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A esquizofrenia e discussão sobre

inimputabilidade e semi-
imputabilidade
http://hugohlf.jusbrasil.com.br/artigos/129735831/a-esquizofrenia-e-discussao-

sobre-inimputabilidade-e-semi-imputabilidade

Publicado por Hugo Henrique Leão de Freitas

há 2 anos

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Ethiene Gomes de Lima[1] Higor Rafael Tanajura[2] Hugo


Henrique Leão de Freitas[3] Marcos Vinícius Borges de
Souza [4] Orientadora: Profª Me Regina Maria de Souza[5]
Sumário: Resumo; Introdução; Características do indivíduo
esquizofrênico; Imputabilidade, inimputabilidade e semi-
imputabilidade; considerações finais; referências.
Resumo
Os aspectos de maior destaque apresentados ao longo do
desenvolvimento deste trabalho conferem ênfase a aspectos
como a discussão relevante que existe no âmbito penal com
relação ao esquizofrênico e as hipóteses de quando este será
considerado imputável, inimputável ou semi-imputável.

Palavras-chave: Esquizofrenia, inimputabilidade e semi-


imputabilidade.
1 Introdução
Hoje, a esquizofrenia tem uma alta relevância na discussão no
âmbito penal. Especificamente, quando o indivíduo
esquizofrênico será considerado inimputável ou semi-
imputável. O Código Penal não especifica o conceito de
imputabilidade, mas, de forma indireta, pelas características
da inimputabilidade, é possível saber os requisitos necessários
para que o agente possa ser considerado imputável. Quanto à
inimputabilidade e a semi-imputabilidade, o Código
Penal menciona as suas hipóteses. (ROCQUE; JUNIOR; LIMA,
2010)
O Esquizofrênico tem o seu contato com a realidade totalmente
distorcido, agindo de forma que faz com que, geralmente, se
enquadre nos casos de inimputabilidade e, em algumas
situações, nos casos de semi-imputabilidade. É importante
observar que para o agente ser considerado inimputável é
necessário que a pessoa não tenha capacidade de discernir a
conduta ilícita, bem como a existência de um problema mental.
Cumpre ressaltar que para tal decisão de ser considerado
imputável ou não, há de se considerar o trabalho dos
psicólogos forenses, bem como do juiz que irá requerer o
exame de insanidade mental, onde será realizado um laudo
técnico sobre as condições do agente no momento do fato
delituoso. (ROCQUE; JUNIOR; LIMA, 2010)

2.1 Características do indivíduo esquizofrênico


Resumidamente, a esquizofrenia se define como uma doença
psiquiátrica que não tem cura (endógena) e diagnosticada
como um quadro de ampla desorganização cerebral, em que a
pessoa perde totalmente o contato com a realidade. Para
Foucault, a esquizofrenia caracteriza por:

Uma perturbação na coerência normal das associações – como


um fracionamento do fluxo do pensamento – e por outro lado,
por uma ruptura do contrato afetivo com o meio ambiente, por
uma impossibilidade de entrar em comunicação espontânea
com a vida afetiva do outro (FOUCAULT, 1998, p.8)

Os sintomas da esquizofrenia costuma ter seu pico aos 25 anos


para o homem e, para a mulher, por volta dos 29/30 anos,
variando as características da doença de um paciente para
outro. Porém, em sua grande maioria o inicio se dá com o
indivíduo se isolando do convívio social, passando a descuidar
de sua aparência e vive num mundo apartado, ligado somente
as suas fantasias e imaginações. Posteriormente, passa a ter
delírios e alucinações, onde os seus sentidos e estímulos
sensoriais entram em conflito com a realidade. Basicamente, o
delírio se caracteriza por uma visão distorcida da realidade. O
mais comum, na esquizofrenia, é o delírio persecutório, isto é,
o indivíduo passa a acreditar que está sendo perseguido e
observado por pessoas que tramam alguma coisa contra ele.
(SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A, 2007)

Algumas vezes, os delírios são bizarros. Por exemplo, acreditar


que um vizinho está controlando o seu comportamento através
de ondas magnéticas; que instalaram câmeras de vídeo em sua
casa para descobrirem o que faz a fim de prejudicá-lo, ou que
os seus pensamentos estão sendo irradiados para os outros. Já
as alucinações caracterizam-se por uma percepção que ocorre
independentemente de um estímulo externo. As alucinações
podem ser auditivas, visuais, olfativas, gustativas e táteis, mas
a mais comum e característica da Esquizofrenia, é a auditiva.
Podemos citar como exemplo quando o doente escuta vozes,
que dão ordens e comentam o que ele faz. São vozes
imperativas que podem levá-lo ao suicídio, mandando que pule
de um prédio ou de uma ponte. O paciente entra então numa
chamada “mania de perseguição”, acreditando que tudo que
acontece no meio em que ele vive diz respeito a ele. (SADOCK,
B. J.; SADOCK, V. A, 2007)

Verifica-se que na esquizofrenia estão presentes sintomas


positivos e negativos. Os sintomas positivos representam,
basicamente, os delírios e alucinações e são considerados
positivos pelo fato de responderem bem ao tratamento. Os
sintomas negativos, por sua vez, ocorrem mais no íntimo das
pessoas e causam menos impacto nos outros. É o caso do
indivíduo que, certo dia, não vai trabalhar, não avisa ninguém
e passa o dia todo deitado, tomando café e fumando. O seu
mundo afetivo se fecha completamente, não se importando
mais com algo que se importava anteriormente. Segundo
Abreu e Gil, sintomas negativos:

[...] sintomas negativos caracterizam-se por pobreza de


conteúdo de pensamento e fala, embotamento afetivo,
isolamento, apatia, anedonia, falta de persistência em
atividades laborais e escolares, déficit na atenção, negligência
com cuidados pessoais [...] (ABREU; GIL, 2003. P. 374).
Esses sintomas são considerados negativos pelo fato de não
responderem ao tratamento de forma tão eficaz quanto os
sintomas positivos. Apesar de a esquizofrenia ser uma doença
sem cura, se tratada precocemente, acaba impedindo que a
doença provoque danos mais sensíveis na personalidade do
paciente. Claro que isso só é possível graças ao bom
desenvolvimento dos medicamentos na última década, que
proporcionam aos doentes uma melhor qualidade de vida.
Além disso, esses medicamentos atuam diminuindo os
sintomas, controlando as crises, buscando impedir o
desenvolvimento da doença e procurando fazer com que os
pacientes restabeleçam o contato com a realidade, evitando,
assim, que o esquizofrênico abandone sua rotina de vida, os
estudos, sua atividade profissional, preservando a estrutura
socioeconômica que melhora muito o prognóstico. (SADOCK,
B. J.; SADOCK, V. A, 2007)

Os pacientes que respondem bem ao tratamento podem


beneficiar-se participando de diferentes programas que vão
ajudá-lo a reintegrar-se na sociedade. São programas que
incluem desde terapia cognitiva específica para transtornos
esquizofrênicos a fim de ensiná-los a lidar com os sintomas e a
doença, até um treinamento de profissionalização para aqueles
que não conseguem retomar as atividades que exerciam antes
ou treinamento em oficina abrigada para ajudá-lo a reintegrar-
se na sociedade. O tratamento ideal é sempre o que
proporciona melhor reintegração social do paciente. (SADOCK,
B. J.; SADOCK, V. A, 2007)

2.2 Imputabilidade, inimputabilidade e semi-


imputabilidade
No Brasil, a imputabilidade adquire-se aos 18 anos e
representa a capacidade que o agente tem de ser
responsabilizado criminalmente pelos seus atos, uma vez que o
homem possui a vontade como norte de suas condutas.
Restando então ao direito, saber se no momento do crime, o
sujeito tinha plenas condições de entender o caráter ilícito dos
seus atos, para que depois possa ser apontado como autor do
crime. Neste sentido, Capez (2006) afirma que:
A imputabilidade apresenta, assim, um aspecto intelectivo,
consistente na capacidade de entendimento, e outro volitivo,
que é a capacidade de comandar a própria vontade. Faltando
um desses elementos, o agente não será considerado
responsável pelos seus atos (CAPEZ, 2006, p. 273).
Portanto, a imputabilidade exige o controle de dois aspectos:
a capacidade de entender o ato que está se praticando e a
possibilidade da pessoa ter a faculdade de comandar a sua
própria vontade. Suponhamos, por exemplo, que uma
determinada pessoa A está sendo ameaçada por criminosos,
para que mate uma pessoa B, ou então sua vida seria tirada.
Por medo, A mata B, contra sua própria vontade. Neste caso,
apesar de A entender que cometeu um crime, falta a
capacidade de poder comandar sua própria vontade. Desta
forma, A não pode ser considerado imputável por um crime
que cometeu contra sua própria vontade.;
Quanto à inimputabilidade, o Código Penal no seu artigo 26 diz
que:
Art. 26: É isento de pena o agente que, por doença mental ou
desenvolvimento mental incompleto ou retardo era, ao tempo
da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o
caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento;

O Código Penal no artigo 27 e no artigo 28, parágrafo único,


ainda menciona o menor de 18 anos e a embriaguez
involuntária como casos de inimputabilidade. Percebe-se,
portanto, que, pelo Código Penal, o inimputável é o indivíduo
que não é capaz de responder por atos penalmente
praticados. Se o fato criminoso foi produzido por uma pessoa
que não tem condições de entender o caráter ilícito de sua
conduta, a consequência natural é a absolvição do agente, eis
que falece um dos elementos que compõem a estrutura do tipo
penal, qual seja, falta da culpabilidade, sendo considerado
inimputável. Porém, quando o crime for punível com
reclusão, o juiz determinará sua internação (CP, art. 97,
caput, 1.ª parte). Se o crime for punido com detenção, poderá
o agente ser submetido a tratamento ambulatorial.
Já a semi-imputabilidade é quando o agente era, à época do
delito, parcialmente capaz de entender o caráter criminoso do
fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Segundo o art. 26,parágrafo único, do Código Penal, o semi-
imputável:
Art. 26, parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a
dois terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde
mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou
retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter
ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento.

Podemos verificar que o semi-imputável pode ter sua pena


reduzida de um a dois terços, se comprovados que em virtude
de sua doença mental ou por desenvolvimento mental
incompleto ou retardado, não era inteiramente capaz de
entender o que estava fazendo. Porém, conforme
art. 98 doCódigo Penal:
Art. 98: Na hipótese do parágrafo único do art. 26 deste Código
e necessitando o condenado de especial tratamento curativo, a
pena privativa de liberdade pode ser substituída pela
internação, ou tratamento ambulatorial, pelo prazo mínimo de
1 (um) a 3 (três) anos [...]

Em poucas palavras Gonçalves (2010) explica o artigo


mencionado:

Nas hipóteses de semi-imputabilidade descritas no


art. 26, parágrafo único, do Código Penal, o juiz, em vez de
diminuir a pena privativa de liberdade de 1/3 a 2/3, pode optar
por substituí-la por internação ou tratamento ambulatorial,
caso fique constatado que o condenado necessita de especial
tratamento (GONÇALVES, 2010, p.196).
Pode-se conceituar de forma simples o imputável como sendo
aquele que tem consciência e expressa vontade no ato que
comete o crime. Já o inimputável como aquele que, apesar de
ter cometido o delito, não tinha nenhuma capacidade para
entender o que estava fazendo. E o semi-imputável por aquele
que não era totalmente incapaz de entender o delito que
cometeu, mas sabia do que se tratava. Lembrando que nos dois
últimos casos, são necessárias a presença de uma doença
mental ou um desenvolvimento mental incompleto ou
retardado.

3 Conclusão
Ao término do desenvolvimento dos tópicos que compõe este
trabalho foi possível concluir que existem discussões sobre
quando o esquizofrênico será considerado imputável,
inimputável ou semi-imputavel. O Artigo 26do Código
Penal trata da inimputabilidade quando o agente infrator não
tiver capacidade de entender o delito que cometeu, seja por
doença mental ou desenvolvimento mental incompleto.
Geralmente, o esquizofrênico é considerado inimputável, por
se enquadrar na hipótese de doença mental e não entender o
delito que estava cometendo.
Por outro lado, o esquizofrênico poderá ser considerado semi-
imputável se em algum momento for comprovado a sua
capacidade de entender que sua doença é um risco para os
outros e, mesmo assim, não tomar as providências cabíveis
para esse risco deixar de existir. Podemos citar como exemplo
o caso de uma pessoa esquizofrênica que é medicada e tem
suas alucinações e delírios controlados e, em determinado dia,
por livre e espontânea vontade, decide parar de tomar a
medicação, mesmo sabendo que poderá estar sujeito a sofrer
novos delírios e alucinações, que restará a possibilidade de
cometer crimes.

Para finalizar, é importante ressaltar que tanto a


inimputabilidade quanto a semi-imputabilidade para ser
provada, é necessário que a presença de um psicólogo forense,
nomeado pelo juiz do processo, que realizará uma perícia
psicológica para saber se o agente, no momento do crime, era
portador de uma doença mental ou desenvolvimento mental
incompleto e qual a sua capacidade para entender o delito que
cometeu.

4 Referências
ABREU, P.; GIL, A. Psiquiatria para estudantes de
medicina. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.
BRASIL. Código Penal. Disponível em:. Acesso em 14 mar.
2014.
CAPEZ, F. Curso de Direito Penal: parte geral. 10ª. Ed. São
Paulo: Saraiva, 2006.
FOUCAULT, M. Doença Mental e Psicologia. Rio de
Janeiro: Folha Carioca Editora, 1998
GONÇALVES, V. E. R. Direito penal: parte geral. 16. Ed. São
Paulo: Saraiva, 2010. P. 196.
ROCQUE, V. L. M.; JUNIOR, J. M. C; LIMA, A. M. A
esquizofrenia no contexto da lei penal. Disponível em:
<http://pt.scribd.com/doc/40767406/A-Esquizofrenia-No-
Contexto-Da-Lei-Penal >. Acesso em 15 mar. 2014.
RODRIGUES, R. E.; BELOMO, V.; GIOVANETTI, F. C.; NETO,
J. M. B. Ocódigo penal e as causas de inimputabilidade.
Disponível em:. Acessso em 15 mar. 2014.
RUSCHEL, A. E. Esquizofrenia, crime e
responsabilidade do Estado. Disponível em:. Acesso em 15
mar. 2014.
SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A. Compêndio de
Psiquiatria – Ciência do comportamento e Psiquiatria
clínica. 9 ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

[1] Graduando em Direito, 1º semestre – Faculdades


Integradas de Santa Fé do Sul

[2] Graduando em Direito, 1º semestre – Faculdades


Integradas de Santa Fé do Sul

[3] Graduando em Direito, 1º semestre – Faculdades


Integradas de Santa Fé do Sul

[4] Graduando em Direito, 1º semestre – Faculdades


Integradas de Santa Fé do Sul
[5] Economista IE/UFU, mestre e doutoranda UNESP/Franca,
membro do Grupo de Pesquisa: Mentalidades e Trabalho: do
local ao global e docente do curso de Direito/FUNEC

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