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UMA TEOLOGIA DO ESCÂNDALO

Paulo Ferreira Lales1

Ao ouvir a expressão: “se for pra sermos cristãos com os mesmos usos gostos e
costumes do mundo, fiquemos lá mesmo” a sensação que se tem é de confronto de práticas e
condutas, sobretudo porque se vive hoje um cristianismo um tanto permissivo se comparado
com o vivido pelos primeiros missionários chegantes no Brasil Gunnar Vingren e Daniel
Berg. Outra encontrar uma forma de vida cristã que seja ao mesmo tempo bíblica e
culturalmente decente parece ser um desafio para todo cristão. Com base nesta premissa, o
presente artigo traz como intento uma reflexão sobre a teologia do escândalo. Buscando na
boa literatura, bem como nos escritos sagrados uma postura equilibrada frente às possíveis
situações onde a fé pode ser sucumbida por: idéias, filosofias, posturas e práticas indesejáveis.

UMA BREVE CONCEITUAÇÃO DE TEOLOGIA.

No livro de ‘teologia sistemática de Alister Mcgrath’ se encontra uma definição para a


palavra teologia que segundo o autor define bem a natureza e o escopo da teologia, Confira:

A palavra "teologia" pode facilmente ser decomposta em duas palavras


gregas: Theós (Deus) e logos (palavra). Portanto, a "teologia" é discursar sobre
Deus, mais ou menos da mesma forma que a "biologia" é discursar sobre a vida (do
grego: bios). Se existe um único Deus e se esse vem a ser o "Deus dos cristãos"
(para empregar uma frase de Tertuliano, um escritor do século II), logo, daí decorre
o fato de que a natureza e o escopo da teologia se encontram relativamente bem
definidos: a teologia representa a reflexão a respeito do Deus a quem os cristãos
louvam e adoram 2.

Apartir desta definição, se aceitar com elevado grau de certeza, que teologia é: uma
ciência cuja origem, vem de um termo, grego Théos e Logia, ‘theologia’, significando, uma
doutrina, um estudo sistematizado das idéias e revelações sobre Deus e sua relação com o
homem. É ciência sagrada, pois trata das coisas divinas, é uma fé que medita e discursa

1
Bacharel em ciências econômicas (Facimp). Pós em gestão pública e lei de responsabilidade fiscal (Esab).
Mestrando em teologia/área teologia prática (Fabapar). E-mail ferreiralales@hotmail.com
2
MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução a teologia cristã. São Paulo:
Shedd Publicações, 2000, p.175.
sobre Deus, ao tempo que é um ouvir Deus, é uma ciência que busca a verdade sabendo que
não alcançará de forma absoluta.
Com a intenção de clarear mais o roteiro conceitual, este artigo se apropria de uma
reflexão conceitual mais filosófica, de responsabilidade do teólogo e padre italiano, Michele
Giulio Masciarelli,3sobre o que é teologia4. Diz ele que, a teologia parte da Palavra para
receber dela o conteúdo da sua reflexão e oferecer a ela um serviço original, que não deve
ser confundido com os outros serviços da Palavra como: o querigma, (anuncio de boas
novas), catequese, (discipulado) etc. Para o professor a originalidade da teologia está em
abordar a Palavra apelando às outras fontes, a saber: liturgia, patrística, história da teologia,
história da piedade, hagiografia etc. Não tendo pretensão de substitui nenhum outro serviço
da Palavra, mas também não se deixa substituir por nenhum deles. Pelo contrário, cria-se
uma circularidade virtuosa, uma proteção mútua, uma vigilância recíproca, intercambiável.
Para o teólogo Masciarelli a teologia medita sobre “O mistério”, o não Objeto, o
Deus mesmo, que não se deixa objetivar, dominar, racionalizar, menos ainda geometrizar.
Devido a esta especificidade a teologia deve respeitá-lo na sua alteridade e diferença; deve
deixar que Deus seja Deus, aceitando o fato de que no fim, só Deus é teólogo. Em seguida
pergunta, se só Deus conhece Deus, nós devemos nos calar ouvindo-o? Ele logo responde
com um não, escutá-lo, para o ser humano, é dar graças pela palavra ouvida. Por meio de
uma escuta ativa, com a ação de graças, isto sim, pode ser chamada de teologia, se
definirmos teologia como o ato pelo qual Deus se fala, doando-se a si mesmo e aos homens.
Aqui surge um acréscimo ao conceito de teologia, isto é o ato de ouvir o Deus que se
fala. O professor afirma que a teologia é ciência sagrada porque parte da fé da Igreja e volta
a ela para ajudá-la a assumir uma nova visão, a partir da fé pensada. A teologia tenta tornar
a fé inteligível. Nas palavras de Masciarelli, a inteligibilidade é o limiar máximo ao qual a
teologia chega e é daquilo que o cristão precisa. O mérito da teologia, com efeito, nada mais
é do que a inteligibilidade daquela fé em nome da qual se levanta a questão da
‘legitimidade’ da instituição teológica.
Diz ainda que a ‘teologia’ é uma ponte, esforça-se para conectar a palavra de Deus e
a vida da Tradição com as cruzes do agora. É um grande e insubstituível serviço de mediação.

3
Professor da Pontifícia Faculdade Marianum, em Roma, e do Instituto Teológico Abruzzese- Molisano,
em Chieti, na Itália.
4 MASCIARELLI, Michele Giulio. O que é “teologia’ ’Disponivel em:
<http://www.ihu.unisinos.br/Acesso> em: 12 de outubro. De 2018.
Por isto a Palavra de sempre e para todos deve ser referida e adaptada ao momento
histórico, às condições existenciais do povo de Deus em uma dada hora histórica e em uma
particular curva geográfica, porque, entre outras coisas, nunca se deve esquecer que o
cristianismo é história e geografia. Trata-se de tornar Jesus indígena, fazer com que ele se
torne contemporâneo e conterrâneo dos homens isto é teologia.

DCONSIDERAÇOES CONCEITUAS SOBRE ESCANDALO.

Jesus mostrou se um tanto cauteloso ante o poder destruidor de um ato escandaloso e


advertiu aos discípulos sobre a possibilidade deles se tornarem vitimas, veja o que disse
sobre: “Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe
fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do
mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai
daquele homem por quem o escândalo vem! Mt. 18:6,7.”5
Mais o que é de fato um escândalo? Para esta resposta nos auxilia o dicionário
priberam, trazendo a seguinte definição ao verbete: Ato que pode induzir outrem a mal, a erro
ou a pecado; mau exemplo. Ato que ofende o pudor, os sentimentos religiosos, etc.
Indignação produzida por mau exemplo ou por ofensas. Desordem, tumulto, alvoroço.
Vergonha.6
Com o intuito de definir o que é escândalo, se pronuncia outro dicionarista, que por
sua vez usa a origem do termo para uma explicação e comparativa, veja:

ESCNDALO. Em geral, o escândalo é uma noticia falsa com intenção de injuriar


outras pessoas lançando dúvidas não merecidas e denegrindo a reputação de um
individuo ou grupo. O escândalo pode também ser merecido em razão do
desempenho de um ato imoral ou vergonhoso. No primeiro sentido, refere-se a casos
em que as pessoas desconfiam e desobedecem às autoridades sem razoes legitimas.
No uso grego, o skandalon era o pedaço de pau móvel ou gatilho de uma armadilha,
e se referia a aquilo que bloqueia a pessoa de seu curso próprio de vida, ou aquilo
que faz que ele tropece. Nesse sentido, a ofensa e a pedra de tropeço são, muitas
vezes, usadas como sinônimos do escândalo7.

5
Bíblia online, João Ferreira de Almeida Corrigida Fiel.
6
Escândalo. In. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, em linha, disponível em:
<https://dicionario.priberam.org/esc%C3%A2ndalo> Acesso em: 13 março. 2019.
7
Escândalo. In. Dicionário de ética cristã. Cari F. H. Henry (org.); tradução e atualização. Wadislau Martins
Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p.215.