à cultura de cada povo,
e às vezes não passa do registro da experiência religiosa de um povo numa
determinada situação. Porém, pode haver momentos em que o escritor ele­
vou-se acima de si mesmo, tendo produzido algo que pode ser considerado
divino. Nesse sentido, às vezes os partidários do liberalismo dizem que só
algumas partes da Bíblia seriam a “pura” Palavra, e o restante palavra de
homens. Daí o método “desrespeitoso” com que eles abordam a Bíblia, ain­
22 Razão da esperança

da que prefiram dizer “científico”, procurando aqui ou ali indicações de im­


precisões ou pistas que os remetam a outras situações históricas, que consi­
deram mais importantes e dignas de crédito do que o que a Bíblia relata.
Essa teoria não faz justiça ao que a Bíblia representa para a fé cristã.

Inspi ração d i n â m ic a ou orgâ nica


Essa teoria diz que a Bíblia é ao mesmo tempo divina e humana. O
Espírito Santo usou homens como organismos vivos e não como meras
máquinas. Deus não ditou palavras para serem escritas, e nem simplesmen­
te os homens tiveram “elevações” que os levaram a fazer registros. Deus
agiu no ser hum ano usando todos os recursos pessoais, superintendendo
todo o processo, de modo a garantir a veracidade absoluta dos escritos.
Assim, esses escritos podem ser considerados humanos, porque foram pro­
duzidos por homens, e também divinos, na medida em que eles foram ori­
entados pelo Espírito Santo. O Espírito usou um homem da corte como
Isaías, um boiadeiro como Amós, um músico como Davi, um sábio como
Salomão, um general como Josué, um homem formado na corte egípcia
como Moisés, um pescador como Pedro, um erudito como Paulo, um mé­
dico como Lucas ou um cobrador de impostos como Mateus. Os estilos
podem ser diferentes, mas o resultado final é o mesmo. O Espírito fez uso
das faculdades humanas, adequando-as, para que o produto final, embora
contendo traços do perfil humano, fosse a exata expressão da vontade de
Deus. Deus usou os recursos humanos, como por exemplo, a capacidade
de pesquisa, o raciocínio, a arte ou a musicalidade de uma pessoa, mas,
superintendeu todo o processo a fim de que a sua vontade fosse expressa­
mente revelada. Há uma idéia de cooperação, pois Deus age no homem,
dirigindo-o, controlando-o, como que energizando-o, de tal modo que, como
seu instrumento, ele fica acima de si mesmo, pois escreve algo que nunca
conseguiria sozinho. Deus fala a mesma coisa de maneira diferente e por
autores diferentes. O produto final é a sua palavra inspirada e inerrante.
Essa é a concepção conservadora de inspiração. Ela evita os extremos das
duas anteriores, e faz justiça ao ensino e ao caráter das Escrituras.

A inerrância da Escritura
Quando se diz que a Bíblia é inerrante, isso quer dizer que em tudo o
que a Bíblia ensina, seja religioso, moral, social ou físico, ela é absolutamen­
A revelação de Deus 23

te verdadeira e livre de erros (SI 119.142,160; Pv 30.5,6; Mt 5.17-20; Jo


10.34,35; 17.17). Isso não significa que a Escritura diga toda a verdade sobre
tudo o que ensina, mas que em tudo o que ensina ela diz a verdade. Muitos
defendem uma inerrância limitada (inspiração parcial). Desse modo, a Es­
critura seria infalível apenas nas questões de fé e prática no que diz respeito
ã salvação, e nas demais poderia ter falhas. Porém, como acreditar que ela
possa falar a verdade sobre um assunto e mentir sobre outro? Além disso,
desse modo, a base histórica da salvação poderia ser retirada (2Tm 3.16; SI
12.6; SI 119.96; Rm 15.4).
A inspiração da Bíblia não exige que ela use linguagem científica em
suas afirmações. A linguagem da Bíblia é a linguagem do homem comum.
Nesse sentido, a Bíblia diz que o Sol gira ao redor da terra, que o vento
sopra, e outras afirmações fenomenológicas, ou seja, que podem ser vistas
da perspectiva comum. Deve ser entendido que a Bíblia não pretende ser
um compêndio de química, física ou geografia, e, portanto, ela não tem
necessidade de empregar as linguagens próprias dessas ciências, A inerrân­
cia também não exige uma estrita conformidade com as regras da gramáti­
ca. Aos melhores escritores é permitido “errar” em troca da comunicação.
O próprio uso de figuras de linguagem, como a hipérbole (exageros), a
sinédoque (o menor pelo maior) e a metonímia (um nome por outro), não
compromete a doutrina da inerrância. No contexto da inerrância, os gêne­
ros literários da Bíblia, como o poético ou o apocalíptico, precisam ser
entendidos a partir de suas peculiaridades. As imagens fabulosas e fantasiosas
são condicionadas ao seu próprio gênero, e devem ser consideradas a partir
de sua interpretação, e não da perspectiva literal. O fato de a Bíblia não dar
explicações científicas completas sobre geografia ou geologia não implica
que haja alguma imprecisão. Esse seria o caso se as informações fossem
falsas, mas se são limitadas, ainda assim são verdadeiras.
Nem mesmo as citações imprecisas da Escritura do Antigo Testamento
no Novo Testamento podem ser consideradas como erros. Quando o An­
tigo Testamento era citado, era necessário que ele fosse traduzido, e toda
tradução envolve muitas variantes. Além disso, citações livres sempre fize­
ram parte da produção literária antiga. Do mesmo modo, não precisamos
que as palavras de Jesus, conforme foram registradas na Escritura pelos
evangelistas, contenham a ipsissima verba (palavras exatas), mas a ipsissima
vox (voz exata). Ou seja, o que importa é o significado preciso, e não neces­
sariamente, as palavras exatas. Os apóstolos registraram fielmente o que
Jesus ensinou, mas precisa ser lembrado que muitas palavras de Jesus fo­
ram ditas em aramaico e os evangelhos foram escritos em grego, portanto,
24 Razão da esperança

sempre houve necessidade de adaptações. Do mesmo modo, as palavras


de Pedro, de Paulo, ou dos demais apóstolos, quando foram registradas
por Lucas, por exemplo, não foram necessariamente citações literais dos
seus sermões, pois é compreensível que Lucas tenha feito resumos dessas
preleções; no entanto, elas representam perfeitamente o significado pre­
tendido pelos apóstolos.
A inerrância também não exige exatidão nos números. Quando lemos
que cinco mil pessoas estavam presentes num determinado evento, trata-se
de um valor aproximado, mas não há necessidade de que se conte uma por
uma. Geralmente é apontado como erró o fato de um evangelista dizer que
havia uma pessoa numa determinada casa, enquanto que o outro evangelis­
ta diz que havia duas. Muitas coisas poderiam explicar essa aparente diver­
gência. Os dois poderiam não ter contado as pessoas no mesmo momento,
ou cada um registrou o que viu num determinado momento, o que não
implica necessariamente num erro.
Finalmente, deve ser entendido que a inerrância se refere apenas aos au­
tógrafos.7 Quanto ao argumento de que, se somente eram inerrantes os au­
tógrafos originais, e nenhum deles existe mais, falar em inerrância não tem
muito sentido, respondemos que, de fato não temos mais os originais, po­
rém, pela comparação entre todas as cópias (variantes), pode-se concluir que
as cópias concordam em 99% de tudo o que elas tratam, e nenhum caso
sério de doutrina seria afetado pelas variantes. Além do mais, se o Espírito
Santo inspirou os escritos, ele não poderia preservar com fidelidade o que
estava escrito neles? Podemos concluir que, apesar de todos os seus esfor­
ços, os críticos não têm conseguido provar que a Bíblia contenha erros.

A suficiência da Escritura
Com relação ao tema da suficiência da Escritura, é preciso entender que,
na fé reformada, somente a Escritura é a regra de fé e prática. Não há outra
fonte na qual o cristão possa encontrar orientações infalíveis para a sua
vida. A tradição, embora considerada na teologia, não pode ser comparada
com a Escritura. Uma pergunta que normalmente surge quando se pensa
em suficiência da Escritura é: “Ainda há revelação divina hoje?” Nossa po­
sição é que não há mais revelações de Deus hoje, pelo menos não em pé de
igualdade com a Bíblia. Entretanto, deve ser dito que a revelação de Deus
continua hoje. Deus se revelou na criação, e essa criação continua apontan­
do para Deus. A providência, que é a continuação da criação, ou seja, a
 revelação de Deus 25

maneira como ele dirige a História e o mundo, também o revela, Porém,


isso não quer dizer que exista uma “nova” revelação de Deus. Trata-se da
mesma revelação do início, porém sempre sendo percebida de formas dife­
rentes. A Escritura também é a mesma, mas cada vez que vamos até ela
descobrimos coisas novas, em forma de aplicações diferentes para a nossa
vida. Deus continua se revelando, portanto, por meio da criação (revelação
geral) e por meio da Escritura (revelação especial). Essa última é a principal
fonte de conhecimento, especialmente da salvação.
Embora cada parte da Bíblia tenha sido escrita numa determinada épo­
ca, ela nunca esteve limitada ao tempo. De fato, Deus se revelou no passa­
do, mas a mensagem continua significativa para as pessoas de hoje e de
sempre. Deus é o mesmo e sua Palavra também. A mesma denúncia do
pecado e o mesmo chamado ao arrependimento dirigido às pessoas dos
tempos bíblicos vale para hoje. Embora tenha havido muito progresso no
mundo, as pessoas ainda são as mesmas e o pecado ainda é o mesmo, pois
ele continua dominando a sociedade. Do mesmo modo, as necessidades
são as mesmas, assim como a solução.
Desde a sua fundação, a Igreja Católica Romana sustenta outra fonte
de autoridade em pé de igualdade com a Escritura: A tradição. O catoli­
cismo entende que a igreja deu origem à Bíblia, e não que a Bíblia tenha
dado origem à igreja, e, portanto, das duas, a igreja tem a prioridade. Essa
é a base para a defesa de muitas doutrinas que foram criadas pelos concí­
lios, ainda que não tenham embasamento escriturístico. A Reforma repu­
diou a teoria da dupla autoridade. No pensamento reformado, a Escritura
tem a primazia. Esta questão de outra fonte de autoridade continua sen­
do um problema nos dias atuais, não apenas para Roma, mas também
para os evangélicos. E nem é preciso pensar em casos extremos como o
dos mórmons, que sustentam outro livro como fonte de autoridade, pois
o subjetivismo evangélico coloca a autoridade no “Deus me falou”. As
vezes, quando crentes conservadores dizem que nada além da Bíblia é
necessário para o crescimento espiritual, eles são taxados de “frios” e
insensíveis à atuação do Espírito. Porém, é a própria Bíblia quem afirma
essa suficiência. Paulo escreveu a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada
por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a
educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfei­
tamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). De acordo com
essa passagem, tudo o que uma pessoa precisa para atingir o nível espiri­
tual máximo nesta vida pode ser encontrado na Escritura. Portanto, a
Escritura é suficiente.
26 Razão da esperança

Todas essas considerações devem levar o estudante de teologia a uma


atitude de reverência para com a Bíblia. Não podemos nos aproximar dela
como juizes, e sim como servos. Estudar a Escritura precisa ser fonte de
vida devocional e aprimoramento do relacionamento espiritual com Deus.
O Deus da Escritura é o Deus que deseja estreitar o relacionamento da
Aliança com o seu povo. Ele se revelou nessas antigas páginas porque dese­
ja que o conheçamos melhor, e para que o amemos com mais intensidade.
Ao estudarmos essas “sagradas letras”, podemos ter a certeza de que estamos
nos aprofundando em algo não apenas sagrado, mas confiável, e que pode
aumentar a nossa sabedoria, o nosso vigor espiritual e a nossa esperança.
2

Deus existe?1

A pergunta que serve de título para este capítulo pode soar estranha
numa obra de teologia. Porém, trata-se de uma pergunta que os incrédulos
fazem e, talvez, algumas vezes até os crentes. De início, é preciso que se
diga que a existência de Deus é a grande afirmação pressuposta pela Bíblia.
A Bíblia não tenta provar a existência de Deus, ela simplesmente a assume
como um fato. O excelente teólogo reformado Louis Berkhof afirma: “Para
nós a existência de Deus é a grande pressuposição da teologia”.2 De fato,
nenhum teólogo poderia negar a existência de Deus, pois isso o faria auto­
maticamente ficar sem profissão. Porém, ao longo da História, filósofos e
teólogos têm debatido sobre a questão sobre se a mente humana pode ter
certeza da existência divina. Será que a existência de Deus é algo que deve
ser aceito somente pela fé? Ou será que é possível, a partir da razão e de
argumentos racionais, provar a existência de Deus?
Desde já é preciso que se admita que a fé é absolutamente necessária
para que se aceite a existência de Deus. Mas o ponto a ser discutido é: Esta
fé se baseia em quê? Além do mais, o que poderia ser excluído desse princí­
pio? Quando é que a fé não é necessária? Será que temos provas suficientes
para todas as nossas crenças, sejam religiosas, científicas ou morais? O fato
é que cremos. Crer nada mais é do que exercitar a fé. Nesse sentido, os
defensores de muitas teorias científicas modernas talvez sejam os mais cren­
tes. Eles acreditam em teorias, defendem essas teorias fanaticamente, e ela­
boram outras teorias com base nelas, O fato é que o ser humano decide em
que crê e em que não crê. Uma pessoa pode ter todas as provas diante de si,
e ainda assim negar a realidade de algum fato, desde que não queira acreditar
nesse fato. Isso pode ser visto facilmente em tempos de eleição para cargos
políticos, ou nos tribunais. Por outro lado, quando alguém deseja crer, nada
o faz mudar de idéia, ainda que as provas sejam escassas. Uma coisa precisa
ficar clara: mesmo que existissem provas explícitas da existência de Deus,
as pessoas não deixariam de negar a existência dele. A questão deste capítu­
lo não é a existência da fé em Deus, mas sim a racionalidade dessa fé. Crer
28 Razão da esperança

irracionalmente não é uma fé saudável. A diferenciação que se pretende


estabelecer aqui é que todos se guiam por algum tipo de fé, mas a fé autên­
tica é a que tem bases sólidas. Mas isso não quer dizer que a razão será o
árbitro da fé, como se pretendia no Iluminismo. O único árbitro da fé é a
revelação. A revelação é a base sólida sobre a qual edificar a fé.

Naturalismo irracional
O naturalismo está na moda neste mundo moderno. Tudo o que é da
“natureza” é automaticamente mais aceito. As pessoas cultuam a mãe natu­
reza, e procuram soluções “naturais” para os seus problemas. A existência
humana também tem sido explicada a partir de elementos naturais. Nesse
sentido, evoluáonismo e naturalismo são sinônimos. Trata-se da tentativa hu­
mana de explicar a existência do ser humano sem precisar apelar para o
sobrenatural, para o divino.

S em sentido

Porém, que sentido teria a vida se não existisse um Deus? Se imaginar­


mos que tudo é obra do acaso, se acreditarmos nas teorias naturalistas e
aceitarmos que tudo o que existe é produto da evolução, no final das contas
teríamos que dizer que não viemos de lugar algum e nem vamos para lugar
nenhum. Seríamos apenas fruto de um acidente cósmico, de um tipo de
conspiração molecular inanimada. Um dia, a matéria morta, por algum
motivo ignorado, tornou-se animada. Depois de passar por um longo pro­
cesso evolutivo, ela tornou-se o que somos hoje. E preciso entender, po­
rém, que não houve propósito algum nisso tudo. Foi apenas obra do acaso;
de um terrível e impessoal acaso que pode se inclinar para qualquer lado, de
maneira que se alguém viver até ultrapassar os 100 anos, ou morrer daqui a
alguns minutos vítima de uma bala perdida, essa vida terá sido sem qual­
quer ordem ou propósito. Esse rolo compressor chamado “acaso” passa
por cima de todos, sem levar em conta sentimentos, sonhos, planos ou
desejos. De qualquer modo, não fará diferença viver cem anos ou um mi­
nuto, pois o destino de todos é o mesmo: nenhum. Sob essa sombra, não
faz diferença o cultivo das virtudes ou a prática dos excessos. Ajudar ou
prejudicar, matar ou dar vida, ser honesto ou desonesto, são apenas lados
de uma mesma moeda, uma vez que, depois do túmulo, para onde todos
vão, não há recompensas ou punições, louvores ou vaias. Se não existe um
Deus existe? 29

Deus que tenha propósitos para este mundo e para a vida do ser humano,
então não existe razão, não existe esperança, e nada faz sentido. A con­
clusão lógica e única a que se pode chegar a partir de uma concepção
desse tipo é que não vale a pena viver, pois a vida não tem sentido. Não é
de admirar o desespero de homens e mulheres que se negam a crer na
existência de Deus. De fato, como diz Schaeffer, eles baixaram a linha do
desespero,3 Já não existe mais nada lógico nem coerente. Tudo se tornou
irracional. Eis a razão do estado caótico do mundo moderno, que cons­
truiu o seu modo de vida sobre esse frágil alicerce chamado “acaso”. O
assoalho debaixo dos nossos pés treme porque o grande princípio
sustentador da sociedade foi retirado. Deus foi destronado e, no seu lugar,
foi colocado o acaso.

Irracion alism o p u r o

O naturalismo é uma das maiores forças que o teísmo4 já enfrentou.


Definimos naturalismo como o conjunto de teorias que, de um modo ou
de outro, defende o evolucionismo como explicação para a vida. A tese
principal do naturalismo é que não existe uma causa absoluta para a exis­
tência de todas as coisas. Uma definição clássica do naturalismo é: “O ho­
mem é o produto de causas que não tinham previsão de fim para o que
foram feitas; sua origem, seu crescimento, suas esperanças e seus medos,
seus amores e suas crenças, são conseqüências de acidentais colocações de
átomos”.5 Desse modo, a vida surgiu necessariamente da própria matéria
inanimada, sendo que, de alguma maneira, a matéria, nos primórdios da
vida, foi energizada a tal ponto que, inexplicavelmente, se transformou em
matéria animada. Mediante um vagaroso processo evolutivo, sempre im­
pulsionado pelo “comportamento adaptativo”, o ser humano veio a ser o
que é hoje. Esse comportamento adaptativo é a chave para entendermos
a evolução. Foi ele que selecionou naturalmente o que deveria mudar no
ser humano, a fim de que ele pudesse sobreviver. Se, para a sobrevivência,
é melhor ter dois braços, então, o processo de adaptação desenvolveu
dois braços. O próprio cérebro humano é fruto desse desenvolvimento.
O cérebro se desenvolveu para garantir a sobrevivência da espécie. Nesse
sentido, o homem continuará evoluindo e sempre se adaptando às neces­
sidades do seu habitat natural. Se, no futuro, as pernas não forem neces­
sárias, elas poderão deixar de existir, e no lugar delas, talvez nasçam asas.
De qualquer modo, o ser humano sempre se adaptará para garantir uma
sobrevivência melhor.
30 Razão da esperança

A questão que surge é a seguinte: será que o naturalismo é racional? Em


última instância, podemos dizer que o naturalismo também é uma questão
de fé. Os cientistas não têm provas concretas do que dizem, mas eles crêem
que é verdadeiro. Kuyper argumenta que “toda ciência, num certo grau, par­
te da fé”, pois “toda ciência pressupõe fé em si”,6 ou seja, para continuar a
defender a posição naturalista é necessário acreditar que ela é verdadeira,
apesar da escassez de provas, e isso é fé. A primeira observação que pode ser
feita a respeito do naturalismo é que a sua base é extremamente frágil. Ele
tem uma belíssima estrutura, mas os seus pés são de barro. Uma pergunta
sempre ficará sem resposta no naturalismo: Qual é a causa última de todas as
coisas? Só há uma resposta: o nada. Essa não é uma resposta muito convin­
cente, mas não há outra. Ou o naturalista faz o sacrifício mental e diz que é
o nada, ou cai no desvario de dizer que a matéria é eterna. Nesse ponto só
resta para o naturalismo a irracionalidade. Não há saídas. A única maneira
que a ciência tem para se manter racional é admitir que Deus existe, e que,
como diz Kuyper, “o cosmos não se torna vítima dos caprichos do acaso,
mas que existe e desenvolve-se a partir de um princípio, segundo uma ordem
estável, visando a um plano fixado”.7 Esse princípio somente pode ser Deus.
O famoso big-bang não pode ser esse princípio, pois é preciso que a causa
última de todas as coisas seja uma “causa em si mesma”. Se ela não for a
causa de si mesma terá que ter outra causa, e a outra por sua vez outra, e
assim até o infinito. Kuyper está mais uma vez certo ao afirmar que:

Sem uma profunda convicção dessa unidade, estabilidade e ordem, a ciên­


cia é incapaz de ir além de meras conjecturas. Somente quando há fé na
conexão orgânica do Universo, haverá também a possibilidade para a ciên­
cia subir da investigação empírica dos fenômenos especiais para o geral, e
do geral para a lei que governa acima dele, e desta lei para o princípio que
domina sobre tudo.8

Ao excluir Deus, o naturalismo se tornou irracional, pois excluiu o prin­


cípio. Ele caiu num círculo vicioso de teorias que precisam comprovar ou­
tras teorias, como se uma mentira pudesse fazer com que outra mentira se
tornasse verdade.
O naturalismo é um sistema contraditório, e a nossa própria estrutura
intelectual e a lógica, como uma elaboração daquela, nos ensinam a não
crer em contradições: algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Não é
possível acreditar em algo que desmente a si mesmo. Alguns tipos de racio­
cínios são um tipo de “bomba-relógio”, pois se autodestroem. A máxima
do modernismo, por exemplo, era que “toda verdade precisa ser verificável”.
Deus existe? 31

Durante muito tempo as pessoas acreditaram que, com essa afirmação, elas
tinham chegado ao máximo do saber. Até que alguém levantou a seguinte
questão: se toda verdade precisa ser verificável para que seja verdade, então,
essa verdade (a própria declaração) também precisa ser verificável. Se não
há como verificá-la, não há como comprová-la e, então, ela é falsa. Assim,
se é verdade que “toda verdade precisa ser verificável”, então não é verdade
que toda verdade precisa ser verificável. O mesmo pode ser dito do pós-
modernismo que apregoa: “Não existem absolutos”. Se não existem abso­
lutos, então essa própria afirmação não pode ser um absoluto. Esses são
exemplos de argumentos autodestrutivos, aos quais Aristóteles, se os co­
nhecesse, teria cham ado de sofism as. O naturalism o tam bém é
autodestrutivo. Alvin Plantinga, um filósofo reformado norte-americano,
expôs o argumento da seguinte maneira:9 1) Se o naturalismo é verdadeiro,
então a nossa mente é um produto da evolução. 2) A evolução seleciona
para a sobrevivência; portanto, a mente foi desenvolvida para a sobrevivên­
cia, não para conhecer a verdade. 3) Se o naturalismo é verdadeiro, não
temos suficientes razões para acreditar que a nossa mente poderia determiná-
lo como verdadeiro, e o agnosticismo,10 portanto, faria mais sentido. Então,
se o naturalismo fosse verdadeiro, nunca poderíamos constatar isso. Por­
tanto, percebe-se que o naturalismo não é uma saída racional para o enigma
da existência do mundo e da vida inteligente. Porém, antes de falar sobre a
explicação teísta, é preciso rebater um argumento bastante usado nos mei­
os acadêmicos para se negar a existência de Deus.

A existência do m a l
Sempre que um ateu tenta argumentar contra a existência de Deus, seu
principal argumento é a existência do mal. O argumento consiste das seguin­
tes partes: 1) Deus existe, ele é onipotente, onisciente e onipresente e, acima
de tudo, bom. 2) Existe o mal. A questão é: Como um Deus bom, todo-
poderoso e onisciente poderia ter permitido que o mal existisse? Portanto,
ou Deus não é bom por permitir tanta maldade neste mundo, ou ele não é
todo-poderoso, nem sabe todas as coisas, pois devido a um erro seu, por
falta de previsão ou de poder, o mal entrou no mundo. A lógica parece
irrefutável: Se existe o mal, Deus não existe, ou no mínimo ele não é bom,
nem todo-poderoso. Algumas soluções para esse problema não ajudam. Se
dissermos que o mal é independente de Deus, então, Deus não é todo-pode-
roso. Se simplesmente dissermos que Deus é o autor do mal, então, ele não
32 Razão da esperança

é bom. Muitos cristãos não têm resposta para essa argumentação. Todavia, a
solução existe.” Se houver uma terceira razão, que possa ser consistente
tanto com a existência de Deus quanto com a existência do mal, então, anu­
laríamos esse argumento. Ou seja, se houver uma razão pela qual Deus, que
é bom, tivesse um bom motivo para tolerar o mal, então, a existência de
Deus e a existência do mal não seriam mutuamente excludentes. Porém, qual
seria essa boa razão pela qual o Deus bom, onisciente, onipresente e onipo­
tente teria permitido o mal? Há uma razão: Para a sua glória. A Escritura diz
que todas as coisas existem para a glória de Deus. Deus manifesta a sua
glória ao permitir que o mal exista, pois ele sabe como lidar com ele. A
existência do mal permite, por exemplo, que Deus demonstre a sua miseri­
córdia. Se o homem não tivesse caído no pecado, jamais conheceria a mise­
ricórdia de Deus na sua plenitude. Deus, que “é amor” (ljo 4.8), demonstra
a intensidade desse amor que o leva a entregar o próprio Filho pelos pecados
dos homens (Jo 3.16). Paulo diz que o fato de Deus ter entregado o seu Filho
para morrer pelos pecadores é a prova do seu amor (Rm 5.8). Se o mal não
existisse, essa prova não seria dada. A encarnação do Filho está intimamente
ligada à existência do mal. Sem o mal, o Logos não precisaria se tornar ho­
mem, e o maior e mais espetacular acontecimento da história do universo
não aconteceria: a encarnação (Jo 1.14). Ainda devemos lembrar que uma
criação testada e aprovada é mais valiosa do que uma criação que jamais foi
testada. Nessa linha de argumentação, podemos dizer que o ser humano, que
uma vez caiu no pecado e experimentou todas as mazelas decorrentes disso,
depois de redimido não terá mais a mínima vontade de pecar.'2 Ainda deve­
mos observar que a qualidade de um objeto deve ser avaliada primariamente
tendo em vista o seu propósito. A criação de Deus, dentro do seu propósito
eterno e soberano, tinha como característica essencial a possibilidade con­
creta e real até mesmo da desobediência a Deus.
Concluímos, então, que a existência do mal não impossibilita a existên­
cia de um Deus bom e todo-poderoso. O mal, como tudo o mais, existe
para a glória de Deus. Entretanto, isso não significa que possamos entender
de modo lógico essa questão. Pela lógica humana, sempre haverá lacunas
em qualquer explicação sobre a existência do mal e a existência de Deus,
Não precisamos nos envergonhar de não ter essas respostas plenas, até
porque, para que isso fosse possível, teríamos que ter uma mente igual a de
Deus. O nosso desejo foi demonstrar que a existência do mal não inviabiliza
a existência de Deus.
De acordo com Schaeffer,13 o Cristianismo é o único sistema de crença
que pode dar a resposta para o enigma da existência do mal, embora essa
Deus exisle? 33

não seja uma resposta puramente racional, pois ela parte da fé. Somente o
Cristianismo pode dar essa resposta, porque somente ele crê na desconti-
nuidade da atual condição do homem. O mal não é algo intrínseco ao ho­
mem. O homem não foi criado essencialmente mau, mas se tornou assim
por um ato da sua vontade. Como vimos, Deus tolerou o mal porque tinha
bons motivos para isso, porém, o mal não é a condição “normal” do ho­
mem. Disso decorre que o mal pode ser combatido no homem, coisa que o
mundo moderno, que vê o mal como algo natural, não pode afirmar, pois
se o homem lutasse contra o mal, estaria lutando contra si mesmo. A evo­
lução poderia levar o homem definitivamente para o lado do mal, desde
que isso garantisse a sobrevivência da espécie. De qualquer modo, para a
evolução não faria qualquer diferença, pois não há mal, nem bem, tudo é
fruto do acaso. No Cristianismo, o mal é um intruso que, não obstante
sirva aos propósitos de Deus, no devido tempo será extirpado. E justamen­
te o seu caráter de intruso que garante que ele pode deixar de existir.14
Ainda trataremos mais a respeito da origem do mal ao longo deste trabalho.

A rgu m entos racionais


Até agora vimos que os grandes argumentos contra a existência de Deus
caem diante de uma análise mais detalhada. Porém, será que só podemos ir
pelo caminho da defesa, ou há argumentos a favor da existência de Deus?
Há muita discussão entre os teólogos sobre se é possível apresentar provas
racionais a respeito da existência de Deus sem o uso da Escritura. O que
deve ser esclarecido é que, se por provas racionais, se entende a idéia de que
elas devem convencer a todos de que Deus existe, ou que sejam o único
instrumento do despertamento espiritual de alguém, então essas provas
não existem. Somente o Espírito Santo, fazendo uso da revelação, pode
convencer alguém da existência de Deus.
Historicamente, alguns argumentos têm sido formulados para defender
a existência de Deus. São argumentos filosóficos, tirados do senso comum.
Vamos considerá-los primeiro, para em seguida darmos uma opinião sobre
os mesmos.15

0 a r g u m e n t o on to ló gic o: A idéia de u m ser sup erior


Segundo esse argumento, uma das coisas que nos leva a pensar que Deus
deve existir é o fato de que todos têm essa idéia em si mesmos. Em geral, a
34 Razão da esperança

idéia que as pessoas fazem de Deus é a de um ser superior e infinito. A


questão é: como noções a respeito de um ser infinito podem surgir na men­
te de seres finitos? O filósofo e matemático francês Descartes (1595-1650)
não conseguia conceber que o homem fosse capaz de criar essas idéias;
para ele, essa idéia necessariamente precisava ter vindo de fora, ou seja, do
próprio Deus. E fato inegável que a crença na existência de um ser superior
é generalizada, e por mais que seja descaracterizada em muitos lugares, isso
não anula a evidência de que ela aponta para algo além de nós mesmos,
Segundo esse argumento, todos imaginam que exista uma divindade, logo
essa divindade deve mesmo existir. Para muitos teólogos e filósofos, o ar­
gumento é convincente, embora deve ficar claro que ele não prova objeti­
vamente a existência de Deus. Porém, não se pode negar que ele dá uma
resposta bastante convincente a uma situação verificável: a idéia do divino
que é comum a todas as pessoas.

O a r g u m e n t o c o s m o ló g i co : Toda causa tem u m efeito

Uma outra idéia comum e aceita entre os homens é que todo efeito
precisa ter uma causa. E dito que uma obra de arte não surge do nada; ela
precisa de um grande artista. Uma das leis da física é que não há efeito sem
causas. Nesse sentido, o mundo criado é o efeito, enquanto o criador, a
causa. Sendo o mundo tão grandioso como é, necessariamente precisa ter
uma causa grandiosa também. Esse argumento vai além do anterior, que
determina apenas a existência de um ser superior, ao demonstrar que esse
ser superior é também infinito, pois só alguém infinito poderia ter criado
um universo tão grande. Popularmente se diz que o universo é infinito, mas
é claro que de modo absoluto isso não é possível. Somente Deus pode ser
infinito, pois a existência de dois infinitos é uma contradição. O universo,
entretanto é enorme, além da compreensão do homem. A existência de um
universo tão grande pressupõe a existência de um Deus ainda maior. Tem
sido apontado que a falha desse argumento é que, se toda causa tem um
efeito, então, Deus também precisaria ter uma causa. A resposta é que Deus
é a causa de si mesmo, ou seja: a causa não causada. Ele é eterno, isto é,
existe desde toda a eternidade. O valor desse argumento está no fato de dar
uma explicação para a origem de todas as coisas, o que nenhuma outra
teoria consegue de forma mais convincente.
Deus existe? 35

0 a r g u m e n t o teleológico: Há p rop ós ito e m tudo o que existe

O mundo não é caótico, ao contrário, em todos os lugares é possível ver


ordem, propósito, organização e harmonia. O mundo revela um senso de
inteligência que não pode ser ignorado. Há muitos exemplos disso: no ciclo
das águas, a chuva faz a água cair sobre a terra, a água corre para o rio, o rio
corre para o mar, o sol faz evaporar a água do mar que sobe até as nuvens,
e das nuvens cai outra vez na terra, e assim o ciclo se reinicia (Ec 1.7). Essa
noção de organização e inteligência pode ser vista nas coisas mais insignifi­
cantes, como na vida dos insetos, e também nas coisas mais sofisticadas,
como na constituição do corpo humano. Toda a simetria, toda a lógica,
toda a harmonia pressupõem uma inteligência maior que planejou tudo. A
organização do universo pressupõe a existência de um ser inteligente e com
propósitos definidos. Esse argumento vai além dos anteriores porque pre­
sume a existência de um ser inteligente e sábio que planejou o universo. No
meio científico moderno este argumento pode ser visto na teoria do cha­
mado “design inteligente”, que é a base do “criacionismo científico”. A
idéia é que pode ser vista na natureza evidência de um desenho inteligente.
Quando se analisa um floco de neve, por exemplo, percebe-se que ele tem
um desenho, mas é um desenho que pode ser explicado através de causas
naturais, como a intensidade do frio, a velocidade e a inclinação do vento,
etc. Mas quando se analisa uma molécula de DNA que compõe o “genoma”
humano, aí estamos diante de uma complexidade que não pode ser explica­
da simplesmente a partir de elementos naturais. Estamos diante de um
“design inteligente”, o que pressupõe um criador inteligente.

0 a r g u m e n t o m or al: Há u m a idéia de m or a l implícita e m todos


Todos os seres humanos têm uma noção de certo e errado. Todos alme­
jam por justiça e se irritam com a injustiça. Essa noção depende muito do
aprendizado que a pessoa recebe durante a vida, mas não totalmente, pois
há um grau em que esse senso é inato em todos os homens. Até mesmo os
piores criminosos tem uma noção de justiça. A questão é: de onde vem essa
noção? A explicação é que a noção é implantada pelo próprio Deus. Hodge
argumenta que “como a imagem do sol refletida de um espelho ou da su­
perfície lisa de um lago nos revela que o sol existe e o que ele é, assim a alma
humana, de modo claro e infalível, revela que Deus existe e o que ele é”.16
Somos criaturas morais. A moral não poderia se originar em nós mesmos;
por isso, deve existir um Deus que a implantou em nós. A evolução não
36 Razão da esperança

consegue explicar a existência dessa moral. Esse argumento vai além dos
anteriores, pois não só diz que Deus existe, que é infinito, que é sábio, mas
que é um ser moral. Até mesmo Kant, que rejeitava os demais argumentos,
aceitava esse, pois entendia que o caminho próprio da religião era o cami­
nho da moral. Para Kant, o homem é um ser moral, e, portanto, deve refle­
tir a vida de um Deus moral.
Não achamos que esses argumentos sejam provas definitivas de que
Deus existe. Como já dissemos, em última instância, a fé é necessária para
que se creia na existência de Deus. De qualquer modo, esses argumentos
são úteis para nos ajudar a entender que não é irracional crer na existência
de Deus. Grudem pensa que o “o valor dessas provas reside principalmen­
te na superação de algumas objeções intelectuais dos descrentes”,17 e pode­
mos acrescentar que elas são úteis para demonstrar a racionalidade da fé.
Portanto, elas não provam que Deus existe, mas provam que a fé em Deus
é razoável, ou seja, que a fé é racional.

Apelo íntim o
Quando as pessoas olham para a natureza, algo acontece dentro delas.
Ninguém, por mais indiferente que seja, consegue olhar para as obras da
natureza sem sentir nada. Ela fala algo. Nem sempre as pessoas conseguem
entender, e muitas vezes distorcem essa voz, mas é inegável que elas a ou­
vem.18 A Escritura diz: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firma­
mento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma
noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há pala­
vras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz
ouvir a sua voz” (SI 19.1-4). A voz da natureza proclama a existência e a
glória do Deus criador. O que se percebe nos chamados argumentos racio­
nais é, na verdade, uma sistematização dos efeitos que a natureza produz
nas pessoas quando elas a contemplam. A voz da natureza proclama, sem
usar palavras, a existência de Deus. Como já foi dito, essa voz é tão alta que
ninguém consegue fechar os ouvidos a ponto de suprimi-la totalmente. A
razão disso é porque há um eco dessa voz dentro das pessoas. O Eclesiastes
diz que Deus “pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11), ou seja,
existe algo dentro do ser humano que assegura a existência de Deus. E por
isso que nada satisfaz ao homem nesta terra. Por mais que ande atrás de
prazeres e realizações, e consiga tudo o que quer, ao final, se ele parar para
pensar, chegará à conclusão de que tudo não passou de “vaidade e correr
Deus existe? 37

atrás do vento” (Ec 2.11). Deus pôs a eternidade dentro do homem, ou


seja, o homem foi feito para mais do que se pode conseguir aqui. O que é
esse anseio íntimo natural em todos os homens, senão uma comprovação
do que disse Agostinho: “Criaste-nos para vós e o nosso coração vive in­
quieto enquanto não repousa em vós”?19 O simples fato de os homens
buscarem com tanto empenho algo que os satisfaça, que os torne felizes é
uma indicação da existência de Deus. No fundo, eles estão procurando a
Deus. Procuram-no nos lugares errados, parecem cegos “tateando” a fim
de encontrá-lo (At 17.27). Por outro lado, ao mesmo tempo em que o bus­
cam, fogem dele; ao mesmo tempo em que desejam vê-lo e ouvir a sua voz,
agem como Adão, que se escondeu envergonhado por entre as árvores,
temeroso de que Deus visse a sua nudez (Gn 3.8-10).
Ainda no século 16, o Reformador João Calvino falou de um sentimen­
to natural no homem com respeito a Deus. Ele desenvolveu a idéia de que
todos os homens têm um sentimento inato sobre a existência de Deus, e o
chamou de sensus divinitatis (senso da divindade). Segundo o reformador,
esse senso vem acompanhado de um sentimento de adoração à divindade,
ao qual chamou de semem religiones (semente da religião). Com isso, Calvino
não estava querendo afirmar que os seres humanos, à parte da Escritura,
possuam um conhecimento correto a respeito de Deus, mas, que embora
cegos, eles possuem um conhecimento que é deturpado, tanto por sua ce­
gueira, quanto por sua maldade. O reformador disse: “Pois, ainda que Deus
nos represente com tanta claridade quanto possível, no espelho de suas
obras, tanto a si mesmo como a seu reino eterno, sem dúvida, nós somos
tão rudes, que caímos como tontos e não nos aproveitamos de testemu­
nhos tão claros”.20 No entendimento de Calvino, há coisas externas e inter­
nas que fazem apelos ao homem a respeito da existência de Deus.
Que esse sentimento de religiosidade é natural no ser humano pode ser
comprovado pelo simples fato de que todos os homens são naturalmente
religiosos. A tribo mais longínqua e isolada do planeta terá alguma organi­
zação religiosa. Uma pessoa pode crescer solitária em algum lugar, mas em
algum momento desenvolverá ídolos para adorar. A questão é que os argu­
mentos racionais, citados acima, só fazem sentido porque encontram den­
tro das pessoas essas “impressões” de Deus. Como Plantinga afirma: “Não
é que alguém contemple o céu estrelado, observe a sua grandeza, e conclua
que precisa existir uma pessoa como Deus”.21 E mais do que isso, é como
se houvesse um gatilho lá dentro, e quando se olha para as maravilhas da
natureza, esse gatilho é disparado. O ateu passa a vida inteira lutando con­
tra isso, e os demais seres humanos fugindo disso. Porém, embora o ser
38 Razão da esperança

humano se confunda ao ouvir a voz da natureza e o eco dentro de si mes­


mo, não dá para negar que a voz está lá, reconhecível até para o mais endu­
recido, que não poderá jamais alegar ignorância diante de Deus. A Escritura
é clara: “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como
Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios
raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm 1.21). A natu­
reza clama pela existência de Deus, o nosso ser íntimo clama pela existência
de Deus, então, por que duvidar que Deus existe? A existência de Deus é a
resposta mais convincente e racional para a origem da vida, e de todas as
demais coisas. Porém, como dissemos no início deste capítulo, as pessoas
sempre duvidarão da existência de Deus, ainda que todas as evidências apon­
tem no sentido contrário. Isso acontece porque, em última instância, o úni­
co que pode convencer alguém da existência de Deus é o Espírito Santo,
que faz uso da revelação divina, a Escritura, e abre os olhos dos homens
para que vejam as maravilhas da graça de Deus.

Deus existe! A única resposta


Francis Schaeffer chegou a uma conclusão admirável sobre a necessidade
da existência de Deus: “Ele existe. Não há outra resposta e os cristãos ortodo­
xos devem sentir-se envergonhados de terem sido defensivos por tanto tem­
po. Não é tempo de sermos defensivos. Não há outra resposta possível”.22
Podemos ter a certeza de que a nossa fé bíblica é absolutamente racional. A
vida tem sentido porque Deus existe. Por essa razão, “Deus, e somente Deus é
o maior bem do homem”.23 A existência dele é a garantia da racionalidade de
nossa própria existência. E a certeza de que a vida tem sentido. O Deus da
Bíblia existe, e por isso faz diferença ser justo ou injusto. Há um Deus justo e
poderoso o suficiente para julgar retamente, recompensar o que deve ser re­
compensado e punir o que deve ser punido. Há um Deus bom e sábio o sufi­
ciente para planejar todo este universo e estabelecer todas as leis que gover­
nam a criação. Nós existimos porque Deus existe. Não é irracional crer na
existência dele. Não é irracional crer na Escritura. E maravilhoso contemplar
as obras da mão dele e saber, no âmago do nosso ser, que ele é o grande autor
de tudo. Como ao final de uma apresentação, podemos nos colocar de pé ante
o imenso palco da natureza e aplaudir o criador pela maravilhosa obra de arte
que ele realizou. E, acima de tudo, podemos nos sentir como parte dessa or­
dem e propósito. Não somos fruto do acaso. Somos obra das mãos do Ser
infinito e inteligente que nos criou e nos incluiu no seu plano eterno e perfeito.
Conhecendo a Deus

Não havia cidade mais famosa e religiosa no mundo antigo do que Ate­
nas. A silhueta dos seus templos majestosos podia ser vista a quilômetros
de distância. Havia estátuas de deuses e deusas no Partenon e em todos os
templos da cidade, até mesmo nos edifícios públicos e comerciais. Os mo­
radores construíram um local em que ficava o “Altar dos Doze Deuses”.
Esse altar havia sido edificado para garantir que nenhum deus fosse esque­
cido. Talvez esse fosse o altar do “Deus desconhecido”, ao qual eles adora­
vam sem conhecer. Paulo falou desse altar quando esteve em Atenas, ten­
tando fazer os filósofos entenderem que toda a filosofia e o conhecimento
deles, ã parte da revelação de Deus, não passava de um esforço em “tatear”
em busca do Deus verdadeiro (At 17.27). Muitas pessoas, nos dias de hoje,
à semelhança dos atenienses, adoram um “Deus desconhecido”. Elas se
contentam em freqüentar cultos, participar de rituais, desempenhar fun­
ções religiosas em honra a um Deus que na verdade não conhecem.
A passagem de Paulo por Atenas se reveste de um caráter muito interes­
sante, pois dois grupos de filósofos (estóicos e epicureus), que eram como
que remanescentes, de segunda linha, dos grandes filósofos do passado,
discutiam temas filosóficos. O fato é que a filosofia, desde os seus dias mais
remotos, sempre se preocupou em responder às perguntas básicas da hu­
manidade, como: Quem somos? De onde Viemos? Qual a razão da nossa
existência? Qual é o conhecimento verdadeiro? O curioso é que Paulo, em
poucas palavras, deu respostas simples e precisas a todas essas perguntas.
Deus é a resposta para todos estes questionamentos. Ele demonstrou que
Deus é a origem do ser humano, que a existência humana está sob o con­
trole de Deus, que o homem existe para buscar a Deus, mas que é limitado
nesse conhecimento, como um cego que tateia (At 17.24-27). Pela reação,
os filósofos obviamente não gostaram das respostas (At 17.32). Porém, é
um fato que os filósofos mais antigos não tinham dificuldades em admitir a
existência de um ser absoluto como o princípio de todas as coisas. Paulo
disse: Na verdade “Deus não está longe”, porém, quando alguém está cego,
40 Razão da esperança

algo muito próximo pode ser inalcançável. E não há filosofia ou


espiritualismo que possa torná-lo visível. Séculos de buscas, inquirições e
raciocínios não conseguiram dar ao homem o conhecimento verdadeiro
sobre Deus, e conseqüentemente, sobre o próprio homem. Fala-se muito
sobre Deus nos dias de hoje. Parece que todos o conhecem, mas fica claro
que as pessoas não estão falando do mesmo Deus. A pregação sobre Deus,
que pode ser ouvida nas igrejas, mostra deuses muito diferentes. Em certas
igrejas, ele é o Soberano, em outras aquele a quem o homem pode dar
ordens. Em alguns lugares, ele é apresentado como o Santo, o inalcançável;
em outras, como alguém muito parecido com os homens, que pode ser
tratado como igual. As vezes, parece uma brincadeira sobre disfarces. Dian­
te de tudo o que se pode ver, está claro que as pessoas continuam “tateando”,
mas no fundo, não sabem, e talvez, nem queiram saber quem ou como é o
Deus verdadeiro. É mais fácil crer num Deus criado pela própria imagina­
ção. E mais fácil fazer um “Deus” à nossa imagem do que aceitar que fo­
mos feitos à imagem de Deus.
Será que é impossível conhecer a Deus como ele realmente é? Será
que Deus sempre será o “ilustre desconhecido”, ao qual os homens ado­
rarão sem nunca realmente compreender? Neste capítulo, trataremos da
possibilidade de se conhecer a Deus. Nossa intenção é entender até que
ponto Deus pode ser conhecido. Nosso pressuposto não é a filosofia,
mas a revelação.

S im p lesm en te incom preensível


Os teólogos medievais tinham uma frase interessante para falar sobre a
possibilidade do homem conhecer e compreender a Deus: “O finito não
pode conter o infinito”. Sobre essa frase, o teólogo reformado contempo­
râneo R. C, Sproul afirma: “Nada é mais óbvio do que isso: um objeto
infinito não pode ser comprimido dentro de um espaço finito”.1 Se Deus é
infinito e o homem finito, então é impossível que o homem tenha todo o
conhecimento de Deus. Porém, será que isso significa que o homem nada
pode compreender a respeito de Deus? Será que o fato de Deus ser infinito
e o homem finito faz com que eles nunca possam se encontrar? Filósofos
como Kant (1724-1804) diziam que se Deus existe, nada se pode saber
sobre ele, pelo fato de que ele faz parte de uma outra dimensão, que não é
a dos seres humanos.2 Muitos argumentam que, como Deus não pode ser
compreendido, conseqüentemente, também não pode ser conhecido. Po-
Conhecendo a Deus 41

rém, antes de falar sobre isso, precisamos analisar o que a Bíblia fala a
respeito da incompreensibilidade de Deus. Quando as pessoas têm dificul­
dade para entender algo do modo como Deus age, elas lembram-se do
texto de Deuteronômio 29.29: “As coisas encobertas pertencem ao S e n h o r ,
nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos,
para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”. E um fato
incontestável que Deus não revelou tudo de si. A partir da Bíblia, podemos
concluir que Deus é incompreensível por duas razões. Primeiro porque ele
não revelou tudo de si, e dependemos inteiramente da revelação para
conhecê-lo e saber como ele é. Porém, ainda que ela o revelasse, o fato é
que a natureza divina é tão diferente da nossa, tão mais complexa, e tão
grandiosa que não conseguiríamos entendê-la. Então, a segunda razão é
porque o nosso entendimento é limitado. Somos incapazes de entender a
complexidade do ser de Deus. Sabemos o quanto o ser humano é comple­
xo em suas qualidades e defeitos. Costumamos dizer que não entendemos
os outros, e a razão é porque não conhecemos os pensamentos dos outros.
Quando vemos as ações deles, não conseguimos montar o quebra-cabeça.
Isso nos faz pensar na complexidade do ser de Deus. Ele é complexo não
por causa de contradições e falhas como nós, mas pela infinidade de idéias
e propósitos que lhe são próprios.

Pen samentos elevados


Não conseguimos entender a maneira como funciona a mente de Deus.
Isso é atestado claramente pela Escritura. O próprio Deus disse: “Porque
os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos ca­
minhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são
mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os
vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos
pensamentos” (Is 55.8,9). A maneira como funciona a mente de Deus é tão
diferente, que os seus pensamentos e propósitos se tornam incompreensí­
veis para nós. Não é sem motivo que Paulo declara: “O profundidade da
riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão inson­
dáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem,
pois, conheceu a mente do Senhor?” (Rm 11.33,34). Essa declaração de
Paulo se torna ainda mais cativante pelo fato de ter sido proferida justa­
mente depois de ele ter tratado do difícil tema da “predestinação”, ou seja,
Paulo reconhece que a mente de Deus está muito acima da nossa, e que não
conseguimos compreender totalmente o seu plano para o mundo. Entre-
42 Razão da esperança

tanto, é preciso que fique claro que a Bíblia não quer dizer com isso que na
mente de Deus a contradição seja aceitável. E comum, quando nos encon­
tramos diante de uma situação aparentemente contraditória, dizermos: “Isso
pode não fazer sentido para nós, mas funciona perfeitamente na mente de
Deus”. Esse raciocínio pode ser perigoso, pois, se o nosso raciocínio é
contraditório, nem mesmo Deus poderá nos socorrer. A mente de Deus
realmente é diferente da nossa, mas isso não quer dizer que ela admita
contradição.3 Sua mente é elevada e trata de questões incompreensíveis
para nós, porém, tudo o que Deus pensa faz sentido e é perfeitamente
lógico.

0 i n co m p a r á v el

No livro de Jó encontramos a seguinte afirmação: “Deus é grande, e


não o podemos compreender” (Jó 36.26). Não existe uma medida que
possa ser usada para se mensurar Deus. Todas as nossas noções de tama­
nho derivam da capacidade que temos de medir os objetos. A infinidade
de Deus o torna incompreensível para nós porque ele é incomparável.
Quando queremos entender o tamanho ou a beleza de algo, basta colo­
carmos outra coisa ao lado e teremos uma noção. O problema é que não
podemos colocar nada ao lado de Deus. Ele é absolutamente incompará­
vel. Isaías questiona: “Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa se­
melhante confrontareis com ele?” (Is 40.18). Nesse texto Isaías está pro­
fetizando para o povo de Judá, que seria cativo da Babilônia, o maior
império daquela época. Aparentemente, o insignificante reino de Judá
perante a Babilônia não teria a mínima chance de ser libertado. Porém, o
profeta afirma que Deus é maior do que a Babilônia e do que qualquer
nação que exista ou possa existir. Não há a menor comparação, e por isso
ele diz: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que
cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó
fino que se levanta” (Is 40.15). E depois arremata: “Todas as nações são
perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que
nada, como um vácuo” (Is 40.17). A estrutura dessa passagem é fascinan­
te. Primeiro, o profeta diz que as nações, se comparadas a Deus, são como
“um pingo que cai de um balde”. Em seguida, ele reduz o tamanho, “como
um grão de pó na balança”. Não contente com essa definição, reduz mais
uma vez: “como pó fino que se levanta”. Em seguida, volta a reduzir:
“como coisa que não é nada”. Quando parecia que havia chegado ao
mínimo possível, ele reduz outra vez: “ele as considera menos do que
Conhecendo a Deus 43

nada, como um vácuo”. A definição de vácuo pode ser: “Algo vazio, com
ausência até de ar”. E dessa maneira que Deus considera as superpotênci­
as do mundo. Nações como os antigos Impérios da Babilônia, Grécia e
Roma, e poderíamos acrescentar as modernas Alemanha, Rússia e Esta­
dos Unidos são, diante de Deus, menos do que nada. Ele é de fato incom­
parável. Como compreendê-lo?

M ã os grandes

A grandeza de Deus não tem comparação. O profeta pergunta retorica-


mente: “Quem na concha de sua mão mediu as águas, e tomou a medida
dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra,
e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão?” (Is
40.12). Sabemos que os céus são tão vastos que o homem não consegue
medir, mas, retoricamente, Isaías diz que Deus mede a palmos. A quantida­
de de água dos mares e dos rios é incalculável, mas o profeta diz que todas
as águas cabem na concha da mão de Deus. Além disso, ele pesa os montes
em “romanas”, um tipo de balança que serve para quantificar mínimos
gramas de ouro. A grandiosidade da criação nos fala de um criador ainda
mais grandioso. Se o universo que Deus criou não pode ser medido, quanto
mais o próprio Deus que realizou essas obras tão grandiosas. A imensidade
da sua obra, e a grandeza das suas ações, nos mostram o quanto ele é gran­
de e incompreensível ao nosso entendimento.

Comida para os corvos

O modo como Deus dirige a história do mundo também é incompre­


ensível para nós. Alguém consegue entender todos os propósitos dele, bem
como por que certas coisas acontecem e outras não? De alguma maneira,
entretanto, sabemos pela Escritura que tudo o que acontece está sob o
domínio de Deus. Deus é aquele que providencia comida para os corvos
(Jó 38.41), que cuida dos lírios dos campos (Mt 6.30), que não permite que
um pardal caia sem a sua aprovação, e que sabe até mesmo o número de
fios de cabelo que temos na cabeça (Mt 10.29,30). Por que Deus se preocu­
paria até com os corvos? Os corvos se alimentam de restos de animais
mortos, e nisso vemos que até a morte cumpre algum papel. Porém, uma
coisa é saber que ele controla tudo, outra é entender os seus propósitos. E
difícil entender que as guerras, as catástrofes, e até mesmo as tragédias, que
apesar de serem causadas pelos seres humanos, de alguma maneira fazem
44 Razão da esperança

parte do seu plano. É difícil entender que mesmo este mundo de injustiças,
opressões e violência, não segue um curso independente do plano de Deus.
Sabemos que todas essas coisas acontecem por causa do pecado que en­
trou no mundo, mas também sabemos que Deus não assiste a tudo isso de
modo impotente ou impassível. Se ele permite que tudo aconteça desse
modo é porque, de alguma maneira incompreensível para nós, faz parte
dos seus propósitos. O plano de Deus para o mundo e para cada pessoa
pode parecer incompreensível e até mesmo contraditório em certas situa­
ções, pois pode se assemelhar a uma grande obra inacabada. Quando pas­
samos diante da construção de um prédio em que há uma placa informan­
do o que o prédio será, podemos ter dificuldades em imaginar que toda
aquela confusão de materiais e instrumentos, no final, se transformará num
prédio perfeito. Porém, por trás de um prédio bem construído há em geral
um excelente projeto. Na construção de Deus há muitas coisas que pare­
cem estar fora do lugar; porém, no final veremos que tudo se encaixa per­
feitamente, e que seguiu um projeto perfeito. No momento, entretanto,
não conseguimos ver isso, e assim temos dificuldades para entender os
caminhos de Deus.

A m o r i nco m p re en sí v el

Não conseguimos entender sequer a maneira como Deus se relaciona


com o homem, naquilo que chamamos de evangelho. Como Deus pode
amar uma criatura decaída como o ser humano? Como entender o amor
que o levou a entregar o seu próprio Filho como sacrifício pelos pecados
de homens corruptos? De fato: “Não podemos compreender como Deus
ama, pois o modo de ele amar é muito diferente do nosso. A base do seu
amor está nele próprio, e nunca nas razões que o objeto amado oferece.
Conosco é exatamente o inverso e, por isso, o que ele faz por nós é incom­
preensível”.4 Podemos dizer que o versículo mais conhecido e proclamado
da Bíblia é talvez o mais incompreensível para nós: “Deus amou ao mundo
de tal maneira, que deu o seu Filho unigénito, para todo aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Como explicar esse amor?
Como entender a medida dele, ou a sua intensidade?
Diante de todas essas coisas, é preciso capitular: “Deus é Incompreensí­
vel”. De fato, o finito não pode conter o infinito. Mas agora precisamos
voltar à pergunta: Será que isso significa que não podemos compreender
nada dele, e que, portanto, não podemos conhecê-lo?
Conhecendo a Deus 45

Deus p o d e ser conhecido


Se, por um lado, as coisas encobertas pertencem ao Senhor, como diz
Deuteronômio 29.29, por outro lado “as reveladas nos pertencem, a nós e
a nossos filhos para sempre”. As coisas reveladas, nessa passagem, são
uma referência à própria Lei. A Lei não continha toda a revelação acerca
de Deus, mas continha alguma revelação sobre Deus, e essa revelação per­
tence ao povo de Deus no sentido de que estava à disposição dele para que
conhecesse mais sobre Deus e a vontade dele. O que Deus quis que ficasse
encoberto jamais será conhecido, mas aquilo que ele revelou, é seu desejo
que seja conhecido. A única possibilidade de haver conhecimento de Deus
é porque Deus decidiu se revelar, caso contrário, haveria realmente uma
barreira intransponível para o ser humano: a barreira entre o finito e o
infinito. Porém, foi o próprio Deus quem rompeu essa barreira ao criar o
ser humano à sua imagem e, mesmo depois da queda, procurá-lo para lhe
dar informações sobre como o relacionamento com Deus poderia ser res­
taurado. De fato foi ele quem rompeu definitivamente a barreira quando
“o verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14), Nesse momento, o
eterno adentrou o tempo, o infinito adentrou o finito, num paradoxo sem
precedentes.
Queremos afirmar que, embora Deus seja infinito e incompreensível
para nós, ainda assim podemos conhecê-lo. Quando afirmamos que o finito
não pode conter o infinito, não estamos querendo dizer que nada pode ser
compreendido a respeito de Deus, mas apenas que Deus não pode ser com­
preendido de modo exaustivo, ou seja, na sua totalidade. Ele pode ser co­
nhecido de modo verdadeiro, e isso porque ele mesmo se dá a conhecer e
nos capacita a fazê-lo. Esse é um bom momento para lembrar as sábias
palavras de Clark: “Podemos saber que Deus existe, sem sabermos tudo o
que ele é. Podemos tocar a terra sem, entretanto, sermos capazes de abarcá-
la com os braços. A criança pode conhecer a Deus, ao passo que o filósofo
não pode descobrir toda a sua perfeição”.5 Isso é algo que torna a revela­
ção divina ainda mais esplêndida. Ele se torna acessível ao simples, de ma­
neira que o mais humilde dos homens o possa conhecer verdadeiramente,
enquanto o mais inteligente dos homens nunca poderá conhecê-lo comple­
tamente, Portanto, o finito pode conhecer o infinito, pois podemos conhecê-
lo verdadeiramente sem que o compreendamos exaustivamente.
46 Razão da esperança

C o nhec im en to revolucionário

O conhecimento que podemos ter de Deus é algo que emana do pró­


prio Deus com o propósito de transformar as pessoas. E um conhecimen­
to que integra todas as partes de nosso ser e produz transformações pro­
fundas no nosso caráter, na nossa vontade e nos nossos sentimentos, pen­
samentos e ações. Em resumo, é algo que redireciona a vida da pessoa.
Jeremias diz: “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria,
nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se
gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço
misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o
Senhor” (Jr 9.23,24). Observe a total inversão de valores que o conheci­
mento de Deus produz na vida das pessoas. Coisas como “sabedoria”, “for­
ça” e “riqueza” são as grandes fontes propulsoras deste mundo, pois tudo
é construído sobre esses alicerces, e todos os homens buscam essas coisas
de uma maneira ou de outra. Conhecer a Deus, entretanto, faz com que
esses valores sejam invertidos. Conhecer a Deus é o verdadeiro motivo de
orgulho e não o simples fato de se possuir sabedoria, força ou riqueza.
Conhecer a Deus e experimentar a sua misericórdia, o seu juízo e a sua
justiça é a grande razão da nossa existência, e faz com que a nossa vida
tenha real significado, e não seja mera vaidade e correr atrás do vento (Ec
2.11). Conhecer a Deus transforma a noção da existência.
Se conhecemos a Deus, sabemos que a vida tem sentido e que nada
acontece por acaso neste mundo. Dessa perspectiva, os nossos maiores
temores podem se dissipar, e nada há que consideremos como impossível
ou inalcançável. Conhecer a Deus modifica a maneira como encaramos as
dificuldades e os prazeres da vida. As dificuldades não serão mais simples
“cruzes” que carregamos gemendo ao longo da vida. Quem conhece a
Deus procura achar a razão ou o objetivo de estar passando por qualquer
situação. Alguém que sofre sem ser culpado deve pensar que Deus tem um
propósito para a sua vida com esse sofrimento. Ele sabe que não precisa se
revoltar contra o mundo, contra as pessoas, e nem contra Deus por não ter
atendido a um desejo seu. Também a concepção dos prazeres mudará. Em
primeiro lugar, a busca pelos prazeres jamais será o principal objetivo neste
mundo. O principal objetivo de quem conhece a Deus é conhecê-lo ainda
mais. Isso não quer dizer que será preciso se privar de todos os prazeres. E
certo que dos ilícitos sim, e a Bíblia tem a palavra final a respeito de quais
são estes; com relação aos prazeres permitidos, eles devem ser considera­
dos uma dádiva de Deus e desfrutados nele (Pv 23.24-26). A vida vivida na
Conhecendo a Deus 47

sua plenitude física e espiritual, em conformidade com a Escritura, é cheia


de deleites, encontra alegria na tristeza, e sempre se aproxima mais de Deus,
e a cada passo pode conhecê-lo melhor.

Antes eu te co nhec ia só de ouvir...


E preciso sempre lembrar que há níveis de conhecimento a respeito de
Deus. Jó era um servo extremamente fiel a Deus, mas se viu envolvido numa
acirrada disputa. Sabemos de tudo o que Satanás, sob a permissão divina,
infligiu a jó . Sabemos também que Jó não pecou, e no seu livro o vemos
agonizando muito mais por não conseguir entender o motivo de tudo aquilo
do que pela dor das chagas. A certa altura, ele desabafou: “Ah! Se eu soubes­
se onde o poderia achar! Então, me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele
a minha causa, encheria a minha boca de argumentos” (Jó 23.3,4). Deus
finalmente concedeu uma audiência a Jó. Deus veio até ele e lhe falou do
meio de um redemoinho (Jó 38.1). Entre outras coisas, Deus demonstrou
que Jó não entendia nada dos planos eternos de Deus; mostrou que Jó não
entendia a maneira como Deus havia criado o mundo, e nem mesmo como
o preservava, cuidando dos animais pequenos ou grandes, das estações do
ano, da influência dos astros sobre a terra (Jó 38-41). Deus quis demonstrar
a Jó que ele não tinha razões para questionar os seus propósitos. Depois de
tudo isso, Jó fez o seguinte reconhecimento: “Eu te conhecia só de ouvir,
mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5). Uma frase como essas na boca
de uma pessoa que se mostra hesitante quanto a servir ao Senhor é compre­
ensível, mas de alguém como Jó, sobre quem o próprio Deus deu testemu­
nho de que era íntegro, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1.8), é
algo no mínimo intrigante. Ao final da sua experiência trágica, ele reconhe­
ceu que o seu conhecimento de Deus havia tomado proporções não imagi­
nadas. O fato é que ele precisou perder as três coisas que as pessoas mais
valorizam no mundo (bens, família e saúde), para entender que não conhecia
realmente a Deus. Porém, foi naquele momento de dor que Jó pôde reco­
nhecer que, embora não o compreendesse, agora o conhecia. Um conheci­
mento pessoal, a partir da experiência de vida com Deus. Não mais um co­
nhecimento de ouvir, mas um conhecimento de ver. Evidentemente que Jó
não está falando em termos literais, pois ninguém jamais viu a Deus nesse
sentido. O que Jó está dizendo é que o seu conhecimento de Deus, naquele
momento, já não era de impressões externas, ou a partir do que os outros
falavam. Ele conhecia Deus a partir de sua própria experiência. Deus se
revelou a ele, e embora não tenha revelado os seus propósitos (Deus não
48 Razão da esperança

explicou a razão do sofrimento de Jó), ele demonstrou que era um Deus


confiável. Jó percebeu que Deus o amava ainda que as bênçãos tivessem
desaparecido. Jó percebeu que Deus era suficientemente sábio e poderoso
para guiar o destino do mundo sem que os seus planos fossem frustrados (Jó
42.2). Ele entendeu que conhecer a Deus era sinônimo de crer e descansar
nele. Isso convenceu a sua mente e encheu o seu coração de paz. Agora ele o
conhecia de verdade. Na sua experiência, Jó pôde chegar à conclusão de que
não conhecia somente algo sobre Deus, mas que conhecia o próprio Deus.6
No entanto, esse conhecimento tinha vindo pela experiência.

Conhece-te a ti m e s m o
Conhecer a Deus implica conhecer a si mesmo, pois Deus é a origem do
homem. Não conhecer a Deus implica não saber de onde viemos, onde
estamos e muito menos para onde vamos. Não conhecer a Deus é nada
entender sobre o mundo, sobre a vida, ou sobre qualquer outra coisa. Nas
palavras de Packer, para aqueles que não conhecem a Deus “o mundo se
torna um lugar estranho, louco, penoso, e viver nele algo decepcionante e
desagradável”.7 Só resta o desespero para quem não conhece a Deus, pois
não conhecer a Deus significa não conhecer coisa alguma, significa viver
uma vida de fracassos, decepções, tropeços e desilusões. Não conhecer a
Deus é viver uma vida inferior à dos animais, pois a Bíblia diz que “o boi
conhece o seu possuidor, e o jumento o dono da sua manjedoura”, mas
com relação a Israel Deus diz tristemente “Israel não tem conhecimento, o
meu povo não entende” (Is 1.3). A filosofia tem demonstrado isso vivida-
mente ao longo dos séculos. Desde os filósofos estóicos e epicureus que
Paulo enfrentou no Areópago, que desejavam alcançar a paz da alma me­
diante a imperturbalidade ou por se afastarem dos prazeres, até os moder­
nos filósofos nihilistas,8 todos têm rejeitado o conhecimento de Deus, e
desse modo, rejeitaram o conhecimento do homem.

Conclusão: 0 b em su p rem o
Não precisamos adorar um “Deus desconhecido”. Embora seja verdade
que nunca conseguiremos conhecer a Deus plenamente, podemos conhecê-
lo verdadeiramente, e isto, porque ele próprio tem se revelado ao ser huma­
no, especialmente através das Escrituras. Mas é preciso ter a coragem de
reconhecê-lo como ele é, e não necessariamente como nós gostaríamos que
Conhecendo a Deus 49

ele fosse. É preciso resistir à idéia de “fazê-lo” conforme a nossa imagem, e


“deixá-lo” ser o que é: O Deus soberano cujos pensamentos não são os
nossos pensamentos e cujos caminhos não são os nossos caminhos (Is 55.8).
Conhecer a Deus deve ser o grande objetivo do ser humano. Porém,
conhecer a Deus não é, necessariamente, sinônimo de buscar as bênçãos
dele. Percebemos que esse foco está distorcido na vida de muitos crentes,
que estão mais interessados nas bênçãos do que no próprio Deus. Vivemos
num tempo em que a oferta de “soluções para todos os problemas” tem
sido a grande proclamação das igrejas. Há um grande erro por trás dis­
so, pois Deus é o maior bem que o homem pode ter, Deus em si mesmo,
seu ser mais do que seus benefícios, o doador mais do que a dádiva, a fonte
mais do que o córrego. Não podemos adorá-lo enquanto levantamos os
nossos olhos interesseiros em sua direção. Deus, em si mesmo, é o Bem
Supremo, e todos os nossos esforços devem se concentrar em conhccê-lo.
O exemplo do Apóstolo Paulo deve ser nosso lema: “Mas o que para
mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras con­
sidero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de
Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8,9). O desejo maior do Apóstolo era “o
conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimen­
tos” (Fp 3.8,10,11). É terrível perceber que este não é o objetivo da maioria
dos crentes. Assim, por mais que aparentem conhecê-lo, continuam
tateando...
A Trindade: Da teoria à prática
w w

A doutrina da Trindade é uma das mais importantes do Cristianismo


ortodoxo. Percebe-se, entretanto, que, pelo menos no contexto brasileiro,
essa doutrina é tida em pouca consideração. A razão disso talvez seja o
pragmatismo que a religião brasileira tem como base. As pessoas só se inte­
ressam pelo que elas entendem que pode ser útil para a sua vida. Elas que­
rem coisas práticas e a teoria as deixa enfadadas. Esse é justamente o moti­
vo pelo qual não gostam de estudar teologia. Teologia sugere algo teórico,
e as pessoas dizem que estão mais interessadas em “experiências” com Deus,
e na prática demonstram que desejam “soluções” de Deus para os seus
problemas. Não é que os cristãos não acreditem na veracidade da doutrina
da Trindade; é que, de modo geral, as pessoas não sabem para que ela serve.
E aquela velha história de que, para que algo seja importante, ele precisa
“falar ao coração”. Talvez, para a maioria, pouco importa se Deus é um ou
três. Entretanto, esquecer-se da doutrina da Trinadade ou descaracterizá-la
é perder muito do que a Bíblia e especialmente Deus tem a nos dizer no real
sentido da palavra. É perder de vista a coisa mais essencial de Deus que
podemos saber, Na verdade, é ignorar a própria essência de Deus. Hoje em
dia, poucas pessoas pensam na Trindade, e quando pensam, não seria ab­
surdo dizer que, em muitos casos, elas imaginam três deuses. Esse impor­
tante tema precisa ser mais bem estudado. Num certo sentido, a doutrina
da Trindade é de fato a mais misteriosa e também a mais difícil de todas as
doutrinas bíblicas, porém, como afirma Lloyd-Jones: “Ela é, em certo sen­
tido, a mais excelsa e a mais gloriosa de todas as doutrinas, a coisa mais
espantosa e estonteante que aprouve a Deus revelar-nos sobre Si mesmo”,1
ou, como afirma Bavinck:

O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão,


a marca registrada da nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aque­
les que verdadeiramente crcem em Cristo. Essa confissão foi a âncora na
guerra de tendências ao longo dos séculos. A confissão da santa Trindade é
a pérola preciosa que foi confiada à custódia da igreja cristã.2
52 Razão da esperança

Deus quis mostrar aos seus filhos esse aspecto tão impressionante de
sua essência. Queremos demonstrar que a doutrina da Trindade não é ape­
nas um conceito teórico ou desinteressante, mas um elemento essencial da
espiritualidade.

D esenvolvim ento histórico da doutrina da Trindade


No início do Cristianismo, a Trindade foi motivo de controvérsias, An­
tes do Concílio de Nicéia (325 d.C.), as principais controvérsias trinitárias fo­
ram influenciadas pelo judaísmo, com a sua ênfase no monoteísmo e na
unidade de Deus; pelo gnostinsmo, que via todas as coisas como emanações
de Deus e considerava a matéria má; e pelo platonismo, que cria no Logos
como a principal criatura de Deus. Os cristãos primitivos foram grande­
mente influenciados por essas correntes filosóficas, o que deu origem a
uma série de disputas, cujos resultados foram algumas teorias heréticas so­
bre a Trindade.3 As principais foram:

0 monarquismo
Essa heresia surgiu da dificuldade de explicar o elemento divino na pes­
soa de Cristo, e mesmo do Espírito Santo, sem cair no erro do triteísmo. O
monarquismo modalista não admitia a existência da Trindade Ontológica
(em essência), mas apenas Econômica (funcional), ou seja, Pai, Filho e Es­
pírito Santo são uma única pessoa que se manifestou sucessivamente na
História. Deus se manifestou na pessoa do Pai na criação, na pessoa do
Filho na encarnação e na pessoa do Espírito Santo na regeneração. Já o
monarquismo dinâmico negava a divindade essencial de Jesus, afirmando
que Deus é essencialmente um, e que Jesus havia recebido o dinamis (poder)
de Deus por ocasião do seu batismo, sendo elevado a uma categoria divina.
Esse poder o abandonou poucos instantes antes da sua morte.

0 ar i a n i sm o
O arianismo recebeu esse nome de seu fundador, Ario (250-336 d.C.),
que foi um presbítero da igreja de Alexandria. Ario era essencialmente
unitarista, e negava qualquer possibilidade de haver uma Trindade. Segun­
do Ário, somente Deus era eterno, Jesus era uma criatura intermediária
gerada do nada por Deus antes da criação do mundo. Desse modo, o Pai
A Trindade: Da teoria à prática 53

nem sempre foi Pai, pois antes de ter criado o Filho, Deus existia sozinho.
O Filho não é eterno. Segundo Ario, a importância do Filho estava no fato
de que ele foi o instrumento por meio do qual Deus criou todas as coisas e
nada mais. E impossível não associar o arianismo ao que proclamam hoje
os Testemunhas de Jeová.

Os concílios

A igreja reagiu à maioria das heresias antigas reunindo-se em concílios,


nos quais foram formuladas declarações de fé que demonstravam a verda­
deira ortodoxia. Os concílios que mais trataram a respeito da Trindade fo­
ram os de Nicéia e Calcedônia.
O Concílio de Nicéia foi convocado em 325 d.C. pelo Imperador Cons-
tantino por causa do arianismo. Nesse concílio, o arianismo foi rejeitado,
tendo sido formulada a seguinte declaração de fé:

Cremos em um só Deus, o Pai todo-poderoso, eriador de todas as coisas,


visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, o filho de Deus,
gerado do Pai, unigénito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de
luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só subs­
tância eom o Pai, pelo qual todas as coisas vieram a ser, coisas nos céus e
coisas na terra, o qual, por nós, homens, e por nossa salvação, desceu e Se
encarnou, tornando-Se homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu
aos céus, e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas,
quanto àqueles que dizem “tempo houve em que ele não existia”, e “antes
de nascer ele não era” e que ele veio a existir do nada, ou que afirmam que
o Filho de Deus procede de uma hipóstase ou substância diferente, ou é
criado, ou está sujeito a alteração ou mudança —a esses a igreja Católica
(Universal) anatematiza.

Essa declaração colocou o Filho em pé de igualdade com o Pai, ou seja,


ele é da mesma substância do Pai. Não é um Deus diferente, e muito menos
inferior.
No Concílio de Constantinopla, em 381, as diferenças com relação à
divindade do Espírito Santo foram resolvidas. A fé nicena foi reafirmada,
mas a questão do Espírito Santo foi mais bem esclarecida: “Nós cremos no
Espírito Santo, o Senhor, o Doador da Vida, que procede do Pai,4 que com
o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado...” Essa declaração afir­
ma claramente que o Espírito Santo não era subordinado ao Filho e nem ao
Pai, mas era da mesma substância do Pai e do Filho.
54 Razão da esperança

A spectos bíblicos da doutrina da Trindade


Aqueles que negam a existência da Trindade, em geral acusam os
trinitarianos de inventar uma doutrina que não está na Bíblia. Embora o
termo “Trindade” realmente não seja encontrado na Escritura, existe um
amplo consenso de que essa doutrina é amplamente comprovada pelos
textos sagrados. Aliás, de onde essa doutrina poderia surgir senão da reve­
lação de Deus? Quem poderia formular essa doutrina do nada? A igreja
teve que reconhecer e defender a Trindade exatamente para poder conciliar
os elementos bíblicos. Como crer que há somente um Deus como a Escri­
tura afirma (Dt 6.4), se as próprias Escrituras dizem que Jesus também é
Deus (Jo 20,28)? E do mesmo modo afirmam que Jesus e o Pai são pessoas
distintas (Mt 3.16,17)?

Evidências do Antigo Testamento

No Antigo Testamento, a existência da Trindade não é explicitamente


exposta, mas, à luz da revelação do Novo Testamento, podemos encontrar
indícios da existência dela.
Uma coisa que fica absolutamente clara é a ênfase do Antigo Testamen­
to na unicidade de Deus (Dt 4.35,39; 32.39; 2Sm 22.32; Is 37.20; 43.10). A
principal confissão de fé do povo hebreu em Deuteronômio 6.4 diz: “Ouve
Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Do mesmo modo, Isaías
4 5 .18 diz: “Porque assim diz o S enhor, que criou os céus, o único Deus,
que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou para ser um
caos, mas para ser habitada: Eu sou o S enhor, e não há outro”. Porém,
indícios de que na divindade há mais de uma pessoa são encontrados ainda
em muitas outras passagens.
O Nome de Deus. O título “Elohim”, traduzido como Deus em Gênesis
I.1, é o nome mais comum aplicado à divindade no Antigo Testamento.
Esse nome está no plural. Isso por si só não quer dizer que haja três pessoas
na divindade, mas, de algum modo implica pluralidade dentro da divindade.
A luz de João 1.1,3, entendemos Gênesis 1.1-3 como uma referência à obra
do Pai, do Filho e do Espírito Santo na criação.
A comunicação de Deus consigo mesmo. Passagens como Gênesis 1.26, 3.22,
II.7 e Isaías 6.8 têm sido bastante difíceis de explicar. Nelas, é como se Deus
falasse consigo mesmo na primeira pessoa do plural: “Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança.,,” (Gn 1.26). Com quem Deus
A Trindade: Da teoria à prática 55

estava falando nesse momento? Certamente não era com os anjos, pois o
homem não foi feito à semelhança dos anjos, nem os anjos estão no mesmo
nível de Deus.5 E a Bíblia não diz que Deus toma conselho com anjos ou
qualquer outra criatura (Is 40.13,14). A resposta mais plausível é que Deus
falava consigo mesmo dentro da Trindade. Esse entendimento só é possível
ã luz da revelação do Novo Testamento, a qual de uma maneira ainda mais
clara demonstra o relacionamento dentro da Trindade, conforme pode ser
visto nas palavras do próprio Jesus: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama,
guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos
nele morada” (Jo 14.23). O mesmo “nós” dos textos do Antigo Testamento
pode ser visto no relacionamento de Jesus com o Pai.
A repetição dos nomes de Deus na Hênção Araônica. Na bênção araônica le­
mos: “O S e n h o r te abençoe e te guarde; o S e n h o r faça resplandecer o seu
rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o S e n h o r sobre ti levante o seu
rosto e te dê a paz” (Nm 6.24-26). Três vezes aparece na passagem o título
S e n h o r . À luz da revelação do Novo Testamento, especialmente da bênção
apostólica, na qual as três pessoas estão claramente distintas (2Co 13,13),
conseguimos ver na bênção araônica indícios da Trindade.6
O Anjo do S e n h o r , Uma boa referência do Antigo Testamento a respeito
da Trindade encontra-se na pessoa do Anjo do S e n h o r . O caso é que algu­
mas vezes esse Anjo, que deve ser distinguido dos demais anjos, se identifi­
ca com o próprio Senhor, enquanto em outras ocasiões ele é distinguido do
Senhor, o que nos leva a pensar em pluralidade de personalidade (Ver Gn
16.7-13; 22.15,16; 31.11-13; Êx 3.2-6; 23.23, 32.34; Nm 20.16). Geralmen­
te, associa-se essa figura do Anjo do S e n h o r com a Segunda Pessoa da
Trindade.
Aparecimentos de Deus. Talvez a prova mais evidente do Antigo Testa­
mento com relação à Trindade esteja nos aparecimentos de Deus. A Escri­
tura do Novo Testamento diz que ninguém jamais viu a Deus (Jo 1.18; 5.37;
6.46; ljo 4.12). Como explicar, então, todos os supostos aparecimentos de
Deus no Antigo Testamento? (Gn 18.1; 28.13; Êx 33.18-23; Dt 34.10). O
próprio João diz: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus unigénito, que está
no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). João chamou Jesus de Logos
(Jo 1.1) que é traduzido como Palavra ou Verbo, e traz a idéia de fala ou
comunicação. Entendemos, então, que Jesus foi o revelador da pessoa divi­
na no Antigo Testamento. Jesus disse que Abraão havia visto o seu dia, pois
ele existia antes de Abraão (Jo 8.56-58), referindo-se com certeza à ocasião
da destruição de Sodoma e Gomorra, quando Abraão viu o Senhor, con­
forme relata Gênesis 18.1: “Apareceu o S e n h o r a Abraão nos carvalhais de
56 Razão da esperança

Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do


dia”. Quem Abraão viu naquele dia foi o próprio Jesus antes da sua encar­
nação. Depois desse encontro, os anjos desceram e destruíram as cidades.
Outra passagem que ajuda a perceber que Jesus se manifestou no Antigo
Testamento é João 12.37-41: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua
presença, não creram nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que
diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço
do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-
lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos,
nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados.
Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu respeito”. Observe
que João disse que Isaías viu a glória de Jesus. Mas, quando, e em que oca­
sião? O versículo 40 é uma citação direta do capítulo 6 de Isaías. E pode­
mos ler o seguinte no início do capítulo 6: “No ano da morte do rei Uzias,
eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas
vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha
seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas
voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o
S e n h o r dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do
limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça.
Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios
impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos
viram o Rei, o S e n h o r dos Exércitos!” (1-5). Isaías disse ter visto o S e n h o r
dos Exércitos. E se João disse que Isaías tinha visto Jesus, então o S e n h o r
e Jesus são a mesma pessoa. A conclusão é que, todas as vezes que Deus foi
visto no Antigo Testamento, tratava-se de uma manifestação da Segunda
Pessoa da Trindade. Portanto, o Antigo Testamento tem bons indícios da
existência da Trindade.

Provas do Novo Testamento


O Novo Testamento é muito mais decisivo na sua ênfase trinitária. Há
muitas passagens que nos dão a idéia clara de que Deus é um e é três ao
mesmo tempo.
No batismo de Jesus. Na passagem que relata o batismo de Jesus, é dito:
“Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o
Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz
dos céus, que dizia: Este é o meu filho amado, em quem me comprazo” (Mt
A Trindade: Da leoria à prática 57

3.16,17). Observe que são mencionados três personagens. Jesus está sendo
batizado, o Espírito está descendo sobre ele, e o Pai está falando dos céus.
Inconfundivelmente, aí estão, simultaneamente as três pessoas da Trindade.
Na Fórmula Batismal. Jesus disse: “Ide, portanto, fazei discípulos de to­
das as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo” (Mt 28.19). Nessa passagem, não somente as três pessoas são cita­
das conjuntamente, como a expressão “em nome” está no singular. A Es­
critura não diz “batizando-os no nome do Pai, no nome do Filho e no
nome do Espírito Santo”. Há apenas um nome para o Deus que subsiste
em três pessoas.
Na Bênção Apostólica. O texto diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o
amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”
(2Co 13.13). Por que Paulo colocaria esses três nomes em pé de igualdade,
se não os considerasse como pessoas da mesma divindade? Seria Paulo
idólatra? Então, fica claro que a Bíblia afirma a existência da Trindade. Em
Apocalipse 1.4,5 a bênção é pronunciada de forma ligeiramente diferencia­
da, mas as três pessoas estão presentes: “Graça e paz a vós outros, da parte
daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se
acham diante do seu trono e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o
Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra”.
Na obra da Salvação. A Escritura mostra em passagens como 1 Pedro
1.1,2 e Judas 20-22, Pai, Filho e Espírito Santo agindo em pé de igualdade
na vida dos crentes na eleição, na redenção e durante todo o processo da
santificação. A Trindade conjuntamente age em favor dos escolhidos.
Na Capacitação da igreja. Nas passagens de ICoríntios 12.4-6 e Efésios
4.4-6 que tratam da maneira como Deus capacita a sua igreja para em uni­
dade, desenvolver a sua tarefa no mundo, as três pessoas da Trindade são
mencionadas como sendo a base pela qual a igreja sobrevive e age no mun­
do. João 14.16 também faz menção da Trindade, mas nesse caso é o Espí­
rito Santo que vem por meio do pedido do Filho ao Pai para substituir o
próprio Filho no meio da igreja.
No Ensino de Cristo. Ao mesmo tempo em que Cristo disse que Deus era
seu Pai que estava no céu (Mt 5.16; 7.21; 11.25-27), ele disse que não eram
a mesma pessoa (Mt 16.27; Jo 10.17), e disse também que era “Um” com
ele (Jo 10.30, 38). A comparação entre as palavras de Jesus nos leva a crer
que a Divindade é composta por mais de uma pessoa. E esse certamente é
o maior argumento bíblico a favor da divindade: a consciência do próprio
Jesus. Ele sabia e demonstrou que era alguém diferente do Pai e, ao mesmo
tempo, “um” com o Pai.
58 Razão da esperança

Em 1João 5.7. A passagem mais clara na Bíblia com relação à Trindade é


ljoão 5.7. Entretanto, ela é amplamente controvertida, e muito provavel­
mente não seja realmente original, pois não aparece na maioria dos códices
gregos antigos, nem nos latinos e não é citada pelos pais anti-nicenos. Po­
rém, há grande evidência da antigüidade dessa passagem, talvez antes mes­
mo de 160 d.C,7 o que demonstra que a doutrina da Trindade era tão antiga
quanto essa data sugere.
Todos esses elementos bíblicos considerados conjuntamente deixam a
certeza de que há um só Deus, que subsiste em três pessoas: O Pai, o Filho
e o Espírito Santo.

Aspectos teológicos da doutrina da Trindade


Falar sobre a base teológica da doutrina da Trindade significa estabelecer
conceitos que nos ajudem a entendê-la melhor. E claro que jamais podemos
nos esquecer que estamos lidando com algo que ultrapassa em muito o nos­
so entendimento. As palavras de Calvino sobre a Trindade são muito instru­
tivas nesse sentido, e servem de advertência contra especulações:

Entendamos que se nos secretos mistérios das Escrituras nos convém ser
sóbrios e modestos; certamente este que tratamos no presente não requer
menor modéstia e sobriedade, mas é preciso estar de sobreaviso, para
que, nem o nosso entendimento, nem a nossa língua vão além do que a
Palavra de Deus nos tem demonstrado. Por que, como poderá o entendi­
mento humano compreender, com sua débil capacidade, a imensa essên­
cia de Deus, quando nem sequer consegue determinar com certeza qual é
o corpo do sol, mesmo que todos os dias o vê com seus olhos? Assim
mesmo, como poderá penetrar por si só a essência de Deus, uma vez que
não conhece nem a sua própria? Portanto, deixemos a Deus o poder de
conhecer-se. 8

Definições
Podemos definir a doutrina da Trindade como um Deus em essência,
mas que subsiste em três pessoas distintas. Não há analogia ou ilustração
que possa nos ajudar a entender como isso é possível. No passado, os Pais
da igreja costumavam usar analogias para ajudar a entender a unidade den­
tro da Trindade. Falava-se, por exemplo, da união da luz, do calor e do
esplendor numa só substância do sol; da raiz, do tronco e das folhas de uma
planta, ou mesmo do intelecto, da vontade e dos sentimentos na alma hu-
A Trindade: Da teoria à prática 59

mana. O fato é que as ilustrações acrescentam muito pouco à doutrina da


Trindade e, às vezes, até mesmo a distorcem.
“Essência” é a tradução da palavra grega ousia que também pode sig­
nificar substância,9 e refere-se à natureza divina. Essa natureza essencial
é compartilhada pelas três pessoas da Trindade. Quando pensamos na
raça humana, sabemos que todos compartilham a mesma natureza, a hu­
mana, mas, cada um é um indivíduo autônomo. Compartilhamos a mes­
ma natureza, mas somos seres diferentes. Na Trindade há apenas uma
natureza, pois há apenas um ser, mas em três pessoas. Cada uma das três
pessoas da Trindade compartilha da mesma natureza divina, a qual é nu­
mericamente uma. São três pessoas distintas, mas não separadas. Há ape­
nas uma vontade, um poder, uma mente, uma determinação, um senti­
mento, um ser. A essência de Deus não é dividida entre as três pessoas da
Trindade; ela é absoluta, completa e perfeita em cada uma delas. Não são
três partes de um só Deus, nem três deuses, é um Deus, uma substância
e três pessoas.
“Pessoa” é tradução dos termos gregos prosopon e hjpostasis ou o latino
persona, que foram usados pelos escritores antigos para indicar as distinções
da Divindade. Modernamente, tem-se falado em subsistência como um ter­
mo mais adequado e livre de ambigüidades. Na verdade, muito tempo foi
gasto na tentativa de encontrar uma palavra que mais bem definisse o sen­
tido da distinção, e isso, por si só, já mostra o quanto todas são na verdade
inadequadas. O importante é que o termo “essência” nos fala da unidade
de Deus, enquanto o termo pessoa ou subsistência nos fala das distinções
que existem no ser divino. Pessoa é o elemento diferenciador na Trindade.
Essência é uma, pessoas são três. Não se trata de três modos de manifesta­
ções, mas três existências, ou subsistências reais, dentro de um único ser.
No Ser de Deus, a unidade e a diversidade não são antônimas. Deus, no seu
ser, pode ser tripessoal, sem deixar de ser um.

A Trindade e m essência (Ontológica)

Dentro da Trindade existe absoluta igualdade de essência, logo, não existe


qualquer grau de subordinação, nem mesmo de honra. O Pai não é maior
em essência do que o Filho e nem o Filho maior do que o Espírito Santo. O
Pai não deve ser mais adorado do que o Espírito, ou o Espírito mais do que
o Filho. Entretanto, há características próprias em cada uma das pessoas da
Trindade, as quais não são encontradas nas demais. Estamos falando da
Paternidade, da Filiação e da Processão.
60 Razão da esperança

A paternidade é uma característica exclusiva do Pai. Nesse sentido, não


podemos chamar o Logos de Pai e nem o Espírito de Pai. A paternidade do
Pai é diferente da que os homens concebem por ser eterna. Não houve um
tempo em que Deus não fosse Pai. Desde toda a eternidade ele é o Pai do
Filho. O Pai difere do Filho e do Espírito Santo por não ser gerado e nem
proceder de ninguém, e por ser o único que gera.
O Filho possui a característica exclusiva de ser gerado. Somente o Filho
é filho do Pai. Não houve um tempo em que o Filho não existia (Mq 5.2),
ele é eternamente gerado da essência do Pai. A igreja tem historicamente
afirmado que a geração do Filho é desde toda a eternidade como um ato
atemporal. Se o Pai gerou o Filho em algum momento da História, então,
isso significa que ele mudou de essência e que o Filho não é eterno em
essência. A geração do Filho não cria uma nova essência na Trindade, pois
é a mesma essência que é compartilhada tanto pelo Pai quanto pelo Filho.
A geração é uma comunicação da essência do Pai ao Filho, num ato
atemporal, que faz com que tanto o Pai, quanto o Filho tenham vida em si
mesmos (Jo 5.26). Berkhof dá a seguinte definição da geração do Filho: “E
ato eterno e necessário da primeira pessoa da Trindade, pelo qual ele, den­
tro do Ser Divino, é a base de uma segunda subsistência pessoal, semelhan­
te à Sua própria, e dá a esta segunda pessoa posse da essência divina com­
pleta, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”.10 Em geral, os argu­
mentos mais usados para dizer que Cristo não é eterno são as passagens de
Colossenses 1.15 e Apocalipse 3.14 que falam respectivamente de Jesus
como o “primogênito” e o “princípio” da criação de Deus. Dizem os unitá­
rios, especialmente os Testemunhas de Jeová, que esses termos colocam
Cristo como a primeira criatura de Deus, não sendo, portanto, eterna. Em
Colossenses 1.15 “primogênito” da criação não pode se referir ao primeiro
ser criado, pois subentenderia que Cristo é o primeiro filho da própria cria­
ção, e isso não faz sentido. A interpretação mais provável é que Cristo é o
herdeiro de toda a criação de Deus. Do mesmo modo, em Apocalipse 3.14
falar de Cristo como o primeiro por causa da palavra “princípio” não faz
justiça ao uso dessa palavra no próprio livro do Apocalipse, pois o próprio
Deus é chamado de princípio (Ap 1.8; 21.6; 22.13). Faz muito mais sentido
pensar que a passagem está falando de Cristo como o mais proeminente de
toda a criação, o principal, o mais importante, o chefe (Ver Cl 1.18).
O Pai gera o Filho, o Filho é eternamente “gerado” do Pai, e o Espírito
Santo “procede” eternamente do Pai e do Filho. Nas línguas grega e he­
braica as palavras pneuma e ruach, que são traduzidas como “espírito”, deri­
vam de raízes que significam “soprar, respirar, vento”. Daí a idéia de o
A Trindade: Da leoria à prática 61

Espírito ser soprado por Deus (Jo 20.22). A doutrina de que o Espírito
“procede” do Pai e do Filho levou algum tempo para ser formulada pela
igreja, sendo que somente em 589, no Sínodo de Toledo, foi formulada a
seguinte declaração de fé: “Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai
e do Filho”.11 A base bíblica de que o Espírito procede do Pai e do Filho é
João 15.26, bem como as passagens em que o Espírito é chamado de Espí­
rito de Cristo ou de Espírito do Filho (Rm 8.9; G1 4.6; Fp 1.19; IPe 1.11).
Berkhof define a “espiração” do Espírito como sendo “o eterno e necessá­
rio ato da primeira e da segunda pessoas da Trindade, pelo qual elas, dentro
do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e
propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina,
sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”.12

A Trindade n o trabalho (Econômica)

Um modo interessante de ver a Trindade é entender como a Trindade


age, não em relação a si mesma, mas em relação à criação. Quando fala­
mos em essência, vimos que embora haja características próprias em cada
pessoa da Trindade, não existe qualquer grau de subordinação entre elas.
Porém, quando falamos em trabalho (economia) da Trindade, percebe­
mos que há uma ordem no modo em que Deus trabalha. Isso nos revela
muito do caráter trinitário. Jesus fez algumas declarações que certamente
poderiam nos deixar confusos se não entendêssemos a diferença de Trin­
dade em essência (ontológica) e Trindade econômica. Já vimos que ele
disse ser um com seu Pai, porém, em outras passagens ele afirmou ser
submisso ao Pai, como por exemplo, João 6.38: “Porque desci do céu,
não para fazer a minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me
enviou”. E também noutra ocasião ele disse: “O Pai é maior do que eu”
(Jo 14.28), Já dissemos que, de acordo com a Bíblia, há igualdade absoluta
entre as pessoas da Trindade, mas então, por que Jesus disse que o Pai era
maior do que ele? Certamente porque ele estava se referindo à sua encar­
nação e à obra que precisava fazer. Ele foi submisso ao Pai nesse sentido
e, portanto, inferior em função, mas não em essência. Estamos agora
falando da realização de obras, não dentro do ser divino, mas em relação
à criação, providência e redenção. Na Escritura, vemos algumas obras
sendo mais atribuídas a uma das pessoas da Trindade do que a outra.
Entretanto, devemos tomar cuidado para não exagerarmos nas distin­
ções, pois de certa maneira, a Trindade participa conjuntamente de todas
as obras externas.
62 Razão da esperança

Não precisamos temer falar de uma subordinação econômica do Filho


ao Pai, desde que entendamos que não há qualquer subordinação de essên­
cia. E por isso que Paulo diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o
cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça
de Cristo” (ICo 11.3). No contexto, ele está tratando da diferença que exis­
te entre o homem e a mulher, e da subordinação que a mulher deve ao
homem. Ele não está dizendo que a mulher é inferior ao homem, mas que
deve ser submissa e guardar as diferenças proporcionais.13 Do mesmo modo,
o Pai é o cabeça de Cristo, mas isso não quer dizer que ele é superior, pois
a essência é a mesma. A questão está nas funções, que são diferentes.
Devemos evitar a formulação simplista de que o Pai é o responsável
pela criação, o Filho pela redenção, e o Espírito pela santificação, pois a
Trindade participa conjuntamente de tudo isso. A distinção que podemos
fazer é a seguinte: Ao Pai pertence mais o ato de planejar, ao Filho o de
mediar, e ao Espírito o de agir. Isso pode ser visto no relato da criação. Na
passagem de Gênesis 1.1-3 as três pessoas da Trindade estão agindo. O
texto diz: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Observe
que a criação é atribuída a Deus. Entretanto, em seguida veja algumas ma­
nifestações diferentes desse Deus: “A terra, porém, estava sem forma e
vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava
sobre as águas” (Gn 1.2). Aí está a Terceira Pessoa, o “Espírito de Deus”. A
maioria dos comentaristas concorda que o Espírito Santo está numa fun­
ção de “energizar” a matéria, sendo, portanto, o ponto de contato entre
Deus e a matéria. Porém, onde está o Filho? O Filho é a “palavra” de Deus.
Foi João quem chamou Jesus de o “verbo” de Deus (Jo 1.1). Ele é a Palavra
proferida, o “haja luz”, é o instrumento por meio do qual todas as coisas
foram criadas. A Bíblia afirma isso categoricamente: “Pois, nele, foram cri­
adas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam
tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi cria­
do por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Portanto, podemos dizer que na obra
da criação, o Pai fala, o Filho é a Palavra falada - o Mediador, e o Espírito
Santo é o agente direto sobre a matéria. Em termos semelhantes, a Trinda­
de trabalha na redenção, cada pessoa executando uma tarefa particular. A
passagem de 1 Pedro 1.2 é clara nesse sentido, pois diz que os crentes são:
“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito,
para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Aqui também o
Pai é o ideaüzador da salvação, pois a ele pertence o ato de escolher os que
devem ser salvos. Nesse sentido, o Pai é o autor da eleição. O Filho está
novamente na função de Mediador, ele possibilita a obediência a Deus pela
A Trindade: Da teoria à prática 63

aspersão do seu sangue. Já ao Espírito Santo é designada a tarefa de santifi­


car, ou seja, separar para si os eleitos. Então, o Pai elegeu, o filho salvou e o
Espírito aplicou a salvação. Na verdade, essa ordem de funções pode ser
vista por toda a Escritura: O Pai planejando a salvação (Jo 6.37,38) e esco­
lhendo os eleitos (Ef 1.3,4), o Filho executando o plano de Deus (Jo 17.4;
Ef 1.7), e o Espírito Santo confirmando essa obra nos crentes (Ef 1.13,14).
De fato, como declara Lloyd-Jones, “essa é uma idéia atordoante, ou seja,
que essas três bem-aventuradas Pessoas, na bem-aventurada santíssima Trin­
dade, para a minha salvação, quiseram dividir assim o trabalho”.14

Aspectos práticos da doutrina da Trindade


Até aqui vimos aspectos históricos, bíblicos e teológicos da doutrina da
Trindade. Agora queremos falar sobre aspectos práticos. Claro que isso não
significa que o que foi dito acima não seja prático. Porém, até aqui nos
preocupamos em definir bem os conceitos; agora, queremos falar sobre
como a doutrina da Trindade deve influenciar a nossa vida diária.
E impossível ter um relacionamento correto com Deus sem considerar
a Trindade. Hoje as pessoas demonstram inconscientemente preferência
por uma das pessoas da Trindade. Há aqueles para quem a pessoa do Pai é
a central. Essas pessoas pensam muito pouco em Jesus e no Espírito Santo.
Principalmente os oriundos da tradição católica, quando lembram de Deus,
pensam na pessoa do Pai. Outros preferem a pessoa do Filho, geralmente
os influenciados pelo “pietismo”, mas certamente trata-se de uma minoria.
O Espírito Santo é o foco principal da vida da maioria dos crentes das
igrejas carismáticas. Essa fragmentação das pessoas da Trindade é coisa
bem típica do nosso mundo moderno. Ela dilui a compreensão da riqueza
de Deus. Por outro lado, na prática o que se percebe é um tipo de unitarismo
funcional. Quando pensamos em Deus, não trazemos à memória a existên­
cia triúna, mas o imaginamos como uma pessoa única. Isso compromete
demasiadamente o nosso relacionamento com ele, pois impede que enten­
damos mais completamente o seu caráter. Na verdade, é impossível com­
preender a criação e a redenção sem pensar na Trindade, pois, como vimos,
tanto a criação quanto a redenção não são obras de uma das pessoas divi­
nas, mas da Trindade como um todo.
Nesse ponto outras coisas precisam ser consideradas. Um problema é
imaginar que Deus precisou criar o mundo para se sentir mais pleno. Isso é
um engano, pois Deus é absolutamente completo em si mesmo. Ele não
64 Razão da esperança

precisava criar o universo para se sentir melhor, nem mesmo para experi­
mentar algum relacionamento, pois em seu ser, Deus já é completo e
relacionável. Na oração sacerdotal Jesus disse: “E agora, glorifica-me, ó Pai,
contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse
mundo... porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.5,24). Na
verdade, esse por si só, já é um grande argumento em favor da Trindade. Se
a Bíblia diz que Deus é amor (ljo 4.8), então, o que ele amava antes de ter
criado alguma coisa? Deus exercitava o amor a si mesmo, no relacionamen­
to trinitário, que por sua vez, veio a ser a base para o relacionamento amo­
roso com os homens, que assim, também pode ser chamado de “amor
eterno” (Jr 31.3). Deus expandiu o seu amor intra-trinitário para suas cria­
turas, e isso demonstra de modo assombroso como é grande esse seu amor.
Quando Deus nos chama para a fé, na verdade é um convite para mergu­
lhar no relacionamento trinitário, aquele relacionamento que as pessoas da
Trindade têm entre si. Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará a minha
palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo
14.23). Deus não precisava criar nada para se sentir mais pleno, mas ainda
assim decidiu criar para dar maior expressão ao relacionamento trinitário.
Somos chamados para participar disso, como Jesus deixou bem claro na
sua oração: “A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu
em ti, também sejam eles em nós” (Jo 17.21). Dessas passagens é deduzida
a seguinte idéia : O Deus triúno em nós, e nós no Deus triúno, uma comu­
nhão com base trinitária. Somos chamados a mergulhar no amor da Trin­
dade. Por essa razão, não considerar a Trindade é deixar de entender o
amor de Deus na sua plenitude.
Isso, por sua vez, nos leva a entender o nosso chamado relacional. Jesus
continuou orando ao Pai: “Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens
dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim
de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu
me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.22,23). E
fácil entender por que a comunhão é tão difícil na igreja. As pessoas bus­
cam comunhão por meio de eventos sociais, trabalhos comunitários, músi­
cas que incentivam cumprimentos mútuos, etc. Porém, a verdadeira base da
comunhão da igreja é a Trindade. Precisamos entender que fomos chama­
dos para refletir o mesmo amor que existe na Trindade. Somos chamados
para mergulhar nesse amor, e ele precisa inundar a nossa vida de tal manei­
ra que os outros irmãos recebam os efeitos dele. O próprio sentido da
nossa missão no mundo também está explícito nessas palavras de Jesus.
Queremos que o mundo conheça o evangelho, e para isso fazemos imensas
A Trindade: Da leoria à prática 65

campanhas evangelísticas, cultos de evangelização, distribuímos folhetos,


mas percebemos que os resultados são insignificantes. Jesus ensinou que o
nosso testemunho depende da nossa unidade. Enquanto o amor da Trinda­
de não invadir o nosso coração a ponto de alcançar os outros, o mundo
continuará descrente em relação a Jesus.
A consciência da Trindade muda também o próprio culto que presta­
mos a Deus. O culto cristão é essencialmente trinitário. Uma definição de
culto cristão poderia ser: “Adorar o Pai, pela mediação do Filho, no poder
do Espírito Santo”.15 Essa é uma definição interessante, mas há o perigo de
compartimentar as coisas, pois não é só o Pai que é adorado, e sim o Deus
triúno. A idéia é que o culto como um todo é para a Trindade e obra da
Trindade. O acesso à presença de Deus é feito pela pessoa do Filho. A
comunicação de Deus com o povo se dá pelo Espírito que faz uso da Pala­
vra. O culto é uma vibrante atuação do Deus triúno. Quando temos isso
bem claro na nossa mente, percebemos que a única coisa de que precisa­
mos para adorar a Deus verdadeiramente é a atuação da Trindade. Isso
evidentemente não dispensa os elementos do culto como a música, os ins­
trumentos e as próprias pessoas. Porém, a adoração verdadeira não pode
depender de um cântico animado, de instrumentos bem tocados ou da elo­
qüência do pregador. Se essas coisas são os instrumentos da adoração é
provável que não esteja acontecendo adoração. A adoração verdadeira é
obra da Trindade em nós, e a partir de nós, para a própria Trindade. Por
isso o culto bíblico é bastante diferente do que se vê na maioria das igrejas.
O culto bíblico é teocêntrico e não antropocêntrico.
Finalmente, a doutrina da Trindade é um chamado ao serviço. Estuda­
mos sobre a absoluta igualdade essencial da Trindade. Nesse sentido, não
há qualquer grau de subordinação entre as pessoas da Trindade. Porém,
percebemos que nas obras externas, ao trabalhar na criação e na redenção,
as pessoas da Trindade se subordinam umas às outras e trabalham em per­
feita cooperação. Embora sejam pessoas plenas, e cada uma tenha a essên­
cia completa da Trindade em si, elas não são, e nem desejam ser, autôno­
mas. Elas são absolutamente livres e isso faz com que se relacionem e pro­
movam a obediência. O Filho faz questão de obedecer ao Pai, e o Espírito
é obediente ao Filho. A dificuldade que os cristãos têm para trabalhar em
conjunto é por causa do ego. Cada um tem o seu orgulho pessoal, e quer
que a sua opinião prevaleça. Achamos que obedecer e servir uns aos outros
nos torna inferiores. Achamos que liberdade é a autonomia. A Trindade
nos ensina que, por meio do serviço e da obediência cristã, é que desfruta­
mos da plena liberdade. Quando o Filho de Deus amarrou a tolha na cintu-
66 Razão da esperança

ra e lavou os pés dos discípulos, isso não o tomou menos digno nem me­
nos livre, ao contrário.
Diante dessas coisas, concluímos que devemos valorizar mais essa dou­
trina. Precisamos nos arrepender por considerar tão pouco esse precioso
ensino da Escritura, e passar a considerar o caráter trinitário do nosso Deus
em nosso relacionamento com ele, com os irmãos e no culto que lhe pres­
tamos. Acima de tudo, permanece o fato de que não podemos conhecer
verdadeiramente a Deus se não considerarmos o seu caráter trinitário. Como
diz Bavinck, “somente quando nós contemplamos essa Trindade é que nós
descobrimos quem e o que Deus é”.16
Rocha eterna: 0 Deus imutável

Os primeiros capítulos da Escritura narram a criação. Ao final de cada dia


da criação, Deus contemplava sua obra e dizia que tudo era bom. A medida
que a terra foi se delineando, os oceanos se estabelecendo, os seres vivos se
desenvolvendo, ouvia-se o aplauso dos anjos (Jó 38.4-7), e Deus se deleitava
na sua criação, vendo que tudo era bom (Gn 1.10,12,18,21,25). Ao final do
sexto dia, depois de concluir a sua obra-prima, de ter criado o ser humano, e
colocá-lo para governar a terra, Deus percebeu que as coisas estavam ainda
melhores. O autor inspirado registra: “Viu Deus tudo quando fizera, e eis
que era muito bom” (Gn 1.31). Porém, logo as coisas se complicaram. O
homem e a mulher cederam à tentação. O mundo transformou-se num caos.
Caim matou Abel. E o número dos perdidos passou a ser muito maior do
que dos salvos. Ao contrário do que se poderia imaginar, Deus tolerou a
situação durante vários séculos. Até que um dia ele deu um basta. Em Gêne­
sis 6.5,6 está registrada a impressão geral de Deus sobre a criação decaída:
“Viu o S e n h o r que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e
que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; então, se arrepen­
deu o S e n h o r de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.
Disse o S e n h o r : Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o
homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os
haver feito”. Deus já não podia dizer que tudo na criação era “muito bom”.
Na verdade, ele percebia que a parte principal da criação, o ser humano,
havia se tornado “continuamente mau”. Então, de acordo com a passagem,
ele arrependeu-se de ter criado o homem e decidiu exterminá-lo. A narrativa
bíblica é bastante simples, mas dá origem a alguns problemas teológicos:
Deus não havia previsto todo o mal que se estabeleceria depois da queda?
Será que, de alguma maneira, ele foi pego de surpresa? Teria ele mudado os
seus planos? O que a Bíblia quer dizer com: Deus se arrependeu?
A maioria das religiões crê num Deus que muda de acordo com as situ­
ações. Será que Deus é como os seres humanos, sujeito a derrotas e fracas­
sos? Será que um dia ele acorda bem-humorado e num outro mal- humorado?
68 Razão da esperança

Será que ele tem um temperamento instável como o nosso? Ou será que
Deus é sempre o mesmo, nada o afeta, nada o faz retroceder?

Um conceito necessário
Freqüentemente os escritores bíblicos chamam Deus de “Rocha”.1 En­
tre outras coisas, podemos dizer que, quando os escritores usavam esse
termo, eles tinham em mente a idéia de um local seguro, um abrigo, uma
fortaleza. A expressão “rocha” também transmite a idéia de algo que não se
abala com o tempo, algo que permanece, que é eterno. É nesse sentido que
Isaías diz: “Confiai no Senhor perpetuamente, porque o Senhor Deus é
uma rocha eterna” (Is 26.4). O profeta desafia o povo a confiar em Deus
não apenas hoje ou amanhã, mas eternamente, porque o Senhor é eterno e,
como uma rocha, não muda. Por essa razão, Deus é uma fonte eterna de
segurança. Ninguém confia em coisas mutáveis. Não arriscamos o nosso
dinheiro em investimentos instáveis. Não colocamos a nossa confiança em
pessoas cujo temperamento muda da noite para o dia, pois é um fato esta­
belecido que segurança está intimamente ligada a estabilidade. Não poderí­
amos nos refugiar no esconderijo do altíssimo se ele não fosse uma rocha
eterna. Se Deus não permanecesse firme nos seus propósitos, como pode­
ríamos ter certeza de que tudo o que ele disse se cumprirá? Se ele mudasse
de planos a cada momento, de acordo com as inclinações do momento, e
em resposta a situações inesperadas, como saber se sua vontade será feita?
A Rocha Eterna fala de um Deus que não muda de planos, e que não pre­
cisa mudar, porque os seus planos não têm falhas. A Rocha Eterna é uma
fonte eterna de segurança.
A doutrina da imutabilidade de Deus é uma das mais importantes para a
fé cristã. Crer num Deus imutável é fundamental para que se mantenha um
sistema racional de fé e coerência bíblica. Deus, na sua essência, jamais so­
freu ou sofrerá qualquer mutação. Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamen­
te (Hb 13.8). Esse é um conceito necessário. E absolutamente necessário
que um ser perfeito seja imutável, pois mudança necessariamente pressupõe
imperfeição. A idéia de progresso ou regresso somente é admitida em al­
guém finito e imperfeito. O homem progride ou regride na sua vida porque
não é um ser acabado, não possui perfeições imutáveis e está em constante
aprendizado. Se Deus mudasse algo na sua essência, teria que mudar para
melhor ou para pior.2 Se mudasse para pior estaria se tornando menos per­
feito, e se mudasse para melhor, isso significaria que ainda não era perfeito.
Rocha elerna: 0 Deus imutável 69

Sendo um ser absoluto e perfeito, Deus está livre de todas as causas e possi­
bilidades de mudanças. Shedd usa a questão do conhecimento para demons­
trar que Deus necessariamente não muda: “Uma criatura cresce em conheci­
mento em certas direções, e perde conhecimento em outras. Ela adquire
informação e esquece. O criador tem conhecimento infinito a todo instante,
ele nunca aprende ou esquece”.3 Isso pode ser aplicado a todos os atributos
de Deus. Por esse motivo, não podemos imaginar qualquer tipo de mudança
essencial no ser de Deus, e nem precisamos, pois a Escritura é farta em
afirmações a respeito da sua imutabilidade. O próprio nome pessoal com
que Deus se revelou no Antigo Testamento atesta a sua imutabilidade. Ele
disse: “Eu Sou o que Sou” (Êx 3.14). Deus é o eterno “Eu Sou absoluto”.
Ele não é um “vir-a-ser”, como se crê no panteísmo, mas o eterno “Eu Sou”,
conforme a Escritura atesta. O salmista diz: “Eles perecerão, mas tu perma­
neces; todos eles envelhecerão como um vestido, como roupa os mudarás, e
serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão
fim” (SI 102.26,27). Não dá para fazer uma comparação entre Deus e os seus
inimigos porque todos mudam e perecem, mas Deus será o mesmo eterna­
mente. O próprio Deus fala por meio de Isaías: “Dá-me ouvidos, ó Jacó, e
tu, ó Israel, a quem chamei; eu sou o mesmo, sou o primeiro e também o
último” (Is 48.12), Deus está chamando o povo a confiar nele por causa de
sua eternidade e imutabilidade. A Escritura afirma que Deus é o “pai das
luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17).
Nessa passagem, Tiago está argumentando que todo bem é proveniente de
Deus que sempre foi bom e jamais deixará de ser. Ele nunca deixará de ser
bom porque é impossível que haja qualquer mudança nele, nem sequer uma
sombra. No ser de Deus não existe a possibilidade de mudança.
Deus é imutável na essência do seu ser e também em seus atributos. Sua
onisciência é sempre a mesma, assim como a sua santidade e o seu poder.
Não devemos interpretar mal certas passagens da Escritura; por exemplo,
quando ela fala em santificar ao Senhor ou ao seu nome (Nm 27.14; Is 8.13;
Ez 28.22, IPe 3.15). Com isso a Escritura não está dizendo que devemos
fazer algum acréscimo à santidade que Deus já possui, mas que devemos
render a ele o que lhe é devido. A imutabilidade divina está intimamente
conectada com os demais atributos dele, como, por exemplo, a sua infini­
dade, onipotência, eternidade, etc. A imutabilidade é absolutamente neces­
sária a fim de que Deus continue sendo o Deus poderoso, absoluto e
confiável que é. Uma única mudança no ser divino ou em seus atributos
afetaria de modo completo a sua divindade, e assim, ele não seria mais o
Deus que é. Por essa razão, a imutabilidade é um conceito necessário.
70 Razão da esperança

Não é tão difícil aceitar que Deus seja imutável no seu Ser, mas e com
relação ao seu modo de agir? Será que ele nunca muda de planos ou atitu­
des? Inicialmente, é possível dizer que do simples fato de sua imutabilidade
ontológica (em seu ser), decorre necessariamente que ele também é imutá­
vel em suas atitudes. Como imaginar um Ser Imutável que, não obstante,
muda? A fim de entendermos melhor essa questão, podemos dividi-la em
duas seções que demonstram o agir imutável de Deus: ele é imutável nos
seus decretos e nas suas promessas.

Decretos imutáveis
Quando falamos em decretos divinos, estamos nos referindo às deter­
minações que tomou desde toda a eternidade. Isso tem a ver com o propó­
sito dele com relação a todas as coisas que foram criadas. Como seria se
Deus resolvesse criar todas as coisas sem um propósito definido? Se ele
fosse improvisando tudo, sem objetivos, deixando, como se diz por aí, “a
coisa rolar”? Existe uma teoria cada vez mais aceita entre os evangélicos de
que Deus não conhece o futuro.4 Essa teoria diz que a onisciência de Deus
abarca apenas o passado e o presente, mas não o futuro, porque o futuro
simplesmente não existe. O futuro está totalmente aberto, e Deus e os
homens construirão o futuro num constante ritmo de adaptações e inova­
ções. Como o homem freqüentemente frustra a vontade de Deus, Deus
precisa buscar novas soluções. Porém, se as coisas fossem realmente as­
sim, teríamos que pensar que o futuro pode não ser como queremos e nem
mesmo como Deus quer. Se nem Deus conhece o futuro, não há qualquer
garantia de que o bem vencerá o mal. Graças à Escritura, não precisamos
mergulhar nesse mundo de incertezas. A Escritura diz que Deus conhece o
futuro porque ele o decretou. Os decretos divinos são a garantia de que a
vontade de Deus finalmente prevalecerá, não a do homem, e muito menos
a de Satanás. A recusa das pessoas em aceitar que Deus tenha decretos é
infundada. Como imaginar um construtor que começa a construir uma
grande obra sem uma planta? Ninguém faz isso, e, se faz, está condenando
a própria obra. Se até os homens que são falíveis e mutáveis, antes de
realizarem qualquer coisa, planejam detalhadamente, por que Deus não
faria isso?
Esses propósitos ou decretos foram formulados por Deus antes da fun­
dação do mundo. Ele os concretiza durante a História, nas épocas que
predeterminou. Concluímos, a partir do ensino da Escritura, que Deus de­
Rocha eterna: 0 Deus imutável 71

cretou todas as coisas que acontecem neste mundo. O Breve Catecismo de


Westminster define os decretos como “o seu eterno propósito, segundo o
conselho da sua vontade, pelo qual, para a sua própria glória ele predestinou
tudo o que acontece” (P, 7). Essa doutrina está fundamentada em muitas
passagens bíblicas. Efésios 1.11 diz: “Nele, digo, no qual fomos também
feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as
coisas conforme o conselho da sua vontade”. Deus não se guia pela vonta­
de dos outros a fim de realizar as coisas que devem ser realizadas. Ele segue
apenas o conselho da sua vontade. De acordo com a Escritura, esses decre­
tos são imutáveis. Ou seja, aquilo que Deus determinou acontecerá exata­
mente como a sua vontade determinou. A Escritura diz: “Se ele resolveu
alguma coisa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará” (Jó
23.13,14). Deus não precisa de improvisos ou adaptações. Jó demonstrou
esse entendimento de modo ainda mais abrangente no final do seu livro:
“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado”
(Jó 42.2). Por mais que lute, o homem não consegue frustrar os planos de
Deus. O Salmista demonstra o mesmo entendimento ao afirmar que “o
Conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração, por
todas as gerações” (SI 33,11). E, comparando a fragilidade dos propósitos
humanos com os divinos, o escritor de Provérbios diz: “Muitos propósitos
há no coração do homem, mas o desígnio do Senhor permanecerá” (Pv
19.21). Já o profeta Isaías afirma categoricamente: “Jurou o Senhor dos
Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, as­
sim se efetuará” (Is 14.24), e, ainda “Lembrai-vos das coisas passadas da
antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro
semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e
desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu
conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.9,10). Deus
é aquele que pode anunciar as coisas antes que aconteçam, não só porque
as decreta, mas porque deseja e tem o poder de realizá-las.5
Jesus proibiu que seus discípulos fizessem juramentos. Ele disse: “De
modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra,
por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande
Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco
ou preto” (Mt 5.34,35). Há coisas que fogem ao nosso controle, por isso,
nem sempre conseguimos cumprir as nossas promessas. O homem não
controla os meios para chegar aos fins e por isso deve se abster de jurar. Há
coisas que fogem ao seu controle, coisas que acontecem por si mesmo, como
o branquear dos cabelos, e sobre os quais não se tem controle. Porém, Deus
72 Razão da esperança

tem controle sobre todas as coisas e sobre si mesmo, por isso ele faz jura­
mentos, pois tem poder para cumprir o que jura. Ele não muda. E isso o que
o escritor aos Hebreus tem em mente quando afirma: “Por isso Deus, quan­
do quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade
do seu propósito, se interpôs com juramento” (Hb 6.17). O autor aos He­
breus diz que “Deus jurou por si mesmo” (Hb 6.13). Ele pode jurar, pois
tem poder para cumprir, e nada pode mudá-lo. Deus nunca precisou fazer
um plano novo; seus planos e propósitos são eternos e imutáveis.

Promessas imutáveis
Deus cumpre todas as promessas que faz. Ele nunca muda as suas pro­
messas, pois essa é a expressão natural de sua imutabilidade. Números 23.19
diz: “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se
arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado,
não o cumprirá?” Porém, não devemos dizer que a fidelidade de Deus é por
nossa causa. Deus não é fiel a alguém, ele é fiel a si mesmo. Se fosse fiel a
nós, então, somente cumpriria as suas promessas desde que nós permane­
cêssemos sempre fiéis a ele. Mas a Escritura afirma: “Se somos infiéis, ele
permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2Tm
2.13). Isso jamais deve ser entendido como uma autorização da parte de
Deus para o pecado, pois as conseqüências de todos os pecados que come­
termos certamente virão sobre nós mesmos. A passagem está dizendo que
Deus não deixa de cumprir suas promessas, que representam o seu propó­
sito, devido a alguma falha humana,6 pois se fosse assim, dificilmente Deus
conseguiria cumprir qualquer promessa sua. Uma passagem clássica que
nos ajuda a entender isso é Malaquias 3.6: “Porque eu, o Senhor, não mudo,
por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos”. Nos tempos de Mala­
quias, o povo de Deus havia se desviado dos padrões estipulados por Deus,
especialmente no que se referia aos dízimos e às ofertas (Ml 3.7-12). Entre­
tanto, Deus tinha um plano e havia feito promessas a Abraão, Isaque e Jacó.
Embora os “filhos de Jacó” merecessem ser exterminados, Deus os poupa­
ria por causa da sua promessa de abençoar todas as famílias da terra em
Abraão e sua descendência. Com relação ao próprio Abraão, Deus demons­
trou a imutabilidade das suas promessas na ocasião em que ele, seguindo a
idéia de sua mulher, resolveu ter um filho com a serva Agar. Aquilo foi
desagradável aos olhos do Senhor, mas o Senhor não deixou de cumprir a
promessa que havia feito a Abraão, e no tempo determinado, Isaque nas­
Rocha eterna: 0 Deus imutável 73

ceu. Não precisamos ter dúvidas, pois como diz Paulo: “Os dons e a voca­
ção de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29).

Aparentes m u d a n ça s em Deus
Alguém dirá: e como ficam as várias passagens da Escritura que afir­
mam que Deus se arrependeu de alguma coisa que havia dito e mudou dc
atitude? E como explicar a própria encarnação de Cristo? Como pôde Cris­
to ter tomado um corpo humano, morrido e ressuscitado e ainda assim a
essência da Trindade permanecer imutável? Ele voltou para o céu com um
corpo, e ainda assim nada mudou?
Comecemos pelas aparentes mudanças em Deus. Algumas passagens da
Escritura de fato dizem que Deus se arrependeu. Como já foi visto, Gêne­
sis 6.5,6, diz isso claramente: “então, se arrependeu o Senhor de ter feito o
homem na terra, e isso lhe pesou no coração”. O mesmo, porém de modo
inverso, pode ser visto em Êxodo 32.14, quando Deus declara o desejo de
exterminar o povo por causa de seu pecado, mas diante da suplica de Moi­
sés, a Bíblia diz que: “Então, se arrependeu o Senhor do mal que dissera
havia de fazer ao povo” (Ver Jr 18.8-10; 26.13; Jn 3.9,10; Am 7.1-3). Como
conciliar essas passagens com o conceito de imutabilidade? Para começar a
responder a questão, precisamos fazer uma distinção teológica. Quando
dizemos que Deus é imutável, não estamos querendo dizer que Deus é
imóvel ou impassível. Não se deve confundir imutabilidade com imobilida­
de.7 Deus não deve ser descrito como alguém sem movimento, que não se
importa com nada. Se fosse assim, Deus não teria sentimentos, e não pode­
ríamos atribuir amor, misericórdia, graça, ou mesmo ira a Deus. Deus não
é imóvel ou impassível, ele está em constante relacionamento com o ser
humano, que por sua vez é essencialmente mutável. Há realmente um rela­
cionamento entre Deus e os homens, porém é Deus quem pauta esse rela­
cionamento e não o homem, como pretende o teísmo aberto. Isso não quer
dizer que haja alguma mudança em Deus, mas que ele se apresenta a nós da
maneira como o podemos entender. A Escritura diz que Deus tem boca,
nariz, braços, coração, etc. Ela diz que ele inclina os ouvidos para ouvir,
como se de outra maneira não conseguisse. Essas seriam descrições literais
de Deus? Evidentemente que são “antropomorfismos”, ou seja, caracterís­
ticas humanas atribuídas a Deus a fim de que possamos compreendê-lo
melhor. E desse modo que devemos interpretar a expressão “Deus se arre­
pendeu”. E uma atitude de colocar em linguagem humana algo que é pró-
74 Razão da esperança

prio somente de Deus (antropopatismos). Ou seja, não sabemos qual foi o


teor do sentimento que Deus teve quando viu a degeneração da raça huma­
na, mas não podemos confundir isso com o arrependimento humano, que
sempre carrega a idéia de imperfeição, inabilidade ou incompetência. O
arrependimento que é atribuído a Deus não representa isso, mas carrega a
idéia de que o Deus que tem sentimentos, entristece-se ao ver a situação da
raça humana decaída. Está claro na passagem que a situação do ser humano
“pesou no coração” de Deus (Gn 6.6). O que é esse sentimento de peso no
coração senão tristeza diante da situação trágica da humanidade? Os estu­
dantes de teologia perguntam freqüentemente se não havia uma palavra
que pudesse explicar melhor o que Deus sentiu nos momentos descritos
acima. A resposta é não. Não há palavras para explicar que sentimento
Deus teve. A expressão que o escritor inspirado usou é a melhor; porém,
precisamos entender à luz de toda a Bíblia o que ela realmente significa. E
como já vimos, a Bíblia diz que Deus não é “filho de homem, para que se
arrependa” (Nm 23.19). Então, podemos entender as passagens que falam
do arrependimento de Deus como se referindo a um arrependimento dife­
rente daquele que o homem sente. Isso precisa ficar bem claro, pois em
Deus não há falhas. Ele não precisa lamentar por não conseguir realizar
algum plano. Ele jamais poderá ser acusado de não ter planejado ou previs­
to as dificuldades, como é comum no ser humano. Porém, ele tem senti­
mentos. Jesus deixou isso bem claro ao lamentar sobre Jerusalém, quando
esta o recusou, dizendo: “Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a
galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o
quisestes!” (Lc 13.34). Será que Jesus não tinha poder para mudar aquela
situação? Certamente que tinha, porém ele não mudou. Não obstante, en­
tristeceu-se por ver a dureza de coração do povo. Do mesmo modo, Jesus
chorou diante do túmulo de Lázaro (Jo 11.35), mas ninguém poderia dizer
que aquele foi um choro impotente, até porque logo o morto estaria saindo
do túmulo. Aquele foi um choro de quem se compadece da terrível miséria
que desabou sobre a humanidade por causa do pecado. Deus tem senti­
mentos e os expressa, mas não há falhas e nem mudanças nos seus planos.
Algumas vezes, parece que Deus muda suas promessas ou deixa de cum-
pri-las, mas com respeito a isso, há algo que precisa ser entendido. Algumas
promessas dc Deus são realmente condicionais. E como se Deus dissesse:
“Se vocês fizerem isso, receberão a minha bênção, mas se não fizerem,
serão amaldiçoados”. Nesse caso, também não há qualquer mudança em
Deus, pois ele está agindo conforme o seu propósito em ambos os casos. A
própria conversão do homem se enquadra nisso. Antes de se converter, o
Racha eterna: 0 Deus imutável 75

homem tinha sobre si a ira de Deus, mas, depois da conversão recebe graça
e misericórdia. Observe que em todos os casos citados acima não foi Deus
quem mudou, mas o homem. Deus apenas agiu em conformidade com o
que havia decretado a respeito das atitudes dos homens, sem nada mudar
do seu ser quanto aos atributos, promessas ou decretos. O famoso caso do
rei Ezequias também se enquadra nessa explicação. Ezequias, depois de
receber um ultimato de Deus de que iria morrer, implorou ao Senhor que
lhe concedesse mais tempo de vida e Deus lhe deu uma sobrevida de quin­
ze anos (Is 38.1-8). Ezequias morreria se Deus não interviesse, mas estava
no seu plano intervir, fazendo uso da oração do próprio Ezequias. Isso
tudo faz parte do decreto divino e em nada abala a sua imutabilidade, mas
destaca, de uma maneira impressionante o papel da oração no cumprimen­
to dos decretos de Deus. Até porque, se Deus quisesse realmente levar
Ezequias, não teria mandado o profeta avisá-lo.
Falta-nos ainda explicar a encarnação de Cristo, e esta é certamente a
tarefa mais difícil até aqui. A chave para entender a questão é que devemos
entender a encarnação de Cristo como fazendo parte do eterno propósito
de Deus, que foi levado a efeito por um ato da sua vontade. Nesse sentido,
a encarnação não trouxe nada de novo à divindade, pois era algo eterna­
mente previsto e predeterminado. As vezes, lemos na Bíblia que Jesus é o
Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (IPe 1.20; Ap 13.8).
Mas quando foi que Cristo morreu? Para Deus, ou seja, nos seus planos e
decretos, essa morte já estava contada desde o início. O mesmo, portanto,
pode ser dito de sua encarnação. Era algo predeterminado, algo que já fazia
parte da história da Trindade. Nada foi acrescido ou diminuído de Deus
pela encarnação de Cristo, pois ele apenas agiu de acordo com os seus
planos eternos.

Conclusão: Vale a p en a confiar


Concluímos, portanto, que Deus está sempre em movimento, porém o
seu ser, os seus atributos, a sua vontade e os seus decretos jamais mudam.
Como diz Pink, “aqui temos consolação firme. Não se pode confiar na
criatura humana, mas em Deus sim”.8 De fato, Deus é uma Rocha Eterna
que nunca muda. Ele se relaciona com o ser humano e se faz conhecido na
linguagem do ser humano. Seus sentimentos não são artificiais ou forjados,
mas puros, sinceros e perfeitos. O futuro existe para Deus e não está em
aberto. Ele é tão certo e definitivo quanto o passado. O conhecimento de
76 Razão da esperança

Deus sobre as coisas que ainda virão é o mesmo que ele tem sobre as coisas
que já aconteceram. Seu domínio é pleno e completo. Nossa salvação re­
pousa sobre esse caráter divino que é imutável. E o caráter de um Deus que
inicia uma obra e a completa, mas não no improviso, em reação aos erros e
vicissitudes de uma construção, pois ele segue o seu plano como um arqui­
teto que tem uma planta perfeita. E não é só a planta que é perfeita, mas
também o seu conhecimento e poder para executar o que ele mesmo deter­
minou. Se o futuro estivesse “aberto” para Deus, então, toda a certeza so­
bre qualquer coisa desapareceria. Não saberíamos sequer se Deus conse­
guiria estabelecer os “novos céus e nova terra” que estão prometidos. Tudo
deveria ficar em suspense, e talvez, em vez de orarmos a ele para que nos
ajude, ele teria que pedir a nós que o ajudássemos a cumprir o seu plano.
Ou pelo menos que não o atrapalhássemos. Se Deus mudasse os seus pla­
nos, ou melhor, se algo forçasse Deus a mudar os seus planos, como um
mau construtor precisa, a cada momento, consertar os erros cometidos,
não teríamos garantias de que as promessas que estão na Bíblia de fato
aconteceriam. E certo que não precisamos ter medo disso, e o motivo não
é outro senão que Deus é imutável. A imutabilidade de Deus é a garantia de
que todas as suas promessas se cumprirão. Isso nos dá segurança para crer
nele, e podemos mesmo ficar seguros, pois, afinal a Rocha é Eterna.
6

0 teu Deus, onde está ?

As m i n h a s l á g r i m a s t ê m s ido o m e u al i m e n t o dia e noite, e n q u a n t o m e di zem


c o n t i n u a m e n t e : o teu Deus, o n d e está? (SI 42. 3)

Desde a mais tenra infância aprendemos a cantar corinhos que dizem


“Deus é bom para mim”. Essa consciência de que Deus é bom nos acom­
panha durante a vida inteira. Há ocasiões, entretanto, que temos dificul­
dades em acreditar que isso seja realmente verdade. E triste, mas muitas
vezes, nossas crenças não passam de uma questão de decorar “chavões”
ou slogans religiosos que não fazem qualquer sentido real. Vivemos num
mundo muito cruel. Raramente se vê a justiça triunfar, e os bons, geral­
mente são os que sofrem mais. As vezes, dá a impressão de que Deus se
esqueceu de ajudar aqueles que esperam nele. Quando olhamos para toda
a desgraça que há neste mundo surge a pergunta: Como pode um Deus
bom permanecer impassível diante de tanta desgraça? Como um Deus
bom pode permitir que bebês morram na infância; que crianças morram
de fome em meio à pobreza ou nas guerras; que alguns tenham tanto
privilégio enquanto outros, tanta escassez; que o injusto domine sobre o
justo; e que muitos fiéis sejam perseguidos e mortos sem temor nem
piedade? Não podemos negar que este mundo tem uma vocação para a
tragédia. Anos de trabalho e dedicação podem se perder por causa da
seca ou da enchente. O frio mata e o calor escalda. Os descontroles da
natureza se abatem sobre todos, especialmente sobre os menos favoreci­
dos. Futuros brilhantes são despedaçados por balas perdidas que, quan­
do não colhem a vida de inocentes, os deixam condenados a camas de
hospitais. Os criminosos estão à solta pelas ruas, enquanto os cidadãos
de bem estão aprisionados nas suas próprias casas. Por mais que se faça
oração e por mais que se busque a Deus, as calamidades e as tragédias
continuam ocorrendo e ceifando vidas inocentes, espalhando o caos e a
violência. Diante de todas essas coisas, muitas vezes temos que ouvir a
pergunta dos incrédulos: “O teu Deus, onde está?” Se ele existe, onde
78 Razão da esperança

está a bondade e a justiça dele? É sobre isso que queremos falar neste
capítulo —sobre a bondade e a justiça de Deus apesar de todas as tragé­
dias que nos cercam.
Devemos crer na bondade de Deus porque a Escritura afirma que ele é
bom. Tiago, ao escrever aos perseguidos e sofridos crentes da dispersão, os
admoestou dizendo: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra
de mudança” (Tg 1.17). E a certeza da imutabilidade de Deus que nos dá
garantias de sua bondade também. Tiago está dizendo que todo o bem vem
de Deus, porque ele é eterna e imutavelmente bom. Deus jamais muda, e
por isso, concluímos que a sua bondade igualmente jamais muda.

Entendendo a bondade de Deus


Uma coisa que precisamos entender sobre a bondade de Deus é que ele
é bom no seu ser essencial. Deus não é apenas benevolente, ou seja, apenas
um concessor de coisas boas; Deus não é bom só pelo que ele faz; ele é
bom pelo que ele é. Ele é essencialmente bom, e nesse sentido poderíamos
dizer que é ele o único bom (Mc 10.18). Tudo nele é bom, e ele, necessaria­
mente, age sempre de acordo com a sua bondade. Ser bom é uma lei ine­
rente de Deus, faz parte do seu caráter.

O a m o r de Deus

O amor de Deus é uma maneira de ver a sua bondade. A Escritura


afirma que “Deus é amor” (ljo 4.8,16), demonstrando que o amor faz
parte da própria essência de Deus. Amar é algo absolutamente natural em
Deus. Ele não precisa se esforçar para produzir esse sentimento. Esse amor
de Deus se direciona a tudo o ele fez, a todas as obras das suas mãos, como
um reflexo do amor trinitário.
Na sua bondade, Deus não manifesta o seu amor apenas para o seu povo;
ele é bom para com todas as pessoas e coisas criadas. Como criador, Deus se
importa com toda a sua criação e é bom para ela. O Salmo 145.9,15,16 diz:
“O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas
as suas obras (...), em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás
o alimento. Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente”. A
bondade de Deus se estende a tudo o que existe, pois, na sua benevolência,
ele sustenta todos os seres vivos. Todas as coisas são objeto do amor e do
0 teu Dens, onde está? 79

carinho especial de Deus. Até as criaturas de menor importância são consi­


deradas por ele, às quais ele sustenta com a sua benevolência.
Num sentido mais técnico, poderíamos dizer que é quando a bondade
de Deus se direciona mais especificamente para o homem que ela recebe o
nome de amor. Devemos pensar no amor como uma demonstração da
bondade de Deus que se direciona mais às criaturas racionais, embora, como
já vimos, não é necessariamente errado dizer que Deus ama toda a criação.
Algo que precisa ser entendido é que não devemos localizar na criatura a
motivação do amor de Deus. Deus não ama as suas criaturas com base em
algo que vê nelas, mas com base no seu próprio amor, Como explica Berkhof:
“ele ama as Suas criaturas racionais por amor a Si mesmo, ou, para expressá-
lo doutra forma, neles ele se ama a Si mesmo, Suas virtudes, Sua obra e Seus
dons”.1 Nesse sentido, não precisamos temer afirmar que Deus ama todas
as pessoas, inclusive os seres perdidos. Como suas criaturas, ele ama e cuida
delas, como veremos na seção a respeito da graça comum, abaixo. O que
precisamos entender é que Deus ama o seu povo de um modo especial,
pois os vê como filhos espirituais em Cristo. O amor pelas criaturas é dife­
rente do amor pelos filhos. Nesse ponto, o seu amor está relacionado ao
sacrifício do seu Filho. Certamente, a maior de todas as provas de amor que
Deus deu aos homens foi o ato de entregar o seu Filho por nós. Romanos
5.8 declara: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato
de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. Essa é a maior
de todas as provas da bondade e do amor de Deus. Geralmente, as pessoas
buscam encontrar provas do amor de Deus nas bênçãos recebidas. Quando
não se sentem abençoadas, elas dizem: “Deus não me ama”. De acordo
com a Escritura, a verdadeira prova do amor de Deus está no sacrifício de
Jesus. Em meio às dificuldades da vida, devemos continuamente olhar para
o sacrifício de Cristo que nos dá a certeza do seu amor. É verdade que Deus
nos concede dádivas porque nos ama, mas a Escritura também diz que,
porque ele ama, ele disciplina, conforme está escrito em Apocalipse 3.19:
“Eu repreendo e disciplino a quantos amo”. Deus não demonstra o seu
amor apenas quando nos concede benefícios, mas também quando permi­
te que certas coisas ruins nos atinjam com o propósito de nos disciplinar,
testar, ou de fazer a nossa dependência dele crescer.

A gr a ç a de Deus
Um outro modo de dizer que Deus é bom é dizer que ele é gracioso,
pois graça se refere a uma faceta da bondade de Deus. A graça tem sido
80 Razão da esperança

classicamente explicada como “um favor imerecido”. Ela representa a bon­


dade de Deus em relação às pessoas que não merecem recebê-la.
Os teólogos têm feito uma distinção entre graça comum e graça espe­
cial, que são os modos pelos quais ela é demonstrada por Deus. A graça
comum é a bondade de Deus para todas as pessoas, mesmo as não-crentes,
que sendo criaturas de Deus, são alvo do cuidado divino. Deus mostra
favor até ao perverso, como o próprio Jesus demonstrou: “Eu, porém, vos
digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos
torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre
maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.44,45). Ao comen­
tar essa passagem, Hendriksen disse que “o amor de Deus para com os
habitantes da terra, sejam bons ou maus, é imparcialmente revelado nas
bênçãos do sol e da chuva e de todos os seus resultados benéficos”.2 Esse
autor não tem medo de chamar essa benevolência divina de amor. De fato,
Deus não manda chuvas apenas para o campo dos crentes. Podemos, por­
tanto, definir a “graça comum” como a bondade de Deus pela qual ele, por
meio do Espírito Santo, concede benefícios como lhe apraz a todos os
homens, sem levar em conta se são convertidos ou não, e sem necessaria­
mente lhes mudar o coração. A graça comum tem a ver com a preservação
da vida neste mundo.
Há muitas outras maneiras de Deus manifestar a sua graça comum, como,
por exemplo, no refreamento do pecado. Em geral, o homem não é tão
mau quanto poderia ser. Isso se deve aos limites que Deus impõe ao ho­
mem. Estes podem ser internos e externos. Internamente há a lei da cons­
ciência (Rm 2.14,15). O ser humano sabe quando está infrigindo essa lei, e
por mais que lute contra ela, não consegue se ver livre. Externamente, exis­
te a autoridade civil e a própria opinião pública. A Escritura diz que “não há
autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram
por ele instituídas” (Rm 13.1). Deus concedeu poderes às autoridades civis
para que executem a justiça para que a vida humana seja mais suportável.
Por isso, Paulo declara: “A autoridade é ministro de Deus para teu bem.
Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a
espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o
mal” (Rm 13.4). A opinião pública também age no sentido de restringir o
pecado. Existe, na maioria das pessoas, sejam cristãs ou não, um consenso
geral sobre certo e o errado. Uma pessoa não precisa ser cristã para saber
que matar, roubar, mentir, adulterar, etc., são coisas erradas. Essa opinião
pública ajuda a restringir o pecado e deve ser considerada uma atuação da
graça comum. Porém, essa manifestação da graça comum de Deus parece
0 teu Deus, onde está? 81

estar cada vez menos atuante no mundo. Frente aos ataques maciços dos
meios de comunicação, a moralidade que dominava a opinião pública tem
recuado. Isso só pode ser uma preparação maligna para a manifestação do
Anticristo e seu reino imoral. São aqueles tenebrosos tempos profetizados
pela Escritura, nos quais o mistério da iniqüidade terá livre curso neste
mundo. Parece que já podemos avistá-los.
Podemos também ver a manifestação da graça comum naquilo que
denominamos cultura. Deus possibilitou ao homem que desenvolvesse
talentos naturais a fim de que, por meio da medicina, da tecnologia, das
artes, etc., pudesse tornar a vida humana menos penosa. Essas coisas não
colaboram para a salvação de ninguém, pois não têm o menor caráter
redentor, sendo simplesmente benefícios que Deus concede aos homens
para tornar a vida humana um pouco melhor. As pessoas podem ser tão
dotadas como Einstein, Shakespeare, Da Vinci, etc., por causa da atuação
da graça comum.
A forma mais sublime, entretanto, de a graça de Deus se manifestar é
por meio do que denominamos “graça especial”. A graça especial refere-
se ao tratamento divino em relação aos seus filhos por meio de Cristo
Jesus. Ela está ligada à redenção, ao contrário da graça comum. É chama­
da de “especial” porque não é direcionada a todos os homens. Podemos
definir a graça especial como “a obra do Espírito Santo que efetivamente
move o homem para crer em Jesus Cristo como Salvador”. E por essa
graça que somos salvos, conforme a Bíblia declara expressamente: “Pela
graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; e dom de Deus”
(Ef 2.8), Sem ela, jamais encontraríamos a salvação, pois estamos “mor­
tos em delitos e pecados” (Ef 2.1), sendo por natureza “filhos da Ira” (Ef
2.3). Por ela somos “justificados gratuitamente” (Rm 3.24) e recebemos
todos os benefícios espirituais de Deus (Jo 1.16; 2Co 8.9). O fato de a
graça especial ser direcionada apenas para os crentes não significa que
eles sejam menos pecadores do que os perdidos; na verdade, todos são
igualmente pecadores diante de Deus (Rm 3.10,23). A graça especial está
intimamente ligada ao amor eletivo de Deus, o qual será estudado nos
próximos capítulos.
Portanto, podemos fazer a seguinte distinção entre graça comum e es­
pecial: a graça comum se dirige a todos os homens e tem a ver com benefí­
cios comuns; a graça especial se direciona apenas aos crentes e tem a ver
com a salvação. Ambas as manifestações dessa graça evidenciam a bondade
de Deus para com as suas criaturas.
82 Razão da esperança

A misericórdia de Deus

Um outro modo de entendermos a bondade de Deus é pensarmos em


sua misericórdia. A misericórdia é uma das características divinas mais
louvadas pelos escritores bíblicos. O Salmo, 136 do início ao fim, declara
que Deus deve ser louvado “porque a sua misericórdia dura para sem­
pre”. Ele não deixa de agir na vida daqueles que clamam por sua miseri­
córdia. Para Berkhof, “se a graça de Deus vê o homem como culpado
diante de Deus e, portanto, necessitado de perdão, a misericórdia de Deus
o vê como um ser que está suportando as conseqüências do pecado, que
se acha em lastimável condição, e que, portanto, necessita do socorro
divino”.3 Socorro é algo que Deus não nega aos que clamam por ele (SI
22.24; 30.2; 121.1,2).
O profeta Jeremias diz que as misericórdias do Senhor, nos momentos
críticos pelos quais o povo de Judá passou, eram a causa de o povo estar
vivo: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos
porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se a cada manhã” (Lm
3.22,23). Poucas coisas na Bíblia recebem o adjetivo “infinito”. O amor é
uma delas (ICo 13.8) e a misericórdia também.
A mais bela declaração da misericórdia de Deus foi obra do poeta que
cantou: “Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui con­
soante as nossas iniqüidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra,
assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista
o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como
um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que
o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (SI
103.10-14). De fato, é o conhecimento que Deus tem de nós como criatu­
ras finitas e decaídas que o leva a manifestar a sua misericórdia. Ele conhe­
ce a nossa estrutura, sabe que somos pó. Na verdade, o Novo Testamento
afirma que esse é um dos motivos pelo qual Jesus se compadece de nós. Ele
já foi um de nós, entende as nossas fraquezas e por isso é tão misericordio­
so, como afirma o autor da carta aos Hebreus: “Porque não temos sumo
sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele
tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.
Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim
de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião
oportuna” (Hb 4.15,16).
0 teu Deus, onde está ? 83

A pa ci ên cia de Deus

Por fim, uma outra demonstração da bondade de Deus refere-se à sua


paciência. Por paciência devemos entender o fato de que Deus tolera os
pecados dos homens por longos períodos, sem visitar imediatamente a ini­
qüidade deles. E uma espécie de chance que Deus dá aos homens para que
se arrependam. Ele não faz questão alguma de antecipar o julgamento dos
ímpios. Pedro diz: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a
julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não que­
rendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”
(2Pe 3.9). Se Deus ainda não destruiu este mundo é porque a sua paciência
é realmente muito grande. Não é sem motivo que ele é chamado de “o
Deus da paciência” (Rm 5.15).
A paciência de Deus é algo surpreendente para nós, principalmente le­
vando em consideração que os homens não são pacientes com as falhas
dos seus semelhantes. Se muitas vezes os homens não fazem algo contra as
falhas de seus semelhantes é porque lhes falta poder; mas quando pensa­
mos que Deus tem poder para agir no momento em que quiser, e condenar
os maus, mas espera, para que eles tenham tempo de se arrepender, vemos
quão longa é sua paciência. Os homens seriam sábios se atentassem a essa
paciência do Senhor, pois, ao contrário do amor, ela não dura para sempre.

As tragédias do m u n d o
As explicações acima são um resumo do que a Bíblia fala a respeito da
bondade de Deus. Porém, é um fato que elas nem sempre nos dão respos­
tas precisas sobre o motivo pelo qual Deus permite as tragédias no mundo.
Porém, queremos insistir que o fato de que Deus demonstra amor, graça,
misericórdia e paciência para com os homens deve ser suficiente para que
aceitemos e entendamos que ele é de fato bom. Somente a fé nos faz aceitar
a bondade divina. Com isso em mente, vamos pensar na questão das tragé­
dias que acontecem neste mundo. Será que elas de alguma maneira com­
prometem a bondade ou a justiça de Deus?

Conseqüências do Pecado

A primeira coisa que deve ser entendida é que Deus não está satisfeito
com o estado caótico do nosso mundo, e nem foi ele quem desejou que o
84 Razão da esperança

mundo caísse nesse estado. Foi uma escolha deliberada do homem que trou­
xe todas as desgraças dessa vida. Quando Adão escolheu pecar, sabia das
conseqüências, pois Deus o havia avisado (Gn 2.17). E, depois do pecado
dele, Deus ordenou a maldição sobre este mundo, dizendo: “Maldita é a terra
por tua causa” (Gn 3.17). Observe que a culpa pela maldição é claramente do
homem. Como conseqüência da maldição, o mundo virou um caos em todos
os sentidos. Os descontroles da natureza e a maldade do homem seriam cons­
tantes em toda a história do mundo. A Bíblia diz que a criação “está sujeita à
vaidade, não voluntariamente” (Rm 8.20) e que ela “geme e suporta angústias
até agora” (Rm 8.22), o que nos sugere que todas as catástrofes que aconte­
cem neste mundo são conseqüências do pecado. Não pelo pecado de cada
homem, mas pelo estado decaído da humanidade e do mundo. A bondade de
Deus se manifesta justamente pelo fato de que ele poderia ter deixado o
mundo entregue ao seu próprio destino, mas escolheu não fazer isso.4 Deus
providenciou uma redenção completa para este mundo. Chegará o dia em
que a “criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da
glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). Até lá teremos que conviver com as
desgraças desta vida, embora sempre tenhamos em Deus o nosso refúgio
seguro, “bem presente nas tribulações” (SI 46.1).

O triu nf alismo pseudocristão


Atualmente, muitos crentes acreditam numa espécie de triunfalismo
pseudocristão. Eles pensam que um fiel não passa por dificuldades, que
não pode ter problemas financeiros ou ficar doente. Em geral, esses pro­
blemas são atribuídos ao Diabo, e pensa-se que, o fato de passar por essas
dificuldades evidencia falta de fé. Pastores ensinam os crentes a se conside­
rar vitoriosos sobre todos os problemas, pois são filhos de Deus, e não é
justo que sofram. Eles devem exigir na prática a posição de que desfrutam
como “príncipes”. Diante das dificuldades, basta orar e decretar que o pro­
blema não mais existe e ele desaparecerá. Basta profetizar vitórias e todos
os problemas desaparecerão. Essa “teologia” se parece muito com a filoso­
fia de vida chamada de “pensamento positivo”. O que essa maneira de
pensar ignora é que o mundo está debaixo da maldição do próprio Deus, e
que o fato de alguém ser crente não impede que nasçam ervas daninhas no
seu quintal, nem que a sua esposa tenha dores de parto (Gn 3.16-18). Esses
são exemplos da maldição do mundo citados pelo próprio Deus.
Outra coisa que esse modo de pensar ignora é que o próprio Deus pode
enviar provações para trazer amadureximento aos crentes. A Bíblia clara-
0 teu Deus, onde está ? 85

mente demonstra que Deus permite que venham tribulações sobre a vida
dos crentes a fim de purificar a fé. Assim como Deus quis demonstrar a
Satanás que Jó era fiel não apenas pelos benefícios que concedia a ele, ele
também pode deixar o crente passar dificuldades - e muitas vezes ele faz
isso - , a fim de que se comprove a fidelidade do mesmo. Pedro diz que os
crentes deveriam se alegrar, mesmo que no presente, por breve tempo, se
necessário, fossem contristados por várias provações. Segundo ele, isso acon­
teceria “para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais
preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em
louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (IPe 1.6,7). As prova­
ções da vida redundam no louvor de Jesus. Paulo experimentou na sua
própria vida todo tipo de provações e dificuldades. Ele foi várias vezes
açoitado, fustigado com varas, apedrejado, enfrentou naufrágios, perigos
de todo tipo, trabalhos além das forças, fome, sede, frio e nudez (2Co 11.25-
27). Paulo não seria um modelo de fé para muitas igrejas da atualidade. Ele
próprio fez questão de relatar um sofrimento terrível na sua vida, o qual
chamou de “espinho na carne”, que o atormentava, e do qual insistiu com
o Senhor que o livrasse, mas recebeu como resposta: “A minha graça te
basta” (2Co 12.7-9). Deus não retirou o sofrimento, e não adiantaria nada
Paulo dizer “eu sou um filho de Deus, e decreto que este sofrimento desa­
pareça”, porque aquele sofrimento era para o bem de Paulo. Era justamen­
te essa graça (bondade) que o ensinou a “viver contente em toda e qualquer
situação”. Ele disse que na pobreza ou na riqueza, na honra ou na humilha­
ção, na abundância ou na escassez, “tudo posso (a idéia é: suporto tudo)
naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Curiosamente, esse versículo é um
dos mais usados para defender o triunfalismo supostamente cristão. Os
crentes o citam querendo dizer “eu sou invencível, posso realizar qualquer
coisa”, enquanto Paulo dizia: “eu consigo suportar todo sofrimento deste
mundo porque ele me fortalece”. De fato, Paulo enfrentou todo tipo de
situação, algumas que quase o fizeram desesperar da própria vida (2Co 1.8),
mas jamais deixou de ser fiel, e sua fé foi maravilhosamente amadurecida, a
ponto de poder dizer ao final de seu ministério: “Combati o bom combate,
completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7). Nos moldes de Jó, Paulo
descobriu a graça de Deus no sofrimento, e por causa dela podia dizer:
“Quando sou fraco é que sou forte” (2Co 12.10). Infelizmente, o triunfalismo
alegadamente cristão impede que as pessoas tenham as maiores e mais verda­
deiras experiências com Deus, e nunca levará uma pessoa a um nível espiri­
tual mais elevado. Esse triunfalismo cria crentes mimados, bebês em Cristo
que nunca experimentam o verdadeiro crescimento, pois se recusam a usar
86 Razão da esperança

os instrumentos que Deus dá para o crescimento de seus filhos. O


triunfalismo falsamente cristão ignora a verdade de Romanos 8.28: “Sabe­
mos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus,
daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. O propósito de
Deus é que sejamos conforme à imagem de Cristo (Rm 8.29). Deus usa
todas as coisas, inclusive o sofrimento, para o nosso crescimento. Tiago,
escrevendo aos perseguidos crentes da dispersão, disse: “Meus irmãos, ten­
de por motivo de toda alegria o passardes por várias provações” (Tg 1.2).
Esse apóstolo está dizendo que os crentes devem se alegrar nas provações
que passam nesta vida, não porque sejam “masoquistas”, pessoas que gos­
tam de sofrer pelo prazer de sentir dor, mas porque Deus tem um propósi­
to até mesmo com o sofrimento. Tiago afirma que as provações vão trazer
perseverança aos crentes, o que por sua vez os tornará maduros na fé (Tg
1.3,4). Creio que é nesse sentido que devemos entender Romanos 8.28.
Nesta vida, muitas coisas que nos acontecem são ruins, e mesmo as suas
conseqüências imediatas não são boas, por isso, também, precisamos en­
tender que esse bem pode ser um “bem final”, aquilo que tem a ver com o
propósito de Deus, pelo qual ele chamou os crentes. Devemos evitar pen­
sar que todas as recompensas de Deus são dadas nesta vida, e que recebe­
mos ainda neste mundo a justiça por toda injustiça recebida. Somos desafi­
ados pela Bíblia a olhar para o futuro, especialmente para o Novo Céu e
Nova Terra, onde todo sofrimento desaparecerá e seremos eternamente
bem-aventurados. Porém, há ocasiões em que recebemos o bem ainda nes­
ta vida. A Bíblia dá um exemplo disso por meio da vida de José. Por inveja,
seus irmãos o venderam para alguns mercadores que iam ao Egito. A partir
desse momento José passou por grandes dificuldades, chegando até mes­
mo a parar na prisão. Deus, porém, o abençoou e o fez chegar à posição de
Príncipe do Egito, o segundo do reino, abaixo apenas de Faraó. Com isso,
José pôde ajudar o seu próprio povo, inclusive seus irmãos, impedindo que
perecessem na terrível seca que sobreveio sobre a terra. E sublime o enten­
dimento que José teve da situação, conforme demonstrou em suas próprias
palavras dirigidas aos irmãos: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra
mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se
conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Observe que José não disse que
a atitude dos irmãos tinha sido boa e por isso desculpável. Eles realmente
agiram mal, porém, Deus tinha um plano com aquilo tudo, de maneira que
no final, tudo deu certo. A chave da questão é: “Deus transformou o mal
em bem”. Sproul diz que Lutero confiava tanto nessa verdade bíblica que
costumava dizer: “Se Deus me dissesse para comer o estrume de animais
0 leu Deus, onde eslá ? 87

que fica nas ruas, eu não só comeria, como iria saber que aquilo era bom
para mim”.5 De alguma maneira, as tragédias do mundo contribuem para
que o plano de Deus se concretize.

Não tarda e não fa lha


A impunidade dos maus neste mundo é uma das coisas que faz com que
as pessoas desconfiem da bondade de Deus. Porém, as tragédias e a impie­
dade deste mundo não comprometem a bondade e nem a justiça de Deus
porque ele mantém tudo sob controle e, no devido tempo, retribuirá com
justa medida a cada um segundo o que tiver feito. Uma coisa é certa, todos
receberão de Deus o que merecem. A resposta do Salmista do Salmo 115 à
pergunta “onde está vosso Deus” foi a seguinte: “No céu está o nosso
Deus e tudo faz como lhe agrada” (SI 115.3). Deus habita os céus onde está
o seu trono, de onde ele governa a tudo e a todos, e de onde ele executará a
sua justiça sobre tudo e sobre todos, ainda que o seu amor, a sua graça, a
sua misericórdia e a sua paciência muitas vezes retardem a sua ira. Tudo o
que acontece, por mais estranho que seja, acontece como o agrada, ou seja,
de acordo com a vontade dele. Porém, se olharmos somente para o agora,
não veremos a bondade e muito menos a justiça de Deus de modo comple­
to; por isso, precisamos olhar para o futuro, para o fim dos ímpios. Lá
veremos outra vez a diferença entre o justo e o perverso. Nunca devemos
nos esquecer de que haverá um juízo final. Na verdade, a única garantia de
que a bondade e a justiça de Deus serão finalmente vindicadas é que existe
um Juízo Final. A Justiça de Deus garante que todos terão um julgamento
justo. Diz o ditado popular: “A justiça tarda, mas não falha”. A Bíblia ensi­
na que Deus pode reter a condenação merecida de alguém, dando-lhe
chances para que se arrependa e se refugie em Jesus; porém, caso isso não
aconteça, no momento certo, Deus punirá todos os pecados dos ímpios.
Por isso não podemos dizer que a justiça de Deus tarda, ela apenas não
acontece, necessariamente, no tempo em que queremos. Deve ser entendi­
do que a punição de Deus, exigida pela sua justiça, se aplica apenas aos
ímpios. Os crentes não podem receber punição porque Jesus já a recebeu
no lugar deles. O Juízo Final deixará bem claro o quanto Deus é bom e
justo, quando todos os ímpios forem condenados por suas obras, confor­
me nos indica o livro do Apocalipse: “Vi também os mortos, os grandes e
os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ain­
da outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados,
88 Razão da esperança

segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros” (Ap
20.12). Cada ato impróprio do ser humano está registrado nesses livros.
Deus tem todas as provas de todos os crimes. Ninguém poderá apelar
diante desse tribunal,
A recompensa de Deus será dada apenas aos crentes, A justiça de Deus
exige que aqueles que mereceram, sejam recompensados, Porém, a pergun­
ta que surge é: Quem mereceu? Está claro na Bíblia que nada merecemos,
pois somos salvos pela graça, não pelas obras, justamente para que não nos
vangloriemos (Ef 2.8,9). O fato é que seremos recompensados pelos méri­
tos de Cristo, que nos são imputados, Recebemos a recompensa dele como
se fosse nossa, Ele não só pagou a nossa dívida morrendo por nós, como
conquistou méritos para nós mediante a sua vida de estrita obediência à Lei
de Deus. Para ilustrar isso, poderíamos dizer que ele não só pagou a dívida
que tínhamos com Deus, como ainda deixou um saldo gordo na nossa
conta perante o Altíssimo.6 O Altíssimo, como bom pagador que é, nos
recompensará por isso. E ainda existe a recompensa que receberemos pelas
boas obras que praticamos, aquelas que ele preparou para que andássemos
nelas (Ef 2.10). Essas realmente são obras nossas, mas fomos capacitados
a fazê-las por sua graça (Fp 2,13). No entanto, seremos recompensados por
causa delas, Isso nos faz perceber que toda a recompensa é uma questão de
graça, e não de méritos nossos.

Conclusão: Bem ao nosso lado


Às vezes, as pessoas pensam que Deus é injusto por não punir os peca­
dos dos homens nesta vida. Talvez devêssemos pensar se viver uma vida
inteira sem Deus já não é um tipo de punição. A Escritura afirma que, da
nossa perspectiva, pode até demorar, mas um dia todas as atitudes recebe­
rão o julgamento justo de Deus. Na verdade, o que faz com que esta vida
valha a pena é saber que há um Deus justo com um julgamento justo. Sem
isso, os crimes hediondos não seriam vingados, as traições, os perjúrios, as
difamações, as perseguições jamais encontrariam sua merecida punição. Ser
bom e honesto não valeria a pena se não houvesse um Deus justo com um
julgamento justo. Deus é justo e o seu julgamento também. Não temos
razão para duvidar da sua bondade. Ele demonstra seu amor, graça, miseri­
córdia e paciência sobre nossa vida, e até sobre os ímpios. De alguma ma­
neira, ele faz com que todas as coisas colaborem para o nosso bem. Ele já
tem separado um dia em que a sua bondade e a sua justiça serão plenamen­
0 leu Deus, onde eslá? 89

te reconhecidas. Até lá, teremos que viver pela fé, e não pelo que vemos.
Embora as tragédias e as dificuldades da vida nos espantem, no nosso ínti­
mo devemos manter a confiança na bondade e na justiça de Deus. Ele está
no céu, no trono, e também está do nosso lado: “Porque assim diz o Alto,
o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no
alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito,
para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is
57,15). Quando nos perguntarem onde está o nosso Deus, devemos res­
ponder: nos céus, observando e julgando todas as ações dos homens, e do
nosso lado, nos fazendo fortes quando somos fracos.
Soberania de Deus ou livre-arbítrio?

“Caro júri”, disse o advogado, “este jovem não é verdadeiramente cul­


pado pelo seu ato (roubo seguido de assassinato). Ele é uma vítima da
sociedade. Ele cresceu numa favela, onde desde o início viu muitas desi­
gualdades. Ele via os garotos de sua idade, filhos de pais abastados, des­
frutarem de todos os benefícios que o dinheiro pode comprar, principal­
mente tênis novos e brinquedos, enquanto ele precisava pedir esmolas
nos sinaleiros, que levava para a sua mãe, mas que o seu padrasto tomava
e gastava em bebedeiras. Já adolescente, não podia freqüentar a escola,
que ficava muito longe, pois não tinha condições de pagar o ônibus. Foi
então que conheceu uma turma que lidava com drogas, começou a se
envolver, e tornou-se um dependente. O fato de ser negro colaborou
muito para a sua exclusão, pois jamais conseguiu um emprego decente e,
sem estudo, não tinha esperança alguma. Naquela manhã, quando saiu de
casa e viu mais uma vez os ‘filhinhos de papai’ com os seus belos tênis
novos, não agüentou e, por causa da vontade de também ter um tênis,
resolveu tomá-lo à força. Diante da reação da vítima, acabou desferindo
cinco golpes de faca contra ela, a qual veio a falecer. Porém, que uma
coisa fique bem clara: esse crime não é dele, ele é de toda a sociedade.”
Esse parece ser o tipo de defesa que será mais usado em tribunais daqui
para a frente - a responsabilidade pessoal de cada indivíduo sendo
minimizada diante da atitude da maioria; uma tentativa de justificar o erro
individual a partir de atitudes coletivas, ou a velha atitude humana de
jogar a culpa no outro (Gn 3.12,13).
Para muitos, a idéia da soberania de Deus não pode ser aceita porque ela
faria com que o homem não fosse responsável pelos seus atos. Aqui depa­
ramos com um dos maiores dilemas da teologia. Neste estudo, abordare­
mos os aspectos bíblicos a respeito da soberania de Deus e da responsabi­
lidade humana, numa tentativa, não de harmonizá-los, mas de demonstrar
que ambos são verdadeiros e bíblicos. Nossa abordagem visa demonstrar
que a Bíblia enfatiza que Deus é soberano, mas que, ao mesmo tempo, o
92 Razão da esperança

homem é responsável pelas suas atitudes, e que ninguém pode alegar igno­
rância ou coação em nada do que ele faça ou deixe de fazer,

Paradoxo ou contradição ?
Sempre imaginamos que Deus é mais poderoso do que o homem, mas
nem sempre relacionamos isso com o dia-a-dia, com as decisões que preci­
sam ser tomadas a cada momento. Será que a pessoa tem livre-arbítrio para
tomar todas as decisões, ou será que, de alguma maneira, tudo o que a
pessoa decide já foi decidido antes por Deus? Até que ponto Deus é sobe­
rano em relação a tudo o que acontece neste mundo, e até que ponto o
homem é responsável pelos seus atos? Ou será que esses dois conceitos são
mutuamente excludentes? Os teólogos têm chamado essa tensão aparente­
mente contraditória entre a soberania de Deus e a responsabilidade huma­
na de “paradoxo”. Paradoxo pode ser definido como “a junção de dois
pensamentos que parecem contradizer-se”.1 J. I. Packer prefere chamar de
“antinômio”. Ele entende que paradoxo é apenas uma figura de linguagem,
e que, portanto, não faz justiça à essa tensão bíblica.2 De qualquer maneira,
os termos não são tão importantes, desde que se entenda que há uma ten­
são exposta na Bíblia entre a soberania de Deus e a responsabilidade huma­
na. Trata-se de duas verdades, aparentemente contraditórias, ambas susten­
tadas pela Escritura, e que não são realmente contraditórias. Geralmente, as
pessoas vão optar por uma ou por outra. Quem acredita que tudo o que
acontece nesta vida acontece exclusivamente porque o homem toma deci­
sões, e é responsável por elas, não consegue imaginar que Deus tenha, na
sua soberania, determinado todas as coisas. Por outro lado, aqueles que
pendem apenas para o lado da soberania de Deus, às vezes, fazem do ho­
mem algo como um mero robô, isento de responsabilidades pessoais.
Como já dissemos, essas duas verdades não podem ser realmente contradi­
tórias. Quando dois elementos se contradizem, apenas um pode ser verda­
deiro, pois é impossível que haja duas verdades contraditórias. Nesse caso,
só podemos admitir que “parece” contradição, por causa da incapacidade da
nossa mente de compreender o todo, mas ambos os elementos são verdadei­
ros. A Bíblia diz que Deus é aquele que “faz todas as coisas conforme o
conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e que ninguém jamais “resistiu à sua
vontade” (Rm 9.19). Com relação aos homens, Paulo diz que Deus é o Olei­
ro que tem direito sobre a massa “para do mesmo barro fazer um vaso para
honra e outro, para a desonra” (Rm 9.21). Essas expressões demonstram
Soberania de Deus ou livre-arbílrio? 93

claramente a soberania de Deus sobre tudo e sobre todos. Há um número


incrivelmente extenso de passagens bíblicas que poderiam ser usadas em
acréscimo. Entretanto, do mesmo modo, a Bíblia diz que o homem é absolu­
tamente responsável por suas próprias atitudes. Jesus disse: “Porque o filho
do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retri­
buirá a cada um segundo as suas obras” (Mt 16.27). Se a retribuição de Deus
leva em conta as obras de cada um, então é porque todos têm total responsa­
bilidade por tudo o que fazem. Tiago, numa de suas frases mais famosas
sobre oração diz: “Nada tendes, porque nada pedis; pedis e não recebeis,
porque pedis mal” (Tg 4.2,3). Tiago está dizendo que uma das razões pelas
quais os crentes, muitas vezes, não têm nada é porque deixaram de pedir o
que precisavam. A responsabilidade, nesse caso, é totalmente deles. Vemos,
portanto, que a Bíblia enfatiza tanto a soberania de Deus quanto a responsa­
bilidade humana simultaneamente, e como a Bíblia não pode se contradizer,
necessariamente esses dois conceitos precisam ser verdadeiros.
Em Filipenses 2.12,13 podemos ver esse conceito bem explícito. A pas­
sagem diz: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na
minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a
vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós
tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A responsabili­
dade de “desenvolver” a salvação, uma idéia que certamente tem a ver com
santificação, é atribuída aos crentes. São eles que devem desenvolver-se na
sua fé, buscando o crescimento e demonstrando “temor e tremor”. Isso nos
dá uma noção da seriedade do tema da santificação. Porém, é um fato que se
o texto terminasse no versículo 12, teríamos a idéia de que tudo depende
exclusivamente do homem. Quando lemos o versículo 13, entretanto, perce­
bemos que as coisas não são bem assim. Paulo explica que Deus opera o
“querer” e o “realizar” na vida das pessoas. Isso só pode ser entendido como
o ato de colocar o desejo correto em nós, que é a condição de realizar o que
é certo, somado à capacidade de realizá-lo. Nisso vemos os conceitos de
soberania de Deus e responsabilidade humana conjuntamente, e conforme a
passagem deixa bem claro, um não elimina o outro. Devemos pensar em
Deus como soberano, e entender que tudo o que acontece neste mundo
acontece como a vontade dele deseja, porém, igualmente entender que o
homem tem a obrigação de agir corretamente. A princípio, essas duas verda­
des parecem opostas, mas, na verdade, elas se complementam. De nada adianta
colocarmos a soberania de Deus e a responsabilidade do homem uma con­
tra a outra, pois juntas, elas demonstram harmonia e propósito, ainda que
não entendamos muito bem esse relacionamento.
94 Razão da esperança

Há muitas outras passagens que mostram esses dois conceitos unidos,


como por exemplo, Lucas 22.22: “Porque o Filho do homem, na verdade,
vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem
ele está sendo traído!” Essa passagem diz que Jesus seria morto porque isso
havia sido determinado por Deus; porém, o traidor, no caso Judas Iscariotes,
pagaria por isso. Judas jamais poderia argumentar diante Deus que não tinha
culpa pela traição, dizendo que simplesmente fizera o que já estava decreta­
do, ou que fora forçado pelas circunstâncias. Ele tinha responsabilidade pes­
soal no ato, pois quis fazer aquilo. O fato é que ninguém o obrigou, embora,
em úlüma instância, tudo tenha ocorrido segundo a vontade de Deus.
Apesar dessas explicações, aqui não se pretende dizer que é possível
entender perfeitamente o “paradoxo” ou “antinômio”. Não se trata só de
entender. Seria muito mais fácil excluir uma dessas verdades e tentar viver
confortavelmente3 com a outra, como muitos têm feito. Isso, porém, não
faria justiça ao ensino da Escritura. Mesmo que não entendamos perfeita­
mente esses dois conceitos, precisamos mantê-los, crendo e afirmando tan­
to a soberania de Deus quanto a responsabilidade do homem.

A vontade de Deus
O ensino bíblico a respeito da “vontade de Deus” é essencial para en­
tendermos um pouco mais a respeito do relacionamento entre a soberania
de Deus e a responsabilidade humana. Podemos definir a vontade de Deus
de duas maneiras: absoluta e relativa.

Vontade absoluta

A vontade absoluta de Deus é conhecida como vontade decretiva. Ela


refere-se a tudo o que Deus determinou que aconteça. Deus tem um plano
traçado para todas as coisas, e nada neste mundo foge aos seus propósitos.
Por meio de sua intervenção direta ou por meios naturais, Deus leva a
efeito o seu plano, e nada pode impedi-lo. As vezes, essa vontade é chama­
da de encoberta por ser desconhecida (Dt 29.29), e também de vontade de
propósito, pois se refere ao supremo propósito de Deus. No livro do profeta
Isaías encontra-se uma excelente descrição da vontade decretiva de Deus:
“Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não
há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o
princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas
Soberania de Deus ou livre-arbílrio? 95

que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé,
farei toda a minha vontade; que chamo a ave de rapina desde o Oriente e de
uma terra longínqua, o homem do meu conselho. Eu o disse, eu também o
cumprirei; tomei este propósito, também o executarei” (Is 46.9-11). Na
descrição do profeta, Deus é aquele que pode anunciar as coisas antes que
elas acontecem por dois motivos: primeiro porque tem um plano definido,
e segundo, porque tem o poder para realiaá-las. O livro de Daniel também
nos fala sobre a vontade decretiva de Deus: “Todos os moradores da terra
são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o
exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a
mão, nem lhe dizer: que fazes?” (Dn 4.35). Ninguém pode se levantar para
impedir que Deus faça algo e nem mesmo questioná-lo. Os moradores da
terra nada são perante ele, mas, ao mesmo tempo ele opera por intermédio
deles. Isso é colocado pela Confissão de Westminster da seguinte maneira:
“Desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria
vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, po­
rém de modc que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a
vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas
secundárias, antes estabelecidas”.4 A vontade decretiva de Deus é a razão
última por que qualquer coisa acontece neste mundo, seja boa ou má. Essa
vontade não pode ser contrariada, pois o eterno propósito de Deus não
pode ser frustrado. Parece óbvio que tudo o que acontece neste mundo,
acontece, no mínimo, porque Deus permitiu. Às vezes, esse aspecto per­
missivo da vontade de Deus é o escape dos teólogos para explicar o
inexplicável. Não devemos pensar em Deus como um todo-poderoso pas­
sível que simplesmente diz: “Pode ser”. Deus é ativo. Ele é o soberano do
universo. Num simples ato de permitir, está incluído muito mais do que
uma autorização. Porém, a Confissão é clara como a própria Bíblia: Isso
não faz de Deus o autor do pecado.5

Vontade relativa
Há um outro aspecto da vontade de Deus que difere do que estudamos
acima por não ser absoluto. Trata-se da vontade de Deus que os homens
conseguem contrariar. Um aspecto dessa vontade tem a ver com os seus
preceitos e está ligado à Lei de Deus. Nesse sentido, estamos falando da
vontade preceptiva. A vontade preceptiva pode ser também chamada de vonta­
de revelada. Ela refere-se aos mandamentos divinos e ao fato de que ele
quer que a sua justiça seja cumprida. Ao contrário da vontade decretiva, a
96 Razão da esperança

preceptiva pode ser, e é, freqüentemente contrariada. Deus quer que todos


os homens cumpram a sua Lei, porém é um fato evidente que a Lei não é
respeitada por todos. Nesse sentido, a sua vontade é contrariada, e isso o
desagrada: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos
céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7.21),
Quando Deus ordenou “não matarás”, ele estava revelando um aspecto da
sua vontade, porém, não um aspecto absoluto, no sentido de que ele não
pode ser contrariado, e sim um aspecto relativo, pois o homem pode cum­
prir ou não esse mandato de Deus.
Um outro aspecto relativo da vontade de Deus é o que pode ser chama­
do de vontade de desejo, que nesse caso representa o que Deus gostaria que
acontecesse, como Deus bom e justo que é, mas que nem sempre acontece.
Isso pode ser visto, por exemplo, em Ezequiel 33.11: “Tão certo como eu
vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em
que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-
vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de
Israel?” Deus não tem prazer na morte do perverso, seu prazer está em vê-
lo convertido. É nesse sentido que devemos entender a passagem de 1 Ti­
móteo 2.3,4 que afirma que Deus “deseja que todos os homens sejam sal­
vos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Deus, no seu ser ínti­
mo, não deseja que alguém seja condenado (2Pe 3.9). Porém, nesse ponto é
impossível não questionar: Então por que nem todos se convertem? Não
há outra resposta senão: Porque não é sua vontade decretiva que todos se
convertam, e também porque não é da vontade dos homens se converter.
A certeza que podemos ter é que se converterão todos aqueles que, no
decreto de Deus, foram designados para isso. O fato de Deus desejar que
certas coisas aconteçam, como, por exemplo, a conversão dos ímpios, não
anula o fato de que ele tem uma vontade decretiva, e que, muitos desses
ímpios certamente não se converterão. O simples fato de Deus desejar que
todos sejam salvos não faz com que todos sejam salvos. Podemos pergun­
tar em contrapartida: Deus não tem o poder de salvar a todos? Só há uma
resposta: sem dúvida ele tem. Então, por que não os salva? Novamente só
há uma resposta: porque, embora essa seja a sua vontade de desejo, não é a
sua vontade de decreto. A vontade relativa de Deus, portanto, refere-se a
algo bom que Deus deseja que aconteça, porque Deus sempre deseja o
melhor, mas, ao contrário da vontade decretiva, não precisa necessariamen­
te acontecer. Precisamos pensar na responsabilidade do homem à luz des­
ses dois conceitos da vontade de Deus, que de certo modo, também são
conceitos paradoxais.
Soberania de Deus oú livre-arbílrio? 97

Se alguém argumentasse, a partir da exposição da vontade absoluta e da


vontade relativa de Deus, se é possível que alguém, ao mesmo tempo, cum­
pra e descumpra a vontade de Deus, teríamos que responder com as pala­
vras de Agostinho: “Este é o significado da afirmação: “as obras do Senhor
são grandes, bem consideradas em todos os seus atos de vontade” - que, de
um modo estranho e inefável, mesmo o que é feito contra a sua vontade
\contra eius voluntatem\ não se faz sem a sua vontade \praeter eius voluntaleri[ /“

0 livre-arbítrio
Uma pergunta que normalmente surge diante disso é: E o livre-arbítrio
do ser humano? Não diz a Bíblia que o ser humano tem livre-arbítrio? Por
mais incrível que possa parecer para muitos, o fato é que a Bíblia não diz
isso. A expressão “livre-arbítrio” não se encontra na Bíblia, e o conceito
popular que se tem dele também não. Especialmente o conceito de que as
pessoas tenham a capacidade de agir absolutamente livres e independentes
de qualquer coisa. Ninguém é independente de Deus. Paulo disse aos filó­
sofos gregos que em Deus “vivemos, e nos movemos, e existimos” (At
17.28). Se uma pessoa tivesse a capacidade de agir completamente livre da
influência de Deus, então, ela teria que ser igual a Deus. Nem sequer somos
independentes do meio em que vivemos. A sociedade influencia a nossa
vida, mas isso não significa que sejamos menos responsáveis pelas nossas
atitudes. Uma outra definição de livre-arbítrio seria a capacidade de agir de
modo contrário à própria natureza. Essa definição de livre-arbítrio é mais
exata e pode ser encontrada, pois pelo menos Adão a teve. Adão foi o
único homem que tinha a liberdade de agir de forma contrária à sua nature­
za. A natureza de Adão era boa, porém, Deus o capacitou com liberdade
suficiente para escolher tanto o bem quanto o mal. Assim, fazendo uso de
seu livre-arbítrio, ele escolheu o mal. Depois disso, os homens não tiveram
mais esse livre-arbítrio, pois se tornaram maus e sem condições de escolher
o bem. Depois da queda todos os homens se tornaram corruptos, confor­
me Deus constata antes de mandar o dilúvio: “Viu o Senhor que a maldade
do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau
todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). A Bíblia indica que a corrupção do
pecado passou a todos os seres humanos: “Portanto, assim como por um
só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim tam­
bém a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).
Essa é a terrível constatação que a Bíblia faz de toda a humanidade: “Não
98 Razão da esperança

há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a


Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o
bem, não há nem um sequer” (Rm 3.10-12). Os teólogos reformados cha­
mam essa incapacidade humana em fazer o que é certo de “Depravação
Total”. Depois da queda, o homem se tornou depravado, Seu coração, na
linguagem de Jeremias - “desesperadamente corrupto” (Jr 17,9) - , não tem
mais condição alguma de escolher o que é certo. Todos os homens, por
natureza, estão mortos nos seus delitos e pecados (Ef 2.1). O livre-arbítrio
não existe porque o homem não tem condições de escolher o que contraria
a sua natureza pecaminosa,
Embora o homem não possua livre-arbítrio, ele tem certa liberdade, ele
não é um robô. Em geral, os teólogos reformados chamam essa liberdade
humana de “livre agência”, uma expressão que dá uma conotação diferente
de livre-arbítrio. A livre agência significa a liberdade que o homem tem de
escolher certas coisas, mas dentro de um contexto. E possível que Deus, na
sua soberania, conceda um nível de liberdade ao ser humano para que ele
tome certas atitudes e aja segundo princípios inerentes a ele. E o que segun­
do a Confissão de Fé, Deus faz ao estabelecer por seu decreto a liberdade
ou a contingência das causas secundárias. Se Jesus nos mandou pedir a fim
de obtermos algo, buscar para achar e bater para que fosse aberto (Mt
7.7,8) é porque, do contrário, nada disso aconteceria. Se ele nos disse que
deveríamos insistir em oração diante de Deus, como a viúva insistiu diante
do juiz iníquo (Lc 18.1-7), é porque Deus, na sua soberania, determinou que
a oração tivesse papel crucial na obtenção das bênçãos. O mesmo pode ser
dito da fé. Deus nos deu essa liberdade, porém, ele a supervisiona de tal
modo que não há riscos de que a nossa liberdade frustre o seu plano eterno.
Somos livres, mas não independentes. Somos como peixes no mar: dentro
dele, temos certa liberdade, mas fora dele só resta a morte. Nosso mar é a
soberania de Deus, ela proporciona a nossa liberdade, porém, não se trata de
uma liberdade ilimitada. A diferença é que, desse mar, nós não podemos sair.
Ainda com relação à oração, muitos não entendem porque Deus nos
manda orar se ele já sabe todas as coisas. E não devemos esquecer que foi o
próprio Jesus quem disse que ele sabe (Mt 6.8), A oração faz parte impor­
tante do propósito divino, Além disso, “a oração não existe para informar a
Deus o que ele já sabe a respeito das nossas necessidades, mas para gozar
da alegria de experimentar a sua vontade justa e soberana e, no mais, as
outras coisas nos serão acrescentadas”.7 Ela é de suprema importância,
embora não tenha o poder de “mudar” a vontade de Deus. Aliás, se a ora­
ção tivesse o poder de mudar a vontade de Deus, será que seria conveniente
Soberania de Deus ou livre-arbílrio? 99

utilizá-la? Se Deus estabeleceu algo, isso não significa que é o melhor? Afi­
nal, quem tem mais capacidade de planejamento, previsão e execução?
Não devemos esquecer que a liberdade humana capacita o homem a
agir somente de acordo com a sua natureza. O homem decaído não pode
escolher algo bom porque não existe nada de bom nele. Ele pode escolher
entre uma coisa pior e outra menos ruim, mas uma vez que a sua natureza
é caída, sempre escolherá coisas coerentes com ela. Ele não pode escolher
o bem (da perspectiva divina) porque a sua natureza é má (Mt 7.18). Para
que o homem escolha o que é certo, Deus precisa mudar a natureza dele,
implantando o princípio de vida espiritual que chamamos de regeneração, e
que capacita o homem a tomar uma decisão por Cristo. Esse princípio de
vida é implantado antes da conversão propriamente dita, e em geral vem
acompanhado do ouvir a Palavra de Deus. Nesse ato, Deus capacita o ho­
mem a se converter e a responder com fé à pregação do evangelho.8 O
homem é de fato um agente livre; porém, ele sempre agirá de acordo com
os seus princípios, e em plena conform idade com as disposições e tendên­
cias da sua alma. Segundo Berkhof, apesar da queda, o homem não perdeu
essa liberdade, mas perdeu “o poder racional de determinar o procedimen­
to, rumo ao bem supremo, que esteja em harmonia com a constituição
moral original de sua natureza”.9
Resta agora pensar no convertido; terá ele livre-arbítrio? O convertido
possui duas naturezas. A nova foi implantada por Jesus por meio da rege­
neração, porém a antiga ainda permanece, até porque o homem ainda está
“na carne”. Como tem duas naturezas, ele pode agir tanto segundo uma,
quanto segundo a outra. Propriamente dito, não se trata de livre-arbítrio.
De fato, o convertido não precisa mais agir segundo a carne, como Gálatas
5.16 deixa bem claro: “Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscên­
cia da carne”. O convertido não tem livre-arbítrio porque age segundo a
sua natureza. Quando faz o bem, age segundo o Espírito que está nele;
quando faz o mal, age segundo a carne.
Todas as coisas acontecem de acordo com a vontade de Deus, porém,
precisamos tomar cuidado para não nos tornarmos fatalistas, pois o ser hu­
mano não é uma espécie de robô programado. Embora o ser humano não
tenha livre-arbítrio, ele continua sendo um agente livre que faz escolhas de
acordo com a sua vontade. E claro que, em última instância, o decreto de
Deus garante que até mesmo essas decisões serão tomadas de tal modo que o
seu plano maior não seja frustrado, mas o fato é que o ser humano toma essas
decisões conforme a sua vontade. Isaías profetizou que os caldeus invadiriam
Judá; isso estava decretado por Deus, porém, os caldeus invadiram Judá por­
100 Razão da esperança

que quiseram fazer isso. Todas as atrocidades que esse povo cometeu ao
invadir Judá aconteceram por causa do espírito maligno desses homens.
Embora estivesse no plano de Deus, a responsabilidade era pessoal. Deus
somente usou Isaías para profetizar o o que de fato já estava decretado, pois
Deus não poderia anunciar algo que corresse o risco de não acontecer. Entre­
tanto, os caldeus não agiram em obediência a uma ordem direta de Deus, e
sim, por causa da sua sede de conquistas (ver Is 10.5-15). Os decretos da
vontade soberana de Deus não contrariam a ação livre do homem. Na verda­
de, Deus decretou as ações livres dos homens, mas isso não torna os homens
menos livres, nem menos responsáveis pelos seus atos, O decreto de Deus
garante que um determinado evento acontecerá, mas não que Deus o realiza­
rá. Nada poderá frustrar o plano de Deus para este mundo, porém, cada
criatura é absolutamente responsável por todas as suas decisões e atitudes.

Conclusão: Tema difícil


Concluímos, portanto, que a Bíblia ensina tanto a soberania de Deus
quanto a responsabilidade humana. Esses dois conceitos paradoxais nos
dizem que nada acontece por acaso, pois tudo segue a ordem que Deus
estabeleceu e, ao mesmo tempo, o ser humano participa ativamente de tudo,
sempre agindo de acordo com os seus impulsos, e sendo responsável pelas
suas atitudes. Concluímos, ainda, que esse é um tema difícil e que deve ser
estudado com reverência. Porém, para que justiça seja feita ao ensino da
Palavra, não podemos deixar de lado nenhum deles. Deus é soberano e o
ser humano é responsável, esse é o ensino das Escrituras. Nem a sociedade,
e nem Deus, são culpados pelas nossas ações. A responsabilidade pelos
nossos atos é exclusivamente nossa, porém Deus é soberano. Tendo isso
em mente, podemos partir para a consideração de uma das mais discutidas
doutrinas do Cristianismo: a predestinação.
8

Predestinação:
Deixando Deus ser Deus
w w

Não existe doutrina que cause mais discussão no mundo cristão evangé­
lico do que a doutrina da predestinação. Algumas publicações polêmicas
que circulam nos meios evangélicos chegam a taxar a doutrina de “diabóli­
ca”.1E um fato que parte dos cristãos se sente desconfortável ao ouvir falar
dela. O que, afinal de contas, torna essa doutrina tão polêmica? Por que as
pessoas amam ou odeiam a doutrina da predestinação com a mesma inten­
sidade?
Podemos dizer que são duas as razões que fazem com que as pessoas
tenham medo de falar em predestinação. Primeiro, porque acreditam que se
a predestinação existe, então, Deus não é justo, pois teria escolhido uns e
não outros sem qualquer motivo aparente. Em segundo lugar, as pessoas se
sentem desconfortáveis com a idéia de que não têm liberdade para escolher
a respeito de sua própria salvação. E o velho grito de independência do ser
humano, tão antigo quanto Adão, que fala mais alto. A verdade é que o
homem sempre terá dificuldades em se submeter ao governo divino. O ser
humano sempre desejará ser o senhor do seu próprio destino, e fará de
tudo para conseguir isso, mesmo que seja preciso destronar Deus. E difícil
para o ser humano deixar Deus ser Deus.
Além disso, afirma-se que crer na predestinação inibe a pregação do
evangelho, pois não haveria razão para pregar se, afinal, todos são predesti­
nados para a vida ou para a morte. Ainda, objeta-se que a predestinação
inibe o desenvolvimento do próprio crente, pois se alguém já é predestina­
do para a salvação, então, não precisa fazer coisa alguma para garanti-la e,
então, não precisa pensar em santificação ou boas obras. Essas objeções
são dignas de consideração, mas representam um falso entendimento do
que é a doutrina da predestinação da perspectiva bíblica.
A doutrina da predestinação tem um fundo histórico bastante amplo e
controvertido. Agostinho (354-430), um teólogo do século 4o, foi o primei­
ro, depois de Paulo, a defendê-la. Aquino2 e Lutero3 falaram sobre a predes-
102 Razão da esperança

tinação antes de Calvino (1509-1564), mas coube ao reformador de Gene­


bra a tarefa de sistematizá-la, e assim, eternizá-la dentro do pensamento teo­
lógico da cristandade. O entendimento de Calvino sobre predestinação está
cristalizado na Confissão de Westminster, que é eminentemente calvinista,4
formulada por uma grande comitiva de teólogos puritanos no século 17. A
Confissão define a doutrina do seguinte modo: “Pelo decreto de Deus e para
a manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestina­
dos para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna”.5
Pouco tempo depois de Calvino, um teólogo reformado chamado
Armínio (1559-1609) revoltou-se contra o entendimento calvinista da pre­
destinação e reformulou a doutrina. Armínio defendeu a predestinação sob
a base exclusiva da presciência divina. Nesse sentido, o ato divino de esco­
lha é condicionado pelo seu conhecimento do futuro. Deus sabe quais pes­
soas crerão e quais não e, com base nisso, ele predestina. Depois da Refor­
ma, com o surgimento do Iluminismo, a teologia cedeu espaço para a filo­
sofia, e as doutrinas místicas foram consideradas impróprias. A teologia
liberal, fruto do Iluminismo, não se interessou pela doutrina da predestina­
ção. O movimento da neo-ortodoxia, que foi uma reação ao liberalismo, e
uma tentativa de voltar à ortodoxia reformada, fixou a sua atenção na pre­
destinação. Entretanto, os maiores teólogos desse período tiveram entendi­
mentos bem diferentes sobre ela. Barth (1886-1968), o grande teólogo da
neo-ortodoxia, a partir da sua visão “cristomonística” da revelação, enten­
dia que somente Jesus era o eleito e o preterido, e que nele toda a humani­
dade é eleita.6 A teologia de Barth leva ao universalismo. Atualmente, a
maior parte das igrejas se enfileira atrás do calvinismo ou do arminianismo.

Todos crêem na predestinação


Do que foi dito, fica claro que a maioria das denominações crê em pre­
destinação, pelo menos em tese. Não poderia ser diferente, afinal ela está
clara na Bíblia, inclusive com a palavra “predestinados” explicitamente apli­
cada aos crentes (Ef 1.11). O que ocorre é que há diferença no modo como
essa predestinação é vista. O arminianismo, de um modo ou de outro, é a
maneira como as igrejas evangélicas mais admitem a predestinação. No
arminianismo, acredita-se que Deus predestina as pessoas com base em
algo que vê nelas. Deus não escolhe por sua própria vontade, mas porque
viu que uma determinada pessoa o aceitaria. Embora uma grande parte do
Cristianismo veja as coisas desse modo, observamos algumas inconsistên-
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 103

cias nesse tipo de pensamento. Uma delas é que, se fosse assim, então não
existiria verdadeira escolha da parte de Deus, mas uma simples constatação
antecipada do que viria a acontecer. Nesse caso, a escolha verdadeira seria
do próprio ser humano, e então, nem haveria a necessidade de a Bíblia falar
em “predestinar”. Pois, se alguém já creria, por que então escolhê-lo? Isso
não parece fazer muito sentido.
Outra inconsistência deve-se ao fato de que, se Deus meramente anteviu
quem seria salvo, escolhendo sob essa ótica exclusiva, então, que garantias
poderia haver de que essa “predestinação” divina realmente viria a acontecer?
Se Deus não intervém com o seu poder para cumprir o seu propósito, a
possibilidade de que seus planos não se cumpram deve ser considerada
como algo real. Caso alguém afirme que o fato de Deus ter previsto garante
que o futuro aconteça mesmo que Deus não atue diretamente, então as
coisas ficam ainda piores, pois haveria uma força, que não é Deus, garantin­
do que o futuro aconteça. Essa força seria o acaso. No final das contas, o
acaso estaria governando, e então, tudo não passaria de fato de um
determinismo. Por outro lado, se é Deus que garante, então, isto é predes­
tinação segundo a visão calvinista.
Na visão reformada, às vezes se fala em dupla predestinação, que envol­
ve a salvação e a condenação. Na dupla predestinação, Deus teria predesti­
nado tanto os salvos quanto os perdidos, uns para o céu e outros para o
inferno. Entre os reformados, só os supralapsarianos aceitam a idéia da
dupla predestinação.7 Os infralapsarianos não usam o termo predestinação
ou eleição para a condenação, eles usam preterição, que é a ausência de
predestinação, e não dizem predestinados para condenação ou morte eter­
na em referência ao decreto divino, mas preordenados, que é o termo usa­
do na Confissão de Westminster. A diferença básica entre infra e
supralapsarianismo tem a ver com a ordem dos decretos divinos. A idéia é
se Deus levou em conta a queda ao decretar a eleição. Trata-se da questão
da lógica (não cronológica) dos decretos. No infralapsarianismo, Deus de­
cretou: 1) Criar; 2) Permitir a queda; 3) Escolher para a vida eterna parte da
humanidade decaída e deixar a outra em seus pecados e condenação; 4)
Dar seu filho Jesus para redimir o eleito; 5) Enviar o Espírito para aplicar a
redenção no eleito. No supralapsarianismo, Deus decidiu: 1) Escolher al­
guns para a vida e destinar outros para a perdição; 2) Criar; 3) Permitir a
queda; 4) Enviar Cristo para redimir o eleito; 5) Enviar o Espírito para
aplicar a redenção ao eleito.8 Entendemos que a posição infralapsária é mais
bíblica e mais coerente. Nela não há risco de Deus ser o autor do pecado
das pessoas, pois pela lógica, Deus não escolheu pessoas para a vida ou
104 Razão da esperança

para morte antes de decidir que elas poderiam cair. Por isso, quando fala­
mos em salvação, o termo correto é eleição, pois somente são eleitos os que
serão salvos. Quando falamos em condenação, o termo correto é preterição,
que significa “passar por alto”, “deixar para trás”. Assim, os salvos são os
eleitos ou predestinados, e os condenados são os preteridos ou não eleitos.

Valorizando as Escrituras
Cada vez menos as pessoas acreditam na Palavra de Deus e a valorizam.
O grande movimento da teologia liberal que inundou os seminários e con­
seqüentemente as igrejas, especialmente a partir do século 19, causou o
esfriamento e o esfacelamento da maioria das igrejas protestantes da Euro­
pa e dos Estados Unidos, por causa da sua ênfase no estudo da Bíblia com
pressupostos “científicos” e anti-sobrenaturalistas. Uma grande parte da
população cristã mundial deixou de crer na Bíblia como a Palavra de Deus
inerrante e infalível. Por outro lado, os movimentos teológicos do século
20, como a neo-ortodoxia e os movimentos subseqüentes, ou o movimen­
to pentecostal e neopentecostal, todos com ênfase no subjetivismo, e que
pareciam ser antídotos contra o liberalismo, caíram no mesmo erro, porém
pelo caminho inverso. Esperando tanto encontrar a Palavra de Deus, aca­
baram abandonando a Escritura como única fonte de autoridade, recorren­
do ao subjetivismo ou a novas revelações. Hoje vivemos um tempo de
extrema superficialidade. Em poucos lugares a Bíblia é realmente levada a
sério. A moda é usar partes da Bíblia de acordo com o interesse pessoal.
Assim, proliferam as chamadas “caixinhas de promessas”, recheadas de
“boas” palavras para os crentes, contendo apenas parte da revelação de
Deus. A Bíblia tem muito a falar sobre predestinação, mas ainda assim muitas
pessoas se recusam a ouvir. Em muitos casos, as pessoas chegam até a
dizer: “Pode estar na Bíblia, mas eu não posso aceitar que seja assim”. Elas
deixam a Bíblia de lado por causa de seus sentimentos pessoais ou de suas
próprias concepções a respeito da justiça de Deus. Preferem sua opinião
pessoal a respeito de como Deus deve ser do que a opinião da Bíblia. O
velho liberalismo selecionava as porções da Escritura que julgava dignas de
crédito, enquanto abandonava as outras. Hoje não é diferente. O ensino
bíblico sobre a predestinação é muito extenso, pode ser visto de Gênesis a
Apocalipse, e o fato de ser tão rejeitado é só mais uma amostra do quanto
a própria Bíblia é rejeitada na fé e na prática devocional das pessoas.
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 105

A necessidade de escolher
Romanos 9 é o grande capítulo bíblico sobre Predestinação. No início
do capítulo, Paulo trata de uma questão muito importante para a sua época:
Se Cristo veio para Israel, por que os israelitas não se converteram? Essa
era uma pergunta crucial para os crentes daquela época, pois se Cristo veio
para cumprir todas as promessas feitas a Israel, então, como justamente Is­
rael não reconheceu o Cristo? Teria a Palavra de Deus falhado?
Esse é o questionamento que Paulo tem em mente ao responder: “E
não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de
Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são
todos seus filhos. (Rm 9.6,7). Na visão de Paulo, a descendência de Abraão
verdadeira não é a da “carne”, mas a da promessa (v. 8). Os filhos da pro­
messa são, necessariamente, os eleitos. Abraão teve dois filhos, mas Deus
escolheu Isaque, filho de Sara e não Ismael, filho da escrava Agar. Isaque
também teve dois filhos (Esaú e Jacó); porém, Deus escolheu Jacó para ser
o patriarca da nação de Israel.
Com essas escolhas, Deus estava mostrando que, desde o início, a elei­
ção foi a ferramenta principal da sua construção. Essa é justamente a res­
posta que Paulo dá, a fim de provar que a Palavra de Deus não falhou. Ela
não falhou porque os eleitos foram salvos. Eleitos esses de dentro da pró­
pria nação de Israel (Rm 11.5,6). Mas acima de tudo, eleitos de entre todos
os povos. Podemos deduzir, portanto, do entendimento de Paulo, que a
eleição é a garantia de que a Palavra de Deus (as promessas) não falhou.
Nisso vemos a necessidade da escolha por parte de Deus. A predestinação
é absolutamente necessária. Sem ela a Palavra de Deus não seria digna de
crédito. Sem ela, nem mesmo Deus seria digno de crédito, pois para que
Deus tenha a prioridade sobre a criação e sobre o destino do mundo, ne­
cessariamente ele tem que fazer escolhas. O Deus da Bíblia é o Deus que
escolhe. Suas escolhas garantem o futuro planejado por ele. Suas escolhas
demonstram a fidelidade de sua Palavra e de suas promessas.

Antes da fu n d a çã o do m undo...
Falando sobre a escolha de Jacó e não de Esaú, Paulo diz: “E ainda não
eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que
o propósito de Deus, quanto à eleição prevalecesse, não por obras, mas por
106 Razão da esperança

aquele que chama), já lhe fora dito a ela: o mais velho será servo do mais
moço” (Rm 9.11,12). A eleição não acontece depois do nascimento. Os
gêmeos foram objeto de escolha e preterição antes de terem nascido. Deus
escolheu Jacó em lugar de Esaú antes do nascimento de ambos. Isso está
em perfeita harmonia com o ensino de Efésios 1.3-5, que diz: “Bendito o
Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda
sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos
escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis
perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por
meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (ênfase acres­
centada). Neste texto, Paulo dá muitos detalhes a respeito da eleição. Ele
diz que os crentes são escolhidos “em amor”. O amor de Deus, portanto, é
o motivo da escolha divina. Os crentes são escolhidos “nele”, ou seja “em
Cristo”, pois Cristo é o instrumento da escolha divina. O tempo desta esco­
lha é “antes da fundação do mundo”, ou seja, na eternidade. A meta desta
escolha é para que sejam “santos e irrepreensíveis”, e para que sejam adotados
como filhos. A razão última desta escolha é o “beneplácito da sua vonta­
de”, e o objetivo último é o “louvor da glória de sua graça”. Todas estas
expressões somadas dão um peso imenso a idéia de que a eleição é pessoal
e incondicional realizada antes da fundação do mundo, ou seja, na eternida­
de. E impossível afirmar que o escolhido da passagem de Efésios 1.3-5 é
Jesus e não os crentes. Fazer isso é torcer o significado óbvio do texto que
afirma que “nós” fomos escolhidos.
Quando Jesus contou uma parábola para ilustrar o julgamento final, ele
disse que todas as nações seriam reunidas diante dele, e então, seriam sepa­
radas as ovelhas dos cabritos (Mt 25.31-33). Para as ovelhas, Jesus dirá:
“Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está prepa­
rado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). Para as suas ovelhas, Jesus
tem um reino preparado desde a fundação do mundo. E por isso que Jesus
afirma: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me
seguem” (Jo 10.27). Jesus conhece as suas ovelhas, pois, desde a fundação
do mundo, tem o nome de cada uma delas escrita no Livro da Vida (Ap
17.8). A salvação das ovelhas está decretada antes da fundação do mundo,
por isso, Jesus também disse: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me
enviou não o trouxer” (Jo 6.44). Mais à frente, ele disse a mesma coisa com
palavras diferentes: “Ninguém poderá vir a mim, se isso pelo Pai não lhe
for concedido” (Jo 6.65). Observe que ele disse essas palavras a um grupo
de pessoas que não criam nele. Obviamente, Jesus estava dizendo que elas
não eram escolhidas, e por isso não podiam ir até ele (crer). Para um grupo
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 107

de incrédulos, Jesus disse: “Mas vós não credes, porque não sois das mi­
nhas ovelhas” (Jo 10.26). A ênfase desta frase não deve ser invertida. Jesus
não disse: “Vós não credes e por isso não sois das minhas ovelhas”, e sim:
“E porque não sois das minhas ovelhas que não credes”. Deus escolheu
aqueles que serão salvos, que irão até ele, desde toda a eternidade, assim
como havia escolhido Jacó e não Esaú antes mesmo de eles terem nascido.
Mas isto não nos diz ainda se Deus levou algo em conta ao escolher as
pessoas, algo que tivesse pré-visto nelas.

Não p o r obras
De acordo com a passagem de Romanos 9, Deus escolheu Jacó e prete­
riu Esaú, mas isso não aconteceu por ele ter visto algo neles. Como vimos
acima, os gêmeos ainda não tinham nascido e, Paulo completa, “nem prati­
cado o bem ou o mal”. Deus não escolheu Jacó porque viu algo melhor
nele do que em Esaú, pois na verdade, Jacó era tão mau quanto Esaú, e até
podia ser pior. Deus escolheu com base exclusiva no seu propósito, pois é
esse propósito que determina a existência de todas as coisas (Ef 1.11), Ele
não poderia escolher baseado na capacidade humana de escolher, pois a
Bíblia afirma que o homem não tem essa capacidade, uma vez que se en­
contra em estado de “morte espiritual” (Ef 2.1). Como vimos, Jesus deixou
bem claro que ninguém pode ir até ele se Deus não o levar. Ele fez questão
de esclarecer para os seus discípulos quem escolheu quem: “Não fostes vós
que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos
designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo 15.16).
Na língua grega, essa passagem tem uma ênfase extraordinária. Jesus está
afirmando que não havia a mínima chance de os discípulos o escolherem, e
quando lemos os evangelhos, percebemos que de fato foi assim. Jesus en­
controu Pedro e João pescando, e os chamou para serem pescadores de
homens (Mt 4.19). Encontrou Levi assentado à coletoria de impostos, e,
sem explicação alguma, simplesmente ordenou a ele que o seguisse (Mc
2.14). Os discípulos responderam ao chamado divino c o m obediência. Sem
esse chamado, eles nunca teriam deixado tudo para segui-lo. De acordo
com a Bíblia, nem sequer temos a capacidade de nos arrepender, pois o
arrependimento é um dom de Deus (At 11.18; ver 2Tm 2.25). Para aqueles
que pensam que a fé é uma obra humana, a Bíblia diz que ela é um dom de
Deus (Ef 2.8). Segundo a Escritura, Deus concede fé aos que são destina­
dos para a vida eterna (At 13.48).
108 Razão da esperança

Não somos escolhidos por algo que Deus tenha visto em nós, pois não
há nada de bom no ser humano para ser visto por Deus (SI 14.2,3). Paulo
declarou a seu discípulo Timóteo que Deus “nos salvou e nos chamou com
santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria
determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos
eternos” (2Tm 1.9). Não fomos salvos e convocados por coisas boas que
tivéssemos feito, nem mesmo por uma fé pré-visualizada por Deus, a qual
teria que ser algum tipo de obra nossa, mas pela determinação de Deus, a
qual ele tomou antes que o tempo começasse a existir. O próprio texto de
Romanos, a respeito de Esaú e Jacó, se auto-explica, nesse sentido, no pa­
rêntese que segue: “Para que o propósito de Deus, quanto à eleição, preva­
lecesse, não por obras, mas por aquele que chama” (Rm 9.11). Paulo colo­
cou esse parêntese no texto justamente para enfatizar que Deus não levou
em consideração as atitudes posteriores dos homens ao definir o destino
deles. Mas será que há algum motivo pelo qual Deus nos escolheu?

0 verdadeiro motivo: 0 a m o r
Há um motivo pelo qual ele escolheu: o seu amor. A seqüência da passa­
gem de Romanos é ainda mais clara, pois diz que antes de os gêmeos nasce­
rem, antes que eles tivessem feito qualquer coisa, foi dito: Escolhi o mais
moço (Jacó). Não há como negar, nessa passagem, a preferência de Deus por
Jacó em vez de Esaú. Eleição significa exatamente isso: a preferência divina.
Deus preferiu Jacó em lugar de Esaú, como preferiu todos os demais eleitos
em lugar dos não-eleitos. A questão-chave nisso tudo é o seu amor, confor­
me mostra a continuação da passagem: “Como está escrito: amei a Jacó, po­
rém me aborreci de Esaú” (Rm 9.13). O amor de Deus pelo seu povo esco­
lhido é a grande base da eleição, pois fomos predestinados “em amor” (Ef
1.4). O que motivou esse amor, entretanto, é uma resposta que não temos.
Eleição é Deus escolher alguém que, em absoluto, não merece ser escolhido.
Vemos essa preferência aparentemente injustificada na própria escolha de
Israel no Antigo Testamento, conforme a Bíblia demonstra: “Não vos teve o
Senhor afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que
qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor
vos amava” (Dt 7.7,8). O motivo da escolha de Israel não foi o mérito da
nação, mas o amor que Deus tinha por ela, um amor eterno (Jr 31.3).
Em geral, quando os arminianos argumentam que a predestinação é
baseada apenas no pré-conhecimento, eles usam o texto de Romanos 8.29
Predestinação: Deixando Deus ser Deus

que diz: “Aos que de antemão conheceu, também os predestinou”. Porém,


no nosso entendimento, a ênfase posta sobre a expressão “conheceu” é
injustificada. Na Bíblia, o termo “conhecer” envolve muito mais do que
simplesmente “saber a respeito de”. Em muitos casos, ele envolve um pro­
fundo relacionamento amoroso (Mt 1.25, Mt 7.23; 2Tm2.19). Esse é o caso
de Romanos 8.29, pois quando é dito que Deus predestinou aos que de
antemão conheceu, está na verdade dizendo que predestinou aos que amou
de antemão. Pois Deus conhecia, no sentido de “ter conhecimento de”, até
mesmo os não-salvos, mas estes não foram objeto do seu amor. E sobre o
amor de Deus que Paulo está falando no final do capítulo 8 de Romanos.
Segundo ele, nada poderá nos separar do seu amor, que é de fato eterno.
Portanto, Deus conheceu os seus escolhidos no sentido de que os amou
desde sempre e para sempre. Deus escolheu não por obras, mas por amor.
Este pré-conhecimento, portanto, é sinônimo de amor. O amor de Deus
pelos seus eleitos é um amor eterno, e nada poderá separar os escolhidos
do amor de Deus (Rm 8.38-39).

Deixados para trás


Não é tão difícil falar dos escolhidos, mas não devemos nos esquecer que
existem os “não-escolhidos”. Como diz Sproul, “não é suficiente falar sobre
Jacó; precisamos considerar também Esaú”.9 Se a causa da eleição é o amor,
qual seria a causa da preterição de Esaú e de todos os demais não-eleitos?
Na verdade, não é necessária uma causa para a preterição, pois ela é a
ausência da escolha. Deus simplesmente não os escolheu porque não os
amou. A palavra “preterir” significa abandonar, deixar para trás, deixar de
lado. Para entender isso, ajuda-nos pensar que todos os homens estão per­
didos nos seus delitos e pecados. Em Adão todos caíram, e os homens por
natureza não desejam servir a Deus. Assim, quando Deus deixa de escolher
alguém, ele não está tirando algo que devia ser do ser humano por direito,
mas simplesmente abandonando-o à sua própria sorte, ou ao estilo de vida
que ele próprio escolheu para si. Seria mais difícil pensar na predestinação
se todos os seres humanos fossem salvos e Deus tirasse ou dificultasse a
salvação de alguns por meio do seu decreto; porém, todos já estão conde­
nados. Deus escolhe alguns para a vida, e deixa os demais onde eles já estão
por natureza, ou seja, na morte. Por isso o infralapsarianismo faz mais sen­
tido, pois o decreto da eleição segue o decreto permissivo para a queda.
Como diz Sproul:
110 Razão da esperança

A visão reformada ensina que Deus positivamente e ativamente intervém


nas vidas dos eleiros para garantir sua salvação. O resto da humanidade
Deus deixa a si mesmo. Ele não cria a incredulidade em seus corações Essa
incredulidade já está lá. Ele não coage a pecar. Eles pecam por suas próprias
escolhas. No calvinismo, o decreto da eleição é positivo. O decreto da re­
provação é negativo.10

E interessante lembrar que, quando Jesus incentivou as pessoas a entra­


rem “pela porta estreita”, o caminho da salvação, ele não disse que alguém
“entra pelo caminho espaçoso” (Mt 7.13,14). A razão é simples: Não é
preciso entrar pelo caminho espaçoso porque todos já estão nele. Eles não
precisam entrar, precisam sair. Podemos ilustrar a eleição como um ato de
Deus pelo qual ele retira algumas pessoas do caminho espaçoso (pela con­
versão) e as coloca no caminho estreito, deixando as demais no caminho
em que sempre estiveram, e do qual nem sequer desejam sair. Se alguém
desejasse sair, sairia com certeza, pois seria um eleito de Deus. Deus está
sempre disposto a salvar os que clamam por ele, conforme a Escritura diz:
“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13).
E impossível ignorar a preterição no modo de agir divino. Deus esco­
lheu apenas Israel no Antigo Testamento (Ex 33.16, Dt 7.6; 10.15; Ml 1.2-
5). Ele não se revelou diretamente aos outros povos. Aqueles povos antigos
foram todos preteridos. Havia nações grandes e importantes naqueles tem­
pos, como o Egito, a Assíria e a Etiópia, mas Deus resolveu se revelar
apenas a Israel. Seu amor a Israel era tão grande que Deus disse: “Porque
eu sou o SENHOR, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito
por teu resgate e a Etiópia e Sebá, por ti. Visto que foste precioso aos meus
olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua
vida” (Is 43.3-4). Deus estava disposto a sacrificar outras nações por causa
de seu amor por Israel, o povo escolhido de Deus (Is 43.10, Ver. Is 41.9).
Jesus também preteriu alguns povos durante seu ministério, tendo orde­
nado a seus discípulos que não fossem a certos lugares (Mt 10.5-7). Alguém
dirá: mais tarde esses povos foram evangelizados. Nem todos, pois há mui­
tos povos que até hoje não foram evangelizados. Pense um pouco: algumas
pessoas nascem num lar evangélico e ouvem a Palavra todos os dias, en­
quanto outras nascem em lares muçulmanos, ou em lares de prostitutas e,
talvez, nunca tenham acesso ao evangelho. No mínimo, as pessoas não têm
as mesmas oportunidades na vida. Não há uma preterição nisso? Mas aci­
ma de tudo é preciso que fique bem claro que, apesar de Deus preterir os
perdidos, eles não demonstram qualquer desejo de conhecer realmente ao
Predestinação; Deixando Deus ser Deus

Senhor e andar nos seus caminhos. De certo modo, eles têm preterido a
Igreja de Deus tanto quanto são preteridos por Deus.

Uma doutrina injusta?


Calvino diz: “Embora a razão carnal nos sugira que o mundo se move
ao acaso e seja dirigido a esmo, contudo devemos considerar que o infinito
poder de Deus é sempre associado à perfeita justiça”.11 Como já dissemos,
os que rejeitam a doutrina da predestinação fazem isso porque temem cha­
mar Deus de injusto. Paulo, aparentemente, está preparado para isso, pois
antevê a pergunta: “Que diremos pois? Há injustiça da parte de Deus?”
(Rm 9.14). Paulo não ignorava que algumas pessoas fossem tentadas a ima­
ginar um Deus injusto a partir da sua exposição, mas observe que esse
risco, no entendimento de Paulo, não era motivo suficiente para ignorar a
doutrina. Paulo sabe que as pessoas sempre tentam “encaixar” Deus dentro
de seus pressupostos. Na verdade, Paulo tem absoluta certeza de que a
doutrina da predestinação não torna Deus injusto, pois a sua resposta é:
“De modo nenhum!” O argumento é que a justiça de Deus se confirma
pelo fato de que ele não deve nada a ninguém, sendo, portanto, livre na
distribuição de sua misericórdia e de sua graça. A misericórdia de Deus é a
questão fundamental da eleição, segundo Paulo, e é a resposta ao questio­
namento a respeito da justiça de Deus. Segundo o apóstolo, Deus não é
obrigado a demonstrar a sua misericórdia de maneira igual para com todos
os seres humanos. Paulo acrescenta: “Pois ele diz a Moisés: terei misericór­
dia de quem me aprouver ter misericórdia, e compadecer-me-ei de quem
me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15). O apóstolo dos gentios entende
que essa é uma prova de que Deus não é injusto, pois a misericórdia é dele,
e ele pode usá-la como bem quiser e com quem quiser. Se ele tivesse a
obrigação de salvar a todos, e salvasse apenas a alguns, estaria realmente
sendo injusto, mas, como já vimos, ninguém merece a salvação. Se todos os
homens fossem justos e merecessem a salvação, e Deus tirasse a salvação de
alguns, poderíamos dizer que houve injustiça, mas todos estão perdidos, e
Deus concede a salvação a alguns, e então só houve misericórdia. Os ho­
mens condenados receberão o que merecem,12pois eles mesmos não dese­
jam a Cristo, como a vida deles demonstra. Os homens perdidos não têm
vontade de encontrar a Deus, A. A. Hodge (1823-1886), ao considerar a
situação dos “réprobos”, faz uma distinção entre o aspecto “negativo” e o
“positivo” da reprovação:
112 Razão da esperança

Em seu aspecto negativo, a reprovação é simplesmente a não eleição, e é


absolutamente soberana, fundada unicamente no beneplácito de Deus, que
deseja eleger uns porque assim o quer e não porque sejam menos dignos.
Positivamente, a reprovação não é soberana senão judicial, porque Deus há
determinado tratar aos réprobos precisamente conforme os seus méritos e
à vista de sua absoluta justiça. 13

Nunca devemos nos esquecer do que estudamos no capítulo anterior,


que a soberania de Deus não invalida a responsabilidade humana. Os ho­
mens serão condenados por seus próprios pecados, e por sua falta de von­
tade de confiar em Cristo. Paulo não poderia ser mais claro sobre a eleição
incondicional ao afirmar: “Não depende de quem quer ou de quem corre,
mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16). Não depende da vontade
ou do esforço humano, mas de Deus usar a misericórdia que ele usa como
quer. O caso de Faraó exemplifica isso, pois Deus endureceu o coração de
Faraó a fim de que não deixasse o povo sair do Egito, e depois demonstrou
no próprio Faraó o seu poder, Esse endurecimento de coração não deve ser
visto como uma atitude “ativa” de Deus, como se Deus agisse no coração
de Faraó endurecendo-o diretamente. O coração de Faraó já era duro, Deus
apenas não agiu com misericórdia e não amoleceu aquele coração. Deus
tão-somente o entregou ao seu próprio pecado.14 A afirmação de Paulo é
categórica: “Logo, tem ele misericórdia de quem quer, e, também endurece
a quem lhe apraz” (Rm 9.18). A questão toda está na misericórdia de Deus.
Todos são pecadores, mas alguns são objeto de misericórdia e outros não.
Esses últimos serão atingidos pela ira (justiça), pois seus atos merecem isso.
Sproul tem uma afirmação muito feliz, nesse sentido:

Ele reserva para si o direito de ter misericórdia de quem quer ter misericór­
dia. Alguns membros da humanidade caída recebem a graça e a misericór­
dia da eleição. Deus ignora o restante, deixando-os em seus pecados. Os
não-eleitos recebem justiça. Os eleitos recebem misericórdia. Ninguém é
tratado com injustiça. Deus não é obrigado a ser misericordioso igualmente
com todos. E decisão dele o quanto será misericordioso.15

Muito importante nessa citação é: ninguém foi injustiçado, O ímpio é


condenado pelos seus pecados. O salvo recebeu a misericórdia. Por certo, a
lógica de Paulo não convence a todos, pois ele próprio antevê um novo
questionamento: “Tu, porém, me dirás: de que se queixa ele ainda? Pois
quem jamais resistiu à sua vontade” (Rm 9.19). Nesse ponto, parece que
Paulo perdeu o desejo de discutir. Sua resposta tem o poder de encerrar o
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 113

assunto: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura,


pode o objeto perguntar a quem o fez, por que me fizeste assim?” (Rm
9.19). Paulo entende que o homem não tem o direito de questionar as atitu­
des de Deus, assim como uma criatura não pode questionar os motivos do
seu criador. Para Paulo, tudo se resume nisso, de maneira que não precisa
dar uma resposta filosófica ou metafísica; ele simplesmente afirma: Que
cada um se coloque no seu lugar, Deus é Deus, e o homem é criatura. Não
temos o direito de questioná-lo, quer entendamos ou não os seus propósi­
tos. Em última instância, tudo repousa na questão do direito de Deus. A
fim de esclarecer isso, Paulo usa um exemplo: “Ou não tem o oleiro direito
sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para
desonra?” (Rm 9.21). A lógica é inquestionável: O oleiro tem ou não tem
direito de fazer do mesmo barro vasos diferentes, como lhe agradar? Veja
que a diferença não está na massa, mas no propósito. Se o oleiro fez um
vaso para uso honroso, terá obrigação de fazer todos os vasos dessa mesma
maneira? Não há injustiça da parte de Deus, pois Deus tem o direito de agir
como quer em relação à sua criação. Há dois tipos de vasos neste mundo.
Existem aqueles que foram “preparados para perdição”, que são os “vasos
de ira”, os quais servem para “mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu
poder” (Rm 9.22). E também existem os “vasos de misericórdia, que para
glória preparou de antemão”. Aos vasos de misericórdia Deus dá “a conhe­
cer as riquezas da sua glória” (Rm 9.23). O fato de Deus usar a sua graça em
escolher os salvos, ou a sua ira em punir os pecadores não invalida a sua
justiça. A princípio, essa passagem pode sugerir que Deus tenha “prepara­
do” vasos de ira, o que o tornaria responsável pela condenação deles
(supralapsarianismo). Porém, isso não está de acordo com o ensino do
restante da Escritura. A questão fica mais simples quando lembramos que
o “barro” utilizado por Deus é um barro decaído (infralapsarianismo).
Como diz Sproul: “Um lote de barro recebe misericórdia para tornar-se
vasos de honra. Essa misericórdia pressupõe um vaso que já é culpado. Da
mesma maneira, Deus precisa tolerar os vasos de ira, próprios para des­
truição, pois eles são vasos de ira, culpados”.16 Ou, como diz Calvino:
“Paulo não pretende reivindicar para Deus um poder desordenado, senão
que lhe atribui o poder de agir com perfeita eqüidade”.17 A misericórdia de
Deus não fere sua justiça. Porém, precisamos capitular diante do fato de
que não temos todas as explicações para a doutrina da predestinação. Pau­
lo não nos deu todas as explicações, ele apenas apelou para a soberania de
Deus, para a questão do direito divino e da misericórdia divina. Isso tam­
bém deve nos satisfazer.
Razão da esperança

Concluímos, portanto que, para a sua glória, Deus escolheu, antes da


fundação do mundo, um grupo de pessoas para serem salvas em Jesus Cris­
to porque as amou, e preteriu as demais, as quais serão condenadas pelos
seus pecados.

Uma doutrina proveitosa


Ao contrário do que se argumenta, entender a predestinação faz muito
bem ao crente. Há muitas implicações positivas18 a respeito da predestina­
ção que poucas vezes são consideradas pelos que a rejeitam. No nosso
entendimento, entender a predestinação é essencial para um crescimento
saudável na vida cristã.

H um ild ad e
A primeira implicação que a doutrina da eleição deve produzir em nós
é a humildade. Isso é no mínimo curioso, pois geralmente as pessoas
acham que a eleição conduz ao orgulho. Mas a verdade é que não temos
do que nos orgulhar, pois Deus não nos escolheu porque viu algo de bom
em nós. Ele nos escolheu apesar de sermos seus inimigos. Isso humilha o
nosso coração orgulhoso. Paulo disse que os chamados não eram os mais
ricos e sábios deste mundo (ICo 1.27-29). O que isso significa? Que Deus
não se deixa levar pelas aparências. Nada havia de bom em nós que moti­
vasse a escolha divina. Quando um homem escolhe uma esposa, por exem­
plo, ele procura aquela que lhe parece ter mais coisas atrativas; entretanto,
Deus não escolheu desse modo, pois escolheu aqueles que não eram os
mais destacados. O motivo, segundo a Bíblia, é para que ninguém se glo­
rie. As vezes, vemos os crentes confessarem “nada do que eu faço pode
me salvar”, mas, essa mesma pessoa dirá “sou salvo por que eu disse sim
a Cristo”. A eleição muda essa frase nos nossos lábios, ela humilha o
nosso coração orgulhoso e nos faz dizer: “Eu fui salvo porque Cristo disse
sim para mim”. Outros dizem: “Dê uma chance para Jesus”. Mas será que
é ele quem precisa de uma chance? Definitivamente isso precisa mudar
nos nossos lábios, mas antes precisa mudar no nosso coração. Precisa­
mos entender, de uma vez por todas, que não é o homem quem escolhe
ou resolve dar uma chance ao Senhor Jesus, é Jesus quem nos escolheu.
Somos dele porque ele nos escolheu, e não porque nós decidimos fazer
isso. O conhecimento da eleição divina deve nos levar à humildade e não
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 115

à exaltação. Na verdade, entender a predestinação é um grande antídoto


contra o orgulho.

Ado ração

A verdadeira adoração também está diretamente vinculada ao conheci­


mento da predestinação, pois Deus nos escolheu para louvor da sua glória
(Ef 1.11,12). A adoração é uma das tarefas mais sublimes que nós temos
como cristãos. O conhecimento dessa doutrina é necessário para um lou­
vor adequado. Sem ela, Deus não é corretamente conhecido, e quando ele
não é corretamente conhecido, não pode ser corretamente adorado. Fre­
qüentemente, nossos cultos são voltados mais ao entretenimento do que à
adoração, e o motivo é simples: os cultos não são centrados em Deus, mas
no ser humano. Também isso tem um motivo: falta de conhecimento de
quem é Deus e de quem o ser humano é. Precisamos confessar: muitas
vezes não estamos interessados em que Deus se agrade do culto, queremos
sim, que nós mesmos sejamos agradados. O conhecimento da eleição faz
com que um respeito muito grande seja produzido dentro de nós. Como
disse Horton: “Nenhuma doutrina expulsa o narcisismo das igrejas e dos
púlpitos como ela. Nenhuma doutrina é mais própria para fazer a justifica­
ção pela graça mais central. Nenhuma doutrina tem mais sucesso em colo­
car o homem no seu devido lugar e Deus no que lhe pertence; por isso,
entender a predestinação é vital para a verdadeira adoração”.19 Enquanto
não rendermos a Deus a glória que é devida ao seu nome, não estamos
adorando verdadeiramente. Se nos recusamos a permitir que Deus seja so­
berano, estamos nos recusando a aceitá-lo como ele é. Quando isso aconte­
ce, não existe adoração. E interessante ver a doxologia de Paulo em Efésios
1.3-14, em que ele começa bendizendo a Deus justamente por causa da
eleição. Porque Deus escolheu o seu povo, Paulo louvou a Deus dizendo:
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1.3).

Santidade

John Wesley costumava argumentar que não podia aceitar a doutrina da


predestinação porque ela minava os principais suportes da santidade: te­
mor da punição e esperança da recompensa.20 Se de fato esses são os dois
grandes suportes da santidade, então Wesley estava certo. Porém, será que
o medo de ser punido e a esperança de ser recompensado são os verdadei­
ros suportes da santidade? Paulo, escrevendo aos romanos, declarou: “Por-
116 Razão da esperança

que não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, ate­
morizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clama­
mos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Em outras palavras, o medo da punição é algo
que nós tínhamos antes de ser cristãos. Agora somos filhos, pois “ele
predestinou-nos... para a adoção de filhos” (Ef 1.5). Baseado nessa verda­
de, o crente pode olhar para o futuro com destemor, pois tem motivos para
esperar no nome de Deus e na vontade de Deus, Isso nos faz ver que a
eleição é uma dessas doutrinas que reorientam completamente a nossa vida.
A nossa motivação para a santidade baseia-se no fato de que fomos chama­
dos para sermos santos (Rm 1.7). Se não vivermos de maneira santa, esta­
remos sendo indignos do nosso chamado, ou seja, estaremos provando que
não somos chamados. Um eleito que não vive em santidade é uma contra­
dição em termos. Como alguém poderia ser parte de uma “raça eleita, sa­
cerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (lPd
2.9), sem ser essas coisas? Viver em santidade é algo inevitável para o eleito.
Devemos andar em boas obras de amor e caridade para com o nosso pró­
ximo porque Deus “de antemão preparou” para que andássemos nelas (Ef
2.10). Devemos perseverar na nossa meta de ser semelhante a Cristo não
por causa do temor de perder algo, ou pela esperança do lucro, mas porque
fomos “predestinados” para sermos conformes à imagem de seu Filho.
(Rm 8.29). No entendimento de Paulo, Deus nos escolheu “desde o princí­
pio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts
2.13). Portanto, fé e santificação são coisas essenciais para a confirmação
da eleição, pois fomos predestinados “para sermos santos e irrepreensíveis
perante ele” (Ef 1.4). Por isso, segundo Colossenses 3.12, devemos reves­
tir-nos “como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de miseri­
córdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade”. A base
da nossa santidade não é o medo de perder alguma coisa, mas a alegria por
saber que todas as coisas já são nossas em Cristo Jesus (ICo 3,21-23). Dian­
te de tudo isso, não há como um eleito não viver uma vida de santificação.
Paulo, escrevendo aos crentes de Tessalônica, disse-lhes: “Damos, sem­
pre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações e,
sem cessar, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da
vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em
nosso Senhor Jesus Cristo, reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa
eleição” (lTs 1.2-4). Paulo era muito agradecido a Deus pelos crentes de
Tessalônica porque eles tinham três coisas especiais: fé operosa, amor ab­
negado e esperança firme, ou seja, santidade e boas obras. Ele disse que ver
essas coisas naqueles irmãos o levava a reconhecer que eles eram eleitos.
Predeslinação: Deixando Deus ser Deus 117

Pedro também afirma algo semelhante ao dizer: “Por isso, irmãos,


procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e elei­
ção; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum” (2Pe
1.10). Eleição é algo que se confirma com frutos. Nem poderia ser diferen­
te, pois Jesus disse: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porven­
tura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” (Mt 7.16). Santidade e
eleição são coisas impossíveis de separar. Porém, não é o medo de perder
algo que deve nos levar à obediência, mas a gratidão pela certeza do que já
somos, pela graça de Deus.

Oração

Às vezes, as pessoas perguntam: “Por que orar se Deus já sabe?” Essa é


uma das principais objeções levantadas contra a soberania de Deus. Pode­
mos dar dois motivos para orar, ainda que Deus já saiba de tudo que preci­
samos: Primeiro porque é um mandamento bíblico. Jesus nos mandou orar,
e por isso devemos obedecer a ele, pois não estamos em condições de
questioná-lo. Se ele deu o exemplo orando pessoalmente tantas vezes na
sua vida, se ensinou aos seus discípulos a orar, e se a Escritura nos manda:
“Orai sem cessar” (lTs 5.17), não há o que ser questionado. Ainda que a
oração não tivesse nenhum outro valor, só o fato de ser um mandato bíbli­
co já é motivo suficiente para ser obedecido. Mas não é só isso. Há ainda
mais um motivo pelo qual devemos orar: Porque Deus ouve as nossas ora­
ções. Algumas pessoas demonstram uma grande incoerência em relação ao
que crêem e ao que praticam, pois dizem que Deus não interfere na conver­
são de alguém, que tudo depende em última instância da própria pessoa, e
que ela, fazendo uso de seu livre-arbítrio, aceita ou deixa de aceitar a salva­
ção de modo absolutamente livre, mas ainda assim oram para que as pes­
soas se convertam. Nesse caso, poderíamos perguntar: Então por que orar?
Em vez de perguntar: “Por que orar se Deus já sabe?”, perguntaríamos:
“Porque orar se Deus não age?” Se eu não creio que Deus possa interferir no
livro arbítrio de alguém, eu não deveria orar: “Senhor, mude o coração da­
quela pessoa!” A teologia de muitas pessoas parece que deixa Deus de “mãos
atadas”, pois ele não pode interferir no “livre-arbítrio” das pessoas. Graças a
Deus que esse não é o ensino da Escritura, pois, se fosse assim, não poderí­
amos esperar muitas conversões. Deus ouve a nossa oração e age na vida das
pessoas levando-as a se converter. E claro que isso não invalida o seu plano,
como vimos no capítulo anterior, mas faz parte das “contingências” do seu
plano. Portanto, a eleição não anula a oração, antes a incentiva.
118 Razão da esperança

Eva ng elism o

De modo geral, as pessoas acham que predestinação e evangelismo são


duas coisas que se excluem. Queremos, porém, argumentar que o
evangelismo somente tem sentido depois que entendemos bem a verdade
da predestinação. Compartilhar a fé com não-cristãos pode ser uma tarefa
muito árdua, até que entendamos a eleição, pois ela transforma o nosso
evangelismo em três níveis: na nossa mensagem, nos nossos métodos e na
nossa motivação.21 A eleição transforma a nossa mensagem porque não
nos autoriza a dizer a qualquer incrédulo, “Deus ama você e tem um plano
maravilhoso para sua vida”. As vezes, as pessoas dão testemunho em pro­
gramas evangelísticos da seguinte maneira: “Eu encontrei Deus”. Mas quem
estava realmente perdido? A eleição transforma também os nossos méto­
dos de evangelização. Atualmente, o oferecimento do evangelho é guiado
pelo marketing. A cada momento, surgem novos métodos para convencer o
incrédulo a aceitar o “produto”. A eleição diz que não são os métodos que
convencerão o incrédulo a aceitar a verdade, e sim a determinação divina
em convertê-lo. E somente a graça redentora de Deus e não o belíssimo
prédio, a decoração celestial,\ a música ambiente ou a técnica do apelo que
convencerá algucm. Desse modo, podemos abordar incrédulos como seres
humanos decaídos que precisam desesperadamente de Deus, e não como
consumidores que, com alguma técnica, conseguiremos convencer.
Por fim, podemos dizer, e julgamos isso o mais importante, que a
eleição afeta o evangelismo na nossa motivação. O apóstolo Paulo, a res­
peito de quem todos concordam ser o maior missionário da igreja em
todos os tempos, escreveu: “Por esta razão, tudo suporto por causa dos
eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo
Jesus, com eterna glória” (2Tm 2.10). Era justamente o fato de saber que
Deus tinha os seus eleitos o que mais motivava Paulo a enfrentar todas as
situações e dificuldades da sua vida. Era a eleição que motivava o apósto­
lo a ir de cidade em cidade proclamando a mensagem divina, pois sabia
que Deus tinha “muito povo” em cada cidade (At 18.10). A grande moti­
vação para pregar o evangelho é que nunca correremos o risco de pregar
em vão. Deus sempre garantirá que os eleitos ouvirão e se converterão.
Nossa tarefa então, fica bem mais fácil, pois em última instância, a con­
versão de alguém não depende do pregador, mas daquele que enviou o
pregador. Nossa função é pregar com todo zelo e fervor, confiantes de
que Deus fará a obra. Esta sem dúvida é uma grande motivação para
pregar o evangelho.
Predestinação: Deixando Deus ser Deus 119

Finalizaremos este assunto com as palavras de Calvino:

Se alguém assim se dirige ao povo: “Se não credes é porque Deus já os há


predestinado à condenação”, esse não somente alimentaria a negligencia
como também a malícia. Se alguém também para com o tempo futuro es­
tenda a asserção de que não hajam de crer os que ouvem, porquanto hão
sido condenados, isto seria mais maldizer do que ensinar. (...) Como nós
não sabemos quem são os que pertencem ou deixam de pertencer ao nú­
mero e companhia dos predestinados, devemos ter tal afeto, que desejemos
que todos se salvem; e assim, procuraremos fazer a todos aqueles que en­
contrarmos, sejam participantes de nossa paz (...). Quanto a nós concerne,
deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio, salutar e severa
correção, para que não pereçam eles próprios, ou a outros não percam. A
Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz àqueles a Quem pré-conheceu e
predestinou,22

Desse modo, a doutrina da eleição, longe de ser um obstáculo à evange­


lização é na realidade um estímulo vital e consolador.23

Conclusão
Ao contrário de produzir apatia ou desinteresse, a doutrina bíblica da
predestinação é a base para uma vida de humildade, adoração, oração, san­
tidade e evangelismo. A eleição não faz com o que o crente cruze os braços,
mas arregace as mangas. E verdade que muitos, confiando na sua suposta
eleição, têm vivido de maneira despreocupada; entretanto, a base de sua
confiança é falsa. Um eleito precisa evidenciar certas coisas na sua vida para
que fique claro que é um eleito.
A despeito de todos os falsos entendimentos, a doutrina da predestina­
ção é bíblica e amplamente proveitosa para a vida cristã. A questão crucial
que impede o homem de aceitá-la deve-se ao fato de que, desde o início foi
difícil para o homem deixar Deus ser Deus. Adão e Eva se rebelaram por­
que queriam ter direitos iguais aos de Deus. O homem quer sempre tomar
todas as decisões e a idéia de que algo possa fugir ao seu controle lhe é
odiosa. Mas isso é uma grande tolice. Deus é Deus. Ele é o Oleiro, o barro
somos nós, Sempre seremos o barro, por mais que lutemos para inverter
essa ordem. O desejo íntimo de moldar Deus conforme nos apraz é o
nascedouro da idolatria, a qual Deus tanto abomina. Em nossos dias, os
homens têm feito deuses para si de acordo com o seu desejo pessoal, po-
120 Razão da esperança

rém, o Deus verdadeiro, o Deus da Bíblia é aquele que age como a sua
vontade determina, quer os homens aceitem ou não.
O que torna a doutrina da predestinação tão amedrontadora é o falso
entendimento dela, aliado a um falso entendimento da justiça de Deus e do
merecimento dos homens. Precisamos abandonar nossas próprias concep­
ções a respeito do que Deus “deveria ser” e aceitar que ele seja aquilo que
ele é. Devemos aceitar que Deus seja o que ele se revelou na Escritura: O
Deus soberano, amoroso e misericordioso, que tem escolhido um povo
para si. Não devemos desprezar a Escritura, pois a Eleição está clara nela.
Entendemos que essa é uma doutrina difícil, porém, acima de tudo, bíblica.
Se ela é bíblica, não devemos ter medo de proclamá-la.
Em vez de deixarmos o nosso coração se encher de incertezas e ques­
tionamentos em relação à soberania de Deus, devemos, a exemplo do após­
tolo Paulo, terminar este assunto glorificando a Deus por sua soberania.
Paulo encerra toda a discussão sobre a predestinação com as seguintes pa­
lavras: “O profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conheci­
mento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis,
os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi
o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser
restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele,
pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36).
Paulo, apesar de não dar todas as respostas, e de talvez, nem ter todas as
respostas para o assunto “predestinação”, ao invés de questionar os desíg­
nios de Deus, se alegrou neles e louvou ao Senhor por seus pensamentos,
caminhos e obras inescrutáveis. Ele não deixou algum senso inadequado de
justiça própria ofuscar o brilho áureo da misericórdia de Deus. Paulo reco­
nheceu a soberania e a misericórdia daquele que não deve nada a ninguém,
mas ainda assim tem salvado um povo para si. Este povo é o povo eleito.
Ao Deus dos eleitos, portanto, seja a glória eternamente amém.
9

0 Santo de Israel
íSSSSíJfflBBí,
<1w r^ m r

"Santo, santo, s an t o é o S hnhor dos Exércitos;


toda a terra está cheia da s ua glória" (Is 6.3).

Por todos os lados, as marcas da rebeldia, da desobediência, da trans­


gressão e da corrupção se fazem visíveis. O pecado domina a raça humana,
propagando suas pestes devastadoras nos quatro cantos do planeta. A vio­
lência, os abusos, a cobiça e os desejos desenfreados deixam as suas vítimas
nas sarjetas das favelas ou nos apartamentos de luxo dos badalados requin­
tes da alta sociedade. Quando deixamos de lado toda preconcepção, perce­
bemos que a visão do nosso mundo é terrível. O problema, porém, é que,
às vezes, a igreja não parece muito melhor. Especialmente quando vemos
fotos de líderes religiosos que são taxados de corruptos estampadas em
capas de revistas. Ou quando sabemos que há um imenso povo fiel sendo
enganado pela cobiça de homens inescrupulosos cujo único interesse é o
lucro. Ou quando percebemos que políticos supostamente evangélicos ga­
rimpam votos das igrejas para tentar obter uma cadeira no planalto, mas
que, quando chegam lá, como muitos que já chegaram, mostram o seu
verdadeiro caráter. Ou quando sabemos que muitos homens e mulheres se
apresentam com uma capa de santidade que esconde todo tipo de fornica­
ção, impureza e podridão, que a falta de compromisso do mundo moderno
trouxe para dentro das igrejas, fazendo-as parecer muito mais clubes soci­
ais, e seus cultos programas de auditório, do que adoração ao Deus Santo.
E triste perceber que o real sentido do culto bíblico, da adoração “em espí­
rito e em verdade” se perdeu em tantas denominações e na vida pessoal de
tantos crentes, por causa dos modismos e invenções que o marketing religio­
so tem criado, desviando as pessoas da Palavra de Deus. Esse é um quadro
terrível que não pode ser ignorado, mas ao qual muitos crentes verdadeiros
têm fechado os olhos ou dado de ombros como se nada pudesse ser feito,
como se fosse algo inevitável. Enquanto isso, as caricaturas de Deus rodam
de igreja em igreja segundo as mais novas “ondas” do momento. Absurdos
122 Razão da esperança

e mais absurdos são praticados sob a justificativa da autoridade espiritual,


do apostolado, episcopado ou mesmo do popular “Deus me revelou”. Sob
essa suposta autoridade, um grupo de evangélicos derramou tonéis de óleo
sobre o Rio de Janeiro de um helicóptero, numa tentativa de ungir a cidade
para que a violência diminuísse. Sob essa suposta autoridade, grupos de
evangélicos urinam nos cantos das cidades com o intento de demarcar o
terreno para o Leão de Judá. E, neste momento, provavelmente em muitos
templos religiosos, as pessoas rolam pelo chão, riem ou choram
descontroladamente, vomitam ou dançam freneticamente tomadas por al­
guma nova forma de “unção”. Todas essas distorções se devem a uma ou­
tra ainda maior: a distorção do entendimento da pessoa de Deus. E preciso
resgatar a visão correta de quem é Deus para que o movimento evangélico
retorne aos trilhos. E preciso abandonar aquela antiga visão de Deus como
um bom velhinho que não leva em conta as falhas dos homens, e está
sempre concedendo absolvição ilimitada. Em lugar dela, não adianta colo­
car a noção de que Deus existe só para suprir as necessidades dos crentes,
que está muito mais para um dono de banco, ou apresentador da Porta da
Esperança do que o Deus justo e santo que se assenta no trono. Talvez,
justamente o que muitos ignoram é que Deus tem um trono. A visão deste
Deus, o que se assenta no trono em santidade absoluta, é que precisa ser
recuperada, a fim de que o culto seja novamente verdadeiro, o evangelismo
autêntico e a vida dos crentes fiel.

R esgatando a visão do trono de Deus


O profeta Isaías e o apóstolo João tiveram algo em comum. De algum
modo inexplicável, os dois estiveram no mesmo lugar num dado momento
de suas vidas. Ambos foram conduzidos ao local que governa o universo.
Eles tiveram uma visão do Trono de Deus. O apóstolo João relata a sua
visão no livro do Apocalipse. Ele era prisioneiro na ilha de Patmos, e con­
vivia com a dura realidade que um cristão fiel, muitas vezes, é chamado a
enfrentar nesta vida. De repente, João foi convidado para dar uma espiada
num outro mundo. Uma porta foi aberta no céu e ele foi chamado a entrar,
e assim, o privilégio máximo que alguém poderia ter foi lhe concedido:
entrar na sala do trono (Ap 4.1). Ao contrário do que muitos pensam, esse
lugar realmente existe. João esteve lá e nos contou a respeito dele. João viu
o trono que governa o universo. Ele pisou lá, viu suas cores, seus sons, sua
majestade e descreveu tudo em detalhes para nós. A descrição está nos
0 Sanlo de Israel 123

capítulos 4 e 5 do Apocalipse. Esse lugar não é apenas um sonho ou uma


esperança vã de algumas pessoas, mas trata-se de um lugar real, único e
verdadeiro. Um lugar muito diferente do mundo a que estamos acostuma­
dos, pois lá impera a santidade de Deus.
A visão que João descreve é de tirar o fôlego. Ele diz: “Imediatamente,
eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém
sentado” (Ap 4.2). Em seguida, ele passa a descrever algo como círculos
que se sobrepõem ao redor do trono. Esta é sua descrição: “E esse que se
acha assentado é semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de sardônio, e,
ao redor do trono, há um arco-íris semelhante, no aspecto, a esmeralda”
(Ap 4.3). O primeiro círculo tem a cor do jaspe, que pode ser reconhecido
como diamante, cuja cor mais comum é o branco. O próximo leva a cor do
sardônio vermelho. O próximo círculo é da cor da esmeralda, mas o que se
destaca é a figura do arco-íris. Na busca pelo significado dessas cores, pode
se pensar na idéia do branco como santidade e pureza, no vermelho talvez
como uma referência ao sangue que purifica o pecado e dá acesso à presen­
ça de Deus, e no arco-íris como o antigo símbolo da paz que Deus estabe­
leceu com a criação depois do dilúvio.1 João descreve ainda: “Ao redor do
trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro
anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro” (Ap
4.4). Não há dificuldade em se pensar que esses anciãos representem a
totalidade dos salvos, a igreja do Antigo Testamento representada pelos
doze patriarcas e a igreja do Novo Testamento representada pelos doze
apóstolos. Ainda há quatro seres viventes que formam outro círculo ao
redor do trono, eles têm olhos por diante e por detrás, e podem ser identi­
ficados como anjos de primeira grandeza, ou com a totalidade do mundo
criado por Deus, envolvendo os quatro aspectos da natureza: animais sel­
vagens, domesticados, homens e seres voadores. Mais dois círculos ainda
podem ser visto no capítulo 5, um de anjos incontáveis (Ap 5.11) e outro
envolvendo todas as criaturas (Ap 5.13). Assim, percebemos que ao redor
do trono de Deus estão representadas todas as coisas que ele criou, e que
rendem louvor à sua santidade, pois ele domina sobre tudo com absoluta
eqüidade. Ao ler o texto de João, percebemos como os detalhes são realça­
dos. Ele quer nos dar uma noção da grandeza a que teve acesso. João quer
que seus leitores acreditem que esse lugar existe, e especialmente como é
Aquele que se assenta no trono. Ele quer que acreditemos que a fonte de
toda a nossa esperança realmente existe. O mundo não veio do nada e nem
marcha sob as ordens tirânicas do acaso, há um trono que governa esse
mundo e todo o universo.
124 Razão da esperança

Mais do que a visão espetacular, João quer descrever a adoração que viu
no céu. De todos os lados e de todas as direções, o louvor se dirige ao que se
assenta no trono. Os quatro seres viventes proclamam de noite e de dia
“Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que
é e que há de vir” (Ap 4.8). Os 24 anciãos aproveitam o momento e se
prostram diante do Deus Santo, adorando-o, entregando suas coroas, e can­
tando com todas as forças: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a
glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da
tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Ap 4.11). Ambos os grupos
repetem essa adoração ao Cordeiro (Ap 5.8-10), e então, entra em cena um
significativo grupo de anjos, composto de “milhões de milhões e milhares
de milhares” e cantam com uma voz estrondosa “digno é o Cordeiro que foi
morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e
louvor” (Ap 5.12), e por fim, toda a criação irrompe em louvor dizendo:
“Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e
a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos”. Então, os quatro seres vi­
ventes selam a cerimônia com um contundente “Amém!”, e os anciãos se
prostram e adoram (Ap 4.14). A visão é estonteante. Quase dá para ouvir o
som de todas aquelas vozes adorando o Deus Santo e Soberano. Esse, sem
dúvida, é um “perfeito louvor” (Mt 21.16). Trata-se de uma visão do futuro,
quando todos os redimidos, junto com todos os anjos e toda a criação louva­
rão ao Senhor com todas as forças, numa adoração jamais vista. Esta é a
nossa vocação: somos chamados para a adoração de Deus “na beleza da sua
santidade” (SI 96.9). Um dia ouviremos o som daquela voz que disse a João
“sobe para aqui”, nos convocando também para participarmos desse gigan­
tesco coro em honra ao Deus Santo. Porém, de certo modo, tudo isso já está
acontecendo hoje. Deus já é exaltado entre as nações e exaltado na terra (SI
46.10). Ele é exaltado acima dos céus e em toda a terra esplende a sua glória
(SI 57.5). Enquanto estivermos neste mundo, essa é a visão de Deus que
devemos ter, e que mais do que nunca precisamos resgatar. E nosso dever,
portanto, resgatar essa visão correta do Deus que se assenta no trono, desse
Deus glorioso, excelso, sublime e, acima de tudo, santo. Só quando o mundo
evangélico resgatar essa visão, os abusos cessarão.
Isaías também esteve nesse lugar, pelo menos novecentos anos antes de
João. No seu texto, há mais detalhes que nos ajudam a recuperar a visão da
santidade de Deus e que têm aplicações diretas para a nossa vida. Isaías
diz: “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um
alto e sublime trono” (Is 6.1). Essa é a visão do Soberano, o Santo, aquele
que não se corrompe jamais. Voltando ao tempo de Isaías, somos informa­
0 Santo de Israel 12 5

dos que o rei Uzias estava morto. Ele havia sido um bom rei, tendo reinado
durante 52 anos sobre Judá. Ele desempenhou uma importante função no
seu reinado ao reconstruir o reino de Judá, devolver a dignidade, o poderio
militar e econômico da nação. O final do seu reinado, entretanto, foi trági­
co; ele morreu leproso pela audácia de ter reclamado para si direitos per­
tencentes apenas aos sacerdotes no templo. Foi ferido pelo Senhor por ter
afrontado a sua santidade. A morte do rei foi sentida em Judá, pois um
grande rei havia morrido. Aqueles eram dias de luto, e foi justamente nesse
período que Isaías teve a sua visão. O rei de Judá estava morto, o trono da
nação estava vazio, mas Isaías viu outro trono e um rei que jamais morre e
jamais perde a sua majestade.2 Em sua visão, lá estava o Senhor, assentado
num alto e sublime trono. Não importa a situação do mundo, não importa
quem ocupe os tronos passageiros dos reinos da terra, há um Trono Eter­
no, onde impera a Santidade Eterna, esse é o Trono de Deus (SI 11.4). O
mundo passa, mas aquele que habita a eternidade, o alto, o sublime, o
santo, está eternamente assentado no seu trono, imutável e majestoso na
sua santidade.
Não é um absurdo afirmar que os crentes têm tido uma visão extrema­
mente debilitada de Deus, em que ele aparece despojado da sua soberania e
de sua santidade. Isso é extremamente perigoso, pois em busca de uma
suposta intimidade com Deus, muitas pessoas têm menosprezado a santi­
dade dele. Num certo sentido, realmente fomos chamados para termos
intimidade com Deus, porém, às vezes essa noção é confundida. Vemos
por aí as pessoas dizendo que são íntimas de Jesus, e o tratam com palavras
jocosas e até apelidos. Já ouvimos testemunhos de pessoas que afirmaram
que Jesus vinha até a casa deles e até contava piadas. Francamente, isso
pode ser chamativo, mas não é a visão que a Bíblia apresenta de Deus.
Somos chamados a servir a Deus “com reverência e santo temor; porque o
nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.28,29). Não podemos nos esque­
cer que ele está assentado num alto e sublime trono, que ele é o soberano de
toda a criação. Não vemos qualquer escritor bíblico chamando Deus de
“querido”, ou “meu Jesuzinho”, ou de outras maneiras “íntimas”. Além
disso, intimidade não significa que podemos nos intrometer e desrespeitar
aquele de quem somos íntimos. Nenhum desrespeito pode ser aceito por
Deus com a desculpa de uma suposta “intimidade”. Sem mencionar que a
Escritura não diz que a “intimidade” com o Senhor é o princípio da sabe­
doria, mas que o “temor” do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 9.10).
Por outro lado, com os que o temem, Deus se relaciona com intimidade (SI
25.14). Os “íntimos” de Deus são aqueles que o temem e obedecem a ele.
126 Razão da esperança

A reverência dos serafins


Diante deste Deus Santo e Soberano nenhuma outra atitude pode ser
aceita a não ser a reverência. No templo, Isaías percebeu que além do
Senhor, ele não era o único personagem ali presente. Seres que só apare­
cem nessa passagem são vistos: os serafins,3 que estão voando acima do
Senhor. Isaías passa a observar essas criaturas e logo percebe que elas
têm seis asas, ou três pares, mas é um detalhe em particular que chama a
sua atenção: somente duas asas são usadas para a função de voar, as ou­
tras quatro servem para cobrir o rosto e os pés, O que isso sugere? Certa­
mente é a reverência que os serafins, essas criaturas angelicais, têm diante
do Senhor. Os serafins jamais experimentaram o pecado, são totalmente
puros, e servem ao Senhor diante da santidade dele, mas mesmo assim -
e isso impressiona - , cies nem se atrevem a olhar diretamente para o
Senhor. Podemos entender facilmente a razão de os homens não olharem
para o Deus glorioso - a existência do pecado explica isso; porém, os
serafins são puros; no entanto, nem mesmo eles olham diretamente para
o Senhor dos Exércitos. Não poderia haver uma descrição mais sublime
da santidade de Deus do que a imagem que essa passagem sugere. O
texto ainda diz que os serafins cobrem os pés. Freqüentemente os pés
trazem a conotação de impureza. Quando Moisés se aproximou da sarça
ardente, Deus lhe ordenou que tirasse as sandálias porque a terra em que
estava pisando era santa (Êx 3.5). É certo que os pés dos serafins não são
impuros, porém, numa atitude de respeito diante da santidade de Deus,
eles cobrem os pés. Quem dera todos tivessem esse senso de reverência
diante da santidade de Deus!
Os anjos não foram os únicos a se sentirem na obrigação de reveren­
ciar ao Senhor na sua Santidade. Alguns homens sentiram isso na carne.
Um deles foi Davi, na famosa história em que decidiu trazer a Arca da
Aliança de Quiriate-Jearim para Jerusalém. Depois da conquista da cida­
de e o estabelecimento de sua capital, imitando o procedimento dos filis­
teus, Davi mandou trazer a Arca, conduzida com muita festa e celebra­
ção, sobre um carro novo. A Escritura diz que, em certo ponto, os bois
que transportavam a Arca tropeçaram e um homem chamado Uzá esten­
deu a mão para segurar a Arca. Uzá foi instantaneamente fulminado pela
ira de Deus (2Sm 6.1-8). Davi havia cometido uma série de erros básicos,
inclusive o de imitar os filisteus ao ter usado um carro novo para trans­
portar a Arca. A Arca não devia ser transportada em carros, ela possuía
0 Santo de Israel 127

argolas, e somente os levitas eram autorizados a conduzi-la (lC r 15.15).


Davi estava cheio de boas intenções e pensou que elas fossem suficientes.
Deus não pode permitir que a sua santidade seja violada. Muito provavel­
mente foi nessa ocasião que Davi compôs o Salmo 15, dizendo: “Quem,
Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo
monte?” (v. 1); e também o Salmo 24: “Quem subirá ao monte do Se­
nhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” (v. 3). Com toda a
certeza, os moradores de Bete-Semes, uma pequena cidade de Israel, não
teriam cometido o mesmo erro de Davi. Eles já tinham tido uma expe­
riência com a santidade de Deus, na verdade uma dura experiência. Anos
antes, quando a Arca havia estado entre eles pela primeira vez, curiosos,
desejaram olhar para ver o que estava dentro da Arca, e foram feridos por
Deus (ISm 6.19). A declaração deles naquele momento foi: “Quem po­
deria estar perante o Senhor, este Deus Santo?” (ISm 6.20). A curiosida­
de não ajuda muito. Descuido muito menos. A reverência e o temor são
as melhores opções.
Voltando à visão dos serafins, percebemos que na sua reverência ao
Senhor, eles nos dão uma bela idéia de quão Santo é o nosso Deus, e faría­
mos muito bem se os imitássemos. Observe que os serafins são o mais belo
exemplo de intimidade, pois eles estão mais próximos de Deus do que
qualquer outro ser. De fato eles são íntimos dele, porém, isso não os torna
irreverentes. Se queremos ter intimidade com Deus, antes de qualquer coisa
precisamos aprender a respeitá-lo pelo que ele é. Deus é Santo. A proximi­
dade de Deus está sempre vinculada a respeito, reverência e temor.

0 cla m o r excelso
Da sua visão, o profeta descreve em seguida o clamor dos serafins. Ele
pôde ouvi-los clamando: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos;
toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3). Eles não apenas demonstra­
vam com atos a santidade de Deus, mas também com palavras. A língua
hebraica é cheia de particularidades interessantes. Em todas as línguas há
maneiras de se enfatizar alguma coisa. Na língua portuguesa, quando que­
remos enfatizar uma expressão, a colocamos entre aspas, a sublinhamos ou
então usamos a palavra no grau aumentativo. Assim, se quisermos dizer
que algo é puro em extremo dizemos que é “puríssimo”; se quisermos
dizer que é extremamente santo, dizemos que é “santíssimo”. No hebraico,
isso é demonstrado pela repetição da mesma expressão ou palavra. O que
128 Razão da esperança

o s serafins proclamavam, portanto, é que Deus é extremamente Santo, na


verdade santíssimo.4 Berkhof nos lembra que “não parece próprio falar de
um atributo de Deus como sendo mais central e mais fundamental que
outro; mas, se isso fosse permissível, a ênfase da Escritura à santidade de
Deus pareceria justificar a sua escolha”.5 De fato, a Bíblia diz que Deus é
amor (ljo 4.8), mas não diz que é “amor, amor, amor”. Diz que Deus é luz
(ljo 1.5), mas não diz que é “luz, luz, luz”. E impressionante a atenção que
a Bíblia dá à santidade de Deus.
Há dois modos de vermos a santidade de Deus. Por um lado, precisa­
mos falar da sua característica de ser transcendente, ou seja, separado. A
Santidade de Deus o torna o único ser independente e autônomo. Assim,
estamos destacando a sua majestade. Por outro lado, precisamos falar da
sua santidade em termos de relacionamento com o homem, e então, nos
vem à mente o Deus imanente, aquele que está próximo e se relaciona, mas
que, não obstante, não tolera o pecado. E mais sobre essa última que estamos
tratando aqui. Não devemos nos esquecer que a santidade é uma caracterís­
tica essencial de Deus que afeta todo o ser de Deus. Deus é tão santo no seu
amor, na sua misericórdia, na sua graça quanto na sua ira. É isso o que o
salmista afirma ao cantar: “O Senhor é fiel em todas as suas palavras e
santo em todas as suas obras” (SI 145.13). Se pensarmos no relacionamen­
to de Deus com os seres humanos, podemos dizer que Deus odeia o peca­
do, pois a sua santidade não tolera a corrupção, ou como Habacuque diz:
“Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal” (Hc 1.13).
No seu cântico, os serafins disseram que “toda a terra está cheia da
glória de Deus”. Por mais que o homem se recuse a admitir, ele está im­
pregnado do senso da santidade de Deus. Ao longo da História, Deus tem
deixado no mundo marcas que evidenciam a sua santidade. A criação pro­
clama isso, como já vimos anteriormente, mas, também podemos ver essas
marcas na Lei de Israel, que foi dada pelo próprio Deus. Sabemos que a Lei
foi planejada por Deus para que Israel tivesse uma noção da santidade dele,
e para levar o povo a entender que precisava ter uma vida santa. Isso pode
ser visto em declarações bíblicas como as seguintes: “Santos sereis, porque
eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2). Porém, mesmo aqueles que
não conhecem a Lei de Israel não podem se desculpar diante de Deus, pois
ele imprimiu na consciência deles o conhecimento da sua santidade (Rm
2.14-16), de modo que todos têm uma noção do que é certo e do que é
errado, do que agrada a Deus e do que o desagrada. Porém, essa noção não
é suficiente para que as pessoas se prostrem diante de Deus. Para que isso
aconteça, é necessário algo mais.
0 Santo de Israel 129

A c o m o çã o diante do Santo
Imediatamente após o clamor dos Serafins, o profeta descreve que
houve uma grande comoção no templo: “As bases do limiar se moveram
à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça” (Is 6.4). Tremor e
fumaça parecem ser elementos comuns na presença de Deus em sua san­
tidade. Quando de sua primeira manifestação a Israel no monte Sinai, a
Bíblia diz que “todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera
sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma grande
fornalha, e todo o monte tremia grandemente” (Êx 19.18). Esses ele­
mentos indicam a majestade e o poder divinos. E no mínimo curioso que
até os elementos naturais se comovam diante da presença do Santo. A
cena é estarrecedora. Imagine o profeta parado ali diante de toda aquela
cena, e a cada vez que os serafins clamavam, o lugar todo tremia. Lá
estava ele, sozinho, diante da santidade de Deus. Naquele momento, não
foram apenas as paredes que se moveram, o próprio profeta foi movido.
Ele literalmente desabou. Num instante, ele teve uma visão completa de
si mesmo, percebeu toda a sua pecaminosidade, e viu o quanto era indig­
no de estar na presença do Deus Santíssimo. Dá para imaginar a sensa­
ção de Isaías. De repente, ele foi levado ao templo celestial. A primeira
coisa que viu foi o trono de Deus e o próprio Deus assentado no trono.
Em seguida, viu os Serafins, e para seu espanto, eles não olhavam para o
Senhor, mas ele havia olhado. O cântico deles entra na sua alma como
uma lâmina, pois exalta a santidade de Deus, a qual ele estava profanan­
do com a sua presença pecaminosa. As paredes tremem, fumaça encobre
o local, e ele sabe que está condenado. Seu clamor reflete isso: “Ai de
mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no
meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o
Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5). Ele disse algo como “Ai de mim, eu vou
morrer”. Essas são palavras de alguém que teve plena consciência de que
estava profanando algo extremamente santo. Na presença santa do Se­
nhor, sentiu suas forças se esvaírem, e teve uma terrível sensação de morte.
Sentiu-se verdadeiramente perdido, porque sabia ser pecador, tanto quanto
seu povo, e, naquele momento, havia visto o Deus Santo. Esse é o tipo de
sentimento que a santidade de Deus produz nas pessoas. Olhar para Deus
e entender a sua santidade é algo que nos torna menos míopes para en­
xergar a nós mesmos. Ver o quanto Deus é Santo ajuda-nos a perceber o
quanto somos pecadores. Deixar esse senso da santidade de Deus inva-
\30 Razão da esperança

dir a nossa vida fará com que tenhamos ódio do pecado, tanto quanto
Deus o odeia.

0 toque da santidade
Muitas pessoas que se aproximaram de Deus sem considerar o seu
pecado pessoal, não tiveram um final feliz, porém, esse não é o caso de
Isaías. Podemos dizer que a sua história teve um final feliz, pois ele não
pereceu, apesar de ter tido um vislumbre da santidade de Deus. A única
explicação para isso é Redenção. E impressionante como a redenção de­
corre a partir do reconhecimento do pecado. Deus nada fará para salvar o
homem enquanto esse não reconhecer seus pecados e implorar o seu
perdão. E nosso entendimento que Isaías 6 é uma excelente passagem
messiânica, que esclarece, em termos pertinentes ao Antigo Testamento,
o sistema da salvação que é próprio do Deus da Escritura. Neste estudo,
não podemos deixar de fazer as devidas comparações à luz da revelação
do Novo Testamento.
Não devemos pensar que Deus ignorou o pecado de Isaías, fazendo
vistas grossas às suas transgressões. O Deus de Isaías é o mesmo de Levíti-
co que diz: “Ser-me-eis santos, porque eu, o S e n h o r , s o u santo e separei-
vos dos povos, para serdes meus” (Lv 20.26). Também é o mesmo que
disse a Ezequíel: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20), e posterior­
mente a Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Deus, o Santo,
não pode admitir o pecador na sua presença. E Isaías não estava fingindo,
ele era realmente pecador. A grande notícia, porém, que a Bíblia nos dá, é
que Deus tem uma solução para o pecado do homem. Deus pode tornar o
homem aceitável diante da sua Santidade. Como vimos na visão de João no
Apocalipse, ao redor do círculo branco há um vermelho, pois o sangue nos
conduz à santidade. O profeta descreve que, depois do momento crucial
em que se sentiu perecendo, um dos serafins vôou em sua direção com uma
brasa tirada do altar com uma tenaz e tocou a boca do profeta dizendo:
“Eis que ela tocou os teus lábios; a tua iniqüidade foi tirada, e perdoado, o
teu pecado” (Is 6.6,7). Esse foi um toque santificador. O toque da brasa,
tão quente que o anjo usou uma tenaz, simbolizava o juízo de Deus sobre a
carne pecaminosa. Isaías recebeu uma pequena demonstração desse juízo,
mas quem o recebeu inteiramente foi Jesus, que suportou todo o peso e o
fogo consumidor da ira de Deus por ter carregado o pecado de seu povo.
Não existe salvação sem juízo, alguém tem que pagar a conta do pecado,
0 Santo de Israel 131

alguém precisa satisfazer a justiça e a santidade de Deus. Não há perdão


sem substituição e remissão sem derramamento de sangue (Hb 9.22). A
santidade de Deus exige punição pelos pecados cometidos, e Jesus recebeu
sobre si essa punição simbolizada no dolorido toque da brasa nos lábios de
Isaías. De fato, Lhoyd-Jones está profundamente certo quando diz:

Se lhes fosse solicitado responder onde a Bíblia ensina a santidade de Deus


mais poderosamente teriam de ir ao Calvário, Deus é tão santo, tão plena­
mente santo, que nada senão aquela morte terrível poderia tornar possível
que ele nos perdoasse. A cruz é a suprema e a mais sublime declaração e
revelação da santidade de Deus.6

A decorrência do “toque santificador” divino na vida do homem é que


possibilita que ele esteja na presença de Deus. Quando o seu pecado foi
perdoado, Isaías não precisou mais temer pela sua vida. O olhar de ira de
Deus num instante transformou-se em olhar de graça e misericórdia. O
pecador privado da glória de Deus (Rm 3.23), instantaneamente passa a ter
livre acesso ao Santo dos Santos (Hb 10.19-22) e a adorar ao Senhor na
beleza da sua santidade (SI 96.9).
Em vez de ficar ali repetindo rituais, ou mergulhando em aberrações a
partir de supostos “êxtases espirituais”, o profeta sentiu desejo de ser envi­
ado para servir ao Senhor. Essa foi a experiência de Isaías. De pecador
miserável, num instante ele se sentiu aceito, e seu coração transbordou de
desejo de servir àquele Deus. Ele queria levar aquela imagem santa de Deus
aos outros. Foi por esse motivo que atendeu tão prontamente ao chamado
divino dizendo: “Eis-me aqui, envia-me a mim” (Is 6,8).

A m issão do santificado
Quando Deus nos santifica com o seu toque, certamente não é para
que fiquemos de braços cruzados. Como já vimos, a primeira reação de
Isaías ao se sentir perdoado e aceito foi dizer: “Eis-me-aqui”. Essa ordem
nunca deve ser invertida. Primeiro a pessoa precisa entender a santidade
de Deus, depois a sua própria pecaminosidade e, em seguida, a redenção
para, só então, ouvir o chamado divino e responder: “Eis-me-aqui”. Só
desse modo ela se torna capacitada para cumprir a difícil tarefa que Deus
reservou para ela . Há muitos obreiros não chamados por Deus que se
auto-enviam ao mundo. Somente aqueles que entenderam o seu chamado
132 Razão da esperança

à luz da santidade de Deus, é que podem ir ao mundo com a mensagem


verdadeira. Como diz Ridderbos, “O Senhor pede alguém que Ele possa
enviar ao Seu povo, e Isaías se apresenta como voluntário. O que ele vira e
ouvira, e que a princípio o aterrorizara, o incita, agora que ele foi purifica­
do graciosamente, a um entusiasmo santo pela obra de Deus”.7
Isaías seria um poderoso proclamador da santidade de Deus. Um dos
títulos mais comuns que ele próprio usou para Deus no seu livro foi o de
“Santo de Israel”. Só ele cita 25 das 31 vezes que esse título aparece na
Bíblia. A própria missão de Isaías demonstraria a santidade de Deus. Deus
o chamou para proclamar juízo sobre a nação, uma vez que a justa retribui­
ção para os pecados não confessados e não abandonados se abateria sobre
o povo. Isaías teria que proclamar o pecado da nação até ver toda ela ser
destruída pela ira de Deus. Aquela não seria uma tarefa fácil e nem popular.
De fato, os falsos profetas, que só trazem mensagens boas, sempre acabam
sendo mais populares do que os verdadeiros. A noção da santidade de
Deus que Isaías teve naquele dia jamais o abandonaria, mesmo que ele
tivesse que morrer por ela. Ele não negociaria a mensagem de Deus, pois
tinha visto o Santo.
Do mesmo modo, a nossa mensagem para este mundo não é fácil, mas
temos que cumprir a nossa missão. A santidade de Deus precisa ser resga­
tada no culto, na pregação, na vida devocional diária e em tudo o que os
crentes fazem, A santidade de Deus deve nortear os nossos trabalhos, ami­
zades, negócios e lazer. Homens e mulheres precisam ser desafiados pela
visão da santidade de Deus a conformar suas vidas com a santidade dele.
Toda hipocrisia, toda atitude interesseira, toda atitude de descaso que é tão
comum nestes dias, precisam ser postas de lado, e em seu lugar nascer uma
reverência sincera, uma adoração autêntica e um desejo de servir a Deus
com integridade e amor, em todas as áreas da vida.
Nos dias em que vivemos, em que a corrupção do pecado permeia to­
das as camadas da sociedade, e pode ser vista até dentro das próprias igre­
jas, mais do que nunca precisamos enfatizar a santidade de nosso Deus, e o
compromisso de santidade que ele requer de nós. As pessoas que lotam as
igrejas em busca de prosperidade e solução para todos os problemas, preci­
sam ouvir a ordem de Deus: “Sede santos porque eu sou Santo” (IPe 1.16).8
De fato, o Deus da Escritura é um Deus santo e que exige santidade. Ele é
santo em todos os seus atributos e modos de agir. É hora de a igreja recu­
perar a visão de Deus como a de João e a de Isaías, a visão do Deus da
Bíblia. Está na hora de sentir o impacto que essa visão causa, como Isaías e
João sentiram, para que, no meio de toda corrupção em que vivemos, um
0 Santo de Israel 133

povo santo proclame a mensagem santa do evangelho santo do Deus San­


to. Precisamos recuperar a nossa identidade: “Vós, porém, sois raça eleita,
sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim
de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz” (IPe 2.9). Sem santidade, não há proclamação verdadeira
e não há poder. Nossa mensagem não tem sido ouvida pela sociedade por­
que falta santidade em nós. As igrejas estão parecidas demais com o mun­
do. Temos sido mais influenciados do que influenciadores. Precisamos lem­
brar que Deus é o santo de Israel e nós precisamos ser o Israel santo de
Deus. E acima de tudo é preciso lembrar a necessidade premente de “san­
tificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).
10

O enigma do mal

Uma das coisas mais difíceis de harmonizar com a soberania de Deus


é a questão da existência do mal, especialmente a origem dele. Falar sobre
a origem do mal é entrar num dos caminhos mais obscuros e pouco tri­
lhados da teologia. Poucos se aventuraram por essa estreita senda cheia
de armadilhas e dificuldades, em que facilmente se pode tropeçar e cair
na heresia e até mesmo na blasfêmia.1 A pergunta “Quem criou o mal?”
é uma daquelas de que todo professor de Seminário ou de Escola Domi­
nical gostaria de fugir. Em meus tempos de seminarista, certo dia deparei
com um livro que versava sobre a doutrina bíblica do pecado. O livro
pretendia falar sobre a origem do mal, e sabendo que se tratava de um
clássico da teologia, escrito por um respeitado teólogo reformado, fiquei
muito ansioso para lê-lo, esperando encontrar respostas convincentes para
as minhas muitas dúvidas. Devorei suas páginas avidamente para desven­
dar esse mistério tão grandioso, e foi grande a minha decepção de calouro
ao chegar ao final e deparar com a conclusão: não sabemos a origem do
mal. Sem esquecer o cuidado e o temor que esse tema requer, nos aventu­
raremos um pouquinho a pensar sobre a origem do mal. Porém, não se
surpreenda o leitor se, ao final do capítulo, a resposta não tiver mudado
muito. De qualquer modo, considerar este tema pode ser útil para enten­
dermos muitas outras coisas, especialmente o relacionamento de Deus
com o mal, bem como o nosso próprio relacionamento com o mal. A
origem do mal está diretamente ligada à criação do mundo espiritual, e
por isso precisamos meditar um pouco sobre essa criação antes de entrar
diretamente no tema.

A criação do m u n d o espiritual
Antes mesmo de criar a terra e tudo o que nela há, Deus criou algo do
qual não temos muito conhecimento, exceto pelas poucas indicações que a
Bíblia nos dá. Estamos falando do mundo espiritual. No primeiro versículo
136 Razão da esperança

da Bíblia está escrito: “No princípio criou Deus os céus e a te m ” (Gn 1.1).
O segundo versículo passa a concentrar toda a sua atenção na terra: “A
terra, porém, era sem forma e vazia” (Gn 1.2). A partir daí pouco se fala
sobre o céu. De algum modo, a criação do mundo espiritual está incluída já
no primeiro versículo. O livro de Jó dá a entender que os anjos foram cria­
dos antes que a terra fosse feita porque lemos: “Onde estavas tu, quando eu
lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe
pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angu­
lar, quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam
todos os filhos de Deus?” (Jó 38.4-7). Sabemos que Deus criou os anjos
antes dos homens, e que houve uma queda no mundo dos anjos, Essa queda
provavelmente aconteceu após o término da criação, uma vez que a Bíblia
diz que, ao terminar a obra, “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era
muito bom” (Gn 1.31).2 Se tudo era muito bom, isso nos faz pensar que a
queda de Satanás ainda não havia ocorrido. Sabemos que hoje existem duas
classes de anjos, os bons e os maus. Os bons são chamados de “eleitos”.

Os an jos eleitos
Os anjos eleitos (lTm 5.21) foram dotados de uma capacidade de não
serem mais atraídos pelo mal, ou seja, Deus os preserva da queda. Se Deus
não fizesse isso com os anjos que não seguiram Satanás em sua rebelião,
sempre haveria a possibilidade de que algum anjo fosse iludido pelo diabo
e, então, até hoje anjos poderiam abandonar o céu para seguir o dragão,
Isso não acontece porque Deus preserva os seus anjos do pecado por um
processo semelhante ao da eleição dos homens. Já vimos que os homens
são eleitos, porém, são eleitos para serem salvos, pois a queda foi prevista
na eleição. Os anjos eleitos, diferentemente, são eleitos para que não per­
cam o estado que já possuem.
A Bíblia diz que os anjos são seres sem corpo (Mt 8.16; Lc 7.21; Lc
24.39) que podem estar em grande quantidade em apenas um lugar ao mes­
mo tempo (Lc 8.30).3 Eles não se casam (Mt 22.30), são seres racionais
(2Sm 14.20; Ef 3.10; 2Pe 2.11), extremamente numerosos (Dt 33.2; SI 68.17;
Mt 26.53, Ap 5.11). Eles são classificados em: querubins (Gn 3.24; 2Sm
22.11; SI 18.10; SI 80.1; Ez 1; Ap 4), serafins (Is 6.2, 6), principados, po­
testades, tronos e domínios (Ef 3.10; Cl 2.10; Cl 1.16; Ef 1.21; IPe 3.22),4
Apenas dois anjos recebem nomes na Bíblia: Gabriel e Miguel (Dn 8.16;
9.21; Lc 1.19, 26; Jd 9; Ap 12.7). Este último é chamado de o Arcanjo que,
0 enigma do m al 137

literalmente, significa o principal anjo (Jd 9), sendo o comandante dos exér­
citos celestiais (Ap 12.7). Esses dados bíblicos a respeito dos anjos nos
mostram que há uma grande diversidade em relação a eles, e que estamos
tratanto de um tema que pode gerar muitas especulações. No tocante a isso,
ficamos com as palavras de Calvino: “Ora, ainda que da diversidade de
nomes concluímos que há várias ordens, todavia, investigá-los mais minu­
ciosamente, fixar seu número e determinar suas hierarquias, não seria mera
curiosidade, e, sim, também temeridade ímpia e perigosa”.5
Os anjos têm muitas funções, entre elas a de louvar a Deus (Jó 38.7; Is
6.3; SI 103.20; 148.2; Ap 5.11), que talvez seja a principal. Eles também se
empenham para ajudar os crentes, e se alegram grandemente quando um
pecador se converte (Lc 15.10). Hebreus 1.14 diz que eles “são todos
espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de
herdar a salvação”. De acordo com essa passagem, de alguma maneira os
anjos ajudam aqueles que serão salvos. Sabemos que não é função dos
anjos pregar o evangelho e, ao contrário do que às vezes se pensa, a Bíblia
não diz que eles desejam pregar, diz apenas que eles desejam saber mais
sobre o assunto (IPe 1.12). De qualquer maneira, eles contribuem ao
obedecer às ordens de Deus. Também é função deles proteger os crentes
(SI 34.7, 35.4,5, 91.11-13, Mt 18.10, At 5.19). A Bíblia diz que Deus pro­
videnciou provisão física para Elias (lR s 19.5-7), encorajou Paulo duran­
te suas jornadas (At 27.23-25), libertou Pedro da prisão (At 5.19), direcio-
nou Pedro a se encontrar com Cornélio (At 8.26) por intermédio deles.
Uma tarefa peculiar que a Bíblia parece atribuir a eles é a função de enca­
minhar os crentes mortos para o céu (Lc 16.22), e no dia do Senhor, serão
eles que reunirão os escolhidos do Senhor (Mt 24.31; Mc 13.27). Eles
também se envolvem com as atividades julgadoras de Deus, como execu­
tores. Foram eles que anunciaram a destruição de Sodoma e Gomorra
(Gn 19,12,13). Um deles feriu o Rei Agripa por causa de sua blasfêmia
(At 12.23). Os anjos recolherão os ímpios para os levarem ao inferno (Mt
13.39-42). E função deles derramar os juízos de Deus sobre a terra (Ap
16.2-17), e a voz do Arcanjo anunciará o dia da vinda de Jesus (lTs 4.16).
Portanto, percebemos que os anjos possuem muitas funções e são extre­
mamente importantes para a consumação dos propósitos de Deus para
este mundo. Embora não possamos vê-los, e nem precisemos, podemos
ter a certeza de que eles estão sempre próximos, agindo em nosso favor
segundo as ordens de Deus.
138 Razão da esperança

Os an jos decaídos
Como diz Lloyd-Jones, “O diabo, ao cair, tornou-se a cabeça daquela
esfera que se acha fora da vida de Deus, e assim podemos descrevê-la como
o império da morte”.6 Não sabemos como aconteceu a queda dos anjos.
Hoekema está certo ao afirmar que “nada é dito na Escritura a respeito do
tempo ou da natureza da queda dos anjos”.7 Pelo menos não diretamente.
Algumas deduções são possíveis, no entanto, a partir de passagens indire­
tas. Sabemos apenas que, de alguma maneira, um grupo de anjos liderados
por Satanás se rebelou contra Deus. Satanás significa “adversário” e é o
grande líder dessa rebelião. Ele recebe muitos nomes na Bíblia, e o mais
conhecido, Lúcifer (portador da luz), não está na Bíblia. Esse nome vem do
latim e era aplicado ao planeta Vênus. O motivo de esse nome ser associado
a Satanás foi porque as versões latinas da Bíblia deram esse nome ao título
“estrela da manhã” que aparece em Isaías 14.12 (no hebraico, Hallel). A
passagem de Isaías diz; “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da
alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias
no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o
meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do
Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.
Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do
abismo” (Is 14.12-15). Em geral, essa passagem tem sido entendida como
uma referência à queda de Satanás. O que não pode ser ignorado, entretan­
to, é que, em princípio, ela é dirigida ao rei da Babilônia. Trata-se de uma
profecia a respeito do rei da Babilônia e não uma explicação direta sobre a
origem de Satanás. E certo, porém, que o rei da Babilônia tem semelhanças
com Satanás e, no mínimo, é um representante dele na terra. Por esse mo­
tivo, é possível que, por detrás do que está sendo dito ao rei da Babilônia,
haja alguma referência ao próprio Satanás. A passagem descreve a queda
desse rei que, em seu orgulho, queria ser semelhante a Deus, e realmente
esse parece ser o motivo principal da queda de Satanás. Outra passagem
que em geral se aplica a Satanás é Ezequiel 28.12-19, que é uma profecia
contra o rei de Tiro. O mesmo que foi dito sobre o rei da Babilônia pode
ser aplicado ao rei de Tiro. A profecia diz: “Assim diz o S e n h o r Deus: Tu és
o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden,
jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio,
o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de
ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado,
foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci;
0 enigma do m al 139

permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Per­


feito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se
achou iniqüidade em ti” (Ez 28,12-15). Algumas expressões dessa passa­
gem são interessantes, como, por exemplo: “estavas no Éden”, “eras que­
rubim da guarda ungido”, “permanecias no monte de Deus”, “perfeito eras
nos teus caminhos desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüi­
dade em ti”. De fato, essas expressões extrapolam em muito o que se pode­
ria dizer de um homem; elas parecem ter alguma aplicação ao próprio Sata­
nás, do qual o rei de Tiro era um representante. Porém, é impossível afir­
mar com certeza essas coisas. O pecado do diabo, provavelmente foi a
soberba. Paulo em uma passagem nas pastorais diz que o presbítero da
igreja não deveria ser neófito “para não suceder que se ensoberbeça e in­
corra na condenação do diabo (lTm 3.6). Isso sugere que o grande pecado
do diabo foi a soberba ou o orgulho.8 Se de fato a rebelião de Satanás
aconteceu após o sexto dia da criação, então, o próprio motivo dessa queda
pode ter sido o homem. Isso é só uma especulação, mas explicaria o ódio
dele ao ser humano. A inveja misturada ao orgulho por ver Deus colocar
sua imagem no homem, e ao mesmo tempo por não ter a adoração que
Deus tinha, pode ter sido o pivô da rebelião. O fato é que ele não está
sozinho em sua luta. Na sua rebelião, conseguiu arrastar um grande núme­
ro dos anjos de Deus. A Bíblia fala desses anjos como caídos. Pedro diz:
“Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no infer­
no, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pe 2.4).
Judas fala deles como anjos “que não guardaram o seu estado original, mas
abandonaram o seu próprio domicílio”. Estes também tem sido “guarda­
dos sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (}d 6). Essa
passagem, junto com a anterior (lTm 3.6), sugere que os espíritos malig­
nos, de algum modo, não estavam satisfeitos com o seu estado antes da
queda. Uma mistura de soberba, orgulho e descontentamento, portanto,
deve ter sido o que a ocasionou,
Há uma teoria segundo a qual a queda angélica aconteceu antes da cria­
ção do mundo. A argumentação é baseada em alguns detalhes de Gênesis
1.1,2. O primeiro versículo diz que Deus no princípio (também poderia ser
traduzido “num princípio”) criou os céus e a terra. O segundo versículo
parece trazer algo diferente: “A terra, porém, era sem forma e vazia, e o
espírito de Deus pairava sobre face do abismo”. Pergunta-se: Por que Deus
teria criado uma terra “sem forma e vazia”, um “abismo”, o que sugere um
estado de caos? Especula-se, então, que esse estado caótico teria sido o
resultado de uma queda pré-adâmica, causada por Satanás. Assim, os espí­
140 Razão da esperança

ritos malignos de hoje seriam na verdade as almas dessas criaturas criadas e


destruídas antes de Adão. A única coisa que essa teoria traz de interessante
seria alguma explicação para as descobertas geológicas modernas, as quais
poderiam se referir àquele mundo. O que se pode dizer dessa teoria é que é
uma especulação que nunca poderá ser provada.9
Uma outra teoria a respeito da queda dos anjos liga este evento com o
que está descrito em Gênesis 6.1-4, onde os “filhos de Deus” se enamora­
ram das “filhas dos homens”, e tendo se relacionado com elas, geraram
filhos. Segundo esta teoria, a queda dos anjos teria sido a concupiscência,
ou seja, um pecado sexual. Desde os tempos do judaísmo rabínico esta
teoria já era aceita. O problema com esta idéia é que o texto de Gênesis 6
não diz explicitamente que os “filhos de Deus” eram os anjos. Além disso,
anjos tendo relacionamento sexual não condizem com que Jesus falou de­
les: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são,
porém, como os anjos no céu” (Mt 22.30).
Satanás é o comandante dos demônios (Mt 9.34; 25.41; Ef 2.2). Ele tam­
bém é chamado de o príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30; 16.11), ou o deus
deste século (2Co 4.4). Apesar de esses títulos sugerirem uma posição exalta­
da, não se deve pensar que ele é o chefe de toda a criação divina. É Deus quem
tem o controle total deste mundo. Satanás controla este mundo mau, o mundo
naquilo em que está separado de Deus.10 De acordo com Efésios 6.12, aparen­
temente Satanás e seus anjos formam um exército com algum senso de orga­
nização. A passagem diz: “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne,
e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. Parece
haver uma espécie de hierarquia sugerida pelos termos “principados, potesta­
des, dominadores, forças espirituais”. O Antigo Testamento já sugeria alguma
hierarquia maligna. O livro de Daniel fala de alguns “príncipes” que provavel­
mente não sejam pessoas humanas, e que dominavam certas regiões do mun­
do antigo. Fala-se do “príncipe do reino da Pérsia” (Dn 10.13) e do “príncipe
da Grécia” (Dn 10.20). Esses príncipes resistiram ao mensageiro de Deus que
fora enviado a Daniel, mas o príncipe do povo de Israel, identificado como o
arcanjo Miguel, saiu em socorro do mensageiro (Dn 10.21).
De Satanás é dito que ele pode se transformar em anjo de luz (2Co
11.14), manipular acontecimentos físicos (Jó 1.12; 2Ts 2.9), sugerir pensa­
mentos errados (M t4.3,Jo 13.2), causar doenças (Mt 4.3), cegar os incrédu­
los (2Co 4.4), operar mediante desejos aparentemente inocentes e conse­
lhos bem-intencionados (Gn 3.6; Lc 4.2,3; Mt 16.22,23), causar sofrimento
(At 10.38), induzir à queda (lTs 3.5), iludir os homens (2Tm 2.26), roubar a
0 enigma do mal 141

palavra semeada (Mc 4.15), impedir os servos de Deus e resistir a eles (lTs
2.18, Zc 3.1) e até possuir um corpo humano (Jo 13.27). Uma das afirma­
ções mais espantosas sobre Satanás é que ele “detém o poder da morte”
(Hb 2.14). Isso não quer dizer que ele é quem decide quem morre ou deixa
de morrer. Essa é uma prerrogativa divina. O que a passagem está dizendo
é que, por causa do pecado, a morte entrou no mundo. Satanás foi o instru­
mento por meio do qual a morte entrou; então, nesse sentido, ele detinha o
poder da morte, porém, por causa do sacrifício de Jesus, Satanás perdeu
esse poder, pelo menos na vida dos salvos,

0 m a l necessário
Uma pergunta que normalmente surge é: Por que Deus permitiu e per­
mite a existência de um Satanás? Não há dúvidas de que Deus poderia ter
impedido a queda dos anjos ou mesmo exterminado todos eles a fim de
que não causassem todo o mal que eles vêm causando ao longo das eras.
Essas criaturas são absolutamente perversas, não há um pingo de bondade
ou justiça no caráter de Satanás e seus anjos; eles são absolutamente maus.
Por que Deus permitiria a existência de um ser tão mau no mundo? Essa
pergunta nos faz voltar à questão da própria origem do mal. De onde veio
o mal?

A origem do mal
O mundo antigo sempre acreditou que havia um deus bom e um deus
mau, Modernamente, essa crença denominada dualismo tem ressuscitado
em muitos lugares, especialmente nos movimentos ligados à Nova Era. O
dualismo identifica essas duas forças como iguais e dependentes uma da
outra, como se uma completasse a outra, que não poderia existir sozinha.
Esse conceito está muito longe de ser bíblico. De acordo com a Bíblia,
Satanás não é igual a Deus, Deus é o único soberano, Satanás é uma criatura
rebelde de Deus. Não existe comparação, Deus é o Rei por excelência,
Satanás não passa de um usurpador.
Quanto à origem do mal, talvez essa seja a mais difícil questão a ser
respondida, E um fato que nunca teremos uma resposta satisfatória, pelo
menos não nesta vida. Algumas perguntas que podem ser feitas nos ajudam
a pensar no assunto. De onde veio o mal, se Deus é o criador de todas as
coisas? E Satanás o criador do mal? Como ele teria criado o mal, se ele
142 Razão da esperança

próprio era bom antes de pecar? Para começar a responder, uma coisa pre­
cisa ficar absolutamente clara: Deus não é o autor do mal. Seja qual for a
resposta que dermos para a origem do mal, ela precisa necessariamente
excluir Deus, pois se Deus for o autor do mal, não poderia ser o Deus bom
e justo no qual cremos. Deus é o criador de todas as coisas, mas não é o
criador do mal. Então Satanás é o criador do mal? Se Satanás fosse o cria­
dor do mal, isso faria dele alguém que realmente está em competição direta
com Deus. A verdade é que o mal não foi necessariamente criado. O que
queremos dizer é que ninguém o criou do nada e de modo específico.
Bancroft diz que o mal é o que pode ser chamado de uma “originaçâo”.51
Ele é fruto do uso de coisas que já existiam, como por exemplo, o livre-
arbítrio, a personalidade e o poder de Satanás. Nesse sentido, Deus dotou
Satanás com essas qualidades e ele as usou para originar o mal. Isso é o
máximo que podemos dizer, é somente até onde podemos ir. Bavinck e
Berkouwer, por outro lado, dizem que o pecado não tem origem, mas só
um início.12 O que eles pretendem dizer com isso é que não podemos de­
terminar a origem do pecado e do mal, apenas constatar o seu início. Mui­
tos apelam para a expressão de Isaías, em que Deus diz: “Eu formo a luz e
crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o S e n h o r , faço todas estas coisas”
(Is 45.7), como uma prova de que Deus é o autor do mal. O contexto da
passagem em questão sugere que esse mal não se refere ao mal último,
metafísico, mas a uma situação específica, que, no caso dos judeus, seria a
vinda dos caldeus contra a nação. Nessa passagem, o mal se refere mais a
algo como a calamidade, e não ao pecado. O fato de a Escritura não dar
explicação direta sobre a origem do mal, mas por outro lado mostrar o
papel do mal, é uma indicação de que este último deve ser o foco da nossa
atenção. A origem do mal sempre será uma incógnita para nós.

0 pr op ós ito do m a l

Voltando à questão do motivo pelo qual Deus deu permissão para a


origem do mal, devemos pensar se, de algum modo, o mal não poderia ser
usado por Deus para os seus propósitos. Não adianta fecharmos os olhos
para o fato de que se Deus concedeu livre-arbítrio aos anjos, e depois a
Adão, ele assegurou a possibilidade da existência do mal. Porém, não pode­
mos imaginar que Deus permitiria algo que pudesse de fato arruinar os
seus propósitos. Deus sempre manteve tudo sob controle, inclusive a ori­
gem do mal. A origem do mal nem por um momento colocou em risco o
grande projeto de Deus. A Confissão de Fé de Westminster diz: “Desde
0 enigma do m al 143

toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho de sua própria
vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de
modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da
criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias,
antes estabelecidas” (III, 1). Essa talvez seja a afirmação mais precisa já
formulada sobre a origem de todas as coisas. Há uma tensão admitida na
frase, a de que, por um lado tudo acontece segundo a vontade de Deus, e
por outro, a de que isso não faz de Deus o autor do pecado, nem elimina a
liberdade do homem. A única responsabilidade pelo mal que pode ser atri­
buída a Deus é que ele criou um mundo no qual o mal era possível, e isso
para demonstrar a sua glória pelo fato de ele saber lidar com isso, e ao final
conduzir tudo para um fim bom.
A verdade é que a existência do mal segue os propósitos de Deus para
este mundo. Uma coisa precisa ficar clara: Deus não tem nenhum prazer
em Satanás e não compartilha de nenhuma de suas maldades, porém, Deus
pode usar Satanás para cumprir os seus propósitos. Não é que Satanás queira
gentilmente servir a Deus, na verdade, ele luta desesperadamente contra
Deus, mas tal é a soberania do criador, que Satanás, mesmo em sua luta
desesperada, acaba contribuindo para que o supremo propósito de Deus se
realize. Uma das maneiras em que Deus usa o mal é para testar o seu povo.
O teste é uma prova de qualidade. Qualquer produto, para que seja confiável,
precisa ser colocado sob alguma pressão a fim de que a sua resistência seja
confirmada. Os crentes recebem a pressão de Satanás e essa é uma boa
maneira de testá-los. Deus pode também usar Satanás como instrumento
de punição. Satanás é um instrumento de punição divina por causa da mal­
dade do mundo, e até dos crentes. Há pelo menos dois casos na Bíblia em
que pessoas foram “entregues a Satanás” como um castigo por seus peca­
dos, um crente e um incrédulo (ICo 5.5; lTm 1.20). Como diz Lorraine
Boettner,

As obras de Satanás são tão controladas e limitadas que elas servem aos
propósitos de Deus. Quando Satanás vorazmente deseja a destruição do
ímpio, e diligentemente trabalha para isso, ainda assim a destruição procede
de Deus. Em primeiro lugar é Deus quem decretou que o ímpio sofra, e
Satanás meramente recebe a permissão de trazer essa punição sobre ele. Os
motivos que estão por trás dos propósitos de Deus e aqueles que estão por
trás dos propósitos de Satanás são, é claro, infinitamente diferentes,13

Isso demonstra o quanto Deus é incomparável; ele usa a maldade de Sata­


nás para o bem do seu povo, e para o cumprimento do seu supremo propó­
144 Razão da esperança

sito. Deus permite a contínua existência de Satanás porque ele é de fato o seu
“chicote” para este mundo, porém, acima de tudo Deus o usará pessoalmen­
te para demonstrar o seu poder. Deus fará uma grande demonstração do seu
poder sobre o maior inimigo quando o aprisionar definitivamente no lago de
fogo. Entretanto, Deus já está demonstrando o seu poder sobre Satanás hoje,
ao resgatar as vítimas do império das trevas e levá-las a salvo para o reino
celestial. Ainda podemos dizer que pelo fato de ter deixado que o mal se
originasse, Deus criou a oportunidade de expressar ainda mais plenamente a
sua graça e a sua misericórdia. Esse caráter gracioso e misericordioso de Deus
jamais teria sido demonstrado se o mal não tivesse se originado.

A d u ra çã o do m a l
O mal não é eterno, pois não faz parte da essência das coisas que exis­
tem. O mal é um parasita, um impostor, e a certeza de sua existência é a
garantia da sua destruição. O fato de que Deus vencerá o mal torna a exis­
tência dele razoável. Deus permitiu o mal para que o seu poder fosse testa­
do, mas o mal não terá continuidade na criação de Deus. O mal cumpre um
papel estabelecido por Deus, e quando esse papel se acabar, Deus o elimi­
nará e nunca mais permitirá que ele reapareça.
No mundo vindouro, o mal nunca mais será uma possibilidade. Os que
tentam explicar a existência do mal com base no livre-arbítrio não têm
resposta para a seguinte pergunta: O homem poderá novamente pecar? Se
o livre-arbítrio de fato faz parte da constituição humana, sendo essencial
para que o ser humano seja ser humano, não há garantias de nossa salvação
nesta vida e nem na vindoura. Nesta vida, a qualquer momento, podemos
perder a salvação por um ato deliberado da nossa vontade, e mesmo no
futuro, embora não tenhamos mais motivos para pecar, sempre teremos a
possibilidade de pecar, se o livre-arbítrio continuar existindo. Se alguém
quiser afirmar que no futuro o ser humano não terá mais livre-arbítrio,
poderia se perguntar então, por que ele deveria ter hoje? Se no mundo
vindouro não houver livre-arbítrio é porque ele não é tão essencial assim ao
ser humano. De fato não haverá livre-arbítrio no futuro, como não existe
hoje. Deus não permitiria que o mal pudesse de novo entrar na sua criação
e corrompê-la outra vez, pois, no mundo porvir, seus planos para o mundo
já se consumaram. Essa é uma certeza que podemos ter: “A morte já não
existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coi­
sas passaram” (Ap 21.4).
0 enigma do mal 145

A atitude correta frente ao m a l


Em tudo na vida devemos ser equilibrados, e, portanto, a respeito desta
questão também devemos demonstrar moderação. Dois erros devem ser evi­
tados: o primeiro, o de não dar qualquer importância ao mal, e o segundo o
de exagerar a sua importância. Nos dias de hoje, muitas pessoas praticamente
negam a existência do mal. Os teólogos liberais têm negado a existência do
diabo, possibilitando desse modo uma capa para que ele possa atuar de modo
ainda mais sorrateiro. O resultado da teologia liberal, que fez com que grande
parte das igrejas evangélicas da Europa e dos Estados Unidos perdesse a
relevância bíblica, é uma das maiores vitórias que Satanás já alcançou. O
esvaziamento dessas igrejas é uma prova incontestável disso.14 O apóstolo
Paulo dizia que devemos sempre ter uma postura íntegra “para que Satanás
não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios” (2Co
2.11). Ignorar os desígnios dele é praticamente decretar a vitória dele. Numa
guerra, a pior coisa que pode acontecer é alguém ser pego de surpresa. Co­
nhecer o inimigo e suas táticas é uma garantia de enfrentá-lo mais eficazmen­
te. Paulo fala dos “desígnios” de Satanás, desse modo indicando a idéia de
que ele tem metas definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação
com variedades de técnicas e opções a serem aplicadas de acordo com as
circunstâncias. Satanás “fará qualquer coisa para conseguir vantagem sobre
nós”, diz o apóstolo, “fará qualquer coisa para derrubar-nos, para fazer-nos
parecer ridículos e para pôr em desgraça o nome de Deus”.15 Não devemos
ignorar que, “... quando o inimigo é invisível, maior é o perigo”.16
Por outro lado, há também aqueles que exageram a importância de Sata­
nás. Os monges da Idade Média se recolhiam em mosteiros para não serem
fascinados pelo diabo. Nos dias de hoje, ao contrário disso, muitos estão
desafiando o diabo abertamente, e até supostamente, entrevistando-o na
televisão. O diabo tem sido o alvo principal de muitos movimentos evangé­
licos, que o vêem praticamente em tudo. Em muitos casos, a responsabili­
dade pessoal de cada um é minimizada, pois tudo o que acontece de ruim é
atribuído ao diabo. Eles dizem: Para ter prosperidade, repreenda o diabo;
para ter saúde, repreenda o diabo; para ter o casamento feliz, repreenda o
diabo. Há uma verdadeira obsessão pelo diabo, o que por certo somente o
agrada ainda mais. E errado sacrificar o tempo do culto que deveria ser
dedicado à adoração a Deus para promover uma luta contra o diabo. Equi­
líbrio, portanto, é necessário. Não devemos nem exagerar nem minimizar a
importância do maligno.
146 Razão da esperança

Na nossa luta contra o mal, seguir a Bíblia sempre será a melhor opção
para não termos surpresas desagradáveis. A atitude do cristão é descrita na
Bíblia como de resistência. Pedro diz: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo,
vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando al­
guém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais
aos vossos estão se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mun­
do” (IPe 5.8.9). Tiago compartilha dessa opinião: “Sujeitai-vos, portanto, a
Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7). Também essa é a
grande explicação de Paulo: “Portanto, tomai toda a armadura de Deus,
para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, per­
manecer inabaláveis” (Ef 6.13). Não precisamos ir atrás dele, precisamos
resistir aos ataques dele. Resistência é a palavra de ordem.
11

Criação ou evolução?

"Quero s a b er c o m o Deus criou o m u n d o . . . ” Dr. Albert Einstein

O antigo Credo Apostólico começa com a seguinte declaração: “Creio


em Deus Pai Todo-poderoso, criador dos céus e da terra”. A igreja sempre
acreditou que Deus é o criador de tudo o que existe. A idéia de que a terra
surgiu como resultado de um processo evolutivo é relativamente recente.
Somente a partir do século 18 começou-se a questionar abertamente a va­
lidade do Gênesis como a exata expressão da verdade histórica. Desde a
fundação do Cristianismo, a crença em Deus como o criador do mundo foi
dominante, mas, a partir do iluminismo, as pessoas decidiram se livrar des­
se paradigma. O ser humano da idade moderna resolveu complementar o
grito de independência de Adão. Adão bradou: “Eu não preciso de um
mantenedor”. E o ser humano moderno foi mais longe ao bradar: “Eu não
preciso de um criador”. Agora, o ser humano moderno quer explicar a sua
existência sem precisar admitir que há um Deus por trás dela. Desde que
Darwin fundamentou a mirabolante teoria da “evolução das espécies” (1859),
as pessoas pensam que conseguiram dar o seu grito de independência defi­
nitivo. Infelizmente, as idéias modernas da ciência têm convencido muitas
pessoas crentes, algumas até sinceras, as quais, na tentativa de tornar a Bí­
blia supostamente mais acessível para o mundo moderno, têm negociado
princípios inegociáveis. A história da teologia mostra claramente quão trá­
gica é a tentativa de condicionar a teologia e a revelação aos paradigmas da
ciência moderna. No final, sacrifica-se a teologia, a revelação e a própria
mensagem da igreja.
A história da modernidade tem demonstrado a existência de ideologias
que sustentam praticamente todos os movimentos influentes no nosso
mundo. Hoje, quando se pensa em ciência, muitos imaginam uma
metodologia imparcial e livre de ideologias, mas isso é um grande mito. A
ciência moderna é essencialmente ideológica. Se não fosse assim, cientistas
famosos não estariam dispostos a forjar provas para as suas teorias, como a
148 Razão da esperança

vergonhosa “prova” da existência do homem de Neanderthal, cujo crânio


mais famoso foi uma prova forjada de um crânio de um homem do século
18. A ciência moderna está intimamente ligada às ideologias do mundo
moderno. Por trás da maioria das teorias científicas modernas, está o
relativismo dos costumes, da ética e da própria existência. Para a maioria
das pessoas, negar os absolutos significa se ver livre de condenações. Po­
rém, esse é mais um mito da modernidade.
Gênesis é o livro da Bíblia que afirma expressamente que Deus criou o
mundo e o ser humano. Esse livro tem dado origem a muita discussão, espe­
cialmente a respeito do seu caráter histórico e literário. O Cristianismo con­
servador tem se posicionado a favor do caráter histórico da obra. Porém,
muitos eruditos modernos têm relegado o livro à categoria de poético, algo
como fruto da experiência religiosa de um povo, com verdades submersas
ou escondidas atrás de mitos. Essa visão do Gênesis é extremamente preju­
dicial ao entendimento da Bíblia como livro inspirado e inerrante, e não
deveria ser aceita pelos crentes sinceros que honram a Palavra de Deus. Po­
rém, infelizmente, professores de teologia de diversos seminários e institui­
ções teológicas ensinam isso para alunos inexperientes e despreparados, que
ficam fascinados pela suposta erudição, e se esquecem da inspiração. Quan­
do muitos desses alunos voltam como pastores para as suas igrejas, já não
acreditam na infalibilidade da Escritura e, conseqüentemente, não têm men­
sagem para proclamar. Basta olhar para o que aconteceu em tantas igrejas da
Europa, dos Estados Unidos e até mesmo do Brasil, que desacreditaram da
Escritura, e se tornaram secularizadas, para perceber que essa é uma péssima
opção. Se a Bíblia for rejeitada, o Cristianismo não sobrevive.
O livro de Gênesis foi escrito por Moisés1 com a intenção de contar, ao
povo saído do Egito, quais eram as suas origens. A criação não é descrita
em termos científicos, até porque termos científicos são coisas bem recen­
tes. A tentativa é de dar ao povo daquela época uma compreensão da terra
prometida onde eles iriam habitar, sobre a origem dela, bem como da ori­
gem e do direito do próprio povo à terra. Ele relata em linguagem simples,
e de modo cronológico, fatos históricos. O gênero literário não é poético,
mas narrativo. Trata-se de uma narrativa histórica.

Antes de tudo, Deus...


E interessante o modo como a Bíblia apresenta Deus. Ela não se preo­
cupa em começar provando a existência dele. Ela diz: “no princípio Deus...”,
Criação ou evolução? 149

pressupondo, sem possibilidade de dúvidas, a existência de Deus, Para a


Bíblia, crer no Deus criador é uma questão de fé, conforme o escritor aos
Hebreus declara: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela
palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não
aparecem” (Hb 11.3). Como já dissemos, para alguém aceitar que Deus é a
origem de todas as coisas, a fé é necessária. Não porque não haja evidências
de que Deus é o criador, mas porque, para aquele que não crê, nenhuma
evidência é suficiente. Embora acreditemos que há boas evidências racio­
nais para se aceitar a idéia de Deus como criador, entendemos que, para
que as pessoas aceitem essa idéia, elas precisam receber o dom da fé.
Todas as coisas têm uma origem. Você sabe a data do seu nascimento,
sabe quando os seus pais nasceram, talvez até mesmo quando os seus avós
nasceram. Você tem conhecimento da época em que as suas roupas foram
confeccionadas, o ano em que o seu carro foi fabricado, quando a sua casa
foi construída, etc. Todas essas coisas tiveram um início. Porém, será que é
possível afirmar que todas as coisas que existem no universo tiveram um
início? Pense bem antes de responder, pois se você disser que sim, então,
poderá entrar num caminho de contradições. Se sua resposta é sim, então, o
que havia antes de a primeira coisa surgir? A resposta só poderá ser uma: o
nada. Porém, o nada pode existir? Você consegue imaginar o nada? E, para
piorar, como é que o nada poderia dar origem ao tudo?2 Se, em algum tem­
po houve o “nada”, então, logicamente o nada precisaria ser eterno, mas
observe que mesmo o conceito do tempo não poderia existir. O nada não
produz algo. Para dar origem a alguma coisa, o nada não poderia ser real­
mente nada, ele precisaria ser, no mínimo, algo. E esse algo precisaria neces­
sariamente ser incriado. Mas o incrível é que, para ser incriado, esse algo
precisaria ser absoluto ou supremo. A diferença entre o absoluto e o relativo
é exatamente essa questão da eternidade. Na verdade, por mais que as pes­
soas neguem, elas precisam acreditar que algo exisda antes que as outras
coisas aparecessem. Esse “algo”, a Bíblia apresenta como Deus, e o Credo
Apostólico afirma que é o Todo-poderoso. Ou, então, nós precisaríamos
sustentar a existência de um milagre estupendo: o nada deu origem a algo.
Para a Escritura, o mundo não foi criado pelo nada, mas do nada. Quem
criou o mundo foi Deus, porém Deus não tinha algo material usar a fim
de criar o mundo, então ele precisou formar a matéria. Isso não significa
que a matéria seja, portanto, uma extensão de Deus, como crê o panteísmo,
pois Deus transcende a matéria. Deus, no seu poder absoluto, criou a maté­
ria do nada, como Hebreus diz que “o visível veio a existir das coisas que
não aparecem” (Hb 11.3). Os teólogos têm chamado esse ato criador de
150 Razão da esperança

Deus de Fiat, o momento criador, que representa o poder de Deus de criar


as coisas a partir do nada.
Quando o Gênesis diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra”, ele
não está lançando um conceito meramente religioso. Esse é um conceito
necessário. E a explicação que esclarece o que, até então, era inexplicável.
Todos os seres humanos, cristãos ou não, deveriam acatar esse conceito a
fim de que tudo faça sentido. Se Deus não é o criador, não existe mais ra^ão.
Como Sproul afirma, esse “é um conceito racionalmente necessário”,3 pois
se algo existe hoje, então um Ser supremo precisa existir, do qual todas as
coisas procedem. Se esse ser supremo não existe, a vida é irrelevante.

0 ataque do evolu cion ism o


A partir do século 18 o mundo mudou. O humanismo do iluminismo
começou a desbancar Deus do seu trono tanto da filosofia como da teologia.
A ciência, influenciada pelo panteísmo e pelo materialismo, e alimentada
pelas ideologias modernistas, investiu com força total contra a doutrina da
criação sustentada pela igreja e pela Bíblia. A idéia da origem de todas as
coisas pelo Fiat do criador foi ridicularizada e, em seu lugar, a idéia da evolu­
ção ganhou notoriedade. Da noite para o dia, uma teoria que tem mais furos
do que um queijo suíço tornou-se a expressão máxima da verdade, um dogma
inquestionável. Foi assim que o ser humano moderno rejeitou os dogmas
medievais, mas colocou os seus próprios dogmas no lugar deles.
Precisamos entender que há muitas teorias evolucionistas. O conceito
popular associado à evolução é o de que o ser humano veio do macaco,
porém isso é uma redução demasiadamente simplista da teoria. O conceito
evolucionista foi popularizado por Charles Darwin, na sua obra A Origem
das Espécies, publicada em 1859.4 Porém, houve muitos desenvolvimentos
dessa teoria. A teoria da evolução entende o mundo como estando em
constante transformação, melhoramento e adaptação. Assim, os seres hu­
manos são um produto de milhões de anos de evolução, cuja origem deve
rem ontar à m atéria inanim ada. Toda a vida, segundo a teoria da
macroevolução, deve ter surgido de uma única célula, que, por sua vez, se
originou de alguma possível transformação química.5 A vida seria, portan­
to, um acidente cósmico, e nós, seres humanos, poderíamos dizer de modo
pejorativo, não passaríamos de “amebas” superdesenvolvidas. Se a evolu­
ção é verdade, não seríamos criaturas criadas com um propósito, mas cria­
turas (esse termo nem poderia ser usado) existentes a partir do acaso, vin-
Criação ou evolução? 151

dos do nada e voltando para o nada, e, portanto, nada sendo. Como já


postulamos no segundo capítulo deste livro, não há como negar os fatos: se
a teoria da evolução é verdadeira, então a vida não tem sentido.
De modo geral, as pessoas pensam que os teístas rejeitam a teoria da
evolução por causa de sua fé, mas o motivo principal nem é esse. Precisamos
rejeitar a teoria da evolução por causa da ra^ão. Essa teoria não é racional.
Infelizmente, ela é ensinada nas escolas como verdade, porém não passa de
um grande mito que, para se acreditar nele, é necessária uma imensa dose de
fé. De fato, é preciso ter muito mais fé para crer na teoria da evolução do que
para crer no que a Bíblia diz. Não é de admirar que, para muitos, a ciência
tenha se transformado numa espécie de religião. E um fato indiscutível que a
ciência moderna está muito ligada ao ateísmo, e o ateísmo, por mais incrível
que possa parecer, é uma religião, pois é um sistema de fé. O ateu crê que
Deus não existe. Podemos dizer que ele crê, pois as suas idéias não podem ser
provadas, ou seja, ele não consegue ir até um laboratório e provar que Deus
não existe, Portanto, o ateísmo também é uma questão de fé. Como diz
MacGrath “O ateísmo é uma questão de fé tanto quanto o Cristianismo”.6
Engana-se quem pensa que a teoria da evolução substitui o criacionismo,
que é a teoria dos que defendem ter sido Deus o criador do cosmos. A
teoria da evolução tem uma grande lacuna na sua exposição, pois se as
coisas evoluíram, necessariamente precisam ter evoluído de algum ponto.
Não é possível evoluir do nada; então, algo deve ter existido antes para que
pudesse evoluir. A teoria da evolução não consegue responder a questão da
origem de todas as coisas, e, a menos que defenda a eternidade da matéria,
o que é um absurdo, terá que acreditar, em última instância, num “criador”.
O máximo que a teoria da evolução conseguiria explicar, e isso com muitas
lacunas, seria o desenvolvimento das coisas criadas, mas, quanto ao surgi­
mento delas, fracassa completamente. Como diz Hodge, isso não é solução,
“é mera negação de que alguma solução é possível”,7 ou como diz Machen
“é preciso dar um salto no vazio para aceitar a hipótese evolucionista”.8
Porém, mesmo a questão do desenvolvimento das coisas fica com muitas
lacunas na teoria do evolucionismo. Há muito tempo, os cientistas têm
observado que existe uma espécie de “projeto inteligente” no mundo. E
impossível imaginar que um acaso impessoal estivesse por trás desse design
do universo. Quando se contempla uma molécula de DNA, por exemplo,
que apesar de toda a tecnologia moderna e das mentes mais brilhantes do
mundo que estão a serviço de desvendar seus mistérios, ainda é algo bas­
tante incompreensível para o ser humano, temos um exemplo claro de um
design inteligente. A confirmação desse design inteligente tem sido a principal
152 Razão da esperança

tese dos defensores do chamado “criacionismo científico”, que é uma ten­


tativa de demonstrar cientificamente que a proposta da existência de um
criador tem muito mais sentido do que a idéia da evolução. Como citamos
no início deste trabalho, Einstein entendia que somente Deus poderia ser o
criador de tudo o que existe, e isso porque ele pôde ver a complexidade da
criação. Isso não significa que Einstein fosse um cristão, mas ele se viu
obrigado a admitir que as evidências da complexidade e da inteligência na
natureza apontavam para a existência de Deus.9
Algumas particularidades tornam a teoria da evolução ainda mais inaceitá­
vel. Como algo morto pode dar origem à vida? Como algo simples pode
originar o complexo? Uma brincadeira é feita com relação à teoria da evolu­
ção: uma vez que é dito que o big-bang, uma grande explosão, deu origem a
todas as coisas, pede-se que se jogue uma bomba numa relojoaria e, depois
que a poeira baixar, se verifique se todos os relógios estão sincronizados.
Como pode uma explosão dar origem a um universo sincronizado? Na verda­
de, a teoria da evolução contraria leis científicas como, por exemplo, a da
termodinâmica, que diz que as coisas tendem a se extinguir e não a evoluir.
Uma chama acesa não aumenta mais e mais, mas queima até se apagar. Uma
chaleira de água quente não se aquece mais e mais, ao contrário, ela esfria. A
partir dessa concepção, uma teoria da involução seria muito mais provável. As
coisas somente evoluem enquanto são alimentadas. A água aquece enquanto
há fogo embaixo, e o fogo queima enquanto há lenha ou algum combustível
que o alimente. Até mesmo para sustentar a teoria da evolução seria necessá­
rio supor que há um mantenedor por trás de cada ato evolutivo, e novamente
Deus seria necessário. Os seres humanos não podem deixar Deus de lado;
eles precisam dele para que algo faça sentido. Se o deixarmos de lado, estare­
mos abrindo mão da razão e mergulhando no caos da irracionalidade. Só
uma época de relativismo como a atual poderia aceitar uma teoria como essa.10

Dias ou eras?
Dado o progresso da ciência atualmente, algumas questões importantes
que têm surgido são: Qual é a idade da terra? Quanto tempo Deus levou
para criar o universo?
A primeira consideração que precisa ser feita é que calcular a idade da
terra, a partir de elementos bíblicos, é impossível. Embora um Arcebispo
chamado James Ussher (1581-1656), há cerca de quatro séculos, tenha ten­
tado provar que a criação aconteceu no ano 4004 a.G, tendo chegado a esse
Criação ou evolução? 153

número mediante a soma das genealogias relatadas na Bíblia, deve ser dito
que esse número é tão imaginário quanto qualquer outro. E um fato que a
Bíblia não se preocupa em dizer quantos anos a terra tem. Somar gerações
é algo inapropriado, pois não sabemos se a Bíblia cita todas as gerações.
Parece-nos que a Bíblia se preocupa apenas com as principais, como se
percebe da genealogia de Jesus em Mateus. Portanto, não há como dizer, à
luz da Bíblia, qual é a idade da terra,
Diante disso, será que as afirmações dos cientistas de que a terra tem
bilhões de anos é conclusiva? Novamente precisamos nos lembrar que a
ciência é muito limitada para definir coisas tão grandiosas, Nossa tecnolo­
gia ainda é muito incipiente, e freqüentemente vemos novas “descobertas”
de cientistas contrariando antigas “descobertas” que, até então, eram tidas
como verdades absolutas. Aliás, algo axiomático na ciência é a sua condição
provisória (Popper). Um dos métodos mais conhecidos usados nos últimos
anos para se saber a idade de algum objeto é do Carbono 14, mas hoje esse
método é bastante questionado, inclusive por muitos cientistas evolucionistas.
Certamente, as gerações vindouras vão rejeitar a teoria da evolução e mui­
tas das descobertas “científicas” da atualidade. Um pouco de ceticismo com
relação à ciência não faz mal a ninguém. Além disso, há muitos cientistas
que defendem que a terra tem milhares e não milhões de anos.
O livro do Gênesis diz que o cosmos foi criado em seis dias. Depois do
aparecimento da teoria da evolução, muitos teólogos readaptaram essa crença
a fim de harmonizá-la com a ciência. Uma das primeiras tentativas nesse
sentido foi apelar para o caráter poético do Gênesis. O primeiro capítulo
deixou de ser histórico para ser poético. Como um livro poético, então, os
detalhes não importam, mas sim a sua mensagem. Assim, dizem eles, não
devemos considerar os seis dias como literais, mas a mensagem subjacente,
que afirma ser Deus o criador, não importa em que época nem em quanto
tempo. Porém, considerar o livro do Gênesis como poético é fazer um
ataque muito sério à integridade da Escritura. Muitos conceitos bíblicos
comprovados pelo Novo Testamento se demonstrariam inexistentes. É
importante que se entenda que o Novo Testamento não vê o Gênesis como
um livro poético e sim histórico. Jesus fala de Adão e Eva como persona­
gens históricos (Mt 19.3-5), bem como de Abraão, Isaque, Jacó, etc (Lc
13.28). Teria ele se enganado?
Um ataque ainda mais sério à integridade do relato bíblico da criação
veio com a descoberta de um hino babilónico. Nesse hino é destacada a
figura do deus Marduque, que vence o deus Tiamat (que é o oceano), divi­
dindo o seu corpo e fazendo dele a terra e o céu.11 Por haver algumas
154 Razão da esperança

semelhanças entre essa história e o relato bíblico, o relato bíblico foi decla­
rado como uma cópia daquele. Porém, as diferenças entre os relatos são
muito grandes.12 No relato bíblico não há uma luta de deuses, somente a
figura soberana de Deus aparece. Além disso, por que o hino babilónico
não pode ser uma cópia distorcida do relato bíblico? Ou mesmo ambos
resultados de tradições orais ou escritas que divergiram ao longo do curso
da História?13 Não há problemas em admitirmos que existem relatos ante­
riores ao do Gênesis sobre a criação, porém, a inspiração do Espírito Santo
deu ao relato bíblico a certeza da verdade.
Há três teorias mais ou menos aceitas no meio cristão sobre a criação
que fazem com que os seis dias de Gênesis 1 se multipliquem bastante, ou
pelo menos que a semana da criação seja mais extensa. A primeira afirma
que cada dia da criação representa uma era. Baseados na passagem de 2
Pedro 3.8, que afirma que, para o Senhor, um dia é como mil anos, muitos
crentes entendem que cada dia da criação pode representar um longo pe­
ríodo de tempo, algo como um “dia geológico”. Outra tese bem aceita por
muitos eruditos considera os dias como sendo de 24 horas, mas admitindo
espaços de tempo entre esses dias.14 Assim, Deus teria agido de maneira
criadora no primeiro dia, em seguida teria se passado um período de tem­
po, e novamente Deus teria atuado de maneira criadora no segundo dia.
Entre um dia e outro poderiam ter se passado milhões de anos. Por fim,
podemos citar uma terceira tese, bem menos provável, que vê um longo
espaço de tempo entre os dois primeiros versículos do Gênesis. O primeiro
versículo diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. O segundo ver­
sículo diz: “A terra era sem forma e vazia”, Da primeira declaração para a
segunda haveria um lapso de tempo, talvez de milhões, ou até mesmo bi­
lhões, de anos. Alguns inclusive defendem que houve uma pré-criação e
que na terra viviam os anjos (e talvez os dinossauros) e que, depois da
queda dos anjos, a terra tornou-se sem forma e vazia. A partir daí, Deus
teria começado a recriar a terra.15
Há dificuldades com todas essas posições, e, num certo sentido, todas
são especulações, porém não podemos afirmar categoricamente que elas
sejam improváveis. Mas deve ser dito que, para se fazer mais justiça ao ensi­
no da Bíblia, precisamos dizer que a interpretação mais plausível é a de que o
mundo foi criado em seis dias literais, num espaço literal de seis dias. O fato
de o sétimo dia ser o de descanso corrobora essa tese, pois certamente esse
dia precisa set um dia literal. Além disso, a palavra “dia” que aparece na
passagem, geralmente tem, na Bíblia, a idéia de um dia de 24 horas, e não é
boa exegese interpretar de outro modo, a menos que o contexto o exija.
Criação ou evolução? 155

Além disso, cada um dos dias citados na criação tem uma tarde e uma
manhã. Fica difícil imaginar uma manhã que dura milhões de anos.
Uma outra explicação que poderia ser dada para a idade da terra é a que
leva em conta a aparência das coisas quando Deus as criou. Deus criou
Adão já um homem adulto. Deus não fez um bebê que cresceu até chegar à
maturidade. Se Adão, no momento em que foi criado, passasse por uma
análise biológica, quantos anos lhe seriam dados? Biologicamente talvez ele
tivesse 20, 30 ou 40. Cronologicamente, porém, tinha alguns segundos.
Quando os cientistas analisam uma pedra ou um fóssil, eles calculam a sua
idade em milhões de anos, mas essa poderia ser sua idade biológica; qual
seria a sua idade cronológica? Deus poderia ter feito a terra nova com idade
de velha. De qualquer modo, não precisamos de todas essas explicações. É
suficiente o fato de que o evolucionismo suscita mais problemas do que
oferece soluções.

Conclusão
Do mesmo modo que a declaração de independência de Adão não o
tornou independente de Deus, assim também a negação do ser humano
moderno não muda o fato de que Deus é o criador do ser humano e de
tudo o que existe. A igreja fará muito bem em continuar crendo em Deus
como o criador de todas as coisas. Não temos resposta para tudo, porém,
não há argumentos suficientes para que essa crença seja modificada. Pensar
que o mundo se originou de um processo evolutivo levanta mais questões
sem solução do que afirmar que Deus foi o seu criador. No final das contas,
mesmo os evolucionistas necessitam de um criador. Portanto, a mensagem
bíblica da criação continua atual e altamente satisfatória para o mundo
moderno, pois não há explicação melhor. O criacionismo é mais racional
do que as teorias científicas. Ser criacionista é a melhor opção.
12

Voltando ao início:
A criação do homem

A evolução faz do homem um ser auto-existente, sem propósito. E na


criação que encontramos o verdadeiro sentido e o valor do ser humano. A
criação é a chave para entendermos o homem, mais do que a própria reden­
ção. Quando as pessoas começam a apresentação do evangelho a partir da
queda, quase que podem dizer: “Errar é humano”, como dizia Shakespeare.1
Mas errar não é humano, ou seja, não é algo próprio da humanidade pela
criação, é algo que sobreveio com a entrada do pecado no mundo. Por isso,
o problema não está no criador da humanidade, nem na criação em si, mas
no que a criatura decidiu fazer com a liberdade que o criador soberanamen­
te lhe concedeu. E muito importante estudar a criação, pois somente assim
poderemos entender o ser humano, bem como a própria redenção.
No século 5o a.C., um filósofo chamado Protágoras disse que o “homem
é a medida de todas as coisas”. De lá para cá, o humanismo, uma corrente
filosófica, que como o próprio nome sugere, coloca o homem no centro das
atenções, tem fomentado o pensamento da humanidade com a noção de que
tudo existe por causa do homem. No humanismo, o homem aparece como
a base de todos os valores e de toda excelência. Uma palavra que pode ser
sinônima de “humanismo” é “egocentrismo”. Ou seja, tudo deve ser centra­
lizado no homem e nos seus desejos. E nossa opinião que o humanismo tem
causado mais problemas para o homem do que qualquer outro sistema filo­
sófico. O humanismo tenta fazer do ser humano o que ele não é.
Para entendermos o ser humano, precisamos voltar às primeiras páginas
da Bíblia.

M a rca registrada
Gênesis 1.26-31 é uma das passagens mais conhecidas da Escritura. E a
narrativa histórica do sexto dia da criação, quando Deus criou o ser huma-
158 Razão da esperança

no. Até então, Deus já havia criado todas as outras coisas, mas somente a
respeito do homem ele disse, “façamos o homem à nossa imagem e seme­
lhança”. Hoekema expõe essa questão da seguinte maneira: “Deve-se notar
também que a criação do homem foi precedida por uma deliberação ou
conselho divino: ‘Façamos o homem...’ Isso demonstra novamente a idéia
da singularidade da criação do homem. Esse conselho divino não é men­
cionado com relação a nenhuma outra criatura”.2 Como diz Bavinck:

A o chamar à existência as outras criaturas, nós lemos simplesmente que


Deus falou e essa fala de Deus trouxe-as à existência. Porém, quando Deus
está prestes a criar o homem, ele primeiro conferencia consigo mesmo e
decide fazer o homem à sua imagem e semelhança. Isso indica que, especi­
almente a criação do homem, repousa sobre a deliberação, a sabedoria, a
bondade e a onipotência de Deus. (...) O conselho e a decisão de Deus são
mais claramente manifestos na criação do homem do que na criação de
todas as outras criaturas.3

A imagem divina, portanto, é uma característica exclusiva da humanida­


de. O que torna o homem tão especial? Num certo sentido, nós somos
iguais a tantas espécies de seres vivos. Os pássaros voam em bandos, as
bestas viajam em manadas e nós vivemos em tribos. Porém, há algo que
nos torna diferentes de todas as demais criaturas de Deus. Nós sabemos e
sentimos isso. A Bíblia explica o que é: Deus nos criou à sua imagem e
semelhança.

Im ita dor de Deus

Quando Deus terminou a obra da criação, que incluía o homem, viu que
tudo “era muito bom” (Gn 1.31). Ou seja, Deus não viu qualquer defeito
moral no homem, porque de fato não havia. Havia justiça, santidade e pie­
dade em todas as atitudes. Tudo o que o homem fizesse, seria parte da
adoração a Deus. Planejar o futuro, nomear os animais, dar à luz filhos,
construir cidades, escrever músicas, praticar esportes, refletir sobre o signi­
ficado de cada coisa, etc., tudo deveria estar centrado em Deus. Além de
perfeição moral, Adão e Eva foram dotados da mesma criatividade do seu
criador. Deus imaginou um mundo perfeito e o trouxe a existência. Ele
criou o mundo do nada (ex nihilo), com tantas variedades de tons, cores e
formatos quantas se poderiam imaginar. Ele criou tanto o mundo macro
como o micro em todos os seus detalhes de forma, tamanho, cor e função.
O plano de Deus era que a humanidade se tornasse imitadora dele nesse
Voltando ao início: A criação do homem 159

sentido. É claro que o homem não poderia criar coisa alguma “do nada”,
mas como foi feito à imagem de Deus, poderia refletir a criativa imaginação
do criador em singular e impressionante imitação. Aprendemos isso do
texto de Gênesis. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, confor­
me a nossa semelhança; tenha ele domínio...” (Gn 1.26). Observe a expres­
são “domínio”. Dominar é algo próprio de Deus, mas o homem que foi
criado à imagem divina também tinha a função de dominar, numa clara
imitação de Deus. Uma das primeiras funções do homem foi dar nome aos
animais (Gn 2.19,20).4 Deus estava estimulando a criatividade do ser hu­
mano. Deus queria um imitador seu, mas que tivesse qualidades originais.
Van Groningen diz que “Deus trouxe a humanidade para sua família real.
Ele não lhes concedeu sua deidade; ele os dotou com o privilégio e a res­
ponsabilidade de serem cotrabalhadores com ele nas tarefas reais a serem
executadas na criação”.5

Aspectos da i m a g e m Divina

Resumidamente, a imagem divina no homem pode ser vista em quatro


sentidos.6 A primeira idéia é a de personalidade. Deus é um ser pessoal, e o
homem feito à sua imagem dispõe dessa mesma personalidade. Isso não
faz o homem ser “algo mais” que os animais, mas faz o homem ser “ím­
par”. A personalidade pressupõe consciência, conhecimento e responsabi­
lidade. A segunda idéia é a da espiritualidade. Deus é um ser espiritual, e os
seres humanos também são personalidades espirituais. Apesar de ser cria­
tura num sentido material, pois faz parte da matéria criada, o homem é
também extra-material, pois tem em si o elemento espiritual, que o impele
a viver uma vida além da matéria. Quando Deus fez o homem à sua ima­
gem, colocou nele um senso insuperável da eternidade (Ec 3.11). E o que
Paulo diz aos atenienses: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos”
(At 17.28). Todos aspiram pelo divino. Ninguém consegue negar isso de
modo completo. E por isso que não existe um ateu no sentido exato. Mes­
mo quando as pessoas negam a existência de Deus, lá no fundo elas sabem
que ele existe. A imagem de Deus nos torna pessoas espirituais, capazes de
nos relacionar e nos comunicar com Deus. O terceiro sentido em que a
imagem de Deus afeta o ser humano é a da liberdade. Como ser pessoal e
espiritual, Deus é um ser livre. Deus criou o ser humano com liberdade
para amar, conhecer, confiar, desejar, obedecer, e também para se recusar a
fazer essas coisas. A quarta característica pode ser chamada de expressividade.
Deus tem a capacidade de se expressar, de fazer sua vontade conhecida e de
160 Razão da esperança

executá-la. Deus expressa a sua personalidade porque tem capacidade para


isso. A Bíblia diz que Deus tem olhos, nariz, boca, ouvidos, mãos, cabelo,
etc. Evidentemente que esse é um linguajar antropomórfico, pois são qua­
lidades humanas aplicadas à divindade, para sugerir que ele consegue se
expressar. O ser humano se expressa igualmente por meio de partes do seu
corpo, e pode transmitir a sua personalidade, espiritualidade, virtudes, etc.
Van Groningen define: “Fica bem claro que pensar nos seres humanos
feitos à imagem de Deus é considerar a relação ímpar de semelhança e um
vínculo amoroso, vivo; é considerar o que os seres humanos são e quais as
suas capacidades ímpares que os capacitam a funcionar, a se expressar e a
exercer influência”.7 Machen tem uma definição ainda mais inspiradora:
“Que mistério estupendo é isso! Aqui temos o homem, criatura finita, saído
da mão criadora de Deus, e que anda pela terra com um corpo feito do pó
da terra. E, apesar disso, este ser, tão insignificante como possa parecer a
primeira vista, possui o dom estranho e terrível da liberdade pessoal, e é
capaz de desfrutar uma relação pessoal com o Deus infinito e eterno”.8

Dicotomia o u tricotomia?
Uma das características mais marcantes do ser humano que foi feito à
imagem de Deus é a sua natureza, que é composta de corpo e alma. Essa é a
visão dicotômica do homem. Mas há muitos que sustentam uma tricotomia,
insistindo que o ser humano é composto de alma, corpo e espírito. A
tricotomia originou-se com os gregos, especialmente Platão. A alma seria o
meio de ligação entre o corpo e a mente (noui)? Entre os cristãos, Irineu
ensinava que, enquanto os incrédulos têm apenas corpo e alma, o crente tem
alma, corpo e espírito, este último criado pelo Espírito Santo. Há duas passa­
gens na Escritura que sugerem uma divisão tripartida do homem. Uma delas
é ITessalonicenses 5.23: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o
vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na
vinda de nos;,o Senhor Jesus Cristo”. A outra é Hebreus 4.12: “Porque a
palavra de Deuü é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de
dois gumes, e penetra até a ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas,
e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. Porém, a
dicotomia é mais amplamente defendida pela Bíblia, o que nos leva a pensar
que as passagens acima não estejam ensinando uma divisão tripartida do ser
humano. Parece que Paulo está falando em termos gerais, tentando acumu­
lar palavras para expressar a idéia de que o cristão como um todo será guar­
dado até o fim.10 O autor aos Hebreus, por outro lado, está falando do poder
Voliando ao início: A criação do homem 161

que a Palavra tem de colocar certas coisas umas contra as outras dentro do
ser humano, Ele não está falando em termos literais, mas enfatizando que a
Palavra penetra nos recônditos mais interiores do nosso ser, trazendo à luz
as razões secretas das nossas ações.11 Como diz Kistemaker, “o escritor re­
corre ao simbolismo para dizer que, o que o homem habitualmente não
pode dividir, a Palavra de Deus separa completamente”.12 A dicotomia é a
visão mais bíblica, pois a Bíblia usa indistintamente as palavras alma e espíri­
to (Mt 10.28; ICo 7.34; Tg 2.26). Os mesmos sentimentos são atribuídos à
alma e ao espírito (ISm 1.10; Is 54.6; Jo 12.27; 13.21; At 17.16; 2Pe 2.8). O
louvor e o amor de Deus são atribuídos tanto à alma quanto ao espírito (Lc
1.46-47; Mc 12.30). A salvação é associada tanto à alma quanto ao espírito
(Tg 1.21; ICo 5.3,5). A morte é descrita igualmente como a partida da alma
e do espírito (Gn 35.18; lRs 17.21; Mt 10.28; SI 31.5; Mt 27.50; Lc 8.55; Lc
23.46; At 7.59). Os mortos ora são chamados de “almas” ora de “espíritos”
(Mt 10.28; Ap 6.9; Hb 12.23).13 Parece mais certo, portanto, dizer que o ser
humano é composto de corpo e alma. Porém, devemos evitar tratar dessas
coisas como se elas fossem separadas. O ser humano deve ser considerado
como um todo indivisível. Isso não significa que a alma seja mais valiosa do
que o corpo, como pretendia Platão e os gregos. O corpo e a alma possuem
o mesmo valor, e ambos decaíram em Adão e precisam ser redimidos. Por
essa razão, a Bíblia enfatiza a ressurreição. Não basta ao homem estar em
espírito junto de Deus depois da morte; para ser completo, ele precisará ter
de novo o seu corpo e, assim, com corpo e alma restaurados, o ser humano
viverá feliz para sempre...

A d i gn id a d e do ser h u m a n o
Do que foi dito até agora, já dá para perceber que a criação é a chave
para entender o ser humano, Quando pensamos em redenção, precisamos
limitá-la a um certo número de pessoas, pois ela se limita ao número daque­
les a quem Deus, no curso da História, moveu e chamou para si mesmo.
Porém, quando pensamos na criação, precisamos incluir tanto cristãos como
não-cristãos, pois todos são criaturas de Deus. Isso quer dizer que todos
são feitos à imagem e semelhança divina. Não é que o ser humano possua
a imagem divina, ele é essa própria imagem.14 Essa é uma das coisas de que
freqüentemente esquecemos. A universalidade da criação que colocou a
imagem divina em todos os seres humanos implica que o nosso próximo,
seja ele o mais obstinado ateu ou a mais dedicada anciã da igreja, foi feito
igualmente à imagem de Deus. Isso é um resultado da criação e não da
162 Razão da esperança

redenção. Se todas as pessoas são imagem divina, então é necessário que as


respeitemos, e reconheçamos a dignidade de todos os seres humanos, inde­
pendentemente de quem sejam, do que creiam ou do que façam. Além
disso, se a imagem é comum, então, significa que todos os seres humanos
têm uma dimensão moral, criativa e religiosa comum, que embora imper­
feita, não pode ser removida sob qualquer esforço humano. Ter sido criado
à imagem de Deus é algo vantajoso para o homem porque lhe dá dignidade;
por outro lado, isso lhe traz responsabilidade. As impressões digitais que
Deus deixou no ser humano o tornam significativo para todo o universo
criado, mas, ao mesmo tempo, o tornam tremendamente responsável dian­
te de Deus. Por isso, dissemos que não pode existir algo como um ateu.
Deus deixou de tal modo gravado no coração do ser humano o sentido de
sua existência que ninguém poderá argumentar diante de Deus, “Eu não
sabia”. Nestes tempos modernos, talvez antes de falar às pessoas sobre
aceitar Jesus como salvador, devêssemos falar sobre aceitar Jesus como
criador.15 Parte da ciência tem tentado negar esta verdade essencial.

Quem é o ser h u m a n o ?
Nada melhor para entender o ser humano do que ouvir o que o seu
criador tem para dizer a respeito dele. Quando não entendemos uma obra
de arte, a melhor coisa é pedir informações a quem a fez. A Escritura nos
ensina o que o criador tem a dizer sobre o ser humano. No Salmo 8 há uma
pergunta que o ser humano tem tentado responder desde o começo do
mundo. Ela diz respeito à identidade e à razão de existir da humanidade. O
salmista pergunta: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e
a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E
o filho do homem, que o visites?” (SI 8.3,4). O que é o homem? O mundo
tem oferecido muitas respostas, mas todas têm se demonstrado insatisfatórias
na medida em que elas analisam o ser humano como se ele fosse indepen­
dente de Deus. O Salmo 8 não faz isso. Ele analisa o homem em sua relação
com o criador. E esse é o único modo confiável para se entender realmente
quem ou o que é o ser humano.

A insign ificâ ncia h u m a n a


A prim eira conclusão a que o salmista chegou a respeito do ser hum ano
nos parece a princípio m uito negativa: ele é insignificante diante da grande-
Voltando ao início: A criação do homem 163

za da criação. O autor, Davi, muito antes de ser rei em Israel, era pastor de
ovelhas nas regiões montanhosas de Belém. E, como pastor, ele muitas
noites dormiu ao relento, tendo apenas o céu estrelado como cobertura.
Lá, no céu límpido do Oriente, Davi podia contemplar a lua e as estrelas
criadas por Deus, e se admirar diante da grandeza das obras do criador. A
pessoa que já teve a oportunidade de deitar-se numa bela noite estrelada ao
ar livre e contemplar o céu, sabe da sensação de pequenez que toma conta
dela diante da imensidão que os olhos tentam inutilmente captar. Provavel­
mente pensando nisso, Davi se perguntou: “Que é o homem?” Diante da
imensidão das coisas que foram criadas, o homem é insignificante. E quan­
to mais o ser humano progride no seu conhecimento da criação, mais mo­
tivo tem para sentir-se pequenino. Com todas as descobertas científicas que
nos ensinam sobre a imensidão das galáxias e das estrelas incontáveis, bem
como de tudo quanto se esconde dentro do tamanho minúsculo de uma
simples célula, o senso de nossa insignificância diante do todo se acentua.
Porém, o motivo maior que torna o homem insignificante não é a
grandeza da criação, mas a grandeza do seu criador. Esta criação tão grande
e majestosa possui um criador ainda maior e muito mais majestoso. Aquele
que criou todas as estrelas dos céus e é o criador do próprio ser humano
é o único realmente grandioso, e diante dele as pessoas não passam de
sombras.

A gra nd ez a h u m a n a
A partir do versículo 5, entretanto, parece que o autor começa a desdi­
zer tudo o que havia dito. Ele passa a falar o quanto o homem é grande e
importante. Porém, se atentarmos cuidadosamente, veremos que não há
contradição alguma. O Salmo nos mostra duas verdades com respeito ao
ser humano. Por um lado, a sua insignificância diante de Deus e de tudo o
que ele é e faz. Por outro, a sua grandeza, por ter sido feito à imagem de
Deus e por ter recebido uma função de suma importância das mãos do
próprio Deus. O salmista diz: “Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor
do que Deus e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5). A maior de todas as
qualidades do ser humano é ser criatura de Deus, feito à sua imagem. Isso
não quer dizer que o homem seja divino, mas antes, que ele foi criado para
refletir perfeitamente o caráter de Deus. Com a queda no pecado, essa ima­
gem ficou distorcida, mas não deixou de existir.
O salmista continua: “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e
sob seus pés tudo lhe puseste” (SI 8.6). Quando Deus criou o homem,
164 Razão da esperança

determinou que ele tivesse domínio sobre todas as coisas criadas, referin­
do-se principalmente ao reino animal e vegetal. O homem deveria ser o
administrador de Deus neste mundo. Nem é preciso dizer que essa função
satisfazia plenamente tanto a Deus, que se deleitava em seu “administra­
dor”, quanto ao próprio homem, que se sentia útil e totalmente integrado
com a obra de Deus. Deus criou o homem com a função de representá-lo
perante a criação, e nisso está a grande dignidade do ser humano. A criação,
portanto, dá toda dignidade ao homem. O homem somente tem importân­
cia porque Deus existe, e porque ele tem um plano para o homem. Somen­
te quando o ser humano reconhece a sua pequenez diante de Deus, e reco­
nhece que Deus é gracioso por se relacionar com ele, é que ele vai se sentir
humano de verdade. O humanismo moderno ou antigo é anti-humano,
porque sempre tentou fazer do homem o que ele não é e nem foi planejado
para ser. A Bíblia é um livro humanista no verdadeiro sentido da palavra,
pois coloca o ser humano no seu verdadeiro lugar: criatura de Deus, criado
para o louvor de Deus, e importante por causa disso. O ser humano não é
o centro do universo, Deus é. O homem não se sentirá satisfeito enquanto
ele quiser ser mais do que é. Ele nunca se realizará tentando ocupar o lugar
que é de Deus.
E interessante que, na estrutura da Reforma, nunca sobrou espaço para
glorificar o homem, pois toda a glória devia ser rendida a Deus. A Reforma
pôde proclamar Soli Deo Gloria porque mais do que ninguém ela entendeu o
ser humano. Quando temos uma visão melhor de nós mesmos e de Deus,
diminuímos a nossa importância e aumentamos a dele. É interessante que a
Reforma tenha produzido uma era de grandes pensadores e artistas, mas
ela nunca exaltou o ser humano, antes prostrou o orgulho humano diante
da majestade de Deus. Mas hoje as coisas estão muito mudadas. O ser hu­
mano é exaltado e Deus diminuído. Nossos cultos e serviços são freqüente­
mente celebrações de nós mesmos mais do que de Deus, há mais entreteni­
mento neles do que adoração. Nunca antes, nem mesmo na era medieval,
os cristãos tinham sido tão obsessivos a respeito de si mesmos. Nunca
antes Deus foi tão totalmente esquecido. Gastamos a maior parte do tem­
po, como Narciso, contemplando a nossa própria imagem distorcida na
água. Desse modo, o ser humano jamais será entendido, pois fomos criados
à imagem de Deus, mas como a nossa própria imagem foi distorcida pelo
pecado, o melhor modo para nos entendermos é olhar, não para nós mes­
mos, mas para o criador, em quem não há qualquer distorsão.
Voltando ao início: A criação do homem 165

0 propósito da criação
Uma teoria popular diz que Deus nos criou porque se sentia sozinho,
porém seria algo inacreditável imaginar que Deus precisasse dos seres hu­
manos para preencher um vazio no seu ser. E o homem que possui esse
vazio em decorrência da queda. Como poderia a divina Trindade se sentir
só em meio a milhões e milhões de anjos? Mas mesmo os anjos nunca
foram a base da comunhão trinitária. A Trindade basta a si mesma, pois há
um perfeito relacionamento de amor nela. Não é Deus quem está sozinho
sem o ser humano, é o ser humano quem está sozinho sem Deus.
Uma outra teoria diz que Deus criou os seres humanos porque ele que­
ria ter alguém que o amasse de livre vontade. Essa teoria diz que os anjos
amavam a Deus não por livre vontade, mas por compulsão. Isso é dar de­
masiado crédito ao ser humano. Além disso, como então boa parte dos
anjos se rebelou contra Deus? (Ver 2Pe 2.4; Jd 6; Ap 12.7).
Alguém pode pensar que esta discussão não tenha muita importância,
mas dela depende a nossa visão da criação e do próprio ser humano. Afinal,
a criação está centrada no ser humano ou está centrada em Deus? Deus
existe para o nosso propósito ou nós existimos para o propósito dele? A
resposta bíblica é que nós existimos por causa dele, para o louvor da sua
glória (Ef 1.6). A Escritura diz que Deus tem prazer nas suas obras. O
Salmo 104 diz: “A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por
suas obras!” (v. 31). Como o artista se alegra com a sua obra-prima, assim
Deus se alegra com as coisas que criou. Ou seja, todas as coisas existem por
causa dele e não por nossa causa. “Qual é o fim principal do homem?” Essa
é a pergunta número 1 do Breve Catecismo de Westminster, e a resposta é:
“Glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Existimos para glorificá-lo e
para nos alegrarmos nele. Deus nos criou para ter prazer em nós, e nós, do
mesmo modo, devemos ter prazer nele. E por isso que nos foram dados os
prazeres terrestres. Eles servem para elevar os nossos sentidos para a ver­
dadeira alegria nele. Isso significa que a nossa busca por prazeres foi calcu­
lada para ser algo como uma motivação para uma busca de Deus. Imagine
a implicação desse tipo de pensamento. Por que será que Israel tinha tantas
festas no seu calendário litúrgico? Pense na história do Deus-homem, que
não somente viu uma bênção na união de um homem e de uma mulher,
mas até mesmo providenciou um milagre a fim de que houvesse vinho para
celebrar aquela ocasião (Jo 2.1-11). Talvez você questione: “Mas nós não
somos ensinados a abandonar o mundo e os seus prazeres”? De fato a
Razão da esperança

BíbHa ensina isso, mas é justamente porque a queda deturpou toda a ordem
da vida. Na verdade, o que estamos querendo afirmar é que o mundo em si
não é o problema, nem mesmo a humanidade em si e os seus prazeres. O
problema é a rebelião do mundo e da humanidade contra o seu criador. Um
antigo culto, conhecido como maniqueísmo, que foi grandemente influen­
ciado pelo gnosticismo, afirmava que toda matéria era má e que somente o
espírito era puro. Desse modo, o corpo, a inteligência e os apetites carnais
eram inerentemente demoníacos. Contra isso, o calvinismo afirmou que
toda a depravação, ou os pecados que surgem dela, não se levantam da
natureza, mas da corrupção desta natureza. Portanto, não são naturais, mas
completamente anormais. O problema não é a matéria, mas o pecado. Pre­
cisamos considerar o propósito da nossa criação como centrado em Deus.
Ele nos fez para o louvor da sua glória. Somente quando entendemos isso
é que podemos compreender o significado por trás do trabalho e do lazer,
do prazer e da restrição, da vida e da morte, do riso e do temor. A criação
mostra que Deus tem um imenso propósito para a vida de cada ser humano
que é chamado para ser um imitador de Deus.

Criação e relacionam ento


Deus idealizou para a coroa da sua criação três tipos de relacionamentos
que fariam com que o sentido da existência humana fosse completo.16 Es­
tes são: o espiritual, o social e o cultural. Na integração desses elementos, o
ser humano encontraria a sua plena realização e felicidade.

M a n d a t o espiritual

O mandato espiritual foi dado como parte da ordem da criação. Há três


particularidades na criação do ser humano que apontam para o fato de que
Deus desejava ter um relacionamento íntimo com o homem. Primeiramente,
o homem foi criado à imagem de Deus. Isso nos fala de uma semelhança e de
uma possibilidade plena de relacionamento, que nenhuma outra das criaturas
dispunha. Deus elegeu o ser humano para espelhar a sua própria grandeza. O
segundo aspecto foi a instituição do dia de descanso. Ao estabelecer o sába­
do, Deus estava proporcionado não só um dia de descanso para o ser huma­
no mas, acima de tudo, um dia de íntimo relacionamento consigo. E o tercei­
ro aspecto foi a ordem divina para não comer do fruto da árvore do conheci­
mento do bem e do mal. Se essa obediência tivesse sido seguida, Deus, Adão
Voltando ao início: A criação do homem 167

e Eva continuariam a manter o lindo relacionamento pessoal que possuíam


entre si, sendo que nada poderia haver entre eles que pudesse atrapalhar.
Adão e Eva deveriam permanecer em comunhão com Deus. Eles deve­
riam continuar andando com Deus quando ele viesse no final da tarde (Gn
3.8). O fato de Deus vir na “viração do dia” para se encontrar com o ser
humano demonstra que Deus queria que o homem “andasse” junto dele.
No Antigo Testamento, apenas dois homens tiveram esse privilégio pleno
de “andar” com Deus: Enoque (Gn 5.24) e Noé (Gn 6.9). O primeiro foi
transladado aos céus, e o segundo foi o único sobrevivente (junto com sua
família) da maior catástrofe que esse mundo já viu: o dilúvio.
O mandato espiritual, portanto, nos fala do nosso relacionamento pes­
soal com Deus. Ele precisa ser o mais importante da nossa vida. Deus deve
ocupar o lugar central na nossa vida. O objetivo principal da obediência ao
mandato espiritual consiste em gradualmente conhecer, aceitar e crer na
realidade da presença do nosso Deus triúno em todas as áreas da vida. Não
existe área ou aspecto da vida que Deus não conheça, não compreenda ou
não veja. Deus quer que todos os aspectos e situações sejam tratados com
uma clara consciência fundamentada no relacionamento com ele. Como
filhos de Deus, pertencemos a ele em primeiro lugar e precisamos saber
que ele nos reivindica para si. A partir disso, é preciso uma resposta pessoal
a Deus e um desejo de obedecê-lo, amá-lo e viver para ele.

M a n d a t o social
O aspecto espiritual, visto acima precisava transbordar para todos os
demais aspectos da vida humana, especialmente para o próximo relaciona­
mento que Deus instituiu: o relacionamento familiar, que também é cha­
mado de Mandato Social.
Mais do que um mandato, a responsabilidade social do homem é uma
bênção de Deus para a sua vida. Veja o que diz a Bíblia: “Criou Deus, pois,
o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os
criou. E Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos,
enchei a terra....” (Gn 1.27,28). Deus lhes deu a bênção de serem fecundos,
de poderem se multiplicar e povoar a terra, também a fim de dominá-la.
Portanto, o mandato social de constituir família, de ter filhos e educá-los no
caminho do Senhor é uma grande bênção para a vida das pessoas. Deus
deu ao homem a bênção do companheirismo. Deus percebeu que não era
bom para o homem permanecer só, e por isso, fez-lhe uma auxiliadora
idônea que o completasse como nenhuma outra criatura poderia fazer (Gn
168 R am o da esperança

2.18). E a reação de Adão, ao deparar com Eva, demonstra que estamos no


caminho certo, pois ele fez a primeira declaração de amor da história: “Esta,
afinal é osso dos meus ossos e carne da minha carne, chamar-se-á varoa,
porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.23). Deus também concedeu ao ser
humano a bênção de ter filhos. Não podemos nos esquecer de que Adão e
Eva pecaram contra Deus, e Deus havia dito que, se eles pecassem, morre­
riam. Portanto, o fato de Deus permitir que eles ainda tivessem filhos é
uma prova de que a maldição foi diminuída, pois filhos representam conti­
nuidade. Deus concedeu a bênção do relacionamento sexual. Muitos afir­
mam que o pecado original foi um pecado sexual. Nada poderia ser mais
equivocado. Foi Deus quem instituiu o sexo. Ele abençoou o homem e a
mulher e lhes ordenou que fossem fecundos, que se multiplicassem, e de­
pois declarou que isso era “muito bom”. Deus não inventou o sexo apenas
para a procriação. Homem e mulher se realizam pertencendo um ao outro
dentro do casamento, e isso certamente agrada a Deus.
Os papéis do marido e da mulher no cumprimento do mandato social
são cruciais. O desempenho correto desses papéis, em que o homem é o
cabeça que deve amar a sua esposa, e a esposa é a auxiliadora que deve res­
peitar o marido, é de vital importância para que haja estabilidade na família,
para que os filhos sejam criados dentro dessa estabilidade, e assim sejam
pessoas equilibradas que irão influenciar positivamente a sociedade. A famí­
lia é a unidade básica mais importante e ordenada por Deus dentro da soci­
edade, mas ela precisa ser equilibrada para que possa cumprir o seu papel. O
mandato social de Deus, com todas as suas ramificações, não deve nunca ser
ignorado ou rejeitado, pois a obediência ao mandato social produz satisfa­
ção, alegria e paz que somente Deus pode dar. A família sempre foi muito
importante e quando ela falhou, como no caso de Eli (ISm 2.1-36), de Sa­
muel (ISm 8.1-5) e de Davi (2Sm 11; 13-16; 18), houve tristeza e tragédia.

M a n d a t o cultural

Por fim, vemos também no Gênesis o mandato cultural que engloba a


vida chamada “comum”, mas que de comum não tem nada. Deus disse para
o homem que sujeitasse a terra, dominando sobre “os peixes do mar, sobre
as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). Nessa
ordem, vemos a imensa responsabilidade que o homem tem com relação a
este mundo. Cabe a ele ser o administrador de todos os bens que Deus lhe
confiou. O trabalho se encaixa nisso como um dom de suprema importân­
cia. Isso tem implicações sociais, econômicas, culturais e ecológicas.
Voltando ao ínícío: A criação do hom em 169

Geralmente, as pessoas fazem uma grande distinção entre o secular e o


espiritual. Mas o fato é que a obediência ao mandato cultural está intima­
mente ligada à obediência aos mandatos social e espiritual. Deus é o criador
de tudo. Foi ele quem nos deu todos esses aspectos culturais na criação.
Deus quer ser honrado, servido e adorado em todas as esferas da vida. A
vida é uma unidade. Quando Deus criou o homem, num só ato ele colocou
na sua esfera todos os três mandatos. Ele fez o homem à sua imagem, com
relacionamento pessoal com ele, o abençoou para que se multiplicasse, ou
seja, constituísse família e tivesse filhos, e ordenou que dominasse sobre
toda a terra. Por meio disso, Deus estava demonstrando que a vida é uma
integração total; que tudo está interligado.
Ninguém expressou melhor essa relação com o mundo do que o Filho
de Deus. Jesus não se limitou a pregar o amor de Deus, ele também pregou
o envolvimento sadio com a vida. Seu primeiro milagre, conforme relatado
no Evangelho de João, foi transformar água em vinho num casamento.
Além disso, claramente ele tinha conhecimento sobre os mais variados as­
suntos culturais da sua época. Ele falou sobre ouro, prata, e outros metais
preciosos. Ele sabia sobre a moeda corrente. Falou também sobre árvores
e seus frutos. Ele tinha conhecimento a respeito da vida militar. Lidou com
tempestades no mar, falou do semeador semeando em solos diferentes. Ele
entendia sobre a vida dos fazendeiros e falou sobre relvas e sementes. Co­
nhecia o ofício da pesca. Ele entendia sobre impostos, e, inclusive pagava
impostos. Falou ainda sobre o relacionamento entre empregados e patrões,
entre inquilinos e proprietários. Mostrou que sabia sobre lâmpadas e óleo.
Falou de ovelhas e de cabras, e de muitos outros aspectos culturais da sua
época. Ele não costumava dizer, “Essa não é a minha área”. Todas as áreas
da vida eram importantes para Jesus. Nesse sentido, podemos dizer que
Jesus era um homem deste mundo. Porém, ao mesmo tempo, ele era um
perfeito mestre da espiritualidade, que entendia da alma humana e do rela­
cionamento correto com Deus em oração e adoração. Ele era um homem
completo.
Portanto, nós, como pessoas completas, precisamos viver a vida na sua
integralidade. Este mundo pertence ao Senhor. Como Hoekema coloca,
“esta terra ainda é terra de Deus. Ele a criou e mantém e a dirige de tal
modo que o pecado em certa medida é refreado, a civilização ainda é possí­
vel e a cultura humana é importante”.17 Por isso, a obediência ao mandato
cultural é parte integral da vida humana. As pessoas não devem separar as
dimensões sociais, espirituais e culturais da vida, mas considerar todos es­
ses aspectos como uma unidade, pois, tudo está sob o reino de Deus. To­
170 Razão da esperança

dos os aspectos da vida são estabelecidos por Deus e pertencem a Deus.


Não podemos pensar que só por sermos obedientes espiritualmente e soci­
almente já teremos cumprido o nosso serviço e obedecido ao Senhor. Como
já afirmamos, o homem foi feito para administrar o mundo de Deus, e
“esta administração é parte da vocação humana em Cristo”,18 de modo que
não podemos agradar a Cristo se não estivermos envolvidos de maneira
sadia com todas as coisas sobre as quais ele tem domínio.
O domínio que Deus concedeu ao homem implica privilégio e responsa­
bilidade, como todas as demais bênçãos de Deus. Além do direito explícito
do homem de usar todas as coisas criadas, de explorar os seus recursos, de
dominar, de ser o príncipe de Deus, existe a responsabilidade de fazer isso
de modo coerente. Há muita responsabilidade inclusa na declaração: “Eu
vos tenho dado”. Isso quer dizer que, antes de tudo pertence a Deus, mas ele
nos deu para que façamos bom uso. Embora Deus tenha dado todas as
coisas ao homem, isso “não implica que a humanidade, como imagem de
Deus na terra, possa viver como melhor lhe aprouver”.19 O bom uso envol­
ve um uso equilibrado das coisas de Deus. Isso tem implicações ecológicas.
Deus nos deu este mundo natural no qual vivemos. Este é o nosso lar, O
mundo deve ser visto como o nosso paraíso apesar de afetado pelo pecado e
pela corrupção. Nós devemos fazer o máximo para manter o nosso meio
ambiente limpo e saudável para a vida cotidiana. Muitos cristãos não têm
atentado para os desafios do meio ambiente e têm deixado isso para pessoas
que tomam posições extremadas, e que, praticamente, divinizam a criação, A
criação não é Deus. Deus é separado da criação, mas ele se agrada de que nós
cuidemos dela. O que dizer de crentes que jogam lixo na rua?
Deus estabeleceu os três mandatos a fim de tornar a nossa vida completa.
Isso significa que há prazer para nós quando nós o desenvolvemos. O erro é
viver em busca do prazer que o aspecto cultural oferece. Porém, quanto o
equilíbrio é respeitado, podemos dizer como Salomão: “Sei que nada há
melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada; e também
que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de
todo o seu trabalho” (Ec 3.12,13). Porém, tudo isso deve ser integrado. Por
essa razão, o sábio Salomão já havia dito antes: “Nada há melhor para o
homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu
trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separa­
do deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24,25). Temos
a responsabilidade de viver uma vida integral, fazendo uso pleno e apropri­
ado de todos os bens e dons que Deus colocou à nossa disposição. Não
podemos agradá-lo, se não vivermos a plenitude que ele nos dá.
Voltando ao inicio: A criação do homem 171

Im plicações da criação
Há muitas implicações da doutrina da criação, e agora podemos apre­
sentar algumas.20 Primeiramente, ela implica respeito pelo semelhante; não
importa se o nosso próximo é um cristão ou não, ele merece respeito. Além
disso, ela implica que tenhamos relacionamentos comuns com não-cristãos
em praticamente todas as esferas da nossa vida; podemos construir carros
juntos, participar de assembléias ou de concílios escolares sem ser adversá­
rios, pois de fato a vida civil encontra a sua origem na criação mais que na
redenção. E uma vergonha, para nós evangélicos, que sejam os não-cristãos
que lideram as campanhas contra o aborto, contra a destruição da natureza,
contra as drogas ou contra a Aids. Será que essas funções não deveriam ser
nossas também? Quanto mais nós nos apegarmos à doutrina da criação,
mais seriamente tomaremos a nossa responsabilidade social.
A doutrina da criação também implica alegria no trabalho. A idéia popu­
lar é que devemos trabalhar durante a semana para desfrutar do fim de
semana. Porém, Deus estabeleceu o trabalho antes da queda para que ele
fosse santo, algo como um culto a Deus, uma atividade criativa (no sentido
de usar criatividade) como a do próprio Deus. A doutrina da criação nos
manda ter alegria em nosso trabalho, considerando-o algo positivo, louvá­
vel e de grande importância. Não faz diferença se alguém é um engenheiro,
um físico nuclear, uma doméstica ou um gari. O trabalho deve ser conside­
rado como um chamado de Deus, e todos devem buscar se alegrar nele e
glorificar a Deus, colocando em prática a criatividade da qual Deus os do­
tou. Isso significa que um bom cristão deve ser necessariamente um bom
profissional e um bom integrante da família. Se algum desses aspectos fa­
lhar, todos falharão.
Finalmente, ela implica que temos o verdadeiro sentido da vida. E so­
mente quando entramos em contato com o eterno que o significado desta
vida pode ser adequadamente compreendido. De acordo com a ideologia
científica, não há perspectiva eterna, e por isso tudo é permitido. Porém, a
Escritura nos explica o significado de cada ação diária como fazendo parte
de uma longa trajetória. Numa perspectiva de longo prazo, tudo faz senti­
do. Cada cabelo está contado, cada palavra terá que ser explicada, e cada ato
será avaliado. A imagem divina em nós e no próximo deve nortear o nosso
comportamento e acentuar a nossa responsabilidade. A doutrina da criação
nos mostra que é maravilhoso ser humano.
13

Providência:
0 Deus que trabalha

Quando os fariseus recriminaram Jesus por ter curado no sábado, Jesus


afirmou que o sexto dia não significava o fim do trabalho divino. Jesus
disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Estri­
tamente falando, a obra da criação terminou no sexto dia. De lá para cá
Deus tem sustentado o mundo, providenciando tudo o que é necessário
para isso. Chamamos de providência o fato de Deus continuar a trabalhar
no mundo. Uma boa definição de providência pode ser: “O permanente
exercício da energia divina, pelo qual o criador preserva todas as suas cria­
turas, opera em tudo o que acontece no mundo e dirige todas as coisas para
o seu determinado fim”.1 A doutrina da providência está em relação direta
com duas doutrinas que já estudamos: a soberania de Deus e a criação. Ela
é um tipo de “continuação da criação”, é a maneira como Deus, na sua
soberania, conduz a criação em direção aos seus propósitos. A doutrina da
providência trata da questão sobre como o mundo sobrevive, e em que
direção caminha. Ela procura dar resposta para a pergunta sobre se há uma
ordem por detrás de todos os acontecimentos, ou se tudo acontece de modo
aleatório. Vivemos num tempo em que, ou por um lado as pessoas pensam
que o acaso governa, ou, por outro, defendem uma espécie de fatalismo,
como se tudo estivesse determinado e nada pudesse ou devesse ser feito
para mudar. O fato é que o homem sempre teve crenças interessantes sobre
o curso que o mundo segue. Uma crença já embrionária no século 16, cha­
mada “Deísmo” entendia que Deus havia criado o mundo, mas a partir de
então, não atuava mais nele. Deus teria estabelecido leis fixas para todas as
coisas, e então, o mundo simplesmente passou a seguir o curso dessas leis,
sem nenhuma interferência do criador. Nessa visão, o mundo seria uma
máquina que Deus acionou e que agora trabalha por conta própria. A visão
deísta implica que a matéria, depois de ter sido criada, se tornou auto-
subsistente e auto-sustentada, praticamente autônoma, mas essas caracte­
rísticas são propriedades incomunicáveis de Deus, pertencentes apenas ao
174 Razão da esperança

criador e não à criatura.2 Por outro lado, popularmente as pessoas acredi­


tam na “sorte”, no “acaso”, na “fortuna” ou no “destino”, e idealizam um
deus misturado com a criação, numa espécie de panteísmo.3 É como se o
mundo e o destino de todos os homens estivessem nas mãos de alguma
força impessoal e incompreensível.
Na Escritura, podemos ver três modos nos quais a providência divina se
manifesta: na preservação, na concorrência e no governo. Esses três modos
providenciais de Deus revelam a maneira e o propósito pelo qual o mundo
continua a existir, após ter sido criado, e espantam toda noção de acaso ou
fatalismo.

Deus preserva todas as coisas


Deus não apenas criou o mundo como também o sustenta. A Escritura
diz que o mundo foi criado por meio de Jesus, e que é sustentado igualmen­
te por meio dele “pela palavra do seu poder” (Hb 1.1-3). Esse poder de
Deus é o responsável pela sustentação do mundo. Se Deus tivesse criado
todas as coisas e entregado-as à sua própria sorte, ele não seria um Deus
pessoal, mas distante, impessoal e despreocupado. A Escritura, entretanto,
ensina que Deus se envolve com tudo o que criou até nos mínimos deta­
lhes, Em Neemias 9.6 há uma afirmação maravilhosa sobre a criação e a
providência de Deus: “Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus, e
todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto
há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora”
(ênfase acrescentada). Esse também é o entendimento do salmista: “Em ti
esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a
tua mão e satisfazes de benevolência a todo vivente” (SI 145.15,16). Deus
preserva e sustenta todos os seres que criou, e quando deixa de sustentá-
los, eles morrem, conforme o salmista constata: “Todos esperam de ti que
lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão,
eles se fartam de bens. Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes
cortas a respiração, morrem, e voltam ao pó” (SI 104.27-29). Nessa passa­
gem, o que mais se destaca é a partícula “se”, que revela a condição pela
qual a natureza continua existindo. Tal é o controle preservador de Deus
sobre a sua criação que Jesus disse: “Observai as aves do céu: não semeiam,
não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso Pai celeste as susten­
ta” (Mt 6.26); e acrescentou mais tarde: “Não se vendem dois pardais por
um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai.
S’rovidcnäa: 0 Deus que írabalha 175

E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt
10.29,30). Se Deus cuida até dos passarinhos, alimentando-os e sustentan­
do-os durante toda a vida deles, se Deus sabe até o número de cabelos que
temos na cabeça, então é porque o seu envolvimento com as coisas criadas,
das menores até as maiores, é total.
Diante dessas coisas, como alguém pode crer no acaso ou na sorte? A
conclusão lógica do tema discutido é que não existe algo como a “sorte”, o
“acaso”, ou o “destino”. Ninguém tem a “sorte” de estar vivo, tudo acon­
tece por obra da providência de Deus. O próprio envolvimento de Deus
com a criação exclui a possibilidade do panteísmo. Deus não está mistura­
do com a criação, ele é separado dela, mas cuida dela até nos mínimos
detalhes. Do mesmo modo, imaginar um Deus que criou o mundo, mas o
abandonou à sua própria sorte é algo absurdo, pois segundo a Bíblia, a
providência de Deus é a causa de o mundo ainda existir. E quanta miseri­
córdia há nisso, pois o mundo é rebelde contra Deus; não obstante, Deus o
preserva, fazendo nascer o sol sobre “maus e bons”, e cair “chuvas sobre
justos e injustos” (Mt 5.45). Só o louvor cabe a Deus pela grandiosidade de
sua obra providencial, como faz o salmista: “Cantai ao Senhor com ações
de graças; entoai louvores, ao som da harpa, ao nosso Deus, que cobre de
nuvens os céus, prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva
e dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos, quando clamam” (SI
147.7-9). A providência mostra o cuidado divino com a criação.

Deus age e m todas as coisas


Um outro modo de ver a providência de Deus é por meio da sua opera­
ção imediata em todas as coisas que acontecem. Os teólogos têm chamado
isso de Concorrência ou “C o n c u r s u “Concursus” se refere à junção de duas
forças. Não significa necessariamente que sejam duas forças em pé de igual­
dade, mas, apenas que dois lados cooperam de alguma maneira, Berkhof
define concorrência ou “concursus” como “a cooperação do poder divino
com todos os poderes subordinados, em harmonia com leis pré-estabeleci-
das de sua operação, fazendo-os agir, e agir precisamente como agem”.4
Nessa junção, quando dizemos que Deus e o homem agem conjuntamente,
não estamos querendo dizer que cada lado contribui com a metade. Não dá
para comparar a vontade divina com a vontade humana. Nesse ponto, pre­
cisamos ter em mente que estamos tratando de um tema difícil, porém,
devemos ser honestos com o ensino da Palavra de Deus, mesmo que te-
176 Razão da esperança

nhamos dificuldades em entendê-lo. Por isso, acima de tudo, devemos manter


uma atitude reverente ao meditarmos nas passagens que estão a seguir.
Vejamos alguns exemplos bíblicos a respeito da concorrência ou concursus.
Num capítulo anterior, já estudamos sobre a passagem de Lucas 22.22, em
que o decreto de Deus e a traição de Judas acontecem paralelamente. Deus
determinou, mas Judas foi o responsável pelo seu ato. O mesmo também
pode ser visto no sermão de Pedro registrado em Atos 2, quando ele disse
que Jesus morreu “sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência
de Deus”, porém, os culpados pelo ato infame foram os homens, confor­
me Pedro inequivocamente aponta: “Vós o matastes, crucificando-o por
mãos de iníquos” (At 2.22,23). Observe que Jesus foi entregue porque Deus
havia determinado que isso acontecesse, no entanto, o povo era o verdadei­
ro culpado da morte de Jesus. O povo gritou para que ele fosse crucificado,
preferindo a libertação de Barrabás (Mt 27.20,21). Essa mesma idéia reper­
cute no capítulo 4 de Atos, quando a igreja ora ao Senhor: “Porque verda­
deiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao
qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para
fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At
4.27,28). Como diz Boettner, “os que crucificaram Cristo agiram em perfei­
ta harmonia com a liberdade de suas próprias naturezas pecaminosas, e
foram os únicos responsáveis pelo seu pecado”.5 Está claro que a culpa
pela morte de Jesus foi dos homens, porém, tudo o que aconteceu, seguiu a
vontade e a soberania de Deus, conforme o seu plano preestabelecido. O
que os homens fizeram foi errado, pecaminoso, e eles certamente pagarão
por isso, porém, ao fazerem aquilo, em última instância, fizeram o que Deus
havia determinado. Isso é concorrência ou a concursus”.

0 co n c u r s u s e os atos b o n s ó
Nunca conseguiremos excluir Deus de qualquer coisa que fazemos em
nossa vida. Precisamos nos lembrar que Paulo disse que “nele vivemos, e
nos movemos, e existimos” (At 17.28). Jamais o homem age de maneira
independente de Deus; por isso, todas as boas ações que os crentes prati­
cam, são ações que Deus direcionou. Já vimos que, segundo Filipenses 2.13,
Deus opera tanto o querer quanto o realizar para que uma obra seja concre­
tizada. O que isso quer dizer é que, se eu faço alguma boa ação, o mérito é do
Senhor. Quem realizou a obra foi eu, mas ela só foi possível porque o Se­
nhor me capacitou. E o que Paulo diz sobre o seu próprio trabalho apostó­
lico: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi
Providência: 0 Deus que trabalha 177

concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles;
todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (ICo 15.10). Paulo tinha cons­
ciência de duas coisas: da graça de Deus e do seu trabalho árduo. Mas, acima
de tudo, ele sabia que tudo era pela graça. Ele tinha mais resultados do que
os outros apóstolos, e, numa primeira instância, poderia ser dito que foi
porque ele trabalhou mais, mas ele reconhece que tudo acontecia pela graça
de Deus. Assim, tudo o que um crente faz de bom sofre a ação do concursus.
O interessante é que isso pode ser visto também nas boas ações das
pessoas não-regeneradas. Elas também fazem coisas boas, mas evidente­
mente que não no sentido de aceitáveis para a salvação, porém boas porque
podem ter resultados benéficos para as pessoas. Podemos ver, na Bíblia,
que mesmo essas ações sofrem o concursus. Ciro, o rei da Pérsia, é um grande
exemplo disso. Isaías escreve algo muito interessante a seu respeito: “Assim
diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita (...). Eu
irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de
bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Is 45.1,2). Deus está dizendo
que age na vida de Ciro para o ajudar. Em seguida, ele expõe o motivo: “Por
amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido, eu te chamei pelo teu
nome e te pus o sobrenome, ainda que não me conheces” (Is 45.4). Deus
usou o imperador Ciro por amor do seu povo, ainda que Ciro não conhe­
cesse ao Senhor. Ciro foi usado para que o povo pudesse voltar do cativeiro
da Babilônia para a sua própria terra. O imperador foi o responsável pela
ordem que permitiu a volta do povo, e essa foi uma boa ação, mas ele não
fez isso pensando em agradar a Deus; na verdade, ele estava fazendo uma
manobra política, porém, acima de tudo, estava cumprindo a vontade
decretiva de Deus. Ciro agiu em conformidade com seus próprios interes­
ses, mas acabou fazendo algo benéfico para o povo, e nisso ele foi dirigido
por Deus, que agiu na vida de Ciro. Foi uma obra boa de um homem mau,
uma obra realizada por meio do concursus.
Todas as boas ações deste mundo sofrem a ação do concursus de Deus.
Tudo o que acontece de bom, acontece porque duas coisas participaram: a
vontade do homem e a vontade de Deus. Na sua soberania, Deus não anula
a vontade do homem, mas a vontade do homem em hipótese alguma
inviabiliza a vontade de Deus.

0 c o n cu rsu s c os atos m a u s
Não é difícil ver a atuação de Deus nas atitudes boas dos homens, afinal
de contas Deus é bom e é a fonte de todo bem, mas e com relação às coisas
178 Razão da esperança

más que acontecem? Uma das coisas mais difíceis é conciliar a vontade
soberana de Deus com os atos maus das pessoas. Um modo de responder
a essa questão é dizer simplesmente que Deus permite que as pessoas fa­
çam coisas más. Em parte, essa resposta está certa, mas as atitudes más dos
homens são permitidas por Deus embora elas firam a sua vontade preceptiva.
Porém, como já estudamos, a vontade preceptiva é apenas um aspecto da
vontade de Deus. Nunca poderemos nos esquecer que ele também tem
uma vontade decretiva. A questão é: Como os atos maus dos homens se
relacionam com os decretos de Deus?
Na Bíblia, podemos ver alguns casos que mostram que mesmo os atos
maus das pessoas não foram feitos independentes de Deus. O concursus pode
ser visto nessas atitudes também. Na sua vontade decretiva, Deus determi­
nou tudo o que deve acontecer, inclusive os atos maus dos homens, porém
isso não faz de Deus o autor do pecado deles. Embora certas coisas ruins
estejam decretadas, os homens as fazem de sua própria vontade, e a culpa é
somente deles, porque desejaram fazê-las. Ninguém os obrigou.
A história de José do Egito é novamente útil para entendermos isso.
José era o filho preferido de Jacó e seus irmãos tinham ciúmes dele. Num
certo dia, eles aproveitaram uma ocasião e o venderam a alguns mercadores
que iam para o Egito. Esse foi um ato muito mau da parte dos irmãos. José
enfrentou muitos problemas por causa disso, vindo a tornar-se um escravo
no Egito, e por fim, parou na prisão. Porém, o Senhor agiu na vida de José,
que acabou chegando ao cargo mais importante do Egito logo abaixo de
Faraó. Com isso, anos mais tarde, José pôde ajudar a sua família que passa­
va por dificuldades com a grande seca. Quando se encontrou novamente
com seus irmãos, José disse a eles: “Vós, na verdade, intentastes o mal
contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora,
que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Tal foi o entendimento
de José daquela situação que até mesmo declarou: “Não fostes vós que me
enviastes para cá, e, sim, Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de
toda a sua casa” (Gn 45.8). O ato de vender José foi uma ação má dos
irmãos, e eles foram responsáveis por ela. Eles agiram segundo os seus
impulsos pecaminosos, porém, a Bíblia diz que, em última instância, Deus
havia planejado tudo. Deus não foi o autor do pecado dos irmãos, mas agiu
na vida deles, para que o seu propósito maior se cumprisse. Eles fizeram o
que desejavam, pecaram e se tornaram passíveis de punição, mas não deixa­
ram de fazer o que Deus desejava. Embora isso não seja fácil de entender,
precisa ser aceito pela fé, pois Deus quis que os irmãos vendessem José,
mas, o pecado foi somente deles, uma vez que ao agir daquele modo, eles
Providência: 0 Deus que trabalha 179

não estavam obedecendo a uma ordem direta de Deus, e sim fazendo a sua
própria vontade pessoal.
Deus atua até mesmo nos atos maus dos próprios homens maus. Sem­
pre imaginamos os irmãos de José como membros da aliança, e por isso
não os consideramos ímpios. Mas quando vemos o que a Bíblia fala sobre
o caso de Nabucodonosor, o ímpio rei da Babilônia, percebemos que a
soberania divina não tem limites. Nabocodonosor invadiu Judá e cometeu
todo tipo de atrocidades, porém, a Bíblia diz que Deus é quem o havia
levado e determinado que fizesse aquilo (Jr 25.9-11). Nabucodonosor agiu
em conformidade com a sua iniqüidade, ele queria saciar a sua sede de
conquistas, entretanto, Deus determinou que aquilo acontecesse, tendo usado
a Babilônia, império de Nabucodonosor, segundo os seus propósitos. Deus
declarou a respeito de Babilônia: “Tu, Babilônia, eras meu martelo e mi­
nhas armas de guerra; por meio de ti, despedacei nações e destruí reis; por
meio de ti, despedacei o cavalo e o seu cavaleiro; despedacei o carro e o seu
cocheiro; por meio de ti, despedacei o homem e a mulher, despedacei o
velho e o moço, despedacei o jovem e a virgem; por meio de ti, despedacei
o pastor e o seu rebanho, despedacei o lavrador e a sua junta de bois, despe­
dacei governadores e vice-reis” (Jr 51.20-23). Deus disse que ele havia feito
toda aquela destruição, porém a Babilônia pagaria, pois havia agido confor­
me ela própria desejava: “Pagarei, ante os vossos próprios olhos, à Babilô­
nia e a todos os moradores da Caldéia toda a maldade que fizeram em Sião,
diz o Senhor” (Jr 51.24). Babilônia agiu conforme a sua cobiça e deu vazão
à sua própria maldade, entretanto, em última análise, agiu como Deus havia
determinado. Ao mesmo tempo, Babilônia e seu imperador seriam castiga­
dos por Deus por causa disso.
Muitos outros casos podem ser considerados e demonstram o concursus
nos atos maus de homens maus, como por exemplo, o caso de Jeroboão
(lR s 14.10; 15.27-30); de Roboão (lRs 12.13-15; 22-24); do rei da Assíria
(Is 10.5-15); de Absalão (2Sm 16.20-23; 12.11,12; 17.14) e de tantos outros
casos que demonstram o mesmo que aconteceu com Nabucodonosor.7Em
todos eles, os homens ímpios agiram conforme os seus desejos pecamino­
sos e são culpados por isso, porém, ao agir daquela maneira, estavam fazen­
do o que a vontade decretiva de Deus havia determinado, pois estavam
cumprindo propósitos divinos. De todos os casos, o de Judas, que já foi
tratado no capítulo a respeito da Soberania de Deus e da Responsabilidade
Humana, é o mais evidente. Judas cometeu o crime mais maligno de todos
os tempos: ele entregou o Senhor Jesus para ser morto. Mas Judas fez tudo
aquilo que Deus havia predeterminado (Lc 22.21-22). Entretanto, isto não
180 Razão da esperança

desculpa Judas, pois ele fez também aquilo que a sua própria vontade deter­
minou. O ato mau de Judas colaborou para que o plano divino de salvar a
humanidade se consumasse. Mas o ato de Judas foi mau e de sua inteira
responsabilidade, ao passo que o propósito de Deus é sempre bom. Isso
nos leva a entender que tudo o que acontece neste mundo acontece debai­
xo do olhar e do comando eficaz de Deus. Nada foge ao controle divino,
porém, tudo o que o homem faz, faz de acordo com a sua própria vontade.
O concursus nos ajuda a entender a maneira como Deus age neste mundo e
também como os homens agem. Há uma concorrência entre os dois, po­
rém, não uma simples junção equivalente de forças, como se o homem
fizesse metade e Deus o resto. O fato é que Deus age no homem, levando-
o a fazer a Vontade Suprema, mas sem ferir a responsabilidade pessoal por
cada ato seu, e sem ser o autor do pecado deles. Percebemos, portanto, que
a Escritura ensina que Deus está no controle de tudo, e que até mesmo os
pecados dos homens estão no decreto de Deus. Porém, como observa
Hodge, “Esta providência universal de Deus é tudo o que a Bíblia ensina.
Em parte alguma ela tenta informar-nos como Deus governa todas as coi­
sas, ou como seu controle eficaz pode conciliar-se com a eficiência das
causas secundárias’5.8 Resta, portanto, aceitar pela fé que de fato é assim,
ainda que não possamos conciliar tudo na nossa mente. Precisamos aceitar
porque esse é o ensino bíblico, e a Bíblia é a verdade.

Deus go vern a todas as coisas


A perspectiva do governo de Deus é mais um modo de ver a sua provi­
dência. Isso não quer dizer que seja algo necessariamente diferente de pre­
servação e concorrência, pois a providência deve ser vista como um todo.
Ao enfatizarmos a idéia de governo, estamos nos referindo ao propósito
final de Deus para este mundo. Todas as coisas que existem e todos os
acontecimentos são governados para que esse propósito se concretize, pois
como diz Hodge, “se Deus governa o universo, então ele possui algum
grande alvo, inclusive um número infinito de fins subordinados, e ele tem
de controlar a seqüência de todos os acontecimentos de maneira que se
assegure o êxito de todos os seus propósitos”.9
A Bíblia apresenta Deus como o Grande Rei que está assentado no
trono e governa todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. O
que seria do mundo se Deus não tivesse propósitos? Se ele simplesmente
deixasse que tudo acontecesse seguindo o livre curso das decisões dos ho-
Providência: 0 Deus que trabalha 181

mens? Que garantias haveria de que as promessas bíblicas se cumpririam?


Como poderíamos saber que, de alguma maneira, o homem não sabotaria
o plano divino? Toda expectativa de fé se torna muito efêmera se Deus não
tem propósitos e, ao mesmo tempo, poder para realizá-los. A visão que
muitos têm de Deus, como se fosse alguém em constante mutação (proces­
so), sempre se adaptando ao ser humano, apesar de parecer bonita (ao ego
humano), é completamente incompatível com a visão bíblica, e lança fora
toda possibilidade de segurança e confiabilidade nos planos divinos.
Deus tem propósitos. A providência de Deus nos diz que ele guia os
acontecimentos do mundo para um determinado fim. Esse fim é o “bene­
plácito de sua vontade” (Ef 1.5), é o seu supremo propósito para este mun­
do que redunda em “louvor da sua glória” (Ef 1.12). Como já vimos, nada
acontece por acaso, não existe a sorte ou a fortuna, nem destino cego. As
vezes, nós dizemos, “Hoje foi o meu dia de sorte”, e nem percebemos o
quanto essa afirmação é perigosa. Deveríamos evitar falar coisas assim,
pois é como se estivéssemos dizendo que o acaso pendeu para o nosso
lado, e, de alguma maneira inusitada, impensada e não-planejada, nos favo­
receu. Isso tende até mesmo a ser uma forma de idolatria, já que algo está
sendo colocado no lugar de Deus. Essa atitude é muito parecida com a que
teve o povo de Israel depois de ter sido tirado do Egito. Naquela ocasião,
eles fizeram bezerros de ouro para si e disseram: “São estes, ó Israel, os teus
deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Ex 32.4). Também fazemos isso
quando, ao recebermos alguma bênção do Senhor, dizemos, “Mas que sor­
te”. Por outro lado, imaginar que o destino cego é o que guia todas as coisas
não melhora nada. As vezes, as pessoas confundem a doutrina da soberania
de Deus com o fatalismo. A religião islâmica assume um tipo de fatalismo.
O muçulmano, ao deparar com um acontecimento inusitado, costuma di­
zer, “Está escrito”. Esse tipo de fatalismo diz: “O que tiver que ser será”.
Há uma grande diferença entre dizer que Deus dirige a História para os
seus propósitos e dizer que o destino a dirige.10
O destino não tem sentimentos e nem vontade, ele é cego, surdo e mudo.
Nosso Deus tem sentimentos e propósitos, pois ele fala, ouve e age. Não
dizemos, “O que tiver que ser será”; nós dizemos, O propósito do nosso
Deus, a sua vontade boa, agradável e perfeita prevalecerá (Rm 12.2), E ela
sempre será o que é melhor para nós, pois, para isso, todas as coisas coope­
ram (Rm 8.28). Do mesmo modo, não faz sentido a tendência moderna de
que o homem é quem determina o que deve acontecer. Muitos líderes religi­
osos falam em programas de televisão que Deus já liberou todas as suas
bênçãos na pessoa de Jesus, e que agora são as pessoas que precisam tomar
182 Razão da esperança

posse da bênção que está à disposição delas, É como se Deus permanecesse


impassível somente esperando que os homens façam a obra dele. Assim as
pessoas exigem, determinam e rejeitam certas coisas, Na visão destes, a provi­
dência já não é mais uma prerrogativa divina, passou a ser um atributo do
homem. No fundo é uma desconfiança de que Deus tenha os melhores planos
para nós. E isso nada mais é do que falta de fé, por mais que se diga o contrário.
Em comparação com todos esses falsos entendimentos sobre a razão
por detrás de cada acontecimento neste mundo, a doutrina da providência
é uma das mais belas doutrinas para a vida cristã. Ela nos fala do modo em
que Deus preserva e dirige este mundo que ele criou para o cumprimento
dos seus objetivos, Fala do Deus absoluto e transcendente, que está acima
e além do mundo, que não se mistura com a matéria, que é imutável e todo-
poderoso. Mas fala também do Deus próximo, atuante e vivo, que se im­
porta conosco, que está presente e age em cada detalhe da nossa vida. Nada
é demasiado simples ou insignificante que não seja do interesse dele, nada
acontece por acaso, não existe sorte ou fortuna, Deus existe e seus propó­
sitos são eternos. Este é o Deus que causa admiração, pois como diz Isaías,
“Desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem
com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele
espera” (Is 64.4). Nosso Deus, o Criador Soberano, é o Deus que trabalha,
14

Deus de milagres
jm j i« .
%i r W

Como vimos na doutrina da providência, Deus atua na criação o tempo


todo. Isso não significa que toda essa atuação seja miraculosa, pois então,
não haveria como separar o miraculoso do natural. O milagre se refere a
uma providência especial de Deus, tanto que alguns teólogos chamam os
milagres de providentia extraordinaria, referindo-se a um acontecimento que
não segue as leis secundárias estabelecidas por Deus. Milagre é quando
Deus deixa de lado a ordem estabelecida por ele próprio para agir de modo
extraordinário. Vamos explicar assim: as coisas deveriam seguir um deter­
minado rumo, porém, Deus suspende esse rumo natural por meio do seu
poder que está acima da natureza, neutralizando o resultado natural, e em
seu lugar produz algo sobrenatural.
O seguinte relato descreve a experiência de um suposto milagre:

Um dia, estávamos no meio de uma multidão de pessoas sofridas e ansiosas


numa igreja em São José, na Califórnia. Era fácil notar a dor em seus sem­
blantes. Acabamos de pregar e falamos como sempre: quem quer receber
uma graça do Senhor? E apareceram diversas pessoas. Um homem se apro­
ximou, e disse: eu tenho a minha perna direita mais curta que a esquerda
4cm. Será que o senhor pode orar por mim? Eu lhe respondi: tenho orado
por muita coisa, mas nunca orei para uma perna crescer. Puseram uma
cadeira em frente ao primeiro banco para nela ele espichar as pernas. Com
ele ali fiz a minha oração (...) e a perna do homem foi esticando, crescen­
do... E se igualou à outra!1

Relatos como esse podem ser encontrados em livros e em programas de


televisão. Milagres cada vez mais impressionantes são reivindicados por todo
tipo de pregadores e evangelistas, como um atestado de autenticidade e auto­
ridade divina. Parece estar havendo uma nova onda de milagres ao redor do
mundo. Porém, até que ponto podemos confiar nesses relatos? Até que pon­
to eles são verdadeiros? E até que ponto os milagres realmente atestam a
autoridade divina? Na verdade, todas as culturas do mundo são extremamen­
184 Razão da esperança

te ficas em relatos de milagres. Não há um único povo que não tenha crença
em intervenções sobrenaturais. Todas as religiões do mundo exibem “pro­
vas” de que milagres aconteceram dentro de seus arraiais, e alguns milagres
são supostamente comprovados cientificamente,2 Porém, será que milagres
realmente acontecem? Será que acontecimentos sobrenaturais realmente ocor­
rem, ou não passam de mitos e lendas criados pela fértil imaginação das
pessoas que, desejosas de ver algo sobrenatural, exageram nos relatos? Será
que os diversos milagres registrados na Bíblia podem ser considerados verídi­
cos? E será que ainda há milagres hoje como nos tempos bíblicos?

Definição de m ilagre
Atualmente, há uma banalização do termo milagre, a palavra perdeu o
sentido verdadeiro. Alguém acerta um objetivo difícil num jogo e ouve-se
a expressão: “Milagre”! Alguém escapa “por um triz” de algum acidente e
isso é chamado de milagre.3 Alguém acerta uma questão difícil numa pro­
va e pensa que isso foi um milagre. Na verdade, esses acontecimentos não
são verdadeiros milagres porque podem ser explicados. E certo que, mui­
tas vezes, eles são estranhos e não muito rotineiros, porém, são perfeita­
mente explicáveis, pois ocorreram por causa da combinação de certos fa­
tores. O milagre verdadeiro, porém, sempre será inexplicável da perspecti­
va humana. Suas causas não podem estar na natureza ou na simples com­
binação de elementos. O milagre é um acontecimento “sobrenatural”, o
que já indica que não pode ser comprovado ou produzido pela natureza.
Nesse senddo, o nascimento de um bebê, por exemplo, não é um milagre,
por mais que esse acontecimento seja grandioso, e até certo ponto, algo
que ultrapassa o entendimento humano. O nascimento de uma criança
pode ser explicado a partir das leis da concepção. Porém, o mesmo não se
pode dizer do nascimento de um bebê de um ventre estéril, pois não há
explicações para isso, a menos que algum tipo de tratamento o explique,
mas então, não seria milagre. E preciso entender que o milagre é um ato
extraordinário de Deus, e que “ele não difere do curso ordinário da nature­
za porque requer que Deus exerça o seu poder de modo grandioso, mas
porque ele requer de Deus exerça o seu poder de um modo diferente”.4
Isso é muito importante, pois não significa que Deus precise usar mais do
seu poder para realizar um milagre, do que, por exemplo, fazer o sol apare­
cer amanhã. Ambos os acontecimentos dependem da onipotência divina;
a diferença não está no poder, mas no propósito. Os milagres sempre são
Deus de milagres 185

realizados por Deus com algum propósito especial, daí a idéia de provi­
dência especial. Hodge define milagre como “Um acontecimento no mun­
do externo produzido pela eficiência imediata ou simples volição de Deus”.5
Ele usa essa definição para diferenciar o milagre dos demais atos providen­
ciais de Deus, bem como das atuações do Espírito Santo na conversão de
uma pessoa.
Adotamos aqui, a definição de Young:

Milagre é um ato, realizado no mundo externo pelo poder sobrenatural de


Deus, contrário ao curso comum da natureza (embora não necessariamente
levado a efeito contra os meios ordinários da natureza), e seu propósito é
servir de sinal ou comprovação. Um milagre, por conseguinte, não deve ser
considerado meramente como uma obra poderosa, mas como uma obra
poderosa designada para comprovar os propósitos redentores de Deus.6

Explicações inaceitáveis
A explicação que muitos dão para certos milagres bíblicos elimina total­
mente a idéia de milagre. Por exemplo, dizem que os israelitas atravessaram
o Mar Vermelho aproveitando um local de pântanos cheio de plantas acima
da água, sobre as quais passaram, em vez de terem atravessado o mar aber­
to por Moisés. Em geral, as pessoas que tentam achar uma explicação “ra­
cional” para os milagres são direcionadas por pressupostos anti-sobrenatu-
ralistas. Como elas têm dificuldade para aceitar que possam existir aconte­
cimentos sobrenaturais, tentam explicar de outra maneira, mas acabam anu­
lando a existência do milagre,7 O relato bíblico não dá o menor apoio a
essa idéia, pois diz que os israelitas atravessaram a pé enxuto (Ex 14.29), A
estrela de Belém é outro objeto de reinterpretação. Dizem que foi apenas
um brilho mais intenso de alguma estrela, uma combinação estelar, o plane­
ta Vênus, ou o cometa Halley. E preciso que se diga que, se foi apenas isso,
então não aconteceu um milagre realmente. Porém, fica difícil manter essa
explicação diante da afirmação bíblica de que os magos seguiam a estrela,
que por fim parou sobre o local onde Jesus estava (Mt 2.1-9). Um outro
milagre que é reinterpretado é o da multiplicação dos pães e dos peixes 0o
6.1-14). E dito que não teria acontecido um milagre no sentido de algo
extraordinário, mas que, simplesmente o fato de o menino ter repartido o
seu pão e os seus peixes fez com que todos os demais tivessem sido desper­
tados para repartir também o alimento que tinham escondido, de modo
que todos puderam se fartar. Essa é mais uma engenhosa explicação huma­
na para um milagre divino, mas que é antibíblica e elimina a própria exis-
186 Razão da esperança

tência do milagre, pois “Um milagre que pode ser explicado cientificamen­
te não é um milagre em absoluto”.8
Alguns estudiosos afirmam que os milagres são simples exceções da
natureza como a conhecemos. O que isso quer dizer é que se tivéssemos
um conhecimento mais completo da natureza, poderíamos explicá-los de
modo perfeitamente natural. Esse conceito é insustentável não só porque
prevê duas naturezas, bem como porque priva o milagre do seu caráter
excepcional.9 Novamente teríamos que dizer que, se esse fosse o caso, não
haveria milagre no sentido específico da palavra, porque haveria uma expli­
cação natural para ele, embora não a conhecêssemos.

Sobrenatural

Quando dizemos que milagres são acontecimentos sobrenaturais, é im­


portante lembrar que isso é da perspectiva humana. Como diz Shedd, “mi­
lagres não são acontecimentos antinaturais; eles são naturais para Deus”.10
Os milagres, no sentido exato da palavra, contradizem a natureza, confor­
me a reconhecemos neste mundo, embora estejam em perfeita harmonia
com a natureza de Deus. Jesus ter transformado água em vinho, ou ressus­
citado Lázaro de entre os mortos depois de quatro dias são exemplos claros
de operações contra ou sobre as leis da natureza. De todos os milagres, a
ressurreição de Lázaro foi o mais impressionante. O corpo de Lázaro esta­
va em decomposição, seguindo o curso normal da natureza. Jesus inter­
rompeu esse curso natural de decomposição e depois reverteu o processo
aceleradamente, fazendo com que, num instante, fosse restaurado o que
estava já em estado de putrefação (Jo 11.39-44). O que ele fez ali foi contra
a natureza, e absolutamente sem explicação natural.11
Os milagres podem não conter nenhum elemento natural; porém, nos
casos em que algum elemento natural está envolvido, este é usado de ma­
neira totalmente extraordinária. Deus pode até mesmo usar um meio natu­
ral para realizar o milagre, como por exemplo, a estrela de Belém, porém,
fica bem claro que o resultado configura-se em algo impossível apenas por
meio dos meios naturais.12

Necessários

A existência do milagre é algo totalmente necessário ao próprio caráter


de Deus, pois ele é o Deus que age. Um conceito de um Deus imóvel, que
não interfere na natureza, não é um conceito autêntico de Deus. Quando
Deus de milagres 187

Jesus se manifestou, uma das coisas que ficou bem clara era a sua atuação
miraculosa como comprovação de seu apostolado celestial. Desde o batis­
mo, Jesus demonstrou a seus discípulos que eles veriam os céus abertos em
franca atuação, Os milagres de Jesus apontavam para o seu caráter; a idéia
era demonstrar que nele estava o poder sobre as enfermidades, sobre as
dificuldades e sobre a própria morte. Berkhof entende que o milagre está
intimamente ligado à existência do pecado. Ele diz: “A entrada do pecado
no mundo torna necessária a intervenção sobrenatural de Deus no curso
dos eventos, para a destruição do pecado e para a renovação da criação”,13
A síntese dessa idéia é que, como o pecado é algo sobrenatural, no sentido
de que aconteceu fora da naturalidade, Deus precisou agir também de ma­
neira sobrenatural. Assim, os milagres seriam uma demonstração divina de
que Deus está agindo firmemente no mundo com propósitos redentores.
Isso se encaixa perfeitamente na definição de providência especial.

0 propósito dos m ilagres


Os milagres também são chamados na Bíblia de “sinais”. Um sinal aponta
para alguma coisa, e normalmente não para si mesmo. Um sinal de trânsito,
por exemplo, não pretende chamar a atenção para si mesmo, e, sim, apon­
tar para uma situação importante. Assim, os milagres não são simples de­
monstrações de poder para impressionar as pessoas, mas eles têm um pro­
pósito. Os sinais de Cristo nunca eram praticados com fins egoístas ou com
o propósito de se mostrar às pessoas. Na realidade, eles tinham sempre o
propósito de glorificar a Deus, relacionar de modo fundamental a base
sobrenatural da revelação e, também, satisfazer e aliviar as necessidades
humanas.

Obsessão p o r mila gr es

Nos dias atuais, as pessoas têm alegado realizar milagres, e em geral


esses milagres apontam somente para si mesmos, Eles acabam sendo um
“fim em si mesmos”. Não é de hoje que as pessoas querem ver sinais ape­
nas para se impressionarem. Paulo disse: “Os judeus pedem sinais” (ICo
1.22), referindo-se à exigência do povo judeu de ver milagres para crer. O
próprio Jesus foi confrontado por algumas pessoas com a seguinte exigên­
cia: “Mestre, queremos ver da tua parte algum sinal” (Mt 12.38). Percebe-
se, portanto, que desde aquele tempo, os homens já eram ávidos por verem
188 Razão da esperança

coisas extraordinárias. Jesus censurou as multidões que o seguiam queren­


do ver milagres, dizendo: “Se, porventura, não virdes sinais e prodígios, de
modo nenhum crereis” (Jo 4.48). Tristemente, apesar de terem visto tantos
sinais, elas não creram, conforme a Escritura afirma: “E, embora tivesse
feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo 12.37). Freqüente­
mente ouvimos a respeito de pessoas que testemunharam milagres, e tal­
vez, até mesmo tenham recebido curas, mas, no entanto, jamais se firma­
ram na igreja. O que se percebe, portanto, é que Deus tem um propósito
com os milagres, mas não lhe agrada a idéia de que as pessoas focalizem a
atenção no milagre em si, nem que vivam ansiosas para ver algum milagre.

C onf ir m aç ão da palavra

Como podemos ver na Bíblia, o maior propósito para tantos milagres


que Deus realizou foi confirmar a Revelação. Evidentemente que essa con­
firmação precisa ser entendida como um “testemunho”, pois “a mais eleva­
da evidência da verdade é a própria verdade”.14 Em Números 14.11, o
Senhor diz: “Até quando me provocará este povo e até quando não crerá
em mim, a despeito de todos os sinais que fiz no meio dele?” Veja que Deus
diz que havia feito sinais suficientes para que o povo cresse, pois os seus
sinais autenticaram a revelação que havia dado por meio de Moisés. No
Novo Testamento, isso pode ser visto de modo ainda mais claro quando
Jesus comissionou os seus doze apóstolos para irem por todo o mundo
pregando o evangelho da salvação. A respeito disso, Marcos relata: “E eles,
tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e
confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20). O
mesmo relata Lucas com relação à pregação de Paulo e seus companheiros:
“Entretanto, demoraram-se ali muito tempo, falando ousadamente no Se­
nhor, o qual confirmava a palavra da sua graça, concedendo que, por mão
deles, se fizessem sinais e prodígios” (At 14.3). O objetivo dos sinais, de
acordo com essas passagens, era confirmar a Palavra da graça. Paulo, ao se
dirigir a alguns que duvidavam do seu apostolado, disse que os milagres
eram a credencial de seu ministério recebido do Senhor: “Pois as credenci­
ais do apostolado foram apresentadas no meio de vós, com toda a persis­
tência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos” (2Co 12.12). E Pedro
disse que a Palavra profética foi confirmada pela interferência miraculosa
do próprio Deus que falou dos céus autorizando o seu Filho, no monte da
Transfiguração: “Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando está­
vamos com ele no monte santo. Temos, assim, tanto mais confirmada a
Deus de milagres 189

palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que bri­
lha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em
vosso coração” (2Pe 1.19,20). A Palavra profética de Deus foi confirmada
de maneira miraculosa e sobrenatural, pois, como diz Calvino, “A impor­
tância dos milagres é que eles nos despertam para alguma verdade particu­
lar sobre Deus”.15

As três g r a n d e s épocas

Ao fazermos uma análise mais cuidadosa da Bíblia, percebemos que


houve três ocasiões cruciais na História em que as operações miraculosas
foram grandiosas: no período de Moisés, no período dos profetas e no
período de Jesus e dos apóstolos. O que esses três momentos históricos
têm em comum? Foram as ocasiões em que as maiores porções da Escritu­
ra surgiram, o que nos leva a concluir que os milagres aconteceram para
confirmá-la, daí, portanto, as principais concentrações de sinais e maravi­
lhas. No período de Moisés, o Pentateuco foi escrito, e Moisés realizou as
dez pragas, abriu o Mar Vermelho, tirou água da rocha, e muitos outros
sinais que confirmavam a sua autoridade. No período dos profetas, espe­
cialmente Elias e Eliseu, também houve muitos milagres, e surgiram os
escritos que compõem a maior parte do Antigo Testamento. Já no período
de Jesus e dos apóstolos, foram realizados milagres como nunca na Histó­
ria, e foi nesse período que todo o Novo Testamento foi escrito.

M i la g r e s pa ra c o n d e n a ç ã o

Os milagres também servem para juízo do povo. Quando os fariseus e


escribas tentaram colocar Jesus contra a parede ao exiginr um milagre para
comprovar a sua messianidade, Jesus disse: “Uma geração má e adúltera
pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas.
Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande
peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da
terra. Ninivitas se levantarão, no Juízo, com esta geração e a condenarão;
porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é
maior do que Jonas” (Mt 12.39-41). O único sinal que Jesus daria para os
seus inimigos seria a sua ressurreição depois de três dias de sua morte. Jesus
ainda estava chamando a atenção para outra coisa: o fato de os ninivitas
terem crido na pregação de Jonas sem que Jonas tivesse realizado qualquer
milagre. Ao contrário do povo que supostamente só acreditaria se visse
190 Razão da esperança

milagres, os ninivitas creram sob a exclusiva autoridade da palavra de Jonas.


Jesus demonstrou que os israelitas eram mais duros de coração do que os
ninivitas. Eles tinham todos os motivos do mundo para crer e não creram,
ao passo que os ninivitas tinham poucos motivos para crer e, ainda assim
creram, por isso, os próprios ninivitas seriam juizes dos israelitas. O grande
milagre de Jonas foi ter convertido toda uma cidade sem realizar um único
sinal. Talvez, com isso, Jesus estivesse querendo dizer que os verdadeiros
crentes não precisam de sinais para crer, pois a sua fé vem pela pregação da
Palavra de Deus (Rm 10.17). Isso está em perfeita harmonia com as pala­
vras de Jesus dirigidas a Tomé, o discípulo que somente creria quando visse
Jesus e tocasse nele: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não
viram e creram” (Jo 20.29). Crer sem ver é melhor do que ver para crer. Em
outra ocasião, Jesus disse: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se
em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fize­
ram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza”
(Mt 11.21). Nessas cidades, apesar de tantos milagres e sinais, não houve
muitas conversões. Disso vemos que os sinais, muitas vezes, são mais usa­
dos para a condenação do que para a conversão.

Ainda há m ilagres hoje?


A resposta depende muito do que se entende por milagres. Se quem faz
essa pergunta entende por milagre o fato de que Deus está vivo e ativo
neste mundo, e que, por meio de sua providência, ele influi nos aconteci­
mentos relacionados aos seres humanos, a resposta terá que ser inegavel­
mente: Sim. Se, com essa pergunta alguém está querendo saber se Deus
ouve as orações do seu povo e as responde e atua miraculosamente na vida
deles, novamente não pode haver outra resposta senão a positiva. Milagres
podem acontecer hoje, porque o Deus da Bíblia não é distante e impessoal,
mas próximo e pessoal, que dirige a História para o cumprimento dos seus
objetivos e, para isso, providencialmente, ele atua em todas as coisas, ora de
modo imediato, ora fazendo uso de meios secundários. Isso significa, por­
tanto, que às vezes Deus dirige o mundo por meio de leis preestabelecidas,
e que, em outras ocasiões, ele atua diretamente, de maneira miraculosa,
conduzindo a História para o seu propósito. Para ele não faz qualquer dife­
rença, mas para nós faz. Embora devêssemos reconhecer o cuidado divino
por meio de milagres ou da providência invisível, ambos demonstram a
bondade dele. O argumento utilizado por muitos de que os milagres cessa-
Deus de milagres 191

ram com os apóstolos não é muito convincente. O Novo Testamento não


diz que somente os apóstolos realizavam milagres.16 E Jesus disse que mila­
gres acompanhariam os que cressem (Mc 16.17).
Entretanto, se, por milagres, as pessoas entendem que devem ocorrer
hoje as mesmas demonstrações de poder conforme estão registradas na
Bíblia, os mesmos ministérios de cura e operação de sinais e prodígios que
vemos na vida de Paulo, Pedro, Moisés ou Elias, pensamos ter motivos
suficientes para responder que não. São três os argumentos principais que
podem ser usados nesse sentido, um da teologia, um dos fatos e um da
própria Bíblia.

Evidência teológica
Não estamos dizendo que milagres não acontecem, mas que não acon­
tecem mais milagres iguais, e nem na mesma proporção aos dos tempos
bíblicos. Como o objetivo dos milagres feitos em larga escala era o de au­
tenticar a revelação divina, hoje, por não haver mais revelação, não há a
mesma necessidade dos milagres como no passado, pois não vivemos num
período revelacional de Deus, Isso não quer dizer que vivemos numa época
inferior a de nossos antepassados; na verdade, talvez esta seja uma época
até superior, pois já dispomos da revelação completa e registrada, que é a
Escritura Sagrada. Historicamente, a igreja cristã tem defendido o fecha­
mento do cânon, ou seja, que o último livro inspirado pelo Espírito Santo
foi o Apocalipse de João e que, após esse livro, não houve outro inspirado.
Isso não quer dizer que Deus não “fale” mais nos dias de hoje, mas que ele
“fala” fazendo uso da revelação que é a sua Palavra. Com o cânon fechado,
não há necessidade de sinais em larga escala para autenticá-lo.

Evidência fa ct u a l
Além disso, há um argumento que pode ser retirado dos fatos. O que
queremos dizer com isso é que esses sinais, conforme os apóstolos realiza­
vam, não têm sido vistos nos dias atuais. Alguém pode argumentar: Mas, e
as curas e milagres que estão acontecendo em tantas igrejas evangélicas?
Deve ser dito que o mesmo é reclamado nas igrejas católicas, nos centros
espíritas, e em todas as formas de religião existentes ao redor do mundo.
Muitos “milagres” de hoje são fraudes comprovadas, e a maioria dos que
não foram desmascarados, também não foi comprovada. O tipo de milagre
mais reivindicado hoje é aquele em que o líder religioso dirige-se à congre-
192 Razão da esperança

gação dizendo: “Irmãos, Deus me revelou que nessa fileira de bancos à


minha direita tem alguém com problema num dos rins, mas que agora foi
curado. Aqui na frente tem alguém com dor nas costas; lá atrás uma mulher
que brigou com o marido, etc”. E assim as curas e soluções vão sendo
distribuídas, supostamente comprovadas, de maneira imediata. Convém que
entendamos que não era dessa maneira que os milagres ocorriam no tempo
dos apóstolos. Nem as curas eram meras expulsões de dor de cabeça, pro­
blema nas costas ou dor de barriga, mas aleijados de nascença que eram
curados, doenças hereditárias que eram interrompidas e até mortos que
eram ressuscitados. Alguns dizem estar fazendo isso hoje em dia, mas a
única prova que apresentam é a sua própria palavra.

Evidência bíblica

A Bíblia também indica que os milagres hoje não precisam ser iguais aos
dos tempos apostólicos. Deus manifestou poderes extraordinários quando
quis que o evangelho fosse pregado em todo o mundo. Não é difícil imagi­
nar o motivo. Pense bem, como um grupo de galileus, simples pescadores,
levaria a mensagem do evangelho aos confins do mundo, tendo contra si a
mais poderosa instituição que já existiu, o Império Romano? A resposta é:
Na força do poder de Deus. Deus muniu os seus humildes discípulos de
poderes especiais para que eles cumprissem a impossível tarefa, da perspec­
tiva humana, de proclamar a mensagem da salvação ao mundo inteiro. Im­
pressiona o fato de que, por volta do ano 30 desta era, havia cerca de 120
discípulos que seguiam o Senhor, mas dentro de sessenta anos, o evangelho
já estava nas fronteiras do mundo civilizado, distribuído por todas as cama­
das da sociedade, de escravos a nobres, das cidades bárbaras a Roma. Os
milagres abriram as portas para a pregação do evangelho.
Percebe-se, entretanto, que mesmo essas demonstrações de poder não
subsistiram durante todo o ministério apostólico. Deus não parece ter dado
a Paulo, no final do ministério dele, o mesmo poder que ele tinha no início.
A Bíblia diz que, quando Paulo chegou a Efeso, durante dois anos, pregou
a palavra “dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a pala­
vra do Senhor” (At 19.10). Em seguida, Lucas relata: “E Deus, pelas mãos
de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos
lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugi­
am das suas vítimas e os espíritos malignos se retiravam” (At 19.11,12).17
Essa demonstração de poder vinda de Deus tinha como objetivo mostrar
que a pregação de Paulo era verdadeira. Claramente, esse mesmo poder já
Deus de milagres 193

não é visto na vida de Paulo anos mais tarde, quando as igrejas já estavam
organizadas e o evangelho era conhecido em quase todo o mundo. Nem
mesmo seu fiel companheiro Timóteo foi curado por Paulo, como o pró­
prio Paulo reconhece: “Não continues a beber somente água; usa um pou­
co de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermida­
des” (lTm 5.23). Por que Paulo não colocou um avental sobre Timóteo
para que ele fosse curado? Com respeito a outro de seus ajudantes, Paulo
diz: “A Trófimo, deixei-o doente em Mileto” (2Tm 4.20). Se Paulo teve
durante toda a sua vida o poder extraordinário para curar, por que não teria
curado Trófimo? Teria ele perdido a fé? Não é o que parece. Inclusive, é
possível que uma enfermidade tenha sido a maior provação pela qual o
próprio Paulo passou durante o seu ministério. Estamos nos referindo àquilo
que ele chama de “espinho na carne”, e do qual diz que orou três vezes ao
Senhor para que o retirasse dele, mas recebeu uma resposta negativa quan­
to à cura, porém positiva quanto a ter forças para resistir: “A minha graça te
basta” (Ver 2Co 12.7-9). Diante dessas evidências bíblicas que muitas vezes
passam despercebidas pelas pessoas, chegamos à conclusão de que Deus
usou milagres de maneira mais concentrada durante o período inicial da
pregação do evangelho e que, aos poucos, as manifestações miraculosas
foram diminuindo. Não que necessariamente elas tivessem cessado, mas
que cumpriram um papel designado por Deus para uma época específica.
Talvez a maior diferença entre aquela época e esta esteja na maneira como
Deus operava milagres naquele tempo e como opera hoje. Então, os após­
tolos eram os instrumentos diretos de Deus - eles ordenavam e acontecia.
Hoje, Deus cura pela oração da igreja, porém, hoje como ontem, os mila­
gres sempre aconteceram de acordo com a “vontade de Deus”.

As obras m aiores

Um argumento muito usado nos dias atuais para contrariar a noção ex­
posta acima é baseado nas palavras de Jesus registradas em João 14.12:
“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará tam­
bém as obras que eu faço e outras maiores fará”. Há pregadores dizendo
que podemos realizar milagres maiores do que o próprio Jesus realizou se
tivermos fé suficiente. Entre os feitos de Jesus, lembramos que ele andou
sobre as águas, multiplicou pães, fez tempestades se acalmarem, ressuscitou
um morto de quatro dias, fez um homem andar sobre as águas, devolveu a
visão a cegos de nascença, restaurou paralíticos, etc. Será que alguém na
História ultrapassou o número e a grandeza desses milagres? Não é preciso
194 Razão da esperança

ter dúvidas: ninguém fez sinais maiores do que Jesus. Os apóstolos fizeram
grandes sinais, mas se fizermos duas listas, veremos que eles não se compa­
ram com os de Jesus. Em toda a história da igreja ninguém fez sinais como
Jesus. Então, não faz sentido pensar que Jesus estivesse falando em “maio­
res obras” como milagres maiores. Porém, não é difícil entender o que
Jesus tem em mente, Quando pensamos que Jesus restringiu o seu ministé­
rio apenas à nação de Israel, e que durante todo o seu ministério, cerca de
apenas 120 pessoas se mantiveram fiéis a ele, podemos entender o real
sentido de suas palavras, Num único sermão de Pedro, após o Pentecostes,
se converteram três mil pessoas, e, posteriormente, o evangelho foi levado
pelos apóstolos até os confins da terra. Estas eram as obras maiores, não
milagres maiores, mas uma obra de amplitude maior do que a do próprio
Jesus, Essa obra foi realizada pelos apóstolos, e nós continuamos a realizar
hoje, porém, é o próprio Senhor quem nos capacita. De qualquer modo,
continua sendo obra dele.

M ila gres mentirosos


É, portanto, inegável que atualmente Deus opera milagres, apesar de
não operar como no início da pregação do evangelho, ou nos períodos de
revelação. Porém, é um fato que muitos supostos milagres são psicológicos,
frutos da imaginação e do emocionalismo das pessoas. Uma doença psico­
lógica só pode receber uma cura psicológica. Isso quer dizer que nem a
doença nem a cura eram reais. Na expectativa de verem coisas sobrenatu­
rais, as pessoas freqüentemente as vêem, pois a mente é hábil em criar essas
coisas. Não são poucos os relatos de pessoas que, ao participarem de um
momento de êxtase emocional, se sentiram curadas, mas depois voltaram a
apresentar os mesmos sintomas. Até mesmo aleijados se levantam num
momento de extrema pressão psicológica e emocional, mas após passar o
frenesi do momento, voltam a ser dominados pelas retenções dos múscu­
los e, pelo esforço indevido, ficam piores do que antes, Mas infelizmente há
muitos que estão se promovendo à custa da ingenuidade das pessoas.
Por outro lado, milagres reais podem acontecer e, ainda assim, serem
mentirosos. Mateus 7.21-23 diz: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!
entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que
está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Por­
ventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não
expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então,
Deus de milagres 195

lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que


praticais a iniqüidade”. Dá para imaginar a surpresa dessas pessoas diante
do Senhor Jesus quando ele lhes disser: “Nunca vos conheci”. É muito
difícil para a mente da pessoa conceber que ela viu e até mesmo realizou
milagres em nome de Jesus, e que Jesus não a conhece. Porém, é isso o que
o próprio Jesus disse que acontecerá no dia da sua vinda. Observe que
Jesus não disse que os milagres não haviam acontecido, mas simplesmente
que a existência deles não provava que os operadores eram crentes verda­
deiros. Até aqui já sabíamos que alguém pode ver e receber um milagre e
não ser convertido, e agora ficamos sabendo que alguém pode até mesmo
realizar um milagre sem ser convertido. De acordo com Jesus, o que faz de
uma pessoa alguém que ele “conhece”, não é o fato de ela ter visto ou
operado algum milagre, mas se ela faz a “vontade dele”. A vontade do
Senhor está registrada na sua Palavra, a Bíblia.
Não devemos esquecer que o próprio Satanás é perito em operar prodí­
gios e sinais. A Bíblia tem anunciado que a manifestação final do maligno
será recheada de acontecimentos sobrenaturais. Jesus disse que “surgirão
falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para en­
ganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24). Paulo também falou que
“o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder,
e sinais, e prodígios da mentira” (2Ts 2.9). Satanás é um imitador de Deus;
ele procura produzir obras semelhantes às de Deus a fim de confundir os
homens. Nessa passagem (2Ts 2.9), fica claro que Satanás se vale de todos os
recursos a ele disponíveis, contudo, como não poderia ser diferente, ampara­
do na “mentira”, já que ele é seu pai (Jo 8.44). E a segunda besta que João viu
e registrou no Apocalipse, e que representa a religião dominada pelo malig­
no, “também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz des­
cer à terra, diante dos homens. Seduz os que habitam sobre a terra por causa
dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta” (Ap 13.13,14). João não
poderia usar uma palavra mais precisa para demonstrar o efeito que os mila­
gres causam nas pessoas do que “seduzir”. O maligno seduz as pessoas lhes
dando o que elas mais querem. O desejo desenfreado do ser humano por ver
milagres será, afinal, como já tem sido, usado contra ele mesmo.

M ila gres substituindo a m e n s a g e m


Precisamos meditar ainda sobre o perigo de os milagres ocuparem o
lugar da mensagem. Isso é uma aberração, pois Jesus realizava milagres
196 Razão da esperança

justamente para chamar a atenção para a sua mensagem. Jesus operou mui­
tos milagres, mas nunca colocou os milagres no centro do seu ministério. O
centro era o seu ensino, era a sua própria pessoa. Quando ele concedeu
autoridade aos discípulos para realizarem sinais, eles voltaram alegres por
causa do poder que agora tinham, mas ele disse que eles deveriam se alegrar
pelo fato de seus nomes estarem escritos no céu (Lc 10.20). Jesus curou o
cego logo após dizer: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12; 9.1ss). Quando
multiplicou os pães, ele afirmou: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.1-14,35).
Quando ressuscitou Lázaro, ele disse: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo
11.25). Seus milagres apontavam para a sua mensagem.
Gradualmente, o mundo tem deixado de ser racionalista para ser
espiritualista. Até bem pouco tempo atrás, tudo o que não podia ser com­
provado cientificamente era considerado como uma farsa. Não havia espa­
ço para o sobrenatural. Porém, as coisas já não são rigorosamente assim.
Uma prova disso é o movimento da Nova Era. Esse movimento une ciên­
cia com mágica. Ao mesmo tempo em que usa a tecnologia, mergulha no
ocultismo. De fato, cada vez mais as pessoas crêem no oculto, no espiritual.
Os livros mais vendidos atualmente são os que visam despertar as pessoas
para a espiritualidade. Livros que falam de anjos, mantras, espiritismo e
toda sorte de ocultismo vendem como água. A cultura moderna está se
movendo rapidamente para a superespiritualidade, ou melhor, para a su­
perstição. Isso se torna cada vez mais evidente “à medida que alguns repu­
tados cientistas, filósofos e artistas de todos os tipos expressam hostilidade
aberta contra o pensamento racional e voltam-se na direção de uma mistu­
ra de mágica e ciência”.18
Vivemos na chamada “terceira onda do Espírito”,19 em que grande ênfa­
se é colocada nos sinais e maravilhas, e somente é considerado como evan­
gelho verdadeiro aquele que contém o maior sensacionalismo. Essa ênfase
está acontecendo no mundo inteiro. Na igreja, isso já está sendo considera­
do como evidência da verdade. Se não existirem sinais e prodígios, Deus não
está se manifestando. Uma característica desse movimento é que ele quase
não fala na Bíblia. O evangelho pregado é praticamente destituído dos ver­
dadeiros elementos bíblicos: a cruz e a ressurreição de Cristo. As pessoas
não se importam se as experiências podem ser comprovadas pela Escritura,
ou mesmo se são abertamente confrontadas por ela. A experiência vale por
si mesma. Se algum sinal aconteceu, então elas dizem que é de Deus. Igno­
ram que mais de quinze mil pessoas por ano dizem ter sido curadas em
Lourdes. Em cada edição da Sentinela da Ciência Cristã há muitos relatos de
curas. Muçulmanos paquistaneses dizem que um de seus reverenciados san-
Deus de milagres 197

tos, Baba Farid, tem curado pessoas de doenças fatais. Milhares de hindus, a
cada ano, dão testemunho de curas em seus templos. Portanto, se os sinais
comprovam a verdade, todas essas religiões são verdadeiras.
Com tristeza, podemos ver que a tendência evangélica atual é colocar os
milagres no centro de tudo. Livros evangelísticos somente falam de sinais e
não têm uma palavra sobre a cruz de Cristo, sobre santidade ou compro­
misso. Sermões evangelísticos deixam a Bíblia de lado para se concentra­
rem em ricas e comoventes histórias de milagres pessoais. Somos admoes­
tados pela Palavra de Deus a não nos desviarmos da centralidade de Cristo.
Não devemos nos deixar fascinar por nada que queira nos desviar da obra
redentora de Cristo. O conteúdo central da nossa mensagem precisa ser a
do Cristo crucificado, a qual Paulo diz ser escândalo para os judeus que
queriam apenas sinais e loucura para os gregos que buscavam sabedoria
(ICo 1.22,23).

Conclusão
Milagres são intervenções divinas sobrenaturais, mediante as quais Deus
age revogando as leis da natureza, mas de acordo com a sua vontade pré-
estabelecida. Deus age no mundo hoje e sempre, o que não quer dizer que
ele aja sempre da mesma maneira. Os milagres bíblicos tinham o objetivo
de comprovar a veracidade da revelação divina, e esses milagres não têm
mais acontecido nos dias atuais; porém, Deus age de modo sobrenatural
conforme os seus propósitos, curando e beneficiando de várias maneiras.
Não devemos, entretanto, viver somente em busca de milagres, pois Deus
age por meio de causas secundárias, e uma pessoa pode ser curada de cân­
cer por meio de um tratamento e não apenas por uma intervenção sobrena­
tural. De qualquer modo, o benefício existirá, e terá ocorrido pela provi­
dência de Deus. Devemos lembrar que não é certo louvar a Deus mais pelo
milagre do que pela providência. Certa noite, um pastor recebeu o pedido de
uma irmã, membro de sua igreja, para dar um testemunho. Ela testemunhou
que naquele dia, quando estava voltando da cidade vizinha para a sua cida­
de, ao parar no sinaleiro, dois homens entraram no carro e apontaram uma
arma para ela. Tratava-se de um assalto. Apavorada, silenciosamente come­
çou a orar pedindo por livramento. De repente, sem mais nem menos, ao
parar noutro sinaleiro, os homens desceram do carro e foram embora. De
modo miraculoso, Deus havia livrado a moça do assalto. Esse foi um belo
testemunho, mas ao final do culto o pastor chamou a irmã e disse, “Eu
198 Razão da esperança

também recebi uma graça de Deus hoje, e posso dizer que foi até mesmo
maior do que a sua”. “E mesmo?”, disse a irmã, “O que aconteceu?” O
pastor disse: “Também vim da cidade vizinha, mas nada aconteceu comi­
go”. “Eu não entendi”, respondeu a irmã. “Qual foi a graça?” Ele comple­
tou: “Nenhum assaltante entrou no meu carro, Deus não permitiu”.
15

A queda: A mãe das tragédias


w w

A criação fala da glória do homem criado à imagem de Deus; porém,


uma grande tragédia a co n teceu c o m o h o m em : ele caiu. A doutrina bíblica
do pecado não é uma doutrina muito atraente para a sociedade moderna.
Nos dias atuais, uma vez que é pregada a plena liberalidade, e uma vez que
as pessoas já não acreditam mais que algo seja totalmente certo ou errado,
então, não devemos esperar admiração por ensinar que todos são pecado­
res. A recusa do ser humano em admitir a sua condição decaída impede que
ele se conheça realmente, e trate do verdadeiro problema da sua alma. Com­
preender bem esta doutrina trará uma grande contribuição para viver me­
lhor neste mundo. Somente quando o ser humano reconhece as suas limi­
tações e descansa em Deus é que ele encontra a paz verdadeira e obtém a
salvação da sua alma. A intenção dela, ao contrário do que possa parecer,
não é denegrir o homem; antes, é colocá-lo no seu lugar próprio. Todas as
explicações dadas pela filosofia, pela psicologia, ou mesmo pela genética,
para os problemas da humanidade, sem levar em conta a queda no pecado
falham em diagnosticar o verdadeiro mal do ser humano. E, sem um diag­
nóstico preciso, o tratamento fica comprometido.
A queda está registrada nos primeiros capítulos do livro do Gênesis. O
texto de Gênesis 2,15-17 marca o estabelecimento do homem como admi­
nistrador da criação divina, demonstra os privilégios e as obrigações dele
nessa posição, mas, principalmente enfoca o teste de fidelidade que Deus
propôs ao ser humano. O relato de Gênesis 3.1-13 mostra como o ser
humano falhou nesse teste. A serpente, que segundo a Bíblia representa o
próprio Satanás (Ap 12.9; 20.2), foi o agente que levou o ser humano ao
pecado. Relegar a descrição do Gênesis à categoria de “mito” é ignorar a
intenção do autor, que narra um fato histórico e pretende que seja aceito
como tal. A seqüência do relato é muito simples: a serpente tentou a mu­
lher, levando-a a duvidar da Palavra de Deus. De tal modo a serpente esti­
mulou a mulher, que ela se sentiu atraída pelo fruto proibido e, sem resis­
tência, o comeu e deu ao esposo que, silenciosamente, também comeu.
200 Razão da esperança

Logo eles perceberam o erro que haviam cometido, mas já era muito tarde.
Com vergonha de si mesmos e de Deus, tentaram se esconder dele. Porém,
Deus os encontrou, os interrogou, e eles tentaram se desculpar, tirando a
culpa de si mesmos. Esse é um relato realístico que marca a queda da huma­
nidade, mostrando-nos a estratégia do diabo, a fragilidade do ser humano
pós-queda e a misericórdia de Deus em buscar o pecador, oferecendo-lhe
uma possibilidade de redenção.

Rebelde se m causa
A Bíblia diz que Deus, depois de criar o homem à sua imagem e semelhan­
ça, o colocou no jardim do Éden, e lhe deu a tarefa de cultivar e guardar esse
jardim. Em seguida, lhe deu uma ordem: “De toda árvore do jardim comerás
livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerá;
porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Pou­
cas vezes pensamos em todos os privilégios que o homem tinha no jardim,
afinal ele poderia comer livremente de todas as árvores que lá havia, com exce­
ção de uma. Ou seja, nada lhe faltaria, e ele poderia desfrutar abundantemente
de todas as bênçãos de Deus sempre que quisesse. Essa descrição é útil para
perceber o quanto a queda foi injustificada. Foi uma verdadeira rebelião sem
causa. Isso faz lembrar um pouco dos acontecimentos dos anos 70. Depois
das lutas de resistência às ditaduras ao redor do mundo, um novo tipo de
rebeldia surgiu. Em meio à revolução sexual, musical e intelectual, novos re­
beldes começaram a se levantar, os “delinqüentes juvenis sem causa”. Esses
arruaceiros não faziam tumultos em protesto contra alguma injustiça social,
eles simplesmente protestavam pelo simples prazer de protestar. Hoje, igual­
mente as pessoas assumem posições de protesto e rebeldia, mas a maioria, no
fundo, não têm causa alguma. A primeira rebelião do ser humano também foi
sem causa, mas isso não significa que seja impossível achar um motivo para a
queda. O impossível é achar um motivo justo, muito embora Satanás tenha
convencido Eva do contrário. Devemos pensar na posição de extremo signifi­
cado que Deus conferiu ao homem, feito à sua própria imagem e semelhança;
ele deveria administrar toda a criação, podendo explorar livre e responsavel­
mente todos os recursos naturais do cosmos. Deus apenas queria fazer um
teste de fidelidade, e por isso a “árvore do conhecimento do bem e do mal” foi
posta no meio do jardim. Essa era a única exceção, tudo o mais estava à dispo­
sição do homem. Parece que é próprio da natureza humana não ver as bênçãos
de Deus quando há algum problema ou restrição.
A queda: A mãe das Iragédias 201

Distorcendo a Palavra de Deus

O maligno, porém, foi muito hábil em desviar a atenção dos nossos


primeiros pais. Primeiro, ele tentou corromper a afirmação divina torcendo
suas palavras: “E assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do
jardim?” (Gn 3.1). Na verdade, não havia sido isso o que Deus havia dito,
mas a mulher mordeu a isca: “Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvo­
res do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do
jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não
morrais” (Gn 3.2,3). O grande plano de Satanás foi transformar Deus num
ditador injusto. Se o homem entendesse que Deus estava sendo injusta­
mente exigente, então, seria bem mais fácil induzi-lo ao pecado, e foi exata­
mente isso o que aconteceu. Induzida pela astúcia de Satanás, a mulher
começou igualmente a torcer a Palavra de Deus. Deus não havia proibido
olhar para a árvore, e nem mesmo tocar nela, simplesmente eles não deve­
riam “comer” da árvore. Essa, porém, não foi a única distorção, pois Deus
havia dito: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17).
A morte não era apenas uma possibilidade, era uma certeza absoluta, po­
rém, na resposta da mulher, apenas a possibilidade aparece: “Para que não
morrais”. Quando Satanás viu que havia conseguido enredar o ser humano
na sua argumentação, opôs-se diretamente à Palavra de Deus: “Então a
serpente disse à mulher: é certo que não morrereis” (Gn 3.4). Em outras
palavras, ele disse à Eva: “Deus fala, mas não cumpre”. Como diz Horton,
“o segundo estágio no plano de Satanás foi usar, em Eva, a mesma linha
que havia usado tão efetivamente em si mesmo na sua própria rebelião. Eva
mordeu a isca, e os humanos têm seguido seu exemplo desde então: ‘Vocês
serão como Deus’ (Gn 3.5)”.1 Grande ilusão...

A fuga

Estava dado o golpe final, a mulher e o homem2 eram como passari­


nhos hipnotizados pela serpente. O passo seguinte, uma vez que a dúvida já
estava arraigada no coração, foi sucumbir à tentação e comer da árvore (Gn
3.6). A mulher, atraída pela beleza do fruto e pelas promessas mentirosas
do diabo, comeu do fruto e deu ao marido, que também comeu. A passa­
gem diz que, então, “abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo
que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si” (Gn
3.7). A partir daí, teve início o filme mais repetido da história da humanida­
de: A Fuga. O pecado cortou de uma maneira precoce e dolorida o rela-
202 Razão da esperança

cionamento pessoal do ser humano com Deus. Conscientes do erro, enver­


gonhados de sua nudez e temerosos de se encontrar com Deus, só podiam
tentar fugir da presença dele, escondendo-se por entre as árvores do jardim
(Gn 3.8). Essa é a cena mais trágica que poderia ser descrita. Ela representa
a imensa profundidade do poço em que o homem caiu. Quem antes se
encontrava alegremente com o Senhor para conversar sobre a criação e
para desfrutar da presença santa, agora só pode fugir desesperadamente. A
última coisa que ele desejava era encontrar-se novamente com o criador. A
quebra desse relacionamento com o criador foi o maior prejuízo humano
causado pelo pecado, e mostra o seu verdadeiro caráter. Como diz Plantinga:
“Pecado não é apenas a quebra da lei, mas também a quebra da aliança com
o Salvador. Pecado é uma nódoa na relação pessoal, uma ofensa ao pai
divino e benfeitor, uma traição do companheiro ao qual se está unido por
laços santos”.3 O pecado destruiu o mais importante dos nossos relaciona­
mentos, o relacionamento com Deus. Logo, estariam afetados os aspectos
sociais (familiares) e culturais (trabalho).

A o r i g e m do p ec a d o

A narrativa do Gênesis não se preocupa em dizer quem é o autor do


pecado, ela simplesmente narra o fato de que o pecado entrou no mundo.
Se quisermos entender a sua origem, precisamos considerar várias coisas.
Primeiramente, precisamos lembrar que já houve uma queda, a queda de
Satanás, e, portanto, o mal já existia. Em seguida, precisamos considerar a
atuação de Satanás junto ao ser humano, despertando nele a cobiça. De
alguma maneira, o pecado nasceu dentro do ser humano. Deus precisa ser
excluído de tudo isso, pois, como o Gênesis demonstra, tudo aconteceu no
relacionamento entre Satanás e o ser humano. Embora o decreto permissi­
vo de Deus assegurasse a entrada do pecado no mundo, o mal se originou
em Satanás e no ser humano. Talvez a melhor explicação bíblica para isso
venha da carta de Tiago:

Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não
pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada
um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a
cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez
consumado, gera a morte. Não vos enganeis, meus amados irmãos. Toda
boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes,
em quem não pode existir variação ou sombra de mudança (Tg 1.13-17).
A queda: A mãe das tragédias 203

Tiago está falando sobre a tentação para cristãos já regenerados, mas é


possível traçar um paralelo com a queda.4 Ele faz questão de dizer que a
tentação não pode vir de Deus, porque Deus não é tentado, nem tenta
ninguém. Essa declaração demonstra uma antítese absoluta entre Deus e o
mal.5 Portanto, Deus não pode ser o autor da tentação e muito menos da
consumação do pecado. Em seguida, Tiago diz de onde vem a tentação: ela
vem de dentro do ser que peca. Em primeiro lugar, surge a cobiça. A cobiça
se torna como que “grávida”, e então gera o pecado que, por sua vez, acar­
reta a morte. Em seguida, vem uma advertência: não vos enganeis. E um
sério engano imaginar que o pecado e o mal possam vir de Deus. De Deus
só podem vir coisas boas, ele é o Pai das luzes, a sombra não é uma possi­
bilidade no seu caráter. O que fica bastante claro na declaração de Tiago é
que a origem do pecado está dentro do próprio homem.6 Se isso der ori­
gem à pergunta sobre se Deus colocou dentro do homem esse desejo, só
podemos dizer que Deus concedeu liberdade ao primeiro homem para que
escolhesse. O pecado se originou dentro do homem, isso é tudo o que
podemos dizer.7

Independência fracassada
O espírito da nossa época é o de quebra de tabus. As pessoas dizem que
a única coisa que deve ser proibida é proibir. Todos devem ter liberdade
para fazer o que quiser com a própria vida. Porém, será que essas pessoas
que foram liberadas para fazer o que quiserem são realmente livres? As
pessoas são livres para fazer sexo tanto quanto para contrair o vírus da
Aids. Afinal de contas, do que é essa liberação? Que liberdade tem um
viciado em cocaína no fato de poder usar a droga onde e quando bem
quiser? “Seus olhos serão abertos” prometeu Satanás (Gn 3.5), mas, como
diz Horton, “ele sempre foi mentiroso”.8
Na verdade, foi Jesus quem disse: “Ele é o pai da mentira” (Jo 8.44).

Cada vez m a is trágico

Quando vemos a queda em contraste com a glória da criação, podemos


entender um pouco da tragédia do pecado. Todas as áreas da vida humana
foram afetadas, e nada do que foi criado por Deus foi deixado intacto. A
queda no pecado nos deixou corruptos, pois “a depravação significa que o
mal contaminou cada aspecto da humanidade - coração, mente, personali-
204 Razão da esperança

dade, emoções, consciência, razões e vontade (ver Jr 17.9; Jo 8.44)”.9 Ela


nos deixou corruptos fisicamente, emocionalmente, psicologicamente,
mentalmente, moralmente e espiritualmente. Quando o nosso relaciona­
mento com Deus se quebrou, não perdemos apenas a nossa religião ou
devoção, mas a nossa saúde, a nossa felicidade e todas as coisas pertencen­
tes à vida social e cultural. Deus disse: “Maldita é a terra por tua causa” (Gn
3.17). Toda a criação se tornou corrupta por causa do pecado do homem.
Por isso, Paulo diz que a natureza “geme e suporta angústias até agora”
(Rm 8.22). Todas as tragédias do mundo, toda a violência e corrupção do
homem e da natureza são conseqüências do pecado. E o pecado gera ainda
mais tragédias, violência e corrupção. De fato “o pecado é tanto causa quanto
resultado da miséria humana”.10 Toda a miséria começou com ele, e agora
o homem não consegue exterminá-lo, pois ele origina a miséria e se origina
dela; isso se torna um círculo vicioso, bem como mostra que a escolha de
Adão foi uma má escolha.

Herdeiros de Adão

Estamos todos juntos com Adão e Eva, pois herdamos deles o veneno
do pecado. Ele corre no nosso sangue. E isso o que os teólogos chamam de
pecado original. Adão incluiu a todos na sua decisão, e esta decisão foi fatal
para a raça. A escolha de Adão atingiu a todos, porém, num sentido, não
podemos dizer que cada um de nós é considerado pessoalmente responsá­
vel pelo que Adão fez, como se cada um de nós tivesse pecado o pecado de
Adão. O fato é que Adão agiu como nosso representante e, por essa razão,
a sua escolha nos atinge.11 Nesta questão não temos liberdade de escolha.
Uma ilustração útil para entender isso é a da Independência do Brasil. Quan­
do Dom Pedro proclamou a independência, nós estávamos incluídos nela.
Nenhum de nós bradou “independência ou morte”, mas todos nós usufru­
ímos os efeitos desse brado. Do mesmo modo, Adão foi o nosso represen­
tante diante de Deus; ele falou por nós, e, portanto, a queda dele foi a nossa
queda. Seu grito de independência jogou a todos nós na morte. Nenhum
dos efeitos da queda, como pecado, dor, sofrimentos ou tragédias podem
ser atribuídos a Deus. Deus criou o mundo perfeito; foi a escolha delibera­
da do homem que trouxe o caos; portanto, a humanidade é absolutamente
responsável por tudo o que acontece de mau neste mundo. E continuamos
a destruir a terra com o processo de exploração desenfreada. A ironia é que
nós poluímos o mundo e colocamos a culpa em Deus quando ocorrem
cataclismas da natureza.12
A queda: A m ãe das tragédias 205

Não somos pecadores apenas por escolha, mas por natureza. Não nas­
cemos como se fôssemos uma tabula rasa, ou uma folha em branco, nem
numa zona neutra, mas como inimigos de Deus, sendo “por natureza, fi­
lhos da ira” (Ef 2.3). Nós não fazemos o mal meramente, nós somos maus.
Não somente caímos, somos decaídos. Não somente nos perdemos, estamos
perdidos. Pecamos porque a nossa natureza é pecar, somos escravos, pois o
Senhor disse: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34).
Não conseguimos abandonar o pecado quando queremos. Na verdade, nem
queremos. Podemos até controlar algumas atitudes pecaminosas, mas não
podemos deixar de ser pecadores.

Totalmente depravados

É claro que isso não significa que cada um de nós faz todo o mal imaginável,
mas significa que temos capacidade para isso. E mais do que isso, significa
que estamos completamente perdidos, pois Deus requer de nós a perfeição
com que nos capacitou quando nos criou; entretanto, não há área em nossa
vida que não tenha sido afetada pelo pecado. De modo algum poderemos dar
o que ele espera de nós. A essa incapacidade de dar a Deus o que ele deseja, os
teólogos têm chamado de “Depravação Total”.13 Isso não representa alguma
incapacidade física, nem significa que as pessoas não consigam fazer algo
bom neste mundo, pois não é uma completa ausência de bem relativo. A
questão é que, para que algo seja aceito por Deus como bom, precisa ter pelo
menos três elementos: fé verdadeira, estar de acordo com a lei de Deus e ser
para a glória de Deus. Nenhum herdeiro de Adão consegue fazer isso natu­
ralmente. Uma obra pode parecer boa externamente, mas Deus sabe o que se
passa no coração. Imagine um ladrão que rouba 5,000 e doa 100 para uma
instituição de caridade. Ele é bom por causa disso? Há ateus que negaram o
Cristianismo, mas foram servir às pessoas carentes na África. A depravação
total significa que o homem nunca consegue fazer algo que agrade a Deus, de
modo que Deus resolva salvá-lo por seus méritos. Como diz Berkhof, “numa
palavra, ele é incapaz de fazer qualquer bem espiritual”.14
O homem não peca da pior maneira possível, mas peca em tudo o que
faz, pois o pecado está arraigado em sua natureza. Segundo a Bíblia, o
homem não pode fazer o bem (Mt 7.17,18; ICo 12.3; Jo 15.4,5; Rm 8.7),
não pode entender o bem (At 16.14; 2Co 3.15,16; Jo 8.43; ICo 1.18; ICo
2.14; 2Co 4.3,4), nem desejar o bem (Jo 5.40). Evidentemente, essa é a visão
calvinista do homem. O arminiano pensa diferente, pois vê o homem como
se afogando, gritando desesperadamente por socorro; o calvinista vê o ho-
206 Razão da esperança

mem como afogado no fundo do oceano. Ele nem sabe que necessita de
ajuda. Para salvá-lo, é preciso uma obra sobrenatural de Deus, é necessário
trazê-lo para a superfície e introduzir vida no seu coração,
A doutrina da depravação total explica os problemas do nosso mundo, e
nos diz que a sociedade não resolverá esses problemas básicos até que to­
dos nasçam de novo. Porém, nem mesmo a conversão do mundo resolveria
todos os problemas, pois os cristãos continuam pecando. Por outro lado,
essa doutrina nos fala do imenso amor de Deus por nós. Nunca podería­
mos ser salvos por nós mesmos, foi somente o seu amor que possibilitou a
nossa salvação.
As folhas da figueira não agradaram a Deus (Gn 3.7,21), Essa foi uma
tentativa humana de esconder a própria nudez que, poderíamos dizer, já era
muito mais do que física. Talvez isso signifique que Deus não se impressi­
ona com os nossos jeitinhos. Nossas ofertas não lhe despertam qualquer
interesse, nossa justiça própria nunca passará de “trapos da imundícia” diante
de Deus (Is 64.6). Ele não se agrada das nossas tentativas de agradá-lo, ou
mesmo de nos desculparmos. Enquanto acharmos que as folhas da nossa
justiça própria são suficientes, jamais poderemos ser salvos.

li b e r d a d e que aprisiona
E, o que é mais irônico para nós seres humanos, é que a declaração de
independência foi totalmente fracassada. Ainda precisamos de Deus, pois
“não podemos viver independentemente de Deus mais que um peixe pode
viver independentemente de água”.15 Como o brado às margens do Ipiranga
não tornou o Brasil independente das potências estrangeiras, também o
grito de independência de Adão não o libertou. Ao contrário, o aprisionou
totalmente, pois ele passou a servir ao pecado (Jo 8.34) e, por conseqüên­
cia, à Satanás (Ef 2.2). A tão desejosa liberdade nunca veio. Houve um
tempo em que uma propaganda de cigarros era bastante popular. O nome
do cigarro podia ser traduzido como “livre”. E o slogan era: “Cada um na
sua, mas com alguma coisa em comum”. A única coisa que os viciados
tinham em comum era o vício. A liberdade era apenas um sonho.

0 que fazer c o m a culpa ?


Algo que o pecado deixa dentro de nós é o sentimento de culpa. Não
estamos falando aqui da culpa a ser tratada num tribunal, mas do que ocor-
A queda: A m ãe das tragédias 207

re dentro do ser humano, em termos de consciência. O ser humano não


sabe como lidar com a culpa. Ele gasta muito dinheiro com terapeutas para
tentar se livrar de algo que tanto o atormenta. Um método mais barato é
culpar os outros. Foi exatamente isso o que Adão e Eva fizeram. Quando
Deus interrogou o casal, Adão respondeu que a mulher que Deus havia lhe
dado era a responsável por tudo aquilo, e a mulher tratou de responsabilizar
a serpente (Gn 3.12,13). Cada um posou de vítima da situação. Não é assim
que os advogados tentam fazer com o júri hoje em dia? Tentam dizer que o
criminoso é apenas uma vítima da sociedade, mas Deus sabe muito bem
que não somos vítimas, pois intimamente nos deleitamos com o pecado.
Jogar a culpa nos outros nunca nos tornará inocentes. Se o filme mais
reprisado da história é A Fuga, o segundo é Não Fui Eu. Evidentemente
essa é uma maneira de auto-engano. Como diz Cornelius Plantinga, “o
auto-engano é um fenômeno sombrio por meio do qual puxamos a cober­
ta sobre alguma parte de nossa psiquê. Nós nos movemos dentro de nós.
Negamos, suprimimos ou minimizamos o que sabemos sobre a verdade.
Asseveramos, adornamos e elevamos o que sabemos ser falso. Tornamos
belas as realidades feias e compramos a versão maquiada”.16 Essa é a ima­
gem que o homem tenta produzir de si mesmo, desde o início. A grande
defesa é: Eu não sou o responsável por isso. E então, o ser humano segue o
seu caminho como se nada tivesse acontecido. Porém, trata-se de um tolo
engano. No nosso íntimo, sabemos que somos culpados. Sabemos que a
culpa que sentimos é porque temos culpa. Nem todo o dinheiro do mundo
gasto com terapias ou distrações poderia mudar essa realidade.

Conclusão
Aprendemos algumas lições muito importantes com a doutrina bíblica
do pecado. Primeiramente, que o homem depende inteiramente de Deus
para a salvação. De tal modo a queda afetou o ser humano que ele não pode
se salvar por si mesmo, e depende inteiramente de Deus querer e usar a sua
misericórdia para salvá-lo. Essa convicção é necessária para a igreja hoje.
Nós perdermos a visão realística do homem conforme a Bíblia a demons­
tra. Vivemos no tempo em que os crentes idolatram líderes religiosos, e se
surpreendem quando vêem esses homens caírem em pecado. Essa doutrina
também nos ensina que não há pessoa boa do ponto de vista de Deus.
Deus não olha para o que nós tentamos fazer, mas para o que nós somos.
Por isso, precisamos abandonar as nossas folhas de figueira e deixar que o
208 Razão da esperança

próprio Deus nos vista com a justiça de Cristo. Finalmente, essa doutrina
glorifica a graça de Deus. Se conhecermos bem o diagnóstico da nossa
doença, podemos nos maravilhar diante da cura. No evangelho, Deus não
oferece apenas uma anestesia para a dor, mas uma cura definitiva, que, a
princípio, pode até mesmo causar algum desconforto, mas que extirpa com­
pletamente a doença. Ignorar o pecado, como o mundo moderno tem fei­
to, só piora as coisas. E como negar a existência de uma doença gravíssima.
A negação não fará com que ela desapareça.
16

A morte: 0 último inimigo

“No dia e m que dela com eres, certam en te m orrerrás" (Gn 2.17).

O pintor medieval Jan Van Eick impressionava as pessoas com os seus


quadros que demonstravam ao mesmo tempo a futilidade da busca pelos
prazeres do mundo e a realidade da morte que assolava de maneira des­
percebida. Não raro, num mesmo quadro, ele ilustrava a loucura dos ho­
mens que viviam para satisfazer seus caprichos, enquanto muitos ficavam
prostrados, abatidos pela morte. Isso realmente retrata a situação da hu­
m anidade decaída. Deus deixou bem claro, desde o início, que a
consqüência da desobediência seria a morte, e nada há mais certo a res­
peito da vida do que a morte; porém, é impressionante o quanto os seres
humanos conseguem ocultar de si mesmos essa verdade. Quando somos
jovens, a vida parece radiante e a morte distante. Ano após ano, a vida
prossegue, vivemos nosso dia a dia, fazemos planos, construímos casas e
nos envolvemos com muitos projetos. Freqüentemente, lemos nos jor­
nais que pessoas estão morrendo de fome na África ou em explosões
terroristas no Oriente Médio. Mas esses lugares estão muito distantes de
nós. Paramos alguns instantes em frente à televisão, horrorizados pelas
tragédias, mas em seguida retornamos a nossa vida normal, e tudo aquilo
foge da nossa mente. De repente, um vizinho morre. Vamos ao enterro,
confortamos a família, e ficamos abalados por alguns momentos, mas
logo continuamos o nosso trabalho e voltamos às diversões e à rotina do
dia a dia. De algum modo, “há, dentro de nós, uma espécie de sentimento
de imunidade em relação à tragédia e a morte”.1 Mas, de súbito, a morte
bate à porta. Um pai, uma mãe, um esposo ou um filho é levado abrupta­
mente. Então, todo o desespero cai sobre nós com o peso de milhões de
toneladas. Uma imensa confusão se estabelece dentro de nós, e uma per­
gunta brota da agonia: Por quê?
210 Razão da esperança

A o rigem da morte
Pedro faz uma declaração de causar inquietação em todos os que se
sentem imortais: “Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como
a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor” (IPe 1.24; ver Is 40.6-8). E o
Salmo de Moisés já dizia coisas semelhantes, ao contrastar a eternidade de
Deus com a temporalidade do ser humano:

Antes que os montes nascessem e se formassem a tetra e o mundo, de


eternidade a eternidade, tu és Deus. Tu reduzes o homem ao pó e dizes:
Tomai, filhos dos homens. Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de
ontem que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrastas na torrente, são
como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada,
viceja e floresce; à tarde, murcha e seca... Pois todos os nossos dias se pas­
sam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento. Os
dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta;
neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapida­
mente, e nós voamos (SI 90.2-6; 9,10).

Não há como fechar os olhos; a morte é a realidade mais concreta que


conhecemos. A vida é muito breve. Todo esse sentimento negativo que os
seres humanos e os animais têm em relação à morte explica-se porque a
morte é uma anomalia. Como diz Packer, “a Bíblia confirma nosso senti­
mento instintivo dc que, no seu sentido mais profundo, toda morte é anor­
mal”.2 A morte não faz parte da criação de Deus, ela é uma intrusa,
A Bíblia demonstra que a morte entrou no mundo como conseqüência
do pecado. Quando Adão e Eva foram criados e Deus os colocou numa
digna posição de administradores da criação, o Senhor fez uma exigência,
pois desejava obter deles obediência completa, e por isso lhes disse: “De
toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento
do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certa­
mente morrerás” (Gn 2.16,17). Alguns estudiosos insistem que a morte
existia pelo menos no mundo animal e vegetal antes da queda, o que de
qualquer modo, não temos como comprovar. Devemos lembrar que tanto
o homem quanto a criação foi amaldiçoada pela queda. Paulo diz que a
criação “está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele
que a sujeitou (...). Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo,
geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.20-22). A criação é prisioneira
da “corrupção” por causa da entrada do pecado no mundo (ver Gn 3.17).
A morte: 0 último inimigo 211

E Paulo já havia declarado um pouco antes aos romanos: “Portanto, assim


como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a
morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos
pecaram” (Rm 5.12). Ele diz que o pecado entrou no mundo por meio de
um só homem, e como conseqüência, a morte também.
A morte é conseqüência do pecado. Se não houvesse pecado, não ha­
veria razão para pensar que a morte existiria. Quanto a essa idéia de que o
pecado de Adão e Eva gerou a morte, surge uma pergunta: Porque Adão
e Eva não morreram no dia em que pecaram? Deus havia dito: “No dia
em que dela comeres, certamente morrerás”, mas Adão e Eva viveram
ainda centenas de anos. Na verdade, não precisamos interpretar essa ex­
pressão literalmente. Ela é uma expressão idiomática hebraica que signifi­
ca “se você comer, vai morrer com certeza”. Isso pode ser visto em ou­
tras passagens da Bíblia Hebraica (lRs 2.37; Ex 10.28). Como diz Hoekema,
“baseado nessa interpretação, pois, o fato de Adão e Eva não terem
morrido fisicamente no mesmo dia em que comeram da árvore proibida,
não precisa nos causar nenhuma dificuldade especial”.3 O fato é que a
morte era certa, porque o pecado aconteceu. Adão e Eva, ao desobedece­
rem a Deus, tiveram a sua sentença de morte decretada. Eles morreram
espiritualmente imediatamente - ficando separados de Deus - ; todavia, a
morte física, que veio também comoxonseqüência do pecado (Gn 2.16,17;
3.11-24; Rm 5.12), não foi imediatamente executada, porque Deus usou
de sua graça comum, protelando a execução da sua sentença (Gn 3.15),
concedendo oportunidade para o arrependimento do homem; entretan­
to, o seu juízo entrou em processo de concretização, tornando a vida uma
caminhada para a morte.

O significado da morte
A morte é a conseqüência do pecado, mas não uma conseqüência natu­
ral. Devemos considerar a morte como um aspecto penal de Deus em rela­
ção à desobediência do ser humano. Morte, portanto, antes de qualquer
coisa é punição. Deus disse a Israel: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez
18.4), e Paulo disse aos Romanos: “O salário do pecado é a morte” (Rm
6.23). Como diz Berkhof:

A morte não é descrita como algo natural na vida do homem, mera falha de
um ideal, e sim, assaz decisivamente como algo alheio e hostil à vida huma-
212 Razão da esperança

na: é uma expressão da ira divina (SI 90.7,11), um julgamento (Rm 1.32),
uma condenação (Rm 5.16), uma maldição (G1 3.13), e enche os corações
dos filhos dos homens de temor e tremor, justamente porque é tida como
uma coisa antinatural.4

Para definirmos “morte”, todos esses elementos devem ser considera­


dos. Quando pensamos na morte, precisamos entender que há três senti­
dos para esse acontecimento: morte física, morte espiritual e morte eterna.

M o r t e espiritual

O primeiro aspecto da morte a ser considerado é o seu caráter espiritual;


estamos falando da quebra da comunhão com Deus, pois, “uma vez que, de
acordo com as Escrituras, o significado mais profundo da vida é a comu­
nhão com Deus, o significado mais profundo da morte tem de ser a separa­
ção de Deus”.5 Isso aconteceu com Adão no mesmo dia em que ele pecou.
A Escritura diz que, após comerem do fruto da árvore proibida, Adão e
Eva tomaram consciência da sua nudez, fugiram da presença de Deus e se
esconderam por entre as árvores do jardim (Gn 3.7,8). A comunhão estava
quebrada. Essa morte é a maneira como todas as pessoas vivem! Paulo
descreveu todas as pessoas como estando mortas nos seus delitos e peca­
dos (Ef 2.1). Nesse estado, o homem não consegue agradar a Deus e nem
sequer dar um passo em direção a Deus. Esse estado de morte espiritual,
que é conseqüência do pecado, torna o homem cego para as coisas de Deus
(2Co 4.4), e incapacitado de ir a Jesus antes que Deus realize uma obra de
sua livre graça dentro dele. Então, é só quando Deus transforma o seu
coração e sua disposição que o ser humano consegue se voltar para Deus
(ver Jo 6.44).

M o r t e física

Nesse sentido, a morte deve ser entendida como a separação entre cor­
po e alma. Quando a alma deixa o corpo, a morte chegou (Tg 2.26). Nesse
ponto, se cumpre a Palavra que Deus dirigiu ao homem depois do pecado:
“No suor do rosto comcrás o teu pão, até qúe tornes à terra, pois dela foste
formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19; ver Ec 3.20). Porém,
o Espírito não vira pó, pois como diz o Eclesiastes, o pó volta à terra, mas
o Espírito volta a Deus que o deu (Ec 12.7). A morte física é uma punição
porque o ser humano não foi feito para viver sem corpo. Os gregos antigos
A morte: 0 último inimigo 213

entendiam que a alma era divina e o corpo uma espécie de sepultura da


alma. No entendimento deles, a melhor coisa que poderia acontecer para a
alma era se ver livre do corpo. A Bíblia não endossa essa visão, Apesar de a
alma continuar vivendo após a morte, ela não se encontra em felicidade
completa, pois Deus criou o ser humano com dois aspectos, o espiritual e o
físico, e ambos precisam um do outro, Por essa razão, a Bíblia não diz que
a alma que vai para o céu depois da morte encontrou o seu destino final,
mas anuncia o dia da ressurreição, quando o ser humano ressurgir comple­
to em corpo e alma.

M o r t e eterna

A morte eterna deve ser vista como uma consumação da morte espiri­
tual depois da morte física. A morte física vem para todos, mas a morte
eterna somente para os que estão sem Cristo. Nesse ponto, é interessante
pensarmos que a salvação depende de um “novo nascimento” (Jo 3.3).
Quem nasce uma vez morre duas, mas quem nasce duas só morre uma.
Durante essa vida, embora grande parte das pessoas esteja no estado de
“morte espiritual”, mediante a graça comum, Deus lhes concede muitas
bênçãos e restringe o mal. Porém, na morte eterna “as restrições do presen­
te desaparecem, e a corrupção do pecado tem a sua obra completa. O peso
total da ira de Deus desce sobre os condenados, e isso significa morte, no
sentido mais terrível da palavra”,6 Morte eterna deve ser associada com o
inferno, e em última instância, com o lago de fogo do Apocalipse.

Dias contados
A morte será a última das conseqüências do pecado a ser retirada do
mundo. No capítulo 15 de 1 Coríntios, o apóstolo Paulo faz uma defesa
magistral da ressurreição de Cristo e dos crentes. Nesse capítulo, ele tam­
bém diz muitas coisas a respeito da morte. Primeiramente, ele repete o
ensino de Romanos 5.12-19: “Visto que a morte veio por um homem, tam­
bém por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como,
em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cris­
to” (ICo 15.21,22). Essa promessa de vitória pessoal sobre a morte descan­
sa sobre a vitória de Cristo. Ele abriu o caminho para a vitória sobre a
morte e agora os homens podem transitar por ele. Porém, além de ter aber­
to o caminho, o Senhor ocupa uma posição de governo em que luta para
214 Razão da esperança

destruir todos os seus inimigos. Paulo diz que o fim só virá “quando hou­
ver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder” (ICo
15.24). Evidentemente ele está falando de Satanás e suas hostes malignas. A
morte e a ressurreição de Jesus já garantiram a vitória sobre Satanás, tanto
que ele perdeu o seu posto de acusador (Ap 12.10). Porém, ainda falta o dia
quando ele será totalmente esmagado, cumprindo a promessa de Gênesis
3.15, ou como diz Paulo: “Porque convém que ele reine até que haja posto
todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a
morte” (ICo 15.25,26). Os inimigos que assim serão submetidos não são
somente seres inteligentes hostis a Cristo, como também todas as formas
de mal, físicas e morais, já que se inclui especialmente a morte.7 A morte,
na linguagem de Paulo, é justamente o último inimigo. Naquele dia, Cristo
e a morte se encontrarão pela última vez.
O próprio Cristo conheceu muito bem os poderes da morte. Lembra­
mos daquela inesquecível cena do Senhor diante do túmulo de Lázaro.
Quando Maria, irmã de Lazaro, se aproximou de Jesus, João relata: “Jesus,
vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no
espírito e comoveu-se. E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe respon­
deram: Senhor, vem e vê! Jesus chorou” (Jo 11.33-35). Essa foi uma das
poucas ocasiões em que Jesus chorou. Qual teria sido o motivo desse cho­
ro? Certamente não era um choro de impotência diante das mazelas da
vida. O Senhor que ressuscitaria Lázaro em seguida não precisaria chorar
por isso. Era o choro de alguém que sabia o quanto a morte deteriorou a
perfeita criação de Deus. Era o choro de alguém que definitivamente não se
conformava com a morte. Mais tarde, ele próprio experimentou a fúria da
morte ao ser dependurado no madeiro. Portanto, Jesus sabe mais do que
ninguém o significado dela. Porém, três dias depois, na maior demonstra­
ção de poder entre a criação e o fim do mundo, o Senhor derrotou a morte
ao ressuscitar gloriosamente. A partir daquele dia, os dias da morte estão
contados; em breve, o último inimigo cairá definitivamente.

M a l transform ado em bem


Ainda falta considerarmos uma questão importante: Se a morte é resulta­
do do pecado e deve ser vista como punição, por que os cristãos ainda pre­
cisam morrer? A morte dos cristãos não deve ser considerada como puni­
ção, uma vez que não existe mais qualquer punição para o cristão. Paulo diz:
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”
A morte: 0 último inimigo 215

(Rm 8.1). Se Deus quisesse poderia transladar todos os cristãos para o céu,
como fez com Enoque e Elias, sem que passassem pela morte, porém, ele
resolveu deixar que a natureza seguisse o seu curso normal. Apesar de nasci­
dos de novo, nossos corpos ainda são decaídos, eles não foram aperfeiçoa­
dos, e o motivo disso é que continuamos adoecendo, cansando, suando e
morrendo (Gn 3.19). A morte deve ser vista, no caso do cristão, não como
uma punição, mas como uma conseqüência natural do corpo decaído. Nesse
sentido, ela tem realmente ainda um sentido negativo, porém, ela evoca pelo
menos dois aspectos imensamente positivos. Em primeiro lugar, devemos
considerar que ela abre as portas para a eternidade. No momento da morte,
a alma fica livre de todo o peso da corrupção, e passa a aguardar o dia em
que será reunida ao corpo aperfeiçoado da ressurreição. A morte para o
crente é o portal para uma situação imensamente mais abençoada do que a
presente. Em segundo lugar, embora a morte, em si mesma, continue sendo
um verdadeiro mal natural para os filhos de Deus, na economia da graça ela
se faz subserviente ao seu progresso espiritual e aos melhores interesses do
reino de Deus.8 A expectativa da morte leva o crente a considerar seus dias
e a manter a humildade. O salmista orou: “Ensina-nos a contar os nossos
dias, para que alcancemos coração sábio” (SI 90.12). A consciência da nossa
própria finitude ajuda a exercitar a sabedoria. Assim, a expectativa da morte
é benéfica para o nosso progresso espiritual; ela mostra que os nossos dias
aqui são limitados como tudo o mais nesta vida. E a experiência da morte, de
algum modo, nos será útil na eternidade. Jamais será caso de vergonha, antes
de regozijo, pois o nosso Senhor também a experimentou. Será um motivo
de louvor ao Deus que transforma o mal em bem.
A atitude dos crentes perante a morte deve ser totalmente diferente da
atitude do mundo que não tem esperança. Aos olhos de Deus, a morte dos
crentes não é uma retribuição pelas suas más ações, é algo que causa deleite
no Senhor, pois “preciosa é aos olhos do S e n h o r a morte dos seus santos”
(SI 116.15). Seja a morte de um crente de 100 anos ou de uma criança de
alguns dias, perante os olhos do Senhor, essa morte é preciosa, pois o Se­
nhor sabe que o céu é muito melhor. Para nós, é difícil aceitar a idéia de que
uma criança deixe este mundo apenas alguns dias depois de ter nascido.
Porém, devemos nos lembrar que a vida é como a erva, e logo estará mur­
cha de qualquer modo. Perante a eternidade, e diante daquele a quem mil
anos é como um dia (SI 90.4), talvez faça pouca diferença viver cem anos ou
alguns minutos.
O entendimento de que a morte nos conduz a um estado superior levou
o apóstolo Paulo a dizer: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o mor-
216 Razão da esperança

rer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já
não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido,
tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente
melhor” (Fp 1.21-23). Aqui está um homem que viveu uma das existências
mais gloriosas e, ao mesmo tempo, mais sofridas de todos os tempos. Ape­
sar de todo sofrimento, ele não estava desanimado em continuar vivendo.
Porém, ele claramente demonstrou a sua preferência por partir e estar com
Cristo o que, para ele, não tem comparação. Ele desejava entrar naquele
estado de bem-aventurança que João descreveu no Apocalipse: “Então, ouvi
uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde
agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas
fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13). Não precisamos
esperar a morte com receio ou angústia no coração, pois ela é um benefício
do Senhor para a nossa vida. Ela não é o fim, por mais que pareça ser. A
seguinte história poderá nos ajudar a entender o que é a morte:

Eis-me numa praia. Um barco, perto de mim, abre as velas brancas ao ven­
to e parte em direção ao alto-mar. Esse barco é belo e forte. Fico ali de pé,
a contemplá-lo, até que por fim parece como que uma pequenina mancha,
lá longe, precisamente no lugar em que o mar e o céu parecem juntar-se.
Alguém ao meu lado, diz nesse momento: “Desapareceu”. Desapareceu
para onde? Desapareceu da minha vista, eis tudo. Continua a existir da
mesmíssima maneira que existia quando partiu de junto de mim; e continua
tão capaz, como antes, de levar a sua carga ao porto de destino. O seu
tamanho diminuiu para mim, nada mais; e, precisamente no momento em
que alguém diz ao meu lado “Desapareceu”, noutra praia, lá longe, há ou­
tros olhos que esperam a sua chegada e outras vozes prontas a exclamar,
“Ele aí vem”; e é assim a morte. (Autor desconhecido)9

As pessoas queridas que desapareceram dos nossos olhos, e que morre­


ram no Senhor, desembarcaram nessa outra praia, onde todos nós, que
esperamos em Cristo, um dia também desembarcaremos. Quando o último
inimigo for definitivamente derrotado, então todo o sofrimento de Adão
finalmente desaparecerá.
17

0 lugar dos mortos

Uma pergunta que sempre fascinou os cristãos ao longo dos séculos é:


Para aonde vai a alma da pessoa depois que ela morre? Ao longo da Histó­
ria várias possibilidades têm sido levantadas pelos cristãos. Classicamente,
o Cristianismo tem defendido que, após a morte, enquanto o corpo vai
para a sepultura, o espírito vai para o chamado “Estado Intermediário”.
Esse é o local onde estão, por um lado os que foram salvos por Cristo - no
caso o céu - , e, por outro, os que foram condenados pelos seus pecados -
no caso o inferno. Outras interpretações têm sido igualmente sustentadas
desde os tempos mais antigos. Alguns, como os Testemunhas de Jeová e os
Adventistas, defendem o chamado “sono da alma”, ou seja, que todas as
almas, quer de ímpios quer de crentes ficam dormindo até o dia da ressur­
reição, quando finalmente acordarão juntamente com o corpo e enfrenta­
rão o Juízo Final. Outros ainda, como os católicos, sustentam que as almas
ficam num local de “purgação” de seus pecados, tendo a possibilidade,
depois que tiverem feito satisfação pelos seus pecados, de entrar no céu. Os
judeus e a igreja medieval sustentavam que a alma depois da morte ficava
num estado de semiconsciência, nem feliz, nem infeliz, esperando a ressur­
reição do corpo. E os espíritas dizem que é possível até mesmo se comuni­
car com as almas dos mortos que estão desencarnadas e esperando uma
reencarnação, Todas essas crenças demonstram que a vida após a morte é
algo que todos levam a sério.1 Porém, o que nos importa aqui é entender o
ensino bíblico sobre o lugar para aonde vão as almas dos mortos,

0 sheol e o hades
O Antigo Testamento fala relativamente pouco acerca do estado das
almas depois da morte. Encontramos em alguns livros do Antigo Testa­
mento a indicação de que as almas vão para um lugar chamado sheol. Sheol
mais comumente significa “sepultura”. E essa palavra que Jacó disse ser o
218 Razão da esperança

seu destino quando morresse: “Se lhe sucede algum desastre no caminho
por onde fordes, fareis descer minhas cãs com tristeza à sepultura (sheol)”
(Gn 42.38). No entendimento do Antigo Testamento, todos os homens
acabam no sheol. O salmista declara: “Que homem há, que viva e não veja a
morte? Ou que livre a sua alma das garras do sepulcro (sheol)?” (SI 89.48;
Ver 88.3; Os 13.14; Nm 16.33; SI 49.14; SI 9.17).
Se o sheol é o destino de todos os homens, então, ele não deve, nesse
sentido, ter significado positivo ou negativo. A interpretação mais plausí­
vel é que significa apenas sepultura, o lugar do esquecimento, a morte no
sentido genérico. Assim, o sheolé absolutamente igual para todos, como o
Eclesiastes deixa bem claro: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-
o conforme as tuas forças, porque no além (sheol), para onde tu vais, não
há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ec
9.10). Todos os homens, bons ou maus, vão para o sheol, pois ele significa
apenas o estado de morte, não necessariamente de recompensa ou de
punição.
Por outro lado, o Antigo Testamento diz que a morte do justo é mais
digna que a morte do ímpio. Balaão, quando chamado para amaldiçoar Is­
rael, demonstrou o seu desejo: “Que eu morra a morte dos justos, e o meu
fim seja como o dele” (Nm 23.10). Se o profeta infiel Balaão desejava mor­
rer a morte do justo é porque ela deve ser diferente da morte do perverso,
e, de algum modo, melhor (ver SI 16.11; 73.24). Porém, o que se percebe ao
ler o Antigo Testamento, é que não havia uma doutrina completa sobre o
Estado Intermediário. Isso não representa problema algum, pois entende­
mos que a revelação é progressiva, ou seja, Deus não revelou tudo de si de
uma única vez. Porém, o simples fato de haver esperança para o justo de­
pois da morte é uma evidência concreta de que, de alguma maneira, os
justos estariam melhor no sheol do que os injustos.
Se o Antigo Testamento usa a palavra sheol para definir o lugar dos mor­
tos, o Novo Testamento usa a palavra hades. Na mitologia grega, o hades era
composto de duas partes: a parte mais profunda era o local de punição,
algumas vezes chamado de Tártaro, e o lugar de bênçãos era chamado de
Campos Elisios.2 E difícil encontrar essa idéia no Novo Testamento, pois
aí Hades também significa lugar de punição. Assim, o rico da parábola que
Jesus contou foi para o hades (Lc 16.23). E Jesus disse que Cafarnaum seria
precipitada ao hades por ter recusado sua pregação (Mt 11.23). Igualmente,
Jesus disse aos fariseus que eles dificilmente escapariam da condenação do
hades (Mt 23.33). Todas essas passagens sugerem que, para o Novo Testa­
mento, o hades é o lugar de punição, o inferno.
0 lugar dos mortos 219

0 purgatório
A teologia católica afirma que os crentes do Antigo Testamento, antes
da ressurreição de Cristo estavam num lugar chamado Umbus Patrum (limbo
dos pais). Ali eles ficavam sem qualquer sofrimento, porém, sem a felicida­
de do paraíso. Quando Jesus ressuscitou, providenciou para que algumas
fossem libertas do limbo e levadas para o céu. Pensa-se que foi enquanto o
seu corpo estava na sepultura que o Senhor foi até o limbo e libertou-as de
lá. Geralmente, a passagem de 1 Pedro 3.18-20 é usada como texto-prova
nesse sentido. Porém, essa obscura passagem pode significar simplesmente
que o Senhor, pelo Espírito e por intermédio de Noé, pregou aos perdidos
enquanto a Arca estava sendo construída. A teologia católica fala também
do Umbus Infantum (limbo das crianças) que seria o lugar para aonde vão
todas as crianças não-batizadas, representando um lugar que, embora não
seja de condenação, também não é de bênção. Evidentemente que a idéia
da existência de um “limbo” não é bíblica, mas criada e sustentada pelos
homens, numa tentativa de minimizar as penas eternas.
A mais conhecida doutrina católica sobre o Estado Intermediário é a do
Purgatório. A doutrina do purgatório formulada pela igreja católica susten­
ta a possibilidade de salvação depois da morte. Segundo a teologia católica,
somente os verdadeiramente santos vão diretamente para o céu, onde estão
salvos para sempre, e somente os piores pecadores vão para o inferno,
onde estão perdidos para sempre. Todos os demais seres humanos vão
para o purgatório, que é um local de punição, porém temporário. Depois
que uma alma passa algum tempo sofrendo as penas, literalmente “purgan­
do” os seus pecados, pode ir para o céu. Na concepção católica, o fogo do
purgatório é o mesmo fogo do inferno, a única diferença é a duração. Por
isso, nas orações católicas se fala em “levar as almas todas para o céu”, ou
seja, tirá-las do purgatório. Na Idade Média, a doutrina do purgatório foi
muito útil para os cofres da igreja católica. Segundo o ensino oficial, o Papa
ünha poder para libertar as almas de lá, e vendia essa libertação por alguma
quantia de dinheiro. Essa prática ficou conhecida como venda das “indul­
gências”. Até hoje, o costume de pagar para “rezar” missas é fundamenta­
do no mesmo antigo sistema e, portanto, o purgatório continua rendendo
dividendos. O pagamento pode ser feito pela própria pessoa ou por paren­
tes. Aqui também encontramos a origem da “missa de sétimo dia”. Um
questionamento óbvio a essa idéia é que se o pagamento faz com que a
alma saia do purgatório, isso é um favorecimento do rico que pode pagar
220 Razão da esperança

mais missas. Além disso, se o Papa realmente tem poder para tirar as almas
do purgatório, por que bondosamente não faria isso por todas?
A doutrina do purgatório não tem qualquer respaldo bíblico. E uma
formulação humana que serviu e serve aos interesses da igreja católica. A
Escritura não ordena que as pessoas façam qualquer coisa pelos mortos,
exceto sepultá-los (Dt 26.13,14; Lv 19.28). Ao acrescentar a necessidade de
uma reparação humana, a doutrina do purgatório é uma afronta à suficiên­
cia da obra de Cristo para a salvação. A Bíblia claramente diz que “aos
homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo”
(Hb 9.27). Quem já foi para o paraíso ou para o inferno não pode mais sair
de lá (Lc 16.26). As únicas passagens da Escritura geralmente usadas para
defender a existência do purgatório são 1 Coríntios 3.15 que fala de ser
salvo através do fogo, e Judas 22,23 que fala de arrebatar os duvidosos do
fogo. Porém, essas passagens nada dizem sobre o purgatório, pois o fogo
deve ser identificado com a própria atividade julgadora de Deus; ele signifi­
ca que os salvos serão livrados, no sentido de isentados do fogo.

0 so n o da alm a
Como já vimos, outras seitas insistem que as almas depois da morte
ficam num estado de “sono”, esperando o dia do Juízo. Essa doutrina é
defendida por causa de algumas expressões usadas no Novo Testamento,
como por exemplo, o fato de Jesus ter dito que Lázaro dormia, querendo
dizer que ele estava morto (Jo 11.11,14; ver Mt 9.24; At 7.60; ICo 15.51;
lTs 4.13,14). Apela-se também para as passagens do Antigo Testamento
que descrevem a morte como um estado de inatividade (ver SI 6.5; 115.17;
146.4; Dn 12.2). Porém, essas passagens descrevem o morto apenas do
ponto de vista humano. Além do mais, o que está sendo enfatizado nelas é
o destino do corpo das pessoas e não, necessariamente, da alma. Evidente­
mente que o corpo dorme até o dia da ressurreição, no sentido de que fica
na sepultura aguardando aquele dia, porém, a Bíblia não diz que a alma
também dorme, pelo contrário.
Há suficiente ensino na Escritura para que entendamos para onde a
alma vai depois da morte. Jesus contou uma parábola (que pode ser uma
história real) onde há explicações suficientes sobre o lugar das almas depois
da morte (Lc 16.19-31). Havia um homem rico, que vivia para aproveitar
suas riquezas, e um homem pobre chamado Lázaro, que nada tinha para se
consolar. Os dois morreram, mas foram para lugares diferentes. Lázaro foi
0 lugar dos mortos

para o seio de Abraão e o rico para o inferno. Eles permanecem em estado


consciente; um está no lugar de punição e o outro, no lugar de recompensa,
e não há possibilidade de saírem de onde estão. Essa parábola sozinha der­
ruba tanto a doutrina do sono da alma quanto a do purgatório. Depois da
morte, a alma do salvo vai para o paraíso, enquanto a alma do perdido vai
para o inferno. Só existem esses dois lugares e quem foi para um deles não
pode mais sair. O Espiritismo também leva um golpe decisivo, pois os mortos
não são autorizados a voltarem. E finalmente, Jesus deixa bem claro que a
salvação somente é possível por meio da Bíblia (Lc 16.31). Portanto, Jesus
ensinou que as almas estão conscientes e, até a ressurreição, não devem sair
dos lugares em que estão.
Há muitas outras passagens que demonstram o estado consciente dos
crentes depois da morte. Jesus disse ao ladrão que se converteu na cruz:
“Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Embora os Testemunhas de
Jeová tenham até mesmo mudado a tradução dessa frase (“em verdade te
digo hoje, estarás comigo no paraíso”), a evidência textual não deixa mar­
gem para dúvidas: Jesus disse que ainda naquele dia, a alma do ladrão con­
vertido estaria no paraíso. Todo o sentido da frase de Jesus depende do
“hoje”, pois o ladrão pediu que Jesus lembrasse dele no futuro, e Jesus disse
que não seria preciso esperar. Outra passagem clara, nesse sentido, é a da
transfiguração, em que Moisés e Elias foram vistos conversando com Jesus
(Mt 17.1-8). Eles não estavam dormindo. Paulo também dizia que o cristão,
depois da morte, estaria imediatamente na presença do Senhor (Fp 1.21-
23). Ele disse que, ao deixar o corpo, o crente passa a habitar com o Senhor
(2Co 5.6-8). E ele sabia do que estava falando, pois esteve pessoalmente no
paraíso (2Co 12.4). Há mais duas passagens da Escritura que demonstram
claramente que a alma do salvo está no céu e num estado de consciência
diante de Deus. A primeira é Apocalipse 6.9-11:

Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que
tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemu­
nho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó
Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso san­
gue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma
vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo,
até que também se completasse o número dos seus conservos e seus ir­
mãos que iam ser mortos como igualmente eles foram.

A segunda é Apocalipse 7.14,15: “Ele, então, me disse: São estes os que


vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue
222 Razão da esperança

do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem


de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estende­
rá sobre eles o seu tabernáculo”. João viu as almas dos crentes mortos no
céu. Elas estão lá conscientes, descansando e esperando o último dia. Dian­
te disso, não faz sentido pensar que estivessem dormindo na sepultura.

A Bíblia aprova o espiritism o?


Resta ainda considerar se os mortos podem ser invocados. Como já
dissemos, na parábola do Rico e de Lázaro Jesus deixou claro que eles não
podem voltar. A doutrina do estado intermediário é uma das que mais se
opõem ao Espiritismo. O Espiritismo, que é uma das religiões que mais
crescem no Brasil e no mundo, se baseia na comunicação entre os mortos e
os vivos, geralmente pela intermediação de um médium (pessoa com o
“dom” de invocar os mortos). O Espiritismo está intimamente ligado à
adivinhação, quiromancia, astrologia, etc. O médium mais famoso do Bra­
sil, Chico Xavier, que morreu há algum tempo, já estaria se comunicando
com os seus discípulos. Muitos espíritas dizem encontrarem base na Bíblia
para as suas práticas. A Bíblia, porém, ensina claramente que as almas dos
mortos geralmente não têm autorização para voltar. Jó disse: “Antes que eu
vá para o lugar de que não voltarei, para a terra das trevas e da sombra da
morte” (Jó 10.21; ver 7.9,10). Davi disse com respeito ao seu filho morto
que a criança não voltaria: “Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu?
Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim”
(2Sm 12.23). Além do fato de que os mortos não podem voltar, a Bíblia
ensina expressamente que é proibido tentar se comunicar com as almas.
Deus disse para Israel:

Quando entrares na terra que o S e n h o r , teu Deus, te der, não aprenderás a


fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre ti
quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem
prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem
necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele
que faz tal coisa é abominação ao S e n h o r ; e por estas abominações o S e­
n h o r , teu Deus, os lança de diante de ti (Dt 18.9-12).

E impossível não observar, na passagem acima, o repúdio divino ao ato


de consultar os mortos. Ele disse que isso era uma coisa abominável. O
profeta Isaías também disse: “Quando vos disserem: Consultai os
0 lugar dos mortos 223

necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consul­


tará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? A lei
e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva” (Is
8.19,20). Portanto, a comunicação com os mortos é expressamente proibi­
da, e não há a mínima possibilidade de que alguém que conhece realmente
a Bíblia encontre elementos para defender essa prática.
Apesar de a Bíblia dizer que os mortos não podem voltar e que os
vivos não devem tentar consultá-los, há muitas experiências nos centros
espíritas que parecem comprovar a consulta aos mortos. Às vezes, segre­
dos são revelados, a voz do morto é imitada, e até o cheiro. Como expli­
car essas coisas? Nos casos em que tudo não passa de encenação (na
maioria é), segundo a Bíblia, isso pode acontecer pela atuação de espíritos
malignos. Paulo diz que o maligno faz coisas impressionantes para enga­
nar as pessoas: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de
Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo
engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da
verdade para serem salvos. E por este motivo, pois, que Deus lhes manda
a operação do erro, para darem crédito à mentira” (2Ts 2.9-11), O diabo
prende as pessoas na ignorância, e para isso pode utilizar sinais que im­
pressionem as pessoas, Espíritos malignos atuavam enganando no Anti­
go Testamento, tanto o rei Saul (ISm 16.14; 18.10), como o rei Acabe
(lR s 22.21-23). Por que não fariam isso hoje? Eles têm todo o interesse
em prender as pessoas nessas práticas, porque sabem que são coisas abo­
mináveis diante do Senhor.
Uma das passagens que sugerem que a consulta aos mortos é possível
está em 1Samuel 28.3-25, Esse texto decreve a ocasião em que Saul consul­
tou a médium de En-dor. Nesse episódio, o rei Saul, que já não obtinha
nenhuma resposta do Senhor devido ao seu próprio pecado, resolveu con­
sultar uma médium para tentar falar com Samuel, o profeta que já estava
morto. Ao consultar a médium, a passagem diz que Samuel falou com Saul.
Como explicar isso? A primeira possibilidade é que algum espírito maligno
tenha se feito passar por Samuel. Isso é possível porque Saul não viu Sa­
muel, mas confiou na descrição da médium (ISm 28.14), E, além disso, a
profecia de Samuel aparentemente não se consumou plenamente (ISm
28.19). Essa com certeza é a melhor posição, pois elimina muitas dificulda­
des adicionais. Porém, ainda que Samuel tenha realmente aparecido
ali,3algumas coisas na passagem são bastante sugestivas, e de qualquer modo,
não aprovam o Espiritismo. O que aconteceu aquele dia em Em-dor não se
parece com o que acontece numa seção espírita. A feiticeira não entrou em
224 Razão da esperança

transe, pelo contrário, ela mesma se assustou quando viu Samuel. Parece
que nem ela estava acreditando no que estava vendo. E possível, embora
não muito provável, que Deus tenha trazido o espírito de Samuel para con­
denar o rei Saul (ver Mt 17.1-8: nessa passagem, Moisés e Elias voltaram
para conversar com Jesus), porém, mais tarde Deus deixou bem claro que o
fato de ele ter consultado a feiticeira foi uma das causas de sua própria
morte. Assim está escrito em lCrônicas 10.13,14: “Assim, morreu Saul por
causa da sua transgressão cometida contra o S e n h o r , por causa da palavra
do S e n h o r , que ele não guardara; e também porque interrogara e consulta­
ra uma necromante e não ao S e n h o r , que, por isso, o matou e transferiu o
reino a Davi, filho de Jessé”. Portanto, essa passagem, ao contrário de dar
suporte à doutrina espírita, na verdade, a condena. Quem consulta os mor­
tos terá que sofrer a ira de Deus.

Por que estado "interm ediário"?


As almas dos que já morreram estão no céu ou no inferno, e estão lá
conscientes. Um dado interessante quanto a isso é que elas estão nesses
dois lugares temporariamente. O estado em que estão as almas depois da
morte, seja o céu ou o inferno, é chamado de intermediário porque não
corresponde ao local definitivo no qual, tanto os salvos quanto os conde­
nados, habitarão eternamente. As almas dos salvos no céu e as almas dos
condenados no inferno aguardam pelo último dia, o dia da ressurreição.
Naquele dia, de acordo com a Bíblia, todos ressuscitarão. Daniel já dizia:
“Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida
eterna, e outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12.2; ver ICo 15.52;
lTs 4.16). Depois da ressurreição, os perdidos irão para o lago de fogo (Ap
20.15), e os salvos para o novo céu e a nova terra (Ap 21.1). O motivo é
simples: Deus não criou o ser humano para viver sem corpo. Atualmente,
tanto no céu como no inferno, as almas estão despidas de seus corpos; o
futuro lhes assegura que um dia elas se reunirão a eles. Para os salvos, isso é
um consolo; para os perdidos, um tormento a mais, pois o novo céu e a
nova terra serão melhores do que o céu atual, porém, por certo, o lago de
fogo será pior do que o inferno atual.
Para o crente, a doutrina bíblica do estado intermediário é uma grande
bênção. Ela nos assegura que o crente não precisará ficar dormindo, es­
perando pelo consolo. Ele não precisará esperar o dia em que o Senhor
voltar no seu reino para desfrutar de recompensas, pois já estará naquele
0 lugar dos mortos 225

mesmo dia no paraíso com o Senhor. Além disso, a doutrina do estado


intermediário assegura a justiça divina, pois ninguém terá mais vantagem
por ter mais dinheiro, como a doutrina do purgatório acarreta. Do mes­
mo modo, segundo a Bíblia, uma alma não precisa reencarnar centenas
de vezes até alcançar a perfeição.4 Isso é possível com uma única vida,
basta confiar de todo coração naquele que deu a vida dele para que fôsse­
mos aperfeiçoados.
Para o perdido, por outro lado, a doutrina do estado intermediário é a
certeza de que os seus pecados não passarão impunes. É a certeza de que a
justiça pode parecer demorada, mas não falhará. As pessoas que não que­
rem compromisso com Deus anelam que o túmulo seja o fim de tudo, mas
terão uma surpresa terrível quando perceberem que estavam enganadas. A
doutrina do estado intermediário demonstra que a salvação é possível ape­
nas nesta vida. Isso demonstra a importância central do evangelho, a neces­
sidade de conhecê-lo plenamente e proclamá-lo apaixonadamente. O E-
vangelho será o assunto principal dos próximos capítulos.
18

0 evento central da história

“Vindo, p o r ém , a p le n itu d e d o tem po, Deus en v iou seu Filho,


n a scid o de mulher, n a scido sob a lei, para resgatar os q ue e sta v a m s o b a lei,
a f i m d e q ue receb êssem os a a d o çã o de filh os" (Gl 4.4).

John Lennon teria dito certa vez: “o Cristianismo acabará. Ele desapa­
recerá. Eu não preciso argumentar sobre isso. Eu tenho certeza de que o
tempo provará que é verdade. Agora, nós somos mais populares do que
Jesus”. A expectativa de Lennon não se confirmou, afinal, apesar de toda a
certeza dele. A verdade é que ninguém na história da humanidade foi po­
pular e, ao mesmo tempo, tão impopular como Jesus Cristo. Ninguém cau­
sou tanto impacto sobre o mundo, Desde que o homem de Nazaré andou
pelas colinas áridas da Terra Santa, o mundo tem reverenciado os seus
ensinamentos e confessado o seu nome, ou, por outro lado, vituperado a
sua pessoa. A vinda de Cristo permanece até hoje como o maior aconteci­
mento que este planeta já viu, mas as opiniões a respeito dele são muito
divididas.
Mas afinal quem é Jesus Cristo? Não há como enumerar as respostas
possíveis para essa pergunta. Ela depende do número de pensamentos e
filosofias que existirem no mundo. Pode haver um “Cristo” para cada
tipo de pessoa. Se reuníssemos um grupo de pessoas numa sala e pedísse­
mos para que fizessem uma descrição de Cristo, mas que não fosse pare­
cida com aquela tradicional das pinturas, certamente apareceria um Cris­
to rico, outro pobre, outro mártir, outro oriental, outro negro, outro “sem-
terra”, outro homossexual, outro revolucionário, etc. Porém, qual é o Cristo
verdadeiro?
No século 19, a teologia liberal se lançou numa verdadeira odisséia para
“desenterrar” o Cristo verdadeiro. Foi a chamada “busca pelo Jesus históri­
co”. Aqueles teólogos entendiam que os evangelhos haviam distorcido e
“enfeitado” demais o personagem histórico de Jesus de Nazaré.1 Como
não estavam mais dispostos a crer na mensagem dos discípulos, eles se
228 Razão da esperança

lançaram a uma busca audaciosa por pistas extrabíblicas do “verdadeiro”


Jesus. Nem é preciso dizer que foi uma busca totalmente fracassada. Ao
final, nada se conseguiu de substancial e que pudesse ser considerado acima
de qualquer suspeita, ou mesmo útil para uma reconstrução histórica de
Jesus. Portanto, a Bíblia é o único lugar onde se pode encontrar o Jesus
verdadeiro. O Cristo verdadeiro é o que nasceu numa humilde manjedoura
e morreu numa cruz. Isso nos fala da sua humildade. Mas é também o
Cristo sem pecado original, que venceu a morte pela ressurreição e subiu à
destra de Deus. Isso nos fala de sua divindade e de sua glória. As várias
facetas de Cristo que as pessoas têm pintado podem ser inspiradoras para
as minorias que se sentem rejeitadas pela sociedade, mas não podem redimir
ninguém. O ser humano não precisa de um mero exemplo, pois já teve
demais, e não houve muita diferença. O ser humano precisa de um Salva­
dor. Redenção, somente o Cristo da Bíblia comprou para o seu povo. Por
isso, o Cristo da Bíblia é suficiente, e somente ele é o verdadeiro.
O apóstolo Paulo descreveu a vinda de Jesus da seguinte maneira: “Vin­
do, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher,
nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que rece­
bêssemos a adoção de filhos” (G1 4.4,5). Muitas expressões usadas nessa
passagem nos ajudam a entender quem é Jesus e o que significa a sua vinda.

A plenitude dos tem pos


Os antigos contavam o tempo como um recipiente no qual gotejavam
os minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. É possível que Paulo tenha
isso em mente e, de acordo com ele, quando esse recipiente se “encheu”,
Deus enviou o seu Filho. Deus esperou que o tempo do mundo (chronos) se
enchesse, todavia, ele não esperou que o último grão de areia caísse no
recipiente do tempo de braços cruzados. Ele agiu efetivamente a fim de
preparar o mundo para o nascimento do seu Filho. Ao contrário do que diz
Baillie, não foi o homem quem retardou a vinda de Cristo por seu
despreparo,2 mas Deus, que preparou o mundo, ao longo dos séculos, para
o nascimento de Jesus. A vinda dele não foi uma decisão tomada de última
hora, como se surpreendentemente o mundo ficasse pronto de uma hora
para outra. Deus preparou o mundo cuidadosamente, e assim os grãos de
areia do tempo foram se juntando, até que, no momento planejado, Deus
enviou o seu Filho. Não poderia ser diferente, a maior e mais definitiva
intervenção de Deus na história do mundo não poderia acontecer de qual­
0 evento central da história 229

quer maneira. No contexto da afirmação de Paulo aos Gálatas sobre a ple­


nitude do tempo, destaca-se o papel desempenhado pela lei do Antigo Tes­
tamento. Ela foi um instrumento divino para preparar o mundo para a
vinda de Jesus.

0 A nt igo Testamento

Segundo a Bíblia, Israel foi o povo que Deus escolheu da descendência


de Abraão, ao qual estabeleceu na terra de Canaã, revelando-lhe a sua ex­
pressa vontade e o culto verdadeiro. Ao contrário do resto do mundo, Is­
rael era monoteísta, pois cria num único e supremo Deus. Não há relatos
em nenhuma cultura do mundo antigo de algum povo com crença seme­
lhante. Por meio de Israel, Deus queria espalhar a idéia do monoteísmo até
aos confins da terra, e para isso concedeu a Israel uma perfeita revelação do
seu caráter e da sua vontade: a lei.
No século 6o antes de Cristo, o povo de Israel foi levado cativo para a
Babilônia. O cativeiro ajudou a curar a idolatria de Israel, e assim homens
como Daniel e Neemias, e mulheres como a rainha Ester, puderam teste­
munhar a príncipes e imperadores sobre o Deus de Israel, O povo de Israel
nunca voltou totalmente para a sua terra —apesar de o cativeiro ter cessado
depois de setenta anos - , mas espalhou-se entre as nações, porém sempre
guardando e honrando a sua religião e a sua lei, Quando Jesus chegou, os
judeus haviam dado uma importante colaboração para a sua missão em
grande parte do mundo. O mundo sabia que existia um povo que não ado­
rava os deuses, e que dizia existir somente um Deus. Durante o exílio, os
judeus desenvolveram as sinagogas que eram locais onde adoravam e apren­
diam a lei. A sinagoga desempenhou um papel importante para que a men­
sagem de Jesus fosse proclamada e ouvida. Jesus pregou nas sinagogas e os
apóstolos também as usaram amplamente. O mundo tinha consciência de
uma lei superior, a lei do Deus de Israel. Esta, sem dúvida, foi o principal
instrumento de preparo do mundo para a vinda de Jesus.
Jesus disse: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna,
e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). Nenhuma única vez o
nome de Jesus aparece no Antigo Testamento, mas toda a sua vida e o seu
ministério estão lá amplamente descritos mediante profecias e “tipos” de
Cristo, Chamamos de “tipos” de Cristo personagens ou objetos do Antigo
Testamento que, em suas qualidades inerentes, anunciaram a vida e a obra
de Jesus. Nos dias de hoje, muitos estudiosos não acreditam nesse relacio­
namento entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Eles pensam
230 Razão da esperança

que são coisas totalmente distintas e irreconciliáveis. É verdade que essa


posição não é nova, como diz Berkouwer, pois já vem desde os dias do
hereje Marcião, do século 2o, que desprezava o valor do Antigo Testamen­
to.3 Porém, o crente deve ver o Novo Testamento em relação ao Antigo
num relacionamento de promessa e cumprimento. Apesar do imenso cui­
dado que se deve ter para não alegotizar4 o Antigo Testamento, é necessá­
rio que vejamos nele as promessas a respeito de Jesus. Pois de fato, Jesus
compreendia o Antigo Testamento, não como uma obra reservada ao povo
judeu e alusivo só à historia de Israel, mas como um livro que, diretamente
diz respeito à sua pessoa e obra”.5
O Antigo Testamento revelou ao mundo a existência de um Deus supre­
mo e justo que estabeleceu uma lei santa. Essa lei apontava para Cristo, pois
demonstrava o padrão exigido por Deus (lei moral), e ao mesmo tempo, o
sistema de expiação por meio do que Deus demonstrava a sua misericórdia
(lei cerimonial). Portanto, a lei cumpriu o seu propósito de mostrar ao ho­
mem o seu estado de completa inaptidão para servir a Deus, e indicou o
modo de salvação pelo derramamento de sangue, conforme o sistema de
sacrifício vigente no templo demonstrava. Além disso, sabe-se que Israel
desejava ardentemente a vinda do Messias, pois Deus se incumbiu de deixar
pistas, por todo o Antigo Testamento, sobre a vinda de um escolhido que
libertaria o povo e o levaria a uma era de paz e prosperidade. Sem essa cren­
ça, a vinda de Jesus não teria exercido o mesmo impacto. O próprio Jesus
disse que a sua vinda tinha a ver com o cumprimento dessa lei (Mt 5.17).

A cultura gr ega

Olhando para o mundo daquela época, podemos ver outros modos pelos
quais, aparentemente, Deus preparou a vinda de Jesus. A cultura da época
era bastante propícia para a manifestação de Jesus. Depois da queda da Babi­
lônia, o império mundial seguinte foi o de Alexandre o Grande, que espa­
lhou a cultura grega levando ao mundo o interesse pela razão, pela medita­
ção e pela pesquisa. Os famosos filósofos da antiguidade eram, em sua maio­
ria, gregos. Quando Jesus nasceu, o mundo estava impregnado do tipo de
pensamento que deixava as pessoas curiosas por ouvir algo interessante e, ao
mesmo tempo, descontentes com a mitológica religião grega. Quando ouvia
sobre algo mais consistente, o mundo grego acolhia com interesse. Percebe­
mos isso pela maneira como as pessoas receberam Paulo em Atenas (ver At
17,16-21). A maior contribuição, porém, da cultura grega foi a sua própria
língua. No tempo de Jesus, o mundo falava praticamente uma só língua, a
0 evenlo ceniral da hislória 231

grega. Isso facilitou não só a pregação do evangelho de Jesus Cristo a todos


os povos por meio dos apóstolos, como contribuiu para que os ensinamen­
tos de Jesus e dos apóstolos fossem registrados numa língua que todos pu­
dessem ler. O Novo Testamento foi escrito integralmente em grego/’ Com
isso, a disseminação dos escritos neotestamentários foi impressionante.

A cultura r o m a n a

Embora o mundo adotasse a cultura grega, já há muito tempo a Grécia


não dominava o mundo. O grande império da época de Jesus e de pratica­
mente todo o desenvolvimento do Cristianismo foi o Romano. A organiza­
ção desse império foi inigualável no mundo antigo. Até hoje, a sua estrutura
política, social, civil e militar é referência. Essa organização política tam­
bém contribuiu bastante para a implantação do Cristianismo. As estradas
romanas cortavam todo o império, o que facilitava a locomoção. Havia
também muita segurança por causa da Pax Romana, que proibia todo tipo
de conflito dentro dos seus domínios. Isso ajudou a disseminação do evan­
gelho. Paulo, como cidadão romano, tinha acesso livre a praticamente to­
dos os lugares do império.
Portanto, a Plenitude dos Tempos se refere ao tempo em que Deus, em
sua soberania, terminou os preparativos para executar o plano da redenção.
Essas conjecuturas históricas nos ajudam a ver um aspecto da preparação
divina, porém, como diz Hendriksen, “só Deus sabe plenamente por que,
em seu inescrutável decreto, decidiu que nesse momento específico termi­
naria o longo período de tempo (chronos) em que chegam ao seu final todos
os eventos preparatórios”.7 No plano de Deus, nos dias de Herodes, o mun­
do estava pronto para a vinda do Filho. Por essa razão, os anos 1-30 foram
os mais plenos que já existiram. Nada do que aconteceu antes, mesmo quan­
do os grandes impérios surgiram e desapareceram, mudou a monotonia do
tempo quando os pequenos grãos de areia caíam um a um. Por isso, a vinda
do Filho de Deus tornou os anos 1 a 30, um tempo pleno, mais que cheio,
porque alimentaram de sentido toda a história da revelação antes e depois
deles e, assim, a História propriamente dita.8 O tempo que Jesus esteve aqui
foi a grande intervenção de Deus na História, foi a plenitude dos tempos,
pois de fato, “com plenitude do tempo não está se falando, apenas, da
maturação de uma determinada questão dentro da grande estrutura da his­
tória redentora, mas do cumprimento do tempo num sentido absoluto”.9
Esses dias tornam o resto da História cheia de sentido e expectativa. O antes
e o depois somente têm valor porque o evento Cristo aconteceu.
232 Razão da esperança

Deus enviou o seu filho


O título “Filho” está intimamente ligado ao conceito da divindade de
Jesus. Uma das coisas que a expressão “Deus enviou seu Filho” representa
é a própria preexistência do Filho. Isso tornava a criança nascida em Belém
diferente de todas as demais que já nasceram neste mundo. Todas as outras
não existiam antes de sua concepção, mas Jesus não começou a existir em
Belém. Seus dias são eternos, a sua vinda aqui foi tão-somente para cumprir
uma missão que o Pai lhe havia confiado anteriormente. Como diz Berkou-
wer, “longe de ser uma invenção teológica, a fé na preexistência de Cristo
aparece, através de todo NT, como condição decisiva no plano salvífico”.10
Pensar que o Logos pudesse ter passado a existir somente a partir da encar­
nação é minar o plano da redenção. Quem veio aqui foi o herdeiro do
universo; por essa razão, a morte do Filho de Deus é o maior crime da
humanidade. No entanto, paradoxalmente, essa morte foi o maior presente
de Deus para os seres humanos.

M u i l o m a i s do que u m h o m e m
No Novo Testamento, a divindade de Jesus está muito clara. O Novo
Testamento atribui a Jesus uma série de poderes que somente podem ser
atribuídos a Deus. O próprio Jesus usou, em relação a si mesmo, expres­
sões que são conotativamente divinas. Jesus disse aos Judeus: “Antes que
Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58). Claramente essa é uma referência à sua
eternidade, e somente Deus é eterno. A própria expressão “Eu Sou”, dessa
passagem, é um eco do que Deus disse a Moisés quando ele se revelou na
sarça ardente: “Eu sou o que sou” (Ex 3.14). Outra declaração surpreen­
dente de Jesus foi: “Assim como o Pai tem vida em si mesmo, também
concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26). Ele está falando de uma
autonomia com relação à vida, e só Deus pode ter isso. Os homens depen­
dem totalmente de Deus para ter vida, pois eles não têm vida em si mes­
mos. Ao dizer que tinha vida em si mesmo, como Deus, Jesus se equiparou
a Deus. Jesus disse ainda: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”
(Mt 28.18), o que é uma referência clara à sua onipotência. O mesmo pode
ser dito de sua onipresença, pois ele disse: “Eis que estou convosco todos
os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Sua onisciência, por outro
lado, pode ser vista no fato de que ele conhecia os pensamentos dos seres
humanos (Mt 9.4; 12.25; 22.18; Lc 5.22; 6.8).
0 evenlo central da história 233

Somente Deus pode ser adorado. Pedro, Paulo e os anjos recusaram


adoração (At 10.25,26; 14.14,15; Ap 22.8,9), mas Jesus aceitou e até a incen­
tivou, como pode ser visto de suas próprias palavras: “Vós me chamais o
Mestre e o Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou” (Jo 13.13; ver Mt 14.33;
Lc 5.8; 24,52; Jo 4.10; 20.27-29). Dele é dito em Hebreus 1.6: “E, novamen­
te, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o
adorem”. Aquele que deve ser adorado pelos anjos não pode ser um mero
homem. A Escritura diz que diante dele todo joelho se dobrará e toda
língua confessará que ele é o Senhor (Fp 2.10,11). Durante o seu ministério,
várias vezes as pessoas, e até os seus discípulos, tiveram atitudes de adora­
ção perante ele e não foram repreendidos (Mt 8.2; 9.18; 15.25; Mc 5.6; Jo
9.38). A passagem mais importante, nesse sentido, é João 20.28, onde Tomé
reconheceu a divindade de Jesus, chamando-o de “Deus meu”, A impor­
tância dessa passagem na estrutura no evangelho de João é muitas vezes
ignorada. R. M, Bowman percebeu claramente que: “O Evangelho segun­
do João começa (1.1) e termina (20.28, excetuando-se o cap. 21, que é um
tipo de epílogo) com a confissão de dois dos discípulos originais de Jesus
de que Jesus Cristo é Deus”,11 E, de fato, a primeira confissão, no primeiro
capítulo, é do discípulo que talvez tenha a fé mais firme no Cristo Deus
(João), enquanto a última, do capítulo 20, do discípulo mais fraco (Tomé).
Tomé adorou a Jesus e lhe chamou de “Senhor meu e Deus meu”. E o mais
impressionante é que Tomé não foi repreendido por Jesus pelo que ele
disse. Se Jesus tivesse considerado isso uma blasfêmia, certamente teria
corrigido o discípulo, assim como Pedro corrigiu Cornélio quando este o
quis adorar (At 10.25,26), e o próprio João, escritor do livro, foi corrigido
pelo anjo quando quis adorá-lo (Ap 22.8,9). Jesus repreendeu Tomé apenas
pela sua incredulidade, mas não por adorá-lo e chamá-lo de Deus.
Somente Deus pode perdoar pecados, e Jesus perdoou pecados, como
no caso do paralítico que foi descido pelo telhado diante dele. Marcos relata:
“Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão per­
doados” (Mc 2,5). O mesmo ele fez com a mulher pecadora que lhe ungiu os
pés: “Então disse à mulher: Perdoados são os teus pecados” (Lc 7.48). Aquele
que perdoou pecados, que recebeu adoração, que demonstrou consciência
de atributos divinos, com certeza, era muito mais do que um homem.

R eco nh ecido c o m o "Deus"


O Novo Testamento claramente chama Jesus de Deus (theos). Em João
1.1,2, 18, Jesus é chamado de o Verbo de Deus. Esses versículos dizem que
234 Razão da esperança

Jesus era o Verbo (Lagos) que desde o princípio estava com Deus e era Deus.
A tradução “Novo Mundo” das Testemunhas de Jeová fez uma pequena
modificação na passagem, que causa uma grande falha de tradução, afirman­
do que a palavra theos, no versículo primeiro que é aplicada a Jesus, está sem o
artigo definido e que, portanto, pode e deve ser lida como “um deus”. Desse
modo, os Testemunhas de Jeová referem-se a Jesus como um deus menor do
que o Deus Supremo. Essa argumentação cria muitos problemas, pois há
passagens na Escritura em que theos é aplicado ao “Deus Supremo” sem o
artigo definido, como por exemplo, Lucas 20.38: “Ora, Deus não é Deus de
mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem” (ver também Mc 12.27;
Jo 8.54; Fp 2.13; Hb 11.16). Também há muitas outras passagens na Escritura
em que theos aparece, no mesmo contexto, tanto com o artigo como sem ele,
mas referindo-se ao mesmo Deus (Jo 3.2; Rm 1.21; lTs 1.9; IPe 4.10-11).
Em Romanos 9.5, Jesus é chamado de “Deus bendito para todo o
sempre”. Paulo está dizendo que, embora Cristo descenda humanamente
do povo judeu, e, portanto é um judeu, ele é também muito mais do que
um judeu. Ainda que tenha uma natureza humana, ele também tem uma
natureza divina. Ele é Deus.12 Em Tito 2.13, a tradução mais comum do
versículo é: “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória
do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”. Claramente, a passagem
chama Jesus de “grande Deus”. Apesar de que alguns têm tentado tradu­
zir o texto como “do nosso grande Deus e do Salvador Cristo Jesus”,
tentando fazer uma distinção, isso não faz sentido, pois a partícula “do”
não se encontra no original, e há apenas um artigo indicando uma única
pessoa. Ainda podemos acrescentar que a manifestação esperada é a Se­
gunda Vinda de Jesus e não do Deus Pai. Em Hebreus 1.8-12, o Pai fala
com o Filho e lhe chama de “Deus”. Todo o início desse capítulo descre­
ve Jesus como “Criador, Sustentador, Dono e Salvador, a quem é atribu­
ída adoração pelos habitantes do céu”.13 Esses atributos somente podem
ser de Deus, e, portanto, aqui está mais uma prova da divindade de Jesus.
O mesmo pode ser visto em 2 Pedro 1.1, que deve ser traduzido por:
“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtive­
ram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus
Cristo”. E, em 1 João 5.20, embora os unitaristas tentem diminuir o im­
pacto dessa passagem que chama Jesus de “o verdadeiro Deus e a vida
eterna”, afirmando que essa frase não pode se referir a Jesus, mas ao Pai,
permanece a evidência gramatical e contextuai de que Jesus é o sujeito
dessas declarações. Não há base para negar, o Novo Testamento catego­
ricamente afirma a divindade de Jesus.
0 evento central da história 235

A divindade de Jesus é um conceito necessário para a redenção. Nin­


guém menos do que o Filho poderia vir para resgatar o homem. Berkhof
lista três razões pelas quais o Messias precisava ser divino: “Era necessário
que (1) ele pudesse apresentar um sacrifício de valor infinito e prestar per­
feita obediência à lei de Deus; (2) ele pudesse sofrer a ira de Deus redento­
ramente, isto é, para livrar outros da maldição da lei; e (3) ele pudesse apli­
car os frutos da Sua obra consumada aos que o aceitassem pela fé”.14 Sua
divindade, além de evidente no Novo Testamento, é absolutamente neces­
sária para a redenção.

Nascido de m u lh er
Se Jesus é o Filho, o que aponta para a sua divindade, por outro lado
Paulo diz que ele nasceu de mulher, o que enfatiza a sua humanidade. Não
só Jesus veio ao mundo realizar a missão de salvar o homem, como a de
tornar-se ele próprio um homem. Também isso estava no plano de Deus.
Paulo aponta para isso com a expressão “nascido da mulher”. A expressão,
por sua vez, nos conduz ao maior mistério desta vida. Por séculos os teólo­
gos têm debatido acerca do mistério cristológico e não têm entendido sufi­
cientemente a essência desse Deus que se fez homem. Esta, porém, é a
essência do Cristianismo: Deus adentrou ao tempo e se fez um de nós. Ao
vir para este mundo, Jesus entrou pela porta comum pela qual todos en­
tram, nascendo de mulher. O autor do quarto evangelho diz: “O verbo se
fez carne” (Jo 1.14). Tudo isso nos aponta para a real e específica encarna­
ção de Cristo, que é o maior de todos os mistérios da teologia e da própria
História. Ele não apenas parecia um homem, ele foi um homem em todos
os sentidos. Não poderia ser diferente, pois se ele veio salvar os homens,
precisava ser também um homem, pois se somente Deus poderia oferecer
um sacrifício de valor infinito, somente um homem poderia pagar como
homem. O adentrar do divino na esfera do humano nos fala da junção do
eterno com o temporal, do especial com o comum. Na plenitude dos tem­
pos, Deus enviou o seu Filho, e ele nasceu de mulher.

N as cim en to virginal

Desde o início, a igreja sustentou que Jesus havia nascido sem a coopera­
ção do homem. Recentemente essa doutrina tem sido atacada, não por falta
de base bíblica, mas porque contraria os princípios modernos e anti-sobre-
236 Razão da esperança

naturalistas da ciência e da filosofia. A Bíblia afirma explicitamente que Maria


era virgem quando Jesus foi concebido: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo
foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem
antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1.18). José, o
esposo prometido, ao tomar conhecimento da gravidez quis abandoná-la,
mas foi aconselhado pelo anjo a não fazer isso. O anjo lhe disse: “José, filho
de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é
do Espírito Santo” (Mt 1.20). E confirmou: “Ora, tudo isto aconteceu para
que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis
que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome
de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)” (Mt 1.22,23). Um dos motivos
do nascimento virginal de Cristo, segundo o anjo, era justamente para cum­
prir a profecia de Isaías. Desde aquele momento, José acolheu Maria, porém,
não teve relações sexuais com ela até que Jesus nascesse (Mt 1.25). Lucas
acrescenta alguns detalhes importantes à narrativa do nascimento virginal.
Ele diz que quando o anjo Grabriel anunciou a Maria que ela seria a mãe do
Messias, Maria questionou: “Como será isto, pois não tenho relação com
homem algum?” (Lc 1.34). A resposta do anjo foi: “Descerá sobre ti o Espí­
rito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso,
também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc
1.35). A descida do Espírito Santo sobre Maria, fazendo o poder do Altíssi­
mo envolvê-la, se parece muito com a descrição do primeiro ato criador de
Deus em Gênesis 1.1,2, quando o Espírito de Deus “pairava” sobre as águas.
Deus usou o mesmo poder diretamente sobre Maria, e isso fez de Jesus um
“ente santo”, ou seja, alguém sem pecado. O nascimento de Jesus foi um ato
criador direto de Deus, o que fazia do Jesus homem, um ser especial.15
A grande conseqüência de Jesus ter sido concebido pelo Espírito Santo,
no ventre da virgem Maria, é que ele não herdou o pecado original. Não é
o fato em si de que Maria era virgem que o livra do pecado original, pois o
sexo não é o originador desse pecado. O que garante a impecabilidade ori­
ginal de Cristo é a concepção pelo Espírito Santo. Não sendo um filho de
Adão, Jesus não estava incluído na aliança das obras e, portanto, não foi
atingido pela disseminação do pecado.

 h u m a n i d a d e de Je su s
Hoje, poucos discutem a humanidade de Jesus, pois é a sua divindade que
é posta em xeque. Na verdade, há até mesmo uma ênfase exagerada na sua
humanidade, uma tentativa de torná-lo um homem comum, com vitórias e
0 evento central da história 237

fracassos, erros e acertos. Querem fazê-lo um homem como outro qualquer,


que se diferenciava apenas pela consciência esclarecida, desejo de liberdade
e de justiça. Berkouwer observa, nessa ênfase humanística, uma tentativa de
elevar o ego do ser humano. Ele diz: “Porventura não há um motivo
humanístico secreto, o desejo de fazer surgir a salvação da própria natureza
humana?”115 A consideração da humanidade de Jesus não deve seguir qual­
quer outra influência senão a da sinceridade em relação à Escritura. Pois, se
a Escritura atesta a divindade de Jesus, não é diferente em relação a sua
humanidade. O Verbo (Lagos), que João disse existir desde o princípio, num
dado momento da História, na plenitude, veio aqui fazer sua habitação. João
diz: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade,
e vimos a sua glória, glória como do unigénito do Pai” (Jo 1.14).
O homem Jesus não foi constituído de uma nova natureza humana, ele
herdou a natureza humana completa de sua mãe, por isso a Bíblia diz que
ele é “nascido de mulher” (G1 4.4). Mateus começa o seu evangelho com a
seguinte declaração: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi,
filho de Abraão” (Mt 1.1). Ele não poderia ser descendente de Davi e de
Abraão se tivesse recebido uma natureza inteiramente nova. Ele possuía a
natureza humana normal e comum, exceto pela diferença de ter sido con­
cebido sem pecado, e de ser igualmente Deus.
Jesus sentia sede, fome, cansaço, tristeza, e muitos outros tipos de senti­
mentos, necessidades e limitações que são próprios de um homem. E ver­
dade que ele possuía o poder de fazer o que quisesse conforme sua divinda­
de lhe conferia, mas isso não anulava as suas condições humanas. Após os
quarenta dias de jejum no deserto, a Bíblia simplesmente diz que Jesus teve
fome (Mt 4.2). Durante a sua viagem pela Galiléia, João o descreve como
um viajante cansado que se aproxima de um poço com sede (Jo 4.6-8). Em
outra ocasião, o vemos profundamente adormecido na popa da embarca­
ção durante uma tempestade no mar, o que certamente denotava esgota­
mento físico (Mc 4.36-41). A maior prova de suas limitações humanas, e
que comprovam a sua humanidade, foi a sua própria morte. Ele realmente
morreu, tendo padecido dores e privações humanas antes e durante a cru­
cificação (Mt 26.38; Jo 19.28).

Nascido sob a lei


Podemos dizer que Jesus veio a este mundo por causa da lei. A lei con­
dena o pecador, e Jesus veio para salvar o pecador. Para isso, era necessário
238 Razão da esperança

que ele observasse todos os mandamentos e vivesse em absoluta santidade.


Só então poderia oferecer a sua vida como um sacrifício no lugar dos trans­
gressores da lei.

0 c u m p r i m e n t o da lei
Jesus deixou bem claro que não estava revogando a lei e nem mesmo
modificando-a com a sua vinda. Suas palavras foram inequívocas: “Não
penseis que vim revogar a lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim
para cumprir” (Mt 5.17). A pregação e o ministério de Jesus sempre esti­
veram em total acordo com os preceitos da lei e dos profetas. Jesus não
era um revolucionário como muitos imaginavam, pelo menos não nesse
sentido. A lei tinha destaque e função especial no seu ministério. Isso não
quer dizer que Jesus pensasse, como os fariseus, que a rígida observância
da lei era o único modo de salvação existente. Jesus sabia muito bem que
os homens não conseguem cumprir integralmente essa lei, e sabia tam­
bém que o próprio Deus havia estabelecido desde o início um sistema de
sacrifícios, que fazia propiciação pelos pecados cometidos. Ele tanto sa­
bia disso que seria o próprio sacrifício que consumaria todo aquele siste­
ma (Jo 1.29). É nesse sentido, inclusive, que devemos entender a expres­
são: “Não vim para revogar, vim para cumprir”. Ele veio cumprir a lei
tanto ativa quanto passivamente. Ativa no sentido de que obedeceu a
todos e a cada um de seus mandamentos, estatutos e princípios. Passiva
no sentido de que preencheu a exigência penal da lei ao ser executado
como um malfeitor no lugar dos homens. Por isso, ele disse que nem um
“i” ou um “til” passaria até que tudo fosse cumprido. Se o amor de Deus
foi o motivo maior pelo qual Jesus foi enviado ao mundo (Jo 3.16), no
mesmo nível está o zelo pela lei.

A tentação de Je su s
A divindade de Jesus não tornou fácil a tarefa de cumprir a lei, nem
anulou toda possibilidade de tentação. O autor aos Hebreus diz: “Porque
não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fra­
quezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas
sem pecado” (Hb 4.15). Essa passagem diz que Jesus foi tentado “em todas
as coisas, à nossa semelhança”, ou seja, ele foi submetido a todo tipo de
testes nesta vida, do mesmo modo que qualquer ser humano. Isso era abso­
lutamente necessário a fim de que cumprisse sua missão, que não era ape­
0 evento central da história 239

nas a de sofrer no lugar dos homens, mas também de obedecer no lugar


deles. A Bíblia chamajesus de o “segundo Adão” (ICo 15.22,45). A grande
característica do primeiro Adão era representar a humanidade no teste que
enfrentou, e do qual saiu reprovado e, conjuntamente, toda a humanidade.
O segundo Adão também foi submetido a teste, porém saiu-se vencedor, e
assim concede sua vitória a todo o seu povo.
Questiona-se se a tentação de Jesus teria sido mesmo real. Muitos teólo­
gos defendem ardorosamente que Jesus não tinha a menor possibilidade de
pecar, e que, por conseguinte, sua tentação não podia ser real. Se essa posi­
ção estiver correta, teríamos que dizer que a tentação de Cristo não passou
de uma encenação. Alguns defendem a idéia de que a humanidade de Cristo
podia pecar ou não pecar, mas como ela está ligada à divindade de Cristo
que não pode pecar, então, Jesus não pecaria. Sproul se inclina a favor da
possibilidade humana de Cristo pecar. Ele diz: “A tentação de Cristo não
foi uma peça de final previsto, uma imitação vazia. Toda a fo rça do inferno
estava mobilizada contra a natureza humana de Jesus. Em sua natureza
humana, ele sofreu sob o peso da fome, da solidão, e todos os outros peri­
gos do deserto”.17 A declaração é interessante, mas isso quer dizer que
havia alguma chance de o propósito de Deus ir por água abaixo? Talvez,
devêssemos dizer o seguinte: Cristo tinha e não tinha a possibilidade de
pecar em sua pessoa integral.18 Ele tinha a possibilidade porque era huma­
no, e foi submetido a um teste real, e não a uma encenação. Mas Cristo não
pecaria, e isso por três razões: 1) Não tinha uma natureza inclinada para o
pecado. 2) O Espírito Santo o capacitava a não pecar. 3) Não estava no
plano de Deus que ele pecasse. Este último ponto é, sem dúvida, decisivo,
como nos lembra Berkouwer:

Não podia ser de outro modo, não havia outro caminho para evitar a pai­
xão. Mistério dc santidade e dc misericórdia! Cristo não podia cair na tenta­
ção, nem de fato caiu: não por ter-lhe faltado liberdade, mas precisamente
por causa de sua liberdade, que era uma liberdade para as coisas de Deus, para
os planos Divinos dc salvação e libertação dos homens.19

Para resgatar e adotar


Paulo disse que Jesus veio ao mundo porque foi enviado. Isso significa
que ele veio com uma missão, A missão de Jesus é resolver o estado caótico
em que se encontra o mundo. Com a queda e a entrada do pecado, o mundo

\
240 Razão da esperança

se tornou “território” usurpado por Satanás.20 O homem corrompido pelo


pecado, destituído de qualquer capacidade de mudar a sua situação, marcha
para a autodestruição numa vida de completa alienação de Deus. A vinda de
Jesus é a grande intervenção de Deus na História, para recuperar o território
perdido, para reconduzir o mundo ao propósito de Deus. Com isso não se
pretende dizer que, até a vinda de Jesus, Deus ficou sem testemunho ou ação
no mundo. Todas as profecias, tipos e manifestações de Deus ainda no Antigo
Testamento, já apontavam para a vinda de seu Filho, coisa essa que nem sem­
pre os estudiosos da lei conseguiam identificar. A vinda de Jesus é a concreti­
zação do plano divino estabelecido desde a fundação do mundo, assegurado
ainda no Éden (Gn 3.15) e manifestado em Belém da Judéia no tempo do
Imperador César Augusto. O fato de o Pai ter enviado o seu Filho é o desfecho
da história da graça, é o supremo ato de misericórdia, é a manifestação mais
abundante de amor pela sua criação (Jo 3,16), e pelo seu povo (Rm 5.8).
De acordo com Paulo, a grande missão do Filho que veio na Plenitude
dos tempos foi “resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêsse­
mos a adoção de filhos” (G1 4.5). Ele expressa o benefício concedido de
uma maneira negativa: “resgate”, e outra positiva: “adoção”. O resgate da
lei tinha a ver com o assumir a maldição do ser humano (Gn 3.17). Como o
próprio Paulo diz: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele
próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: maldito todo aquele
que for pendurado em madeiro” (G1 3.13). Ao mesmo tempo em que fo­
mos livrados da escravidão por esse ato de Cristo, também fomos elevados
à categoria de filhos por adoção. Tanto o resgate de escravos como a ado­
ção de filhos são aspectos legais comuns no tempo do apóstolo Paulo. O
que a adoção sugere é a maioridade do cristão, que em Jesus deixa de ser
escravo dos rudimentos do mundo, e passa a desfrutar da verdadeira liber­
dade de filho, com todos os seus direitos.
Ao enviar Jesus ao mundo, Deus não só resgatou o homem da escravi­
dão da lei e do mundo e o elevou a categoria de filho, como deu plena
garantia disso com o envio do Espírito Santo. Paulo diz: “E, porque vós
sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que
clama: Aba, Pai! De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo
filho, também herdeiro por Deus” (G1 4.6.7). A certidão de nascimento
do filho de Deus é o Espírito Santo que habita no seu interior e que
clama: “Aba, Pai”. Esta é uma expressão íntima de um filho para seu pai.
O Espírito Santo, também chamado por Paulo de “penhor da nossa he­
rança” (Ef 1.14), é a garantia de que somos herdeiros de Deus e que
certamente receberemos a herança. Portanto, Jesus é o Filho de Deus,
0 evento central da história 241

que nasceu de mulher, cumpriu a lei, e resgatou o seu povo. Esse é o


verdadeiro Jesus histórico.

Conclusão: o m ilagre do en tendim en to


O impacto histórico de Cristo é inigualável. Toda uma civilização foi
construída sobre as bases do Cristianismo. O mundo tem uma dívida
impagável para com o homem de Nazaré mais do que com qualquer líder
religioso. Muitos líderes já passaram por este mundo, como Buda, Maomé,
Confúcio, mas nenhum deles causou tanto impacto na História quanto Je­
sus. Além disso, dá para imaginar um Budismo sem Buda e até um Islamismo
sem Maomé, e muitas outras religiões também passariam muito bem sem
os seus fundadores, pois não dependem deles, e sim dos ensinos deles.
Qualquer um poderia ser o fundador do Budismo ou do Islamismo, basta­
ria ensinar certas doutrinas, mas o Cristianismo não existe sem Jesus. Jesus
é o Cristianismo; como diz Bavinck:

Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo,


o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora
expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não
está fora, ele está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra,
não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não c aquele que aponta o
caminho para o Cristianismo, ele mesmo é o caminho.21

As vezes, as pessoas se dizem cristãs porque fazem certas obras ou têm


certos comportamentos tipicamente cristãos, mas isso é um equívoco. Nin­
guém é cristão simplesmente por algo que faz ou deixa de fazer, e sim por
sua postura em relação a Jesus. Não somos salvos pelos ensinos de Jesus;
somos salvos por Jesus. De certo modo, ele nunca pretendeu fundar real­
mente uma religião, a não ser que entendamos que esta religião é ele próprio.
Por causa de sua singularidade, Jesus é o personagem mais debatido em
toda a história do mundo. Ninguém é como ele, amado ou odiado, adorado
ou profanado. Uma coisa é certa, ele mexe com todos. Há desde aqueles
que lutam para transformá-lo num simples mito da fé, como os que dese­
jam encontrar suas raízes históricas para provar apenas sua historicidade
como um homem comum. Da mesma maneira, há aqueles que desejam
demonstrar que ele não passa de uma grande fraude. No Brasil, algumas
revistas, supostamente científicas, têm atacado seriamente a credibilidade
242 Razão da esperança

do registro bíblico sobre Jesus. Porém, têm feito isso sempre de maneira
irresponsável, sem provas e com teorias bastante especulativas e superadas,
à base do sensacionalismo. O que permanece é que todos se importam com
ele. O curioso é que, enquanto os mais eruditos e capacitados pesquisado­
res se calam ou falam demais perante o mistério de sua pessoa, pessoas
simples têm a coragem de dizer: Eu o conheço, ele é o Filho de Deus, o
meu Salvador. Até aos dias de hoje o problema ainda é o mesmo que Jesus
já enfrentou em seus dias, quando questionou os seus discípulos sobre a
opinião do povo e deles próprios sobre a sua pessoa. Ele lhes perguntou:
“Quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15). Mateus relata o que os discípulos
responderam: “Uns dizem: João Batista; outros; Elias; e outros: Jeremias,
ou algum dos profetas” (Mt 16.14). A dúvida sempre pairou sobre a verda­
deira identidade do homem de N azaré. Os m esm os conceitos
desencontrados vistos no seu tempo podem ser vistos hoje, nas mais diver­
sas áreas da teologia, das ciências naturais ou dos conceitos populares. Con­
tudo, na passagem de Mateus, o verdadeiro interesse de Jesus não é pela
opinião do povo, mas pela opinião do seu povo. O máximo que lhe interessa
a opinião dos outros é naquela forma que fazia seus discípulos pensarem
sobre o assunto. A pergunta que realmente importa é: “Mas vós, quem
dizeis que eu sou?” (Mt 16.15). Nas palavras de Berkouwer,

Com essa pergunta Cristo não espera ouvir, ao lado dos múltiplos concei­
tos que correm a seu respeito, mais uma opinião à altura das demais; pre­
tende provocar uma decisão de outra índole, existencial, diretamente correlata
com a verdade vista em sua Pessoa; quer uma resposta que supere toda
consideração teórica, resposta real e única, conforme a realidade dele.22

A resposta de Pedro é a única digna de aprovação: “Tu és o Cristo o


Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Em seguida, Jesus revelou a verdadeira
origem dessa resposta: “Não foi carne ou sangue quem to revelaram, mas
meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Entender quem é Jesus não é coisa
que se consiga seguindo simplesmente pistas racionais. Entender Jesus é
um milagre concedido somente ao povo de Deus. E um dom de Deus, algo
como um ato de conceder visão ao cego. O mundo nunca entenderá real­
mente quem é Jesus, mas os seus discípulos sempre sabem, não por algo de
si mesmos, e sim por esse tremendo testemunho interior do Espírito Santo
que os leva a proclamar sem medo: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo,
ou simplesmente: Jesus, o meu salvador.
19

0 filho de M aria

A oração mais popular do catolicismo diz: “Santa Maria, Mãe de Deus,


rogai por nós, pecadores”. Muitos protestantes discordam desse título con­
cedido à Maria. Eles entendem que ela não pode ser a mãe de Deus, uma
vez que Deus existia antes dela. Para o catolicismo, pelo fato de Maria ter
dado à luz Jesus, e sendo Jesus Deus, então, ela é também a mãe de Deus.
Esta discussão dá origem à outra que diz respeito à pessoa de Jesus —sobre
o modo como se relacionam as duas naturezas (humana e divina) na pessoa
de Cristo. Só podemos responder à pergunta sobre se Deus tem mãe de­
pois de entendermos se Jesus é uma pessoa única, ou se há nele duas pes­
soas. Apesar de esse tema parecer “teológico” demais, e, talvez muitos o
considerem aparentemente sem muita importância, o fato é que as aparên­
cias enganam. Este é um dos temas mais importantes para a fé cristã. A
redenção só é possível porque na pessoa de Cristo há duas naturezas: a
humana e a divina. O sacrifício dele só tem valor porque ambos os aspectos
estão presentes. Jesus veio para transpor o abismo entre Deus e os homens.
Esse abismo foi transposto na sua próprioa pessoa, pois, mesmo que Jesus
fosse Deus e homem ao mesmo tempo, se as duas naturezas não fossem
unidas, então, “mesmo que diminuído, o abismo permanece”.1 E na abso­
luta união das naturezas na pessoa do Redentor que repousa a nossa confi­
ança de que Deus e o homem podem ter paz.

0 gra n d e mistério da teologia


Nenhum outro tema (exceto a Trindade) é tão complexo e extrapola tan­
to a capacidade da razão humana do que o que se refere à encarnação de
Cristo. De certo modo, isso é natural, afinal estamos tratando, como já disse­
mos, do acontecimento central e mais decisivo da história do mundo, a oca­
sião em que o Deus eterno adentrou o mundo dos homens, ou, nas palavras
de João, a ocasião em que “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Paulo reconhece
244 Razão da esperança

o mistério do acontecimento ao escrever: “Evidentemente, grande é o mis­


tério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em
espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo,
recebido na glória” (lTm 3.16). Essa passagem é considerada um fragmento
de algum hino primitivo, um tipo de credo ou confissão de fé dos primeiros
cristãos. Interessante é que Paulo usa a expressão “evidentemente”, que dá
uma idéia de “consentimento comum”,2 o que demonstra que havia um
reconhecimento entre os crentes de que eles estavam lidando com um mis­
tério, “o mistério da piedade”. A primeira declaração do mistério envolve
justamente a encarnação, ou “aquele que foi manifestado na carne”. As seis
declarações de Paulo no versículo demonstram um estilo de poesia muito
comum no mundo hebreu, o quiasmo.3 Podemos ver um contraste claro e
constante entre a sua humanidade e divindade a cada declaração. A primeira
declaração aponta para a terra: “manifestado na carne”. As duas seguintes
para o céu: “justificado em espírito” e “contemplado por anjos”. Em segui­
da, duas que apontam novamente para a terra: “pregado entre os gentios” e
“crido no mundo”. A última aponta novamente para o céu: “recebido na
glória”. Há claramente um jogo poético de palavras, e o objetivo é destacar a
divindade e a humanidade de Jesus numa íntima relação, sem perder a idéia
do mistério da encarnação. E justamente esse relacionamento entre o divino
e o humano em Jesus que compõe o mistério.
De certo modo, a teologia é uma ciência que se esforça por adentrar o
mistério. Porém, devemos sempre lembrar de nossas limitações, especial­
mente ao lidar com a grandeza daquele que é o próprio Deus. Por outro
lado, é muito importante que mantenhamos uma visão equilibrada ao tratar
do assunto, pois quando falamos de “mistério”, ou mesmo quando a Bíblia
o faz, a idéia não é colocar uma placa dizendo “Mantenha distância”. Ber-
kouwer é muito útil nesse ponto:

Quando a igreja proclama a santidade do mistério, ela declara a impossibili­


dade de elucidar o problema mediante o raciocínio e, ainda mais, ela con­
fessa que, mesmo nos pronunciamentos positivos dos concílios e dos cre­
dos, nunca pretendeu superar o mistério nem dar-lhe uma interpretação
racional. Todavia, refugiar-se por detrás do mistério não pode satisfazer;
fechar a porta ao raeionalismo não significa silenciar o que o próprio Deus
revelou, nem subestimar os dados escriturísticos relativos a Cristo, embora
sejam supra-racionais.4

Calvino compreendia bem essa tensão. Depois de advertir contra a vai­


dade especulativa nas coisas da fé e lembrar a limitação do nosso entendi­
0 filh o de M aria 245

mento, ele fala contra a preguiça de quem negligencia o que foi revelado.5 A
encarnação de Cristo é um grande mistério para todos nós, mas ela está
revelada na Bíblia, portanto é nossa obrigação e privilégio estudá-la.

0 credo de Calcedônia
Desde o início, a igreja se preocupou em tomar as decisões importantes
por meio de concílios. A origem dessa prática está descrita em Atos 15.6 Os
concílios eram convocados para solucionar problemas na igreja. O Concí­
lio de Calcedônia foi convocado para solucionar o impasse cristológico, ou
seja, a questão do entendimento a respeito das duas naturezas de Cristo.
Nesse concílio, em 451, foi formulada a principal declaração feita até hoje
sobre a pessoa de Cristo, Em geral, os estudiosos concordam que, de lá
para cá, pouca coisa foi acrescentada às definições desse concílio. Naquela
época, a igreja lutava com dois problemas internos: O “nestorianismo” e o
“eutiquianismo”. O primeiro era a concepção de que em Cristo havia duas
naturezas separadas, a divina e a humana. Assim, o Deus Cristo e o homem
Cristo eram aspectos separados em Jesus. Certas coisas ele experimentava
como homem e certas coisas como Deus. Já o “eutiquianismo” defendia o
“monofisismo”, ou seja, que Jesus tinha apenas uma natureza a partir da
mistura entre o homem e o Deus. Era como se, em Jesus, existisse uma
“terceira natureza”, diferente da humana e da divina, formada a partir da
mistura dessas duas. O credo formulado no Concílio de Calcedônia rejeita­
va ambas as posições:

Portanto, em harmonia com os santos pais, todos nós, unânimes, ensina­


mos que devemos confessar que nosso Senhor Jesus Cristo é o mesmo e
único Filho, o mesmo perfeito na Divindade e o mesmo perfeito na huma­
nidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, o mesmo com
uma alma racional e um corpo, consubstanciai ao Pai na Divindade e
consubstanciai a nós na humanidade, semelhante a nós em todas as eoisas,
exceto no pecado; gerado do Pai antes das eras quanto à Sua Divindade, e,
nos últimos dias, por causa de nós e de nossa salvação, o mesmo gerado da
Virgem Maria, a Mãe de Deus (theotoko) quanto à Sua humanidade; o mes­
mo e único Cristo, Filho, Senhor, Unigénito, conhecido em duas naturezas
sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação, sendo a diferen­
ça das naturezas de modo algum anulada por eausa da união, mas sendo a
propriedade de cada natureza preservada e reunida em uma só pessoa e em
uma só subsistência, não separado ou dividido em duas pessoas, mas sendo
246 Razão da esperança

o mesmo e único Filho, Unigénito, Palavra divina, o Senhor Jesus Cristo,


conforme os profetas do passado e o próprio Jesus Cristo nos ensinaram a
respeito dEle e o credo de nossos Pais transmitiu.7

O credo confirma que Jesus é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”.


Também declara que ele tem “alma racional e corpo”. Quanto à sua pessoa,
é enfático em dizer que é “uma só pessoa”, porém “duas naturezas sem
confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”. De acordo com o
credo, em Jesus não há duas pessoas, a humana e a divina, há uma só pes­
soa, mas há duas naturezas que, se por um lado não estão separadas, tam­
bém não estão misturadas.
A expressão mais polêmica do credo é a que chama Maria de “mãe de
Deus”. É uma expressão anterior ao credo, que Nestório, já vinha comba­
tendo numa série de sermões proferidos em 428.8 Essa fórmula seria usada
pouco depois pelo Concílio de Efeso (431), cunhada por Cirilo de Alexan­
dria. O Concílio de Efeso utilizou essa expressão não como uma atribuição
de majestade à Maria, mas como reconhecimento de que o que dela nasceu,
por obra do Espírito Santo, era o Filho de Deus, o Deus encarnado desde
a concepção. Nestório, por sua vez - fugindo do que considerava o extre­
mo oposto, que dizia ser Maria “mãe do homem” (anthropotokòf —entendia
que a expressão correta seria “mãe de Cristo” (Cristotoko), por considerar
distintas as qualidades da divindade e da humanidade. No entendimento
dos participantes desse Concílio (Calcedônia), pelo fato de que em Jesus
não há duas pessoas, mas uma só, Maria pode ser chamada de mãe de Deus.
Ela é a mãe da natureza humana de Jesus, que juntamente com a natureza
divina, compõe a Pessoa única e indivisível de Jesus Cristo. O Credo afir­
mou que Maria é a Mãe de Deus quanto à sua humanidade, portanto, o
Credo não entendeu que Maria tivesse alguma coisa a ver com a geração da
divindade de Jesus. Voltaremos a falar disso mais abaixo.
No século 19, uma nova heresia surgiu como uma tentativa de explicar a
encarnação. Foi a teoria da kenosis (do verbo kenoo: esvaziar). Usando como
base o texto de Filipenses 2.7, que diz que ele se esvaziou, argumenta-se
que ele se esvaziou de sua própria divindade. Ele teria deixado a divindade
no céu e se tornado um homem. Assim, ele não seria simultaneamente, mas
sucessivamente, Deus e homem. O problema dessa teoria é que ela descon­
sidera todos os elementos bíblicos que mostram a divindade e a humanida­
de presentes em Jesus. Nem mesmo a interpretação de Filipenses 2.7 está
correta, pois, nessa passagem, Paulo não diz que Jesus se esvaziou da sua
divindade, mas dos seus direitos como Deus.
0 filho de M aria 247

Base bíblica da unipersonalidade


Por mais que as decisões dos concílios sejam importantes, somente a Bí­
blia pode ser a palavra final a respeito de assuntos teológicos. Para ver a
maneira como a humanidade e a divindade de Jesus se relacionam, precisa­
mos recorrer à Bíblia. A primeira coisa que observamos é que a Bíblia não faz
distinções entre a humanidade e a divindade de Jesus. Para a Bíblia, há só uma
pessoa. Há muitas passagens que comprovam isso. Paulo, ao falar da promes­
sa de Deus com relação ao evangelho disse: “Com respeito a seu Filho, o
qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de
Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mor­
tos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.3,4). Nessa passagem, Paulo
se refere a Jesus como o Filho de Deus e, ao mesmo tempo, como o descen­
dente humano de Davi. Homem e Deus estão unidos na pessoa do Redentor.
O mesmo pode ser visto em Gálatas 4.4 que já abordamos anteriormente:
“Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de
mulher, nascido sob a lei”. O Filho de Deus foi enviado e nasceu de mulher;
tanto a sua divindade quanto a sua humanidade fazem parte da pessoa única
de Jesus de Nazaré. Paulo diz que a nossa salvação foi possível porque Deus
enviou “o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa” (Rm 8.3).
E a mesma ênfase pode ser vista nas palavras de Paulo sobre a descendência
de Cristo em relação aos patriarcas: “Deles descende o Cristo, segundo a
carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!” (Rm
9.5). Essa passagem fala da natureza humana e divina de Jesus como uma só
pessoa. Ele é, ao mesmo tempo, o eterno Filho e o homem que tem uma
descendência humana. Não há distinções. Um das passagens que deixam mais
explícita a idéia de que Jesus é visto como uma só pessoa é Hebreus 2.14:
“Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes
também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aque­
le que tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Jesus, que é Deus, participou
da carne e do sangue como todos os demais homens, portanto, é inegável
que, ele é uma só pessoa, porém, tem duas naturezas, até porque essas passa­
gens demonstram que ele é Deus e também é homem.
Nas passagens a seguir, podemos observar uma aparente inversão de
atributos. As vezes, Jesus é tratado como homem, mas lhe são atribuídas
coisas da divindade e vice-versa. Isso nos mostra como a divindade e a
humanidade não são aspectos que devem ser vistos separadamente. Elas
estão unidas, formando uma única pessoa, mas não devemos pensar que
248 Razão da esperança

sejam misturadas. Há momentos que os atributos de uma natureza são


atribuídos a Jesus enquanto ele é tratado pelo nome da outra pessoa. Aos
presbíteros de Efeso, Paulo disse: “Atendei por vós e por todo o rebanho
sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a
Igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”. (At 20.28).
Ele está falando de Jesus, e trata Jesus como Deus, mas diz que ele com­
prou a igreja com o seu sangue. O sangue que seria próprio do homem é
atribuído a Deus. Ele não está fazendo distinção na pessoa de Cristo, antes
a está considerando uma pessoa integral: humana e divina. Do mosmo
modo, ele se dirige os Coríntios: “Sabedoria essa que nenhum dos podero­
sos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam
crucificado o Senhor da glória” (ICo 2.8). Paulo pôde dizer que o Senhor
da glória foi crucificado porque o vê como uma única pessoa, embora
composta de duas naturezas. Por outro lado, às vezes o próprio Jesus, que
chamava a si mesmo de “Filho do homem”, demonstrava a sua divindade:
“Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o
Filho do homem [que está no ce'u]” (Jo 3.13; ênfase acrescentada). O título
Filho do homem enfatiza a sua humanidade,10 mas Jesus disse que o Filho
do homem havia descido do céu e, num certo sentido, ainda estava lá. O
mesmo pode ser visto em João 6.62: “Que será, pois, se virdes o Filho do
Homem subir para o lugar onde primeiro estava?” Como homem, poderí­
amos dizer que Jesus nunca esteve no céu, mas ele não é homem apenas, e
nem a sua humanidade deve ser considerada à parte da sua divindade. Ele
é uma pessoa integral, indivisível e unipessoal. A Bíblia não faz distinção
entre as naturezas de Cristo, elas não devem ser consideradas separada­
mente. Porém, por outro lado, também não devem ser misturadas.

Naturezas Inseparáveis
Em geral, ouvimos as pessoas dizerem que Jesus é cem por cento Deus
e cem por cento homem. Parece uma boa explicação a princípio, mas no
fundo, é um tanto quanto confusa, pois pode sugerir que ele é, ao mesmo
tempo, duas pessoas, o que não é verdadeiro, ou uma pessoa duzentos por
cento, o que soa estranho. Sempre que usamos analogias, corremos o risco
de esconder mais do que iluminar. Entendendo o risco, nos atrevemos
falar de duas analogias que podem lançar alguma luz sobre o tema. A pri­
meira é a da alma humana e a do corpo humano.11 No ser humano há duas
substâncias, a material e a espiritual, que estão unidas, mas não misturadas.
0 filho de M aria 249

O corpo influencia a alma e a alma influencia o corpo de uma maneira


ininteligível para nós. Tudo o que acontece, seja na alma ou no corpo, é
atribuído à pessoa como um todo. Se uma parte do corpo dói, eu digo que
eu estou com dor. Se tenho algum problema espiritual, eu estou com pro­
blema. Não digo que é uma parte separada do meu ser que está com pro­
blema. Essas coisas também podem ser atribuídas à pessoa de Cristo e ao
relacionamento entre as suas duas naturezas. A outra ilustração seria das
duas naturezas no próprio homem, mais especificamente no crente, Se­
gundo o entendimento da maioria dos teólogos, o homem regenerado possui
uma natureza nova e outra velha, uma espiritual e outra carnal.12 Ambas as
naturezas estão no crente; entretanto, não dá para saber até onde vai uma e
até onde vai a outra. Mas sabemos que elas não são misturadas, pois são
distintas.
Ao afirmarmos que Jesus é uma única pessoa com duas naturezas,
estamos dizendo que a pessoa de Jesus possui atributos das duas nature­
zas.13 Assim, não há perigo algum em afirmar que Jesus era uma pessoa
onipotente, onisciente e onipresente, mas que também era sujeita a limita­
ções, sendo um varão de dores, sujeito a fraquezas e deficiências de conhe­
cimento. Ele podia ser tentado, sofrer e até morrer. Como disse Hodge, “a
mesma pessoa, eu, ou ego, que disse ‘tenho sede’, disse: ‘antes que Abraão
existisse, eu sou”.14 Não devemos pensar que, de alguma maneira, as duas
naturezas se misturaram e qualidades da divina foram atribuídas à humana
e da humana a divina, como se o homem fosse divinizado e o Deus
humanizado. Se isso acontecesse, de fato surgiria uma nova e terceira subs­
tância, a qual não seria humana nem divina, mas possuiria as propriedades
de ambas.15 Como diz Hodge, isso “equivaleria a uma extensão não esten­
dida, a uma intangibilidade tangível, a uma invisibilidade visível”.16 Se as
naturezas divina e humana se misturassem, teríamos uma terceira natureza,
uma natureza “teantrópica”.17 Por essa razão, não podemos concordar com
Strong que entende que “a união das naturezas divina e humana torna esta
possuída dos poderes pertencentes àquela”.18 E a pessoa de Jesus que tem
esse poder, e não a sua natureza humana como se fosse separada da divina.
As duas naturezas permanecem distintas; porém, elas se unem para formar
a pessoa completa de Jesus que sofre, fica cansada e é, ao mesmo tempo,
imortal e onipotente. Pe:la união sem confusão das duas naturezas, Jesus
realizou a obra redentora como um todo. Ele resistiu ao pecado, morreu e
ressuscitou, e isso foi possível somente porque era homem e era Deus.
Porém, a obra não é nem do homem nem do Deus, e sim da Pessoa de
Jesus, o Deus-homem.
250 Razão da esperança

Talvez essa seja a chave para interpretar aquela passagem difícil da Escri­
tura em que Jesus confessa não saber o dia nem a hora da sua vinda (Mt
24.36). A resposta de que ele, como Deus, sabia, mas, como homem, não
sabia, é demasiadamente simplista e até mesmo pode ser perigosa, pois pode
fazer uma ruptura na pessoa de Cristo. Precisamos entender que ele fez to­
das as coisas com a sua pessoa como um todo, que era tanto humana quanto
divina. A única coisa que podemos dizer é que, como homem-Deus ele era,
ao mesmo tempo, onisciente e limitado de conhecimento. Sua onisciência
pode ser vista porque ele conhecia até os pensamentos das pessoas (Mt 9.4;
12.25). Por outro lado, ele não sabia que não havia fruto na figueira (Mc
11.23). Assim também, vemos que ele era, ao mesmo tempo, onipotente e
limitado de poder, até porque se cansava e precisava dormir (Jo 4.6; Lc 8.23),
mas em outras ocasiões andava sobre as águas e ressuscitava os mortos (Mt
14.26; Jo 11.43,44). Podemos não entender bem como isso funciona, e tal­
vez o melhor mesmo fosse dizer, “Não sabemos”; porém, o que não pode­
mos é dizer, “Isso ele fez como homem e aquilo como Deus”, pois, desse
modo, estaríamos dividindo a pessoa indivisível de Cristo. Hodge diz:

Como de um homem pode-se afirmar tudo o que é verdadeiro de sua natu­


reza humana, e tudo o que é verdadeiro de sua divindade; como podemos
dizer que uma pessoa é mortal e imortal, que é uma criatura do pó e é filha
de Deus, igualmente podemos dizer que Cristo é finito e infinito; que é
ignorante e onisciente; que é menor que Deus e igual a Deus; que existiu
desde a eternidade e nasceu no tempo; que criou todas as coisas e foi varão
de dores.19

A pessoa de Cristo é indivisível. As duas naturezas estão unidas, e, “nes­


sa união Cristo controla todos os atributos e poderes que são próprios de
ambas as naturezas”.20 Por esse motivo, achamos perigosa a opinião de
Grudem quando ele diz que “Jesus tinha duas vontades distintas, uma von­
tade humana e uma divina, e que as vontades pertenciam às duas naturezas
distintas de Cristo”.21 Isso sugere que poderia haver algum tipo de conflito
na pessoa de Cristo. Porém, Grudem, entende que as vontades são distintas
nas naturezas, mas não na pessoa. Então, haveria duas vontades proceden­
tes de cada natureza, mas uma só vontade procedente da pessoa. De qual­
quer modo, esse tema se torna bastante especulativo, e é melhor pensar,
como diz Bavinck, que a união das naturezas leva Cristo a controlar os
atributos peculiares de cada natureza. Na pessoa de Cristo não há conflito,
há plena harmonia. Afinal ele veio para estabelecer a harmonia entre Deus
e o ser humano.
0 filho de M aría 251

M u ito a lém de Calcedônia


Como vimos no credo formulado pelo Concílio de Calcedônia, Maria foi
chamada de “mãe de Deus” ("Tbeotoko). Entretanto, a concepção dessa ex­
pressão naquela época era muito diferente da de hoje. Ao chamar Maria de
“mãe de Deus” pretendia-se apenas evitar a divisão da pessoa de Cristo,
como queria a heresia nestoriana. Nestorio queria chamar Maria simples­
mente de “mãe de Cristo” (Christotoho). A preferência de Nestorio pelo ter­
mo christotoko originou-se de sua propensão de separar as duas naturezas de
Cristo, falando da natureza humana em si, autônoma e independente da na­
tureza divina, sendo Maria a mãe dessa natureza independente.22 Calcedônia
se posicionou a favor da unipersonalidade de Cristo. Cristo é uma única
pessoa composta da natureza humana e divina, e essa pessoa nasceu de Ma­
ria. Porém, com isso não se pretendia dizer que Maria gerou a divindade.
A posição que Maria ocupa na teologia católica atual é resultado de
séculos de desenvolvimento. E verdade que Calcedônia contribuiu para isso,
pois, se não tinha a intenção de exaltar Maria, pelo menos abriu as portas.
Hoje, no catolicismo, Maria é considerada mediadora da graça e co-reden-
tora. Ela não é mãe apenas no sentido humano de Jesus, mas no sentido
pleno de ser assistente na obra da redenção. Certamente isso é ir muito
além de Calcedônia, e também da Bíblia. Mais longe ainda foi o catolicismo
na sua crença de que Maria nasceu sem pecado, que a sua virgindade foi
perpétua e que ela teve uma ascensão aos céus sem passar pela morte. To­
dos esses conceitos, evidentemente, são extrabíblicos.23
Uma vez que nenhuma dessas posições encontra base ou apoio na Es­
critura, e não passam de decisões de homens, não devem ser aceitas. A
Bíblia nada fala sobre nascimento sem pecado original ou ascensão de Maria,
e mostra claramente que ela não teve virgindade perpétua (Mt 1.25; 13.55;
Mc 3.31), nem possui caráter de mediadora (Jo 2.1-4; lTm 2.5). Com rela­
ção, porém, à expressão “mãe de Deus”, se com ela se pretende manter a
unidade da pessoa de Jesus, não é uma expressão a ser desprezada, mas
precisa ser bem entendida. Se, porém, com isso se pretende exaltar a pessoa
de Maria como mãe do Deus Todo-poderoso, originadora da divindade,
como tendo poder ou autoridade sobre Jesus, ou destacar Maria como al­
guém superior às demais mulheres, não deve ser aceita. De Maria, a melhor
coisa que podemos dizer é o que disse Isabel: “Bendita és tu entre as mu­
lheres” (Lc 1.42). Ela era uma mulher entre tantas outras, mas que recebeu
a graça de ser a mãe do Redentor. Por isso é, e sempre será, bendita entre as
252 Razão da esperança

mulheres. A sua escolha para ser a mãe do Filho de Deus não aponta para
o mérito de Maria, mas para a graça de Deus. Como ela própria entendeu e
disse, “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em
Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois,
desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o
Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia vai
de geração em geração sobre os que o temem” (Lc 1.46-50). Maria rendeu
toda a glória a Deus e o reconheceu como seu Salvador.
Concluímos, portanto, que, na pessoa indivisa do Redentor há duas na­
turezas, a divina e a humana. Ele não se esvaziou de nenhuma delas. Essas
naturezas não se misturaram, pois mantiveram as qualidades inerentes de
cada uma, estando em completa unidade. Essa união aponta para o sucesso
da obra redentora de Cristo. Na sua própria pessoa, o Redentor transpôs o
abismo entre Deus e os seres humanos, entre o eterno e o temporal, entre
a justiça e os pecadores. Graças ao verbo que se fez carne (Jo 1.14), pode­
mos ter paz com Deus (Rm 5.1).
20

A morte do M ediador

Desde os tempos do apóstolo Paulo, muitos consideravam a pregação


sobre a morte de Jesus uma loucura: “Certamente, a palavra da cruz é lou­
cura para os que se perdem” (ICo 1.18, 23). Não é apenas nos dias de hoje
que as pessoas se recusam a aceitar que Jesus precisava morrer para salvar o
mundo. A idéia de que Jesus se sacrificou para substituir o pecador é rejei­
tada por muitos como algo inconcebível, animalesco e desprovido de sen­
tido. Eles argumentam, “Como poderia Deus matar o seu próprio Filho
inocente pelos pecados dos outros? Como poderia isso ser aceitável diante
de Deus? Que Deus é esse que se propõe a aceitar tal troca?” Daí o esforço
antigo e moderno por encontrar outros modos de salvação, e outros signi­
ficados para a morte de Jesus.
De acordo com o ensino da Bíblia, o pecado do homem levou Cristo a
morrer para satisfazer a justiça de Deus. Esse tema é vital para a salvação;
entendê-lo bem, portanto, é indispensável. A tendência atual é dizer que
Jesus morreu para dar um exemplo. Alguns vão mais longe ao dizer que foi
apenas o fracasso de um fracassado. Neste capítulo procuraremos demons­
trar que a idéia da morte de Jesus pelos pecados não é algo absurdo, pois
segundo a Escritura, ele morreu para cumprir uma missão que Deus lhe
confiou: salvar o mundo por meio do seu sacrifício expiatório. Como vi­
mos ao estudar a Trindade, o caráter de Jesus como mediador esteve pre­
sente desde o início nas relações entre Deus e a criação. Porém, chegou o
dia em que o mediador realizou a mais difícil das obras: pagar com o seu
próprio sangue a dívida do ser humano perante a lei.

0 M ed ia d o r da aliança
O Cristo humano e divino veio para restabelecer o relacionamento en­
tre Deus e os seres humanos. Um mediador somente é necessário quando
existe algum conflito entre duas ou mais partes. A função de um mediador
254 Razão da esperança

é fazer ligação entre dois oponentes na tentativa de alcançar a paz. Quando


dois oponentes não têm qualquer intenção de fazer as pazes, eles nem pen­
sam em mediador. Isso mostra que o simples fato de existir um mediador
na relação ser humano-Deus demonstra interesse da parte divina em resol­
ver o impasse. Em geral, importa que o mediador seja neutro e tenha aces­
so aos dois lados. Ele precisa buscar o melhor para as duas partes envolvi­
das no conflito, e não pode favorecer uma em detrimento da outra.
A Escritura apresenta Jesus como o único mediador entre Deus e os
homens: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, homem” (lTm 2.5; At 4.12). Como mediador, sendo
Deus e homem ao mesmo tempo, Jesus consegue tratar com os dois lados,
e procura o bem para as duas partes. Como Deus, ele consegue se aproxi­
mar de Deus e, como homem, consegue se aproximar dos homens. O gran­
de conflito a ser resolvido é a questão da transgressão do homem. O
descumprimento humano em relação à lei de Deus que exige que a senten­
ça de condenação seja executada. Jesus se colocou entre essas duas partes
para fazer um acordo de paz. Porém, a paz somente pode ser alcançada se
Jesus conseguir inocentar o ser humano. O modo como Jesus fez isso não
foi negando a existência do pecado ou minimizando a gravidade do mes­
mo, mas morrendo no lugar do ser humano, desviando a ira de Deus do
pecador para si mesmo. Desse modo, os crentes podem ter, nas palavras de
Paulo, “paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Assim, sempre devemos ver a posição de mediador de Cristo em relação à
salvação, pois como diz Hodge, “como o desígnio da encarnação do Filho
de Deus era reconciliar-nos com Deus, e como a reconciliação das partes
inimizadas é uma obra de mediação, Cristo é chamado de nosso media­
dor”.1 Cristo exerce o seu papel de mediador para a nossa salvação como
profeta, sacerdote e rei. No Antigo Testamento, para benefício do seu povo,
Deus concedeu aos seres humanos reis, sacerdotes e profetas. Cristo reúne
os três ofícios na sua pessoa, e, portanto, consuma toda a obra divina de
aproximação com o ser humano.

0 ofício profético de Cristo

A grande função do profeta era anunciar algo da parte de Deus para o


ser humano. O profeta não tinha uma mensagem de si mesmo para trans­
mitir, ele transmitia a Palavra de Deus, a qual precisaria ter recebido de
Deus anteriormente. O profeta comunicava a vontade de Deus ao povo
por meio de admoestações, exortações, promessas ou ameaças. Jesus é o
A morte do M ediador 255

profeta por excelência. Moisés, o grande profeta de Israel anunciou a vinda


de um profeta que devia ser ouvido: “O S e n h o r , teu Deus, te suscitará um
profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás” (Dt
18.15). Quando as pessoas viram os milagres de Jesus, especialmente a
multiplicação dos pães e dos peixes, declararam: “Este é, verdadeiramente,
o profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6.14). Não há dúvida de que eles
estavam pensando na promessa de Moisés. Pedro entendeu que o anúncio
de Moisés se referia a Jesus, e deixou isso bem claro no seu primeiro ser­
mão: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus vos suscitará dentre vos­
sos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto
vos disser” (At 3.22). O Novo Testamento diz que todos os profetas do
Antigo Testamento eram movidos pelo Espírito de Cristo, ou seja, era o
caráter profético de Jesus que dava aos profetas a revelação, conforme as
palavras de Pedro na sua Primeira Epístola: “Foi a respeito desta salvação
que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da
graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou
quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que
neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referen­
tes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam” (IPe 1.10,11). Ele está
dizendo que os profetas puderam antever as coisas futuras porque o Espí­
rito de Cristo estava neles e lhes concedia a revelação.
Como profeta, Jesus tem a grande função de revelar o caráter do Pai.
João diz: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigénito, que está no seio
do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). Jesus revelou o caráter do seu Pai,
especialmente por meio do seu ensino. Suas explicações sobre Deus, bem
como o seu amor, a sua misericórdia, a sua graça, a sua justiça, a sua santi­
dade, o seu propósito, a sua natureza e pessoa, foram manifestações do seu
ofício profético. Cristo é a eterna sabedoria do Pai, ele se tornou o tradutor
de Deus para a raça decaída, que não conseguia falar a linguagem de Deus.
Tentar entender Deus à parte de Cristo é como tentar entender uma nação
estrangeira sem um embaixador. Cristo disse: “Quem me vê a mim vê o
Pai” (Jo 14.9). Jesus precisava ser Deus, para poder falar a verdade sobre o
Pai, e, ao mesmo tempo, precisava ser homem a fim de que entendêssemos
o que ele estava dizendo. Cristo é a ponte que liga o finito ao infinito, a sua
cruz liga os céus à terra, atravessa o imenso abismo entre o bem e o mal,
entre a santidade e a iniqüidade. Lloyd-Jones está certo em assegurar a impor­
tância disso, pois de fato “uma parte de nossa salvação consiste em nossa
recepção desse conhecimento que nosso Senhor nos tem comunicado”.2
Desse modo, o mediador estava fazendo a ponte entre Deus e o ser huma-
256 Razão da esperança

no, revelando-nos um pouco da maravilhosa pessoa do Pai. Toda a revela­


ção está, de certo modo, na pessoa de Cristo como profeta. Assim, de fato,
“desde o início, tanto em seu estado de humilhação quanto de exaltação,
tanto antes quanto depois do seu advento na carne, Cristo executa o ofício
de profeta ao revelar-nos, por meio de sua Palavra e seu Espírito, a vontade
de Deus para nossa salvação”.3 Deus ordenou aos homens, no monte da
transfiguração que ele fosse ouvido (Mt 17.5). Se ele devia ser ouvido é
porque de fato é o portador da revelação. Na pessoa de Cristo, segundo
Paulo, estão escondidos “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimen­
to” (Cl 2.3), e nas sábias palavras de Calvino “fora dele não há nada que
valha a pena conhecer”.4

0 oficio real de Cristo

Em seus três ofícios, Jesus age como mediador entre Deus e os seres
humanos: “Como profeta ele representa Deus para com o homem, como
sacerdote, ele representa o homem na presença de Deus; e como Rei, ele
exerce domínio e restabelece o domínio original do homem”.5 Cristo é rei
supremo sobre todas as coisas desde toda a eternidade, mas isso diz mais
respeito a seus atributos de soberania. Quando pensamos no ofício real de
Cristo, estamos nos referindo ao governo que ele exerce a partir de sua
obra na cruz. Embora Cristo seja rei desde sempre, depois da sua morte e
ressurreição, ele foi mais uma vez coroado, agora como aquele que tem em
suas mãos o destino do mundo para efeitos redentores. Evidentemente,
trata-se de um reino espiritual. João descreve essa cerimônia de coroação
de Jesus nos capítulos 4 e 5 do Apocalipse, quando Jesus, descrito por um
lado como um Cordeiro (Ap 5.6) e por outro como o Leão da Tribo de
Judá (Ap 5.5), toma o livro da mão direita do que está assentado no Trono
(Ap 5.7), e começa a abrir esse livro que contém os acontecimentos que
consumam o plano redentor de Deus para o mundo. Os efeitos dessa coro­
ação levaram Jesus a dizer: “Toda autoridade me foi dada nos céus e na
terra” (Mt 28.18). Aquele que desceu do céu, se fez homem, padeceu a mais
terrível das mortes, agora voltou a seu lugar de glória e assumiu um posto
ainda maior de autoridade (lTm 3.16), Paulo narra toda essa trajetória de
Jesus na sua carta aos Filipenses, numa passagem que bem poderia ser um
cântico dos primeiros cristãos:

Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser
igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo,
A morte do M ediador 257

tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,


a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de
cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que
está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho,
nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo
é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.6-11).

A humanidade (seu povo) participa dessa glorificação, pois Cristo é o


seu representante, e, por causa dela, ele assumiu o posto mais alto do uni­
verso, para ajudá-la e sustentá-la até a consumação de todas as coisas. E
nesse sentido que Cristo é chamado por Paulo na carta aos Efésios de “ca­
beça da igreja” (Ef 1.22), estando assentado “acima de todo principado, e
potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só
no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.21,22). Ele governa
todas as coisas para benefício da sua igreja. Seu governo é a garantia de que
a redenção finalmente se consumará, e de que sua morte não foi em vão.

0 ofício sacerdotal de Cristo

De todos os três ofícios, o sacerdotal é o que se relaciona mais direta­


mente com a expiação. O sacerdote se apresentava perante Deus para inter­
ceder pelo povo. A função do sacerdote era “oferecer tanto dons como sa­
crifícios pelos pecados” (Hb 5.1). No Antigo Testamento, quando os ho­
mens pecavam, precisavam se dirigir ao sacerdote que os ajudaria na oferta
do sacrifício pelo pecado. Como sacerdote, a função de Cristo é nos reconci­
liar com Deus, oferecendo um sacrifício que desvie a ira de Deus de sobre
nós. A diferença de Jesus em relação aos sacerdotes do Antigo Testamento é
que Jesus é o sacerdote e a vítima simultaneamente. Esse sacrifício foi, na
verdade, o único sacrifício aceito, uma vez que todos os sacrifícios do Anti­
go Testamento dependiam dele para terem valor, e que, após isso, nenhum
sacrifício mais deve ser oferecido. Os sacrifícios do Antigo Testamento eram

Tipos dos sofrimentos vicários de Cristo, e só obtinham perdão e aceitação


de Deus quando eram oferecidos com verdadeiro arrependimento, e com
fé no método de salvação usado por Deus. Só tinham significação salvadora
na medida em que levavam a atenção do israelita a fixar-se no Redentor
vindouro e na redenção prometida/’

Jesus consumou sacerdotalmente todo o sistema do Antigo Testamen­


to. O autor aos Hebreus fala de maneira muito clara sobre a função sacer-
258 Razão da esperança

dotal de Jesus e de sua oferta: “Com efeito, nos convinha um sumo sacer­
dote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e
feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos
sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus própri­
os pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas,
quando a si mesmo se ofereceu” (Hb 7.26,27), A auto-oferta de Jesus tem
um valor incalculável diante de Deus. E o sacerdote perfeito que oferece
um sacrifício perfeito. Isso nunca foi achado no Antigo Testamento e nem
poderia ser. Por isso, o ofício sacerdotal de Cristo torna o seu sacrifício não
só superior a todos os sacrifícios do Antigo Testamento, mas a própria
razão por que aqueles sacrifícios tinham valor.
A obra sacerdotal de Cristo na terra é a base para a sua obra no céu.
Assentado à destra de Deus, Jesus continua intercedendo pelo seu povo
(Rm 8.34). O apóstolo João demonstra claramente esse entendimento: “Fi-
lhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia,
alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (ljo
2.1).7 Os advogados humanos tentam provar a inocência do acusado, mas
Jesus sabe que os seus “clientes” não são inocentes. A defesa se baseia no
fato de que Deus não pode punir um mesmo crime duas vezes. Se Jesus já
pagou com o seu sacrifício o pecado do crente, a justiça divina não poderá
mais condená-lo.

A justiça de Deus e o pecado do ser h u m a n o


A Bíblia não tem ilusões românticas a respeito do ser humano. O ensino
bíblico é que, apesar de o homem ter sido criado em perfeita santidade, ele
corrompeu-se completamente. A primeira descrição bíblica que o próprio
Deus dá sobre o homem depois da queda está registrada em Gênesis: “Viu
o S e n h o r que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era
continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6,5). Essa forte
expressão “continuamente mau todo o desígnio do coração”, não deixa
muita coisa positiva sobre o homem, pelo menos não aos olhos de Deus.8
Como diz o autor do Eclesiastes: “Deus fez o homem reto, mas ele se
meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29). Essa habilidade humana em ser astu­
tamente falso e mentiroso recebe uma ênfase em Jeremias que diz: “Enga­
noso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrup­
to” (Jr 17.9). Olhando sem preconceitos para esse versículo, percebe-se que
ele está dizendo que nenhuma outra coisa do mundo consegue ser tão en-
A morte do M ediador 259

ganosa e desesperadamente corrupta quanto o coração humano. Tão cor­


rupto é o ser humano que ele consegue dizer do seu criador: ele não existe
(SI 14.1). O mesmo salmista diria: “Corrompem-se e praticam abominação;
já não há quem faça o bem. Do céu olha o S e n h o r para os filhos dos
homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se
extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não
há nem um sequer” (SI 14.1-4). A busca divina por alguém justo apresenta
apenas resultados negativos, pois Deus vê algo comum em todos os seres
humanos: o pecado. Como diz Schaeffer, “esta concepção da universalida­
de do pecado é o maior e mais genuíno ‘nivelador’ da humanidade”.9 To­
dos os homens possuem essa marca terrível na prórpia vida; todos estão no
mesmo nível.
Mesmo quando as pessoas ouvem o que foi exposto acima, muitas ve­
zes elas ainda não se conscientizam da necessidade da morte de Jesus. Elas
pensam: “Por que Deus não poderia simplesmente perdoar o pecador?”
Em geral, se pensa assim: Se nós devemos perdoar os outros sem exigir
nada dessas pessoas, então, por que Deus não poderia simplesmente per­
doar os homens caso visse neles o arrependimento?10 Será que o seu amor
não é suficiente para perdoar? Essa pergunta ignora duas coisas: O quanto
o pecado é terrível e o quanto Deus é justo. Deus não tolera o pecado. Deus
ama a justiça, mas odeia a iniqüidade (SI 45.7). Adão e Eva sabiam muito
bem disso, pois antes que transgredissem, ouviram de Deus que no dia em
que comessem da árvore iriam morrer com certeza (Gn 2.17). O estabele­
cimento da lei no Sinai deixou claro que a transgressão acarretava a morte
(Êx 21.12-29; Lv 20.2-15; Nm 35.16-30), O Novo Testamento é ainda mais
explícito: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Para que a justiça de
Deus seja mantida, o homem precisa ser condenado pelos seus atos. Esta
condenação não pode ser outra senão a morte, ou seja, sofrer a morte de
um criminoso, como o homem de fato é. Ou o homem morre a morte de
um malfeitor e suporta o fardo de ser separado de Deus, ou Deus deixa de
ser justo.
Só quando temos isso em mente é que podemos entender a necessidade
da morte de Jesus. No plano de Deus, Jesus é enviado ao mundo, nasce
como homem, cumpre integralmente os requisitos da lei de Deus e se ofe­
rece como um substituto para receber a condenação do homem, pois “nos­
sos pecados eram o obstáculo que nos impedia de receber o dom que ele
desejava dar-nos”.11 Como mediador, ele sofre a morte do transgressor que
a lei de Deus exige. Deus não pode passar por cima da sua lei sem ferir a sua
própria justiça e, conseqüentemente, a sua divindade. Deus não pode per-
260 Razão da esperança

doar como nós devemos perdoar, Nós perdoamos porque somos igual­
mente pecadores, e se deixarmos de perdoar estaremos, em última instân­
cia, negando o perdão a nós mesmos (Mt 6.14,15). Isso não ocorre com
Deus. Ele é absolutamente justo e santo, Se ele tolerar o pecado, estará
abrindo uma exceção que por fim o tornaria tão injusto quanto o homem.
Os ímpios perderão o seu tempo implorando pelo amor de Deus no Juízo
Final, pois o seu amor não pode anular a sua justiça. O amor não pode levá-
lo a transgredir a sua própria lei. Porém, foi justamente esse amor que levou
Jesus a morrer na cruz para satisfazer a justiça divina (Jo 3.16). Só a morte
de Jesus faz justiça ao caráter tanto amoroso como justo de Deus. Deus não
quebra a sua justiça por amor; antes, ele cumpre a justiça em amor, pois
como diz Murray: “De fato a graça reina, mas uma graça reinante à parte da
justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebível”.12

A consciência de Jesus
Nos estudos teológicos modernos, às vezes nega-se que Jesus soubesse
que precisava morrer, mas basta observar os Evangelhos para perceber que
ele sempre teve essa consciência. Quando pela primeira vez os discípulos
liderados por Pedro reconheceram que Jesus era o Cristo, o mestre fez
questão de lhes dizer: “E necessário que o Filho do homem sofra muitas
coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escri­
bas; seja morto e, no terceiro dia, ressuscite” (Lc 9,22, Mt 16.21). E interes­
sante que Jesus tenha dito: “E necessário”. Ele tinha o entendimento de
que precisava morrer pelos pecados dos seres humanos. Pedro, na mesma
ocasião, se ofereceu para dissuadi-lo dessa idéia, conforme Mateus relata:
“E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem com­
paixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.22). A
reação de Jesus foi imediata: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de
tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt
16,23). A resposta de Jesus refletiu o entendimento de que pelo homem
aquilo jamais aconteceria, mas por Deus, sim. Sua morte era necessária, era
coisa de Deus, ele tinha plena consciência disso. Jesus Cristo não veio enga­
nado, ele tinha perfeita consciência do que teria de passar (Is 53). Jesus
sabia que a sua vida de obediência espontânea ao Pai tinha como rota obri­
gatória a cruz. Ele sempre soube que não havia desvios nem atalhos, a cruz
era a sua missão, a única alternativa para a salvação do seu povo. Jesus
conhecia as profecias do Antigo Testamento, que, desde Gênesis 3.15, já
A morte do M ediador 261

indicavam as dores do Messias (ver Lc 24.26,46; Is 53.1-12; At 3.18; Jo


17.1-3; IPe 1.10,11).
Em geral, Jesus falou sobre sua morte nos momentos de maior glorifi­
cação aqui na terra. Ele fez isso quando os discípulos o reconheceram como
Messias. E importante lembrar que eles esperavam um libertador político, e
Jesus fez questão de dizer que a sua morte era necessária. Mesmo quando
anunciava a sua segunda vinda gloriosa sobre as nuvens, (Lc 17.24), ele
advertia: “Mas importa que primeiro ele [o Filho do Homem] padeça mui­
tas coisas e seja rejeitado por esta geração” (Lc 17.25). Ele tinha a noção
clara de que o seu sofrimento precisava acontecer para se cumprir o que
estava determinado: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o
que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se
refere está sendo cumprido” (Lc 22.37). Ele não só entendia que precisava
morrer, como também a maneira como morreria e a razão: “E do modo
por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho
do homem seja levantado” (Jo 3.14). A serpente de bronze foi levantada
sobre uma haste, como um antídoto contra a picada das serpentes que
feriam o povo de Deus, por causa da rebelião (Nm 21.4-9). Jesus entendia
que seria levantado como um instrumento de cura para os pecadores; a sua
morte seria um antídoto contra o pecado.
Jesus sabia que a sua morte era necessária para implantar o reino de
Deus no mundo. Por isso, mesmo sentindo a dor da partida e vendo a
tristeza nos olhos de seus discípulos quando anunciava essas coisas, lhes
disse: “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu
não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo
enviarei” (Jo 16.6,7). A partida (morte) de Jesus era necessária para que o
Espírito Santo pudesse ser enviado e completasse a obra da redenção.
O momento em que Jesus demonstrou a maior consciência da necessi­
dade de sua morte talvez tenha sido o seu maior momento de dúvida.
Estamos falando do episódio do Jardim do Getsêmani. Nessa noite, todo o
pavor do mundo caiu sobre ele. Jesus estava angustiado, não pelo que mui­
tos gostam de enfatizar - porque estivesse com medo do sofrimento físico,
dos pregos, da agonia da morte ou do ridículo público. Por mais que essas
coisas fossem terríveis, seu temor era por algo muito pior do que todas elas
juntas. Jesus se angustiava pela expectativa de receber sobre si o peso da
maldição dos pecados dos homens e, por causa disso, ser abandonado por
Deus. Em toda a eternidade, nunca houve um instante em que ele não
pudesse contemplar o rosto amoroso de seu Pai, mas agora esse momento
estava muito próximo. Daí suas palavras: “Meu Pai, se possível, passe de
262 Razão da esperança

mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu quetes”
(Mt 26.39). Ele perguntou a Deus se não haveria alguma outra possibilida­
de de o mundo ser salvo, sem que precisasse enfrentar a cruz, mas ele mes­
mo sabia a resposta, por isso orou novamente: “Meu Pai, se não é possível
passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt
26.42). É evidente, portanto, que Jesus entendia a sua missão de morrer
pelo mundo, como está claro em todas essas passagens.
Outras passagens dos evangelhos sinóticos demonstram a consciência de
Jesus a respeito de sua morte expiatória. Por exemplo, Marcos 10.45: “Pois o
próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a
sua vida em resgate por muitos” (ver Mt 20.28). Se Jesus sabia da necessida­
de da sua morte, é inimaginável que não soubesse o propósito dela. Se ele
falou a seus discípulos do serviço, e falou do seu próprio ministério como
serviço, é natural que ele estivesse pensando no cântico do servo de Isaías, e
pensando no seu próprio chamado à luz disso.13 O mesmo pode ser visto
nas palavras de Jesus em Marcos 14.24 (ênfase acrescentada): “Então, lhes
disse: Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de
muitos” (ver Mt 26.28). A evocação à questão da aliança é fundamental para
entender o sentido do sangue derramado. O Deus que estabeleceu a aliança,
e que assumiu a responsabilidade por ela diante de Abraão, foi o Deus que
enviou o seu Filho para assumir a maldição da aliança. O próprio Deus assu­
miu a responsabilidade pelo cumprimento ou pelo não cumprimento da alian­
ça.14 Agora, pelo sangue de Cristo, o mediador, a aliança poderia ser renova­
da. E nesse sentido que ela é chamada de nova aliança.
Essas passagens demonstram claramente a consciência de Jesus a res­
peito da sua morte e, como diz Warfield “as questões críticas que têm sido
levantadas sobre essas passagens são negligentes”.15 Jesus sabia da necessi­
dade de sua morte, e do motivo dela.

Ju sto e justificador
A morte de Cristo foi necessária porque somente assim os seres huma­
nos poderiam ser perdoados, sem que Deus deixasse de ser justo. Jesus
morreu para conciliar a justiça e o amor de Deus. Talvez a melhor explica­
ção bíblica a respeito deste tema se encontre no capítulo 3 de Romanos. Há
algo que Paulo deseja provar: Deus somente pode salvar o homem pecador
por meio de Cristo Jesus, independentemente de obras da lei, e isso não
desfaz a sua justiça. Nesse capítulo, Paulo faz questão de enfatizar a realida­
A morte do M ediador 263

de do pecado de todos os homens: “Já temos demonstrado que todos,


tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito:
Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque
a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o
bem, não há nem um sequer” (Rm 3.9-12). Ele está citando o Salmo 14, que
demonstra que todos os homens, sem exceção, são pecadores. A questão é:
os pecadores devem ser julgados e, como conseqüência, receberão a ira de
Deus sobre si. Deus precisa fazer isso, caso contrário estará deixando de
ser justo. Especialmente os judeus, poderiam argumentar: E os que estão
tentando obedecer à lei? As pessoas pensam que, se buscarem obedecer a
Deus, ao final serão salvas pela misericórdia de Deus, como se a boa inten­
ção fosse suficiente. Paulo diz: Esse caminho é errado. A lei não foi feita
para salvar, mas para apontar o pecado: “Ora, sabemos que tudo o que a lei
diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo
seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele
por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do
pecado” (Rm 3.19,20). Que opção resta então? De acordo com Paulo, a
opção da morte de Cristo. Ele diz: “Mas agora, sem lei, se manifestou a
justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas” (Rm 3.21). A ex­
pressão “justiça” que Paulo usa, poderia sugerir que Deus iria punir os
homens, mas Paulo está falando de um outro aspecto da justiça de Deus. E
a “justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os
que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da gló­
ria de Deus” (Rm 3.22,23; ênfase acrescentada). Ele não está falando de
uma justiça punitiva, mas de uma justiça que absolve, que inocenta. A justi­
ça, porém, só pode inocentar alguém que seja realmente inocente, e não é
esse o caso do ser humano. O argumento de Paulo é que a justiça de Deus
em Cristo, somente é possível “mediante a redenção que há em Cristo Je­
sus” (Rm 3.24). A palavra-chave aqui é “redenção”. Paulo explica como
funciona esta redenção: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como pro­
piciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua
tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo
em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo
ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.25,26). Esses
dois versículos são o centro da argumentação de Paulo. O próprio Deus
propôs a morte do seu filho, como uma forma de propiciação. A idéia de
propiciação sugestiona algo que apazigua a ira de Deus. O pecado humano
como quebra da lei despertou a ira de Deus, e o sacrifício de Jesus apazigua
essa ira. A questão da ira de Deus não é bem vista no meio dos estudiosos
264 Razão da esperança

de inclinação liberal, pois eles vêm Deus apenas como amor. Baillie é dessa
opinião: “Sua ira não deve ser vista como alguma coisa que precisa ser pro­
piciada e assim transformada em amor e misericórdia, mas deve ser identifi­
cada com o fogo consumidor do amor inexorável de Deus em relação com
os nossos pecados”.16 Certamente ele tem bastante dificuldade em compre­
ender que Deus possa ficar irado contra os pecadores que ele mesmo criou.17
Porém, é um fato bem visível na Bíblia que a ira de Deus se dirige contra o
homem pecador (verjo 3.36; Rm 1.18; 3.5; 9.22; Ef 5.6; Ap 14.10). O sacri­
fício expiatório de Cristo faz propiciação pelos pecados dos seres humanos
que crêem, porque satisfaz o requerimento da lei de Deus de que o pecado
fosse julgado e condenado, e assim, ele satisfaz a ira de Deus.
Na cruz, o pecado do homem é julgado e condenado na pessoa de Jesus.
Isso cumpre o requerimento da lei de Deus e, segundo Paulo, explica tam­
bém por que de Deus tolerou os pecados “anteriormente cometidos”. Ele
está se referindo aqui aos pecados cometidos na Antiga Dispensação, ou
seja, no Antigo Testamento. Precisamos lembrar que os pecadores do An­
tigo Testamento ofereciam sacrifícios pelos seus pecados. Estamos falando
aqui do povo de Israel. Esses sacrifícios não tinham poder, em si mesmos,
de perdoar pecados (Hb 10.1). O fato é que eles apontavam para Cristo e,
na morte de Cristo, encontravam sua razão de ser e sua eficácia. Por esse
motivo, na explicação de Paulo, os pecadores do Antigo Testamento que os
praticavam não foram punidos, e Deus não deixou de ser justo por causa
disso. Desde o início, Deus tinha “em vista a manifestação de sua justiça no
tempo presente” (3.26). O tempo presente representa o momento do sa­
crifício de Jesus. Grudem argumenta: “Como Jesus carregava sozinho a
culpa pelos nossos pecados, Deus Pai, o poderoso criador, o Senhor do
Universo, derramou sobre ele a fúria de sua ira: Jesus se tornou objeto do
intenso ódio e da vingança contra o pecado que Deus tinha guardado com
paciência desde o início do mundo”.18 Cristo recebeu sobre si toda a ira
acumulada de Deus. Devemos pensar realmente que

A cruz foi o cálice do castigo eterno, destilada da ira que estava sendo
armazenada desde o pecado de Adão, concentrada numa poção terrível. O
Filho bebeu o cálice da ira para que pudéssemos beber o cálice da salvação.
E quando cie terminou seu cálice, não sobrou nenhuma só gota para nós
que, de forma grata, recebemos o benefício da sua morte.19

Paulo continua: “Para ele mesmo ser justo e justificador daquele que
tem fé em Jesus”. Com a morte de Jesus, Deus continua sendo justo ao
mesmo tempo em que justifica o pecador, a cruz não é algo que influencia
A morte do M ediador 265

o amor de Deus; antes, foi o amor de Deus que a produziu.20 Sem a morte
de Jesus, se Deus justificasse o pecador estaria sendo injusto, e se o conde­
nasse, estaria sacrificando o seu amor. A única maneira de estas duas virtu­
des divinas, o amor e a justiça, permanecerem intocáveis é por meio da
morte de Jesus. Por essa razão, a morte de Jesus foi absolutamente necessá­
ria, pois ela é condizente com o caráter de Deus. Como diz Stott:

O modo pelo qual Deus escolhe perdoar os pecadores e reconciliá-los


consigo mesmo deve, acima de tudo, ser totalmente coerente com o seu
próprio caráter. Não é somente que ele deve subverter e desarmar o dia­
bo a fim de resgatar os seus cadvos. Nem é somente que ele deve satisfa­
zer à sua lei, sua honra, sua justiça ou a ordem moral: é que deve satisfazer
a si mesmo.21

Ao morrer na cruz, Jesus estava satisfazendo o caráter santo e justo de


Deus, ao mesmo tempo em que estava dando vazão ao seu amor eterno.
Nada demonstra de modo tão espetacular, e simultaneamente, estes dois
atributos de Deus. A cruz demonstra de modo impressionante a justiça e o
amor de Deus.

Conclusão
Apesar da descrença de muitos, Deus continua salvando os homens pela
loucura da pregação do Cristo crucificado. A dificuldade das pessoas com a
doutrina da morte de Cristo é devida a uma incompreensão do próprio
caráter de Deus. Como diz Lloyd-Jones:

A dificuldade real que as pessoas têm com esta doutrina é geralmente devi­
da ao fato de que todo o seu conceito de Deus é inadequado. Ignoram
alguns aspectos do Seu caráter. Enfatizam só um lado, com a exclusão dos
outros. Se elas tomassem a Deus tal como ele é c compreendessem a verda­
de acerca dele, suas dificuldades se desvaneceriam.22

Concluímos, portanto, que não havia outro modo de o homem ser salvo
sem que Cristo morresse. A morte do mediador é a grande demonstração
do poder, da soberania, da justiça e do amor de Deus. Acima de tudo, cabe
alegria e louvor a Deus por ter estabelecido o plano da salvação por meio
do sacrifício de Jesus. Não devemos questionar o método de Deus, pois ele,
na sua sabedoria, é o único que tem condições de estabelecer o que é certo.
21

0 substituto dos pecadores


^wir-HW5r

Agora que já entendemos a necessidade da morte de Jesus, precisamos


entender um pouco mais profundamente o modo como a sua morte traz a
salvação para o seu povo. E impossível entendermos a necessidade e o signi­
ficado da redenção sem entender o que o pecado significa. As pessoas têm
um conceito equivocado a respeito do pecado. Isso é compreensível, pois o
pecado é algo que faz parte de nós, é algo absolutamente comum em nosso
dia-a-dia. Ele está presente em praticamente todos os nossos momentos, e
isso significa que nos acostumamos com ele. As pessoas têm essa imensa
capacidade de adaptação. Nós nos acostumamos às coisas à nossa volta, e,
então, elas deixam de ter o significado que um dia tiveram. Se uma família se
muda do interior para uma grande cidade, nas primeiras noites não conse­
guirá dormir por causa do barulho, mas uma semana depois estará perfeita­
mente adaptada, exceto por alguns sobressaltos durante a madrugada. De­
pois de alguns meses, dormirá como se estivesse no sítio. Ao longo de uma
vida de acomodação ao pecado, ele não parece mais algo tão assustador. Para
muitos, é inconcebível que pecados cometidos durante uma vida tão curta,
causem uma eternidade de perdição, mas, como diz Schaeffer, “o problema
não está na quantidade de pecados que praticamos, mas em quem ofende­
mos. Nós pecamos contra um Deus infinitamente santo”.1 A transgressão
não depende apenas do ato em si, mas de quem é o ofendido. Nossos peca­
dos podem até parecer insignificantes em certos momentos, mas o fato é
que eles ofendem a santidade infinita de Deus. Isso os torna terríveis. Por
essa razão, a redenção se reveste de maior importância ainda, ela é o cami­
nho divino para nos tornar aceitáveis diante dele apesar dos nossos pecados.

Teorias a respeito da expiação


O conceito de expiação levou algum tempo para ser desenvolvido na
teologia da igreja cristã. A doutrina da expiação surgiu da mesma maneira
268 Razão da esperança

que as outras doutrinas, pois, como diz Benjamin Warfield, toda doutrina
surge mediante “um processo gradual e ordenado”.2 Os pais da igreja tra­
taram da expiação, porém havia muitas discordâncías entre eles. O conceito
antigo mais difundido sobre a expiação entendia a morte de Cristo como
um resgate pago a Satanás.3 Essa teoria foi muito popular, especialmente
na igreja antiga. Por mais de mil anos, essa foi a idéia mais aceita sobre a
expiação. Como o próprio nome indica, essa teoria sugere que Jesus pagou
um resgate ao diabo para a libertação dos pecadores. A partir do entendi­
mento de que o pecador está sob o domínio de Satanás, sendo este o deus
deste século ou o príncipe deste mundo, Jesus precisou morrer para satisfa­
zer às exigências do diabo. Aos poucos, essa teoria caiu em desuso pela falta
de evidência bíblica. A principal falha dessa teoria é colocar Satanás numa
posição praticamente superior à de Deus, como se Deus tivesse que prestar
contas ao diabo.
Anselmo (1033-1109), um arcebispo da Cantuária, foi o primeiro a dar
um tratamento mais amplo para a doutrina da expiação. Segundo Warfield,
“Anselmo estabeleceu para todos os tempos as linhas gerais sobre as quais
há de ser concebida a expiação, quando se pensa nela como uma obra de
libertação do castigo do pecado”.4 Com base nas relações comerciais de
sua época entre senhores e servos, Anselmo argumentou que o pecado
havia ferido a honra de Deus. Essa honra precisava de reparo. A função de
Cristo é obedecer à lei e morrer para satisfazer a honra de Deus. Ele adqui­
re para si um mérito muito grande, mas o fato é que ele não precisa desse
mérito, então, pede que o mérito seja derramado sobre o povo.5 O único
problema com essa teoria é que ela deixa de lado a questão da justiça de
Deus, enfatizando apenas a honra de Deus que precisava ser satisfeita. A
seu favor, ela tem o fato de que localiza a expiação em relação ao próprio
Deus. Deus precisava ser satisfeito, e não o diabo.
Muitas outras teorias a respeito da expiação foram desenvolvidas ao
longo da História. A seguir veremos algumas:
Teoria da Influência Moral'. Essa teoria foi formulada por Abelardo em
resposta à teoria de Anselmo. Segundo essa teoria, Deus não tem qualquer
dificuldade em perdoar os homens, ele pode perdoá-los até mesmo sem a
cruz. A cruz é apenas uma demonstração do amor de Deus. Na cruz, Deus
está dizendo que não importa o tamanho do pecado, ele pode perdoar até
mesmo o pecado de matar o seu Filho. A morte de Jesus, segundo essa
teoria, é uma tentativa de amolecer o coração do homem, influenciando-o
moralmente, para que mude de atitude e receba o perdão. Essa é uma teoria
muito popular nos dias de hoje, mas é totalmente antibíblica, pois, embora
0 subsliluto dos pecadores 269

enfatize o amor de Deus, falha em reconhecer sua justiça e a seriedade com


que Deus considera sua lei.
Teoria do Exemplo: Segundo essa teoria, Deus pode perdoar a quem ele
quiser sem exigir qualquer satisfação. A vida e a morte de Cristo foram
apenas exemplos, não há qualquer poder objetivo de salvação em seu sacri­
fício. As pessoas podem ser salvas se seguirem o exemplo de amor, fé e
abnegação de Cristo. Não há qualquer idéia de perdão incluída na morte de
Jesus; trata-se apenas de um exemplo de fé a ser seguido. Essa teoria oculta
muitos erros, por exemplo, um grande equívoco a respeito da justiça do
homem e de Deus. Ela não vê o homem como perdido e não faz justiça ao
caráter santo de Deus. Jesus seria apenas um mártir, alguém que deu a vida
por uma causa, e nada mais do que isso. Essa, talvez, seja a idéia mais popu­
lar a respeito da morte de Jesus que se tem hoje.
Teoria do Governo Moral: Segundo essa teoria, Deus poderia perdoar os
homens independentemente das exigências da lei, as quais, se ele quisesse,
poderia até mudar. Deus resolveu aceitar o sacrifício de Jesus porque assim
demonstra que não está contente com o pecado, e assegura o seu governo
moral sobre o universo. Assim, o sacrifício de Jesus é muito mais uma de­
monstração da vontade de Deus do que algum tipo de expiação pelo peca­
do. Essa teoria falha em não considerar a lei como Deus a considera, fazen­
do dela algo secundário e sem importância.
Teoria Mística-. De acordo com essa teoria, a natureza humana de Jesus
não era perfeita, mas pecaminosa. Como Jesus obedeceu perfeitamente à
lei de Deus, essa natureza foi elevada até o nível da divina, especialmente
por causa de sua morte que extirpou todas as impurezas. Desse modo, a
natureza humana é reunida a Deus. Quando essa obra de Cristo é aplicada
ao ser humano, a redenção acontece, pois produz mudança de vida na
pessoa. Essa teoria não faz justiça ao caráter santo de Jesus, nem à sua
divindade.
Teoria do Arrependimento Vicário: Essa teoria afirma que a única coisa que
o homem precisa fazer para ser salvo é demonstrar um arrependimento
autêntico. O problema é que o homem não tem condições de oferecer esse
arrependimento. A obra de Cristo consistiu justamente no fato de ele ofe­
recer esse arrependimento em lugar do homem. Essa teoria falha ao
desconsiderar o sacrifício de Jesus, reduzindo tudo à questão de simples
arrependimento.6
Todas essas teorias falham, pois minimizam a importância do sacrifício
de Cristo, tornando-o supérfluo e desnecessário. A razão disso é um falso
entendimento do pecado do homem, da lei e da justiça de Deus. Na con-
270 Razão da esperança

cepção reformada, a expiação conforme a Bíblia a revela é uma questão de


substituição.

Expiação c o m o substituição
Quando o homem pecou, ele se colocou sob a condenação da lei de
Deus. Ele ficou devendo uma reparação a Deus. Essa reparação é exigida
pela justiça de Deus, que estabeleceu uma lei para ser cumprida e uma pu­
nição para quem a descumprisse. Ao contrário do que diz a maioria das
teorias expostas acima, Deus não poderia ignorar a sua lei, pois se fizesse
isso estaria negando um princípio que ele mesmo estabeleceu e, conse­
qüentemente, estaria negando a si mesmo. O homem somente poderia fa­
zer essa reparação se sofresse eternamente a penalidade fixada pela trans­
gressão. De fato, segundo a Bíblia, muitos passarão a eternidade pagando
pelos seus crimes, mas isso exclui a possibilidade da redenção. Deus pode­
ria exigir isso de todos os homens, mas em sua misericórdia providenciou
uma maneira de salvar o pecador. Deus designou um substituto para tomar
o lugar do homem no ato de receber a punição. Se alguém objetasse que um
homem só, em lugar do mundo inteiro parece desproporcional, diríamos
que de fato é, mas para o lado de Jesus. Ele, sendo Deus-homem, ofereceu
um sacrifício mais valioso do que se todos os homens fossem sacrificados
ao mesmo tempo. Assim como a intensidade da transgressão depende da
dignidade do ofendido, também o valor do sacrifício segue o mesmo prin­
cípio. Não importa a quantidade de sacrifícios, mas o valor deles. O sacrifí­
cio de Jesus, o perfeito Deus-homem, é de valor infinito, e, portanto, am­
plamente suficiente para salvar todos os homens em todos os tempos, ain­
da que, efetivamente não faça isso.

Substituição no Antigo Testamento


Para muitos estudiosos, os sacrifícios do Antigo Testamento possuíam
apenas caráter de “adoração ou culto” e não eram expiatórios. Como apon­
ta Warfield, “a diferença fundamental é que, num caso, o sacrifício descansa
sobre a consciência do pecado e tem a sua referência à restauração por
causa da iniqüidade do ser humano para o favor de um Deus condenador;
no outro, permanece fora de toda relação com o pecado e tem a sua refe­
rência somente na expressão de uma atitude própria de deferência”.7 Nos­
sa defesa é que os sacrifícios do Antigo Testamento eram substitutivos, e,
0 substituto dos pecadores 271

portanto, expiatórios. É certo que havia sacrifícios de louvor ou gratidão,


mas a ênfase central dos sacrifícios era a expiação. A primeira instrução
sobre sacrifícios dada em Levítico já deixa isso bem claro:

Chamou o S e n h o r a Moisés e, da tenda da congregação, lhe disse: Fala aos


filhos de Israel e dize-lhes: Quando algum de vós trouxer oferta ao S e n h o r ,
trareis a vossa oferta de gado, de rebanho ou de gado miúdo. Se a sua oferta
for holocausto de gado, trará macho sem defeito; à porta da tenda da con­
gregação o trará, para que o homem seja aceito perante o S e n h o r , E porá a
mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a
sua expiação. Depois, imolará o novilho perante o S k n h o r ; e os filhos de
Arão, os sacerdotes, apresentarão o sangue e o aspergirão ao redor sobre o
altar que está diante da porta da tenda da congregação (Lv 1.1-5).

Quando o pecador cometia uma transgressão, oferecia um animal que


era sacrificado em seu lugar. Por mais que escritores de inclinação liberal8
se recusem a aceitar que os sacrifícios eram feitos pelos pecados a fim de
trazer o perdão, a evidência bíblica é imensa nesse sentido. Colocar as mãos
sobre a vítima era um ato de imputar o pecado. O ato mais solene do Anti­
go Testamento apontava claramente para isso: no dia da expiação, um bode
deveria ser trazido diante do sacerdote, e a seguinte instrução deveria ser
seguida:

Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ele confes­
sará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e
todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e envia-lo-á ao
deserto, pela mão de um homem à disposição para isso. Assim, aquele bode
levará sobre si todas as iniqüidades deles para terra solitária; e o homem
soltará o bode no deserto (Lv 16.21,22).

A “transferência” de pecados do povo para o bode está claramente es­


pecificada nessa passagem. O bode era o substituto do povo. Toda essa
cerimônia apontava para Cristo, pois como diz Hodge, “o sentido em que
ele foi sacrifício é o mesmo que aquele em que eram sacrifícios as ofertas
pelo pecado do Antigo Testamento”.9 Os sacrifícios pelo pecado no Anti­
go Testamento eram substitutivos ou vicários, e isso demonstra que a subs­
tituição é o método divino para a expiação.
O messias anunciado em Isaías 53, que é uma profecia sobre Jesus de
acordo com o Novo Testamento, seria aquele que sofre e morre pelos peca­
dos do povo. Em quase todos os versículos desse capítulo, a morte substitutiva
272 Razão da esperança

do Messias é anunciada. O versículo 4 diz: “Certamente, ele tomou sobre si


as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputáva­
mos por aflito, ferido de Deus e oprimido”. As enfermidades e dores desta­
cadas na passagem são espirituais e sinônimas do pecado; ele as carregou
sobre si. O versículo 5 continua: “Mas ele foi traspassado pelas nossas trans­
gressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz esta­
va sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”. Talvez esse seja o versí­
culo mais claro da Bíblia que fala do sacrifício substitutivo do Messias. Ele
foi transpassado pelas iniqüidades do povo. O castigo que proporciona a paz
com Deus estava sobre ele. O versículo 6 arremata: “Todos nós andávamos
desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Se­
n h o r fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos”. Os seres humanos são os

verdadeiros pecadores, mas Deus fez cair sobre Jesus a iniqüidade do povo.
O versículo 8 ainda diz que ele foi ferido pela transgressão do povo. O ver­
sículo 10 diz que ele deu a sua alma como oferta pelo pecado. O versículo 11
que ele leva as iniqüidades de seu povo sobre si. E o versículo 12 que ele
levou sobre si o pecado de muitos. A obra expiatória substitutiva do Messias
está bem demonstrada nessa passagem profética.

Substituição n o Novo Testamento

Toda essa evidência do Antigo Testamento está em perfeita harmonia


com o ensino do Novo Testamento a respeito da expiação. Pedro afirma
que Jesus, ao morrer na cruz, estava “carregando ele mesmo em seu corpo,
sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados,
vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (IPe 2.24). Clara­
mente, a referência às chagas de Cristo que saram os pecadores é uma refe­
rência à profecia de Isaías 53. Pedro está aplicando a profecia de Isaías 53,
que falava do sacrifício substitutivo do Messias, a Jesus. Pedro diz que Jesus
carregou sobre o madeiro os nossos pecados. A substituição está muito
evidente nessa passagem, porém, isso não significa que Jesus tenha carrega­
do os nossos pecados literalmente, como se tivesse carregado a nossa natu­
reza pecaminosa, pois não haveria modo de a nossa natureza pecaminosa
ser arrancada de nós e transferida para Cristo. As vezes, as pessoas dizem
que Jesus, na cruz, se tornou o pior dos pecadores porque recebeu os peca­
dos do mundo inteiro sobre si. Isso não é muito exato. Não foram os peca­
dos em si, mas a culpa pelos nossos pecados que ele carregou e, por isso, ele
foi condenado. E ele somente pôde carregar essa culpa porque não era algo
inerente a nós, mas uma conseqüência formal da quebra da lei,10
0 substituto dos pecadores 273

São muitas as passagens do Novo Testamento que apontam para a subs­


tituição. João Batista relacionou Jesus com o sacrifício do Antigo Testamen­
to ao apontar para ele e dizer: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo!” Qo 1.29). O sacrifício de Jesus é substitutivo porque consuma os
sacrifícios substitutivos do Antigo Testamento. No capítulo 5 de Romanos,
Paulo também trabalhou bastante com essa idéia. Primeiro ele disse “Porque
Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”
(Rm 5.6). Essa, de acordo com Paulo, é a prova do amor de Deus, o “fato de
ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Aos Gá-
latas Paulo disse a mesma coisa com palavras diferentes: “O qual se entregou
a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perver­
so, segundo a vontade de nosso Deus e Pai” (G11.4). Por causa dessa entre­
ga, de acordo com Paulo, em Cristo “temos a redenção, pelo seu sangue, a
remissão dos pecados” (Ef 1.7). O sangue que faz remissão de pecados so­
mente pode ser um sangue substitutivo, nos mesmos moldes do sangue der­
ramado no Antigo Testamento (Lv 17.11; Hb 9.22). Dois versículos em
Hebreus são bastante precisos sobre este assunto: “Nessa vontade é que
temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez
por todas” (Hb 10.10). E logo adiante ele complementa: “Jesus, porém, ten­
do oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à
destra de Deus” (Hb 10.12). O sacrifício de Jesus foi pelos pecados e foi
único. A mesma idéia ecoa nos escritos de Pedro que afirma: “Sabendo que
não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resga­
tados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo
precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de
Cristo” (IPe 1.18,19). O resgate dos cristãos acontece pelo pagamento de
algo mais precioso que o ouro ou a prata, o sangue de Cristo. Pedro diz ainda
que “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos,
para conduzir-vos a Deus” (IPe 3.18), A expressão “o justo pelos injustos”
significa “o justo no lugar dos injustos”. A morte substitutiva de Jesus é que
nos leva a Deus. Ele foi o nosso substituto na cruz,

0 castigo do inferno
Isaías falou sobre a transferência do castigo pelas transgressões do povo
para o Messias. Ele disse: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e
moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele”
(Is 53.5). Se o castigo pela quebra da lei é a morte em todos os sentidos: física
274 Razão da esperança

(da carne), espiritual (separação de Deus) e eterna (inferno), como podemos


dizer que Jesus recebeu todo o nosso castigo? A princípio, parece que ele
sofreu apenas a morte física. Normalmente, as descrições da cena da paixão,
sejam no cinema ou no teatro, mostram apenas o sofrimento físico e a morte
física de Jesus. Porém, segundo a Bíblia, Jesus sofreu muito mais do que a
morte física, ele padeceu os horrores da separação de Deus e do próprio
inferno. Também deve ser entendido que a cruz não foi o único lugar èm que
Jesus sofreu pelos pecadores, mas como bem disse Calvino, “Com toda ver­
dade se pode dizer que não somente passou toda sua vida em perpétua cruz
e aflição, senão que toda ela não foi senão uma espécie de cruz contínua”,11
ou seja, “toda a sua vida foi uma cruz perpétua”.12 Isso ecoa na resposta à
pergunta 37 do Catecismo de Heidelberg: “Que entendes pela palavra ‘so­
freu’?” “Que durante toda a sua vida na terra, e especialmente no fim dela, ele
suportou no corpo e na alma a ira de Deus contra os pecados de todo o
gênero humano, de modo que, pelo seu sofrimento, como o único sacrifício
expiatório, ele redimisse o nosso corpo e a nossa alma da maldição eterna, e
para nós conseguisse de Deus a graça, a justiça e a vida eterna.”

Desceu ao infer no ?
Existe uma crença de que, durante o período em que Jesus esteve mor­
to, ou seja, entre a sexta-feira e o primeiro dia da semana, ele desceu ao
inferno. Isso parece ser visto no próprio Credo Apostólico que diz em
certa altura: “Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, mor­
to e sepultado; desceu ao Hades”. O Credo surgiu ainda no início da igreja
e refletia os ensinamentos dos apóstolos.13 Porém, a expressão “desceu ao
Hades (inferno)” é bastante discutida. Primeiramente, é preciso que se en­
tenda que essa expressão não fazia parte do Credo em suas primeiras ver­
sões. A frase “desceu ao inferno” não se encontrava em nenhuma das ver­
sões primitivas (nas versões usadas em Roma, no resto da Itália e na África)
até que ela apareceu em uma das duas versões de Rufino em 390 d.C.14 O
próprio Rufino não entendia que a frase significasse que Jesus desceu ao
inferno literalmente, mas à sepultura. De qualquer modo, é somente a par­
tir de 650 d.C. que outros começaram a usar a expressão. Considerando
isso, será que essa frase pode ser realmente considerada “apostólica”, uma
vez que o Credo é considerado tão antigo quanto os apóstolos?
A igreja católica romana entende que Jesus, após a sua morte foi para o
U mbus Patrum (Limbo dos Pais). Nesse lugar estavam os santos do Antigo
Testamento, à espera de que Jesus completasse a sua obra redentora, para
0 subsliluto dos pecadores 275

que eles pudessem ir para o céu. No entendimento católico, os santos do


Antigo Testamento não estavam no inferno, mas também não estavam no
céu, porque Jesus não havia consumado a obra da salvação. Assim, após a
sua morte, Jesus foi até esse lugar, anunciou a vitória do evangelho para
aquelas almas e as conduziu ao céu. A igreja luterana, por sua vez, defende
que Cristo, após a morte, e talvez até após a ressurreição, foi ao inferno e
proclamou a sua vitória sobre Satanás e sobre todos os poderes das trevas,
e pronunciou a sentença de condenação dessas forças malignas. A igreja da
Inglaterra, por outro lado, defende que Jesus desceu apenas em espírito até
o submundo, enquanto o seu corpo permanecia na sepultura. Nesse esta­
do, ele foi até o lugar da habitação dos justos, e lhes proclamou a vitória e o
plano de Deus por meio do evangelho.15 Percebe-se, portanto, que há mui­
tas opiniões diferentes sobre a questão de Jesus ter descido ao inferno. Para
entender melhor essa questão, precisaremos analisar a Bíblia.
Há algumas passagens bíblicas que parecem dar apoio à idéia de que
Jesus desceu ao inferno depois da sua morte na cruz. Deveremos estudá-las
uma a uma.
A primeira passagem a ser analisada é a da pregação de Pedro logo após
o Pentecostes. Pedro está defendendo que Jesus não permaneceu na morte,
antes ressuscitou para que se cumprisse a Escritura. Pedro cita o Salmo 16
composto por Davi: “Porque não deixarás a minha alma na morte, nem
permitirás que o teu Santo veja corrupção” (At 2.27). A palavra “morte”
usada nesses versículos é a palavra hades na língua grega. A partir dessa
passagem, muitos têm argumentado que Jesus de fato foi até o hades depois
da sua morte, mas saiu de lá na ressurreição. O fato é que Pedro está usando
o Salmo 16 para provar que Jesus ressuscitou, e não para dizer que Jesus foi
fazer uma visita ao inferno. Nessa passagem, a palavra hades significa sim­
plesmente morte, e quer dizer que Jesus não permaneceu morto, antes ob­
teve vitória sobre a morte por meio da sua ressurreição. Aqui, hades é ape­
nas sinônimo de morte ou sepultura.
A próxima passagem que devemos considerar é Efésios 4.8,9: “Por isso,
diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos
homens. Ora, que quer dizer subir senão que também havia descido às regiões
inferiores da terra?” Aqui há um contraste entre a ascensão de Jesus e a sua
descida. Muitos interpretam isso como o ato de Jesus ir até o hades, descrito
aqui como as “regiões inferiores da terra” e, depois disso, ter levado os cativos
de lá para o paraíso, por causa da expressão “levou cativo o cativeiro”. O fato
é que, nessa passagem, a palavra hades nem sequer aparece e “regiões inferio­
res da terra” é uma expressão para contrastar com “às alturas” para onde
276 Razão da esperança

Cristo subiu. Devemos entender isso, portanto, como demonstrando a humi­


lhação e a exaltação de Cristo. Quanto aos cativos libertados do texto, deve
ser uma referência aos salvos por sua obra redentora. Porém, essa passagem
não pretende dizer que eles estavam no inferno e foram levados para o céu;
ela está falando da vinda de Jesus a este mundo e de sua volta para a glória.
A passagem mais usada para defender a descida de Jesus ao inferno é 1
Pedro 3.18-20: “...morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual
também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, fo­
ram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de
Noé, enquanto se preparava a arca”. Há pelo menos quatro interpretações
para esta difícil passagem: 1) A pregação de Cristo no curto intervalo de
tempo entre sua morte e ressurreição numa espécie de “descida ao Infer­
no” para anunciar a vitória aos espíritos dos homens maus dos dias de Noé.
2) O mesmo anúncio de Cristo, mas não a almas de homens e sim aos
espíritos malignos aprisionados que decaíram do céu, os filhos de Deus que
se apaixonarem pelas mulheres conforme interpretação de Gênesis 6.1-4.
3) A proclamação da vitória de Cristo após a ressurreição sobre os espíritos
malignos após a Ascensão. 4) Cristo pré-encarnado pregando no Espírito
através do próprio Noé para a geração maligna do Dilúvio. Todas as op­
ções encontram dificuldades em algum momento, sendo que as duas pri­
meiras nos parecem fora de cogitação. A terceira opção tem alguma vanta­
gem, pois mostraria o domínio de Cristo sobre os principados e potestades
(Cl 2.15), desde que, com isso, não se pretenda dizer que ele foi até o Infer­
no. A quarta opção é provavelmente a mais recomendável, pois vê Jesus
como pregando na própria pessoa de Noé, através do Espírito Santo, aos
contemporâneos do próprio Noé. Talvez isto explique a idéia de que Jesus
pregou “no espírito” (v, 18), aos homens desobedientes dos dias de Noé (v,
20). Os homens dos tempos de Noé eram considerados, na tradição judai­
ca, como os piores de todos os tempos. O argumento de Pedro seria que
mesmo aqueles homens não ficaram sem pregação, pois Noé, foi chamado
pelo próprio Pedro de “pregador da justiça” (2Pe 2,5). Se Jesus fosse anun­
ciar o Evangelho aos mortos estaria sugestionando uma possível salvação
após a morte, o que é totalmente repudiado pelas Escrituras (Hb 9.27). O
texto nada fala sobre o Inferno. Além disso, no Inferno só estariam os
homens do tempo de Noé?
Resta-nos apenas analisar uma última passagem, também dessa mesma
carta: IPedro 4.6: “Pois, para este fim, foi o evangelho pregado também a
mortos, para que, mesmo julgados na carne segundo os homens, vivam no
espírito segundo Deus”. Normalmente os defensores da descida de Jesus
0 substituto dos pecadores 211

ao inferno ligam essa passagem com a anterior, e dizem que Jesus pregou às
almas dos mortos depois da sua morte. Novamente precisa ser dito que se
isso é verdade, então, a Bíblia estaria sugerindo que a salvação depois da
morte é possível. Devemos, no entanto, buscar outra interpretação para a
passagem. O contexto nos ajuda a entender o que Pedro está querendo
dizer. Pedro está dizendo, a partir do versículo primeiro, que os crentes não
deveriam mais viver em luxúrias como os demais homens, ainda que com
isso ofendessem seus contemporâneos que vivem dessa maneira, e fossem
ultrajados por eles (v. 2-4). Os ultrajadores teriam que prestar contas diante
de Deus que é competente para julgar os vivos e os mortos (v. 5). Por essa
razão, o evangelho foi pregado aos mortos, para que mesmo tendo sido
condenados na carne diante dos homens, fossem vivificados no espírito
por Deus. A passagem não está dizendo que Jesus foi até o inferno e pre­
gou aos mortos para salvá-los, mas que os cristãos que estavam mortos, no
momento em que Pedro escrevia aquela carta, ouviram a palavra enquanto
estavam vivos. E que embora tivessem sofrido e até sido mortos na carne,
agora viviam segundo Deus. A frase “foi o evangelho pregado” está no
passado, ao passo que “mortos” está no presente. Eles estavam mortos no
momento em que Pedro estava escrevendo, mas quando a palavra lhes foi
pregada, estavam vivos. Até porque somente poderiam estar vivos para
poderem “ser julgados na carne”. Como poderiam ser julgados na carne se
já estavam mortos? Embora essa seja uma passagem bastante difícil e obs­
cura, não é necessário pensar que ela ensine a salvação depois da morte.

0 inferno fo i à cruz
Duas expressões de Jesus não deixam dúvidas de que ele não foi ao
inferno depois da-sua morte. As duas estão relatadas no Evangelho de Lu­
cas no capítulo 23. Ao ladrão que estava ao seu lado na cruz e que se arre­
pendeu naquele momento ele disse: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc
23.43). E sua última palavra na cruz foi: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu
espírito” (Lc 23.46). Essas passagens parecem sugerir que, se a alma de
Jesus ficou separada do seu corpo enquanto ele estava no sepulcro, certa­
mente ela não foi até o inferno, antes pelo contrário foi até o paraíso, até
Deus.16 Quanto ao que Jesus disse a Maria Madalena, após a sua ressurrei­
ção, que ainda não havia subido ao Pai (Jo 20.17), devemos entender como
uma referência à sua subida física. Com o corpo ressuscitado, naquela ma­
nhã da Páscoa, ele ainda não tinha subido ao céu. Mas nada impede que seu
espírito já tivesse ido até Deus para recepcionar o ladrão convertido.
278 Razão da esperança

Desde João Calvino, os protestantes reformados têm defendido que Jesus


de fato sofreu as angústias do inferno, mas não foi ele quem desceu ao inferno,
e sim o inferno é que foi até ele na cruz e no jardim do Getsêmani. Ele sofreu
os terrores do inferno no momento da sua condenação. A punição do inferno
deve ser entendida como um estado de separação de Deus, e abandono sob a
sua ira. De fato, os condenados no inferno estão separados de Deus e abando­
nados sob a sua ira eterna. Os reformados defendem que Jesus sofreu isso na
cruz. É importante entender que Jesus tinha que sofrer as angústias do infer­
no, pois ele substituiu o homem em todo o processo de condenação que o
pecado acarreta. Num sentido, Jesus experimentou um estado de punição pe­
los pecados durante toda a sua vida.17 O simples fato de ele ter que deixar seu
estado de glória para assumir um corpo de homem já era em si uma punição.
Porém, o momento mais crucial disso tudo aconteceu no Gólgota. É somente
assim que podemos entender o real sofrimento de Cristo ainda no Jardim de
Getsêmani quando sua alma “começou a entristecer-se e a angustiar-se” (Mt
26.37). Nessa ocasião, ele disse: “A minha alma está profundamente triste até à
morte” (Mt 26.38). Em profundo estado de angústia, ele, prostrado sobre seu
rosto, orava ao Pai: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice!” (Mt 26.39).
Lucas diz que “estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que
o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc 22.44).
Jesus estava nesse estado de agonia porque antecipava o sofrimento do infer­
no, o qual se consumaria na cruz. Muito mais do que medo pelo sofrimento
físico, Cristo, naquele momento, passava por um conflito íntimo, pois havia o
“temor muito maior de se tornar tudo o que mais odiava no mais profundo do
seu ser”,18 ou seja, o temor de se tornar um maldito, um condenado do infer­
no. Calvino, falando sobre a necessidade desse sofrimento de Cristo, diz: “Nada
teria acontecido se Jesus sofresse apenas a morte temporal. Pois era necessário
que sentisse em sua alma o rigor do castigo de Deus, para se pôr sob a sua ira
e satisfazer a seu justo juízo. Pelo qual convinha também que combatesse com
as forças do inferno e que lutasse com o horror da morte eterna”.19 A explica­
ção de Calvino para o fato de a declaração “desceu ao hade.r” do Credo Apos­
tólico ter sido posta após a expressão “foi sepultado” é porque está falando da
realidade espiritual da morte de Cristo. Ela foi posta após a descrição da morte
física “para que saibamos que não somente o corpo de Jesus Cristo foi entre­
gue como preço por nossa redenção, como que também pagou outro preço
muito maior e mais excelente, que foi padecer e sentir em sua alma os horren­
dos tormentos que estão reservados para os condenados e réprobos”.20
É importante que fique bem claro que, na visão reformada, Cristo em
momento algum foi ao inferno, nem para sofrer, nem para fazer algum tipo
0 substituto dos pecadores 279

de proclamação. Ele sofreu os tormentos do inferno que precisava sentir


para substituir o seu povo enquanto esteve crucificado. Por isso dizemos:
"O inferno foi até a cruz”. Mas é claro que essa é apenas uma força de
expressão. Bavinck diz, “de fato, não em um sentido espacial, mas em um
sentido espiritual, ele desceu ao inferno”.21 Ou seja, ele não precisou sair da
cruz para ir até o inferno. Sua ida ao inferno não foi física, mas espiritual.
A passagem bíblica que mais demonstra a razoabilidade dessa idéia é a
que relata as palavras de Jesus quando ele estava pendurado na cruz. Ma­
teus diz que “desde a hora sexta até à hora nona, houve trevas sobre toda a
terra. Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli,
lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me de­
samparaste?” (Mt 27.45,46). A Bíblia não diz o que aconteceu durante aquelas
três horas de escuridão que antecederam o grito desesperado do Senhor.
Mas certamente ele sofria angústias indescritíveis. As trevas do inferno en­
volveram o Calvário, enquanto Deus fazia cair sobre Jesus “as nossas ini-
qüidades” (Is 53.6). Era o momento que ele “estava sendo feito pecado por
nós” (2Co 5.21) e recebia em nosso lugar o pleno “salário do pecado” (Rm
6.23). Como conseqüência, e como real sofrimento do inferno, Jesus se viu
abandonado por Deus, igual ao bode expiatório que recebia sobre si o pe­
cado do povo e então era expulso e enviado solitário ao deserto (Lv 16.21-
22). Contudo, não podemos pensar que houve algum tipo de separação
entre a primeira e a segunda pessoa da Trindade no momento em que Jesus
foi crucificado. Não devemos pensar numa separação definitiva, devemos
pensar numa separação mais em termos de um abandono, ou melhor, um
abandono da graça. O homem Jesus se viu responsabilizado pelos pecados
da raça humana, e se sentiu abandonado por Deus. Naquele momento, o
filho já não podia ver o olhar terno do pai. Tudo o que ele via era o olhar de
ira.22 Essa foi a maior punição que o Filho de Deus recebeu. Essa punição
se igualou aos tormentos do inferno, pois o inferno significa estar separado
da graça de Deus e ser abandonado à ira dele. Nas três horas de trevas
daquela sexta-feira, o inferno foi até a cruz.23 E assim, o substituto do ser
humano recebeu sobre si todo o peso da condenação divina pelo pecado.

Os efeitos da expiação
Os efeitos da expiação são imensos, eles não alcançam apenas o povo de
Deus, mas toda a criação. Todas as coisas existentes, de um modo ou de
outro, foram afetadas pela expiação de Cristo.
280 Razão da esperança

Em relação a Deus

Podemos dizer que a redenção foi feita totalmente em relação a Deus.


Cristo não pagou resgate a Satanás ou a qualquer outro. Ele estava satisfa­
zendo uma exigência do próprio Deus. Isso não quer dizer que algo da
imutabilidade de Deus foi afetada pela expiação. Deus simplesmente dirige,
sobre a base do sacrifício, seu amor e bondade ao homem, ao passo que
sem o sacrifício, somente a ira seria dirigida ao homem. A expiação não
produz o amor de Deus, como muitos imaginam, a expiação é fruto do
amor de Deus. Porque Deus ama as pessoas é que enviou seu Filho a fim de
redimi-las (Jo 3.16). Com relação a Deus, explicitamente a Escritura diz que
a expiação garante que ele seja “justo e justificador daquele que tem fé em
Jesus” (Rm 3.26). Somente por causa da morte de Cristo, Deus pode justi­
ficar o pecador e continuar sendo totalmente justo, ou seja, pode usar o seu
amor sem ferir a sua justiça. A expiação vicária (substitutiva) de Cristo satis­
faz inteiramente o caráter de Deus.

Em relação a o ser h u m a n o
O ser humano, sem sombra de dúvida, foi o grande beneficiado com a
expiação. O homem que por natureza está “morto em delitos e pecados”
(Ef 2.1), que “carece da glória de Deus” (Rm 3.23), a partir da expiação
pode se tornar filho de Deus. Nas palavras de Pedro: “Vós, porém, sois
raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de
Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das
trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo,
mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia,
mas, agora, alcançastes misericórdia” (IPe 2.9,10). Essa é a posição que a
expiação de Cristo garante ao povo salvo. Os pecadores, outrora privados
da presença de Deus, agora têm “intrepidez para entrar no Santo dos
Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos con­
sagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10.19,20). Para resumir, a
expiação garante aos remidos toda sorte de bênção espiritual (Ef 1.3).
Para aqueles que pensam que a expiação deve garantir a todos os homens
a salvação, a Bíblia é bastante clara ao afirmar que Jesus morreu apenas
pelo seu povo.
0 subslilulo dos pecadores 281

Em relação ao diabo

Satanás foi o grande prejudicado com a obra de Cristo. A expiação de


Cristo não pagou um resgate a Satanás, antes o despojou de tudo o que ele
tinha. Uma das coisas que ele perdeu com o sacrifício de Jesus foi o seu
posto de acusador. Jesus disse de Satanás: “Eu via Satanás caindo do céu
como um relâmpago” (Lc 10.18). Na batalha descrita no Apocalipse, que
simboliza a vitória de Jesus sobre Satanás, é dito dele: “E foi expulso o
grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor
de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos...
pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia
e de noite, diante do nosso Deus” (Ap 12.9,10). Ele perdeu o lugar de
acusador diante de Deus. É sobre isso que o autor aos Hebreus por certo
está falando, quando diz que Jesus derrotou o diabo que detinha o poder da
morte (Hb 2.14). Evidentemente que o poder da morte, que é atribuído a
Satanás, não é o poder de tirar a vida de alguém fisicamente, pois somente
Deus dispõe desse poder. Somente Deus estabelece os limites da vida de
alguém. O poder da morte que Satanás dispunha era o poder de exigir a
morte diante de Deus para os transgressores da lei. Ao morrer pelos peca­
dos, Cristo satisfez a justiça de Deus, e Satanás não tem mais o que exigir, e
nem o que acusar. Ninguém pode intentar “acusação contra os eleitos de
Deus”, pois, “é Deus quem os justifica” (Rm 8.33). Eles não podem ser
mais condenados, pois Cristo Jesus morreu e ressuscitou por eles, e estan­
do à direita de Deus, intercede pelo seu povo (Rm 8.34). O acusador per­
deu o direito de acusar. A expiação não apenas tirou os direitos de Satanás
sobre o homem, como garantiu a própria destruição de Satanás. Na cruz,
Jesus esmagou a cabeça da serpente (Gn 3.15).

Em relação à criação

Todo o universo se beneficia da redenção. A terra que foi posta sob


maldição a partir da entrada do pecado no mundo (Gn 3.17), tem em Cristo
a garantia de sua restauração. Por isso Paulo diz:
A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.
Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa
daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida
do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angús­
tias até agora (Rm 8.19-22).
282 Razão da esperança

A morte de Cristo não foi somente para salvar as pessoas, mas para
renovar a própria terra e tirá-la da maldição do pecado. Literalmente, para
fazer uma nova terra, afinal, ele é o cordeiro que tira o pecado do mundo
(cosmos; Jo 1.29).
Por mais estranho que possa parecer a princípio, de alguma maneira, o
próprio céu também se beneficia da redenção. Estamos falando aqui de
algumas coisas que não entendemos de todo. Mas o autor aos Hebreus diz:
“Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos céus
se purificassem com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais, com
sacrifícios a eles superiores. Porque Cristo não entrou em santuário feito
por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer,
agora, por nós, diante de Deus” (Hb 9.23,24). De algum modo o pecado
que entrou no mundo, e que se originou primeiramente no Diabo e depois
em Adão, tornou necessária a purificação do tabernáculo celestial (Êx 25.40).
Esse lugar celestial precisava ser purificado e Jesus fez isso com o seu san­
gue. Não sabemos exatamente que tipo de impureza adentrou o céu, mas
sabemos que Satanás estava lá, e foi expulso por causa da morte, ressurrei­
ção e ascensão de Jesus. Pode ser que Paulo tenha isso em mente quando
diz: “E que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele,
reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos
céus” (Cl 1.20). Essa passagem está dizendo que Cristo, por meio do seu
sangue reconciliou não somente coisas na terra, mas também no céu. Tal­
vez seja essa uma das razões porque a Bíblia diz que haverá não só uma
nova terra, mas também “novos céus” (Is 66.22; 2Pe 3.13; Ap 21.1). Tudo o
que o pecado influenciou terá que ser renovado.
Isso nos remete ao assunto da introdução deste capítulo: A seriedade
com que Deus trata o pecado. O fato de os homens estarem acostumados
com o pecado não o torna menos trágico. Diante de Deus, o pecado é
inaceitável porque fere a sua santidade infinita. Por essa razão, Cristo teve
que ser o nosso substituto. Há muita pregação do evangelho nos nossos
dias que não enfatiza o caráter substitutivo da morte de Jesus. Isso é um
grave erro. As pessoas precisam entender a realidade e a gravidade do seu
pecado, bem como o custo da redenção que foi a morte substitutiva de
Cristo. Uma coisa precisa ficar bem clara: “Onde não há expiação não há
evangelho”.24 O evangelho sem cruz pode ser agradável aos homens, mas
em hipótese alguma agrada a Deus.
22

A extensão da expiação de Cristo

Conta-se que, há mais de cem anos, um norte-americano que havia sido


condenado à morte estava para ser executado quando recebeu o perdão do
governador.1 O homem, entretanto, se negou a aceitar o perdão e apelou
para a corte suprema para garantir o seu direito de morrer. A atitude desse
homem pode ter sido uma loucura, mas ele de fato dnha o direito de mor­
rer. Ele era o único culpado por um crime que precisava de reparação. Ele
tinha o direito de morrer porque o perdão do governador não era um ato
de dar vida, mas simplesmente um ato de garantir que não houvesse morte.
Porém, em última instância, a escolha era pessoal.
Todos os cristãos ortodoxos crêem que Cristo morreu para redimir as
pessoas, mas nem todos concordam sobre por quais pessoas ele morreu.
Arminianos, luteranos e calvinistas concordam, por exemplo, que a satisfa­
ção de Cristo é suficiente para salvar todos os seres humanos. Também
concordam que os benefícios da salvação não são aplicados a todos os
seres humanos, mas apenas sobre os que crêem. Eles concordam ainda que
a oferta do evangelho deve ser feita a todos os seres humanos com a real
intenção de que se convertam. Por fim, concordam que todos os seres hu­
manos, mesmo os incrédulos, recebem algum benefício da morte de Cristo.
O grande fato divergente é: A morte expiatória de Cristo foi realizada com
a intenção de salvar somente os eleitos ou todas as pessoas sem exceção?
Cristo morreu pelos pecados, mas isso foi apenas num sentido de “provi­
são” ou foi algo realmente “eficaz”?
Os arminianos crêem que Cristo não morreu por qualquer pessoa em
especial, mas, por todo o mundo. Assim, ele apenas tornou possível a salva­
ção a todos, mas depende exclusivamente de cada um fazer uso, ou não, do
poder redentor que Cristo conquistou. Nesse sentido, a morte de Cristo
teria apenas potencialmente o caráter salvífico, e não objetivamente. Isso
equivale a dizer que a morte de Cristo pode salvar a todos ou a ninguém,
pois depende da resposta de fé que cada pessoa dá. Ela só se torna efetiva
quando alguém a “aceita” demonstrando arrependimento e fé, e então pas­
sa a usufruir dos benefícios salvíficos da morte do Redentor.
284 Razão da esperança

A tradição reformada
A partir do desenvolvimento da doutrina da expiação na tradição refor­
mada (calvinista), que tem a ver com a obra da redenção realizada por Cris­
to na cruz, a pergunta “Por quem Cristo morreu?” começou a ter grande
importância.2 Devido ao entendimento de que o sacrifício de Cristo não
apenas possibilita, mas realmente expia, ou seja, perdoa os pecados, a teo­
logia reformada sustenta que Cristo morreu exclusivamente pelos pecados
do seu povo. Os teólogos reformados começaram a pensar que a morte de
Cristo não poderia de fato se estender a todos os homens sem exceção. O
que a morte de Cristo poderia fazer por um Judas Iscariotes? Qual teria
sido o benefício de Cristo derramar o seu sangue por alguém que já estava
no inferno quando ele morreu? Como diz Louis Berkhof, “a posição refor­
mada é que Cristo morreu com o propósito de real e seguramente salvar os
eleitos, e somente os eleitos. Isso equivale a dizer que ele morreu com o
propósito de salvar somente aqueles a quem ele de fato aplica os benefícios
da Sua obra redentora”.3 Segundo essa interpretação, Cristo não poderia
ter morrido pelos pecados do mundo inteiro, pois, se tivesse feito isso, teria
necessariamente salvo todas as pessoas do mundo inteiro.
A doutrina da expiação limitada ou definida4 é elaborada sobre a doutrina
da eleição ou predestinação. A doutrina da predestinação diz que Deus, desde
toda a eternidade, escolheu para si um número certo e limitado de pessoas, as
quais serão salvas, enquanto preteriu o restante, que deverá pagar pelos seus
próprios pecados. O eminente teólogo reformado Charles Hodge diz:

Deus, em sua infinita misericórdia, havendo determinado salvar uma multidão


que ninguém poderia enumerar, deu-a a seu Filho como herança, providenciou
para que ele assumisse a natureza deles e em seu lugar cumprisse toda justiça.
No cumprimento deste plano, Cristo veio ao mundo e obedeceu e sofreu no
lugar daqueles que lhe foram dados e para a salvação deles. Este foi o objetivo
concreto de sua missão, e por isso sua morte teve uma referência a esses que
não pôde ser feita àqueles que Deus decidiu entregar à justa recompensa por
seus pecados (...) Segue-se, pois, da natureza do pacto da redenção, tal como se
apresenta na Bíblia, que Cristo não morreu igualmente por toda a raça huma­
na, senão que se deu a si mesmo por seu povo e pela redenção deles.5

Essas palavras de Hodge refletem consistentemente o ensino da Con­


fissão de Fé de Westminster, que também identifica a eficácia da morte de
Cristo com os eleitos de Deus:
A cxlcnsão da expiação de Cristo 285

O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo,


sacrifício que, pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satis­
fez plenamente à justiça de seu Pai, e, para todos aqueles que o Pai lhe deu,
adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no
Reino dos céus.6

A posição da Confissão de Fé de Westminster é correlata ao que havia


sido desenvolvido no Sínodo de Dort (1619), na Holanda. Nesse sínodo,
foi formulado o sistema que até hoje é conhecido como “Os Cinco Pontos
do Calvinismo”. São eles: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expia­
ção Limitada (ou Definida), Graça Irresistível e Perseverança dos Santos.
Esses cinco pontos foram oficialmente reconhecidos a partir desse sínodo,
como um esforço no sentido de rebater os cinco pontos do arminianismo
que são anteriores e afirmam exatamente o oposto.7 Em relação à expiação
definida, os teólogos do Sínodo de Dort fizeram questão de enfatizar o seu
caráter ilimitado em termos de poder: “A morte do Filho de Deus é a
oferenda e a satisfação perfeita pelos pecados, e de uma virtude e dignidade
infinitas, e totalmente suficiente como expiação dos pecados do mundo
inteiro”.8 Porém, ela não se estende eficazmente aos homens de todo o
mundo, como o sínodo explicitou:

Porque este foi o conselho absolutamente livre, a vontade misericordiosa


e o propósito de Deus Pai: que a virtude vivificadora e salvadora da preci­
osa morte de seu Filho se estendesse a todos os predestinados, para, uni­
camente a eles, dotar da fé justificadora, e por isso mesmo levá-los infali­
velmente à salvação; ou seja: Deus quis que Cristo, pelo sangue de sua
cruz (com a qual firm ou o Novo Pacto), salvasse eficazmente, de entre
todos os povos, tribos, linhagens e línguas, a todos aqueles, e unicamente
aqueles, que desde a eternidade foram escolhidos para salvação, e que lhe
foram dados pelo Pai.9

Portanto, o calvinista insiste que a expiação é limitada não em poder,


mas no seu objetivo. A questão aqui não é o poder da expiação, mas o
objetivo dela. Para o calvinista, o poder da expiação de Cristo é ilimitado,
mas o objetivo não é. Ela é uma expiação definida, ou seja, feita com o
propósito específico de salvar os eleitos. A seguir, veremos se a expiação
definida pode ser comprovada pela Bíblia.
286 Razão da esperança

0 ensino de Jesus
Inicialmente, devemos perceber que Jesus fala em morrer pelas suas
ovelhas. Ele disse: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas
ovelhas” (Jo 10.11). Nessa passagem, ele está falando do amor do pastor
em contraste com os interesses do mercenário. O pastor dá a vida pelas
ovelhas, enquanto o mercenário, na hora do perigo, foge. Jesus está afir­
mando que ele, como bom pastor, iria dar a vida pelas ovelhas. A respeito
dessas ovelhas ele disse: “Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem
a mim” (Jo 10.14), Em seguida, ele disse: “Ainda tenho outras ovelhas, não
deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz;
então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.16). Mas certamente essas
ovelhas não eram todas as pessoas do mundo sem exceção. Mais à frente
ele disse para um grupo de incrédulos: “Vós não credes, porque não sois
das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço,
e elas me seguem” (Jo 10.26,27). A conclusão óbvia que podemos chegar a
partir dessa afirmação de Jesus é que, se aquelas pessoas não eram suas
ovelhas, portanto, ele não morreria por elas, pois ele disse que morreria
pelas suas ovelhas. Então, significa que Jesus não morreu por todas as pes­
soas, mas apenas por suas ovelhas. Essa afirmação de Jesus limita o alcance
da expiação. Ele morreu pelo seu povo, pelas suas ovelhas.
Em outras passagens, Jesus deixou claro que morreria não por todos,
mas por muitos: “O Filho do homem, que não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Embora o
seu sacrifício tenha poder para salvar a todos, ele mesmo disse que objetiva­
mente daria a sua vida em resgate por muitos.10 A mesma linguagem pode
ser encontrada em Hebreus 9.28-, “Também Cristo, tendo se oferecido uma
vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez,
sem pecado, aos que o aguardam para a salvação”. Segundo essa passagem,
Cristo se ofereceu objetivamente para “tirar” os pecados de muitos, e é
para esses que ele aparecerá segunda vez. E lógico que ele não poderia tirar
os pecados de todos, senão todos seriam salvos.
Jesus intercedeu apenas por aqueles que considerava seus discípulos. O
capítulo 17 de João transcreve a oração que Jesus fez pouco antes de mor­
rer. Nessa oração, ele faz questão de orar pelos seus discípulos: “Manifestei
o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confi­
aste, e eles têm guardado a tua palavra” (Jo 17.6). Em seguida, Jesus faz
questão de delimitar o escopo de sua oração: “É por eles que eu rogo; não
A exlcnsão da expiação de Crislo 2 87

rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo
17.9). Ele estava orando apenas pelos seus discípulos. Uma pergunta per­
manece: Por que ele não oraria pelas outras pessoas do mundo, se tivesse
dado a sua vida em resgate delas também? A passagem claramente diz que
ele orou apenas pelos crentes: “Não rogo somente por estes, mas também
por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo
17.20). Nesse dia, em Jerusalém, Jesus orou somente pelos seus discípulos
e pelos que ainda viriam a crer nele e se tornariam seus discípulos. Ele não
orou pelo mundo incrédulo. Sua obra de intercessão depende da sua obra
de expiação, pois é só por meio da sua morte que ele pode conceder bene­
fícios aos homens. Se ele não orou pelas demais pessoas do mundo é por­
que não morreria por elas. Se Jesus tinha em mente dar a sua vida por todas
as pessoas do mundo, então não haveria razão em orar apenas pelos que já
eram ou seriam seus discípulos. Ele deveria orar para que os demais se
tornassem discípulos, mas não foi isso o que ele fez.

Objeções à expiação limitada


Existem algumas passagens bíblicas que geralmente são apontadas para
mostrar que Cristo morreu por todos os homens. A mais famosa delas é
João 3.16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”
(ver Jo 1.29; 6.33, 51; Rm 11.12; 2Co 5.19; ljo 2.2). Essa passagem de fato
diz que Deus amou o “mundo” e, por causa disso, enviou o seu filho. Mas o
próprio texto faz uma restrição em relação à salvação: serão salvos apenas os
que crêem. Será que nessa passagem, e noutras, a expressão “mundo” se
refere a cada pessoa sem exceção? Se conseguíssemos provar que tenha exis­
tido pelo menos uma pessoa que Deus não tenha amado, então, não tería­
mos razão para crer que “mundo” em João 3.16, ou mesmo noutras passa­
gens, diga respeito a cada pessoa sem exceção. O fato é que encontramos
essa pessoa: Esaú. Dele, em contraste com o seu irmão Jacó, a Bíblia diz:
“Ameijacó, porém me aborreci de Esaú” (Rm 9.13). Deus está fazendo uma
comparação entre Jacó, pai da nação de Israel e Esaú, pai da nação de Edom.
Ele amou Jacó, mas não amou Esaú. Isso é suficiente para dizermos que,
quando a Bíblia diz que Deus amou o mundo, ela não está se referindo a
cada pessoa sem exceção. Ele está falando do mundo como a criação, por
quem ele mandou seu Filho a fim de criar um novo mundo, mas nem todas
as pessoas deste mundo serão renovadas. Quando o Novo Testamento fala
288 Razão da esperança

do mundo, a quem a redenção é oferecida, está fazendo uma comparação


entre o exclusivismo nacional do Antigo Testamento, e a abertura para todos
os povos do Novo Testamento. Nesse sentido, devemos entender o amor de
Deus e a morte de Jesus como sendo pelo mundo inteiro. Isso não significa
cada pessoa do mundo sem exceção, mas o mundo visto de uma perspectiva
global. Cristo é o salvador do mundo no sentido de que é o Salvador de toda
a criação. Nesse sentido, ele carrega o pecado do mundo, pois, no fim, todo
o pecado será removido da criação. Pela sua morte, Cristo assegurou a puri­
ficação, não somente de pessoas, mas de toda a criação. Pela sua morte, Cris­
to assegurou a redenção de indivíduos (novas criaturas) tanto quanto a re­
denção da criação (novos céus e nova terra). O mundo caído em Adão será
restaurado em Cristo (Rm 8.19, 21-23).
Existem outras passagens que dizem que Cristo morreu por todos os
homens, por exemplo, Romanos 5.18: “Pois assim como, por uma só ofen­
sa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também,
por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justifi­
cação que dá vida”. O mesmo pode ser dito de ICoríntios 15.22: “Porque,
assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivifica­
dos em Cristo”, E também 2 Coríntios 5.14: “Pois o amor de Cristo nos
constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morre­
ram”. E ainda 1 Timóteo 2.6: “O qual a si mesmo se deu em resgate por
todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos”. E ainda
Tito 2.11: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os
homens”. O mesmo se vê em Hebreus 2.9: “Vemos, todavia, aquele que,
por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do
sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça
de Deus, provasse a morte por todo homem”. O que se pode dizer de todas
essas passagens é que é evidente que não podemos interpretar a expressão
“todos os homens” como se referindo a todos os homens sem nenhuma
exceção. Se fizéssemos isso, estaríamos efetivamente dizendo que todos os
homens serão factualmente salvos. Por causa disso, necessariamente a ex­
pressão “todos” dessas passagens se refere a todos os salvos. Em Romanos
5.18 e ICoríntios 15.22 a expressão “todos” inclui somente os que estão
em Cristo em contraste com os que estão em Adão. O mesmo pode ser dito
de 2 Coríntios 5.14 e Hebreus 2.9. A passagem de Tito 2.11 refere-se a
todas as classes de homens, mas não a cada homem sem exceção. E, por
fim, 1 Timóteo 2.6 fala sobre a inclusão tanto de judeus como de gentios na
salvação. É evidente, portanto, que essas passagens não falam de todos os
homens sem exceção, caso contrário todos os homens teriam que ser sal-
A extensão da expiação de Cristo 289

vos, pois nessas passagens a expiação de Cristo é descrita como um ato real
de conceder a vida.
A passagem que parece afirmar de modo mais claro que a morte de
Cristo foi pelo mundo inteiro é 1 João 2.2: “E ele é a propiciação pelos
nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do
mundo inteiro”. O argumento em favor da expiação definida entende a
expressão “mundo” nessa passagem como uma descrição generalizada,
querendo apontar para um grupo especial, o grupo dos salvos do mundo
inteiro. Não significa cada pessoa do mundo sem exceção, pois caso con­
trário, essa propiciação evidentemente salvaria todas as pessoas. E preciso
lembrar que propiciação significa “apaziguar a ira de Deus”. Se Jesus apazi­
guou a ira de Deus para cada pessoa do mundo, então, Deus não estaria
mais irado com ninguém, e todos poderiam ir para o céu. Devemos enten­
der a expressão “mundo inteiro” como algo que visa fazer um comparativo
com o “filhinhos” do versículo 1: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo
para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao
Pai, Jesus Cristo, o Justo” (ljo 2.1). Os “filhinhos” de João eram aqueles
para quem ele escrevia a carta. Jesus era o Advogado desses filhinhos, pois
fez propiciação por eles, e não somente por eles, mas pelos pecados do
mundo inteiro, ou seja, pelos pecados dos crentes do mundo inteiro (os
outros filhinhos). João liga a propiciação de Jesus com sua obra como ad­
vogado diante de Deus. Jesus não pode ser o advogado de todos os ho­
mens, senão todos os homens terão todos os seus pecados perdoados.
Outro argumento bastante usado contra a expiação definida é que, se
Cristo morreu apenas por um número limitado de pessoas, isso tornaria im­
possível o oferecimento livre do evangelho. O questionamento parece lógico:
Se Cristo não morreu por todos, então, por que o evangelho é oferecido a
todos? Além do mais, há passagens que claramente indicam que Deus deseja
que todos sejam salvos, por exemplo, Ezequiel 33.11: “Tão certo como eu
vivo, diz o S e n h o r Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em
que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-
vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de
Israel?” Também 1 Timóteo 2.4 fala algo semelhante: “O qual deseja que
todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verda­
de”. E ainda 2 Pedro 3.9: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como
alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco,
não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependi­
mento”. Como harmonizar a noção da expiação definida com essas passa­
gens e com a livre oferta do evangelho? Quanto ao questionamento sobre a
290 Razão da esperança

impossibilidade de pregar o evangelho de modo sincero a todos, uma vez que


Cristo não morreu por todos, podemos dizer o seguinte: Nós não sabemos
por quem Cristo morreu! Sabemos que ele morreu pelos eleitos, mas quem
são os eleitos? Precisamos oferecer a salvação igualmente a todos, e quem
crer será salvo. Não temos o direito de excluir ninguém, porque não sabemos
quem será salvo ou quem será condenado. Qualquer atitude preconceituosa
da nossa parte será pecaminosa. Quanto às passagens bíblicas que dizem que
Deus deseja que todos sejam salvos, o que podemos dizer é que isso é a mais
pura verdade. Não podemos fugir as evidências bíblicas, nem torcer passa­
gens para que elas se encaixem na nossa teologia. Porém, isso não quer dizer
que essas passagens não se encaixem. Precisamos entender que Deus, como
criador de todos, não tem prazer em ver suas criaturas perecendo, antes o seu
prazer é vê-las se convertendo e sendo salvas. A pergunta que precisa ser feita
é: Então quer dizer que ele salvará a todas? A resposta é: Não. A segunda
pergunta é: Por acaso ele não tem poder para salvar a todas? A resposta agora
é: Sim. Poderíamos perguntar então: Se ele deseja que todas sejam salvas e
tem poder para salvar a todas, então, por que não salva a todas? Só há uma
resposta: Porque, num sentido, ele não quer salvar a todas. Então, ele quer, e,
ao mesmo tempo, não quer salvar todas as pessoas? Como entender isso?
Aqui precisamos relembrar a diferença entre a vontade de desejo e a vontade
decretiva de Deus. O primeiro aspecto tem a ver com os desejos íntimos de
Deus. Assim como ele estabeleceu uma lei e é sua vontade que todos obede­
çam, mas ele não obrigará ninguém a fazer isso, do mesmo modo é desejo
seu que todos sejam salvos, mas ele não agirá para que todos sejam de fato
salvos. Porém, quando falamos em vontade decretiva, estamos nos referindo
àquela sua vontade que acontece inevitavelmente (ver Rm 9.19; Is 46.9-11;
Dn 4.35); diz respeito aos seus decretos para este mundo, os quais invariavel­
mente acontecerão, pois se não acontecerem, Deus perderá o controle do
universo. O desejo que todos os homens sejam salvos faz parte de sua vonta­
de de desejo, mas não faz parte de sua vontade decretiva. Ou seja, Deus
deseja que todos sejam salvos, mas não decretou que todos serão salvos.
Portanto, o fato de Deus desejar que todos sejam salvos não obriga Jesus a
morrer por todos os homens, até porque nem todos serão salvos.

Limitada em alcance ou e m p o d er
Apesar de muitos ficarem surpresos com essa declaração, a verdade é que
todo cristão ortodoxo terá que pôr limites à obra salvífica de Cristo. Pois se
.A extensão da expiação de Cristo 291

alguém crê que Cristo morreu por todas as pessoas deste mundo, entretanto,
nem todas as pessoas deste mundo serão realmente salvas, então, a obra de
Cristo é limitada em seu poder, pois ela não salva efetivamente ninguém.
Entretanto, se alguém crê que a obra de Cristo, embora poderosa o suficien­
te para salvar toda e cada pessoa, foi feita apenas em favor do povo escolhi­
do, a igreja, então, essa expiação é limitada no seu escopo ou no seu propó­
sito, mas não em poder, Se Cristo morreu por pessoas que estão no inferno,
então os seus esforços não podem realmente ser chamados de obra salvífica.
Muitos afirmam que Cristo, ao morrer, não salvou ninguém realmente, ele
apenas tornou os homens salváveis, entretanto, se isso é assim, então não há
real “poder no sangue”. Ao contrário, parece que o poder está na vontade da
criatura, como se a criatura conferisse poder ao sangue de Cristo.
Se Cristo de fato tivesse morrido por todos os homens sem exceção,
então, em muitos casos, ele teria sido impotente, porque apesar de ter dado
a vida por alguma pessoa, talvez essa pessoa acabasse no inferno, Com
relação a isso, ainda poderíamos perguntar: Quando Cristo morreu, já ha­
via pessoas no inferno? Sim, todas as pessoas que morreram sem salvação
antes da sua vinda. A pergunta é: Ele morreu por elas também? Parece
ilógico dizer que sim, pois seria um desperdício de um sangue tão precioso.
Teria Cristo morrido por Judas Iscariotes? A Bíblia chama Judas de “o filho
da perdição” (Jo 17.12), e diz que tudo o que aconteceu por meio dele
aconteceu segundo o que as próprias Escrituras haviam profetizado (Mt
26,24). De acordo com a Escritura, Judas não tinha chances de ser salvo,
então, por que Jesus morreria por ele?
A Escritura fala da obra de Cristo em termos definitivos em favor do
salvo. Se ele morreu por todos os homens, então todos os homens precisa­
riam de fato ser salvos. Só há duas opções, ou a redenção é limitada no seu
alcance ou é limitada no seu poder. É preferível pensar que ela seja limitada
no alcance, ou seja, que não foi feita para alcançar todos os seres humanos.
Ela não é limitada em poder, pois pode salvar completamente todos aque­
les a quem foi destinada. Se dissermos que Cristo morreu por todos os
seres humanos, então limitamos a expiação em seu poder, pois, nesse caso,
ela não consegue salvar todos os homens. A Escritura, entretanto, deixa
bem claro o poder e a eficácia da obra de Cristo. Nesse ponto, é importante
rever algumas passagens bíblicas que descrevem a expiação feita por Cristo
como redenção, propiciação, reconciliação e substituição, as quais descre­
vem o que realmente Cristo fez ao morrer na cruz.11
Redenção é provavelmente o principal termo bíblico para descrever a ex­
piação. Significa “comprar de volta”, ou “retornar à possessão de alguém
292 Razão da esperança

mediante o pagamento de um preço”. A morte de Cristo foi o resgate dos


salvos, não um resgate pago a Satanás, mas um resgate exigido pela lei de
Deus e oferecido ao próprio Deus. Agora imagine: Uma pessoa foi seqües­
trada e feita refém pelo pecado, mas, agora é crente, então, Cristo pagou o
resgate para libertá-la, a fim de que se tornasse possessão dele. Que tipo de
redenção seria esta se a maioria dos cativos permanecesse no cativeiro e
nunca fosse libertada? Em Isaías 53.10,11 é dito que Cristo veria o fruto do
seu penoso trabalho e ficaria satisfeito, Porém, como ele poderia estar satis­
feito se visse que a maior parte das pessoas por quem morreu, no fim das
contas, permanecerá condenada? Isso não seria muito mais motivo de de­
sapontamento do que de satisfação?
Propiciação refere-se a interromper a inimizade e a hostilidade de Deus
em relação ao ser humano. Quando propiciação é feita, a ira de Deus é
removida. Se Cristo fez propiciação pelo mundo, então, removeu a ira de
Deus do mundo. Porém, não é isso o que a Escritura ensina, pois Deus
continua irado com o mundo (Rm 1.18). Além disso, se Cristo não “propi­
ciou” a ira de Deus por mim, mais do que por Judas Iscariotes, então, como
eu posso ter certeza que Deus, no final, não irá me consumir com a sua ira?
Alguém diria: “Porque você crê.” Mas, se é só por isso, então significa que
no fim das contas, nós, mais do que Cristo, é que propiciamos a ira de
Deus, e nos tornamos os nossos próprios salvadores. Ou, no mínimo, cola­
boramos para a salvação, e aí, já não poderíamos mais dizer que fomos
salvos pela graça.
Reconciliação define-se por apaziguar oponentes. As pessoas serão desti­
nadas ao inferno por toda a eternidade porque elas estão, e sempre estarão,
opostas a Deus. Porém, as pessoas que são reconciliadas são feitas amigas,
e é a morte de Cristo que efetua essa reconciliação. Mas, então, será que
Deus vai mandar os seus “amigos” para o inferno? E claro que não, pois a
reconciliação é apenas para os eleitos, os reconciliados serão efetivamente
salvos (Rm 5.10).
Substituição é o ato de alguém assumir toda a responsabilidade pela falta
do outro. Suponha que um criminoso esteja no corredor da morte, espe­
rando a execução. Um estranho se encontra com o juiz, e o juiz concorda
em aceitar a execução do estranho (que é inocente) no lugar do verdadeiro
criminoso. Esse estranho se tornou o substituto do criminoso. Então, su­
ponha que, depois de executar o substituto, o juiz execute também o crimi­
noso. O juiz poderia ser acusado de assassinato em pelo menos uma morte.
O ser humano é o criminoso, mas Cristo morreu em seu lugar e, por isso,
Deus não mais condenará essa pessoa, pois ele não pode condenar o Re-
A extensão da expiação de Cristo 293

dentor e o redimido ao mesmo tempo. Se Cristo morreu por todas as pes­


soas, então, todas as pessoas terão que ser salvas.
E preciso que se entenda:que as palavras acima são aplicadas objetiva­
mente à morte de Cristo. Ele não apenas tornou essas coisas possíveis, ele
as realizou na cruz. E se ele realizou essas coisas por todas as pessoas do
mundo, então todas podem se preparar para passar a eternidade no céu, e o
inferno estará absolutamente vazio. Porém, esse ensino não pode ser sus­
tentado pela Bíblia, que fala em muitos chamados, mas poucos os escolhi­
dos. Os escolhidos são todos aqueles por quem Cristo morreu.
Para concluir, de volta à historinha do início, o prisioneiro americano
tinha o direito de morrer, porque ninguém morreu efetivamente em seu
lugar. Porém, um homem por quem Cristo morreu não pode ser condena­
do novamente, porque Deus não pode condenar o mesmo pecado duas
vezes. Se o pecado de alguém foi condenado em Jesus, Deus não o conde­
nará novamente; por essa razão, se Cristo tivesse morrido por todos os
homens, Deus não poderia mais condenar ninguém. Entretanto, Jesus mor­
reu pelas suas ovelhas, e só elas serão salvas. O perdão que Cristo concede
é diferente do perdão que o governador concedeu ao condenado. O gover­
nador apenas possibilitou a possibilidade de salvação, mas Cristo, ao mor­
rer na cruz, concedeu eficazmente a salvação. Ao contrário de isso ser um
problema para nós, deveria ser um motivo de gratidão e louvor, pois se
Cristo tornou tão certa a nossa salvação, então, é porque Deus não está
disposto a abrir mão de nós. Além disso, Deus nos considera individual­
mente. Quando Cristo orou por seus discípulos, e quando morreu na cruz,
ele sabia exatamente por quem estava morrendo. Ele via o fruto do seu
penoso trabalho, e isso o alegrava, apesar de todo o seu sofrimento.
23

Ressurreição: a grande vitória

A ressurreição de Cristo põe um ponto final em todo um sistema até


então invencível: o sistema da morte. A rotina de todos os seres humanos
desde o início do mundo sempre foi: nascer, crescer e morrer. Nenhum ser
humano jamais conseguiu fugir desse sistema. Todos, inevitavelmente, en­
contraram a morte, mais cedo ou mais tarde. Essa indesejada visitante sem­
pre se apresentou, às vezes nos momentos mais inesperados, rompendo
elos, quebrando relacionamentos, destruindo sonhos e arrasando projetos.
Algo que sempre esteve muito claro na mente do ser humano é que tudo
pode ser vencido, menos a morte. Quando ela chega, as esperanças se aca­
bam. Por isso, as pessoas dizem: “Enquanto há vida, há esperança”. Quan­
do a morte chega é o fim. Mas um dia, um homem adentrou as portas da
morte. Pela maneira como tudo aconteceu, parecia ser só mais um. Aquele
corpo maltratado pelos açoites e pelo esforço desumano de carregar a cruz,
se deixou vencer pela velha conhecida dos seres humanos. Ela lançou suas
antigas e inquebráveis cadeias sobre ele e o dominou. A escuridão o engo­
liu. O último sinal de vida desapareceu. A velha inimiga já começava a sua
rotineira tarefa de eliminar completamente quaisquer resquícios da vida,
pois o corpo já começava a se desintegrar, quando, de repente, algo inusita­
do aconteceu, o processo de desintegração se inverteu. Em vez de apodre­
cer, o corpo começou a se recompor. As correntes invencíveis começavam
a ceder, impotentes diante de um poder incomparável, as cadeias da morte
se arrebentaram como se fossem cordas podres. O corpo terrivelmente
maltratado se revelava intacto, radiante, invicto. O terrível sistema
aprisionador era demolido. A morte já não era invencível.
Infelizmente, o mundo moderno tem dificuldade para aceitar esse acon­
tecimento como um fato histórico. Isso se deve à dificuldade moderna em
aceitar a existência dos milagres. Não há mais espaço para a ressurreição na
mente dos homens modernos. Muitos teólogos no século 19, ao olhar para
o progresso da ciência e as maravilhas da tecnologia, chegaram a essa con­
clusão, imaginando não haver mais espaço neste mundo para os conceitos
296 Razão da esperança

sobrenaturais. É incrível pensar que a ressurreição física de Jesus seja nega­


da, não por cientistas ateus, mas por teólogos da igreja. Desde os que ne­
gam a existência do sobrenatural, até os que tentam interpretar os aconteci­
mentos sobrenaturais descritos na Bíblia mais em função de sua mensagem
do que de sua evidência histórica, de um jeito ou de outro, a ressurreição
física de Cristo tem sido desacreditada. E preciso analisar as implicações
dessa lógica: Se a ressurreição física e literal de Jesus não aconteceu, o que
resta do Cristianismo?

Evidências da ressurreição de Cristo


Ao contrário do que possa parecer, há boas e suficientes evidências a
respeito da ressurreição de Jesus. Essas evidências são muito fortes e con­
vincentes, porém, com isso não estamos querendo dizer que elas devem
convencer a todos. Acima de tudo, permanece que se trata de uma questão
de fé. A fé, cuja ausência não pode agradar a Deus, é que determina se
alguém aceitará a veracidade da ressurreição ou não.

0 t e s t e m u n h o da Escritura

No capítulo 15 de 1 Coríntios, o apóstolo Paulo desenvolve uma longa


argumentação em defesa da ressurreição real e histórica de Cristo. Ele co­
meça o capítulo falando sobre os aspectos escriturísticos da ressurreição:
“Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebes­
tes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a
palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de
tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao tercei­
ro dia, segundo as Escrituras” (ICo 15.1-4). Paulo faz questão de dizer que,
tanto a morte quanto a ressurreição de Cristo, ocorreram de acordo com as
Escrituras. Para os crentes, o testemunho das Escrituras é o maior testemu­
nho da ressurreição de Cristo. Tanto o testemunho do Antigo Testamento,
ao qual Paulo está se referindo, como o próprio testemunho do Novo Tes­
tamento são as provas definitivas para o crente. Observe que são provas
porque eles possuem fé na Escritura como material fidedigno. Infelizmen­
te, nem todas as pessoas vêem a Escritura desse modo.
O Antigo Testamento anunciou que o Messias não seria vencido pela
morte. O Salmo 16 testemunhou: “Alegra-se, pois, o meu coração, e o
Ressurreição: A grande vilória 297

meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás
a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”
(SI 16.9,10). Igualmente, o profeta Isaías fala que o Servo Sofredor, após
todo o sofrimento que teria que passar, não seria vencido pela morte:
“Todavia, ao S e n h o r agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der
ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolon­
gará os seus dias; e a vontade do S e n h o r prosperará nas suas mãos” (Is
53.10). O profeta diz que, depois de oferecer a sua alma pelo pecado, o
Messias veria seus dias se prolongarem. Isso só pode ser um anúncio da
sua ressurreição. Como poderia ele ver os seus dias se prolongarem se
estivesse morto? A passagem está sugerindo que, após a morte, o Messias
voltaria à vida.
Para os crentes do Novo Testamento, os registros dos apóstolos e discí­
pulos, que testemunharam a ressurreição de Cristo, são suficientes para a
fé. Marcos relata:

Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apa­


receu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios. E, partin­
do ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se
achavam tristes e choravam. Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto
por ela, não acreditaram. Depois disto, manifestou-se em outra forma a
dois deles que estavam de caminho para o campo. E, indo, eles o anuncia­
ram aos demais, mas também a estes dois eles não deram crédito. Final­
mente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a
incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o
tinham visto já ressuscitado (Mc 16.9-14).

E importante que se entenda que esse é um relato que tem a pretensão


clara de ser histórico. Marcos não está contando uma lenda, não está fazen­
do poesia ou qualquer outra coisa, ele está narrando um acontecimento que
acredita ser histórico, o qual possivelmente testemunhou. Assim também
relatam Mateus (Mt 28.1-10) e João (Jo 20.1-18), que foram testemunhas
oculares da ressurreição, e Lucas (Lc 24.1-15), que empreendeu uma exten­
sa pesquisa histórica para apurar e relatar os fatos. O testemunho do Novo
Testamento é uma prova documental que não pode ser ignorada. Por mais
que muitos estudiosos se esforcem para desacreditar o Novo Testamento,
o seu testemunho da ressurreição permanece.
298 Razão da esperança

Testemunhas oculares

Dentre as muitas provas convincentes que Jesus ofereceu aos discípulos


durante aqueles quarenta dias, estão o seu aparecimento dentro da sala com
as portas fechadas (Jo 20.19), a sua permissão para que os discípulos tocas­
sem nele para verem que não se tratava meramente de um espírito (Lc
24.39; Jo 20.27; ljo 1.1-4), além de ter, até mesmo, comido com eles (Lc
24.41-43). Estudos têm demonstrado que as pessoas perdem muito rapida­
mente a memória sobre fatos que ocorreram quando elas estão sob muita
pressão, mas esse não foi o caso dos discípulos que descreveram minucio­
samente os aparecimentos de Jesus, Ou seja, eles devem ter passado muito
tempo com Jesus. E de fato Lucas nos diz que ele apareceu vivo, durante
quarenta dias (At 1.3).
Os discípulos não foram os únicos que tiveram o privilégio de ver o Se­
nhor Jesus ressuscitado. O apóstolo Paulo nos diz que Jesus “foi visto por
mais de quinhentos irmãos de uma só vez” (ICor 15.5,6). Era até possível
que alguns poucos discípulos inventassem uma história com respeito à res­
surreição de Cristo, mas seria difícil mais de quinhentas pessoas confirma­
rem isso. Seria impossível que tantas pessoas tivessem se enganado com res­
peito ao quem viram. Como diz Josh MacDowell, “quando ocorre um acon­
tecimento na História e existem pessoas vivas suficientes que foram teste­
munhas oculares ou participaram do acontecimento, e quando se publica
essa informação, é possível verificar-se a validade de um determinado acon­
tecimento mediante as provas circunstanciais”.1 Num tribunal, o testemu­
nho de tantas pessoas seria amplamente convincente. Além disso, elas ainda
estavam vivas quando Paulo escreveu a carta. Se não fosse verdade, elas pro­
curariam demonstrar a mentira. Se fosse uma invenção e havendo tantas
supostas testemunhas, a fraude não duraria muito tempo. E interessante Paulo
dizer que viu o Senhor ressuscitado, Ele está testemunhando não de algo
que ouviu falar, mas de algo que viu. Ele é mais uma testemunha ocular, e
em qualquer tribunal, o seu testemunho seria considerado uma prova.

0 tes te m u n h o do sep ulcro vazio

Os túmulos daquele período normalmente tinham uma entrada de até


1,5 metro de altura. A construção era feita de tal forma que a pedra ficava
numa vala bem na entrada do túmulo e um tipo de suporte era usado para
fazê-la deslizar e tapar a entrada. Mateus diz que se tratava de uma “grande
pedra” (Mt 27.60). De fato, para cobrir uma entrada de 1,5 metro ela preci-
Ressurreição: A grande vitória 299

saria pesar cerca de duas toneladas. Porém, a pedra não era o único empe­
cilho à saída do túmulo; Mateus diz que foi colocada uma escolta junto ao
sepulcro para impedir que os discípulos roubassem o corpo. A guarda ro­
mana era composta de até dezesseis homens. Além disso, essa guarda selou
a pedra (ver Mt 27.65,66). O selo foi provavelmente fornecido por Pilatos e
demonstrava que o túmulo estava sob a proteção do Império Romano. Não
seria fácil roubar o corpo. Não havia a mínima possibilidade de que o
grupinho de desanimados discípulos fosse enfrentar a escolta romana e
retirar o corpo. A punição para a quebra do selo seria a crucificação. Os
judeus admitiram a evidência do túmulo vazio. Existem evidências históri­
cas de que eles mandaram mensageiros aos quatro cantos do mundo para
desmentir que Jesus tinha ressuscitado, alegando que os discípulos tinham
roubado o corpo, ou seja, admitiram que o corpo havia desaparecido. O
fato histórico permanece: o corpo sumiu, o túmulo está vazio.

0 t e s t e m u n h o de vida dos apóstolos

De onde teria vindo todo o entusiasmo dos discípulos e toda intrepidez


para proclamar a mensagem da ressurreição? A morte de Jesus foi um duro
golpe para eles. O próprio João descreve que eles estavam reunidos às es­
condidas, ainda naquele domingo à tarde, com as portas trancadas “com
medo dos judeus” (Jo 20.19). Que medo era esse? Era o medo natural de
homens que tinham visto os seus planos frustrados e o seu líder morto.
Eles sabiam que, se aparecessem, certamente seriam punidos, e quem sabe
até mortos, até porque os boatos do desaparecimento do corpo estavam se
espalhando e eles eram os principais suspeitos. É claro que eles não esta­
vam dispostos a aparecer. Quem arriscaria a sua vida por um homem mor­
to? Essa pergunta é muito importante, pois ninguém arriscaria a sua vida
desse modo. Dá para perceber que, até aquele momento, eles não estavam
dispostos a isso, pois estavam reunidos secretamente. Muitos até mesmo
voltaram para suas casas, numa demonstração clara de desistência (Lc 24.13).
Mas, de repente, Pedro está pregando com ousadia para uma multidão (At
2.12-41). O que poderia explicar uma mudança tão grande? Da desolação
para euforia em tão pouco tempo? Significativa é a descrição dos capítulos
4 e 5 de Atos. Os apóstolos têm a coragem de proclamar a ressurreição de
Cristo perante as autoridades (At 4.10), e mesmo depois de serem ameaça­
dos (At 4.21), presos e açoitados (At 5.40), não só continuam, como se
regozijam (At 5.41,42), Ninguém colocaria a própria vida em risco por uma
mentira, por isso, o entusiasmo dos apóstolos fala muito acerca da ressur-
300 Razão da esperança

reição de Cristo. E deve ser lembrado que não foi só entusiasmo que eles
demonstraram, foi martírio também. Eles não só colocaram a própria vida
em risco, como realmente morreram pela causa de Cristo, Aparentemente,
o único apóstolo que não foi martirizado foi João,2 todos os demais sofre­
ram a morte de mártir. Se negassem a Jesus antes da execução poderiam ser
perdoados, mas não fizeram isso. Alguém até pode defender uma mentira
para benefício próprio, mas quantos estariam dispostos a morrer por uma
mentira? O martírio dos apóstolos é uma evidência poderosíssima da res­
surreição de Cristo.

0 fa t o m a i s atestado
Como diz Charles Hodge, “pode-se asseverar com segurança que a res­
surreição de Cristo é, ao mesmo tempo, o fato mais importante e mais
autenticado da história do mundo”.3 Esse autor fornece uma série de ra­
zões que confirmam isso:4 1) Ela foi predita no Antigo Testamento. 2) Ela
foi predita pessoalmente por Cristo. 3) Tratou-se de um fato facilmente
verificável. 4) Forneceu evidência abundante, apropriada e reiterada de sua
verdadeira ocorrência. 5) As testemunhas do fato de que Cristo foi visto
vivo depois da sua morte na cruz eram numerosas, competentes e, em to­
dos os sentidos, dignas de confiança. 6) A sinceridade da convicção delas
foi demonstrada pelos seus sacrifícios, inclusive o de suas vidas, em decor­
rência do seu testemunho. 7) Seu testemunho foi confirmado por Deus, ao
dar testemunho juntamente com eles, com sinais e prodígios, com diversos
milagres e com os dons do Espírito Santo. 8) Esse testemunho do Espírito
continua até o tempo atual e é concedido a todos os genuínos filhos de
Deus, porque o Espírito dá testemunho da verdade no coração e na cons­
ciência. 9) O fato de que a ressurreição de Cristo tem sido comemorada
como uma observância religiosa do primeiro dia da semana, desde a sua
ocorrência até hoje. 10) Os efeitos produzidos pelo seu evangelho, e a mu­
dança que ele tem efetuado no estado do mundo, não admitem nenhuma
outra solução racional além da veracidade da sua morte e subseqüente res­
surreição. A igreja cristã é seu monumento desse fato, e todos os crentes
são suas testemunhas.
Josh MacDowell, num excelente livro intitulado A s Evidências da Ressur­
reição de Cristo, narra a história de um importante advogado de Harvard, o
Dr. Simon Greenleaf, que decidiu aplicar as regras do direito para o aconte­
cimento da ressurreição e acabou convencido de sua veracidade.5 Horton,
contando a mesma história, diz que esse advogado, que fundou a Escola de
Ressurreição: A grande vitória 301

Direito de Harvard, começou com a intenção de contestar a alegação da


ressurreição, certo de que, uma atenção simples e constante às alegações do
Novo Testamento, com relação às testemunhas dos evangelhos e aos teste­
munhos externos dos historiadores seculares daquele período, iriam final­
mente extinguir as crenças cristãs remanescentes. Ele queria levar as alega­
ções da Bíblia ao tribunal e verificá-las a partir das técnicas do direito. Que­
ria dem onstrar a m entira in tencional dos escritores a p artir da
improbabilidade dos relatos e suas contradições internas. Qual foi a sua
conclusão? Ao final dos trabalhos, esse homem estava plenamente conven­
cido da veracidade da ressurreição a partir do testemunho do Novo Testa­
mento.6 Ele se tornou um crente.

0 co rp o ressuscitado

Um argumento que, em geral, é levantado contra a idéia da ressurreição


é o da impossibilidade de trazer de volta todas as moléculas de um corpo,
especialmente se ele já tiver se desintegrado, uma vez que as partículas se
espalham e passam a fazer parte de outros corpos. Paulo antevê esse ques­
tionamento: “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que
corpo vêm?” (ICo 15.35). Ele usa uma ilustração da própria natureza para
explicar isso: “O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e, quando
semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de
trigo ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve
dar e a cada uma das sementes, o seu corpo apropriado” (ICo 15.36-38).
Assim como a semente lançada na terra é bastante diferente da planta que
um dia chegará à idade adulta, também o corpo lançado à sepultura fará
nascer um corpo bem diferente. E verdade que, embrionariamente, poderí­
amos dizer que as características principais da planta já estão na semente. O
mesmo, então, poderíamos dizer do corpo atual em relação ao futuro.
Nesse ponto, é interessante a discussão sobre a natureza do corpo res­
suscitado de Jesus. Muitos não entendem que ele possa ser realmente físico.
Porém, o ensino da Escritura nos aponta para o aspecto físico do corpo de
Jesus, sem qualquer possibilidade de dúvida. Jesus apareceu aos discípulos,
comeu e bebeu com eles (At 10.41), disse-lhes: “Vede as minhas mãos e os
meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito
não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc 24.39). Como diz
Grudem, “teria sido muito errado ensinar aos discípulos que ele tinha um
corpo físico, se no seu modo normal de existência ele realmente não pos­
suía”.7 Portanto, Jesus possui um corpo físico, embora, como diz o apósto-
302 Razão da esperança

lo Paulo, possa ser chamado também de corpo espiritual. Não temos con­
dições de entender exatamente como é esse corpo, a única coisa que pode­
mos dizer é que ele é “material” e “espiritual” ao mesmo tempo. E um
corpo absolutamente perfeito e sem os limites impostos pela fraqueza ou
pelo pecado. A seguinte definição de Hodge é muito útil: “O corpo ressurecto
de Cristo, portanto, tal como existe agora no céu, ainda que retenha a iden­
tidade com seu corpo enquanto estava na terra, é glorioso, incorruptível,
imortal e espiritual. Continua ocupando determinada porção de espaço e
retém todas as propriedades essenciais como corpo”.8 A definição de
Berkhof é semelhante: “Sua ressurreição consistiu em que nele a natureza
humana, o corpo e a alma, foi restaurada à sua prístina força e perfeição e
até mesmo elevada a um nível superior, enquanto que o corpo e a alma
foram reunidos num organismo vivo”.9
Por mais que os críticos modernos rejeitem a noção histórica da ressur­
reição de Cristo, afirmando ser uma mensagem inventada pelos discípulos,
como diz Ladd, o que deu origem à igreja “foi a crença em um evento
acontecido no tempo e no espaço: Jesus de Nazaré ressuscitou dentre os
mortos. Fé na ressurreição de Jesus é um fato histórico inevitável. Sem essa
evidência não haveria igreja”.10 Foi a certeza da ressurreição que transfor­
mou aqueles homens simples da Galiléia em poderosas testemunhas de
Jesus em todo o mundo. A convicção de que Jesus venceu a morte lhes
dava a certeza de que, mesmo que morressem no testemunho, poderiam
experimentar a mesma experiência do Senhor: a vitória sobre a morte.

0 sign ificado da ressurreição de Cristo


Uma vez que as evidências da ressurreição de Cristo são bastante con­
vincentes, agora é preciso pensar um pouco mais no significado desta res­
surreição.

C o n su m a çã o da redenção
Levando adiante a argumentação do capítulo 15 de 1 Coríntios, Paulo
enfatiza o verdadeiro significado da ressurreição; ele diz: “E, se Cristo não
ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé” (ICo 15.14). Disso
decorre que a ressurreição de Cristo tem um enorme significado para a fé
crista. Em seguida, ele complementa: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a
vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (ICo 15.17). A ressur­
Ressurreição: A grande vitória 303

reição de Cristo tem um significado crucial para a obra da redenção; pode­


mos dizer que, se a ressurreição não tivesse ocorrido, a redenção não seria
possível. Por isso, Paulo diz que a fé cristã seria vã caso Cristo não tivesse
ressuscitado, pois os pecados não teriam sido removidos como o evange­
lho prega. Paulo diz isso não só porque a fé cristã está profundamente
ligada aos acontecimentos históricos, e que sem esses, ela não tem sentido,
como porque a ressurreição consuma a redenção. Cristo morreu pelos pe­
cados na sexta-feira, se ele tivesse permanecido morto, que esperanças ha­
veria de salvação? Um Deus morto que não consegue salvar a si mesmo,
não poderia salvar toda a humanidade. Sem a ressurreição, o argumento
irônico dos soldados na trágica sexta-feira seria válido: “Salvou os outros, a
si mesmo não pode salvar-se” (Mt 27.42). A ressurreição de Cristo é uma
demonstração majestosa do poder de Deus, ele pode salvar a todos. E uma
proclamação estrondosa de que Deus não está morto, de que ele ainda está
no controle do universo e de que não há impossíveis para ele.
Por essa razão, precisamos discordar inteiramente de Lewis Sperry Chafer
que diz que “pelos teólogos do pacto, não há praticamente importância
doutrinária dada à sua ressurreição”.11 Esse é um entendimento equivoca­
do a respeito do entendimento reformado sobre o pacto e sobre a ressur­
reição. A ressurreição é a consumação do pacto, é o restabelecimento da
vida do pacto. Sem a ressurreição, no entendimento da teologia reformada,
simplesmente não haveria redenção. O teólogo reformado Louis Berkhof
resume o significado da ressurreição da seguinte maneira:

Constituiu uma declaração do Pai de que o último inimigo tinha sido venci­
do, a pena tinha sido cumprida, e tinha sido satisfeita a condição em que a
vida fora prometida. Foi um símbolo daquilo que estava destinado a suce­
der aos membros do corpo místico de Cristo em sua justificação, em seu
nascimento espiritual e em sua bendita ressurreição futura. Relacionou-se
também instrumentalmente com a justificação, a regeneração e a ressurrei­
ção final dos crentes.12

Diante disso, fica absolutamente sem sentido a declaração de que a res­


surreição não tem importância para os teólogos do pacto. Ela é o fato mais
importante que este mundo já vivenciou. Ela consuma a redenção.

Certeza da justificação

A ressurreição está ligada à nossa justificação. Paulo diz que Cristo foi:
“Entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da
304 Razão da esperança

nossa justificação” (Rm 4.25). A justificação que é mediante a ressurrei­


ção nos dá a paz com Deus, conforme Paulo continua: “Justificados, pois,
mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo” (Rm 5.1). Sem a ressurreição, não seríamos justificados, pois a
obra de Cristo realizada por meio de sua morte não poderia ser aplicada a
nós. A ressurreição de Cristo deu validade à sua própria morte em nosso
lugar. Se Cristo não ressuscitasse, a justificação não poderia ser aplicada a
nossa vida, e nós, de acordo com as palavras do apóstolo Paulo, permane­
ceríamos nos nossos pecados (ver ICor 15.17). Jesus Cristo foi ressusci­
tado para nos assegurar diante de Deus que estamos livres dos nossos
pecados, ou seja “a ressurreição de Cristo tinha como propósito trazer à
luz o feito de que todos os que reconhecem a Jesus como seu Senhor e
Salvador têm entrado em um estado de justiça diante dos olhos de Deus”,13
pois “o Pai, ao ressuscitar a Jesus de entre os mortos, nos assegura que o
sacrifício expiatório tem sido aceitado; em conseqüência, nossos pecados
são perdoados”.14

Possibilidade do n o v o na sci m en to
Podemos dizer, além disso, que é por meio da ressurreição de Jesus que
Deus opera o Novo Nascimento na nossa vida. 1 Pedro 1.3 diz: “Bendito o
Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita miseri­
córdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de
Jesus Cristo dentre os mortos”. Regenerou significa literalmente “nos fez
nascer de novo”. Pedro diz que isso foi possível mediante a ressurreição de
Cristo. Em várias de suas passagens, a Bíblia fala do novo nascimento como
um tipo de ressurreição, pois o novo nascimento é uma ressurreição espiri­
tual possibilitada pela ressurreição física de Cristo. Paulo diz: “Fomos, pois,
sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi res­
suscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós
em novidade de vida” (Rm 6.4), Esta novidade de vida é a vida que se
origina com o novo nascimento. Também Efésios 2.6 fala que “juntamente
cüm ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo
Jesus” (ver também Cl 2.12). Ou seja, já experimentamos uma ressurreição
na nossa vida: o novo nascimento. Isso só foi possível por causa da ressur­
reição de Cristo.
Ressurreição: A grande vitória 305

Vitória sobre a m orte

Certamente, o maior significado da ressurreição é a vitória sobre a mor­


te. Conforme as palavras do apóstolo: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou
dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a
morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição
dos mortos” (1 Co 15.21). Por causa de Adão, a morte entrou no mundo, e,
por causa de Cristo, a ressurreição do mortos entrou no mundo. Por isso
ele é as primícias dos mortos. Em Adão, instalou-se a ordem da morte, em
Cristo instalou-se a ordem da ressurreição. Como diz Paulo: “Porque, as­
sim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados
em Cristo” (ICo 15.22). Porém, o estado de ressurreição somente é aplica­
do aos que “são de Cristo”. A ressurreição de Cristo é o golpe decisivo
contra o último inimigo: a morte. Sem a ressurreição de Cristo, a morte é o
único destino do homem, daí o desabafo de Paulo: “Se, como homem, lutei
em Efeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam,
comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (ICo 15.32). É importan­
te entender que, se não há ressurreição, não existe qualquer vantagem em
ser honesto, justo ou piedoso. Se não há ressurreição, a lei da selva seria a
única válida. Mas Paulo tem certeza de que suas lutas e dificuldades não
foram em vão. Ele sabe que Jesus ressuscitou, e sabe que os crentes ressus­
citarão também (2Co 4.14).

Efeitos da ressurreição de Cristo


O s efeitos da ressurreição de Cristo são inumeráveis. Toda uma nova
ordem se estabeleceu a partir dessa ressurreição.

M u d a n ç a d o dia de d es ca n so
O próprio dia de descanso mudou a partir da ressurreição de Jesus. Sa­
bemos que no Antigo Testamento os israelitas observavam o sétimo dia
como dia de descanso. Porém, a partir da narrativa da ressurreição de Jesus,
acontecida no primeiro dia da semana, ou seja, no domingo, este passou a
ser o dia de culto e adoração do povo de Deus. Isso pode ser visto porque
há centenas de citações sobre o sábado no Antigo Testamento, mas nem
uma única ordenança sobre ele no Novo. Mas encontramos a declaração de
que os cristãos se reuniam e até celebravam a Ceia do Senhor no primeiro
306 Razão da esperança

dia da semana: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o
fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exorta­
va-os e prolongou o discurso até à meia-noite” (At 20.7). Do mesmo modo,
Paulo manda coletar ofertas nesse dia: “No primeiro dia da semana, cada
um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá
juntando, para que se não façam coletas quando eu for” (ICo 16.2). Não foi
preciso um novo mandamento; o acontecimento histórico da ressurreição,
acontecido no primeiro dia da semana, foi suficiente para que a igreja pri­
mitiva passasse a guardar esse dia como o Dia do Senhor (Ap 1.10). Sabe­
mos isso não apenas dos escritos bíblicos, mas também dos escritores pri­
mitivos, dos tempos da igreja pós-apostólica, como Justino,15 Dionísio,
Irineu, e outros que foram inclusive discípulos dos apóstolos. Eles nos di­
zem que os cristãos guardavam o primeiro dia da semana. A ressurreição
mudou o dia de descanso e de adoração. É claro que havia uma diferença na
maneira como os cristãos guardavam o domingo, em relação ao modo como
os judeus guardavam o sábado. Para o judeu era uma obrigação legal, para
o cristão um dia de adoração e serviço voluntário.

Poder na vida do s crentes


A ressurreição de Cristo não traz benefícios apenas para o futuro dos
crentes, mas também para o presente. E por meio da ressurreição de Cristo
que Deus dá vitória para o crente nesta vida. Paulo diz que nós fomos
“sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi
ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos
nós em novidade de vida” (Rm 6.4). A conversão introduz duas novas rea­
lidades na vida do crente, uma de morte e outra de vida. O crente é unido
na morte e na ressurreição de Cristo, assim morre juntamente com Cristo
para o pecado, e ressuscita juntamente com Cristo para uma vida totalmen­
te nova. Por isso, Paulo diz: “Assim também vós considerai-vos mortos
para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.11). A partir
da ressurreição de Cristo, o crente é elevado a uma nova posição, pois já
dispõe da posição de ressuscitado, graças à ressurreição de Jesus. E tam­
bém está à sua disposição o mesmo poder demonstrado na ressurreição de
Cristo. Paulo orava para que os crentes de Efeso pudessem compreender
tudo o que estava reservado para eles, especialmente qual era a “suprema
grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força
do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mor­
tos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais” (Ef 1.19,20).
Ressurreição: A grande vitória 307

Esse poder está disponível para transformar dia a dia a vida dos crentes,
para que eles se tornem progressivamente mais semelhantes a Cristo.

Nossa própria ressurreição fu tura

A ressurreição de Cristo garante que todos os crentes ressuscitarão. O


futuro corpo ressuscitado será nos moldes do corpo de Cristo, e apesar de
ser a partir desse corpo atual, será incomparavelmente mais glorioso: “Pois
assim também é a ressurreição dos mortos. Semeía-se o corpo na corrup­
ção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória.
Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, res­
suscita corpo espiritual” (ICo 15.42-44). A explicação de Paulo é que, na
ressurreição, acontecerá uma grande transformação: o corpo natural do
crente passará a ser um corpo espiritual. Isso se dará da seguinte maneira,
“Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transforma­
dos seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar
da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis,
e nós seremos transformados” (ICo 15.51,52). Os que estiverem vivos na
volta de Cristo não passarão pela morte, mas serão transformados e terão o
mesmo corpo da ressurreição de Jesus. Nosso coração regenerado encon­
tra muita dificuldade em relação ao corpo atual, pois o corpo que temos
agora é, na melhor das hipóteses, instrumento ineficaz para expressar os
desejos e propósitos do coração regenerado. De fato, como Packer coloca
“muitas das fraquezas com as quais os santos lutam - timidez, tempera­
mento agressivo, luxúria, depressão, frieza nos relacionamentos, e outras -
estão intimamente ligadas à nossa constituição atual”,16 mas “os corpos
que se tornam nossos na ressurreição geral serão corpos que harmonizam
com nosso caráter aperfeiçoado e se revelarão instrumentos perfeitos para
santa auto-expressão por toda a eternidade”.17 Tudo isso somente será
possível porque Cristo ressuscitou. Paulo tinha certeza dessa ressurreição,
por isso podia dizer: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabalá­
veis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o
vosso trabalho não é vão” (ICo 15.58). A ressurreição de Cristo garante o
presente e o futuro dos crentes.
Graças à ressurreição de Cristo, estabeleceu-se para a humanidade uma
nova ordem, a Ordem da Ressurreição. A morte perdeu pela primeira vez,
e, em breve, será derrotada para sempre. Não há razões para duvidarmos
de que Jesus realmente tenha ressuscitado, e certamente, há espaço para
milagres hoje tanto quanto no passado ou no futuro. A existência de Deus
308 Razão da esperança

garante que os milagres também existam. Jesus Cristo ressuscitou, essa é a


grande proclamação e a grande verdade do Cristianismo. A nossa fé e a
nossa esperança podem ser fortalecidas, pois Cristo ressuscitou. Graças a
ele podemos desfrutar dos benefícios que essa ressurreição nos traz, tanto
para esta vida como para a vindoura. Louvemos ao Cristo ressuscitado, ao
triunfante Rei que venceu a morte, pois um dia também a venceremos.
24

Ascensão: A coroação do Rei

"Pelo que t a m b é m D eus o exaltou sob rem a n eira e lhe deu o n o m e que está a cim a de todo
n o m e , p ara q ue a o n o m e de Jes u s se dobre todo jo elh o , n o s céus, na terra e debaixo da terra,
e toda lín g u a c o n fe s s e q ue Je s u s Cristo é Senhor, p ara g ló r ia d e D eus Pai " (Fp 2 .9 -1 1 ).

Quando o primeiro cosmonauta russo voltou da primeira missão que


lançou um homem ao espaço, ele disse que lá em cima não havia visto Deus
ou o paraíso em lugar algum.1 Infelizmente, as pessoas gostam de brincar
com coisas que não entendem. A ascensão de Jesus não significou que ele
saiu viajando pelo universo até chegar ao céu. O que essas críticas e brinca­
deiras escondem é uma profunda falta de entendimento do que é o céu e,
acima de tudo, do que foi a ascensão de Jesus. A ascensão de Cristo repre­
senta o momento em que ele partiu em definitivo deste mundo, para assu­
mir a sua posição de governo celeste. Apesar de não ser uma doutrina mui­
to considerada pela igreja, ela é fundamental para a fé cristã.
O relato de Lucas em Atos 1.6-11 é um relato histórico. Lucas não está
contando uma lenda ou uma história religiosa. Ele está narrando um acon­
tecimento histórico que pesquisou e apurou minuciosamente (Lc 1.1-4).
Portanto, a ascensão não é uma lenda, é um acontecimento histórico. O
que é bastante criticado no relato de Lucas é a elevação física de Jesus às
alturas. Uma vez que a terra é redonda, não dá para dizer que o céu fica lá
em cima, então, os críticos dizem que esse relato é cheio de primitivismo e
impropriedade terminológica. O fato, porém, é que até hoje dizemos que as
estrelas ficam lá em cima. Se quiséssemos ser científicos, teríamos que dizer
que elas também ficam lá embaixo. A ascensão de Cristo foi uma demons­
tração visível aos apóstolos de que ele estava partindo pela última vez, e que
não mais o veriam como eles já estavam acostumados a ver. Depois da sua
ressurreição, ele se manifestou aos discípulos durante quarenta dias, e, na­
quele dia, ele se elevou da terra, e depois de alguns instantes desapareceu. A
importância desse acontecimento é excepcional, pois marca o fim da obra
de Cristo na terra e o início de sua obra celestial.
310 Razão da esperança

0 retom o do filho
Não existe lugar melhor do que o nosso lar. Isso é o que quase todos
sentem quando retornam de alguma viagem longa. A ascensão marcou a
volta de Jesus para o seu lar, porém isso não quer dizer que o lar de Jesus
seja em algum lugar no espaço acima de nós. E comum a Escritura descre­
ver o céu como acima, mas isso é uma força de expressão. O céu é um lugar
real, mas a sua dimensão é espiritual. Não é só um estado, é um lugar;
porém, não é possível chegar a esse lugar pelo uso de algum meio de trans­
porte criado pelo ser humano. Para chegar ao céu, é preciso mudar da di­
mensão física para a espiritual.
O Evangelho de João narra a trajetória da vida de Jesus como uma via­
gem de ida e de retorno. Ele veio aqui por meio do seu nascimento e voltou
para o seu lugar pela ascensão. Nascimento e ascensão são aspectos opos­
tos da manifestação de Cristo. Em João 17, Jesus falou da posição que
ocupava no céu com Deus antes de sua encarnação: “Eu te glorifiquei na
terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-
me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que
houvesse mundo” ( Jo 17.4,5). E ele completou: “Pai, a minha vontade é
que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que
vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da funda­
ção do mundo” (Jo 17.24). Antes de vir a este mundo, Jesus desfrutava de
uma posição de glória e amor em seu relacionamento com o Pai, porém,
por algum tempo, ele ficou longe disso, embora não totalmente (exceto
talvez no momento da crucificação). O fato é que, ao adentrar o mundo,
Jesus se esvaziou de algumas de suas prerrogativas. Paulo diz aos Filipen-
ses: “Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação
o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de
servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura
humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e
morte de cruz” (Fp 2.6-8). Jesus não se esvaziou da sua divindade quando
adentrou o mundo, ele nunca deixou de ser Deus, ele apenas abriu mão de
seu status divino, pois precisava se humilhar como homem. Paulo não está
dizendo que Jesus se esvaziou de sua divindade, mas que ele se esvaziou de
seus direitos divinos, especialmente da sua glória. E, de fato, o carpinteiro
de Nazaré não foi reconhecido como um dos grandes deste mundo. Ainda
que João tenha dito que sua glória pôde ser vista na Encarnação (Jo 1.14), é
Ascensão: a coroação do Rei 311

justamente a glória do Verbo eterno que se submeteu a ser homem e a viver


como homem. Porém, em momento algum Jesus fez questão de demons­
trar a sua divindade, exigir deferência ou reconhecimento. Depois de sua
morte e ressurreição, ele retornou à posição que sempre foi sua de direito.
Como bom Filho, ele retornava ao lar.
De certo modo, Jesus voltou ao céu para reassumir a sua antiga posição
e, ao mesmo tempo, para assumir uma nova posição. Sua obra redentora
lhe garantiu uma posição ainda maior: a de rei supremo sobre o destino
final do universo. Assentado à destra de Deus, ele está investido dessa posi­
ção. Por isso, Paulo, depois de falar da humilhação de Cristo, fala da sua
exaltação: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o
nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre
todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda lingua confesse que
Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11), Essa posição,
de redentor investido de autoridade suprema, Jesus não possuía antes de
sua vinda aqui, pelo simples fato de que ainda não havia morrido pelos
pecados. A ascensão marca o momento em que o Salvador recebeu a coroa
e o direito absoluto de governar o mundo para fins de consumação do
plano de Deus. A ascensão introduz um novo estágio no processo redentor
que é tão importante quanto a ressurreição, que significou a vitória sobre a
morte. Bavinck diz que “sua ascensão é um triunfo, em um sentido mais
forte, que a ressurreição”,2 embora talvez essa frase possa ser entendida
como um exagero. De qualquer modo, a ascensão é o triunfo supremo que
conduz à entronização de Jesus ao posto de governo máximo do universo.
Pela ascensão, Jesus assumiu a sua posição de autoridade nos céus. A
bíblia costuma usar a expressão “sentado à destra de Deus” (Mc 16.19)
para exprimir o significado da posição de autoridade de que Jesus se encon­
tra investido desde a ascensão. Pedro, no seu primeiro sermão após o Pen­
tecostes, depois de relatar a trajetória de Jesus desde sua pregação na Gali-
léia até sua morte e ressurreição, diz que Jesus foi: “Exaltado, pois, à destra
de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo” (At 2.33).
No testemunho seguinte que o mesmo Pedro deu, falando então para as
autoridades judaicas, ele foi ainda mais específico: “Deus, porém, com a
sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o
arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.31). Estêvão, pouco antes
de ser apedrejado, teve uma visão da posição de Cristo: “Eis que vejo os
céus abertos e o Filho do homem, em pé à destra de Deus” (At 7.56). Mas
a maior descrição da posição de autoridade que Jesus recebeu ao assentar-
se à destra de Deus depois da ascensão é o próprio Pedro que nos dá em
312 R azão da esperança

sua primeira epístola: “O qual, depois de ir para o céu, está à destra de


Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (IPe 3.22).
Jesus, é, portanto, o comandante supremo de tudo o que existe.

Fim de u m a obra e co m eço de outra


Na ressurreição, Cristo consumou a vitória sobre o pecado e sobre a
morte, e desse modo, cumpriu tudo o que era necessário para a salvação do
seu povo, porém faltava justamente a tarefa de distribuir esses dons e condu­
zir a obra de conversão até aos confins da terra. Para isso, ele precisava subir
à destra de Deus e assumir a posição de autoridade suprema, de onde pode­
ria realizar a obra que ainda faltava. Por esse motivo, podemos dizer que a
ascensão é o fim de uma obra e o começo de outra. E o fim da obra expiatória
terrena e o começo da obra celestial. Lucas relata que, no momento em que
Jesus subiu aos céus, os discípulos ficaram com os olhos como que hipnoti-
2ados, fixos no céu. Naquele momento, anjos apareceram e lhes disseram:
“Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que den­
tre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir” (At 1.11). Essa
era uma ordem para não permanecerem parados olhando para o céu. Eles
tinham muito trabalho a fazer. Antes da segunda vinda de Jesus teria que
acontecer uma outra “vinda” e uma outra “ida”. Trata-se da “vinda” do Es­
pírito Santo e a “ida” dos discípulos a todas as nações. Jesus subiu aos céus
exatamente para possibilitar essas coisas. A vinda do Espírito Santo para
capacitar os discípulos na tarefa que precisavam realizar era imprescindível,
pois, sem o Espírito Santo, não havia chances de realizarem a imensa tarefa
de evangelização. Basta ver Pedro, que nega Jesus três vezes, ou Tomé, que
mesmo tendo recebido a notícia dos dez apóstolos sobre a ressurreição de
Cristo, ainda tinha dúvidas, para perceber que eles não estavam prontos.
Além do testemunho da ressurreição de Cristo, era necessário o poder do
Espírito Santo e, para que isso acontecesse, a ascensão precisou acontecer
primeiro. Jesus deixou bem claro que, se não partisse e fosse exaltado, não
poderia conceder o Espírito Santo, e sem o Espírito, o inconstante Pedro, o
duvidoso Tomé e os outros fracos discípulos jamais conseguiriam levar o
evangelho até aos confins da terra.
Horton diz que o nosso Rei Redentor ascendeu ao céu com um duplo
propósito: defender a segurança eterna do seu povo e executar o julga­
mento eterno contra aqueles que não o receberam.3 A fim de defender o
seu povo, a principal obra que Cristo iniciou a partir de sua ascensão foi a
Ascensão: a coroação do Rd 313

de advogado diante do Pai em favor dos crentes. O apóstolo João o chama


explicitamente de nosso advogado junto de Deus (ljo 2.1). A obra sacer­
dotal de Jesus, especialmente a celestial, se iniciou graças à ascensão de
Cristo. O autor aos Hebreus fala bastante sobre o caráter de Jesus como
nosso advogado, e nos encoraja a usufruir os benefícios que Jesus concede
como sacerdote do seu povo: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como
grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa
confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-
se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa
semelhança, mas sem pecado. Acheguemc nos, portanto, confiadamente,
junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos
graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4.14-16). Por causa da as­
censão, Jesus “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus,
vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). Assentado à destra de
Deus, ele realiza a sua obra de intercessão, como o autor aos Hebreus
ainda declara: “Ora, o essencial das coisas que temos dito é que possuímos
tal sumo sacerdote, que se assentou à destra do trono da Majestade nos
céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Se­
nhor erigiu, não o homem” (Hb 8.1,2).
Mas ele está lá em cima com o objetivo de terminar de destruir os inimi­
gos também. A Bíblia diz que, com a ascensão de Jesus, os exércitos malig­
nos sofreram uma baixa irrecuperável. Paulo diz que quando Deus ressus­
citou a Jesus e o fez sentar-se à sua direita nos lugares celestiais, ele passou
a ocupar uma posição “acima de todo principado, e potestade, e poder, e
domínio, e de todo nome que se possa referir, não só no presente século,
mas também no vindouro” (Ef 1.21). Pedro também fala dessa subordina­
ção forçada: “O qual, depois de ir para o céu, está à destra de Deus, fican­
do-lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes” (IPe 3.22). Seria sem
sentido dizer que os anjos bons se subordinariam a Jesus após a ascensão
porque eles já eram subordinados antes. Parece bem evidente que Pedro e
Paulo estão falando dos poderes malignos. Paulo declarou que o fim so­
mente virá quando Jesus “houver destruído todo principado, bem como
toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto
todos os inimigos debaixo dos pés” (ICo 15.24,25). Com a sua ascensão,
Jesus assumiu o posto de governo do universo, e sua preocupação principal
é subjugar e eliminar todo o mal da criação de Deus. Evidentemente que
ele faz isso mediante a sua obra na cruz, que lhe deu autoridade para execu­
tar o plano de Deus para este mundo. A partir desse entendimento, pode­
mos interpretar aquela batalha no céu, descrita em Apocalipse 12, entre
314 Razão da esperança

Miguel e os anjos bons contra Satanás e seus anjos decaídos como uma
descrição da vitória de Jesus na ascensão. João descreveu uma mulher radi­
ante que deu à luz um filho varão (Ap 12.1,2). O dragão fez de tudo para
devorar o filho da mulher (Ap 12.3,4), mas o filho foi arrebatado para Deus
até ao seu trono (Ap 12.5). Em seguida, João descreveu a peleja no céu:
“Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o
dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu
o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se cha­
ma diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a
terra, e, com ele, os seus anjos” (Ap 12.7-9). Com a entronização de Jesus,
o diabo perdeu o seu lugar e com ele todos os seus anjos. Eles foram expul­
sos em direção a terra, porém, mesmo na terra não poderão ficar muito
tempo (Ap 12.12). Os inimigos já estão debaixo de seus pés, o esmagamen­
to final é apenas questão de tempo.

U m n o v o estado para a h u m a n id a d e
A igreja é a grande beneficiada com a exaltação de Jesus, pois, graças a
essa exaltação, Jesus tem capacitado a sua igreja para a tarefa de evangeliza­
ção, o que, de certo modo, também é uma maneira de fazer os inimigos
baterem em retirada. Os dons que ele distribui para o seu povo são frutos
da sua ascensão. Paulo fala disso na carta aos Efésios: “Por isso, diz: Quan­
do ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos ho­
mens” (Ef 4.8). Os dons que foram dados à igreja para realizar a difícil
tarefa de convencer o mundo e edificar os crentes vêm a nós por causa da
ascensão de Cristo. Sua exaltação era necessária para que pudesse conceder
a seu povo um pouco do seu poder. Paulo tem mais a falar sobre a impor­
tância da exaltação de Cristo para a igreja. Ele diz que Deus fez Cristo
“sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e
potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir, não só
no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debai­
xo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é
o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef
1.20-23). Cristo exaltado e assentado à destra de Deus é o governador su­
premo de todas as coisas, mas quem se beneficia com isso é a igreja, de
quem ele é a Cabeça. Sua posição de autoridade garante a segurança e a
eficácia de sua igreja durante a peregrinação dela neste mundo. O fato de
Cristo estar no céu não significa que ele esteja limitado ao céu, pois a sua
Ascensão : a coroação do Rei 315

onipresença garante que ele esteja com seu povo todos os dias até a consu­
mação do século (Mt 28.20).4
A ascensão de Cristo nos fala de um novo estado para a humanidade. A
humanidade, decaída em Adão, agora passa a ser exaltada em Cristo. É
lógico que isso é privilégio somente dos crentes em Jesus. A Bíblia diz que
Deus, juntamente com Jesus, “nos ressuscitou, e nos fez assentar nos luga­
res celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2.6). De alguma maneira maravilhosa,
Cristo está no céu assentado à destra de Deus, e nós estamos lá com ele.
Nós não só experimentamos a ressurreição de Cristo, o que foi estudado
no capítulo anterior, como participamos de sua ascensão. O fato de estar­
mos espiritualmente assentados com Cristo nos lugares celestiais nos ga­
rante uma autoridade de que o homem nunca dispôs, exceto, talvez, no
caso de Adão antes da queda. Não só participamos do combate espiritual,
lutando “contra os principados e potestades, contra os dominadores deste
mundo tenebroso” (Ef 6.12),. como somos armados de armas que “não
são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando
nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus,
e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.4). Tam­
bém somos colocados numa posição de juizes deste mundo e até dos anjos
(ICo 6.3). Assim se cumpre em nós aquilo para o que desde o início Deus
nos criou, conforme a Bíblia testemunha do homem: “Fizeste-o, por um
pouco, menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste [e o constituíste
sobre as obras das tuas mão?*] (Hb 2.7; ênfase acrescentada). Em Cristo, estamos
exaltados à destra de Deus, fomos elevados a um novo estado, o estado da
ascensão. Essa é uma doutrina maravilhosa e que os crentes precisam apren­
der mais. Ela não tem nada a ver com o triunfalismo da teologia da prospe­
ridade, é apenas o reconhecimento da nossa posição em Cristo, que nos
traz privilégios e também responsabilidades.
Por fim, poderíamos dizer que a ascensão de Cristo garante também a
nossa própria ascensão física futura. Jesus disse a seus discípulos pouco
antes de sua partida: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não
fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos
preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu
estou, estejais vós também” (Jo 14.2,3). Jesus quer levar os seus discípulos
para o mesmo lugar que ele foi. Isso acontecerá na Segunda Vinda, como
Paulo diz: “Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ou­
vida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os
mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que fi­
carmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o
316 Razão da esperança

encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Se­
nhor” (lTs 4.16,17). Do mesmo modo que Jesus foi elevado entre nuvens
para o céu, nós também experimentaremos uma ascensão física. Esse esta­
do de exaltação, Jesus o descreve simbolicamente em Apocalipse 3.21: “Ao
vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também
eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono”. Assim como a ressurrei­
ção de Jesus garante a nossa própria ressurreição, podemos dizer que a sua
ascensão garante a nossa ascensão.

Conclusão
E comum a tendência de se valorizar a obra que Jesus realizou durante
seus dias aqui na terra e minimizar a obra que ele realiza hoje no céu, mas
as duas são igualmente importantes. Por isso, a ascensão é tão importante
quanto o nascimento ou a paixão de Cristo. Na verdade, uma coisa de­
pende da outra. Precisamos ver a obra de Cristo como um todo, e nisso
devemos incluir o nascimento, a vida perfeita, a morte, a ressurreição, a
ascensão, o derramamento do Espírito e a segunda vinda. Todos esses
acontecimentos são igualmente importantes e necessários para a salvação
do povo de Deus. O resumo disso é que tudo o que Jesus realizou foi
absolutamente necessário para que a obra fosse completa, pois todos es­
ses acontecimentos são igualmente necessários para a salvação, e nenhum
poderia faltar.
A ascensão de Jesus ao céu foi um acontecimento de importância indi­
zível. Ela marca de modo definitivo a passagem de Jesus por este mundo, e
demonstra que a encarnação e o esvaziamento do Filho de Deus não foram
em vão. Ela é a evidência de que a expiação foi realizada e que o sacrifício
foi aceito. Ela demonstra que a vida venceu a morte, e que agora, é só uma
questão de tempo até que todos os elementos do plano de Deus se encai­
xem, e conduzam o mundo à consumação.
Assim como sua morte e ressurreição, a ascensão dirige a humanidade
para uma nova posição, para um novo modo de vida. Por meio da sua
ascensão, Jesus assumiu a sua posição de poder e autoridade, de onde go­
verna todas as coisas para o cumprimento do plano de Deus. De onde
também intercede e dirige sua igreja, protegendo-a e fortalecendo-a para
que a missão dela seja cumprida integralmente.
O nosso coração deve se alegrar pela posição que Cristo ocupa à destra
de Deus. Também devemos nos esforçar para viver a vida de pessoas exal-
Ascensão: a coroação do Rei 317

tadas que Cristo nos confere por sua ressurreição e ascensão. Ao cristão,
nenhuma vida é digna, a não ser a que é lá do alto. A verdade é que somos
lá de cima. Lá é nosso lar. Portanto, enquanto estivermos aqui, segundo o
apóstolo Paulo, a nossa vida deve ser assim: “Buscai as coisas lá do alto,
onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto,
não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta
juntamente com Cristo, em Deus”. (Cl 3.1-4). Nada menos do que uma
vida assim pode agradar a Deus e a nós mesmos.
25

A salvação pela graça1


w w

Se perguntarmos a alguém a respeito de sua salvação pessoal, possivel­


mente essa pessoa se sentirá um pouco desnorteada, e talvez devolva a
pergunta: “Salvo do quê?” Nesses tempos modernos, as pessoas perderam
a noção da necessidade e da importância da salvação. Elas vivem numa
rotina de trabalho, estudos, diversões, etc., que nem lhes passa pela cabeça
a interrogação: “O que será de mim depois desta vida?” O mundo do por­
vir perdeu o interesse para a maioria das pessoas. Enquanto, na Idade Mé­
dia as pessoas chegavam até a “comprar” um lugar no céu (indulgências),
tal era a preocupação delas com a salvação da própria alma, hoje a maioria
das pessoas nem acredita no céu ou no inferno, ou pelo menos, na prática,
não demonstra preocupação. Outras, por outro lado, pensam que um Deus
de amor não as jogaria no inferno, e por isso vivem despreocupadamente.
A alienação das pessoas a respeito deste assunto é algo muito perigoso.
Freqüentem