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Encontro NÍVEIS DE ANSIEDADE E DEPRESSÃO EM

Revista de Psicologia
GRADUANDOS DA UNIVERSIDADE DO ESTADO
Vol. 16, Nº. 25, Ano 2013
DO RIO DE JANEIRO (UERJ)

Mara Sizino da Victoria


Universidade Veiga de Almeida
RESUMO
marasizino@yahoo.com.br

O ingresso à universidade pode se apresentar como uma situação


Aline Bravo ameaçadora, pois é uma fase adaptativa onde o jovem terá mais
Anne Katherine Felix responsabilidades, podendo desencadear ansiedade e depressão.
Embora no Brasil haja escassez de estudos epidemiológicos sobre a
Bruna Gomes Neves morbidade psiquiátrica, estima-se que entre 15% a 25% de estudantes
Caroline Basile Rodrigues sofrem algum transtorno. Neste sentido, este estudo buscou identificar
a sintomatologia de ansiedade e depressão numa amostra de
Celerina Cristina Pereira Ribeiro universitários na cidade do Rio de Janeiro. Participaram da pesquisa
Dayanne Canejo 637 alunos de graduação, pertencentes a diversos cursos. Os alunos
responderam aos Inventários de Ansiedade e Depressão de Beck.
Débora Coelho
Foram feitas comparações entre os tipos de curso, gênero e área de
Débora Sampaio conhecimento. Todos os resultados apresentaram diferença estatística
Ildiana Martins Esteves significativa (p<0,05). Apesar de nenhum curso sugerir níveis graves de
ansiedade e depressão, a Odontologia obteve escores mais elevados na
Juliane Alves da Silva ansiedade, e Letras na depressão. Os cursos com escores mais baixos
Ludmila Marotta nas duas variáveis foram História e Oceanografia.
Marceli de Souza Rosa Palavras-Chave: ansiedade; depressão; cursos de graduação; BDI; BAI.
Mayra Yumi Ribeiro
Natasha da Silva Santos
ABSTRACT
Taís de Brito Barbosa
Thamiris Marques da Silva The access to the university can be turned into a threatening situation.
Thatiana Moreira de Brito Because it is an adaptive stage, in which young student will face more
responsibilities, there is the possibility of anxiety and depression
Vanessa da Cunha Santos initiation. Although there is a lack of epidemiological studies about
Vanessa Lima psychiatric morbidity, it is estimated that 15% to 25% had some kind of
disorder. In that sense, this study sought to identify the
Wanessa Porto Saltoris
symptomatology of anxiety and depression in a university students
Universidade do Estado do sample at Rio de Janeiro. About 637 undergraduate students of diverse
Rio de Janeiro – UERJ courses participated in the research. The Beck’s Anxiety and Depression
Inventories were answered by the students. There were made
comparisons among course types, gender and knowledge areas. All
results showed significant statistical differences (p<0,05). Despite any
course suggest serious levels of anxiety and depression, Dentistry
Anhanguera Educacional Ltda. showed higher anxiety scores and Letters higher in depression. The
courses with the lower scores were History and Oceanography.
Correspondência/Contato
Alameda Maria Tereza, 4266
Valinhos, São Paulo Keywords: anxiety; depression; undergraduate courses; BDI; BAI.
CEP 13.278-181
rc.ipade@anhanguera.com
Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Artigo Original
Recebido em: 16/07/2012
Avaliado em: 23/08/2012
Publicação: 18 de dezembro de 2013 163
164 Níveis de ansiedade e depressão em graduandos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

1. INTRODUÇÃO

Muitos universitários desenvolvem transtornos psiquiátricos durante a vida acadêmica,


desde o momento em que ingressam na graduação até finalizá-la. Embora no Brasil haja
escassez de estudos epidemiológicos sobre a morbidade psiquiátrica, o número estimado
de estudantes que sofrem algum transtorno é de 15% a 25%. Dentre esses, os mais comuns
são os transtornos de ansiedade e de depressão. Fatores presentes na vida acadêmica,
como a intensa carga horária de estudo exigida por certos cursos e a forte cobrança dos
professores nas disciplinas contribuem para tais transtornos. Além disso, a mudança
brusca de realidade que os estudantes sofrem ao iniciarem a faculdade, a insegurança que
muitos enfrentam quanto as suas qualificações no momento em que concluem seu curso, a
exigência cada vez maior do mercado de trabalho e as inúmeras situações de conflitos
sociais que antes não conheciam são fatores que levam a um sentimento de incapacidade
neste grupo (CAVESTRO; ROCHA, 2006; CATUNDA; RUIZ, 2008).

Uma pesquisa realizada por Cerchiari, Caetano e Faccenda (2005) constatou a


prevalência de 29% de distúrbios psicossomáticos como principal problema de saúde
mental dos estudantes universitários, seguido por tensão ou estresse psíquico, com 28% e
falta de confiança em seu próprio desempenho e eficácia, como 26%. Este último seria o
propulsor dos demais, visto que a falta de confiança desencadearia o estresse que se
representaria no corpo através dos sintomas psicossomáticos, demonstrando a dificuldade
dos estudantes em externar suas emoções.

Alterações no sono-vigília são também frequentes em universitários. É comum os


estudantes apresentarem características de um sono irregular, normalmente caracterizado
pela longa duração de sono durante o final de semana e a curta duração do mesmo nos
demais dias. O equilíbrio do ciclo sono-vigília pode ser abalado por mudanças na jornada
de trabalho, em fusos horários ou atividade noturna. Evidências comprovam a relação
entre este padrão de sono com os níveis de ansiedade na vida do graduando. Este sinal de
alerta é acionado quando o corpo toma conhecimento de algum conflito interno, e passa a
então adotar medidas para prevenir esta ameaça (ALMONDES; ARAÚJO, 2003).

A ansiedade na expectativa de provas é também uma vilã comprovada que leva


ao baixo desempenho acadêmico nas universidades. O estudo de Hernandez-Pozo,
Álvarez, Contreras e Reséndiz (2008) comprova que esta ansiedade é gerada pela
preocupação de fracasso nas avaliações.

Neste sentido, muitos autores defendem que os universitários apresentam fatores


que causam estresse mais que outros grupos populacionais. No início do curso, por

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exemplo, o aluno enfrenta a transição para uma nova forma de vida estudantil, com um
grande volume de informações adquiridas rapidamente, uma carga horária mais rígida e
uma maior responsabilidade, pois o estudo destina-se a formação de sua carreira.
Baseando-se nessa idéia, também se notam fatores de estresse no fim do curso, onde o
aluno começa a pensar sobre sua competência e preocupa-se com sua colocação no
mercado de trabalho, seu possível sucesso ou fracasso. Sendo assim, o nível de ansiedade
e depressão varia conforme a época do curso em que o aluno se encontra – início, meio ou
fim (CAVESTRO; ROCHA, 2006). Portanto, o presente estudo investiga o grupo de
estudantes do meio do curso, i.e., estudantes não iniciantes e nem formandos. Dessa
maneira, os universitários são um grupo de indivíduos de grande relevância para se
estudar esses transtornos. As diferentes áreas dos cursos universitários podem apresentar
níveis distintos de ansiedade e depressão, sendo que pesquisas sugerem que os
estudantes da área de exatas apresentam menor nível de ansiedade do que os de ciências
humanas (BANDEIRA et al., 2005).

O objetivo deste artigo é avaliar os graduandos da UERJ, verificando se existem


diferenças nos escores de ansiedade e depressão segundo o tipo de curso, gênero e por
área de conhecimento, a saber: Biomédicas, Ciências Sociais, Educação e Humanidades,
Tecnologia e Ciência. Além disso, este artigo analisa a relação entre as variáveis ansiedade
e depressão através do índice de correlação.

2. MÉTODO

Participantes
Participaram da pesquisa 637 alunos de graduação da UERJ, de ambos os gêneros,
selecionados aleatoriamente, idade média de 22,04 (DP= 2,92), pertencentes aos cursos de
Medicina, Odontologia, Nutrição, Serviço Social, História, Direito, Pedagogia, Letras
(Português/Literaturas), Educação Física, Engenharias (Civil, Elétrica e Mecânica), Física
e Oceanografia.

Para análise, os cursos foram agrupados segundo a classificação da UERJ, a


saber: (1) Medicina, Odontologia e Nutrição são cursos da “Biomédicas”; (2) Serviço
Social, História, Direito são das “Ciências Sociais”; (3) Pedagogia, Letras e Educação Física
são da “Educação e Humanidades”; (4) Engenharias, Física e Oceanografia são da
“Tecnologia e Ciência”.

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O tamanho da amostra por curso foi calculado baseado na proporção de entrada


dos alunos no vestibular 2009, seguindo a Tabela da UERJ1. Foram excluídos graduandos
que estavam cursando o 1º período e o último período.

Instrumento e Procedimentos
Foram utilizados dois Inventários – o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) e o
Inventário de Depressão de Beck (BDI) – e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O BAI é um instrumento de autoavaliação desenvolvido por Beck et al. (1988)


para avaliar ansiedade. O BAI é um conjunto de 21 afirmativas sobre sintomas comuns de
ansiedade, no qual o participante deve identificar o quanto tem sido incomodado por
cada sintoma durante a última semana, incluindo o dia da aplicação.

O participante deve, então, marcar com um “X” a opção que mais se adequa ao
que sente numa escala de intensidade com 4 opções: absolutamente não, levemente (não
me incomodou muito), moderadamente (foi muito desagradável, mas pude suportar),
gravemente (dificilmente pude suportar).

A avaliação do BAI é somatória, sendo a sintomatologia mais forte quanto maior


o escore obtido. A soma dos escores individuais fica entre 0-63, sendo que cada afirmativa
pode obter um resultado de 0-3. A classificação dos escores é feita segunda a escala de 0-
10, Mínimo; 11-19, Leve; 20-30, Moderado; e 31-63, Grave.

O BDI é um instrumento de autoavaliação desenvolvido por Beck et al. (1961)


para avaliar a depressão. O BDI é um conjunto de 21 grupos de afirmativas sobre
sintomas comuns de depressão, no qual o participante deve identificar o quanto tem sido
incomodado por cada sintoma durante a última semana, incluindo o dia da aplicação. Os
sintomas variam numa intensidade de 0 a 3. Os itens da escala referem-se a: humor,
pessimismo, sensação de fracasso, falta de satisfação, sentimentos de culpa, punição,
descontentamento pessoal, auto-acusação, tendências suicidas, choro, irritabilidade,
afastamento social, indecisão, distúrbios do sono, cansaço, perda do apetite, perda de
peso, preocupações somáticas e perda da libido.

A avaliação do BDI é feita somando os escores, e os classificando em 0-11,


Mínimo; 12-19, Leve; 20-35, Moderado; e de 36-63, Grave. O BDI pode ser usado para
triagem em população geral, utilizando-se um escore de 18 a 19 pontos como indicativo
de possível depressão.

1 Disponível em: <http://www2.datauerj.uerj.br/tabela.php?nometabela=QUADRO_014&bd=datauerj>.

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Os dois Inventários foram validados para a língua portuguesa, tendo


demonstrado características psicométricas satisfatórias (CUNHA, 2001).

Todos os participantes leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e


Esclarecido e responderam individualmente os Inventários na UERJ. Cada participante
recebeu o material na seguinte ordem: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, BAI e
BDI.

3. RESULTADOS

Os resultados foram analisados através do pacote SPSS 13.0 para Windows. Nos testes
estatísticos foi utilizado nível de significância de 0,05.

3.1. Estatística descritiva por curso de graduação


De acordo com os dados, o curso com maior nível de ansiedade é o de Odontologia com
média de 14,74 (DP=10,85), seguido de Serviço Social com média de 13,10 (DP=10,46) e o
de menor nível de ansiedade é o curso de Oceanografia com média de 7,11 (DP=6,04),
próximo do curso de História com média de 7,83 (DP=6,23).

O curso com maiores escores no BDI é o de Letras com média de 11,59 (DP=9,10),
seguido de Pedagogia, com média de 11,13 (DP=7,19). Os cursos com menores escores no
BDI são o de História, com média de 4,92 (DP=3,26), próximo do curso de Oceanografia,
com média de 5,46 (DP=4,02).

Os resultados da estatística descritiva dos doze cursos de graduação encontram-


se na Tabela 1, com média e desvio padrão (DP).

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Tabela 1. Estatística descritiva por curso de graduação.

3.2. Estatística descritiva por gênero

O número de participantes do gênero feminino é maior que o de homens (N feminino =


344; N masculino = 293) e nota-se que elas apresentam escores mais elevados que os
homens. A média do gênero feminino no BAI foi de 11,85 (DP=8,81) e no BDI = 9,53
(DP=6,65).

No gênero masculino a média do BAI foi de 8,12 (DP=6,93) e no BDI foi de 7,24
(DP=6,21). A Tabela 2 mostra os resultados por gênero.

Tabela 2. Estatística descritiva por gênero.

3.3. Estatística descritiva por área de conhecimento

Segundo a classificação por área de conhecimento, o nível de ansiedade é maior em


Educação e Humanidades, com média de 11,99 (DP=9,38), seguido de Biomédicas com

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11,83 (DP=8,53), Ciências Sociais com 9,77 (DP=7,33) e Tecnologia e Ciência com média de
7,97 (DP=6,67).

Em relação ao nível de depressão, a ordem segue a mesma para a ansiedade:


Educação e Humanidades com média de 10,50 (DP=7,96), Biomédicas com 8,26 (DP=5,51),
Ciências Sociais com média de 7,99 (DP=5,24) e, por último, Tecnologia e Ciência com 6,68
(DP=5,17). A Tabela 3 mostra os resultados da estatística descritiva por área de
conhecimento.

Tabela 3. Estatística descritiva por área de conhecimento.

3.4. Correlação de Pearson por curso

As correlações entre BAI e BDI foram significativas em quase todos os cursos, com
exceção dos cursos de Medicina (r=0,26) e Serviço Social (r=0,37). Entre as correlações
significativas, todas são positivas, a saber: Odontologia (r=0,70; p<0,05); Nutrição (r=0,64;
p<0,01); Educação Física (r=0,58; p<0,05); Engenharias (r=0,55; p<0,05); Pedagogia (r=0,54;
p<0,05); Direito (r=0,49; p<0,05); História (r=0,48; p<0,01); Letras (r=0,41; p<0,05);
Oceanografia (r=0,38; p<0,05); Física (r=0,25; p<0,01). A seguir a Tabela 4 de correlações
por tipo de curso de graduação.

Tabela 4. Correlação de Person por curso de graduação.

* Correlação é significativa ao nível de 0,01 (bicaudal).


** Correlação é significativa ao nível de 0,05 (bicaudal).

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3.5. Correlação de Pearson por gênero

De acordo com os resultados, o índice de correlação foi significativo, positivo e maior no


gênero feminino (r=0,49; p<0,01) que no gênero masculino (r=0,45; p<0,01), como mostra a
Tabela 5.

Tabela 5. Correlação de Pearson por gênero.

** Correlação é significativa ao nível de 0,01 (bicaudal).

3.6. Correlação de Pearson por área de conhecimento

A análise de correlação demonstra que nas quatro áreas foram significativas e positivas, a
saber: Biomédica (r=0,57; p<0,01); Educação e Humanidades (r=0,49; p<0,01); Ciências
Sociais (r=0,46; p<0,01); Tecnologia e Ciência (r=0,40; p<0,01). A Tabela 6 mostra as
correlações por área de conhecimento.

Tabela 6. Correlação de Pearson por área de conhecimento.

** Correlação é significativa ao nível de 0,01 (bicaudal).

3.7. Análise da Variância (ANOVA)

A ANOVA revela que existe diferença significativa entre os doze cursos de graduação e
nas quatro áreas de conhecimento da UERJ, tanto no BAI como no BDI, pois o p-valor
<0,01, como consta na Tabela 7.

Tabela 7. ANOVA - Cursos de graduação e áreas de conhecimento.

3.8. Teste t de Student para amostras independentes (teste t)

A comparação por gênero através do teste t sugere diferença estatisticamente significativa


no BAI e no BDI, pois o p-valor <0,05, mostrada na Tabela 8.

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Tabela 8. Teste-t – gênero.

4. DISCUSSÃO

O estudante universitário está suscetível a diferentes situações de ansiedade e depressão


em seu cotidiano acadêmico, tanto com a exigência da própria instituição de graduação
devido à quantidade de disciplinas a serem cursadas e a concorrência pelo mercado de
trabalho, como também familiar, que acrescenta o temor do fracasso profissional e
prestígio. Em nossa pesquisa, realizamos três divisões de análise – por tipo de curso, por
gênero e por área de conhecimento.

Apesar de todos os cursos apresentarem escores médios abaixo do nível


moderado e grave na ansiedade e na depressão, o curso de maior índice de ansiedade foi
o de Odontologia com média de 14,74 e maior de depressão foi o de Letras com 11,59. O
dado de Odontologia sugere que a exposição direta a um ambiente com forte tensão
emocional e longas jornadas de trabalho, o período de transição do treinamento pré-
clínico para o clínico, e a saída do ambiente de estudo para o de trabalho são os principais
fatores que constituem os momentos mais significativos de estresse nos estudantes de
saúde. Aguiar (2007) alerta para a saúde mental dos profissionais de saúde como um
grande motivo de preocupação desde o inicio do século. Segundo ele, há evidências que
estudantes de Medicina e Odontologia têm risco maior que a população em geral de
apresentarem sofrimento psíquico e/ou transtornos mentais, além de serem mais
vulneráveis aos efeitos do estresse. Para Cavestro e Rocha (2006), essa população de
estudantes apresenta um número de depressivos correspondente entre 8% e 17%. Os
dados encontrados em nossa pesquisa confirmam os níveis de ansiedade para
Odontologia, mas não encontram paralelo para o curso de Medicina, que obteve média de
9,19 para o BAI e 7,95 para o BDI.

Em relação ao curso de Letras, o índice mais elevado de depressão pode ser


justificado por se tratar geralmente de alunos que exercem a docência, preocupam-se mais
com relações interpessoais, podendo favorecer uma maior sensibilidade e vulnerabilidade
às questões emocionais. Numa pesquisa feita com 200 estudantes de uma Universidade
privada do Rio Grande do Sul, realizada por Brandtner e Bardagi (2009), alunos dos
cursos de Letras e Psicologia também apresentaram níveis maiores de depressão se

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comparados aos de Educação Física, Engenharia de Alimentos e Administração,


utilizando o mesmo Inventário.

Os menores valores médios de ansiedade e depressão são encontrados nos cursos


de História e Oceanografia, com médias, de 7,83 e 7,11 no BAI e 4,92 e 5,46 no BDI,
respectivamente. Isso pode ser causado pelo fato destes cursos apresentarem demandas
acadêmicas menos intensas, em comparação ao curso de Odontologia, por exemplo.

No que se refere ao gênero, nosso estudo sugere uma diferença estatística, e os


maiores índices no BAI e BDI são encontrados em mulheres, com média, respectivamente,
de 11,85 e 9,53. Nos homens, a média do BAI foi de 8,12 e no BDI de 7,24. Muitas
pesquisas confirmam estes resultados; por exemplo, Fonseca, Coutinho e Azevedo (2008),
num estudo com universitários no ano de 2003, apontaram um índice superior nas
mulheres com idade média de 20 anos e predominância de 97% de depressão, utilizando o
BDI. Tendo uma amostra de 99 estudantes, 41% das mulheres tiveram variação de leve até
grave no grau de depressão, com sintomas constantes de fadiga, irritabilidade e
autoacusação. A sobrecarga emocional, a intensa rotina da mulher que se inseriu no
mercado de trabalho, mas ainda continua sendo a principal responsável por cuidar da
casa, da família e de si mesma, somado a sensação de não dar conta de todas as tarefas
são os principais fatores da diferença de gênero. Bangasser et al. (2010) afirmam que os
motivos não são só históricos e culturais. Segundo os autores, as mulheres são duas vezes
mais vulneráveis que os homens aos transtornos relacionados ao estresse em função de
razões biológicas. Ao estudar a sinalização do estresse em cérebro de animais, os
pesquisadores descobriram que as fêmeas são mais sensíveis a níveis baixos de um
importante hormônio do estresse – a corticotropina – e menos capazes de lidar com altos
níveis que os machos. A liberação deste hormônio é o responsável por organizar as
respostas ao estresse em mamíferos.

Para Andrade, Viana e Silveira (2006), a diferença de gênero começa a sobressair-


se no início da adolescência entre os 11 e 14 anos, devido às diferenciações hormonais. São
evidenciadas diversas explicações para essa diferença nos resultados relacionados ao
gênero, entre elas as argumentações biológicas e culturais: nas primeiras, o estrogênio age
na oscilação do humor, tendo diferenciações desde a menarca até a menopausa. As
segundas seriam o assentimento cultural do medo e comportamento de fuga em
mulheres, tendo diferença nos padrões adaptativos. De acordo com Fonseca, Coutinho e
Azevedo (2008), indivíduos do gênero feminino associam a depressão à carência afetiva e
às questões subjetivas; já os pertencentes ao gênero masculino associam sintomas
depressivos aos aspectos físicos e com questões objetivas.

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A comparação por áreas de conhecimento revela que os escores médios no BAI e


BDI têm a mesma ordem no ranking – a área de Educação e Humanidades (BAI=11,99;
BDI=10,50), seguida de Biomédicas (BAI=11,83; BDI=8,26), Ciências Sociais (BAI= 9,77;
BDI= 7,99) e Tecnologia e Ciência (BAI= 7,97; BDI= 6,68).

As áreas de Educação e Humanidades e Biomédicas mostram valores próximos e


os cursos investigados nesta pesquisa foram: Pedagogia, Letras e Educação Física;
Medicina, Odontologia e Nutrição. Mesmo os escores estando dentro da média
considerada normal na pontuação dos Inventários, pode-se perceber que os estudantes
destas áreas têm um estado de ansiedade e depressão mais elevado que as outras. A
responsabilidade de formação de alunos, a rotina do ensino muitas vezes estressante e
cansativa, a falta de infraestrutura nas condições de trabalho, a extensa jornada de
trabalho e a falta de perspectiva financeira podem ser fatores que elevam os índices de
ansiedade e depressão das categorias profissionais de Educação e Humanidades. Em
Biomédicas, o contato com pacientes debilitados, o treinamento clínico e a grade
curricular com altas demandas podem ser estímulos para distúrbios emocionais. Segundo
Abrão, Coelho e Passos (2008), os profissionais de Biomédicas são os mais propensos a
desenvolver transtornos emocionais e estes são a principal causa de colapsos suicidas.
Ferreira et al. (2009), confirmam os resultados encontrados em nossa pesquisa, pois as
áreas de Humanística e Biomédica também se destacaram com níveis mais altos de
ansiedade em graduandos, se comparado à área Tecnológica.

As correlações significativas entre ansiedade e depressão variaram de 0,25 a 0,70.


A ansiedade costuma estar estreitamente associada aos sintomas de depressão e os
valores das correlações positivas revelam que o aumento de uma variável leva ao
aumento da outra. Estes construtos são considerados independentes, contendo
propriedades particulares, mas é reconhecida a sobreposição entre a ansiedade e
depressão tanto do ponto de vista da saúde mental como do ponto de vista estatístico,
indicando certa tendência de causalidade entre os mesmos. O valor médio de correlação
indica intensidade moderada para sintomas ansiosos e depressivos, semelhante ao estudo
realizado por Montiel et al. (2005), que encontrou, numa amostra clínica, escore de 0,57. O
resultado indica que, embora seja possível verificar sintomas comuns entre a ansiedade e
a depressão, estas permanecem guardando aspectos específicos, próprios de cada uma.

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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O ingresso à universidade pode apresentar como uma situação ameaçadora, pois é uma
fase adaptativa em que o jovem adulto terá mais responsabilidades, podendo ficar mais
ansioso e depressivo.

Este estudo buscou identificar a sintomatologia de ansiedade e depressão em


uma ampla amostra de universitários no Rio de Janeiro. Segundo Cavestro e Rocha (2006),
a maioria dos estudos relacionando os transtornos psiquiátricos com alunos universitários
foi realizada com estudantes de Medicina; portanto, este estudo expande os dados até
então existentes sobre o tema.

A ansiedade e depressão são patologias psíquicas que afetam as diversas áreas da


vida do indivíduo, não havendo restrição de gênero e idade para a obtenção da mesma.
Estes transtornos têm atingido grandes proporções e mostram-se cada vez mais presente
na vida dos sujeitos, o que traz preocupações e tem exigido por parte dos atuantes da área
de saúde e adjacentes um estudo mais preciso acerca do tema. Na fase em que os
universitários se encontram podem surgir ideias de desânimo e angústia, marcada pela
sobrecarga de responsabilidade com o meio acadêmico, além de ser um momento em que
os estudantes criam grandes expectativas acerca do que se espera do mundo profissional.
A preocupação e insegurança com a nova fase que se inicia e que traz uma realidade
diferente do habitual, cheio de novidades e que exige destes uma postura madura podem
desencadear graves transtornos.

A ansiedade e depressão têm sido foco de interesse de muitos estudiosos e


ultimamente tem se destacado como questão de saúde pública. Segundo a OMS (2003), até
2020 a depressão será a segunda moléstia que mais afetará populações de países
desenvolvidos e em desenvolvimento, e é a quarta doença que mais exige tempo de
internação em leitos de hospitais. Neste sentido, compreender os níveis de ansiedade e
depressão é um passo necessário para auxiliar medidas alternativas de saúde.

Através da presente pesquisa foi possível verificar que, dos cursos pesquisados,
nenhum apresentou pontuação suficiente para diagnóstico de ansiedade, moderada ou
grave, e depressão; mas em futuras pesquisas é necessário investigar outros cursos de
graduação e incluir novos instrumentos ou técnicas de avaliação para que se possa traçar
melhor a influência de outros fatores, tais como: fatores socioeconômicos, estado civil,
interações familiares etc. objetivando maior compreensão do contexto pesquisado.

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REFERÊNCIAS
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Encontro: Revista de Psicologia • Vol. 16, Nº. 25, Ano 2013 • p. 163-175