Você está na página 1de 8

ARTIGOS DE REVISÃO

Fatores de risco em implantes dentais: uma revisão crítica

Risk factors in implant dentistry: a critical review


Marcelo Barbosa RAMOS1, Paulo Maurício Batista da SILVA1, Gustavo Henrique Diniz PIMENTEL2, Max Dória COSTA1, Luiz Alves de
OLIVEIRA NETO1, Pedro Cesar Garcia de OLIVEIRA3

RESUMO ABSTRACT
O sucesso dos implantes está baseado em uma adequada This article describes the many failures and complications that
técnica, uma correta seleção de pacientes, uma cirurgia can occur when using implants to support restorations. Most
cuidadosa, restaurações provisórias e os cuidados pós- of these failures can be prevented with proper patient selection
operatórios e de suporte. Embora a terapia de implante já and treatment planning. Although implant therapy is already
esteja bem estabelecida e previsível, complicações precoces well established and predictable early complications and / or
e/ou tardias são possíveis. Os autores estabeleceram uma delayed are possible. The authors established a search strategy
estratégia de busca na base de dados MEDLINE (PubMed) in MEDLINE (PubMed) from 1983 to 2011. Combinations was
entre 1983 e 2011. Foi realizado combinações de palavras- carried different keywords, including terms dental implants,
chave diferentes, incluindo os termos implantes dentários, biomechanical risk factors and failures in treatment planning.
fatores de risco biomecânicos e falhas no planejamento After eliminating double quotes, 98 abstracts articles and 27
de tratamento. Depois de eliminando duplas citações, 98 articles full text were included. The purpose of this review is to
resumos completos de textos de artigos e 32 artigos foram summarize the critical factors of risk involved to implant dentistry
incluídos. O objetivo deste artigo é ressaltar a importância as well as possible complications. These factors seem to be mostly
dos fatores de risco relacionados à implantodontia bem como related to iatrogenic causes of nature and partly related to the
possíveis complicações. Estes fatores parecem ser na maioria treatment plan. Therefore, special attention from professionals
das vezes, relacionadas a causas de natureza iatrogênicas e as is necessary correct documentation and a treatment strategy
em parte relacionada com o plano de tratamento. Por isso, before, during and post-operative so that unwanted situations
especial atenção por parte dos profissionais se faz necessário can be avoided.
como correta documentação e uma estratégia de tratamento
pré, trans e pós-operatória para que situações indesejadas Key words: Dental implants. Risk factors. Dental prosthesis.
sejam evitadas.

Palavras-chave: Implantes dentários. Fatores de risco.


Prótese dentária.

Endereço para correspondência:


Marcelo Barbosa Ramos
Departamento de Prótese – Faculdade de Odontologia
de Bauru – USP
Alameda Octávio Pinheiro Brisola, 9-75
Vila Universitária
17012-901 – Bauru – São Paulo – Brasil
E-mail: marcelobr74@yahoo.com.br
Recebido: 26/05/2011
Aceito: 03/08/2011

1. Doutorando em Reabilitação Oral, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil.
2. Professor Assistente, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, Brasil.
3. Professor Adjunto do Departamento de Prótese, Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, Bauru, SP, Brasil.

Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago 2011 47


Fatores de risco em implantes dentais: uma revisão crítica

INTRODUÇÃO REVISÃO DE LITERATURA

O tratamento reabilitador oral tem crescido significativamente nos FATORES DE RISCO DE ORDEM GERAL
últimos anos. A maioria dos problemas relacionados à implantodontia Os fatores de risco de ordem geral estão relacionados com alguns
são inconvenientes ligados ao tratamento ou plano de tratamento. Outros aspectos entre os quais podemos citar: higiene oral, doença periodontal,
podem requerer grandes procedimentos corretivos cirúrgicos e protéticos18. quantidade e qualidade de tecido periodontais, hábitos nocivos fumo/
Muitas falhas e complicações podem ocorrer quando os implantes são usados álcool e doenças sistêmicas.
no tratamento reabilitador. Várias dessas falhas podem ser prevenidas com
uma seleção apropriada do paciente e um plano de tratamento adequado. Higiene oral e doença periodontal
Muitos pacientes consideram a fixação uma decisão importante por A relação entre placa bacteriana, gengivite e inflamações de tecidos
causa do medo cirúrgico e do fator financeiro. O planejamento e um correto peri-implantares é algo já comprovado. A necessidade de um protocolo no
plano de tratamento são fundamentais para o êxito na implantodontia. intuito de eliminar doenças periodontais pré-existentes é indispensável.
Em algumas ocasiões, o paciente pode não aceitar mudanças no plano O acúmulo de placa bacteriana (Figura 1) pode provocar desde mucosites
de tratamento original e os interpretar como negligência e imperícia do até peri-implantites, situação em que uma reação inflamatória leva à
profissional, com consequente, e, posterior reivindicação judicial contra o perda óssea ao redor dos implantes16. Sendo assim, os pacientes deveriam
profissional29. demonstrar habilidade em manter sua própria escovação ou higiene antes
Os fatores de riscos que prejudicam uma adequada sequência de terapia de se submeterem a este tipo de procedimento reabilitador 12,20,33.
são classificados em de ordem geral, de planejamento e biomecânicos.
Os fatores de risco sistêmicos estão relacionados com a higiene oral,
problemas relacionados à quantidade e qualidade de tecido periodontais
e a hábitos nocivos como fumo/álcool e doenças sistêmicas. Os riscos
relacionados ao planejamento relacionam-se diretamente ao plano de
tratamento e execução do trabalho. Outros fatores estão relacionados aos
problemas biomecânicos. Esta definição envolve complicações biológicas
(sangramento, hiperplasia gengival, exudato purulento, bolsas profundas,
reabsorção óssea) e complicações mecânicas (incluindo afrouxamento e/ou
fraturas de parafusos, fraturas de implantes e materiais de revestimento).
Porém alguns autores consideram casos de fraturas de parafusos de
conexão ou de próteses como complicações e não falhas, uma vez que
tais ocorrências têm condição de reversibilidade assegurada e podem ser
corrigidas na maioria dos casos14-15.
O propósito deste artigo foi categorizar e descrever através de revisão Figura 1 - Avaliação periodontal e instruções de controle de placa
bacteriana.
de literatura as possíveis causas de falhas nos tratamentos com implantes
dentários, bem como a forma de preveni-las, procurando enfatizar os
principais fatores de risco mais comuns diretamente relacionados à técnica, Qualidade e quantidade dos tecidos
sejam elas nas etapas cirúrgicas e protéticas. A relação entre a condição do tecido ósseo e periodontal (Figuras 2a e
Os autores, que são especialistas em periodontia, dentística e prótese 2b) e a sobrevivência dos implantes é fundamental, e a ausência de mucosa
dentária, estabeleceram uma estratégia de busca para decidir, com base ceratinizada pode comprometer a longevidade dessas fixações. Na fase de
nas melhores evidências disponíveis, os principais fatores relacionados aos planejamento, é necessário determinar se a terapia de aumento de tecidos
riscos em implantodontia. A pesquisa foi realizada através de uma busca moles deve ser realizada antes, durante ou após a colocação dos implantes.
na base de dados MEDLINE (PUBMED) da literatura publicada entre 1983 A ausência de mucosa ceratinizada sobre rebordo reduzido ou delgado
e 2011. Foi realizado combinações de palavras-chave diferentes, incluindo aumenta as possibilidades de insucesso com implantes7.
os descritores implantes dentários, fatores de risco biomecânicos e falhas
no planejamento de tratamento. Depois de eliminando duplas citações,
98 resumos e 29 artigos completes foram incluídos. Resumos que não
estivessem disponíveis na língua inglesa, assim como relatos de casos
clínicos foram excluídos.
Todos os trabalhos relevantes considerados foram publicados em língua
inglesa e a apresentação das informações relacionadas ao assunto foram
considerados para a inclusão. Adicionalmente, bibliografias de livros
clássicos e artigos de revisão sistemática foram incluídos.

48 Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago. 2011


ARTIGOS DE REVISÃO

Ramos MB, Silva PMD da, Pimentel GHD, Costa MD, Oliveira Neto LA de, Oliveira PCG de

A associação do álcool com patologias da mucosa oral é também bem


conhecida. Álcool concentrado pode causar queimadura química na mucosa
e aumentar sua fragilidade epitelial, descamação e contração da ferida. Em
estudos animais, a aplicação de etanol 70% diretamente na mucosa tem
sido mostrada por causar descamação epitelial23,25.
Doenças endócrinas, especialmente a diabetes, pode representar um
risco sistêmico para o fracasso do implante. A relação entre a perda de
implante e o diabetes está provavelmente relacionada com a produção
exagerada de mediadores inflamatórios, e prejuízo na função leucocitária32.
Mulheres na fase pós-menopausa requerem cuidados especiais por
causa da diminuição de estrogênio e progesterona e alterações no
metabolismo ósseo. Na verdade, este grupo de pacientes apresenta redução
na massa e na densidade óssea alveolar22. Um estudo prospectivo testou a
Figura 2a - Radiografia panorâmica das condições prévia à fase hipótese de que mulheres na pós-menopausa tivessem menores taxas de
cirúrgica. osseointegração do que mulheres pré-menopausa e controle masculino.
Os resultados mostraram que a deficiência de estrogênio e as alterações
ósseas resultantes associadas com a menopausa podem ser fatores de risco
sistêmico para a falha de implantes dentários4.

FALHAS BIOLÓGICAS
As falhas biológicas devem ser consideradas todas as vezes que ocorre
deficiência do hospedeiro em estabelecer ou manter a osseointegração.
Apresentam-se clinicamente como: sangramento, hiperplasia gengival,
exudato purulento, bolsas profundas, reabsorção óssea. As falhas biológicas
geralmente são consequências de falhas ou iatrogênias na técnica cirúrgica,
na sutura, ou mesmo no processo de cicatrização.

Falha na técnica cirúrgica


O sucesso na osseointegração dos implantes é definido como
Figura 2b - Avaliação da condição periodontal e dos tecidos de adequadamente funcional adequado quando sem sinais clínicos ou
suporte após a fixação e instalação das coroas provisórias. radiográficos de perda óssea ou mobilidade. Enquanto fixação inicial
do implante é consequencia simplesmente da estabilização mecânica
Embora o tratamento com implantes dentários mostre elevada taxa primária, a osseointegração com um íntimo contato íntimo entre o osso vivo
de sucesso, falhas ainda ocorrem em função de problemas mecânicos e e a superfície de titânio requer várias semanas para aposição óssea direta
biológicos, decorrentes de falta de planejamento, não observância de na superfície do implante e adaptação estrutural posterior em resposta às
princípios durante as etapas cirúrgicas e protéticas ou mesmo falta de cargas mecânicas1.
manutenção dos tratamentos executados. Taxas de sucessos deveriam A distribuição dos implantes deverá ser feita de forma a se conseguir a
incluir outras informações além das relacionadas com a estabilidade maior ancoragem possível de acordo com as limitações anatômicas. Um
das fixações, como também: estabilidade óssea ao redor dos implantes, importante componente na implantodontia é a precisa e atraumática
ausência de sintomatologia ou infecção dos tecidos peri-implantares6,21,30. preparação do leito ósseo5. O sítio do implante deverá ser preparado de
acordo com a qualidade óssea local. A velocidade de fresagem associada
Fatores de risco sistêmicos à eficiência do corte e a irrigação interna garatem uma preparação segura
O fumo causa efeitos deletérios na cavidade oral e tem sido associado e atraumática do leito ósseo. A utilização de brocas novas visa evitar o
com o câncer oral, doença periodontal, estomatite nicotínica e sangramento superaquecimento, e, consequente, necrose óssea, assim como aumentar
gingival10. Fumantes de cigarro apresentam tanto efeitos diretos na exposição a estabilidade inicial, especialmente em osso tipo IV, viabilizando o sucesso
de tecidos moles, através da formação de uma pressão negativa intraoral, com da osseointegração.
consequente efeito deletério sobre a cicatrização de feridas, quanto efeitos
sistêmicos que diminuem a irrigação e oxigenação dos tecidos7. Estudos têm Falha no processo de cicatrização
demonstrado que um dos principais fatores que conduz ao fracasso com A cicatrização é influenciada por fatores locais e sistêmicos. As infecções
implantes é o hábito de fumar, uma vez que o fumo reduz a vascularidade óssea, podem ocorrer ao longo da linha da sutura. Infecção pós-operatória dos
deixando seu potencial de cicatrização reduzido. Fumantes têm duas vezes mais tecidos moles pode ser atribuída à falta de aperto do parafuso de cobertura, a
predisposição para o fracasso com implantes que os não fumantes14-15. Embora contaminação pré-operatória ou resíduos retidos na sutura5. Essas situações
seja difícil relacionar o aumento de falhas de implantes a algum fator específico, podem impedir que o tecido conjuntivo seja reparado, uma vez que ocorre
o retardo da cicatrização e infecções peri-implantares apresentam taxas de falha a liberação de neutrófilos e enzimas lisossomais, e, como consequência,
significantemente maiores em fumantes9,19.

Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago 2011 49


Fatores de risco em implantes dentais: uma revisão crítica

proteólise (quebra de tecido) perpetuando a resposta inflamatória. Além Tipos de implantes


disso, bactérias locais da superfície granular, ocasionalmente, inibem a Embora não haja diferença significativa no índice de sucesso clínico
epitelização especialmente através de alguns estreptococos31. de implantes lisos ou de superfície rugosa, dados recentes sugerem que
Os fatores gerais podem interferir com a cicatrização de feridas como implantes com superfície rugosa oferecem maior contato ósseo favorecendo
idade, a baixa concentração de proteína sérica, vitaminas A, C e K, número a cicatrização, além de proporcionar uma maior fixação do implante
reduzido de eritrócitos, liberação de histamina e hormônios2. Condições durante o período cicatricial8. Atualmente, praticamente todos os implantes
patológicas que causam pobre vascularização e diminuem a resposta apresentam algum tipo de tratamento de superfície, e, em função disso,
inflamatória, como diabetes mellitus, anemia, uremia, doenças do colágeno numerosos tipos de superfícies têm sido desenvolvidos visando uma melhor
e icterícia também podem desempenhar um prejuízo na cicatrização28. Em performance clínica12.
geral, a causa mais importante de demora na cicatrização é a interferência
na microcirculação. Diâmetro dos implantes
Um dos fatores que contribuem tanto para o sucesso quanto para falhas
Falha na sutura dos implantes é o seu diâmetro, que deve estar diretamente relacionados
O principal objetivo da sutura é o reposicionamento e coaptação dos com a espessura óssea, espaço interdental, estética e oclusão. Implantes
retalhos cirúrgicos para promover a hemostasia e adequada cicatrização. curtos de plataforma larga são biomecanicamente mais apropriados
Uma sutura correta depende de uma adequada técnica, materiais de boa para substituição dos dentes posteriores devido aos contornos biológicos
qualidade e um protocolo correto. A falha de uma sutura resulta em uma semelhantes àqueles encontrados nas cervicais dos dentes naturais8.
incapacidade para aproximar retalhos de tecidos podendo resultar em uma Entretanto, implantes de largo diâmetro em osso delgado, com menos de
área exposta do osso alveolar, contribuindo para a necrose, dor, perda óssea 1 mm de espessura entre as tábuas ósseas (V-L), podemos ter deiscência
e atraso da cicatrização17. óssea (Figura 3a e 3b), em função da pequena irrigação14-15.

FALHAS DE PLANEJAMENTO
O sucesso clínico e a longevidade do implante como suporte de uma
prótese dependem de vários fatores. O planejamento reverso consiste
em primeiro planejar a prótese e, em função desta, realizar a instalação
cirúrgica dos implantes. As falhas de planejamento estão associadas a
alguns fatores entre os quais destacamos17,26.

Posição dos implantes


O tipo mais comum de falha é causada por um plano de tratamento
deficiente e/ou execução cirúrgica inadequada. A colocação do implante
deve ser guiada e controlada de forma precisa, a fim de suportar as
próteses, isto é, a restauração deve orientar a colocação do implante e o
planejamento deve levar em conta a forma e posição da restauração27.
Um adequado posicionamento do implante pode reduzir os riscos de
fraturas, além de minimizar a reabsorção óssea ao redor dos implantes.
Uma inadequada orientação axial ou mal posicionamento dos implantes,
difilcultam significativamente a construção da prótese17,27 podendo levar Figura 3a - Esquema mostrando deiscência óssea.
a problemas biomecânicos para a conexão intermediário-implante, e, em
situações severas sobrecarga nos implantes27.

Número de implantes
Através do enceramento de diagnóstico, obtém-se a extensão protética
da região a ser reabilitada e quantos elementos protéticos serão necessários
na reabilitação. É fato que um número maior de implantes para um
determinado espaço protético suporta melhor as cargas mastigatórias
dissipando no osso o estresse de forma mais efetiva. Todavia, espaços muito
próximos entre implantes podem levar a comprometimentos biológicos, em
função da pouca vascularização do remanescente ósseo entre implantes,
além da dificuldade de higiene após a construção da prótese. Portanto, para
decidir o número de implantes, devemos levar em consideração o espaço
Figura 3b - Recessão em área estética após a conclusão dos trabalhos
mesiodistal, o volume, a densidade óssea e a oclusão em relação à dentição protéticos.
antagonista26.

50 Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago. 2011


ARTIGOS DE REVISÃO

Ramos MB, Silva PMD da, Pimentel GHD, Costa MD, Oliveira Neto LA de, Oliveira PCG de

Comprimento dos implantes Espaço entre implantes


Vários tamanhos de implantes podem ser encontrados no mercado, O espaço entre implantes deveria ser de 3-5 mm, dependendo do tipo
variando entre 7 mm e 20 mm. Porém, seu uso está condicionado à altura de osso e, entre implante e dente, no mínimo 2 mm (Figuras 5a e 5b). Esses
do remanescente ósseo. O sucesso a longo prazo dos implantes depende espaços devem permitir um adequado protocolo de higiene da próteses7,14.
da quantidade óssea existente entre osso-implante que é proporcional
ao comprimento, superfície e qualidade óssea disponível. Por outro lado,
as falhas podem aumentar à medida que a ancoragem óssea diminui.
Portanto, deve-se evitar colocar implantes curtos onde a estrutura óssea
permite implantes mais longos14-15.

FALHAS MECÂNICAS
As falhas mecânicas estão relacionadas a algumas situações entre as
quais destacamos30.

Próteses provisórias
O papel dos provisórios vão desde a manutenção ou recuperação
da saúde periodontal, passando pelo restabelecimento oclusal até a
reabilitação estética e functional. Os pacientes deverão ser orientados
sobre a necessidade de mudanças na dieta e orientados sobre os riscos e Figura 5a - Espaço minímo de 3 mm entre implantes e de 2 mm entre
dente e implante.
potenciais consequências de uma sobrecarga precoce sobre os implantes na
fase de provisórios13.

Hábitos parafuncionais
Bruxismo e apertamento podem criam algumas complicações uma
vez que comprometem componentes protéticos e materiais de cobertura,
além de força excedende a capacidade do osso em suportar tais cargas.
No apertamento dental as cargas excessivas são verticais, ao passo que
no bruxismo (Figura 4) forças excêntricas ao longo eixo estão presentes,
podendo causar afrouxamento ou mesmo fratura de parafusos. Embora
não represente uma contra-indicação para implantes, o bruxismo pode
influenciar decisivamente no planejamento.

Figura 5b - Radiografia periapical transcirúrgica.

Extensões protéticas
O cantiléver aumenta os riscos de sobrecarga sobre os implantes (Figura
6). Sempre que possível, deve-se evitar extensões protéticas. Entretanto,
quando sua utilização for necessária, deverá ficar para mesial dos implantes
instalados. Nos casos de protocolo inferior, em que os cantilévers são
obrigatórios e para distal, deverão ter extensão aproximada de 20 mm26.

Figura 4 - Paciente em habitual com bruxismo e desgaste severo. 

Caso a parafunção não seja diagnosticada, interceptada e tratada


adequadamente, poderão ocorrer complicações, tais como fratura de
componentes protéticos, de material de cobertura, da infra-estrutura
metálica e do próprio implante, além da possibilidade de perda da
osseointegração.

Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago 2011 51


Fatores de risco em implantes dentais: uma revisão crítica

Figura 6 - Cantiléver aumenta os riscos de sobrecarga sobre os Figura 7 - União dente-implante deve ser evitada.
implantes.
Oclusão x implantes
Altura da restauração Um esquema de oclusão mutuamente protegida, com cúspides baixas e
Quando a altura do complexo pilar-coroa é exagerado o braço de plataforma oclusal reduzida da prótese facilita o direcionamento das forças
alavanca para o implante é consideravelmente maior. Caso as forças favorecendo a biomecânica e minizando os efeitos deletéricos. O controle das
laterais sejam aumentadas, aumentam-se os riscos de fratura de parafusos forças pela correta aplicação dos princípios de oclusão também é facilitado
e dos componentes. Portanto, torna-se fundamental uma desoclusão nas pela ferulização das próteses através de conectores rígidos. Um ajuste
excursões protrusivas e laterais facilitadas3,26. oclusal criterioso é indispensável nas reabilitações implantossuportadas,
especialmente nos casos de pacientes com parafunção, onde cargas oclusais
Falhas de componentes excessivas estão presentes. Esse  problema pode ser minimizado com uso
Algumas falhas de componentes são relatadas na literatura como: de placas oclusais acrílicas. Em overdentures e prótese tipo protocolo, a
afrouxamento e/ou fraturas de parafusos, fraturas de implantes e fraturas oclusão deve ser muito bem distribuída, com forças distribuídas sobre
dos materiais de revestimento26. Durante a fase protética devemos observar o maior número de implantes e os cantilevers reduzidos sempre que
alguns aspectos como a passividade de assentamento dos componentes, possível26.
assim como o torque aplicado no intermediário e no parafuso da prótese. O
desajuste entre prótese/implante ou intermediário é encontrado com certa Controle das reabilitações
frequência, e, em próteses unitárias, especialmente em região posterior, É de extrema importância o acompanhamento (clínico e radiográfico)
pode causar tensão nos parafusos, tornando-se um fator de risco3. dos pacientes pelo profissional. A higienização com o uso de escovas
interdentais e o fio dental é indispensável. A saúde do tecido peri-implantar
União dente-implantes deve ser mantida estável e saudável. A falta de instruções detalhadas no
A união dente-implante é um fator de risco, uma vez que os dentes pós-operatório para o paciente ou falha por parte do paciente em dar
apresentam mobilidade 10 x maior que implantes26. A percepção oclusal em cumprimento às instruções do profissional podem levar a situações de
dentes é em torno de 20 μm, já em união dente-implante gira em torno difícil resolução posterior. Má comunicação entre os profissionais e entre o
de 40 μm. Quando a oclusão ocorre apenas entre implantes, a percepção profissional e o paciente podem levar ao fracasso do tratamento.
é de aproximadamente 64 μm. Portanto, a união dente-implante deve ser
evitada sempre que possível (Figura 7).
DISCUSSÃO

As taxas de sucesso em implantodontia são consideravelmente altas para


pacientes tratados com implantes dentários. As falhas ocorrem geralmente
em um ritmo baixo, mas tendem a aumentar em pacientes com doenças
sistêmicas e fatores de riscos evidentes relacionados aos implantes,
técnicas, anatomia, saúde sistêmica, oclusão e respostas inflamatórias do
hospedeiro.
Uma parte importante de qualquer tratamento, especialmente de
tratamentos eletivos, devem incluir o planejamento adequado e a

52 Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago. 2011


ARTIGOS DE REVISÃO

Ramos MB, Silva PMD da, Pimentel GHD, Costa MD, Oliveira Neto LA de, Oliveira PCG de

correta interpretação das informações coletadas durante as consultas de e manutenção, para que se possa detectar complicações precoces, fazer
diagnóstico, isto é, o planejamento reverso é um pré-requisito para todo intervenções e, assim, obter maior longevidade e bem estar do paciente nas
tratamento odontológico eletivo. A maioria dos erros clínicos ocorre na fase reabilitações com implantes.
pré-operatória reforçando a idéia de que a maioria dos erros poderia ter
sido evitada12.
O posicionamento desfavorável do implante deve ser relevado26-27. REFERÊNCIAS
Alguns profissionais tendem a negligenciar a importância da localização
correta do implante por sua tendência otimista em acreditar que uma
posição desfavorável poderia ser corrigida durante a fase protética do
1. Abrahamsson I, Berglundh T, Linder E, Lang NP, Lindhe J. Early
tratamento. Infelizmente, isso nem sempre é possível. Alguns estudos11,18,26
bone formation adjacent to rough and turned endosseous implant
mostram que tais casos, podem comprometer todo o plano de tratamento,
surfaces. An experimental study in the dog. Clin Oral Implants Res.
levando a uma grande frustração tanto do paciente quanto do profissional.
2004;15(4):381-92.
Outros tipos de falhas envolvem fratura e quebra de próteses. Muitos dos
2. Allgöwer M. Wound healing. In: Wound closure in the operating
materiais usados para restaurar implantes são derivados de restaurações
theater. Melsungen: B. Braun; 1981.
convencionais, como, por exemplo, resinas de base de dentaduras. Usuários
3. Ashley ET, Covington LL, Bishop BG, Breault LG. Ailing and failing
de próteses totais desenvolvem força de mordida relativamente menor
endosseous dental implants: a literature review. J Contemp Dent
comparado a força gerada com restaurações implantossuportadas. A fratura
Pract. 2003;4(2):35-50.
é uma falha comum de restaurações tipo overdenture e protocolo10,34.
4. August M, Chung K, Chang Y, Glowacki J. Influence of estrogen status
Falhas iatrogênicas também ocorrem com certa frequência. O torque
on endosseous implant osseointegration. J Oral Maxillofac Surg.
aplicado aos parafusos nos intermediários devem obedecer as instruções
2001;59(11):1285-9.
do fabricante. Danos no implante podem ocorrer quando a força aplicada
5. Beirne OR, Worthington P. Problems and complications in implant
é excessiva. A queba de componentes protéticos ocorrem com uma certa
surgery: the surgeon’s perspective. Oral Maxillofac Surg Clin North
frequência podendo levar a exposição de implantes e comprometimento do
Am. 1991;3:993–1000.
trabalho protético10,34.
6. Berglundh T, Persson L, Klinge B. A systematic review of the incidence
Sobrecarga oclusal em um implante osseointegrado ocorre quando
of biological and technical complications in implant dentistry
o limite de carga definida pelo fenômeno biológico de osseointegração
reported in prospective longitudinal studies of at least 5 years. J Clin
é excedido. Pouco se sabe sobre esse limite biológico e o potencial fator
Periodontol. 2002;29 Suppl 3:197-212.
influente como a qualidade do osso, modificações superfície do implante,
7. Bergström J, Preber H. Tobacco use as a risk factor. J Periodontal.
e do tipo e direção de forças34. Enquanto o apertamento exerce forças
1994;65(5 Suppl):545-50.
primariamente verticais, o bruxismo cria forças laterais excessivas, que são
8. Buser D, Nydegger T, Hirt HP, Cochran DL, Nolte LP. Removal torque
menos toleradas pelo organismo. Sobrecargas resulta em uma súbita perda
values of titanium implants in the maxilla of miniature pigs. Int J Oral
de osseointegração com mobilidade do implante24,26.
Maxillofac Implants. 1998;13(5):611-9.
Portanto, o cirurgião-dentista deve manter sempre o controle da
9. Cavalcanti R, Oreglia F, Manfredonia MF, Gianserra R, Esposito M.
situação clínica e radiográfica, a fim de detectar complicações precoces.
The influence of smoking on the survival of dental implants: a 5-year
Com um bom acompanhamento, muitas dessas complicações podem ser
pragmatic multicentre retrospective cohort study of 1727 patients.
diagnosticadas e resolvidas, não comprometendo a reabilitação. Próteses
Eur J Oral Implantol. 2011;4(1):39-45.
mal adaptadas, contatos oclusais inadequados, má-higienização são
10. Chee W, Jivraj S. Failures in implant dentistry. Br Dent J.
exemplos de problemas que podem ser revertidos com a intervenção do
2007;202(3):123-9.
profissional. Em qualquer situação, o controle do profissional e os cuidados
11. Chuang SK, Cai T, Douglass CW, Wei LJ, Dodson TB. Frailty approach for
dos pacientes são essenciais para o sucesso dos tratamentos reabilitadores
the analysis of clustered failure time observations in dental research. J
com implantes dentais10-11,34.
Dent Res. 2005;84(1):54-8.
12. Coulthard P, Esposito M, Slater M, Worthington HV, Kay EJ. Prevention.
Part 5: Preventive strategies for patients requiring osseointegrated
CONCLUSÃO oral implant treatment. Br Dent J. 2003;195(4):187-94.
13. Dominici J. Prosthodontic considerations in first state implant failures.
Oral Maxillofac Surg Clin North Am. 1998;2:235-53.
A seleção dos pacientes antes da cirurgia e a obediência a certos princípios 14. el Askary AS, Meffert RM, Griffin T. Why do dental implants fail? Part I.
nas etapas cirúrgica e protética, assim como uma boa manutenção Implant Dent. 1999;8(2):173-85.
dos trabalhos executados são medidas imprescindíveis para prevenir 15. el Askary AS, Meffert RM, Griffin T. Why do dental implants fails? Part
complicações nas reabilitações com implantes. É indispensável prevenir II. Implant Dent. 1999;8(3):265-77.
o fracasso do tratamento por meio de um planejamento adequado que 16. Esposito M, Thomsen P, Ericson LE, Lekholm U. Histopathologic
facilite o estabelecimento da osseointegração, bem como a preservação observations on early oral implant failures. Int J Oral Maxillofac
da osseointegração já conseguida. A preocupação do profissional não se Implants. 1999;14(6):798-810.
deve se restringir ao planejamento e tratamento, mas também no controle

Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago 2011 53


Fatores de risco em implantes dentais: uma revisão crítica

17. Giglio J, Laskin D. Perioperative errors contributing to implant failure.


Oral Maxillofac Surg Clin North Am 1998;2:197-202.
18. Givol N, Taicher S, Halamish-Shani T, Chaushu G. Risk management
aspects of implant dentistry. Int J Oral Maxillofac Implants.
2002;17(2):258-62.
19. Gotfredsen K, Lindh CH, Berglundh T. Does longstanding nicotine
exposure impair bone healing and osseointegration? An experimental
study in rabbits. J Biomed Mater Res B Appl Biomater. 2009;91(2):918-
23.
20. Greenstein G, Greenstein B, Cavallaro J. Prerequisite for treatment
planning implant dentistry: periodontal prognostication of
compromised teeth. Compend Contin Educ Dent. 2007;28(8):436-46.
21. Heydenrijk K, Meijer HJ, van der Reijden WA, Raghoebar GM, Vissink
A, Stegenga B. Microbiota around root-form endosseous implants: a
review of the literature. Int J Oral Maxillofac Implants. 2002;17(6):829-
38.
22. Jeffcoat MK, Lewis CE, Reddy MS, Wang CY, Redford M. Post-
menopausal bone loss and its relationship to oral bone loss.
Periodontol 2000. 2000;23:94-102.
23. Margarone JE, Thines TJ, Drinnan AJ, Ciancio SG. The effects of alcohol
and cetylpyridinium chloride on the buccal mucosa of the hamsters. J
Oral Maxillofac Surg. 1984;42(2):111-3.
24. Meffert RM. Issues related to single-tooth implants. J Am Dent Assoc.
1997;128(10):1383-90.
25. Müller P, Hepke B, Meldau U, Raabe G. Tissue damage with rabbit oral
mucosa by acute and chronic divert toxic action of different alcohol
concentrations. Exp Pathol. 1983;24(2-3):171-81.
26. Renouard F, Rangert Bo. Fatores de risco em implantodontia:
planejamento clínico simplificado para prognóstico e tratamento. 2nd
ed. Chicago: Quintessence; 2001.
27. Salama H, Salama MA, Li TF, Garber DA, Adar P. Treatment planning
2000: an esthetically oriented revision of the original implant
protocol. J Esthet Dent. 1997;9(2):55-67.
28. Shelton DW. Basic surgical principles for implantology. In: McKinney
RV Jr. editor. Endosteal dental implants. St. Louis: Mosby; 1991.
29. Smith RS. Long-term complications of osseointegrated implants. In:
Kaban BL, Progrel MA, Perrot HD, editors. Complications in oral and
maxillofacial surgery. Philadelphia: Saunders; 1997.
30. Tagger Green N, Machtei EE, Horwitz J, Peled M. Fracture of dental
implants: literature review and report of a case. Implant Dent.
2002;11(2):137-43.
31. Trowbridge HD, Emling RC. Inflammation: a review of the process. 5th
ed. Chicago: Quintessence; 1997.
32. Vlassara H, Brownlee M, Manogue KR, Dinarello CA, Pasagian A.
Cachectin/TNF and IL-1 induced by glucose-modified proteins: role in
normal tissue remodeling. Science. 1988;240(4858):1546-8.
33. Zablotsky MH. A retrospective analysis of the management of ailing
and failing endosseous dental implants. Implant Dent. 1998;7(3):185-
91.
34. Zitzmann NU, Krastl G, Hecker H, Walter C, Waltimo T, Weiger R.
Strategic considerations in treatment planning: deciding when
to treat, extract, or replace a questionable tooth. J Prosthet Dent.
2010;104(2):80-91.

54 Innov Implant J, Biomater Esthet, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 47-54, maio/ago. 2011