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ENSAIO ACERCA DOS SINTOMAS

SIMBÓLICOS
Da Cabrita Desvalida ao Senhor do Mundo, e um
Pouco de Todos Nós

Sou a melhor do
mundo, mas os outros
me perseguem...

Estou bastante feliz , mas com essa


essa aparência os outros não
Do jeito que a
gostam...
psianálise está indo ela
vai acabar virando
uma psicANALlise

Prof. Dr. Francisco Martins


LABORATÓRIO DE PSICANÁLISE E PSICOPATHOLOGIA CAIXA POSTAL 04462-UNB
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA CLÍNICA - INSTITUTO DE BRASÍLIA DF 70904-970
PSICOLOGIA TELEFONE 0055 (61) 84363910
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA fmartins@unb.br
www.unb.br/ip/pcl/franciscomartins
BRASÍLIA, 2007
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 2

Ao Prof. Richard Bucher,

onde estiveres, ofereço-te este escrito como símbolo de amizade e reconhecimento.

E lembrando ainda um nosso bate-papo antigo:

— Richard, o símbolo é como dois pedaços de uma porção de madeira que foi
rachada e que, depois de serem postos juntos, a forma original se refaz perfeitamente...
— Chico, lá vem você copiando velhas definições! Pará com isso! Você não muda,
continua com a tua mentalidade tupiniquim de sempre!
— Mas, Professor, o nosso encontro aqui não é a mesma coisa? Cada vez que somos
amigos o símbolo não se torna vivo??!
— Com certeza, Chico, deste jeito ficou bem melhor... Vamos comer um churrasco
no meu sítio lá em Formosa?? Já chamei o Simil, a turma do CORDATO, do CEF, os meus
filhos e até alguns convidados argentinos, baianos, franceses e goianos...

— [Penso hoje] Ehhh!! Richard, você faz falta... È claro que você não concordaria
que este texto perfaz a parte faltante. Mesmo assim, ele vai como minha parte no símbolo que
ficou rachado para todo o sempre com o seu passamento.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 3

Índice

ENSAIO ACERCA DOS SINTOMAS SIMBÓLICOS


Da Cabrita Desvalida ao Senhor do Mundo, e um Pouco de Todos Nós

Índice
Resumo
1. Introdução
2. Sintoma simbólico, queixa e causalidade: um pequeno
reparo contra a idéia de totalização
3. O campo clínico de estudo dos sintomas simbólicos.
4. Três teses acerca do sintoma simbólico em relação ao
campo psicopathológico
5. O sintoma simbólico neurótico
5.1. A histeria
5.2. A neurose obsessiva
5.2.1. Metáfora, sintoma e Édipo na neurose
5.3. A neurose fóbica
5.4. A tese geral do sintoma simbólico neurótico
6. As perversões
6.1. Um objeto que se transforma ao longo do tempo
7. As psicoses
7.1. A esquizofrenia
7.2. A paranóia
7.3. A catatonia
7.4. As psicoses são doenças do Eu
8. As timopatias
8.1. A melancolia
8.2. A mania
8.3. As timopatias
8.4. Concluindo e articulando com os dias de hoje: a
hipomania é elogiada no mundo atual, até no futebol,
acelerado e mecanizado
9. Os sintomas simbólicos são também pulsionais
10. Alusão aos sintomas psicossomáticos
11. Conclusão
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 4

Resumo

Ensaio sobre os sintomas simbólicos é um título acadêmico, mas que é seguido por termos
mais da fraseologia do dia-a-dia e que pertence ao mundo da clínica e de todos nós no
cotidiano. Ocuparemos-nos neste trabalho de investigar os principais sintomas simbólicos
presentes no dia a dia da vida das pessoas e também daquelas que estão atravessando
dificuldades, agruras dos destinos cruéis da vida, bem como de seu gozo. Entendemos que o
sintoma simbólico é a variante clínica do fato de sermos este “animal que fala e deambula”
(Anthropos logon echon). Trataremos aqui mais de clínica, e da presença da atividade
simbólica como essencial para o seu entendimento e tratamento. Não realizaremos uma
dicionarização de símbolos, ícones, índices, alegorias. Isto existe em profusão em dicionários
e também em grande número de teorias. Qualificaremos principalmente a linguagem como
sendo o simbólico e suas repercussões em quatro grandes campos clínicos: as neuroses, as
perversões, as psicoses e os distúrbios do humor. Desenvolveremos hipóteses específicas para
explicar a produção de sintomas em cada um destes campos de adoecimentos psíquicos que
são específicos do humano. Isto acompanhado de estudos clínicos para tornar acessível, mas
ao mesmo tempo evidenciar a pujança da atividade simbólica na clínica: tanto a cabrita
desvalida quanto o Senhor do mundo são, entre outras, modalidades de elaboração da
existência na qual a metáfora, o humor, o desejo e a prepotência fazem parte da
potencialidade para o desagradável, mas também para a felicidade.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 5

1. Introdução

Terezinha de Jesus A. entrou no Pronto Socorro abarrotado de gente empurrada em


uma cadeira de rodas por um rapazinho que aparentava uns 17 anos. Ao olhar para o mesmo,
adentrando no consultório, a paralítica mirou-me dizendo com uma voz muito límpida:
___
Doutor, pode deixar ele entrar. Gerôncio é o meu legítimo esposo...
Angustiadíssimo, Gerôncio, olhando-me agitado, ciciou:
___
Acabamos de casar. Num faz 24 horas e já tamos nesta agonia. Sou pobre, mas
pago o que for pra Terezinha se desaleijar...
Prometo-lhe que voltarei a conversar com ele e com os familiares, a mãe e o pai,
depois de atender a urgência desvelada sob a forma de uma impossibilidade de andar
absoluta de Terezinha. O consultório se esvazia e fico sozinho com a paralisia e um mundo
obscuro e desconhecido que certamente aquela jovem esposa trazia, juntamente com seu
sintoma que espetacularmente movia uma família inteira de um interior ermo do país para
um Hospital Universitário. Com rosto e corpo ainda de uma menina e uma perna esticada
feito um aríete na minha direção, abriu o verbo, contando-me então ter casado depois de seis
meses de namoro com o primo. Sorri e diz estar sem poder andar desde ontem, o primeiro dia
de núpcias. Aí então sua face clara fica lívida e amargurada:
___
Sinto tudo zoando na cabeça e num me agüento em pé mais. Num gostei do que
aconteceu. Gerôncio é bom, foi bom, mas foi tudo muito estranho... Ele me abraçou e quis
fazer o que os bodes fazem com as cabritinhas. Uma vez vi uma que enfraqueceu com o peso
do bode e caiu no chão. Fui lá e ajudei, mas era muito novinha para aquilo...
Aquiesço com a cabeça e ela sorri sem graça, parecendo ter pensado que eu tinha
pensado que ela era a cabrita do Gerôncio. Meus silêncio e acolhimento da sua associação -
que ela depois disse nem saber por que falado naquilo - a fez prosseguir.
___
Acho o Gera mais um irmão do que um marido. Somos amigos desde pequenos.
Mas quero é brincar de boneca. Sexo num é pra mim não... Num gosto, parece coisa bruta.
Chora copiosamente. Acolho seu choro balançando a cabeça afirmativamente. Chora
mais ainda, aos soluços. Diz que não foi forçada, mas que o marido havia ejaculado nas suas
pernas na agitação da noite de núpcias. Fez cara de asco. Vomita. Indico a pia. Ela levanta
relutante e descarrega uma mistura de líquido com macarrão aos pedaços. Dou-lhe um copo
d’água, lava a boca e cospe na pia. Fazia careta como se tudo aquilo um veneno fosse.
Constato mais uma vez o pdoer traumático que tem a sexualidade.
Inquieta-se sobre se vou contar algo dos segredos “por ela secretados”, penso eu.
Digo que ela estará presente na conversa com o esposo - e quem mais ela quiser que esteja.
Emendo e digo-lhe: “Você pensa que eu sou um médico ou o que?”. Sorri.
___
Tô me sentindo melhor e a fraqueza da perna ta passando. A coisa ruim que sentia
por dentro e ia pras pernas parece que saiu quando vomitei.
Anda apoiando-se nos móveis da sala, espontaneamente abre um pouco a porta e
chama o esposo. Este fica alegre de vê-la bem melhor. Dá-lhe o braço, como um cavalheiro
faz, e Terezinha anda mais e mais - até se verticalizar de vez, levantando a cabeça.
Combinamos em seguida que ela voltaria no dia seguinte ao ambulatório. A família e o
esposo nada quiseram comentar e somente agradeceram.
Fiquei a pensar sobre a catarse e o seu efeito de retirada de veneno do corpo das
pessoas. Essa era a teoria grega acerca da catarsis, onde o vomitório era essencial na retirada
do mal de dentro do sujeito. Pensei, com Freud, na identificação e rejeição de Teresinha do
ato sexual, “mesmo legítimo”, e na cena infantil do chiqueiro: uma cabritinha brutalizada
pela sexualidade de um pai-de-chiqueiro reprodutor, bodejador de feromônios que dizem
com a sabedoria da natureza se a cabrita está pronta para ser fecundada ou não. De imediato,
penso também em como o ser humano é mais complicado, muito mais ainda, pois Terezinha
fala de amor parecendo o sexo genital desconectado. Mas o desaparecimento do sintoma
ficou como fato inesquecível e nada fiz aparentemente. Anos depois aprendi que fiquei na
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 6

posição, quase que por instinto, talvez muito mais por pensar ser o mais razoável a fazer em
face de total impotência diante de uma paralisia sem diagnóstico, de uma douta ignorância.
Isto é, a manutenção de uma posição de “neutralidade acolhedora”: entendida,
obviamente, não no sentido ingênuo (naif) de um cientista dissecador de cadáveres ou
observador frio de buracos negros ns profundezas do universo, passivo, mas da consciência
de que Terezinha e seu séqüito estão no calor de um drama que os consome e que pode vir a
catabolisar também aquele que os recebe. Ignorância por implicar sermos humildes, não só
por estarmos somente nos achegando, mas também por reconhecer a imensidão da
responsabilidade do clínico em face da ferocidade e imensidão dos problemas que lhe são
apresentados na clínica cotidiana. “O homem desesperado se agarra a uma palha”, ensina
Dostoievski. E somos nós essa palhinha douta que pode vir a ser o suporte mínimo, mas
efetivo, para uma solução de algo que se apresenta como impossível.
Dizemos douta por tentar fazer emergir e manter-se uma posição cultivada e
germinativa que garanta tempo e espaço terapêutico para o sujeito secretar, metabolizar,
simbolizar - via de regra, metaforizando - aquilo que o incomoda de forma remanescente,
sem que ele o saiba - e que o sintoma simbólico aponta como fruto de um conflito, um
processo para o qual não se encontrou solução ainda. É manter-se na posição de uma douta
ignorância1: maneira de ser reservado e acolhedor do ser do outro que abra, não somente à
linguagem, sua máxima possibilidade de bem dizer e de realização de atos efetivos que o
simbólico pode propiciar. Cura-se por atos e palavras que organizam a solução do sintoma
simbólico, ou da parte simbólica que o engendra.
Desde então ficou claro que a fama não somente de nossos colegas psicanalistas,
psicoterapeutas, hipnólogos, médicos clínicos, cirurgiões, mas também inúmeras curas
realizadas por curandeiros famosos, xamãs, estão envolvidas com o que chamamos aqui de
simbólico. Sublinhamos que o sintoma é a expressão de que ainda estamos vivos,
potencialmente desejando, ainda que estrebuchando para a morte e /ou a castração. A dor
psíquica, ou localizável no corpo, é inescapável para aquele que a experimenta. O sintoma,
aqui, tomado como a parte sensível, externa, a aparência de processos nem sempre evidentes
ao olho e à observação mais acurada. O conflito, por exemplo, está potencialmente presente,
mas nem sempre é acessível em primeira mão. Grosseiramente, podemos afirmar que as
palavras, os ditos de Terezinha tiveram o poder de curá-la da paralisia. Sabemos que o
caminho é mais longo do que a solução dada em Pronto Socorro. Trata-se de um processo
que envolve todo o ser de Terezinha, sua família e a mim mesmo como terapeuta que estava
à mão naquele local e hora.
.O termo símbolo - e derivados como simbólico, simbolismo, simbolização - traz
consigo uma compactação babélica de pontos de vista e teorias ao infinito que continuam
sendo construídos na esperança de alcançar o céu. Depende de cada teoria, autor, escola,
tradição. Enfim, tocar na definição de símbolo leva-nos no mínimo a uma moderna torre de
Babel, construída na boa vontade e destruída na discórdia inevitável que virá entre os
diversos contendores que nos obrigam a lê-los para sermos fraudulentos com os mesmos. Ao
abrirmos cada livro sobre símbolo vemo-nos em face de um novo paciente histérico
paranóide, que vai nos ensinar algo que nunca é estável. Não queremos, juntando o termo
simbólico com o termo sintoma, fazer um novo grande sintoma, agora construído de um
aglomerado de teorias. Assim, tentaremos ao longo do texto explicitar em que autor estamos
a nos apoiar, para que se facilite o entendimento da língua e teoria em execução.
Procuraremos então não ser fraudulentos, ainda que a inflação de citações possa parecer uma
coisa acadêmica enfatuada. Não se trata disso, mas do próprio sintoma que a linguagem, a
discórdia e o pensar humano comportam. Desculpamo-nos, sintomaticamente, de antemão
por não termos uma só teoria, ou mesmo aquela que julgamos a melhor, ainda que Freud e
Lacan ocupem o nosso reconhecimento maior.

1
Fomos esclarecidos a posteriori na leitura de Jean-Paul Valabrega: A Formação do Psicanalista, 1ª Edição,
São Paulo, Martins Fontes, 1983.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 7

A clínica nos ensina que a dor é um fenômeno que emerge em todos os animais que
têm uma maior diferenciação do sistema nervoso. É o sofrimento reativo primário típico que
surge, exprimindo uma disposição específica da nossa natureza animal. Infelizmente, não
sofremos somente de dor. As possibilidades humanas de sofrimento são mais amplas - e
relacionadas diretamente com o que constitui o propriamente humano. Por isso não nos
parece suficiente realizar uma semiologia baseada somente na elucidação da sintaxe da
natureza. Esta foi a glória e a limitação final da medicina do século XIX, representada, por
exemplo, pela psiquiatria que se recusava a ver de frente fenômenos que eram produtos não
apenas naturais, mas especificamente humanos. Assim, se a dor é o consuetânea ao fato de
termos um corpo - e este mesmo corpo ser similar aos de outras formas de vida - nem por
isso devem ser descartadas as diferenças que caracterizam singularmente os seres humanos.
A dor mais comum no mundo inteiro é a cefaléia universal. Certamente que a
contratura muscular involuntária da região cefálica pode explicar como o corpo efetivo
material (Körp) está a funcionar produzindo dor. Contudo, do ponto de vista psicanalítico –
bem como daqueles advindos de análises tanto da lingüística quanto da fenomenologia do
corpo vivido (Leib) - grande número de dores deste tipo tem origem simbólica. O corpo
vivido evidencia mais efetivamente o componente simbólico presente em uma dor de cabeça.
Uma indicação interessante acerca da possível presença da chamada eficácia simbólica são as
melhorias de sintomatologia obtidas através de um placebo. A dor de cabeça universal tem
uma resposta positiva ao efeito placebo entre 46 a 73,5 %, ou seja, uma média de 61,9% em
2 939 casos compilados por Kissel e Barrucand 2. Por vezes, em um caso isolado, alcança-se
80% de melhoria. Independente do tamanho da amostra ou do percentual obtido, os diversos
estudos corroboram a idéia de que o efeito placebo tem boa eficácia nas cefaléias, isto é,
acima do número médio mágico que Beecher3 estabeleceu para a eficácia geral do efeito
placebo de 32 ± 2,5 %. Não somente as cefaléias estão contempladas, apontando-se
percentagens de melhora subjetiva após administração de placebo4: Parkinsonismo 6 - 18%;
Rinite alérgica 22%; Motilidade intestinal diminuída 27%; Angústia, tremores 30%; Dores
(variando 4-20-30-50-60-86% dependendo do tipo); Tosse 36-43%; Influência sobre a
pressão sanguínea 51-60%; Náusea, enjôo 58-61%; Ulcera gástrica e duodenal 55-75-88%;
Artrite crônica (melhora do estado geral dos pacientes) 80%.
O mecanismo somático pelo qual a atividade simbólica atua eliminando sintoma
permanece ignoto. Porém, a sua presença parece permear toda e qualquer atividade clínica5.
Há mais de 20 anos, a seguinte cena se desenrolou no Pronto Socorro de um Hospital da
Rede Pública. A Senhora M., asmática, já na entrada do PS, apresentava-se ofegante,
angustiada e com o peito cheio. Era a sua quinta crise de asma no mês. Recebida por um
clínico, recusou de imediato aminofilina, dizendo muito dispnéica querer ‘corticóide de
imediato’ para amenizar a crise, pois nenhum outro remédio resolveria. Sem corticóide na
farmácia e sem outros recursos, o colega médico socorrista ‘improvisou’, informando a
paciente que usaria então um ‘meticorten light’ no soro que já hidratava a angustiada
paciente. Trinta minutos depois, M. estava com poucos roncos e sibilos, já respirando sem
afobação. Proclamou então em voz alta:
__
‘Esse foi o melhor corticóide que já tomei na minha vida!!’.

Esta história, por mais caricatural que pareça, faz parte do dia a dia dos pacientes,
dos clínicos e daquilo que, pejorativamente ou não, é chamado de placebo. Que diferença fez
o doutor nomear com um novo significante uma substância suposta de ter efeito na constrição
brônquica! Igualmente a influência, a sugestão e a transferência são temas essenciais para
quem queira articular o estudo do adoecimento com a atividade simbólica. A constituição do
2
P. Kissel; D. Barrucand. Placebos et Effet Placebo en Medicine, Paris, Masson Éditeurs, 1964.
3
H. K. Beecher. “Surgery as Placebo” in Journal of the American Medical Association; 176:1102-1107, 1961.
4
Patrick Lemoine. Le Mystère du Placebo. Paris, Éditions Odile Jacob, 1996.
5
Francisco Martins; “Placebo: Eficácia e Desqualificação na Clínica Cotidiana” aceito para publicação in
Brasília Médica, 2007.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 8

sintoma tem, então, articulações com o fato de sermos seres simbólicos - merecendo não
somente a atenção dos psicanalistas, mas também a de fenomenologistas que dissecaram a
experiência da dor de cabeça como sendo estritamente articulada com o corpo próprio. O
entendimento de Erwin Straus 6 nos elucidou que

“o significado simbólico da cabeça está inscrito na percepção do corpo humano e


do mundo do homem. A posição ereta é um nó de significações existenciais pela
qual o homem está inserido na verticalidade e na horizontalidade da textura do
mundo. Concedida ao homem pela natureza, a posição ereta é-lhe oferecida como
possibilidade, e ele tem que conquistá-la por si mesmo. Estar em pé significa
ativamente endireitar-se e superar parcialmente a atração da gravidade.
Conseqüentemente, a altura é sinônimo de vitória, auto-afirmação, liberdade e
auto-superação. (...). A polaridade entre a posição ereta e prostrada introduz tensão
na vida do corpo (...). Não é surpreendente que os movimentos de liberação
ideológica, política e nacional tomem a linguagem metafórica de levantamento
(insurreição) dos oprimidos, e que as torres e pirâmides sejam expressão do poder
do homem como ele se eleva, ergue sua cabeça e tenciona afirmar a si mesmo.
Exultação (alegria) e depressão são também modos originais de existências que são
expressados em metáforas de movimentos corporais (...)”.

Entendemos o símbolo – este signo, marcado na sua acepção máxima pela


convenção, pela Lei entre os homens, por seus hábitos e costumes, é expressão de um Ser
passível de edipianização - como sendo e tendo uma relação intrínseca da vida psíquica no
corpo. Somos seres de linguagem, mas também seres que vivem em um meio essencialmente
simbólico. Uma simbolosfera ou semiosfera, se nos permitirem fazer uso de neologismos,
que apontam a participação - na nossa ecologia - da atividade simbólica. Esta semiosfera nos
atravessa e habita. Compartilhamos com Zanello7 que

“para se compreender um símbolo, faz-se essencial recolocá-lo dentro de um


sistema complexo de referências, nas e das quais vivemos. O sintoma perde
justamente esta referência, múltipla, em função do recalque de determinadas
representações que passam então a ser privilegiadas na sua formação. É o trabalho
de associação livre juntamente com a interpretação simbólica que o re-simboliza
ou metaforiciza. O sintoma é assim simbólico justamente porque tem sentido e a
palavra, a talking cure, pode fazê-lo desaparecer.”

Relembrando a formação que tivemos com o Professor Antoine Vergote 8, tomemos


um exemplo de uma enxaqueca crônica apresentada por um de seus analisandos. Em sua
associação livre aparecem duas imagens: uma de um pôster sobre drogas para curar a
enxaqueca, na qual aparecia a cabeça de um homem sofrendo marteladas; e outra imagem,
uma lembrança infantil, na qual o paciente tinha medo de ir ao jardim escuro pelo fato de
acreditar que um homem da noite o esperava com um martelo pesado, para esmagar sua
cabeça. O paciente se queixa também de uma intensa angústia e de um forte sentimento de
culpa de fundo religioso.

“A realização do significado da expressão verbal ‘um estouro na cabeça,


evidentemente aponta o significado simbólico da cabeça. Este significado que é
plural, agora é unificado. A cabeça é o locus dos pensamentos. Uma percepção
cinestésica é certamente a base desta localização, mais do que um conhecimento
objetivo da fisiologia do cérebro. A conexão entre a cabeça e os pensamentos
adquire seu significado simbólico pleno pela razão de outras simbolizações que
6
Straus, Erwin W. Phenomenological Psychology (Phenomenology, Background, Foreground & Influences)
(1960). Nova Iorque, Garland Publishing, 1980.
7
Op. Cit.
8
Antoine Vergote; “The Symbolic Body and Symbolic Symptom” in International Journal of Psychology,
North Holand, 20, pp. 419-437, 1985.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 9

percebemos quando escutamos expressões metafóricas, tais como: perder a cabeça,


abaixar a cabeça, (...) erguer a cabeça, (...) etc. (...) A percepção corporal é
pervadida pelas pulsões, e estas dão um conteúdo existencial às metáforas
consideradas. Agora estas pulsões têm sua significância psicológica específica
dentro das categorias da linguagem, que diferenciam o acima e o abaixo, a
fraqueza e a força, a terra e o céu”.

Veremos no estudo principalmente dos sintomas neuróticos como esta articulação


entre psicanálise, fenomenologia e as teorias da metáfora se faz presente. Não obstante,
vemos como a metáfora não é compreendida como produto mental de substituição de
palavras numa linguagem já pronta e convencionada, mas como a própria linguagem, com
suas redes metafóricas, se produz e se imbrica num corpo vivido, pulsional. é no conjunto
simbólico, incluindo sua variabilidade polissêmica que dá à cabeça seu significado pleno,
temos que o sintoma, ao contrário, é simbólico no sentido de que ele tem um significado,
mas seu significado é justamente a dessimbolização das virtualidades simbólicas e
metafóricas das experiências corporais primárias, ensina-nos Zanello 9 interpretando Vergote
com acuidade.
Somos obrigados a reconhecer que as possibilidades de sofrimento humano são mais
ampliadas do que as de outros animais. Seja uma dor de cabeça, uma asma, um ato falho ou
senão uma paralisia histérica acompanhada de anedonia, vemos a presença da atividade
simbólica tanto na constituição quanto na resolução do sintoma e padecimento do sujeito.
Assim, não seria uma redundância retomarmos a história da Cabrita e a resolução alcançada
por ela mesma. Depois de uns meses de tratamento, Teresinha riu e disse-me que a cabrita
‘tava crescendo’, que seu nojo tinha diminuído e que estava até desejando “brincar de amor”
com Gerôncio. Aceitou que, enquanto animais, podemos sofrer da mesma dor de uma
cabritinha escanchada. No entanto, ajuntamos mais possibilidades ao campo do sofrimento
como, por exemplo, o podermos nos identificar, sentir empaticamente o mesmo que,
supomos, o caprino sofreu. Ou podemos, ainda, produzir uma crítica ferocíssima, como fez
Terezinha: “aquele bodão podia ser o meu pai!!!”, disse horrorizada, reconhecendo que era
contra o incesto para ela mesma - ainda que o aceitasse para os caprinos. Lembra então, com
surpresa, de algo esquecido: que seu pai, ao dormir na rede com ela nos braços, às vezes
prendia suas pernas. Aquilo lhe dava prazer, mas a deixava com as perninhas de menina de 3
anos formigando – a ponto de nem conseguir andar. Mesmo assim, gostava - ainda mais
quando ele se ocupava dela e a ninava outra vez.
Mais que a identificação e a crítica, o homem como ser de linguagem é capaz de
algo magnífico para a civilização e catastrófico para sua pulsionalidade: a renúncia. A
renúncia não promove um tipo de dor natural, encontrada espontaneamente, sem
historicidade, mesmo que percebamos que ela se exprima como um sofrimento objetivo e
diretamente articulado com o corpo próprio. Com a renúncia em ação, o humano se verá
exposto a outras modalidades de sofrimento, como a aspiração idealística insatisfeita, a
culpabilidade, o desgosto, os enganos com relação a si mesmo, a degradação e a colocação
no esquecimento de impulsões de desejo as mais íntimas e sinceras. Ao mesmo tempo, ela
possibilita o ordenamento e a organização das relações entre os homens, sendo construtora da
divisão do trabalho e da vida familiar, enfim da civilização.
Porém, a renúncia só se efetiva se existir um sistema simbólico que possibilite a sua
constituição, por um lado, e, por outro, que isto tome uma realidade efetiva concreta em um
dispositivo neurobiológico pulsional. Vemos desde logo que estudar o sintoma simbólico
pode abrir inúmeras possibilidades diferentes de abordagem e pontos de vista. Escolhemos
neste trabalho elucidar a semiosis do sintoma simbólico (vide o texto na caixa abaixo), ou o
modo de processamento em que o sujeito é perlaborado. Semiosis seria todo e qualquer modo
de produção de conhecimento, experiência ou sensação. Este mesmo processo geral tem uma
lógica que Freud mostrou estar presente nos sonhos, no humor, no chiste, na obra de arte. Por

9
Zanello, op. cit.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 10

evidência, o sintoma está articulado com a estrutura do ser - mas aqui o foco essencial será o
material que é usado para compô-lo, ainda que toquemos em algo do motivo e da disposição
estrutural.

APROFUNDANDO O QUE É SEMIOSIS, SEMIÓTICA E A LINGUAGEM 10


A definição do signo feita por Saussure, como sendo constituído de um significado e
um significante, tem evidentemente sua origem e aplicação delimitada ao campo da
lingüística - e não no sentido mais amplo que Saussure mesmo indicava como sendo de uma
semiótica geral, tomada por Peirce como a empreitada da sua vida. Tudo parece, portanto,
tender a mostrar que a lingüística é somente um dos territórios essenciais da semiótica ou da
semiologia. A linguagem, aqui, passa a ser entendida no seu sentido mais extenso, o que a
torna sinônimo de semiótica, e não no sentido mais restrito, saussuriano, que a faz sinônimo
de lingüística. De certa forma, encontramos um paradoxo que consiste em perguntar se a
linguagem é a condição para a semiótica ou a semiótica é condição para a linguagem. Afirmar
a importância que tem a linguagem é o que faz Barthes, indicando que não seria a lingüística
uma parte privilegiada da ciência geral dos signos, como afirmou Saussure, “é a semiologia
que é uma parte da lingüística” 11. Cumpre lembrar que, mesmo neste caso, o projeto de
estudos semióticos permanece íntegro, mesmo que reconheçamos todos os tipos de processos
semióticos como estreitamente ligados à dimensão lingüística. Ou seja, só é possível tratar de
fenômenos e de signos quando dispomos da linguagem simbólica. A ciência, por
conseqüência, seria um produto efetivo da atividade simbólica humana. Tanto Saussure como
Peirce reafirmarão de maneira peremptória a importância fundamental dos processos
simbólicos como condição sine qua non para todo o entendimento semiótico e, portanto, para
fazer ciência. Em grande medida, a discussão acerca da maior importância dos signos naturais
ou dos convencionais não estaria de retorno? Com efeito, podemos estar de acordo com
Barthes (op. cit.) logo que ele diz não existir sentido em outros códigos que não o da língua.
Um gesto, para adquirir sentido pleno, é sempre traduzido na linguagem falada, posto que é
este o código dominante em todas as sociedades humanas. Mas, cabe lembrar que existem
fatos naturais envolvidos nos processos formadores do símbolo. Estamos de retorno à velha
oposição que exigirá a ultrapassagem destas oposições dialéticas.
A fenomenologia de Peirce implica um entendimento dos processos lógicos
constituidores da consciência. É algo diferente da fenomenologia em geral, que vive muito do
conceito de experiência (Erlebnis). Talvez por isso caiba esclarecer que o termo consciência
não tem uma concepção única entre inúmeros autores, nem entre os autores com que estamos
a trabalhar. As categorias peirceanas vão refletir explicitamente pelo menos três noções de
consciência que se encontram imiscuídas em textos filosóficos, psicológicos e até nos de
concepção popular. A consciência produzida pela categoria 1 é essencialmente sensação. A
consciência da categoria segunda nos leva principalmente à idéia de experiência. Já
Terceiridade, implica a idéia de consciência do futuro. A última noção não recusa, portanto,
que exista consciência na sensação e na experiência12. No entanto, vemos uma gradação com
mudanças qualitativas com relação à consciência. Em grande medida, a consciência é
construída por processos gerais categorizados em 1, 2, 3.
O criticismo com relação a Peirce parte de posições que privilegiam um sujeito
cogitante já constituído. Este é o caso de Habermas13 e, em bem menor grau, de Ricoeur14.
Ambos dão primazia ao simbólico tal como o faz Barthes, conforme já discutimos. Estas
críticas são importantes, mas tão logo se privilegie não mais um Eu, ou mesmo um sujeito
que avalie – e sim um sujeito que está em acontecimento e que não intervém no processo, tal
10
Em Psicopathologia I, Belo Horizonte, PUCMinas, 2005, no último capítulo, procuramos aprofundar o
conceito de semiosis em relação a clínica.
11
Roland Barthes; Eléments de sémiologie, Paris, Seuil, 1964, p. 33.
12
Ibid, pp. 113-115.
13
J. Habermas; Conhecimento e Interesse, Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
14
Em, por exemplo, Paul Ricoeur; Teoria da Interpretação – O Discurso e o Excesso de Significação, Lisboa,
Edições 70, 1976, p. 16.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 11

como vemos em um bebê nos primeiros meses de vida, fica mais clara a importância da
primeiridade peirceana. Diríamos que se trata aqui não mais de teoria de um sujeito cogitante,
mas de um pré-sujeito. Grande parte de questões ligadas aos processos aperceptivos fica
assim melhor contemplada pela primeiridade, de um ponto de vista de uma análise lógica. O
processo aperceptivo, para nós, corresponde à primeiridade, de um ponto de vista
fenomenológico, e em larga margem ao inconsciente. A possibilidade de relacionar a
semiosis com a metapsicologia freudiana fica aqui em aberto, devendo ser motivo de trabalho
posterior (Semiologia Psicanalítica), articulando-se com a phaneroscopia (ou fenomenologia,
grosso modo) de Peirce em termos dessas experiências 1, 2 e 3. O sintoma simbólico é então
uma das possibilidades de produção semiótica, ou semiosis.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 12

2. Sintoma simbólico, queixa e causalidade: um pequeno reparo contra a


idéia de totalização

Ainda que ele possa carrear consigo um intenso prazer logo que se constituí, ou que
carregue indiretamente benefícios pífios, mas ainda assim deleitosos, o sintoma tem a
importância de anunciar que o sofrimento que ele comporta não pode ser esquecido. Nem
sempre sabemos algo acerca da causalidade principal em ação na constituição de um sintoma.
Porém, sabemos ser ele o motor principal que leva o paciente a procurar inicialmente ajuda.
Não confundamos a causa do mesmo com o tratamento que ele acaba por demandar. Do
ponto de vista de causa podemos dizer que ele é fruto de um complexo, eventualmente um
sistema, que exige ser clareado e explicitado nas suas camadas de articulação - camadas que
podem ir desde o funcionamento neurobiológico até asserções vindas da antropologia
filosófica.
Quando falamos de sintoma simbólico qualificamos pelo menos dois aspectos de um
sistema que qualquer teoria holística busca explicitar, sem conseguí-lo até os nossos dias: a
causalidade psíquica, onde o conflito é o elemento essencial, e o fato de sermos animais
simbólicos, isto é, seres para os quais a linguagem e suas leis fornecem explicações causais.
Ao apontarmos este tipo de causalidade reconhecemos explicitamente a existência de
sintomas, síndromes, comportamentos e atitudes nos quais a explicação preponderante e
essencial seja outra. Por exemplo, de origem biológica: um tumor causado por um vírus
modificando o DNA de uma célula. Isso não impede que essa doença, objetivada como uma
coisa pelo discurso médico-científico seja apreendida como um mal pelo paciente que nos
expressa sua doença vivida (Illness) através de um trecho de poesia acerca do câncer ouvida
muito tempo antes: “um urubu baixou na minha vida”. Essa imagem se tornou muito popular
e acreditamos ter sido por conta do gênio de Augusto dos Anjos, no poema

BUDISMO MODERNO 15
Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!


Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida


Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades


Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

O poeta é um exilado na sua própria língua. Felizmente tem a companhia daqueles


que o apreciam. Amiúde, a companhia é feita pela apreensão de partes da obra, quando não
um único fragmento que tocou o leitor. O poema circula entre as pessoas, seja em texto ou
em declamações, falas. Ele passa a pertencer ao Thesaurus da língua em atividade,
compartilhado na mente de milhares de pessoas. Passa a fazer parte da dialética interna do

15
Augusto dos Anjos; “Budismo Moderno” (1909) in Eu e outras Poesias, São Paulo, Martins Fontes, 2001.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 13

pensamento que contém a asserção poética. Isto é muito mais maleável do que a
representação social, principalmente aquela posta por escrito nos jornais e documentos. A
representação social de uma doença pode vir a tomar um caráter de ideologia que esvazia em
muito o sentido efetivo do que é o sofrimento que ocorre deveras no adoecer. Pensamos aqui
nas análises feitas por Sontag16, ao mostrar que a leucemia era vista pelo público como uma
doença fatal, fria, friável, esvaziadora de energia, consumidora das forças vitais do sujeito. Já
a tuberculose, tão fatal quanto um câncer no início do século XX, era vista como uma
moléstia quente, romântica, cheia de arroubos envolvendo a respiração e o sangue. As
mistificações se fazem ao redor da realidade efetiva das doenças, passando essas a serem
tratadas como um imaginário irreal. Utilizando as fantasias forjadas em torno do câncer, e
também da tuberculose em tempos passados, Sontag realiza um severo exame da irreal e,
muitas vezes, primitiva utilização da doença em nossa sociedade. O livro revela-se como
veemente protesto contra todas as formas de mistificação das enfermidades. As reflexões da
autora se voltam à sua vivência pessoal como portadora de câncer.

Quando pensamos na frase da nossa paciente, existe algo deste imaginário fixado,
mistificado e utilizado por propostas de tratamentos os mais diversos, mas existe também a
porção do sujeito lidando com suas fantasias em articulação com asserções metafóricas,
presentes no imaginário popular como sendo parte daquela determinada doença - ou seja, a
metáfora normalizada que seria aquela que o sujeito pensa caracterizar a doença. Como cada
um toma tais metáforas para si, e um trecho deformado de poema passa a fazer parte da
economia psíquica do sujeito, é assunto maior para nós. Podemos nos perguntar inicialmente
por que a paciente escolhe esta asserção, e não outra, em um infinito de asserções acerca do
câncer. Inclusive na sua casa, contou-me, era costume escutar Vinicius de Morais e,
certamente, poderia ter escutado algo como o seguinte trecho da primeira parte17:

16
Susan Sontag; A Doença como Metáfora (1978), 3ª Edição, São Paulo, Graal Editora, 2002. Posteriormente
investigou também as metáforas concernentes a AIDS.
17
Vinicius de Morais; “Sob o Trópico de Câncer” oferecido aos seus “amigos, os doutores: Pedro Nava, Hélio
Pellegrino, Clementino Fraga Filho, José Cabral de Almeida” e a seu “irmão, o doutor Helfus de Morais”,
seguido pela citação de Jayme Ovalle; “O Câncer é a Tristeza das Células” e que encontramos mais a mão em
O Melhor de O Pasquim - Antologia, Volume I (1969-1971), Rio de Janeiro, Editora Desiderata, 2006, p.104.
A canção Decididamente (Vinicius de Moraes e Edu Lobo) também contém uma frase com urubu de um
sujeito azarado, mas não canceroso.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 14

Trópico de Câncer

Sai, Câncer Odioso mascate; fecha o zíper


Desaparece, parte, sai do mundo De tua gorda pasta que amontoa
Volta à galáxia onde fermentam Caranguejos, baratas, sapos, lesmas,
Os íncubos da vida, de que és Movendo-se em seu visgo, em meio a
A forma inversa. Vai, foge do mundo amostras
Monstruosa tarântula, hediondo De óleos, graxas, corantes, germicidas.
Caranguejo incolor, fétida anêmona Sai Câncer
Carnívora! Sai, Câncer. Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Furbo anão de unhas sujas e roídas Em saudação fascista; galga, aranha,
Monstrengo sub-reptício, glabro Contra o teu próprio fio
homúnculo E vai morrer de tua própria síntese
Que emprestas as brancas madrugadas Na poeira atômica que se acumula na
Com teu suave mau cheiro de necrose cúpula do mundo.
Enquanto largas sob as portas Adeus
Teus sebentos volantes genocidas Grumo louco, multiplicador
Sai, get-out, va-t-en, henaus Incalculável, tu
Tu e tua capa de matéria plástica De quem nenhum cérebro Eletrônico
Tu e tuas galochas poderá jamais seguir a matemática.
Tu e tua gravata carcomida (...)
E torna, abjeto, ao Trópico ___
Ora pro nobis
Cujo nome roubastes. Deixa os homens Et libera nobis omnia Câncer
em sossego Amen.

Mas não! Emerge na sua mente o urubu de Augusto dos Anjos, e não outra asserção.
Porque a eleição de algo vindo do poeta que evoca a degenerescência da carne e os limites do
humano? Augusto dos Anjos se apóia em termos e palavras friamente científicas, sendo
conhecido como o “Poeta da Morte”. Estamos muito longe aqui de fazer qualquer acusação a
Augusto dos Anjos, por exemplo, de que sua leitura seria perigosa. Ao contrário, ele somente
forneceu uma metáfora que o inconsciente da paciente toma para si como meio de expressão.
Caso ela tivesse lido Vinícius de Morais, acreditamos que não mudaria grande coisa. Talvez
ela nem apreendesse a fina ironia e a tremenda expansão simbólica que adquire o tema câncer
na pena d’O Poetinha. Caso apreendesse, possivelmente melhoraria - mas de forma
transitória.
Optamos por outra hipótese. O acolhimento da expressão na sua consciência dá-se
por ela já estar com uma dis-posição passiva, masoquista, auto-flageladora desde longa data,
possivelmente organizada na sua infância. Em nossa paciente, ao escutar uma declamação da
poesia, ficou depositado aquele trecho, que ela modificou: o termo minha sorte passa para
minha vida, o verbo pousou torna-se baixou. Aí ocorreram deformações que a colocam em
uma posição de passivação mais acentuada do que a da letra original do poema. Ela está mais
exposta do que nunca a um medo que a paralisa e engendra admoestações e auto-
recriminações sem fim. Como ainda veremos em maiores detalhes, logo que estudarmos as
perversões, ela atualiza a fantasia de ser batida (em geral por um pai muito rigoroso) que
conforma a seqüência: ‘Ele me bate’ que experimentada na voz passiva se torna ‘Sou batida
por ele’ e que toma a forma metafórica do Masoquismo em ação: ‘Um urubu baixou na
minha vida’.
Interessante notar que a paciente toma para si justamente uma metáfora de ave
carniceira. Ela poderia tomar outra metáfora, outro sentido. Mas não: aparece em sua mente
justamente aquilo que mais expressa seu modo reacional frente a um problema. Vemos que,
ao saber da existência do câncer, nossa paciente reage e insufla com uma metáfora o seu
vivido acerca da doença efetiva materialmente descrita pelo oncologista, o câncer como uma
doença factivelmente materializável em uma alteração no soma (disease). Imagine se ela leva
ao pé da letra a inflação imaginária de Vinícius. Caso tomasse a ironia e o benfazejo do
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 15

poeta, talvez se curasse de imediato - até rindo - ou se afundaria em uma mais profunda
depressão e não sairia. Por via das dúvidas nunca lhe dei conhecimento desta poesia de
Vinícius. Mas ela me ajudou a afugentar a metáfora do urubu, pois o poeta nos dá palavras a
mais, e mais potentes, para perlaborar a metáfora da paciente, desde que sigamos também o
enraizamento e disposição do sujeito frente a um indicador de que a morte pode estar aí
batendo à porta. A sua reação é a de sempre: aquela de ficar se interrogando sobre a vida,
com a recriminação de que não tinha feito nada de tão bom. Toda uma teoria emergirá acerca
do tumor que ela mesma palpa e quer urgentemente ver extirpado. A massa palpável de causa
virótica, no dizer dos últimos conhecimentos acerca da origem do câncer de colo de útero,
agora está sobreposta e permeada por infinitas cadeias de pensamento, fantasia e sentimento
acerca daquele urubu que baixou na sua vida. O discurso objetivo é entremeado pelo
processo infinito que atravessa a paciente acerca daquela coisa que vai devorá-la por dentro.
A solução mais radical não vem, porém, de uma ‘livroterapia’ ou da introdução de
poetas não morbificadores como Vinicius. A solução veio muito mais da contínua recusa
nossa de colocarmo-nos na posição de lhe bater, de dar-lhe o benefício secundário de ser
vítima perpétua e de sofrer, como um peru de natal, todas as vésperas anteriores à
consumação final. Veio também da elaboração de fantasias infantis de ser maltratada pelos
pais, atualizada na alta exigência que tinha para consigo e os outros. Essa elaboração
coincide com a saída do sintoma queixoso e da sua anedonia: antes, passava até três dias
deitada em uma rede esperando e pensando na vida, sem força para mover-se.
Comumente, o sintoma vem em um discurso que chamaremos de queixoso. Existem
diferenças entre um sintoma, um signo, um índice e uma queixa. Uma queixa é produzida
como uma série de frases, uma fala acerca do que não está indo bem com o paciente. Então
um ato de queixar-se é usualmente uma reação verbal que diz respeito a uma primeira
experiência sensorial. E esta experiência, principalmente quando está relacionada com a
nossa experiência corporal de dor ou outra modalidade de estética do desprazer, é um
sintoma. A etimologia da palavra sintoma assinala o que está acontecendo, um fenômeno
relatado pelo paciente como desprazer.
Portanto, um sintoma deve ser tomado dentro de uma queixa. Mas a queixa é mais
do que uma fala acerca de um sintoma. Em uma queixa existe usualmente uma expressão de
pena e sofrimento que ultrapassa de muito o fenômeno do sintoma. La Fontaine afirmava
uma verdade maior: “A dor é sempre menos forte do que a queixa”. Assim, como fala, a
queixa excede o fenômeno que ela assinala como sofrer. Nem sempre a queixa é a expressão
para fora, para aqueles que estão a escutá-la. Ela adquire todo o seu interesse para aquele que
está falando: existe nela algo mais, uma teia sub-reptícia com que a dis-posição do queixoso
procura não resolver seu sofrimento e seguir adiante, mas capturar e fixar o outro no gozo
dessa posição de afligido. Uma queixa é um pedido de ajuda, mas há pouca motivação em ser
honesto ou mesmo de comunicar bem: o interesse é de se aliviar ou se salvar. Em outras
ocasiões o sujeito queixa-se só para continuar em sua posição e realizar uma operação de
automanutenção da sua dita alma. Ele se preocupa consigo, produz para si mesmo fazendo
repertorizações e propostas de mudança de rumos. Com a queixa trabalhando o próprio
sujeito, vemos o Eu em deflexão continuada com relação a si mesmo - e então a queixa
torna-se o núcleo da dor egóica narcísica. A deflexão do sujeito sobre si mesmo – esta bela
definição do que é o Eu humano para Kierkegaard 18 – se faz através de desvios, enganos,
tiradas de proposições aparentemente retilíneas, mas que posteriormente constata-se ter sido
um movimento curvo em torno de uma bola, na qual o sujeito volta ao mesmo ponto: a dor.
Uma imagem boa acerca da certeza de estar andando reto é a do andarilho caminhando em
uma direção frontal terra afora. Tendo ela uma forma laranjóide, sabemos hoje, fica
complicado ele não parar no mesmo lugar, ainda que a sensação de deslocamento seja
retilínea e uniforme. Mas a dor mais pungente tem consigo algo que a eleva à segunda,
terceira, enésima potência: o desespero.

Sœren Kierkergaard,; Traité du Desespoir (1848), tradução para o francês de K. Ferlov e J.-J. Gateau, Paris,
18

Gallimard, 1949, p.57.


Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 16

O desespero insufla um ar quente, morboso, vindo dos alagadiços fétidos da moral e


dos ideais não realizados, na pequena, média ou grande dor. Forma-se assim a grande queixa,
quanto maior for o desespero. Ele incha a dor dentro da queixa, tornando-a maior do que é
mesmo. Uma doença mortal, a maior que advém de termos um Eu. Um Eu inflado da doença
mortal do desespero, de quem o filósofo dinamarquês fez-nos o favor de dar uma
classificação que pode ser usada para todos - principalmente aqueles que tiveram a dignidade
de assumir o seu sofrimento como uma doença: “o desespero pode tomar três figuras: o
desesperado inconsciente de ter um Eu (moi) (o que não é um verdadeiro desespero); o
desesperado que não quer ser ele-mesmo; e aquele que quer ser” (op.cit., p. 57.).
Encontraremos essas figuras sofredoras ao longo do nosso trabalho mais freqüentemente na
estrutura do que denega o sofrimento de si e dos outro; daquele que é insatisfeito com seus
destinos; e nas figuras fulgurantes de um paranóico que se julga o Senhor do mundo e que
nunca se queixará de nada.
Não é fácil remover o sintoma, tampouco a queixa - que sempre é gorda e
inesquecível. Diremos mesmo que é impossível, pois implicaria em arrancar o Eu do
processo que nos constitui como seres de linguagem. Ao menor contato, o paciente
desencadeia um fluxo de reclamações que é obrigatório que o clínico acolha, sob pena de ser
mal visto eticamente. A queixa, às vezes, visa a captura do outro. Assim ela pode
incrementar aspectos insuspeitos pelo próprio produtor da queixa. Ele, de forma cabida ou
descabida, incrementa a piedade e também o seu machucado e suas mágoas, na expectativa
que o outro sinta e apreenda empaticamente o que o atravanca e devora. Mas esta vasta
retórica articulada por ícones e sensibilidades do corpo próprio depende da coisa efetiva de
que ele sofre. Essa coisa efetiva, para seu bom reconhecimento, necessita do exame alheio,
comumente o de um técnico ou um médico que sejam mais que testemunhas, mas sim
partícipes na empreitada de cura ou alívio da mazela trágica que paira sobre o paciente.
Dissemos que existe a dor, e o sofrimento é comumente sobre-excedido (overpain),
criado pela atividade de queixar-se. Um excesso em que o desespero quase sempre leva o
sujeito a separar a queixa das suas causas iniciais. A queixa passa a valer por si. É o domínio
que Freud chama de beneficio secundário, mas o é também da regressão advinda de quando o
dodói nos torna um ser muito distante de um estadista impoluto e insensível às dores do
corpo e do mundo. O consolo às vezes é experimentado como sendo o fornecimento de
cardápio para quem está morrendo de fome. Cedo torna-se impossível que o consolo
tampone o sofrer, e então emerge uma grande defesa que transforma os outros seres humanos
em estrangeiros que querem chegar junto demais dessa intimidade bem guardada e sofrida. O
cuidado deve ser grande com as palavras que oferecemos então aos nossos pacientes
queixosos.
Não nos esqueçamos da dignidade do estar enfermo. Essa tem sido esquecida por
teorias que qualificam somente a saúde, o bem viver. Por evidência a dignidade da doença
deve ser aceita, posto que a doença e o sofrimento - seja qual for - são potencialmente
invencíveis: vamos perecer e torcemos para que seja sem agruras mis. Claro é também que a
queixa contribui para piorar - daí termos nos ocupado acima um pouco mais dela. A fixação
na queixa leva à impossibilidade de gozar a vida.
Charcot e Freud restituíram à histeria a sua dignidade. As outras doenças mentais
também passaram a ser merecedoras de dignidade. Não somente pelo sofrimento, mas
também por ser parte efetiva dos nossos encaminhamentos destinais. Negar o sintoma destas
modalidades de sofrer seria (de)-negar a própria existência. O sintoma vem como uma
irrupção no silêncio do meu corpo, do meu sentir e do meu mover-se no mundo. Irrompe
também na consciência, que se vê tomada como por lava quente em geleira perene: o sintoma
corrói e afunda o pensar racional em água e vapor inútil. Veremos como, através disso, pode-
se recalcar ainda mais, projetar, promover desentendimentos, vingança, renúncia, e mais uma
série de outros fenômenos que, antes da psicanálise, teriam somente um tratamento moralista:
 A mágoa - com freqüência ocorre quando um real sofrimento não encontra
mitigação
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 17

 O remorso - mais além da culpa, pois quem o obra já está a se remorder,


auto-executando uma penalidade em si mesmo
 O arrepender-se - a coragem do que reconhece sua porção de humanidade
 O perdão - em geral alivia até mais, porque liquida velhas mazelas
 O ressentimento - esse resquício permanente da vida civilizada.

E a queixa, por que ela carreia consigo tanto desejo de acusação e vingança caso não
seja sanado sua motivação maior? Certamente não contra o próprio sujeito queixoso, mas
quase sempre contra alguém próximo ou até idealizado, como o terapeuta que, chegando à
intimidade da queixa, nem sempre tem meios para mitigá-la. Evidentemente que a disease
não é igual à queixa, à metáfora e menos ainda à poesia. A poesia é uma atividade simbólica
que tem sua especificidade e que carreia potencialmente uma profunda depressão caso as
metáforas ali presentes, como na metáfora do urubu, não sejam transformadas, cassadas.
Nossa tese geral acerca do sintoma simbólico é limitada aos seres humanos e serve
somente para um determinado grupo de fenômenos onde a psicanálise e outras terapias
mostraram sua eficácia especialmente pelo uso da palavra. Isto não impede a constatação da
existência de um amálgama de atividades e de explicações que se organizam em um todo
intricado na existência do ser humano. Um relato de Freud em torno deste ponto é explícito o
bastante para mostrar a complexidade da questão etiológica com a semiologia no acontecer
espaço temporal, bem como o aparecimento de grande número de conceitos que não podem
ser esclarecidos de pronto. Assim:

“Um motivo para ficar doente deve ser nitidamente distinguido, como conceito,
da suscetibilidade à doença - do material de que se formam os sintomas.” 19

Deve-se distinguir motivo de susceptibilidade - e mais ainda do material de que se


formam os sintomas. O motivo que moveu Vinicius a escrever Trópico de Câncer é bem
diferente do de nossa paciente: esta se ancora na metáfora para aprofundar sua depressão em
face da vida, susceptibilidade já latente, pré-existente. O material de Vinicius também é
diferente e sublimatório e, ainda por cima, ele não tinha Câncer: faz somente todos nós
aplaudirmos sua luta poética contra a coisa maligna. Tampouco se pode confundir o
relacionamento amoroso atual de Terezinha com a sua disposição histérica e sua paralisia,
composta largamente por representações ligadas a uma cabrita, um bode etc... Tanto a
paciente que fala da cabrita quanto a que fala que o urubu baixou em sua vida têm
disposições diferentes e utilizam um material formador de sintomas também diverso. No
desenvolvimento deste texto acerca do sintoma simbólico, trabalharemos muito acerca do
material simbólico do sintoma e das chamadas formações do Inconsciente. Freud ocupará um
lugar central, não somente por designar o campo das psiconeuroses como o campo potencial
de todos nós, mas também por fornecer a diferenciação interna e o metabolismo formador de
cada grande tipo de sintoma. Permitir-nos-emos prosseguir a leitura do mestre criador da
psicanálise e do campo das psicoterapias por este dar uma cartografia muito precisa
introdutória do tema:

“Os motivos não participam da formação de sintomas e, na verdade, não estão


presentes no início da doença. Só aparecem secundariamente em relação a ela;
mas não é senão quando aparecem que a doença fica plenamente constituída. Sua
presença pode ser reconhecida em todos os casos em que haja real sofrimento e
que sejam de duração razoavelmente longa.” 20

O câncer já existia na nossa analisanda. Ao dizer que “um urubu baixou na sua
vida”, ao invés de resolver-se a enfrentar o problema, ela reage na sua disposição neurótica
de sempre: regride, fica passivizada e, mais ainda, torna-se extremamente irritada. No caso,
ao extirpar-se o tumor a paciente melhorou rapidamente. Quis de imediato largar as sessões
19
S. Freud; “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905 [1901] ), E.S.B., VII, p. 40.
20
Ibid.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 18

conosco, como se sua disposição e reação não existissem, mas tão somente o câncer, o
motivo atual. Morrer igual a um peru de véspera de festa, era tal o novo sintoma da paciente,
sintoma que a desfalecia e a levava a passar dias inteiros deitada. Virar uma morta viva e
parar de desejar e avançar na vida. Haja Vinicius para expurgar tal idéia!!!. Caso leiamos um
pouco mais Freud, entenderemos melhor como a depressão urubulina, o câncer-de-rapina no
alto da árvore esperando para banquetear-se com os restos do corpo da paciente, não é
produto da doença, mas da dis-posição prévia dela:

“Um sintoma penetra na vida mental do paciente de início como um hóspede


indesejável; tem tudo contra ele; e é por isso que pode desaparecer tão facilmente,
aparentemente por vontade própria, sob a influência do tempo. Para começar, não
há uso que dele se possa fazer na economia doméstica da mente; mas, com muita
freqüência, ela consegue encontrar um secundariamente. Uma ou outra corrente
psíquica acha conveniente fazer uso dele e dessa forma consegue adquirir uma
função secundária e persiste, como se fosse, fixado rapidamente na vida mental
do paciente. E acontece assim que quem quer que tente curá-lo vê-se com espanto
diante de uma poderosa resistência, que lhe ensina que a intenção do paciente de
livrar-se de seus males não é tão inteira e completamente séria quanto parecia.
Imaginemos um operário, um pedreiro digamos, que tenha caído de uma casa e
ficado aleijado, ganhando a vida, agora, mendigando nas esquinas. Suponhamos
que um taumaturgo apareça e prometa a ele endireitar-lhe as pernas tortas e
capacitá-lo a andar. Seria insensatez, eu acho, procurar ver uma expressão de
contentamento no rosto do homem.”21

A citação é teórica e clínica a um só tempo. Dispensa comentários e mostra que o


Inconsciente promove ações muito além de consciência, inclusive aproveitando-se do próprio
adoecer para ter o chamado ganho secundário:

“Sem dúvida, na época do acidente ele sentiu-se extremamente infeliz, quando


compreendeu que nunca mais poderia executar trabalho algum e que teria de
passar fome ou viver de caridade. Mas desde então exatamente aquilo que
inicialmente tirou-lhe o emprego tornou-se sua fonte de renda: ele vive de sua
incapacidade. Se isto lhe for tirado ele pode ficar totalmente desesperado. Ele
esqueceu sua profissão e perdeu seus hábitos de trabalho; acostumou-se à
indolência e talvez a beber também.” 22

Vemos existir um entrelaçamento de causalidades. Em nenhum momento vemos a


negação da produção orgânica de sintomas com o psiquismo. Ao contrário, notamos uma
tentativa de articulação. Mais ainda, vemos no exemplo do acidentado de trabalho o
benefício secundário ser estritamente ligado ao sintoma que toma toda a nova direção de
sentido da existência do mais novo pedinte nas ruas. Tudo passa a ser significado, mesmo o
sofrimento de ter sido acidentado. Mais ainda: tudo o que é aparentemente sintoma,
limitação, sofrimento pode ser reaproveitado no novo estilo de vida que se realiza. Tal como
em todas as culturas um aparente problema pode ser na verdade retomado dentro do grupo
como algo especialmente importante. É suficiente lembrar como a agressividade quando
dirigida para fazer a guerra é altamente elogiada no calor da batalha. Guardando a distância
da comparação, o princípio do prazer ou da descarga pulsional, levando a existência adiante
através das adaptações mais esdrúxulas aos olhos de um idealista, é elemento essencial no
chamado sintoma simbólico.
Podemos dizer que o sintoma simbólico como tal pressupõe a participação efetiva
do aparelho psíquico na composição do sofrimento que o sintoma representa. Mas somente a
participação não é suficiente, a causalidade psíquica é elemento fundamental - e não
acessório. Ela não é somente uma explicação de epifenômenos. Colocamos então, de
21
Ibid.
22
S. Freud; “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905 [1901]), E.S.B., VII, pp.40-43.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 19

antemão, uma necessária limitação explicativa, fazendo uma delimitação restritiva,


reconhecendo haver sintomas onde a causalidade simbólica não é fundamental. Pensemos no
caso de uma dor presente no abdome, no hipocôndrio direito, acompanhada de outros sinais
de infecção, fazendo o médico pensar em uma síndrome de irritação peritoneal. No caso
desta possível apendicite o psiquismo do paciente é afligido pela experiência da dor. Ele não
a conhece de modo intelectual somente. Ele a experimenta enquanto sensibilidade. O
psiquismo tem participação pari e passu e a posteriori na experimentação da síndrome, na
reação do paciente e na sua significação.
Contudo, estes fatos não modificam o entendimento médico acerca da causalidade
imediata e hierarquicamente mais relevante ser a possível infecção no apêndice cecal. Uma
dor pode ser somente uma dor e nada ter de simbólico, assim como, muitas vezes, a palavra
charuto é tão somente símbolo do referente específico, nada tendo de sexual. No primeiro
caso, a dor sentida impedirá e jogará por terra elucubrações psicologizantes e interpretações
fundadas mais na imaginação do clínico que no cuidado com o outro. A dor, neste caso, será
indiferente a este tipo de intervenção. Somos, portanto, favoráveis a uma concepção menos
alargada e mais humilde acerca das explicações e intervenções que podemos efetivamente
realizar e prometer. Nem por isso a psicanálise deixa de ser importante. É no reconhecimento
da sua eficácia e dos seus limites que uma verdadeira contribuição se efetiva em clínica.
O pensamento freudiano desde os seus primeiros trabalhos diferencia as neuroses
(ou psiconeuroses) das neuroses atuais. Ou seja, em psicopatologia em geral poderão ser
encontrados sintomas de origem orgânica e funcional tal como uma apendicite a respeito da
qual o profissional psicanalista deve reconhecer sua limitação na possível atuação como
analista. Os analistas de verdade não querem analisar cadáveres. Antes que a morte chegasse
Freud encaminhava os pacientes com Tabes dorsalis para os neurologistas, que tratavam a
sífilis com mercúrio.
Temos também as manifestações que não foram mediadas previamente pelo
aparelho psíquico ou em que a elaboração psíquica inconsciente não é suficiente para sua
resolução em termos simbólicos. Neste último caso encontramos as neuroses atuais. Estas são
manifestações no plano do corpo próprio: tem sua origem em conflitos atuais, e não nas
disposições infantis ou, menos ainda, na neurose infantil de cada um. Estão dependentes da
insatisfação pulsional atual. Um exemplo típico é a relação que Freud estabelecia entre
atividade masturbatória e neurastenia. Claro que neste caso a neurastenia se vê dependente
principalmente do tipo de fantasia presente no ato masturbatório. Metáforas como as que
escutamos de um paciente, “cada ejaculação vale por um copo de sangue”, levava o dito cujo
uma experiência de esfalfamento conjuntamente com culpa. Já outra paciente, masturbadora
contumaz, pensando sempre no seu professor, substituto paterno, em nenhum momento se
queixava, mas achava que era a “única maneira de dormir tranqüila” sabendo-se amada
finalmente por um pai que nunca esteve presente na sua vida. Outro tipo de sintoma
aparentemente mais moderno é daqueles homens e mulheres que têm orgasmo, mas saem
extremamente insatisfeitos da relação sexual. Falam então de falta de amor e da fantasia de
incompletude, via de regra pensando em um amor total, bem descrito por Freud na fantasia
de retorno ao seio23. Dissociam amor e sexo, realizando assim o que o demônio mais deseja:
a solidão. Isso por nunca poderem se entregar ao outro. Só se entregam a si-mesmos, às suas
fantasias enraizadas no mundo infantil.
Insistimos que existem relações entre as neuroses atuais e as psiconeuroses. Mas
existe também relação entre a neurose atual e a dimensão dita psicossomática, posto que
aquela pode traduzir-se em manifestações psicossomáticas. A neurose de angústia, por
exemplo, é acompanhada de alterações corporais transitórias - mas que podem tornar-se

23
Estudamos em mais detalhes em Francisco Martins; O Complexo de Édipo, Brasília, Edunb, 2003.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 20

permanentes, como a úlcera em alguém permanentemente angustiado. Neste sentido todas as


psiconeuroses acabam por desenvolver sintomas atuais e psicossomáticos.
O sintoma simbólico pressupõe que sua causa essencial implique um processo
especial de elaboração psíquica. Isto não exclui a existência de processos causais de outra
ordem. Implica entender o simbólico em um sentido mais restrito que sua utilização
generalizada. De forma mais precisa: o sintoma é um substituto do conflito inconsciente
subjacente. Freud o concebe como uma formação de substituto (Ersatzbildung), um produto
sobressalente do movimento pulsional original. O termo alemão aponta para a idéia de um
substituto que é construído ao longo de um processo psíquico. Freud alcunhou o termo
símbolo mnésico na origem das suas descobertas acerca dos sintomas histéricos, ainda nos
anos anteriores à passagem do século. Via de regra, o sintoma histérico era um símbolo
mnésico de um traumatismo patogênico ou de origem conflitual. Estas construções
sobressalentes (Ersatzbildung) do conflito podem ser comparadas, no caso da histeria, com
monumentos comemorativos de um determinado acontecimento conflituoso a partir do qual o
sintoma se organiza em função de compromissos entre as moções pulsionais desejantes e a
censura. Lacan 24, monumental, chega a explicitar amplamente como sendo linguagem o
simbólico por excelência:

“O Inconsciente é este capítulo de minha história que é marcada por um branco ou


ocupada por uma mentira: é o capitulo censurado. Mas a verdade pode ser
encontrada. O mais freqüente é ela já estar escrita mais além. A saber:
- nos monumentos: e isso é o meu corpo, ou seja, o núcleo histérico da neurose
onde o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem (...)
- nos documentos de arquivos também: e estes são as lembranças de minha
infância... (...)
- na evolução semântica: e isto responde ao estoque e às acepções do vocabulário
que me é particular, bem como o estilo de minha vida e o meu caráter;
- nas tradições também, mas nas legendas que sob uma forma heroicizada
veiculam a minha história;
- nos traços, enfim, que eles conservam inevitavelmente as distorções (...) e que
minha exegese restabelecerá o sentido”.

Anos após, vemos que nossa paciente Terezinha foi atravessada por uma mentira
contra o seu desejo pulsional, censurando as suas aspirações mais de ordem dos afetos finos -
o ser uma menina eterna - e mantendo a sexualidade na censura pseudo-civilizatória: que
isso, o sexo, pertenceria aos domínios do chiqueiro e nunca a uma Terezinha de Jesus. E seus
sintomas ensinaram-lhe, posteriormente, quanto sofrer fez-se nela em função de sua
capacidade de renunciar. Assim sua paralisia é um monumento ou, melhor ainda, ela se
fabrica quase como uma peça de artes plásticas - cópia fajuta de uma cabritinha no cio
esmagada sob o macho por ter pernas frágeis de caprino adolescente. E essa lembrança dá
acesso à comparação entre o bode, Pai de Chiqueiro, e o seu pai bem amado: são arquivos
renováveis todos os dias pela integração continuada de elementos. O passado, o presente e o
futuro acabam por se fazer integrados nas nossas mentes, organizando-se e compondo-se em
continuidade. O psiquismo é assim, atemporal, ainda que nossa consciência o ordene no
tempo e no espaço. Poderíamos nos estender mostrando com trechos de seu tratamento como
as palavras também trazem consigo o seu estilo de vida – do campo – e como a semântica de
um bode Pai de Chiqueiro tornou-se essencial para ela deixar de ser somente uma bela alma.
E então poder fazer sua vida amorosa com um homem que se revelou fino e amigo, ao
contrário do que ela experimentou na sua noite de núpcias. Assim poder-se-ia verificar
também que a figura de Santa Teresa de Lisieux está presente, tal como a de Jesus e toda
uma tradição de significantes entrecruzados, vindos de alhures, que a impulsiona para ser

24
Jacques Lacan; “Fonction et Champ de la Parole et du Langage en Psychanalyse” (Congresso de Roma, 26 e
27 de setembro de 1953) in Écrits, Paris, Seuil, 1966, p. 259. A tradução do trecho citado é aqui de nossa
responsabilidade.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 21

uma heroína sertaneja. Enfim, o conjunto de distorções que se tornam quase inevitáveis dada
à imensa tarefa civilizatória que Terezinha tomou para si sem o saber e que a perpassa.

“Os motivos para ficar doente muitas vezes começam a atuar até mesmo na
infância. Uma menina em sua ânsia por amor não gosta de partilhar a afeição dos
pais com seus irmãos e irmãs; e ela percebe que toda a afeição deles é de novo
dedicada a ela sempre que ela desperta a ansiedade deles caindo doente. Ela
descobriu um meio de atrair o amor dos pais, e utilizara esse meio tão logo tenha a
seu dispor o material psíquico para produzir uma doença. Quando essa menina se
transforma em mulher, ela pode ver contrariadas todas as exigências que fazia em
sua infância em virtude do casamento com um homem indelicado, que pode
subjugar sua vontade, explorar impiedosamente sua capacidade de trabalho e
furtar-se a dar-lhe tanto seu dinheiro quanto sua afeição. Neste caso, a doença será
sua única arma para manter sua posição. A doença conseguirá para ela as atenções
pelas quais anseia; forçará o marido a fazer sacrifícios pecuniários por ela e
demonstrar-lhe consideração, como ele nunca o faria quando ela estava bem; e o
compelirá a tratá-la com mais solicitude se ela se recuperar, pois de outra forma
poderá haver uma recaída. Seu estado doentio terá toda a aparência de ser objetivo
e involuntário - o próprio médico que trate dela testemunhará o fato; e por este
motivo ela não precisará sentir quaisquer autocensuras conscientes por fazer uso
bem sucedido de um meio que verificara ser eficaz em sua infância.” 25

A psicanálise tem assim uma teoria específica da produção de sintomas simbólicos


que é estritamente motivada por moções inconscientes. Como o corpo está sempre em
devenir - diferentemente da palavra escrita, por exemplo - é impossível uma elaboração do
sintoma em que não seja considerado o dinamismo pulsional. Talvez isso explique o
abandono por Freud do projeto de resolução direta do sintoma, fazendo algo como a
extirpação do maléfico interiorizado. Ainda que a catarse seja importante o Inconsciente e a
transferência passam a dominar a cena terapêutica inventada por Freud e seus analisandos.
De forma explícita existe inclusive a recusa freudiana em adotar o método de eliminação
direta e sem maiores considerações com relação à transferência. O abandono da técnica de
tratar os sintomas diretamente ou de dirigir a história e relatos dos pacientes, ou mesmo de
realizar a busca de traços caracterológicos se dá em função da idéia que todas estas
dimensões semiológicas são sobredeterminadas. Freud descobre que a estrutura da neurose é
muito delicada. Ela é demasiado ligada ao próprio devenir de cada um. Assim, a maioria das
psicanálises atuais não se centra na elaboração direta dos sintomas, como Freud fazia nos
seus primeiros “experimentos” e que encontramos na Psicopatologia da Vida Cotidiana. Ao
contrário, eles são tomados dentro do sistema completo de produção semiótica consciente e
inconsciente do analisando, passando a dimensão transferencial a ser o direcionador essencial
da atividade do analista. Em larga medida torna-se então possível realizar inúmeras
elaborações semiológicas, articular temas com a lingüística e com a lógica. É a partir da
hipótese da existência de processos inconscientes, e não de processos fenomenológicos, que a
psicanálise se efetiva tanto do ponto de vista terapêutico como teórico. É esta dimensão de
sobredeterminação inconsciente que marca finalmente as bases do entendimento analítico.
Não é sobre uma análise semiótica pura, nem sob preceitos de hermenêutica clássica que o
analista trabalha. Lembrando o próprio Freud, no caso Dora, quando as bases essenciais da
psicanálise estavam já em curso, ele rememorava técnicas passadas, insistindo que na época
dos Estudos sobre histeria (1895), chamado período pré-psicanalítico, que

“o trabalho partia de sintomas e buscava esclarecê-los um após outro. Desde então


[diz Freud], abandonei essa técnica por achá-la totalmente inadequada para lidar
com a estrutura mais delicada de uma neurose. Agora deixo o próprio paciente
escolher o assunto do trabalho do dia, e desta forma parto de qualquer aspecto que
seu inconsciente esteja apresentando à sua percepção no momento. Mas neste
25
S. Freud; “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905 [1901] ), E.S.B., VII, pp. 40-43.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 22

plano tudo que tenha a ver com o esclarecimento de um determinado sintoma


emerge pouco a pouco, entrelaçado em vários contextos e distribuído por períodos
de tempo grandemente apartados. Apesar desta visível desvantagem, a nova
técnica é muito superior à antiga, e, na verdade, não pode subsistir dúvida que é a
única possível.” 26

A técnica é a única possível, caso se queira atingir as dimensões de privacidade


desconhecidas pelo sujeito sem que se utilize qualquer sugestão ou indução. É correto que
entre a semiologia médica clássica e a técnica de Freud de esclarecer cada sintoma, a
psicanálise se criou através da qualificação dos conceitos de resistência, transferência,
associação livre e atenção livremente flutuante. Além da criação da especificidade terapêutica
da psicanálise, posteriormente outras técnicas terapêuticas e teorias semiológicas surgiram. A
pujança da(s) psicologia(s) e, mais ainda, das chamadas ciências humanas é inegável,
possibilitando hoje em dia investigações semiológicas bastante peculiares. Mesmo assim,
insistimos ser contribuição maior e específica de Freud articular dentro do campo da
psicopathologia uma semiologia mais próxima das exigências da clínica cotidiana - uma
semiologia que não pode fugir da necessária noção de estrutura e que, por conseguinte,
restitui um espaço mais pleno para o sujeito. Veremos que a noção de estrutura se faz por
referência a conceitos essenciais do vir a ser humano, sendo os sintomas, o estilo, a
caracterização, seja da personalidade ou do discurso, subconjuntos e repartições de estudos
semiológicos que não substituem as noções de estruturas fundamentais do ser humano. Entre
o sintoma e a estrutura de cada um existe uma relação intrínseca: o sintoma simbólico
expressa o modo de funcionamento do sujeito. Aqui investigaremos mais o sintoma
simbólico. Estudaremos as estruturas em outro texto.
O enigma do sintoma simbólico é o próprio enigma dos processos inconscientes.
Colocam obrigatoriamente em relação às expressões simbólicas sintomáticas a linguagem
ordinária e o corpo próprio. Estas relações íntimas e obscuras, desde Freud foram motivo de
discussões e secessões entre psicanalistas, psicoterapeutas e teóricos notáveis, atravessando
todas as principais teorias e estando presentes na atividade de todos os clínicos. Pensamos,
por isto mesmo, que estudando o sintoma simbólico poderemos vir a elucidar as relações
existentes entre o Inconsciente e a atividade semiótica. Para realizar esta empreitada é
indispensável partir do campo clínico, procurando explicitar a delimitação e diferenciação do
mesmo.

26
. S. Freud; "Fragmento da análise de um caso de histeria", E.S.B., VII, p. 10.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 23

3. O campo clínico de estudo dos sintomas simbólicos.

Analisamos em Psicopathologia II27 as principais síndromes clínicas


psicopatológicas e pudemos mostrar que os seus sintomas têm uma tendência de se manifestar
de uma determinada maneira no tempo e no espaço. Certamente ocorre o mesmo fato na
semiologia médica em geral. Contudo, no contexto que estamos a estudar, trataremos somente
da caracterização do agrupamento das chamadas doenças mentais clássicas, que são as formas
expressivas mais pungentes da hýbris (desvario) humana se apresentar. Freud certamente foi o
primeiro a notar que estas formavam os destinos o mais cruéis possível para todos nós. De
maneira global o campo das psiconeuroses, doravante o campo do humano, se apresenta em
quatro grandes aglomerados sintomáticos que são interarticulados. Em cada um dos quatros
campos demos três exemplos de formação de sintomas. Poderíamos descer a um infinito de
formações, mas guardamos três exemplos pungentes de cada. A partir daqui não trataremos
mais os sintomas do ponto de vista sindrômico psiquiátrico, e sim como sintomas simbólicos
que pertencem à clínica também do cotidiano.

Quadro I – Campos psiconeuróticos sintomáticos principais


Timopáticas Perversas Neuróticas Psicóticas

Melancolia Masoquismo Histeria Esquizofrenia


Mania Sadismo Obsessão Paranóia
Distimia Fetichismo Fobia Catatonia

Quando descrevemos o campo desta maneira, estamos também qualificando


principalmente o aspecto semiológico. Traçamos quatro grandes grupos de síndromes que
podem ser sistematizadas segundo características semióticas comuns. Elas são as síndromes
timopáticas, as perversas, as neuróticas e as psicóticas, representando cada um destes
agrupamentos a problematização radical do processo de semiosis28. Explicitando:

• As síndromes timopáticas, relacionadas às experiências ligadas ao


originário, ao frescor primeiro de uma experiência, ao acontecimento ou, em termos
peirceanos, à primeiridade (Firstness).
• As síndromes perversas e neuróticas, caracterizadas como um campo
interarticulado onde o conflito, a reatividade e a luta são os fenômenos mais flagrantes,
sendo expressões da segundidade (Secondness) de Peirce.
• Finalmente, as psicoses, cujo cerne é o conceito de terceiridade
(Thirdness), mediadas pela alteração radical da mediação, do funcionamento da linguagem.

Não estamos, portanto, trabalhando o campo desde un ponto de vista etiológico. No


entanto, pode ser assinalado que existe certa sobreposição entre a causalidade psíquica e o
entendimento do processo de semiosis que se passa com o paciente. Acreditamos ser
importante este tipo de organização do campo sintomatológico não somente por motivos
didáticos. Além da questão lógica que permite o agrupamento desta maneira, pensamos que
na clínica cotidiana os sintomas se fazem presentes segundo estes mesmos desenho e relação
geral. Na clínica, seja ela qual for, o sintoma sempre se objetiva dentro de coordenadas que

27
Francisco Martins; Psicopathologia II – Semiologia Clínica, Brasília, Laboratório de Psicopatologia e
Psicanálise – ABRAFIPP, 2003.
28
Para este e outros termos de semiótica propomos a leitura do último capítulo de Francisco Martins;
Psicopathologia I – Prolegômenos, Belo Horizonte, Editora PUCMinas, 2005 para uma introdução articulada
com psicopatologia; o livreto de Lúcia Santaella, O que é Semiótica, Coleção Primeiros Passos, São Paulo,
Brasiliense, 2003 para uma introdução didática a semiótica; e para um estudo na origem C. S. PEIRCE, C. S.;
Collected Papers of Charles Sanders Peirce, Volumes I, II, III, 3a edição, Charles Hartshorst e Paul Weiss
(organizadores), Harvard, Harvard University Press, 1974.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 24

compreendem o tempo, o espaço e a pessoa – que são os operadores de formação desse


produto do psiquismo consciente. Estes aspectos levam à operação de referência, formadora
daquilo que o sujeito conhece como sua consciência. Por esta razão tentaremos explicitar
neste item estes aspectos, antes de nos voltarmos diretamente para o objetivo específico do
presente trabalho, a saber: estudar o processo de semiosis na formação dos sintomas
simbólicos de um ponto de vista mais além da fenomenologia, qual seja, do ponto de vista do
Inconsciente.
Explicitemos, portanto, outras possibilidades de estudo tal como a fenomenologia
clássica fez ao seu modo. Tempo e espaço introduzem de forma clara o produto final, fruto de
processos estruturantes de um aparelho psíquico que é pulsional e lingüístico. O ser que aí se
constitui é a presença no seu desenrolar temporo-espacial. Mas para tanto torna-se necessário
um sujeito dotado de corpo pulsional e de psiquismo para que se produzam os diversos
sintomas e síndromes. O sintoma poderia ser então descrito como sintoma pulsional ou como
sintoma simbólico, uma vez que ele se constitui entre a pulsão e o sentido. Ele será expressão
reveladora da história pulsional e existencial do sujeito. As estruturações dos sintomas
simbólicos se fazem diferentemente ao longo do tempo e do espaço. As estruturações se
realizam em um contexto discursivo - o universo de queixas, onde cada sintoma é apresentado
por um Eu que se lamuria, permitindo caracterizá-lo no tempo e no espaço. Assim
aprenderemos que cada entidade clínica apresenta sintomas que podem ser caracterizados e
definidos através destes conceitos a priori, mas que são também mediados. Os sintomas
timopáticos terão uma tendência no tempo de se apresentar através de oscilações de forma
cíclica. Os sintomas ditos perversos não têm o caráter de escansão temporal que marca o
grupo anterior, sendo, de regra, paroxísticos: apresentam-se na forma de um ataque súbito e
rápido.

O ciclo O paroxismo

Podem existir transições entre um modo de apresentação e outro, possibilitando diversas


combinações entre o ciclo e o paroxismo. No entanto, o caráter de transitoriedade é essencial
na caracterização e na diferenciação destes dois tipos de sintomas. A transitoriedade é
característica da timopatia e da perversão. Diferentemente, existe uma tendência à
permanência na sintomatologia neurótica e psicótica. Vemos que o campo sintomatológico
tem similitudes e diferenças que imprimem a feição de um sistema completo e articulado
internamente.
Quando falamos de espacialização na clínica cotidiana é essencial a qualificação da
consciência e do Eu. Isto porque a clínica se organiza também em função do Eu que conta o
que experimenta, pensa, imagina. Diríamos então que o eu neurótico ainda mantém as
relações de referência com o mundo comum e consigo mesmo de maneira habitual, mas
essencialmente conflituosa. Existe processo aí. Não obstante, ocorre auto-ultrapassagem,
resoluções no tempo e no espaço. O Eu neurótico é então aparentemente o eu mais próximo
do dito sadio. Engano, porém, é considerar somente os estados e a reversibilidade freqüente
da sintomatologia neurótica que o tornam aparentemente mais próximo dos ideais de
normalidade e de destinos humanos quiçá menos cruéis.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 25

O estado O processo

O estado, tão presente na sintomatologia neurótica, pode ser distinguido dos ciclos e
dos paroxismos pela sua maior permanência ao longo do tempo, mas guardando algo típico
dos sintomas anteriores. Já a noção de processo implica uma mudança sintomatológica
permanente - via de regra, irreversível. Não é assim que vemos uma possessão dita maligna,
psicótica, se instalar em permanência? Enquanto que uma possessão benigna, muitas vezes até
desejável, se apresenta semanalmente para resolução de conflitos e modos de existência nos
terreiros de candomblé? O processo realiza um prolongamento do estado no sentido do
tempo. Ou seja, nos processos existem diferenciações que tendem a se complexificar, tal
como o que chamamos o Eu. Mais ainda, o processo implica uma diferenciação do ponto de
vista, já que pode ser caracterizado como uma modificação permanente em direção a um
destino final. Cartesianamente e sem considerar o funcionamento inconsciente – não há
negação; ausência de contradição não seguindo o princípio de identidade; processo primário
com mobilidade dos investimentos (deslocamento e condensação); atemporalidade;
substituição da realidade externa pela realidade psíquica 29 - podemos dizer que a consciência
é tomada pelo que chama Freud os processos inconscientes. Assim, uma vez que fui Eu e
estou sendo Eu, difícil de não ser Eu..., pensa o homem comum. O psicótico paranóico pensa
ser outro que dizem ele ser. Quem diz é o Inconsciente que está a céu aberto. Emerge todo o
principio da loucura que consiste em ser outro que o sujeito não é. Isto faz através de um
agravo a lógica formal que vem desde Platão, Descartes e Kant: contra o princípio de
identidade (a=a) pois através da condensação uma coisa passa a poder ser várias ao mesmo
tempo; contra a idéia de contradição (duas representações opostas podem ser investidas tal
como ocorre na ambivalência: amar e odiar alguém ao mesmo tempo); contra a idéia do
terceiro excluído podendo duas representações opostas serem verdadeiras para o sujeito.
Distinguimos então os sintomas que têm tendência a serem mais permanentes dos
que têm tendência a uma desaparição espontânea, mas com recorrências - as timopatias e
perversões (quadro 2). Na verdade, ciclos, paroxismos, estados e processos são encontrados
em todas as formas estruturais, de maneira que a apresentação que fazemos aqui tem um
caráter de introdução geral e paradigmática, posto que estas formas de apresentação temporal
sejam ideais típicos.
Com relação ao outro conceito a priori kantiano, os sintomas são caracterizados
diferentemente. Em que espaço ele se apresenta? Pensamos de imediato no corpo. Porém
trata-se de um corpo que é mediatizado pelo aparelho psíquico e de que tomamos
conhecimento através de um Eu contador de histórias. Em grandes linhas, a espacialização
deve ser caracterizada a partir das diferentes modalidades de consciência criadas pelo
aparelho psíquico, ou seja, das formas de representação em que o sintoma se apresenta,
finalmente, a partir de um Eu-enunciador, portanto um Eu em processo que se inclui na
atividade de enunciação e está presente eventualmente no enunciado. Relembrando a
caracterização semiológica que fizemos, o espaço de presentação (Vorstellung, traduzido em
geral por representação) do sintoma está relacionado aos tipos de consciência, assumindo
formas que relacionamos com a sintomatologia clássica psicopatológica, exemplificadas no
quadro seguinte.

29
S. Freud; “O Inconsciente” (1915), ESB, XIV, p. 186; S.E.. XIV, p. 186; G.W., X, p. 286.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 26

Quadro 2 - Os sintomas com relação ao Eu


Timopáticos Perversos Neuróticos Psicóticos

Melancolia Masoquismo Histeria Esquizofrenia


Mania Sadismo Obsessão Paranóia
Timopatia Fetichismo Fobia Catatonia

Consciência Sensorializada Consciência Representada Consciência Simbolizada


1 2 3
A consciência sensorializada é pontual: sensibilidade primária. O sintoma timopático
expressa de forma extremada esta sensibilização. Trata-se de aumento ou diminuição cíclica,
refletindo-se na intensidade e, por conseqüência, na qualidade da experiência. A consciência
representada por imagens reflete já um mínimo de mediação. Ela é, sobretudo, reação e
reconstrução em permanência. A consciência simbólica é essencialmente possibilidade de
mediação. Ela é ancorada nos processos e na permanência da imagem e da palavra. Implica
linguagem semantizada.
Quando falamos de processo, pensamos na clínica cotidiana. Clínica que envolve
loucos paranóicos que não estão no asilo graças a algumas ações - como a criação de hospitais
dias, centros de dia, apartamentos terapêuticos - que lhes fornecem um mínimo de hábeas
corpus. O paciente cognominado aqui como Senhor do Mundo sente-se como tal desde que
teve a experiência radical de ser o mantenedor geral das coisas terrenas na boa direção das
sete variantes que ele traçou para cada grupamento de pessoas. Assim, os brancos vão para a
sétima extrema “pois é uma combinação de todas as cores”. Desce a detalhes: sendo ele
moreno, diz que é um caso particular que pode circular entre as variantes ou tipos de castas,
conforme pude entender. Um anjo que liquidaria o racismo mundial. Ao mesmo tempo dizia
assim:

“Tornei-me seu colega, acredito piamente que você me acredita. Sou um psiquiatra
analítico transformacional redirigido por Deus. Diferente dos psiquiatras-humanóides que são
animalóides e até vegetarianóides mas nunca pedregulhos. Você me entende..., não é? É
necessário ritmo de classificação... Assim, comecei por meu colega que lhe chamarei de
você...”
Durante anos tive a companhia esparsa e inesperada do Senhor do Mundo. Em
nenhum momento houve reversibilidade em tanta certeza que ele propagava acerca do bem
acertado das suas idéias. Tal como em um cacto da sua região - aqueles arredondados,
brancos - aparece raramente uma flor, uma vez ao ano, na forma de grande concessão, ele
aparecia: “passo para ver como você está”. Vemos um Eu se construir em expansão
continuada, inflativo e acusador dos diversos governos de impedimento por não chegar a uma
boa consecução da missão que lhe foi revelada. O delírio é um sintoma no sentido de
construir um Eu sem cuidado com sua própria história anterior, a saber: ele ser “filho de
Antônio com Maria... Não, Antônio e Maria agora só foram um meio e, às vezes, desconfio
que fui colocado na porta deles para servir de provação prévia da minha revelação divina que
só veio depois”. Tudo se coaduna: o pensar com a ação, com quem pensa ser, com a direção
que dá para si e aos outros, com um Eu se fazendo em processo continuado.
A simbolização do Senhor do mundo se faz de maneira permanente, ainda que tenha
estados de maior ou menor angústia com relação à concretização do seus altos desígnios. Na
distinção que fizemos entre a permanência e a transitoriedade, deve ser acentuado que
passamos a fazer uma leitura do campo psicopathológico em termos de dois, tal como Freud
o faz, quando distingue as psiconeuroses narcísicas das psiconeuroses transferenciais. O
quadro 3 reflete essa organização em termos de 2 vis-a-vis ao tempo e ao espaço de
manifestação. Vê-se em seguida a organização das categorias de análise avançar para quatro
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 27

categorias, logo que procuramos dar conta da diferenciação interna do campo


psicopatológico. Estabelece-se uma tendência de pensar o campo em termos de 2 e 4 assim
que reunimos as timopatias e psicoses como sendo psiconeuroses narcísicas e as perversões e
neuroses como sendo psiconeuroses transferenciais.

Quadro 3 - O campo psicopatológico em termos de conceitos freudianos e


nosográficos
Psiconeuroses de transferência Psiconeuroses narcísicas
Perversões e Neuroses Timopatias e Psicoses
Paroxismos e Estados Ciclos e Processos
Reatividade e Luta Acontecimento e Mediação

Este quadro opera uma rearticulação de conceitos, agora com dados peirceanos
(reatividade, luta, acontecimento e mediação), e dá prolongamento ao que explicitamos no
quadro 2, logo que introduzimos tipos de consciência diferentes. Entendemos a consciência
semantizada humana como sendo lacunar, transitória, descontínua. Pensamos que este é um
dado essencial, pois permite a transição da descrição clássica freudiana para a clínica dos
sintomas e organização de traços de personalidade. Porém, não acreditamos na consciência
como um fenômeno absoluto. Ela é produto fugaz de uma produção mais vasta do aparelho
psíquico, na qual o Inconsciente e o Pré-Consciente têm uma importância ímpar. Desta forma
o nosso principal objetivo passa a ser mostrar que os sintomas simbólicos estão largamente
comprometidos com processos inconscientes.
O campo das psiconeuroses é o campo dos destinos humanos problemáticos por
excelência. Os sintomas simbólicos estão entremeados com estas formas destinais,
constituindo muitas vezes a ponta do iceberg da existência em movimento. A complexidade
da relação entre linguagem, corpo próprio e aparelho psíquico se faz presente. Aprendemos
que o símbolo tem uma profunda relação com a existência, constituindo-a em sua relação
com o corpo próprio. O símbolo deve, no entanto, ser colocado em relação com seu sistema
completo de referência, seja na linguagem ou no processo associativo de cada um. Se o
símbolo possui um caráter coletivo, ele é também pertencente ao particular imaginarizado de
cada um. Neste campo do singular, o símbolo e o sintoma se autoconstituem formando o que
chamamos sintoma simbólico.
O sintoma simbólico constrói-se no singular. É a dor de cada um que não pode ser
totalmente acessada pelo outro. Ele é via de regra uma simbolização no particular, e portanto
abortada 30 da comunicação. Este ensinamento atravessa o nosso trabalho e comporta uma
grande esperança terapêutica. Vergote31 soube bem demonstrar com análises finas de
exemplos clínicos – mostrando, com Freud, ser a linguagem também o caminho resolutivo
destas simbolizações abortadas, desimbolizadas, incompletas, pertencentes ao indizível
porquanto ainda sejam sintomas. O sintoma psíquico é simbólico por ter um sentido a ser
performado, tendo a palavra poder curativo - tal como Freud aprendeu com Anna O., na
talking cure inaugural do campo psicoterapêutico.
Depois de fazer alusão a uma psiconeurose transferencial (Anna O.), não
poderíamos deixar de retornar ao codidenominado Senhor do Mundo e tentarmos apontar
algo de todos nós neste psiconeurótico narcísico paranóico - termo longo e complicado, como
a confirmar que nós ‘psi’ temos muito disto mesmo que estamos a proferir. O Senhor do
Mundo fez uma enorme concessão, contra seu narcisismo, explicando para outrem por que
ainda me dava a esmola de uma visita:

30
Regnier Pirard; “Symbole, Symptôme et Metaphore. A la Recherche d’une Articulation” in La Metaphore –
Approche Multidisciplinaire, Bruxelles, Facultés Universitaires Saint Louis, 1980, pp. 141-184.
31
Antoine Vergote; “The Symbolic Body and Symbolic Symptom” in International Journal of Psychology,
North Holand, 20, pp. 419-437, 1985.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 28
___
“Ele me deu esperança... não sei como ainda... Por isso será alguém no mundo
novo que virá. Um acólito na terceira fileira dos adeptos.”

Ainda que minha ação ou fala, nem sei qual, tenha sido mal compreendida ou
traduzida dentro do seu sistema simbólico de entendimento das coisas de Senhor do Mundo,
sua resposta faz-nos acreditar em um resto de transferência e de esperança no convívio com
humanos. A solidão não é para todos, nem para o Senhor desta Terra.
Da alta, frondosa e desfolhada árvore da prepotência pode cair uma frutinha
chamada esperança na cabeça de nós clínicos.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 29

4. Três teses acerca do sintoma simbólico em relação ao campo


psicopathológico

O sintoma simbólico não tem uma única maneira de se constituir. É certo que
adotamos a hipótese de que as chamadas doenças mentais típicas formam um campo único do
humano: ainda que sob o rótulo social de ‘as doenças mentais’ sejam as formas mais radicais
e caricaturais de todos nós, elas pertencem ao humano. Contudo, este campo tem
diferenciações importantes não somente do ponto de vista da fenomenologia dos diversos
quadros clínicos, mas principalmente do ponto de vista individual. Assim, quando nos
referimos à paralisia de Terezinha ou à amplificação da dor feita por uma paciente com
relação a um câncer através da metáfora do urubu, em ambos estavam presentes
principalmente os processos que envolvem o campo das neuroses. A metáfora ocupa um
lugar especial nas elaborações até aqui apontadas, na história e nas elaborações teóricas e
clínicas existentes acerca do sintoma simbólico32. Nem por isso deixamos de ver a presença
de aspectos que envolvem a presença de outros sintomas: a depressão, por exemplo. Esta
necessidade de dar conta das diferenças radicais existentes entre a neurose-perversão, a
psicose e a timopatia exige que qualifiquemos e explicitemos a produção de cada sintoma
simbólico, ao mesmo tempo que reconhecemos que no sujeito estão integrados através de
processos que procuraremos esclarecer.
Apresentaremos três teses acerca da produção de sintomas simbólicos,
correlacionados com as estruturações clínicas principais. O simbólico aqui deve ser entendido
essencialmente no sentido de Peirce, de Lacan e da fenomenologia - onde a linguagem ocupa
lugar central e essencial na constituição do sintoma. Contudo, a origem, o desenvolvimento e
o destino da produção do sujeito são bastante diferentes entre eles. Os três caminhos
principais não devem ser tomados como sendo exclusivos e únicos com relação a uma
determinada parte do campo psicopathológico. O caminho através do qual se forma o
sintoma é estruturalmente ligado a cada parte do nosso campo de estudo, de forma que tem
uma função definidora com relação à própria noção de estrutura, mas não devem ser tomadas
como parte extra partes.
Os três campos têm a causalidade psíquica como elemento essencial. São então três
principais meios de produção de sintomas tipicamente simbólicos, evidenciando a elaboração
pelo aparelho psíquico. Um quarto tipo de sintoma merece pelo menos uma alusão: o dos
distúrbios psicossomáticos. Eles, para nós, exercem um papel de denúncia da quebra do
processo de simbolização do conflito e da existência de multicausalidade. Trata-se justamente
da falência ou da incompetência do aparelho psíquico de lidar com determinados conflitos,
passando a causalidade biológica a exercer uma ação essencial. Os três campos de sintoma
simbólico e os distúrbios psicossomáticos são termos finais, e não o processo que deve ser
elucidado enquanto caminhos privilegiados.
Cada um dos caminhos pode ser explicitado visando não ficarmos somente a
descrever as formas finais que adquirem os sintomas, mas aproveitando as proposições a
serem demonstradas:

• Tese A - O caminho do sintoma simbólico neurótico e


perverso diz respeito à deformação da palavra como símbolo
comunicante, sendo expressão de desejos e conflitos virtuais.

• Tese B - O caminho do sintoma simbólico psicótico diz


respeito à palavra ser tomada como coisa.

32
Compartilhamos no espírito e letra o trabalho refinado e de longo fôlego de Valeska Zanello de Loyola; A
Metáfora no Trabalho Clínico, Guarapari, Ex Libris, 2007 que tem aprofundamentos que informam o nosso
texto e igualmente recebeu algo de nossa parte.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 30

• Tese C - O caminho de constituição do sintoma simbólico


timopático diz respeito ao peso da palavra na economia psíquica do
sujeito.

E, finalmente, faremos somente uma alusão à questão psicossomática sem


entrar em maiores detalhes, o que formaria a

• Tese D - O caminho do sintoma psicossomático diz


respeito ao oposto, isto é, implica a falta ou insuficiência de simbolização
dos conflitos.

Caso figuremos as quatro hipóteses, veremos aparecer o esquema semiótico de três,


onde a causalidade psíquica é preponderante. Na quarta via (psicossomática), a causalidade
psíquica sozinha não explica de forma preponderante, estando mais que nunca em estreita
relação com outras causalidades. Podemos lembrar então um conjunto sistemático de
conceitos, acrescentando a este sistema, no quadro a seguir, os quatro caminhos apresentados
através das letras A, B, C e D.

Quadro 4 - Síntese do campo psicopathológico com os quatro caminhos


formadores de sintomas

Lógica 1 2 3
semiológica Primeiridade Segundidade Terceiridade

Delimitação
Timopatias Perversões-Neuroses Psicoses
fenomenológica
e estrutural dos
campos clínicos

Exemplos de Mania Sadismo Obsessão Paranóia


Distimia Fetichismo Fobia Catatonia
formas clínicas Melancolia Masoquismo Histeria Esquizofrenia
preferenciais

Sintoma timopático Sintoma perverso e sintoma neurótico Sintoma psicótico

APARELHO PSÍQUICO
Sintoma psicossomático

(SOMA)
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 31

Chamamos atenção a que todo sintoma simbólico é um produto processado e que a


apresentação categorizada não deve impedir a elucidação dos seus processos constituidores.
Por isto, nosso propósito a seguir é realizar uma incursão nos domínios da atividade de
produção - sem ter deixado de apresentar primeiro os principais produtos semiológicos. Por
produtos devem ser entendidos os fenômenos experimentados conscientemente ou tudo
aquilo que produz conhecimento no sentido peirceano. O conceito de Inconsciente faz-se
aqui necessário, mesmo que na maioria das vezes ele só possa ser reconhecido a posteriori.
Voltamos a acentuar que a consciência é lacunar e que chamamos de semiosis o conjunto de
processos conscientes e inconscientes formadores dos produtos. Salientamos que deve ser
acrescida a esta concepção a dimensão discordancial, conflitiva, para não ficarmos em uma
concepção genérica de Inconsciente. Ou seja, distinguimos o Inconsciente primário,
constituído pelo recalque originário, do Inconsciente propriamente dito - ou secundário,
constituído pela atividade defensiva, em especial o recalque. O Inconsciente recalcado é
essencialmente relacionado ao que Lacan chamou de “Inconsciente estruturado como uma
linguagem”. Esse Inconsciente corresponde à proposição freudiana explicativa da
fenomenologia das neuroses-perversões e à formação específica dos sintomas neuróticos.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 32

5. O sintoma simbólico neurótico

O sintoma simbólico neurótico toca de uma só vez diversas maneiras de


entendimento. Envolve desde o estudo sindrômico, passando pela avaliação no plano
fenomenológico até a dimensão estrutural. Por isso existe uma articulação entre o sintoma
dito simbólico e o próprio sujeito. Ou seja, o sintoma simbólico acaba por sempre demonstrar
como o sujeito está constituído. Ele está para a estrutura psíquica como a folha de parreira
está para o pé de uva. Em face de uma folha de parreira e de um sintoma neurótico, o
botânico e o psicanalista procedem de forma análoga, e acabam por reconhecer a sua íntima
vinculação. Por isso o sintoma não pode ser isolado da fala e do conjunto de produções
semióticas do sujeito. Ele deve ser inserido e compreendido dentro do contexto geral da
queixa do paciente, incluindo aí principalmente a intersubjetividade. Quando lemos o relato
seguinte, nunca deixamos de nos surpreender com o caráter conflituoso geral do processo
semiótico de base, bem como com a resolução sintomatológica que se faz a expensas de uma
parte da atividade significativa do paciente em prol da manutenção de um desejo:

“Herr K. costumava escrever-lhe longas cartas enquanto viajava e enviar-lhe


postais. Costumava acontecer só ela estar informada da data de seu retorno, e sua
chegada apanhar sua mulher de surpresa. Além do mais, corresponder-se alguém
com um amigo ausente com quem não pode conversar é pouco menos óbvio do
que procurar alguém, tendo perdido a voz, fazer-se entender pela escrita. A afonia
de Dora, então, admitia a seguinte interpretação simbólica. Quando o homem que
ela amava estava ausente ela renunciava à fala; a palavra perdera o valor, já que ela
não podia falar com ele. Por outro lado, a escrita ganhava importância, por ser o
único meio de comunicação com ele em sua ausência.” 33

Já introduzimos que as neuroses são reconhecidas na sua exterioridade sintomática


pela reatividade modificada, em geral exacerbada, pela luta e conflito (segundidade de
Peirce). No entanto, elas têm especificidades, não sendo possível encontrar um só tipo puro
na experiência clínica. Existem combinações as mais diferentes, de maneira que os três tipos
de neurose que distinguimos refletem formas de produções semiológicas que envolvem
sempre a primeiridade, a segundidade e a terceiridade. Ou seja, as neuroses envolvem a
dominância da produção de signos típicos da segundidade, mas sempre com participação
maior ou menor dos outros fenômenos. Por conseguinte, a seguinte proposição geral para o
campo das neuroses pode ser feita, antes de passarmos a mostrar o processo interior de
formação de sintomas:

33
S. Freud; “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905 [1901]), E.S.B., VII, pp. 37-39.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 33

SINTOMA NEURÓTICO = DOMÍNIO DA SEGUNDIDADE34,


mas produzindo diferenciações:
Neurose obsessiva, participação da terceiridade (mediação, convenção)
Neurose histérica, neurose típica (distúrbio da segundidade: reatividade,
conflito)
Neurose fóbica, participação da primeiridade, em especial do sentir e do
acontecer

Nesta concepção, a histeria é a neurose por excelência. Constitui a forma principal e


essencial de formação de sintomas com relação aos outros dois tipos. Ela é paradigmática
para as neuroses por encarnar o funcionamento da segundidade em geral. A luta - interrna ou
projetada nos relacionamentos, especialmente o amoroso - é bastante usual. Ao contrário do
amor simbiótico sonhado realizando a fantasia de retorno ao seio35 de forma regressiva,
emerge o fantasma de sedução vivido da forma a mais crua, instalando-se uma guerra. Após
a guerra, o conflito em aberto, aparece a devastação com estragos irreparáveis.
Porém, estas constatações pertinentes com uma fenomenologia do conflito arraigado
não excluem os outros dois tipos de processos de semiosis - uma vez que a segundidade se
constituí em uma degeneração da terceiridade em direção a primeiridade. Existe sempre uma
necessária relação com a terceiridade e com a primeiridade. Isto se faz pela presença da
imagem embutida nas metáforas, por exemplo, da terceiridade. O domínio da terceiridade é
particularmente proeminente e essencial, posto que seja onde o sujeito se constitui, tornando-
se então relevante valorizar, primeiro, esta última através da qualificação da linguagem
ordinária.

34
Para uma introdução articulada com psicopatologia acreditamos que a leitura do último capítulo do nosso
livro Psicopathologia I – Prolegômenos, Belo Horizonte, Editora PUCMinas, 2005 possa ser útil; o livreto de
Lúcia Santaella, O que é Semiótica, Coleção Primeiros Passos, São Paulo, Brasiliense, 2003 para uma
introdução didática a semiótica; e para um estudo na origem C. S. Peirce, C. S.; Collected Papers of Charles
Sanders Peirce, Volumes I, II, III, 3a edição, Charles Hartshorst e Paul Weiss (organizadores), Harvard,
Harvard University Press, 1974.
35
Francisco Martins; O Complexo de Édipo, Brasília, Edunb, 2003.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 34

5.1. A histeria

Toda tipologia discursiva das neuroses evidencia que a histeria apresenta, na


situação terapêutica, um maior número de erros, enganos e atos falhos do que os obsessivos e
um número menor de erros de fala dos que os fóbicos 36. Poderá ser observado que a
redundância é bem maior nos casos de fobia e de histeria, o que pode ser um indicador do
esforço de dizer diferentemente algo que escapa aos meios expressivos da primeiridade e da
segundidade. Esses tipos de estudos são interessantes enquanto indicadores gerais e servem
para um diagnóstico do tipo sindrômico, não fornecendo mais do que indicações gerais. É
salutar que, ao mostrar existir um indicativo de maior número de erros, a histeria possa ser
interpretada das mais diversas formas. Caso nos situemos a partir da posição do sujeito, este
maior número de erros reflete um maior esforço em criar, em dizer algo muito doloroso para
sua consciência civilizada. Por isso preferimos fazer uma proposição específica em vez de
continuar a fazer caracterizações gerais - que são meros indicadores e não explicações para a
produção de sintomas articulada com a linguagem simbólica, com a terceiridade.
Comparando com a fala “asseada e organizada” da neurose obsessiva, onde existe
uma maior qualificação da palavra, a neurose histérica foi reconhecida por Freud como
estando mais próxima da imagem. Na caracterização da sintomatologia histérica com relação
à fala, comentou:

“A sintomatologia histérica tem uma escrita imaginada (Bilderschrift) que a


descoberta de certos bilíngües nos permitiu decifrar”.37

A escrita imajada tem a qualidade de reunir a imagem e a palavra. Entre estes dois
pólos se constrói a histeria. É o reino da metáfora e do sonho não realizado. A escrita torna-
se imajada, impregnada de elementos icônicos, passando a privilegiar a formação dos
sintomas principalmente por conta da metáfora. Em geral, trata-se de uma metáfora que não é
tomada enquanto tal, mas em um sentido muito mais literal: ocorre aí uma perda do seu
caráter específico de metáfora enquanto metabola - substituição de palavra a palavra - para
tomar a direção do corpo próprio, constituindo o sintoma que passa a exprimir o que não
pode ser dito em voz alta. Ocorre o típico sintoma neurótico com a significação incorporada
ou formando a chamada conversão histérica. “Neste alfabeto, vômito quer dizer (bedeutet)
desgosto” 38, resume a tese inteira Freud.
Poderia pensar-se que a linguagem isoladamente produz um sintoma simbólico tal
como o vômito. A experiência clínica, tanto dos psicanalistas quanto dos fenomenologistas,
mostra que não. A auto-sugestão é insuficiente. É necessário que algumas representações
sejam submetidas ao recalque, principalmente representações infantis esquecidas que só
podem vir à luz da consciência, ou se mostrar plenamente, quando do trabalho terapêutico.
Para isso, as primeiras experiências das crianças com relação à constituição do corpo próprio
são essenciais. Antes da entrada no universo simbólico da linguagem é bom lembrar existir
este primeiro tempo, conhecido em diversas concepções como o pré-simbólico. Nesta época,
antes da aquisição de uma terceiridade plena, onde o pensamento conceitual não está
diferenciado, são experimentadas ou imaginadas muito das representações que farão parte do
material inconsciente a ser recalcado. Determinadas representações estão intimamente
relacionadas ao caráter afetivo e imagético das representações pré-simbólicas, e são elas
justamente que têm alto poder patogênico.
Por conseguinte existe um percurso formador do sintoma do ponto de vista
semiótico e psicanalítico: primeiro a fixação de determinadas experiências, com o posterior
recalque em um segundo momento. O trabalho analítico faz o percurso inverso. Visa dar a
36
. Vide E. Véron; C. E. Sluzki; Comunicación y Neurosis, 1970 e S. Goeppert; H. Goeppert; Linguagem e Psicanálise;
tradução de Otto Maas, São Paulo, Cultrix, 1980.
37
. S Freud; J. Breuer; "Estudos sobre histeria" (1895), E.S.B., II, p. 177; S.E., II, p. 129; G. W., I, p. 189.
38
. Ibid.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 35

palavra a estas representações recalcadas, que não são da ordem da linguagem diacrítica e
que estão enclausuradas nas imagens recalcadas. A proposição geral seria então que a
palavra na formação do sintoma não tem mais o seu estatuto de símbolo, ela é
desimbolizada. Pensamos que as imagens de submissão da experiência do corpo próprio
sujeitado passivamente ao desejo do outro é o conteúdo inconsciente recalcado. Neste caso,
vemos a memória ser preenchida não por palavras, mas por imagens, por signos icônicos e,
na medida em que envolve a sensibilidade, por qualisignos39. Eles são signos desprovidos de
denotação e marcados pela pura experiência, pela qualidade primeira de algo. Por exemplo o
sabor do sal na primeira vez na boca de um bebê, experiência perdida e agora já permeada
pela reatividade e pela semantização ou terceiridade. Um exemplo muito bonito de Santaella,
op. cit.: “These are flashes of mental incandescence, an invitation to light prior to light itself,
wich may last seconds or years. Artists and scientists know about this state of
indetermination, for they must live with it”. A possibilidade de colocar palavras nos ícones e
nos qualisignos, de perlaborá-los, torna-se essencial na análise para produzir uma nova
solução que não implique o recalque dos conteúdos infantis.
Na medida em que pode ser significado o desejo, dissolvendo o conflito, dizendo em
alto e bom som, sem delongas, sem mesmo a necessidade de produzir circunlóquios ou
principalmente de dizer de outra maneira (metáfora) determinados conteúdos inconscientes é
que a psicanálise adquire toda a sua eficácia terapêutica. É suficiente lembrar que Freud
nunca contestou sua afirmação de que

“os sintomas histéricos isolados (einzelmen) desapareciam imediatamente e sem


retorno quando se conseguia trazer à plena luz a recordação do incidente
desencadeador, despertar o afeto ligado a este último, e quando, em seguida, o
doente descrevia o que lhe havia acontecido de forma detalhada e dando à sua
emoção uma palavra (dem affekt Worte gab).” 40

O que não pode ser falado? O Inconsciente recalcado. Isto é, o conjunto de


representações recalcadas, constituídas de representações-coisa. É justamente pelo fato do
Inconsciente não estar constituído por uma linguagem diacrítica, mas por representações-
coisa, que a linguagem pré-consciente e consciente adquire a possibilidade de dizer de outra
maneira que não o sintoma. Por diacrítico, apontamos que a linguagem tem sempre uma
dupla dimensão para efetivamente funcionar: a enunciação e o enunciado, a locução e o
ilocução, a fabricação e o produto. Por ser assim é que a linguagem pode ser utilizada na
operação de recalque, embutindo dentro de uma metáfora um ícone, um gesto, um ato que
não pode vir à tona na consciência. O recalque permite também solucionar o conflito. Daí a
predominância da metáfora e do esforço de dizer de diferentes maneiras o conflito
inconsciente. Nem por isso podemos igualar metáfora a sintoma. Existem metáforas
solucionadoras de conflitos, enquanto outras são condensações de conflitos. Neste último
caso, quando se formam sintomas simbólicos, pensamos, existe uma relação direta entre as
metáforas corporais e o sintoma. Este exprime uma modificação na simbolização. O recalque
reflete uma modificação que torna a metáfora original uma não-metáfora. Ela se torna uma
metáfora desimbolizada.
Assim, nos casos clínicos de Freud, emergem metáforas na fala de suas primeiras
pacientes. Elas são reveladoras e trazem consigo imagens recalcadas, movimentos pulsionais
infantis repulsados por envolverem o corpo sexuado e de prazer. A metáfora expressa o uso
da linguagem pelo Inconsciente. Este a deforma, de sorte a manter longe da consciência o
conflito inconsciente infantil a longo tempo sepultado. Sra Cecília M.: as suas fortes crise de
nevralgia facial eram o resultado de uma observação de seu marido que ela recebeu “como
um golpe no meio da cara”; posto que sua avó lhe havia olhado de uma maneira incisiva,
“perfurante”, ela sofria de uma dor na testa; as palpitações cardíacas se apresentavam por que
39
Para um primeiro aprofundamento ver o bonito artigo de Lúcia Santaella Braga; “Why there is no crisis of
representation, according to Peirce” in Semiotica, 2003. O artigo está disponível em PDF na Internet.
40
S. Freud; J. Breuer; "Estudos sobre histeria" (1895), E.S.B., II, p. 47; S.E., II, p. 129; G. W. , I, p. 189.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 36

ela “tinha recebido um golpe no coração”; sua garganta se fechava por que ela se sentia
“obrigada a engolir palavras”... a agressividade de Cecília M. é flagrante, assim como sua
passividade logo que é invadida, machucada ou sofre a intervenção intrusiva de outrem. Suas
metáforas denunciam isso. Porém, elas não dizem diretamente o conteúdo inconsciente
infantil. Esse é da ordem de uma sedução, ou fantasia de sedução, comumente.
O conteúdo recalcado não é ele mesmo, em um sentido lingüístico, uma metáfora.
Uma observação acerca da tese de Lacan poderá ajudar a melhor entender o significante
psicanalítico como sendo um representamen. Lacan explicitou em mais de uma ocasião que o
significante não tem nenhum significado. Assim, não se trata de metáfora no sentido
lingüístico. Trata-se, ao contrário, de uma redução do símbolo ao seu representamen.
Preferimos o termo representamen, principalmente quando produzindo qualisigno, ao invés
de letra ou de significante. No entanto, o termo significante ganhou pela tradição direito a
permanecer - desde que seja explicitado o domínio e a propriedade do termo em cada teoria.
Neste sentido, o Inconsciente é estruturado como uma linguagem. Porém,
acentuamos toda a importância da expressão como uma linguagem, indicativo de uma
similitude e não de uma linguagem tal como os lingüistas, os filósofos e a maioria das
pessoas compreendem. Este elemento de comparação permite dizer que se trata de uma
analogia entre sistemas diferentes. O termo linguagem, quando aplicado aos processos
inconscientes, deve ser submetido a uma relativação sob pena de demolir o próprio conceito
de Inconsciente - concebido como constituído de representações-coisa em oposição ao
sistema Pré-Consciente, constituído de representações-palavra.
Insistimos: na concepção freudiana, o Inconsciente não é constituído como uma
linguagem diacrítica. Caso utilizemos o termo linguagem de forma genérica, designando os
processos semióticos em geral, o termo é válido. Porém, deve-se lembrar que Freud sempre
procurou ser mais preciso. Ainda mais com relação às neuroses, posto que foi neste campo
que ficou patente a estrita necessidade de se falar de Inconsciente. Portanto, não é de
estranhar que Freud tenha explicitado bem as relações entre a linguagem, o Inconsciente e as
neuroses, possivelmente para evitar confusões acerca do estatuto do Inconsciente. Freud
explicita em “O Inconsciente” (1915) que, diferentemente das psicoses, nas neuroses a
linguagem não é tomada como coisa. Ela serve como meio de comunicação justamente por
guardar seu poder simbólico e de substituir determinadas experiências sentidas,
experimentadas na motilidade, desejadas e / ou pensadas. Existem representações que
permanecem inconscientes, submetidas ao poder da censura. Somente através de um disfarce
estas representações encontram o caminho da sua resolução. Uma destas possibilidades é o
sintoma. A linguagem diacrítica, evidenciada na metapsicologia pelo sistema Pré-Consciente,
é fundamental na produção do ocultamento e desconhecimento das moções pulsionais
representativas inconscientes. Encontramos por esta razão uma grande afinidade entre os
estudos de retórica e a metapsicologia.
A histeria vê-se tão ligada à metáfora justamente por apresentar sua fala como um
objeto construído para o desejo do interlocutor possível. Apresenta assim o seu Eu como um
objeto desejável para o suposto desejo do Outro. Caso sigamos as substituições metafóricas
que se apresentaram na fala, nos aproximaremos então dos conteúdos recalcados. O conteúdo
recalcado envolve sistematicamente representações reconstruídas da pequena infância, de
conteúdo sexual e que não tinham este tipo de simbolização. No exemplo apresentado, a
imagem do pênis é o conteúdo representativo mais difícil de ser colocado em palavras - em
virtude da censura e do poder recalcante que tem a palavra advinda da mãe ou de uma sua
representante substitutiva.
Na imagem a seguir, vemos uma esquematização dos dois planos necessários para o
entendimento da neurose. Estes dois planos se replicam em diversas formas de atividade
representativa. Porém, deve ser explicitado que o inconsciente é formado por representações-
coisa.

Quadro 5 - Caracterização do duplo plano Consciente / Inconsciente


Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 37

Objeto de desejo do Fala Representações-palavra Consciente e


interlocutor e objeto Pré-Consciente

Imagem do pênis Recalcado Representações- Inconsciente


Coisa

As representações-coisa são pré-simbólicas para a analisanda. Não existe, do ponto


de vista do Inconsciente da analisanda Terezinha, uma linguagem no sentido pleno, nem uma
consciência tética semantizada por ocasião das cochiladas na rede do seu pai. Entre as
representações-palavra, juntamente com representações-objeto (pré-conscientes e
conscientes), e as representações-coisa inconscientes temos o efeito do recalque. Antes da
análise o recalque tinha toda a sua eficácia. Logo que Terezinha identificou seu pai como
sendo um bode “pai-de-chiqueiro”, e reconheceu a cena infantil de prazer repetido vivida
como sedução, a sintomatologia se desfez. As representações-coisa, marcadas pela imagem,
impregnadas de repetição do desejo incestuoso, tinham toda a sua eficiência: recalcando as
representações-coisa e reprimindo a chamada quota de afeto, forma-se assim o sintoma
histérico. Freud explicita tanto o recalque quanto a repressão. Esta última para explicitar a
dimensão energética como importante para elucidar a gênese da angústia na histeria.
É importante acentuar que do ponto de vista da transferência, e da colocação em ato
da fala na histeria, estamos bem de acordo com a fórmula de Lacan 41:

a
------- <> A
(- phi)

Na qual a é o objeto de desejo, falando a histérica continuadamente da falta deste e mantendo


sob recalque a representação inconsciente da falta de um pênis. Na fórmula, o menos
pequeno phi mantido entre parêntese exprime o recalque desta representação. A fala
representada do lado esquerdo da expressão se endereça ao grande Outro.
Lembremos tão somente que a fala da paciente é essencialmente o resultado
processuado da atividade psíquica do sujeito. Acreditamos ser salutar distinguir o
Inconsciente tal como Freud elucida através do conceito de representação da formulação de
Lacan, que qualifica o que chamamos de sinsignos. Clareando: sinsigno é uma forma
particular de forma ou barulho, sendo o silvo de um trem que irrompe o silêncio da noite um
sinsigno. É assim o domínio da segundidade como fenômeno ou significante presentes na
interlocução. Em outros termos, a tese que estes sinsignos - ou, se quisermos, estender o
conceito às palavras em geral - são apresentados como substitutos de representações que não
podem vir à luz da consciência. A tese freudiana antecede em um passo a explicação que
qualificaria somente a linguagem e a interlocução. O plano da interlocução não substitui o
plano psíquico. A contribuição de Lacan é uma efetiva implementação da teoria de Freud,
especialmente no plano da fala e da interlocução.
O plano psíquico parece comandar boa parte de todo o sofrimento histérico. A
histeria mostra todas as agruras de uma bela alma em luta contra a sexualidade
experimentada na primeira pessoa. Pelo fato de reconhecer e tentar lidar com a
intersubjetividade, a histeria sempre se vê emaranhada na teia de relações e problemas do
cotidiano mais próximo a ela, em especial a família. Assim sendo, ela é a expressão mais
clara da neurose enquanto conflito interpessoal. O seu sintoma é fruto deste conflito,
tornando a histérica um dos representantes mais sofridos da civilização. A histeria também é
a demonstração da existência da dialética do senhor-escravo na clínica, com predileção por
ser escravo, queixoso, saindo vencedor no sentido do recebimento de cuidados que obrigam
41
. Jacques Lacan; Le Séminaire, Livre VIII: Le transfert, Paris, Seuil, pp. 289-290 e 295.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 38

aquele na posição de Senhor a ter todos os cuidados e preocupações - e dirigir o destino do


escravo que por nada se responsabiliza. E por ser relacionada desde os tempos primordiais ao
útero (histerus), ela será sempre reveladora, caso seja lhe dado chance de falar, dos
problemas relacionados à sexualidade feminina e da experiência humana da falta, de não ser
um ser completo no desejo.
Seria, porém, uma ingenuidade não indicarmos os efeitos e algumas interações que a
histeria tem sobre os seus convivas. Caso seja um homem ou uma mulher com atributos de
beleza os problemas se acentuam, exigindo que o sujeito assim estruturado se torne um quase
expert nas coisas do amor - sob pena de soçobrar. O par, os filhos e pessoas próximas se
verão também envolvidos e, por sua vez, expostos tanto a gozos e sofrimentos semelhantes
como a outras modalidades - de que o quadro 6 é somente uma cartografia geral, uma
pretensão de foto da ionosfera focada em Λ a passear na terra do desejo.
Λ é uma linda modelo. “Ganha a vida muito honestamente”, fazendo fotografias de
outros modelos enquanto não é convocada ela mesma para uma nova sessão. Honestamente,
pois insiste em ser respeitada acima de tudo. Um dos seus problemas é a intensidade com que
os outros a desejam, fazendo-lhe desde ofertas de amor romântico até propostas que julgava
indecorosas: homens e mulheres assediando-a desde a idade de 16 anos. No período de tempo
que a assisti, quatro anos, contabilizamos pelo menos 18 casos sérios implicando rupturas e
uma ciranda de sofrimento intenso para ela e quem estivesse mais próximo. Não anotamos
grande número de pequenos incidentes e intenções em sua direção de que ela se livrou “com
categoria”, mas sempre com algum desgaste. Sua queixa permanente era de não ser amada.
Porém, reclamava do seu devotado noivo, com quem viveu quatro anos: “acorda todo dia de
manhã, pulando em cima de mim; num agüento mais e já avisei que ele tem que mudar, pois
assim não vai dar...”. Emenda: “ele é uma gracinha, me cobre de presentinhos. Quando
menos, deixa um Sonho de Valsa na aba da minha bolsa”. Inteligente, corrigiu logo sua
queixa inicial - introduzindo o tempo imperfeito que se tornou sua marca: “ser amada como
gostaria”. Assim, dizia para seu noivo: “se você tivesse feito do meu jeito a gente já estaria
casado”. “Tudo o que aconteceu teria sido diferente se eu tivesse tido um pai.” “Você é o
meu amor, mas se você tivesse me esperado, não tivesse se precipitado, enquanto eu estava
tentando limpar o terreno para ficarmos para sempre juntos, tudo seria diferente”. “Eu te
amo, sem dúvida, o problema é se você é capaz de me amar: tudo seria então maravilhoso”.
Observações simplórias: a projeção acerca da dúvida sobre se é amada ou não - ela mesma
depois confessou estar com dúvidas acerca da sua capacidade de amar; o condicional
colocado sempre nos outros e nos eventos, como se ela não tivesse desejo próprio; Λ se
coloca como o objeto de desejo do outro através de uma estratégia de disfarce permanente
que ela sequer acredita que faz, e que somente ao longo do trabalho analítico deixa emergir a
sua divisão com relação à fantasia de sedução e à burla permanente que a domina.
A interrogação constante dirigida ao outro é combinada com a sedução infantil mais
eficaz, pois diferenciada ao longo da vida. Expõe-se um mínimo, como a dizer: adivinha se
posso vir a gostar de ti? Pensa se sou aquela que te completará totalmente fazendo um
contigo? Interpela, portanto, a fantasia do outro, no caso um noivo, que pensa que a terá mas
é permanentemente colocado na difícil situação de estar em busca de um objeto de amor já
perdido há muito. Tempo presente: falta o ato de entrega, remete-o então para o outro -
colocando no tempo do futuro do pretérito ou no imperfeito. Ou senão, coloca no condicional
com o verbo ter no subjuntivo, tornando impossível a consecução de uma vida amorosa real.
É criado um vasto imaginário que é posto à disposição para o outro: Se você tiver cacife que
entre, pois aqui custa tudo muito caro. Esta vasta operação é colocada em ação ao mesmo
tempo em que Λ se constrói como objeto de desejo do seu noivo, ou de quem pretenda amá-
la. Ao verificar estas duas dimensões pode-se perceber que Λ será sempre um objeto faltante
para quem a desejar e se arriscar: uma eterna menina brincando de quem gosta mais dela.
Rainha do flerte, diz jogando prestígio que antes dos 15 anos já havia beijado mais
de 50 namoradinhos. Brinca dizendo que foi chamada de perigete, depois peguete e agora
fiquete. Finge ser o amor quando flerta: até aí temos o jogo introdutório do amor, ainda que
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 39

no exagero que consistia em ser Her Highness, The Princess e não tão somente His Majesty,
The Baby, como Freud gostava de afirmar. A possibilidade de completude um no outro como
tentativa de construção continuada da vida amorosa é tão somente incipiente. Ocorre que este
jogo cheio de desconhecimentos e fingimentos para si mesmo e para o outro é permanente e
vale per se. É como se o próprio amor fosse só o imaginário sonhado. Efetivamente
encontramos uma (de) negação do amor e da chance de vir a ser mulher efetiva de um
homem. Claro que homem e mulher, aqui, são posições relativas a quem detém o falo ou
não. Na maioria das vezes Λ domina, dirige - seu noivo e demais candidatos devem segui-la,
senão o “pau vai quebrar”.
Um dia de manhã seu noivo fez um comentário acerca dos seus seios. Ela sempre os
achava pequenos, como de uma criança e ele não podia tocá-los. Eram “tão sensíveis que me
dava gastura o menor toque...”. Disse isso de maneira algo informal, como se a lei da
gravidade fosse vencer de qualquer maneira o falicismo dele e de Λ.
___
Estão menores do que antes. Talvez seja a idade e parece que caíram um
pouquinho.

Pronto! Λ meteu-se em pé de guerra, veio para a sessão e queria se reconstruir para


o olho do seu amor. Já havia telefonado e marcado consulta com um cirurgião plástico, sua
irmã dando-lhe pleno apoio, já que o novo “peito era um presente que ela merecia e podia se
dar”. Pergunta o que penso. Digo para adiar a cirurgia e dar um pouco mais de tempo para a
análise. Não aceita e diz que necessita parar a análise para a cirurgia. Nego o acordo e Λ
rompe.
Volta quatro meses depois com um problema já resolvido: O silicone implantado
tinha dado um problema. Mas consertaram, com bastante dificuldade, e ela ficou mais calma
com seus seios rígidos, agora maiores e protuberantes, símbolo que era uma mulher
“peituda”, em um duplo sentido – o de ter agora seios maiores e o de ser uma mulher sem
medo, feita para vencer na vida conforme o desejo de sua mãe para todas as filhas. Vemos
que a reticência na fala do seu noivo bem amado é preenchida de imediato com uma cirurgia,
algo desnecessário visto ela já ser plenamente desejada e profissionalmente bem sucedida. O
silicone entra como uma prótese para a falta do objeto que ela tão bem disfarça, erguendo um
véu dissimulador através de suas falas e comportamento. Trata-se de uma falta de ordem
essencialmente imaginária. O noivo, por sua parte, protege-se da devastação, das exigências
continuadas de ser alguém que ele já nem sabe o que é. Ela o descreve: “ele às vezes fica
doidinho, gasta tudo comigo, muito apaixonado mete os pés pelas mãos: assim eu não
quero”. Acaba falido e esgotado ao fim de alguns meses de desavenças e exigências que ele
não dava conta de cumprir.
Freud chama de equivalentes simbólicos a relação fálica entre seio, fezes e pênis.
Aqui ela se encontra presente sendo constituidora do falo mesmo de Λ. A ruptura com o
noivo torna-se inevitável. Seu desgosto é flagrante. Sua insatisfação é incrementada pelo
sonho do encontro absoluto, do grande amor platônico, que ela expressa faceira, de forma
carnavalesca - “o que é meu é seu, o que meu é eu, eu sou Julieta e você Romeu...” - em uma
sessão cheia de inquietações amorosas. Propõe então sair comigo. Fico calado. Ela, agitada,
falando palavras desconexas, parecendo desorganizada, não querendo dizer do seu desejo.
Para de repente. Senta e diz sentir-se uma palhaça. Deita e diz então estar pensando no seu
pai, quando a pegava nos braços e dançava com ela, cantando essas marchinhas de carnaval.
Canta novamente, solfejando “o que é meu, é seu...”, e conclui que Eu (seu analista) não era
dela. Havia um que não era dela. Pede desculpas e vai-se. Volta dois dias depois e pede
desculpas novamente. Resolve dar um limite a si mesmo e diz ironicamente: ‘é chato ser
bonita, mas meu papai me respeitava e agora, que não o tenho mais, só fico desrespeitando e
sendo desrespeitada. Só tenho a ti para me lembrar disto...”
Ficou deprimida durante seis meses mais ou menos. Responsabilizando-se pela parte
que lhe tocava nas devastações promovidas. Encontra um homem mais velho. Deseja pela
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 40

primeira vez ter um filho. Casa. Gosta de forma conflitada, mas consegue auto-limitar-se,
pois quer fazer uma família. Ao nascer seu filho, acentua sua vertente que diz agora ser
“conservadora”. Deixa a análise lentamente. Podemos apontar aqui um caminho sublimatório
que Λ passou a cultivar. Em vez do prazer brutal, insatisfatoriamente simbolizado e resolvido
que fazia sua sintomatologia guerreira e promotora de estragos de difícil reparação, agora o
prazer se faz a prestações mais módicas. Sua angústia destruidora se amaina e fica menos
freqüente, pois Λ consegue agora antecipar e evitá-la. Suas metáforas podem encontrar
sustentação na realidade que ela contribui para constituir através de referentes bem mais
palpáveis, como os cuidados com o filho e com o seu casamento. A simbolização se faz
agora na sua casa que “é a mais linda e que todo dia ganha um objeto de arte novo, às vezes
comprado de um artista desconhecido”.
Ao contrário da evidência cotidiana que as mulheres escondem seus atributos
desejantes - colocam-se desejadas aos esconder seus atributos - Λ faz questão que seus
atributos sejam colocados em primeira linha e reconhecidos. Trata-se, assim, de uma
inversão sexual através do seu substituto simbólico o seio-falo 42. Necessariamente a posição
feminina não tem que ser passiva. Utiliza-se assim de jogos de máscaras, de fingimentos que
funcionam como véu. Mas por detrás deste véu - freqüentemente sem valor real, pois nada se
encontra ali de compromissivos efetivos - uma intensa atividade pulsional faz-se e só
encontra guarida no vazio. Mesmo o pênis torna-se máscara de poder, falo - do mesmo modo
que a mulher recobre seu corpo, mascarando-o para se fazer falo. Na concepção de Lacan
tanto o homem quanto a mulher são castrados, pois o homem também não possui o falo,
privilegiando então de saída a idéia freudiana da bissexualidade humana. Claro que o homem
tem um pênis que, imaginariamente, é investido com valor fálico, e a mulher por não ter, faz
de conta sê-lo.

42
A tese de mestrado de Rosangela Maria Ribeiro; Relacionamento Amoroso: Sofrimento Feminino na
Contemporaneidade, Tese de mestrado inédita, Goiânia, Universidade Católica de Goiás, 2007, traz casos clínicos e
análise do baile do Pierrô, da Colombina e também alguns casos acerca da devastação, descrição bem feita por C. Soler;
“Mascaradas” in A Psicanálise na Civilização, Rio de Janeiro, Contra-Capa, 1998
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 41

5.2. A neurose obsessiva

A neurose obsessiva é reconhecida no discurso pelos poucos erros e pelo


esvaziamento do conteúdo emocional das representações. Conseqüentemente, ela se
aproxima da paranóia - e se diferencia da histeria e da esquizofrenia na medida em que estas
apresentam uma sintomatologia mais corporalizada. É a neurose “intelectual” por excelência.
Porém, estas descrições nos interessam aqui somente como meio de introduzir a problemática
da formação do sintoma neste tipo de neurose.
De antemão é conveniente lembrar que o recalque, na neurose obsessiva, não se
efetiva exatamente da mesma maneira que na histeria. Nesta, a estratégia do “esconder”, de
desconhecimento, realiza-se principalmente através da amnésia dos conteúdos representativos
inconscientes. Já na neurose obsessiva, o recalque se efetua através do chamado isolamento
do conteúdo afetivo da representação e da ruptura nas conexões, nos nexos estabelecidos
entre os eventos. O obsessivo, então, é capaz de lembrar detalhadamente largos períodos de
sua vida, explicitando todos os seus possíveis traumas e experiências infantis significativas.
Contudo, o tratamento dado às representações primeiras esvazia e não qualifica estes
conteúdos inconscientes. Justifica-se que a neurose obsessiva seja uma variação da histeria
posto que ambos alcancem a deformação do conteúdo inconsciente. Ou seja, a linguagem
mantém seus poderes simbólicos, servindo principalmente para dizer de outra maneira o
desejo, o proibido, o Inconsciente. Por isso, Freud diz ser a neurose obsessiva um dialeto da
histeria, pois uma vez restituídos o afeto e as conexões originais vemo-nos então em face de
uma problemática tipicamente histérica.
Esta desarticulação entre o conteúdo afetivo e as representações, acompanhada da
“amnésia” das conexões, principalmente entre as frases, e acrescida de operações freqüentes
de negação, propicia a sensação de absurdo experimentada pelo paciente tomado por uma
obsessão ou compulsão. O desintricamento entre afeto e representações obriga o sujeito a
uma contínua e incessante atividade, estafante do ponto de vista físico e intelectual. Ao
mesmo tempo, o obsessivo experimenta impulsões estranhas ao que pensa ser ou dever ser. A
desarticulação pulsional propicia também uma maior proximidade com o chamado instinto
de morte, uma vez que a moção pulsional fica desimbricada do pensar.
Uma dupla possibilidade torna-se factível a partir da separação do afeto da
representação. Formam-se dois destinos. O primeiro torna prevalentes as representações e, a
fortiori, as representações-palavra. Gera com freqüência um pensamento esvaziado do seu
conteúdo afetivo e vital. Envia-nos, assim, à imagem de que os obsessivos são zumbis. Ou
seja, homens que só têm pensamentos e um corpo próprio desprovido aparentemente dos
conteúdos pulsionais. A segunda possibilidade reflete o destino da quota afetiva. Trata-se da
imagem de ser tomado por forças demoníacas, de ser possuído por impulsões paroxísticas
fora de controle de sua vontade. Existe mesmo uma certa oscilação exagerada entre essas
duas possibilidades, variando de caso para caso. Entre o ridículo e o absurdo mediados por
uma crítica violenta ao caráter estranho das impulsões representativas experimentadas, aí se
realiza a neurose obsessiva como queixa.
Tomemos um exemplo pontual de Freud. O chamado Homem dos Lobos isolava-se
das outras pessoas em virtude de cravos que tinha no rosto. Freud observa que o paciente
tinha grande prazer em espremer compulsivamente suas espinhas porque “esguichava algo”.
Em função das lesões provocadas, passou a se censurar com veemência, principalmente por
“não saber deixar as mãos sossegadas”. Torna-se evidente para Freud tratar-se este sintoma
de um substituto do ato masturbatório. Essa última afirmação pode parecer descabida caso
seja tomada fora do estudo completo do caso clínico tal como Freud o conhecia. Não
obstante, ela pode ser confirmada através das formulações verbais que adquirem um “ar”
aparentemente metafórico, podendo induzir o leitor a pensar que se trata de um problema
lingüístico, quando se trata de uma moção pulsional representada em imagens desejantes que
não podem ser colocadas em ato.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 42

Explicitemos: A proposição freudiana acerca do sintoma simbólico obsessivo é a


mais clara: não se trata de uma similitude entre palavras, mas de uma similitude entre as
diversas ações. Isolemos as ações que Freud evidenciou nesta análise:

• expressão (Ausdrücken) das espinhas com grande satisfação;


• jorra qualquer coisa (dabei etwas herausspritzte);
• mexendo com a mão (Herumarbeiten mit der Hand) 43.

Estes atos ou atividades têm uma analogia flagrante com o ato masturbatório. Para Freud,
não se trata de um problema da ordem da expressão verbal (sprachlichen Ausdrücken) que
comanda a formação do sintoma – e sim uma questão das ações representadas enquanto
moções desejantes que não podem vir à luz da consciência e, menos ainda, ditas em uma
interlocução banal.
Lembremos de passagem que este famoso analisando era de origem russa e que,
muitas vezes, o seu desconhecimento da língua alemã era utilizado para não dizer em alto e
bom som aquilo que para ele era abominável. A língua alemã passa a ser submetida a
utilizações diversas. De toda maneira, mesmo fazendo análise em uma língua estrangeira,
não se pode duvidar que a psicanálise tenha tornado pelo menos sua vida suportável. Isto é,
mais duro que a linguagem é o Inconsciente, o indizível, o inominável. Certamente a língua
em que se faz análise é importante, mas não é essencial, uma vez que o Inconsciente é
constituído por representações imagéticas, sensoriais, cenestésicas, e de restos de linguagem
que não podem vir à tona em função da censura. A similitude na formação do sintoma
obsessivo não é da ordem do significante (sprachlichen Ausdrücken). Ela é da ordem da
similitude entre as coisas entre si, entre atividades similares: o ato masturbatório realizado ou
desejado e a expressão das espinhas.
No mesmo texto é apresentado um caso de Reitler44. O paciente passava a maior
parte do tempo executando um rito de colocar e retirar as meias. Depois de ultrapassadas
certas resistências, ficou claro que o pé era um símbolo (Penissymbol) do pênis, e o ato de
colocar as meias era um substituto do onanismo. Ou seja, o sintoma era uma formação de
compromisso entre a representação inconsciente do ato masturbatório e a censura, gerando o
absurdo-ridículo de um rito aparentemente destituído de sentido e desligado de suas raízes
pulsionais. A apresentação do rito desfaz retroativamente as representações de ordem sexual,
anulando-as.
Desta maneira, a formação do sintoma obsessivo realiza novamente o disfarce
através da linguagem. Torna-se possível ao sujeito conhecer todo o conteúdo que é
submetido “ao não poder mostrar”, aquilo que deve ser escondido. Na maioria das vezes, o
obsessivo experimenta, na clareza da consciência, o próprio conteúdo inconsciente que seria
recalcado na histeria de conversão sob a forma de amnésia. No obsessivo, mostra-se e
esconde-se às claras, introduzindo-se a dúvida através da falta de quota de afeto. A falta do
afeto parece não fornecer o conteúdo vivo necessário à crença. O obsessivo é um homem que
essencialmente duvida, tornando-se o seu espírito o protótipo do homem bem sucedido
ocidental, símbolo do cartesianismo, do homem novo criado pela racionalidade, do pathos de
nossa raiz cultural.
Diferentemente do sintoma histérico, o sintoma obsessivo tem seu objeto de desejo
colocado de antemão na relação com o outro. Isto é, ele não é recalcado no sentido de ser
retirado da consciência, como ocorre na histeria dos tempos de Charcot através de uma
amnésia. O objeto e suas representações são simplesmente negados. Conheci um paciente que
não podia simplesmente aceitar apresentar sua amante em público. Ao entrar em um
restaurante, ele não viu que a mesma estava recepcionando, à porta, os que lá entravam. A
forma de uma alucinação negativa parece ter-se feito presente então, para maior horror da
43
. S. Freud; "O Inconsciente" (1915), E.S.B., XIV, p. 228; S.E., XIV, pp. 199-200; tradução francesa, pp. 115-116; G.W.,
X, p. 298.
44
. S. Freud; "O Inconsciente" (1915), E.S.B., XIV, pp. 228-229; S.E., XIV, p. 200; tradução francesa, pp. 115-116; G.W.,
X, 299.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 43

amante que no dia seguinte pergunta-lhe se ele a havia visto. Não havia. E não se tratava de
um desconhecimento. Realmente não havia registro sensorial da presença dela no restaurante.
O mais comum é a submissão do objeto a deslocamentos infinitos, ainda que possa estar
colocado na primeira linha do que é mostrado na realidade dita objetiva e imediata. Talvez
por isto mesmo a dialética entre desejar-querer pende claramente para um querer obstinado.
O desejar é espontâneo, enquanto o querer envolve a atividade dita voluntária, aquela que o
obsessivo julga ser sua vontade. Os sintomas obsessivos tomam para si estes homens que
querem em demasia, de forma ativa, proativos.
Como o próprio termo obsessão designa, trata-se de alguém obcecado por desejos
que não são explicitados facilmente. Investigando-se mais os inúmeros deslocamentos,
aparece quase sempre o falicismo em primeira mão na sua consciência, comportamento e
relação intersubjetiva. Justamente um grande problema é o obssessivo não conseguir dar
término ao processo de deslocamento infinito do objeto de desejo. As ambivalências entre os
diversos objetos de investimento afetivo se instalam, aumentando o sofrimento psíquico.
Estas ambivalências também propiciam uma aceleração temporal do processo de
deslocamento, fazendo lembrar as acelerações maníacas, experimentadas não apenas como
fora do autocontrole, mas como algo coercitivo, obrigatório para o alívio da ansiedade.
Se na histeria a imagem do pênis é colocada de forma disfarçada, é fácil perceber no
obsessivo a idéia de que ele é o próprio pênis. Lacan 45 resumiu esta problemática do ponto
de vista da situação intersubjetiva e discursiva através da fórmula seguinte:

A <> phi (a, a', a'', a''',...)

onde A é o grande Outro, ou seja, aquele para quem a palavra e suposição de saber se
endereçam, sendo a barração de A uma evidência de desqualificação presente do Outro para
o obsessivo poder existir; o símbolo <> quer dizer desejo de; phi designa a imagem do pênis;
a, a', an designam o deslizamento infinito dos objetos de desejo e o parêntese indica o
recalque do obsessivo.
Tal como mostramos com relação à histeria, lembramos a relevância e os limites
deste entendimento. A fórmula apresentada é interessante do ponto de vista da constituição
do fantasma e do sujeito na situação de interlocução analítica, exprimindo com precisão o
funcionamento de um sujeito que se obriga a ser um falo, que desliza infinitamente no
discurso, duvidando do seu verdadeiro objeto de desejo, em especial através da palavra
enquanto significante/significado.
No que diz respeito à produção propriamente inconsciente, é fundamental ser
retomada a idéia de que não se trata de um problema com significantes lingüísticos. Trata-se
de um problema com representações inconscientes que são submetidas a transformações -
resultando em um discurso que disfarça e deforma o desejo, via o esvaziamento e
deslocamento da chamada quota de afeto das representações obsedantes. A importância do
aspecto energético é fundamental para esclarecer o aparecimento das angústias ferozes
encontradas neste caso, e que são, via de regra, submetidas ao que Freud chamou de
Unterdrück (repressão ou supressão). Diferentemente da histeria - onde esta quota de afeto
desaparece completamente, realizando o quadro conhecido como la belle indiffèrence, na
neurose obsessiva Freud diz que é justamente “o fracasso na repressão do fator quantitativo
afetivo que põe em jogo o mesmo mecanismo de fuga”.
Para romper com tal modo de funcionamento, dificilmente o recurso apenas a
argumentos de ordem intelectual e causal é bem sucedidos. O desconhecimento do conceito
de resistência pode levar ao fracasso do trabalho analítico. Acreditamos que a cura deve
necessariamente passar por uma nova intrincação pulsional, realizando através da análise
aquilo que o grande Santo Ignácio de Loyola aprendeu às duras penas acerca dos sintomas
obsessivos: “a confissão só tem valor se for acompanhada do selo da lágrima”.

45
. Jacques Lacan; Le Seminaire, Livre VIII: Le transfert, Paris, Seuil, p. 295.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 44

Antes disso poder acontecer, porém, o que se encontra é a atuação de exigências


morais altíssimas – e, via de regra, inalcançáveis para quem quer que seja. Um sujeito de
supre-ego bem constituído sempre estará exposto a falas que o coloquem na obrigação de
responder. Responder sobre sua capacidade fálica. Pedimos, assim, a leitura de um poema
típico formador de consciência moral extremada, mas que carreia consigo potencialmente
intenso sofrimento pulsional, justamente por colocar o sujeito em uma posição de cumprir
um Ideal absoluto e ainda no condicional. Alguns encontram a saída de corromper tal ideal,
outros se tornam zumbis e passam a vida sem usufruí-la.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 45

Rudyard Kipling (1865-1936)


IF… SE...

IF you can keep your head when all about you SE consegues manter a cabeça no lugar
Are losing theirs and blaming it on you, Quando todos à tua volta a perdem e te culpam por isso;
If you can trust yourself when all men doubt you, Se consegues confiar em ti quando todos duvidam
But make allowance for their doubting too; E ainda perdoar que duvidem;
If you can wait and not be tired by waiting, Se consegues esperar e não ficar cansado pela espera;
Or being lied about, don't deal in lies, Ou ser caluniado sem caluniar os outros;
Or being hated, don't give way to hating, Ou ser odiado mas não abrir caminho ao ódio;
And yet don't look too good, nor talk too wise: E ainda assim não pareces nem falas demasiadamente sábio.

If you can dream - and not make dreams your master; Se consegues sonhar sem deixar que os sonhos te dominem;
If you can think - and not make thoughts your aim; Se consegues pensar sem fazer do pensamento um objetivo;
If you can meet with Triumph and Disaster Se consegues encontrar o Triunfo e o Desastre
And treat those two impostors just the same; E tratar esses dois impostores de igual forma;
If you can bear to hear the truth you've spoken Se agüentas ouvir a verdade que disseste
Twisted by knaves to make a trap for fools, Transformada por velhacos em armadilhas para os ingênuos;
Or watch the things you gave your life to, broken, Ou observar as coisas pelas quais deste a vida, destruídas
And stoop and build 'em up with worn-out tools: E parar e construí-las de novo, com ferramentas velhas.
If you can make one heap of all your winnings Se consegues fazer um monte com todos os teus ganhos
And risk it on one turn of pitch-and-toss, E arriscá-los todos num lance de cara-ou-coroa
And lose, and start again at your beginnings E perder, e começar novamente
And never breathe a word about your loss; E nunca suspirar uma palavra sobre a tua perda;
If you can force your heart and nerve and sinew Se consegues forçar o teu coração, nervo e tendão
To serve your turn long after they are gone, A servir-te, ainda que já não sirvam
And so hold on when there is nothing in you E a agüentar quando já nada existe em ti
Except the Will which says to them: 'Hold on!' A não ser a Vontade que lhes diz “Agüentem!”
If you can talk with crowds and keep your virtue, Se consegues falar com multidões e mantiver a tua virtude;
' Or walk with Kings - nor lose the common touch, Ou andar com reis sem perder a tua humildade;
if neither foes nor loving friends can hurt you, Se nem inimigos nem amigos podem magoar-te;
If all men count with you, but none too much; Se todas as pessoas contam contigo, mas nenhuma em
If you can fill the unforgiving minute demasia;
With sixty seconds' worth of distance run, Se consegues preencher cada minuto
Yours is the Earth and everything that's in it, Com sessenta segundos que valem a pena,
And - which is more - you'll be a Man, my son! Tua é a Terra e tudo o que esta contém
E – ainda mais – serás um Homem, meu filho!
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 46

5.2.1. Metáfora, sintoma e Édipo na neurose

A metáfora é importante porque ela pode apontar o sintoma do paciente. O sintoma,


por sua vez, aponta também seu jeito de ser. Mais ainda: apresenta o caminho que a pulsão
do paciente está tomando para se manifestar e como ele está se dando com seus desejos. Isso
significa que seu sintoma pode vir a ter um significado. Entretanto, o significado é um
arremate de resolutivo e uma busca de objeto. Apresentar o sintoma do paciente para ele
mesmo é um ponto importante na nossa prática. Provê o analisando com formas de lidar e
simbolizar tanto seus problemas quanto sua existência e destino. Dá-lhe uma fotografia na
qual enxergar-se, e então pôr-se no movimento para a vida real.
Podemos ver isso em um paciente que viveu sua infância primeva na Inglaterra. Ele
estava sempre muito identificado com a história inglesa. Estava também tendo problemas
para expressar sua raiva. Acostumou-se sempre a inibir-se logo que pensava sobre o
relacionamento com sua mulher esperta como raposa. Estava com ciúmes e em luta constante
por sua mulher, pois era loucamente apaixonado por ela. Seus companheiros chamavam-no:
“Príncipe Edward, sempre arrogante, distante e com um olhar superior com relação a eventos
difíceis e estressantes.” Apesar da sua mágoa e dor nada acontecia, pois estava sempre todo
inibido. Conforme os terapeutas mais experientes sabem, a inibição é às vezes pior do que
qualquer outro sintoma. Isto por que a inibição quebra todo o processo criativo que poderia
colocar o paciente em um novo caminho. O que significa que a inibição deve ser removida a
fim de permitir que nosso analisando dê-se uma chance de ir mais adiante no seu desejo de
viver, ir mais além do que um sonho. Foi por isso que lhe declarei: “Você sabe que a África
não foi conquistada pelos ingleses tomando chazinho nos finais de tarde...” Daí então,
decidiu-se a enfrentar a situação e fazer o que estava desejando há longo tempo. Cumprimos
aqui uma pequena parte do trabalho psicoterapêutico, que consiste de apresentar o paciente
ao seu próprio sintoma: Eis aqui o teu retrato, narciso que não quer ver-se... eis você inibido.
Isto pode ser feito através de uma metáfora, uma perífrase, de um mito que não deixa de ser
um condensado organizado, historicizado de um conjunto de metáforas. Preferimos o termo
‘apresentar o paciente a ele mesmo’ do que pensar que a fala, a metáfora, a metonímia, a
perífrase tenha o poder tão somente de denominar ou de figurar. Não sabemos com
efetividade o que se passará com o analisando logo que proferimos uma interpretação deste
estilo. A seqüência de sessões mostrará a eficácia simbólica. É certo também que a lenda
apresentada também faz uma ampliação, abrindo um campo completamente novo de
projeções para o analisando passear e re-simbolizar de suas posições sintomáticas e o próprio
sintoma simbólico. Potenciar, exagerar, seria uma modalidade entre outras - tais como a
hipérbole, a caricatura, a ironia. Esta última, caso aconteça articulada na situação de
transferência, tem alta importância tal como veremos. Nesse caso a legenda contada permitiu
uma transformação essencial: introduzi-lo mais ainda no trabalho terapêutico.
Devemos explicar que sua mulher era habituada a ser muito sofisticada, mas
também esperta, jogando muito com seus sentimentos, desafiando-o como homem por detrás
de um discurso feminista de superfície. Ele poderia então lidar com seu sintoma, para
enfrentar a charmosa e esperta mulher como ela realmente era - e não como ele imaginava
que ela deveria ser. No entanto, isso exigia perlaborar o seu complexo de castração. Sua
timidez era somente um aspecto de seu medo. Ele disse alguns meses depois: "quando eu
penso na sua fala, explodo de rir". A ironia para consigo pode ser muito poderosa para sarar
o próprio egoísmo.
Para um psicanalista, o Édipo é a história de todas as histórias. O que Sófocles
realiza é o arremate ou condensação de uma longa tradição de contos populares. Então, um
psicanalista pode esperar que seus pacientes também tragam novas histórias edipianas
criativas e originais em suas falas. É pressuposto por nós que cada paciente retêm metáforas
relacionadas diretamente com seu complexo de Édipo, da sua infância, dos seus pais e
conhecidos mais próximos: esta é a nossa hipótese geral. Significa também que durante sua
caminhada de vida cada homem estará em face da Esfinge. T., desnorteado por seu estilo
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 47

obsessivo de vida e sintomas, diz-nos no começo de uma sessão analítica: "minha mãe disse-
me que ‘está perdida num mato sem cachorro’”. Esta metáfora popular e viva significa que
ela “está num estado de abandono”. Além disso, está implícita uma demanda: que ela
necessita de alguém ou algo para resolver este desamparo e recuperar ou fazer presente o
objeto ausente desejado. Antes que ele retomasse a palavra perguntei-lhe: “é você que vai ser
o cachorro dela?”. Pego de surpresa, respondeu dizendo imediatamente: “sim, mas...”.
Finalmente, tomou uma decisão e disse “eu não quero ser mais o cachorro pitbull de minha
mãe, existem riscos demais e eu sou somente um homem comum”. Então, decidiu por si
mesmo parar sua ambivalência e retomar sua vida como qualquer um.
Sua neurose tornou-se neste ponto uma neurose comum, sem queixas e desculpas
engolidas que não ele não poderia carregar. A intervenção analítica visou restituir a idéia
faltante que ele estava a repetir-se sendo o falo da mãe. Este movimento edípico sintomático
é resolvido pela restituição da continuidade psíquica do analisando na qual ele agora aceita a
castração para ser um sujeito que não é tão somente o desejo do desejo da mãe. A metáfora
morta – ser o cachorro da mãe que está perdida no mato – é a expressão sintomática
deformada do sujeito que não se apropriava do seu desejo. Neste sentido a metáfora faz parte
da larga operação de defesa em ação fornecendo o disfarce perfeito de um pequeno Édipo se
fazendo de cachorro para ficar para sempre com a mamãe. Fornece um gozo, mas
impregnado do conflito insolúvel que a interdição do incesto imprime. Daí o sintoma ser
ligado a fantasia inconsciente sendo a satisfação substitutiva, burla de uma satisfação
impossível.
Entretanto, o que significa ser um cachorro nesta velha metáfora brasileira?
Devemos procurar as origens dela na tradição oral ligada à vida cotidiana. Poderia significar
que toda família, precisando sobreviver em uma terra selvagem constituída quase somente
por floresta selvagem, necessitava ter um cachorro como explorador e guarda-costas. O que a
mãe de um menino obsessivo deseja nesta metáfora brasileira? Deseja um objeto
provavelmente bravo, irritado e submisso concordando com seus comandos, ordens ou
instruções como um cão treinado. Este paciente foi congelado nesta posição obsessiva,
considerando sua mãe uma mulher desagradável racionalmente. Ao mesmo tempo, era-lhe
muito difícil sair dessa posição porque a idealizava como uma deusa, um objeto de devoção
ou, em último, caso como uma moderna “Nossa Senhora”. Naturalmente, ele gostava de ser
seu complemento, aquilo que supunha estar faltando nela. A saída da posição do cachorro
possibilitou maiores liberdade e vida para T. Mais que a resolução de uma situação que
bloqueava sua vida afetiva em geral, ele conseguiu - perlaborando a metáfora - colocar a
questão essencial de se auto-limitar ou de aceitar a chamada castração simbólica. Vemos, no
caso, que o simbólico possibilitou a resolução do sintoma simbólico.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 48

O pintor de origem francesa Emily de Taunay, que viveu no Brasil do século XIX, exprime
bem o homem que vai para um mato pleno de desconhecido e de perigos na pintura O
Caçador e a Onça. A situação indecisa apresentada na pintura tematiza o desejo do sujeito
contra a violência mortífera: este homem - enfrentando à unha uma onça pintada ferocíssima
– precisa de um complemento por conta de sua evidente limitação perante a natureza
impositiva. Uma matilha de cachorros mateiros talvez fosse um dos poucos recursos
possíveis na época.
Felix-Emille Taunay (Montmorency, França, 1795 - Rio de
Janeiro, RJ, 1881)
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 49

5.3. A neurose fóbica

A sintomatologia fóbica coloca em primeiro plano a produção de signos clínicos


marcados pela primeiridade, pela sensorialização que o medo traz consigo, mas mediada por
formas de reação, luta e conflito – marcada, enfim, pelo registro geral da secondness. Além
deste fato, outro indício - da ordem do desenvolvimento psicogenético - obriga-nos a pensar
as fobias em relação preferencial com a primeiridade. Trata-se do fato das crianças
apresentarem a fobia como forma prevalente de neurose.
Os signos de ansiedade e evitação da ansiedade tornam-se a marca registrada desta
neurose, fazendo-a aproximar-se do termo genérico neurose de ansiedade. É verdade que o
termo fobia é resguardado para um medo já objetivado em relação a um determinado objeto,
enquanto que ansiedade torna-se um atributo de todas as neuroses. Em outros textos poderão
ser encontrados um número quase infinito de termos designativos de fobias ligadas a
determinados objetos. Acreditamos existirem tantas neuroses quantos objetos emirjam em
face de um sujeito, devendo existir variações culturais e temporais nas produções maiores ou
menores de fobias. Entendemos então existir uma especificidade da fobia que a diferencia
das outras duas neuroses apresentadas: trata-se principalmente da ansiedade ser relacionada a
um determinado objeto. Ao mesmo tempo, a fobia guarda um parentesco com as suas irmãs
não somente do ponto de vista semiológico-sindrômico mas, principalmente, com relação aos
mecanismos formadores do sintoma.
Estas duas proposições foram reconhecidas em textos clássicos, de maneira que nos
interessaremos mais especificamente pela dimensão de produção de uma determinada fobia.
Freud 46 mostra que a fobia é uma variação resolutiva mais complexa do que as duas
proposições indicadas. Ela não é somente um problema dos afetos com o objeto. A fobia é
fruto de defesa contra uma determinada representação inconsciente, mantida recalcada e ao
mesmo tempo deslocada. A fobia se aproxima de uma histeria posto que se utilize do
recalque típico da histeria de conversão. Ocorre que ela também é ligada à neurose obsessiva,
posto que o medo de um determinado objeto se constrói por meio do deslocamento de
representações na direção de um objeto determinado que se mantém isolado do restante do
sistema de representações.

46
. S. Freud; "Repressão" (1915), E.S.B., XIV, pp. 165-182; G.W., X, 363-391.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 50

Ao estudar o recalque 47, Freud apresenta um sintoma fóbico do Homem dos Lobos.
Trata-se de uma fobia a animais. No exemplo, angústia em face da imagem dos lobos que
apareciam no célebre sonho desse paciente. A formação da fobia se realiza em dois tempos
diferentes. O primeiro tempo é similar ao da formação da histeria de conversão. Mas com
uma diferença: o fracasso completo do recalque - uma vez que a parcela quantitativa
pulsional não desaparece como na belle indiffèrence histérica – tornando necessário, então,
que as representações conflituosas sofram um deslocamento. No caso do Homem dos Lobos,
as representações relacionadas ao complexo de Édipo, em específico ao pai, são deslocadas,
por exemplo, para a idéia de um professor de nome Wolf (lobo em alemão) e, por
conseguinte, para a imagem do lobo. Assim, neste primeiro momento o recalque falha
completamente, posto que “ele apenas remove e substitui a representação, falhando
inteiramente em poupar o desprazer”. Deve ser lembrado que as excitações do corpo próprio,
as visões, experiências e fantasias infantis são constituintes essenciais das representações-
coisa recalcadas a posteriori (Nachdrangen).
O segundo tempo é próximo do modo clássico de utilização do deslocamento na
neurose obsessiva. Consiste na formação da neurose propriamente dita através de um grande
número de evitações (Vermeidungen) destinadas a poupar o sujeito do contato com a
ansiedade, dando um arremate final à neurose tal como será conhecida. O primeiro momento
dizia respeito à neurose infantil. A linguagem é utilizada na neurose infantil como o meio de
acesso à realidade psíquica do Édipo, através do termo Wolf, representação palavra que entra
no processo de deslocamento e finalmente constitui na imagem do Lobo a fobia. Assim, a
linguagem participa na formação da neurose como deformadora da experiência simbólica
originária edípica. Já no tempo em que a neurose passa a se desenvolver através das
evitações, as representações-palavra e objeto passam a ser uma espécie de anteparo que sofre
deslocamentos antes que se ganhe acesso às representações-coisa inconscientes. Por essa
razão Freud apontou com precisão que a fobia experimenta um aumento do sintoma,
essencialmente a ansiedade, sob duas condições: quando o impulso amoroso inconsciente
aumenta ou quando percebe o animal 48.
Retornamos então à concepção freudiana de que o primeiro tempo formador da
neurose envolve mais a constituição do recalcado relacionado à experiência edípica e
constituído de representações-coisa. Nesse primeiro tempo é importante lembrar aquilo que,
no caso do Homem dos Lobos, tornou-se o conteúdo inconsciente recalcado: trata-se da visão
de uma relação sexual a tergo entre o pai e sua mãe, na qual o jovem garotinho se identifica à
sua mãe e acaba por defecar no berço de onde observava a cena originária. É desta cena que
provem a fixação anal e o tipo de amor com relação ao pai. É por conta destas representações
plenas de impacto que a ordem da primeiridade constitui o essencial do Inconsciente
recalcado. Ou seja, as experiências e fantasias pré-simbólicas constituem o território
imaginário que será submetido ao recalque. Em seguida, fica claro que no processo de
recalcamento as palavras são usadas para “esconder” o indizível através do deslocamento
para representações similares - usando as representações palavra, seja através da contigüidade
ou da similaridade, para formar a fobia. Tem-se que a fobia é um símbolo substitutivo
principalmente da castração e de temores infantis, servindo a linguagem para o disfarce da
dor ou do prazer infantil inominável, um misto de horror e prazer. Prazer derivado da
excitação típica das experiências da primeiridade e horror por vê-las articuladas com a
dimensão essencial do simbólico - o complexo de Édipo.

47
. Ibid.
48
. S. Freud; "O inconsciente" (1915), E.S.B., XIV, pp. 209; G.W., X, 281.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 51

5.4. A tese geral do sintoma simbólico neurótico

Tendo apresentado a formação dos três principais tipos de sintomas neuróticos, é


cabível evidenciar que nos três casos encontram-se o uso de linguagem à serviço de
conteúdos inconscientes constituídos por representações-coisa que não podem vir à tona. A
linguagem ordinária passa a ser utilizada como elemento deformador do conteúdo
inconsciente. É bem verdade que em cada uma das neuroses vimos um metabolismo algo
diferente, que leva a um destino e formação de sintomas diferentes. “Os destinos da pulsão
podem ser considerados também variedades da defesa contra elas”, ensina Freud49.No caso da
neurose histérica conversiva, o destino do sintoma é o corpo próprio. Na neurose obsessiva,
vemos as representações palavras serem utilizadas sem poderem dizer os fantasmas
inconscientes acompanhados dos seus componentes afetivos. Finalmente, a neurose fóbica
está envolvida com a constituição do objeto e com a localização nesta representação do
conteúdo angustioso inconsciente. Os desejos e conflitos inconscientes são expressos
enquanto formação de compromisso com os interditos. Assim sendo, na fobia a palavra
mantém-se íntegra enquanto símbolo comunicante, sendo expressão de desejos e conflitos
virtuais que não podem ser nomeados e expressos tal como representados no Inconsciente
recalcado.
Explicitamos que o Inconsciente recalcado é constituído a partir do confronto das
cadeias de representações primeiras - via de regra derivadas de percepções e sensações (em
especial excitações de determinadas áreas do corpo) - com as representações-palavra vindas
dos outros, principalmente dos pais. Assim, o recalque necessita do simbólico e da
segundidade para constituir o Inconsciente recalcado composto por imagens, sensações,
restos de frases – enfim, uma linguagem demolida em restos e escombros, o que a torna
somente uma vaga imagem da linguagem diacrítica simbólica ordinária. Portanto, o sintoma
simbólico neurótico é uma desimbolização.
Tornamos evidente que o conceito de recalque comanda o essencial da formação de
sintomas nas neuroses. Evidenciamos que ele não se apresenta da mesma maneira nos três
tipos de neurose clássica. Suas variações possibilitam relações e destinos próprios no campo
das neuroses. O essencial deste mecanismo, tomado aqui no sentido estrito, pode ser
resumido através da própria idéia de Inconsciente. Em todas as suas variações, o recalque
consiste em manter fora da consciência um determinado conteúdo censurável. Na histeria de
conversão isto se faz completamente. Na fobia e na obsessão vemos que existe variação,
principalmente por intermédio de modificações da relação entre as representações e o afeto
ou senão por fracasso do recalque. O recalque reflete então uma possibilidade de elaboração
do conflito através da linguagem. Porém, esta é modificada e utilizada a serviço do
Inconsciente. A linguagem diacrítica perde seu poder de símbolo na formação do sintoma.
Esta proposição não impede de articularmos, em relação, as neuroses tipificadas
com outras modalidades de sintomatologia. O quadro seguinte apresenta as possibilidades
sintomatológicas mais freqüentes articuladas com as neuroses. Ele explicita as neuroses (e
perversões) como sendo o império da segundidade, da luta, conflito, reatividade, transição
entre a pregnância absoluta da imagem (perversão) e potência da palavra. Mais além deste
domínio lógico vemos as neuroses e perversões produzirem sintomas que se articulam com a
primeiridade e terceiridade. Isto acentua a idéia de um sistema único movido por um
parentesco entre os diversos campos psicopathológicos.

49
S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes” (1915), v XIV, p.122. O título seria mais bem traduzido por
“Pulsões e destinos de pulsões” tal como hoje em dia é reconhecido.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 52

Quadro 6 - Variações sintomatológicas preferenciais das neuroses

1 2 3
(firstness) (secondness) (thirdness)

Paroxismo sádico Desconfianças


paranóides
Acelerações
hipomaníacas OBSESSÃO
Autodepreciação Hipocondrias

Depressões larvadas

Ligação do afeto a representação- objeto

FOBIA

Fracasso do recalque

Paroxismo escan- Psicoses oníricas


daloso e dissociativas
Depressões
Neuróticas
HISTERIA
Fetichização de parte
do corpo
Dismorfofobias
Oscilações do humor

Mais que um parentesco, trata-se de uma explicitação dos sintomas preferenciais


ligados às estruturações neuróticas correlacionadas com as perversões, timopatias e psicoses
e com os processos de semiosis - o que enviaria ao conceito de estrutura e de estruturações,
saindo do nosso objetivo de elucidar a produção específica do sintoma simbólico.
Ao lado desta análise especialmente dirigida para objetos, podemos encontrar a
perversão em integração com outros modos de organização psíquica. Assim, podemos
evidenciar a perversão em ato articulada com modos neuróticos e passivos de existir.
Podemos inclusive verificar existir uma mudança de funcionamento neurótico para, por
exemplo, desconfianças paranoides e outras alterações psicóticas por um lado e então, para
outro lado para manifestações perversas, tais como o paroxismo sádico ou a fetichização do
corpo. Mas, perverso, aqui, não é somente um sintoma, mas principalmente um modo de
estruturação humano. Entendemos, caricaturalmente, como sendo um caráter perverso aquele
sujeito que é um cínico deslavado50. Apreciamos essa definição, pois ela sintetiza em ato os
três “d”s descritos por Eiguer51·: (de) negação ou mentir com sonsice; desafio ou
descaramento cruel; delito ou infringir o código explícito da lei penal. Considera-se que foi
Antístenes, um discípulo de Sócrates, que fundou a corrente filosófica do cinismo, circa 400
a.C.. O desapego aos bens materiais e externos era um dos seus principais ensinamentos. A
etimologia da palavra remete ao grego Kynós que significa ‘cachorro’. Existe aí uma
analogia com a proposta dos cínicos para que levemos uma vida tão natural quanto a dos
50
O presente trecho, da nota até o fim deste item, é uma pequena parte de um artigo bem maior feito em co-
autoria com Marcelo Duarte Porto, “O Palhares de Nelson Rodrigues e o Supereu freudiano”, inédito, 2007.
51
A. Eiguer; Le Pervers-Narcissique et son Complice, Paris, Dunod, 1989.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 53

cães. Contemporaneamente o termo assumiu significado pejorativo, para designar pessoas


sarcásticas, sem pudor e indiferentes ao sofrimento alheio, visando sempre o próprio gozo.
Em uma crônica de 1972, Nelson provocava, pensando o quanto a perversão estava
na ordem do dia: “Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de ‘a
mais cínica das épocas’(...) O cinismo ocorre por toda a parte, como a água das paredes infiltradas”
52
. A sonsice se faz notar inclusive nas relações conjugais. Examinemos a este propósito a
crônica Casal de Três53: Filadelfo, ao encontrar seu sogro, “um santo e patusco cidadão”,
queixa-se do gênio de sua esposa Jupira. Ela o desacatava por qualquer motivo e qualquer dia
desses ainda iria bater em sua cara. Dr. Magarão, o sogro, condescendeu-se, disse que ela
havia puxado à mãe. Tinha exatamente o mesmo gênio. Filadelfo então o interroga querendo
saber se isto está correto, se isso é direito. Depois de um engasgo, o gordo senhor afirma que
não sabe se isso é direito. Entendemos que nesse momento implementa-se uma dúvida
relativa ao que é convencionado na relação entre marido e mulher. Os costumes de uma
sociedade patriarcal são colocados em xeque.
O Sogro, então, passa a descrever sua teoria sobre a mulher honesta. Argumenta que
a mulher digna é assim como sua filha, pois “A virtude é triste, azeda e neurastênica”.
Filadelfo leva um grande susto diante de tamanho absurdo. O sogro insistindo pergunta:
“Sabe qual foi a esposa mais amável que eu já vi na minha vida? Sabe? Foi uma que traía o
marido com a metade do Rio de Janeiro, inclusive comigo! (...) E tratava o marido assim, na
palma da mão.”54
O cinismo, a desfaçatez da mulher amável torna-se evidente. Os valores morais
esvaziam a vida amorosa. Diante de tal demonstração, restaria ao genro dar-se por satisfeito
e agradecer a Deus por ter uma vida conjugal tão melancólica. Aqui, Nelson chega a ser
irônico ao ligar a satisfação marital à melancolia. Até na presença das visitas Jupira
humilhava Filadelfo. Roçar com os lábios na face da esposa era o máximo que ocorria. Caso
exagerasse um pouco no carinho, logo Jupira o desanimava: “Na boca, não! Não quero”.
Além disso, o descuido de sua esposa no casamento e no lar muito o amargurava. Não se
perfumava ou enfeitava, nem se preocupava minimamente em atrair o marido. Ao lado da
esposa na cama, e lembrando-se da teoria do sogro, pensava: “Será que a esposa honesta
também precisa cheirar mal?”. Diante de uma cena tão grotesca, o cronista nos alivia com
uma dose de humor. Assim, podemos lidar com a morbidez que pode advir da relação
conjugal.
Após um mês surge a grande mudança. Chegando a casa, após o trabalho, encontra
sua mulher perfumada e maquiada. Jupira atira-se em seus braços e beija-lhe a boca
apaixonadamente. Filadelfo, muito confuso e cambaleante, pergunta o que aconteceu e como
aquilo poderia ser explicado. Jupira foi direta: “Mudei, ora!” sem se preocupar em convencer
o marido. Não se importa em oferecer elementos simbólicos substitutivos, uma metáfora
comportando uma mentira com pista para a burla em andamento, nem justificativas, nem
racionalizações para que ele possa elaborar o seu espanto e a sua suspeita. E, dia após dia, a
esposa manteve-se amorosa como se estivesse em uma lua-de-mel permanente.
Por esses dias, os sogros aparecem para jantar. Em uma conversa reservada, Dr.
Magarão pergunta sobre o andar das coisas. Então, Filadelfo expõe o seu espanto, diz que
Jupira mudou radicalmente, está suave como uma seda e o trata como um rei. Para ele tudo
estava indo tão bem que já estava até desconfiando. Nesse momento surge o conselho dado
pelo sogro:
__
Queres um conselho? De mãe para filho? Não desconfia de nada, rapaz. Te custa
ser cego? Olha! O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve
saber nunca! 55

52
Nelson Rodrigues; O Reacionário, São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 236.
53
Nelson Rodrigues; “Casal de Três” in A vida como ela é..., Rio de Janeiro, Agir, 2006, pp. 546-551.
54
Ibid, p. 550.
55
Op. cit., p. 550.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 54

Que belo exemplo de uma (de) negação. Não querer saber é a defesa prescrita pelo
sogro ao genro para sustentar seu casamento feliz. A resultante clivagem do Eu possibilita
que Filadelfo goze ao máximo a situação, aproveitando sua esposa que vive “num
arrebatamento de namorada”. Dias depois, Filadelfo recebe uma carta anônima denunciando
um caso entre sua mulher e o Cunha, seu melhor amigo. Nela havia inclusive o endereço
completo do apartamento em Copacabana onde os amantes se encontravam. Filadelfo lê a
carta e a destrói em mil pedacinhos. Cunha era seu grande companheiro, solteiro, simpático e
jantava na casa do casal três vezes por semana. A conclusão se impôs fatalmente: Cunha era
o grande responsável por sua felicidade conjugal. Para retratar o que se passa no psiquismo
do marido traído, Nelson oferece uma interessante metáfora do processo (de) negatório:
“Filadelfo continuou sua vida sem se dar por achado”. 56
O tempo passa e Filadelfo recebe a notícia de que Cunha noivara. Nesse mesmo dia,
ao chegar em casa, encontra a mulher aos prantos, desesperadamente pedindo para morrer.
Observando aquela cena, Filadelfo nada disse. Apanhou o revólver e foi à procura do outro.
Ao encontrá-lo, cria o dilema: “Ou você desmancha esse noivado ou dou-lhe um tiro na boca,
seu cachorro!”. Bastante apavorado, Cunha trata de desmanchar o noivado e, naquela mesma
noite, comparecia para jantar com o casal. Nessa ocasião, Filadelfo decide que o amigo
jantará em sua casa todas as noites. Cunha vai embora depois da meia noite. Atirando-se aos
braços do marido, Jupira declara: “Você é um amor”. Nesse caso os fins justificam os meios.
A palavra é colocada em derrisão. Rimos da situação no Casal de Três pela ridicularização
da moral vigente. A lei consuetudinária da monogamia é clivada. O funcionamento cínico
investe-se de visibilidade notória. Filadelfo sabe que está sendo traído, no entanto permanece
no casamento e goza na situação. Encaixa-se, aqui, o enunciado paradigmático da (de)
negação na atividade perversa: Eu sei, mas mesmo assim...57
A traição é relativa, visto que o traído não apenas a consente como também a
fomenta. Não existe assim perversão sem seus complementos. Complemento neurótico que
comumente é muito bem vindo. Pensemos em Filadelfo três segundos: sua auto-depreciação
e seu temor quase fóbico de perder a sua mulher – que o fazem agir com entrega total, ainda
que venha a ser um corno eterno. Mas, de repente, a passagem ao ato paroxística, escandalosa
e surpreendente ocorre – isso não levaria a uma relativização da noção de estrutura, como
sendo algo caricatural? Claro que a desfaçatez de Jupira reclama um rótulo de perverso, mas,
no final, não vemos Filadelfo - esse fila del fo, filho do fo, fila delfo e outras aliterações e
assonâncias possíveis que não cabe pedir associação livre em um texto literário que o autor
está morto – comportando-se como o verdadeiro sustentáculo da nova moral garantidora do
gozo familiar?

56
Ibid, p 551.
57
J. Clavreul; L’ordre médical, Paris, Seuil, 1977, passim.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 55

6. As perversões

Repetimos: acostumamo-nos a relacionar o termo perversão aos fenômenos


aberrantes sociais. Entre estes, especialmente aqueles que confrontam a moral vigente. Do
ponto de vista da exterioridade isto pode até ser uma verdade, na medida em que coloca
escandalosamente em público fenômenos que do ponto de vista neurótico deveriam ser
mantidos secretos ou isolados - e por isso são marcados com o estigma da excepcionalidade.
As confrontações com a lei se farão nestes casos e muitas vezes em detrimento da mesma.
Existem casos em que a especificidade do sintoma perverso domina tão completamente o
sujeito que este passa a atuá-lo no meio social, adquirindo o sintoma, neste caso, muito mais
a feição de um comportamento. Ocorre que estas exceções exóticas e menos freqüentes não
devem fazer parecer que a perversão é algo excluído do universo do homem de todos os dias.
Na verdade, poderá ser demonstrado que em toda e qualquer neurose existe um
componente perverso fundador. Perverso adquire aqui a conotação de ser a própria expressão
da sexualidade. No caso do Homem dos Lobos e do seu sintoma fóbico, o prazer anal
experimentado em fantasia com relação ao pai. Na histeria de conversão, as experiências de
sedução sentidas com prazer. Na neurose obsessiva as ações prazerosas, como a masturbação.
Afirme-se, então: em todo e qualquer neurótico existiu, e continua existindo na forma
inconsciente, uma perversão constituída na primeira infância.
Cabe, por isso, distinguir a neurose da perversão. A primeira é uma concessão
pulsional em face da civilização. A segunda, uma realização pulsional a despeito da
civilização. A moral retira a sua parte, saindo algo vitoriosa no caso da neurose, uma vez que
esta adotará os conteúdos mais banais acerca de como deve ser a expressão e a regulação
pulsional do sujeito. As perversões, no entanto, vêm mostrar como a pulsão pode ter destinos
muito diferentes da adaptação esperada em um determinado momento da humanidade. Entre
a perversão e a neurose ocorre uma evolução que consiste na substituição do par de verbos
pulsionais mover-se e agir por desejar e querer. Diferentemente da concepção bíblica,
acompanhamos Freud lembrando que na história psicogenética do sujeito primeiro foi a ação
e depois, o verbo.
A conhecida fórmula de Freud que a neurose é o negativo da perversão (die
Neurosen ist sozagen das Negativ der Perversion)58 nos serve como proposição geral. O
termo negativo não deve ser entendido no sentido moral. Ele diz respeito mais à idéia de uma
potencialidade a ser desenvolvida, ou revelada em plena luz do dia. Por exemplo, do
negativo de um filme fotográfico, que submetido a um processo de desenvolvimento termina
por revelar algo que já estava no negativo, na virtualidade. Interpretamos em um duplo
sentido a asserção freudiana do que seja a perversão. No primeiro, a perversão coincide com
a chamada neurose infantil, onde a criança é um perverso polimorfo. O segundo sentido, não
excludente do primeiro, qualifica o espaço onde se realizam as representações. Ou seja, os
perversos realizam em ato aquilo que para os neuróticos são somente fantasias e desejos
inconscientes.
Afirmamos que mais do que uma similitude entre neuroses e perversões, existe uma
unidade entre elas. Podemos distingui-las de um ponto de vista dos fenômenos, mas de um
ponto de vista da produção de lógica dos signos existe certa unidade estrutural assegurada
pela segundidade. Diríamos, lembrando Goethe, existir afinidades eletivas psicopathológicas.

58
S. Freud; “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), E.S.B., VII, p. 54; S.E., VII. p. 165; G.W., V, p.
65..
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 56

Quadro 7 - Relações entre perversões e neuroses de um ponto de vista


semiótico

Timopatia Perversão Neurose Psicose

Sadismo Obsessão
Masoquismo Histeria
Fetichismo Fobia

1 2 3

As afinidades são apresentadas no quadro acima tanto no sentido vertical, onde


ficam claras as relações que devem existir entre as diversas perversões, como no horizontal -
onde está indicada a categoria semiológica privilegiada, enquanto produção sígnica final.
Fica evidente que as perversões e as neuroses correspondem a um ápice da dominância da
segundidade. No entanto, na neurose ocorre uma maior participação da terceiridade,
enquanto as perversões guardam uma maior afinidade fenomenológica com as timopatias.
Que sentido tem isto? Com relação à neurose e à terceiridade, indicamos a preponderância da
questão edípica e por conseqüência a questão da lei. A burla, a farsa, tão presentes na
perversão, dependem sempre do olhar do outro. Colam-se assim com um domínio da
reatividade e das fantasias de sedução com as duplas reversíveis de seduzido-sedutor
presentes. Com relação às timopatias e perversões, apontamos principalmente uma afinidade
pulsional onde o paroxismo e as oscilações pulsionais são elementos importantes na
determinação da formação de um sintoma. Nem por isso as perversões deixam de estar
envolvidas com o chamado complexo de Édipo precoce, com o Eu Ideal, com o universo
maternal, com a chamada fase de espelho de Lacan.
Sugerimos, então, existir uma afinidade no plano horizontal entre as neuroses e
perversões de um ponto de vista semiológico. Explicitamos agora que a afinidade vertical se
faz de um ponto de vista do parentesco relacionado à questão do Inconsciente e do recalque.
Posto que o recalque pleno implique a terceiridade, já podemos dizer que as perversões
implicam um recalque bastante diverso das neuroses, na medida em que parece haver a
exclusão da terceiridade compartilhada em prol da adoção de um critério mais pessoal de
norma – e que degrada a noção de norma. Esta posição infantil do sujeito constitui um modo
de defesa que degrada o recalque a um meio termo denominado Verleugnung (recusa,
disavowal em inglês, desaveu e déni em francês) onde dois conteúdos ideativos
contraditórios e de origem representativa diferente estão presentes a um só tempo. O
primeiro, relativo à percepção da diferença de sexos. O segundo, ao próprio conhecimento
acerca da diferença de sexos e da sua significação simbólica. Ou seja, é característica das
perversões, em especial na homossexualidade masculina problematizada, a idéia inconsciente
de que a mulher é portadora de um pênis, ao mesmo tempo em que o sujeito sabe existir a
diferença e que esta idéia é um absurdo com relação aos fatos. Em resumo, pode-se dizer que
a concorrência dos dois pensamentos contraditórios permite ao mesmo tempo consciência e
inconsciência. O resultado final sempre privilegia o narcisismo posto que implica um
desconhecimento da verdade em que se acredita naquilo que lhe é mais prazeroso e recusa-se
aquilo que é castração.
Pode desde já ser esclarecido que ninguém é perverso permanentemente. Na medida
em que as perversões são quadros clínicos que se apresentam no tempo em forma de
paroxismos, e não de estados e processos tal como as neuroses e psicoses tipificadas, elas
nunca são descobertas a qualquer hora. Na clínica, sua evidência é obra de uma descoberta
em geral ocasional. Teríamos, por essa razão, entre as neuroses e perversões menos
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 57

diferenças estruturais do que tem sido concebido em geral. O fato essencial a ser aqui
esclarecido é a dominância da segundidade e as relações afins indicadas entre cada uma das
neuroses e os três tipos de perversões que escolhemos como preferenciais.
Freqüentemente a homossexualidade é colocada como uma perversão. Entendemos
que existem diversos tipos de estruturações da homossexualidade – assim como da
heterossexualidade, de maneira que entendemos a homossexualidade como forma de
sexuação mais ou menos permanente. Não cabe por isto incluir esta questão de imediato,
mesmo que seja saliente a proximidade narcísica com as perversões, tal como já indicamos
aqui através do conceito de Verleugnung.
Entendemos as perversões como sendo o reino da segundidade levada ao seu
extremo narcísico. Narcísico no sentido do polimorfismo perverso infantil, no sentido do
funcionamento mais próximo do pólo maternal, do Eu ideal (Idealich) e da experiência. Por
isto mesmo, ocorre nos paroxismos perversos à acentuação do imaginário, a captura do
sujeito por uma imagem pregnante. Esta acentuação se refletirá sempre numa demasiada
busca de determinado objeto. O paroxismo pulsional coincide então com a constituição deste
objeto que capta, domina e encanta o perverso. Ele é tão importante que toda a clínica das
perversões passou a ser definida através dos nomes dos objetos que se vêm investidos e das
atividades aí envolvidas: pedofilia, zoofilia, sadismo, masoquismo, fetichismo...
Este dinamismo se instala em paroxismo, privilegiando processos psíquicos
diferentes do recalque neurótico. Nem por isto a linguagem e o simbólico deixam de estar
presentes de forma pontual. Para esclarecermos este aspecto, que gera nas perversões um
certo desconhecimento e desqualificação da linguagem, é necessário clarear os destinos
pulsionais e o sistema gramatical da linguagem. Como a gramática exprime as leis que regem
a produção dos enunciados, nada melhor para elucidar as metamorfoses que sofre a
linguagem face ao funcionamento do Inconsciente nas perversões. Justo por haver os
processos de desconhecimento e desqualificação, fica de antemão claro que a linguagem é
utilizada de forma instrumental e sem grandes problemas. Ao contrário, ela não se vê
perturbada como ocorre nas psicoses, mas submetida ao próprio funcionamento do
Inconsciente. O Inconsciente perverso utiliza a linguagem como a propor que a questão
pulsional é vencedora também no campo da linguagem e das suas leis, a gramática. Ao
contrário da posição de aceitação da palavra como instauradora da norma, o perverso não a
qualifica enquanto tal. Ele procura na verdade uma cumplicidade, essa marca típica dos
processos transferenciais das perversões. A palavra serve para desconhecer a própria
realidade que é qualificada como tal pela norma compartilhada.
É interessante então perguntar como a terceiridade se apresenta nas perversões e, por
conseqüência, qual a relação da gramática com o sintoma perverso. De que maneira se
comporta o sistema sujeito- verbo-objeto? O verbo ocupa posição central e proeminente - por
representar a pulsão o mais verdadeiramente e por servir de elemento de ligação entre sujeito
e objeto. Vejamos isto dentro da doutrina freudiana da pulsão. São apontados os seguintes
destinos do sistema sujeito-verbo-objeto59:
1. Reversão a seu oposto (Die Verkehrung ins Gegenteil).
2. Retorno contra a própria pessoa (Die Wendung gegen die
eigene Person).
3. O recalque.
4. A sublimação.

Freud pretende elucidar no referido artigo somente os dois primeiros processos.


Vejamos cada um deles um pouco mais em detalhe. Ele indica a propósito da “reversão ao
oposto” que ela, se vista com máxima atenção, comporta dois processos: “um retorno da
pulsão da atividade para a passividade (in die Wendung eines Triebes von der Aktivität zur
Passivität) e uma reversão de seu conteúdo (inhaltliche Verkehrung)”60.
59
S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes” (1915), E.S.B., XIV, p. 147; S.E., XIV, p. 126; G.W., p. 219.
60
Ibid.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 58

O exemplo utilizado para a demonstração é aquele que coloca os pares opostos:


sadismo-masoquismo e escoptofilia-exibicionismo. Note-se que se trata de mecanismos
gerais de funcionamento psíquico e não somente algo pertencente à linguagem. Parece
mesmo não estar em questão o registro narcísico. Freud diz neste caso que:

“A reversão afeta apenas as finalidades (Ziele des Triebes) das pulsões; para a
finalidade ativa (das aktive Ziel): torturar (quälen), olhar (beschaven), torna-se
passiva: ser torturado (gequält werden), ser olhado (beschaut werden
eingesetzt).”.61

Ao passo que a segunda forma deste tipo de destino da pulsão é assim explicada:
“A reversão do conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do
amor em ódio.” 62

Podemos então concluir que a reversão ao contrário consiste na passagem de uma


pulsão da atividade à passividade ou vice-versa, existindo uma complementaridade entre as
duas posições: é possível passar da uma posição a outra através de uma transformação
reversível que pode se utilizar das leis da gramática. Este caso ideal, notemos, não implica,
em princípio, o registro narcísico, constituindo-se em um processo interno intrínseco à
pulsão.
A segunda forma de destino pulsional - o retorno da pulsão contra a própria pessoa -
implica nitidamente a articulação do registro narcísico com o primeiro destino da pulsão já
estudado. Isto é:

“O retorno da pulsão contra a própria pessoa (Die Wendung gegen die eigene
Person) se torna plausível (wird uns durch die Erwägung nahegelegt) pela
reflexão de que o masoquismo é, na realidade, o sadismo que retorna em direção
ao próprio Eu (eigene Ich) e de que o exibicionismo abrange o olhar para o seu
próprio corpo.” 63

No mesmo texto, em seguida é precisado em que consiste esta destinação da pulsão:


“A observação analítica, realmente não nos deixa duvidar de que o masoquista
partilha da fruição do assalto a que é submetido, e de que o exibicionista partilha
da fruição da (visão de) sua exibição. A essência do processo é assim, a mudança
do objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada.” 64

Assim a questão do objeto é introduzida, o que de imediato introduz o registro


narcísico, onde o objeto fundamental é o próprio Eu:
“Não podemos deixar de observar, contudo, que, nesses exemplos, o retorno em
direção à própria pessoa (die Wendung gegen die eigene Person) e a reversão (Die
Wendung) da atividade em passividade convergem ou coincidem.”65

O objeto da pulsão em questão é o Eu - por conseqüência, a própria pessoa (die


eigene Person). No entanto, os dois destinos pulsionais estudados até agora devem ser
entendidos um em articulação com o outro. Uma distinção deste tipo tem objetivo didático já
que os dois tipos de destino da pulsão são fortemente relacionados. A primeira forma de
destino da pulsão exemplifica a lógica geral do Inconsciente funcionando de forma
semelhante aos princípios lógicos binários de Boole. Já a segunda forma implica uma
diferenciação tópica fundamental. Esta diferenciação é a introdução de um Eu. Esta
constatação, longe de facilitar e simplificar a compreensão, exige um esforço a fim de
61
Notemos que a tradução em português exige a introdução do verbo ser na frase diferentemente do alemão que utiliza o
auxiliar werden : S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes” (1915), E.S.B., XIV, p. 148; S.E., XIV, p. 126; G.W., X, p.
219.
62
Ibid.
63
S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes” (1915), E.S.B., XIV, p. 149; S.E., XIV, p. 126; G.W., X, p. 219.
64
Ibid.
65
Ibid.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 59

elaborar a integração dos dois tipos de destinos da pulsão. No mesmo texto, Freud
desenvolve uma investigação mais completa dizendo:

“No caso do par de opostos sadismo - masoquismo, o processo pode ser


representado da seguinte maneira:
a) O sadismo consiste no exercício de violência ou poder contra
uma outra pessoa como objeto (eine andere Person als objekt).
b) Esse objeto é abandonado e substituído ou pela da própria
pessoa (durch die eigene Person ersetzt). Com o retorno em direção à própria
pessoa (mit der Wendung gegen die eigene Person) efetua-se também a mudança
de uma finalidade pulsional ativa (des aktiven Triebezieles) para uma passiva.
c) Uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto;
essa pessoa, em conseqüência da alteração que ocorreu na finalidade pulsional, tem
de assumir o papel de sujeito (welche infolge der eingetretenen Zielverwandlung
die Rolle de Subjekts übernehmen muss).” 66

No parágrafo seguinte Freud elucida sistematicamente cada um dos processos acima


descritos, indicando o resultado de cada um deles:
a) sadismo
b) comportamento da pulsão sádica na neurose obsessiva, e
c) masoquismo

O primeiro caso (sadismo) corresponde à fase mais precoce do desenvolvimento, ou


seja, corresponde à concepção da criança como sendo um perverso polimorfo. Assim a
intermediação de um “Eu” neste caso não é vista como uma condição necessária para a
ocorrência de um sadismo.

“A psicanálise demonstra que infligir dor não desempenha um papel entre os


objetivos gerais pulsionais originários (den ursprünglichen Zielhandlungen des
Triebes).” 67

Isto é, o sadismo se relaciona essencialmente com o universo infantil, protótipo das


perversões:

“A criança sádica não leva em consideração e nem tem a intenção de causar dor
(Das sadistiche Kind zieht die Zufügung vom Schmerzen nicht in Betracht und
beabsichtigt sie nicht).” 68

Na verdade, essa disposição perversa polimorfa originária, na medida em que é


intermediada e elaborada por um “Eu”, adquire a sua expressão negativa. Daí o que define a
própria neurose ser o filme negativo da perversão: “as neuroses são, por assim dizer, o
negativo das perversões.”69
Em grande medida esse Eu (Ich) será o sustentáculo do teatro onde se desenrolam o
imaginário cênico das neuroses. Isto é, no exemplo maior das neuroses de autocoerção ou
neuroses obsessivas (conforme a tradução mais vulgarizada do termo Zwangsneurosen), o
comportamento da pulsão sádica demonstra justamente o acoplamento do Eu e o retorno
daquela pulsão sobre si mesmo tomado como objeto. A diferenciação desta neurose com
relação ao masoquismo é feita pela constatação de que na neurose obsessiva o sujeito não
adota necessariamente uma postura passiva com relação a outro sujeito. A distinção comporta
certo espaço relativo entre essas duas entidades clínicas ideais, já que não é possível
encontrar entidades clínicas “puras” na prática. Igualmente, introduz dois planos polares onde

66
S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes”(1915), E.S.B., XIV, p. 148; S.E., XIV, pp. 126-127; G.W., X, pp. 219-220.
67
Ibid.
68
Ibid.
69
S. Freud; “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), E.S.B., VII, p. 54; S.E., VII. p. 165; G.W., V, p. 65.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 60

se desenrolam as moções pulsionais intermediadas pelo Eu (Ich): 1- O imaginário na neurose


obsessiva; 2 - A realidade objetiva na qual uma outra pessoa existe e o Eu (Ich) adota uma
atitude de passividade. Ainda nesse artigo, Freud prossegue a análise utilizando o par
escoptofilia-exibicionismo a fim de esclarecer os próprios destinos da pulsão. Levando em
conta nosso objetivo principal não prosseguiremos com o mesmo, mas passaremos a articular
estas noções com a análise da fantasia de fustigação: Bate-se em uma criança (Ein Kind wird
geschlagen)70.
Caso apliquemos à elaboração feita há pouco a frase “carro chefe” da análise de
Freud - BATER EM UMA CRIANÇA - obteremos de saída pelo menos três proposições que
são indicadas por ele com relação à fantasia de fustigação. Elas são correspondentes a
posições pulsionais que dizem respeito à perversão do tipo sadismo, neurose (especialmente a
obsessiva) e o masoquismo. Estas posições são relacionadas também às flexões que o verbo
sofre em suas diferentes vozes. Assim, chegamos às seguintes proposições que resumem a
concepção freudiana elaborada até o momento.

1 - Eu lhe bato Voz ativa Sadismo


2 - Eu me bato Voz pronominal Neurose
3 - Ele me bate Voz passiva Masoquismo

No entanto, Freud se viu em face de dificuldades maiores na sua tentativa de


articular essas transformações com as fantasias que o sujeito introduzia. Digamos que as três
posições indicadas precedentemente nada mais são que algumas das posições possíveis dentro
de um processo mais global. Na verdade, a análise deste caso faz com que Freud se depare
com não apenas com uma, mas duas frases que sofrem transformações nos seus três termos.
Esta segunda frase é introduzida sob a forma de uma oração subordinada. Trata-se da frase
AMAR UM PAI, que vem acoplada à primeira. Essa frase introduz a questão narcísica dentro
do campo das neuroses e das perversões. O verbo amar permite uma articulação melhor com
esse registro do que o verbo bater. Conforme poderá ser constatado mais adiante quando
estudarmos a fantasia de Schreber (item 7.2), a frase “amar um homem” está implicada com
questões relacionadas à formação do Eu. Igualmente, o verbo amar tem um estatuto especial
na obra de Freud, já que este tenta elaborar-lhe a semântica dentro da “linguagem pulsional”,
conforme atesta o comentário seguinte:
“Poderíamos, num caso de emergência, dizer que uma pulsão ‘ama’ o objeto no
sentido do qual ela luta por propósitos de satisfação, mas dizer que uma pulsão
‘odeia’ um objeto nos parece estranho. Assim, tornamo-nos cônscios de que as
atitudes de amor e ódio não podem ser utilizadas para as relações entre as pulsões e
seus objetos, mas estão reservadas para as relações entre o Eu-total (Gesamt-Ich) e
os objetos. Mas, se considerarmos o uso lingüístico, que por certo não é destituído
de significação, veremos que há outra limitação que nos convida a restringir ainda
mais a significação do amor e do ódio. Dos objetos que servem à manutenção do
Eu (Icherhaltung), não se diz que os amamos mas insistimos no fato que
necessitamos deles, e acrescentamos eventualmente a expressão de uma relação de
outro gênero empregando palavras que indicam um amor em grau mais reduzido -
tais como, por exemplo, ‘gostar’ (gern haben), ‘apreciar’ (gern sehen), ‘achar
agradável’.” 71

Certamente que a semântica do verbo “amar” comportaria todo um estudo


específico, elucidando especialmente as relações desta com os diversos registros (por
exemplo, o do desenvolvimento da libido e o narcísico), mas também com as polaridades
indicadas no último artigo citado: polaridades que ele chama de real, biológica e econômica.
Retornemos, portanto, ao texto “Bate-se em uma CRIANÇA” - onde havíamos recém
70
S. Freud; “Uma criança é espancada” (1919), E.S.B., XVIII, pp. . 221-253; S.E., XVII, pp. . 179-204; G.W., XII, pp. .
195-226.
71
S. Freud; “Os instintos e suas vicissitudes”(1915), E.S.B., p. 159; S.E., XIV, pp. 134-135; G.W., X, pp. 227-228.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 61

constatado a existência de duas frases que correspondem, de maneira geral, aos pontos de
vista narcísico e libidinal.
Forrester72 propõe, de forma muito semelhante à nossa, um esquema em conjunto
das transformações necessárias à geração da proposição “Bate-se em uma criança”. Neste
esquema são indicadas duas tendências gerais: tendência A - ou egotista, edipiana e genital;
tendência B - ou tendência sádica e erótica. Uma combinação entre essas duas correntes se
faz presente constituindo a porção neurótica que encontramos nas perversões mais
regressivas e, caso ocorra progressão em direção ao complexo de Édipo, a porção perversa
que encontramos nas neuroses.
É necessário notar que o esquema de análise adotado por Freud mostra de saída o
acoplamento das duas correntes principais ou das duas seqüências de orações designadas. Isto
é, Freud indica as frases seguintes:
a) Meu pai está batendo em uma criança (que eu odeio) = A3a.
b) Meu pai está me batendo = A4 mais B4.
c) Bate-se em uma criança = AB6.

Mesmo a primeira frase (a) - que na verdade já comporta as duas tendências (A+B),
conforme mostra a frase entre parênteses (“que eu odeio”) - demonstra que Freud adota na
sua análise, logo de saída, um reconhecimento de que é impossível, quando da análise ao
vivo, separar-se os dois registros. Efetivamente, Freud vê-se obrigado a abandonar uma
seqüência puramente linear de transformações gramaticais, sendo obrigado a integrar duas
seqüências de frase que aumentam em muito as possibilidades combinatórias caso se tente
realizar uma análise exaustiva e completa.

72
John Forrester; Le Langage aux Origines de la Psychanalyse, Paris, Gallimard, 1984, capítulo IV.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 62

Quadro 8 - Análise transformacional da fantasia “Bate-se em uma


criança”, segundo Forrester (op. cit.)

TENDÊNCIA A TENDÊNCIA B

A1 - Eu amo meu pai B1- Eu lhe bato


A2 - Meu pai me ama B2 - Eu me bato
A3 - Meu pai só ama a mim, B3 - Ele está me batendo
[e por conseqüência]
Eu odeio qualquer outra criança
A3a - Meu pai está batendo A3b - Meu pai não me ama.
em uma criança que eu
odeio.

A4 - Meu pai está me batendo B4 - Meu pai está me batendo

AB5 - (Meu pai está batendo em uma criança).


AB6 - Bate-se em uma criança.

Costumamos dizer que as perversões dirigem a clínica em direção à barra da saia da


mãe. Especificamente, ao que se supõe encontrar-se debaixo da saia da mãe. A recusa
(Verleugnung) é o que permite esta espécie de cinismo face às questões da norma introduzida
pela terceiridade. Ocorre uma espécie de normatização aparente de ordem neurótica, na qual
só se evidencia a presença da recusa em situações pontuais. De hábito, a situação pontual é
associada a uma ameaça de castração. Esta é o elemento precipitador da sintomatologia
perversa. Em sua presença ocorre uma regressão em direção ao modo de funcionamento mais
infantil. No entanto, a linguagem não se vê alterada como nas psicoses. Ela é participante
ativa na constituição do sintoma, dado não ser mais considerada na sua veracidade efetiva.
Ela é só falação, vazia de importância. O que passa a comandar é uma lógica narcisista
prepotente, na qual o sujeito se fascina com as imagens fálicas. Daí encontrarmos, entre as
neuroses e as perversões, correlações de natureza mais específica que aquelas evidenciadas
apenas pelo processo semiótico dominado pela segundidade.
A relação entre neurose obsessiva e sadismo diz respeito primordialmente ao caráter
narcisista fálico que atravessa e constitui a tendência da pessoa a tomar-se como objeto de
amor privilegiado. O sadismo consiste finalmente em uma estratégia de se fazer amar pelo
outro custe o que custar, o que equivale a uma maneira de aliviar-se de temores. Ou seja, na
pequena infância sempre pode ocorrer da criança se colocar como sendo o objeto de amor
preferencial. A exacerbação desta posição tão característica do futuro obsessivo, ao atingir
seu ápice, possibilita a emersão de um desconhecimento do outro enquanto tal. O império do
desejo se instala, possibilitado pela recusa da castração. Não seria correto falar mesmo de
desejo neste caso. Existe uma espécie de curto circuito que faz a pulsão transparecer mais sob
forma de um agir e de um mover-se em paroxismo. Vemos a força da pulsão ser mais
qualificada no sadismo - e o objeto da mesma, na obsessão.
De maneira similar, a histeria e o masoquismo estão vinculados principalmente aos
determinantes força e objeto da pulsão. O masoquismo implica uma maior diferenciação em
relação ao próprio Eu do sujeito. Como vimos, ele exige uma transformação de fantasias
ativas em fantasias passivas nas quais o Eu é tomado como objeto do sadismo. Neste sentido
o masoquismo traz consigo o protótipo de toda neurose. Daí a sua proximidade com a
histeria. No entanto, estará presente em toda obsessão na medida em que as dimensões de
passividade se acentuem.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 63

Aquilo que é reconhecido como perversão é estritamente dependente da moral


vigente e da posição que o sujeito assume face à norma. Via de regra, ele a adota até que a
castração o envie para este tipo de objeto tranquilizador que é o fetiche. Convém lembrar,
reforçando a lógica básica das perversões, que encontramos uma espécie de encantamento
por um determinado objeto. O termo fetiche, na sua raiz original portuguesa, deriva de feitiço
- de forma que se evidencia o aspecto fascinante da perversão.
Na literatura, o romantismo quase sempre propiciou exemplos normatizados de
fetichismo. Não é assim que a botina passa quase a substituir a pessoa amada no romance de
José de Alencar A Pata da Gazela?

“O que amo nela é o pé: este silfo, este pé anjo que me fascina, que me arrebata,
que me enlouquece!”

Trata-se então das perversões que adquirem sua forma sintomática simbólica típica
no fetichismo, posto que ocorre substituição do objeto de desejo original por meio de uma
combinação aguda da força pulsional localizada sobre um determinado objeto. Na análise
extremamente acurada de Lacan, apontando o caráter estrito simbólico do fetichismo, este se
realiza através do último objeto onde o olhar pousou na atividade fantasmática do sujeito. Ao
mesmo tempo em que fica assinalado esse caráter estrito simbólico, deve ser dito que o
paroxismo fetichista é comandado essencialmente pela falta ou pela perda de um objeto
amado. Muitas vezes vemos o fetiche aparecer somente como uma “solução” de crises
depressivas potenciais nas quais o imaginário do sujeito preenche e resolve em um objeto
fascinante o temor da castração.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 64

6.1. Um objeto que se transforma ao longo do tempo

O reconhecimento do que é perversão passa pela aquiescência ou rejeição da censura


social em um determinado momento da cultura. Não existe universalidade que reja a escolha
de determinados objetos como fascinantes, enquanto outros são rejeitados. Isto atesta o
caráter simbólico das perversões. A constituição da rejeição de um determinado objeto
implica a participação efetiva do simbólico. No entanto, na explicação psicanalítica a questão
pulsional na pequena infância, as chamadas pulsões parciais, é elemento essencial na
estruturação do sintoma. Temos então uma combinação mais uma vez de elementos
fornecidos pela cultura por via da linguagem cotidiana com a pulsão.
Inúmeras impulsões que são desejadas, esperadas e aproveitadas por todas as
culturas estão presentes na pequena infância. Este é o caso freqüente do sadismo com
pequenas criaturas, tais como as formigas, as baratas e as moscas. Existe aí um determinismo
cultural que separa por critérios diversos “estas apenas também criaturas de Deus” de outras
criaturas melhores, que amamos com mais facilidade, como os gatos, os cachorros e os
passarinhos. Este simples fato designa não existir perversão que não tenha a participação do
simbólico. Não podemos concordar com proposições tais como que existe nas perversões
falta de elaboração envolvendo a linguagem, como sendo um problema estritamente pré-
genital, de um eu falho. Na verdade, existe no dia a dia a possibilidade de sublimação do
sadismo por intermédio, por exemplo, do exercício da agressividade não mais contra si
mesmo, como um objeto, mas para modificar a chamada meta da pulsão. Potencialmente
então cada sintoma poderia ter uma solução sublimatória. Ocorre, porém que essa disposição
sublimatória não se faz sempre. Ela é adquirida em geral na primeira infância tal como
ocorreu com Singer. Assim, uma profissão que vise eliminar bichos nojentos, abjetos,
peçonhentos, perigosos sempre será valorizada em qualquer cultura, possibilitando uma saída
para a descarga pulsional agressiva.
Entre os seres vivos que mais sofrem por conta disto encontram-se as moscas. Isto
ocorre a tal ponto que dificilmente pensamos nelas como sendo “criaturas de Deus” ou que
têm células, fisiologia e as complexidades que comportam estudos de biologia, psicologia e
até de sociologia. Este tipo de atitude fez Isaac Singer - defensor da não violência e da vida
vegetariana, se interrogar sobre como ele podia ter sido tão sádico com esta pequena criatura.
Ou seja, antes de vir a ser um paladino da antiviolência detectou um ato que julgou da maior
crueldade na sua pequena infância. Transcrevemos algumas auto-interpelações deste homem
sublimado acerca do seu crime infantil, mas pedindo para o leitor ler o artigo “Da
infelicidade de ser mosca” 73 no mundo humano:
“Quando eu era um pequeno menino da escola primária judia, fiz uma coisa que
desde então me fez experimentar remorsos. Peguei uma mosca, coloquei-a em uma
garrafa com algumas gotas de água e um pouco de açúcar. Fechei a garrafa com
uma rolha e joguei-a no sótão (...). Porque teria eu cometido este ato de crueldade
gratuita, eu jamais compreendi”.

Através deste testemunho fica mais evidente existir relações entre o sadismo
(infantil), a neurose e a sublimação. Quando pensamos no sadismo, enquanto sintoma
paroxístico do adulto, somos enviados por um lado àquilo que Freud chamou de recusa
(Verleugnung) - que consiste em clivar o Eu, desconhecendo então uma parte do conteúdo
representativo e pulsional como pertencente ao próprio sujeito. Por outro lado, ocorre uma
qualificação cultural dos objetos, o que os distingue ou não como objeto de sadismo ou de
sublimação. No caso das moscas, é gritante que elas devem ser excluídas. Caso venham a ser

73
Giorgio Manganelli; “Du malheur d’être mouche” in FMR, número 1, 1985, pp. 89-92.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 65

aceitas por alguém, o ato de destruí-las será identificado não à sublimação do sadismo
infantil, mas ao masoquismo e ao fetichismo.
Projetamos o nosso sadismo também sobre elas. Isto pode ser constatado através de
expressões criadas pelos poetas populares, como Raul Seixas, através da sua música “Mosca
na sua sopa”. Neste forróck encontramos uma mosca ativa, que veio para perturbar o dia a
dia da grande maioria silenciosa. Algo de um prazer sádico encontra-se nesta sátira, a cada
vez que é dito “Eu sou a mosca que pousou na sua sopa”. Ocorre também da mosca ser
tomada como expressão simbólica pulsional sintomática. Com relação ao masoquismo,
quando o sujeito se apassiva e as moscas se utilizam do mesmo. A expressão “alguém comeu
mosca” mostra um dito popular que visa exorcizar o masoquismo. Os pediatras têm especial
temor do chamado sinal da mosca, quando este animal infecto pode passear à vontade no
corpo da criança, em especial nas narinas, sem que essa esboce reação alguma. É um mau
sinal, indicador de que ela está exposta aos malefícios do meio ambiente, sem reatividade.
Trata-se aí não de um masoquismo, mas de uma incapacidade de reação. No caso do
masoquismo, está presente em toda plenitude esta possibilidade de reação. Mas ela se faz
presente não para a autoconservação, mas para retirar prazer da dor auferida. Os temores do
pediatra e do psicopatologista são de ordens diferentes, de forma que com relação àquele a
mosca fica mais uma vez marcada em seu lugar nocivo, indicador da exaustão. Com relação
ao fetichismo, a história da mosca é bem mais gloriosa do que se possa pensar na atualidade.
Um dos padrões temáticos na iconografia da arte sacra dos séculos XV e XVI era pintar o
pequeno inseto, costumeiramente, sobre pergaminhos ou próximo de Nossa Senhora. Esta
pequena pintura, por vezes extemporânea à temática principal, ecoava o imaginário da época
de ser a mosca marca da virtude e do espírito livre.
As perversões não constituem, em si mesmas, algo que seja desconhecido na
neurose. Por isto que a linguagem não intervém de maneira substancialmente diferente do
caminho neurótico principal. Contudo, existe uma espécie de radicalização basicamente pelo
objeto, que as torna abjetas, rejeitadas pela maioria, principalmente os objetos corpo do outro
no sadismo, corpo próprio no masoquismo e o endeusamento do falo no caso do fetichismo.
Em virtude disto, a linguagem é utilizada no desconhecimento das convenções e dos acordos
entre os homens. Mais que nunca ela será objeto somente de falatório.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 66

7. As psicoses

A sintomatologia clássica das psicoses é testemunho de que para existir doença


mental é necessária a entrada na linguagem, posto que os problemas do sentido e da realidade
tornam-se os temas centrais da loucura. Indicamos que as psicoses estão em íntima relação
com a presença de uma terceiridade que se vê problematizada, uma vez que os distúrbios
ditos do pensamento formam a grande maioria dos sintomas. Deve então ser esclarecido que
pensar, aqui, é essencialmente relacionado à linguagem, à racionalidade. Os sintomas devem
ser qualificados diferentemente para se alcançar a proposição que psicose não é demência.
Trata-se, no entendimento psicanalítico, de doenças típicas do Eu - sendo por isso
caracterizadas como formas de sofrimento narcísico, entendendo-se narcísico como um tipo
de relação que rompe a comunicação.
O Eu, tal como o compreendemos de maneira estrita, é essencialmente um produto
da elaboração simbólica. Pode então ser esperado que toda sintomatologia psicótica se veja
intrinsecamente relacionada a este fato. Freud apontou de maneira arguta a tese geral da qual
compartilhamos: na psicose as palavras são tomadas como coisas. Esta proposição é
relevante justamente por colocar as psicoses essencialmente como um problema da
terceiridade, e também estritamente ligada ao Édipo. A proposição do caminho não impede
de apontarmos que, de um ponto de vista semiológico, os três principais tipos de psicoses
podem ser caracterizadas conforme o quadro a seguir.

SINTOMA PSICÓTICO = DOMÍNIO DA TERCEIRIDADE 74,


mas produzindo diferenciações:
Esquizofrenia, psicose típica (distúrbio da terceiridade)
Paranóia, com participação da segundidade
Catatonia, com participação da primeiridade

A tese de que na psicose as palavras são tomadas como coisa introduz questões
importantes na metapsicologia psicanalítica. Introduz uma quase exigência com relação à
teoria do Inconsciente: mostra que nas psicoses o aparelho psíquico está organizado de
maneira diferente das neuroses. Assim, adquirem o direito de apresentarmos um caminho
específico para elas, diferente do das neuroses, perversões e timopatias. Caminho este
visando à elucidação da catatonia, paranóia e esquizofrenia.

74
Para uma introdução articulada com psicopatologia acreditamos que a leitura do último capítulo do nosso
livro Psicopathologia I – Prolegômenos, Belo Horizonte, Editora PUCMinas, 2005 possa ser útil; o livreto de
Lúcia Santaella, O que é Semiótica, Coleção Primeiros Passos, São Paulo, Brasiliense, 2003 para uma
introdução didática a semiótica; e para um estudo na origem C. S. Peirce, C. S.; Collected Papers of Charles
Sanders Peirce, Volumes I, II, III, 3a edição, Charles Hartshorst e Paul Weiss (organizadores), Harvard,
Harvard University Press, 1974.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 67

7.1. A esquizofrenia

A esquizofrenia constitui a apoteose trágica do fato de sermos seres simbólicos. Ela


é o ápice da problematização da terceiridade e, por conseqüência, do seu âmago - a palavra.
A linguagem como representante maior dos processos simbólicos se vê problematizada de
forma radical. Pelo menos duas dimensões essenciais da linguagem devem ser esclarecidas
nas psicoses. São duas dimensões estudadas de longa data pelos lingüistas. Na esquizofrenia
elas atingem seu ponto mais aberrante. São elas: a referência e a significação.
Estas duas operações articulam a linguagem com a realidade extralingüística
(referência) e que realizam a produção de significados semantizados (significação). A
esquizofrenia consiste na ruptura destas duas operações que envolvem a linguagem gerando
os sintomas clássicos concebidos como expressões da chamada perda de realidade na psicose:
os delírios, as alucinações, a sonorização do pensamento, o automatismo mental, a
desagregação do pensamento. Caso comparemos a problemática esquizofrênica com a
paranóia e a catatonia, pensamos que ela dá um passo além no desmantelamento do processo
secundário de pensamento - aquele regido pelas leis da linguagem ordinária e,
principalmente, pela lógica aristotélica. A lógica que passa a ser imposta é similar àquela dos
sonhos, com deslocamentos, condensações, livre fluxo de energia, recusa do princípio de
identidade. A relação entre psicose e Inconsciente é importante na medida em que nas
psicoses o Inconsciente está a céu aberto.
Ao salientar a invasão dos processos inconscientes nos sistemas pré-conscientes,
Freud mostrará quanto a linguagem se verá afetada, modificada, na medida em que esta se vê
representada no aparelho psíquico pelas representações-palavra (pré-conscientes). A
linguagem neste caso passa a constituir a experiência de realidade na psicose, uma vez que
esta se constitui pelas interações de objeto conscientes. Realidade e significação são dois
temas fundamentais a serem esclarecidos. Ambos pertencem à problemática pré-consciente, e
consciente na metapsicologia freudiana.
Diferentemente da paranóia, onde vemos as operações de referência ser afetadas, na
esquizofrenia (Dementia Praecox e hebefrenia) o problema crucial é a compreensão e a
impossibilidade de podermos compartilhar do novo mundo construído. Dizemos então que o
delírio se diferencia das alterações tipo desagregação do pensamento e das alucinações,
justamente por compreendermos o mundo paranóico: é que na esquizofrenia a articulação dos
sentidos é que se vê tocada, por vezes abolida.
A hipótese fundamental de Freud acerca da constituição do sintoma esquizofrênico
aponta uma diferença com relação ao sintoma tipo paranóia, pensamento ao lado ou delírio:
na esquizofrenia as palavras são tomadas como coisas. Veremos ainda que o delírio é uma
construção que visa resolver este problema entre as coisas e as palavras. Na esquizofrenia, do
ponto de vista do aparelho psíquico, as representações-palavra são tratadas como
representações-coisa. A tese de Freud evidencia então uma diferença radical com relação ao
neurótico: na psicose as palavras, incluindo sua dimensão significante (sprachlichen
Ausdrücken), são tomadas como representações-coisa enquanto nas neuroses as palavras
mantêm seu poder simbólico, ocorrendo que elas passam a elaborar e a recalcar as
representações-coisa. Trata-se, no sintoma esquizofrênico, de uma verdadeira subversão dos
signos lingüísticos, diferentemente do que ocorre nas neuroses.

“Se nos perguntarmos o que confere à formação de substituto (Ersatzbildung) e ao


sintoma esquizofrênico seu caráter surpreendente, acabaremos por notar que é a
predominância (Uberwiegen) da relação da palavra (Wortbeziehung) sobre a
relação de coisa (Sachbeziehung).”75

75
S. Freud; “O inconsciente” (1915), E.S.B. XIV, p. 229; tradução francesa, p. 117; S.E. ,XIV, p. 200; G.W., X, p. 299.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 68

Esta explicação, além de situar a linguagem como pertencente ao sistema Pré-


Consciente, Consciente, faz uma diferenciação foi ainda mais refinada:

“É identidade (Gleichweit) da expressão verbal, e não a similitude (Ähnlichkeit)


das coisas designadas (bezeicheneten Dingen) que comandou a substituição.” 76

Eis então aí a indicação de dois planos de análise que foram designados


precedentemente, isto é, uma primeira vertente que concerne às expressões verbais, e a
segunda vertente que diz respeito às coisas designadas. O primeiro plano pode corresponder a
uma abordagem mais ligada à semântica, ou mesmo à presença simultânea nas
representações-palavra de significantes e significados, ao passo que a segunda vertente é
introduzida pela expressão “coisas designadas” (bezeichenete Dinge), que reenvia ao conceito
semiótico de referência. A esse propósito, Freud analisa as declarações de uma jovem
analisanda de Victor Tausk, cognominada Emma A., que tomaremos como princípio de
nossa investigação teórico-clínica acerca de sua proposição:

“Uma paciente de Tausk, uma jovem moça (Mädchen), levada à clínica depois de
uma discussão com o namorado, se lamentava: ‘Os olhos não estão como eles
deveriam. Eles estão virados de través’ (Die Augen sind nicht richtig, sie sind
verdreht). Ela mesma explica este fato apresentando em uma linguagem coerente
(geordeneter sprache) acusações contra o namorado: ‘Ela de forma alguma
conseguia compreendê-lo, a cada vez ele parecia diferente, era um hipócrita (ein
Heuchler), um enganador visual (ein Augenverdreher); ele tinha entortado os olhos
dela (er hat ihr die Augen verdreht), agora ela tinha os olhos virados (hat sie
verdreht Augen ), eles não são mais seus olhos (Augen), agora via o mundo com
outros olhos.”77

Pode se apreender da tradução acima das expressões da paciente, sublinhadas por


Freud, que a força e a evidência do exemplo de Tausk se apóiam sobre a análise de certas
palavras chaves. Precisamente sobre a palavra ‘Augen’, sobre o verbo ‘verdrehen’ e sobre a
palavra composta ‘Augenverdreher’. Como o exemplo se funda na dimensão significante,
obriga-nos a explicitar melhor os diversos termos a fim de tornar compreensível para um
leitor em português. ’Verdrehen’ significa torcer, contornar, colocar de través. ‘Augen’
significa os olhos, a visão. Contudo, a composição dos dois significantes (‘Augen’ e
‘verdrehen’) - formando o verbo ‘Augenverdrehen’ e, por derivação, ‘Augenverdreher’ - tem
significações bem específicas em alemão. O verbo composto ‘Augenverdrehen’ significa
ação de ’enrolar alguém’, ou ainda de ‘enganar alguém habilmente’. Já ‘Ein
Augenverdreher’, onde há um reforço da idéia de hipócrita (Ein Heuchler), pode ser
compreendido como alguém que é um velhaco, mentiroso, sonso, impostor, malandro,
dissimulador, ou ainda um indivíduo “hábil a se fazer ver de outro jeito que não o que ele é,
porque consegue fazer virar os olhos das pessoas por sobre aquilo a que deviam estar atentas”
78
.
A interpretação freudiana torna evidente que contrariamente ao neurótico, a
expressão verbal (sprachlichen Ausdrückes) torna-se objeto privilegiado para o psicótico, que
abandona claramente a situação específica de interlocução: sobrevalorizando os significantes
de uma maneira muito pessoal devido ao abandono de querer dar conta das similitudes entre
as coisas - o que poderia relativizar os diversos significados. A distinção entre a palavra e a
coisa, ou ainda entre a função significante e a função referencial da linguagem, é elaborada
em detalhes, dizendo Freud que:

76
S. Freud; “O inconsciente” (1915), E.S.B. XIV, p. 226; tradução francesa, p. 117; S.E. ,XIV, p. 201; G.W., X, p. 299.
77
S. Freud; “O inconsciente” (1915), E.S.B., XIV, p. 229; tradução francesa, pp. 112-113; S. E., XIV, pp. 197-198; G.W.,
X, p. 296. Vide também a propósito desse caso : Victor Tausk; “De la génèse de ‘l’appareil à influencer’ au cours de la
schizophrénie” (1911) in Oeuvres Psychanalytiques, Paris, Payot, 1975, pp. 177-217.
78
A. de Waelhens; La Psychose – Essai d’Interprétation Analitique et Existentiale, Louvain, Nauwelaerts, 1972, p.100.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 69

“Onde os dois elementos (die beiden) - palavra e coisa - não se recobrem (sich
nicht decken) que a formação de substituto (Ersatzbildung) esquizofrênico se
separa do que ocorre nas neuroses de transferência.” 79

A ligação entre as palavras e as coisas ou, melhor ainda, o recobrimento (decken) da


realidade pela linguagem é abandonado em proveito da pura atividade significante. A síntese
do objeto na consciência se realiza em proveito de uma intensa valorização do sistema de
linguagem enquanto representações-palavra. Existe então uma perturbação pontual na
abstração, perdendo a mesma a sua característica de negatividade. A palavra, mais
especificamente, passa a ser uma coisa mesmo. Como conseqüência imediata, o entrevistador
não consegue refazer exatamente a história. Apenas partes do mundo da paciente se tornam
acessíveis, a muito custo. Isto é, existe um prejuízo na operação de referenciação da
linguagem. Exemplificaremos esta proposição - da palavra tomada como coisa - através da fala
de uma antiga paciente, e de uma tentativa de realizar um pequeno histórico do caso através
de dados fornecidos pela paciente e sua filha. As informações, caso retiradas somente da fala da
paciente, ficam esparsas. A cronologia é rompida todo o tempo. Temos com freqüência a sensação de
estranheza, de não termos acesso à realidade daquilo que nos é relatado.

Quando a encontramos, F. tinha 49 anos. Encontrava-se internada em uma clínica


psiquiátrica há mais de um ano. Aparentava, porém, bem mais idade, talvez sessenta anos.
Era um pouco obesa e seus cuidados com a higiene eram precários. Pouco recebia visitas,
mas mesmo assim era indiferente, “pueril”, à ausência de familiares. Tinha um
comportamento “adaptado”. Ao contactarmos para entrevistá-la, mostrou-se disposta e
durante as entrevistas era solícita, atenciosa, mostrando um bom humor constante. É verdade
que este bom humor era expresso mais pelo seu semblante do que por algo que pudéssemos
entender. Contou-nos ser natural de Goiás Velho - GO, “nasceu na fazenda das caveiras”,
local onde residia sua mãe, B. de Melo. Nasceu de parto normal com gestação sem
anormalidades. Era a filha caçula de uma prole de três filhas. Conviveu com esta família até
mais ou menos três anos de idade, trabalhando a mãe no campo e tendo poucas condições
econômicas. Não conheceu o pai, pois, “a mãe não gostava dele, nunca falou o nome dele”.
Tal afirmação sobre o pai gera na paciente um questionamento acerca de sua origem, dizendo
que seu pai podia ser o mesmo que conheceu depois de três anos, quando foi adotada por
outra família. Diz não saber como a chamavam, não tendo um nome; imagina atualmente que
seu nome seja Saprinsca de Melo. “Tive o nome de czares antes de morrer. Mudei de nome
quando fui pá casa de mãezinha. Ela me chamava de rainha, eu pedi à minha outra mãe, a ela
no ventre pra ser rainha, dentro da barriga pra ser rainha, aí fiquei sendo...”
O surgimento inesperado do neologismo saprinsca nos parece uma tentativa de
reconstrução do esfacelamento do seu pensar nas suas porções elementares, os significantes.
Diferentemente de uma análise lógica, como pensamos dever ser feito com o delírio, aqui se
trata de reconstruir o sentido, o desejo originário de F. que se vê envolto por uma fala acerca
de sua mãe. Ele recolhe a um só tempo todos os significantes de princesa, realizando
79
S. Freud; “O inconsciente” (1915), E.S.B., XIV, p. 229; tradução francesa, pp. 117-118; S.E., XIV, p. 201; G.W., X, pp.
299-300.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 70

imaginariamente e efetivamente para F. o desejo megalômano de ser membro de uma família


de alta estirpe. Assim, temos:
PRINCESA SAPRINSCA
12 34 567 8 7 812 347 5 8
Além da morfologia das letras coincidentes formando um anagrama neológico, temos
recombinações de pedaços de significantes articulados com significados específicos, que se
combinam em saprinsca como uma combinação de diversas condensações: SA (Sá Maria,
Sinhá, Senhora na sua região), SCA (Czar) e PRIN (princesa) que reforçam e transbordam de
muito o significado princesa. Esta temática megalomaníaca sobre de quem ela se trata, quem
é ela, se repete de maneira delirante em torno de sua genealogia, onde há esboços de
construção de asserções dela como princesa, dona de fábricas, ter Getúlio Vargas como pai,
ser esposa de Mauro Borges (ex-governador de Goiás) e de ser artista.80
Não sabe por que foi morar com “mãezinha”, M., que era pessoa “boa, mais muito
severa”. Nas suas lembranças, a mãe adotiva ocupa lugar proeminente, dizendo não saber por
que ela vivia sozinha com alguns filhos, enquanto o pai, F. Bastos morava em outra casa com
as duas filhas mais velhas. Esta família apresentava melhor situação financeira, dizendo a
paciente que o pai era secretário dos índios, “Rei dos índios, Governador de Goiás Velho”. A
mãe era para F. a figura mais constante nesta família, sendo o pai figura pouco presente na
sua vida. “Mãezinha decidia tudo; era braba; não sei por que não viviam juntos”.
Logo que se toca no tema do seu nascimento surgem inúmeras dúvidas para o
interlocutor. Ocorre a confusão entre a morte e o nascimento. Às vezes F. fala-nos que
morreu com três anos de idade, tendo então ressuscitado e ganho o nome atual. “Não sei
como foi a morte; morri e ressuscitei, por isto não estou morta”. Outras vezes, diz ter
morrido quando “casou a primeira vez”. Torna-se difícil refazer sua cronologia histórica. O
imaginário se confunde com a efetividade.
A sua auto-referenciação está grandemente perturbada, transformada em direção à
idéia megalomaníaca de ser um membro da realeza. O seu próprio nome se vê alterado.
Entendemos esse como um símbolo maior do processo edípico81 constitutivo do sujeito. Ele
se situa no entrecruzamento entre a diferença de sexo e a diferença de gerações. A psicose
esquizofrênica desorganizada em geral apresenta grave distúrbio na dimensão genealógica ou
de diferença de gerações. Estudamos de forma empírica essa conturbação do simbólico,
analisando os termos lexicais de parentesco em pacientes esquizofrênicos.82, 83 As psicoses se
tornam assim uma apoteose sintomática da atividade simbólica humana desmontada e
reconstruída a serviço do desejo narcísico primário do sujeito. O “Eu-enunciador” em nada
parece com o Eu cartesiano. Ele agora é expressão do Inconsciente - e sintoma simbólico
maior da catástrofe psicótica.
Da mesma maneira, isto fica mais evidente quando procuramos investigar os anos
posteriores ao suposto nascimento. Com onze anos a menarca apareceu, tendo sido informada
por uma prima do que se tratava. Morava nesta ocasião ainda com “mãezinha”, tendo casado
com quatorze-quinze anos, após um namoro de três meses. “Eu queria era morrer invés de
casar; eu queria era levar a vida de mulher sozinha”. Gostava da família com que morava e
“não queria separar de mãezinha” O marido da irmã do seu marido, G., “encanador”, obrigou
o casamento. Ganhou então o nome atual, F. Freitas através do seu casamento com S. Freitas.
“Vivia bem, tinha empregada, ele ganhava no baralho sem roubar”. Teve uma filha deste
relacionamento, que durou mais ou menos três anos. A filha chamou se M. Freitas, “porque
minha sogra queria”, mas a paciente desejava que o nome fosse M. Bastos. Morou durante os
três anos de casamento com a sogra, pessoa “boa”, mas exigente. O marido “era bom, mas
80
Para uma análise mais detalhada ver Francisco Martins, Linguagem e Esquizofrenia, Brasília, Departamento
de Psicologia da Universidade de Brasília, tese inédita, 1982.
81
Francisco Martins; O Nome Próprio, Brasília, Edunb, 1991, em especial capítulos 9, 10 e 11.
82
Francisco Martins; Denise Percílio; “Organización Lexical del Parentesco y Psicosis” in Acta Psiquiátrica y
Psicológica de América Latina, v. 41, 1995, pp. 130-140.
83
Francisco Martins; Denise Percílio; “Estrutura de Parentesco e Psicose” in Jornal Brasileioa de Psiquiatria,
v.44, 1995, pp. 83-91.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 71

quase não parava”. Acabou largando à paciente. A filha foi criada por uma cunhada, tendo a
mesma voltado para a casa de “mãezinha”.
Ficou algum tempo com sua mãe adotiva, mas logo se “apartou da casa”, ocasião em
que sua mãezinha arrumou-lhe um lugar de professora na fazenda. Lá encontrou o “Nonoca”,
ou G. Correia, de quem foi amante durante muito tempo. Nunca assinou o nome Correia,
“pois não queria mesmo casar”. Acerca de sua rejeição ao casamento, diz que talvez seja
porque sua mãezinha não queria que nenhuma das filhas se casasse. Viveu com Nonoca
durante muitos anos. Tinha muito ciúme do mesmo. Trabalhava em casa e freqüentava um
bordel, onde ganhava algum dinheiro em troca de relações sexuais. Sentia-se explorada, pois
a dona do bordel “ficava com a maior parte do dinheiro”. Teve vários filhos: a maioria do
seu relacionamento com Nonoca, e alguns de outros homens. Sobre seus filhos diz que os
mesmos “não morrem, pois sempre ressuscitam”. Sua vida dividia-se em cuidar dos filhos,
trabalhar em casa e freqüentar o bordel de forma a conseguir algum dinheiro para o sustento.
Seu amante “não se importava que tivesse relações com outros homens”, parecendo que nem
sempre ficava em casa.
Acerca de sua primeira internação - do primeiro “enfraquecimento do cérebro” -
relata ter sido após o nascimento da filha mais velha. “Sentia a cabeça oca, o corpo
diferente”. “Escutei lá em casa, de repente, uma moda de viola no meu ouvido”.
Possivelmente, a partir desta época é que a paciente (na sua imaginação ou realmente?)
passou a freqüentar o bordel. Um informante refere que o primeiro surto psicótico ocorreu há
mais de trinta anos, por conta do “resguardo quebrado, quando pegou vento ao sair de casa”.
Daí por diante passou a apresentar um “comportamento diferente, retirando as vestes,
rasgando-se, saindo despida pelas ruas, falando coisas sem nexo; sentia-se perseguida pelas
pessoas”. Foi então internada no hospital Adauto Botelho, em Goiânia, onde “levou choque
para criar cérebro”. Os filhos foram surgindo por ocasião de suas altas hospitalares.
Concomitantemente, seu amante “arrumou outra mulher”, largando-a. Desde então, as
internações foram se prolongando cada vez mais, coincidindo com uma rejeição da família
“que não se dá bem com ela”. Em uma das últimas internações o seu ex-amante buscou-a em
uma casa de prostituição, onde estava há quatro anos, entregando-a a “mãezinha”, que
providenciou sua internação.
Mesmo em uso de medicação neuroléptica (15 mg de haloperidol) e ansiolítica (10
mg de benzodiazepínico) apresentava permanentemente um quadro delirante produtivo,
dizendo “ser rica, dona de muitas fábricas e bancos”, e sintomatologia alucinatória ocasional,
especialmente do tipo auditivo. Apresenta lentificação da atividade voluntária, descuido com
a própria aparência e perda do pragmatismo. Deseja sair da instituição, achando um absurdo
ser “tão rica, e estar tão mal vestida”. Em outra entrevista F. insistiu que sua primeira
hospitalização foi logo após o parto da primeira filha, quando lhe ocorreram fatos inusitados
e revoltantes: “Ai veio o primeiro corrimento... Prá criança nascer, vem sangue. Acharam
uma correia deste tamanho [faz o gesto com a mão]; ela foi posta lá no outro hospital. Coisa
assim, deste tamanho. Tinha neném, um neném na barriga”. O fato que mais a incomodava
era o aparecimento da sensação corporal efetiva de uma correia na sua vagina. Depois
adquiriu certeza que tinha sido uma enfermeira que lhe tinha feito isso.
Por mais que nos esforcemos, fica evidente a impossibilidade de se construir uma
história linear - com referentes como tempo, espaço e pessoa estáveis. As referências se
perdem com freqüência, impossibilitando a reconstrução do seu mundo. É gerada no
interlocutor a sensação de confusão, de falta de organização no tempo e no espaço. Talvez
isso esteja na base das interpretações fenomenológicas e psicanalíticas que dizem fazer-se o
mundo esquizofrênico através de escombros e de destruição. Efetivamente, tem-se a
impressão que F. não se dirige verdadeiramente ao seu entrevistador. Por vezes cuida mais da
sua própria seqüência encantadora de signos, de cujo significado não temos certeza alguma.
O significante passa a ter um domínio completo. Restringindo-nos à tese da produção do
sintoma simbólico esquizofrênico, diríamos que o significante CORREIA desempenha um
papel ímpar na produção da alucinação cenestésica que tanto incomoda essa senhora.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 72

Efetivamente, CORREIA designa mais de uma coisa no real. Designa a família, em especial
o pai de uma família, e o objeto de indumentária feminina. Com efeito, F. pensa no
CORREIA seu marido – mas termina por sentir na sua realidade psíquica uma incômoda
correia em sua vagina. É certo que há o deslocamento da idéia de homem para outro objeto
(pênis). Contudo, o essencial para a produção do sintoma é justamente a concretização da
palavra, vindo a constituir “uma materialização do processo intelectual, e mesmo da vida
espiritual em geral, que não somente é exprimida metaforicamente, mas revivida
fisicamente”, como diz Binswanger 84 de forma preciosa:

“Ao visitar, numa noite de domingo o doente sexagenário Hae., um esquizofrênico


crônico (hebefrênico-paranóide), mas ainda bem conservado intelectualmente,
encontrando-o sentado calmamente à mesa com uma fatia de língua fria (de seu
jantar) posto de través sobre a calva. Surpreso e divertido, pergunto que diabo está
fazendo ali. No mais sério dos tons, mostrando apenas um brilho “astuto” no canto
dos olhos, ele retorque dizendo que a fatia de língua é excelente para refrescar
cabeça quente.”

A interpretação analítico-existencial de Binswanger se coaduna bem com a


concepção freudiana, logo que a língua enquanto coisa fria passa a ser tratada como uma
palavra que serviria estranhamente para esfriar uma cabeça ‘quente’. Ela acaba por romper
com o contexto de rendimento da linguagem, com o “cultural”. Em larga medida, permite ao
esquizofrênico passar a tratar as coisas como palavras diversas.
Além da excentricidade, do colocar-se em um mundo outro a que só temos acesso
com grande dificuldade, o tratamento de uma representação-palavra como coisa inicia
possibilidades de produções sintomatológicas bem conhecidas e referidas nos tratados de
psicopatologia.

84
Ludwig Binswanger: Três Formas de Existência Malograda: Extravagância, Excentricidade e
Amaneiramento (1956), tradução de Guido de Almeida, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977, p. 57.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 73

Quadro 9 - As produções sintomatológicas psicóticas com relação à Verwerfung

Princípio formador Tratar representações-palavra como representações-coisa


do sintoma simbólico

(Verwerfung)
Mecanismo primário ruptura da referência:
alucinação
e
concretismo

Modo de derivação Reconstrução sígnica Demolição sígnica

Derivações Delírios Desagregação

Alteração do halo Alteração


semântico85 fonemática
Perseguição
sintomatológicas Megalomania Ciúmes Psitacismo
Erotomania Esquizofazia

(dimensão
significante (dimensão
preservada) significante
prejudicada)

Quadro clínico Paranóia Esquizofrenia


essencial

O quadro 9 mostra que em seguida à produção do sintoma típico psicótico, quando


uma representação palavra é tratada como representação-coisa, existem pelo menos dois
destinos com relação à linguagem e, por conseqüência, à constituição da consciência e do
mundo psicóticos. Um primeiro caminho diz respeito à reconstrução sígnica realizando uma
espécie de costura no distúrbio primeiro. Esta reconstrução pode ser limitada ou mais
completa, com relação à limitação do “buraco” (palavra por coisa) psicótico. Quando esta
costura é limitada, envia-nos à constituição dos quadros esquizofrênico-paranóides. Quando
mais fechada e delimitada, possibilita o aparecimento da paranóia e das parafrenias, ou de
delírios com preservação da personalidade como os chamam os textos clássicos. De toda
maneira, vemos o processo de referenciação se conduzir à despeito dos fatos exteriores. O
exemplo a seguir, um pequeno trecho de discurso de uma paciente paranóica, evidencia que
compreendemos o que o delirante diz. Não concordamos é com o referente, e por
conseqüência com a verdade de um ponto de vista lógico. Daí a psiquiatria clássica atribuir
ao delírio o estatuto de erro.

"Uma orquídea de aço cultivada há séculos garante minha presença no


ministério divino." → afirmação de um megalômano, mas que bem poderia
ser esquizofrênico (atribuição de qualidades a um sujeito sem necessária
correspondência com o mundo empírico).”86

85
Vide o trabalho clássico de Sérgio Piro; Il Linguaggio Schizofrênico, Milano, Feltrinelli Editore, 1967.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 74

Um segundo caminho implica no prosseguimento do processo disruptor da


referência e dos próprios signos. Chamamos esta possibilidade de demolição sígnica. Ela dá
chance de aparecimento de inúmeras variações da chamada desagregação do pensamento ou
perda dos laços associativos, a chamada Associationlockerung de Bleuler 87. As duas formas
mais radicais que alcança este processo demolidor são a esquizofazia e o psitacismo. O termo
kraepeliniano ‘esquizofazia’ faz lembrar um parentesco com as afasias simbólicas, pois a
própria relação entre significante/significado é alterada em proveito do significante. Eis um
exemplo:

"Mato Grosso do Norte, Mato Grosso de Tubarú de Aracajú do Norte, Mato


Grosso de Recife, Mato Grosso de pinga, faz nada, que ele é dopado assim
dia e noite, diz que ele come que traspassa." → psitacismo esquizofrênico
(dimensão significante preservada); dicotomia geral-singular é irrelevante.88

Esta forma termina por realizar seqüências sonoras sem um sentido ou significação
aparente. De tempos em tempos, um riso (aparentemente imotivado) pode nos fazer supor
que o sujeito no seu mundo autístico muito particular articula significados. Porém, o seu
narcisismo radical nos impede acesso. Já o psitacismo consiste em um esvaziamento do
sentido - dos significados - com a manutenção de uma cadeia de signos aparentemente
íntegros. Explicita a afirmação clássica de Bleuler acerca dos esquizofrênicos: “falam mas
nada dizem” (Reden aber sagen nichts)89.
Estas duas formas descritas pela psiquiatria clássica são cada vez mais raras, mas
continuam presentes de forma parcializada na clínica cotidiana. Em ambas pode ser
observada a tese da ruptura das operações de referência e, finalmente, da ruptura da relação
entre o significado e o significante. Caso nos perguntemos a partir da primeira frase
produzida, quem fala?, e a respeito de que?, teremos dificuldade de reconhecer o sujeito e os
objetos da referida frase. Poderá ser constatado que inúmeros sujeitos e objetos surgem de
forma desarticulada. Existe então um ataque aos processos de articulação entre uma frase e
outra, processo conhecido entre os lingüistas como anáfora. As possibilidades de ruptura da
anáfora são muitas. Para o que nos interessa de imediato, valorizaremos a dimensão do
sujeito da frase - pois reflete uma demolição da personação do sujeito.
Personação implica um processo que se inicia nos primeiros contatos da criança com
a mãe, até seu acesso ao Édipo e à sua intersubjetivação societária. Conceber as psicoses
como disrupções e reconstruções radicais do processo de personação, permite voltar a situar
as chamadas psicoses infantis como distúrbios originários da personação ou apersonações, tal
como ocorre no autismo infantil precoce de Leo Kanner. A raridade desta e de outras
perturbações infantis nominadas classicamente como psicoses infantis, assim como o estudo
dos chamados casos de isolamento (Kaspar Hauser ou tipo meninos lobos) do contato
humano e os poucos estudos existentes sobre a estruturação e personação nas deficiências
mentais, tornam sobremaneira importante o estudo de todos estes casos. Isto justamente por
mostrar a especificidade da criança, em especial o infans, como não sendo um pequeno
adulto, e por trazer subsídio acerca do processo geral que compõe a noção de pessoa. Neste
sentido, somos críticos do termo psicose infantil, aceitando-o por conta da tradição, mas
recusando a similitude com as psicoses dos, digamos, adultos. O termo psicose infantil induz
ao erro de pensar já existir uma consciência simbolizada e personalizada na criança ainda
infans ou ainda não falante. Justamente, a psicologia e a psicanálise de crianças mostram que
elas não são psicóticas. Ao contrário, no seu processo particular de personação, elas virão a
86
Francisco Martins; Arílson Costa. “A referência e o pensamento psicótico” in Psicologia: Reflexão e Crítica,
v. 12, pp. 537-548, 1999.
87
Eugen Bleuler; Dementia Praecox or the \group of Schizophrenias, New York, International Universities
Press, 1950.
88
Francisco Martins; Arílson Costa, op. cit.
89
Eugen Bleuler; Dementia Praecox or the \group of Schizophrenias, New York, International Universities
Press, 1950.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 75

criar a possibilidade de estruturações. O termo anestruturações pode ser também adequado,


deixando-se o vocábulo psicose para indicar as estruturações e disrupções da pessoa já
constituída.
Pelo menos três aspectos de disrupção da personação devem ser apontados. Estão
em estreita relação com a tese de tomar a palavra como coisa e com o processo modificador
que se instala demolindo e reconstruindo não somente uma nova realidade, mas um novo
sujeito. Os três aspectos que apontaremos são derivados de noções, de origens diferentes:
filosofia, psicologia e lingüística.
A noção filosófica diz respeito ao conceito de sujeito. De forma mais específica, à
concepção de Heidegger90 de ek-sistence. Como é sabido, esta noção sublinhou a necessária
diferenciação no ser humano entre sujeito e objeto. Ek-sistence implica em acesso à
negatividade. Este acesso só se faz através do símbolo, em especial da palavra, retirando o
ser humano do imediato para o mediato. A distinção não seria propriamente sujeito-objeto,
mas sujeito-mundo (humano). As psicoses são um ataque à ek-sistence. Uma demolição ou
modificação mais ou menos permanente. Existe nas psicoses uma verdadeira evidência para
os filósofos, a saber, que o surgimento da noção de sujeito é concomitante àquele da noção
de mundo, sendo a linguagem condição lógica para tanto. Mais que um mundo alternativo de
ordem da lógica comum, as psicoses nos introduzem em um mundo muito particular e
organizado de forma radicalmente diferente do “nosso mundo”.
Se a noção filosófica nos envia à indicação de que existe uma lógica específica da
loucura, como veremos ainda no caso dos delírios, a noção psicológica volta-se para a
evidência da experiência sentida, vivida principalmente no corpo próprio. Por corpo próprio,
entendemos a expressão dos representamen da ordem da sensorialidade, da imagem e do
símbolo derivados de - e articulados com - o corpo do sujeito. Com efeito, a experiência
psicanalítica aponta que a integração dos representamen se faz principalmente pela
articulação com o simbólico. Quando ocorre ruptura do simbólico, passando as palavras a
não serem mais reguladas pela convenção, elas passam a ser pura imagem e/ou sensação
cenestésica. Na esquizofrenia ver-se-á, então, o aparecimento de um corpo imaginado como
despedaçado, desintegrado. Diríamos que, além de despedaçado, ele passa a ser
sensorializado parte extra partes.
Finalmente a terceira noção - de ordem lingüística - evidencia o esmagamento das
intra e intersubjetividade por intermédio da confusão entre o enunciado e a enunciação.
Como é sabido, a distinção entre o enunciado e a enunciação - ou entre o plano locutivo (no
qual o enunciado é proferido) e o plano ilocutivo (no qual a enunciação é construída) - é
condição necessária para o funcionamento da linguagem humana. Um dos aspectos mais
salientes na esquizofrenia é o desmoronamento destes planos por intermédio dos dêiticos. Por
exemplo, os pronomes pessoais, para funcionar como tal, são pró-nomes, vêm no lugar dos
nomes. Portanto, não são nunca pessoais e intransferíveis como um documento de fé pública,
mas dependentes de quem o utiliza. O pronome “Eu” não é de ninguém, nenhuma pessoa é
proprietária do mesmo. Ao mesmo tempo, ele é de todos, posto que todos se utilizem dele.
Ele indica tão somente a fonte de enunciação. Na esquizofrenia, passando a palavra a ser
tratada como coisa, o termo dêitico “Eu” passa a não se referir à fonte da enunciação,
confundindo os dois planos. O desabamento de um plano sobre outro resulta na destruição da
própria noção de “Eu”, da subjetivação psicológica imaginária e da intersubjetivação.
No caso do presidente Schreber podem ser encontrados diversos exemplos do que
acabamos de explicitar. Dois aspectos são essenciais, em nossa leitura, para considerarmos
como psicótico um determinado discurso. Estes pontos são retidos também por Freud:

1 - A importância fundamental, em todos os fenômenos psicóticos, da


colocação em marcha de um pensamento agindo por ele mesmo.

Martin Heidegger; Ser e Tempo, Parte I e II, tradução de Márcia de Sá Cavalcanti, 2a edição, Petrópolis,
90

Vozes, 1988, passim.


Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 76

Isto é, a impulsão vivida por Schreber concernente à língua fundamental


(Gründsprache), às vezes com nítida caracterização de uma compulsão a pensar, ou jogo forçado de
pensamento (tradução de Lacan do termo freudiano ‘Denkzwange’) ou “pensamento forçado”. Freud
sublinha passagens das “Memórias de um doente de nervos” de Schreber:

“Schreber se submete a um ‘pensamento forçado’(Denkzwange) das mais


penosas, a fim de escapar a esta condenação [de ser transformado em mulher por
Deus]: ‘Cada vez que meu pensamento (Denktätigkit) cessava, Deus chegava a
conclusão que minhas faculdades mentais estavam extintas e que a destruição do
meu entendimento (Zerstörung des Verstandes), a imbecilidade (den Blödsinn)
esperado por ele, havia-se realmente estabelecido’, e por este fato, a possibilidade
de aposentadoria lhe era dada.” 91

A língua originária que Deus lhe fala concentrar dois tipos interditos: o domínio da
blasfêmia contra Deus e a utilização de um vocabulário que coloca em íntima
relação o corpo próprio e suas atividades de excreção. Deus provoca em Schreber
uma indignação particular por seu comportamento no que concerne à necessidade
de evacuar (ou de ca...). A citação da extensa passagem seguinte se justifica pela
relevância para quem quiser entender o que é uma psicose - mas para que ela possa
ser bem compreendida começarei por dizer que tanto os milagres quanto as vozes
emanam de Deus, isto é, dos raios divinos (Gotstralen):

“Tendo em vista a significação característica da questão mencionada


acima: Por que você não ca...? Devo dedicar ainda algumas observações por mais
indecente que seja o tema que me vejo por isso obrigado a abordar. Como tudo que
diz respeito ao meu corpo, a necessidade de evacuar as matérias é efetivamente
provocada pelos milagres. Isto ocorre da seguinte forma: as fezes são empurradas
para frente, às vezes para trás, no meu intestino, e assim que não resta mais
material suficiente, então pequenos resíduos se espalham sobre meu orifício anal.
Trata-se de um milagre de Deus superior, milagre que se repete dezenas de vezes
por dia. A isto se associa uma idéia quase inconcebível para um homem, idéia
decorrente da incompreensão total que tem Deus do homem vivo enquanto
organismo, que ca..., é por assim dizer a coisa última, isto é, que ‘miraculam’
(erwundet) a necessidade ca..., o objetivo da destruição da razão é atingida e dada
a possibilidade de uma retirada definitiva dos raios divinos.
Para compreender a funda origem desta idéia temos de pensar na
existência de um mal entendido relativo à significação simbólica do ato de
evacuação das fezes: aquele que chegou a se colocar em uma relação semelhante a
minha com os raios divinos tem por assim dizer o direito de ca... sobre o mundo
inteiro.
Toda perfídia da política dirigida contra mim se revela aí. Quase toda vez
que a necessidade de evacuar me era ‘miraculada’, enviava-se uma outra pessoa do
meu meio no banheiro, depois de ter, excitado seus nervos afim de me impedir de
defecar; este é um fenômeno que observei durante anos em um número
incalculável (milhares) de vezes, e tão regularmente que exclui qualquer
possibilidade de ser atribuída ao acaso. A mim mesmo é respondida a questão: por
que não ca.....?, pela famosa resposta: “porque sou uma besta ou coisa assim”. A
pena se recusa de transcrever tamanho absurdo, que Deus, na sua cegueira, baseado
no desconhecimento da natureza humana, possa realmente chegar ao extremo de
supor que existe um homem estúpido demais para fazer o que todo animal faz: um
homem estúpido demais para ca...
Quando, levado por tal impulso, eu realmente consigo evacuar e,
geralmente, visto quase sempre encontrar o banheiro ocupado, uso um balde para
esse fim - o processo é sempre acompanhado pelo aparecimento de uma sensação
extremamente intensa de voluptuosidade espiritual, pois o alívio da pressão
causada pela presença das fezes nos intestinos produz intenso bem estar nos nervos

91
S. Freud; “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (Dementia paranoides)” (O caso
Schreber) (1911), E.S.B., XII, p. 42; tradução francesa, p. 276; S.E., XII, p. 25; G.W., VIII, p. 258.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 77

da voluptuosidade; e o mesmo também acontece com a urina. Por esta razão, até o
dia de hoje, enquanto estou evacuando ou urinando, todos os raios acham-se
sempre, sem exceção, unidos; por esta mesma razão, sempre que me dedico a estas
funções naturais, é invariavelmente feita uma tentativa, embora vã de inverter por
milagre o impulso de defecar ou mijar.”

2 - Fenômenos em nível de palavra, onde o significante intervém fora das condições


gerais de significação e onde principalmente o significado não é levado em consideração.
Em diversas passagens do caso Schreber, pode ser evidenciado o distúrbio na constituição
do signo. O trecho seguinte é particularmente eloqüente:

“É crença sua que os pássaros são constituídos por vestígio dos chamados
‘vestíbulos do céu’ (Vorhöf des Himmels), isto é, relíquias de almas humanas que
ingressaram em estado de beatitude e que foram impregnadas de veneno de
cadáver (Leichengift) e então jogados contra ele. Foram colocados num estado de
repetir ‘as frases destituídas de sentido (Sinnlos) aprendidas de cor’. Frases que
lhes eram ‘encantadoras’ (eigebläut worden sind). Cada vez que esses pássaros
descarregavam sobre ele suas cargas de veneno de cadáver, isto é, logo que eles até
um certo ponto debitavam as frases que lhes eram encantadoras (eingebläuten
phrasen), eles se dissolviam em sua alma proferindo lhes as palavras: ‘Diacho de
sujeito’! (‘Verflucht Kerl’), ou ainda ‘Que o diabo lhe carregue’! (‘Ei Verflucht’)
que constitui as únicas palavras que ainda são capazes de proferir para exprimir
seus reais sentimentos. Eles não compreendem o sentido (Den Sinn) das palavras
que eles enunciam (gesprochenen Worte). Mas são, por natureza destituídas de
receptividade no que toca a similitude dos sons que não tem necessidade de ser
completa. Por conseguinte pouco importa que se diga:
‘Santiago’ ou ‘Karthago’’
‘Chinesentun’ (chinesismo) ou ‘Jesum Christum’;
‘Abendrot’ (crepúsculo) ou ‘Atemnot’ (dispnéia);
‘Ariman’ ou ‘Akermann’(agricultor), etc...” 92

O quadro 9 também evidencia a tese que estas diversas manifestações, assinaladas


por disciplinas diferentes, encontram um fundo comum no mecanismo específico do campo
das psicoses. Tratar as representações-palavra como representações-coisa é a maneira
metapsicológica de apresentar um mecanismo diferente do recalque tal como conhecemos
nas neuroses. Trata-se especificamente da chamada rejeição, conforme é traduzido o termo
‘Verwerfung’, ou a chamada ‘forclusion’ (foraclusão, preclusão, forclusão) tal como Lacan
mostrou com agudeza. A despeito de Freud nunca ter enunciado de forma explícita o
mecanismo específico da psicose, é possível mostrar que todas as suas alusões acerca deste
termo e dos seus derivados envolvem sempre o fenômeno alucinatório. O vocábulo
‘Verwerfung’ está na base da explicação do sintoma alucinatório concernente a dois outros
aspectos da teoria psicanalítica: a castração e o julgamento de realidade. Por sinal, é através
das palavras ‘rejection of castration’ e ‘Verwerfungsurteil’ que a edição inglesa (S.E.) e a
alemã (G.W.) apresentam o termo. As principais passagens podem ser explicitadas e
comentadas a seguir, permitindo ao leitor descer mais em detalhes acerca da história deste
conceito em Freud.

A - Em 1894, a concepção segundo a qual a psicose é vista como uma “espécie de


defesa muito mais enérgica, bem mais eficaz que consiste em que o eu rejeita
(verwift) a representação pulsional insuportável ao mesmo tempo que seu afeto e se
conduz como se a representação insuportável nunca tivesse chegado ao eu” 93,
explicando por exemplo o caso de uma mãe cujo filho está morto e que ela fica a
ninar, sem parar, um pedaço de madeira.
92
Ibid.; E.S.B., XII, pp. 53-54; tradução francesa, pp. 284-285; S.E.; XII, pp. 35-36; G.W., VIII, p. 270.
93
S. Freud; “As psiconeuroses de defesa” (1894), E.S.B., III, p. 60; tradução francesa, p. 12; S.E., III, p.59; G.W., I, p.
72.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 78

B - Ou no caso do presidente Schreber (1911), em uma passagem sublinhada por


Lacan como equivalente a Verwerfung, logo que Freud mostra que a projeção entra
em ação em um segundo tempo, seja na neurose ou na psicose. A projeção nos
primeiros textos freudianos é concebida no psicótico “como uma verdadeira
rejeição desde o início no exterior e não como um retorno secundário do recalque
inconsciente” 94.O primeiro tempo da formação da psicose consiste em uma
rejeição fundamental, proveniente da atividade alucinatória de Schreber: “Não
seria exato dizer que a sensação reprimida (unterdrückt) no interior estaria
projetada em direção ao exterior; reconhecemos ainda mais que o que foi abolido
(das Aufgehobene) do interior retorna do exterior” 95.

C - Logo que ‘O homem dos lobos’ conta um episódio alucinatório infantil de seu
dedo cortado, ele se exprime da seguinte maneira: “De repente, notei com um
terror inexprimível que tinha cortado o dedinho da minha mão de maneira que o
dedo só se mantinha através da pele. Não experimentei nenhuma dor, mas um
grande medo (.....) desmoronei sobre um banco vizinho e fiquei sentado, incapaz
de dar uma olhada a mais sobre meu dedo... e eis que ele nunca tinha sofrido o
menor ferimento” 96. Freud relaciona esta experiência à castração: “Encontramos
posteriormente provas de que ele tinha reconhecido a castração como um fato real.
(.....) Depois de ter resistido inicialmente, cedeu, mas uma dessas reações não tinha
eliminado a outra. No fim das contas, duas correntes contrárias existiram nele lado
a lado, uma das quais abominava a castração ao passo que a outra estava mais
preparada para aceitá-la. (......) Mas, sem nenhuma dúvida, a terceira corrente, a
mais antiga e a mais profunda, que tinha sido simplesmente rejeitado (verwofen) a
castração e na qual não era mais uma questão de julgamento sobre a realidade
desta mesma, mas era certamente ainda reativável” 97.

É através da alucinação e da modificação na linguagem que o psicótico tenta


reencontrar o caminho dos objetos (Retitutionsversuch), tomando as representações-palavra
por representações-coisa. A distinção entre representação-palavra e representação-coisa é
consuetânea da distinção originária entre dentro e fora. Ou seja, está relacionada ao recalque
originário. Este recalque implica, portanto, um primeiro movimento em direção a
negativação do símbolo e por conseqüência à entrada do sujeito no simbólico. A postulação
freudiana do recalque originário é uma resposta necessária e lógica com relação à distinção
entre sujeito e objeto. Como é sabido, o objeto é aquilo que ob-jeta, se coloca face ao sujeito,
e não deve ser confundido com as coisas. É através do mundo de objetos que surge o mundo
tal como cada um de nós o constitui e experimenta em um só tempo. O mundo psicótico se
verá feito a partir de premissas lógicas diferentes daquelas da neurose. A premissa essencial é
o superinvestimento das representações-palavra, falhando então previamente o recalque
originário. A hipótese sobre a falha do recalque originário apontaria então uma disposição do
sujeito para vir a desencadear uma psicose. Já o superinvestimento do Pré-Consciente
explicaria os sintomas.
Ela está presente nas diversas formas de desencadeamento da psicose. Os sintomas
esquizofrênicos envolvendo psitacismo e esquizofazia representam os modos mais radicais de
prolongamento deste superinvestimento, com demolição sígnica ou ataque à palavra
enquanto símbolo e acordo entre os homens. É também uma tentativa de solução narcísica de
restituir uma realidade tal como desejada pelo psicótico. Do ponto de vista metapsicológico,
Freud explicita o que desenvolvemos a pouco dizendo que o superinvestimento das
representações-palavra

94
Segundo o comentário de J. Laplanche e J.-B. Pontalis, Vocabulaire de Psychanalyse, Paris, P.U.F., 1973, p. 165.
95
S. Freud; “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (Dementia Paranóides) (O caso
Schreber), (1911), E.S.B., XII, p. 95; tradução francesa, p. 315; S.E., XII, p.71; G.W., p. 308.
96
S. Freud; “História de uma neurose infantil” (O homem dos lobos), (1918), E.S.B., p. 108; tradução francesa, p. 390;
S.E., XVII, p. 86; G.W., XII, p.118.
97
Ibid.; E.S.B., XVII, p. 107; tradução francesa, p. 389; S.E., XVII, p.85; G.W., XII, p. 117.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 79

“representa a primeira das tentativas de restituição ou cura que domina de maneira


tão flagrante o quadro clínico da esquizofrenia. Essas tentativas são dirigidas para
a recuperação de objetos perdidos, e pode ser que, para alcançar esse propósito, os
esquizofrênicos tomem o caminho do objeto através do elemento palavra do
mesmo, o que os leva então a dever se contentar com palavras no lugar das
coisas”98.

No fundamento de uma psicose, este privilégio da palavra se encontra


principalmente no desencadeamento da sintomatologia. A paranóia e a catatonia, como
modos de expressões sintomatológicas, estão envolvidas de início com este modo de
formação do sintoma. As especificidades sintomatológicas da paranóia e da catatonia - assim
como o autismo, a discordância, a esquizofazia e o psitacismo esquizofrênico - se
desenvolvem a posteriori.

98
S. Freud; “O Inconsciente” (1915), E.S.B., XIV, p. 232; tradução francesa, p. 123; S.E., XIV, p. 204; G.W., p. 303.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 80

7.2. A paranóia

A tese freudiana acerca do sintoma esquizofrênico é articulável com aquilo que faz
reconhecer alguém como paranóico, seja qual for a nomenclatura adotada: paranóia,
esquizofrenia paranóide, dementia paranoides, parafrenia dos clássicos (sistemática,
expansiva, confabulante ou fantástica), paranóia crônica, paranóia alucinatória, para citar
somente as mais referidas. O sintoma princips é sempre o delírio. Deve-se entender delírio no
sentido estrito da palavra alemã ‘Wahn’, ou da palavra inglesa ‘delusion’, e não confundi-lo
com delirium. O delírio é tão relevante que é caracterizador das psicoses enquanto um
problema de sentido e de realidade. Porém, como já vimos, ele evidencia uma construção,
estando, na esquizofrenia, imiscuído com outras produções.
Como clínicos, temos o cuidado de não nos colocar como adversários do suposto
paranóico. Claro que isso não depende somente de nós, mas principalmente deste outro que
dificilmente está lá a nos pedir o que quer que seja. Faz-nos bem ver alguém com esta
etiqueta psiquiátrica realizar em plenitude o projeto apofânico da sua existência. Tomamos
mesmo o seu partido, e desejamos que não sejam incomodados uma vez que o transcorrer
faça-os atingir a lei. Afinal, são seres especiais e que fundam novas religiões, por exemplo.
Chamá-los de paranóicos é ate uma ofensa, pois a sua realização existencial é maior do que a
etiqueta que lhe foi colada. Um delírio pode ser socializado e constituir-se em sentido de vida
e solução para muitos. Em 1979, visitamos o Senhor Z, Chefe Maior de uma Comunidade
conduzida por sua mão de ferro, sendo homem notável entre os seus. Também adquiriu todo
o meu respeito, haja vista a seriedade da obra que conseguiu tornar viva. Vestido com bata
branca, ungido de óleo, com cabelos longos ondulados, barba, olhos penetrantes, fundos. Sua
figura era de um homem em pleno vigor físico, ativo intelectualmente e sempre bem disposto,
sempre solitário, muito solitário, a ponto de se autodenominar “Z, O Solitário”.
Disse-me que ali não se fazia somente a luz, o bem, mas que seu lema era Fiat Lex.
A dimensão da lei, do ordenamento do mundo, se fez presente em nosso relacionamento - que
foi dos melhores até o final da sua vida, mais de duas décadas depois. Lembro como foi
atencioso e incisivo no primeiro contato:
___
Já sabia que você viria. Seja bem vindo..., disse apontando umas cadeiras para
sentarmos.

Vendo meu ar de estranheza perante sua adivinhação, premonição, afirmação de


autoridade, completou - dirigindo mais a palavra a mim do que aos meus três outros amigos:
___
Antes de ontem, Deus falou comigo da sua vinda. Tenho um rádio que posso me
comunicar com Ele. Minha capacidade de dormir pouquíssimo ajuda a comunicação
incessante.

Interrompeu a conversa, e com firmeza indicou-nos o Templo onde passamos por


uma sessão de descarrego de energias negativas e de passes. Pudemos apreciar o sincretismo
sofisticado e delicado desenvolvido e posto em prática no Templo. Retornamos para os
nossos lares no final do dia com a imagem de integridade e também - porque não dizê-lo -
desde um ponto de vista clínico, de um homem que se movia na Terra com a mais alta
responsabilidade, seriedade de cumprir uma missão. Eis uma aprendizagem com este Mestre:
a responsabilidade com o sentido que tem a vida. Junto com isto ficou também claro a
tendência de Z. de auto intitular-se, de atribuir-se títulos e mais títulos que chegaram a soar
para mim como extremamente exagerados, alguns mais simples e fáceis de terem sido
obtidos, até outros impossíveis de serem avaliados por pertencerem ao mundo espiritual. Mas
não tivemos, nem temos, o intuito de duvidar da verdade da fala daquele homem. Tratava-se
– estamos seguros – da Verdade dele, e nenhuma colheita ou busca de referentes para mostrar
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 81

a ruptura com a realidade comum, histórica, faria sentido. Não éramos psicopatologistas lá.
Éramos muito mais homens encontrando um homem especial, e dirigente maior de uma
religião e de uma comunidade que o amava. De toda maneira, a auto-intitulação era flagrante
e fazia parte da contínua busca de reconhecimento da sua autoridade, seriedade e
responsabilidade. Deformaremos mais uma vez o material por motivo ético, a despeito de Z.
nada temer, e mesmo tendo nos autorizado:
___
“Vocês são de um tipo de psiquiatra que vão me ajudar. Já fui perseguido por eles
– cita os nomes de dois grandes e famosos psiquiatras da década de 50 que estiveram
envolvidos com Z. por questões judiciárias e de diagnóstico que levariam à sua interdição - e
sei com quem estou lidando”.

Sua face expressa dor e alívio ao dizer nada temer. Tivemos acesso ao material
produzido pelo Mestre e pela comunidade que era colocado à venda para o grande público. A
sinonímia com auto-intitulação, às vezes com metaforização, se faz sem limites. Tal como a
afirmar que imaginação não tem limites, procede de forma a desconhecer a realidade
histórica, social e efetiva dos fatos. Assim, o Mestre Z. aceitará de bom grado alguns novos
títulos ou se denominará sem problemas como sendo: Chefe das Acadêmicas Ecléticas Exo-
Esotéricas; S:. Gr:. Mestre:.; O Unificador; O Apóstolo das Religiões; V:. M:. Z. Por vezes, a
tendência é assimilá-lo aos objetivos ou mesmo a um sinônimo retórico da sua instituição.
Assim, Z. é o Santuário e Oráculo Enciclopédico de todas as Oficinas Herméticas do Brasil e
Glória do Evangelho triunfante nas Américas. Ou ele é o Silogeu, ou Associação Geral
Científica e Religiosa. Outras vezes, em dependência do assunto que está sendo tratado e no
qual se mostra necessário estabelecer sua autoridade em um determinado assunto, eis que
surgem novos títulos. Assim, ele será Acadêmico de Letras quando se trata de explicar-nos
porque não adota a ortografia atual, apontando haver interesses escusos na forma da língua
portuguesa ser escrita. Nesta mesma direção, ele também pode se autorizar a admoestar os
transformadores da língua (reforma ortográfica), pois ele é “Acadêmico ocupante de 2
Cadeiras nas Academias do Rio de Janeiro e Professor Catedrático de várias Cadeiras”.
De uma maneira geral, a auto-intitulação se multiplica seguindo a sobreposição de
predicados. Muitas vezes, a entrada em associações de classe, bem como títulos que sem
grande dificuldade podem ser conseguidos, pode ser um método de afirmação que as palavras
que auto-referem Mestre Z. são estritamente verdadeiras, são efetivamente corretas no sentido
de referirem-se a uma situação ou a coisas que ocorreram. E efetivamente elas podem ser
corretas, mesmo que evidentemente não sejam o núcleo de referência mais importante.
Digamos que são formações mais secundárias, que visam reforçar o argumento narcísico que
se trata de um ser especial. Assim, Z. informa ser jornalista fundador da “Casa do Jornalista”-
Associação Brasileira de Imprensa; Membro da sociedade de Homens de Letras do Brasil
(Casa de Olavo Bilac); Academia de Letras da Guanabara; da Rede Nacional de
Radioamadores; Professor Catedrático de Teologia Dogmática; Professor Catedrático de
Teologia Canônica e Ascética; Professor Catedrático de Teogonia; Professor Catedrático de
Santos Ritos e Velhos Testamentos; Professor Catedrático e Consultor Enciclopédico de
Ciências Herméticas; Engenheiro Politécnico; Professor de Medicina Espiritualista; Reitor
das Academias Ecléticas Exo-Esotéricas da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal -
Aviador - Instrutor de vôo Cego e Aterrissagem Cega, etc. - Astrofísico - Atomista - Filólogo
- Crítico de Letras e Artes. Por vezes, a auto-intitulação se faz de forma indireta quando, por
exemplo, ele é chamado de Mestre Maior.
Um contraste se impôs entre a inflação de nomes e o quase desaparecimento do seu
nome inscrito na certidão de nascimento. Ele agora ele era Z. com todos os títulos, e não só o
fulano nascido em um lugarejo no norte do país. Já tínhamos em mente o quanto nome
próprio é um símbolo de palavra viva articulada diretamente com o Complexo de Édipo.99 Z.
naufraga seu nome próprio no enxame de novos títulos e do seu nome oficial mais adequado
99
Francisco Martins; O Nome Próprio, Brasília, Edunb, 1991.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 82

com o seu Ideal do Eu. Ele inflaciona. E fica sozinho. Longe de nós querermos tratá-lo. Ele é
que trata de milhares de pessoas, que tem uma posição de certeza que estamos muito longe de
sustentar como psicanalistas. Vemos este sintoma de ser alguém muito especial como está
presente no Mestre. Tememos que ele chegasse à asserção máxima de demolir o Cogito ergo
sum, chegando à afirmação de Rimbaud do Eu é um outro. Z. nunca chegou a tanto, mas seu
nome próprio se viu encolhido dentro do mar de intitulações, pois que - como confessou-me
em um encontro posterior - “desde menino já era seu destino esse seu destino”.
Este Eu enorme, responsabilizado e proativo, insistimos, é bem diferente da
experiência algo sublimada daquele que nem pensa em si próprio, nem neste símbolo de si.
Como Mário Quintana proferiu, sem nada querer ensinar, como todo poeta maior faz,
poetizando e liquidando o orgulho com singeleza: “O eu nem nome tem. O meu nome, diz
ele, é João. E daí? É como se dissesse o meu nariz, os meus óculos, o meu par de sapatos.” 100
Foi com a impressão de uma responsabilidade de alta prepotência que saímos deste encontro
único, marcado pela simbólica inflacionada e que sem dúvidas, para os colegas da academia,
é sintoma simbólico de primeira água.
Voltamos à comunidade em 1980. Desmunimo-nos de qualquer proposição
investigatória oficial desta feita e não pedimos audiência a ninguém. Simplesmente
colocamo-nos em uma fila de mais ou menos cento e cinqüenta pessoas em frente ao Templo
principal para receber o mesmo tratamento da população que lá afluía. Ao lado do Templo,
estava um Hospital. E no meio do sol da tarde, coberto de suor, fizeram-nos caminhar para
uma sala ampla do Hospital, já que o Templo só teria atividades depois. E quem estava a
nossa espera no fundo da sala? Isso mesmo, Z. já sabia da nossa existência por lá,
aparentemente nada se passava de que ele não tivesse ciência, e chamou-nos com um gesto
discreto.
Desta vez deu-nos mais tempo e atenção. Antes, porém, uma colega psiquiatra foi
impedida de entrar no recinto da Igreja, pois não estava vestida adequadamente: ela não
estava de saias. Além do Mestre, fomos acompanhados atenciosamente por dois dos seus
discípulos, um dos quais vestido de balandrau branco e ungido, especialmente a face, em
óleo. Tinha olhar de Conde de Monte Cristo, parecendo estar em jejum há mais de dois dias,
posto que o hálito cetônico fazia-se presente. Vemos um dos quartos do Hospital, com mais
ou menos dez camas, mas somente com três pacientes mulheres ocupando leitos. Fomos para
uma sala menor e Z. nos dirigiu a palavra de forma direta, clara, como um comandante
militar que supõe que a tropa está reunida ali só para receber as ordens do dia:
___
Retornaram, e estão vendo a obra de caridade que fazemos. Sou também médico.
Espiritual e capaz de cirurgias espíritas. As pacientes que viram estão em recuperação. A mais
moreninha tinha uma leucemia. Mas está curada. Voltará para casa logo.

Olha-nos e faz uma pausa, como a pedir uma questão, coisa que faço de imediato:
___
Curou um câncer, uma leucemia?!
___
Está surpreso? Mas o mundo inteiro já sabe. Especialmente na Europa, na
Alemanha e França. Sou conhecido e convidado por várias entidades pelo método único de
obter a cura do câncer.
___
Como o Senhor consegue a cura do câncer?

Sempre respondendo de imediato faz-me uma pergunta que era uma introdução ao
seu método curativo:
___
O que limpa as coisas podres da natureza?

100
Mário Quintana; “O Inominável” in A Vaca e o Hipogrifo, Porto Alegre, Círculo do Livro, 1977, p.115.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 83

Ao ver que não sabíamos completou:


___
As aves de carniça, não é? Eis o princípio, geral, mas precisei de muito mais
trabalho.
___
Como assim? Não compreendi completamente.
___
Fácil. O câncer é a carniça do corpo. É a degeneração de células que ganham das
células boas. Como é no corpo, é o sangue que pode depurar as células ruins. Só um sangue
suficientemente forte limparia esta porcaria degenerada. Um sangue daquilo que limpa a
natureza. Assim, retiro sangue de urubu: separando o soro do mesmo e depois injetando
pequenas doses, ocorrerá naturalmente a cura.

Ficamos desconcertados. Mas Z, não. Esclareceu que curava também varizes.


___
Com peróxido de oxigênio, diz algo irônico, com pequenas infiltrações nas
varizes. Mas tudo isso só funciona graças à energia espiritual...

Não entremos em detalhe acerca da cura das varizes e de ter tripudiado conosco
acerca dos nossos conhecimentos de Química: afinal, tratava-se da água oxigenada (H 2O2).
Vamos nos ater mais à construção teórica de seu método de cura definitiva do câncer.
Pensamos que ele produz generalizações sem demonstração. Ele segue a chamada Lei de Von
Domarus, um dos primeiros a mostrar que o pensar psicótico tem suas leis próprias, diferentes
da lógica formal dos filósofos101. Essa lei reza que o psicótico delirante encontra identidade
de sujeitos quando encontra identidade de predicados. Pensamos, então, não ser um absurdo
fixarmo-nos na sua fala em sua dimensão semântica - e que colocamos na forma de
silogismo102:
O câncer é a carniça do corpo.
As aves carniceiras limpam a natureza (o corpo).
As aves carniceiras limpam o câncer.

O sangue limpa o corpo.


O sangue das aves de carniça limpa a natureza.
O sangue das aves de carniça limpa o câncer.

Podemos detectar asserções metafóricas em cada um dos agrupamentos silogísticos


apontados. Claro que a metáfora não é aqui tomada como uma metáfora. Ela sofre um
rebaixamento para a literalidade em todos os componentes de cada um dos itens silogísticos:
“o câncer é a carniça do corpo” é efetivamente tomado como acontecendo, e não como uma
figura de linguagem. Igualmente, para os seus seguidores todas essas potenciais metáforas são
descrições factuais. Mais ainda, analisar a metáfora tão somente não explicaria o delírio. A
metáfora é analisada em nível de uma frase. Um delírio sistematizado têm inúmeras frases
interarticuladas. O delírio sistematizado é sempre organizado em longas e detalhadas
narrativas. São necessárias análises que o reconheçam como um texto. No caso, um texto
mítico. Com efeito, um delírio como o do Sr. Z. é uma seqüência de resolução de problemas
fundamentais de toda a humanidade, senão da pequena comunidade para quem a narrativa é
dirigida. Exempli gratia, trata-se de um grande mito fundador de alguém capaz de produzir a
cura de doenças gravíssimas. Ele se encaixa na megalomania necessária para a expansão

101
Estudamos este e outros trabalhos, em especial a partir das proposições de Lacan em tese de Mestrado em
Psicologia: Francisco Martins, Linguagem e Esquizofrenia, Brasília, Departamento de Psicologia da
Universidade de Brasília, tese inédita, 1982.
102
E. Von Domarus; “Las Leys Específicas de la Lógica em la Esquizofrenia” in j. S. Kasanin, Lenguagen y
Pensamiento en la Esquizofrenia, Buenos Aires, Paidós, 1958, pp. 127-138.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 84

inflacionária delirante. Então as articulações têm o estatuto de um mito para todos aqueles que
o seguem e acreditam piamente.
O mito delirante é coadunado com o entendimento que podemos derivar da
enunciação. Quem profere as asserções é o mesmo que será reconhecido como o sacerdote
máximo, confundido como o médico de todos os médicos, o homem especial, o Ungido.
Cumpre-se assim a profecia auto-anunciada pelo maior receptor da narrativa mítica. O “Eu-
enunciador” é o próprio executor heróico da cura. Esse “Eu-enunciador” é que detêm o
núcleo expansivo do delírio – e que consiste em uma adição de predicados cada vez mais
interarticulados, autoreferentes e grandiloquentes. Como era uma situação de delírio bem
sucedido, no qual o delirante consegue adeptos e sua produção de sentido encontra respaldo
entre os vivos, a potência do ato ilocucionário alcança sua performance máxima.
O mito tem similaridade com o delírio. Tanto o mito quanto o delírio compartilham
a qualidade de tratar das origens, do registro fundador e primeiro, das explicações que
ninguém tem para o universo, a vida, a diferença de sexo e assim por diante; apresentam
narrativa na qual são solucionados problemas fundamentais; ambas as narrativas são
compostas por metáforas que as conduzem através de cenários e personagens diferentes;
heróis emergem e se apresentam em momentos decisivos de transformação das diversas
situações da narrativa; tanto o delírio quanto a narrativa não são submetidos a provas
verificacionais, posto que grande parte das suas asserções não são constatáveis: seria um
ridículo verificar se Eva veio da costela de Adão através de uma prova genética; finalmente,
tem-se fé ou não.
Seria uma grosseria não apontarmos que o delírio e o mito podem vir a ser também
muito diferentes. Assim, o delírio raramente é compartilhado por toda uma comunidade.
Estudar quando esse é compartilhado é importante, pois pode vir a ser hipoteticamente a base
para um mito. Via de regra, porém, é o delirante que toma mitos em nome próprio e os refaz
ao ritmo do seu psiquismo. Mito não tem dono. Delírio tem. O delírio não é atemporal,
apessoal e fora do espaço do “Eu-enunciador” como em geral é o mito. É o mito que se situa
no tempo fora do tempo (“Era uma vez”, Once upon a time), sem autoria. Pertence
geralmente à produção chamada de Tradição oral de um povo, que permite a este se
identificar e encontrar suas origens, ainda que muitas vezes possa ser uma Quimera. Em
geral, o mito não situa os referentes espaciais: alhures, terra distante ou elisão se fazem
presentes. O delírio prima por se articular em torno da existência daquele “Eu-enunciador”
delirante. Mais que um simbolismo, vemos o aparecimento de toda uma narrativa que se torna
o coração da existência daquele homem.
O delírio merece estudos articulados com a dimensão mítica, mas também como
sintoma simbólico psicótico. Com Freud, propomos estar no início temporal e no fundamento
lógico da criação de um delírio verdadeiro o sujeito tomar uma representação-palavra como
representação-coisa. O delírio é o resultado de um processo reconstrutivo que se situa no
prolongamento do que Freud chamou de “tentativa de restituição ou cura” (op. cit.). Isto é,
vemos este sintoma como um esforço de resolver questões cruciais para o sujeito. Ele não é
uma evidência de dano ou de demência. É uma evidência do narcisismo e da luta para dar
sentido e reconstruir o mundo. Este processo de reconstrução constitui-se, então, sempre
como um segundo momento lógico. Na sua posição de responsabilidade e de permanente
auto-intitulação, o argumento silogístico formador do delírio curativo do câncer vem a
calhar. Se a proposição não é uma contribuição efetiva para a humanidade, parece-nos ser, no
entanto, uma efetiva contribuição para o estudo do pensar delirante.
Uma das conseqüências imediatas de tomar uma determinada parte do objeto, em
específico a dimensão representação-palavra, como a coisa é a ruptura das operações de
referenciação. As palavras passam a ser coisas, modificando a presença do ser-no-mundo. A
ruptura desta operação gera algo de extremamente grave na economia psíquica do sujeito: os
fenômenos tipo automatismo mental. Freqüentemente, o paciente fala de um período
preliminar pré-delirante, de incertezas e de intensa angústia. A este momento pré-delirante (o
chamado trema de Conrad) segue, em geral de forma repentina, outras vezes
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 85

progressivamente, uma espécie de clarificação, de revelação radical. O delírio corresponde


justamente a este segundo momento, que pode ser apreendido nas falas de um homem bem
sucedido, muito longe de ser levado para um asilo, como o Mestre Z.
De um ponto de vista psiquiátrico, diagnóstico, é importante fazer a distinção entre
delírio verdadeiro e idéia deliróide ou pseudodelírio. Além dos critérios de evolução de cada
caso, julgamos essencial apontar a necessária existência de sintomas de automatismo mental
nas psicoses (diferentemente das produções deliróides), tal como alucinações auditivas,
solilóquios, risos imotivados que se impõem ao paciente. Especificamente, fenômenos que o
sujeito não experimenta como sendo dele, mas que se lhe são impostos - logo que tudo passa
a significar, o mundo começa a fornecer indicadores que revelam algo inusitado. Estamos,
nesta situação, no momento de constituição do delírio.
Por isso, não é demasiado voltar a uma outra observação clínica, onde pudemos
presenciar o momento formador de um delírio primário. Veremos existir, neste momento,
uma íntima correlação com a tese que a palavra é tratada como coisa, para em seguida
ocorrer o delírio propriamente dito, enquanto construção.
Francisco A. tinha 19 anos quando o entrevistei pela primeira vez. Queixava-se de
sensações vagas de mal estar, de que “algo não ia bem no mundo”, “uma espécie de
desmantelo geral”, sem conseguir dar maiores precisões. Estava em uma época
particularmente difícil, pois tinha que encontrar um emprego. Sentia-se um tanto quanto
pressionado a ajudar financeiramente sua família, uma vez que seu pai havia falecido há dois
anos. Para aumentar as suas dificuldades, tinha tomado conhecimento da gravidez de sua
irmã caçula, de quem muito gostava. Além destas situações bastante conflituosas, parecia
alguém acabrunhado, ensimesmado. Quando reencontrei-o, algum tempo depois, disse-me
que toda aquela angústia e sofrimento haviam terminado. Falou-me então que um
determinado dia foi a um cinema de subúrbio, procurando abrigo para poder pensar nos
problemas, quando lhe ocorreu algo espantoso: “Quando vi aquela luz, a luz dada pelo
lanterninha, tive certeza que aquilo era a causa da gravidez da minha irmã”. Com efeito,
Francisco criou um caso com o lanterninha da sessão de cinema, terminando por agredi-lo. A
polícia interveio e, depois de interrogado, foi levado para um hospital psiquiátrico. Durante
sua internação ficou patente toda uma série de idéias em que se dizia o príncipe que faria a
redenção do Brasil. Além deste delírio grandioso, podiam ser constatados fenômenos de
imposição de pensamentos e percepções delirantes freqüentes.
Entre a concepção fenomenológica de delírio primário (primäre Wahn), realizado
principalmente através do que Jaspers103 chamou de percepções delirantes
(Wahnwahrnehmungen), e a tese freudiana que o psicótico toma a palavra como coisa existe
boa afinidade. Refletem possivelmente pontos de vista diferentes acerca de um mesmo
problema. A percepção delirante valoriza o objeto apreendido, ou seja, qualifica o fenômeno
enquanto um perceptum, algo já pertencente ao pretérito passado. Este perceptum é passível
agora de estudos psicológicos e lógicos, onde serão evidenciadas as características clássicas
dos delírios primários: impenetrabilidade à análise, incompreensibilidade psicológica e
incorrigibilidade.
Já a perspectiva psicanalítica qualifica a produção. Valoriza o fenômeno enquanto
percipiens, enquanto ato que se realiza no presente do indicativo. Na última observação
clínica, fica transparente que os termos utilizados por nosso paciente são tomados
principalmente enquanto significantes. ‘Dar à luz’, por exemplo, é tomado ao pé da letra,
assegurando para o paciente que o lanterninha era o sujeito tão procurado, o usurpador da sua
irmã, aquele que a havia engravidado. Para o nosso paciente trata-se de um fato, e não de
algo passível de demonstração. É algo inusitado, impossível de ser analisado. Esta
experiência assegura também a incompreensibilidade e a impossibilidade de corrigir a
experiência. No entanto, podemos tomar o caminho de uma explicação. Tomar o caminho da

103
Karl Jaspers; Psicopatologia Geral - Vol. I e II tradução de Samuel Aarão Reis, Rio de Janeiro, Livraria Atheneu,
1973.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 86

proposição diretora da formação do sintoma simbólico. Na apreensão da luz, enquanto ato


perceptivo de um determinado objeto, eis que a porção verbal (dar à luz) se tornou
prevalente em ato. Em outros termos, concebemos a percepção como estando plenamente
implicada com a consciência simbólica e a linguagem.
Uma vez desencadeado o processo tipicamente psicótico, surge a possibilidade de
delírio. A escolha do tipo de psicose fica em íntima dependência deste mecanismo disruptor
da constituição do Eu enquanto evento simbólico essencial. Na esquizofrenia, a disrupção
implica perda de referência originária, com demolição dos sentidos e dos sintagmas
predicativos que formam a identidade. Na paranóia, pode ser constatado que o Eu se
preserva. Mas, esta aparente preservação egóica é relativa, pois o Eu passa a inflar-se, a se
inflacionar através da adoção dos predicados mais grandiosos. Certamente, a primeira
infância, em especial o Édipo precoce e sua perlaboração constituidora do Eu e do Supereu,
são elementos essenciais para a formação disposicional facilitadora da irrupção deste tipo de
psicose.
A partir deste entendimento, o delírio é uma tentativa de solução de um mundo que
está entrando em catástrofe. Dominado por afetos de terror, o paranóico reage não somente
intelectualmente, mas afetivamente, reconstruindo através do delírio respostas para
experiências e questões impossíveis, posto que dolorosas. Para exprimir de maneira mais
precisa, seria demasiado dizer que na esquizofrenia existe somente demolição sígnica e na
paranóia somente construção. Na verdade, ocorre sempre um duplo movimento que
corresponde ao investimento objetal e à retirada do investimento. A paranóia representa uma
tentativa de restituição via a produção de um sentido novo, constituidor de um saber que
busca recobrir questões cruciais. A riqueza das produções lingüísticas esquizofrênicas mostra
um outro caminho, solução esta que implica em um ataque ao sentido, às palavras enquanto
signos. Por isto julgamos que a observação de Freud é muito arguta, quando explicita existir
nas psicoses um processo de retrodesconstrução (ruckgebildet) dos investimentos objetais
sublimatórios. Ou seja, o sujeito vai desconstruindo os investimentos objetais sublimatórios
do passado, ao mesmo tempo que estes são substituídos, via nova construção, pelas
produções narcísicas.
Caso visemos elaborar de onde e como surgem os diversos tipos de delírios,
chegaremos à conclusão que eles estão em íntima relação com fantasias do sujeito e o modo
como estas são resolvidas. Neste último aspecto, o mecanismo de projeção é extremamente
importante, merecendo ser interpretado à luz das proposições acerca da formação dos
sintomas psicóticos. Para tanto é essencial retomarmos a proposição de Freud acerca da
produção dos principais tipos de delírios. Isto nos propiciará propor a existência de pelo
menos dois tipos de projeção. Uma do tipo psicótica, podendo ser também chamada de
forclusão. À outra, chamaremos de projeção, pura e simplesmente. Para tanto, tentemos
explicitar a concepção de Freud.
Freud não propõe o estudo do delírio de um ponto de vista temático. Caso assim
fizesse, realizaria novamente a listagem, quase infinita, de operações de significação e que
variam de pessoa a pessoa e de cultura a cultura, formando uma infinidade de temas e, por
conseqüência, os diversos tipos de delírio: de invenção, eróticos, de perseguição, de
influência, niilistas, de grandeza... Diferentemente, ele realiza análise de um ponto de vista
lógico, quiçá gramatical. Propõe analisar os delírios a partir de uma frase, resumidora da
fantasia. Frase essa impregnada de narcisismo. Trata-se da frase:

“Amar um homem” (Den Mann zu leben).

O verbo encontra-se no infinitivo. Não existe, portanto, introdução do sujeito na


frase originária. Só estão presentes o verbo e seu objeto direto. A falta de sujeito da frase
toma o sentido da ausência de uma auto-representação de si mesmo e do mundo. A partir da
contradição do verbo e do objeto, e com a articulação com o sujeito, Freud propõe a
formação do delírio de perseguição, de ciúmes, erotomaníaco e a megalomania. Não ficamos,
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 87

então, a analisar um número sem fim de temas. Somos enviados não mais à temática, mas à
maquinaria de enunciação inconsciente formadora de todo e qualquer delírio.
Assim a frase “Den Mann zu leben” é ponto de partida da mesma forma que o auto-
erotismo. Se a frase sofrer transformações, isso será por conta das circunvoluções defensivas
do sujeito, e antes que isso ocorra impõe-se a constituição de um “Eu” onde o narcisismo seja
a condição lógica necessária à fundação. Antes da colocação em cena do sujeito não existem
defesas - estas se instalam sobretudo para salvaguardar o sujeito da seqüência de
transformações dos três termos principais da frase. É assim que Freud explica os diferentes
tipos de delírios:

“Poderia-se crer que uma proposição composta de três termos tal como ‘eu o amo‘
(‘Ich liebe ihn’) só pudesse ser contradita (wider spricht) por três maneiras
diferentes. O delírio de ciúmes contradiz o sujeito, o delírio de perseguição, o
verbo, e a erotomania, o objeto”.104

Ele reserva uma quarta possibilidade de contradizer a proposição (noch eine vierte
Art des Widerspruches) para o delírio de grandeza: a megalomania (grössenwahn), que
consiste em realizar a rejeição geral (Gesamtablehnung) da proposição completa:

“não amo absolutamente nada e ninguém (Ich liebe uberhaupt nicht und niemand)
- e visto que, afinal de contas, a libido tem de ir para algum lugar, essa proposição
parece o equivalente psicológico da proposição seguinte: ‘Eu só amo a mim
mesmo’ (‘Ich liebe nur mich’) 105.

Este quarto tipo de contradição parece-nos a mais radical opção, posto que questiona
as próprias condições de fundação da fantasia. Não é, portanto, à toa que Freud relaciona-a
aos modelos prototípicos das enfermidades narcísicas: a paranóia e, especialmente, a
esquizofrenia:

“ela [a evolução da dementia praecox] é, em geral, menos favorável do que aquela


da paranóia; a vitória não fica, como no caso da última afecção, com a
reconstrução mas com o recalque. A regressão não vai somente até o narcisismo,
que se manifesta na megalomania, mas até o abandono completo do amor objetal
(volle Auflassung der objekliebe) e retorna ao auto-erotismo infantil. A fixação
predisponente deve, em seguida se encontrar mais ainda atrás (also weiter
zurückliegen) do que na paranóia, e estar situada no início do desenvolvimento
(Entwicklung) que vai (enthaltensein) do auto-erotismo ao amor objetal”106.

Da mesma maneira que o narcisismo na sua relação com o auto-erotismo, a


megalomania é primária como condição lógica e secundária na história psicogenética e
sintomática do indivíduo. No capítulo I do caso Schreber esta asserção é rigorosamente
estabelecida: existe anterioridade lógica da megalomania 107 em relação aos outros tipos de
delírio; existe também a anterioridade histórica dos outros tipos de delírio sobre a
megalomania.
O registro cronológico e o registro narcísico merecem ser contemplados sempre na
análise dos delírios. Este duplo registro impõe ser levado em consideração, principalmente
quando se pretende elucidar as relações da megalomania com o narcisismo. Ora, Freud - no
estudo da fantasia de Schreber - lembra que a rejeição completa (die gesamtablehnung) da
proposição inteira “Ich liebe überhaupt nicht und niemand” com seu equivalente psicológico
“Ich liebe nur mich” é a forma explicativa do delírio de grandeza. Esta rejeição é
acompanhada de índices muito claros sobre a questão do estatuto da negatividade na psicose,
104
S. Freud; “Notas psicanalíticas...” (1911) (O caso Schreber), E.S.B., XII, p. 88; tr. fr., p. 130; pp. 64-65; G.W., VIII, p.
301.
105
Ibid.; E.S.B., XII, p. 80; tr. fr., p. 130; S.E., XII, p. 65; G.W., VII, p. 301.
106
Ibid.; E.S.B., XII, p. 102; tr. fr., p. 320; S.E., XII, p. 77; G.W., VIII, p. 314.
107
Ibid.; E.S.B., XII, p. 97; tradução francesa, pp. 316-317; S.E., XII, pp. 72-73; G.W., VIII, p. 310.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 88

posto que a recusa implica uma separação do sujeito daquilo que ele produz (enuncia). Em
outras palavras, compreendemos esta rejeição (die Ablehnung) no sentido de uma indistinção
entre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. Há neste sentido uma ruptura desta
articulação fundamental da linguagem. A recusa em conjunto implica uma quase eliminação
do sujeito da enunciação, que não é mais ligada ao enunciado. Esta indistinção foi elaborada
sobretudo por autores psicanalíticos diversos que nomeiam o fenômeno dentro de cada
perspectiva específica:
• Tausk 108: reinterpretando como “perda do limite do eu”.
• Federn 109: retomando no sentido da terapêutica das
psicoses a necessidade do “reforçamento das defesas do eu”.
• Melanie Klein 110: quando mostra a dialética entre
introjeção-projeção e a diferença entre o bom objeto e seu oposto.
• E Lacan, através do conceito de forclusion e sua teoria do
estágio do espelho.

A questão de fundo elaborada por estes autores repousa no estudo do conceito de


“identificação egóica”, em conexão com o conceito de narcisismo primário. Freud postula a
distinção entre interno e externo como condição para que o indivíduo comece a operar como
sujeito separado da mãe também. Sua formulação pode ser correlacionada a estas teorias. Em
Freud, a dualidade radical entre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação poderia ser
indicada em diversos momentos de sua obra, seja nos sonhos, nos fenômenos do ‘duplo’
(sósia, irmãos corsos, por exemplo) e, principalmente, nos fenômenos de estranheza
inquietante (Das Unheimlich).
Assim, a frase “Amar um homem” implica em questões relacionadas à formação do
‘eu’, e por isto mesmo Freud utiliza a contradição completa da proposição para explicar a
oposição do esquizofrênico com relação à fantasia.
As coisas se passam bem diferentemente nos outros três tipos de contradição. A
absorção do sujeito do enunciado pelo sujeito da enunciação é menos evidente e não é uma
condição necessária para tanto. Isto é, os três termos que são contraditados não implicam
necessariamente o ‘eu’ (‘moi’); ao contrário, na perseguição o ‘eu’ está bem colocado a tal
ponto que enuncia existir só uma verdade: a dele. Isto eqüivale a dizer que neste caso o outro
ocupa posição secundária ou inexistente.
O primeiro tempo lógico da contradição só transforma no contrário o verbo:

“Eu não o amo - eu o odeio (Ich liebe ihn nicht - ich hasse ihn ja).

No caso da erotomania a inversão é do objeto:

“Eu não o amo; eu a amo; (Ich liebe nich ihn - ich liebe ja sie).

No delírio de ciúmes, é a inversão do sujeito do enunciado que ocupa o primeiro


plano, sendo acompanhado desde então pela noção da diferença entre os sexos.

108
Victor Tausk; “De la genèse de ‘l’appareil à influencer’ au cours de la schizophrénie” (1919) in Oeuvres
Psychanalitiques, Paris, Payot, 1975, pp. 177-217.
109
Paul Federn; La Psychologie du Moi et les Psychoses, Paris, P.U.F., 1975.
110
Por exemplo: “Diria eu que o paranóico introjetou também um objeto real e total, mas não conseguiu chegar a uma
identificação completa com ele, ou, se a tanto chegou, não foi capaz de mantê-la. Mencionarei umas quantas razões
responsáveis por esse fracasso: a ansiedade de perseguição é grande demais; existem suspeitas e ansiedades de natureza
fantástica que dificultam a completa e estável introjeção de um objeto bom e real. Havendo sido introjetado como tal, há
pouca possibilidade para conservá-lo como objeto bom, uma vez que as dúvidas e suspeitas de todo gênero farão com que
o objeto amado se transforme logo em perseguidor. Assim, a sua relação com os objetos totais e com o mundo real, está
ainda influenciada pela sua primeira relação com os objetos parciais interiorizados e com fezes como perseguidores,;
“uma contribuição à psicogênese dos estados maníacos depressivos” (1934) in Contribuições à Psicanálise, São Paulo,
Editora Mestre Jou, 1970.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 89

a - para o homem: “Eu não amo este homem - (é) ela que o ama (Nicht
ich liebe den Mann - sie liebe inh ja)”.
b - para a mulher: “Eu não amo as mulheres - portanto (é) ele que as ama
(Nicht ich liebe die frauen-sondern er liebt sie)”.

Este último tipo de delírio pode nos introduzir naquilo que chamamos o segundo
tempo de transformação da fantasia, a projeção, notando que o primeiro tempo consistia na
contradição simples de um dos termos da frase. Esta contradição nada mais é que a reversão
de um termo a seu contrário. Já a projeção, no caso específico do delírio de ciúmes - e
também da megalomania, não está presente “porque a deformação projetiva acha-se
necessariamente ausente neste caso, visto que a mudança da qualidade do sujeito que ama
(des liebenden subjekts) é suficiente para projetar (herausgeworfen) o processo inteiro para
fora do eu”111. A projeção, tal como ela se apresenta nos enunciados transformados pela
contradição, pode ser compreendida como uma maneira de liberar o sujeito de assumir uma
afirmação que lhe diz respeito. Ou seja, o essencial é que ele não apareça enquanto sujeito do
enunciado: “não sou eu - são os outros...”. Escutamos volta e meia este tipo de manobra que
aparentemente transforma o sujeito em algo mais belo do que ele é, e que o poupa de
melindrar mais ainda o seu narcisismo ferido.
O quadro sinóptico 10 mostra que, precisamente na projeção, o sujeito do enunciado
está protegido. Ele mostra também a ausência de projeção nos casos de delírio de ciúme e de
grandeza. Pensamos que a partir desta visão de conjunto é possível colocar a discussão acerca
da projeção sob um novo plano de análise, qual seja, o da abordagem gramatical. Conceber a
projeção pura e simplesmente segundo a idéia de uma “expulsão de dentro para fora” rasura a
distinção entre o sujeito da enunciação e do enunciado, assimilando-a a idéia que o pequeno
bebê elabora seu universo graças somente à sua fantasia introjetada e projetada. Ora, é
inquestionável a existência de um real anterior, onde os “outros” estão presentes desde o
início. Conforme pode ser comparado pela leitura do esquema, vemos que a projeção
consiste fundamentalmente na exclusão do sujeito do primeiro plano de interlocução. A idéia
central do conceito de projeção consiste em guardar o conteúdo de uma idéia e ao mesmo
tempo mudar a referência ao sujeito que enuncia.
Pode-se já prever que este conceito não seria só aplicado pelo criador da psicanálise
no que diz respeito à psicose paranóica. O conceito retorna tranqüilamente, por exemplo,
como uma estratégia da belle âme para se autopreservar de reprovações contra ela mesma.
Apontemos uma análise deste tipo no caso Dora:

“Quando surge, durante o tratamento psicanalítico, uma seqüência de idéias


corretamente bem fundadas e impecáveis, ocorre com o médico um instante de
embaraço do qual o paciente aproveita para colocar a questão: ‘tudo isto é muito
justo e real! Agora que lhe contei, em que quereria o senhor que mudasse?
Percebe-se logo que estas idéias, inatacáveis pela análise, foram utilizadas pelo
paciente para mascarar outras que queriam ser subtraídas da crítica e da
consciência. Uma série de reprovações contra as outras pessoas deixa supor uma
série de reprovações da mesma natureza dirigida contra si-mesmo (remorsos). Ë
suficiente de retornar cada uma destas reprovações contra a pessoa mesma daquele
que as enunciou. Esta maneira que tem os pacientes de se defender contra uma
auto-reprovação a um outro, é alguma coisa de incontestavelmente automática, ela
tem seu modelo nas réplicas (‘Retourkutschen’) das crianças que respondem sem
hesitação: ‘mentiroso! Você é isso mesmo!’, quando se lhes acusa de mentir. O
adulto, esforçando-se de devolver uma injúria, procuraria algum ponto real fraco
de seu adversário e não tentaria revidar continuamente a mesma reprovação. Esta
projeção sobre o outro da reprovação, sem mudança do conteúdo e, por seguinte,

111
S Freud; “Notas psicanalíticas.”(1911) (O caso Schreber); E.S.B., XII, p. 87; tr. fr., p. 309; S.E., XII, p. 64; G.W., VIII,
p. 301.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 90

sem adaptação à realidade, se manifesta na paranóia, como processo formador de


delírio.”112

Após este esclarecimento a respeito da projeção, torna-se evidente que outras


transformações são possíveis. Elas designam mecanismos de elaboração outros, que em geral
são conectadas com a projeção. Fazemos referência aqui en passant a propósito das
seqüências argumentacionais que são passíveis de elaboração posterior: racionalizações,
justificativas, desqualificações, etc. Diríamos que estes mecanismos têm importância menor,
visto serem prosseguimentos lógicos da projeção.

112
S Freud; “Fragmentos de uma análise de histeria” (1905) (O caso Dora), E.S.B., VII, p. 33; tr. fr., pp. 23-24; S.E., VII,
p. 35; V, p. 134.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 91

Quadro 10 - Sinopse para uma análise transformacional da fantasia de Schreber.

TEMPOS PRIMEIRO SEGUNDO


ORIGINÁRIOS TEMPO TEMPO
Prolonga-
mentos em
Contradição Projeção justificati-
vas,
racionaliza-
ções, etc.
Delírio de
perseguição
“Eu o odeio” “Ele me
Contradição do odeia....... assim, eu o
verbo odeio”.
ou

“ele me
persegue..... porque ele é
contra
mim”.
Delírio
erotomaníaco
“Eu a (uma “Ela me
Contradição do mulher) ama....... porque ela
objeto amo”. me
aprecia”.
“Eu (um
homem) o
amo”
“Amar um (Ich liebe ihn)
homem”
(Den Mann
zu lieben)
Delírio de
ciúmes
“Ela o ama”.
Contradição do
sujeito

Projeção
mais radical
(Verwerfung)
Delírio
megalomaníaco
“Eu amo
Contradição da nada e
proposição ninguém: eu
inteira só amo a mim
mesmo”
(Ich liebe
uberhaupt nicht
und niemand.;
Ich liebe nur
mich)

No entanto, nosso estudo permite esclarecer ainda dois mecanismos fundamentais


que estão em ação no estudo de caso deste psicótico famoso. Seriam a projeção mais radical
(forclusão, a abolição do interno que passa a ser experimentado como vindo do exterior) e o
termo rejeição (Die Ablehnung, traduzido para o inglês como Rejection e para o francês
como refus). Trata-se do mecanismo mais radical, visto que ele está em ação como
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 92

condicionador fundamental do estabelecimento da fantasia megalomaníaca. Observamos já a


ausência da ação da projeção no caso do delírio de ciúmes e no caso do delírio de grandeza
(vide quadro sinóptico). Mas as razões da não existência de projeção nos dois casos são bem
diferentes - uma vez que no delírio de grandeza trata-se do apagamento da relação entre o
sujeito do enunciado e da enunciação, enquanto no delírio de ciúmes trata-se da contradição
pura e simples do sujeito do enunciado, o que torna desnecessária ou mesmo impossível a
ação da projeção. Neste caso do delírio de grandeza a rejeição (Die Ablehnung) também
coloca fora de ação a necessidade de utilização da projeção. É por isso mesmo que
entendemos a seguinte asserção de Freud - que não indica um termo específico para esta
defesa, mas relaciona-a com questão da projeção:

“`Não seria exato dizer que a sensação reprimida (unterdrückt) no interior foi
projetada para o exterior; reconhecemos, a bem dizer, que aquilo que foi abolido
(das Aufgehobene) do interior retorna ao exterior” 113.

É compreensível, então, porque Freud relaciona este mecanismo à projeção. Mas,


como a promessa de Freud de realizar “o exame completo do processo de projeção, que
adiamos para outra ocasião”114, nunca pode ser cumprida, nos permitiremos indicar mais
alguns pontos a propósito desta:

“espécie de defesa bem mais enérgica, bem mais eficaz, consistindo no eu rejeitar
(verwift) a representação pulsional intolerável juntamente com o afeto e se
conduzir como se a representação intolerável jamais lhe tivesse chegado ao eu”115.

Caso prossigamos a investigação nos textos psicanalíticos, chegaremos à conclusão


que o mecanismo de repúdio, do ponto de vista terminológico, remete a outros termos
equivalentes. Nomeamos especialmente os seguintes: ‘Aufheben’ (suprimir, abolir),
‘Verleugnen’ (recusar, renegar), assim como ‘verwefen’ e seus sucedâneos (Verwerfung),
retomado por Lacan como o mecanismo específico na psicose: a forclusão. Muito além de
discussões a propósito do termo adequado ou da constatação do emprego multiforme de
termos feito por Freud, a restauração da diferença entre os dois planos discursivos é o fato
fundamental que ocorre na psicose. A rejeição (‘die Ablehnung’) da proposição inteira toca
de uma maneira evidente e urgente o problema da origem e da entrada do sujeito no universo
simbólico. Rejeitando vir a ser um “eu” que leve em conta a clivagem fundamental do
universo de interlocução humana, ele só encontra duas soluções maiores com relação à
fantasia megalomaníaca. As duas possibilidades seriam a exclusão e a inclusão radical do
sujeito da enunciação da proposição ‘Eu só amo a mim’. No caso da inclusão radical do
enunciado na enunciação, observa-se um efeito de somação, tornando-se o eu enorme, sem
espaço para uma diferença mínima consigo mesmo e com os outros: a imagem clássica do
paranóico correspondente a esta situação. Já na exclusão radical ocorre uma falta de relação
com a enunciação. O sujeito da enunciação não toma seu lugar e os enunciados giram como
máquina louca submetida a uma pura ação significante desconectada do léxico e da
gramática. Neste último caso, a esquizofasia e o psitacismo são as expressões mais radicais e
gritantes encontráveis nas descrições psicopatológicas.
Dando-nos por satisfeitos com relação a estes dois principais mecanismos que
fornecem uma especificidade ao campo da psicose, é mister indicar um mecanismo mais
geral introduzido na fantasia de Schreber como os diversos modos de contradizer a fantasia.
Tentamos elucidar o parentesco entre a projeção e a rejeição e apontamos, com Freud, que
ambas fazem parte das formas de contradizer, somente que de uma maneira radical, no caso
da rejeição (forclusão). As contradições respectivas do verbo, do objeto e do sujeito

113
S. Freud; “Notas psicanalíticas...” (O caso Schreber) (1911); E.S.B., XII, p. 95; tr. fr., p 315; S.E., XII, p.71; G.W.,
VIII, p.308.
114
Ibid.
115
S. Freud; “As neuropsicoses de defesa” (1894), E.S.B., III, p. 71; tr. fr., p. 12; S.E., III, G.W., I , p.72.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 93

implicam na constituição de um sujeito que possa contradizer. Isto é condição de fundação e


especificidade do campo das psiconeuroses narcísicas.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 94

7.3. A catatonia

É facilmente perceptível que entendemos o campo das psicoses como comportando


possibilidades sintomáticas inumeráveis. Evidenciamos anteriormente a paranóia e a
esquizofrenia de um ponto de vista formador do sintoma, sem deixar de insistir na unidade
estrutural e de mecanismos do campo. O que chamamos de catatonia não é diferente das
outras duas formas no que diz respeito ao mecanismo, mas vem qualificar os representamen
de ordem da corporalidade e seus destinos. Por corporalidade entende-se principalmente os
signos com participação efetiva da experiência vivida no seu frescor originário.
Pode ser constatado que a sintomatologia de ordem psicótica que envolve o corpo
próprio está presente na paranóia, por mais ‘intelectual’ que seja esta, e mais ainda na
esquizofrenia. Voltamos a insistir na existência de contaminação dos diversos tipos de
signos, possibilitando encontrar na clínica tanto signos marcados pela linguagem quanto pela
experiência do corpo próprio e do sentir. É interessante notar que a sintomatologia
esquizofrênica (Dementia praecox) - e principalmente os sintomas catatônicos, tipo estupor,
posturas exóticas e bizarras, agitação, estereotipias e maneirismos - têm se tornado menos
freqüentes, com um aumento concomitante da sintomatologia delirante116. Em 1904,
Kraepelin117 já havia buscado investigar disparidades sintomatológicas das psicoses em
culturas diferentes. Estudou diversos casos de Dementia praecox em Java, descobrindo a
existência de pouca sintomatologia paranóide e menos alucinações auditivas
comparativamente aos europeus. A sintomatologia varia ao longo da história, da cultura e
mesmo da geografia. Por exemplo, as alucinações visuais e táteis são mais comuns entre
esquizofrênicos africanos, enquanto os delírios religiosos são mais freqüentes entre católicos
que entre budistas. Existe com relação às formas catatônicas uma tendência de relacioná-las
ao meio rural. No Brasil, a despeito de não conhecermos dados epidemiológicos, antes da
década de 30-40 encontravam-se muitos catatônicos. Nos anos posteriores começaram a
rarear, seja pelos tratamentos introduzidos ou seja pelo processo acelerado de urbanização.
Os estudos epidemiológicos e clínicos clássicos referidos são para nós indicadores
da variabilidade sintomatológica que ocorre no tempo e no espaço, fornecendo, no caso da
catatonia, indicação acerca da corporeidade. Estas variações parecem estar relacionadas à
crescente urbanização do mundo, tornando as formas paranóides predominantes e reduzindo
a sintomatologia tal como encontrada na catatonia. Este dado torna mais importante ainda os
casos clássicos de, por exemplo, estupor catatônico com flexibilidade cérea, excluídas,
evidentemente, as síndromes catatônicas de causalidade neurológica, tipo paralisia bulbar.
Obriga-nos também a ser mais atenciosos no estudo da organização do Eu em suas relações
com a corporeidade.
Deve-se diferenciar de imediato a corporeidade em pelo menos três dimensões , e
não somente em duas como a literatura faz de costume. Elas seriam respectivamente a
corporeidade enquanto:

1 - sensorialização do corpo;
2 - imaginarização do corpo;
3 - simbolização do corpo.

O termo catatonia nos parece justamente interessante por acentuar as dimensões de


primeiridade ou de sensorialização do corpo: χατα = para baixo e τονοζ = tensão. O para
baixo envia-nos às partes abaixo da cabeça, enquanto que a tensão, ou melhor, ainda o tônus,
para a sensibilidade própria e a interoceptiva ou cenestesia. Ela é, portanto anterior à
imagem, fornecendo sensações nem sempre precisas de bem-estar, mal-estar, enviando-nos,
116
Por exemplo: T. Lin; “A study of the incidence of mental disorder in chinese and other cultures” in Psychiatrie, 16,
1953, pp. 313-336; H. B. M. Murphy; E.Wiltkower; J. Fried; H. Ellenberg,; “A Cross-cultural survey of schizophrenic
symptomatology” in Int. J. Soc. Psychiat. , 9, 237, 1963.
117
Emil Kraepelin; Psychiatrie, Ein Lehrbuch fur Studierende und Ärzte, Vol. III, Leipzig, 1913.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 95

na terminologia de Peirce, ao representamen que se elabora principalmente como um


qualisigno.
No entanto, estes Representamenes se articulam com as produções imagéticas e
simbólicas, formando a consciência e especialmente o Eu. Estes Representamenes,
principalmente os que se associam na realização da atividade simbólica (terceiridade),
também podem ser tomados como coisa. À imagem de um corpo despedaçado (morcelé),
tornado quase patognomônico pelos psicanalistas e psicopatologistas para o diagnóstico da
esquizofrenia, pode ser acrescentada a esta dimensão pré-icônica. Diríamos que esta
dimensão é importante não somente por razões teóricas, mas principalmente pelo que nos
tem ensinado a clínica cotidiana. Vejamos como um caso de catatonia evidencia que a
sensorialização do corpo precede na experiência imediata a constituição da sua imagem e
simbolização.

Um rapaz de origem humilde e que nunca teve maiores oportunidades de estudo,


seja pela pobreza familiar, seja por fracassos na escola primária, veio para Brasília
a fim de procurar emprego. Veio de uma região erma da Amazônia, onde vivia
praticamente só com sua mãe. Este estado de isolamento com a mãe foi propiciado
por estadias muito prolongadas do pai no Rio de Janeiro e São Paulo. Residia em
uma casa isolada no meio da mata e costumava ficar dias sozinho. Dormia desde
pequeno com a mãe. Durante alguns momentos parecia mesmo ter um certo
envolvimento incestuoso. Em Brasília, conseguiu emprego como vigia e
completava seu orçamento realizando pequenas tarefas. Mantinha-se, porém,
sempre muito taciturno, isolado, arredio, ensimesmado. Gradualmente “foi ficando
cismado”, inquieto e preocupado com o interior do seu corpo. Sentia que o
estômago funcionava mal, que estava se transformando em uma coisa nova “tipo
uma sacola de palha, um surrão” ou num grande saco cego, onde as secreções e
“algumas comidas”, restos alimentares, se acumulavam sem dar vazão intestino
abaixo. Apertava a boca do estômago, deitava-se contra a quina de uma mesa após
cada refeição, pressionando o conteúdo “para baixo e para o lado direito até
colocar o resto de comida junto do fígado”. Como não tinha controle preciso do
que se passava no interior, começou a sentir que seu fígado estava sendo
contaminado pelos restos alimentares. O fígado ficava prejudicado e terminava por
provocar contaminação de outros órgãos do corpo. Os rituais se acentuaram e
passou a ter desconfiança de um amigo com quem trabalhava. Adquiriu certeza de
que o mesmo o estava envenenando. Interpelou-o acerca disso, terminando por
agredi-lo. Foi levado a um pronto-socorro, e um psiquiatra de plantão observou
fenômenos tipo bloqueio do pensamento e delírio. Este consistia em pensar que
certas pessoas, em especial o amigo, “estavam enchendo o seu estômago pela
comida e pelo pensamento, tipo uma transmissão de veneno”. Foi internado em um
hospital psiquiátrico, tendo sido tratado com neurolépticos. Logo que chegou no
hospital, costumava adotar uma conduta arredia, indiferente aos outros, ficando
parado, olhando fixo no horizonte e não reagindo. Além disso, passava horas
adotando posturas extravagantes. Nestes momentos, não se alimentava. Urinava e
defecava nas calças, merecendo cuidados especiais da enfermagem. Explicou
posteriormente, em forma de um segredo guardado a sete chaves, que era um dos
poucos meios de que dispunha para cessar os venenos contra ele enviados. Este
envio de venenos via uma espécie de telepatia compulsória era-lhe imposto e
visava controlar sua musculatura e determinar o que o corpo dele deveria fazer. Por
vezes não conseguia se mexer, pois o controle exercido sobre ele era muito maior
que a sua vontade. Passada estas crises, passava a deambular em demasia. Quando
recebeu alta passou a procurar em hospitais cirurgiões que pudessem extirpar seu
estômago. O último contato que tive com este paciente foi depois de uma longa
viagem que ele tinha empreendido. Encontrava-se bastante magro e alquebrado.
Parecia um vagabundo. Retornou a morar com a mãe, usando de forma esporádica
medicação fenotiazínica, terminando por não vir mais à Brasília.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 96

A exigüidade dos dados apresentados não nos impede de notar que os sintomas
catatônicos implicam uma técnica com relação às emanações representativas derivadas do
corpo próprio. Quando dizemos técnica, estamos acentuando o caráter simbólico da origem
da sintomatologia. O simbólico justamente é colocado em questão. Assim, para o nosso
paciente, as poses, posturas, rituais, amaneiramentos eram essenciais para que não ocorresse
uma catástrofe. Interessante notar que sua discordância com a imposição e controle de sua
vontade era pequena. Possivelmente isto facilitava a instalação da sintomatologia catatônica.
Evidencia também o quanto o Eu é sensorializado, infiltrado e dependente das pulsões e das
suas representações parciais. Estas experiências de sensorialização do Eu colocam algo de
muito cruel com relação ao corpo na esquizofrenia: a tentativa de reconstruí-lo custe o que
custar.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 97

7.4. As psicoses são doenças do Eu

O presente subtítulo reafirma a tese geral acerca da formação do sintoma psicótico


como estando intimamente ligado à terceiridade. Isto porque o Eu - seja sensorializado,
imaginado - para existir como tal e o conhecermos enquanto Ek-sistence necessita da
linguagem. É por intermédio da afetação do Eu, da modificação na ipséidade do sujeito que
se estabelecem as chamadas psiconeuroses narcísicas.
Trata-se então de uma perturbação que atinge de saída o narcisismo secundário de
forma não somente quantitativa, mas também de maneira qualitativa. Os objetos que passam
a ser investidos são outros. Pertencem a um mundo muito particular, constituídos através do
superinvestimento da porção representação-palavra pré-consciente. Modificado ou, melhor
ainda, alterado o objeto e seus investimentos, passa a ocorrer uma subversão paulatina e
inexorável de todo o sistema consciente, terminando por fazer restabelecer uma lógica de
investimento similar ao do mítico no narcisismo primário.
Estas modificações narcísicas devem ser entendidas nas suas relações com as
modificações radicais e estruturais do modo de comunicar ou de toda e qualquer semiologia
da comunicação. Com efeito, comunicar torna-se uma tarefa intangível, quase independente
dos desejos do sujeito. Ele está em um mundo objetal outro, diferente daquele mundo de
objetos que compartilhamos. É certo que podemos compartilhar algo deste mundo, mas
dependendo do grau de processo narcísico atingido, torna-se uma tarefa ingrata, quiçá
improvável. Por isso mesmo, torna-se muito importante investigar os modos de comunicação
não somente nos períodos de produção sintomatológica, mas antes destes, isto é,
principalmente dentro da família e na pequena infância. O narcisismo torna-se, então,
conceito essencial para o entendimento das psicoses, passando mesmo a caracterizá-la de um
ponto de vista sintomatológico e principalmente de um ponto de vista estrutural, juntamente
com a tese acerca da produção do sintoma simbólico.
A dupla especificidade - tomar palavras como coisas e narcisismo radical - é
elemento essencial no entendimento de toda e qualquer psicose. Permite inclusive realizar
uma melhor aproximação do campo do que chamamos aqui de timopatias, posto que nesta
última as alterações da constituição dos objetos e a dupla especificidade indicada não estão
presentes da mesma forma que nas psicoses propriamente ditas. Qualificando-se as psicoses
estruturalmente através da dupla especificidade referida as evidenciamos como estreitamente
relacionadas à atividade simbólica.
Já indicamos existirem variações dentro do campo psicótico. A despeito da unidade
de campo estrutural ocorre formação, soluções resolutivas e substitutivas que se relacionam
as outras psiconeuroses. Diríamos modos de circulação privilegiados de formação de
sintomas, mostrando que o sujeito circula e se constitui de maneira preferencial em um
determinado setor do campo psicopathológico. O caso Schreber é uma fonte ainda
importante, pois permite observar uma estrutura psicótica típica circular de uma existência
obsessionalizada para a irrupção de um quadro clínico que traz sintomas inicialmente
catatônicos (estupor alucinatório), em seguida delírios com fenômenos esquizofrênicos
(automatismos ou Denkzwange) e depois se “cura”, voltando a uma certa obsessionalização
que responde aos critérios de normalidade exigidos pelo seu meio. O quadro 11 vai um
pouco mais adiante neste raciocínio, procurando evidenciar um parentesco com os outros
elementos do campo psicopathológico. Deve ser salientado que as psicoses como doenças do
Eu, e sendo este essencialmente processual, tendem a ter um menor número de variações.
Elas parecem ser formas as mais rígidas e elaboradas dos processos que envolvem a
linguagem como elemento essencial. Daí o quadro 11 ser menos “rico” que aqueles
referentes às neuroses, como já vimos, e às timopatias, como ainda veremos. Ocorre com
relação à formação de sintomas simbólicos um menor número de variações diferentemente
do que acontece nos campos dominados pela segundidade e primeiridade.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 98

Quadro 11 - Relações entre as psicoses e os outros campos


sintomatológicos pathicos

2 3 1
secondness thirdness firstness

Obsessivações Paranóia Acelerações maníacas

Histericizações Esquizofrenia Alterações


esquizoafetivas

Automutilações e atuações Catatonia Agitações psicomotoras


sádicas

No entanto, deve ser salientado que as psicoses formam um campo estrutural


específico, justamente por rasurar a diferenciação Consciente-Inconsciente. Não foi,
portanto, gratuitamente que Freud diferenciava o campo psicopathológico em psiconeuroses
narcísicas e psiconeuroses transferenciais. Nesta diferenciação, a questão narcísica - e, por
derivação, o Eu - é fundamental. Ocorre que as modificações que ocorrem no Eu têm uma
tendência a se tornar parte permanente do mesmo. Elas tendem a se processualizar. As razões
deste fato ultrapassam as fronteiras da psicanálise, como por exemplo, a questão da
linguagem enquanto processo, a semantização dos processos de memória que o envolvem.
Do ponto de vista que exploramos aqui, fica claro que a causalidade psíquica é importante,
principalmente seu aspecto econômico. Lembrando o intenso prazer narcísico com relação a
determinados pensamentos, torna-se difícil fazer o sujeito viver como um comum dos
mortais. Isto é, para alguém que se sentiu Deus, por exemplo, como voltar a ser um simples
homem do dia-a-dia? Algo de ordem afetiva, da ordem do investimento (“Sou (fui) Deus,
como esquecer o óbvio?”) se estabelece contra os investimentos objetais e sublimatórios. A
luta entre estes dois aspectos pode definir o resultado final da psicose.
Compartilhamos largamente o dizer de Todorov118, que muito nos ajudou a
compreender os sintomas simbólicos na psicose quando sintetizou: “O discurso psicótico
fracassa em seu trabalho de evocação (...) da realidade, (...) em seu trabalho de referência.
Esse trabalho de referência pode assumir várias formas. (...) Primeiramente, o paciente pode
se refugiar no silêncio. Em segundo lugar, o processo de referência pode se realizar
normalmente, mas o mundo ao qual se refere não terá para nós, não-psicóticos, existência
real.(..) Em terceiro lugar (...): O sujeito fala mas não consegue construir qualquer mundo de
referência a partir de seu discurso. (...) No primeiro caso é a própria fala que é atacada; no
segundo, são as coisas de que e fala; no terceiro, a capacidade que as palavras têm de se
referirem às coisas. (...) São, pela ordem, a catatonia, a paranóia, e a esquizofrenia.”
Os sintomas psicóticos sempre são expressão de doença do Eu. Da doença mortal
narcísica humana. Expressão dos desesperos mais radicais, envolvendo a atividade simbólica
de forma extrema. Mesmo nas suas diferenciações, encontraremos a questão do Eu como
central. Isto é, o Eu simbólico inflado na paranóia, o Eu imaginado despedaçado na
esquizofrenia e o Eu sensorializado fragilizado na catatonia. De toda maneira, existe uma
interelação entre estes modos de ser, onde a atividade simbólica é a dimensão organizadora
das outras.
É triste ver a solução apoteótica em alguns sujeitos não tão impermeáveis como o
Senhor do Mundo mas, ao contrário, extremamente sensíveis a ponto de terem de realizar
transformações na linguagem, seja na mensagem seja no código. Pensamos, porém, que a

Tzvetan Todorov; “O Discurso Psicótico” in Os Gêneros do Discurso (1978), tradução de Elisa Kossovitch,
118

São Paulo, Martins Fontes, 1980, pp. 75-82.


Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 99

transformação simbólica aqui é movida por algo essencial: a preservação do corpo próprio.
As modificações superficiais de mensagens e as metamorfoses e criações novas de códigos
não devem nos enganar acerca da realidade dolorosa das psicoses. Como diz Gilles Deleuze,
119
não podemos pensar em psicose somente a partir de um jogo superficial de palavras como
o que fez Lewis Carrol em Alice no País das Maravilhas: “Humpty Dumpty”, etc. Aí se trata
de jogos de palavras. No caso de psicose, a linguagem tem uma conotação bem mais pesada e
profunda. Simplesmente não conseguimos achar graça quando percebemos a intensa dor que
faz o sujeito reconstruir com tanta habilidade novos códigos - ou quando as palavras se vêem
modificadas automaticamente. Só achamos graça quando estamos ainda na superfície,
raciocinando que são jogos de encantamento. Quando descemos às profundezas - e por
profundeza queremos dizer algo literal: na profundeza do corpo próprio experimentado -
cessamos de imediato de brincar e passamos a considerar um sujeito que trabalha o tempo
inteiro para não naufragar em um corpo experimentado como destruído ou em processo de
alteração.
Como clínico, penso nas palavras e nos escritos do Sr. Th. Ao ser-lhe apresentado,
notei que ele não utilizava os pronomes pessoais. Suas questões e respostas ficavam
truncadas. Somente depois de algum tempo, quando já tinha alguma proximidade comigo,
permitiu-se falar de modo menos telegráfico. Explicou-me que sua linguagem refletia um
cuidado com as pessoas de que gostava. Seu grande medo era envenenar as pessoas e a ele
mesmo quando através da utilização dos pronomes fizesse a mínima referência a quem quer
que fosse. Assim, como exemplo, dizia:
“É ‘Tractação’ mais além da empilogação tornando-se a prioridade (situação já
orgânica). Revisível a dependente portanto de interrupção orgânica isto é (propagação de
secreções) ao infectivismo o aceitar”.
Depois de um bom tempo, compreendi que os predicados - peço conferir o curto
exemplo anterior - eram repletos de violência contra o corpo próprio. Não era gratuito o seu
cuidado. A angústia e a linguagem feita de neologismos e de predicações sem sujeito na frase
tinham uma razão de ser. Pude constatar que principalmente seus escritos reuniam uma
espécie de nova teoria acerca do seu corpo próprio. Essa teoria era realizada “em uma espécie
de embriaguês interna” (sic). Ao falar disso suava bastante, ficava muito angustiado, diria
terrificado. Tinha medo que as palavras pudessem lhe fazer mal: “Sou o responsável desses
escritos. Os pronomes personalizam e as pessoas vão adquirir câncer”.
Na medida em que a série de neologismos apresentada acima pode ser decifrada, ao
custo de um grande sofrimento, ficou esclarecido o aparecimento de uma nova semântica.
Essa era estritamente ligada ao corpo próprio e principalmente às atividades de excreção.
Pude presenciar a chamada linguagem dos órgãos (Organsprache), onde cada atividade era
acompanhada de movimentos do corpo próprio. Assim:
“É = suficiência;
Tractação = cada vez um movimento em acordo com o corpo mesmo;
empilogação = impessoal que relata a pessoa mesma;
situação já orgânica = fezes, coco (haha em alemão);
Revisível a dependente = extrair as matérias orgânicas”.
Que diferença das piadas e brincadeiras chistosas! Que diferença do discurso
perverso e gozador! A diferença está no corpo próprio comprometido intimamente com a
linguagem. Cada verbo realiza um movimento. Mas não mais um movimento abstrato como a
linguagem propicia em geral. Agora os verbos fornecem o movimento concreto pulsional
vivido. Talvez por essa razão a clínica das psicoses nunca será igual a um puro jogo
intelectual, a uma charada, a uma adivinhação, a uma piada ou mesmo um trocadilho.

119
Gilles Deleuze; La logique du sens; Paris, Éditions de Minuit, 1969, p. 315.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 100

8. As timopatias

Quis a tradição psiquiátrica chamar de psicoses a mania e a melancolia. Com efeito,


os termos utilizados evidenciam nestes dois casos uma implicação de um distúrbio típico da
terceiridade com a primeiridade. Evidentemente que os clássicos reconheceram existir
diferenças imensas entre os quadros psicóticos tal como já apresentados e as ditas psicoses
afetivas, ou os distúrbios do humor, ou psicoses cíclicas. Pensamos que a distinção essencial
não deve se realizar no termo psicose, mas no qualificativo afetivo, humor, ciclicidade. É um
destes casos onde o adjetivo é a parte substantiva e essencial a ser estudada. O adjetivo diz
respeito àquilo que Peirce chamou de primeiridade e que impregna certos quadros clínicos
com o problema do sentir fundamental, anterior à existência do sujeito: um pré-sujeito. Essas
duas psicoses têm a qualidade de evidenciar a elaboração pela segundidade e terceiridade de
questões essenciais da primeiridade. Têm o defeito de mascarar a evidência encontrada na
clínica cotidiana e na experiência da maioria das pessoas: trata-se de distúrbios os mais
freqüentes, constituindo aquilo que o Prof. Jacques Schotte120 apontou como sendo a base
sobre que se constroem todos os outros distúrbios.
Foi justamente em função deste último ensinamento, e das repercussões teóricas e
clínicas relacionadas, que optamos pelo termo timopatias. Entende-se o termo no sentido
original de pathos como disposição afetiva fundamental, onde fica conotado o termo afetivo
como sendo essencial. A opção gera dificuldades com o vocabulário psiquiátrico clássico e
mais ainda com noções de cunho valorativo. Veremos, no entanto, que este grupamento deve
ser qualificado enquanto tal, reunindo muito dos problemas que a noção pejorativa de
timopatia comporta. A partir do ensinamento pathoanalítico de Jacques Schotte, e pensando-
se na articulação com Peirce, é possível começar o entendimento dos sintomas timopáticos a
partir da concepção geral seguinte:

SINTOMA TIMOPÁTICO = DOMÍNIO DA PRIMEIRIDADE 121,


mas produzindo diferenciações:

Melancolia, com participação da terceiridade


Mania, com participação da segundidade
Timopatia, timopatia típica (distúrbio da primeiridade)

A tese geral acerca do sintoma timopático nos levará necessariamente a qualificar a


dimensão pulsional. Isto é, o simbólico, por mais rebuscado e diferenciado que se apresente,
se mostrará afetado. Convém lembrar o dito encontrado na clínica que fala da insuficiência
das palavras para exprimir certos sofrimentos. Vemos então a palavra ser tomada em toda a
sua agrura, ou senão ser simplesmente tomada como um signo entre outros. No caso
primeiro, que corresponderá à melancolia, a dimensão da norma aportada pela linguagem é
levada ao seu extremo. No outro caso, veremos as manias e hipomanias que tendem a não
perceber o limite que a palavra traz consigo enquanto norma. É por essa razão que boa parte
dos sintomas timopáticos pode ser qualificada a partir da primeiridade, na qual a palavra é
reduzida ao sentir. Qualificando-se a palavra como o signo típico simbólico, pode ser

120
Jacques Schotte; “Comme dans la vie, en psychiatrie... Les pertubations de l’humeur comme troubles de base de
l’existence” (1982) in Szondi avec Freud, Bruxelles, De Boeck - Éditions Universitaires, 1990, pp. 173-213.
121
Certamente com Peirce deveríamos iniciar pela primeiridade, mas a opção foi começar pelas neuroses daí
termos seguido uma seqüência outra: segundidade, terceiridade e primeiridade. Para aprofudamento não vemos
outro meio que repetir uma sugestão já feita: Para uma introdução articulada com psicopatologia acreditamos
que a leitura do último capítulo do nosso livro Psicopathologia I – Prolegômenos, Belo Horizonte, Editora
PUCMinas, 2005 possa ser útil; o livreto de Lúcia Santaella, O que é Semiótica, Coleção Primeiros Passos,
São Paulo, Brasiliense, 2003 para uma introdução didática a semiótica; e para um estudo na origem C. S.
Peirce, C. S.; Collected Papers of Charles Sanders Peirce, Volumes I, II, III, 3a edição, Charles Hartshorst e
Paul Weiss (organizadores), Harvard, Harvard University Press, 1974.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 101

proposto que os sintomas timopáticos simbólicos são marcados pelo peso que a palavra
adquire na economia psíquica do sujeito.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 102

8.1. A melancolia

A melancolia é a doença típica do mundo ocidental. Do mundo onde a qualificação


dos fatos ligados à terceiridade enquanto saber e obediência estrita da norma são levados ao
seu extremo. A melancolia é reconhecida desde a Antigüidade (Corpus Hipocraticus) como a
bílis negra. A síndrome típica é descrita pela presença de uma tristeza irremediável,
acompanhada de intensa dor moral. Essa tristeza é acompanhada de modificações nas
sensações, no sentir fundamental, apoiando-se neste principalmente através de sensações
cenestésicas de parada de movimento. É uma tristeza vital onde o caráter de falta de fluência
no tempo e no espaço faz sua marca característica. Em todas as descrições clássicas
encontramos a presença da inibição da atividade geral do organismo. Esta inibição se vê
relacionada a alterações dos diversos ritmos biológicos essenciais - como sono-vigília, a
oscilação diária da temperatura, a oscilação hormonal, o ritmo circadiano, o ciclo atividade-
repouso, o ritmo apetite-saciedade.
A tendência fenomenológica mais refinada sublinha as alterações do ritmo do
acontecer vital, em especial a cinesis, como sendo essencial para o desenvolvimento da
sintomatologia depressiva clássica.122. É importante salientar, porém, que as tentativas de
separar um quadro estritamente endógeno daquele que é reativo se mostraram infrutíferas,
posto que nos ditos reativos podem ser encontrados muitos dos signos típicos da
endogeneidade. Descobriu-se nos anos mais recentes o quanto existe de produção
sintomatológica nas depressões, logo que as dimensões neuróticas e psicóticas se fazem
presentes. É como se a partir de um primeiro acontecimento se realizassem também
elaborações semióticas de segundidade e de terceiridade. A psicopatologia transcultural
contribuiu sobremaneira para percebermos que o essencial fundador está ligado à
primeiridade descrita por Peirce. Isto é, descobriu-se a inexistência de quadros de melancolia
típica do ocidente - qual seja a dor moral, a tristeza, as idéias suicidas, a autodesvalorização -
em grupos que não foram ainda aculturados. No entanto, as experiências de desvitalização,
de perda de movimento, de esgotamento, de intensa abulia se fazem presentes123. Esta
concepção tornou mais evidente a existência de inúmeros sintomas da ordem da primeiridade
no Ocidente, que simplesmente fazem desta a sintomatologia mais banal e difundida das
alterações pulsionais.
Não é, portanto, gratuito que Freud conceba a melancolia como uma psicose. Ela
está intimamente implicada com a linguagem, envolvendo também a experiência
representativa. Ela é, porém, mais próxima da psicose quanto mais os signos de terceiridade
se apresentem como elaboração da pulsão endógena. Os quadros mais graves que
presenciamos muitas vezes se apresentam na velhice. Ocorre, então, a possibilidade do
surgimento de uma experiência de dor raramente igualável que se concretiza em termos da
formação de signos clínicos conhecidos no seu conjunto como melancolia de involução.

Conheci o Sr. G. através de um contato mantido através de relações entre nossas


famílias ao longo da vida, de forma que posso estender o entendimento a antes, durante e
depois do surgimento de cada crise grave que foi acometido. Tão ou mais importantes que o
período dito de adoecimento psíquico são os períodos onde é dito que o sujeito está “normal”
ou gozando de boa saúde. Desde jovem era reconhecido no seu meio familiar como sendo
muito rígido. Desde quando se falava em G., sempre se lhe aludia como alguém moralmente
extremamente íntegro e exigente. Suas exigências por vezes transbordavam sua própria
pessoa, passando a castigar e criticar quem quer que infligisse a menor norma consensual.
Gostava de puxar a orelha das crianças por questões menores. Era conhecido também por sua
capacidade de fazer piadas e chistes com os políticos, e mesmo em situações cotidianas. Era
122
Hubertus Tellenbach; Melancolia (1974), tradução espanhola de A. Guera Miralles, Madrid, Editiones Morata, 1976.
123
Por exemplo, os estudos de H. Collomb e J. Zwingelstein, “Depressive states in an Afrikan community (Dakar)” First
Pan-African Conference, Abeokuta [Nigeria], 1962, pp. 227-234 citado e estudado também por Edmond Ortigues e Marie-
Cecile Ortigues, Oedipe Africain, Paris, Union Generale d’Éditions, 1973.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 103

um promotor do bom humor quando estava presente, e a conversa não resvalava para
questões, digamos, de ordem moral. Casou com uma Senhora conhecida por sua bondade e
alegria. Uma verdadeira mãe. Efigênia tornou-se paulatinamente o sustentáculo da vida
familiar. O filho único do casal dizia, acompanhado em uníssono por G.:
__
Ela é uma Santa, Imaculada.
Alguns, olhando do exterior aquela maravilha de pessoa, prodígio de
complementaridade na vida amorosa familiar, diziam com inveja que ela era “uma motorista
de fogão”, “uma escrava que não ia nem à esquina para chupar um picolé e respirar um
pouco a brisa mais amena de uma confeitaria ou de um bar”, diferente da atmosfera pesada
movida por uma rígida conduta exigida e conduzida naquela família. Um vizinho mais
estúpido chegou a fazer pilheria cantando para G. quando ele passava: “Amélia é que era a
mulher de verdaaaade, Amélia não tinha a menor vaidade...” O fato é que aqueles que viviam
no interior da família sabiam da beleza de relacionamento que Efigênia conseguia contra as
rabugices sabidas de G. Enfim até o vizinho parou de fazer chacota, constatando e invejando
G. ter alguém tão especial.
O filho morreu aos dez anos de idade. Muita dor e luto fechado, feito à moda antiga,
um ano vestidos de negro, acompanhado de rezas diárias para aliviar a perda. G. continuou a
trabalhar e Efigênia retomou devagar o prazer de viver, redobrando os cuidados com G. e
com o jardinzinho e quintal de árvores frutíferas que mantinha com esmero. Ao contrário do
nervoso marido - e a despeito de ter quebrado a bacia em uma queda, fato que a tornava
semi-inválida - ela era sempre agradável. Era a alegria de G., que cuidava da mesma com
extremo zelo e amor. Isto contrastava com o restante de seu comportamento: sempre muito
pessimista, passava o tempo a criticar o seu destino. Sua esposa conseguia mudar o assunto.
Aparentemente o desgosto encontrava algum consolo no trabalho que encontrou logo depois
da morte do filho. Passou a cuidar do chamado abrigo dos retirantes da seca. Muito nervoso e
irritadiço com os menores problemas, queixava-se quotidianamente das dificuldades com
relação à administração. Distribuía uma cumbuca de farinha para cada família.
Cuidadosamente, uma rede para cada retirante, um lençol para as crianças: tudo muito
regrado, gerenciando parcos recursos para gente em estado de extrema penúria e
desesperança. Tinha muito gosto por seu trabalho, a despeito do pequeno salário,
encontrando intensa satisfação em ajudar os pobres a seu modo duro e honesto. Em outros
termos, esse era G.: obsessivo, controlador e com críticas corrosivas. Depois de quase 30
anos de serviço e de acúmulo de uma poupança realizada em pequenas quantias ao longo
desse período, conseguiu comprar uma casa popular. A noite anterior à mudança tornou-se
posteriormente motivo de troça do próprio G., sorrindo do quanto seu nervosismo tinha sido
em vão. Tinha passado a noite preocupado como faria sair da sua antiga residência a mesa da
sala de jantar. Passou uma madrugada insone fazendo manobras hipotéticas com a mesa.
Pensou em destelhar a casa. Derrubar o portal. Serrar ao meio o móvel. Todas as soluções
eram inadequadas. Tudo ia dar errado!! Qual não foi a sua surpresa no dia seguinte ao ver os
trabalhadores resolverem a questão em dois minutos através de manipulação da mesa,
fazendo os pés da dita cuja passarem de lado pela porta estreita. Fez piada então da sua
ressaca de insônia dizendo que estava com dor de cabeça, pois “passara a noite com a mesa
da sala de jantar em cima da cabeça”.
Mas essas pequenas dificuldades do cotidiano que G. transformava em motivo de
inquietações, sofrimento em forma de preocupação exagerada e teimosia, e que muitas vezes
era transformado posteriormente em humor, não se comparam com as dificuldades que
sobrevieram à morte da sua amada esposa. Ela havia ido ao quintal e como sempre G. nada
lhe havia dado ou oferecido. Diziam fazendo pilheria que ele era igual a político depois de
eleição: “é um mandacaru que não dá nem sombra nem encosto”. G. ofendia-se, pois a amava
e dela cuidava, mas acabava internamente concordando com algo acerca da sua incapacidade
de dar mais amor para aquela figura sacrossanta que era sua esposa. Efigênia, para maior
desgraça de G., meteu-se a querer serrar um galho de goiabeira que teimava em crescer para
cima do telhado da casa. Com constância insinuava para G.: “Vamos cortar o galho antes que
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 104

ele quebre o telhado ou faça goteira”. G. viu a cena. Efigênia, uma deficiente física, subindo
em uma árvore conhecida pelo seu lenho liso e escorregadiço. Porém, ficou, como sempre,
impassível, até ver a queda de sua Senhora de forma pesada no chão cimentado. Não
chegaram nem a levá-la para o hospital. Um médico amigo constatou que estava morta. G.
nada fez, mas tudo viu e sentiu. Inclusive sua passividade. Entrou em casa e em si mesmo
desde então.
Com a idade de 70 anos, já aposentado, viu paulatinamente o desmoronamento do
seu mundo, o desaparecimento dos poucos e restritos prazeres que apreciava, mas
desconhecia: a conversa confidencial com Efigênia, o café compartilhado, o poder sorrir de si
mesmo e de seus exageros com uma pessoa que o amava, o cuidar e o preocupar-se com os
sofrimentos da mesma, poder falar mal dos políticos... Sua insônia, de esporádica, tornou-se
permanente e acompanhada de ataques de angústia com sensação de morte iminente. Passava
as madrugadas pensando na morte e na falta de sentido atual. Irritado, caminhava dentro de
casa até o raiar do dia. De manhã ficava a maior parte do tempo deitado. Parado.
Inicialmente os vizinhos e os familiares pensaram se tratar do velho modo de ser de G. Logo
constataram que algo mais sério que um luto fechado estava se constituindo. Verificaram que
o mesmo já não se barbeava e tinha passado uma semana sem sair de casa. Foi então que
chamaram um sobrinho em quem G. muito confiava e se apoiava. Este ficou alarmado com
as idéias suicidas e o descuido pessoal do tio. Reparou que o antigo e salvador bom humor
havia desaparecido. G. estava sendo um perigo para ele mesmo. Pensava o tempo inteiro em
se matar.
Seu pensar seguia a lógica de construção que o gênio de Binswanger 124 explicitou
como a forma pela qual o Supereu de um homem pode vir a destroçá-lo. G. estava
completamente dominado pelo passado, cortado de qualquer plano futuro e com o presente
nada significando nada para ele. A auto-reprovação o dominava e acaçapava. Instalou-se de
forma cruel e sub-reptícia, através da forma gramatical do condicional acompanhada do
pretérito imperfeito: “Se eu tivesse ido cortar o galho da goiabeira”, ou senão “se eu tivesse
ido no lugar de Efigênia”, “então tudo seria diferente: ela estaria aqui e seríamos felizes e
então eu não estaria aqui desse jeito, culpado, merecendo morrer”. Não era mais só culpado
pela morte da esposa. Já experimentava a crueldade do remorso sem apelação. O remorso se
executava através da fórmula “Se eu tivesse” então ”Não teria ocorrido”. Logo, sou o
culpado e conseqüentemente merecedor de castigo. O condicional, além de aceitar a sua
passivação na relação, esmaga-o na posição de se submeter a um castigo merecido: o
remorder-se no mesmo ponto remoído infinitas vezes: “não cortou o galho..., era um ingrato,
um abjeto ser que nunca havia merecido o amor de Efigênia”. Uma ciranda de autoflagelação
se instala em permanência, com a retenção de um passado para condená-lo, um presente
somente palco de julgamentos e a inexistência de planos futuros, esvaziados de sentido, ou
seja, uma protensão exaurida.
Não era por falta de sentido da vida somente. Por elaboração do luto. É o próprio
sistema simbólico daquilo que o sujeito toma para si como sendo o pensar mais querido e
certo – ame bem Efigênia – que o aniquila. Era principalmente pela sua omissão, ser uma
espécie de Pôncio Pilatos, por ter sido mau indiretamente, não estando à altura da sua
exigência moral. Pior ainda, a retenção se expande e agora ele era um Judas Iscariotes e em
seguida uma espécie de Belzebu que deveria ser extirpado da superfície terrestre. Dizia, por
exemplo, que era mau por ter roubado um cruzeiro de seu pai, quando tinha oito anos de
idade. E sem o menor acabrunhamento, asseverava que ao se lembrar de Efigênia pensava
também na sua mãe, pondo-se a chorar como uma criança gemendo trechos da canção

MAMÃE 125

Ludwig Binswanger; “La Rétrospection Mélancolique” in Mélancolie et Manie (1960), tradução de Jean-
124

Michel Azorin, Yves Totoyan para o francês, Paris, P.U.F., 1987, pp. 29-46.
125
Mamãe de Herivelto Martins, David Nasser e Washington Harline, 1959.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 105

Ela é a dona de tudo,


Ela é a rainha do lar,
Ela vale mais para mim,
Que o céu, que a terra, que o mar,
Ela é a palavra mais linda,
Que um dia o poeta escreveu,
Ela é o tesouro que o pobre,
Das mãos do Senhor recebeu,

Mamãe, mamãe, mamãe,


Tu és a razão dos meus dias,
Tu és feita de amor e esperança,
Ai, ai, mamãe,
Eu te lembro chinelo na mão,
O avental todo sujo de ovo,
Se eu pudesse,
Eu queria outra vez mamãe,
Começar tudo, tudo de novo.

A morte de Efigênia era agora o motivo maior do seu remorso. O remorder-se – esta
imagem terrível de morder-se no mesmo local mordido a pouco, arrancando pedaços de si
mesmo - era agora reforçado pelo amor pela imago materna que sempre esteve ligada à sua
escolha amorosa. A saudade e o remorso juntos formam um coquetel autodestrutivo sem
solução. Aquilo – sua passividade, sua falta de intervenção, sua imersão no condicional
completo auto-acusativo: se eu tivesse amado melhor, se tivesse deixado de ser um lesado e
ido cortar o galho... nada daquilo teria ocorrido... – era agora um conjunto de fatos
imperdoáveis. G., remordido, mordia-se fundo na sua alma e na sua existência. Idéias de
ruína e de decepção para consigo mesmo, com revisões mortíferas da própria vida, revisões
essas fundadas em fatos aparentemente anódinos, ocupavam sua mente em permanência.
O sobrinho levou-o a um psiquiatra. Este propôs uma internação. Ao fechar a mala
do seu tio, por acaso o sobrinho encontrou um punhal que ele havia colocado às escondidas.
O punhal revelava a idéia de se matar apunhalando-se, quando estivesse internado. Tratado
com antidepressivos, recebeu alta três meses depois, com melhoria passageira. Logo no mês
seguinte retornou com mais força os sintomas já apresentados. Os três anos seguintes
constituíram um verdadeiro inferno de dor para ele e seus familiares. Recusa de falar.
Niilismo. Idéias de destruição interna. Passou a ser alimentado por sonda, pois se recusava a
abrir a boca para o que quer que fosse. Tentou-se tratamento por eletrochoques, pequena
melhoria: a antiga irritação se apresentava. A recusa de se alimentar, falar, cooperar se
acentuou até um mutismo radical e absoluto. Caquexia. Morte.
Interlúdio nada lúdico, já que a clínica é uma Estética do Desagradável que muitas vezes nos
engolfa fazendo-nos sofrer: [Permito-me aqui uma apreciação pessoal da que peço perdão ao leitor que faça
exigências de cientificidade e de impessoalidade nos relatos clínicos: ainda adolescente, essa história ficou na
minha mente, na futura profissão e depois na fantasia de elaborar algo para mitigar este sofrimento maior final
que acompanhei espantado com a violência do simbólico. Internalização auto-imposta, comunicação
impedida, silêncio de mordaça auto-imposto, uma das maiores dores possíveis e inimagináveis. Sempre penso
que se tivéssemos intervindo com os conhecimentos advindos de Binswanger e Freud, talvez o destino final
tivesse sido outro. Mas, isso é tão somente esperança de psicanalista que acredita na força da palavra viva...
Até hoje só constato que o simbólico da palavra nestes casos é muito mais violento para fazer mal do que para
resolvê-lo. Nem por isso não deixaremos de tentar e organizar tratamentos que possam incluir a qualificação
do simbólico, da necessidade de um hospital dia e outras estruturas similares faltantes na nossa realidade e da
formação de profissionais que conheçam a potência do tempo condicional mortífero para o próprio sujeito, tal
como aquele ocorrido no psiquismo de G., como sendo a grande crueldade auto-aplicada.]

Em um primeiro momento, vemos G. essencialmente como uma personalidade


neurótica estruturada sob a égide de uma obsessão. Posteriormente, já na velhice, os
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 106

fenômenos graves e sofrimento tímico refletem o destino típico de uma melancolia


involutiva. Foi por intermédio do reconhecimento de uma ligação íntima entre as duas
situações – neurose obsessiva e melancolia – que Freud e Abraham começaram os estudos
especificamente psicanalíticos acerca da melancolia. Anteriormente aos fenomenologistas já
citados, Freud percebe existir na melancolia uma relação íntima com a linguagem introjetada
pelo melancólico e restringe-se àqueles casos onde a causalidade psicogenética é indiscutível.
Sua observação pode ser constatada no caso anterior. Existe na melancolia uma relação com
o luto. O luto seria a forma comum, “normal”, a mais próxima da experiência da melancolia.
Da mesma maneira que o luto, a melancolia consiste na perda de um objeto amado No caso
do Sr. G., a perda da esposa faz coincidir o luto com o início da sua grave melancolia. Tanto
no luto quanto na melancolia ocorrem:

“um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo,


a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade...” 126

A distinção essencial que permite apontarmos a história do Sr. G. como tendo um


final tipo melancolia diz respeito a algo que não está presente no luto “sadio”, e que pode ser
lido em continuidade com a citação anterior:

“uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão


em auto-recriminação e auto-envilamento, culminando numa expectativa delirante
de punição”127.

Além do reconhecimento estrutural da existência da melancolia como ligada a uma


possibilidade de todos nós, explicitada pelo parentesco com o luto, pode ser vislumbrada a
intimidade existente com processos parecidos com os que ocorrem nas psicoses. Diríamos
que o mecanismo essencial em comum entre a melancolia e as psicoses consiste em uma
demolição das atividades sublimatórias mais importantes do sujeito. O Sr. G., por exemplo,
perde aquela pessoa que se dedicava ao amor e ao trabalho. Mas, no lugar do luto, da perda,
ocorre também uma desconstrução daquilo que lhe dava prazer e era valorizado pelos outros
e por ele mesmo. No lugar disso, vemos o aparecimento de críticas violentíssimas contra si
mesmo. Diríamos que aquilo que é componente crítico acerca dos outros, agressividade
sublimada pelo bom humor antigo, passa a vir na forma de asserções contra si mesmo.
Acreditamos que o termo projeção seja exagerado. Trata-se de uma introjeção tal como
Abraham apontou com acuidade:

“com Freud, admitimos que uma tentativa de restituição segue-se a perda objetal
no melancólico. O que a paranóia atinge especificamente pela via da projeção, a
melancolia alcança sob uma outra forma, por meio da introjeção” 128.

Esse último processo evidencia, à primeira vista, o contrário do que ocorre na


paranóia: a projeção e o auto-engrandecimento do Eu. Isto é, encontramos no final da
melancolia as introjeção e autodestruição do Eu. Já na esquizofrenia encontramos
despedaçamento do Eu, mas para ser tudo. Trata-se de um auto-engrandecimento através da
multidão em que o eu se vê transformado. É, portanto, justo deste ponto de vista colocar a
melancolia como uma psiconeurose narcísica desde que sejam elucidadas as enormes
diferenças com o outro grupo de psiconeuroses narcísicas. Chama a atenção que o Eu é o
objeto vilipendiado. Encontramo-nos em um terreno onde o ódio contra si e contra
determinados objetos se torna um determinante fundamental. É por intermédio de uma
consideração exacerbada com relação à linguagem e seus sentidos portadores de norma que
126
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, p. 276.
127
Ibid.
128
Karl Abraham; Teoria psicanalítica da libido - Sobre o o caráter e o desenvolvimento da libido (1924), tradução de
Christiano Oiticica, Rio de Janeiro, Imago, 1970, p. 105. Utilizamos nesse trecho a tradução francesa de Karl Abraham;
Oeuvres complètes - 2 - Développement de la libido; tradução de Ilse Barande, Paris, Payot, 1966, p. 272.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 107

este ódio nos parece nascer e crescer. É interessante lembrar a observação pontual feita por
Freud para esclarecer como o processo de introjeção termina por capturar o Eu como um
objeto odiado.

“Se se ouvir pacientemente as muitas e variadas auto-acusações de um


melancólico, não se poderá evitar, no fim, a impressão de que freqüentemente as
mais violentas delas dificilmente se aplicam ao próprio paciente, mas que, com
ligeiras modificações, se ajustam realmente a outrem, a alguém que o paciente
ama, amou ou deveria amar. Toda vez que se examinam os fatos, essa conjectura é
confirmada. É assim que encontramos a chave do quadro clínico: percebemos que
as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram
deslocadas desse objeto para o eu do próprio paciente”129.

Como resultado, temos um destroçamento das relações objetais mais caras do


melancólico. Diferentemente do luto, onde o investimento se desloca para novos objetos, na
melancolia a libido livre se desloca para o eu. Ocorre, então, uma simbiose, uma mistura,
uma identificação do Eu com o objeto abandonado. A fórmula de Freud para a melancolia se
compõe, então:

“Assim a sombra do objeto caiu sobre o eu, e este pôde, daí por diante, ser julgado
por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa
forma uma perda objetal se transformou numa perda do eu, e o conflito entre o eu
e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do eu e o eu enquanto
alterado pela identificação”130.

Seria demasiado falar em um narcisismo de objeto para caracterizar o movimento


em direção à radicalização de uma fascinação pelo objeto e, finalmente, o voltar-se contra o
próprio eu do sujeito na melancolia. Encontramos nas formulações de Freud e Abraham esta
estação intermediária entre a neurose (no caso, obsessiva) e a melancolia. Esta estação
consiste na perversão, ou no encantamento pelo objeto. A paixão intensa teria uma
possibilidade a mais como radicalização, que seria a narcisação do objeto que cai sob o eu
com todo o sadismo.
Diferentemente do campo das psicoses, onde falamos do narcisismo do Eu e das
suas agruras, trata-se agora de apontar um objeto narcísico. No caso do Sr. G., o seu objeto
de eleição, logo que morto, passa a comandar o próprio destino do Eu do nosso pobre amigo.
Caberia então elucidar qual é o objeto narcísico por excelência, o objeto que tem como
missão assegurar a plenitude narcísica. A teoria analítica não duvida a esse respeito: trata-se
sempre do falo da mãe. Quem melhor encarna esse objeto é o homossexual. Já o
melancólico, como o diz Jean Mélon,

“pode-se dizer que ele é aquele que diz a verdade a propósito da relação de objeto
narcísica, a saber que ela é sem nuança, reenviando o sujeito - objeto da
onipotência ao puro nada. Para vir a ser melancólico é preciso necessariamente ter
ocupado a posição de objeto suficiente, apto a preencher a falta do outro, e ser em
seguida derrubado para baixo do trono.
A verdade do discurso melancólico deve-se àquilo que ele enuncia, porque ele o
introjeta, a acusação imaginária portada pelo objeto contra ele: ‘Em ti, tinha
colocada todas as minhas esperanças, mas você me decepcionou, você não é o
objeto perfeito que deveria me trazer a consolação definitiva, você não é mais nada
para mim, você é menos nada, você não deveria ter nascido, tua visão me ofende,
morre, mata-te...”131

129
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, p. 281.
130
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, pp. 281-282.
131
Jean Mélon; “L’introjection” in Le Moi en Procès, Louvain-la-Neuve, Cabay, 1983, p. 166.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 108

Esta perspectiva elabora o essencial da questão, do ponto de vista narcísico. Deve


ser apontado que do ponto de vista metapsicológico é feita também uma nuança com relação
à tese acerca do sintoma psicótico. Freud é preciso o bastante para apontar que não ocorre tão
somente um desinvestimento das representações-coisa inconscientes. Diferentemente da
psicose, as timopatias não são investidas como representações-coisa. O sistema pré-
consciente e consciente é preservado. É a partir destes, aliás, que todo o drama da neurose, da
perversão e, finalmente, do melancólico se desenvolve. Na melancolia as representações-
palavra, especialmente aqueles restos de frases escutadas no imperativo, tornam-se a parte do
objeto algoz do Eu do sujeito. As palavras constituintes do Supereu devêm demasiado
pesadas, trazem consigo o peso de gerações e gerações de familiares e de civilização. Mais
que nunca o peso das palavras contra o Eu do sujeito se fará sentir. Não será somente um
mal-estar, mas tudo aquilo que a civilização tem de argumento o mais nocivo contra o pobre
Eu.
As palavras são, então, determinantes no tratamento que é dado ao eu do sujeito na
melancolia. Trata-se sem dúvida de um típico sintoma que sem a existência da terceiridade e
da linguagem não se constituiria enquanto tal. Porém, nem todos os aspectos da melancolia
são determinados pelo metabolismo psíquico do Eu tomado como vítima do objeto narcísico.

“A melancolia ainda nos confronta com outros problemas, cuja resposta em parte
nos escapa. O fato de desaparecer após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios
de grandes alterações, é uma característica que ela compartilha com o luto. (...) O
que provavelmente é um fator somático, fator este que não pode ser explicado
psicologicamente, torna-se visível na melhoria regular da condição, que se verifica
ao anoitecer”132.

Esta abertura para o reconhecimento inclusive de causalidade outra que não a


psíquica é importante porque centra o problema da melancolia sob a dimensão somática e,
para nós, essencialmente a partir da perspectiva da pulsão e de sua fonte somática. Isso nos
leva aos confins da psicanálise, dos seus conceitos e de sua competência enquanto
terapêutica.

132
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915]), E. S. B., XIV, p. 286.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 109

8.2. A mania

A observação psiquiátrica inicial das chamadas psicoses afetivas parecia apontar


para uma oposição entre a mania e a melancolia, para uma alternância entre os dois quadros
sintomatológicos. Hoje, estamos longe desta proposição. A experiência mostra nem sempre
existir alternância, nem ciclicidade alternada entre estes dois quadros, nem polaridade
absoluta. O ciclo é claramente dominado pela melancolia, pela tristeza, pela falta de energia,
pela desvitalização - finalmente, pela pulsão de morte. Talvez a proposição mais próxima dos
fatos possa ser resumida na idéia da melancolia nutrir-se da pulsão, dominando o Eu e
submetendo-o a uma flagelação até a morte, enquanto a mania queima rapidamente a energia
pulsional fazendo uma espécie de busca voraz dos objetos narcísicos à custa da libido do Eu.
A melancolia funciona como um câncer: quanto mais prossegue, mais se nutre e cresce. A
mania funciona como uma paixão tipo coup de foudre e frívola: multiplica-se em uma
excitação qual um relâmpago em cima de objetos fugazes. A melancolia se enraíza, tende a
se processualizar dominando o Eu. É o império da pulsão de morte que se institui e impõe
seu poder em silêncio. A mania desaparece como as ilusões fugazes. Ao longo do tempo a
mania desaparece, queima transformando-se em fumaça. A chamada psicose cíclica, tanto do
ponto de vista fenomenológico quanto epidemiológico e cronológico, é dominada pela
eficácia da melancolia.
Se na relação entre a mania e a melancolia esta última domina com relação ao
quadro terminal, com relação ao tempo e à definição, a observação psicanalítica aponta para
uma presença extremamente comum das alterações do humor em direção da mania. É
suficiente ver a importância da festa, do carnaval e das experiências que promovem a fuga do
cotidiano, dos objetos pouco atraentes, para a fantasia, para o consumo desbragado e
paroxístico - e mesmo para a criação de paraísos artificiais aos quais o sujeito só tem acesso
transitoriamente. Se a mania clássica parece mais rara que a tristeza, ela é extremamente
freqüente nas suas modalidades mais disfarçadas e normalizadas, de modo que psicanalistas
como Melanie Klein não hesitam em falar de defesas maníacas. Quando dissemos que o
clima cultural ocidental parece dominado pelo espectro da melancolia é justamente por ser
perceptível a criação de um mundo onde a alegria, a agitação, a alta produtividade, a
fugacidade, o gozo rápido e múltiplo parecem dominar as concepções mais comuns de
felicidade. Enfim, a insistência no triunfo é prenúncio da possibilidade de dor.
A mania típica envolve diretamente a experiência sensorial como forma semiótica
privilegiada. Caracterização pela animação, exaltação, pela emoção jubilosa. O termo melhor
para designar essa experiência de primeiridade, o sentir fundamental, vem do alemão, é o
chamado Stimmung (mood em inglês), ou atmosfera que envolve a situação. Se o stimmung
da melancolia assemelha-se a um clima de execução de um criminoso maior, a atmosfera da
mania é similar ao clima de quermesse de festa de São João. Contudo, a definição final de
formação do sintoma maníaco está intimamente ligada aos aspectos simbólicos. Nesta
perspectiva, Freud fez observações perspicazes que mostram o quanto a perspectiva
fenomenológica da primeiridade pode ser enganosa, caso não qualifiquemos as outras
dimensões.

“A impressão que vários investigadores psicanalíticos já puseram em palavras é


que o conteúdo da mania nada difere do da melancolia, que ambas as desordens
lutam com o mesmo ‘complexo’, mas que provavelmente, na melancolia, o eu
sucumbe ao complexo, ao passo que, na mania, domina-o ou o põe de lado. Nosso
segundo indicador é proporcionado pela observação que todos os estados, tais
como a alegria, a exultação e o triunfo, que nos fornecem o modelo norma para a
mania, dependem das mesmas condições econômicas” 133.

133
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, p. 287.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 110

A mania é uma estratégia diferente para lidar com a violência dos imperativos
categóricos instituídos. Como se sabe, esses imperativos se realizam sob a forma de asserções
acerca do dever elevado ao grau máximo. Quando ocorre uma perda de um objeto amado,
subitamente o sujeito se vê aliviado de uma brutal carga, desprendendo então uma grande
quantidade de energia mantida presa. As metáforas de Freud são eloqüentes:

“quando, por exemplo, algum pobre miserável, ganhando uma grande soma de
dinheiro, fica subitamente aliviado da preocupação crônica com seu pão de cada
dia, ou quando uma longa e árdua luta se vê afinal coroada de êxito, ou quando um
homem se encontra em condições de se desfazer, de um só golpe, de alguma
compulsão opressiva, alguma posição falsa que teve que manter por muito tempo,
e assim por diante. (...) Podemos aventurar que a mania nada mais é do que um
triunfo deste tipo; só que aqui, mais uma vez, aquilo que o eu dominou e aquilo
sobre o qual está triunfando permanecem ocultos dele.” 134

A mania é um ato de libertação inconsciente da perda de um objeto adorado ou


idealizado. Antes que se deprima, eis que surge a possibilidade da oralidade primitiva se
fazer de novo presente. Essa concepção aponta diretamente para a intensa voracidade do
maníaco:

“Na mania, o eu deve ter superado a perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou
talvez o próprio objeto), e, conseqüentemente, toda a quota de contra-investimento
que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para si vinda do eu e
‘vinculado’ se terá tornado disponível. Além disso, o indivíduo maníaco
demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, como
um homem vorazmente faminto, novos investimentos objetais.”135

A voracidade objetal merece ser caracterizada com relação ao Stimmung


característico. Trata-se de uma busca incessante de se colar a novos objetos para introjetá-los.
Grande parte destes objetos origina-se da experiência sensorial imediata - mas partem
também do imaginário do sujeito. Essa pregnância da imagem, do imediatismo paroxístico,
lembrando as passagens ao ato perversas, aponta para a participação da segundidade. Já a
melancolia envia-nos a forma mais elaborada de representamenes sensoriais advindos do
corpo próprio, e elaborados na terceiridade. A mania e a melancolia são as duas formas
psicotizadas de conhecimento dos distúrbios da primeiridade de um ponto de vista
semiológico. Há que se estudar agora o modo de produção do sintoma, que sempre tem uma
participação conjunta e integrada. Tanto na mania quanto na melancolia ficou apontado o
aspecto objetal como sendo o elemento essencial no desencadeamento e constituição final do
sintoma. Não obstante, a dimensão pulsional permanece enigmática e decisiva para clarear as
oscilações e apresentações dos sintomas que não podem ser explicados somente do ponto de
vista psicogênico.

134
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, p. 287.
135
S. Freud; “Luto e melancolia” (1917[1915] ), E. S. B., XIV, p. 288.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 111

8.3. As timopatias

O Dr. Roland Kuhn ensina que os distúrbios do humor estão presentes em quase
toda a clínica. Eles concernem, no entanto, a algo que envolve a atmosfera do vivente, onde
as variações pulsionais se manifestam de maneira cíclica. Em uma apresentação em que
pudemos anotar sua fala, o descobridor do primeiro antidepressivo afirmava acerca das
perturbações do humor a inversão dos ciclos importantes:

“A experiência depressiva é muito diferente a esse propósito. Assim, um dos meus


pacientes me dizia: ‘Durante a noite eu vivo, e durante o dia estou morto”. (...) Se
as variações do humor são o sintoma cardinal dos estados depressivos, é preciso
ainda precisar que essas variações não são em si mesmas patológicas. Toda
existência comporta variações. Elas só são patológicas aí onde nós as sofremos, aí
onde elas nos colocam na impossibilidade de trabalhar, por exemplo, de dispor de
nós mesmos. A diferença do normal e do patológico não é, portanto, dada em si
mesma. Ela só se estabelece em uma dinâmica mais vasta, recolocando o problema
das variações em seu contexto de vida.
Isso explica que muitos deprimidos não se sentem doentes de depressão. Eles
sofrem de certos sintomas, ao mesmo tempo sem se dar conta de que são sintomas
depressivos. Há ainda mais: paralelamente, no momento onde a mania sobrevém,
não somente eles não se dão conta de seu estado, mas não sofrem mais, não mais.
O céu se abre e é o paraíso sobre a terra de alguma maneira. ”136

Além do ensinamento acerca da mania e da melancolia, poderá ser explicitado que


os distúrbios do humor, da primeiridade, estão presentes em um sem número de síndromes
psicopatológicas e também na chamada normalidade cotidiana mais do que antes era
pensado. Essa concepção permite retirar a semiologia clínica da sua perspectiva unicamente
de signos indiciais. Doravante fica claro que os signos de depressão são produtos em
movimento processual e que devem ser tomados dentro do dinamismo inconsciente próprio
de cada paciente. Igualmente, ensina-nos que os estudos transculturais têm inteira razão ao
mostrar as variações existentes no modo de apresentação do distúrbio do humor. Com efeito,
não existe neurose sem seus traços depressivos, dizia Freud. Por trás do termo neurose muito
sofrimento típico da primeiridade se esconde, ou melhor, se elabora em um processo
continuado. Quando esse processo continuado passa a se submeter à lógica semiótica da
primeiridade estamos no terreno das timopatias.
Mais uma vez chamamos atenção para o fato de a manifestação exterior ser
enganosa. Assim, entendemos as timopatias como as alterações do Stimmung do ser vivente.
Implica assim em um pré-sujeito, em uma determinação muito mais pulsional que simbólica.
Contudo, a dimensão simbólica é fundamental na definição do sintoma e mesmo na
concepção cultural que ele comporta. Por isso que por mais que seja salientado o aspecto
fenomenológico, restará algo do simbólico, essencial para uma clínica dita de seres humanos.
É assim que uma mulher no pós-parto sempre apresentará distúrbio do humor,
pensamos. Ela é tão imprevisível quanto uma jaguatirica. Pode passar da alegria exultante a
uma agressividade aparentemente descabida, de uma tranqüilidade da superfície de um lago
suíço a um pranto incoercível. Ocorre nesse caso além da variação na fonte pulsional, por
conta das modificações biológicas, a experiência da perda de algo que estava dentro de si. A
elaboração dessa perda se faz por intermédio necessariamente de uma atividade similar ao
luto. Ora, quando Freud utilizou o luto como o protótipo dito normal dos distúrbios do
humor, ele nos colocou diretamente dentro do mundo da cultura, dentro de uma perspectiva
da terceiridade. Assim, os blues, as depressões neuróticas do puerpério e as depressões
psicóticas se incluem em maior ou menor medida como timopatias, mas submetidas em
variados graus ao simbólico. Além disso, como já assinalamos com relação à melancolia e à
136
Roland Kuhn; Apresentação de 5.10.82 na U.C.L., inédito, Louvain-la-Neuve, Universidade Católica de Louvain,
1982.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 112

mania, sempre ocorre uma elaboração específica e dependente da estruturação do aparelho


psíquico de cada um.
Aceitamos de bom grado a fina diferenciação entre os estados depressivos da
melancolia. Fédida137 reconhece que "o estado de imobilização e cristalização (da depressão)
aparece com freqüência como última defesa vital contra o desabamento melancólico e a
hemorragia da culpabilidade e da vergonha". Ajuntamos que a depressão tem um cunho de
manutenção da luta, do conflito, e que se inscreve largamente como pertencente às neuroses e
seu modo de ser e se organizar. O neurótico essencialmente continua o seu comércio com o
mundo e com os outros, realizando transferências e recebimentos. Seus portos estão abertos
para as trocas com o mundo. Ele ressoa ao receber a palavra do outro. Existe transferência. Já
na melancolia, a imagem de hemorragia e de esvaziamento pulsional impedindo o ir e vir138 e
o subir e descer é a grande agrura.
Mas as timopatias não se manifestam somente nas depressões neuróticas, nos
distúrbios do pós-parto, nas alterações do apetite, tipo bulimia, em modificações
endocrinológicas, nas depressões ditas mascaradas. É nos pequenos desequilíbrios, nas
inúmeras e variadas oscilações do sentir que se constituem as toxicomanias mais graves, ou
toxicomanias verdadeiras, aquelas em que o sujeito faz carreira, buscando uma re-
harmonização forçada do sentir primordial. Elas ganham mais notoriedade em virtude da sua
íntima dependência de determinados objetos a serem incorporados para restabelecer o
equilíbrio do sujeito.
Sabemos que as toxicomanias são um fenômeno tão universal quanto as neuroses, as
psicoses e as perversões. Contudo, elas se tornaram um fenômeno de massa nos últimos
trinta, quarenta anos. Tornaram-se o problema crucial psicopathológico das sociedades
industriais e pós-industriais. A massificação ocorreu de tal maneira que todas as
classificações nomeiam as diversas categorias possíveis (no limite elas são infinitas) em
função do tipo de objeto de que o sujeito se torna dependente. Ocorre neste setor uma espécie
de crepúsculo do sujeito, passando o fenômeno a ser tratado o mais freqüentemente como um
problema sociológico, policial e político. Ao salientarmos a dimensão pulsional estamos
somente restituindo a evidência clínica que a droga é também feita pelo sujeito.
Na mesma conferência citada, o Prof. Kuhn assinalava que antigamente os
deprimidos eram tratados com ópio e que esses não se tornavam dependentes. É interessante
notar que, sem que façamos exclusão dos efeitos farmacológicos específicos de cada droga e
do momento sócio-cultural na qual se manifesta a drogadição, o toxicômano contumaz,
aquele que tem uma droga de eleição e que aprofunda sua relação com a droga, se caracteriza
por transformá-la no centro da sua existência. Tornam-se dependente justamente porque a
droga eleita torna a vida possível de ser levada, restitui o prazer do gozo, dá a possibilidade
de trabalhar e de amar ou de transformar o mundo ruim.
A droga é um “quebra-desgosto”, conforme nos ensinava o Prof. Richard Bucher 139,
falando da concepção freudiana acerca da droga. Em tese esse “quebra-desgosto” pode se
infiltrar em todos os campos psicopathológicos. Existem toxicômanos psicóticos, neuróticos,
perversos e psicopatas. É, porém interessante assinalar que a droga faz o drogado, assim
como esse a faz. Existe uma tendência, quase um princípio de homeopatia, que pode ser
lembrada: para cada um o seu tipo de remédio. Essa tendência é tão radical que a clínica
aponta que certas drogas são mais comuns com relação a determinados campos. Deixaremos
essa demonstração para outro trabalho, indicando somente como exemplo a intimidade entre
as timopatias e a heroína e derivados do ópio, das perversões e neuroses com relação à
maconha, cocaína, álcool e tranqüilizantes, e das psicoses com relação aos neurodislépticos.
137
Pierre Fedida; Dos Benefícios da Depressão: Elogio da Psicoterapia. São Paulo, Editora Escuta, 2002, p.
177.
138
Francisco Martins; O Aparentar, o Dever, o Pensar e o Devir, Brasília, inédito, aceito para publicação,
2007, em especial o capítulo acerca da semiologia do ir – vir e subir – descer, exemplificado com a análise do
personagem Paulo Honório do romance S. Bernardo de Graciliano Ramos.
139
Vide principalmente os capítulos referentes aos aspectos clínicos (segunda parte) e teóricos (terceira parte) em Richard
Bucher; Drogas e Drogadição no Brasil, Porto Alegre, Artes Médicas, 1992.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 113

A droga e o drogado constituem-se em uma espécie de transitivismo absoluto que tende a


indiferenciação entre um e outro. Do ponto de vista do sujeito, a partir da perspectiva criada
originalmente por Szondi, ocorre um fenômeno essencial: a compulsividade (Sucht). Isso
ocorre nas toxicomanias as mais resistentes e radicais. Aquelas toxicomanias em que
virtualmente o sujeito é psicopata no sentido que utilizamos o termo e que facilmente faz
carreira anômica de sociopata. Não é por acaso que todo psicopata é timopata.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 114

8.4. Concluindo e articulando com os dias de hoje: a hipomania é elogiada


no mundo atual, até no futebol, acelerado e mecanizado.

O futebol não é um jogo.


O futebol é a poesia do brasileiro.
Nossa prosa o é passe.
Nosso verso é o drible.
Nossa estrofe é o time.
Nosso estribilho é o gol.
Nossa metáfora é a vida.
Falar de futebol é falar de nós mesmos.
Leonel Kaz140

Quem sonhou alguma vez com futebol, especialmente se for brasileiro, assinará em
baixo, a prosa-poesia citada acima. Há 50 anos o futebol seria mais ainda nossa poesia dado o
analfabetismo que grassava. A impulsão para a criação teria que tomar outros rumos que não
o literário. A dança, a música, o futebol. Os humildes e trabalhadores poderiam ser ouvidos aí
e ter vez, pelo menos nestas atividades altamente sublimatórias. A criação se faz então no dia
a dia do povo, seja nas metáforas banalizadas ou no drible diabólico.
E não é que confirmamos que iniciando um bate-papo informal sobre futebol o
brasileiro comum do dia-a-dia, de imediato, coloca em ação uma metaforização espontânea,
lúdica, similar ao futebol que ele aprecia. Estive em 1998 numa mecânica de automóveis e foi
engraçada a conversa com os mecânicos. Dirijo a palavra ao Tião, um mulato amigo, pesando
mais de cem quilos de simpatia:

- “Pra mim, o Rivaldo é o virabrequim do time do Brasil.”

O dono da ‘Total Baterias’ abriu um sorriso de dentadura inteira:

- “É isso mesmo... he, he, he..., pode ser... e o Roberto Carlos é a bomba de óleo do
motô.”

Respira, examina a minha reação de aquiescência e continua:

- “Ele é qui dá vida ao Ronaldinho qu’é só pra completar a tarefa. Roberto Carlos é
homi humilde, trabalhadô, tal como o Branco que sofreu injustiça e o Taffarel que ninguém
queria reconhecê. Sinto-me no meu trabalho como o Roberto Carlos. Ele fornece tudo pro
Ronaldinho. Ele, já-já, tá mais pro acabamento como o Romário. Num gosto do Romário pois
ele só faz a coisa final: é como eu trabalhá o dia inteiro no motô e no final um colega colocá
uma arruela e dois parafusos e dizê que foi ele que fez. De verdade, o futebol é como um
carro, mas não entendo ainda bem como é que o pára-choque e o escapamento podem ter
menos valô que o virabrequim. Claro que o goleiro nessa nossa brincadeira é o pára-choques
mas o Dunga e o César Sampaio também. O Dunga é muito esquentado. Então é o motor de
explosão. Mas explosão controlada. Basta ver que ele precisa de uma espécie de ventoinha
para disparar e esfriar o radiador do carro. O homi é mais que um carburador... Mas, sem o
César Sampaio, o time ia explodir pois num esfriaria nunca. He, he, hi, hi, hi fiquei pensando
no fraquim do Bebeto como sendo a cebolinha do motor... chamou a ventoinha, o César
Sampaio, e o Dunga teve que esfriar sinão o carro ia estourar! As vez o Dunga parece a
cabeça de um pistão mas precisa passar a força pro virabrequim Rivaldo e ele pra transmissão
e pros gols do Ronaldo. Agora que o Roberto Carlos e o Cafu são como dois balancins, num
tenho dúvida. Minha dúvida agora é sobre a roda de direção... Ah!!! Muito legal foi o
140
Leonel Kaz; “Um pé no futebol” in João Máximo, Brasil: Um Século de Futebol – Arte e Magia, Rio de
Janeiro, Aprazível Edições, 2005/2006, p.20.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 115

Denílson, no jogo contra os turcos... teve sete correndo atrás dele e ele prendendo a bola. Na
verdade ele quis e conseguiu fazer o motor dos turcos funcionar em ponto morto. Eles
aceleravam e só fazia barulho, ficava tudo parado... Ele segurou a caixa de marcha dos turcos
em ponto morto.. eita conversa doida!!!!”.
Comprometeu-se comigo tentar resolver esta história de carro e futebol, advertindo
porém, como a pedir um troco a mais pelo conserto do carro:

- “Vê aí... dotô, o quê qui pode fazê pur mim, pois, meu motô de arranque já tá
rateando de tanto uso..., hi, hi, hi!”

O carro é um dos signos maiores presentes na introdução geral da metáfora da


máquina na existência dos mais diversos seres humanos. Para não nos deixarmos levar por
nossa tese deixemos, nada mais nada menos, falar a esse respeito Zagallo, que nos anos 70
afirmava peremptório: “Sabe, um time de futebol é que nem um carro: quando ele quebra,
você não troca seu carro por outro, e sim troca a peça que está quebrada.” 141 (Placar,
19/04/1974, n. 213, p. 7). Mas não somente o técnico da seleção canarinho - e ele gostava da
imagem de canarinho para o selecionado auriverde – mas quase o mundo inteiro a adotou.
Poupemos citações incluindo ingleses, alemães, italianos, americanos, japoneses. Essas
sociedades são amplamente fixadas na metáfora da máquina e no seu bom funcionamento
como critério de sucesso. Vejamos de um país vizinho afeitos ao futebol dito artístico. O
futebol argentino tem uma alta qualidade barroca. Maradona não deixaria por menos. Porém,
nos surpreendemos ao vê-lo articulado mais freqüentemente com metáforas de guerra, do
homem forte do pampa, da resistência e da malandragem. Mais ainda, surpreendemo-nos ao
ver a metáfora de guerra ser incorporada no entendimento e vivência diária do argentino 142.
Acreditamos que ela prevaleça, pois acreditamos muito no antropólogo Archetti - que
apontava a hipervalorização fálica ou, melhor ainda, em um linguajar do dia-a-dia do homem
latino, digo portenho-argentino, como el macho. Macho maquínico.
Zagallo, o formiguinha, ocupa um lugar ímpar na história do futebol canarinho e na
sua relação evidentemente largamente inconsciente com a idéia da máquina para explicar,
pensar e compor um timaço invencível. Em nenhum momento de sua vida o vimos cantando
feito uma cigarra. Sempre trabalhando e se esforçando. Não nos surpreendamos que ele esteja
no cerne da transformação da metáfora sambística, gafieirística, artística que ele tão bem
compartilhou, para a introdução de métodos que qualificariam a metáfora de máquina
também no cerne do futebol pentacampeão.
Entre 70 e 74, Zagallo, tricampeão do mundo, teve que montar um novo time sem as
altas qualidades de um Pelé, Gérson, Tostão, Clodoaldo. Já sob a influência dos novos
tempos, orgulhou-se em dizer que tinha então um time de “verdadeiros atletas”. Ao mesmo
tempo, o futebol holandês (Ájax, em especial) marcava na Europa a imposição da metáfora de
máquina de forma efetiva através de um futebol dito total, de força, aposicional, com
jogadores polivalentes. Essa máquina de jogar futebol passa a exigir uma forma física de
fundista combinada com a capacidade de dar piques de cem metros como um João do Pulo.
Cada elemento, peça ou jogador deve executar movimentos perfeitamente e em conjunto para
a realização do encantamento de uma máquina de fazer e evitar gols automaticamente. A
imagem do automaton se confunde com a beleza do jogo - e sem se fazer notar, afinal são
homens em perfeita performance. As duas principais metáforas de máquinas difundidas para
designar a maravilha criada por Rinus Michael, Cruyyf e seus companheiros foram Carrossel
141
Ver a análise apuradíssima das falas de Zagallo e de outros expoentes do futebol brasileiro e do jornalismo
futebolístico na implantação da metáfora de máquina eficiente articulada com a de canarinho: José Paulo
Florenzano; Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, São Paulo, Musa Editora, 1998, em
especial os capítulos “A Laranja Mecânica”, “O jogo das máquinas”. A citação da revista Placar, vimos
originalmente em Florenzano, Afonsinho e Edmundo..., op.cit., p.152.
142
Eduardo P. Archetti, (1991) “Masculinity and soccer: the formation of national identity in Argentina”,
Paper Presented at the American Ethnological Society Spring Meeting, Charleston, SC, USA, March 1991, pp.
14-15.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 116

e Laranja Mecânica. Vale a pena fazer uma incursão em setores extrafutebol para aflorar mais
claramente os sentidos frontais e colaterais destas metáforas.
Mais além do encantamento do parque de diversões, é bom reconhecer que um
carrossel é um maquinário conjunto funcionando em rotação, servindo de plataforma para
objetos menores instalados no conjunto maior – e funcionando estes com movimentos
diversos. A impressão de intenso movimento independente da vontade daquele que observa
ou entra no carrossel é de causar vertigem. A imagem de carrossel é ótima principalmente
para quem se encontra passivo assistindo a passagem rotatória, infinita, de cavalinhos, digo
jogadores em alta velocidade, ou alternando o ritmo em conjunto simultâneo que torna a
individualidade algo ultrapassado e esmagado pelo agito geral desde o início. Ao mesmo
tempo se vê próxima dos mecanismos dos moinhos holandeses trituradores de trigo e
bombeadores de água. Esgotar e triturar, eis o efeito final. O mal em geral é experimentado
como tal por quem sofre, e não por quem o arquiteta. E não foi algo assim, triturado e
esgotado, que fez o arqueiro Carnevalli ao queixar-se ressentindo logo depois do massacre da
Argentina por 4 a zero concretizado pelo Carrossel? - “Os holandeses nos trituraram como
um rolo compressor” 143.
Já a metáfora da Laranja Mecânica vai bem mais além dos efeitos frontais trazidos
pela similitude da camisa laranja forte associada com o Príncipe de Orange, personagem
maior da história dos Países Baixos. Está intimamente ligada com o filme de mesmo nome de
Stanley Kubrick (1971), no qual é veiculada uma crítica ferina à sociedade maquinificada. Na
época, já se estava a ultrapassar a máquina industrial como modelo. Já se dava a alba da era
da eletrônica, de computadores e técnicas de controle humano que poderiam vir a construir
um “Admirável Mundo Novo” (A Brave New World), como ironizava Aldous Huxley. A
originária metáfora da Laranja Mecânica é um contraponto literário a essas promessas da
máquina como maravilha a ser imposta ao humano e no humano, asseveradas pela tecno-
ciência emergente. Anthony Burgess produziu na sua novela ‘A Laranja Mecânica’ (A
Clockwork Orange, 1962) um libelo pelo livre arbítrio. Ela toca o temor do ser humano e
suas criações virem a ser tratados como servomecanismos e como máquinas, ainda que
desejantes.
No filme de Kubrick nada encontramos praticamente acerca da cor laranja ou do
mecânico em si, a não ser o tratamento psicoterápico, algo behaviorista, que Alex, o
abominável meliante, é levado a aceitar. Clockwork Orange é mais um dos jogos significantes
que tanto dão estranhamento ao leitor de Burgess. Trata-se, segundo Burgess, de uma
referência a uma gíria de habitantes mais pobres de Londres que usam o idioleto chamado de
Cockney dizendo: “As queer as a Clockwork Orange”. Em uma tradução literal, que não traz
o mundo carreado pelos jogos significantes de Burgess, seria algo assim: “tão estranho quanto
uma laranja com mecanismo de relógio”. Orange, não é só laranja, a fruta. Traz consigo
combinações significantes vindas da estadia de Burgess pela Malásia, ficando o termo Orang
ligado ao que em malaio designa o ser humano. Neste sentido, Orangotango, o símio, teria a
mesma origem, significando orang (homem) + utang (floresta) = homem da floresta. A
Clockwork Orange pode ser usada a partir das recombinações significantes de Burgess para se
referir a um humano (Orang) mecanicamente responsivo (mecanismo de relógio =
Clockwork). Como vemos, o pensar de Burgess é complicado para quem não vive suas
representações e mundo. A despeito disso, Clockwork Orange funciona na dimensão
significante, sendo usada mundialmente, ainda que aquele que a use não tenha consciência
das implicações indiretas que estão presentes brutalmente na novela e no filme de mesmo
nome.
Tanto Carrossel quanto Clockwork Orange nos parecem presentes na fala de Zagallo.
Com o tempo Zagalo virou Zagallo com dois ‘L’, a imagem da formiga desvaneceu um
pouco e o grande técnico veio a ser nomeado como ‘o velho Lobo’. As metáforas acerca de
Mário Jorge Lobo Zagallo vão da formiga ao ladino mamífero. De um bichinho que funciona

Folha de S. Paulo, 06/07/1974, citado por José Paulo Florenzano; Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no
143

Futebol Brasileiro, São Paulo, Musa Editora, 1998, p. 113.


Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 117

quase totalmente em automatismo instintual à imagem do sábio (o Velho) ardiloso (Lobo).


Um ‘L’ a mais o fortifica falicamente. Homo homini lupus, parece bem para quem encara o
futebol como uma guerra, na qual sobreviver é essencial. Reagindo inicialmente ao jogo dos
holandeses disse que era um futebol de diversão 144, para em seguida dar-se conta que a
aparência era enganosa e que os mecanismos presentes eram sofisticadíssimos. Temos
Carrossel do Parque de diversões e a busca dos mecanismos. Disse então depois de derrotado
pela Laranja Mecânica, já extasiado e apaixonado pelo novo futebol: “Perdemos de uma
seleção taticamente perfeita e por isso temos que enxergar: é preciso começar tudo de novo,
mudar nosso futebol” (Folha de S. Paulo, 05/07/1974)145. Lorenzano reconhece a justa
presença da metáfora de máquina e - para quem conhece Burgess, do Clockwork - no
entendimento jornalístico da época quando se referiam ao timaço de Neeskens, Krol, Cruyyf e
companhia: “É uma máquina que funciona em alta velocidade e afoga não só a bola, mas
também a defesa adversária”. (Folha de S. Paulo, 03/04/1974, grifo de Lorenzano).
Burgess 146 afirma que o título Clockwork Orange seria apropriado para uma história
onde os princípios de condicionamento de Pavlov e Skinner fossem aplicados em um
organismo vivo, uma fruta, por exemplo, que seria capaz de produzir cor e doçura. É feita
uma alusão ao condicionamento não perfeito a que Alex, o psicopata incorrigível, é
submetido. A rebeldia se instala mais cedo ou mais tarde no ser livre. A sua adaptação nunca
é completa, sob pena de deixar de ser um animal específico. Por exemplo, no caso do ser
humano, cada mudança forçada para ele não ser um mamífero pode trazer conseqüências
graves. A principal dela é corromper o desejo espontâneo. O condicionamento tem limites e a
novela de Burgess acentua este aspecto corruptor da tecnologia aplicada sem limites.
A metáfora da Laranja Mecânica repercutirá no futebol dos anos e décadas que
vieram, ainda que Zagallo não tenha o menor interesse em Burgess e nas repercussões que a
potente metáfora tem até na concepção doravante presente em clubes e no escrete canarinho.
No Brasil, Zagallo foi dos primeiros a estimular e a articular os métodos de condicionamento
físico e tático com a habilidade e diferenciação primária já existente nos jovens candidatos a
participar do futebol profissional. Evidente é hoje em dia a evolução atlética dos jogadores
brasileiros. Ronaldinho corre mais que um coelhinho de desenho animado, como diria Nelson
Rodrigues. Inconteste tem uma saúde de vaca premiada. Cafu é uma máquina de correr. Kaká
trota, galopa, dá salto e ainda tem alta resistência para dar arranques dignos de um carro
Porsche. Nem por isso perderam a capacidade criativa. Uma solução entre a metáfora
maquínica e a da arte parece ter se tornado o ideal brasileiro. E Zagallo, na sua obsessividade
fálica, foi essencial, fazendo história no dia a dia e nas Copas, no trabalho infinito de
aproveitar para a causa final, as criações futebolísticas dos craques.

144
Ibid., p.111.
145
Ibid., p.117.
146
Anthony Burgess; A Clockwork Orange (1962), edição americana, New York, W. W. Norton & Company,
1986. Para maiores detalhes e referências sugerimos o exame do site da Wikepédia nos itens: Anthony Burgess
e Clockwork Orange.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 118

Porém, a máquina quebra. E os organismos vivos quebram mais facilmente ainda. O


time de futebol como máquina pode ser concebido como peças que se articulam. Termos
como peça, elemento, sobresselente, reposição passam a fazer parte do dia a dia. A fantasia já
quebrada a mais de século por Marx - ao mostrar que a massa de trabalhadores era essencial
no processo substitutivo - entrou no futebol arrebentando com o mito do jogador
insubstituível. De toda maneira, o coletivo de trabalho do time de futebol é constituído por
seres humanos. Por mais que os insuflemos a construir uma máquina maravilhosa, ela se verá
limitada pelas leis que regem a biologia, o desejo e as relações sociais. Se não bastasse, ver-
se-á limitada, no caso do futebol, por outras “máquinas”. Não é isso que ocorreu com a
célebre ‘Dinamáquina’ de 1986? Fulgurante, de imediato massacrou seus adversários das
oitavas de final, inclusive amassou o Uruguai com um 6X1 acachapante. Quando todos
acreditavam na Dinamáquina’ como uma das favoritas ao título, ela cai nas quartas de final
face à Espanha levando uma goleada de 5X1. E a quem é mais atribuída a vitória espanhola?
Ao goleador, El Buitre, o abutre Butrageño: justo uma metáfora de ave carniceira comedora
de cadáveres...
Porém, ainda que ao longo dos anos a metáfora de máquina se tenha largamente
imposto no condicionamento físico, atlético, técnico e tático do futebol veremos Zagallo
afirmar cada vez mais a necessidade da qualificação da criatividade no futebol. Sua crença na
superioridade técnica do futebolista brasileiro manteve-se - desde que fosse sustentada por um
regime e concepção de base maquínica. Mas o que esperar de alguém que era Lobo e
formiguinha?
Os seres humanos fazem sexo e desejam. E fazem poesia e metáforas. Igualar o
futebol à poesia seria porém não vê-lo muito mais como um trabalho. Ele não é uma
linguagem. No entanto, a poesia move o futebol, ainda que as máquinas estejam aí na sua
constância repetitiva e efetiva, encantando não somente os técnicos, mas também os
torcedores. Máquinas de carne, osso, desejo e linguagem ainda não foram produzidas. Temos
simulacros delas feitas por nós mesmos e executados por humanos e efetivadas em times que
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 119

parecem máquinas, mas que não o são. Continuam a operar pela lógica fálica do desejo. Um
dia, quem sabe a metáfora de uma máquina poética não se imiscuirá no futebol? Talvez a
máquina mais simples será aquela em que apertaremos um gatilho e ela efetivará o
Clockwork. Nesta direção, a poesia mais maquínica, simples e direta que encontramos foi
de Leila Míccolis147:

Fuzilamento
Apontar ...
Atirar ...
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MPB: Muita Poesia Brasileira, 1ª ed., Rio de Janeiro, Editora Trote, 1982.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 120

9. Os sintomas simbólicos são também pulsionais

Os sintomas com que nos ocupamos até aqui são essencialmente simbólicos. Até os
times de futebol estão dominados pela metáfora de máquina, pulsionalmente maníacos. Ou
seja, para sua existência é necessário um aparelho psíquico que estabeleça a elaboração
pulsional em contato com os processos semióticos, em especial a linguagem. Neste sentido o
aparelho psíquico é essencialmente um aparelho de linguagem. Mas pode-se também afirmar
que ele é um aparelho permeado pela pulsão. Assim todos os sintomas são também
pulsionais.
Mesmo nas psicoses, onde a linguagem e os processos típicos da terceiridade
parecem enviar o homem aos píncaros dos distúrbios simbólicos mais radicais, a pulsão lá se
encontra tanto quanto o resultado final sintomático. Mesmo em estados-limite – como a
fogueira do simbolismo psicótico, elevado às alturas como fumaça nas manifestações
paranóicas, ou as agruras dos escombros da linguagem presentes na esquizofrenia - trata-se
sempre de adoecimentos pulsionais. Igualmente, nas perversões e neurose fica evidente a
questão pulsional.
É salutar, tendo em vista o esquecimento a que foram relegados os quadros
timopáticos (melancolia, mania, timopatias) por autores importantes, que possamos apontar
que estes nos enviam necessariamente a questões de ordem pulsional e não somente de ordem
simbólica. Somos obrigados a dizer que todos os sintomas não têm uma participação somente
do simbólico. Eles também são pulsionais, sem excluir o termo simbólico como representante
maior da razão. Poderíamos mesmo ter começado a apresentação através de quatro teses
acerca da pulsão no campo psicopathológico, tal como fizemos privilegiando a atividade dos
representamenes ou dos diversos tipos de representação constituintes do aparelho psíquico.
Caso realizássemos o caminho inverso, mostraríamos mais uma vez que um modo de
produção sintomática não exclui a(s) outra(s), mas determina a formação do sintoma em
estudo. Cria um caminho preferencial onde a estruturação do sujeito pode se realizar.
Fazendo o caminho reverso, poderá ser constatado com relação à pulsão que os quatro tipos
de sintomas simbólicos são estreitamente relacionados com os quatro componentes essenciais
da pulsão. O texto anterior também procurou evidenciar que os componentes da pulsão
desempenham um papel essencial na determinação do sintoma.

Quadro 12 - Os determinantes pulsionais e o campo psicopathológico

Determinante Fonte Pressão ou força Objeto Alvo ou


pulsional (Triebquelle) (Drang) meta
principal (Triebziel)

Timopatias Perversões Neuroses Psicoses


Campo
psicopathológico Mania Sadismo Obsessão Paranóia
Distimia Fetichismo Fobia Catatonia
Melancolia Masoquismo Histeria Esquizofrenia

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10. Alusão aos sintomas psicossomáticos

A morte e o sofrimento se realizam efetivamente pelo fato de termos um corpo


efetivo material (Korp). Por mais elaborada que seja uma determinada cultura e as
possibilidades de sublimação, o sintoma é um anunciador das limitações que o soma guarda.
A dor iguala os homens, trazendo-os à realidade de um narcisismo que é marcado pela
sensorialidade. Todo e qualquer interesse social ou cultural, dos mais elevados ao mais banal,
podem ser reduzidos a nada quando a dor e o sofrimento passam a imperar. Não é, portanto,
gratuito que Freud tenha lembrado os versos do poeta pessimista (Wilhelm Busch, Balduin
Bählamm, cap. 8) acerca da dor de dentes, do desaparecimento do mundo pela concentração
do Ser na estreita cárie do molar.

A dor de dentes, subjetivamente considerada,


Ninguém, sem dúvida, a desejou;
Mas, tem a virtude de fazer a força da vida,
Que, às vezes, se gasta indo para fora,
Voltá-la sobre um único ponto para dentro,
E aí concentrá-la com toda a sua energia.
Apenas se tenha pressentido a primeira pontada,
Apenas se tenha sentido a conhecida broca,
As pulsações, espasmos e rumores -
Eis que acaba a história universal,
Esquecem-se os boletins da bolsa,
Os impostos e as somas.
Em resumo, toda maneira de ser habitual,
Que antes parecia real e importante,
Torna-se subitamente sem sentido e em nada.
E mais ainda, até o velho amor esmorece,
Nem se sabe o preço da manteiga,
Porque a alma passa a morar na estreita
Cavidade do alvéolo dental;
E entre bramidos e xingamentos
Amadurece a decisão: arranquemo-lo fora!

Face à evidência da dor e do sintoma desta ordem, deve ser explicitado que o
sintoma dito psicossomático nunca é psíquico na sua atualidade. A causalidade essencial da
dor aqui é somática. O sintoma psicossomático como tal não existe. Ele é sempre um sintoma
somático. É expressão de alteração no corpo somático do sujeito. Como dizem os franceses:
“o sintoma psicossomático é besta”. Besta justamente pela ineficácia das interpretações
psicologizantes. É evidente que existe uma correlação forte e específica com o psiquismo do
sujeito. No entanto, ele adquire independência e bestamente leva ao sofrimento e
eventualmente à morte pelas vias da causalidade biológica. Distinguimos, portanto, o sintoma
simbólico do sintoma psicossomático. Não existe doença psicossomática. Trata-se de doença
somática. Doença somática que tem sua causalidade essencial ligada aos modos de
funcionamento do aparelho psíquico. O sintoma e a doença psicossomática são a expressão
final, já no plano somático, da incapacidade do aparelho psíquico de lidar com determinados
conteúdos conflitivos.
O aparelho psíquico é concebido por Freud como um elaborador, como um anteparo
contra a estimulação interna e externa. O sintoma psicossomático evidencia a deficiência de
filtragem e elaboração simbólica da própria pulsão. Ela retorna a sua dimensão biológica. É
por essa razão que a dimensão psicossomática é sempre a mais importante quando se fala de
sintoma. Ela evidencia que, por melhor que o aparelho psíquico esteja organizado, ele é
insuficiente ao longo da vida para resolver todos os impactos pulsionais. Um resto pulsional
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sempre se fará presente. Não é assim que todo sofrimento psíquico acaba por se realizar no
corpo próprio? A angústia então se torna essencial neste sentido, não somente pela sua
universalidade nos seres humanos, mas pela implicação necessária do corpo somático.
Caberia assim interrogarmos se as chamadas psiconeuroses não teriam a sua versão
corporalizada. Seria o caso de falar de somatoses? Isto é, toda a sintomatologia simbólica se
vê ancorada no corpo próprio. Quando ela é insuficiente para a resolução, eis a possibilidade
da doença psicossomática. A resistência elaborativa do aparelho psíquico, enquanto aparelho
de linguagem - aparelho de semiosis - tem seus limites.
Em larga medida existe uma correlação entre as neuroses atuais e os sintomas
psicossomáticos. A neurose atual evidencia em geral a dimensão do corpo sofredor. Já a
doença psicossomática seria não mais somente a atualização, mas a sua cronificação e
permanente atualização. Não é gratuito que concebemos como sendo de grande relevância o
entendimento das leis que articulam o psiquismo com a fisiologia. Assim, “arco reflexo”
reinstalado, os automatismos de ordem biológica e psicológica passam a reger os fenômenos
atuais. O sintoma se instala na medida em que o aparelho psíquico fracassa, passando o
indivíduo a ser controlado por leis psicológicas próximas das descritas por Sherrington e por
Pavlov. No entanto, o aparelho psíquico tem um papel essencial na determinação da
“escolha” da doença. O conceito de facilitação é relevante neste sentido, pois permite
interrogarmos não mais como o sintoma é fabricado do ponto de vista psíquico, mas como é
que este aparelho psíquico facilita a criação de doenças.
A hipótese mais diferenciada que encontramos é aquela derivada da chamada Escola
Psicossomática de Paris. Esta escola preconiza a existência de uma deficiência do pré-
consciente. Isto possibilita-nos apontar a íntima relação com a falta de elaboração através das
representações palavras. Instala-se, então, uma modalidade de pensamento chamado de pré-
operatório. Este tipo de descoberta vem evidenciar a importância do aparelho psíquico
enquanto um aparelho que opera a pulsão e a simboliza. Ele tem uma especificidade
psicológica que foge as leis da intersubjetividade e da linguagem diacrítica. O desafio seria
restituir ao aparelho psíquico a sua capacidade de elaboração, não do sintoma como pensava
Freud com relação ao sintoma neurótico na origem da psicanálise, mas dos conflitos
insuportáveis, não mediados pelo aparelho psíquico. Por isso mesmo nos limitaremos, acerca
desta quarta via, em apontar a relevância da simbolização falha.
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11. Conclusão

A seriedade acadêmica do título Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos, tema


árduo, cheio de meandros dentro de uma torre de Babel e de saídas metapsicológicas
complicadas, não se coaduna com a clínica cotidiana. A clínica e sintoma trazem o horror,
mas também o humor. Ainda que ela seja recheada por uma estética do desagradável, o
terapeuta pode conseguir algum sucesso logo que tenha palavra e ato para modificar essa
estética e, conjuntamente com o paciente, transformar as agruras do viver. O Homem dos
Lobos era um homem esmagado por sintomas simbólicos. Um reclamopata que vivia
somente com um espelhinho a examinar minuciosamente os cravos do seu nariz, espremendo
espinhas sem fim, com prazer e temor, e preocupando-se se havia estragado seu nariz. Depois
de analisado por Freud - e posteriormente tendo feito uma cura mais efetiva com a
excepcional analista que era Ruth Mack de Brunswick - foi ao menos aliviado pela análise.
Respondeu, à pergunta que a Muriel Gardiner 148 lhe fez nos idos de 1939:
__
O que a psicanálise fez por você?
__
Tornou minha vida possível, replicou com simplicidade e verdade mostrando ter
ainda sintomas e as limitações da cura analítica.

Se a resposta de Sergei Pankejj (Homem dos Lobos) aponta a situação mais comum
de uma cura que envolva sintomas simbólicos, encontramos também pacientes que liquidam
seu sintoma neurótico. Essa foi a felicidade da história que envolvia uma identificação com
uma cabritinha no cio que apresentamos na introdução e que pode ser mais estudada nos itens
concernentes aos sintomas simbólicos neuróticos e perversos. É assim que a cura da histeria
de Terezinha de Jesus permite também a ela afirmar algo na direção do que disse Sergei
Pankejj. Mas, melhor ainda que o Homem dos Lobos, que ficou praticamente 70 anos em
idas e vindas a terapias, alguns tem maior felicidade de não se verem eternamente nas garras
do Inconsciente. Hoje é uma mulher mais saudável e bastante feliz no sentido que Freud
entende, ou seja, ela transformou sua neurose em uma neurose comum que não lhe impede
mais de avançar na existência, que lhe permite amar, trabalhar, comunicar e até, vez ou outra,
usufruir plenamente o seu corpo. Ela não é mais uma cabrita desvalida, chorosa e paralítica.
Ela leva a vida, ou melhor, se deixar levar mais pelo pulsional que a habita sem a tortura do
processo civilizatório. Achamos graça da idéia dela ser uma cabrita, ela mesma ironiza,
brincando com aquelas representações tão patogênicas. E mais ainda, e isso é essencial,
acontece dela até esquecer daquilo tudo por longos períodos.
Se a cabrita se resolveu como uma cabra, nem sempre a terapia alcança tanta
possibilidade de felicidade. Em outros o dito sintoma simbólico domina, torna-se o centro da
existência e realiza-se de forma esplendorosa no imaginário do nosso paciente que acredita
piamente ser o Senhor do Mundo. Ele leva uma vida cheia de catástrofes marcadas pelo ir e
vir de internações psiquiátricas, de perambulagens como andarilho pelo mundo, intercalado
por períodos curtos quando vem “bater um papo com esse possível discípulo que pelo menos
o escuta e raramente entende...”. “Afinal, continua ele, nada lhe pedi e compreendo que você
deseje tanto falar comigo... Aqui você tem alguém especial e eu sabia desde os nove anos de
idade que nos encontraríamos e você, ainda que mentalmente, viveria a me seguir. Você já
me pertence”. Nada consigo dizer em geral, pois fico acachapado, diminuído sem espaço
para produzir uma fala que ele considere ao menos. Aguardo e mantenho um fio de
esperança de que ao me querer com discípulo, ele indique que essa solidão absoluta que
existe talvez não precise ser suportada por todo o sempre. A solidão maior que existe: a de
viver falando a esmo, e preenchendo a mesma com um imaginário sem fim. Companheiro de
louco, “Sancho Pança dos Pobres”: às vezes, ele faz questão de me provocar com erudição,
148
Muriel Gardiner (editor); Entretiens avec L’Homme aux Loups, Paris, Gallimard, 1971.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 124

desde que fiz uma alusão ligeira acerca dos moinhos de ventos e da transitoriedade da vida;
adorou por um segundo a idéia, mas logo me colocou para baixo com Cervantes, Don
Quixote, Rocinantes e possíveis Dulcinéias - pois nada daquilo era o projeto. Desisti de
qualquer alusão literária e intelectual. Só sobrou a ilusão da grande solidão com que ele luta
dia e noite para não ser engolido em uma melancolia cava. “Será melhor o delírio no
absoluto do que a melancolia do arriado no chão sem ir e vir mais?”, começo a divagar
fugindo Dele. Interrompe-me dizendo: “você é um coitado”. Em troca da amabilidade aceitei
jogar sinuca com ele.
A solidão. A esperança do terapeuta de apostar na solidão. Risco sem fim, sem
tempo definido. Não de liquidar seu delírio, mas de tornar um mínimo sua vida viável e não
somente perambulação. Voltou uma vez, depois de uma andança pelo Nordeste aonde iria
encontrar o Quazar de Ouro na Serra do Imã que derrubava aviões. Faz um relato mítico,
solucionador de mais variantes: “A Serra do Imã é conhecida por todos. Na França, na
Alemanha. Foi-me dada por Deus. Para liquidar o nazismo. Eles sabem disso. Sou eu
mesmo, a solução primeira e única da desgraceira que lá rumina. Difícil é aqui. Mas já tá
andando o que Deus quis... O Quazar luminoso muda a mente humana, a dos incrédulos.
Pergunte a qualquer alemão que ele sabe que tenho a solução e o quanto devem a mim...”
Um mau cheiro interrompe a minha escuta. Ele emana de uma ferida profunda e
purulenta no seu joelho que a calça um pouco rasgada, talvez dele tanto coçar, permitia ver.
Ao dar uma olhada de soslaio, vi o lanho povoado de larvas de mosca varejeira, em plena
atividade, imagem do inferno como uma boca povoada de insetos em metamorfoses,
enquanto o Senhor do Mundo produzia-se em face “ao pobre diabo” como ele costumava me
chamar. Ultrapassado o arrepio e nojo, pensei como pode suportar tal dor. Diria: “isso não é
nada... mais vale ser no total que reclamar no particular: Deus me disse diretamente”.
O percurso que fizemos mostrou caminhos semiológicos diferenciados com relação
à formação de sintomas simbólicos. A Cabrita e o Senhor do Mundo são modalidades
exageradas que nos parecem ser potencialmente experimentadas por todos nós. Formam
quase uma caricatura daquilo que sonhamos que o ser humano não desejaria idealmente.
Parecem também muitas vezes soluções as mais radicais que se processaram no sujeito. Neste
sentido existe uma asserção em que acreditamos com mais e mais firmeza com o passar dos
anos - que seja uma Cabrita desvalida ou um Senhor do Mundo que não quer ajuda, tudo isso
tem sempre no mínimo um pouco de todos nós, quando não é uma porção rejeitada em nós.
Ensaio Acerca dos Sintomas Simbólicos 125

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ENSAIOS ACERCA DO SINTOMA SIMBÓLICO


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