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Planejamento Urbano

e Meio Ambiente

Autoras

Gilda A. Cassilha
Simone A. Cassilha

2009

Esse material é parte integrante do Aulas Particulares on-line do IESDE BRASIL S/A,
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© 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor
dos direitos autorais.

C345 Cassilha, Gilda A.; Cassilha, Simone A. / Planejamento Urbano


e Meio Ambiente. / Gilda A. Cassilha; Simone A. Cassilha.
— Curitiba : IESDE Brasil S.A. , 2009.
176 p.

ISBN: 978-85-7638-766-4

1. Meio ambiente urbano - Planejamento 2. Planejamento ur-


bano 3. Urbanização 4. Urbanismo - Planejamento I. Título II.
Cassilha, Simone A.

CDD 711.4

Todos os direitos reservados.


IESDE Brasil S.A.
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 • Batel
80730-200 • Curitiba • PR
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Sumário
Questões urbanas | 7
Construindo o panorama da problemática urbana | 7
Elementos constitutivos da base urbana | 10

História urbana | 17
Evolução das cidades | 17
A cidade como conveniência de mercado | 18
Planejamento de cidades | 25
Macrozoneamento urbano | 27

Rede urbana no Brasil | 29


Os municípios e as cidades brasileiras | 29
Lei Orgânica Municipal (LOM) | 33
Rede de cidades | 35

Estatuto da cidade | 41
Constituição de 1988 | 41
Estatuto da Cidade – Instrumentos | 42

Plano Diretor | 51
Plano Diretor | 51
Metodologia para o desenvolvimento do Plano Diretor | 55

Componentes do planejamento | 63
Planejamento municipal | 63
Planejamento urbano | 65
Tamanho das cidades/densidade urbana | 66

A questão ambiental | 73
A questão ambiental no planejamento urbano | 73
Legislação ambiental | 75
Bacias hidrográficas/impactos ambientais | 77

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Zoneamento urbano | 83
Uso do solo/sistema viário/transporte público | 83
O zoneamento de uso e ocupação do solo urbano | 85
Parâmetros urbanísticos | 88

Acessibilidade e mobilidade urbana | 95


Sistema viário | 95
Hierarquia viária | 97
Dimensionamento das vias | 98
Transporte público | 101

Desenho urbano | 107


Desenho urbano | 107
Custos de urbanização | 110
Valor da terra | 111

Legislação de parcelamento do solo | 117


Parcelamento do solo urbano | 117
Aspectos legais | 119
Aspectos locais para o parcelamento do solo urbano | 121

Guetização da cidade | 127


Condomínios horizontais | 127
Legislação para condomínios horizontais | 129
Guetização da cidade | 131

Incorporações imobiliárias | 135


Elementos para a concepção de território | 135
Mercado de terras | 137
Empreendimentos mais adequados | 138

Índices urbanísticos | 145


Ocupação real | 145
Ocupação legal | 146
Áreas para adensamento | 147

Empreendimentos imobiliários | 153


Intervenções urbanísticas | 153
Recuperação urbana | 156
Parcerias na produção do mercado imobiliário | 156

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Apresentação
A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que
deve fazer do seu próprio conhecimento.

Platão

Toda a experiência que se possa ter em relação ao estudo das cidades com certeza não irá ser capaz de defini-la
totalmente.

As cidades, como organismos vivos e complexos, justamente por conter toda a interatividade possível entre os
indivíduos, sejam elas positivas ou negativas, podem transformar o cotidiano das pessoas no maior dos pesadelos ou
na melhor das experiências.

Cada vez que olhamos para as pessoas nas ruas, nas praças, nas lojas, nas escolas, nos ônibus e nos mais variados
compartimentos que a cidade produz, descobrimos mais e mais sobre essa fantástica experiência que é a aglomeração
urbana.

Quando tocamos as mãos das pessoas em algum canto da cidade e podemos ensinar como conservar o meio
ambiente com o simples ato de respeitar a mata ao longo de algum riacho, também estamos “viajando” pelo universo
urbano.

E, por fim, quando convidamos as pessoas para o nosso convívio em nossa casa ou para realizar algum tipo de
negócio, como a venda de um lote ou de uma edificação, sabendo que estes estão em perfeita consonância aos
parâmetros exigidos pela Prefeitura Municipal, estamos nos apropriando dos benefícios da urbanização.

A cidade, porém, não é tão romântica e legal em todos os seus aspectos, pois justamente ao ter que abrigar todas
as pessoas que à ela se dirigem na busca ao atendimento de suas necessidades, pode não ter as respostas imediatas
para isso, e de certa forma pode frustrar as expectativas de determinados grupos de pessoas.

Nós, urbanistas, tentamos deixar essa experiência urbana um pouco mais atenuada ao estudarmos constantemente
o meio urbano, assim como através do planejamento urbano programar melhor as atividades na cidade.

Nesta pequena obra que por ora apresentamos, procuramos deixar um pouco mais claro este universo fantástico
e muito rico do ponto de vista das relações humanas, que é a cidade. Nesta viagem vamos conhecer os aspectos mais
relevantes que precisamos para compreender, inclusive, como podemos planejar a cidade e conservar o meio ambiente.

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História urbana:
evidenciando as diversas
formas que ao longo da história
se constituíram no processo da
formação das cidades

Evolução das cidades

A cidade antiga
Era uma fortaleza, o reduto e abrigo em tempos de guerras e invasões.
As primeiras manifestações a definirem uma cidade como forma de ocupação de um território fo-
ram as plantações perenes, as construções de templos religiosos e as obras de irrigação, disponibilizan-
do água a todos os habitantes. A partir do momento em que o homem começou a dominar a natureza
e usá-la a seu favor, pôde fazer dela um local para sua sobrevivência.
A cidade tornou-se então um local de produção, além de moradia, e assim, com o excedente
gerado, iniciaram-se os mercados como forma de comercialização e troca dos mais diversos produtos,
gerando lucros e riquezas.

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18 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

A convivência em um povoado requeria regras comuns, a fim de garantir a ordem local e auxiliar
na gestão da cidade. Para a formulação dessas regras, deveria haver uma organização política, gerando,
necessariamente, uma hierarquização da sociedade.

A cidade como conveniência de mercado


Quando o nível de produção ultrapassa o da própria subsistência, gerando uma produção exce-
dente, iniciam-se possibilidades de comercialização e troca de mercadorias. Assim, cada indivíduo, como
detentor da produção de determinado produto, passa a se especializar nessa produção. São instituídos
então, nos centros das cidades, os mercados. Essa produção especializada torna-se diferenciada também
entre o campo e a cidade. O campo produz matéria-prima, a qual a cidade transforma em produto. Assim
começa a divisão das áreas e das atividades: no campo, a produção, e na cidade, a transformação e a co-
mercialização.
Iniciam-se as trocas e as es-
encyclop/culture/towns/townint7.html>.
Disponível em: <http://www.the-orb.net/
pecializações entre as cidades. Essas
trocas exigiam que duas ou mais ci-
dades tivessem que ter uma mesma
política em relação ao comércio, e
conseqüentemente economias ur-
banas semelhantes. Na Antiguidade,
isso gerou a união de várias cidades
em um único poder, ou seja, dentro
de um mesmo império.
Ilustração do século XX que retrata, em uma cidade inglesa do século O centro das cidades passa a
XIV, a venda de mercadorias: tecidos à esquerda e alimentos cozidos em
ser o centro de mercado e de con-
bancadas nas casas. O porco à direita é um lembrete da agricultura ainda
sumo. Onde antes apenas se via
presente nas cidades medievais.
acontecer a praça de trocas, passou
a se perceber uma vida pública: a
população se reunia para fazer compras, conversar e passear, além de ter uma maior participação na vida
política.
A partir de um determinado momento as cidades começaram a ser organizadas conforme seus
mercados, sendo também influenciadas pelos mercados das cidades vizinhas. Isso passou a atrair para os
centros urbanos muitas pessoas em busca de produtos e serviços. Camponeses largaram o campo por di-
versos interesses presentes nos grandes centros, em busca das mais diversas atividades e até mesmo pelas
diferentes manifestações artísticas.
A cidade é vista conforme suas atividades econômicas, de acordo com a quantidade de serviços que
oferece, e, além disso, a cidade é o local onde acontecem as mais diversas manifestações, onde ocorre a
reunião de pessoas conforme grupos dos mais diversos interesses.
Uma cidade, para ser considerada como tal, não necessita possuir um número mínimo de habitantes,
pois essas regras variam conforme o país onde se encontram. A real configuração para que determinado
espaço seja considerado como cidade é o tipo de atividade a que se dedicam seus habitantes – atividades

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História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história | 19
se constituíram no processo da formação das cidades

não-agrícolas, a maior densidade demográfica, os serviços oferecidos, a sede do poder político, podendo
ou não oferecer o atendimento às necessidades mínimas de bens e serviços para a população.
Hão de ser analisados diversos aspectos como: noção de espaço (área da cidade), densidade de-
mográfica (relação pessoas x território) e construída (relação metros quadrados construídos x território),
aglomeração, tamanho, emprego e poder.

Linha do tempo

Povos nômades
A subsistência dos povos pré-históricos, co-

Disponível em: <http://sleepwalk.wordpress.com


/category/national-heritage/>.
nhecidos como nômades, dava-se pela caça, pesca
e exploração da natureza. Não produziam modi-
ficação no espaço, somente se adaptavam a ele e
o seu raio de ação, para tanto, deveria ser muito
grande. “A caça e a coleta de alimentos sustenta-
vam menos de quatro pessoas por quilômetro
quadrado” (MUMFORD, 1982, p.17). Os primeiros
traços encontrados de povoados permanentes
foram no período mesolítico, há quinze mil anos.
Esse processo foi se desenvolvendo e, cerca de três
mil anos depois, já no período neolítico, iniciou-se Lepenski Vir, na Sérvia, é um dos principais locais de estudo
o processo de plantio de sementes, com o domínio dos primeiros assentamentos humanos.
do cultivo de grãos e a domesticação e criação de
animais.
Ao dominar a natureza e o posterior domínio da agricultura tornaram possível o estabelecimento
de moradia fixa. Para que isso se realizasse era apenas necessário estar próximo a rios e córregos, permi-
tindo assim a irrigação das plantações e o seu desenvolvimento. A dominação dos processos agrícolas
foi o passo mais importante para que o homem deixasse de ser nômade e pudesse se estabelecer em
um local fixo.
Assim surgem as primeiras aldeias e a idéia de família e vizinhança, com a cooperação entre as
aldeias e a convivência, pacífica ou não, entre as comunidades. Com sua alimentação assegurada e a
moradia fixa, houve aumento significativo da natalidade e redução da mortalidade.
Iniciou-se então um processo de disseminação das aldeias agrícolas. Os homens montados a ca-
valo podiam percorrer distâncias maiores em menor espaço de tempo, e dominar mais e mais terri-
tórios. Outro fator de relevante importância foi o surgimento dos utensílios, da metalurgia, e da roda,
proporcionando o desenvolvimento das carroças puxadas por bois e cavalos.
Inicia-se a diferenciação entre a aldeia e a cidade, representada pelo tamanho, tipologia de ativi-
dades e pelos serviços ofertados. Em uma aldeia ou povoado, apenas se via a agricultura como forma de
exploração da terra. Já na cidade eram oferecidos serviços dos mais variados possíveis, como fabricação de
artefatos, prestação de serviços religiosos e militares, enfim, um espaço baseado no comércio e serviços.

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20 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

Também uma das características mais importantes da cidade primitiva era servir a um Deus po-
deroso. Quando esse poder passa a ser exercido pelo Rei, a cidade começa a ficar mais organizada, e
assim a vida começa a prosperar. Nesse sentido todos os moradores passam a confiar em seu superior
e creditar a ele a prosperidade.
“Os Impérios da Antiguidade foram disseminadores de cidades, pois elas eram pontos de apoio
para manter a supremacia militar nas regiões conquistadas”. (SOUZA, 2005, p. 45).

Há 5 000 anos
Dessa época existem registros das for-
mas de organização política pelos Conselhos

Domínio público.
de Anciãos das aldeias. Esse tipo de organiza-
ção era responsável pelo povoado, criando,
aplicando e julgando regras, expressando o
consenso entre os homens. A idade das pes-
soas, nessa época, era a única capaz de criar
a hierarquização e autoridade dessas socieda-
des.
A localização das cidades se dava nor-
malmente próximas a rios navegáveis ou mes-
mo junto ao mar, pelo fácil transporte e aces-
sibilidade, como os Rios Nilo, Tigre, Eufrates e
Indo. As fortificações e os locais de permanên-
Krak des Chevaliers – Síria. cia para os reis e deuses se desenvolviam no
topo dos morros ou em penhascos, sendo este
um local estratégico e que permitia a visualização de todo o território ao redor.
A cidade era símbolo da riqueza e do poder, e também disputada pela dominação pública. Quem
a ela não pertencesse representava uma imagem de poder inimigo e opressor.
E foi esse domínio de poder e a demasiada busca por ele que se iniciaram as batalhas e guerras
por parte da realeza, na busca de mais territórios. O poder acumulado e os territórios conquistados
eram símbolos de status e poder. As guerras foram estabelecidas e instituídas pelos povos, escravizando
os mais fracos e primitivos. Assim se deu o desenvolvimento da cultura urbana.
Domínio público.

Há 2 000 anos
Nessa época surgiram as cidades com forma
amadurecida, com casas enfileiradas criando espa-
ços de circulação (ruas), canais de drenagem reves-
tidos de tijolos e latrinas internas.
Babilônia foi a maior cidade da Antigüidade,
possuindo mais de quinhentos mil habitantes e gran-
de importância como centro religioso. Por isso foi di-
versas vezes dominada, destruída e reconstruída. Khorsabad – Iraque.

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História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história | 21
se constituíram no processo da formação das cidades

As cidades então deveriam ser fortificadas a fim de garantir sua segurança e a integridade da
população. Eram conhecidas por cidadelas e seus habitantes recebiam o título de cidadãos. Possuíam
muralhas, fossos, baluartes e poderio militar estruturado, assim como um palácio real para a fixação do
rei como responsável por aquele espaço. Outro
aspecto característico dessas cidadelas era a ágo-

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ra ou praça central, onde todos os acontecimen-
tos urbanos ocorriam, além dos vários edifícios
públicos como teatros, estádios, ginásios, centros
educacionais e culturais.
Com o surgimento do Império Romano
veio a representação da paz entre os povos e as
cidades passaram a não ter mais muros, apresen-
tando intensa urbanização e grande prosperida-
de. A cidade de Roma no ano de 274 a.C. possuía
1 345 hectares. Atenas – Grécia.

Séculos V e VI
Nessa época havia a preocupação com o planejamento das cidades com a intenção de que estas
não crescessem simplesmente para onde a “onda de crescimento” as levasse. A configuração ortogonal,
conhecida como tabuleiro de xadrez, norteava então esse planejamento. As ruas tinham hierarquias
definidas e as habitações possuíam parâmetros a serem seguidos, como a necessidade de terraços.
Quanto ao planejamento de suas cidades, os gregos não tinham teorias definidas. Platão e Aristó-
teles diziam que as dificuldades deveriam se resolver na prática.
Protágoras de Abdera (Abdera, 480 a.C. – Sicília, 410 a.C.) dizia que: “o homem é a medida de todas
as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são.”, concluindo um
pensamento de Heráclito de Éfeso (datas aproximadas: 540 a.C. – 470 a.C. em Éfeso, na Jônia).
Os romanos seguiram bastante os padrões helênicos no planejamento de suas cidades. Roma
passou de uma cidade insignificante a maior potência do Mundo Antigo em curto espaço de tempo.
Em cem anos, Roma saltou de 400 mil
Digital Juice.

para 1,2 milhão de habitantes. A ex-


pansão das cidades romanas se deu
com algumas principais característi-
cas como: ênfase nas infra-estruturas
ligadas ao transporte, divisão dos
territórios em quadras (algo parecido
com o que observamos em nossas ci-
dades atualmente), e a exploração de
novos territórios que serviam princi-
palmente como abastecimento para
a metrópole Roma.
Os romanos foram pioneiros
na forma de irrigação de seus territó-
Coliseu – Roma.

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22 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

rios. Construíram os aquedutos, que traziam água de

Domínio público.
montanhas e locais distantes, e serviam para abaste-
cer a cidade. Também foram os primeiros a demons-
trar preocupações com o esgotamento sanitário, que
era feito por galerias subterrâneas, que continuam
em perfeito estado de uso até hoje.
A partir do século V, juntamente com a queda
do Império Romano, tiveram início as invasões bár-
baras. O comércio e serviços dos centros urbanos
foram abandonados e grande parte da população
urbana retornou para o campo. A sociedade passou
a ser moldada pelo sistema feudal e pelo sistema
religioso, representando e disseminando a força do
cristianismo, onde os bispos exerciam funções de go-
vernantes.
A economia feudal baseava-se na agricultura e
era dominada pelos senhores feudais, que, em troca
Haarlem – Países Baixos.
de trabalho garantiam para os habitantes proteção e
apoio militar.
As cidades então voltaram a possuir muralhas e tiveram seu tamanho reduzido consideravelmen-
te, retornando ao nível de subsistência.
O prolongamento das muralhas às aldeias vizinhas marcava o início de novas cidades. Um anel no
entorno dessas muralhas começou a ser ocupado pelos mercadores, que passaram a se fixar permanen-
temente nestes locais criando os burgos.
A configuração da cidade se dava com ruas radiais, a partir de uma praça central onde se localiza-
vam as igrejas e os mercados, locais de grande importância para convivência entre os indivíduos.

Séculos XI a XV
Nessa época ocorreu o maior desenvolvimento da economia urbana, com a criação de associa-
ções de comerciantes e artesãos, com o intuito de fortalecer suas posições econômicas e sociais.
O maior exemplo de cidade dessa época é Constantinopla, concebida em forma triangular, com 6
milhas (1 milha equivale a 1 609,344 metros) de um ângulo ao outro. Possuía muralhas altas e 1 milhão
de habitantes.
Veneza, fundada no século VI, foi atingida pelas invasões bárbaras e no século XI torna-se grande
cidade, sendo conhecida como cidade dos comerciantes, possuindo 200 mil habitantes.
Alguns problemas urbanos já começavam a aparecer como a falta de esgotamento sanitário e
drenagem urbana. O crescimento do comércio começou a impulsionar as pessoas para as cidades. Nes-
se período algumas cidades tiveram um relevante crescimento, como Florença, com 90 mil habitantes.
No século XIV, Paris contava com 75 mil moradores, 352 ruas e 15 mil contribuintes.
Pela falta de serviços urbanos e higiene, houve o alastramento de algumas epidemias. Em meados
do século XIV estima-se que a peste negra tenha dizimado cerca de um terço da população da Europa.

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História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história | 23
se constituíram no processo da formação das cidades

No século XV, com a invenção da pólvora e dos canhões, houve a exploração e conquistas de
novos territórios. Mas as cidades dessa época eram a expressão da negação da cidade medieval, com
becos e ruas estreitas, passando a sofrer com a transmissão de doenças.
As transformações por que passaram as antigas cidades no Renascimento baseavam-se na busca
por traçados urbanos baseados em critérios racionais e geométricos, com aspectos como simetria e
proporção. Esses estudos tiveram como resultado plástico o formato de estrelas, com espaços para a
parte administrativa e as áreas funcionais urbanas.

Domínio público.
Casale Monferrato – Itália.

Século XVI
Esse período foi marcado pela fixação do rei numa mesma cidade e o aparecimento da cidade
capital.
Também foi marcado pelas ocupações iniciais na América, com as primeiras cidades fundadas
pelos colonizadores espanhóis com traçados pré-determinados, influenciados pelas metrópoles euro-
péias, como a Cidade do México e Cuzco, no Peru. Filadélfia, na Pensilvânia (EUA), fundada em 1683,
foi desenhada por Thomas Holme, com 512 ha, ruas com 15m de largura e avenidas com 35m de lar-
gura. Também a cidade de Washington, no Distrito
Domínio público.

de Columbia (EUA), foi estabelecida por topógrafos,


tendo um pré-estudo de implantação.
A cidade de Lima (Peru), fundada em 1535,
possuía 300 ha; Buenos Aires (Argentina), em 1583,
345 ha.

Século XIX
Caracterizado pela Revolução Industrial, o de-
senvolvimento das cidades foi diretamente influen-
ciado por esse acontecimento histórico. O desenvol- Estação Taipei MRT Shimen.

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24 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

vimento tecnológico se deu da seguinte forma: 1837 – telégrafo, 1850 – energia elétrica, 1857 – elevador,
1859 – oleoduto, 1880 – iluminação elétrica, 1883 – motor à explosão, 1896 – rádio. A expansão industrial
induziu o incremento dos serviços e conseqüentemente aumentou a necessidade destes pela popula-
ção. Algumas necessidades tornaram-se mais evidentes como o sistema viário, o transporte urbano e a
questão da moradia.
As cidades foram então moldadas pela tecnologia: automóveis, metrô, ônibus, telecomunicações
e os transportes impulsionaram um crescimento acelerado dos centros urbanos.

Domínio público.
Expresso biarticulado – Curitiba.

O desenvolvimento do plano ortogonal de Nova Iorque (EUA) foi pioneiro em termos de or-
denamento urbano, com princípios de favorecimento para o desmembramento do território.
Conseqüentemente foi se desenvolvendo a atividade comercial e a preocupação com as fi-
nanças se mostrou elemento de suma importância para a economia baseada na produção e
comercialização de bens. O arranha-céu, proporcionado pela invenção do elevador, foi a mani-
festação mais dramática da atividade comer-

Domínio público.
cial e dominava a paisagem da cidade como
um todo.

Século XXI
Os tempos atuais estão sendo condicionados
cada vez mais pelo domínio das comunicações
e da informatização. As relações socioeco-
nômicas estão se dando através de contatos
não-presenciais. Isso nos reporta a questionar
a noção de território. Quem administra o ter-
ritório virtual? Qual a noção de território que
temos a partir dessas relações?
Se para o conceito de cidade a noção de ter-
ritório é fundamental, onde o espaço é mais
importante do que o tempo, como podere-
mos imaginar as relações interpessoais onde
a noção de tempo se torna mais importante
do que a de espaço?
Empire State Building – Nova Iorque.

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História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história | 25
se constituíram no processo da formação das cidades

Surge assim a representação do conceito de desterritorialização, ligado ao papel que as atuais


tecnologias representam para a reestruturação de um novo modelo de desenvolvimento eco-
nômico.
O território pode se desterritorializar, isto

Domínio público.
é, abrir-se, engajar-se em linhas de fuga
e até sair do seu curso e se destruir. A
espécie humana está mergulhada num
imenso movimento de desterritorializa-
ção, no sentido de que seus territórios
“originais” se desfazem ininterruptamen-
te com a divisão social do trabalho, com
a ação dos deuses universais que ultra-
passam os quadros da tribo e da etnia,
com os sistemas maquínicos que a levam
a atravessar cada vez mais rapidamente, Nova Iorque – Estados Unidos.
as estratificações materiais e mentais.
(GUATTARI; ROLNIK, 1 996, p. 323).
As informações quase instantâneas que acontecem a todo tempo nos dias atuais estão real-
mente transformando as cidades. “A era da informação está introduzindo uma nova forma
urbana, a cidade informacional”. (CASTELLS, 1999, p. 488).
Com o desenvolvimento dessa linha do tempo que apresentamos até aqui, enfocando as di-
mensões das cidades através dos tempos, suas transformações e suas tendências. Cabe agora
refletir como essas tendências irão afetar as cidades, o mercado de terras, a valorização imobi-
liária e as relações socioeconômicas.

Planejamento de cidades
Em cada época houve um tipo de preocupação com a institucionalização do ordenamento das
cidades. Em 1 859: Plano Cerda – Barcelona; em 1916: Traçado Sanitário das Cidades – Saturnino de Brito;
em 1928: Declaração de La Sarraz – funções da cidade: habitar, trabalhar e recrear; em 1933: Carta de
Atenas que foi um grande marco para o moderno urbanismo.
A Carta de Atenas foi elaborada durante o IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna
(CIAM), realizado na cidade de Atenas no ano de 1933, tendo como um dos seus principais participantes
o arquiteto e urbanista Le Corbusier, que foi um dos primeiros a compreender as transformações que o
automóvel exigiria dentro planejamento urbano.
A Carta trata da chamada Cidade Funcional e sintetiza o Urbanismo Racionalista. Ela prega a se-
paração da cidade em áreas distintas: áreas residenciais, de recreação e de trabalho. Propõe, no lugar do
caráter e da densidade das cidades tradicionais, uma cidade-jardim, na qual os edifícios se localizam em
áreas verdes pouco densas. Até essa data a cidade era pensada por suas três funções: habitar, trabalhar
e recrear. Além destes pontos, foi neste documento que primeiro se pensou na inserção dos veículos
na cidade. Estes estavam começando a tomar sua importância no âmbito da locomoção urbana, sendo
assim de extrema importância o planejamento da 4.ª função da cidade: circular.

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26 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

Em setembro de 1952, na cidade de La Tourrete, França, em reunião do Grupo Economia e Huma-


nismo1, foram fixadas as novas dimensões do Planejamento Territorial, através da Carta do Planejamento
Territorial. O principal objetivo deste Planejamento seria criar, pela organização racional do espaço, con-
dições de valorização da terra e as situações mais convenientes ao desenvolvimento humano de seus
habitantes. Pensou-se então que o planejamento deveria ser tratado como um processo, incluindo a
preocupação com a participação popular.

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A cidade de Hong Kong, na China, em vista que permite identificar áreas residenciais (ao fundo), comerciais (nas margens do
canal), de lazer (parque em primeiro plano) e de circulação (avenidas próximas ao parque e o próprio canal).
Em Bogotá, na Colômbia, em 1958, foi realizado pelo Centro Interamericano de Vivenda e Plane-
jamento (CINVA), o Seminário de Técnicos e Funcionários em Planejamento Urbano, onde foi elaborada
a Carta dos Andes2, que se constitui um documento sobre o Planejamento Territorial Contemporâneo.
Nessa Carta foi pensada a 5.ª função da cidade: o lazer tendo como preocupação o meio ambiente.
O Plano Piloto para a Capital Federal – Brasília realizado em 1960 com projeto urbanístico de Lúcio
Costa, é o resultado de uma influência da Carta de Atenas. As zonas urbanas são bem definidas e sepa-
radas: edifícios públicos, setor residencial, hoteleiro, comercial e bancário, com grandes espaços entre as
edificações e a circulação bem definida. Outro exemplo de urbanismo racionalista é a cidade de Chan-
dighard na Índia, projeto de Le Courbusier, com a proposta de um tratamento homogêneo das funções
urbanas, sem as diferenças socioeconômicas entre as classes sociais.
1 O reverendo Padre Lebret, dominicano francês, em 1941 fundou o movimento “Economia e Humanismo” a partir do qual, em companhia de
François Perroux, construiu e ilustrou a problemática e a prática da Economia Humana, preocupada, fundamentalmente, em gerar uma nova
aproximação dos estudiosos sociais à realidade, abrindo-se a uma visão global da dinâmica das sociedades e das culturas.
2 A Carta dos Andes definiu: “planejamento é um processo de ordenamento e previsão para conseguir, mediante a fixação de objetivos e por
meio de uma ação racional, a utilização ótima dos recursos de uma sociedade em uma época determinada. O planejamento é, portanto, um
processo do pensamento, um método de trabalho e um meio para propiciar o melhor uso da inteligência e das capacidades potenciais do
homem para benefício próprio e comum”.
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História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história | 27
se constituíram no processo da formação das cidades

O marco referencial para o ordenamento das cidades brasileiras veio com a Lei Federal 6.766/79,
do Parcelamento do Solo Urbano, que define basicamente os parâmetros para loteamentos e desmem-
bramentos do solo urbano, sendo que os municípios integrantes de regiões metropolitanas devem ter
obrigatoriamente seus processos, referentes à aprovação de parcelamento do solo urbano, analisados
pelo órgão metropolitano, juntamente com a Prefeitura local.
A Constituição Federal de 1988 diz em seu artigo 18 que: “a organização político-administrativa da
República Federativa do Brasil compreende a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, todos
autônomos”. Essa autonomia produz municípios capazes de definir seus rumos e ações, reforçando seu
papel e responsabilização na formulação da política urbana. Ela trata da política urbana, presente pela
primeira vez numa Constituição brasileira, como também define a função social da propriedade privada
urbana.
A partir da promulgação da Lei 10.257 de 10 de julho de 2001, conhecida como Estatuto da Ci-
dade, há a previsão de instrumentos urbanísticos em que, a partir da lógica da cidade democrática, os
interesses coletivos devam ser priorizados em detrimento dos individuais. Há também a interferência no
direito de propriedade privada com o objetivo de conter a especulação imobiliária.
Um dos avanços mais importantes da Constituição de 1988 foi sem dúvida a inclusão da popula-
ção, como co-responsável pela condução do planejamento das ações no município e na cidade.

Macrozoneamento urbano
O macrozoneamento urbano é uma forma de atribuir na cidade cada função específica em seu de-
vido lugar. Ele tem por base a distinção necessária entre as diferentes atividades na cidade: habitacional,
industrial, comercial e atividades destinadas ao lazer.
O estabelecimento das aptidões como as tendências de ocupação, a vocação da cidade e sua
importância na inserção regional são de extremo valor para se ter um diagnóstico definido do espaço
urbano e saber em que se deve investir para que a cidade se desenvolva com caráter único.
O macrozoneamento urbano também prevê a divisão da área urbana em espaços homogêneos:
área de consolidação, áreas de intensificação, áreas de expansão urbana e áreas especiais (preservação
ambiental e paisagística). Para a concepção do macrozoneamento se faz necessária a observação das 5
funções da cidade: habitar, trabalhar, recrear; circular e lazer.
Posteriormente ao macrozoneamento, deve ser elaborado o zoneamento urbano, em que para
cada uma das cinco funções, em determinado local da cidade, deve ser definido parâmetro diferenciado
para a ocupação. Por exemplo: as zonas residenciais devem ser diferenciadas: locais com habitações
unifamiliares, mais horizontalizadas ou com residências coletivas, mais verticalizadas; as zonas com co-
mércio local, com menor porte, ou com comércio geral, de maior porte.

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28 | Planejamento Urbano e Meio Ambiente

Texto complementar
Da divisão do trabalho social
(DURKHEIM, 1955)
[...] não queremos dizer que as circunscrições territoriais estão destinadas a desaparecer com-
pletamente, mas apenas que passarão para o segundo plano. As instituições antigas nunca desvane-
cem diante das novas instituições, a ponto de não mais deixarem vestígios de si mesmas. Elas persis-
tem, não apenas por sobrevivência, mas porque persistem também algumas das necessidades a que
correspondam. A proximidade material constituirá sempre um vínculo entre os homens; por con-
seguinte, a organização política e social com base territorial certamente subsistirá. Apenas ela não
terá sua atual preponderância, precisamente porque esse vínculo perde a força. De resto [...] sempre
encontraremos divisões geográficas, inclusive na base da corporação. Além disso, entre as diversas
corporações de uma mesma localidade ou de uma mesma região, haverá necessariamente relações
especiais de solidariedade que sempre reclamarão uma organização apropriada (DURKHEIM, 1955,
p. 436).
Este texto, embora escrito há algum tempo, parece muito atual e deve proporcionar uma re-
flexão sobre a solidariedade e a união que devem permear as relações entre os indivíduos. Como o
estabelecimento de um sistema de relações que unam uns aos outros, e que pode ser duradouro
a partir dos deveres e direitos de cada um. Pode-se fazer uma analogia entre esse paradigma e as
questões imobiliárias decorrentes.

Atividades
1. Em que se ocupam os habitantes das cidades?

2. Quais os pontos convergentes entre a cidade antiga e a cidade atual?

3. Qual a tendência das relações territoriais nas cidades?

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Gabarito
História urbana: evidenciando as diversas formas que ao longo da história
se constituíram no processo da formação das cidades
1. Às atividades não-agrícolas. No campo, a produção, e, na cidade, a transformação e a comercialização.

2. A noção de segurança: cidade antiga – guerras e invasões, cidade atual – assaltos e seqüestros.

3. As informações quase instantâneas que acontecem a todo tempo nos dias atuais estão realmente
transformando as cidades. “A era da informação está introduzindo uma nova forma urbana, a ci-
dade informacional”. (CASTELLS, 2006, p. 488).

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