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Direito da Família

Princípios constitucionais do
Direito da Família
Normas constitucionais sobre a família:

1. Direitos, liberdades e garantias


- carácter preceptivo
- directamente aplicáveis
- entidades públicas e privadas (art. 18.º CRP)
- Princípios relativos:
– às relações familiares em geral;
– ao direito matrimonial;
– ao direito da filiação.
2. Direitos económicos, sociais e culturais
- carácter programático
- Princípios:
– protecção da família
– protecção da maternidade e paternidade;
– protecção das crianças e jovens;
– protecção dos idosos.
DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS

• Direito à celebração do casamento


36.º, n.º 1, 2.ª parte
Todos têm direito de contrair casamento...em condições de plena
igualdade.

- Limites justificados por interesses públicos fundamentais (ex.:


impedimentos matrimoniais)
- Constitucionalidade da proibição civil do casamento entre pessoas do
mesmo sexo (inexistente: 1628.º, e)) ? Cfr. princípio da igualdade (não
discriminação em razão da orientação sexual) + casamento não cria
vínculo de procriação (casamentos urgentes; entre inférteis) versus
colisão com estrutura constitucional nuclear do casamento
- Direito fundamental (e norma de garantia institucional? Cfr. protecção
da família – art. 67.º CRP)
1.1 Requisitos e efeitos do casamento e dissolução
36.º, n.º 2

- competência da lei civil independentemente da forma de


celebração
- art. 1625.º CC – nulidade do casamento católico (tribunais
eclesiásticos) versus art. 36.º/2 CRP
- doutrina civilística maioritária: constitucionalidade do art.
1625.º:
• Elemento histórico – reprodução do art. XXV, § 1 Concordata 1940;
protocolo Adicional 1975 considerou-o expressamente em vigor; reforma
de 1977 do CC manteve a disposição intacta
• Interpretação restrita do 36.º/2 CRP na parte respeitante aos “requisitos”
do casamento
- Concordata de 2004 – art. 16.º: reconhecimento de
competência às autoridades eclesiásticas
Concordata de 1940
Art. XXV
O conhecimento das causas concernentes à nulidade do casamento católico
e à dispensa do casamento rato e não consumado é reservado aos tribunais
e repartições eclesiásticos competentes.

Concordata de 2004
Art. 16
1. As decisões relativas à nulidade e à dispensa pontifícia do casamento rato e
não consumado pelas autoridades eclesiásticas competentes, verificadas
pelo órgão eclesiástico de controlo superior, produzem efeitos civis, a
requerimento de qualquer das partes, após revisão e confirmação, nos
termos do direito português, pelo competente tribunal do Estado.
2. Para o efeito, o tribunal competente verifica:
a) Se são autênticas;
b) Se dimanam do tribunal competente;
c) Se foram respeitados os princípios do contraditório e da igualdade;
d) Se nos resultados não ofenderem os princípios da ordem pública
internacional do Estado Português.
1.2 Admissibilidade do divórcio em todos os casamentos
36.º, n.º 2, in fine

- inconstitucionalidade de uma norma que proibisse o divórcio


(em geral ou quanto aos casamento católicos)

Cfr. Art. 15.º da Concordata de 2004

1. Celebrando o casamento canónico, os cônjuges assumem por esse mesmo


facto, perante a Igreja, a obrigação de se aterem às normas canónicas que
o regulam, e, em particular, de respeitarem as suas propriedades essenciais.
2. A Santa Sé, reafirmando a doutrina da Igreja Católica sobre a
indissolubilidade do vínculo matrimonial, recorda aos cônjuges que
contraírem o casamento católico o grave dever que lhes incumbe de não se
valerem da faculdade civil de requerer o divórcio.
- Constitucionalidade de norma que impusesse um prazo de
duração do casamento para o divórcio por mútuo
consentimento poder ser requerido?

- Constitucionalidade de norma que suprimisse o divórcio por


mútuo consentimento (manutenção do litigioso)?
2. Direito de constituir família
36.º, n.º 1, 1.ª parte
Todos têm direito de...constituir família em condições de plena
igualdade.

- Castro Mendes / Antunes Varela: constituir família + contrair


casamento = um só direito (contrair casamento = constituir família)
- Per. Coelho / G. Oliveira / Duarte Pinheiro: dois direitos
Doutrina constitucional: abrange a união de facto
G. Canotilho / V. Moreira: distinção do art. 36.º, n.º 1
J. Miranda / Rui Medeiros: conceito constitucional aberto, pluralista de
família

Conceito constitucional de família > família jurídica (relevo jurídico das uniões de
facto)
Críticas:
a. Direito de constituir família tem conteúdo útil que não se
confunde com a união de facto – família natural e adoptiva
b. Direito de contrair casamento e união de facto apareceriam,
naquela interpretação, como alternativas no art. 36.º, n.º 1
c. Cfr. art. 16.º DUDH – interpretação não abrange o
reconhecimento das uniões de facto
d. Trabalhos preparatórios da CRP
e. Família = estabilidade e projecção externa (UF =
constituição e dissolução por mera vontade das partes,
independentemente de registo)
• Tutela constitucional das uniões de facto (e convivência em
economia comum) – art. 26.º, n.º 1 CRP – direito ao livre
desenvolvimento da personalidade

• Finalidade do “direito a constituir família” – matéria da filiação


(36.º, n.º 1 – referência ao casamento;
36.º, n.º 7 – referência à adopção)
3. Direito à reserva da intimidade da vida privada e familiar
26.º, n.º 1
A todos são reconhecidos os direitos...à reserva da intimidade
da vida privada e familiar...

- abrange directamente a reserva da vida familiar (cfr. 80.º CC)

- complementado pelo n.º 2 do artigo – estabelecimento de


garantias legais efectivas
4. Igualdade dos cônjuges
36.º, n.º 3
Os cônjuges têm iguais direitos e deveres, quanto à capacidade
civil e política e à manutenção e educação dos filhos.

- incidência no direito matrimonial – reforma do CC de 1977 (ex.:


1677.º-D) – discriminações de tratamento jurídico que
pressuponham a ideia de incapacidade ou menor capacidade
civil (mas não diferenças de regime que beneficiem um ou outro
com justificação diversa – ex. protecção maternidade)

- incidência no direito da filiação (ex.: 1901.º/1 – exercício do


poder paternal)
5. Não discriminação entre filhos nascidos dentro e fora do
casamento
36.º, n.º 5
Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo,
ser objecto de qualquer discriminação [sentido material] e a lei ou as
repartições oficiais não podem usar designações discriminatórias
relativas à filiação [sentido formal].

- apenas admissíveis diferenças de regime que não pretendam


desfavorecer os filhos nascidos fora do casamento (ex. 1911.º, 1 e 2)
- diferenças justificadas pela diversidade de condições de
nascimento (ex.: 1796.º/2 e 1826.º/1)

- interdito o uso de designações discriminatórias (filho “ilegítimo”,


“bastardo”, etc.) – não registo de circunstância de nascimento ter
ocorrido do casamento ou fora do casamento, apesar de se registar o
estado dos pais – CRC 102.º/1/e)
6. Poder-dever dos pais de educação dos filhos
36.º, n.º 5
Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos.

- poder em relação aos filhos – educação dirigida pelos pais


(1878.º/1) embora com respeito pela personalidade dos filhos
(1874.º/1 + 1878.º/1 e 2)
- imposição de colaboração do Estado (função supletiva do
Estado) – 67.º, n.º 2, c) CRP

- poder-dever reconhecido a ambos os pais, sem distinções +


princípio da igualdade (cfr. presunção a favor da mãe – 1911.º/2
– constitucionalidade?)
- princípio da igualdade jurídica – necessidade de recurso aos
tribunais para resolução de divergências insanáveis de critérios –
ex. 1901.º/2
Inseparabilidade dos filhos dos seus progenitores
36.º, n.º 6
Os filhos não podem ser separados dos pais, salvo quando
estes não cumpram os seus deveres fundamentais para com
eles e sempre mediante decisão judicial.

- 1915.º/1 – inibição do exercício do poder paternal

- 1918.º - confiança do menor a terceira pessoa ou a


estabelecimento de educação ou de assistência
7. Protecção da adopção
36.º, n.º 7
A adopção é regulada e protegida nos termos da lei, a qual
deve estabelecer formas céleres para a respectiva tramitação.

- garantia institucional da adopção – salvaguarda da sua existência


e estrutura fundamental: proibição de retrocessos + obrigação de
legislar no sentido da diminuição dos prazos, sem prejuízo da
segurança

- articulação com o princípio estabelecido no n.º 6 do art. 36.º


CRP
8. Direito à identidade pessoal e genética
26.º, 1 e 3
A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal,...
A lei garantirá a dignidade pessoal e a identidade genética do
ser humano, nomeadamente na criação, desenvolvimento e
utilização das tecnologias e na experimentação científica.

- ligação da pessoa aos seus progenitores – obrigação de


declaração do nascimento - CRC
- articulação com o direito ao nome - regras sobre a composição
do nome do filho – CRC:
– Direito de usar o próprio, completo ou abreviado
– Poder de se opor a que outrem use ilegitimamente o nome (incluindo os
apelidos da família)
DIREITOS ECONÓMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS

1. Protecção da família
67.º

- família como elemento fundamental da sociedade

- alcance: família conjugal, natural e adoptiva

- carácter programático – implica acção do Estado para sua


protecção (cfr. n.º 2)
2. Protecção da maternidade e da paternidade
68.º

- valores sociais eminentes


- protecção dos pais sejam ou não casados
- possibilidade de realização da sua acção em relação aos filhos
(interesse dos filhos) sem serem prejudicados na sua vida
profissional e cívica
- protecção da maternidade e da paternidade – dispensa de
trabalho por período adequado (n.º 4)
- protecção da maternidade – protecção durante a gravidez e após
o parto (n.º 3)
3. Protecção da infância
69.º

- fim: desenvolvimento das crianças

- especial protecção a crianças órfãs, abandonadas ou privadas de


um ambiente familiar normal – inclusão dos jovens em risco
(apesar de não serem expressamente referidos)

- proibição do trabalho de menores em idade escolar


4. Protecção da terceira idade
72.º, n.º 1

- direito à segurança económica e a condições de habitação e


convívio familiar e comunitário
- fim: autonomia pessoal, realização pessoal, participação na vida
da comunidade e combate ao isolamento ou marginalização
social

- articulação com a protecção pela segurança social na velhice –


63.º/3
- deveres do Estado em relação às condições económicas dos
idosos não isenta responsabilidade dos familiares (deveres de
assistência e obrigação de alimentos)
- finalidades do preceito implicam apoio não só às pessoas idosas
como às famílias