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&te livro integra a coleção Litentturas de

Llngua Portuguesa: Marços t Marcas, ruf\/i':Df\])6-- ~~N- . .


composta por cinco volumes: Angola, Brasil, ,\." s
.a "'
n,,O,-..vl r,A,O C"
"'-'·
,-
~o C:..J.-,f=\ s.S I oi S M-o ( ,.~66 - 1 8 :l,$
Cabo Vmk; Mofambiq,u e Portugal,'
estabelecendo r elações entre literatura.
J kt, Pofl-.,.. :rr:
história~ cultura. entre esses países que tein
o Português como idioma oficial.
A criação de uma comunidade de países de
Língua Portuguesa, lN:afizados em diferentes
contlncnte1, tem tido alvo de inúmera,
reunfflel poltdcu, congiwo, e ,eminbio,
acaênic:ot, raultando em tmadoa de
.cooperaçio" e parc:erias polldcas e educado-
. .°,' : nais, que visam a interesses comuns e maior
4lnião entre países que, ~m da língua,
possuem rab:es histórico-sociais semelhantes.
O Brasil assinou protocolos com Portugal.
Cabo Vc:rcle, São Tom~ e Príncipe. Angola.
Moçambique e outros paises prevendo a
inclusão, no seu Sistema Educacional, de
estudos de História e Cultura.Afio-brasileira.
corn a Lei nº 106~9. de 09:..01.2003, ,que
Literaturas de
âltcra a Lei 9.394, de 20.12.1996, acrescen-
tando oArtigo 26A que pn:ve: Nos estAbeléd-
Língµa Po~gÚesa
' '
mentos de ensino fonda~tal e médio, ofit:Ws
e partü:u!m-n, torna-se obrigatório o msino
sobre «Histdria e CulturaAJro-brasilnra.._ Marcos e Marcas
A capacitaÇão de noaos professores dos
Ensino . Ft:mdamentà.l e Médio toma-se
imprescindfvcl, bem como a inserção dessa •.· Portugal -
temática. nas grades auriculares dos rursos por Benjamin Abdala Junior
de Letras; Pedagogia, 110 Si e .án:as afins.
criando-se metodol~ adequadas, p,ara
implantação dos ~estudos compaddos
previstos na nova lei.
Os aut:DICS responsáveis pela coleção
destacam-~ com<i docentes e pesquisadores
que lideram estudos de Literaturas
Comparadas em Língua Portuguesa.
· univctsidades públicas e privadas, com
:m
significa.tivas publicações na área.

As Organizadoras
C) 2007 by Autor(a)

Dlreçllo ,....,
Henr:lque,Vllnbor Flory
Superylsao Geral ele l!dltoniçllo

~ •e.,,.
Benedita Aparecida camargo

Rodrigo SIiva Rojas


Revbdo
Letlzla Zlnl Antunes

Dad- '.Internacionais de catalogação na PubllCIIÇAo (CIP)


Ac:6c:lo Jos6 santa Rosa (CRB - B/157)

L755
Uteraturas de Ungua Portuguesa: marcos e marcas
Portugal / Benjamin Abdala Junior - São Paulo: Arte &. Oênda, 2007.
p. 364, 21on
(Coleção Literaturas de Ungua Portuguesa/ organizadoras Maria
Aparecida Santllll e Suely Fadul Vllnbor Flory, v.1)

Blbllograffa .

ISBN - 978-85-7473-336-4 Capítulo 1- 1 ~ Média: 'Iiuvà.élo~; Humanismo 13


1, Utanltsn porti.lguela - Hlni5fta • aitlca. 2. Uteratura portuguesa - Estudo • ensino. 3.
Partugal - IJlllratura • Hlltórltt. J. Abdela Junior, ~mln n. Senttlll, Marie Aperec:lda, lll l'lory,
Primeiro período: Trovadorismo 13
Suety l'lldul Vllllbor. IV, T1tufo. V Mt'fe
Estrutura social . 15
coo - 869.09 Jograis. Trovadores. Cancioneiros 20
- 869.07

fndlces para catálogo sistemático Cantigas de amigo e suas relações sociais 21


1. Literatura i:-tug-: Htstórfa e crftlca
2. Literatura portuguesa: Estudo e ensino
869.09
869.07
Cantiga de amigo e suas variedades 24
3. Portugal: ~ : Pllrfodos históricos 869.09
Cantigas de amor e sUM.-çóes sociais 25
Cantigas de amor e suas variedad~ 28
Cantigas satíricas 28
Cantigas satíricas e suas variedades 30
Prosa medieval 30
..,_ . . . . . . . . ~ ....... ,.,...._, _ . . . , . . . . MIIACllncâ
Outras produções 32
Editora Arte & Ciência
Rua dos Franceses, 91 - Morro dos Ingleses Segundo período: HWJ1aoismn ' 32
São Paulo - SP - CEP 01329-01 O
Tel.: (011) 3284-8860 Fernão Lopes " L 34
Na internet: http://www.arteciencia.com.br
, secas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam
Capítulo,4
na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que
ainda são piores que as pedras. A vara de Moisés abrandou Arcadismo e Neoclassicismo (1756-1825)
as ·pedras, e não p&le abrandar uma vontade enduurecida: 1.

Percutiens virga bis siliccm, et egressae sunt aquae largissi-


mae. lnduratwn est cor Phamonis4. E com QS ouvintes de
entendimentos ~dos ~ os ouvintes de vontad~ endure-
cidas seremos mais rebeldes, é tanta a força da divina pa,!a-
vra que, apésar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da
dureza nasce nas pedras. Pud~ramos argüir ao lavrador do
Evangelho, de não cortar os espinhos e de não arrancar as
pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo
as pedras e os espinhos, par~ que se visse a força do que
, , semeava. E tanta a força da divina palavra, que sem cortar
nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. E tanta a
força da divina paJak , que sem arrancar, nem abrandar
pedras, nasce.nas pedras. Corações embaraçados como es-
pinhos, corações secos e duros como ~ ouvi a palavra
de·Deus, e tende'COnfiançat tomai exemplo nestas mesmas Pavorosá ilusão da Eternidade
pedras e nestes espinhôa. Essesespinhos essas
e pedras agora
Temor dos vivos, cárcere dos mortos;
resistem ao·semeador do Céu, mas virá tempo em que essas
D'Almas vãs sonho vão chamado inferno,
~esmas pedras o aclámem, e ~ _mesmos espinhos o co-
Sistema da poUtica opressora; . ,
roem. Quando· o semêàdor do céu clcixou o campo, saindo
Freio que a· mão dos déspotas, dos bomos
deste mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem acla-
Forjou para a boçal crwulidade;
mações, e os espinhos se teceram para Ih~ fazerem coroa5. E
(. ..)
,se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa,
(Bocage - Epistola à Marilia)
se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce,
não'triunfut dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nas-
cer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos
ouvintes.
Su(>OStaS. estas d~ , de~onstraçõcs, suposto que o fruto e !i- Europa Qci~~-n ~ do__século XVIU pos.m i uma estrutu-
efeito ela palavra ele Deus não fica nem por parte de Deus,
~ so~ioeconô~ca. e, por extensão, cultural, que ~ distingue
n~ por- parte dos ouvinteS~segue-se pot conseqüência cla-
· nitidamente de Portngal, apesar desse país procurar seguir al-
ra, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis cristãos .... • :t ,

por que não faz fruto ~ palavra de Deus? Por culpa dos pre- ~ s de seus passos. Na Inglaterra do ~culo XVII, a bµ.rguesi~
gadores. Sabeis pregadores por que não faz fruto a palavra assumiu o poder. Na França, isso ocorrerá s6 em 1789. No
de Deus? Por cplpa nossa:. , 1 século XVIII, os ingleses viverão a Revolução Industrial e a
ascensão ao capitalismo. Essas transformações das técnicas de
· _erodução acarretaram o grande desenvolvimento das ciênci~
130
131
: · natura.is~ pois, para expandir a .prod~o_, era preciso ç~~~~~r } ~ desigualdade, achava que !.1--própriedade privada era um mal
· ~ pr.op~i_e~d~ ~ i:natéri~_.Q__Ç9@~Q,W~nto _da..realidade,_!Jle- ~ · .- jnevitávd.
,
Acreditava

na possibilidJde
; t
de limitar gràncfes ·p· rÓ-
.diante? métod~_~p~.i:itn.~rit:µ t ª11~Qç_9,_?,cahou por_apr~~!}plr ~ ~

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priedades e com isso defendia os pequenos proprietários. Sua
modelos para as ciê~çias hu.qi~3.$- Filósofos passaram a acredi- ! · obra Q contr"to~cial defende oJ4e~ democrático de que o ~ ·
tár ·na ~º com~ única fonte d~ conhecimento da ·natureza
:.· e da vida em sociedade. A_~Jjgião e a _Igr~ a _são vistas, então,
-· como instrumentos da ignorância e ~ a . ü )conhecimento e ··
o domínio da natu,reza constituíam ás condições básicas para se
, atingir uma formação sócio-econômica de liberdade.
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saber~~ -~ ~~ ·s_er?- vo~~de ger~---~~-hleal foi s~9:~_p_or
Robespierre, um dos líderes da Revolução Francesa.
. A forní~ _ cozeito de liberalismo econômico vem
dessa épocal -~- . S.mL.. em A ri ueza das
ra a ue Estado não everia inte erir na vida ec " · a. A
-ões, consi e-

: ::'· -';: ',O pensamento crítico da época, aproximando.cientistas, 4· burguesia, já fortalecida pda explõraçâo colonial e pelos m-;;=-
0-vfilós~fos e escritores, não ace~t~ya, n(?._plano político, º Estado ~ ;~p6lios comerciais, não mais precisava do apoio do Estaç\o
. .-;;·5 ~bsolutista e suas instituições e coloco1:1-se c~n~a a ~o~stante
-.. ~\ .J mtervenção do poder real na economia, pois isso hm1tav3: o
1· ~
Absolutista, _que p~avã""ã ser um entrave ao _crescimento na-
-tural dos capim.is e ao moc;lo de produção capitalista. Ççitq~_de
: .~;~,·.. direito da propriedade. Ih!Jajn1$1!10 é o nome que se deu a esse ~ .que <i n:~b~~-~_que con~cituiria á _verdack!@_fun..t~.d~~e-
.·"'i< movimento de renovação intelec~ iniciado na Inglaterra e 1· ~ t ~•.os burgueses reivindicaram a liberdade de uma economia
-~. ~, ,.:· que chegou ao apogeu na França da Revolução. -~~ ~iada na oferta.e procura (prod~çãÕ'""econsil.mot- Nã'1ng1ã-=
. ;..r. . O Iluminismo esteve-associado à ideologia d.a burguesia ~ g terra, o· desenvolvimento do môdo cfepiodução capitalista,
em ascensão, que surgiu das tran~formações econômicas, po- 1 -=,=i fundamentado na gpnde ·mdústria e na exploração do traba-
líticas e sociais européias. Na medida em que criticava o Es- · J ~ lho assalariado, necessitava de ~plos mercados produtores e
tado Absolutista e a política econômica do mercantilismo, o ...i, consumidor &se fato colocou a burguesia em conflito com
Iluminismo preconizava a igualdade de poderes e a liberdade ~ ~ o monopólio comercial das metrópoles sobre as colônias. Tais
t •• - -· - • ••. - - -

de ro riedade. s: ? · razões econômicas e o _ideário iluminista deram bases ideol6;;..,


Na França, apareceu a "Enciclopédia das- Ciências~ das Ar- ~ ;~
;) ~J:; ~ _gkas para movunentos ·sociais. O século foi marcado por revo-
tÊ5 _e dos Ofícios" (17211, dirigj~_por Piderote.D~einl;,ert, ~~ luções, lutas pela independência de colônias européias. Uma

r~-
·com çolaboradores como Voltaire ç ,R9~~~au.,.A organização & das formações políticas características desse século, que ocor-
d.a enciclopédia representou uma tentativa de sftste~atizar ~ }. reu em Portugal' (como na Europa), foi a ascensão do Despo;:.
·todo o , éóhhecimento humano, disponível até então. Voltai- ~:.:.::,:..-==.:.:e::.::c:,;:id::;o~ ·cujo mentor, na filosofia, foi Voltaire.
~ 694-1778), um dos grandes pensadores do Iluminismo, i-~ { ,
preo~poü-se fundamentalmentt: com questões políticas e ~
sociaís. CritlcQU,...a.lgttiJª... ~ª.tó~~ca e ~ .! ~!ações ..de .servi~o.
ut:idário das liberdades individuais reconizava a ascensã
{-r
· ~ cS
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~
O Iluminismo em Portugal

de um soberano carecido(~ não de uma revoluçao social).


Jean- Jacques Rousseau (1712- 1778), na obra Da origem da ~
'. t O .Absolutismo tradicional proclamava a subordinaç!o d<?
monarca às leis de Deus. Essas leis eram int~rpretadas e defini-
das pela Igreja, evidentemente. Diretamente relacionadas com
132 133
/ ...,
das estavam as leis. derivadasidos cqstumes do país e aquelas ..... jovens burgueses. Em 1768 estava criada .a imprensa régia:. N~
. que o rei {e seus antecedeptes) promulgava para a nação. Em ciência, o movimento foi mais modesto, mas não menos im•
'\ oposição, o Despotismo esclarecido entendia que as leis (de portante. As ciências n,iatemáticas e físicas e naturais desper•
, \Deus, as leis n ~turais e__ da nação) deveriam ser interpretadas tam grande~int<:resse, e os livros .são traduzidos, ou adaptados
pelo sobera no Dessa maneira,. o despotismo "das Luzes" ten- J ,de manuais estrangeiros.
de a nivelar todas as classes sociais perante e poder real, abolir Surge, como reflexo das l':,lZCS e do r;i.cionalismo, um~
os privilégios baseados na hereditariedade, tradição etc. nova Li$boa: metade da çidade foi destruída por um terremo-
~ período começou :m Portugal partir de 1755, com to (1755) . Caíram em ruínas o palácio real, .igrejas, hospital
?, ~nado de D. José (1750-1777). Seu grande promotor f~i ópera, ruas e bairros opulçntos. O futuro Marquês.de Pombal
·Márquês
1 .
de Pombal que, em parte, adotou .
teorias de alguns• ao invés de reedificar a cidade com base no traçado anterio1
pedagogos e porp.igueses que tinham vivido no estrangeiro. mandou destruir as ruínas·~·decidiu, que fosse leyantada urru
. (pejorativamente chamados os "estrangeirados"): Luís Antô- cidade "esclarecida": raci~nalme~te planejada e edificada, con
nio Verney (1718.. 1792), Ribeiro Sanches (1699~1783), cola- ruas, praças e qsas traçadas à r ~ e compas$o._ ·
borador da Enciclopédia de d' ·Alembert, entre ouµ-os. Enquanto a nova Lisboa revela a id_eologia ~~~nal dp,
No direito, o fundamento clítico dos estados ilustra s, iluministas, há em Portugal a convivência çom o estilo tens<
ou ilwninados, era a· razão. A lei e 179,0, unifica.qdo a juris- do Barroco: ·o ouro que ia do Brasil para Portugal e o vinhs
dição em todo o pãls, constitui um novo passo <n o sentido de ex o o ara . terra trouxeram prosperidade ao reino
·abQlir os privilégios feudais e fie impor ~ todos a autoridade possibilitando a com,trução e mansoes anstoc ucas, q~e se
única da Coroa. O, lluminismo·desem ou i mente um guian:i as formas tradicionais do Barroco. Essa renovação cul
papd decisivo na cultura em geral e 3 em particular, na edu- tural acarretou também a substituição·dos moddos espanhói
. Cação regular. O atraso .do sistema de ensino português era· em várias áreas do conhecimento pelos franceses, italianos
' o:
grande. O &ta.do despótico adotou a poUtica da interyen~o ingleses, e ai~.
, direta no ensino. e no sistema cultural mediante a censura e§lr- Muito antes dê.~1640, a poder central da &panha (Cas
tal · ·osa é substituída pela Real M ~ a Ccns6ria, tela) queria incorporãió · t~rri!~~i~ português como o fizer.
de 1768). O ensino jesuítico é P!Ol 1 o e su stituído por uma colfi ·outras regiões ioénêàs. Até os fins do Século XVII, a Es
educação renovada e mais progressiva. p ~ ocupava, entre os países hegemônicos da Europa, un
Verney; com oseu Verdadeiro método .de estudar (1746), papel importante em vários ramos do saber. No século XVIIJ
cobre todos os campos da educação. As reformas educacio- não bastava para as elites de Port,ugal considerá-la ínimig
nais implicam conhecimentos da escrita, Ifog!,las, retórica, em razão dessas p~etensões de domínio polít ico. Além dessa
aritmética, humanidades (retórica, poesia e hi~tória), ciências circunstruicias, a estagnação que atingia a Espanha chegava ;
(aritmética, geometria, álgebra, ótica etc.), dança, esporte. A significar um obstáculo, pelas d~culdades que essa estagnaçã◄
Universidade de Évora, cujos proprietários eram jesuítas, foi implicava diante d~ restante da Europa. P u ~ pro9!!Jll
extinta. Em Lisboa surgiu uma Escola de Comérdo para os desvencilhar-se das amarras c.9p:1 ê!..Espariha e desenvolveu un
134 135
conjunto de estratégias, inclusive político-culturais. É signifi- Nessa 'época, talentos artísticos e musicais surgiram em
1 cativo, nesse sentido o fato de· ué a llií a es anhola de" espetáculos coletivos favorecidos pór salões aristocráticos,
então, de ser a "picnics", teatros de bairros popular~ festas 'de jardim. Os
As gramáticas do italiano, in lês e francês come a , botêqufo.s, que reuniam músicos e amadores da literatura,
a arecer e, naturalmente, obras· literárias' oram traduzidas. foram igualmente grandes dj.nanüzadores da vida cultural. A
o Peças de teatro e franceses e 1t anos contribuíram para a fundação d~ Academia.Real das Ciências (1779 . foi im ;;;:--
rejeição do tradiciimal teatro espanhol, que passou a ser visto tantíssima, pois um e seus o Jetivos consistia em relacionar o
cômo antiquad.o e de mau gosto. O l · ·· . . ensmo un1vers1t 10 ao esenvo vrmento investi ão eco-
ci~· do declínio ·da I re·a também erdeu o restí _·o nômica e cien ca.
ri~r:/Multiplicavam-se as Academias. As primeiras, da época , Màrques e Pom al, ministro 'do rei D. José, realizou uma
barrocà, tiveram uin papel conservador: ~ncomiásticash reu- série de reformas na administração do Est~do, nà educação e -~ ª
. niam aristocratas e representa~ a ideologia desse grupo. No ~onomia, inspirado ~a filosofia iluminista e na política econô-
século XVIII, el~ ·ganharam um novo sentido, o sentido d.a mica do mercantilismo. A utifuação nessas reforma:#os p~ind-
Ilustração. Em 1(720;•D. João V instituiu a Academia Real da .. pios filosóficos dos ilustrados nessas reformas visava a impedir
Jj:ist6ria que seguia ~s exemplos das.academias·reais.da Fràriça o surgimento !Íe uma rCY,olução social que pusesse fim ao pasi~
e Iclliã, mãs tinha sua originalidade porque se especializou no . .. absoluto dos soberanos e às relações servis de produção. ~ r
estudo da História. A importância dessa academia adveio do isso que Pombal procurou desenvolver a administração estatal,
fato de ter sido con~edid.a a ela uma imprensa própria e tam- com a finalidade de tornar mais eficiente a intervén5!0 do Esta-
bérl!, a isenção da censura régia. E mesmó o fato de metade de do na ecónomia. Pombal estim:ulou a atividade m;mufatureira,
seus membros não pertencerem à ordem clerical, possibilitou r rçÓu o po er mercantil e o monop6lio colonial. O &tado
o surto de uma "intelligentzià' laica. tornou-se ó grande agente do desenvolvimento econômico com
Outra importante academia foi a_Arcádia Lusitana (1756 .a a fundação das companhias de c<;>mércio tendo, sob seu contro-
1774), fundada segundo o modelo âa "Acádemi~ d~ll'.Arcadi.i' le, á vida econômica nacional. ·
italiana. De iniciativa· p'articular e não régia, ela reunia hw::- A política de libertação educação do controle da Igreja
gueses que se dedicavam fliteratura. Sua ~r~iµ~9 _era..ig.ua- · baseou-se no princípio iluminista de que a razão é fonte do co-
litária, já que se inclinava _para ideáis ·aemocrátic_os. Possuía, nhecimento. A expulsão dos jesuítas de Portugal 'e das colônias
assim, presidentes eleitos e pastores coin nomes fictícios, que implicou -entregar a escola a um poder públic~ organizado.
D
era um~ maneira de tentarem demonstrar a renúncia . -ao ...seu
~ ' ~
A "éaridade religiosa", que consistia também em educar, foi
"status" social. Sua fundação marcou o início de uma noya substituída por uma educação sisternatjzada -Essa perseguição
época literária, de um novo gosto es~~tico~ ligad~ _ao ~?:<.:fona- aos jesuítas também pode ser explicada como1 uma forma de
m
lismo das luzes. S.unultaneamente a esses fatos, são compila- &a,raoria do. fortalecimento do poder real, da mesma forma
dos, tárdiamente, os cancioneiros b~rÕcos-:.:-Fbtk- Rerw.scida e como Pombal perseguiu a nobreza. Devé-se entender que,
Postilhão de Apolo - que registram os momentos barrocos. nessa época, por mais distantes que estivessem da realidade
136 137
e das necessidades sociais, os Jesuítas já ~vam inseridos no ,~ Escritores, poetas, sábios e artistas foram exilados, e Portugal
contexto histórico português, estando associados aos setores mals uma vez foi m_~rgulhado no ob~tlsmo repressor.
mals tradicionalistas. ·' · Nesse ambien_tc dilemático, tenso, ilustrado e antillu.strado,
Com a morte .ide D. José (1777) e a saída de Pombal, ' desenvolveu-se o Arcadismo português.
ficou evi~ente que o país havia mudado na 5-uperfícitt.. ape~as.
As mudanças não ~tingiram a estrutura da y~a sociedade Características do Arcadismo
portugUesa. A velha aristocracia retornou à corte e foi mesmo ··
. ••if, compcn,sada das p~raeguiçõcs do período pombalino. A rainha Como foi anteriormente desenvolvido, o Renascimento
' viú,va, D. Maria 1, teves~ loucura reconhecida oficialmente foi um período artístico pautado por uma nova visão de mun-
~~~~IP~ ~795, q~do foi fUbstinúda pelo príncipe regente, o do, fundamentada na ra7.ão e na 'experiência, na valorização
futµró D. João VI. Nessa .época, a Inglaterra, dominando a do homem. Foi expressão de uma nova fase hist6rica, em que
dlplqmacia "'e os portos portugueses, P,,rocurava impedir que as a burguesia ascendeu como poder econômico, 'cm que ~ des-
, idéias _revolucionárias dos Estados U,nidos chegassem a Porty- cobertas vieram dar fim ao enclausuramcnto dc'unrsistema de
, _eL...Enrretanto, a situação interna era muito difícil,. tertsa. As . vida feudal. O Barroco, seqüência natural do Renascimento e
reformas pombalinas foram anuladas:jesultas voltaram a ensi- -- de uma consciência já desencantada, acabou·por tentar a con-
nar; agigaµtou-se a aversão 4a velha aristocracia pelos homens ciliação dos valores antagónicos: os novos (renascentistas) e os
cultos (os iluministas) adeptos de Pombal._~ouve repressão velhos, de origem medieval. Eviaenciou em suas produções o
violenta ~ontra a maçonaria. D~ ,Maria participou da.Aliança conflito entre a ideologia burguesa ·e feudal, entre a Reforma
contra a França revoJucionária, e o &ta.do Português acabou 1 e a Contra-Reforma. · :Arca.disiiio i!Pilê ser visto como a ex-
por ser ainda mais abalado pelos gastos de seu exército por- p-..-n- _ ar.wa. do momento ideológim que se impõe
tuguês. Enquanto Portugal lutava contra a Fran~ cor~ários o meio do :XVIIJJ manifestou a crítica da bur~ C:5-!ª
franceses saqueavam navios portugueses. Enq~t~ a corte-es- cülta ao modo devida si~boli~~opela n~~re-za e pelo ~er~.
tàva 'mergulhada em diversões fúteis e caras, a Marinha sugava De acordo com a situação social e o contexto cultural ilu-
fortunas para ·sua manutenção. Fior, o ouro brasileiro esgota- minista, pode-se dizer que foi previsível que os escritores fos-
va e o povo. vivia numa mjséria contrastante. 1, . sem formados por wna visio racionãl. Da mesma formã qlle

Enquanto. isso, ~-Paris revolucionária dava o golpe de- fil6sofos e cientistas entendiam que com a ~ o - e por meio
!initivo na ·monarquia absoluta e iµici~va o der bur dela - seria entendido o mundo, ou seria atingido o conhe-
~ Portugal, porém Pina Maniqu_ e (1733-1805} tomou-se cimento, ~ JtQC ;brade m troden. ue a arte era ~~
o gran es or do reinaaó de D . Maria 1.- Como-mtenden- tspíriro Üi\ verossimi.lhan a "veras.d~ ., constinúda
•te-geral da polícia, desenvolveu uma forte e i~tensa repressão P.ºr verdades constatáveis por meio da Observação, e verdades
às pessoas e idéias que sugerissem identidade com a França. imaginadas. Decorre dessas circunstâncias o fato de que a li-
Proibiu a cir~ação de livros considerados perigosos., . perse- teratura árcade devesse ser verossimilhante. Se imaginação era
guiu é éastigo'u os que pensavam diferente da ordem oficial. fundamental para a literatura, da não deveria entrar em cho-

138 139
'
j
que com a "natureza das coisas". Procurava-se, assim, atrelar simplicidade não sé coadunavam com a ordem aristocrática e
a imaginação à razão A moderação do processo imaginativo despó_!~- A felicidaa~ estava no .i~en~qntr~~d.~.H~m~~ -~ m
1
estaria afeita ao desem eoho da razão. ·. a Natureza (preceito horaciano do "fu~re u,rbem").
~ escritores antigos são retoma os: a imitação dos clás- -_Opasto~;rr;-mo árcade se desenvolve~, portanto, estrei-
filÇQS_ {Petrarca, Camões e de suas fontes, Homero, P.índaro, . tamente 'figado ao desenvolvimento da cultura urbana. Esta é
V rrgílio, Horáci?.!.. Ovídi~, g<!!ante um bom niõêíelo, qüe- foi i·, uma dás facetas da produção literária: buscar o que falta. Vale
esquecido na época barroca. Imitá;los implicava a aceitação notar que a oposição campo~cidade sempre existiu na história
dos valores literários já reconhecidos como clássicos. É a imi- de Portugal, como decorrência de uma organizâção econômi-
,J 1.
.tação dçs gregos,.e latinos como fonte de ins_P-iraçãO~: ca dividida entre o desenvolvimento do comércio citadino e o
fa~pr<importante: _retomar modelos, temas e personagem ao'.'". _obstáculo'feudal centralizado na zona rural. No século XVIII,
~gos significou moderar a emoção do árq.de;..._"é uro e,rcelente · L o burguês anseia pelo ambiente natural, que estava nas mãos
recurso de d~personal~p~do lirismo", como, diz Antonio dos nobrés. Só que o imagina como o reino da simplicid~de.
Candido, em Form.ação da literatura brasi/eir4, volume I. Os · Para o árcade, esse Homem· espontâneo e natural seria
modelos literários da Antigüidade éõnititlÜ..ciw ~pertório de capaz·de éhegar à Verdade e à Beleza. E a ·Razão é colocada
m~de?Ção no tema e na fôrm~ _Ta.1 obediência a .gênerOs e . .... como o fundamento do Verdadeiro t do Belo.'Observe-se que
~ espécies literários tra~clonais l~ia à limitaçãQ çl.Q_qge c_o n- .• l'J esses' COÍlceitos foram gra&dos com· niaiúschlas, de maneira a
si~eravam excessos.da subjetividade ou do desejo_do autor. - evidenciar cdlocações não ··de valores relativos, mas absolutos.
No século das luzes, quando se presencia o iri.ício da urba- . 11, Esse homem ,invocado, essa concepção de_, que a verdade da

niza,ção, as obras irocuram atingir o ideal do homem na~~- existência está associada à espontaneidade, acaba por ser uma
Nessa procura, révela-se a subjacente ídeõlo~a de uma época· _ ponte entre o Arcadismo e Romantismo: o ideal de naturali-
que se opõe ao<pedantismo., ao req..uinte da etiqueta, ª?s ahu- dade desembocará na explosão de sentimentos espontâneos. 'A
sos de_uma sociedade em que o homem está sob ~ comando lógica da razão do área.de, _que preconiza a naturalidade, dará
do dçs_p9tisroo, ·sob l:lffia.--mdem--antinatural e anti-racion.al._A
volta aos antigos não significa apenas a volta a uma concep-
cin°ª°
o!'igem à lógica da ao .romântico. Por
uitos árGades foram pré-romftntlcos.
esse motivo,

ção artística e, sim, a uma.concepção moral diferente daquel~ - - -As características do Arcadlsmo são decorrentes de um
do século XVII: não basta desenvolver agudezas de racioc!niQ. çontexto socJal,_w~t6riço.e.filós6fi~ que rparca a transição do _
(conceptismo); ·rnm o importan e of_geçer_ao homem u.m_a século XVIII: a visão iluminista (racional e bµrguesa) que leva
rdlexio sobre a vi~ baseada na simnlicidade" o despotismo a se manter no p~der (renovando-se, ~as fican-
· Acim~ _
das.~Q..nt:radiç~_que ;e.,. verificavam na vida so- do no poder) tem uma ségunda face que culmina com a Revó-
cial, situa-se um mito construído na época: o mito...do-hgmem lução Francesa, e a tomada do poder pela burguesia. Portanto,
. natuql, O mito do "bom selvagem", de ROusseau,. vem co_~- o Arcadismo traz consigo a própria origem do Romantismo .
roborar o ideal do homem naturãl, ·síntese da _espontaneidadç As características mencionadas do Arcadismo podem ser asso-
e ~mplicidade. Essas noções de liberdad,e, espontaneidade, ciadas, pois, ao ideal de Rousseau do homem natural.

140 141
A supremacia da razão inspira a pr~ll:1'9- de v~r.Q~imi- de Almanaque das musas. Seus integraq.tes .Qlais importantes
,· lhança; a necessidade de impedir rasgos emotivos, o _q ue leva à foram Domingo~ Caldas Barb9.~ (1740-1800), b~asileiro que
:~-
imitação dos ' clássicos; a' exaltação
~ ·1 .
da verdade
' ..! .
~
natural e, do. ho-
..
ficou famoso nos ambientes aristocráticos ·pei?:}:';lterpretáção
.. ,
,. __ .... ,.
mem natural; a exaltação da vida ca,mpestre. A manifestação
da individualidade por meio das másci.ras do pastor -constituiu
e composição de modinhas e lund1::1:f18; Padre José
Macedo {1761-1831), poeta satírico. Com e,se esentendeu
ostinho

... um anificialismo, decorrentç da contradição entre o _h9rµ~m o pe>eta Bocage. As canções de Caldas Barbosa foram reunidas
,! • • ~

o
ui~anizado ê ideal de homem natural. -ô paisagem era ~.. na coletânea V-10/a~de Lermo (publicação póstuma, de 1826;
rativa; por decorrên~ as descrições tornaram-se sµperficiais. Lereno era seu pseudônimo arcáclico) que impressiona pela
·I
sie,ific:aç[o, o duçursO árê;ade
. 1- ~?i)iti::<liisa proêwa-o presença e atualidade de uma língua literária identificada tom
· · )~ simpli ºdade; não mais o r ~ cul · Prevalece a cultura popular brasileira:
o gàsto pelos vérsos bnu;1cos,. pela estrofação livre e pe4l_libe~- ·
dade na composição aPdecas~ílabo, que c<>nstituem caracte- DOÇURA DE AMOR

<
rísticas formais identificadas com os românticos. --
tJ - Cuidei que o gosto de Amor
1) Sempre o mesmo gosto fosse,
O Arcadismo em Portugal Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.
A fundação da Arcá~a Lusitana, em•1,756_,)sinalizou para
o início de wn'.a_n~va etafYcl da vida li~~rár;m ·pq.rtugu<=Sa. em Gentes, como isto
Cá é temperado~
termos de criação. E támbêm wµa nova fase 11,0.setor doutri- Que sempre o favor
nário, com as teorias sobre' Arte Poética, de Cândido Lusitano, Me sabe a salgado:
(1719-1773), inspiradas em Boileau; ea rebeldia contra o Bar- N ós l:i no B.rasil
roco ("imitilia truncat"). O desejo dà's árcades de restabelecer A nossa ternura
' a simplicidade da arte renascentista~ antiga pe11enceu a um·_ A açúcar nos sabe,
Tem muita~
contexto em que às discussões literárias estavam em comum
, Oh! se tem! tem.
acordo corri as_discussões das reformas de ordem geral. Tem um mel mui saboroso _
.f!.. Arcádia Lusitana estiveram ligados, entre outros, os .I! bem bom. é bem gostoso.
poe~ Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799), cujo
pseudônimo era Elpino Nohacriense~ um dos fundadores da As ternuras desta t~rra
Sabem sempre a pão e queijo,
Arcádia, .~)P~o Antônio Cop;eia .G~çãp (1724-1772), de
Não são como no Brasil
pscudôiilino Córidon Erimanteu, também doutrinador do Qµc até é doce o desejo.
movimento. Em \ 790) foi ~~<;la a Academia~-~eJ~-Ar-
tes, logo depois denomina& Nova Arcácli~ 'Frês:anos depois Gentes, etc.
já publicava algumas obras poéticas de seus sócios, so.~ o_dtulo
142 143
' • IJ?
Ah nhanhá venha escutar Nicolau
.. Tolentino de Almeida
Amot3puro e verdadeiro,
•. t ~ ( : - -.. '.
Com preguíçosa doçura
Que é:Amor de Brasileiro. 1
• Nicolau To1entino (Lisboã, 1740-181l), autor de Obras
... p
poéticái (2 volumes, 1801) e Obras póstumas (1836), estudou
Gentes, etc. em Coimbra, foi professor régid de Ret6ri~ em Lisboa e como
;; poeta representou o qlte· hô~~e de melhor na poesia satírica
, O~ respeitds é:á do Reino • voltada para a crítica dos ~ostunies p.a"'época. Não participou
' \
Dão a Amor muita nobreza,
· de nenhuma ácademia. '$llil a'br~-esp .éonstituída pela sátira e
Porém tiram-lhe a doçura
. ·Que lhe deu a Natureza. • , por' poein~ d; homenagem: aos poderosÕs d~s q~~ depe_n -
. ·dia.' Sua'sátirà;ent.retanto, não -deixa de c,riticar exatamente os
Gentes, etc. poe~as que vívi~-da ~~0:dic;ância de favo~. • J • ;

Comó diz Rodrigues Lapt no prefácio de Sdtiras de Nic,?-


Quanto a gente tem nhanhá
lau Tolentino, nessa época "sÍíam da Universidade fornadas de
Que lhe seja bem fiel,
1! como no Reino dizem bacharéis de direito. Muitos porém n~~ tinham. _emprego e le-:-
Caiu a sopa no fuel. vavam uma existência de tstú.rdia e pelintric:c. Para viver, só um
recurso: bajular os grandes, os senh<>,res da velha fidalguia qu<r
Gentes, etc. detinham o poder. Assim se ·~ u 'ésse grosseiro mecenatismo
da época: o visconde, o con~e, o marquês, muitos fidalgos, mas
Se tu queres qu' eu·te adore
À Brasileira hei de amar-te,
duvidosamente cultos, ouviam, a troco dum jantar ou dum co-
Eu sou teu, e tu és minha, lete, as poesias encomiásticas do pobre vate que lhes mendigava
Não há mais tir-te nem gtt?I-te. os favores para poder viver, ou ao menos vegew: .
Tolentino foi um desses poetas, com a diferença que
Gentes, etc. transformou essa·realidade em tema de p~ia: como se vê no
(Publicado no livro Viola de Lernur. coleção das suas canti-
p·oema que é dedicado a D. José, para obter')eip.p~ na Real
gas, !)ÍCrecidas aos seus amigos -·1826).
Secretaria:
Houve fu~ centros ~ca4êajcos, como 3:.Ar~~a__Por-
Nesta cansada, triste poesia.
J i
tuense, Conimbricense e os hcades de Guim.arães, fo.r_mad~s
vedes, Senhor, um novo pretendente, que aborrece o que
por poetas que queriam combater ~ Ar~dia. Além disso,..apa- estimá toda a gente: que é ter Íío mundo cargos e valia.
receram também poetas independentes.
Sobre alto trono há anos que regia
de d6cil povo turba obediente;
mas quer antes sentar-se hwnildemente
num banco da Real Secretaria.

144 145
Qual modesto capucho reverendo, que, cm fim de guardia• guesa, e de ir a Macau, já desertado, o poeta a reencontrou
nia trienal, passa a porteiro, as chaves recebendo, casada com seu irmão:

Em mim conheço vocação igual: Por bárbaros sertões gemi, vagante: Falta-me
e roa mesma humildade hoje pertendo passar de mestre a 1
ainda o pior, falta-me agora ')
ser oficial". ·~ , ·· Ver Gertrúria nos braços de outro amante.
.,
_ ,Apesar de ter sido filho de família remediada, Nicolau To-- Boêmio, conheceu a vida devassa em Lisboa, em Goa e
lentlno~não auuou de falar de sua ~ria (real ou não, pois mesmo depois do decepcionante reencontro com Gertrudes,
vivia envolvido em jogos), se aut~itonizando. Entretanto, além viveu intensamente outros amores, dois quais vieram, na in-
de,,dci~entar por meio de sátira a situação do poeta, de cri- clinação do poeta, novos · sofrim~ntos. Em 1797 foi preso e
os
ticou hábitos e costumes, misérias e situações grotescas das processado pelas idéias anticatólicas e antimonarquistaS. De-
classes sociáis. Não da alta sociedade, pois, como diz Rodrigues pois de meses d~ prisão, conseguiu sua transferência para o
Lapa, ele "não iria pintar os ridículos de quem lhe dava o peru". mosteiro de São Bento.
Sem ,criticar pessoas individualmente, numa linguagem prosai- Dizem os biógrafos que de lá ele saiu arrependido e trans-
ca, comum e rica, criou tipos que extrapolaram o ambiente por- formado. O certo é que Bocage, ao ser liberto, passa a viver
tuguês: o poeta pobre, o velho pai enganado, a velha disforme e de ~aduções; sustentando a si e a sua irmã. Em vida, o poeta
desdentada, o jogador, o soldado mercenário etc•. publicou /dl/io_ rr!"ri#mos. poemas recitados na Academia das
Belas-Artes (1791) e as Rimar (3 volumes: 1791, 1799, 1804).
Manuel Marià Barbosà.du Bocage · Em 1853, Inocêncio Pereira da Silva publicou Poesias (6 volu-
mes) reunindo toda produção do poeta.
Bocage (1765-1805) é o pastor Elmano. Sadino da Nova
• Arcádia. Elmano é anagrama de Manoel, e Sa.c:J4J.9_.é_b.o~~va- -·Úlra.cterísticas da obra de Bocage
gem ao rio Sado, que passa por Setúbal, sua terra natal. _Desde
r 1
cedo, o P,9eta ~ sente identifica.d~ com Camões: O Bocage q~e ficou famoso é a figura mítica do homem

e poeta depravado. Esse Bocage, visto como autor de piadas
.Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fAdo ao meu, quando os cotejo.
e anedotàs anônimas, foi criado sobretudo pela imaginação
popular. Essa criação; entretanto, não saiu do nada. Bocage
-.
O "fado" semelhante entre os dois poetas implicava na ficou famoso pela divulgação do poema "Epístola a Marília'',
vivência sentimental e trágica, de acordo co~ o modelo camo- tendo em vista especialmente .o amor sensual e pouco árcade
niano. Dessa maneira, jovem ainda, Bocage apaixonou-se.Pº! que ele expressa:
Gerttudes (a Germíria, da poesia área.de), mas quando voltou
Se obter não podes a união solene,
para Lisboa, depois de ter ido servir em Goa, colônia portu- Que alucina os mortais, por que te esquivas
147
146
Da natural prisão, do temo laço · Forjou para,a ~çal credplidade;
Que com lágrimas e ~ te estou pedindo?. · Dogma funesto, que o remorso arraigas
Reclama o teu poder, os teus direitos Nos ternos-corações, e a paz lhe arrancas:
Da justiça despótica extorquidos: Dogma funesto, detestável crença,
Não chega'aós corações o jus paterno, Que envenena delicias in9centes!"
os
Se a ~,~ ternura afogueia:
A imaginação popular foi aguçada pela repressão que lhe
De amor há precisão, há liberdade;
Eia pois, do temor sacode o jugo,
foi feita, em vida, e que acabou por divulgar posteriormente
Acanhada donzela; e do teu pejo, sua obra e também 1
a figura do poeta maldito. O mistério
.
que
Destra iludindo as vigilantes ~ s , se criou, pela cens~a, se incumbiu de divulgar como seu até o
Pelas sombras da noite, a amor propicias, , que não era da autoria de Bo~e. Formou-se um anedotário
a ele atribuído, grosseiro ou não, que foi engordando através
(... ) dos 'rem'pos. ,'
Ah! Fa7.e-me ditoso, e sê ditosa.
Amar é um dever, além de um gosto, A pÓ~ia lírica de Bocage, popularmente menos conhe-
,Uma necessidade, não um. crime, · cida, porque não originou motivos para a dura atuação da
Qual a impostura horríssona apregoa. censur:a, é coruiderada sua melhor produção, pela crítica tra~
Céus~não existem, não existe inferno, dicional. Acreditar na Sllperioridadç do lirismo bocagiano sd-
O prêmio da virtude é a virtude~ bre a parte satírica pode ser gesto similar ao da ação cens6ria.
É castigo do víció_o próprio'~do.
AfinaL, o B_o ~ satíriq> foi um dos poucos de sua época que
conseguiu perceber que na frustração do amor está implícita
Essa visão sensual do amor, asso~iada à g,rajosa negação
a frustração de um ambiente aprisionante e opressor.
dos "dus", foi uma das pe~ 1::1-tilizadas_,pel;,. Intendência Geral
, O lirismo de Bo~e revela a orientação do academicismo
da polícia para prender Bocage. -~ as ~orno se percebe, o po-
·, do século XVIII: a -presença de pse~clônimÕ·s pastoris, da mi-
ema é tenso 'e defende um ponto de_vista crítico. Nada tem a
tologia clássica; a ânsia do "locus amenu{ ilu,sti::an_do o "fugere
ver com o·mito do poeta piadista.
urbem", que é a procura do ambiente natural em oposição
, 'A. faceta •satírica de Bocage aparece na critica ao poder. O
à ~ida urbana; a produção de sonetos; do mote glosado (tão
poeta ~onseguiu percel:ier a estreita união que existia entre os
típico de ambientes acadêmicos, quando se lança o mote para
dogmas da Igre]a e o poder absolutista dos reis, como se vê em
o poema ser improvisado).
"Epístola a Marilia":
Deve-se destacar o fato de qµe o que singularizou Bocage
dos demais acadêmicos foi sua originalidade: ,,
· Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno; Importuna Razão; não me persigas;
Sistema da política opressora, Cesse a ríspida voz que em vão' murmura,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos Se a lei do Amor, se a força da ternura

148 149
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas. Filinto Elísio
Se acusas OI mortaii, e ~.,não obriga,,
Se, conhecendo o'mal, nlo db a cura, Filinto Ellsio, psct.Jdõnimo ,árcicucc,·do padre Francisco Ma-
Deixa-me apreciar minha loucura; n~ do Nascimento (l 73+.1819), organi7.ou o Grupo da Ribeira
Imponuna Razio, não me.persiga,, das Naus e, com a queda do marqub de Pombal, foi denunciado
à Inquisição por defender "fllosofiaá modernas" (ideais iluminis-
:4 teu fim, teu projeto encher àe pejo tas). Foi obrigado a ~-se em Paris, opde veio a falecer.
Esta alma, m1gil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laço, vejo. 1 "

Textos do período
Queres que fuja de Marília bela. ) 1 .

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo


~ carpir, cfulirar, morrer por e~
Sopre estas d~, cavemosas,frag;!S
Como se percebe, o envolvimento amoroso leva o poeta - · 1 · ~ · · d .«
a não obedecer à razão. Essa atitude que prenuncia o Roman- Sobre ~ d,uras, cavernosas fiagas,
tismo associa-se a outras, na Ínesl)la linha das tensões entre o Que o marinho furor vai cárcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
sentimento e a razão: o ~iJ.#ió !ligflpr~ relaciona-se ao estado
Como fervem no pego as crespas vagas.
emocional do poeta; pieseriça constante da 1ª pessoa do sin-
•'

gular ("eu,, poético e seu,s, .scm,,timen.tos); o "locus horrendus" Razão feroz, o coração me indagas,
que é a inversão do "loCUS; amenus,.;,o tema constante da ne- De meus erros e sombra esclarecendo,
gação e niilismo (que será retomado por Antero de Quental); E v;1s nele (ai de mim!) palpando, e vendo
o erotismo ameno e o estilo .hiperbólico. De agudas ânsias venenosas chagas. .

A obra lírica de Bocage revela nitidamente a evolução por e.ego a ~eus males, ;urdo a te~ reclamo,
que passa o poeta: da expressão p~é~ca que traduz o senti- Mil objeétos de horror coaidéia eu corro,
mento de tranqüilidade, da simplicidade do "locus amenus", Solto gemidos, lágrimas derramo.
germina a poesia confessional em que o terna da morte angus- . u
tia, em que a Noite sucede_ao ·Dia, a, escuridão à claridade: Razão, de que me1, serve o.teu
..,
socorro?
_l Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu ~no, eu morro
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga;
Por cuja escuridão suspiro a tanto! •
***:

Aspirações do liberalismo., excitadas pela Revolução France-


'j sa e consolidação da República em 1797

150 151
Ai rum rum
Liberdad~, onde estás? Quem te demora? Vence fandangos e gigas
Quem faz que o teu influxo em nós n~o caia? A chulice dÕLundum.
· Porque (triste de mim!) pórque n~o raia Quem me havia de dizer
Já na esfera de Lísía·a tua aurora? · " ~ Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Da santa redenção é.vinda a hora •• ,.-.,e .,.,,,,, Uma linda Brasileira.
' . i '

A esta pane do mundo, que desmaia.


Oh!, venha . . . Oh!, venh~, e trêmulo descaia Ai beleza
Despotismo feroz, que nos devora! As outras são pela pátria
:&ta pela _Natureza.
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade Tomara que visse a gente
E em fingrr, por temor, empenha estudo. Como nhanhá dança aqtÜ; ':.
Talvez que o seu coração
Movam nossos grilhões tuâ' piedade; Tivess~ mestre d' alL
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio eprazer, ó Li~rdade! Ai-comp~eiro
Não s~ ºH ~im será, .
O jeitinhó' é Brasileiro.
~ "l , ., '.\ ' :. 1 r'." •

Caldas Barbosa ~ olhos assim voltá.dos


i' Cabeça inclinada assim,
WNDUM EM LOUVOR DE UMA BRASILEIRA Os passinhos assun dados
ADOTIVA Que vêm C!ltencler com mim.
Eu vi correndo hoje o Tejo
V uilia soberbo e vaidoso; , Ai afeto
S6 por ter nas suas margens Lundum entendeu'rom eu
O meigo Lundum gostoso. A gente está bem quieto.

Que lindas voltas que fez Um lavar cm seco a roupa


Estendido pehi praia Um saltinho cai não cai;
Queria beijar-lhe os·~ .; O coração Brasileiro
A $CUS pés caindo vai.
Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar; Ai esperanças
De gosto mesmo morrera É nas chulices de lá
Sem podet; .t1unca chegar. Mas é de cá nas mudanças.

152 153

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