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O PAIRIMONIO EM PROCESSO

Reitor Aloisio Teixeira


Vice-Reitora Sylvia Vargas
Coordenadora do iómm de Ciência e Cultura Beatriz Resende

EDITORAUFRJ
Diretor Carlos Nelson Coutinho
Coordenadora de Edição de Texto Lisa Stuart
Coordenadora de Produção Janise Duarte M A R I A C E C LIA
~ LONDRES FONSECA
Conselho Editorial Carlos Nelson Coutinho (presidente),
Charles Pessanha, Diana Maul de Carvalho,
José Luis Fiori, José Paulo Netto,
Leandro Konder, Virginia Fontes
Copyright O 1997 Maria Cecilia Londres Fonseca AGRADECIMENTOS
Ficha Catalográfica elaborada pela Divisão de
Processamento Técnico - SIBIIUFRJ

F676p Fonseca, Maria Cecília Londres


O Patrimônio em processo: trajetória da política federal de
preservação no Brasil I Maria Cecília Londres Fonseca. 3. ed. rev.
ampl. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009. /
298 p.; 16 x 23 cm.
1 . Patrimônio cultural - Brasil. 2. Patrimônio Cultural - História.
I. Título
CDD 363.690981

ISBN 978-85-71 08-149-9


1' edição - 1997
2' edição - 2005
Edição de Texto
Núbia Melhem dos Santos (Iphan) e
Jose Antônio Nonato (Iphan) (1" edição)
Alvaro Mendes (Iphan) (2" edição)
Revisão
Alvaro Mendes (Iphan) e Em geral, as pessoas se referem ao período de elaboração de tese como um
Sylvio Clemente da Motta (2" ediçáo) tempo de isolamento, de renúncias, de trabalho árduo e tenso. Não foi essa, no
João Sette Camara (3a edição)
entanto, a impressão que me ficou do período em que preparei meu trabalho para
Capa
UNIDESIGN
a obtenção do titulo de doutora em Sociologia pela UnB. Além do profundo envol-
vimento com o tema, pude sempre contar com a valiosa colaboração de colegas,
Projeto Gráfico
Janise Duarte parentes e amigos.
Editoração Eletrônica Em Angélica Madeira encontrei a orientadora de todos os momentos e a dispo-
Marisa Araujo nibilidade para acompanhar, mesmo quando distante, todos os passos do meu
Universidade Federal do Rio de Janeiro trabalho.
Forum de Ciência e Cultura
Editora UFRJ A Clara de Andrade Alvim devo, entre muitas outras coisas, a sugestão de
Av. Pasteur, 2501sala 107 estudar os processos de tombamento. Foi com ela que descobri os ricos pontos
Praia Vermelha - Rio de Janeiro de contato entre o mundo das palavras e o mundo dos objetos. De dona Graciema,
CEP: 22290-902
esposa de Rodrigo Melo Franco de Andrade, obtive informações que jamais encon-
Tel.1Fax: (21) 2542-7646 e 2295-0346
(21) 2295-1595 r. 210, 224 e 225 traria em qualquer documento.
http:llwww.editora.ufrj.br Dos professores do Departamento de Sociologia da UnB sempre recebi estí-
mulo e apoio. Devo a Vilma Figueiredo a sugestão para procurar na sociologia
o caminho para elaborar as questões suscitadas por minha experiência profissio-
nal na área da cultura. Maria Stella G. Porto me orientou com sensibilidade no difícil
momento de elaboração do prometo.De Christianne e Brasilmar F. Nunes recebi SUAARIO

sugestões muito oportunas, que corrigiram rumos e apontaram trilhas ainda não
exploradas.Mariza Veloso, minha parceira no estudo do património,trouxe contri-
buições valiosas em função do conhecimentoque acumulou sobre o assunto.
Contei sempre com a colaboração de meus colegas da então Fundação Nacio-
nal pró-Memória.Xavier Maureau é sempre um interlocutorestimulante.em busca
de novasformas de abordar a questão do património.Antânio HerculanoLopes e
Antõnio Luas Dias de Andrade também me ajudaram, de diferentes maneiras. Mana 11
Listade siglas
Alice de Castro me deu acesso à sua pesquisasobre os Livros do Tombo. Dará
e Pedro Alcântara me repassaram sua riquíssimaexperiência na área da pedra Prefácioà terceira edição 15

e ca/. dr. Lúcio Costa, dona Judith Martins e dona Lígia Martins Costa. heró/s de
21
um Patrimónioque não conheci, me possibilitaramconhecere entender melhor o Introdução
entusiasmo e mesmo a devoção despertados pelo Sphan naqueles que tiveram a opor-
Partel 33
A noção de património: características e história
tunidadede dele participar.José Silva Quintas, LuasFelipe P. Serpa. Ana Gatade
Oliveira, Helena Mussi, Ann-Mal Meirelles, companheirosda referência, me forne- 35
Capítulol O património:
umaquestãode valor
ceram informaçõesque. de outro modo, não poderiaobter.
1.1 37
A noção de património como categoria jurídica
Aos funcionários do Arquivo Central do lphan agradeço a atenção com que
41
1.2 O património como forma de comunicação sacia
sempre atenderam a minhas solicitações.
1.3 45
Ao então Instituto Brasileiro do PatrimónioCulturaldevo a dispensa de meus O património como objeto de uma política pública

encargos funcionais durante o período de elaboração da tese. Da Capes e do CNPq 51


Capítulo 2 - A construção do património: perspectiva histórica
recebi apoio financeiro em diferentes momentosde meu curso de doutorado.
54
2.1 Os primórdios da preservação de monumentos e a autonomização
Gelson participou desde o início, e suas sugestõesforam fundamentaispara
dasnoçõesde históriae de arte
que eu pudesseme distanciarde um pontode vista predominantemente
funcional 57
2.2 A legitimação do património pelo valor de nacionalidade
e alcançasseum nível de análise política.
2.3 A teoria dos valoresde Alo"s Riegl 65
A Vladimir Murtinho, Paulo Sérgio Pinheiro, Celso Lafer, Joaquim Falcão, João
2,4
70
Geraldo Piquet Carneiro, Mansa Peirano e Luís Antõnio de Castro Santos agra- A ampliação da noção de património e a legitimação via direitos
culturais
deço as contribuiçõese sugestõesfeitas. De Célia B. Nogueirae Eduardo Slerca
79
recebi uma assessoriajurídica de inestimávelvalor para a linha de. investigação Parte2 - O património
no Brasil
J
que desenvolvi.
81
Capítulo
.9 - A fase heróica
E não poderia esquecer daqueles que. embora ausentes, deixaram sua marca
na minha vida pessoal e profissional, e também neste trabalho. A Aloísio Magalhães. 3.1 0 contexto cultural 82

87
com quem tive o privilégio e o prazer de conviver desde os primeirostempos do 3.2 0 movimento modernista e o património
CNRC, e a Fausto Alvim Júnior. personalidadeinstigante e criativa, devo, entre mui- 87
3.2.1 0 sentido de ruptura no modernismo brasileiro
tas outrascoisas,o exemploda busca constantee entusiasmada
do novo, mesmo
92
nos caminhos estreitos da burocracia. 3.2.2 0s modernistas
e MinasGerais
3.3 A criaçãodo Sphan 94
188
5.2 Os principaisproblemas
3.3.1 As iniciativasprecursoras 94
188
5.2.1 As concepções de valor histórico e de valor artístico
3.3.2 A institucionalizaçãoda proteção do património 96
5.2.2 195
As concepçõesde valor excepcionale de valor naciona
3.3.3 0 anteprojetode Mário de Andrade e o decreto-leiRe25 98
198
5.2.3 Os conceitos de centro histórico e de entorno
3.4 0 programa de trabalho do Sphan l 06
200
5.2.4 Sobre a legitimidade do processo de atribuição
3.4.1 As prioridades
e os limites l 06 de valor nos tombamentos

l 10 205
3.4.2 A construção de um saber verdadeiro 5.3 A atuação do Conselho Consultiva

l 12 207
3.4.3 Umretratoempedrae cal 5.4 Observações finais

3.5 0s colaboradores e os adversários l 16


Conclusão 213
3.5.1 0 papel da equipe e do Conselho Consultivo l 16
225
3.5.2 As vozes discordantes l 18
Referênciasbibliográficas

l 20 237
3.6 Uma autonomia fraca Anexos

Capítulo4 - A fase moderna l 31 Anexo l Cronologia da política de preservação no Brasil


239

4.1 0 contexto cultura l 31 245


Anexo ll Decreto-lein' 25, de 30 de novembro de 1937

l 39 253
4.2 0 Sphan pós-Estado Novo Anexo 111 Parecerde Carlos Drummondde Andrade

l 41 255
4.3 As alternativas
do je ao)lphan Anexo IV O compromisso cultural da Nova República
259
4.3.1 0s caminhos da descentralizaçãoe a busca de novos l 41 Anexo V Processos de tombamento abertos de 1.1.1970
sentidos para a preservação a 14.3.1990
279
4.4 0 Centro Nacional de Referência Cultural 143 Anexo VI Processos de tombamento abertos de 1990 a 2008
291
4.5 A unificação da política federal de preservação: 154 Anexo Vll Decreto n' 3.551, de 4 de agosto de 2000
a fusão lphan/PCH/CNRC 295
Anexo Vlll Bens registrados de 2002 a 2008

4.6 Uma propa$ta de democratização da política cultural: 158 297


Anexo IX Bens culturais e naturais do Brasil inscritos na
a criaçãoda Secretaria
da Culturado MEC lista do património cultural mundial da Unesco

4.7 0 alcance e os limites da política federal de preservação 160


nos anos 70-80: um balanço

Capítulo 5 - A prática de tombamento: 1970-1990 179

5.1 A sistemática dos processos de tombamento 180

5.1.1 A origem dos pedidos 183

5.1.2 Justificativas, pareceres e impugnações 186


LISTA DE SIGLAS

ABA AssociaçãoBrasileirade Antropologia

ABC Santo André. São Bernarda do Campo e São Caetana

ABI AssociaçãoBrasileirade Imprensa


ABL Academia Brasileira de Letras

AIB Ação IntegralistaBrasileira


ALN AliançaLibertadoraNacional
cc ConselhoConsultivodo Sphan

Cebrap Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

CNRC Centro Nacional de Referência Cultural

Condephaat Conselho da Património Histórico, Artístico, Arqueológico e Tecnológico

Corephaae Comission Régionaledu Patrimoine Historique, Artistique.


Archéologique et Ethnographique

CPC Centro Popularde Cultura

DAC Departamentode AssuntosCulturais

Dasp Departamento Administrativo do Serviço Público

DC Departamento
de Culturada Prefeiturade São Paulo
DCR Divisão de Conservação e Restauração

DET Divisãode Estudos e Tombamento

DIP Departamento
de Imprensae Propaganda
Dphan Departamento do Património Histórico e Artístico Naciona PNDA Programa Nacional de Desenvolvimento do Artesanato
DR Diretoria Regional PP
Partido Progressista
DTC Diretoria de Tombamento e Conservação PSD Partido Social Democrata
Embratur Empresa Brasileira de Turismo PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
Esaf EscolaSuperior de Administração Fazendária PT Partido dos Trabalhadores
FNpM Fundação Nacional pró-Memória PTB Partido Trabalhista Brasileiro
Funai Fundação Nacional do Índio Seac Secretaria de Ação Cultural
Funarte Fundação Nacional de Arte Seac Subsecretaria
de Assuntos
Culturaisdo MEC
IAB Institutodos Arquitetos
do Brasil SEC Secretaria
de Culturado MEC
lbama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente Senalba
Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais. Recreativas. de
IBPC Instituto Brasileiro do Património Cultural Assistência Social. de Orientação e Formação Profissional,de Brasília
lcomos International
Councilof Monuments
andSites Seplan Secretaria de Planejamento da Presidência da República

Idesp Instituto de Estudos Económicos, Sociais e Políticos de São Paulo


Span Serviço do Património Artístico Naciona

IHGB Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro Sphan Secretaria do Património Histórico e Artístico Nacional

INF Instituto Nacional do Folclore Sphan Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional

Instituto do Património Histórico e Artístico Naciona Sphan Subsecretariado Património Histórico e Artístico Nacional
lphan
lseb Sudene Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
Instituto Superior de Estudos Brasileiros
UDN União DemocráticaNacional
LAA Livro de Artes Aplicadas
UNE União Nacional dos Estudantes
Laep Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico
LBA Livrode BelasArtes Unesco
United Nations Educational. Scientific and Cultural Organization
LH Livro Histórico IOrganização das Nações Unidas para a Educação. Ciência e Cultura)

MDB Movimento Democrático Brasileiro

MEC Ministério
da Educação
e Cultura
MES Ministério da Educação e Saúde
MinC Ministério
da Cultura
OAB Ordem dos Advogados do Brasil
ONU Organização das Nações Unidas
PC Partido Comunista

PCH Programa de Reconstrução das Cidades Históricas


PD Partido Democrático

PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro

b.
PREFÁCIO À T[RC€1RA EDIÇÃO

ÓÂRIA CICÍHA LONOR[S FONSeCÁ

E com grande satisfação que apresento uma nova edição de O Pafrlmónfo em


prmesso, a terceira em pouco mais de dez anos. Interpretoesse fato como sinal de
que o livro continuasendo útil para os que se interessampelo tema do património
cultural. Por esse motivo, procurei, mais uma vez, atualizar, na medida do possível,
algumasdas informaçõesque constam nos anexos. Deste modo, o leitor pode acom-
panhar tanto os fatos mais recentes da política federal de preservação, registrados
na cronologia, quanto os ates de aplicação dos instrumentos de proteção e salva-
guarda,seja em nível nacional- por meio de tombamentose registros- seja em nível
internacional - por meio das inscrições nas listas criadas pelas Convenções da
Unesco das quais o Brasil é signatário.

Entretanto,como já havia procurado enfatizar em toda a análise, as políticas de


preservação do património cultural transcendem em muito os recursos viabilizados
pela aplicação de leis, decretos ou portarias por parte dos órgãos estatais de patri-
mónio. Esse fato é reconhecido pela Constituição Federal de 1988 quando se refere
à imprescindívelparceria entre Poder Público e comunidade na tarefa de promover
e proteger o património cultural brasileiro. Lembro que as leis de incentivo à cul-
tura têm como um de seus objetivos estimularessa parceria.

\
O movimontojá apontado na pesquisa inicial, no sentido de ampliação da cas da ação humana, ao longo do tempo, naquele espaço ' A perspectiva histórica
noção de património cultural, vem adquirindo, nos últimos anos, contornos mais reencontra, assim, o seu lugar na política de património, em que, como vimos no
específicos. Pois é necessário que essa ampliação conceitual venha acompa- estudo da trajetória do lphan, prevalecia a percepção estética e a ênfase na arqui-
nhada pelo cuidado de "construir' novas figuras. discriminando e qualificando os tetura. Outra inovação importante foram os geoparques, figura criada pela Unesco
recortes sobre os quais se vai atuar, de modo a viabilizar a adoção das medidas com foco no desenvolvimentosustentável em áreas de intoresse geológico e paleon-
mais pertinentes para cada situação. Mas. como qualquer modelo que se queira tológico, de modo a levar em conta também a qualidade de vida das populações
elaborar para mapear o mundo real, essas novas categorias - assim como as que que neles habitam.:Finalmente,nos últimos anos, consolidou-seo Programa
as antocederam - não se excluem mutuamente, pelo contrário. apenas apontam Monumenta,uma parceria do governo brasileiro com o Banco Interamericanode
para enfoques diversificados que, muitas vezes e de diversas maneiras, necessa- Desenvolvimento(BIDÉ,que. em 2006, foi integrado ao lphan. De uma atuação ini-
riamente se superpõem. cialmente centrada na recuperação de imóveis e espaços públicos de algumas
Essa constataçãofica evidente na própria distinção - recente - entre patri- cidades históricas protegidas pela legislação federal, em parceria com estados e

mónio cultural material e imaterial, que, inclusive, norteou a última reestruturação municípios, o programa passou a contar também com financiamento para imóveis
do Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (lphanl. Sem dúvida, a privados. criando um instrumento inovador que se pretende converter em prática

instituição do instrumento do Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial, permanentedo lphan. Além disso, foram desenvolvidas três linhas de trabalho
viabilizada pelo decreto n' 3.551/2000, foi um passo fundamental no sontido tanto visando ampliar o alcance do programa e irradiar, para a sociedade, o envolvi-

de ajustar o património cultural reconhecido pelo Estado à diversidade da cultura mento com a tarefa da preservação: capacitação de mão-de-obra, programas edu-

brasileira quanto de viabilizar uma atuação adequada à especificidadede múltiplos cativos e promoção de atividades económicas.
processos e manifestações culturais, democratizando, inclusive, o alcance da No âmbito do patrimóniocultural imaterial, a proposiçãode certos bens para
ação do poder público federal na preservaçãocultural. Mas a prática vem demons- Registro tem levantado questões desafiadoras, que obrigam à busca de alterna-
trando que, igualmente fundamentais, embora menos visíveis, são os inventários tivas adequadasa cada situação. Comprova-se,assim. o acerto inicial de limitar
e os planos de salvaguarda - que, juntamente com o registro, são os pilares da o decreto3.551,de 4 de agostode 2000,à instituiçãodo Registro- comquatro
políticade património
imaterialdo lphan-, que necessariamente
envolvem,
em sua Livros iniciais - e à criação do Programa Nacional do Património Imaterial, dei-
realização. a dimensão material do património cultural, seja na referência a sítios. xando aberto o espaço para que o acúmulo de experiência e a avaliação constante
centros históricos, edificações, seja a objetos, como as produções do chamado dos resultadoscontribuampara a paulatinaestruturaçãodesse universo.Por exem-
"artesanato', os adereços, os instrumentos musicais, para não falar dos elementos plo, optou-se. com prudência, por desenvolver inicialmente Inventários para mapear
da natureza. matérias-primas para a fabricação dos mais divorsos produtos. e conhecer melhor a dinâmica de campos como as práticas alimentares e as lín-
No âmbito do património cultural material, a criação de uma figura como a de guas e falares do Brasil, com base no entendimento de que os inventários consti-
;paisagemcultural brasileira', inspirada em instrumento da Organizaçãodas tuem uma forma preliminar e informal de salvaguarda. A criação da Câmara do
NaçõesUnidasparaa Educação,
a Ciênciae a Cultura(Unesco)já em vigor,de- Património Imaterial' no Conselho Consultivo do Património Cultural, e de grupos

corre da constatação de que é necessária uma perspectiva mais integrada e parti- de trabalho como o Grupo de Trabalho da Diversidade Linguística IGTDL),' forma-
cipativa da proteção. A proposta é de que a atuação seja compartilhada por dife- do a partir de solicitação feita em seminário coordenado pelo lphan em parceira com
rentes órgãos da administração pública e também pela sociedade, com base em a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, e de cujos trabalhos
um pacto que tem como objetivo o uso e a gestão de uma determinada área, deli- participaram representantesde vários órgãos da administração pública. como o
mitada em função das referências culturais que a caracterizam. O objeto não são Ministério da Educação (MEC). o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
apenas as edificações ou paisagens excepcionais. como também quaisquer mar- jIBGE), o Ministério da Justiça (MJ), a Fundação Nacional do índio (Funai), a

16 O PATRIAõNIO [A PROCESSO PR[FACIO A TERCEIRA tOiC'AO 17


Fundação Palmares (MinC) o Museu Goeldi(MCT) e a Universidadede Brasília guarda do Património Cultural Imaterial da América Latina (Crespial), primeiro
IUnB), entre outros, tem possibilitado a formulação de políticas interinstitucionais e o centro regionalvoltado para aplicaçãoda Convençãode 2003, e de que o Brasil é
encaminhamentode ações diversificadas, o que potencializa inegavelmente o alcance membro fundadorae a proposta de instalação, na cidade do Rio de Janeiro, de um
das políticasde património. Centro de Formação em Patrlmânio para a América Latina. Caribe e Países de Língua

Também no sentido da ampliação e coordenação das ações voltadas para a pre- Portuguesae Espanhola da Africa e Afia, conforme modelo elaborado pela Unesco

servação e promoçãodo património cultural brasileiro, a atual presidência do lphan e já realizadoem instituiçõesespalhadaspelo mundo.
vem trabalhando na montagem de um sistema nacional de património que aproxime Concluindo, é possível constatar, a partir da sumária apresentaçãode fatos
os níveis federal, estadual e municipal em tomo de objetivos comuns. É inegável que, recentes que considero relevantes, que as políticas e ações voltadas para a pro-
no Brasil, o entendimento de que o apoio à cultura é uma questão de interesse pú- teção e promoçãodo patrimóniocultural brasileirotêm sido objeto de reformu-
blico tem avançado consideravelmente nas últimas décadas, com todos os estados lações e de sugestões inovadoras. no sentido da busca de soluções eficientes,
da federação e muitos municípios já dotados de órgãos específicos em sua admi- criativas, e adaptadas às novas realidades, e que necessariamenteimplicam na
nistração. Embora, no caso da preservação do património cultural, as propostas do parceria com outras instituições e também com a sociedade.
órgão federal ainda sejam o principal foco de inspiração para esse desejável movi-
Não possodeixar de registrar,mais uma vez, meus agradecimentos
às pessoas
mentode descentralização,
há casosinteressantes
de propostaspioneirasem nível
que colaboraram para o desenvolvimento de minha trajetória profissional. Ao
local, como, por exemplo, a cooficialização, no município de São Gabriel da Cachoeira
presidente do lphan, Luiz Femando de Almeida, devo a possibilidade de participar da
(AM), em 2002, das línguas tukano, nheengatue baniwa, ao lado do português. Além elaboração de algumas das propostas citadas acima. Como membro do Conselho
disso, estados e municípiostêm procuradoformular ou reformularseus planos de
Consultivo do Património Cultural, tenho a oportunidade de usufruir da rica troca de
cultura de forma participativa, e vários deles. sobretudo da região Nordeste, estão conhecimentos, idéias e experiências que ocorre nas reuniões. Do mesmo modo,
buscando aperfeiçoar iniciativas de apoio à transmissão de conhecimentos e prá- como representantedo Brasil no primeiro Comitê Intergovemamental
do Património
ticas por parte dos detentoresde saberese fazerestradicionaisque, por não estarem Imaterial, de 2006 a 2008, pude ampliar consideravelmente meu conhecimento
integrados nos sistemas consagrados de ensino e pesquisa, nem no mercado for- sobre o património e as políticas culturais de vários países, e participar. com os cole..
mal de trabalho.não costumam receber atenção por parte dos órgãos estatais, a não gas do comitê e do Secretariadodo PatrimónioCultural Imaterial da Unesco, da
ser por meio de ações com indesejável viés assistencialista.
estruturação das primeiras propostas para a aplicação da convenção de 2003. Por
Outra mudança recente no desenho da política federal de património é a criação ser impossível nomear todos a que devo valiosas contribuições, destaco aqui apenas
do Instituto Brasileiro de Museus, como corolário de processo iniciado na gestão do os que colaboraramcom informaçõese sugestões para a atualização desta edi-
ministroGilbertoGil. Emboraa pesquisade que trata este livra-não tenha se detido ção: Márcia Sant'anna, direto.ra do Departamento do Património Imateriall Carlos
na análise das várias dimensões da preservação do património cultural brasileiro - Fernando Delphim e Jurema Kopke Eis Arnaut, do Departamentodo Património
como a dos patrimónios arqueológico e paleontológico, do património natural, e tam- Material e Fiscalizaçãol Lia Motta, coordenadora-geral de Pesquisa, Documen-
bém dos espaços museológicos-, aquela iniciativa finaliza para o carátor espe- tação e ReferênciasSylvia Braga e Robson de Almeida, do ProgramaMonumental
cífico e diferenciado das atividades de guarda, conservação e promoção reali- Anna Mana Serpa Barroco, secretária do Conselho Consultivo do Património
zadas pelos museus. Culturall e, ainda, Jurema Machado, Coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil.

Em nível intemacional, o Brasil tem participado ativamente dos trabalhos desen- Agradeço também a Valéria Leite de Aquino por sua inestimável colaboração na
volvidos pela Unesco na área da cultura, seja no processo de formulação de con- preparação deste e de tantos outros trabalhos.
venções,seja como integrantedos comitês por elas criados. Dois fatos merecem Rio de Janeiro,9 de fevereirode 2009.
destaque:a criação em Cuzco, Peru, em 2005, do Centro Regional para a Salva-

18
O PÂTRIAÕNIO EA PROCESSO PREFÁCIOÀ íeRCEIR EDiÇÃo 19

L
MolAS
INTRODUÇÃO

Em 27 de agosto de 2007 foi lançado em Pomerode (SCI o prometoRoteiros Nacionais de


Imigração, inaugurando o conceito de "paisagem cultural brasileira". As pesquisas foram
iniciadas na gestão do superintendente jatual dlretor de PatrimónioMaterial e Fiscalizaçãol
palmo Vieira Filho, em Santa Catarina, onde foram identificados espaços e tradições rema-
nescentes da imigração italiana, alemã. polonesa e ucraniana. O tombamento do primeiro
conjunto de bens. com a denominaçãode "Roteiros Nacionaisde Imigração: Santa Catarina",
foi aprovado na LV reunião do Conselho Consultivo do Património Cultural, realizada em
dezembro de 2007.
Se a zelador do Museu de Kolmar quiser mostrar ao visitante qual,
O lphan participou da criação do primeiro Geoparque das Américas e do Hemisfério Sul, entre os seus tesouros, mais preza. leva-o para longe do altar de
o Geoparquedo Vale do Cariri. no Ceará. e está conduzindoa criação do segundo,o Grünewald, para uma sala cheia de tricolores. pompler e outros
Geoparque da Serra da Bodoquena, em Mato Grosso do Sul. elmos e lembranças de natureza aparentemente insignificantes são
de uma época que, para ele, é a idade heróica.
Em 2005 foi criada, no âmbito do Conselho Consultivo do Património Cultural, a Câmara Mm Weher, Ensaios de sociologia.
do PatrimónioImaterial, primeira no gênero desde a criação dessa entidade. com o objetivo
de subsidiar a discussão e as decisões dos conselheiros sobre o tema.

O processo teve origem na solicitação de registro do talian. língua do grupo vêneto ampla
mente falada no sul do Brasil, encaminhado ao lphan em 2001

A constituição de patrimónios históricos e artísticos nacionais é uma prática


característicados Estados modernos que. através de determinadosagentes, re-
crutados entre os intelectuais, e com base em instrumentos jurídicos específicos.
delimitam um conjunto de bens 00 espaço público. Pelo valor que lhes é atribuído,
enquanto manifestaçõesculturais e enquanto símbolos da nação, esses bens pas-
sam a ser merecedores de proteção. visando à sua transmissão para as gerações
futuras. Nesse sentido. as políticas de presewação se propõem a atuaç basica-
mente. no nível simbólico, tendo como objetivo reforçar-uma identidade coletiva,
a educação e a formação de cidadãos. Esse é, pelo menos, o discurso que cos-
tuma justificar a constituição desses patrimónios e o desenvolvimentode políticas
públicas de preservação.

Aparentemente,essas políticas alcançam um alto grau de eficácia simbólica:


é. muito raro ocorrerem contestações quanto ao valor dos monumentos que são
objeto de proteção. No Brasil, por exemplo, não ocorreria a ninguém atualmente
duvidarda pertinênciado tombamentodas grandesobrasdo Barroco- igrejas,
palácios, chafarizes. conjuntos urbanos etc. - realizado. principalmente, nas dé-
Í cadas de 1930 e 1940. Nesse sentido, o trabalho feito pelo Serviço do Património
Histórico e Artístico Nacional teria sido muito bem sucedido. pelo reconhecimento

que alcançou no país e no exterior.

20 O PATR}AÕN FO EA PROCESSO
h

mente, função que é legitimada por seu compromisso com a construção da nação
Na verdade,porém, esse "poder simbólico"' dos patrimóniosnacionais é rela-
e com a luta pela cidadania. Dado o caráter inescapavelmente ambíguo da posição
tivo e tem um alcancelimitado. Pois se o objetivo dessa política estatal é amplo.
desses intelectuais, sobretudo nos períodos autoritários, vou tentar apreender co-
na medidaem que não se dirige a setores, grupos ou ativídadesparticulares,mas
mo lidaram com os diferentes compromissos, os impasses e os limites com que
díz respeito a toda a sociedade nacional. de fato o campo de sua produção é bas-
se defrontaram. Pois, devido ao grau extremamente rostrito, no Brasil, da participa-
tante restrito: trata-se de uma política conduzidapor intelectuais,que requer um
ção da sociedade nas políticas culturais em geral, e particularmente nas políticas
grau de especializaçãoem determinadasáreas do saber (arte, história, arquitetura.
de preservação,as decisões desses intelectuais foram fatores cruciais na orien-
arqueologiae, mais recentemente,etnologiae antropologia)e, por parte dos usuá-
tação dessas políticas.
rios. algum domínio desses códigos. A legitimidadeda constituiçãode um patri-
mónio assenta. para seus mentores, não apenas no seu valor como símbolo da Em geral, as políticas de preservação são conduzidas por intelectuais de perfil

nacionalidade,mas também em valores culturais atribuídos a partir de critérios tradicional (historiadores,artistas, arquitetos, escritores etc.l que se propõem a
formuladospor aquelas disciplinas. atuar no Estado em nome do interesse público, na defesa da cultura. identificada
com os valores das camadas cultas. Ao protegerem a cultura desses grupos, con-
A produçãode um universo simbólicoé, nesse caso, o objeto mesmo da ação
vertida em valor universal, não teriam dificuldade em conciliar, sem maiores con-
política, daí a importância do papel que exercem os intelectuais na construção dos
patrimóniosculturais. Nesse sentido, são dois os desafios com que se defrontam: flitos, sua identidadede intelectuaise de homenspúblicos.No caso do Brasil,
o primeiro é o de. através da seleção de bens "móveis e imóveis" (conforme o essa foi a situação dos intelectuais modernistas que participaram do Serviço do
Património Histórico e Artístico Nacional(Sphan) desde 1937, e que instauraram uma
preceito legal vigente na maioria dos países), construir uma representação da
nação que, levando em conta a pluralidade cultural, funcione como propiciadora política cultural cuja continuidade e prestígio se mantiveram durante mais de trinta

de um sentimentocomum de pertencimento.como reforço de uma identidade na- anos. Entretanto,diferentementedo que ocorria então na Europa, esses intelec-
cionall o segundo é o de fazer com que seja aceito como consensual.não-arbi- tuais eram figuras que, nos seus respectivos campos de atuação, tinham posições

trário, o que é resultadode uma seleção- de determinadosbens - e de uma de vanguarda,o que conferiua sua atuação na área do patrimóniouma autoridade
convenção- a atribuição.a esses bens, de determinadosvalores.Ou seja, de. diferenciada

ao mesmo tempo, buscar o consenso e incorporar a diversidade. Mas, a partir da década de 1970, sobretudo quando o regime militar entrou em

Os intelectuais que estão direta ou indiretamente envolvidos em uma política crise, essa política começou a ser criticada, e seu caráter nacional contestado.
de presewação nacional fazem o papel de mediadores simbólicos. já que atuam por se referir apenas às produções das elites. Nesse momento, coube a intelec-
no sentido de fazer ver como un/verbais,em termos esléffcos,e nac/onafs,em tuais com um novo perfil (especialistasem ciências físico-matemáticase sociais.
termos po/ecos. valores relativos, atribuídos a partir de uma perspectiva e de um administradores.pessoas ligadas ao mundo industrial) definir novos valores e no-
lugar no espaço social. E são também os intelectuaisque, ao apontarem,no exer- vos interesses.Duranteas duas décadas que se seguiram,essa mudançaevoluiu
cício de sua função crítica, o caráter arbitrário da representaçãovigente de patri- de umamodernização
da noçãode património- o que significouvinculara temá-
mónio. atuam no sentido de sua transformação.2 tica da preservação à questão do desenvolvimento - à po//fixação da prática de

Os processosde seleção e proteção do patrimóniocultural nacional são regu- preservação, na medida em que os agentes institucionais se propuseram a atuar

lados por leis, procedimentos e rituais bastante específicos, e costumam ser con- como mediadores dos grupos sociais marginalizados junto ao Estado. Esses inte-
lectuais viram na área da cultura, margina/ no conjunto das políticas estatais, um
duzidos por agentes com um perfil intelectual definido (Bourdieu, 1980, p. 69),;
espaço possível de resistência ao regime autoritário. Seu objetivo último era justa-
No contexto brasileiro, é preciso levar em conta o papel político que, desde
o período colonial, têm aqui exercido os homens de cu/fura: o de atuarem como mente o de ampliar o alcance da política federal de património, no sentido de de:
mocratizá-la e coloca-la a serviço da construção da cidadania.
porta-vozes das massas desprovidas de recursos para se organizarempolitica-

22 INTRODUCAO 23
O PATRIAÕNIOeA PROCESSO
O problema é que, como observa Bourdieu, qualquer luta no interior de um governo autoritário, mantendojunto ao MEC e ao governo federal um invejável

campo 'pressupõe um acordo entre os antagonistas sobre o que merece ser objeto grau de autonomia.Já nos anos 70 e 80, na fase de abertura do regime militar,

de luta' (1980, p. 115), ou seja, no caso, sobre o que seria o objetivo específico de crise da modernidade e diante de uma comunidade científica mais independente.

da presewação. Esse, como veremos, foi um dos impasses que caracterizou a estruturada e diversificada(cf. Pécaut, 1990, p. 257-308), os intelectuaisque se

política federal de património desenvolvida no Brasil nos anos 70-80. Nesse perío- propuserama reorientar a política federal de preservação- em um sentido que
do. coexistiram duas linhas de atuação paralelas num mesmo campo, - a da pedra Implicava, ao contrário do que havia ocorrido no Sphan, uma âRiculação com
e cal. continuidade do antigo Sphan, e a da referência. oriunda do Centro Nacional outras áreas do governo e com os movimentossociais, tendo em vista uma idéia

de ReferênciaCultural (CNRC),criado em 1975 - que não conseguiramconvir em de democracia participativa - viram. muitas vezes. seu trabalho e sua atuação Jun-
um mínimo de definições comuns. A hegemonia do grupo de referéncfa, na verda- to a um governo autoritárioserem postos sob suspeita por outros intelectuaisde

de. se limitou ao plano discursivos na prática, foi através dos tombamentos efetua- renome. De um lado, porque se estariam deixando cooptar pela ditadura militar.
dos pela Sphan que continuoua ser construído o patrimóniohistórico e artístico já em crise de legitimidadel de outro, por se arvorarem em porta-vozes dos inte-

nacional. resses populares (cf. Miceli, 1985, p. 127) no momento em que a sociedadecivil
se reestruturava. tanto por meio dos mecanismos de representação política quanto
Outro problema das políticas de preservação em geral é o fato de que as even-
por meio de novas formas de organização não-governamentais.
tuais demandas da sociedade em relação à cultura são extremamente difusas. Se
entre os produtores culturais - cineastas, atores, músicos, escritores etc. - essas Essa trajetória que acabei de esboçar muito rapidamente, e que será apre-
demandas são mais definidas e, frequentemente, veiculadas por meio de organiza- sentada nos capítulos3 e 4, indica. a meu ver. que o grande desafio, ainda hoje,
de uma política federal de preservação no Brasil é desenvolver,numa sociedade
ções corporativas(associações,sindicatosetc.), falar de uma demandasocial em
termos da constituição de um património cultural da nação é bastante problemático, como a brasileira, uma política de património que seja, efetivamente. uma política

sobretudo em uma sociedade como a brasileira. na qual, ao lado da pluralidade. pública. Em que medida essa política não tem funcionadoantes como uma ativi-

dos contextos culturais, existem profundas desigualdades económico-sociais, e a dade implantada e conduzida pelo Estado. com a participação de determinados
autonomia de uma esfera cultural sequer faz sentido para alguns grupos da socie- intelectuais,como mais um recurso ideológico para obter consenso,para legitimar
dade nacional. Nesses casos, fica mais complexo o papel político dos intelectuais um prometonacional do próprio Estado ou. simplesmente,para inserir o país no
concerto das nações civilizadas?
que atuam. dentro do Estado, como organizadores de uma demanda cultural ainda
não explicitada. no sentido de defender os interesses de grupos carentes de orga- No entanto, nas décadas de 1970 e 1980, a orientação da política cultural de-
nização própria. Foi com base nessa realidade que se formularam, nos anos 70- senvolvidano nível federal foi no sentido de ampliar a noção de patrimónioe de
80, vários projetos do CNRC, posteriormente integrado à Fundação Nacional pró- estimulara participaçãosocial, propondo uma relação de colaboraçãoentre Esta-
Memória.4 do e sociedade.Não teriam esse período e essa nova orientaçãodeixado marcas
Em resumo. em ambos os momentos decisivos - o momento fundador, no final no sentidode propiciaruma democratização
da políticafederalde património?Ou
da década de 1930. e o momento renovador, na segunda metade da década de tratou-se apenas da afirmação de uma boa /r7fençãode agentes institucionais.
1970 e Início da de 1980 - a posição dos intelectuais que conduziram a política carente, no entanto, de condições sociais e políticas para ser implementada? Pro-

federal de preservaçãofoi marcada por algum grau de ambiguidade, se bem que curar elementos para responder a essas indagações é um dos objetivos deste tra-
banho
a
com resultados diferentes. Durante o Estado Novo, os modernistas gozavam de
franca hegemonia no meio intelectual e conseguiram resolver razoavelmente bem, O panorama atual, relativamente às políticas culturais no Brasil, parece indicar
naquele momento, a dicotomia entre o que consideravamseu papel de homens de que nada mudou nesse campo pedHdco das políticas estatais: a questão cultural
cultura a serviço do interesse púó/ico e sua inserção na administraçãode um raramente aparece na agenda dos partidos políticos ou nos discursos de eventuais

INIR OOUCÃo
O PATRIAÕNIOEA PROCESSO 25
24
}
espaço público. Podadoporque mudo, na medida em que, ao funcionar apenas
candidatoslos cargos públicos na área da cultura não despertammaior interesse
como símbolo abstratoe distante da nacionalidade,em que um grupo muito redu-
por parte da classe políticase, da parte da sociedade, raras são as ocasiões em
zido se reconhece, e referido a valores estranhos ao imaginário da grande maioria
que ocorrem mobilizaçõesem torno de demandasespecificamentevoltadas para
da populaçãobrasileira,o ânus de sua proteção e conservaçãoacaba sendo con-
a questãoda cultura.A facilidadee a profundidade
comque foi realizadoo "des- sideradocomo um fardo por mentes mais pragmáticas.Não foi outro o sentido das
mantelamentoda área da cultura" no início do governo Collor seriam um indício
emendas apresentadas,em 1994, ao texto constitucional de 1988, que ampliava
dessa situação.
consideravelmente a noção de património cultural. Essas emendas, apresentadas
No caso da políticafederal de preservação,os cerca de mil bens tombados por ocasião da revisãoconstitucional,visavam a reduzir tanto o universodo patri-
jincluindo-se aí desde monumentos isolados a conjuntos da extensão do Centro mónio como as atribuições da instituição responsável por sua proteção.'
Histórico de Salvador, com aproximadamentetrezentos imóveis, e cidades intei-
Pesadoporque mudo.essa é, portanto, uma das idéias que movem este traba-
ras, como Ouro Preto, Tiradentes, Olinda, Antõnio Prado) funcionammais como sím-
lho. Prolegfdos,a maior parte do tempo, do acesso do público que, em geral, vê
>'

bolos abstratose distantesda nação do que como marcos efetivosde uma identi.
a preservação como uma atividade cu/fa, própria dos países civilizados, esses
dade nacional com que a maioria da população se identifique, e que integrem a ima-
bens parecem guardar a sete chaves, para a grande maioria da população,as
gem externado Brasil. Na verdade, a identidadebrasileiratem sido representada informações,sentidos e valores que teriam justificado sua inclusão no património
basicamente pelo samba, pelo futebol, pelo carnaval e. mais recentemente, pelas histórico e artístico nacional. A distância entre as tradições culturais, as diferentes
telenovelas e pela Fórmula 1 . No exterior, o Brasil continua sendo valorizado sobre- Identidadoscoletivas, entre a pluralidadecultural da nação e a memória nacional
tudo por seus recursosnaturais. pela sua naturezatropical- salvo nos meios inte- construídapelo Estado,fica, desse modo, mais aguda, assim como os limites
lectuais e nos organismos internacionais de cultura, como a Unesco, onde o Brasil dessa política estatal enquanto política pública. Nesse sentido, tudo leva a crer
tem vários bens inscritoscomo PatrimónioCulturalda Humanidade(ver Anexo IX). que as novas propostas dos anos 70-80 não chegaram a mudar significativamente
Isso não significa,porém, que os bens culturais que se acham sob a proteção essa realidade.
legal do Estado - em função do tombamento - não sejam reconhecidos como de Além disso (ou, talvez, por isso). o tema do patrimónioe a questãodas polí-
valor, e que a sua presewação não seja consideradauma causa justa. Objeções ticas de preservaçãodespertam pouquíssimointeresse entre os cientistas sociais
frontais só costumamocorrer quando a ação do Estado vem contrariar interesses no Brasil. Dentreesses, são sobretudoos antropólogosque, eventualmente,abor-
particulares. como, por exemplo, de empresários da construção civil, proprietários dam esse tema, na medida em que se interessampelos processosde construção
de imóveis antigos, prefeiturasde cidades históricascom proletos de urbanização de identidades culturais diferenciadas.
modernizadoresetc. Para a populaçãoem geral. os bens tombadoscostumam ser
Seus trabalhos.' no entanto, têm-se concentradona análise dos discursos
valorizadospor sua anf u/dada, por sua riqueza,por sua Z)eleva,cobrando-se oficiais. Mas, ao abordarem esse discurso desligado de uma prática social mais
inclusiveda instituiçãofederal maiorzelo na tarefa de protegê-los.Já vão longe 7
ampla,e tambémda prática institucionalespecífica,deixam de fora o nível propria-
os tempos em que os agentes do Património corriam o risco de serem apedrejados
mente político da questão, a dimensão do conflito, na forma, mais velada que
por populações enraivecidas, que não hesitavam, inclusive, em ocupar um imóvel contundente,como se manifesta especificamente nesse campo.
em vias de ser tombadocom leprosos,para forçar sua demolição.5
As reações
Este trabalho pretende se distinguir de outros estudos já produzidossobre o
à ação do Estado, representadopela instituiçãofederal encarregadada proteção
mesmo tema em três aspectos: em primeiro lugar, o objeto da pesquisaé o pro-
do património, hoje, quando ocorrem, se dão nos tribunais. na imprensa, na luta
política e no tráfico de influências.e cesso de construção do património histórico e artístico no Brasil. considerado en-
quanto uma prática social produtiva, criadora de valor em diferentes direções.
Valioso, trata-se, porém, de um património pesado e mudo. Pesado, não só como observa Antõnio Augusto Arantes:
por sua monumentalidade,pela solidez dos .materiais e pelo lugar que ocupa no

INTRODUÇÃO 27
26 O PATRIÁõNIO eA PROCESSO
legitimam essa produção - e sim o próprio processo de construção desse patri-
1...)de valor económicoque pode ser aumentadoou diminuído,dependendodo trata-
mónio, ou seja, as práticasinstitucionaisdesenvolvidaspor determinadosatores,
mento que se dê aos bens preservadoslde valor simbólico.constitutivoda memória.
da territorialidadee da identidade nacional, além de outras identidades mais específicas
que podem ser mais ou menos democráticas.
e locais; e de valor político, levando ao aspecto da hegemoniae ao dos direitos culturais. A perspectivado trabalho é primordialmente histórica: procurei montar uma
11988, p. 16)
narrativaa partir da qual seja possível distinguir categorias universais como me-

Nesse sentido, é importante considerar não apenas a atuação dos agentes ins- mória, tradição, monumento. de formulações particulares - como património e
titucionais, como também a participação - direta ou indireta - da sociedade nossa preservação - e continuidades de diferenças.

construção,ou seja, a apropriação que é feita dessa prática política pelos dife- Em termos de periodização(ver Anexo 1), recorri a um critério já consagrado
rentes grupos sociais. jcf. MEC/Sphan/FNpM,
1980). pois reflete o modo como a própria instituiçãoconta

Em segundo lugar, considero os discursos oficiais produzidos sobre o patrimó- sua história: o que distingue a fase he/pica, que vai desde a criação, ainda em
nio como um aspecto dessa prática, por meio da qual diferentes atores, em diferentes caráter provisório, do Sphan. em 1936, a 1967. quando termina a longa gestão de

momentos, tentam raso/ver nesse campo específico algumas das grandes questões Rodrigo Meio Franco de Andrade, da fase moderna, iniciada com a ascensão de

que têm ocupado tradicionalmentea reflexão sociológica:a tensão entre o universal Aloísio Magalhães na política cultural, quando se elaboram novas propostas de

e o particular, entre o público e o privado, entre tradição e modernidade, entre cultura atuação. A gestão de Renato Soeiro (1967-1979)constitui um período.Mermediá-
rlo, quando o Sphan tenta se adaptar a uma nova conjuntura buscando ajuda inter-
e política, entre Estado e sociedade. Nesse sentido, parto do pressuposto de que
nacional e coexistindo com outras instituições federais atuantes na esfera da pre-
uma política de preservação é uma prática bem mais ampla que um conjunto de
atividades visando à proteção material de determinados bens. servação.
Um pressuposto fundamental de minha reflexão é a distinção entre política
Em terceiro lugar, procuro me situar criticamento em relação às análises so-
estatal - no sentido da atividade concentrada e conduzida no interior do aparelho
bre os dois períodos em questão. Considero que os fundamentos tanto de algumas
críticas feitas, nas duas últimas décadas, ao que seria o caráter excludente e eli- do Estado- e política pública- no sentido de articulada,Inclusivepor mecanismos

tista da construção do património realizada pelos intelectuais modernistas nos formais,com os interessesmúltiplosda sociedade."Consideroque falar de uma
política pública de preservaçãosupõe não apenas levar em conta a representati-
anos 30 e 40, quanto de certas objeções feitas ao trabalho desenvolvidopelo CNRC,
vidade do patrimóniooficial em termos da diversidadecultural brasileira e a aber-
reduzindo-oa um recurso legitimador de um regime autoritário em crise, como fru-
tura à paRicipaçãosocial na produçãoe na gestão do património,como tambémas
tos de um anacronismo,9no sentido de que analisam problemasde uma época a
condições de apropriação desse universo simbólico por parte da população. E falar
partir de questões e critérios formulados em outra. Por esse motivo, um dos obje-
em democratizaçãoimplica, nesse caso, considerarum conjunto de ações, em vá-
tivos deste trabalho é tentar a maior aproximação possível do ponto de vista dos
rios níveis, visando a desprivatizar esse campo.
agentes que conduziram, naqueles dois momentos decisivos, a política federal de
preservação no Brasil. Essa afirmação parte do pressuposto de que os patrimónios históricos e artís-
ticos nacionais devem ser entendidos não como universos fechados, representa-
Ao analisar a representação do património histórico e artístico nacional cons-
ções de uma nação una e coesa, identificada a um Estado centralizador,e sim
truída pelo Estado, não a considero como reflexo das classes dominantes ou da
em sua relação com práticas sociais de construçãoe de objetificaçãode identida-
pluralidade cultural brasileira. Procuro, sim, adotar uma posição de crítica ao modo
des coletivas, que, em termos políticos, representam,em muitas oportunidades.
como esse objeto tem sido construído e ideologicamenteelaborado por determina-
interessesconflitantesentre si e com um prometonacional, às vezes apresentado
dos sujeitos sociais, que têm detido, no Brasil, o monopólio dessa construção. Em
sob a égide do /nferessepúl)/lco. Ou seja, trata-se de, ao mesmo tempo, atualizar
suma, o objeto desta análise não é um produto - o conjunto de bens culturais que
um ponto de vista analítico - no sentido de tentar adequar a perspectivada pes-
compõem o património histórico e artístico nacional no Brasil, ou os discursos que

NTRODU(AO 29
28 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
se exerce se for reconhecido,quer dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder
quisa às condições atuais do Estado e da sociedade brasileiros, sob um regime simbólico não reside nos 'sistemas simbólicos' em forma de uma #/ocuflonaryforce mas
democrático - e tentar vislumbrar possibilidades de participação social ainda não que se define numa relação determinada - e por meio desta - entre os que exercem o
poder e os que Ihe estão sujeitos, quer dizer, na própria estrutura do campo em que se
exploradas.''
produz e se reproduz a crença
Qual a relação, no Brasil, entre as múltiplas memóriascoletivase uma memo- O quefaz o poderdas palavrase das palavrasde ordem,poderde mantera ordemou
ria nacional? E como é conduzida a apropriação da pluralidade cultural, enraizada de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia,crença
cuja produção não é da competênciadas palavras.' (Bourdieu,1989, p. 14-151

A complexa relação entre cultura e política, e a questão do papel dos intelectuais enquanto
homens públicos, são temas recorrentes na reflexão sociológica. Max Weber(1 982), no texto
'A política como vocação", distingue a ética da responsabilidade - em que ações são avalia-
enquan tn intÊlüctuais e enquanto homens públicos."
das segundo seus resultados - da ética da convicção - em que ações são avaliadas segun-
Neste trabalho. privilegiemum período da política federal de preservação no do sua coerênciacom valores.Para Weber, não se pode exigir do político que se exima
em nome de valores,nem do sábio que ponha seu saber a serviço do poder.
Em texto recente. o cientista político Norberto Bobbio(1 9931 retoma a temática weberiana
das duas éticas. e a reelabora. Para Bobbio, "o compromisso primeiro dos intelectuaisdeveria
ser o de impedirque o monopólioda força se tome tambémo monopólioda verdade'.
Um texto clássico sobre essa questão, mas com base em outras premissas. é o do maMsta
Antõnio Gramsci(s/d.). que distingue as intelectuais tradicionais - que se acreditam "autónomos
e independentesdo grupo social dominante', mas que, na verdade, estão a serviço de grupos
sociais cujo poder está em declínio- dos intelectuais orgânicos - que atuam como organiza-
dores da hegemonia social, identificados com os interesses dos grupos emergentes.
3
Por esse motivo, é pertinente considerar que essa política estatal constitui um campo, con-

Ent=n'!=i'i=li;:i': =:=" .:=:


';:;.iii:;i:=;=
luto do PatrimónioHistórico e Artístico Nacional (lphan).';
forme a definição de Pierre Bourdieu:'Compreender a gênese social de um campo. e apreen-
der aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem
que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram. é explicar,
tornar necessário. subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os actos dos produ-
modo
Resumindoo roteiro deste trabalho, no cama--l' procuro explicitar o tores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir.'
(1989,P.69)
4
Por exemplo, projetos voltados para a relação da cultura indígena com a questão fundiária,
a especificidade do trabalho do artesão relativamente à legislação trabalhista, a adequação dos
currículos e dos períodos lesivosàs peculiaridades dos diferentes contextos culturais etc.

A teoria do controle cultural. desenvolvida pelo antropólogo mexicanoGuillermo Bonfil Batalla


j1988), trata dessa questão.
5
nando-a com o contexto cultural mais ampio- Cf. EdgardJacintho,em Memóriao/a/ # 4(MinC/Sphan/FNpM.1988), sobre os trabalhos
de inventário que realizouna cidade de São João del-Rei, na décadade 1940.
NOTAS 6
Exemplos interessantes de mobilização da sociedade ocorreram no tombamento do Hotel
Capacabana Palace e do Parque Lage (Rio de Janeiro, RJI. da Serra da Barriga IUnião dos
Palmares,AL) e do Terreiro da Casa Branca ISalvador. BAI, e, mais recentemente,no asfal-
tamento de área tombada em São João del-Rei(MGI e na construção de um complexo imo-
biliário na encostatombada do Morro Dois Irmãos (Rio de Janeiro, RJ).

31
i'iiiÍiiãÜÕ eA PROC[SS0 INTRODUCÃO

30
Ver as emendas que foram encaminhadas pelos senadores Élcio Alvarez IPFL-ES), Jutahy
Magalhães IPSDB-BA) e Pedra Teixeira IPP-DF) e pelo deputada Germano Righotto (PMDB-
-r
1}
q
RSI, que propõem a restrição da proteção, pelo poder público. aos bens de propriedade da
União e a prévia aquiescência a esses tombamentos pelo Serviço de Patrimónioda União.
8
Ver. a respeito. o trabalho já publicado de Milet (1988), e as teses, ainda inéditas. de Gon-
q
çalves (1990). Rubino j1991) e Santos (1992).

Sobre o conceitode anacronismo na pesquisa histórica, diz o historiadorLuís Felipe de Alen-


castro: 'Ao mover-se do presente para outras épocas. e vice-versa. ao lidar com as conti-
nuidades. as passagens, as rupturas, as derivações, o historiadordeve constantemente pre-
munir-se contra a pecado capital de sua disciplina: o anacronismo. Vestir uma determinada PARTI
sociedade com as roupas talhadas em outras épocas. eis em que consiste o anacronismo.'
11991,p. 63) NOCÃO Dt PATRIAÕNIO

CARACTERÍSTICAS E HISTÓRIA
ia Essa distinção (assim como a diferençaentre coisa e valor. feita no início do capítulo l)
é utilizada neste trabalho como recurso analítico, para esclarecer certos aspectos da ques-
tão do património. Na bibliografia consultada, os termos po//fica estafa/ e po/ftlca púb/lca
costumam ser tomados como equivalentes.

Alguns textos recentes têm abordado a questão do património nesse sentido, como a série
Les l./eux de mimo/re. do historiador francês Pierre Nora(1 984-1 992). No Brasil. os traba-
lhos do antropólogoAntõnio Augusto Arantes também exploramessa perspectiva.
12

Como parte da pesquisa, foram realizadas entrevistas com atores dessa política, vlsanda
a colher informaçõesde óasfldores. que não constavam dos documentos oficiais, e também
no sentido de apreendera visão que esses atires tinham das instituiçõesem que traba-
lhavam e da atividade por elas desenvolvida. Essas entrevistas se revelaram especialmente
valiosas para a análise do período 197G-1980, e. sobretudo, da atuação do Centro Nacional
de ReferênciaCultural (CNRC), dada a carência de material documentalarquivadosobre
essa instituição e sobre as iniciativas e cantatas feitos por Aloísio Magalhães e seus colabo-
radores. Foram realizadas entrevistas com Lúcio Costa, Lígia Marfins Costa. Judith Martíns.
Dará e Antõnio Pedra Alcântara, Embaixador Vladlmir Murtinho, Clara de Andrade Alvim. José
SirvaQuintas,Luís Felipe Perret Serpa. PautaSérgio Pinheiro.

Contribuíramtambémcom informaçõesvaliosas Mana Allce Siaines de Castro. Ann-Mal


BeckmanMeirelles,Ana Gita de Oliveira e Helena Mussi.
13

A instituição federal encarregada da proteção do património histórico e artístico nacional foi


criada em 1936 jainda em caráter experimental) com o nome de Serviço do Património Históri-
co e Artístico Nacional (Sphanl. Em 1946 passou a se chamar Departamento IDphanl e,
em 1970, se transformou em Instituto jlphan). Com a reforma institucionalocorrida no MEC
em 1979, é criada a Secretaria do Património Histórico e Artístico Nacional (Sphan). que.
com a criação da Secretaria da Cultura em 1981, se converteu em Subsecretaria. Com a
criação do Ministério da Cultura em 1985 voltou a ser Secretaria. e foi extinta por decreto
do governo Collor em 1990. Foi então criado o Instituto Brasileiro do Património Cultural
jIBPC) que, em 1994.voltou a se chamar lphan (ver Anexo l).

32 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
CAPITULO
l
O PATRIAONIO: UAA QU{ISTAO DE VALOR

Não imporá quais sejam os direitos de propriedade, a destruição


de urraprédio histórico e monumentalnão deve ser permitidaa
esses ignóbeis especuladores, cujo interesse os cega para a
honra. (-.) Há duas coisas num edifício: seu uso e sua beleza.
Seu uso pertence ao proprietário,sua beleza a todo o mundos
destruí-loé, portanto, extrapolar o que é direito.
VectorHugo

A questão dos patrimónios históricos e artísticos nacionais costuma ser abor-


dada tendo como foco o conjunto de objetos que os constituem. ou. quando muito.
os discursos que os legitimam. Neste trabalho, o centro da investigação serão os
processos e as práticas de construção desses patrimónios, conduzidos por atores
definidos e em circunstâncias específicas. São essas práticas e esses atores que
atribuem a determinados bens valor enquanto património, o que justificaria sua
proteção. Nesse sentindo,é a noção de valor que servirá de base a toda a reflexão
aqui desenvolvida,pois consideroque são esses processosde atribuiçãode valor
que possibilitam uma melhor compreensão do modo como são progressivamente
construídos os patrimónios.
Na medida em que um dos traços que diferencia as sociedades simples das
sociedades complexas é a existência, nestas últimas, de um aparelho estatal, com
regras próprias e maior ou menor autonomia em relação aos diferentes grupos so-
ciais e, conseq(lentemente,à distinção entre memórias coletivas diversificadase
uma memória nacional, neste capítulo procuro analisar o modo específico de cons-
trução do universo simbólico dos patrimónios culturais nacionais: a sua constitui-
ção, a partir de um estatuto jurídico próprio, a sua proposição,como uma forma de
comunicaçãosocial, e a sua institucionalização,enquanto objeto de uma políti-
ca pública.
No artigo "A história da arte'. Gíulio CarãoArgan' parte de uma distinção -
çalves (1990), esses bens viriam objetivar, conferir realidade e também legitimar
entre coisa e valor - que servirá de base para a discussão, neste capítulo, da
essa "comunidadeimaginada'
noção de património:
Essa relação social, mediada por bens, de base mais afetiva que racional e
Uma vez que as obras de arte são coisas às quais está relacionado um valor, há relacionada ao processo de construção de uma identidade coletiva - a identidade
duas maneiras de trata-las. Pode-se ter preocupação pelas coisas: procura-las. identificá-
nacional - pressupõe um certo grau de consenso quanto ao valor atribuído a esses
las, classifica-las, conserva-las, restaura-las. exibi-las, compra-las, vendê-lasl ou, então,
bens, que justifique, inclusive,o investimento na sua proteção. No caso dos patri-
pode-seter eh mente o valor: pesquisar em que ele consiste. como se gera e transmite,
mónios, essa capacidade de evocar a idéia de :nação decorreria da atribuição, a
se reconhecee se usufrui.j1992a, p. 13)
esses bens.de valoresda ordem da cultura - basicamenteo históricoe o artístico.
Essas duas maneiras de abordar os fenõmonos artísticos ocorrem também no A noção de património é, portanto, datada, produzida, assim como a idéia de na-
tratamento dos chamados bens pafrlmonlaé. É próprio das políticas de preserva- ção, no final do século XVlll, durantea RevoluçãoFrancesa,e foi precedida,na
ção estarem voltadas para as coisas e mesmo serem absorvidas por elas. A ne- civilização ocidental. pela autonomização das noções de arte e de história. O his-
cessidade
de resistira pressõesno sentidoda destruição
jtanto por fatoresnatu- tórico e o artístico assumem, nesse caso, uma dimensão instrumental, e passam

rais como humanosl. aliada à responsabilidade. inclusive penal, do Estado e de a ser utilizadosna construçãode uma representação
de nação.Já dizia Guizot.
eventuais proprietários, em relação aos bens tombados, faz com que o objetivo no século XIX, que o solo da França é simbolizado por seus monumentos.:

dessas políticas acabe se reduzindo à proteção de bens, convertendo-se assim Enquanto prática social, a constituição e a proteção do património estão
as coisas no objeto principal da preocupação dos atires envolvidos. assentadasem um estatutojurídico próprio. que torna viável a gestão pelo Estado,
em nome da sociedade.de determinadosbens, selecionadoscom base em certos
Consequentemente,
o valorculturalquese atribuia essesbenstendea ser
critérios. variáveis no tempo e no espaço. A norma jurídica, nesso caso, funciona
naturalizado,sendo considerada sua propriedadeintrínseca, acessível apenas a
como linguagem performativade um modo bastante peculiar: não apenas define
um olhar qualificado. Essa costuma ser a visão do técnico, do restaurador,dos
direitos e deveres para o Estado e para os cidadãos como também inscreve no es-
responsáveis, enfim, pela conservação da integridade material dos bens. mas ter-
paço social determinadoscones, figurações concretas e visíveis de valores que se
mina por predominar também entre os formuladores daquelas políticas. quer transmitir e preservar.
Entretanto, considero que uma política de preservação do património abrange A seguir, com base na idéia de património tal como é formulada em toxtos jurí-
necessariamenteum âmbito maior que o de um conjunto de atividades visando à dicos brasileiros,' vou procurar especificaro modo como, no Brasil, se constituiu
proteção de bens. Ê imprescindível ir além e 'questionar o processo de produção essa noção enquanto fato jurídico e enquanto fato social.
desse universo que constitui um património, os critérios que regem a seleção de
bens e justificam sua proteção; identificar os atires envolvidos nesse processo 1.1 A NOÇÃO DE PATR]AÕNEO COPO CATEGORIA ]URÍDtCA
e os objetivos que alegam para legitimar o seu trabalhosdefinir a posição do Esta-
Em termos jurídicos. a noção de património histórico e artístico nacional é re-
do relativamente a essa prática social e investigar o grau de envolvimento da socie-
ferida pela primeiravez no Brasil (embora não exatamentecom essa denomi-
dade. Trata-se de uma dimensão menos visível, mas nem por isso menos signi-. nação), como sendo objeto de proteção obrigatória por parte do poder público, na
ficativa, das políticas de preservação.
Constituição de 1934. Diz o art. 10 das disposições preliminares:
No caso dos patrimónios históricos e artísticos nacionais, o valor que permeia Art. 10 - Compete concorrentemente à União e aos Estados:
o conjunto de bens, independentemente de seu valor histórico, artístico, etnográ-
fico etc., é o valor nacional. ou seja, aquele fundado em um sentimento de perten-
111.proteger as belezas naturais e os monumentos de valor histórico ou artístico. po
cimento a uma comunidade, no caso a nação. Como observa José Reginaldo Gon-
dendo impedir a evasão de obras de arte.

36 O PATRIAõN IO [A PROCESSO
O PATRIAÕNIO: UAA QUESTÃODE VALOR 37
E, no entanto,somentecomo decreto-lei
RQ25, de 30 de novembro
de 1937.
turais, mencionadosno art. 215 da Constituiçãode 1988 e reconhecidospela
que se regulamenta a proteção dos bens culturais no Brasil. Esse texto. além de
Unesco, desde 1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
explicitar os valores que justificam a proteção. pelo Estado, de "bens móveis e
O direito, portanto, além de ter por objeto interessesque se realizamdentro
imóveis', tem como objetivo resolver a questão da propriedade desses bens.
do círculo da economia,volta-setambém para interessesoutros.tanto do Indiví-
Desde então, todas as Constituiçõesbrasileiras têm ratificado a noção de patri-
duo, quanto da família e da sociedade. São os direitos meta-individuais,que têm
mónio em termos de direitos e deveres, a serem obsewados tanto pelo Estado
como pelos cidadãos.4 como titular não o indivíduo. mas uma coletividade mais ou menos abrangente.
Entre esses interessesfigura o interesse público de que fala o art. le do decreto-
A primeira linha de reflexão que desenvolveremdiz respeito à questão do valor. lei Re25. de 30.11.37.Pelascaracterísticas
do sujeitodessetipo de interesse-
Em todos os textos jurídicos, é o valor cultural atribuído ao bem que justifica seu indeterminado (a sociedade nacional. a humanidade etc.) - do seu objeto - fluido
reconhecimentocomo património e, conseqilentemente, sua proteção pelo Estado. (a identidade nacional, a qualidade de vida, o meio ambiente etc.) e, também, pela
A segunda linha de reflexão - vinculada à primeira - remete especificamente intensa litigiosidade de seus parâmetros e pelo caráter mutável de seu conteúdo
ã questão da propriedade, crucial nas implicações práticas do instituto do tomba- jcf. Mancuso, 1991, p. 67-80), o interesse público se insere na categoria dos inte-
mento. sobretudo quando consideramos que a maior parte dos bens que compõem resses difusos.
os patrimónios. e, certamente, os mais significativos, são bens arquitetõnicos. Na O próprio direito à propriedade - enquanto direito do indivíduo, consagrado
medidaem que são consideradosde interesse público,os bens tombados se con- pelo Direito romano. fonte para o Direito brasileiro - é. no Código Civil Brasileiro,
vertem, em certo sentido, em propriedade da nação, embora não percam seu cará- limitado pelo que seria a função social da propriedade, regulamentada pela legisla-
ter de mercadorias apropriáveis individualmente ção. Nesse sentido, o exercício do direito de propriedade sobre as coisas não se

O instituto do tombamento - dispositivo por meio do qual, no decreto-lei Rg25. pode contrapor a outros valores, não-económicos, de interesse geral, e, por isso.

de 30.11.37,se efetiva a proteçãode bens culturais pelo Estadono Brasil - incide o exercício desse direito é tutelado pela administração pública.

sobre o sistemade valores dos bens por ele atingidose sobre o estatuto da pro- No caso específicodo bem tombado, a tutela do Estado recai sobre aqueles
priedade desses bens de forma peculiar, específica. Para entender essa espe- aspectos do bem considerados de interesse público - valores culturais, refe-
cificidade, é preciso retomar a distinção referida por Argan entre coisa e valor.s rências da nacionalidade.O valor patrimonial é qualificado no texto legal: "quer
por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu ex-
Do ponto de vista jurídico - e para fins de regulamentaçãodo direito de pro-
cepcional valor arqueológico ou etnográfico. bibliográfico ou artístico" (art. le de-
priedade -, tanto o Código Civil como o Código Penal brasileiros distinguem bens
creto-lei ne 25, de 30.11.371.De acordo com o mesmo texto, o agente encarregado
ri materiais,ou coisas,de bens imateriais.O Direito das Coisas,no CódigoCivil, "tra-
ta da coisa, enquantovalor económicoapropriávelindividualmente,e de suas rela- da atribuiçãodessevalor, para fins de tutela pública, é a autoridadeestatal compe-

ções privadas' (Castro, 1991, p. 25). Distingue a coisa, apropriável, dos bens ima- tente - no caso, o Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. através
de seu Conselho Consultivo.
teriais, não económicos,que, no dizer do jurista Clóvis Bevilacqua, "são irradia-
ções da personalidadeque, por não serem suscetíveisde medida de valor. não Cabe ao poder público, portanto, exercer tutela no sentido de proteger "os
fazem parte de nosso património' (apud Castro, 1991, p. 34) valores culturais ínsitos no bem material, público ou particular. a cujos predica-
mentos, particularidades ou peculiaridades é sensível a coletividade e importa de-
Esses bens imateriais, ou valores, são objeto específico, por exemplo, do Títu-
fender e conservar em nome da educação, como elementos indicativos da origem.
lo 111do Código Penal de 1940. Do ponto de vista jurídico, são inapropriáveis indi-
da civilização e da cultura nacionais' (Rocha. 1967, p. 31).
vidualmente- à diferença dos bens materiais - e a relação dos indivíduos com
esses bens se expressaJuridicamentesob a forma de direitos: o direito à liberda- Esse é. /afo senso, o objetivo das políticas de presewação: garantir o direito

de, à vida, à instruçãoetc. Nessalinha se inscreveriam


tambémos direitoscul- à cultura dos cidadãos, entendida a cultura. nesse caso, como aqueles valores
que indicam - e em que se reconhece - a identidade da nação.

38
O PATRIAõNIO eA PROCESSO
O PATRIIIONIO: UAA QUESTÃODE VALOR 39
Entretanto, embora a proteção incida sobre as coisas, pois estas é que cons- deraçãoo fato óbvio de que os significadosnela não estão contidos,nem Ihe são
«
tituem o objeto da proteção jurídica, o objetivo da proteção legal é assegurar a inerentes: são valores atribuídos em função de determinadas relações entre atores
permanênciados valores culturais nelas identificados. Esses valores só são alcan- sociais, sendo, portanto. indispensável levar em consideração o processo de pro-
çáveis através das coisas, mas nem sempre coincidem exatamente com unidades dução, de reprodução, de apropriação e de reelaboração desses valores enquanto

materiais. Essa distinção se torna mais clara quando consideramos o tombamento processo de produção simbólica e enquanto prática social.

de conjuntos, seja de bens móveis (por exemplo, coleções de museus) ou imóveis


aporexemplo. centros históricos). Nesses casos, o objeto do tombamentoé um 1.2 0 PAÍRIAÕN10 COPO rORW DE COAUNICACÃ0 SOCiAl

único valor - o bem coletivo (no sentido gramatical do termo, de conjunto de uni- O universo dos patrimónios históricos e artísticos nacionais se caracteriza
dades), embora materializado em uma multiplicidade de coisas, geralmente hete- pela heterogeneidade dos bens que o integram, maior ou menor conforme a con-
rogeneas.
cepção de patrimónioe de cultura que se adote: igrejas, palácios, fartos, chafa-
No caso do património,os valores não económicosa serem protegidos(valo- rizes, pontes. esculturas, pinturas, vestígios arqueológicos, paisagens, produções
res culturais) estão inscritos na própria coisa, em função de seu agendamento do chamado artesanato, coleções etnográficas, equipamentos industriais, para não
físico-material, e só podem ser captados através de seus atributos. Mas. com o falar do que a Unesco denomina património não-físico ou imaterial - lendas, can-

tombamento,o bem não perde o valor económicoque Ihe é próprio, enquanto coisa, tos, festas populares,e, mais recentemente,fazeres e saberes os mais diversos.
passível da apropriação individual. Por esse motivo, é preciso regular mais rigida- Essa enumeração, propositalmentecaótica, visa a chamar a atenção para o
mente ainda, nesse caso, o exercício do direito de propriedade. fato de que os bens enumerados acima pertencem, enquanto signos, a sistemas
Sobre o mesmo bem, enquanto bem tombado. incidem, assim. duas modalida- de linguagem distintos: à arquitetura, às artes plásticas, à música, à etnografia,
des de propriedade: a propriedade da coisa. alienável, determinada por seu valor à arqueologia etc. Cada um desses sistemas tem, por sua vez, suas especifici-
económico. e a propriedade dos valores culturais nela identificados que. por meio dades e seu modo próprio de funcionamento enquanto código. Além disso. esses
do tombamento, passa a ser alheia ao proprietário da coisa: é propriedade da na- bens cumprem funções diferenciadas na vida económica e social.
ção, ou seja, da sociedade sob a tutela do Estado. Do que foi dito acima, pode-se deduzir que o que denominamos património
Esse duplo exercício de propriedade sobre um mesmo bem gera, obviamente. constituí um discurso de segundo grau: às funções e significados de determinados
uma série de problemas, pois o exercício de um tipo de propriedade limita neces- bens é acrescentadoum valor específico enquanto património,o que acarreta a res-
sariamente o exercício do outro. É evidente que os conflitos de interesses - sobre- semantização do bem e leva a alterações no seu sistema de valores. O processo

tudo entre o interesse público e o privado - ficam, nesse caso, mais agudos, de seleção desses bens é conduzido por agentes autorizados - representantes do

mesmo porque o chamado valor cultural de um bem não é regulado por um mer- Estado, com atribuições definidas - e dentro de categorias fixas, a pdorf definidas.
cado específico, mas se define no nível da "economia das trocas simbólicas'. relacionadasa determinadas disciplinas (arte, história, arqueologia. etnografia etc.l.

De tudo que foi dito, fica claro que o âmbito de uma política de preservação No caso brasileiro, essas categorias são os valores especificados no decreto-
do património vai muito além da mera proteção de bens móveis e imóveis em sua lei Rg25, de 30.11.37.' A essas categorias se superpõe uma categoria unificadora.

feição material. pois. se as coisas funcionam como mediação imprescindível dessa


a de valor nacional.
atividade, não constituem, em princípio, a sua justificativa, que é o interesse pú- Os signos referidos funcionam antes como símbolos, no sentido saussuriano
blico, nem seu objeto último,que são os valoresculturais.E, se os valoresque se do termo. Para Saussure j1969, p. 101), o símbolo nunca é inteiramente arbitrário,
pretende
preservar
- conformeestá explícitona abordagem
jurídicada questão- ele não é vazio, pois é construídocom base em uma motivaçãocultural.O símbolo
são apreendidos na coisa e somente nela, não se pode deixar de levar em consi- da justiça não poderia ser uma carruagem.

40
O PATRIAõNIO [A PROCESSO O PATRIAÕNIO: UIVA QUESTÃODE VALOR 41
b.

H
No caso dos bens patrimoniais.os atributos da coisa são consideradosvalo- dos códigos utilizados - no caso, as diferentes linguagens-. como também que
res culturalmente relevantes, excepcionais. No caso do Brasil, determinados bens tenha acesso a um determinadouniverso cultural. No caso do patrimónionão bas-
como igrejas dos séculos XVll e XVlll, casas de câmara e cadeia, fortes. palácios. ta, portanto, selecionar e proteger criteriosamente um conjunto de bens. E preciso
sedes de fazendas etc. foram erigidos pelos agentesdo Sphan em símbolos da que haja sujeitos dispostose capazes de funcionarem como interlocutoresdessa
nação por sua vinculação a fatos memoráveis mas, sobretudo. por suas qualidades forma de comunicaçãosocial, seja para aceita-la tal como é proposta, seja para
construtivas e estéticas. Cabe, portanto, recorrer à noção de símbolo, pois haveria contesta-la, seja para transforma-la.
uma motivação, baseada na cultura, na constituição desses símbolos. O que quero dizer é que a proteção da integridade física dos bens patrimoniais
Pode-se concluir que os patrimónios funcionam como repertórios nos termos não é por si só suficientepara sustentaruma política pública de preservação.Isso
da definição de Umberto Eco: "um repertório prevê uma lista de símbolos, e even- porque a leitura de bens enquanto bens patrimoniais pressupõe as condições de
tualmente fixa a equivalência entre eles e determinados significados' (1987, p. 40). acesso a significações e valores que justifiquem sua preservação. Depende, portan-

Neste ponto, quero chamar a atenção para a distinção- até o momento não to, de outros fatores além da mera presença, num espaço público,de bens a que
explicitada - entre bem cultural e bem patrimonial. A intermediação do Estado no agentes estatais atribuíram valor histórico, artístico etc., devidamenteprotegidos
segundo caso, através de agentes autorizados e de práticas socialmente definidas em sua feição material.
e juridicamente regulamentadas, contribui para fixar sentidos e valores, priorizando Essa dimensão da questão do património - ou seja, a consideração dos bens
uma determinada leitura: seja a atribuição de valor histórico, enquanto testemunho do ponto de vista de sua recepção- não costuma ser abordada,a não ser even-
de um determinado espaço/tempo vivido por determinados atoresl seja de valor tualmente,pelos agentesinstitucionais.Normalmente,é do pontode vista da pro-
artístico, enquanto fonte de fruição estética, o que implica também uma modalidade dução dos patrimóniosque a questão é tratada. seja na afirmaçãodo valor nacio-
específica de conhecimentosseja de valor etnográfico, enquanto documento de nal dos bens tombados - tónica do discurso oficial -, seja na crítica ao modo como
processos e organizações sociais diferenciados. são selecionadosesses bens. Entretanto,poucos se voltam para a análise do mo-
Ao se considerarum bem como bem cultural,ao lado de seu valor utilitário do e das condições de recepção desse universo simbólico pelos diferentes seto-
e económico(valor de uso enquanto habitação, local de culto, ornamentoetcl e res da sociedade nacional - questão que é particularmenteimportanteno Brasil,
valor de troca, determinado pela mercado), enfatiza-se seu valor simbólico, en- onde a diversidadecultural é imensa. a escola cumpre muito precária e limitada-
quanto referência a significações da ordem da cultura. Na seleção e no uso dos mente uma de suas funções principais, que é a de formar cidadãos com uma base
materiais, no seu agendamento, nas técnicas de construção e de elaboração, nos cultural comum. e onde o hábito de consumo de bens culturais é incrivelmente
motivos, são apreendidasreferências ao modo e às condições de produção desses restrito. Por esse motivo. qualquer proposta de democratização da política de
bens, a um tempo. a um espaço, a uma organização social, a sistemas simbó- preservaçãoque não leve em conta essa realidadecorre o risco de cair no vazio,
licos. No caso dos bens patrimoniaisselecionadospor uma instituiçãoestatal, na medida em que os valores culturais que se quer preservar- fundados,como
considera-se que esse valor simbólico refere-se fundamentalmente a uma iden- já foi observado,nas noçõesde arte e de história- só fazem sentido para um pe-
tidade coletiva, cuja definição tem em vista unidades políticas (a nação, o estado, queno grupo. Outro problema,na mesma linha mas em sentido inverso, é a leitura
o município). que as classes cultas fazem da cultura popular, em geral a partir de uma pers-

Assim como ocorre na literatura. portanto, e nas artes em geral, para que pectiva folclorizanteque enfatiza o exotismo ou a discutível categoria da auten-
ticidade.7
determinados bens funcionem enquanto património é preciso que se aceite uma
convenção: que esses bens constam determinadas significações - ou seja, que Por esse motivo.vale a pena consideraresse aspectoda questão.ou seja.
se entre no jogo, aceitando suas regras. Isso significa que o interlocutor deve ter o processo de apropriação dos bens patrimoniais. Para Roger Chartier (1988).
condições de participar do jogo não só na medida em que tenha algum domínio todo receptoré. na verdade, um produtor de sentido, e toda leitura é um ato de

42 O PÂTRIAÕNIO [A PROCESSO O PAIRIÁÕNIO: UAA QU[SIÀO DE VALOR lm


apropriação.As significações produzidas pelas diferentes leituras podem, inclu- A democratização da apropriação não deve, no entanto, ser entendida como
sive, estar bem distantesda intenção ou do interesse do autor da obra - ou, no mera difusão das significações produzidas pelos agentes institucionais. Como
caso dos bens patrimoniais,das significaçõese valores que os agentes estatais observa Roger Chartier. uma abordagem que leve em conta a comple'xidade do
autorizados lhes atribuíram enquanto património. processo de recepção vai chamar a atenção para os usos diferenciados que são
De um lado, é evidente que esses bens serão tanto mais nacionais quanto feitos dos mesmos bens, o que possibilita, inclusive, sua apropriação diferenciada
maior for o númerode pessoasque os identifiquecomo património.Por outro lado, pelos grupos sociais, mesmo em situação de desigualdade económica e social.
esse consenso não significará necessariamenteque todos fazem a mesma leitura Por outro lado, esse tipo de abordagem vai evidenciar os limites que se interpõem
do bem. SÓ para dar um exemplo bastante óbvio. a igreja do Senhor do Bonfim, a essa apropriação. e que decorrem da dificuldade de acesso, para grupos sociais
em Salvador,será valorizadapor alguns por suas qualidadesestéticas,por ou- culturalmente
desfavorecidos
(entendidaaqui culturacomo as informações,
e ex-
tros, como local de culto católico, por outros ainda, como palco para rituais de periências veiculadas primordialmente pela educação formal). ao consumo e aos
candomblé,e pelos turistas, muito provavelmentecomo um dos símbolosda capi- códigos de leitura dos bens patrimoniais.
tal da Bahia.
Essa perspectiva não impede que as diferenças sejam identificadas (Inclusive
O que quero dizer é que, por mais regulamentadoe controladoque pretenda as diferenças com raízes económicas e sociais), mas desloca a sua própria esfe-
ser o processode construçãodos patrimónios,e por mais fixos que possam pare- ra de identificação, uma vez que não implica a qualificação social das obras como

cer os efeitos de um tombamento, tanto materiais como simbólicos, a recepção um todo("arquiteturaluso-brasileira',"artesanato',"arte popular etc.l. Em vez disso,
dos bens tombados tem uma dinâmica própria em dois sentidos:primeiro, no da caracteriza as práticas que se apropriam. distintivamente, dos materiais que circu-
mutabilidadede significações e valores atribuídos a um mesmo bem em diferentes lam numa determinadasociedade (Chartier, 1988, p. 233).

momentos históricos - mudança que diz respeito inclusive às próprias concepções As análises centradas no processo de construção dos patrimónios são impor-
do que seja histórico, artístico etc.l segundo, no da multiplicidade de significações tantes, na medida em que procuram desvendar o modo como determinados intelec-
e de valores atribuídos, em um mesmo momento e um mesmo contexto, a um mes- tuais, em nome do Estado, concebem a "identidade nacional". Mas, uma vez que
mo bem, por grupos económica, social e culturalmente diferenciados. o interesse na questão do património seja o de entender o processo específico
A percepção dessas dinâmicas relativamente ao património é fenómeno mais de circulaçãodos bens patrimoniaisnumasociedade.a consideração do vértice
ou menos recente,e decorrede circunstânciasespecíficas.que serão abordadas da recepçãoé Indispensável,tendoem vista o caráterdinâmicoe ativo de qual-
no próximo capítulo. O que interessa ressaltar aqui é que é imprescindívellevá- quer apropriaçãosocial. Apenas quando esse aspecto é devidamenteincorporado
las em conta na formulação de uma política de preservação. à políticaestatal é que se pode falar em uma políticapública.

O fato é que as análisescríticas das políticasde preservaçãotêm dado ênfase


1.3 0 PATRiAÕN10COAM 0üJ[T0 DE UU POLÍTICA PÚBLICA
ao processode construçãodos patrimónios.visando a chamar a atenção para sua
utilização como instrumento ideológico de legitimação do poder estatal. Ao critica- Para Oscar Ozlack e Guillermo O'Donnel. as políticas estatais seriam "alguns
rem o seu caráter elitista, atribuem-noapenas ao processo de seleção de bens, acordesde um processosocialtecido em torno de um tema ou questão"(1976, p.
excludente, e que privilegia os monumentos identificados com a cultura dominante - 17). Para Jobert e Mulher,as políticas públicas constituem "tentativas de gerir uma
que, no caso do Brasil, é a cultura luso-brasileira.Conseqüentemente,
as pro- relaçãoentre um setor e a sociedade global" (1987, p. 521. Em ambas as definições,
postas visando a democratizaro patrimóniose centram no vértice de sua cons- pressupõe-se um "Estado em ação', distinto da imagem de um Estado uno, que se
trução - ou seja. na ampliação do conceito de patrimónioe na participação da apresenta como identificadoà nação. de que garantiria a coesão. Nessa imagem -
sociedadena constituiçãoe no gerenciamentodesse património.Fica de fora a a do Estado como um organismo que regula os movimentos da sociedade - Estado.
questão da democratizaçãoda apropriação simbólica desses bens. nação e sociedade praticamente se fundem no imaginário social.

44 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO
O PÀTRIAONIO: UAA QU[SIÁO DE VALOR 45
A idéiade um "Estadoem ação' implica,no entanto,a heterogeneidade,
a luta difusas e costumamse concentrar em grupos restritos. também os objetivos des-
de poder e o conflito de interesses. mesmo dentro da burocracia estatal. sas políticas nunca são claramente apresentados, tanto nos discursos oficiais
Logo, analisar o "Estado em ação' significa levar em conta sua dinâmica inter- quanto em definições formuladas em outras instâncias.' Nesse sentido, é mais
na, a partir das ações de diferentes sujeitos, tornando-se difícil recorrer, nesse proveitoso verificar como diferentos linhas de pensamento político elaboram uma
nível, a modelos analíticos que o reduzam a um instrumento de classe, a gestor prática política nesse campo
da ordem social, a promotor do desenvolvimento, ou a qualquer outra concepção Numa perspectivaliberal, cabe à sociedade produzir cultura. Ao Estado, cabe
que neutralize os inevitáveis antagonismos, tanto do Estado com a sociedade apenas garantir as condiçõespara que esse direito possa ser exercido por todos
quanto internamente, na máquina estatal. os cidadãos. Para Norberto Bobbio (1977), essas condições são, basicamente,o

A imagem que se tem da política federal de presewação no Brasil contradiz reconhecimentoe o respeito a valores como a liberdade (enquanto ausência de

essa afirmação.A ídéia de uma ação política monolítica,conduzidapraticamente impedimentosfísicos e morais), a verdade (enquantoespírito crítico, em oposição
ao dogmatismo. à intolerância e às falsificações) e a confiança no diálogo.
sem contestações pelo Estado, em nome do interesse público, foi, inclusive, refor-
çada pela aura que, até hoje. envolve a fase heróica do Sphan. Entretanto,como Bobblo faz um distinção entre política cultural e política da cultura. A primeira
a trajetória dessa política estatal veio demonstrar, essa foi apenas uma entre dife- é a planificaçãoda culturafeita pelos políticos, em que a cultura figura como ins-
rentes orientações possíveis - e que, na época, se impôs sem maiores dificul- trumento para alcançar fins políticos. A segunda é a política dos homens de cultu-

dades. como a mais apropriada - para se elaborar a questão da identidade na- ra, voltada para garantir as condições de desenvolvimentoda cultura e o exercício
cional na constituição de um património histórico e artístico. dos direitos culturais.

Partindo do pressuposto de que essa imagem é formada com base em uma Se, na perspectiva liberal, cabe ao Estado simplesmente assegurar o espaço

situação conjuntural - o modo como essa política vem sendo conduzida no Brasil. para a produção e o consumo de bens culturais. numa perspectivasocialista o
Estadoliberal constituiriaum instrumentode classe. Nesse sentido, o que Bobbio
o que uma análise comparativa com outras políticas pode comprovar -, propus-
me, neste trabalho, a abordar essa política estatal na sua relação com a sociedade. denominou po//rica de cu/fura seria inviável numa sociedade de classes.

procurando apreender, ainda que nos limites de uma prática específica - os tom- Consideroque a posturaliberal é irrefutáveldo pontode vista de seus prin-
bamentos- a presença de outros atores que não apenas os agentes institucionais. cípios. mas, no caso brasileiro,seus pressupostoscolidemcom uma realidade
Pois é evidente que, se essa política foi instaurada e se mantém há mais de em que a cidadaniaainda não é um bem coletivo. Nesse caso, a formulaçãode

cinqüenta anos, é porque atende a algum tipo de demanda social mais ampla. uma política cultural democrática(atributo que tanto os liberais quanto os socia-
listas defendem em suas propostas) implica uma atuação necessariamentemais
Na pesquisa, procurei seguir os passos discriminados tanto por Ozlack e O'Donnel
ativa e abrangente do Estado. Trata-se não só de defender determinados valores,
quanto por JobeR e Mulherpara a análise de políticas públicas: a definição da
como de criar condições para implementá-losnuma sociedade onde os direitos
questão e do modo como ela se tornou politicamente relevante, passando a ser
mínimos da cidadania, na prática, são exercidos por poucos- Ou seja, considerar
objeto de uma política públicas a discriminação dos atores envolvidos, estatais e
todos os cidadãoscomo homensde cultura, assimcomo propunhaGramsci,em
não-estatais, de sua inserção social e das lideranças que assumem o setorl os
condições de exercer os direitos culturais. e atuar no sentidode converter esse
recursos a que esses atores recorrem para legitimar essa política, ou seja, a rela-
princípio- que no caso do Brasil é ainda um ideal - em realidade.
ção de um prometo
setorial com um prometoglobal para a naçãol os instrumentos
Na verdade, a implementação de uma proposta como essa - desafio que vem
utilizados na sua implementação.
sendo enfrentadosobretudo no âmbito das secretarias municipais de cultura' -
No conjunto das políticas implementadas pelo Estado, as políticas culturais se requer um esforço prévio, uma atuação didática no sentido de sedimentar uma
distinguempelo tema. Mas, assim como as demandasnessa.área são bem mais
nova cultura política.

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO 47
O PATRIÁÕNIO: UIVA QUESTÃODt VALOR
N
b

Se essa orientação tem se mostrado complexa no âmbito municipal, que dirá NOTAS

uma proposta de democratização como a formulada pela política federal de cultura


Historiador e crítico de arte italiano. catedrático de História da Arte da Universidade
no início dos anos 80, ainda em plena vigência do regime militar. Naquele momen-
de Romã. Trabalhou de 1933 a 1955 na Administração Estatal do Património Artísti-
to, além da fragilidade dos mecanismos institucionais do representação política.
co. Foi eleito prefeito da cidade de Romã, em 1976, e senador pelo Partido Comunis-
que só então começavam a ser reorganizados,e das formas de participaçãosocial, ta Italiano.em 1983.
especificamentena área da cultura ja não ser entre alguns produtores culturais,
como os cineastas), ínexistiam mecanismos de mediação entre Estado e socieda- Sobre a relação entre a história e as ideologias políticas, disse, em entrevista,o his-
toriador Eric Hobsbawm: "A história é a matéria-prima para ideologias nacionalistas, étnicas
de, e era praticamenteimpossível identificar atores sociais constituídosem torno
ou fundamentalistas,da mesma maneira como as papoulas são a matéria-primapara os
de causas culturais. Ficava no ar a pergunta (e, para alguns, a suspeita) sobre viciados em heroína. O passado é um elemento essencial, talvez até mesmo o ele-
o sentido dessa proposta: idealismo de alguns agentes institucionais.instrumen- mento essencial nestas ideologias. Quando não existe um passado adequado. ele
talização da cultura por um governo em crise de legitimidade ou estratégia política sempre pode ser inventado.' 10 Estado de São Pau/o. 16 jan. 1994. Especial Do-
de resistência, possível num setor à margem dos grandes interesses do capital? mingo,p. D61
3
Independentementeda resposta que se dê a essas indagações, o fato é que, Embora algumas das observações que se seguem tenham interesse geral - na medi-
como observa Chantal Mouffe (1988, p. 95), a mora enunciação, através de dis- da em que se aplicam a outros contextos nacionais - elas dizem respeito apenas
cursos, de determinados princípios e direitos - como o direito à igualdade - cons- ao modo como, no Brasil, é construída juridicamente a noção de património histórico
e artístico nacional.
titui fator que viabiliza a constituição de novos sujeitos sociais (por exemplo, os
escravos
como"homens',as mulherescomo"cidadãs"
etc.) e a transformação
de Cf. Barbuy. 1989, sobre as menções, nas Constituiçõesbrasileiras,relativas à cultura
relações de subordinação em antagonismos. Nesse sentido, nos anos que se se-
Lembro que essa distinção- entre coisa e valor - é referida aqui apenas na medida
guiram à formulação da proposta da Secretaria da Cultura do MEC, em 1981. ficou
em que é útil como recurso para a compreensãoda noção de património.Não se
evidente que essa proposta veio atender a uma demanda social de valores demo- têm em mente dois termosindependentese sim duas faces de uma mesmamoeda,
cráticos, na medida em que seu discurso foi incorporado pelas mais diversas ins- como o par significante/significado, em ling(mística.
tâncias, e foi absorvido pela Constituição de 1988.
Para fins de inscrição dos bens tombados, devem-se considerar os quatro Livros do
Entretanto. se partiu da área federal uma primeira reivindicação pela democra- Tombo: Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, Livro Histórico, Livro de Be-
tização da política cultural, na prática têm sido os órgãos municipais que vêm las Artes e Livro de Artes Aplicadas.Esse último livro se acha em desuso.e dele
implementando com maior visibilidade propostas nesse sentido. E, passados vá- constam apenas quatro inscrições.

rios anos da elaboraçãodo documento l)/refrües para operaclona/izaç;ão


da po/Ê Foi no sentido de reelaborar criticamente esses tipos de leitura que vários proletos
fica cu/fura/do MEC(1981),fica no ar a pergunta:
quala propostahoje- emface do CNRC abordaram manifestações de cultura popular. A partir dessa mesma visão
de uma realidade politicamente outra, embora social e economicamente ainda for- foram consideradas as manifestações das diferentes etnias.

temente marcada pela desigualdade - da área federal para a cultura, em geral, Sobre essa questão, sintetiza Eunice Durham: "de um lado, é necessário eliminar
e para o património, em particular? as barreiras educacionais e materiais que impedem a maioria da população de ter
Esse trabalho não pretende - nem seria de sua atribuição - oferecer resposta acesso aos bens culturais. que são monopolizadospelas classes dominanteslde ou-
tro lado, é importantepreservare difundir a produção cultural que é própria das clas-
a essa pergunta, mas apenas contribuir com alguns subsídios para a formulação
de propostas que, afinadas com a realidade presente, não deixem de levar em ses populares, garantindo seu acesso a instrumentos que facilitem essa produção
e permitam sua conservaçãoe transmissão' japud Arantes, 1984, p. 34).
conta uma experiênciaacumulada,em mais de cinqüentaanos, por uma política
que se tem diferenciado- tanto de um pontode vista positivocomo negativo- Tanto a definição de política cultural formulada pela Unesco quanto a de Néstor
no conjunto das políticas estatais brasileiras. GarcíaCanclini são igualmentevagas e genéricas:

48
O PATRIAÕNIO eA PROCESSO
O PÁIRIAÕNIO: UAA QUESTÃODE VALOR 49
B

1) Para a Unesco, política cultural constitui "um conjunto de práticas sociais conscien- CAPITULO 2
tes e deliberadas,de intervençõese não-intervenções,tendo por objeto satisfazer certas
necessidadesculturais pelo melhor emprego possível de todos os recursos materiais e
A CONSTRUÇÃO DO PATRIAÕNIO: PlIRSPllCTIVA HISTÓRICA
humanosde que dispõe uma sociedade num momentodado" j1969, p. 8).
2) Para Canclini. política cultural é 'um conjunto de intervençõesrealizadaspelo Estado.
as instituições e os grupos comunitários organizados a fim de orientar o desenvolvimento

simbólico, satisfazer as necessidades culturais da população e obter consenso para um tipo


de ordem ou de transformaçãosocial" j1987, p. 26).

Ver Faria, HamiltonJosé Barrete de; Souza,Valmir de jorg.). Experiênciasde gestãocul-


tural democrática. Róis, São Paulo, n. 12. 1993. Em entrevista a Gabriel Cohn, Marilena A modemidade de uma sociedade se mede por sua capacidade
de se reapropriar das experiências humanas distantes da sua no
Chauí, então secretária municipal de cultura de São Paulo, esclarece o sentido desse tipo
tempo e no espaço.
de proposta: "Decidimos também considerar a cultura como direito do cidadão, o direito de
Alain Touraine, Cdtfque de/a modem/lé.
ter acesso aos bens culturais, o direito de produzircultura, e o direito de participardas
decisões na política cultural. E com isso o nosso prometoé um prometode cfdadan/acu/fura/."
11990,
p. 32)

A questãodo património
se situanumaencruzilhada
que envolvetantoo papel
da memória e da tradição na construção de identidades coletivas, quanto os
recursos a que têm recorrido os Estados modernos na objetivação e legitimação
da idéia de nação. Permeandoessas dimensões, está a consideração do uso simbó-
lico que os diferentes grupos sociais fazem de seus bens - e aqui me refiro tanto
à produção quanto à conservaçãoou destruição - na elaboração das categorias de
espaço e tempo.' Ou seja, o valor que atribuem a esses bens enquanto meios para
referir o passado, proporcionar prazer aos sentidos. produzir e veicular conhe-
cimento. Esses diferentes valores atribuídos são, na civilização ocidental, regula-
dos por duas noções que se articulam sobre as categorias de tempo e espaço -
a noção de história e a de arte. A primeira, enquanto reelaboração do passado,
a segunda, enquanto fruição in praesenfía. Nesse sentido. os bens que constituem
os patrimónios culturais se propõem como marcas do tempo no espaço.
Mas foi apenas quando, no final do século XVlll, o Estado assumiu, em nome
do Interesse público. a proteção legal de determinados bens a que foi atribuída a
capacidade de simbolizarem a nação, que se definiu o conceito de património his-
tórico e artístico nacional.

50 O PATRIAON 10 eA PROCESSO
Os p-incipais valores culturais atribuídos aos bens patrimoniais são o valor tância, sendo atualmente pouco frequente.' O próprio termo monumentofol mu-
artísticoe p valor histórico.
Emboraa legislação
possase referira outrosvalores- dando de significaçãoe passoua ser entendidocomo monumentohistóricoe artís-
o decreto-leiRe 25, de 30.11.37, por exemplo. mencionatambém os valores ar- tico, ou seja, toda obra tangível de valor histórico e artístico. Essa atribuição de
queológico, etnográfico, paisagístico etc. - esses, na realidade. são tributários das valor, ao contráriodo que ocorre com os monumentosintencionais,é a posferloÜ
noçõesde históriae de arte. e só passaa ocorrera partir do momento em que, na cultura ocidental,as noções
de arte e de história adquiremalguma autonomia.No contexto da história,que Le
A percepção da especificidade da questão do valor na abordagem dos bens
Goff considera "a forma científica da memória coletiva', a noção de monumento
que são considerados monumentos históricos e/ou artísticos só se tornou possível
a partir de uma postura inovadora, que. segundo Françoise Choay, se iniciou com passaa ser pensadana sua relaçãocom a noção de documento(1990,p. 535-553).

o austríaco Alois Riegl, ligado, assim como Panofsky, Wõlfflin e Gombrich, à ico- Também a noção de preservaçãodeve ser entendidanessa dupla dimen-
nologia anglo-saxã. Diz ela, na introdução à edição francesa de Le Cu/fe moderne são, de invariante e de variante cultural. A propósito, diz o antropólogo norte-ame-

des monumenfs, publicado pela primeira vez em 1903, com o título de Der mo- ricanoJames Clifford:
derne Denkmalkultus= roleta, posse, classificação e valor não estão, certamente, restritos ao Ocidentel
mas. em outras regiões essas atividades não precisam ser associadas à acumulação
Unico no seu gênero desde sua aparição, esse pequeno texto continua até hoje inigua-
jem vez da redistribuição)ou à preservação (em vez da decadência históricaou natural).
lável.1-.) Bastaindicarque, pela primeiravez na históriada noção de monumento histórico
A prática ocidental de caleta da cultura tem sua própria genealogia local. imbricada em
e de suas aplicações,Rlegl toma distância. Sua posição de observadornão é nem a dos
noções européias distintas de temporalidade e ordem. (1988. p. 2181
arquitetos,que desde Alberti integraram a questão do monumento histórico na teoria de
sua disciplina, nem a dos homens de letras, que fizeram do património monumental o obje- As noções modernasde monumentohbfódco, de pafrfmónfoe de presewação
to de uma cruzada passional. Graças a essa distância. ele pede, antes de qualquer outro,
só começam a ser elaboradas a partir do momento em que surge a idéia de estu-
realizar o inventário dos valores não ditos e das significações não explicitadas, subjacentes
dar e conservarum edifício pela única razão de que é um testemunhoda história
ao conceito de monumento histórico. De imediato, este perde sua pseudotransparência
e/ou uma obra de arte.
de dado objetivo. To.na-se o suporte opaco de valores históricos transitivos e contraditóHos,
de procedimentosc(mplexos e conflitantes. IRiegl. 1984. p. 16-17) Sendo a proservaçãode monumentosuma atividade necessariamenteseletiva.

E esse olhar distanciado que possibilita a desconstruçãodas noções de monu- uma constanteopção entre o consewar e o destruir (ativo ou passivo. no sentido

mento, monumento histórico, preservação, e o mapeamento de sua história. Assim. de não impedir a destruição),'ela será exercida por determinadosagentes, e se-
gundo determinados critérios, que orientam e também legitimam o processo de atri-
Riegl pôde distinguir traços que seriam considerados universais. de formas culturais
buição de valores - e, conseqtlentemente,a preservação. E exatamente nesse pro-
específicas da civilização cristã-ocidental.
cesso - que tem uma dimensãoexplícita, regulamentada.como, no caso do Brasil.
Para Riegl. o ato de erigir monumentos:- entendidoscomo "uma obra criada
a inscrição de bens nos Livros do Tombo, e outra implícita, e muitas vezes ãó deli-
pela mão do homem e edificada com o objetivo preciso de conservar sempre pre-
beradamenteocultada, que remete às relações de poder entre os agentes envol-
sente e viva na consciência de gerações futuras a lembrança de uma ação ou de
vidos com a preservação- que se manifestamos conflitos de interesse em jogo
um destino' (1984. p. 351 -. pode ser identificado nas épocas mais remotas da hu-
na prática aparentementetranquila da preservaçãode bens culturais em nome do
manidade. Segundo Françoise Choay, "o monumento se assemelha bastante a um
interesse público.
universal cultural" (1992. p. 15). Esse tipo de monumento. visando à rememoração
E no sentido de tentar apreenderesses focos de conflito, que se manifestam
celebratlva. é chamado por Riegl monumento "intencional'.
tanto entre os diferentesgrupos sociais envolvidoscom a questão quanto no inte-
Durante a Antiguidade e a Idade Média, esse seria o único tipo de monu- rior da atividade institucional,que orientarei a análise da prática de preservação
mento conhecido, mas a parir do Renascimento teria começado a perder impor- exercida no Brasil. em nível federal, nas décadas de 1970-1980.Neste capítulo.

52 O PATRIAONIO [A PROCESSO Â CONSTRUÇÃO DO PÂTRIAÕNIO: PERSPECTIVA HISTÓRICA 53


a partir dos trabalhos de Alois Rlegl5 (1984), de André Chastel,' Jean-Pierre Se. no caso da tradição cristã, foi a Igreja a guardiã dos objetos de culto e
Babelon' (1980) e de Françoise Choayo (1992), procurarei elaborar um conjunto a gestora de sua transmissão, o que chamamos pafrfmõnfo só vai constituir-se
de referências para pensar a história dos valores atribuídos a bens culturais para efetivamente como corpus de bens a serem cultuados, presewados e legados para

fins de preservação. uma coletividade.em função de valores leigos, como os valores histórico e artís-
tico, e enquanto referências a uma identidade nacional. Por outro lado, como mos-
Esses autores vão chamar a atenção não apenas para as condições de trans-
tram Chastel e Babelon, a preservação, embora sentida como necessidade por
formação das noções de monumento histórico, património e preservação, como
certos indivíduos ou grupos, impressionados com o que consideravam a beleza.
também para as tensões presentes no processo de preservação. E importante ob-
a antiguidade, ou o poder de evocação de certos monumentos, se manifestava, até
servar que a maioria desses autores (assim como Giulio CarãoArgan, já citado no
o final do século XVlll, apenas em iniciativas isoladas, formadoras do que chamam
capítulo anterior) desenvolveu. além de uma atividade acadêmica, trabalhos em
'o sentido do património'
agências estatais voltadas para a preservação de monumentos. Possivelmente, foi
essa experiência. mais que seus estudos e pesquisas universitárias, que lhes chamou Se as categoriasque vão fundamentara constituiçãodos chamadospatri-
mónios históricos e artísticos começaram, portanto, a ser formuladas e aplicadas
a atenção para a diversidade de valores atribuídos a um mesmo bem. enquanto
a bens, desde o Renascimento,fol a idéia de nação que veio garantir seu estatuto
monumento histórico e artístico, e para os problemas decorrentes dessa realidade.
ideológico, e foi o Estado nacional que veio assegurar, através de práticas especí-

2.1 0S PRIAÓRD10S DÂ PRESERVAÇÃO DE AONUAENTOS ficas, a sua preservação.Pois, como díz Verá Milet,

E A AuíoUOAizACÃo DAS NOÇÕES DE HISTÓRIA [ Dt ARTE A efetlvação da preservação dos bens culturais só se encontra socialmente definida,
ou seja, só aparececomo fato social, quando o Estado assume a sua prateção e,
Tanto Riegl quanto Chastel e Babelon detectam no sentimento de piedade reli- através da ordenação jurídica, os institui e delimita oficialmente enquanto bem cultural,
giosa e de devoção às relíquias, característicoda civilizaçãoeuropéia, a origem regulamentandoo seu uso, a finalidadee o caráter desses bens dentro de leis espe-

do sentimento de apego a bens simbólicos que evocam a idéia de pertencimento cíficas de propriedade,zoneamento,uso e ocupação do solo. j1988. p. 181

a uma comunidade, ainda que imaginária. São Chastel e Babelon que dizem: Foi preciso. portanto, que a noção de monumento - no seu sentido moderno -

Em toda sociedade, desde a pré-história, (-.l o sentido do sagrado intervém con- fosse formulada, enquanto monumento histórico e artístico, para que a noção de
vidando a tratar certos objetos. certos lugares, certos bens materiais, como escapando pafrlmõnio se convertesse em categoria socialmente definida, regulamentadae
à lei da utilidade imediata. A existência dos lares familiares, a do pa//adfum da cidade, delimitada, e adquirisse o sentido de herança coletiva especificamentecultural.
provavelmentedeve ser recolocadana origemou na base do problemado património. Como diz Françoise Choay na introdução já citada ao livro de Riegl, "a invenção
É preciso aproximar seu destino do de certos objetos comuns. armas e jóias. e mesmo do monumento histórico é solidária com a dos conceitos de arte e de história'
edifícios. que. por diversas razões. escaparam da obsolescência e da destruição fatal
IRiegl, 1984, p. ll).
para se verem dotados de um prestígio particular, suscitar uma ligação apaixonada, até
mesmoumverdadeiro
culto.(1980,p. l) Essa noção pressupõe a idéia de distância e a percepção da alteridade de

Esse estatutoatribuídoa certos bens materiaisimplica,como no caso dos uma civilização em relação a outras, o que só vai ocorrer no Renascimento, quan-
do, pela primeiravez, uma cultura distante mais de um milênlo no tempo é consi-
bens religiosos, uma forma de propriedadecoletiva, visando a preserva-los e a
derada ancestral da presente. Françoise Choay considera que o advento desse
garantir sua transmissão através das gerações. Na Idade Média. a aristocracia
olhar "distanciado e esteta, liberto das paixões medievais', que metamorfoseia as
projetavanos seus castelos e em outras representaçõesde suas linhagens um
edificações antigas em "objetos de reflexão e de contemplação', se situa por volta
sentido de símbolosde sua continuidade,e. por essa razão, esses bens se torna-
da primeira metade do século XV. Até então, só era possível se aproximar da cul-
vam também objeto de preservação.
tura antiga, pagã, ressemantizando-a, retraduzindo-a em termos cristãos. Os pré-

54 O PATRIAÕNIOEA PROCESSO Á CONSTRUÇÃODO PATRIAÕNIO: PERSPECTIVAHISTÓRICA 55


ditesantigos que não haviam sido destruídos eram reutilizados,ou tinham seus
elemontos aproveitados em outras construções (1992, p. 37).o como de valor artístico. A trajetória das pesquisas dos antiquários pode ser exem-

Não foi por acaso que Romã se tornou o berço da sensibilidademoderna.Ali plificada na seqüência dos trabalhos de Montfaucon, que, tendo pesquisado as an-
tiguidades grego-romanas,veio a estudar posteriormente os testemunhos das mo-
se tinha acessoà presençasimultâneade dois tipos de monumentos- os antigos.
narquias francesas.
pagãos, e os cristãos - que remetiam a duas tradições distantes. Sintomatica-
mente,foi no século XV que ocorreramas primeirasmedidasde presewação,em- O saber produzido pelos antiquários tinha um caráter eminentementeuniver-
preendidas por papas através de bulas, visando à proteção de edificações antigas salista, caracterizadopelas viagens e trocas de informações.Na Inglaterra, esse
e cristãs. Também nesse momento ocorreu, no tratamento dos vestígios da Anti- tipo de atividade, Intensificado como reação ao vandalismo religioso da Reforma.

guidade greco-romana, o cruzamento de três discursos: o da perspectiva histórica. perdurouaté o início do século XX: eram as sociedadesde antiquáriosque prote-
o da perspectiva artística e o da conservação. giam as antiguidades nacionais. Já na França, essas sociedades entraram em de-
{

clínio quando, a partir da Revolução, no final do século XVlll, o Estado assumiu


O interessepelas antiguidades,que começouentão a surgir, era objeto de dois
e passou a centralizar a preservação.
tipos de abordagem:a letrada, pelos humanistas,que as consideravamenquanto
ilustrações dos textos antigos - estes, os testemunhos confiáveis da Antiguidade - Como observa Françoise Choay (ibid.), o amor à arte e ao saber histórico não
e a artística, por parte dos artífices (arquitetos,escultoresetc.l, interessadosnas foi suficiente para implantar. de forma sistemática e definitiva, a prática da preser-
formas - por eles consideradas testemunhos involuntários e, por esse motivo. vação. Foi preciso que surgissemameaças concretas de perda dos monumentos.
mais reveladores.A noção de monumentohlsfódco surgiu, pois, com as antigui- já então valorizados como expressões históricas e artísticas - o vandalismo da
dades, e, segundo Françoise Choay. "a descoberta das antiguidades é também a Reforma e o da Revolução Francesa - e uma mística meiga vinculada a um interes-
da arte como atividade autónoma, desvinculada de sua tradicional vinculação à se político definido - o culto à nação - para que a preservação dos monumentos
religião cristã" (1992, p. 63).'' A mesma autora assim caracteriza a ativídade dos se tornasse um tema de interesse público.
antiquários:
2.2 A LEGIÍTAACÃO DO PATRIHÕNIOPELO VALOR DE NACIONALIDADE
O primeiro objetivo dos antiquários é, portanto, tornar visível o passado. espe-
cialmente o passado silencioso ou não-dito. Mas eles não se limitam a uma soma. A
Até o século XVlll, as ações deliberadas,voltadas para a preservaçãode mo-
imagem é posta a sewiço de um método comparativoque lhes permite estabelecer numentos. eram ocasionais, e, quando ocorriam, eram realizadas pelos segmentos
séries tipológicas. às vezes até sequências cronológicas. e realizar assim uma espécie
sociais dominantes, basicamente a Igreja e a aristocracia, visando a conservar
de história natural das produções humanas. jlbid.)
seus bens. Para os antiquários, os objetos antigos interessavamprimordialmente
A atividade dos antiquários se desenvolveu por toda a Europa, produzindo far- como documentos, dotados também de valor artístico. e o interesse na cometae
ta iconografiae inúmeras coleções. O objeto de interesse,porém, era só um: a na guarda era partilhado apenas pelos membros dessas sociedades.
Antiguidade. A Idade Média era considerada um período intermediário. A partir do
Chastel e Babelon j1980, p. 15), que fizeram um estudo da prato-históriada
final do século XVI, os antiquáriospassarama se interessartambém por antigui-
presewação na França. detectaram na segunda metade do século XVlll algumas
dades de outras civilizações que não apenas a da greco-romana. Foram documen-
iniciativas, em Paris. visando a evitar a destruição de edificações pelo motivo de
tados e recolhidos os vestígios do que se passou a consideraras antiguidades
estarem identificadas à fisionomia da cidade.'' Nesse caso, a defesa de edifi-
nacionais. O estilo gótico se tornou o símbolo das antiguidades nacionais, sendo-
cações civis públicas - como uma fonte, um arco do triunfo e uma coluna de ob-
Ihe atribuído, no entanto, apenas um valor histórico. Já na Grã-Bretanha,devido
servações astrológicas - sugere a formação de um 'pafdmón/o do c/(hdão.
ao triunfo da Reformae à penetraçãotardia do estilo italiano na arquitetura.esse
estilo continuava vivo, mesmo durante o classicismo, e foi reconhecidotambém Mas foram ameaças de destruição e perda de monumentosjá considerados
de valor histórico e/ou artístico que mobilizaram as sociedades nacionais para o

56 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO

A CONSTRUÇÃO
DO PAÍRIAÕNIO: P{RSPECrlVAHISTÓRICA
57
investimento na presewação. Na Inglaterra, o vandalismo reformista. que destruiu cias, que passam a ser objeto de medidas administrativas e jurídicas: formulação

igrejas e sobretudo imagens, levou as sociedades de antiquários a assumirem essa de leis, decretos e prescrições, criação de comissões específicas, instituição de

função. práticas de conservação (inventário, classificação, proteção) e, principalmente,


definição de um campo de atuação política. Paralelamente.criou-se uma ordem
Na França, no final do Antigo Regime, a monarquia, influenciada pelas idéias
discursiva própria, um corpo de conceitos. Aos critérios tipológicos dos anti-
iluministas.tomou iniciativas no sentido de dar acesso a seus acervos através
quários foi acrescentado um novo: a distinção entre bens móveis e imóveis, em
da criaçãode museus.Com a instauraçãode um novo Estado,em 1789.e a der-
função de exigências distintas de conservação. Para os primeiros foram criados
rubada do poder da aristocracia e da Igreja, a questão assumiu dimensões mais
museus, para os segundos se apresentava o problema complexo de sua reuti-
complexas:em primeiro lugar, havia o problema económicode gerir os bens con-
lização.
fiscados aos nobres e ao clerol em segundo lugar, simbolicamente. essa proteção
4 Chastel e Babelon observam:
era, em princípio, contraditória com os ideais revolucionáriosde instauração de
um poder populare de uma nova era, livre da opressãodos antigos dominadores. O sentido do património, ou seja, dos bens fundamentais, inalienáveis, se estende
O prometode inaugurarum novo tempo (inclusive com um calendário e símbolos pela primeira vez na França às obras de arte, ora em função dos valores tradicionais
que se vinculam a esses bens e que os explicam. ora em nome desse sentimento novo
próprios)justificava, aos olhos da população,a destruiçãodos bens identificados
de um elo comum, de uma riqueza moral de toda a nação. Provavelmente essa dupla
com aqueles dois grupos sociais.
raiz nunca deixou de existir. jlbid.l
Os atou de vandalismo, que se intensificaramapós a prisão do rel em Va-
A noção de património se inseriu, portanto, no prometomais amplo de cons-
rennes, repugnavam aos eruditos e contrariavam os ideais iluministas de acumu-
trução de uma identidade nacional, e passou a servir ao processo de consolidação
lação e difusão do saber. Por esse motivo. desde 1789. o governo revolucionário
dos Estados-nações modernos. Nesse sentido, vinha cumprir inúmeras funções
tentou regulamentara proteção dos bens confiscados,justificando essa preocu-
simbólicas:
pação pelo interesse desses bens para a instrução pública.
1. reforçara noção de cidadania,na medida em que são identificados,no espa-
Esses bens, que, para a Comissãode Artes, criada em 1793,': "a história con-
ço público, bens que não são de exclusiva posse privada, mas propriedadede
sulta. as artes estudam,o filósofo observa, nossos olhos se comprazemem fixar'
todos os cidadãos, a serem utilizados em nome do interesse público. Nesse caso.
japud Chastel e Babelon, 1980, p. 18), passaram a ter também um valor como docu-
o Estado atua como guardião e gestor desses bensl
mentos da nação, e se converteram em objeto de interesse não apenas cultural
como também político. Chastel e Babelon (1980. p. 18) observam que 'não se defi- 2. ao partir da identificação,nos limites do Estado nacional,de bons represen-

ne apenas um domínio original. identifica-se um poder de cultural a noção moderna tativos da nação - demarcando-aassim no tempo e no espaço- a noção de pafd-

de patrimóniocomeça a aparecer através da preocupaçãomoral e pedagógica'. mõnio contribui para objetivar, tornar visível e real, essa entidade ideal que é a
nação, simbolizadatambém por obras criadas expressamentecom essa finalidade
A idéia de possecoletiva como parte do exercícioda cidadania inspiroua utili-
(bandeiras,hinos, calendário,alegorias e mesmo obras de artistas plásticos, co-
zação do termo pafdmõn/o para designar o conjunto de bens de valor cultural que
mo David).'' A necessidade de proteger esse património comum reforça a coesão
passarama ser propriedadeda nação, ou seja, do conjuntode todos os cidadãos.
nacionall
A construção do que chamamos património histórico e artístico nacional partiu, por-

tanto, de uma motivação prática - o novo estatuto de propriedade dos bens confis- 3. os bens patrimoniais,caracterizados desde o início por sua heterogenei-

cados - e de uma motivação ideológica - a necessidade de ressemantizar esses dade," funcionam como documentos, como provas maferla/s das versões oficiais

bens. A idéia de um patrimónioda nação, ou "de todos'. conforme o texto legal, da história nacional,'5que constrói o mito de origem da nação e uma versão da

homogeneiza simbolicamente esses bens heterogêneos e de diferentes procedên- ocupação do território, visando a legitimar o poder atual;

& CGNSTRUCÂO DO PATRIAÕNIO: P[RSP[CTIVA HISTÓRICA 59


58 O PATRIÁÕNIO [A PROCESSO
como princípio a idéia mestra de Mérimée, de "descobrir o país através de sua
4. a conservação desses bens - onerosa, complexa e freqüentemente contrária
a outros interesses, públicos e privados - é justificada por seu alcance peda- paisagem histórica" (Chastel e Babelon, 1980, p. 21).

gógico, a serviço da instrução dos cidadãos. Os conceitos estabelecidos pela Revolução Francesa continuaram vigentes no
século XIX, mas adquiriram novas significações em função de novos fatores: a
Durante o período revolucionário, o valor nacional dos bens se sobrepunha a
RevoluçãoIndustrial,que gerou uma ruptura no modo de produzir e de viver arte-
todos os outros valores, sendo seguido pelo seu valor de conhecimentohistórico.
sanal, e o romantismo,que, inclusive em decorrência dessa ruptura, privilegiava
pelo seu valor económicoe finalmentepelo seu valor artístico.
os valores da sensibilidade e o lugar do sujeito na percepção do mundo.
A preservação como atividade sistemática só se tornou possível, portanto.
No período romântico. o distanciamento em relação às obras do passado, que
porque ao interesse cultural se acrescentaramum interessepolítico e uma justifi-
se manifestoupela primeira vez no Renascimento.assumiu, dovido à Revolução
cativa ideológica.Aparentementeessa foi uma fórmula bem sucedida, e que será
Industrial, uma segunda mediação. mais drástica: o passado longínquo não era
#
\

repetida em outros momentosrevolucionários(como na Rússia, em 1917, e tam-


mais recuperadoenquantocânone, fonte de conhecimentoe de modelos,como no
bém. mais recentemente.em Cuba, após a revolução liderada por Fidel Castro)
Renascimentosera um passado irremediavelmente perdido, e só através da memó-
como meio de conciliar os interesses da cultura - a preservaçãode bens por seu
ria afetiva, da sensibilidade estética, era possível, de algum modo, revivê-lo. Pode-
valor históricoe artístico- com os interessespolíticosvoltadospara uma mudança
se dizer que o sentimentopredominantonão era mais o de reverência.e sim o
social.
de nostalgia. Considerava-se que os monumentos legados por esse passado esta-
Entretanto, como a história desde então tem demonstrado,a administração dos vam fadados à deterioração, ao desaparecimento e à morte. Esse era o ciclo irre-
conflitos entre interesses imediatos e os interesses específicos da preservação mediável da natureza e também das coisas e dos homens. As ruínas, assim como
não é fácil: prova disso são, ainda no século XVlll, as denúnciasde Quatréme outros sinais do tempo jas pátinas, o musgo, a vegetação selvagem que toma
de Quincy em suas Leffres à M/randn (1989), que condenavama pilhagem feita conta das edificaçõesabandonadas),seriam um documentodessa realidade,
pelas tropas napoleónicasna ltália em nome de um interessepedagógico- a for- prova de sua autenticidade,daí sua importância no imaginário romântico.
mação dos artistas francesesl no século XIX, a polêmica entre John Ruskin e Viollet- Por outro lado, o interesse dos historiadorespelas antiguidadesentrou em ex-
le-Duc quanto à forma e ao sentido da preservação dos monumentosl e. no século tinção. Ocupados com a história política e das instituições, visando a construir
XX, a discussãoem torno da transformaçãodo patrimónioem objeto de consumo a história nacional, os historiadores se voltaram para os textos. para os docu-
cultural. mentos escritos. As obras antigas passaram a ser objeto de uma apreciaçãoemi-
A institucionalização definitiva da atividade de preservação pelo Estado, na nentementeestética, embora não desprovida de interesse cognitivo. A viagem con-
França, só veio a ocorrer efetivamente a partir de 1830, quando o historiador Gui- tinuavaa ser o meio privilegiadopara o acesso a esses bens, mas agora tratava-
zot propôs a criação do cargo de Inspetor dos Monumentos Históricos. O escritor se de "viagens pitorescas' e não propriamentecientíficas.'o Nesse momento. as no-
Prosper Mérimée, ao assumir o posto em 1832, percorreu toda a França, reali- ções de históriae de arte ficaram mais distantes uma da outra, assim como ficou
zando um notável trabalho de Inventário não só de bens, como de atitudes da po- mais evidente a diferença entre valores do conhecimentoe valores da sensibili-

pulação em relação ao património. E percebeu que, apesar dos bons propósitos dade. Consolidou-sea noção do monumento histórico e a relação entre os valores

dos convencionaisrevolucionários,apenas uns poucos intelectuais se sensibili- que Ihe são atribuídos foi redimensionada em decorrência das novas circunstâncias.

zavam com o valor cultural dos monumentos. A população, ou lhes era indiferente, O monumento
históricofoi integradoao cultoà arte que se desenvolveu
no
ou se apegava a alguns bens por outros motivos, por exemplo, seu valor religioso. período romântico, sem perder, no entanto, sua conotação de testemunho do tempo
enquanto local de culto ou de peregrinação. Essa situação era particularmente passado. Enquantodocumento histórico. passou a ser primordialmentevinculado
grave nas províncias, devido à atividade centralizadora do Estado. A estrutura ins- e utilizado pelo Estado - com o reforço dos historiadoros, que, então, se voltavam
titucional montada nesse período vai perdurar até meados do século XX, tendo para a história política - na afirmação da nacionalidade.

A CONSTRUÇÃODO PATRIAÕNIO: PlIRSPllCTIVA HISTÓRICA


60 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO 61
Í
]

Lúcia Lippi de Oliveira observa que, no século XIX, "a ligação do nacionalismo Eivada de um matiz puritano, a teoria do crítico de arte inglês John Ruskin
com o romantismofez a nação ser concebida como uma entidade emotiva, símbolo via na arquitetura um meio de conservar o passado. não só em suas produções

da singularidade,à qual todos os homensdeveriam se integrar"(1986, p. 44). O materiaise modos de vida, como também em suas virtudes morais ('a maior glória
nacionalismocultural devia sobretudo a Herder sua fundamentação.Foram predo- de uma edificaçãonão está em suas pedras, ou no ouro que possa conter. Sua
minantementeos artistas, poetas e pensadores que, nos países germânicos e l glória está em sua idade.' [1956, p. 1901).Ético, mais que estético,o valor do mo-
também na Inglaterra,exploraram essa imagem emotiva da nação. O sentimento numento histórico para Ruskin é o valor de piedade. Tudo que é manifestação do
nacional se desenvolveu com ênfase nos aspectos culturais típicos, diferencia- esforço humano deve ser objeto de reverência, daí seu intuito de presewar não
dores de cada nação. Já na França, predominava o nacionalismo político. desen- apenas os monumentos excepcionais, como também o mundo doméstico e o do
volvido em torno da idéia de civilização, sobretudo por historiadores e homens trabalho.Na Inglaterra,pode-sedizer que o valor de nacionalidadefoi eclipsado
de letras. pelo valor de humanidade.e, nesse sentido, a preservaçãotambém foi pensada
l
J
No século XIX se consolidaram dois modelos de política de preservação:o em escala mais ampla:Já em 1854, Ruskin propunhaa criação de uma organiza-

modeloanglo-saxõnico,
com o apoio de associaçõescivis, voltado para o culto ção européiade proteçãodos monumentoshistóricos.'' Para Ruskin (1956, p. 201).

ao passado
e paraa valoração
ético-estética
dosmonumentos,
e o modelofran- os vestígios do passado tinham valor de relíquiasl valiam, portanto. em si mesmos,

cês, estatal e centralizador,que se desenvolveuem torno da noção de património, enquanto objetos "sagrados", insubstituíveis, e, nesse sentido, eram intocáveis:

de forma planificada e regulamentada, visando ao atendimento de interesses polí- "Não temos direito algum de toca-los. Eles não são nossos. Eles pertencem em
ticos do Estado. Esse último modelo predominouentre os países europeus,e foi parte aos que os construíram,e em parte a todas as geraçõesda humanidadeque
virão depois de nós" -, foram-noslegados por nossos antepassadose, do mesmo
exportado.na primeira metadedo século XX, para países da AméricaLatina, como
o Brasil e a Argentina,e, após a Segunda Guerra Mundial, para as ex-colónias modo, são um patrimóniotambém das gerações futuras. Logo, qualquer restau-
francesas. ração seria uma violação e uma impostura,pois faria o monumentoparecer dife-
rente do que na realidadeé, ou seja, uma criação humana sujeita ao fluxo do tem-
A conservaçãodos monumentos, na França, assumiu um caráter eminente-
po ("tão impossívelquanto ressuscitarum morto é restauraro que quer que tenha
mente museológico:irremediavelmenteligados ao passado,esses bens não teriam
sido grandiosoou belo em arquitetura.' [Ruskin, 1956, p. 1991).A arquitetura.nos
mais lugar no fluxo da vida presente. O ideal de modernização e de progresso
textos de Ruskin, é associada à vida da natureza e dos homens.
difundido pela ideologia estatal conferia à preservação um compromissocom o
saber, um sentido de atividade racionalmentedirigida para interesses presentes. Já Viollet-le-Duc,engenheirode formação e mais voltado para uma concepção
O prometourbanístico de Haussmann ilustra bem essa situação. Já nos países anglo- formal da arquitetura, partia da noção de monumento ideal, que não é necessa-
saxões predominou,entre os principaisagentes da preservação,o culto ao passa- riamente a do prometooriginal, mas a mais adequada para cada caso, a ser
do e a valorização de seus vestígios enquanto relíquias, em decorrência do senti- buscada pelo restaurador em função de critérios técnicos, estilísticos e prag-
do mais agudo da ruptura que, na Inglaterra.decorriado confrontocom a dura rea- máticos. Segundo suas próprias palavras, "restaurar um edifício é restabelecê-lo
lidade da Revolução Industrial. Para os ingleses. o presente era representado pela num estadocompletoque talvez nunca tenha existido" (apud Choay, 1992, p. 1201.
civilização que começava a se desenvolver na América do Norte e que, na obser- A restauração torna-se assim uma recriação legitimada, ou "restauração inter-
vação crítica de Ruskin, era "um mundo sem uma lembrança nem uma ruína' pretativa', como o próprio Viollet-le-Duca qualificava, e, sob sua orientação, se
(apud Choay, 1992, p. 107). voltou para os monumentosgóticos. Ele consideravaque a verdadeiraarquitetura
nacionalfrancesaera a do século XIII. Seus trabalhosforam mais tarde duramente
Duas teorias distintas e conflitantes sobre a conservação de monumentos his-
tóricos foram elaboradas,no século XIX, respectivamente,na França e na Ingla- criticados.sobretudoa partir dos conceitos expressos na Carta de Veneza, e só
terra: a de John Ruskin e a de Viollet-le-Duc. muito recentemente têm sido objeto de reavaliação.

62 O PÂTRIAõNIO eA PROCESSO A CONSTRUÇÃO DO PATRIAõNIO: PER5PlCTIVA HISTÓRICA 63


No final do século XIX, com Camillo Boito," a teoria de Viollet-le-Ducfoi con- logia, nas últimas décadas.A criação, após a Segunda Guerra Mundial.de orga-

testada no campo específico da restauração. Boatoconsiderava que 'o caráter nismos internacionaisespecificamentevoltados para a cultura e a incorporação.
acrescentado, adventício, ortopédico do trabalho refeito deve ser ostensivamente pela ONU, da figura de direitos culturais, e, pela Unesco,da figura de Património

marcado, e não deve, de maneira alguma, passar por original' (Choay. 1992. p. Cultural da Humanidadejunta, nas mesmas expressões, as noções difusas de
humanidadee de uma cultura universal, e a noção cada vez mais precisade uma
127). Desse modo. Boatoresolveu, pelo menos de um ponto de vista contempo-
râneo, a contradição entre restaurar e conservar. cidadania fundada em direitos diversificados, para legitimar a atividade de pre-
servação.
Para Françoise Choay, a doutrina de Viollet-le-Duc visava a restituir ao monu-
mento o seu valor de documento íntegro, objeto de conhecimento, em detrimento
2.3 A TEORIA DOS VALORES Dt ALO"S R]EGL
de seu valor enquanto monumento, sujeito às marcas do tempo. Diz, a propósito.
essa autora: "reconstituindo um tipo. ele (o restaurador) fornece um instrumento Para Riegl j1984, p. 38), todo monumento tem, necessariamente,uma dimensão
didático. que restitui ao objeto restaurado um valor histórico, mas não sua histo- históricae uma dimensãoestética, pois ele parte do pressupostode que todo mo-
ricidade' jibid., p. 121-122).Essa intervençãorompiacom a correntedo tempo. numentoda arte é. simultaneamente.um monumentohistórico, na medida em que
Os monumentos-documentoseram selecionados entre as obras notáveis e trata- representa um estágio determinado na evolução das artes plásticas, de que não
dos como modelos que era preciso ressaltar, daí a teoria da pise-en-va/eur: para é possível, sfrlcfo senso, encontrar um equivalente. Por outro lado. todo monu-
valorizar o essencial - o monumento excepcional - tudo que fosse perturbador ou mento histórico é também um monumento artístico, pois mesmo um manuscrito tão
acessório à sua percepção (entendida aqui como visibilidadel devia ser eliminado. mínimo como uma folha rasgada trazendo uma nota breve e sem importância, com-
O tecido urbano era rompido em nome da funcionalidade, da higiene e da segu- porta. além do seu valor histórico, que concerne à evolução da fabricação do pa-
rança pelos urbanistas, e em nome de uma estética pelos arquitetos. Esses últi- pel, da escritura, dos meios materiais utilizados para escrever etc., toda uma série
mos, ao buscarem uma suposta autenticidade estética. atingiam em cheio a auten- de elementos estéticos: a configuração do folheto, a forma dos caracteres e a
ticidade histórica. maneira de arruma-los.19

A dissociaçãoentre valores do conhecimentoe valores da sensibilidade foi A noção de valor histórico é. porém, mais extensa, na medida em que "chama-
percebida e explicitada por Alois Riegl. no início do século XX. Riegl procurou ana- mos de históricotudo que foi, e hoje não é mais" (Riegl, 1984, p. 37). Nesse sen-
lisar a questão dos monumentos históricos não do ponto de vista do Estado, ou tido, tudo que ficou do passadocomo testemunhopode pretenderum valor histó-
enquanto representações da nacionalidade, mas a partir das diferentes percepções rico. O monumento artístico deve ser compreendido como um monumento da his-
que o contato com os monumentos suscita nos indivíduos. A análise de sua teoria tória da arte, e seu valor, considerado desse ponto de vista, é menos artístico que
dos valores atribuídos aos monumentos históricos, que é apresentada no pequeno histórico.Por esse motivo, Riegl considera que, a rigor, não cabe mais falar em
mas denso livro O cu/fo moderno dos monumentos, publicado na Austria, em 1903, monumentoshistóricos e artísticos, mas apenas em monumentos históricos.
comece indicações ricas e surpreendentemente atuais para se refletir sobre a ques- No Renascimento,as noções de histórico e de artístico estavam imbricadas
tão da presewação em suas múltiplas versões. sobretudo se se tem em vista não e se fundamentavam em um modo de conhecer e de avaliar a Antiguidade. Pela
a produçãodo património
- até hojesob o controlehomogeneizador
do Estado- primeira vez se estabeleceu um sentido de relação entre temporalidades distantes,
mas a complexa e diversificada recepção dos bens culturais pelos diferentes es- adquirindo o passado um valor de contemporaneidade. Entretanto. diz Riegl, "esse
tratos sociais. ponto de vista permanece normativo, diretivo (logo antigo-medievall, mas não his-
Esse ângulo do problema se apresenta. atualmente, inclusive, sem escapa- tórico no sentido moderno,pois não reconheceainda nenhumaevolução'(idem,
tória, aos agentes da preservação, à medida que a legitimação da proteção de p. 531." O homemdo Renascimento
identificavanos grandesvultosda Antigui-
bens culturais pelo Estado via nacionalismo vem declinando, junto com essa ideo- dade clássica os seus legítimos ascendentes.

64 O PATRIAÕNIOEA PROCESSO A CONSTRUÇÃO DO PÀTRIAõNIO: PERSPECTIVA HISTÓRICA 65


O mesmo sentido normativo era conferido. no Renascimento, ao valor artístico. hislódcos no sentido tradicional, pois remetem simplesmente "à representação do

que. nesse período, era predominante. A noção da arte, no Renascimento, se ba- tempo transcorridadesdo sua criação, que se trai a nossos olhos pelas marcas
seava no princípio de que existiria um cânone artístico ideal. objetivo e universal- de sua idade' (ibid., p. 45). Em suma, referem-se ao tempo, ao ciclo de criação
mente válido, identificado nas produções da Antiguidade. Essa idéia. que vai cicli- e morte, como experiência intuitiva porém difusa, comum a todos os homens. Essa
camente retornar na história dos estilos artísticos, só vai ser definitivamente supe- percepção dos monumentos. que já se manifestava na obra de Ruskin, seria.
rada. segundo Riegl, no início do século XX. segundo Riegl. um desdobramentoda perspectiva histórica. Diz Riegl: "0 valor
histórico, indissociavelmente ligado ao fato individual, devia se transformar progres-
Na concepção moderna de história, a idéia de desenvolvimento, de evolução.
leva à superação da noção de cânone e à afirmação do valor específico de cada sivamente em valor de desenvolvimento' (ibid., p. 56). Embora calcado na sensibi-

período,em função do ponto de vista contemporâneoa cada momento histórico.:' lidade romântica,o valor de ancianidade só vai se difundir no século XX. Riegl

O lugar. o tempo e o sujeito da avaliação são, assim. relativizados.Esse fenó- consideraque, em relaçãoao culto dos monumentos,"se o séculoXIX foi o do valor
meno vai culminar. no século XX, com a emergência da consciência historio- histórica,o XX parece ser o do valor de ancianidado,' pois "é sobretudoa clara
gráfica. Novos campos do saber, como a antropologia, já nascem sob o signo do percepção.em toda sua pureza. do ciclo necessário da criação e da destruição,
relativismo. que agrada ao homem do século XX' (ibid., p. 56).

As implicações desse relativismo. ou seja. da percepção de que a atribuição Essa profecia foi plenamente concretizada tanto na evolução das ciências
de valor varia conforme o ponto de vista que se adote, vão se refletir de forma históricas, com a crítica à história factual, o surgimento da história das mentali-
decisiva nas políticas de preservação, impasse que Riegl conseguiu antever em dades e do conceito de longa duração, a ampliaçãoda noção de documentoe o
1903. Há uma progressiva ampliação do que é considerado de valor histórico,22 desenvolvimento
da historiografia,
quantonas políticasde preservação,
com a
até que se chegue ao Interesse atual por "todas as realizações, por menores que ampliaçãodo conceito de património.
sejam, de todos os povos, quaisquer que sejam as diferenças que as separem de A difusão do valor de ancianidadeteve também conseqüênclasimportantesno
nósl um interessepela história da humanidadeem geral, aparecendocada um de trato dos monumentosrelativamenteà sua feição material, ou seja, sobre as ativi-
seus membros como parte integrante de nós mesmos' (ibid., p. 51). dades diretamentevoltadas para sua consewação e restauração.Se, para o valor
A reflexão de Riegl é surpreendentemente inovadora por chamar a atenção histórico, o monumento importa enquanto documento de reforências externas a ele.
para a importânciade se levar em conta, na formulaçãoe, sobretudo, na prática sendo fundamentalpara sua leitura que seja mantido íntegro - o que justifica a
de uma política de preservação, aqueles valores não explicitados, do nível da restauração e mesmo eventuais recriações -, para o valor de ancianidade, qual-
percepção mais imediata, intuitiva. menos culta, que são atribuídos aos bens quer intewenção estranha ao desgaste natural é inaceitável. Essa concepção, que
culturais: o va/or de ancianfdade e o va/or de novidade. inspirou a Carta de Veneza. elaborada em 1964, se contrapõe aos princípios da
O valor de ancianidadederiva do valor histórico mas se distingue dele: "Por Carta de Atenas, de 1933, fruto das idéias funcionalistas dos Ciam (Congressos
oposição ao valor de ancianidade, que aprecia o passado em si, o valor histórico Internacionaisde ArquiteturaModerna).
tendia a isolar um momento do desenvolvimentohistórico e a no-lo apresentar de Se o conflito entre valor histórico e valor de ancianidadefoi agudo no século
um modotão precisoque ele parecepertencerao presente'(ibid.,p. 85). XIX - o que ficou patente na polêmica entre Viollet-le-Duce Ruskin-, Riegl acre-
Riegl se dá conta de que. para nós. modernos, o interesse suscitado por ditava (e antevia)que, no século XX, essa tensão seria atenuada por uma resul-
determinadasobras advém menos de seu poder de rememoração de fatos ou tante da evoluçãotecnológica:o advento das técnicas audiovisuaisde reprodução,
personagens notáveis, e mais por indicarem, sobretudo através de seu estado especialmente da fotografia. Numa antecipação do potencial dessas técnicas, que
material. o caráter de antigas. evocadoras de um tempo passado. Nesse sentido. Walter Benjamin,décadas mais tarde, explorou em outro sentido, Riegl percebeu
constituiriam monumentos, pois têm valor de rememoração. mas não monumentos que, ao possibilitaremalcançar um equivalentequase perfeito qos documentosori-

66 O PATRIAõNIO EA PROCESSO A CONSTRUÇÃO DO PÀTRIAÕNIO: PERSPECTIVA HISTÓRICA 67


finais, viabilizando assim o atendimento do interesse do historiador, essas téc- exploração turística. A utilização dos monumentos não é só um Imperativo eco-
nicas permitem um tratamento dos monumentosconformeas exigências do valor nómico, como também é essencial à sua percepção, mesmo quando prevalece o
de ancianidade. valor de ancianidade. Riegl considera que "uma parte essencial desse jogo anima-

Entretanto,na segunda metade do século XX, um novo imperativo passou a do das forças da natureza,cuja percepçãodeterminao valor de ancianidade,seria
se apresentar para as políticas de património, com repercussões sobre os critérios Irremediavelmenteperdida se os homens cessassem de utilizar o monumento' (ibid.,

de conservação e de restauração: a adequação a um consumo cultural de massa. p. 91). Apenas ruínas ou sítios arqueológicos se prestam à apreciação unicamente
por seu valor de ancianidade.Por esse motivo Riegl considerava,em 1903, que
Essa ampliaçãodo consumo de bens culturais tornou mais evidentes as expec-
os conflitos entre esses valores seriam facilmente contornados.
tativas estéticas, por parte desse público, quanto ao que Riegl denominou "valor
de novidade', que ele considerava o valor por excelência das massas. pois "aos Entretanto,consideroque Riegl não viu - ou ainda não podia ver - os proble-

olhos da multidão, apenas o que é novo e intacto é belo' (ibid., p. 1 ). Propostas mas que a mercantilizaçãodos bens culturais acrescentariaa esse quadro. A con-
como a de Viollet-le-Duc seriam expressões do apelo ao valor de novidade como versão de obras de arte em mercadorias,o desenvolvimentodo mercadode anti-

apoio ao valor histórico do bem. Do mesmo modo, o interesse de párocos em res- guidades e a valorizaçãodo solo. edificado e aed/#candl sobretudo nas grandes
cidades, tornaram evidente a importância, hoje, de se considerar o valor de troca
taurar ou reformar suas paróquias, assim como o de prefeitos em modernizar as
na dinâmica dos valores atribuídos aos bens culturais.
cidades antigas, evidencia uma conjugação do valor de novidade com o valor de
uso. Na mesma linha, a preocupação hoje, dos agentes culturais com a mediação- Além disso, se considerarmosas exigênciasatuais do turismo de massa

animação cultural, recursos audiovisuais etc. - se insere no objetivo de adequar jquestão que, obviamente,não se apresentava para Riegl), veremos que os con-

a apresentação dos monumentos ao acesso de um maior número de receptores. flitos entre valor do uso aparaexploração económica), valor de novidade (para
atender a uma sensibilidade menos culta na apreciação dos monumentos) e valor
Por outro lado, não é apenas a mercantilizaçãoda vida cultural nem a difusão
de ancianidadese tornaram mais agudos. O próprio uso turístico, assim como a
de valores da modernização que vai influir, neste século, nas políticas de preser-
poluição, constituem hoje fatores destrutivos não naturais, portanto, não decor-
vação. O surgimento de novos Estados-nações, sobretudo a partir da Segunda
rentes da ação normal do tempo, e, nesse sentido, contrariamtambém os impe-
Guerra Mundial, no Terceiro Mundo, e, postoriormente. a luta de grupos étnicos rativos do valor de ancianidade.23
discriminadosnos Estados nacionais por seus direitos como cidadãos. levaram
Por outro lado, hoje é ainda mais atual que no início do século a preocupação
a mudanças na composição dos patrimónios históricos e artísticos nacionais.
de Riegl com a mobilização social como fator necessário para a preservação.
O conflito entre valor histórico e valor de ancianidade se dá basicamente em
Essa mobilização. para Riegl, não passa pela persuasão ideológica - e não é por
um meio restrito - o das camadas cultas, e, sobretudo, entre agentes diretamente
acaso que ele não aborda a questão do valor nacional, nem utiliza, em momento
ligados às práticas preservacionístas: arquitetos, historiadores, restauradores, mu-
algum,o tormo pafrfmónfo
- mas sim pela via do saber. Diz ele: "Será necessárioga-
seólogos etc., em função do trato do bem em sua feição material. Já o conflito
nhar para a causa do valor histórico camadas sociais bem mais extensas, antes
entre o valor de ancianidade- que implica uma quase intocabilidadedo bem e que a grandemassaestejamadurapara o culto do valor de ancianidade"(ibid.,
p. 99).
a sacralização de tudo que é antigo - e o valor de novidade, envolve setores mais
Uma postura humanista, inspirada nos ideais iluministas, é também a de Giulio
amplos da sociedade e termina por atingir de modo mais extenso outras esferas
Carlo Argan, que reflete sobre a finalidade social da preservaçãodos monumentos
das políticas públicas e a própria noção de desenvolvimento.
de um ponto de vista psicopedagógico:
Em seu texto, Riegl considera também a questão do valor de uso dos monu-
A presença de obras de arte é sempre caracterizadorade um contexto cuja
mentos segundo a perspectiva da presewação. São poucos os monumentos que historicidade manifesta. Uma vez que é o contexto que determina as idéias de espaço
estariam totalmente fora de uso atualmente, entendendo-se também como uso a
e tempo, estabelecendouma relação positiva entre indivíduo e ambiente, descaracterizar

68 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO A CONSTRUÇÃODO PATRIAÕNIO: PERSPECTIVAHISTÓRICA 69


o ambiente destituindo-o de suas presenças artísticas tradicionais é uma maneira de
só serviria para atender aos interesses mercantis dos antiquários. na medida em
favorecer as neuroses coletivas, que se exprimem, mais tarde, em ates de rejeição à
civilização histórica, que vão desde o pequeno vandalismo e o banditismo organizado
que transformaesses objetos em antfguldades.Para Chastel e Babelon(1980. p. 27).
até os fenómenos macroscópicos de violência e de terrorismo - e todos sabem que o valor etnográficonão é compatívelcom a noção de património:
este é o preço a ser pago pelo não desejado triunfo da sociedade de consumo. jem
O objeto visual despojado assume um valor de signo comovente, indicador de uma
Unesco,
1970,p. 87) existência laboriosa, revelador humanos a fazenda, a oficina e a loja de antigamente
tornam-se agora o que haviam sido. para as gerações anteriores a igreja. o sítio arqueo-
Essetipo de reflexão, assim como a de Riegl,prescindedo nacionalismopara
legitimar a presewação dos bens culturais. Retomando a dimensão formadora dos lógico, o castelo. Todo o equipamento antigo das residências passa assim, para a feli-
cidadedos antiquários.para o setor da curiosidade.Em que medida,no entanto,esse
valores culturaisno contexto de uma cultura humanística,Riegl e Argan de algum
equipamento entra no património? Pela tipicidade. que se opõe à unicidade da obra de
modo se identificamcom a noção rusklnianade humanidade,e de uma demanda
arte. respondem os especialistas. Definição que demanda uma nova abordagem, ainda
social fundada em valores éticos e estéticos para Justificar a preservação de bens não suficientemente definida. O objeto e o meio formam um conjunto ligado do ponta
culturais. Também transcendendo a idéia de nacionalidade, mas numa perspectiva de vista etnológico. Retiradosdo uso e da função, eles se dissociam.Reconhecere
política, essa demanda tem sido traduzida, nas últimas décadas, na noção de di- presewar não têm mais o mesmo sentido nem as mesmas consequênciasde antes.
reitos culturais.

Partidáriosconfessos da sacralização do património. Chastel e Babelon são


2.4 A MPUA[ÃO DA NOÇÃO DE PATRIAÕNIO profundamentecéticos em relação aos novos pafrímõn/os, e também quanto à
E A L[GITIMCÂO VIA DIREITOS CULTURAIS extensãodessa noção aos países do Terceiro Mundo de tradição cultural distinta
da cristã-ocidental. Valores como monumentalidade, singularidade e excepciona-
No século XX. ficou evidente o avanço do valor de ancianidade, que Riegl já
lidade são consideradospor eles como fundamentaispara despertaro senado do
preconizara em 1903, e que se manifesta pela ampliação da noção de património.
pafrfmõnio.Mas, ao criticarema aplicação de critérios etnográficos2'para a sele-
Começam a ser introduzidas nos patrimónios as produções dos esquec/dos pela
ção de bens patrimoniais,e ao defenderemo sentido do sagrado como "o único
história factual, mas que passaram a ser o objeto principal de interesse da história
das mentalidades: os operários, os camponeses, os imigrantes, as minorias étni- possívelem uma época de agnosticismo',esses autores deixam de levar em con-
ta a inevitável dimensão política da questão, reforçando, por outro lado. sua di-
cas etc. Aos bens referentesa esses grupos se acrescentamos produtos da era
mensãoideológica.
industrial e os remanescentes do mundo rural. A partir de 1945, os nacionalismos
que emergem nas ex-colónias, sobretudo as francesas, nos continentes africano A crítica de Chastel e Babelon está fundada em certos princípios da prática

e asiático, começam também a se apropriar da noção européia de património. de preservação superados pelas transformações sociais recentes. Em primeiro
lugar, a idéia de que presemação é sinónimo de guarda de bens excepcionais,
Se é difícil compatibilizar a valoração desses tipos de bens com as exigências
para seremobjetos de contemplaçãoe fonte de conhecimento,é. hoje, considerada
tradicionais do património, em termos de valor histórico e de valor artístico. foram
a etnografia e a antropologia que, inicialmento, legitimaram sua inclusão nesse uma posturamuseológicaanacrónica.elitista, tanto de um ponto de vista puramen-
te mercadológico quanto de um ponto de vista político. A idéia de democratização
universo semântico, reforçando disciplinarmente seu valor cultural. Entretanto.
do patrimónioimplica,qualquerque seja a perspectiva.o fato de que o Estado
essa ampliação da noção de património, que leva à suporposição das noções de
não deve ser o único atar social a se envolver na preservaçãodo patrimóniocul-
bem pafdmonh/ e bem cu/fura/, e que tem. como já foi observado. uma importante
tural de uma sociedade. Do mesmo modo, a ideologia do nacionalismoque, du-
conotação política, é objeto de crítica contundente por parte de alguns ideólogos
rante dois séculos, sustentou as políticas estatais de património. vem sendo subs-
do património, como Chastel e Babelon. Para esses autores. o "sentido do patri-
tituída pela noção de direitosculturaiscomo nova forma de legitimaressas políticas.
mónio' é indissociávelda idéia de culto, de sagrado,que só os grandesmonu-
mentos podem provocar. A conversão de objetos comuns em .bens patrimoniais Os direitos humanosfuncionam atualmente.em vários países de democracia
não-consolidada,
caso do Brasil. como vetores de uma luta política pela democra-

70 O PÁÍRIAÕNIO [A PROCESSO
71
i consíKucÃo DO PATRiAõNIO: PERSPECTIVAHISTÓRICA
tização que se desenvolveà margem e acima dos Estados nacionais. Essa luta sal dos Direitos do Homem,da ONU, em 1948 (art. 22). A formulaçãodessa de-
se expressa não apenas pela ação da sociedade sobre os organismos estatais, manda como direito só se tornou possível depois que a instrução e a educação
por uma descentralização
administrativae pela consolidaçãode mecanismosde lesta entendidacomo Bf/duna,como formação) passaram a ser consideradasbens
representaçãopolítica, como também pela organizaçãode associaçõescivis inde-
necessáriosa todos e não apenas interessede alguns.:5
pendentes, voltadas para questões específicas (meio ambiente, liberdades civis
Na verdade, foram certas condições específicas do segundo pós-guerra que
etc.) (cf. Campilongo.1988).
levaram à formulação dos direitos culturais enquanto direitos humanos. Por exemplo,
A noção de cidadania envolve, atualmente, uma gama diversificada de direitos:
1. a extinção do colonialismo e o surgimento de Estados independentesem
direitos políticos (de primeira geração, fundados no valor da liberdade)l direitos
áreas de colonização européia, que precisavam reconstruir uma cultura próprias
económicos,sociais e culturais (de segunda geração,fundados no valor da igual-
dade)l e direitosde solidariedade(de terceira geração,fundadosno valor da frater- 2. o aumento do consumo de bens culturais, em decorrência do maior
nidade). acesso à educação formal e do desenvolvimento dos meios de reprodução técnicas

A diversificaçãodos direitos humanos correspondeuma crescente particulari- 3. a antropologizaçãodo conceito de cultura, que passou a abranger a
zação dos sujeitos a que se referem esses direitos. O homem, ou o cidadão, en- atividade humana em geral. e as manifestações de qualquer grupo humano, o que
quanto identidadepolítica. não é mais especificadoapenas por sua nacionalidade levou à consciência da necessidade de defender as culturas prfmiffvas, ou de

ou classe social. Define-se também a partir de categorias como sexo. etnia, reli- mfnorlas,ameaçadaspor culturas mais poderosas.
gião, cultura etc. De um certo ponto de vista, os componentesdo meio ambiente O fato, porém. é que, até hoje, poucos têm conseguidotraduzir a expressão
(fauna,flora, biosfera etc.) assumemtambém o sfafus de sujeitos, na medida em gire/fos cu/furalsem termos de demandas definidas. A percepçãoda cultura - e
que passam a ser objeto de proteção específica. Esse fato confirma a evidência seria o caso de perguntar, que cultura? - como bem indispensável a todos os
de que os direitos humanos são históricos e demonstra que sua formulação acom- homens não se exprime. nas sociedades modernas, estratificadas e com campos
panha as transformaçõessociais.
autónomos, com a mesma contundência que a luta pelos meios materiais de
Diz NorbertoBobbio (1992, p. 25) que o problemaatual dos direitos humanos sobrevivência. Por esse motivo, talvez, as tentativas de formulaçõesno sentido
não é o de seu fundamentoe sim o de suas garantias.No caso dos direitos eco- de explicitar esses direitos provocam o efeito de utopias válidas mas inexeqilíveis,
nómicos,sociais e culturais, esse aspecto é mais complexo,pois não basta seu o que ocorre sobretudoem sociedadescomo a brasileira,marcadapor tremendas
reconhecimento jurídico nem o estabelecimento de um regime democrático, que desigualdadeseconómicase sociais. Além disso, é preciso lembrar que o con-
respeite as liberdades individuais: é preciso que a estrutura da sociedade possi- ceito de cidadania no Brasil está historicamentoatrelado a uma concessãodo
bilite a todos os cidadãos o acesso a esses direitos. Portanto, a real conquista Estado, formalizado no que o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos
desses direitos depende de um empenho do Estado e de uma mobilização da opi- j1987, p. 68) denominou"cidadaniaregulada', "cujas raízes encontram-se,não em
nião pública - o que, na maior parte dos países, sobretudo os menos desen- um código de valores políticos,mas em um sistema de estratificaçãoocupacional.
volvidos,está longe de ser alcançado.
definido por norma legal' (1987, p. 68). Faltaria, portanto, na cultura política bra-
Por outro lado, é inegável que a menção a esses direitos em diferentes discur- sileira, um solo fértil para que se possa concretizar uma prática política na base
sos - declaraçõesinternacionais.constituiçõesnacionais,leis, imprensaetc. - con- de uma noção que pressupõea crença em um conceito de cidadania universal.
tribui para lhes conferir visibilidadee para convertê-losem objeto de interesse político Para Alain Touralne,uma das dificuldadespara a implantaçãoda democracia
A expressão dre/fos cu/furafs surgiu pela primeira vez na Constituição soviéti- na AméricaLatina é que ela tem como pressuposto"uma consciênciapropriamente
ca de 1918, mas só foi reconhecida,em nível internacional,na DeclaraçãoUniver- política de cidadania, de pertencimento a uma coletividade política' (1988, p. 442).

72 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
 coNsTRUÇÃo DO PATRIAÕNIO: PERSPECTIVA
HISTÓRICA 73
A luta pelos direitos humanos na América Latina só pode ser compreendida sociedade brasileira há necessidades muito mais prementes a serem atendidas
se vinculada à resistência ao autoritarismo que, nos anos 70, predominava no con-
(e também, muito provavelmente.que esse tipo de discurso 'não dá voto"). Aos
tinente. Tratava-se de uma conjuntura diferente da européia, onde ocorria um es-
olhos da maior parte dos políticos brasileiros, esse não é um campo propício ao
gotamento dos modelos de Estado: o do socialismo soviético e o do bem-estar
exercício e à afirmação do poderáe essa postura fica evidente na ausência do
social. Dizem, a respeito, Calderón e Janlin:
tema em programasde partidose plataformasde eleição. Por outro lado, vem se
Os direitos humanas surgem junto a uma revalorização da democracia como observando recentementeum crescente Interesse de governos de estados e muni-
construção,e não como algo dado e preexistente.Todos aqueles valores que eram cípios em marcar sua atuação com iniciativas na área da cultura.
óbvios,e que confirmavam algo assim como um conjuntomínimo de normas éticas
A questão se torna mais complexa quando consideramos que, também no meio
que se davam por aceitas e além das quais se dirigiam as lutas políticas e sociais,
tiveram que tornar a ser reconstruídos,recolocadose revalorizadosa partir da expe- intelectual, a difusão da ideologia do relativismo cultural torna problemática qual-
riência de sua violação sistemática pelos governos dffaforíais.j1987, p. 80) quer concepção universalistade cultura ou de direitos culturais, o que significaria
legitimaruma cultura em detrimentode outras. Essa problemáticadefine também
No caso dos direitos culturais a questão é mais complexa, sobretudo nos paí-
as relações entre países nos organismos internacionais.A propósito, o cientista
ses que se originaram das colónias européias o foram marcados pela escravidão.
político Paulo Sérgio Pinheiro observou, sobre a Conferência Mundial dos Direitos
Esses países herdaram uma noção de cultura duplamente restrita: nãa apenas em
do Homem,realizadaem Viena, em julho de 1993, que "foi o embateentre os paí-
termos de classes sociais - na medida em que não se reconhecia. do mesmo
ses que reconhecema universalidadedos direitos humanos e aqueles que pre-
modo que nas metrópoles, o caráter de cultura às produções e práticas dos estra-
tendem afirmar a especificidade cultural de cada sociedade' IJorna/ do Brasa/,
tos populares - como também em termos geográficos, pois, mesmo após a inde-
15.7.93.p. lll.
pendência, a verdade/ra cultura era aquela importada das metrópoles européias.
Resumindo, se a emergência da noção de património histórico e artístico
A noção de direitos culturais é, portanto, nesses países, carente de sentido
nacional se deu no âmbito da formação das Estados-naçõese da ideologia do
para a maior parte da população, do mesmo modo que a noção de cultura. E se.
nacionalismo,sua versão atual, enquanto património cultural, indica sua inserção
como observa Eunice R. Durham, nos países sem uma tradição democrática con-
em um contextomais amplo - o dos organismos Internacionais- e em contextos
solidada "são os movimentos sociais que operam a transformação de necessi-
mais restritos- o das comunidadeslocais. Nesse sentido. nas duas últimas déca-
o que pode ser visto "como um amplo processo
dades e carências em direitos',
das essa noção foi ressemantizada,extrapolou o seu domínio tradicional, o dos
de revisãoe redefinição
do espaçoda cidadania'(1984,p. 29), no caso dos
Estados nacionais,e passoua envolver outros atores que não apenas burocratas
direitos culturais, pelo menos no Brasil, essas necessidadese carências em gran-
e intelectuais. As modificações na conceituação e no gerenciamento do património
de parte ainda dependem, para serem formuladas enquanto direitos culturais, da
mediação dos agentes estatais. enquanto objeto de políticas públicas indicam sua progressiva apropriaçãocomo
tema político por parte da sociedade.o que trouxe conflitos a uma práticatradicio-
A expressão d/re/fos cu/fura/s foi incluída na Constituição brasileira de 1988
nalmente exercidapelo Estado, com o concurso de intelectuaisde perfil definida
kart. 215), mas, até hoje. a não ser em casos excepcionais,essa temática não
e à margemdas pressõessociais.
foi incorporada às políticas públicas na forma de propostas de trabalho. Nesse
sentido, os direitos culturais no Brasil não passam de dre/fos cacos, meras de- Nos próximos capítulos, vou analisar a prática de preservaçãodo património
cultural desenvolvidano Brasil, procurando, primeiro, situa-la numa trajetóriâ que
clarações de boas intenções.
tem início no final dos anos 30. para, em seguida,me deter nas mudançasinstitu-
Tema cada vez mais presente nas agendas políticas nacionais e internacio-
cionais que ocorrem a partir dos anos 70, com a entrada em cena de novos atores,
nais, a questão da cultura encontra, no Brasil, fortes resistências por parte da
a adoção de uma concepçãoampla e abrangente de cultura, á ensaio de novas
classe política, que costuma considerar (nem sempre de forma explícita) que na
formas de proteçãoe, sobretudo,uma proposta de democratizaçãoda política de

74 O PÁTRIÁONIO[A PROCESSO
A CONSTRUÇÃO DO PATRIAÕNIO: PERSPECTIVA HISTÓRICA 75
10
patrimónioem nível federal. O objetivo dessa análise é esboçar as questões e '0 artista deixou de ser um artífice entre os artífices, pronto para executar encomendas
de sapatos, armários ou pinturas, conforme o caso. Era agora um mestre dotado de auto-
os conflitos que emergem dessa nova orientação,no sentido de apreender refe-
nomia, não podendo alcançar fama e glória sem explorar as mistérios da natureza e sondar
rências para uma reflexão tanto crítica quanto prospectiva.
as leis secretasdo universo."IGombrlch, 1993. p. 218)
11

NOTAS
Esses autores citam um documento de 1750, onde se diz que "/a desfrucf/onfofa/e de /'hófe/
de Solssons va nous dépayserdana nutre propre ville' \p. l q.
A própria separação entre espaço e tempo é uma característica da modernidade. Diz. a 12
A Comissão de Monumentos havia sido criada em 1790
respeito, Anthony Giddens: "Nas sociedades pré-modemas, espaço e tempo coincidem
13
amplamente,na medida em que as dimensões espaciais da vida social são, para a maioria No Brasil, pintores como Pedra Américo e Vítor Meireles se voltaram, em sua atividade
da população,e para quase todos os efeitos, dominadaspela 'presença'- por atividades artística, para a exaltação da nacionalidade.
localizadas.O advento da modernidade arranca crescentementeo espaço do tempo 14
As instruções do inventário de 15 de dezembro de 1790 recomendavam 'a conservação dos
fomentando relações entre outros 'ausentes'. localmente distantesde qualquer situação dada
manuscritos, mapas. selos, livros, impressos. monumentosda Antiguidade e da Idade
ou interação
facea face.'(1991,p. 27)
Média, estátuas, quadros e outros objetos relativos às belas-artes, às artes mecânicas e
2
Etimologicamente.a palavra monumento vem do latim monumenfum,o que traz à memória. à história natural, aos costumese usos dos povos tanto antigos como modernos,
A palavra alemã Denkma/ é composta pelo verbo denken jpensarl e pelo substantivo Ma/ provenientes do mobiliário das casas eclesiásticas e que integram os bens nacionais'
(coisa).
15
Eric Hobsbawmobsewa: 'não nos devemos deixar enganar por um paradoxo curioso,
Nos últimos anos, vem se assistindo a um novo interesse por monumentos intencionais. embora compreensível:as nações modernas. com toda essa parafernália, geralmente afir-
Na última década, foram construídos. nos Estados Unidos, o Muro do Víetnã e o Museu mam o oposto do novo, ou seja, estarem enraizadas na mais remota Antiguidade, e o oposto
do Holocausto. Na França do governo Mitterand. esse foi um dos objetivos dos Gramas do construído, ou seja, serem comunidades humanas 'naturais' o bastante para não neces-
7}auaux.No Brasil,foram idealizados monumentos em memóriade Tancredo Neves. Ulisses sitarem de definiçõesque não a defesa dos própriosinteresses' j1984. p. 22-231.
Guímarãese Luís Carlos Prestes, entre outros.
Embora qualificassemmuitas vezes como 'pitorescas' essas viagens, certos viajantes
Tanto a cultura quanto a economia produzidas pela prática preservacíonista são resultado como Debret, produziramdocumentaçãode inconteste valor científico.
de uma dialética entre o conservar e o destruir.' garantes.1989. p. 16) 17
Essa idéia será concretizada por William Morris. que. em 1877.'fundou a Society for the
Historiador da arte austríaco com formação em direita e filosofia. Trabalhou durante vários Protection of Ancient Buildings.
anos no Museu Austríaco de Artes Decorativas.Foí nomeado, em 1902. presidenteda 18
Segundo Françoise Choay (1992, p. 126-128), o Italiano Camillo Boião(1 853-19141foi, assim
Comissão Austríaca de Monumentos Históricos, e encarregado de elaborar uma nova legis-
como Alois Riegl. um precursor. Sua ampla formação (engenheira, arquiteto, historiador da
lação para a conservaçãode monumentos.
arte) Ihe permitiu aliar o conhecimento de dois mundos que eram então considerados incon-
Professor honorário do Collége de Francel francês, autor de várias obras sobre história da ciliáveis: o da aRe e o da modernidade tecnológica
arte, dirigiu o Inventário Geral dos Monumentos Históricos. iniciado em 1964. Das doutrinas de Ruskin e de Viollet-le Duc. Boatoaproveitou o melhor para elaborar uma
síntese, tenda sido o inspirador das orientações para restauração de monumentos na ltália.
Inspetor Geral dos Arquivos de França; francês, antigo conservador do Museu de História
De Ruskin e Morris reteve a noção de autenticidade, enquanto respeito pelas marcas da
da França e antigo consewador-chefe da Seção Antiga dos Arquivos Nacionais. Autor de
temposde Viollet-le-Ducreteve o senso prático de que a restauraçãose justifica porque
várias obras sobre história e monumentos da França.
o interesse atual da conservação deve prevalecer sobre o respeito absoluto pelo passado.
Historiadoradas teorias e das formas urbanas e arquitetõnícaslfrancesa,professorada Ao defender a explicitação das partes restauradas(através de materiais ou cores diferentes.
Universidade
de ParasVlll legendas indicadoras etc.). Boito pode ser considerado o responsável pela instauração da
9
restauração como disciplina.
Na atividade de colonização empreendida pelos europeus em outros continentes no início
da Idade Moderna. esses procedimentos foram frequentemente utilizados também com a Para essa visão abrangente de monumento deve ter contribuído sua experiência, durante
finalidade específica de afirmar sua dominação sobre os povos nativos, como ocorreu na dez anos. como diretor do departamentode têxteis do Museu Austríacode Artes Deco-
atual cidade do México e em Cuzco, no Peru. rativas.

76 77
O PATRIAÕNIOeA PROCESSO A CONSTOU(ÂO DO PATRIAÕNIO: PERSPECTIVAHISTÓRICA
a
Essa problemática já vinha sendo abordada na Fiança, desde o final do século XVI, por
ocasião da Querelle des Anciens et des Modemes. '
21

O eurocentrismo começou a ser questionado pelos europeus no contacto com os teste-


munhos das antigas civilizações ameríndias, asiáticas e africanas
a
O romantismo incorporou a Idade Média. como tema e como motivo, a seu repertório
estético.

" Cf. l.:Express,ed. esp. Pafrimoüe -/e désasfre(1988).


24

A noção de bem cultural não se confunde,ou não deveria confundir-se,com a de bem PARTE
patrimonial: os objetas de coleção, os testemunhos etnológicos são ou podem ser bens
culturais dignos de atençãol não são por isso. no entanto. senão metaforicamente, elementos PATRIAONIO NO BRASIL
do património. na medida em que este é sempre definido por um valor diferente do conhe-
cimento científico. Do que resulta o fato curioso de que inúmeros países do Terceiro Mundo
foram levadosa designar monumentos. conjuntos e sítios que pudessem constituir um 'patri-
mónio'. O conjunto das tradições e dos costumes, verdadeira espinha dorsal dessas socie-
dades. não implicava uma ordem de símbolos monumentais comparável à das reg ões oci-
denta!is:fot preciso. portanto, improvisar uma ordem. E uma questão de dignidade Mas o
artifício salta aos olhos.' (Chastel, Babelon, 1980, p. 29)

z Partindode uma distinçãofeita pelo padre dominicanoLebresentre bens 'compressíveis


(de quese podeprescindira
e 'íncompressíveis'(indispensáveis
à sobrevivências,
Antonio
Cândida observa que falar em direitos culturais significa considerar 'bens incompressiveis
nao apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garan-
tem a integridade espiritual' (1989, p. lll).

78
O PAÍRIAÕNIO eA PROCESSO
CAPITULO 3
h \hS\ HEROICÁ

Nem me falta na vida honesto estudo,


comlongaexperiência
misturado
(-.).
Luís de Camões, Os /usiâdas

Desde quando é de boa ética matar gente velha porque estorva


o caminho?
LúcioCosta, Parecer anexado ao processo de fombamenfo
da igreja Bom Jesus dos Martírios, em Recite, Pernambuco.

No Brasil, a temática do património - expressa como preocupação com a sal-


vação dos i/estígiosdo passadoda Nação, e, mais especificamente,com a prote-
ção de monumentos e objetos de valor histórico e artístico - começa a ser consi-
derada politicamente relevante, implicando o envolvimento do Estado, a partir da
década de 1920. Já estavam então em funcionamento os grandes museus nacio-
nais, mas não se dispunha de meios para proteger os bens que não integravam
essas coleções, sobretudo os bens imóveis. A partir de denúncias de intelectuais
sobre o abandono das cidades históricas e sobre a dilapidação do que seria um
"tesouro' da Nação, perda irreparável para as gerações futuras, pela qual as elites
e o Estado seriam chamados a responder, inclusive perante as nações civilizadas,
o tema passou a ser objeto de debates nas Instituições culturais. no Congresso
Nacional, nos governos estaduais e na imprensa.
Segundo Rodrigo Meio Franco de Andrade, essa "foi uma idéia longamente ama-
durecida em nosso meio' (Andrade, 1987, p. 50). Mas foram alguns intelectuais
modernistasque elaboraram,a partir de suas concepçõessobre arte. história.
tradição e nação, essa idéia na forma do conceito de património que se tornou
hegemónico no Brasil e que foi aditado pelo Estado, através do Sphan. Pois foram
esses intelectuais que assumiram, a partir de 1936, a implantação de um serviço
destinado a proteger obras de arte e de história no país.
r
Nessa tarefa, exerceram, ao mesmo tempo, a função de intelectuais e de ho- Na verdade, mesmo em suas primeiras manifestações, não se tratava de um
mens públicos. e marcaram sua presença no serviço iniciado em 1936 - mais. movimento homogêneo. Em termos gerais, o modernismo, nas segunda e terceira
talvez, que em qualquer outra instituição ostatal de que tenham participado naquele décadas do século XX, se propunha como uma revolução artísticas mas, sob o
período - de forma tão profunda e duradoura que, até homo,para alguns, o Sphan lema da crítica ao passadismoe à linguagem acadêmica,esse movimentoteve
dos anos 30-40, o Sphan "de doutor Rodrigo', é o verdadeiro Sphan, tendo se tor- +

diversas orientações estéticas e também ideológicas.


nado praticamente sinónimo de pafrlmõnio. Nos anos 20. era baixa a incidência de envolvimento direto dos modernistas
Neste capítulo, tenho dois objetivos em mente: primeiro, fazer uma releitura na atividade política. Era o Partido Democrático (PDI, de orientação liberal, que
desse Sphan, mítico para alguns, ultrapassadopara outros, visando a situar essa reunia, nessa década e na seguinte, o número mais expressivo de artistas e inte-
instituição e a problemática que a justificou, no momento histórico de sua criação lectuais simpatizantes do movimento modornista: Paulo Prado (autor de Refrafo
do Brasi0, Paulo Duarte, Prudente de Morais Neto, Rubem Borba de Morais, Sér-
e consolidação.Procurarei rastrear a emergência da questão do património no
k gio Milliet. Sérgio Buarque de Holanda e Mário de Andrade.
Brasil, os diferentes pontos de vista sob os quais foi considerada, antes e depois
de sua criação.e. sobretudo,apreenderos meiosa que recorreramos agentes Os conservadores se concentravam no grupo católico liderado por Jackson
envolvidos para tornar socialmentevisível essa questão, através de uma política de Figueiredo que editava a revista .4 Ordem. A ele se juntou Alceu Amoroso
pública - embora os funcionários do Sphan preferissem designar sua atividade Lima, que se converteu,após a morte de Jacksonde Figueiredo,em líder do
como simplesmente "o serviço', ou 'a repartição'. O segundo objetivo se articula grupo. Outro grupos conservadores,que surgiram a partir do modernismo mas
com o primeiro:reunir elementospara, no capítuloseguinte,situar e analisar a '+
cujos membros se voltaram posteriormentepara uma militância política. foram o
crítica a esse modelo - que se mantove praticamente inalterado durante quarenta Verde-amarelo (Menotti del Picchla. Cassiano Ricardo, Cândido Mota Filho e
anos - produzidanos anos 70 e 80, situandoesse segundomomentotanto na Plínio Salgados e o Anta, liderado por Plínio Salgado, futuro chefe integralista.
trajetória específica dessa atividade quanto no contexto mais amplo da complexa Esses grupos eram anta-revolucionários,temiam a anarquia e as ideologias de
relação entre atividade intelectual e ação política no Brasil. esquerda,defendiam a ordem e a restauração dos valores espirituais,como as
virtudes cristãs e o culto à pátria. Embora independentes, tinham várias afinidades,
{

3.1 0 CONTEXTO CUUUPAI e foi frequente que as mesmas personagenstransitassem entre eles.

Na Semana de 22. o modernismo se apresentou como antiburguês. mas


A criação do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, em 1936.
recebeu, desde o início. o apoio de vultos expressivos da aristocracia do café,
deve ser analisada à luz de dois fatos que marcaram a vida cultural e política do
como Paulo Prado.: A antropofagia, de Oswald de Andrade e de Raul Bopp - que
Brasil na primeira metade do século XX: o movimento modernista e a instauração
teve na pintura de Tarsila do Amaral sua expressão crítica mais radical -, defen-
do Estado Novo, em 1937, corolário da Revolução de 30. A análise do modo como
deu a valorização do primitivo e recorreu à paródia e à sátira.
os agentes do Sphan - recrutados, como já mencionei,entre os adeptos do moder-
Em 1926, um grupo de escritores nordestinos liderados por Gllberto Freire
nismo - lidaram com esse duplo compromisso - com um movimento cultural reno-
produziu o Manifesto Regionalista,que chamava a atenção para os valores da
vador e com um governo autoritário - é fundamental para se compreender a feição
cultura popular local e para os problemas da região. Em Minas Gerais, gmpos locais
específica que o Sphan assumiu enquanto órgão do Estado na área da cultura.
reunidos em torno de revistas (4 Revista, Verde) não assumiram o mesmo tom
A compreensão do contexto cultural' em que, pela primeira vez no Brasil, se
localista do grupo nordestino.
formula explicitamente a temática de um património histórico e artístico nacional.
O maior nome do modernismo foi, sem dúvida, Mário de Andrade que, a rigor,
implica a sua relação com o surgimento e o desenvolvimento do movimento
não se enquadrava em nenhum desses grupos, embora tenha, em algum momento,
cultural mais importante na primeira metade do século XX - o modernismo.
se declarado "antropofagista'. Inicialmente ligado ao grupo paulista, Mário de

82 O PÂTRIAON IO [A PROCESSO \

83
Andradeserviu de elo entre vários intelectuaismodernistasde todo o país através no Brasil, conhecida como Casa Modernista, na Vila Mariana. em São Paulo. em
de seus contatos pessoais, viagens e correspondência.De formação católica, 1928. teve que recorrer a um subterfúgio para ter seu prometoaprovado: após apre-
professor do Conservatório de Música de São Paulo, poeta, romancista, contista, sentar um desenho de acordo com o código de fachadas da prefeitura, alegou pos-
cronista, etnógrafo, Mário de Andrade assumiu, em meados da década de 1930, teriormente falta de recursos para concluir a obra, deixando. como fora sua inten-
no governo de Armando Sales de Oliveira, do Partido Democrático, a direção do t
ção, a fachada retilíneae nua. Posteriormente,o apoio de representantesproemi-
Departamento
de Cultura da Prefeiturade São Paulo. nentes da aristocraciacafeeira criou um ambiente favorável a que se formasse
Em termos de expressão estética. nos anos 20 predominaram,na literatura e uma clientela para esse tipo de arquitetura. Mas, nessa década, a reação ao ecle-
nas artes. uma linguagem não-realista e a incorporação de recursos expressivos tismo vinha do movimento neocolonial. de Ricardo Severo e José Marçano(filho).
das vanguardas européias. A questão da identidade nacional era também um tema Esses movimentosda década de 1920 - tanto na esfera política quanto na
comum a praticamente todos os grupos modernistas, que se expressavam, em intelectual - tinham em comum a crítica aos modelos políticos e culturais da Velha
suas manifestações mais elaboradas - a antropofagia e a prosa e a poesia de Mário
República. Apesar da heterogeneidade de tendências. provocaram a progressiva
de Andrade- através de uma visão crítica do Brasil europeizadoe da valorização
erosão da legitimidade do regime e mobilizaram a opinião pública para a idéia de
dos traços primitivosde nossa cultura, até então tidos como sinais de atraso. Mas
mudança. No campo da cultura sua sedimentação foi mais lenta e apenas a partir
nem Macunaiha nem Cobra /Vorafo podem ser entendidos propriamente coma
do final dos anos 30. e nos anos 40. alcançouum reconhecimento
maisamplo.
símbolos da nacionalidade.A respeito, diz Mário de Andrade em um dos prefácios
também em função de apoio oficial.
inéditos a A4acuna/ha:"só não quero é que tomem Macunaímae outros perso-
A participação dos intelectuais modernistas na administração pública federal
nagens como símbolos. E certo que não tive a intenção de sintetizaro brasileiro
só teve início efetivamente após a Revolução de 30. Já no início do governo. Var-
em Macunaímanem o estrangeirono gigante Piamã" (Andrade[org.]. 1978, p. 23).
gas começou a estruturar o aparelho do Estado, criando o Ministério da Edu-
Ao caracterizarcomo "rapsódia"sua narrativa, e ao dizer no mesmo prefácio
cação e Saúde (19301,o Ministériodo Trabalho (1930). o DepartamentoNacional
que 'ainda não é tempo de afirmar coisa alguma', Mário de Andrade fugia das
de Propaganda
j1934)e o Departamento
Administrativo
do ServiçoPúblico- Dasp
sínteses simplistas c conclusivas. Para ele. o conhecimentodo Brasil se fazia
11938)
na literatura. via criação, e na ciência, via observação e pesquisa. A elaboração
de uma versão sintética da /denf/jade nac/ona/era algo a ser realizado no futuro, Com a instauração do Estado Novo, a reforma administrativa foi ampliada, e
e devia ser precedidapor um trabalhode análise e de conhecimentodas raízes cul- o Estado passou a ser apresentado como o representante legítimo dos interesses
turais brasileiras. da nação.por sua vez entendidacomo "indivíduocoletivo',e não mais como
coleçãode indivíduos,conformea ideologialiberal (Reis,1988,p. 187-2031.
Se,
Do mesmo modo que a literatura e as artes plásticas,a arquiteturamoderna
por um lado, o Estado Novo suprimiu a representação política e instaurou a cen-
foi introduzidano Brasil a partir do contato com a vanguardaeuropéia- no caso,
o racionalismo de Le Corbusier - e se insurgia contra o gosto burguês vigente. sura. por outro. ao assumir a função de organizador da vida social e política. abriu

que procuravaacompanharos padrões estéticosdo ecletismoda École des Beaux- espaçospara os intelectuais,tanto para os que assumiramclaramentea função

Arts francesa. Esse era o estilo que predominavanas construçõesque invadiam de ideólogos do regime (Francisco Campos. Azevedo Amaram,Oliveira Viana.

os espaços urbanos.sendo a mais evidente expressão desse período a Avenida Almir de Andrade etc.), quanto para aqueles que, sem aderirem,e até demons-
Paulista, onde os barões do café construíam suas mansões. Esse era também a trando reservas quanto ao novo governo, viram no processo de reorganizaçãodo

gosto o#cfa/,presente na Avenida Central (hoje Rio Branco), aberta por Pereira Estado uma possibilidade de participarem da construção da nação.

Passos,no Rlo de Janeiro, e nos códigosmunicipaisde construção.Por esse mo- A relação entre cultura e política era o principal tema da revista do mesmo
tivo, o arquitetorusso Gregori Warchavchik,autor da primeira construçãomoderna nome (Cu/fura Po/#fca), veículo da ideologia do Estado Novo no meio Intelectual.

84 O PATRIAÕNIOeA PROCESSO 85
(Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho) e dos católicos (Alceu
A revista era dirigida por Almir de Andrade, em cuja obra as tradições culturais
Amoroso Lima). Na verdade, foi o líder católico que teve maior influênciajunto
brasileiras eram invocadas para legitimar o regime. Para a mobilização das
ao ministro.
massas, as instituições oficiais recorreram sobretudo a símbolos expressamente
criados para invocar a pátria (a bandeira, os hinos, a efígie de Vargas etc.) e aa Outro fato importante na área da educação foi a criação dos cursos superiores
incentivo às atividades cívicas. A preocupação de nacionalizar o ensino funda- de ciências sociais. Em 1933 foi criada em São Paulo a Escola de Sociologia
mental - visando sobretudo à integração, em certos casos à força, das comu- e Políticasem 1934, a Faculdadede Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
nidades de imigrantes europeus no Sul - reduzia os conteúdos culturais a uma de São Paulol e, em 1935, a Universidade do Distrito Federal.
função instrumental. O objetivo era criar uma cultura nacional homogênea,que Na literatura e nas artes plásticas ocorreu, na década de 1930, o que João
propiciasse a identificação dos cidadãos com a nação. Pois "o que preponderou Luis Lafetá (1974)caracterizoucomo a mudançada ênfase de um prometo
estético
no autoritarismo brasileiro. no entanto, não foi a busca de raízes mais populares Idécada de 1920) para um prometoideológico. A produção de uma literatura
e vitais do povo. que caracterizava a preocupaçãode Mário de Andrade, e sim roalista, de uma arte que voltava ao figurativo e de uma ensaísticaque procurava
a tentativa de fazer do catolicismo tradicional e do culto aos símbolos e líderes
ser científica conferiam à noção de identidade nacional uma positividadee um tom
da pátria a base mítica do Estado forte que se tratava de construir'(Schwartzman
afirmativo que não encontramos na década anterior. Foi a época do romance
et al., 1984, p. 801. regionalista, das pinturas de Cândido Portinari e de Emiliano Di Cavalcanti, da
No âmbito do Estado, essa função foi exercida por órgãos da esfera do Minis- música de Heitor Villa-Lobos.
tério da Justiça (Agência Nacional, Departamentode Imprensa e Propaganda)e
Nos anos 30. a arquiteturamoderna. recém-introduzidano Brasil e praticada
do Ministério da Educação e Saúde. Logo após o golpe, esse último ministério
por arquitetos que tinham ligações pessoais com os modernistas (Lúcio Costa,
foi oferecido, a título estritamente pessoal. a Plínlo Salgado. que, no entanto. o
Oscar Niemeyer,Carlos Leão, Afonso Reidy, os irmãos Marmeloe Milton Roberto,
recusou, manifestando-se inclusive publicamente contra a extinção da Ação Inte-
Atílio Correia Lima etc.), recebeu apoio oficial através de Capanema,primeiro com
gralista do Brasil. Confirmado Capanema no cargo, foi empreendidauma ampla
a nomeaçãode Lúcio Costa para a direção da Escola Nacional de Belas Artes,
reforma, sendo criados no MES o Instituto Nacional do Livro, dirigido por Augusto
em 1930, graças à influênciade Rodrigo Meio Franco de Andradejunto ao minis-
Meyer, o Serviço Nacional de Teatro, dirigido por Thiers Marfins Moreira, o Insti-
tro, e, postoriormente,com o episódio da construçãodo novo prédio do MES, que
tuto Nacional de Cinema Educativo e o Serviço de Radiodifusão Educativa, diri-
se converteu no monumentoaos novos tempos. Em 1936, num gesto ousado, o
gidos por Edgar Roquete Pinto, e o Serviço do PatrimónioHistórico e Artístico
ministro preteriu o prometoneomarajoarado arquiteto Arquimedes Memória, ven-
Nacional. já sob a direção de Rodrigo Meio Franco de AndrHde desde o ano ante-
rior. Funcionavam também no MES o Conselho Nacional de Cultura e o Conselho cedor em concurso público, chamando para executar o novo prometouma equipe
de jovens arquitetoslideradapor Lúcio Costa, todos adeptosdas idéias de Le Cor-
Consultivo do Sphan.
busier. Desse prometo
participaramtambém o pintor Cândido Portinari,o paisagista
Para o prometo ideológico do Estado. o rádio e o cinema eram, sem dúvida. Burle Marx e o escultor Bruno Giorgi.
as áreas de atuação mais importantes. tanto que os dois órgãos criados no MES
Esses gestos, assim como a nomeaçãode Carlos Drummondde Andrade co-
foram disputados pelo Ministério da Justiça. evidenciando-secom isso uma tensão
entre sua caracterização,ora com o instrumentode propaganda,ora como recurso mo chefe de gabinete,e a admissão,nos quadros do MES, de vários intelectuais

pedagógico (cf. Schwartzman et al., 1985, p. 86-891. vinculados ao modernismo foram, nos anos 30, sinais concretos da relação que
então se estabeleceuentre o governo e aqueles intolectuais. Para a análise da
Entretanto,no MES, a área da cultura foi bem menos marcada por conflitos
relação entre o modernismo e o património, considero importante destacar dois
ideológicosque a área da educação.Foi nesta última que se concentraramas
aspectos: o sentido do ruptura específico desse movimento no Brasil e a presença
atenções do ministro, tarefa complexa devido ao alto grau de politização da ques-
de Minas Gerais como tema e dos mineiros como personagens.
tão educacional no período, com o confronto dos interesses dos escolanovistas

b \bS\ yeROICÁ 87
86 O PATRIAONIO[A PROCESSO
3.2 0 AOVIA[Ní0 AOD[RNiSTA E O PATRIAÕN10 malmente rebuscada. mas acomodada. produtora de imagens distorcidas, de que
o ufanismode um Afonso Celso seria a caricatura. Ideologicamente.
era a temática
3.2.1 0 sentidode ruptura no modernismo brasileiro do nacionalismo- que nos séculos XVlll e XIX se expressousobretudo através
do nativismo e do indianismo românticos - que conferia ao escritor sua legiti-
A significação do modernismo na vida cultural e também, secundariamente, na midade social. Além disso, dada a ausência de um público que, através do con-
vida política do Brasil só pode ser corretamente avaliada na relação desse movi- sumo de livros, possibilitasseao escritor o sustento material, era o mecenato do
mento com o contextocultural a que veio se opor. Caracterizadode início como
Estado que Ihe garantia a estabilidade para o exercício de sua produção inte-
um movimento exclusivamente artístico, na verdade desde suas primeiras mani- lectual. Antonio Candido considera que essa literatura, de tal modo subordinada
festações demonstrouter um alcance bem mais amplo. a determinações ou interesses externos a seu campo específico, teria perdido seu
Daniel Pécaut observa que "de maneiras diversas sucessivas gerações de potencialcrítico e, nessesentido, teria sido incapaz de exercer o que, na moderni-
intelectuais brasileiros invocavam a realidade nacional" (1990, p. 6).; Era o envol- dade, seria a sua função social própria: construir, no nível da elaboraçãoestética,
vimento na questão da identidade nacional que marcava o compromisso social do uma representaçãocríticado real. No Império, pode-sedizer que Machadode Assim
intelectual, inclusive de escritores e artistas. Nesse sentido, assumiam também foi a importante exceção que confirma a regra, e, na República, aqueles escritores

a função de atores políticos, e era comum que essa dupla missão unisse na mes- que, como Euclidesda Cunha e LamaBarrete, elaboraramuma crítica social mais
contundente, acabaram condenados ao isolamento.
ma pessoa o poeta o o abolicionista (Castro Alves), o escritor e o jornalista (Eu-
clides da Cunha), o contista sertanejo e o ardente defensor de causas nacionalis- O modernismo. para Antonio Candido, surge como movimento de ruptura com
tas, como na questão do petróleo (Monteiro Lobato). essa tradição que a proclamaçãoda República não alterou. No início do século.
No Brasil, essa dupla inserção social dos intelectuais assumiu características a literatura brasileira se caracterizava por ser "uma literatura satisfeita, sem an-
específicas, fenómeno que foi analisado por Antonlo Cândida em suas conse- gústia formal, sem rebelião nem abismos. Sua única mágoa é não parecer de todo

quências tanto para a produção literária quanto para o papel político do intelectual. européia" ICandido, 1967, p. 133). De um lado, um nacionalismo diluído numa
Ao concentrar sua reflexão sobre a literatura, Antonio Candido se refere. po- literatura de expressão acadêmical de outro, o esteticismo dos parnasianos e dos
simbolistas.
rém, a um universobem mais vasto, pois consideraque, "diferentementedo que
sucede em outros países, a literatura tem sido aqui, mais do que a filosofia e as Nesse contexto, não é difícil entender o caráter fundador que os próprios
ciências humanas, o fenómeno central da vida do espírito"(1967. p. 152). Esse fato. modernistas atribuíam a seu movimento: fundador não apenas de uma nova ex-
aliado ao método de análise que emprega, possibilita que, ao falar de literatura. pressão artística, afinada com as vanguardas européias e com a modernidade,
Antonio Candido na verdade tenha por objeto o universo da cultura. Resumirei aqui. como tambémfundador enquantorecusa de um tipo de literaturaque. por se con-
nos traços mais gerais, sua análise da vida cultural brasileira nos séculos XVIII. fundir com o jornalismo. o discurso político. ou por se submeter às exigências de
XIX e início do XX porque ela é extremamente elucidativa para a compreensão um formalismo acadêmico. não era, no que consideravam seu verdadeiro sentido,
do significado do modernismo como movimento cultural. e das posições assumidas literatura. Na verdade. a missão dos modernistas extrapolava o campo restrito da
por seus integrantes enquanto homens públicos.' literatura e das artes. Tratava-sede, ao buscar definir os limites entre a criação
literária e a militância política, repensar a função social da arte.s
Antonio Candido observa que, durante o Período Colonial e o Império, a socie-
11 dade que se formou no Brasil era quase totalmentede ilotrados, e que, mesmo Ao se alinharemà modernidadea partir de sua concepçãoda arte como um
entre as elites, eram muito reduzidos os grupos que tinham acesso a uma cultura campo autónomo, os modernistas brasileiros não romperam apenas com uma tra-
erudita. Nesse ambiente, o escritor não encontrava condiçõesfavoráveis para assu- dição estéticasromperamcom toda uma tradição cultural profundamenteenraizada
mir um papel social definido enquanto escritor. Da dinâmica do escritor com esse não só entre produtorese consumidoresde literatura e de arte. como em toda a
sociedade.
público resultou uma literatura feita mais para ser ouvida que lida, enfática e for-

88 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO 89
r'
A dialética da particularidade e da universalidade da criação artística é assim
Como se explica, porém, a retomada e mesmo o profundo envolvimento dos elaborada pelos modernistas no campo estrito da arte, indicando-lhes o que será
modernistas com a temática do nacionalismo, e seu engajamento na vida política
um aspecto de sua missão social: a construção de uma tradição brasileira autêntica.
e em instituições estatais? Não significaria essa atitude, após um primeiro mo-
O movimento que os escritores modernistas fizeram na direção da tradição
mento de entusiasta adesão ao futurismo, ao dadaísmo e ao surrealismo europeus
e que é analisadopor EduardoJardimde Moraes- foi feitotambémno campo
a retomada do mesmo padrão que a princípio haviam repudiado? Eduardo Jardim
da arquitetura individualmentepor Lúcio Costa, a partir de 1928, ao passar da ade-
de Moraes considera que não. que esse movimento é resultante da reflexão crítica
são ao estilo neocolonial para a arquitetura moderna
do modernismo sobre si mesmo e de sua inserção enquanto movimento artístico
O estilo neocolonial representou a primeira roação, a partir da segunda década
tanto no contextobrasileiro quanto no 'concerto das nações'. Vale a pena acom-
do século, à incorporaçãoacrítica dos estilos históricos europeus pelo ecletismo
panhar seu raciocínio.'
no Brasil. e ao desconhecimento e mesmo desvalorização da tradição construtiva
Para Eduardo Jardim de Moraes, o interesse dos modernistaspela questão
vinda da colónia. Seus seguidores procuraram produzir uma arquitetura que, inspi-
da Z)ras//idadedecorreu de uma elaboração no próprio campo da criação artística,
rada nessas raízes, terminou por se converter em uma cópia Guioefeito era evocar
que teria ocorrido por volta de 1924, e que implicou a introdução do conceito de
o passado.
tradição como elemento estruturante de uma produção artística que se queria ao
Embora tenha aderido. de volta de longo período na Europa, ao estilo neo-
mesmo tempo universal e particular - no caso, nacional. Ou seja, que se queria
colonial, Lúcio Costa procurou, porém, fazer uma análise mais profunda dos prin-
singular. artística no sentido moderno.
cípios da arquitetura colonial brasileira. Diz, a respeito, Yves Bruand:
Esse autor considera que foi no contato com as vanguardas européias que os
Desde o início suas pesquisas divergiram de seus colegas. preocupados pHncipal-
modernistasperceberam que a modernizaçãoda expressão artística, entendida
mente em copiar as formas e os motivos decorativos do passado. A preocupação com
como rompimento radical com o passado. só tinha sentido em países onde havia
as soluções funcionais e com os volumes claramente definidos, característicosde suas
uma tradição nacional internalizada. Em países de formação mais recente, como o primeiras obras, era um retomo consciente aas valores permanentes que havia descoberto
Brasil, cuja tradição ainda estava por construir. a adesão imediata ao novo desca- na arquiteturaluso-brasileirados séculos XVll e XVlll, da qual, em contrapartida,rejeitava
racterizada a produção artística no que ela teria de particular - o seu caráter na- o que era pura decoração. Suas preocupações profundas, longe de se oporem ao espírito

cional -. perdendo assim também o seu valor universal,enquanto arte. Diz Eduardo racionalista. aproximavam-no dele. O que o chocava instintivamente no movimento moder-

Jardim de Moraes: no era o seu caráter absolutista.intransigentee o aparente desprezode seus teóricos
por tudo que dizia respeito ao passado. Preocupavam-no o radicalismo desses e o poder
E Gamose o ingressona ordem mundial,portantona vida moderna,ao exigir da demolidor que confusamente neles sentia existir, a ponto de impedir seu aprofundamento
produção cultural feita no Brasil uma contribuição própria. nacional, exigisse ao mesmo no problema- problema.que, acima de tudo, parecia-lheestar muito distanciadoda
tempo que esta explicitasse na sua visão do passado relações de cumplicidade que realidadebrasileira.(1
991, p. 72)
viessem definir para a caso brasileiro uma forma específica de modernidade.' j1988.
P. 231)
Lúcio Costa fez, portanto, um movimento inverso ao dos modernistas do início
dos anos 1920. para chegar ao mesmo ponto: integrar modernidade e tradição, a
Além disso, havia um fato que caracterizavaa tradição brasileira em relação
partir de uma reflexão sobre a especificidade de seu campo profissional (no caso,
às descot)ermas
que os vanguardistaseuropeusfaziam entãodas culturaspri-
a arquitetura) e de sua relação com a realidade brasileira
mitivas e da cultura africana: se para esses artistas se tratava de realidadesdis-
Vimos, portanto, que tanto de um ponto de vista diacrónico (Antonio Cândida)
tantes no tempo e/ou no espaço, no Brasil essas manifestaçõesestavam vivas
quanto sincrõnico IEduardo Jardim do Moraes), tanto em decorrênciada relação
no presente. embora fossem negadas ou mitificadas pela cultura europeizada do-
minante. O indianismo romântico exemplifica bem essa situação. dos modernistas com uma tradição cultural a que se queriam opor, quanto de seu

91
O PÂTRIAõNIO [A PROCESSO
90
r

desejo de se integraromao "concerto das nações" civilizadas,a necessidade de nacional. Ao analisar a valorização do barroco - até então considerado um estilo
reelaborar o passado e de construir uma tradição brasileira a partir de uma postura rebuscadoe rudo - pelos modernistas, diz Mansa Veloso Motta Santos:
autónoma, crítica e liberta de uma "visão patriótico-sentimental"(Cândida, 1967, Nesse momento, no que se refere à construção da nação, o barroco é emblemático,
p. 94) se impunha como parte integrante do prometomaior do modernismo. é percebido como a primeira manifestação cultural tipicamente brasileira, possuidor,

Nesse sentido, não é difícil entender o que vários autores apontam como uma portanto, da aura da origemda cultura brasileira, ou seja, da nação. Daí o valor totêmico
que se constrói, sendo identificado. sistematicamente, como representaçãode 'autên-
peculiaridadedo modernismo brasileiro: o fato de serem os mesmos intelectuais
tico", de "estilo puro'. (1992, p. 261
que se voltaram,simultaneamente,
para a criaçãode uma nova linguagemestética-
no sentido de ruptura com o passado - e para a construção de uma tradição - no sen- E possível que a convivência com os remanescentes da arte barroca tenha
tido de buscar a continuidade. contribuídopara gerar em Minas um regionalismoque Lúcia Lippi de Oliveira ca-

A temáticado patrimóniosurge, portanto, no Brasil, assentadaem dois pressu- racterizoucomo"um regionalismo


que não se revestiude um provincianismo
es-
postos do modernismo, enquanto expressão da modernidade: o caráter ao mesmo treito ou de um localismopitoresco"(1980, p. 15). Havia entre os mineirosum sen-
tempo universal e particular das autênticas expressõesartísticas e a autonomia tido de constituírem uma elite intelectual e com a vocação do espírito público. Pre-

relativada esfera cultural em relação às outras esferas da vida social. A atuação dominavam nolos valores como o rigor, a sobriedade, a honestidade intelectual

dos modernistas no Sphan vai mostrar como eles puseram em prática, num campo e moral, e sobretudo o senso do dever. Tudo isso matizado pelo humour. em Car-

cultural e político específico, e sob um regime autoritário, esses pressupostos. los Drummond de Andrade, e pela habilidade política, em Capanema. Nesse senti-
do, Rodrigo Meio Franco de Andradetalvoz fosse o mais mineiro entre os minei-
3.2.2 0s modernistas e #linas Gerais ros, e era considerado por todos o líder natural do grupo. Em todos eles, um senti-
do de independência que se expressava em sua resistência a aderir incondicional-
Dada a importância de Minas Gerais e dos mineiros na criação do Sphan,
mente a líderes como Getúlio, ou à política partidária. Na vida pública, em várias
interessa caracterizara posição desse grupo e o papel de Minas tanto no movi-
ocasiões. deram demonstração dessa independência - como no pedido de demis-
l mento modernistaquanto na vida política brasileiranas décadasde 1920 e 1930.
são de Carlos Drummondde Andradeda chefia de gabinetede Capanema,por não
Para os modernistas Minas se constituiu. desde a segunda década do século,
desejar comparecer a uma conferência de Alceu Amoroso Lima no MES, de cujas
em pólo catalisador e irradiador de idéias. Foi numa viagem a Minas, em 1916.
idéias então discordava, ou ao não hesitar em publicar poemas de cunho socialista
que Alceu AmorosoLamae o então jovem RodrigoMeio Francode Andrade desco-
11 enquanto ocupava cargo de confiança em um governo que perseguia os "comunis-
briram o barroco e perceberam a necessidade de proteger os monumentos histó-
tas'l e nas inúmeros manifestações - inclusive pedidos de demissão nunca acei-
ricos. Foi numa viagem a Diamantina,nos anos 20, que o arquiteto Lúcio Costa,
tos - de RodrlgoM. F. de Andradeem protestocontraatitudes,mesmode presi-
então adepto do estilo neocolonial,teve despertadasua admiraçãopela arquitetura
dentes da Ropública' que, no seu entender, desautorizavamo Sphan ou seu diretor.
colonial brasiloira.Foi também em viagens a Minas, uma delas em 1924, acom-
panhandoo poeta Blaise Cendrars,que Mário de Andradeentrou em contato com Essapostura,ao que tudo indica, não era vista com reservas- e talvezaté
lf
a arte colonial brasileira e com os jovens inquietosda Rua Bahia (Carlos Drum- o fosse com admiração r pelo mineiro Gustavo Capanema. Tendo aderido à Revo-
mond de Andrade, Pedro Nava, Emíllo Moura etc.), com os quais manteve contato lução de 30 movido por interesses da política regional, Capanema,ao conhecer
pessoale correspondênciaa partir de então. O fato é que não só mineiros,como Getúlio, logo após a Revolução, se mostrou reticente quanto à figura do líder gaú-
cariocas, paulistas e outros passaram a identificar em Minas o berço de uma civili- cho e duvidoso quanto à sua capacidade de conduzir as mudanças que julgava
zação brasileira,tornando-se a proteção dos monumentoshistóricos e artísticos mi- fundamentais. Sua lealdade política a Vargas não o impediria, portanto. de ter uma
neiros - e, por conseqilência, do resto do país - parte da construção da tradição postura independentee mesmo crítica em relação a certos aspectosda ideologia

92 O PATRIAONIO [A PROCESSO 93
r
do Estado Novo, no que, como voremos adiante, não encontrou obstáculo por parte
de Getúlio. tituição do cargo de diretor da Escola Nacional de Belas Artes, publicou em O
Jorna/ o artigo intitulado"Uma escola viva de Belas Artes', em que fundamenta-
A posiçãode Capanemagarantiu ao MES uma funçãomuito além de mero ins-
va suas posiçõesfazendo uma análise inovadora da arquiteturacolonial brasileira.
trumento de consolidação do regime. Possibilitou. inclusive, a manutenção no MES
de um espaçode atuaçãopara os modernistas(comquem se identificavaem vários Os modernistas não eram. no entanto, os únicos intelectuais a se interessarem

aspectos)a salvo de pressões políticas.Sobre essa relação,dizem os autores pelo destinoe pela proteçãoda arte colonial brasileira como manifestaçãode uma
de Tempos de Capanemal autêntica tradição nacional. Já em 1914, Ricardo Severo, engenheiro português
filiado ao movimento neocolonial, proferia a conferência 'A arte tradicional no Bra-
Era sem dúvida no envolvimento dos modernistas com o folclore, as artes. e
particularmentecom a poesia e as artes plásticas, que residia o ponto de cantata entre sil'. Lideradospor Ricardo Severo, em São Paulo, e por José Mariano (filho), no
eles e o ministério. Para o ministro, importavam os valores estéticos e a proximidade Rio de Janeiro, esses intelectuais visitavam as cidades históricas e produziam
com a cultural para os intelectuais, o Ministério da Educação abria a possibilidade de documentaçãoa respeito
um espaço para o desenvolvimento de seu trabalho. a partir do qual supunham que
As primeirasrespostasdo poder público a essas demandasdo meio intelectual
poderiaser contrabandeado, por assim dizer, o conteúdo revolucionáriomais amplo que
partiram dos governos de estados com significativos acervos de monumentos
acreditavamque suas obras poderiam trazer. (Schwartzmanet al., 1984, p. 81)
históricose artísticos. Na década de 1920 foram criadas InspetoriasEstaduais de
Seu primeirogesto de clara adesão ao ideáriomodernistano MES foi em rela-
MonumentosHistóricos em Minas Gerais (1926), na Bahia (1927) e em Pernam-
ção à arquitetura, ao apoia-la e, ao mesmo tempo, utiliza-la para a criação de sím- buco (1928).
bolos de uma n(va era. Além de serem os construtoresdesses símbolos- de que
o novo prédio do MES era o melhor exemplo- foi no Sphan que os arquitetos No nívelfederal. foi no âmbito dos museus nacionaisque surgiramas primeiras
iniciativas nesse sentido. No início dos anos 20, o professor Alberto Childe. con-
modernistas atuaram enquanto integrantes da estrutura institucional montada pelo
Estado Novo, sob a direção do advogado, jornalista e contestaRodrigo Meio Fran- servador de Antiguidades Clássicas do Museu Nacional, foi encarregado pelo en
co de Andrade, de quem Capanema disse em entrevista: 'ora um dos homens mais tão presidenteda SociedadeBrasileira de Belas Artes e Diretor do Museu Nacio-
ligados a mim' (Xavier & Fisherg, 1968, p. 32). nal, professor Bruno Lobo. de elaborar um anteproleto de lei para a defesa do patri-
mónio histórico e artístico nacional. que foi considerado inviável porque atrelava
3.3 A CRIAÇÃO DO SPHAN a proteção à desapropriação.

O primeiro órgão federal de proteção ao património surgiu no Museu Histórico

3.3.1 Ás ini(ia+ivaí precursoras Nacional, por iniciativa de seu diretor, Gustavo Barroso. que. nos anos 30, parti-
cipou do movimento integralista, quando se destacou por suas posições anta-semi-
Desde a segunda década do século XX,s intelectuais que depois vieram a
se integrar ao modernismo publicavam artigos alertando para a ameaça de perda tas. Barroso era o principal concorrente na disputa com os modernistas da gestão
federal do património. Em 1934, foi criada a Inspetoria dos Monumentos Nacionais.
irreparável dos monumentos de arte colonial. Em 1916, Alceu Amoroso Lama pu-
norteada por uma perspectiva tradicionalista e patriótica. Essa instituiçãoteve atua-
blicou na Revlsla do Bus// o artigo "Pelo passado nacional', em que relata a
ção restrita. e foi desativada em 1937, em conseqüência da criação do Sphan.
profunda impressão que Ihe deixara a viagem que fizera a Minas com Rodrigo M.
F. de Andrade. Em 1920, na mesma revista, Mário de Andrade, que estivera em A primeira iniciativa do governo federal relativamente à proteção do património
Minas em 1919, publicou textos sobre o mesmo assunto. Posteríomente. ,4 Re- foi a elevação de Ouro Preto à categoria de monumento nacional, pelo decreto
vela, periódico mineiro dirigido por Cardos Drummond de Andrade e Marfins de Re22.928,de 12 de julhode 1933
Almelda, também abriu espaço para a questão. O arquiteto Lúcio Costa, ao res- Também no Congresso Nacional, desde o início dos anos 20 vinham sendo
ponder aos ataques que José Marçano(filho) Ihe dirigiu para justificar sua des-
apresentados projetos com o objetivo de criar mecanismos para a proteção legal

94 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
b.\bS\ HERÓICA
95
do património.Em 1923, o deputado pernambucanoLuís Cedro,em 1924, o poeta território nacional, o ministro resolveu recorrer a Mário de Andrade, para que o
mineiro Augusto de Lama,e, em 1930, o deputado baiano José Vanderlei de Araújo intelectual de frezenfas facetas, apoiado em sua experiência no Departamento de

Pinho apresentaramao Congresso propostas nesse sentido, mas nenhuma foi apro- Cultura da Prefeiturade São Paulo, elaborasse um anteprojetosobre o assunto.

vada. Esses projetos.assim como o anteprojetodo jurista mineiro Jair Lins, elabo- O prometode criação de um órgão especificamente voltado para a preservação
radoem 1925,e em que RodrigoM. F. de Andradese baseoupara elaboraro do patrimóniohistórico e artístico nacional, apresentadoem uma primeira versão
decreto-lei Ra25, de 30.11.1937, esbarravam nas prerrogativas do direito de pro- no anteprojetode Máriode Andrade" e formuladode forma definitivano decreto-
lei Re25, de autoria basicamente de Rodrigo M. F. de Andrade, apresentava algu-
t. priedade, asseguradas pela Constituição e pela legislação em vigor.
mas peculiaridadesem relação às experiências européias já em curso. Em pri-
Em 1934, quando Gustavo Capanema substituiu Francisco Campos no MES,
meiro lugar, à diferença de outros países, onde as iniciativas voltadas para a pre-
já havia, por parte de setores da elite intelectual e política, não só interesse pela
servação de bens culturais contemplavam apenas tipos de bens isoladamente(mo-
temática da tradição e da proteção de monumentos históricos e artísticos, como
numentos, museus, arte popular etc.), no Brasil os dois textos citados se caracteri-
uma demanda pela participação do Estado na questão. A partir do Estado Novo.
zavam por tratarem o tema de forma abrangente e articulada e por proporem uma
com a instalação, mais que de um novo governo. de uma nova ordem política, eco-
única instituição para proteger todo o universo dos bens culturais. Em segundo
nómica e social, o ideário do património passou a ser integrado ao prometode
lugar, se em outros países os agentes da preservação costumavam ser recrutados
construção da nação pelo Estado.
entre intelectuais identificados com uma concepção passadista e consewadora de
Várias foram as circunstâncias. portanto. que levaram à escolha dos modernis-
cultura,no Brasilos intelectuais
que se enganaram
no prometo
do património
eram
tas para assumirem esse projeto no governo de Vargas. Decisiva, como já men- exatamenteaqueles que. como Mário de Andrade e Lúcio Costa. assumiam em
cionei. foi a ascensão ao MES de Gustavo Capanema, personagem politicamente suas respectivas áreas profissionais posturas claramente inovadoras.''
forte no governo getulista e identificado intelectual e afetivamente com vários es-
O Sphan começou a funcionar experimentalmente em 1936. já sob a direção
critores e artistas modernistas.
de RodrigoM. F. de Andrade.Coma lei Ra378,de 13 dejaneirode 1937,o Sphan
Em segundo lugar, conforme observa Lauro Cavalcanti(1993, p. 18), teria con- passou a integrar oficialmente a estrutura do MES e foi criado o conselho con-
tribuído para legitimar essa escolha, em detrimento de outras correntes mais sultivo.
obviamente identificadas com a defesa da tradição (o neocolonial), ou de uma
O Sphan se estruturou em duas divisões técnicas: a Divisão de Estudos e
instituição já em funcionamento no Museu Histórico Nacional, a nítida superio-
Tombamento (DET), a que estavam vinculadas a Seção de Arte. a Seção de His-
ridade qualitativa, em termos de produção intelectual e de prestígio, dos moder-
tória e também o Arquivo Central e a Divisão de Conservação e Restauração
nistas. Essa escolha já fora definida no episódio da construção do novo prédio
do MES, em 1936. IDCR). A instituição era representada regionalmente em distritos e tinha sob sua
responsabilidadeos museus regionais, que foram sendo criados a partir de 1938.

3.3.2 A insti+ucianalizaçõo da pro+eção do património Além dos formuladores Mário de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade (o se-
gundo. também, dirigente do órgão de 1936 a 1967), participaram do Sphan nesse
A entrada do Estado na questão se efetivou em 1936, quando o ministro Capa-
período, entre outros: Lúcio Costa, a principal autoridade técnica. chefe da Divisão
nema se mobilizou para as iniciativas, já em curso desde os anos 20. visando
de Estudos e Tombamentos IDET) entre 1937 e 1972, e membro do Conselho
à proteçãodos monumentose obras de arte nacionais.Sua idéia inicial era fazer
Consultivo por um curto períodos Carlos Drummond de Andrade, organizador do
"o levantamentodas obras de pintura. antigas e modernas.de valor excepcional,
arquivo e chefe da Seção de Histórias Afonso Arinos de Meio Franco e Prudente
existentesem poder de particulares,na cidade do Rio de Janeiro" (Dphan, 1969,
de Morais Neto. consultores jurídicost e Manuel Bandeira, colaborador em várias
p. 41). Percebendoque o assunto requeria uma atuação abrangente.que com-
preendesse também as edificações e outras obras de arte, e alcançasse todo o publicações. os três membros do Conselho Consultivosos arquitetos Paulo Tedim

96 O PATRIAõNIO [A PROCESSO b \hS\ HERÓICA 97


Barreto. José de Sousa Reis, Alcides da Rocha Miranda, Edgard Jacinto, Renato afastamento do governo getulista, mas também como distância dos interesses da
Soeirol o artista plástico Luís Jardim. Nos distritos regionais,Aírton Carvalho (l: sociedade, sobretudo das classes populares. Nas análises da política do Sphan
DR - N/NE), Godofredo Filho (2' DR - Bahia e Sergipe), Sílvio de Vasconcelos feitas a partir dos anos 70, tornou-se mesmo lugar comum': atribuir-seo que se
(3a DR - Minas), LuasSaia (4a DR - Sul), que sucedeua Mário de Andrade nessa passou a considerar o caráter elitista do trabalho desenvolvido pela instituição ao
função. Os restauradores eram Édson Mota. João José Rescala e Jair Afonso fato (pelo menosem parte) de o anteprojetode Mário de Andradeter sido preterido
Ináciol e a autoridade em arte sacra, dom Clemente da Salva Negra. Foi colabo- em favor do decreto-leiRe25, de 30.11.37, mais restritivo na concepçãode patri-
radora. desde os primeiros momentos,dona Judith Mastins,também pesquisadora mónio, mais adequado, porém, às circunstâncias do momento. Embora considere
e chefe do arquivo, após a aposentadoria de Carlos Drummond de Andrade. Inte- que o modo como essa discussão tem sido conduzida remete antes a um ponto
lectuais do Rio de Janeiro, como Alceu Amoroso Lamae Afonso Arinos de Meio de vista contemporâneosobre política cultural do que aos reais conflitos da década
Franco, e de outros estados, como Gilberto Freire. Sérgio Buarque de Holanda, Joa- de 1930, ela Interessa aqui. na medida em que ajuda a explicitar concepções dis-
quim Cardoso, Artur César Ferreira Reis e Augusto Meyer, mesmo sem serem tintas quanto aos objetivos de uma atuação voltada para o património cultural na-
funcionários regulares da repartição, mantinham cantatas com Rodrigo M. F. de quele período e a posição dos diferentes atores envolvidos. Considero que, efetiva-
Andrade e participavamde algum modo das atividadedo Sphan. Nos estudos e mente. as diferenças entre os dois textos indicam interpretações diversas - mas que
pesquisas, o Sphan contava com a colaboração de especialistas estrangeiros, os fatos demonstram como não conflitantes naquele momento - do que esses ati-
como Germain Bazin, Hannah Levy e Robert Smith. e divulgava em suas publi- res consideravamas necessidades de uma política da preservação. E, nesse sen-
cações trabalhos de autores nacionais e estrangeiros, muitos feitos sob encomen- tido, a atitude de Mário de Andrade no episódio indica que ele mesmo reconhecia

da para atenderàs necessidadesdo serviço.Raramentemencionada,mas igual- o acertopolítico,naquelemomento,do apoio ao prometo


em andamento
no Con-
mente fundamental,foi a colaboração de agentes locais, mobilizados nas várias gresso Nacional - ainda que pudesse não corresponder plenamente ao seu ideal
regiões do Brasil, para auxiliar nos trabalhos de levantamentoe identificaçãode de serviço de património.
bens e documentos.Formados pelos funcionáriosdo Sphan e pela prática do tra- Sem dúvida, no seu anteprojeto Mário de Andrade j1981, p. 39-54) desen-
balho, muitos desses agentes vieram a tornar-se mestresem obras. restaurações, volveu uma concepção de património extremamente avançada para seu tempo,
documentaçãoetc. que em alguns pontos antecipa, inclusive, os preceitos da Carta de Veneza. de
A atividade desenvolvida por esse grupo de intelectuaisno Sphan gozou de 1964. Ao reunir num mesmo conceito - arte - manifestações eruditas e populares.
surpreendenteautonomia dentro do MES. Desde o início, a área do património Mário de Andrade afirma o caráter ao mesmo tempo particular/nacionale universal
ficou à margemdo propósito de exortaçãocívica que caracterizavaa atuação do da arte autêntica, ou seja, a que merece proteção.
ministériona área educacional.A cultura produzida pelo Sphan sequer era articu- E a noção de arte. portanto, o conceito unificador da idéia de património no
lada com os conteúdosdos projetos educacionaisou com os instrumentosde per- anteprojeto do "património artístico nacional" (PAN). Ao apresentar, com detalhes
suasão ideológicado Estado Novosesses conteúdoseram mais compatíveiscom e exemplos,o que entende por arte em geral e nas oito categoriasque discrimina,
a vertente ufanista do modernismo.Durante o Estado Novo, o Sphan funcionou Mário de Andrade se detém no aspecto conceitual da questão do património e dos
efetivamentecomo um espaço privilegiado,dentro do Estado, para a concretização valores que Ihe são atribuídos.
de um prometomodernista. A definição de arte no anteprojeto ("arte é uma palavra geral, que neste seu
sentido geral significa a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciên-
3.3.3 0 an+epraUe+o
de bário de Andradee Q decreto-leirt 25 cia, das coisas e dos fatos') se aproxima da concepção antropológica de cultura.':

A autonomia de que gozava o Sphan dentro do MES e do governo. e que. E uma análise do texto do anteprojetoem seu conjunto deixa claro que a ênfase
durante muito tempo. foi considerada sinal do poder de seu diretor e do respeito na noção de arte não significa uma posição esteticista. A preocupação em expli-
que inspirava, a partir da década de 1970 passou a ser interpretada não só coma citar o que entende por cada uma das oito categorias de arte (arte arqueológica;

98 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO b. \bS\ HeRófC,â 99


arte ameríndia; arte popular; arte histórica; arte erudita nacional; arte erudita es- dos ciclos econômicos do Brasil, portanto com base em uma visão histórica. Cons-
trangeira; artes aplicadas nacionais; artes aplicadas estrangeiras), e como elas tituiriam um contraponto aos museus históricos tradicionais, na medida em que
se agrupariam nos quatro Livros do Tombo e nos museus correspondentes, indica fugiriam a apresentação celebrativa de grandes vultos e feitos, e seus temas se-
riam: "café, algodão, açúcar, laranja, extração do ouro, do ferro, da carnaúba, da
em Mário uma visão abrangente e avançada para sua época em relação as noções
borracha, o boi e suas indústrias, a lã, o avião, a locomotiva, a imprensa e t ~ . ~
de arte e de história vigentes, inclusive nos serviços de proteção já existentes
(ibid.). Esse projeto foi, em parte, realizado pelo Sphan através da criação dos
na Europa.
museus regionais, ainda em sua primeira década de funcionamento, a partir de
Ao falar especificamente de "arte histórica", Mário de Andrade não se distancia uma proposta de Lúcio Costa visando a preservar os bens móveis colhidos na
da noção de história predominante no início do século, a história factual, centrada região das Missões.14
nos eventos políticos referentes aos grupos que detinham o poder. Interessa pre-
Mais avançada para a época era, no entanto, a concepção de Mário sobre os
servar como obras de arte histórica aquelas que, independentemente de seu valor
museus municipais. Se os museus nacionais deveriam ser organizados a partir de
artístico, constituem documentos para a história política ("criadas para um deter-
ordenamentos disciplinares, como apoio e ilustração dos Livros do Tombo, Mário
minado fim que se tornou histórico"; "se passaram nelas fatos significativos da
preconizava e incentivava a criação de museus locais, em nível municipal, com ba-
nossa histórian; 'kiveram nelas figuras ilustres da nacionalidaden [.. I "que devem
se em critérios distintos. Enquanto os museus nacionais e os das grandes cidades
ser conservadas tais como estão ou recompostas na sua imagem 'histórica'").
tenderiam a especialização, os museus municipais seriam ecléticos, seus acervos
Também se enquadram nessa categoria obras relevantes para a história da arte
heterogêneos, e os critérios de seleção das peças ditados pelo valor que apresen-
("exemplares típicos das diversas escolas e estilos arquitetônicos que se refle-
tam para a comunidade local, que participaria ativamente da coleta de bens. O
tiram no Brasil") e documentos nacionais ou estrangeiros referentes ao Brasil. O
referente seria a identidade local tal como os habitantes a concebem. Como ob-
recuo cronológico mínimo para que obras de arte pudessem ser incluídas no patri-
serva Mário Chagas, "a narrativa museológica, nesse caso, deveria surgir do diá-
mônio seria de até a data de 1900, ou de cinqüenta anos para trás. Se é possível,
portanto, perceber no anteprojeto um propósito explícito de reelaborar a noção de logo com a população interessada na constituição do museun (1991, p. 109).
arte, o mesmo, aparentemente, não ocorre em relação a de história. Entretanto, Essas observações vêm confirmar o fato já bastante comentado de que a preo-
ao mencionar o caso de objetos que aliam a seu valor histórico um real valor artís- cupação em valorizar o popular é, sem dúvida, um traço marcante na obra de Mário,
tico, Mário considera que o valor histórico deverá prevalecer, e que o objeto "será tanto cultural quanto institucional. Ou seja, o popular enquanto objeto e o povo en-
tombado pelo valor históricon (1981, p. 96). quanto alvo. No texto do anteprojeto nota-se, inclusive, um cuidado em não privi-
Em várias ocasiões, porém, Mário de Andrade demonstra acreditar que, como legiar, do ponto de vista da atribuição de valor, as formas de expressão cultas. Em
dizia Riegl, é pelo valor histórico dos bens, por seu valor enquanto testemunho princípio, todas as obras de arte, tanto as eruditas, das Belas-Artes, quanto as popu-
da existência dos antepassados, que se atrairão as massas para os monumentos - lares, arqueológicas, ameríndias e aplicadas, poderiam ser inscritas nos Livros do
dimensão que teria que ser levada em conta nas atividades de divulgação cultural. Tombo. No entanto, se as obras de arte eruditas são referidas a partir dos instru-
Essa posição fica clara quando se analisa a concepção de Mário de Andrade so- mentos que as consagram como de "mérito nacional" (prêmios em concursos, men-
bre os museus, por ele definidos como agências educativas. Mário Chagas, que ção em livros de história da arte, inclusão em acervo museológico, avaliação pelo
estudou a óptica museológica de Mário de Andrade, observa que, para Mário, os Conselho Consultivo do Span), as obras de arte arqueológica, ameríndia e popular
museus deveriam "beneficiar o estético, mas sobretudo o históricow(1991, p. 111). são fartamente exemplificadas no texto - provavelmente porque não ocorreria, na
E, entre os quatro museus nacionais preconizados por Mário, correspondentes ao época, considerá-las com a mesma naturalidade como bens patrimoniais. Nesse
quatro Livros do Tombo, o destaque, no anteprojeto, é dado aos modernos museus caso, são disciplinas como a arqueologia e a etnografia que vão legitimar sua inclu-
técnicos, na época ainda pouco conhecidos no Brasil. Seriam museus eminen- são nos Livros do Tombo.
temente pedagógicos, em que a técnica é apresentada a serviço do conhecimento
São, portanto, os Instrumentosdisciplinares,ao lado de outras instâncias re- património. Mas, já em carta a Rodrigo Meio Franco de Andrade, datada de
conhecidas de atribuição de valor (concursos, publicações, avaliação por especia- 29.7.36, em resposta às objeções da professora Heloísa Alberto Torres, então
listas etc.), todas restritas aos círculos intelectuais,que constituem os canais re- diretora do Museu Nacional. que discordava da configuraçãoque Mário dera aos
feridos por Mário para a constituição do património.A participação popular seria museus nacionais no anteprojeto, ele reconhecia os limites de sua proposta: "0
limitadaà organizaçãodos museus municipais,cuja leitura só faria pleno sentido que fiz foi teoria e acho bom como teoria; sustentarei minha tese a qualquer
para os habitanteslocais. Deste modo, o anteprojetode Mário define com clareza tempo.' E diz sobre o anteprojeto:
jembora essa não fosse uma questão relevantena época) o alcance e os limites Dado o anteprojeto ao Capanema, eu bem sabia que tudo não passava de ante-
da participação social na construção dos patrimónios históricos e artísticos. apon- projeto. Vocês ajudemcom todas as luzes possíveisa organizaçãodefinitüa, façam e
tando as diferenças e as peculiaridadesdos níveis nacional e local e caracteri- desfaçam à vontade, modifiquem e principalmente acomodem às circunstâncias o que fiz

zando a função social do intelectual como mediadorentre os interessespopulares e não tomou em conta muitascircunstânciasporque não as conhecia.Não sou turrão
e o Estado. Chama a atenção, mesmo atualmente, sua sensibilidade para a função nem vaidosode me ver criadorde coisas perfeitas.Assimnão temajamais me magoar
por mudanças ou acomodações feitas no meu anteprojeto. IAndrade, 1981. p. 60l
e a importânciados museus municipais,que são até hoje, com frequência,objeto
de crítica por não se adequaremaos padrões rigorosose modernosde uma "ciên- Na verdade, ao atender à solicitação de Capanema, Mário passara a servir a
cia" museológica.'s dois senhores. De um lado, se envolvera, com Rodrigo M. F. de Andrade, na cria-

A preocupaçãomaior de Mário de Andrade não se restringia à conceituação ção de um serviço federal de património para o governo getulistal de outro, com
Paulo Duarte, estava também comprometido com o prometodo Departamento do
de património, mas também dizia respeito à caracterizaçãoda função social do
Património Histórico e Artístico de São Paulo, que, com o Departamento de Cul-
órgão, o que implicava detalhar atividades que facilitassem a comunicaçãocom
tura, seria o início do Instituto de Cultura de São Paulo. O instituto,se eleito Ar-
o público. Na verdade, para Mário, a atuação do Estado na área da cultura devia
ter como finalidade principal a coletivização do saber, daí sua preocupação e mes- mando Sales de Oliveira presidente. se estenderia a todo o Brasil.
11 Por esse motivo, em setembro de 1937, Mário de Andrade solicitou a Paulo
mo seu envolvimentona questão educacional.Em carta a Paulo Duarte (1977, p.
151), Mário disse certa vez que defender o nosso patrimóniohistórico e artístico Duarte que demorasse "um pouco a coisa'. porque, dizia ele. "de forma nenhuma
'é alfabetização.' Essa era a concepção que norteava a atuação do Departamento eu desejo sequer íro/sser o Capanema, que admiro no seu esforço e cuja luta feroz
de Cultura, iniciativa considerada então pioneira na área cultural. Mário acreditava conheço bem' (Duarte. 1977, p. 1541. E agora Paulo Duarte que esclarece a se-

que, divulgando as produções artísticas, tanto as eruditas como as populares. quência dos acontecimentos:
criando condições de acesso a essas produções, se estaria contribuindo para De fato, espereiaté outubro para lançaro meu com um discursona Assembléia
despertara populaçãopara o que costumavaficar reservadopara o gozo das eli- Legislativa. Quando se deu o golpe de Estado, o meu achava-se já em terceira dis-
cussão e o da Câmara permaneciamais ou menos congelado. Tanto que, impossibilitado
tes - a fruição estética. Desse modo. se estaria. ao mesmo tempo, democratizando
de dar andamento no meu pela dissolução da Assembléia Legislativa, e pelo receio do
a cultura e despertandona população o sentimentode apego às coisas nossas.
govemador interno Cardoso de Meio Neto em baixar decreto fazendo lei um prometomeu,
Em suma, o texto do anteprojetoé amplo e aborda com detalhes a questão quandojá execradoda ditadura,achamos Mário e eu que era preciso tudo fazer para que
11 conceitual- que obras, e a partir de que critérios,poderiamser consideradaspa- Getúlio. já ditador, assinasse o decreto-lei correspondente ao prometoparado na Câmara.
trimónio - detendo-setambém na estrutura e no funcionamentodo órgão, tendo O Rodrigo Meio Franco estava desesperado no Rio, pois Capanema. apesar de ministro,

sempre em mente os meios de divulgar e coletivizaro património.Tem-se a im- não se achava em condições de exigir isso do novo regime pois, ao que parece, a sua
posição peHclitava. Lembrei-me então do Alcântara Machado que conservava a sua
pressãode que. com base em sua experiênciano Departamentode Cultura, Mário
amizade com Getúlio e a quem eu dava a minha colaboraçãono prometodo novo Código
de Andrade procurou imaginar o que considerava, em 1936, (portanto, quando ain-
Penal do Brasll. Solicitei-lhe então obtivesse a assinatura daquele referido Decreto-lei. Pou-
da estava entusiasmadocom seu trabalho no DC) o serviço Ideal de proteção do
cos dias depois, me escrevia Alcântara Machado comunicando que a "nossa lei" saída

102 O PÁTRIAõNIO [A PROCESSO ]03


sem falta, em princípio de dezembro de 1937, o que realmente aconteceu, não no princípio.
para viabilizar a proteção legal era necessário referir-se a coisas ("bens móveis
mas mais para o fim daquele mês. (Duarte, 1977, p. 154-1551
e imóveis'),
o quemarcava
a inadequação
do instrumento
proposto
- o tombamento
-
Esse longo depoimento evidencia a fragilidade, naquele momento de mudança, para proteger manifestaçõesfolclóricas, como lendas, superstições, danças dramá-
do prometo
de políticaculturalmodernistaem face da Instabilidade
do quadro polí- ticas etc.
tico. A posição de Capanema dependia de acertos políticos. Mas o fato é que as O tombamento surgia, assim. como uma fórmula realista de compromisso entre
idéias Inspiradaspelo Modernismosobre patrimónioe atuaçãodo Estado em rela-
o direito individual à propriedade e a defesa do interesse público pela preservação
ção à proteçãoeram amplas (e/ou ideologicamenteambíguas)o bastante para ins- de valores culturais. Essa solução se tornou possível na medida em que a Cons-
pirar dois projetosvoltados para objetivos políticosdistintos e, naquele momento,
tituição de 1934 estabeleceu limites ao direito de propriedade, definindo-lhe o con-
até mesmo concorrentes. Esclarecedora nesse sentido foi a posição de Mário de
ceito de função social. Por outro lado, em tormos económicos, ao garantir ao pro-
Andrade e de Paulo Duarte, comprometidos com ambos os projetos. Pode-se
prietário não só o uso como a posse do bem material, o instituto do tombamento
supor que o que lhes interessavaera, acima de qualquer interesse político ime- dispensava, para a finalidade de preservação, a onerosa e praticamente inviável
diato, assegurar a criação de instituições culturais, objetivo que a queda de Ar-
figura da desapropriação(cf. Castra, 1991, p. 581 Andrade, 1987, p. 51).
mando fales de Oliveira, após a instauração do Estado Novo. inviabilizou em
Não resta dúvida, porém, de que, apesar de solução considerada bem sucedida
nível estadual.A decisão, tanto de Mário de Andradequanto de Paulo Duarte na-
do ponto de vista legal, sua legitimação social era uma conquista a ser feita. Essa
quele momento, foi eminentemente pragmática, apesar da situação de Paulo
legitimação foi alcançada, sobretudo, através da fixação de um padrão ético de
Duarte junto ao governo getullsta."
trabalho o, para isso, Rodrigo M. F. de Andrado lançou mão de vários recursos:
Destituídodo Departamentode Cultura, Mário de Andrade passou a participar o desenvolvimentode um trabalho dentro dos mais rigorosos e modernos critérios
ativamente da implantação do Sphan, conforme se pode constatar na correspon-
científicosl o cuidado na escolha de seus colaboradoresl a Imagem de uma insti-
dência trocada com Rodrigo M. F. de Andrade, tornando-seo assistente técnico
tuição coesa. desvinculada de interesses político-partidários e totalmente voltada
da instituiçãoem São Paulo. A aceitaçãodo posto, o entusiasmocom que sempre
para o "interesse público'l e. sobretudo, a defesa encarniçadado decreto-lei ne
colaborou com Rodrigo, sem nenhum atrito (o que não ocorreu na sua relação com
25, de 30.11.37, em batalhas judiciais memoráveis, sendo um marco, nesse sen-
Capanema),
são indicadoresde que não via contradiçãomaior entreseu ante- tido, o parecer do Supremo Tribunal Federal, em sessão de 17.6.42, ratificando
projeto e o trabalho desenvolvido pelo Sphan.
o referidodecretoe a autoridade
do Sphan,no julgamentoda impugnação
ao tom-
Já o decreto-lei Re25, de 30 de novembro de 1937, elaborado por alguém com bamento do Arco do Teles, no Rio de Janeiro. Esse era, sem dúvida, um jogo que
larga experiência jurídica, como Rodrigo M. F. de Andrade, estava voltado, basica- exigia habilidade política num sentido amplo. e que se pode dizer que foi bem su-
mente, para garantir ao órgão que surgia os meios legais para sua atuação num cedido se considerarmosa aura do Sphan e de seu diretor no final dos anos 60.
campo extremamentecomplexo: a questão da propriedade. Era esse. então, o prin- jcf. Dphan, 1969) e a continuidadedesse prometo
durantemais de trinta anos.
cipal entrave à institucionalização da proteção do património histórico e artístico
Na realidade,a análise do trabalho desenvolvidopelo órgão desde sua criação
nacional.Pois. como observa Joaquim Falcão, "antes de 37 os diversos proletos
Indica que a oposição entre o anteprojeto de Mário de Andrade e o decreto-lei RP
de proteção ao património artístico são recusados no Congresso Nacional em no-
25, de 30.11.37,é, na verdade,um falso problema,se considerado
do pontode
me do direito de propriedade" (1982a, p. 25). A preocupação, nesse caso. não era vista dos objetlvos mais imediatos do Sphan, quando de sua criação, e do quadro
com o aspecto conceitual ou com o organizacional,que já teriam sido equacio-
político e ideológico naquele momento. Não interessa aqui, inclusive, entrar na
nados no anteprojeto, mas com recursos operacionais que fossem não só legais discussão quanto à marca classisfa do órgão (cf. Miceli. 1987), até porque, como
como também reconhecidos como legítimos. A conceituação de património, propo-
já ficou evidente, a orientaçãodo Sphan no processo do atribuiçãode valores se
sitalmentedeixada em aberto, tinha. porém, um limite em relação ao anteprojeto:
inseria!na tradição européia de constituição dos patrimónios nacionais a partir das

104 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO


105
sinais de restrição das atividades de pesquisa e de divulgação, que, sob a ale-
r 4.3 AS ALTERNAnVASDO ([ AO) IPHAN

gação de falta de recursos. foram praticamenteabandonadas(ver Anexo 111).


Por
outro lado, os adversário do Sphan não eram mais apenas vigários obtusos ou 4.3.10s caminhosda descentralização

prefeitos modernosos,mas. principalmente,a poderosa especulação imobiliária. busca de novos sentidos-para a preservação

Esses fatos, agravados pela crónica falta de recursos financeiros e humanos,s le-
Coma aposentadoria,
em 1967,de RodrigoM. F. de Andrade,assumiua
varam o órgão a se concentrarna questão mais premente- porém parcial em ter-
direção do órgão, por indicação do próprio Rodrigo, o arquiteto Renato Soeiro. que.
mos de preservação- dos tombamentose das obras.
embora fosse considerado o legítimo sucessor do fundador do Sphan, não gozou,
€ Profundamente vinculado, quando de sua criação, ao movimento cultural mais como ele, do mesmo prestígio, não teve o mesmo trânsito junto a autoridades e
l
importanteno Brasil na primeira metade do século XX, o Sphan dos anos 60 era personalidades nem foi ungido com a mesma aura. Quando o Sphan ficou privado
l uma ilha à parte das grandes questões culturais e políticas. Pode-se dizer que da figura carismática de Rodrigo M. F. de Andrade, evidenciou-se o caráter fraco
a maior força da instituiçãonos anos 60 residia no caráter mítico do trabalho que da autonomia do órgão, na medida em que dependia de líderes para conduzi-lo
realizarae na figura de seu diretor.
e torna-lo visível. tanto no interior da burocracia quanto junto à sociedade. Não
Esse desgaste ficou evidente na contundente campanha movida pelo jorna- foi por acaso. aliás. que o ressurgimento da questão do património como tema de
lista Franklinde Oliveira. de novembrode 1966 ao final de 1967, no jornal O interesse político nos anos 70 esteve associado a outra figura carismática: Aloísio
G/obo. denunciando a degradação do património, com o título de "Morte da me- Magalhães.
mória nacional' (Oliveira. 1991). Seus artigos receberamo apoio de parlamen-
Nas décadasde 1950 e 1960 Ocorreramgrandes mudançasno modelode
tares, governadores, prefeitos, intelectuais, e de inúmeras instituições da socie-
desenvolvimentobrasileiro, responsáveis pelos impasses com que a política de
dade civil. O jornalista apontava como responsáveispelo abandono de mo-
11 presewaçãodo Sphan foi confrontada, levando a instituição, e outros setores da
numentos,peças e documentos,já sujeitos ao inevitável desgaste do tempo, a
administração pública que passaram a se interessar pela questão. a recorrer a
especulaçãoimobiliária. a ganância dos antiquários. a indiferença e a ignorân-
novas alternativas de atuação. Nesse período, a ideologia do desenvolvimentisrtk)
cia generalizadas. tudo isso agravado pela carência de recursos financeiros nas
atrelou o nacionalismo aos valores da modernização. Foi a época áurea da indus-
instituições culturais encarregadas de preservar o património histórico e artís-
trialização, da urbanizaçãoe da interiorização, estimuladas pela construção de
tico nacional. Poupava, no entanto. o Sphan e a figura de Rodrigo M. F. de
Brasília. As conseqüências para a preservação desse modelo de desenvolvi-
Andrade.
mento repercutiramnão apenas no nível simbólico - na medida em que essa
O que estava implícito nessa e em outras manifestaçõesde crítica e de
ideologia se contrapunha à continuidade e à tradição - como nos níveis económico
denúncia era que, se os trinta anos de atuação do Sphan, além do fato concreto
e social - devido ao intenso processo de migração para as capitais e a valorização
de preservar e restaurar um número respeitável de bens de valor histórico e
do solo urbano, desarticulando processos espontâneos de preservação do patri-
artístico. haviam logrado fixar um rigor ético no trato do bem cultural. a insti-
mónio, tanto o edificado como o paisagístico. Na prática do Sphan. surgiram ten-
tuição estaria falhando no objetivo mais amplo de mobilizar governo e sociedade
sões agudas, especialmentena preservaçãodas cidades históricase dos centros
para a causa da presewação. mobilização essa considerada, no final dos anos
históricos das grandes cidades. A proteção dos conjuntos e do entorno dos monu-
60, indispensável inclusive para o sucesso na conservação material dos monu-
mentos tombados passou a exigir um novo dimensionamento. Como observa Verá
mentos. Pois. como já fol observado. a partir dos anos 70, a relação entre cul-
Milet (19881,o caráter marcadamente cultural da atuação do Sphan nas suas três
tura e política passou a ser equacionadade forma diferente da que fora for-
primeiras décadas revelava-se inadequado ao novo modelo de desenvolvimento.
mulada desde os anos 20 e 30.

140 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO b \&S\ AODeRNÀ 141


Y'
Foi à Unescoque o Sphan recorreu,a partir de 1965, para reformulare refor-
dos bens culturais de valor nacional, e assumissem.sob a orientaçãotécnica do
çar sua atuação, visando a compatibilizar os interesses da preservação ao modelo então Dphan,a proteçãodos bens de valor regional. Para atender a esse obje-
de desenvolvimentoentão vigente no Brasil. Nesse sentido. a imagem do Sphan tivo, estados e municípios deveriam criar, quando fosse o caso, instituições e
como protagonistade batalhas memoráveisem defesa do interesse público rela- legislaçãopróprias.
+
tivamente ao património, contra proprietários e setores insensíveis da Igreja e do A participaçãode outros setores do governo federal e estadual na política de
poder público, foi substituída, em consonância com as diretrizes da Unesco, pela preservação foi concretizada com a criação, em 1973, por solicitação do ministro
figura do negociador, que procura sensibilizar e persuadir os interlocutores, e con- da Educação e Cultura, e com a participação dos Ministérios do Planejamento.
E ciliar interessesl ou melhor, que procura demonstrar que os interesses da preser- do Interior (através da Sudene), e da Indústria e Comércio jatravés da Embratur).
vação e os do desenvolvimento não são conflitantes mas, pelo contrário, são com- do Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas, que passou a
patíveis. funcionar com recursos da Seplan. Voltado inicialmente para o atendimento de
l O objetivo era demonstrar a relação entre valor cultural e valor económico. nove estadosdo Norte e Nordeste,em 1977 o programafoi estondidoao Sudeste.
O PCH, como ficou conhecido, tinha como objetivo criar infra-estruturaadequada
}1

e não apenas procurar convencer autoridadese sociedadedo interesse público


de preservar valores culturais, como ocorrera nas décadas anteriores. Essa arti- ao desenvolvimentoe suporte de atividades turísticas e ao uso de bens culturais
pll

culaçãofoi feita em duas direções: seja considerandoos bens culturais enquanto como fonte de renda para regiões carentes do Nordeste, revitalizando monumentos
l H:i[ mercadorias de potencial turístico, seja buscando nesses bens os indicadores em degradação.A criação do PCH veio suprir basicamente a falta de recursos
l li t'
culturais para um desenvolvimento apropriado. financeiros e administrativosdo lphan. continuando a cargo dessa instituição a
A primeira alternativa. explicitada nas Normas de Quite (1967) e, no Brasil. reforência conceitual e técnica. Propiciou, por outro lado, a criação, durante as
nas reuniões de governadores que produziram o Compromisso de Brasi7fa(1970) décadasde 1970 e 1980,de órgãoslocais de patrimónioe elaboraçãode legisla-
e o Comprou/sso de Sa/fiador (1971), levou à criação, junto à Seplan, do Pro- ções estaduais de proteção, abrindo os caminhos efetivos para a descentralização.

grama Integrado de Reconstruçãodas Cidades Históricas.em 1973. A segunda No entanto, as críticas dirigidas ao lphan não se limitavama suas carências
+

alternativa foi explorada pelo Centro Nacional de Referência Cultural, criado em operacionais. Também em termos conceituais, a ênfase dada aos monumentos da
1975. Essas iniciativaspartiam do pressupostode que a estrutura e a experiência cultura do colonizadortornava problemática,nos anos 70, uma identificaçãosocial
de trabalho do lphan. mesmo com a colaboração da Unesco, era insuficiente para mais abrangente com o património. Para setores modernos e nacionalistas do gover-
atender às novas necessidades da preservação. no, era necessário não só modernizar a administração dos bens tombados, como

Os encontros de governadores realizados em 1970 e 1971 foram sugestão do também atualizar a própria composição do património, considerada limitada a uma

ministro da Educaçãoe Cultura, Jarbas Passarinho,a quem Renato Soeiro, que vertente formadora da nacionalidade, a luso-brasileira, a determinados períodos
com ele tinha relações pessoais (ambos eram paraensesl, fora solicitar apoio às históricos,e elitista na seleçãoe no trato dos bens culturais,praticamenteexcluindo
atividades do Sphan. O ministro considerava que a responsabilidade pela preser- as manifestaçõesculturais mais recentes, a partir da segunda metade do século
11 vação do património nacional devia ser partilhada com os governos estaduais, que XIX, e também a cultura popular. Essa atualização era a proposta do CNRC.

poderiam, inclusive, se beneficiar dessa atividade.


4.4 0 CENTRO NACIONAL Ot REFERÊNCIA CULTURAL
Um dos princípiosdessa nova orientaçãoda política de preservaçãoera a
descentralização. Já no artigo 23 do decreto-lei Re 25. de 30.11.37, havia menção A diferença do PCH, a idéia da criação do CNRC não surgiu no interior da
à colaboração dos estados na proteção do património neles localizados. Nos do- burocracia estatal, nem se propôs, no primeiro momento, como alternativa crítica
cumentos Compromisso de Brasília e Compromisso de Salvador se ncomendaua ao lphan. Segundo depoimento de Aloísio Magalhães, foi fruto das conversas de
que estados e municípios exercessem uma atuação supletiva à federal na proteção um pequeno grupo que se reunia em Brasília, de que participavam o empresário

]42 O PATRIAÕNIOEA PROCESSO 143


e então ministro da Indústria e Comércio Severo Gomes, o embaixador Vladlmir Ministério das Relações Exteriores, a Caixa Económica Federal e a Fundação
Murtinho, ontão Secretário de Educação e Cultura do DF. além do próprio Aloísio. Universidadede Brasília. A esses órgãos juntaram-se, em 1978, por ocasião da
designer e artista plástico de renome. Ao grupo inicial se juntaram posteriormente assinaturado termo aditivo ao convênioanterior, o Banco do Brasil e o Conselho
o matemático Fausto Alvim Junior, a documentarlstae então diretora do Prodasen, Nacional de DesenvolvimentoCientífico e Tecnológico. Representantesdos con-
R Cordélia Robalinho Cavalcanti e a socióloga Bárbara Freitag, todos professores venentes compunham o grupo de trabalho. que se reunia periodicamente para
da Universidade de Brasília.' A formulação da indagação que conduzia as discus- acompanharas atividadesdesenvolvidaspelo centro. Desde sua criação, o CNRC
foi dirigido por Aloísio Magalhãos.
sões trazia a marca de seu tempo. "Por que não se reconhece o produto brasi-
leira? Por que ele não tem fisionomia própria?' Tratava-se de uma nova maneira O perfil dos agentes recrutados por Aloísio distinguia-os dos tradicionais fun-
de equacionar a velha questão da identidade nacional, vinculando a questão cul- cionáriosdo lphan, arquitetosem sua maioria. Integrarama equipe do CNRC pes-
tural à questão do desenvolvimento. soas com formação na área de ciências físico-matemáticas, com especialização
O interesse que movia esse grupo era, em princípio,bastantepróximodas em informática e em educaçãol técnicos om biblioteconomia e documentaçãol cien-
preocupações dos modernistas de 22 - atualizar a reflexão sobre a realidade tistas sociais, críticos literários etc. A diversidade na formação acadêmica e o inte-
brasileira e buscar formulações adequadas para a compreensão da cultura no resse pessoal por mais de uma área de saber eram requisitosconsideradosfavo-
contexto brasileiro contemporâneo. ráveis a uma compatibilidadecom a proposta do CNRC. Na realidade,a especiali-
Inicialmente, o objetivo era criar um banco de dados sobre a cultura brasileira. zação era considerada um risco para a produção do conhecimento que se dese-
um centro de documentaçãoque utilizasse as formas modernas de referenciamento java alcançar. Os projetos desenvolvidosno CNRC punham entre parêntesesmo-
e possibilitasse a identificação e o acesso aos produtos culturais brasileiros. Na delos de interpretaçãojá prontos, inclusive os quadros conceituaisdas diferentes
concepção de Vladimir Murtinho e de Severo Gomes. tratava-se de um trabalho disciplinas, e procuravam, através de uma perspectiva interdisciplinar, apreender
etnográfico, de dimensão estritamente cultural. No Relatório Técnico Ra 1, de a dinâmica específica de cada processo cultural estudado, formulando, a pos-
2.7.1975, o objetivo do CNRC era definido como o 'traçado de um sistema refe- ferforl,tipologiase modelos.
rencial básico para a descrição e análise da dinâmica cultural brasileira'. l
Como o Sphan de Rodrigo,o CNRC gozava de autonomia de atuação, com
Essa concepção foi sendo reelaborada e ampliada, na medida em que se pro- uma vantagem: não estando subordinado a nenhum órgão da administração públi-
punha atribuir ao CNRC uma finalidade mais ambiciosa. Tratava-se não de eleger ca - pois era fruto de um convênio entre entidades diversas - gozava de uma
símbolos da nação nem de conhecer e divulgar as tradições brasileiras, e sim de agilidade administrativa que possibilitou se tornasse um espaço de experimen-
buscar indicadores para a elaboração de um modelo de desenvolvimento apro- tação. E se, por um lado, essa autonomia, e até certo ponto, descompromisso.
priado às necessidades nacionais. Desse modo, deslocava-se o centro de interes- levou a uma dispersãonos trabalhos, que na maior parte foram interrompidos,ou
se para a questão atual do desenvolvimento e articulava-se a cultura às áreas ficaram inconclusos,por outro, foi nesse espaço que se elaboraram os conceitos
politicamentemais fortes do governo. Para isso, era necessáriorecorrer a instru- que, no Início da década de 1980, fundamentaram a política da Secretaria da Cul-
mentos alternativos de política patrimonial, tanto conceitual quanto administrati-
tura do MEC e que foram incorporadosà Constituição Federal de 1988.
vamente.
As diferentesorientaçõesde trabalhoeram orquestradaspor Aloísio,que op-
O CNRC começou a funcionar em junho de 1975, nas dependênciasda antiga
tou pelo desenvolvimentode projetos mais ou menos complexos,em áreas temá-
Reitoriada UnB, devido a um convêniofirmado entre o Governo do Distrito Fe-
ticas e em locais diversos, de modo a alcançar um nível de amostragemda rea-
deral, através da Secretaria de Educação e Cultura, e o Ministério do Indústria
lidade cultural brasileira.Em termos operacionais,era norma buscar parceria com
e Comércio, através da Secretaria de Tecnologia Industrial. No ano seguinte foi
outras instituições e investigar formas diversificadas de devo/raçãodos resultados
firmado novo convênio, a que aderiram a Secretaria de Planejamento da Presidên-
dos trabalhos. O processo de elaboração de projetos era informal, pois tanto po-
cia da República, o Ministério da Educação e Cultura, o Ministério do Interior, o

144 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO 145


Y'

de experiências. seja em termos de elaboração de uma problemática. Além dos


doam ser formulados no próprio CNRC como encaminhados por agentes externos.
culturais dois projetos já mencionados- sobre a cerâmica de Amara de Tracunhaém e
O guichê do CNRC atraía pesquisadores independentes e com proletos sobre a tecelagemno Triângulo Mineiro - foram desenvolvidostrabalhosvoltados
pouco ortodoxos. Foi o caso dos projetos do Museu ao Ar Livre, de Orleans, SCi para o artesanato indígena no Centro-Oeste e- para a utilização de pneus na fabri-
da produção de banana-passa, na região fluminensel do uso da marca estampada cação de lixeiras no Nordeste. entre outros.
l em folha-de-flandres, em Juiz de Foral da fabricação de lixeiras com pneus
A abordagemdo artesanatopode ser tomadacomo um exemplotípico do modo
lj usados. no Nordestel da construção de modelos matemáticos para a classificação
de trabalhar do CNRC, no sentido de tentar lançar um olhar novo sobre os pro-
de técnicas do trançado indígena; da impressão em computador dos padrões- cessos culturais. Fol a parir da comparação entre as diversas manifestações
repassos.utilizados na tecelagem em teares de quatro pedais, no Triângulo Mi- culturais pesquisadasque se elaborou uma tipologia, distinguindo fazeres codi-
neiro etc. A seleção também não obedecia a critérios rígidos. pois o que interessa-
ficados (como a tecelageml dos que dão margem à criatividade Individual(como
va era o seu potencial - nem sempre percebido pelos autores do prometo,como
a cerâmicajt fazeres tradicionais (como a cerâmica e a tecelagem) do artesanato
ocorreu,por exemplo,como do Museude Orleans- parao conhecimento
de as- de transformaçãoe reciclagem(como as lixeiras. que são um subprodutoda ativi-
pectos pouco estudados da realidade brasileira, e em termos de perspectiva de dade industrial, e como. freqtlentementenos dias de hoje, o brinquedo popular).
ações inovadoras. Em todos os casos se procurava entender os processos de transformação e/ou
Em um primeiro momento, o trabalho do CNRC deu ênfase a experiências de de resistênciadessas atividades.sempre tentando se aproximaro máximo possí-
referenciamento. recorrendo com freqilência à colaboração de especialistas nacio- vel do ponto de vista dos produtorese dos consumidores,de modo a apreender.
nais e estrangeiros. divulgadas em relatórios técnicos. Nessa fase inicial, o CNRC sem preconceitos,essas trajetórias, e a fundamentar uma visão prospectiva.
era dividido em quatro áreas, de inspiração nitidamente acadêmica: Ciências A abordagem
do CNRCse propunhacomocríticaà visão romântica.
que pre-
Humanas. Ciências Exatas, Documentação, Artes e Literatura. Ao lado de projetos dominava entre os folcloristas, ou aos objetivos pragmáticos e assistencialistas
de âmbito restrito - a exposição de carrancas do rio São Franciscol a documen- dos programasde incentivo ao artesanato. Considerandoas manifestaçõespes-
tação do processo de trabalho do ceramista Amaro de Tracunhaém, PEI a exposi- quisadas como "um momento da trajetória, e não uma coisa estática', Aloísio l
l
ção volante sobre dom Pedro ll e seu temposa documentaçãoe análise da ativi- Magalhães afirmava que "a política paternalista de dizer que o artesanato deve
dade de tecelagem no Triângulo Mineiro; a análise e classificação experimental permanecercomo tal é uma política errada' e "culturalmenteimpositiva', pois "o
dos acervos dos museus brasileiros - foram desenvolvidos outros, mais com- caminho,a meu ver, não é esseso caminho é identificar isso, ver o nível de com-
plexos -, o fhesaurus e os levantamentos socioculturais no pólo cloro-químico de plexidadeem que está. qual é o desenho do próximopasso e dar o estímulopara
Maceió e no complexo industrial-portuário de Suape. no Recife. que ele dê esse passo' (1985, p. 172). Qualquer intewenção deveria ser prece-

Em um segundo momento, e já com base na elaboração de uma experiência (


dida, portanto. do conhecimento da especificidade daquele saber-fazer, em sua
de trabalho, o CNRC se estruturou em quatro programas: mapeamentodo arte- trajetória e em sua inserção no contexto atual. Consequentemente.as formas de
sanato brasileiro, levantamentos socioculturais. história da ciência e da tecnologia ação deveriamser necessariamentediferenciadas.adequadasa cada caso e mo-
mento, e envolvendo a participação da comunidade que produz e consome aqueles
no Brasil. e levantamento de documentação sobre o Brasil (ver Anexo IV). Nesse
bens, o que descartava,por princípio. o recurso a face/fas para lidar com a ques-
momento, a questão dos resultados do trabalho realizado não se resumia apenas
tão do artesanato.
à busca de novas formas de referenciamento e de divulgação, mas envolvia tam-
bém a responsabilidade social da pesquisa e a consideração dos interesses dos
'{
A noção de aurenf/c/Jade,tão frequente nas discussões sobre artesanato.

grupos pesquisados. passoua ser questionada,pois considerava-seque decorria de uma visão dogmá-
tica e externa ao processo.A rigor. nessa perspectivaa própria noção de a/tesa-
Foi no âmbito do primeiro programa - Mapeamenfo do adesanafo brasa/eira-
nafo. e a distinção entre aNesanalo e fecho/agia pafrfmonla/. ou entre aNesanafo
que se obtiveramos resultadosmais significativos.seja em termos de diversidade

147
O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
146
Y'
V

e requeria/ndúsfrfaficava,assim,relativizada
e. do pontode vista de uma com- projetos,que na época foram consideradosos hborafórfos por excelênciade com-

preensão do processo cultural, não era o aspecto mais importante. O objetivo. provaçãodas "teses' do CNRC, ficaram parados ou foram (em um caso, dramati-

nesse caso. passava a ser o de conhecer, referenciar e compreender essas maná camente) interrompidos e não chegaram a contribuir efetivamente para credenciar
festações. visando a presemar sua memória e a fornecer elementos para o apoio o CNRC (e, posteriormente,a Fundação Nacional pró-Memória)para reivindicar
a seu desenvolvimento. espaço e lugar na elaboração e implementação de projetos de desenvolvimento-
o que não significa ausência de ganhos, pois foi produzidaextensa e importante
Essa orientação de trabalho, de inspiração nitidamente antropológica (o que
não era, no entanto, explicitado na condução das pesquisas, que buscavam ins- documentaçãosobre os contextos culturais pesquisados.'

pirar-se, esponfanefsficamenfe, apenas no contato com a rea//dada), foi exposta No programaHlsfóda da c/énc/a e da fecho/ogfano Brasa/,o prometoque ficou
no documento Bases para um fraga/ho sol)re o adesanafo t)rabi/e/ro hde, produ- mais conhecidofoi o do Museu ao Ar Livre, em Orleans,Santa Catarina, em zona
zido em 1979 em resposta a uma solicitação do Programa Nacional de Desenvolvi- de imigração italiana. Idealizado na linha dos ecomuseus. além da exposição das
mento do Artesanato (PNDAI. do Ministério do Trabalho. Não é de surpreender peças em um extenso parque. foi feita uma detalhada documentação, por meio de
que essa colaboração tenha se revelado, na prática, inviável. fotografias.textos e desenhos, além do relato do artesão encarregadoda tarefa,
Os Levanfamenfos
sociocu/forais
foram os proletosmaisousadosdo CNRC. de sua desmontageme remontagem,de modo a presewar não apenas os produtos
em que havia um envolvimentoimediato com empreendimentosem curso e com mas também a memória do processo de fabricação. Mais caro a Aloísio, no entan-
poderosos interesses, em geral conflitantes com a visão do CNRC. sobre a rela- to. era, sem dúvida, o Estudo Multidisciplinardo Caju, identificadocomo importante
ção entre cultura e desenvolvimento.
H raiz cultural brasileira.de incontáveisusos e marcante presençana vida nacional.
Parao CNRC.o objetivoera a buscade um modelode desenvolvimento
apro- Chegaram a colaborar nesse prometoespecialistas das mais diversas áreas de co-
priado às condições locais e compatível com os diferentes contextos culturais bra- nhecimento,inclusive Gilberto Freire, mas, em termos de ações, resultou apenas
sileiros. Essa visão, embora tivesse pontos de contato com as concepções então no tombamentoda fábrica de vinho de caju Tito Sirva, em João Pessoa.
elaboradas na Unesco sobre desenvolvimento, entrava em confronto com a ideo-
Os Z.evanfamenfos
de documentaçãosopre o Brasa/produziraminúmerosre-
l
logia desenvolvimento;ta
que predominavanos anos 70. Por esse motivo. a parti- sultados a curto prazo, e foram precedidos da Análise e Classificação Experi-
cipação do CNRC nesses projetos exigia, devido a sua complexidadee seu im-
mental dos Acervos dos Museus Brasileiros, trabalho executado em 1977 para
pactonão só sobreas culturas,comotambémsobreas economiase as organi- subsidiar a missão de um perito da Unesco chamado ao Brasil pelo lphan para
zações sociais locais, um forte respaldo político, tanto por parte da direção da prestar consultoriatécnica a museólogos.A intenção do CNRC era evitar que se
CNRC quanto externamente.
impusessem aos museus brasileiros modelos externos, adequados a outras reali-
Ora, não só essa propostaera ainda bastanteimprecisa,como não encontrava dades, e possibilitar que o trabalho do perito partisse do conhecimentoproposto
eco junto a setores da sociedade que. naquele momento, pudessem se fazer ouvir. pelos museus no Brasil. segundo o ponto de vista de seus organizadores.Nesse
Além disso, a verdade é que outros proletos do CNRC. menos polêmicos, de al- programa foram ainda realizadas experiências em indexação de documentos.
cance mais limitado e de cunho mais marcadamentecultural - como o estudo mul-
como a elaboração de catálogos relativos à cinegrafia sobre a construção de Bra-
tidisciplinar do caju e a reutilização de pneus para a fabricação de lixeiras -
sília e aos filmes produzidos pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
receberam maior apoio e atenção por parte de Aloísio Magalhães. que, prova-
durante o Estado Novo. Já a indexação e microfilmagemda documentaçãoem
velmente, via neles maior potencial para ilustrar suas idéias sobre a cultura
depósito no Museu do índio tinha um objetivo que transcendia o mero registro:
brasileira.
subsidiar o processo de demarcação das terras indígenas. A divulgação de obras
Esse, certamente, foi um dos principais motivos por que foi justamente nessa sobre o Brasil existentes no exterior, ou não accessíveis ao público, foi outra
linha de pesquisa que se alcançaram resultados mais limitados, tanto em termos preocupação desse programa, como a análise e publicação do Alara ermo-h/stórfco
dos objetivos a que se visava quanto da elaboração de uma experiência. Esses

148 O PATRIAÕNIOeA PROCESSO 149


Y'
de Curt Nimuendaju e do \AntaA expedição científica de G. 1. LangsdorK ao Brasil
dinâmica e em sua pluralidade. Acreditava-se que era nessas características que
íí02í-íazpu. A esses proletos se acrescentaraminiciativas rápidas e oportunas residia seu potencial criativo.
de Aloísio, como a compra, em um leilão em Londres,de cinco lotes de documen-
Para Aloísio e os pesquisadores do CNRC, a imagem de cultura brasileira pro-
tos originariamente integrantes dos Autos da Devassa e a devolução a Congonhas
duzida pelas instituiçõesoficiais era, além de restrita, morta, e tratada como mero
l do Campo de um conjunto de ex-votos dos séculos XVlll, XIX e XX.
testemunho de épocas pretéritas ou como expressões artísticas individuais IMaga-
A análise dos 27 projetos discriminadosno quadro sinótico produzido pelo
Ihães, 1985, p. 63). Progressivamente,foi sendo formulada a idéia de bem cu/fura/.
CNRC em 1979 (Anexo IV) evidencia a diversidade de interesses e o potencial
que surgiu como alternativa atualizadae mais abrangenteà noção de património
E de trabalhoque aquelapequenainstituiçãoalcançouem quatro anos de atividade-
histórico. Joaquím Falcão sintotizou. com felicidade, a relação que, na visão de
interesses que se ampliaram na década seguinte com a introdução das questões
(:.

Aloísio Magalhães, existia entre as duas noções: "património histórico passou a


das etnias e da interação da educação com a cultura.
ser a espécie, e bens culturais o gênero' (Magalhães, 1985, p. 18).
Pode-sedizer que. em um primeiro momento,o ideáriodo CNRC se propunha
'(
Dentre os bens culturais, o CNRC se voltou prioritariamentepara aqueles até
a modernizara noção de cultura brasileira,sem abrir mão, no entanto.de uma
então excluídosdas representaçõesda cultura brasileira construídaspelos órgãos
visão calcada no nacional-popular.Esse intuito de modernização- que não che-
oficiais, ou seja.

l EÉ gava a ser uma revisãoradicaldas concepçoesJá formuladasde culturabrasileira-


estava evidente na formulação dos objetivos do centro e nos métodos a que recor- Vasta gama de bens - procedentes sobretudo do fazer popular - que, por estarem
inseridos na dinâmica viva do quotidiano. não são considerados como bens culturais
ria para alcança-los.
1. nem utilizados na formulação das políticas económica e tecnológica. No entanto, é a
À diferença das instituições já existentes voltadas para o conhecimentoe a partir deles que se afere o potencial, se reconhece a vocação e se descobremos valores

proteçãoda cultura brasileira, o CNRC não se propunhaa coletar bens, e sim a mais autênticos de uma nacionalidade. (Magalhães, 1985, p. 52-53)

produzir referências - com o recurso às ciências sociais, à documentaçãoe à A valorização das raízes populares na construção da identidade nacional não
informática - que pudessem ser utilizadas no planejamento económico e social. constituía o dado novo da abordagem do CNRC. Como já foi observado no capítulo l
A intenção clara era de revitalizar a cultura brasileira, inserindo-a no circuito do anterior, em 30, os modernistas, inclusive os do Sphan, já procuravam chamar
tema que. no discurso governamental,tomava o lugar da "segurança nacional", a atenção para o valor histórico e artístico das manifestaçõespopulares,inclusive
embora estivesse articulado com essa preocupação: o desenvolvimento. Não se dos lazeres e saberes, como propunha Mário de Andrade em seu anteprojeto.O
tratava mais. entretanto.de uma visão otimista do desenvolvimento,como a for- novo na proposta do CNRC era a perspectiva a partir da qual se valorizavam essas
muladana era JK e no períododo Brasil Grande.centradana industrialização
e manifestaçõos, que não eram apreciadas via folclore ou etnografia. Tratava-se de
H
nos grandesprojetos; essa visão começaraa ficar desacreditadacom a crise pós- revelar um interesse até então não percebido:sua capacidadede gerar valor eco-
mf/abre.Havia, portanto, espaço para um novo discurso,que desse um novo sen- nómico e de apresentar alternativas apropriadas ao desenvolvimentobrasileiro.
tido ao desenvolvimentoeconómico. Era introduzida.assim, uma mediaçãopoliticamenterelevante entre a cultura po-
1! O problema que serviu de ponto de partida à criação do CNRC - a falta de um pular e o interessonacional.
caMfer nacfona/no produto brasileiro- remetia, como ocorrera nos anos 20 com Foram objeto preferencialdo trabalho do CNRC "o trato da matéria-prima,as
os modernistasem relação à produção cultural brasileira,à questão da tradição. formas de tecnologiapré-industrial,as formas do fazer popular,a invençãode ob-
Em 1975, o grupo inicial do CNRC consideravaque o que faltava para conferir jetos utilitários"(Magalhães,1985, p. 113). As análises desses objetos eram orien-
caüfer ao produto e à nação brasileirosera uma tradição que estivesse não ape- tadas no sentido de demonstrar a adequação das soluções tradicionais ou das
nas cristalizada, internalizada, mas, sobretudo, viva. que fosse apreendida em sua adaptações criativas do povo às condições do contexto brasileiro.

150 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO


T51
Yj
A noção de cultura popular foi ampliada de modo a abranger tanto as manifes- do Brasil - país novo e pobre -, ele consideravaque a maior riqueza de que se

tações populares tradicionais quanto suas intersecçõescom o mundo industrial dispõe não é material,é cultural. Essa cultura autêntica, viva. é que seria o nosso
e urbano. Ficava de fora, apenas, a cultura de massa. legado para a civilização ocidental, nosso "artigo de exportação'.

A valorização da cultura brasileira, e em particular da cultura popular, atuaria No artigo "Bens culturais: instrumento libra um desenvolvimentoharmonioso'.
B
R
como vac/na contra as poderosas influências externas que descaracterizavam a Aloísio Magalhães sintetizou sua visão sobre o papel da cultura no planejamento
1;
nação. Como em 30, considerava-seque pairava no ar uma ameaça à sobre- económico.tendo como eixo a questão da identidade nacional: "Resultam ainda
vivência da cultura brasileira, agora não tanto sobre os monumentos históricos frágeis os indicadores de nossa identidade cultural. Mas, apesar de frágeis, não
k que, tombados, estariam, em princípio. protegidos, e sim sobre a cultura viva das deixam de ser importantes como instrumentos para a formulação de nossa política
camadas populares, pouco conhecida e passível de ser esmagada pelo progresso de desenvolvimento."(1985, p. 40). Essa política, para Aloísio, atuaria em dois
e pelas Influências exógenas. níveis:
Ao CNRC não interessava, portanto, atuar sobre bens que fossem meros sig- Considerandoo desenvolvimentocomo a busca de uma síntese harmoniosa
nos do passador para proteger esses bens já existiam instituições e museus sufi- produzida pelos componentes diversificados e mesmo paradoxais de nossa cultura, é
cientes. Seu interesse se voltava para as manifestações culturais vivas, inseridas de supor que a ação político-económica se processe em dois planos: em nível macro,
em práticassociais contemporâneas.Não era por acaso que Imagensvitalistas das infra-estruturasde apoio. chamaríamosde metadesenvolvimento;
em nível micro.
de identificação de necessidadesligadas a comportamentos e hábitos, usos e costumes
povoavam os discursos de Aloísio Magalhães.
da comunidade,chamaríamosde paradesenvolvimento.(Magalhães.1985. p. 421
Não só o conceito de cultura, mas também o modo como o CNRC a abordou
1.
já foram identificados com uma perspectiva antropológica. Considerava-se que as Se. no nível macro, se importavam modelos e estruturas, muitas vezes inade-

manifestaçõesculturais deviam ser compreendidas em sua trajetória própria e em quados aos contextos locais, era no nível micro, com o recurso aos indicadores

sua relação com o contexto cultural onde são produzidas e por onde circulam. culturais. que se poderiam co/ng/r as desigualdades e descaracterizações. Ficava
Desse modo, o CNRC queria marcar sua diferença relativamenteàs apreciações Implícitoque o equilíbrioentre esses dois níveis não é espontâneo,mas depende
l
tradicionais, via folclore. Posteriormente,vai-se cunhar a expressão "património de decisão política.
cultural não-consagrado' para explicitar que se tratava de manifestações até então Esse texto foi elaborado, em sua primeira versão, para ser encaminhado ao
não reconhecidas pelo património oficial e nem compreendidas. em sua especifi- então todo-poderosochefe da Casa Civil, general Golberi do Couto e Silva, e.
cidade,pelascamadascultas. não por acaso.discutiatambémas duas alternativaspossíveispara a conti-
Para o CNRC, o objetivo de sua proposta era instrumentalizar a área da cul- nuidade do CNRC, que buscava uma forma estável de institucionalização: ou
tura para participar na elaboração dos projetos de desenvolvimento. Nos anos 70. sua incorporação ao lphan, ou sua transformação em uma secretaria especial,
essa participação significava alcançar um assento junto aos organismos estatais que atuaria junto à presidência da República, com alcance sobre todas as áreas
de planejamento,na medida em que o Estadoera, então,o protagonistados gran- da administração pública federal. A segunda alternativa. mais adequada aos
des investimentos e o principal financiador dos empreendimentos privados. Nesse objetivos do CNRC, era, porém, a mais complexa e politicamentemais instável.
sentido, os primeiros interlocutores do CNRC eram as autoridades dos órgãos es-
Após um período de indecisão, Aloísio preferiu a primeira, mais segura, e que
tatais, embora houvesse a preocupação de buscar legitimação para seus trabalhos
oferecia maiores garantias de continuidade - o que de fato se confirmou. pois
junto ao meio intelectual e, sobretudo, junto à área acadêmica, tanto nacional como
foi o primeiropassoparaa criaçãoda Secretariada Culturado MEC,em 1981,
internacional.
quando. pela primeira vez, se reuniu em um só órgão, no Brasil, a gestão da
Um dos pontos de partida para a reflexão de Aloísio Magalhães era a distinção política cultural federal.
entre países velhos e novos, e ricos e pobres (Magalhães. 1985, p. 85). No caso

& \&S\ AOO[RNÁ 153


152 O PATRIAON 10 EA PROCESSO
r
4.5 A UNIFICAÇÃODA POLÍTICA FEDERAL DE
bens, segundo Aloísio. se apresentavamcomo "mortos', em oposição à relação
plEstpvÂ[Ão: Â Fusão lpuAU/PCH/CNRC dinâmica das manifestações populares com seus produtores e usuários. Por outro
lado, estava implícitono texto acima que cabia aos setores mais esclarecidosdas
Em 1979, com o apoio do ministro Eduardo Portela e do general Golberi do
Couto e Silva, Aloísio Magalhães foi nomeado diretor do lphan, e ocorreu a fusão camadas cultas explicitar o valor propriamente cultural das produções populares.
l tradicionalmentevaloradas a partir de uma percepção olitista, via folcloro. O pro-
lj lpharúPCH/CNRC.Reuniam-se assim. numa só instituição. os recursos e o know-
how gerencial do PCH, o prestígio e a competência técnica do lphan e a visão metodo CNRC se propunhaa criar uma via de mão dupla entre dois universosque
modernae renovadora do CNRC. Foi criada uma nova estrutura: um órgão nor- se achavam apartados tanto no domínio do conhecimento acadêmico quanto no da
k mativo - a Secretaria do Património Histórico e Artístico Nacional (Sphan) e um administraçãopública.
C

órgão executivo - a Fundação Nacional pró-Memória (FNpM). O texto citado de Aloísio é bastante elucidativo quanto à elaboraçãofeita polo
l
Para Aloísio. a fusão vinha revitalizar o lphan e operacionalizaro CNRC, CNRC da dicotomiacultura erudita/culturapopular. Essa dicotomia,como veremos

11 solução que se justificava na linha da continuidadepregada por ele. Esse era o


adiante, havia sido ratificada também no nível institucional, e aí rosidia uma
diferença significativa entre a proposta de Mário de Andrade - exposta no sou
conteúdo da exposição de motivos encaminhada ao MEC, em setembro de 1979,
propondo a criação da Fundação Nacional pró-Memória como órgão executivo da
anteprojeto
e realizadano Departamento
de Culturada Municipalidade
de São
Secretaria do Património Histórico e Artístico Nacional, que viria substituir o lphan. Paulo, nos anos 30 - e a prática desenvolvidapelo Sphan com base no decreto-

E foi com esse discurso que Aloísio Magalhãesconseguiuamplo apoio no Con- lei Rg25, de 30.11.37. Não foi por acaso, aliás. que o CNRC buscou no anteprojeto
1 1$ gresso Nacional para aprovar. em regime de urgência e em um momento bastante
de Mário de Andrade um apoio a sua proposta. Entretanto, Mário de Andrade, em-
1.
bora se voltasso para criar vias de acesso entre a cultura erudita e a cultura popu-
desfavorável à criação de novas fundações, a Fundação Nacional pró-Memória,
em novembro de 1979. lar, mantinhaclara distinção entre as duas - o que não ocorreu no CNRC.

Em termos conceituais, a idéia era de que o CNRC desenvolvia uma atuação Como já foi dito no capítulo anterior. se os técnicos do Sphan eram sensíveis

complementare crítica em relação ao lphan, que privilegiava os bens de pedra e


ao valor cultural das manifestaçõespopulares, na seleção de bens para tomba- t
mento havia dificuldadeem valorar esses bens com base nos critérios adotados
ca/. Tratava-se, nas palavras de Aloísio Magalhães.de suprir uma /acuda do lphan:
para as expressões
da culturaerudita,sobretudose esses bens los da cultura
A aproximação que o CNRC deu ao conceito de bem cultural atinge uma área de
popular) se achavam inseridos na dinâmica de uso das comunidades locais. É
que o Patrimónionão estavacuidando.Ou seja:o bem culturalmóvel,as atividades
significativo. a respeito. o parecer de Luís de Castro Farias, membro do Conselho
do povo. as atividades artesanais. os hábitos culturais da humanidade. O Património
atuava de cima para baixo, e. de certo modo, com uma concepçãoelitista. A igreja Consultivo, e então diretor do Museu Nacional, que, em 1958, assim justificava
e o prédio monumental são bens culturais, mas de um nível muito alto. São o resultado sua opinião contrária ao tombamento do Santuário do Bom Jesus da Lapa, na
mais apurado da cultura. O CNRC procurava trabalhar de baixo para cima. Pela própria Bahia,solicitadopelo párocolocal:
razão de ser uma atividade popular não tem consciência de seu valor. Quem faz uma
No Santuário de Bom Jesus da Lapa pratica-se um culto de cunho popular. A
igrejasabe o valor do que faz. Mas quemtrabalhacom couro, por exemplo nem
religiosidadeda massa humana que ali acorre em época de romaria se exprime de
sempre. Desse contraponto, pode surgir uma hipótese - a de que o CNRC começava
acordo com padrõeséticos próprios;a sua sensibilidadepossui também um sistema
a tocar nas coisas vivas, enquanto o lphan se preocupava principalmentecom as coisas
de valores algo diferente do nosso. Para que esse santuário possa continuarfiel a essa
mortas. Pelo contrário. é através das coisas vivas que se deve verificar que as do
tradição. é preciso que Ihe não restrinjam a liberdade de ampliação. renovaçãoe mesmo
passadonão devem ser tombadascomo mortas. (1985, p. 217)
inovaçãoem consonânciacom as exigências daquelas formas peculiares de com-
Como a vinculação - utilitária e simbólica - dos bens tombados pelo lphan portamento.Comprovado o desfiguramento paisagístico do local e o desaparecimento
com a vida social e económica das comunidades não era levada em conta. esses de todos os bens de valor histórico e artístico (segundo os critérios da Dphan) que ali
existiram, não vemos como se poderia conciliar futuramente os interesses do Dphan

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
154 h \&\\ AOB[RNÁ T55
T
e os das autoridades eclesiásticas responsáveis pela grave tarefa de manter e ampliar A partir dos anos 80, a preservação das manifestaçõesculturais dos diferentes
o culto na forma peculiar de que se reveste naquela área. l26a reunião CC 21.8.581 contextos culturais brasileiros assumiu uma nítida conotação política, na medida
em que, à idéia de diversidade, se sobrepunha a de desigualdade.Ao propor a
Ou seja, considerava-se,
no final da décadade 1950,que as expressõesda
introdução de bens do "património cultural não-consagrado' no património histórico
cultura popular deviam ser apreciadasdentro de uma outra ordem de valores que
e artístico nacional (basicamente, bens das etnias afro-brasileiras e vinculados
l não a que presidia à prática de preservaçãoexercida pelo Sphan, adequadaaos
lj
à cultura popular). e a participação da sociedade na construção e gestão desse
bens móveis e imóveis de excepcional valor histórico e artístico.
património, a política da FNpM visava a se inserir na luta mais ampla que mobi-
Manifestaçõescomo o artesanato, ritos e folguedos, os saberes e fazeres do lizava então a sociedade brasileira pela reconquista da cidadania. Na gestão de
povo eram, até os anos 70, objeto de interesse primordialmentede folcloristas e Aloísio Magalhães no lphan. uma primeira expressão dessa participação foi a in-
IK etnógrafos,sendo os mais conhecidos Luís da Câmara Cascudo, no Rio Grande trodução da prática de consultar as populações dos centros históricos, o que ocor-
do Norte. RossiniTavares de Lima. em São Pauta,e Renatode Almeida e Edison reu nos semináriosde Ouro Preto, Diamantina,Cachoeira,São Luís etc.
Carneiro,no Rio de Janeiro. Em 1958, foi criada, no MEC. a Campanhade Defesa Em termos teóricos, o CNRC não lidava com os conceitos de arte e de histó-
do Folclore Brasileiro,integrada, nos anos 70, ao Departamentode AssuntosCul- ria, sobre que se fundamentava a ação do lphan, mas com categorias apresentadas
turais (DAC), e, posteriormente,à Funarte. Em 1977, foi criado, no Ministério do como novas, no sentido de reelaboradas,como a de bem cultural, de memória.
Trabalho o Programa Nacional de Desenvolvimentodo Artesanato (PNDA), visan- de continuidade
etc.
do a explorar o artesanato como possível fonte de renda para mão-de-obranão
Em contrapontoà idéia de coletar para guardar, para preservar, Aloísio Ma
qualificada. A Artíndia, por exemplo, vinculada à Funai. tem por objetivo comercia-
galhães propunha a noção de "dinamização da memória nacional':
lizar objetos produzidospelos índios. Institucionalmente,portanto, o trato de bens
produzidos em contextos culturais de origem afro-brasileira, indígena e popular Quando se fala em memória num sentido figurado, quando se empresta a idéia de
memória a um fato qualquer, em geral há uma tendência a se tomar isso como 'juntar
ficava a cargo de outros setores dentro do MEC, e de outros órgãos da adminis-
ou "guardar alguma coisa, "reter'. E isso me parece insatisfatóríoleu prefiro o conceito
tração pública federal. Integravam,porém, o patrimóniohistórico e artístico nacio-
biológico de memória: guardar. reter, para em seguida mobilizar e devolver. (1 985, p. 67) l
nal nas coleções etnográficas dos museus nacionais.

O CNRC se propunha, entre outros objetivos, a reelaborar essa dicotomia Para Aloísio, a atividade de proteção não podia esgotar-se nela mesma. Era

jerudito/popular) e a conferir um status de património histórico e artístico nacional necessário pâ-la a serviço da sociedade, o que considerava ser também respon-

à produção dos contextos populares e das etnias indígena e abro-brasileira.Na sabilidade dos organismos culturais.
mesma linha. o prometodo CNRC (que foi assumido pela FNpM) queria dar um Na noção de tempo cultural, entendido como continuidade' - mas não como
novo sentido à política de presewação.Não se tratava mais de apenas presewar imutabilidade. como os procedimentos de proteção levam a entender - Aloísio
materialmente monumentos e sítios em que se reconheciam valores históricos e Magalhães articulava passado, presente e futuro, tendo sempre em vista elaborar
artísticos que justificavam o investimento em sua conservação pela sua mera a ação projetiva.o"Porque uma cultura é feita de elementos compostos do passado
presençae visibilidade. Essa era consideradauma postura elitista, para benefício que são vistos pelos homens transitórios do presente e que desenham o caminhar
apenas das camadas cultas. Nos anos 70, a tarefa de preservação passou a assu-
projetivo.'(1985,p. 71).
mir novas funções para além da escora estritamente cultural. Como já vimos, pro-
curava-se revelar nos bens culturais sua dimensão de produtoresde valor eco- A concepção ampla de cultura, a visão totalizadora e articulada da ação cul-

nómico, seja diretamente,como matéria-primapara a atividadeturística, seja indi- tural conforme o modelo das duas vertentes,'' idéias expressas em imagens como

retamente, como referências para a busca de soluções adequadas ao processo a do disco e a da bateia, habilitavam Aloísio a abarcar todo o universo cultural
de desenvolvimentobrasileiro. do MEC.

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO 157


156
T
4.6 UM PROPOSTADE D[AOCRATIZACÃO DA POLÍTICA autor, esse lema "sugere uma estratégia política que requer uma capacidadede
auto-organização
da sociedade'(1990,p. 290).Era nesseespaço- entreo lema
CULTURAL: Â CRIAÇÃO DA SECRETARIA DA CULTURA DO A[C
e seu pressuposto- que pretendiam atuar os agentes do CNRC e. a partir de 1979,
Na gestão do processo de reordenamentoinstitucional da área cultural do os da FNpM. Em que medida as estratégias adotadas levaram efetivamente à de-
MEC, Aloísio Magalhães, visando a administrar inevitáveis conflitos entre inte- mocratização da política de presewação é uma das indagações que motivam este
resses de áreas até então autónomas, recorreu a um processo pouco usual no trabalho.

serviço público: a realização de seminários reunindo técnicos de todas as insti- O fato é que esse novo discurso se revelou compatívelnão só com o momento
tuições envolvidas. Em 1979, esse foi o objetivo do seminário realizado na Escola de abertura democrática dos últimos governos militares, como foi também encam-
Superior de Administração Fazendária (Esaf), em Brasília, com funcionários do pado pela Nova República. Os artigos 215 e 216 da Constituição de 1988 trazem
lphan, do PCH e do CNRC. O mesmo procedimentofoi utilizado em 1981. quando nitidamente sua marca.
da criação da Secretaria da Cultura do MEC (SECA, com o objetivo de elaborar
Após a morte súbita de Aloísio Magalhães, em junho de 1982. na Europa, onde
i o documento que foi denominado D/refrlzes para operam/ona//zação da po//rica
fora participar de reunião da Unesco, em Veneza, assumiu a SEC seu conterrâneo,
cultural do MEC.
Marcos Vinícios Vilaça, que se propôs dar continuidade à orientação de seu
A proposta de democratização da política cultural contida nesse documento foi antecessor.
introduzida pelos agentes institucionais que elaboravam e conduziam os proletos
[ Em 1985, o presidenteeleito Tancredo Neves criou o Ministério da Cultura.
no CNRC e, posteriormente. na FNpM. Esses agentes - em geral atraídos pela
que substituiua SEC, e foi assumido por José Aparecido de Oliveira durante ape-
possibilidade de desenvolverem trabalhos voltados para os interesses de grupos
l até então não atendidos pelas políticasculturais - se propunhamatuar como
nas dois meses, antes de passar a responder pelo Governo do Distrito Federal.

mediadores entre o Estado e as comunidades ainda não organizadas, na cena da Para substituí-lo foi nomeado o mineiro Aluísio Pimenta, a quem sucedeu, em

política cultural estatal. 1986, o economista Celso Furtados em setembro de 1988, José Aparecido ocupou
novamente o ministério.
A diferença da fase heróica do Sphan, nesse documento não se propunha t
atingir a sociedade através de uma campanha de educação popular, no sentido No MinC, procurou-se estimular a participação da sociedade mediante três
de esclareceras massas sobre os valores histórico e artístico dos bens culturais. procedimentos: a criação de assessorias especiais - do negro, do indígena, da
Para aqueles novos agentes institucionais,no final dos anos 70 e início dos 80. mulher, dos deficientes físicos, da terceira idade etc. -, a realização de seminários.
as ações da política cultural do governo federal deviam se voltar prioritariamente que reuniram intelectuais e artistas, visando à elaboração de uma proposta de po-
não só para o atendimento das necessidades culturais, como também levar em lítica cultural, e a implantação da Lei Sarney, de incentivos fiscais.
consideração as necessidades económicas e políticas dos grupos sociais até As propostas dos seminários praticamente ratificaram o texto das l)/ref/{zes.
então excluídos - simbólica e materialmente - dos benefícios dessa política. Mais
As assessorias foram. enfim, extintas, permanecendoapenas a do negro que.
que isso: era preciso que essas comunidades passassem a participar do processo apósa Constituição
de 1988,se transformou
na Fundação
Palmares.
A Lei
de construção e de gerenciamento da produção cultural brasileira, inclusive do pa-
Sarney foi revogada no início do governo Collor e, posteriormente, substituída
trimónio cultural. É pela via da participação social - e não mais pela da seleção pela Lei Rouanet.
rigorosa de bens de valor excepcional - que se vai buscar legitimar a política de
Extinto em março de 1990, após cinco anos apenas de funcionamento, o Minis-
preservação
dos anos80.
tério da Cultura da Nova República, primeira tentativa no Brasil de criação de um
Esse recurso não caracterizava uma mudança apenas no âmbito da política
ministério independente para cuidar exclusivamente da cultura. está a requerer
cultural. Como observa Pécaut, o lema, no quadro da abertura política iniciada no
uma análise específica.
governo Geisel, era "reativar a sociedade civil'. Entretanto, segundo o mesmo

O PATRIÁõNIO [Á PROCESSO 159


158
T
4.7 0 ALCANCE E OS llAITES DA POLÍTICA FEDERAL lembrar que a chamada fase de aóenura, iniciada em 1974, com o governo Geisel,
Dt PRES[RVA[ÃO NOS ANOS 70-80: UA BA]AN[0
teve implicaçõesperceptíveisno âmbito desse ministério. Duranteas gestões dos
ministros Ney Braga. Euro Brandão (governo Geisel), mas sobretudo durante a
A mera exposição da trajetória da política de preservação federal, nas décadas
de 1970 e 1980. evidencia uma nítida mudança em relação ao modelo vigente até gestão Portela, o MEC se converteu em um espaço privilegiado para a criação
de uma imagemde abertura.Após a fase de reestruturação
institucionale de ela-
11 então. O esforço de reformulação feito pelo lphan no final dos anos 60 e início
dos 70. através do recurso à consultoria internacional e ao envolvimento dos boração da primeira política global para a área da cultura depois do golpe de 1964,
na gestão Portela o MEC se propôs explicitamente privilegiar as demandasdos
governos estaduais. não foi suficiente para recuperar o prestígio e o relativo poder
grupos populares. Comparando os textos e documentos produzidos nesse período
de que a instituição gozara durante a gestão de Rodrigo M. F. de Andrade. O
surgimento de alternativas à margem do MEC veio mesmo confirmar o desgaste com o lá mencionado Po/#/ca nac/ona/ de cu/fura, Sérgio Miceli observa que estes

da proposta do lphan e a necessidade de uma reorganização institucional. últimos 'lidam com pares conceituais idênticos, mas com sinais trocados' (1984,
p- 1071.E nesse período que Aloísio Magalhães inicia sua ascensão na política
Conceitualmente, essa reelaboração já vinha sendo tentada, desde a gestão
cultural do MEC.
de Jarbas Passarinho no MEC, quando, segundo informação de Gabriel Cohn
(1984, p. 88), foi elaborada,em 1973, a primeirapropostaglobal de política cultural O tom novo e modernoque é atribuídoao discursode Aloísio Magalhãesde-
do governo militar, com o pouco conhecido documento Direfrizes para uma po/ilfca corre não exatamentedos temas propostos.mas do modo como os elabora e do
nacional de cultura. significadoque lhes confere,tendo em vista um prometo
para a nação. Pela primei-
ra vez, desde 1964, a expressão"segurançanacional" está totalmenteausente de
Mas o documento que foi efetivamente divulgado e adotado como orientação
oficial foi o Po//fica naciona/ de cu/fura, elaborado em 1975, durante a gestão do um discurso oficial cujo tema é a cultura. Por outro lado. a relação entre cultura

ministro Ney Braga, por membros do MEC e do Conselho Federal de Cultura, sob e desenvolvimento assume,em seus pronunciamentos.contornosmais específi-
a orientação de Afonso Arinos de Meio Franco. Nesse texto, já estavam presentes cos, exemplificadacom situaçõesconcretas,como o caso de Triunfo (cf. Maga-
temas que foram posteriormente desenvolvidospor Aloísio Magalhães. Ihães, 1985, p. 42-441,e traduzidaem uma propostade atuação nova. ainda que
genenca. +

A expressão "segurança nacional" está praticamente ausente do texto, a não


ser por uma rápida menção (MEC, 1975, p. 30). É a temática da relação entre Além disso. Aloísio evita habilmentequalquer menção. ou mesmo alusão, à
cultura e desenvolvimentoque recebe maior destaque, na afirmação da impor- idéia de sincretismo.A reflexão que desenvolve sobre o processo cultural brasi-
tânciada culturana vida económica
e social('0 desenvolvimento
não é um fato leiro, sempre a partir de pares de opostos (países novos/velhose pobres/ricosl
de natureza puramente económica. Ao contrário, possui uma dimensão cultural bens vivos e bens mortos etc.), é mais sofisticada,na medida em que não se re-
que. não respeitada, compromete o conjunto' [ibid.]). A noção de identidade cultu- solve numa mera síntese ou superação das oposições, mas mantém sempre a
ral é referida a partir de uma perspectivapluralista. pluralismo esse que se ex- relaçãoe a tensão entre os dois pólos. Como articulaçõesdesses elementos,Aloí-
pressa na diversidade regional. Essas diferenças, amalgamadas entre si e às sio recorre às noções de processo ou dinâmica cu/fura/e de tempo cu/fura/,no-
influênciasexternas,se fundiriamno 'sincretismo'característico
da "marca"bra- ções que vai definir. como era seu costume,e até por vezo profissional,recor-
sileira (idem, p. 161. O património cultural brasileiro é caracterizadoa partir da rendo às imagens extremamente expressivas a que já nos roferimos: a do cristal.
tradicional distinção entre cultura erudita (património histórico, artístico e cientí- a do estilingue, a do disco e a da bateia.

ficos e cultura popular (artesanato e folclore) (idem, p. 24), propondo-se inclusive Foi com base nas idéias de óem cu/fura/. de dfvers/dadocu/fura/, de conlf-
ações distintas para cada uma das duas esferas. nu/dado,
e na afirmação
do potencialproletivodo trabalhona áreaculturalque
Para se entender melhor o surgimento da proposta do CNRC, e sua incor- Aloísio Magalhães e o grupo do CNRC formularam uma proposta de política
poração à política cultural do MEC no contexto de um governo autoritário, cabe cultural que tinha como ambiçãofornecer subsídiospara a solução dos problemas

160 O PATRIAÕNIO ÉA PROCESSO


}61
do desenvolvimento
no Brasil. Sua elaboração,no entanto,passavaao largo de Nesse sentido, o discurso de Aloísio se distinguia do discurso então produzido
tensões e conflitos concretos que se manifestavam no âmbito do processo cultural pela Seac, sob a direção de Márcio Tavares d'Amaral - que, em 1981, foi inte-
e, certamentede forma mais aguda e evidente,nos campos económicoe social grada à Secretariada Cultura, e passou, portanto, à direção de Aloísio. Em sua
tensões essas que se impunhamna execuçãode projetoscomo os de Maceió e fala, a distinçãoentre dominantese dominados- que predominavanos textos da
de Suape. Seac - é apenas mais uma entre as oposições mencionadas - e certamente não

No seu discurso,Aloísio Magalhãescriticava os sinais da modernizaçãocapi- a mais enfatizada-, o que terá contribuídopara que seu discursotransitasselivre-

talista que consideravainadequadosem um país subdesenvolvido- transferência mente entre grupos sociais das mais diversas orientações políticas e servisse.
acrítica de tecnologias próprias para os países desenvolvidos,acumulaçãode ri- com sucesso, para alcançar o objetivo a que se propunha: a reestruturação da
quezas sem a correspondentedistribuição,investimentosem proletos faraónicos- área cultural no governo federal. Por outro lado, é inegável que essas oposições
para defenderum modelode desenvolvimentoendógeno.a busca de soluções foram construídasde modo a induzir a uma valoração, recebendo sinal positivo
autóctones. Essa postura se alinhava à orientação terceiromundistada Unesco. o que era qualificado como vivo, o que, por contraste, qualificava negativamente-
então sob a direção do africano Amadou Matar M'Bow. no sentido de morta, estática e afastada da vida das comunidades - a política de
Segundo essa visão, o que, na perspectiva do desenvolvimentismo.eram preservação praticada pelo lphan. E, embora alguns projetos visassem a uma
sinais de carência - o atraso tecnológico, os bolsões de cultura pré-capitalista, reinterpretação dos bens consagrados. conforme os pressupostos de trabalho do

o apego à tradição - converte-se, pode-se dizer que quase magicamente. em fato- CNRC, no conjunto prevaleciam aqueles bens a que a atuação do lphan não vinha
res propiciadoresde um desenvolvimentoapropriado.Essa inversãode expec- atendendo.

tativas é exposta por Aloísio Magalhães em um tom que beira o messianismo: Foi, portanto, o potencial criativo dos bens culturais - primordialmente os da
Restam os países pobres e novos. A esses. e para esses, devemos voltar nossos culturapopular- e seu valor como "instrumentopara um desenvolvimento
har-
olhos e nossa reflexão porque aí talvez se encontre, excelências, uma série de parâ- monioso' que constituiu o foco de interesse dos trabalhos desenvolvidos pelo
metros e de paradigmas que, nesta altura da vida do Ocidente - pois estamos falando CNRC.
da Ocidente- adquiremum significadotodo especial.E que talvezesteja unicamente
No entanto, as indefinições do discurso de Aloísio, que em meados dos anos +

nos segmentos de autenticidade dessas nações, nos frágeis e pequenoselementos que


constituem o seu património, como cultura, justamente a probabilidadeda sua salvação
70, podiam ser encaradascomo estratégia política, foram tornando problemática
diante do mundo, criado pelo homem ocidental, em que tudo são impasses, em que sua aceitaçãopor parte de setores sociais mais radicais. Em primeiro lugar, esse
nada foi resolvido. em que o dinheiro não compra harmonia, não compra a identificação discurso revalorizavaa cultura popular a partir de uma visão idealizada, sem iden-
do homem com o meio ambiente, diante de um mundo em que tudo está em xeque,
tificar os sujeitos reais que a produzem e consomem, e seu lugar subalterno na
em que nenhuma das formas de valorização económica, tecnológica e mesmo científica
sociedade brasileira. Em segundo lugar, sua posição, junto ao governo federal,
está verdadeiramente à disposição de todos. (1985, p. 82-83)
de poda-voz dos produtores dessa cultura, tornava-se progressivamente mais pro-
Na verdade, a crítica de Aloísio se dirige antes ao imperialismo que ao modelo blemática, tanto em função das ações desse governo, que contradiziam a intenção
capitalista implantado no Brasil. Imperialismo económico. do capital internacional. de abertura, quanto da própria rearticulação da sociedade civil. Esses aspectos
imperialismo cultural, dos padrões europeus e, mais recentemente. dos mass do discurso de Aloísio e da prática do CNRC provocaram críticas de setores da
media americanos. O verdadeiro Brasil, qual um gigante adormecido. estaria co- intelectualidadee desconfiança por parte de lideranças dos movimentos populares
berto por um manto estrangeiro: ainda incipientes.
E como se o Brasil fosse um espaço imenso, muito rico. e um tapete velho, roçado. Apesar da grande aceitação desse discurso e da receptividade à pessoa de
um tapete europeucheio de bolor e poeira tentassecobrir e abafar esse espaço. E
Aloísio, a proposta do CNRC transmitia, sobretudo aos setores acadêmicos - que
preciso levantar esse tapete. tentar entender o que se passa por baixo. IMagalhães.
Aloísio procurava, principalmente em São Paulo, para trocar idéias - uma impres-
1985,p. 421

O PATR IAON 10 EA PROCESSO h \hS\ AODeRNÁ 163


162
são de imprecisão teórica e de ambigüidade ideológica, o que era agravado por na cena da política cultural brasileira,no período que vai de 1976 a 1982. Apoiado
$eu lugar de fala, de dentro do Estado. Essa situação ficou mais delicada após em sua relação pessoal com personalidades influentes no governo federal, e,
1977, quando o presidente Geisel fechou o Congresso e lançou o "pacote de abril". sobretudo, em seu carisma pessoal e sua habilidade política, Aloísio conseguiu
o que motivou a saída do ministro Severo Gomes do governo. Se as críticas de conquistaraliados importantesjunto ao Executivo - como o então todo-poderoso
um intelectual de perfil mais tradicional, como o historiador José Honório Rodri- ministro Golberi do Couto e Salva- e junto ao Congresso Nacional. Entretanto,
gues, não criavam maiores embaraços a Aloísio (Magalhães, 1985, p. 122-127). fatores como sua identidadede criador je não de intelectual,vinculado à acade-
ficava mais difícil reagir às reservasde intelectuaiscomo CardosGuilhermeMota. mia), sua desvinculaçãoda política paRidária,sua carreira tardia no serviço públi-
Marilena Chauí, Sérgio Miceli e outros, que se fundamentavam numa reivindicação co e restritaà área cultural, seu interesse mais afetivo que crítico pela cultura
de maior rigor científico e maior clareza ideológica.'' popular o, sobretudo,o caráter original de seu discurso.que Ihe garantia inegável
K H'
Essa ambigilidade se tornou particularmenteIncómoda a partir dos anos 80. poder de penetraçãojunto aos mais diversos componentosda sociedade- políti-
quando a sociedadese mobilizavapara a reconquistados direitos políticos, e foi cos, intelectuaise artistas, conservadores. liberais e mesmo pessoas reconheci-
( reforçadajunto ao moio acadêmico.como observa Sérgio Miceli, devido "à ausên- damente de esquerda dalgunsdos quais figuravam entre seus colaboradoresl-
cia de um quadro conceptual de reforência nos documentos veiculados pelo Cen- certamentecontribuírampara suscitar muitas dúvidas quanto ao uso que estaria
1.
tro" j1984, p. 80). Por outro lado, pode-se argumentarem favor de Aloísio e de sendo feito de seu prometopelo governo militar. Para Verá Milet (1988), por exem-
seu prometoque. se o mundo acadêmicoé o universo da análise e da crítica - cuja plo. a atuação modernizadora de Aloísio, na verdade, vinha ao encontro do interes-

l independência é, inclusive, garantida pelo princípio da autonomia universitária - Aloí- se do Estado, então na era pós-mf/abre económico e passando por uma crise de

1. {:
sio Magalhães, assim como Mário de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade, transi-
tava no mundo da política,regido pelos princípiosda ação. da estratégia,da nego-
ciação e dos resultados.
legitimidade,no sentido de fornecer um idoário nacionalistanovo e adequadopara
diluir, no nível da ideologia, as contradiçõese os conflitosque, naquele momento,
marcavama sociedade brasileira. Verá Milet considera que 'ao nível do ideário

Esse efeito negativo era contrabalançado- e alguns preferirão dizer: mas- e da ação na instância cultural, aquele prometorespondeàs necessidadesdo siste-

carado - pela originalidadee extrema eficácia persuasivado discurso de Aloísio. ma atual no que diz respeito à promoçãode uma cultura nacional em que todos
os cidadãos, independentementede sua posição de classe, se sintam partícipes'
+

Seu estilo fugia à impessoalidade e à insipidez da linguagem burocrática, mas não


11988, p. 176).
se identificava tampouco com o rigor do texto acadêmico. Como observou José
Laurênio de Meio na introdução a E 7}funfo?. plasticidade e oralidade eram os tra- O documen\o Diretrizes para operacionalização da política cultural do MEC
ços característicos de sua expressão verbal (assim como a curiosidade, o otimis- j1981) procurava avançar na resolução da ambigüidade mencionadarecorrendo
mo e a afabilidade eram as características mais marcantes de sua personalidade). a um outro conceitotambém genérico e não menos ambíguo - o da participação
E apesar da impressão de simplicidade e de espontaneidade que suas falas pro- comunitária. Nesse texto, reivindica-se a ampliação da imagem de cultura forjada
vocavam, certamente, como artista plástico, Aloísio sabia, melhor que ninguém, pelos órgãos oficiais, não só pelo reconhecimentodo que se denominava"patri-
como é difícil ficar indiferente à beleza da forma, seja da imagem, seja da palavra. mónio cultural não-consagrado',como também, e sobretudo, pela participaçãode
E em mais um gesto surpreendente em sua carreira de burocrata. não hesitou em outros atores no processo de "gerenciamentoda produção e da preservaçãodos
recorrera seus dotes de gravador para argumentar.na última reuniãode que parti- bens culturais'. Formulou-se,assim, uma proposta de democratizaçãoda política
cipou. na ltália, sobre a pertinência de se inscrever Olinda como Património Cul- cultural que, durante a década que se seguiu, foi um mote sempre reiterado nós
tural da Humanidade.': Simbolicamente,nesse momento unia as duas faces de discursos produzidos pelos órgãos culturais públicos e privados, federais, esta-
sua vida de trabalho, a do criador de imagens e a do formulador de projetos. duais e municipais
Por outro lado, é preciso não esquecer que o discurso foi apenas um dos Na vertente da preservação, tradicional e juridicamente de responsabilidade
recursos de que se valeu Aloísio no exercício de seu papel como protagonista do poder público, e regulamentadaa partir de campos disciplinares específicos

164 O PATRIAONIO [A PROCESSO & \&\\ AOBeRNÁ T65


como a história da arte, a estética, a história, a arqueologia etc., essa proposta revelaram-seinsuficientes para operacionalizar a relação entre cultura e desen-
de democratização,calcada em um argumento político e em uma concepção antro- volvimento e assegurar às populações dessas áreas meios para defender seus
pológica de cultura, encontrou. na prática, dificuldades e limites que, obviamente. interessese sua cultura.
não se apresentavampara a vertente da produção cultural (cinema, teatro, artes
A consciênciadesses limites. fruto também da reflexão sobre algumas expe-
plásticas etc.) - para a qual interessava que a atuação do Estado se limitasse riências pontuais que levaram a resultados concretos - como a realização, em
a assegurar a liberdade de expressão e a fornecer formas de estímulo à criação,
1985, do Encontro Nacional de Serlngueiros da Amazõnia, no campus da Univer-
sobretudo através de apoio financeiro. sidade de Brasília, desdobramento do PrometoSeringueiro, desenvolvido desde
Por outro lado, as diferenças de perspectiva na área da preservação (entre 1982, em Xapuri, Acre, dentro do PrometoInteração da Educação Básica e Con-
os agentes da Sphan e os do CNRC) não eram incontornáveis.A prática dos agen- textos Culturais Específicos - conduziu a Área de Referência da Dinâmica Cultu-
tes do CNRC e, posteriormente. da FNpM, como, certamente, também a prática ral da FNpM a assumir explicitamenteuma posição política comprometidacom os
dos agentes da Sphan junto às comunidadesvinha demonstrandoque os valores grupos sociais marginalizados.Essa posição foi claramente expressa no docu-
culturais atribuídos pelas elites cultas - não só, mas também através dos órgãos mento Compram;ssocu/fura/ da /Vovó RepúZ)/icajver Anexo V), produzido por
l estatais de preservação - aos bens que integravam o património eram freqüente- iniciativa de funcionários da FNpM - mais especificamente. do grupo oriundo do
mente estranhos, ou mesmo indiferentes, para as populações que conviviam com CNRC - mas que foi assinado por várias entidades da sociedade civil.
esses bens - pelo menos para grande parte dos habitantesdas cidades históricas- Esse documentofoi motivado pela vacância, em maio de 1985, do cargo de
C seja porqueessas populaçõeslhes atribuíamvalores de outra ordem, seja porque
f ministro da Cultura. com a saída de José Aparecido de Oliveira. O objetivo era
consideravam que havia necessidades mais prementes a serem atendidas pelo garantir a continuidadeda proposta de política cultural exposta nas l)/refrkes,
podor público, por exemplo, na área de infra-estruturaurbana, saúde, educação para o que se buscou o apoio de parlamentares. de intelectuais e de associações
etc. Na verdade, portanto, as diferenças de perspectiva entre os dois grupos relati- civis. O texto, tal como o documento de 1981, parte de uma concepção abrangente
vamente à orientação das atividades de preservação decorriam antes de resistên- de cultura, mas reivindicaa atenção do MinC para aspectos não específicosdo
cias de ambas as partes que de questões de princípio, pois no próprio campo processo cultural. como "saúde, educação, acesso e uso do solo, trabalho, habi-
+

tradicionalde atuação da Sphan as teses do CNRC poderiam ser comprovadas. tação etc.'. e aos "grupos diversificadosem situação de subalternidade'tais como
Mas, para que isso ocorresse, era necessário que os dois grupos desenvolvessem "indígenas. ciganos, migrantes, mulheres, favelados. garimpeiros. seringueiros.
uma atuação conjunta, o que só aconteceu muito raramente. bóias-frias etc.' Segundo o documento. esses compromissoseram "considerados
Também a necessidade de articulação do trabalho de preservação com outras como imprescindíveis ao processo de sua Ido MinC) legitimação junto aos seg-
esferas da administração pública. sobretudo com a de planejamento urbano. já mentos sociais que deve ouvir e apoiar." Além disso. diz o documento,já numa
vinha sendo constatada desde a gestão de Rodrigo M. F. de Andrade no Sphan. avaliaçãocrítica das l)Irefdzes, é preciso "que a pluralidade e a diversidadecul-
Mas a ampliação da esfera de atuação de uma política de património se apresen- tural sejam respeitadas,mas que a diferença não implique em justificativa para
tava como um imperativomais forte para os agentes do CNRC, e depois para os a desigualdadesocial'.
da FNpM, em função do sentido social que queriam imprimir a seu trabalho - para No discurso de Aloísio. o objetivo era afirmar a pluralidade e a diversidade
não falar, em alguns casos, de seus compromissospessoais, em decorrênciade culturais no Brasil, e instrumentalizar a cultura visando a fornecer indicadores
suas vinculaçõespolíticas e/ou profissionais.A esses fatos veio se juntar, no final para um "desenvolvimentoharmonioso'l já na segunda metade da década de 1980.
dos anos 70 e início dos anos 80, a pressão da mobilização social pela reconuista o importante era põr o MinC a sewiço da comoção das desigualdades económicas
dos direitos políticos. Era forçoso reconhecerque, na prática de projetos mais e sociais que caracterizavama sociedade brasileira, numa clara politização da
complexos IMaceió, Suape e, posteriormente, Ouro Preto), as propostas do CNRC questãocultural.

O PATRIAÕNIO [A PROCESSO
166 167
Y
Se no final dos anos 70. entretanto,AloísioMagalhãesconseguira,
com seu bém ao atendimentodo que hoje se define como os "direitos culturais'. objetivo
discurso e suas articulações políticas, aglutinar os setores culturais recém reu- que transcende os projetos particulares de construção e de legitimação de uma
nidos na SEC em torno de uma proposta e mobilizar o Executivo e o Congresso nação. E a defesa desses valores universais que, em princípio,situa os interesses

l Nacional para aprovar uma ampla reforma institucional, a iniciativa tomada em da preservaçãoacima e além dos governos e mesmo dos Estados. Essa concep-
meados dos anos 80, em princípio mais legítima, porque apoiada por represen- ção estava presente para os "homens de cultura" que. na Revolução Francesa,
tantes da sociedade civil, não encontrou a mesma receptividade. A ampliação da criaram as Comissõesde Arte e dos Monumentos,pois consideravamque o valor
esfera de atuação do MinC proposta no documento, a tal ponto que levava a uma dos bens produzidos pela nobreza e pelo clero transcendia sua identificação com
indiferenciação da área da cultura e a uma "intromissão' no domínio de outros o Antigo Regime. Essa é também, guardadasas devidas diferenças,a inspiração
ministérios, causou perplexidade entre os congressistas e mesmo junto a intelec- da noção de Patrlmânio Cultural da Humanidade, implementadapela Unesco.
tuais comprometidoscom a luta pela redemocratização.Esses temas foram consi- A preservaçãode bens culturais pelo Estado é, portanto, uma prática política
derados estranhos, se não ao universo da cultura, pelo menos ao de uma política eminentemente seletiva e, nesse sentido, cabe distingui-la da vertente da criação,
X cultural. Resolvia-se,assim, uma ambigüidade - no sentido da definição política - cujo pressupostoé a liberdade. No caso da preservação,é preciso lembrar que
mas produzia-se outra - na medida em que a prática cultural era nivelada a outras o exercícioda liberdadena seloção dos bens a serem preservadose na produção
l
práticas sociais. da justificativapara o seu tombamentodeve assentar em critérios explícitose que
O fato é que, desde o advento da Nova República, e mesmo durante a gestão encontrem um razoável grau de consenso junto à sociedade. Na fase heróica do
l
de um intelectual unanimemente respeitado como Celso Furtado, a política cultural Sphan eram principalmenteo valor artístico do bem, e, secundariamente,
seu valor

». {:
do MinC sem dúvida passou a perder o que chegara a conquistar nos anos anterio-
res em termos de espaço no âmbito do governo federal e de visibilidadejunto à
de testemunho, que justificavam os tombamentos. A interpretação desses valores
se dava dentro dos limites conceituais e das condições políticas vigentos, e era
sociedade. legitimada pela autoridade de quem os atribuía. Embora, como procurei apontar

Creio que uma das chaves para se compreenderessa situação, e para se no capítulo 3, essas interpretações não tonham ficado imutáveis durante trinta

IH refletir sobre a especificidade da política de preservação nesse período, pode ser anos, esses valores se mantiveramcomo os pilares da atividade de preservação.
encontradano trecho abaixo, de Gabriel Cohn, comentandoa década de 1970: E, procurando fugir a uma identificação com o nacionalismo vigente, os intelec-
tuais do Sphan se definiam como defensores de uma "consciência nacional"."
Assim, mudanças reais podem ser detectadas ao longo da década. Da subordinação
A partir dos anos 70. vários fatores contribuíram,no Brasil e no exterior, para
do processo cultural a outros(o autor refere-se à 'segurança nacional', MCLF) passa-
se para a consideração da sua dimensão social, e chega-se à idéia de que. para fazer uma mudançasensível nas políticas de preservação.Em primeiro lugar, as disci-
frente à sua dimensão propriamente cultural. cumpre considerar a política cultural naquilo plinas - sobretudo a história e, consequentemente, a história da arte - que funda-
que na maior parte da década de 70 era inexeqüível:precisamentea sua dimensão mentavam a seleção dos bens excepcionais que mereciam ser preservados, pas-
política.(1984,p. 96) saram por uma mudançade orientação,não só em termos de objeto como também
As políticas de preservação do património histórico e artístico têm sido, histó- de perspectiva. Em segundo lugar, a essa mudança no campo do saber corres-
rica e tradicionalmente, implementadas pelos estados nacionais, visando explicita- pondeua difusãoda democraciacomo valor em outros campos- sexo, etnia etc. -
mente à construção de uma "identidade nacional". Mobilizam, porém, outros atoros que não apenas o do exercício da cidadania política. Afirmavam-se os direitos das

que não exclusivamente os agentes do Estado, e outros valores que não apenas identidades coletivas particulares, sobrepondo-se à idéia, dominante no século
o de nacionalidade. A dimensão universal dos valores culturais que se pretende XIX e primeira metade do século XX. de uma identidade nacional. Em certos
preservar é uma das justificativas sobre as quais assenta a noção de /nferesse casos, propunha-senão só a construçãodos patrimóniosdas minorias até então
púl)//co.Invocada para legitimar o ónus da preservaçãode bens, para o Estado excluídas da representação da nação, como também se reivindicava a participação
e para os interesses particulares dos cidadãos. Esses bens se destinariam tam- dos múltiplos segmentosda sodedade na gestão do patrimónionacional.Em ter-

168 O PÂTRIÁON IO [A PROCESSO 169


Y

o processo de descolonização e a criação de novos Estados-nações.


ceira lugar, Como vimos, no campo específico da política de património, as primeiras mu-
sobretudo no continente africano, como também a luta dos negros pelos direitos danças foram motivadas pela necessidade de modernizar sua gestão, seja pelo
civis nos Estados Unidos, levou a novas equações de poder, que não se resumiam recurso à consultoria internacional e a instrumentos mais sofisticados de trabalho.
aos parâmetros do modelo marxista, considerado eurocêntrico. A dominação eco- como a informática,seja pela descentralizaçãoe criação de órgãos locais.
nómica se acrescentou a consciência da dominação cultural sobre os povos colo-
A criação do CNRC partiu de agentes modernos, mas que. ideologicamente,
nizados. O conceito de civilização - construído sobre a experiência histórica do
se situavam à margem do modelo de desenvolvimento que predominava na pri-
Ocidente - perdeu o seu caráter universal e foi reinterpretado como Instrumento
meira metade dos anos 70, dependente do capital internacional. Eram um repre-
de dominação da etnia européia branca. O marxismo foi considerado insuficiente
sentante da burguesia industrial nacional (Severo Games), um bacharel pernam-
para a denúncia dessa realidade, e passou a ser objeto de releituras críticas que
bucano que reorientara sua trajetória para as artes plásticas e o design (Aloísio
se propunham como atualizações, inclusive no sentido de rediscutir o lugar da cul-
Magalhães),e um diplomata de larga vivência no exterior mas voltado também
tura no jogo po]ítico(cf. Ne]son& Grossbergjed.], 1988).
para os problemas da educação e da cultura nacionais (Vladimir Murtinho). A esse
K No campo político, a questão dos direitos humanos, formulada inicialmente
grupo se Juntaramprofessores, a maioria deles recrutada na Universidade de Bra-
pelos iluministas, foi reelaborada, e o grande desafio nesse sentido passou a ser
l
l sília e nem semprena área de ciências humanas.
o de articular o universal e o particular. A própria noção de estado nacional, que
predominará no cenário político mundial até meados doste século (cf. Hobsbawm. O que quero dizer é que o trabalho desenvolvidopelo CNRC, em seus primór-
1990), ficou comprimida entre o poder dos conglomerados multinacionais e o das dios, se caracterizava por considerável independência, tanto da administração
organizaçõespolíticas locais. A via da cultura passou a constituir, nos anos 70 pública quanto dos meios universitários hegemónicas. Essa distância não deixava
e 80, um caminho privilegiado para a elaboração de novas idontidadescolotivas de ser proposltal: por querer elaborar uma visão nova da cultura brasileira, o grupo
e um instrumento fundamental para os grupos sociais que as constroem, e que, do CNRC recusava, por princípio, os modelos explicativos já prontos, as teorias
muito freqtlentemente, contestam a legitimidade dos patrimónios históricos e artís- científicas consagradas. Uma das premissas da metodologia do CNRC era que os
ticos nacionais. Essa nova orientaçãofoi buscar apoio em uma ciência até então componentes da cultura brasileira que se buscava apreender "se explicitarão de
voltada sobretudo para o estudo das sociedades primitivas: a antropologia. modo espontâneo' (Relatório Técnico Re 1), o que era altamente problemático do
No Brasil, as mudanças no campo da política de preservaçãoadquiriram um ponto de vista dos parâmetros universitários de um trabalho científico.
sentido político particular, em função do momento histórico que o país atravessava Apresentado ao prometodo CNRC, o professor David G. Hays, da Universidade
e da trajetória específica dessa política. Aqui não houve propriamente um es- Estadual de Nova York, em Buffalo, EUA, afirmava, em 1975, que "o Centro Nacio-
gotamento dos valores da modernidade e da civilização industrial. como nos países nal de Referência Cultural, proposto para Brasília, é único no mundo" (Relatório
desenvolvidosdo Norte, e sim uma profunda crise política. económica e social que. Técnico Ra2, p. 1). 0 que significa que o CNRC não foi criado apenas à margem
como observa Carlos Alberto Messeder Pereira (1981), resultou na crítica ao poder
da burocracia estatal e da universidades significa, mais ainda, que conceptual e
da tecnologia,
aos projetosde desenvolvimento
faraónicos,
e às metanarrativas
que
metodologicamente.o CNRC partia como que de um marco zero, como um ato
se propunham de amplo poder explicativo. Segundo esse autor. os anos 70 são
inauguralsobre terreno virgem, tal como ocorreu. na visão de Lúcio Costa, com
marcados pelo "antitecnicismo', poça "politização do quotidiano" e pelo "antilnte-
a criação de Brasília. Tudo se propunha como novo: o objeto (as referências),a
lectualismo'. As distinções entre arcaico e moderno, criatividade e técnica. popular
metodologia (partir de projetos-piloto sem um quadro teórico pré-definido), e a
e erudito, são redimensionadas e, em alguns casos, diluídas. Manifestações como
instituição(convênio multiinstitucional).
o tropicalismo, a poesia de mimeógrafo, as associaçõescomunitárias e as organi-
zações não-governamentais,voltadas sobretudo para a questão ecológica, são No prometo
do CNRC, pode-sedizer que a tecnologiaera domada,posta a ser-
manifestações, no Brasil, do questionamento geral dos valores da modernidade. viço da revitalizaçãoda cultura brasileirae do conhecimentode seus aspectos

170 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO h \&S\ AOD[RNÁ 171


r
menos estudados e consagrados. Em um momento de crise do modelo económico exclusivamente às classes política e economicamente mais poderosas. Esse acer-
implantado pelo regime autoritário e de desgaste da ideologia da "segurança vo. que referia predominantementea cultura luso-brasileira e o colonizador. foi
nacional', não foi difícil, portanto, para Aloísio Magalhãesencontrar no governo vinculado,no final dos anos 70, ao poder das classesdominantes,não só no
apoio para a continuidadede seu prometo.
Esse prometo,
contudo, em 1979, já se passado. como também no presente. Por esse motivo. a atuação do lphan foi criti-
modificará.Novos temas haviam sido incluídos ao lado do interesse inicial pelas cada pelos agentesdo CNRC e por pesquisado(esexternos,sobretudopor cientis-
tas sociais. como elitista e desvinculadados interessesatuaís da sociedade bra-
técnicas de informação, pelas tecnologias patrimoniais e pelo papel da cultura nos
sileira
proletos de desenvolvimento: a esses assuntos, técnicos que ingressaram no CNRC
a partir de 1977 e que haviam desenvolvidotrabalhosjunto a comunidadesca- O problema é que essa crítica, até bastante procedente, pecava ao não distin-
rentes e/ou à margem da sociedade nacional'' acrescentaram os problemas da guir os bens que haviam sido tombados - e que, enquanto património, não referiam
adequação da educação básica aos contextos culturais específicos e o do lugar apenas os grupos dominantes - da leitura e do tratamento que o lphan havia dado
»
F
[

das etnias indígena e afro-brasileira na sociedade nacional. Temas que vão levar, a esses bens, esses sim, frequentementedesvinculados dos valores de outros
K no final dos anos 70 e início dos 80, a equipe do CNRC a lidar com os grupos grupos sociais que não as elites intelectualizadas. Nesse sentido, o interesse da
sociais que participavam dos projetos não mais como meros produtores de cultura preservaçãoaparecia como distante e até mesmo como contrário aos interesses
l
e objeto de pesquisa, ou apenas como informantes,e sim como atores cuja parti- das classes populares. O fato é que o compromisso com a coletivização de uma
f' cipação era fundamental em termos da legitimidade política de sua atuação. Esse cultura culta, objetivo tão caro a Mário de Andrade. não fora assumido pelo Sphan.
era o modelo que justificava um prometoque, oriundo do CNRC, reunia diferentes
Além disso, é inegável que essa crítica era também expressão de uma luta
instituições da SEC: o PrometoInteração da Educação Básica e dos Diferentes
de poderdentroda instituiçãorecém-criada.
E. em vez de se resolverno contato
ContextosCulturais do País. Em meadosdos anos 80. como já vimos, a questão
e no debate. esse conflito se radicalizou. provocando nos funcionários do lphan,
central não era mais a da relação entre cultura e desenvolvimento.e sim a relação
entre cultura e cidadania. receosos e refratários a mudanças, ressentimentos e, consequentemente. um enri-
jecimentoem suas posiçõese em seus mitos.
O início dessa mudança de orientação dos trabalhos do CNRC coincidiu com
A falta de Aloísio Magalhães, primeiro por estar absorvido pelos seus novos
um momento de intensa reestruturação institucional na área cultural do MEC, em
encargos como secretário da Cultura e, depois, devida ao seu falecimento, em
que Aloísio Magalhãesfoi conquistandocada vez mais espaçoaté se tornar
secretário da Cultura, em abril de 1981. Nesse sentido, a fusão com o lphan, que junho de 1982. só fez intensificaressa situação, a que se acrescentaramoutros

mantivera até então os mesmos modelos de atuação dos anos 40 - o princípio fatores como a duplicação de funções, na Sphan e na FNpM, agravada com a

da autoridade nas decisões, um trabalho fundamentado em critérios rigorosos de indicação, na segunda metade dos anos 80, de dirigentes distintos para cada insti-

autenticação, uma visão predominantemente estética do património - era tarefa tuição (Aloísio Magalhães e Marcos Vilaça haviam acumulado a direção da Sphan

complexa.e não chegou a se concretizarpor vários motivos. e a presidência da FNpM)l a sucessão de dirigentes na Sphan e na FNpM, muitas
vezes com mandatos de curta duraçãol a manutenção de uma dupla administração.
Em primeiro lugar, as duas instituições. apresentadas no discurso de Aloísio
no Rio de Janeiroe em Brasília,ficandoo grupo do CNRCafastadodos outros
Magalhães como complementares, ía/avara a partir de experiências e de objetivos
setores da FNpM, sediados no Rios a falta de recursos e. sobretudo, a falta de
bastante diferentes, conforme já foi obsewado. Apesar disso. a impressão deixada
pelo Seminário da Escola Superior de AdministraçãoFazendária, de 1979, nos um programa de trabalho da instituição como um todo e do CNRC em particular,
funcionários das três instituições ali reunidas (lphan, PCH e CNRC) foi de entu- que não conseguiu articular suas diferentes coordenações em torno de um prometo
siasmo ante a perspectiva de um trabalho conjunto. comuml o desinteresse das direções da FNpM em divulgar os trabalhos da área
de Referência da Dinâmica Cultural, que se mantiveram em um nível quase vege-
O problema é que a leitura que o CNRC fazia do que denominava património
de pedra e ca/ tendia a ser negativa, associando o património tombado pelo lphan tativo, o que só aumentou o isolamento da área, dentro e fora da instituição.

172 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO 173


Y
O papel de Aloísio Magalhães havia sido fundamental no período final do regi- e divulgação
de trabalhose açõesque demonstrassem,
na abordagem
de pro-
me militar- assimcomoo de RodrigoM. F. de Andrade,
duranteo EstadoNovo- blemas específicos, como eram entendidos e operacionalizados.
no sentido de conferir à política cultural desse período uma marca própria. cujos Em seminário promovido pelo Idesp (Instituto de Estudos Económicos, Sociais
efeitos e influência transcenderam a fase do regime autoritário. Não creio que a e Políticos de São Paulo) em setembro de 'r982, Mário Brockmann Machado fez
análise do prometoimplementado sob sua dlreção dê margem a reduzi-lo a um o seguinte comentário:
mero instrumento de legitimação da fase de abertura - ainda que possa, de alguma E bem verdade que algumas medidas de renovação e areamento desse prometode
maneira, ter servido também para esse fim. política cultural foram ensaiadas, neste início da década de 80, no âmbito da Secretaria
h

Já a politização desse prometo, tal como foi conduzida, sobretudo no âmbito da Cultura do MEC. Foi o período de Aloísío Magalhães. e é de justiça que se destaque
o esforço então realizado de recuperação do conceito mais amplo de patrimónionacional
da FNpM (tendência que não ocorreu no grupo de pedra e ca4, desvinculada de
originalmenteformulado por Mário de Andrade. No entanto. essa experiência inovadora
uma reflexão crítica quanto aos objetivos e instrumentos específicos de uma
teve curta duração, não sendo possível saber-se se tais tentativas deixarão o nível do
P política de presewação. e sem ser articulada a um prometopolítico da instituição, discurso e passarão efetivamente a informar, de maneira permanente, a prática do
K
permaneceu isolada dentro da instituição e do MinC. Essa situação se mantinha tombamento de bens históricos e artísticos. (1984, p. 13)
l em 1988, por ocasião da Assembléia Nacional Constituinte, quando a área de
Ao se observarretrospectivamente
o período que acabei de analisar,fica claro
IH preservação da Sphan/FNpM encaminhou uma proposta da instituição e funcio-
que, emboratenha sido consideradoaté aqui como uma fase de uma trajetória,na reali-
nários vinculados ao CNRC atuaram vía Senalba.
dade a situaçãono final dos anos 80 era bem diferenteda do início dos anos 70.
Este balanço pode ser comprovadocom a leitura de um documentoproduzido
(

Na década de 1970, as novas propostas de trabalho na área de preservação


pela administraçãoda FNpM. no final dos anos 80, conhecido como mf parlamentar.
e, posteriormente,as reestruturaçõesinstitucionaisem âmbito federal, vieram aten-
Nesse documento, dirigido aos congressistas com o objetivo de sensibiliza-lospara
der a um interessede atualizaçãono sentido de ampliar o objeto, os instrumentos
as necessidades orçamentárias dos órgãos federais de preservação, são arroladas
e as finalidadesde uma política de patrimónioconduzida pelo Estado. Esse mo-
as principais ações desenvolvidas pela FNpM na proteção do património cultural
vimento resultoude uma mobilizaçãode setores do governo federal em que tive-
brasileiro e apresentadas as propostas para o exercício seguinte. A análise dessas
ram parte ativa atores que não estavam plenamenteidentificadoscom a Ideologia
ações e dessas propostas - essencialmente de preservação e de restauração de
do regime militar, mas que tinham um prometopara modernizaro Brasil. Como os
monumentos - vem demonstrar que a própria instituição, no final dos anos 80 não
intelectuais modernistasmencionados em Tempos de Capanema (1984). esses
se autocaracterizavade forma muito diferentedo Sphan dos anos 60.
11 agentes tentaram contrabandear,através das instituições culturais do MEC, suas
O fato é que. na prática, a síntese pretendida por Aloísio Magalhães não che-
próprias concepções de modernidade.
gou a se concretizarrealmente.
e as inevitáveis
diferenças
de orientaçãodos téc-
A análise retrospectiva desse momento, em face da realidade do final dos
nicos das três instituições fundidas, sobretudo entre os da referéncfa e os de pe-
anos 80, leva à conclusão de que, à diferençado Sphan dos anos 60-70, o que
dra e ca/, não foram superadas em uma proposta de trabalho comum. A proposta
ocorreu na segunda metade dos anos 80 relativamenteao prometodo CNRC não
do CNRC, apropriada e desenvolvida pela FNpM, encampada pela SEC e. em cer-
foi o desgaste de uma propostaque se rotinizou:foram os efeitos de sua não im-
ta medida. inclusive pela Constituição Federal de 1988, ficou conhecida pratica-
plementaçãoefetiva. Propostaque, no entanto, não deixou de influenciara prática
mente apenas enquanto discurso. Conceitos como referência. dfnám/ca cu/fura/.
de preservaçãojá sedimentadapelo lphan. E, como a linha de trabalhoda área
Ind/dadores cu/rurais. confexfos cu/rurais especücos etc., embora tenham se tor-
nado moeda corrente nos programas e projetos culturais produzidos durante a dé- de Referência da Dinâmica Cultural ficou praticamente estagnada a partir de

cada de 1980, continuavam obscuros, mesmo dentro da FNpM. Faltou elabora-los. meados da década de 1980, na realidade é através da análise das mudanças que

em termos de seu potencial cognitivo e de sua utilização, através da discussão ocorreramna prática da Sphan que se poderãoaferir as transformaçõeseventual-

174 O PATRIAÕNIOÉA PROCESSO 175


9
mente provocadasna política federal de preservaçãopelas propostas elaboradas Como era de seu feitio, Aloísio recorreua duas imagens- a do bodoquee a do cristal-
para ilustrar essa idéia: 'Pode-se mesmo dizer que a previsão ou a antevisão da trajetória
entre 1975 e 1981. Esse é o objetivo do próximocapítulo, onde será analisado
de uma cultura é diretamente proporcional à amplitude e profundidade de recuo no tempo.
o aspecto mais central dessa prática: os tombamentos.
do conhecimentoe da consciência do passado histórico. Da mesma maneira como,
analogicamente, uma pedra vai mais longe na medida em que a borracha do bodoque é
NOTAS
suficientementeforte e flexível para suportar uma grande tensão. diametralmente oposta ao
objetivo de sua direção. Pode-semesmo afirmar que, no processo de evolução de uma
Sobre a nova dinâmica Estado e sociedade diz Sérglo Costa: "No 'prometo'contemporâneo
cultura, nada existe propriamente de 'novo'. O 'novo' é apenas uma forma transformada do
de sociedade civil é básica a idéia de que esta (como em Gramscil se distingue das esferas
do Estadoe da economia,buscando-seevitar, a um só tempo, o liberalismo,no qual a passado enriquecida na continuidade do processo ou novamente revelada,de um repertório
latente. Na verdade. os elementos são sempre os mesmosl apenas a visão pode ser
Integração social se concentra no mercado, e o estatismo, onde a sociedade civil aparece
enriquecida por novas incidências de luz nas diversas faces do mesmo cristal.' (Magalhães,
subsumida ao Estado (como nos países socialistas).'(1994, p. 40-41)
1985, P. 44-45)
2
Toda nação fraca e pobre só pode existir, só pode gerar algum movimento cultural, a partir 10
'Na imagem que me ocorre a vertente patrimoniallembra uma rotação ou um círculo de
da descoberta de uma identidade nacional. O nacionalismo é o germe, é o fundamento do
diâmetro muito amplo e rotação lenta. enquanto a ação cultural, na criação do bem cultural,
fortalecimento, do desabrochar de qualquer sociedade.' (em Pereira e Hollanda. 1980. p. 341
l é um círculo de diâmetro curto e de rotação muito rápida. Ambas essas rotações, ambos
IH Por exemplo, no caso dos movimentos feministas, ficava difícil, no Brasil, utilizar a categoria esses círculos trabalham interagindo um com o outro, mas têm os seus tempos e a sua
mu/her para se fazer referência. por exemplo, a problemas comuns a patroas e empregadas dinâmica própria e específica.' IMagalhães, 1985, p. 33-1341
l
domésticas, de tal maneira a construção da identidade de cada um desses lugares socfafs 11

Refiro-me aqui não propriamente a textos, mas a debates através da imprensa e a


(
era afetada por diferenças económicas e culturais.
!.
informações, que me foram transmitidas por Paulo Sérvio Pinheiro e Luís Felipe Perret Serpa.
A análise dos debates sobre a questão da cultura na Assembléia Nacional Constituinte foi sobre reuniões informais de Aloísio com intelectuaispaulistas.
baseada em documentos obtidos junto ao Prodasen: as atas das reuniões das Subcomissões 12
Nessa ocasião,Aloísio Magalhães produziu onze litografias retratando a paisagem de Olinda
e das Comissões Temáticas, as emendas populares e a relação de entidades convocadas
para serem apresentadas durante sua exposição na reunião da Unesco.
para as audiências públicas.
13
Em 1945, em parecer sobre a cidade histórica de São Jogo del-Rei, Afonso Arinos de Meio
Em seu depoimento, Lígia Mastins Costa observou que, em 1952, ano de seu ingresso no
Franco, ardente opositor do Estado Novo e colaborador de primeira hora do Sphan, assim
Sphan, a instituição contava com apenas 104 funcionários em todo o Brasil, incluindo-se
se referia a esse serviço: "Não acredito que um brasileiro consciente ponha sequer em dúvi-
nesse total agentes administrativos e mestres-de-obras.
da a singular contribuição que o Sphan, em poucos anos de existência. graças aos seus
Em 1976, Bárbara Freitag foi substituída pelo antropólogo Georges Zarur. também da UnB. Ininterruptos trabalhos especializados, Inclusive suas publicações, vem prestando à nossa
e ingressou no CNRC a professora Clara de Andrade Alvim. vinda da PUC-Rio. consciência nacional. Inteiramente insuspeito para falar, pois, desde 1937, nunca pactuei

É curiosoque a retomadadessa problemática- a discussãoda relação entre cultura e com a ditadura e sempre a combati frontalmente, entendo que a criação do Sphan representa

modelos de desenvolvimento adequados às condições locais -, na segunda metade dos anos grandeserviço prestado pelo infeliz Estado Novo ao nosso país.
14
80, pelos grupos ecológicose pelas políticas voltadaspara a questão do meio ambiente, Refiro-mea Luís Felipe Perret Serpa e José Silva Quintas. com formação em ciências
tenha tido como um de seus principaiseventos propulsoreso EncontroNacionalde Serin- exatas, mas com experiência em educação, e ao antropólogo Olímpio Serra.
gueiros. promovido com base em prometoque já vinha sendo desenvolvido na Área de Refe-
rência da Dinâmica Cultural da FNpM.

'Essa relação de tempo é curiosa porque é preciso entender o bem cultural num tempo
multidimensional.A relação entre a interioridade do passado, a vivência do momento e a
projeção que se deve introduzir é uma coisa só. É necessário transitar o tempo todo nessas
três faixas, porqueo bem cultural não se mede pelo tempo cronológico.' (Magalhães.
1985,p. 661

176 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO & \b\\ AaD[RNÁ 177


CAPITULO 5
A PRÁTICA Dll TOA\BAAlINTO: 1970-1990

As expressões 'Livros do Tombo" e "tombamento"provêm do


Direito Português, onde a palavra "tombar" significa "inventariar.
'arrolar ou 'inscrever" nos arquivos do Reino, guardados na Torre
do Tombo'

Hely Lopes Meirelles, D/re/fo admh/sfraffvo brasa/e/ro.

E
r
(

Se, nos anos 70-80. houve uma evidente ampliaçãoda conceituaçãode pa-
trimónio, em termos dos instrumentos de presewação, no entanto, praticamente
não.se recorreu,no Brasil. em nível federal, a formas alternativasàs do tradicional
instituto do tombamento. Foram realizadas algumas experiências, como o trabalho
de preservaçãodo Morro da Concepção,pela Sphan jcf. Arnaut, 1984), e os inven-
tários tecnológicos, pelo CNRC (cf. Maureau, 1984). Acham-se em curso trabalhos
de inventário de bens móveis e de bens imóveis. A preservação dos monumentos
arqueológicos e pré-históricos é, hoje. regulada por lei específica. Re3.924, de 26
de julho de 1961. A proteção dos bens culturais móveis, defasada em relação à
proteção do património Imobiliário, cabe tradicionalmente aos museus (cf. Costa.
1987). Por iniciativa da museóloga Lígia Martins Costa, especialista em história
da arte e crítica, foi elaborado o conceito de bens móveis integrados. particular-
mente importante para a consewação dos bens de arquitetura religiosa. Os acer-
vos arquivísticos e bibliográficos, assim como o património natural. têm sido obje-
to de estudos visando a levar em conta a especificidade de sua proteção.
O fato, porém. é que mesmo os projetos do CNRC acabaram, em vários casos,
levando a propostas de tombamento. E embora os técnicos do CNRC, e poste-
riormente os da Sphan/FNpM, tenham elaborado textos e promovido debates sobre
o assunto,e o artigo216 da Constituição
de 1988indiqueexplicitamente
a busca anteriores, agravou-se, a partir dos anãs 70, em consequência da tendência ao
de "outras formas de preservação e acautelamento'. a prática da Sphan em termos tombamento de conjuntos e a uma preocupação maior com o entorno dos bens
de preservação continuou concentrada nos tombamentos. Por esse motivo. é basi- tombados. Problemas graves, nesse sentido. ocorreram no tombamento da cidade
camente nos processos de tombamento abertos nesse período que se explicitam de Antõnio Prado, Rio Grande do Sul. dos conjuntos das avenidas Nazareth e Go-
os critérios que orientaram a proteção a bens imóveis, núcleo do património cultu- vernador José Malcher. em Belém, Para, e do prédio da Light, do Hotel Copaca-
ral brasileiro. bana Palace. do Parque Lage, e da Praça XV, no Rio de Janeiro, entre outros,
todos envolvendo interesses contrariados de proprietários ou de empreiteiros.
5.1 A SIST[AÁTICA DOS PROCESSOS
DE TOABM[NTO
No caso dos bens móveis, a situação é diferente. O reconhecimento de seu

Na atividade desenvolvida pelo Sphan desde 1937, o tombamento tem se cons- valor cultural certamentevaloriza toda essa gama de bens no mercado de anti-
tituído no instrumento de preservação por excelência, a ponto de, conforme ob- guidades. Nesse sentido, é particularmente frágil a situação dos acenos de bens
serva Sõnia Rabelo de Castro (1991, p. 5), confundir-setombamentocom preser- sacros das igrejas tombadas, objeto de furtos freqüentes. e que, devido à dificul-
vação. Atualmente, além de instrumentojurídico com implicações económicase dade de controle do comércio de objetos antigos, dificilmente são recuperados.
l sociais, o tombamento tem sido considerado e utilizado, tanto por agentes oficiais Em função, portanto. da natureza conflitante dos interesses em jogo no caso
IH
quanto por grupos sociais, como o rito, por excelência. de consagração do valor da proteção aos bens imóveis, e do peso dos monumentos no património histórico
f
b culturalde um bem. e artístico nacional, os processos de tombamento constituem espaços de expres-
c.
c. O tombamento tem sido apropriado pela sociedade brasileira de forma dife- são desses confrontos, onde se podem captar as várias vozes envolvidas na
renciada e. nesse sentido. pode ser consideradode forma positiva ou negativa. questão da preservação e sua influência na condução dos processos.
Ter um bem de sua cultura tombado pode significar, para grupos económica e so- Nesse sentido. consideraremo instituto do tombamento não tanto no seu as-
cialmente desfavorecidos, benefícios de ordem material e simbólica. além de de- pecto jurídico ou técnico, mas enquanto a prática mais significativa da política de
monstração de poder político. Os tombamentos de bens representativos da pre- preservaçãofederal no Brasil. Significativa, não só pelo poder de delimitar um uni-
sença negra no Brasil - o Terreiro da Casa Branca, em Salvador. e a Serra da verso simbólico específico. como também por intervir no estatuto da propriedade
Barriga. em Alagoas - foram conduzidos por grupos vinculados aos movimentos e no uso do espaço físico. E significativa,sobretudo. porque constitui um campo
negros como verdadeiraslutas políticas. No caso da Casa Branca, inclusive,tra- em que se explicitam- e onde se podem apreender- os sentidos da preservação
tava-se de evitar o despejo do terreiro de candomblé do local onde funcionava para os diferentes atores sociais envolvidos. Interessa-me. portanto, analisar essa
desde meados do século passado. Quanto às cidades históricas, o tombamento, prática em suas implicaçõesna vida social, ou seja: o uso que dela fazem os
ao assegurar a manutençãode sua feição tradicional, pode significar uma alter- agentes oficiaisl o modo como dela se apropriam os que a solicitaml as reações
nativa economicamente lucrativa para a população, através do turismo, como vem daqueles que são afetados por sua aplicação ou pelo não atendimento desse tipo
ocorrendo com Tiradentes. em Minas Gerais. Já em centros históricos degrada- de solicitação. Nesse último caso, me limitaremàs Jnanifestações incorporadas aos
dos, como era o caso do Pelourinho, sua restauração implicou um remanejamento processos, embora tenha consciência de que são apenas as que ocorreram no
e eventual saída dos moradores de menor renda. período entre o pedido de tombamento e sua resolução.
Por outro lado, dadas as restrições que o tombamentoimpõe ao bem con- A escolha dos processos de tombamento em depósito no Arquivo Central do
siderado enquanto mercadoria, e os limites que acarreta ao uso do imóvel, esse atual Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional. no Rio de Janeiro.
instrumento costuma ter consequências consideradas indesejáveis para extratos como material de pesquisa,foi feita em função dessas razões. Bastante rápidos
das classes média e alta, como proprietários de imóveis em setores urbanos anti- e sucintosnos primórdiosdo Sphan- até por razõesestratégicas
-, a partirda
gos e empresários da construção civil.' Essa situação, já comum nas décadas década de 1960 esses processos passaram a ser formados segundo uma certa

180 O PATRIAON10 EA PROCESSO A PRATICA


Dt TOABÂ#llINTO:
1970.1990 181
Y
Sistemática,constituindo-se em verdadeiros dossiês, a que são anexados não muitas vezes com implicaçõesjurídicas, económicas e políticas: os critérios de
apenas os documentos oficiais (pedido de tombamento, notificação ao proprietário. atribuição de valor artístico e de valor histórico, de valor excepcional e de valor

pareceres, atam do Conselho Consultivo, eventuais impugnações e contra-razões nacionall a questão dos Programas Novos e dos bens identificados com a cultura

etc.l como todo material que diga respeito ao processo (recortes de jornais e re- popular e os diferentes grupos étnicosl as noções de conjunto urbano e de cidade
vistas, cartas. abaixo-assinados,informaçõesextraídas de livros e folhetos, fotos. históricasa questão do entorno dos bens tombados, além, é claro, da questão

plantas, desenhos etc.). Dado o seu formato - todos os documentos são orga- maior da especificidade e dos limites do instituto do tombamento, assim como da

nizados em ordem cronológica- esses dossiês nos permitem acompanhara his- legitimidadeda Sphan para decidir, sozinha, sobre a questão.
!. tória desse processo de ressemantizaçãode um bem que constitui um processo
de tombamento,e entender não só o seu desfechocomo, considerandoo universo 5.1.1 A origem dos pedidos
h
dos processos. os critérios que nortearam a prática de preservação no período Se, nas décadasanteriores à de 1970, a grande maioria das solicitaçõesde

11
l
70-80.2

Desse ponto de vista, os processos arquivados são tão importantes para a


tombamentotinha origem na própria instituiçãofederal, a partir desse momentohá
um aumento significativo de solicitações externas à Sphan. Entre os 95 processos
pesquisa quanto os processos que resultaram em tombamento. Ficaram excluídos. arquivados,até 1969, a maior parte foi aberta por iniciativa de representanteda
11 Sphan. Já entre os 89 processos arquivados, entre 1970 e março de 1990,' apenas
enquantoobjeto de análise, os processosainda em estudo, uma vez que não se
t
C
tem uma resolução.em termos de atribuiçãode valor, por parte da instituição,no onze solicitaçõespartiram da instituiçãofoderal (13%). De acordo com o levanta-
que diz respeito àqueles bens. Mas. graças a um estudo realizado pelo Departa- mentofeito pelo Departamentode Proteção(Deprot), entre os processosem estu-
C
mento de Proteção, em 1992, sobre um conjunto de processosem estudo,' e a do também aumentou consideravelmente, nas duas últimas décadas, o número do
um levantamentoque fiz no arquivo, foi possível extrair também desse conjunto processosabertos por solicitação externa à instituição. Entre os processos que
alguns dados significativos. resultaramem tombamento.as solicitações partindo da instituição correspondem

De la de janeiro de 1970 a 14 de março de 1990 foram abertos 481 processos a pouco mais da metade.'
de tombamento(ver Anexo VI). Desse total. 135 resultaram em tombamento,74 Esses dados levam a supor que, sem dúvida, houve um aumento na partici-
foram arquivados,e 272 achavam-seem fase de estudos.' Uma primeiraconclusão pação da sociedadecivil na política de preservaçãofederal no períodoem questão.
evidente a partir da análise desses dados é quanto à dificuldade da instituição em Entretanto, quando comparamos o conjunto dos processos que resultaram em tom-
dar andamentoaos processos, que permanecem,às vezes, décadas sem reso- bamento aos outros dois conjuntos (processosarquivados e processos em estu-
lução. Essa situação foi agravadaa partir de março de 1990, quando ocorreu, no do), verificamosque o fato de o pedido parir de agente institucionalconstituifator
início do governo Collor, a paralisaçãodas atividades da Sphan em decorrência favorávelao tombamento,o que pode ser atribuído a duas causas: seja que esse
da reforma administrativa e da dissolução do Conselho Consultivo, reconduzido agente ostá mais familiarizado com os critérios técnicos que orientam a seleção
em maio de 1992.s Não é difícil imaginar as conseqilências dessa morosidade. dos bens passíveisde tombamento,seja que, por estar ciente e envolvidono pro-
sobretudoquando se trata de pedido de agente externo à instituição.e num mo- cesso - que, em princípio, é do interesse da instituição - contribui para seu andamento.

mento em que a Sphan/FNpM propunha a participação da comunidade como pedra Mas é evidenteque o interesse na presewação de bens culturais deixou de
de toque de sua política de preservação. ser quase que exclusivo dos funcionários da Sphan, conforme ocorria nas décadas
Na análise dos processos foram levantados os seguintes dados: solicitante, anteriores. Assembléias legislativas e prefeituras, por iniciativa pessoal de con-
data do pedido, justificativa da solicitação.avaliação técnica e jurídica, resolução gressistas e prefeitos ou enquanto intermediárias de grupos locais, encaminharam
do pedido. A partir da análise desses dados, foram detectadosos principaispon- vários pedidos,do mesmo modo que instituiçõesculturais. São. inclusive, inúme-
tos que, nesse período, constituíram objeto de discussão e/ou de reconceltuação, ros os pedidos de tombamentode prédios históricos por parte dos diretorese/ou

O PATRIAONIO [A PROCESSO A PRÁTICA


Dll TOABÁAeNTO:
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182
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funcionários das instituições que neles funcionam (Escola de EnfermagemAna do ideário da preservação,como meio para conseguir, junto ao governo federal.
Neri, no Rio de Janeirol Faculdadede Direito do RecifesHospital São Francisco recursos para a solução de problemas urbanos locais. sobretudo em função da
de Assim,ObservatórioNacional, Colégio Pedra 11,Fundação Osvaldo Cruz, ABI. carga simbólica da idéia de património. no sentido do reforço às identidadeslo-
todos na cidade do Rio de Janeirol antiga sede do DepartamentoNacionalde cais.o Essa apropriação possivelmente foi um-dos efeitos do novo discurso sobre

Obras contra a Seca (Dnocs) em Fortaleza etc.). Entre os particulares,os pedi- o património, produzido e difundido pela FNpM. .Entretanto, em que medida esses
dos costumam partir ou de proprietários ou de pessoas de algum modo familiari- pedidos implicavam o envolvimento das comunidades locais, conforme se pro-
zadas com a questão da preservação- arquitetos,artistas, historiadores,intelec- punha nas D/refrizes,só estudos de caso. com dados fornecidos pelas agências
locais, que têm condições de acompanhar as reações dos diferentes setores das
E tuais em geral. São ainda raros, nesse período, os casos de grupos que se mo-
/
bilizam especificamente para essa finalidade, ou de associações formadas em populaçõeslocais a esses pedidos de tombamento, poderiam elucidar.
\

b
função de uma demanda patrimonial. O zoom de associações que ocorreu no Do mesmo modo, apenas esses estudos permitiriam avaliar os resultados da
Brasil a partir da segunda metade da década de 1970 ainda não chegou ao patri- propostafeita pela FNpM, nesse período,no sentido da democratizaçãoda política
monio.8 de preservação.Na verdade, a estratégia da instituição se concentrou na elabo-
ração de um discurso, amplamentedifundido,em que a comunidadeera incluída
l Entretanto,casos como os das igrejas de Santana, no Ceará, e a de Pau do
11 lb Alferes, no Rio de Janeiro, e do conjunto de casas na Praça Coronel Pedro Osó- não apenas como objeto ou população-alvo,mas também como sujeito chamado
P a participar junto com os agentes institucionais. O lema desse discurso era "a
rio, em Pelotas, Rio Grande do Sul, em que a populaçãolocal se mobiliza para
t pedir o tombamento,sensibilizaramos técnicos da Sphan, que levaram esse fato
comunidadeé a melhor guardiã de seu património'.''
c.,f Na prática dos trabalhos de preservação, porém, tanto nos mecanismos de se-
em consideração na indicação para tombamento. Pedidos como o da Serra da
leção de bens para tombamentoquanto, com mais motivos, nas obras, os proce-
Barriga, em Alagoas,com mais do mil asslnaturaslo do Terreiro da Casa Branca.
dimentos adotadoscontinuaram os mesmos das décadas anteriores: a avaliação
em Salvador, apoiado por representantes de instituições culturais e acadêmicas.
técnica dos pedidos de tombamentosendo feita pelos setores técnicos da Admi-
por representantes do movimento negro e por grupos locaisl o da Estrada de Ferro
nistração Central da Sphan, que. inclusive. até 1988, indicavam os processos para
Madeira-Mamoré, em Rondânia, encaminhado ao então lphan por ex-ferroviários
arquivamentoe o julgamento final feito pelo Conselho Consultivo, que, na quase
como forma de sustar a venda das peças da ferrovlal e o do Hotel Copacabana
totalidadedos casos. acompanhavao parecer dos técnicos da Sphan. Pelo que
Palace, no Rio de Janeiro, apoiado por várias associações de moradores da cida-
foi possível verificar nos processos, a participação das Delegadas Regionaisda
de, demonstramuma possibilidadede organizaçãoda sociedadepara esse tipo
Sphan/FNpMera restrita aos pareceres.
de moção, mas constituem exceções no conjunto de processos abertos no período.
E possível, portanto, qualificar a participação da sociedade nos tombamentos.
Da mesma forma, mas em sentido contrário, o pedido de tombamentoda cidade
a partir da análise dos processos: se. por um lado, os pedidos de tombamento
de Antõnio Prado, no Rio Grandedo Sul, pela 10: DR da Sphan, encontrouresis-
deixaram de ser iniciativa quase que exclusiva da instituição, os mecanismosde
tência tenaz da populaçãolocal. que se organizou para impugnaro tombamento.
decisão continuaramrestritos aos órgãos técnicos da administraçãocentral e, sal-
Nesse caso, foi o trabalho de esclarecimento quanto às vantagens do tombamento.
vo casos excepcionais,não foi possível detectar muitos casos de mobilizaçãode
feito pela Sphanjunto aos habitantesda cidade, que conseguiurevertera situação.
setores da sociedade no sentido de pressionar a Sphan na prática da preservação.
E preciso, porém, qualificar a natureza da mudança indicada por esses dados.
Pode-se argumentar que. em se tratando de tombamentos em nível federal, ou
Na verdade,o interesse que move os pedidos varia. caso a caso. A grande inci-
seja, de definir valores nacionais e não locais, a participação popular nos pro-
dência de solicitações encaminhadas por assembléias e prefeituras faz supor que,
cessos decisórios é bem mais complexa: criar mecanismosinstitucionaisem que
dadas as características da representação política no Brasil. até meados da déca-
a sociedadeesteja representadapoderia converter a seleção de bens para inte-
da de 1980,o que ocorreufoi uma apropriaçãopor parte dessesatires políticos
grarem o patrimónionuma decisão mais política que técnica. Entretanto,essa tem

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DE TOÁBAIK[NTO:
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sido a alternativaconsideradamais eficiente, mesmo por países de tradição cen- e do Hospital São Francisco de Assim, também no Rio de Janeiro, que foram tom-

tralizadora,como a França, onde, desde 1984, funcionamas ComissõesRegionais bados. Cabe lembrar o polêmico caso do tombamento da Casa Modernista. em

do Património Histórico, Artístico, Arqueológico e Etnológico (Corephaae) IMesnard. São Paulo, que abriu um perigoso precedente com a vitória dos proprietários, na

1990,p. 430)l em Portugal,onde, a partir da lei n' 2.032, de ll de junho de 1946. justiça estadual, quanto ao pagamento de indenização por perdas de danos. Nesse
caso, o tombamentopelo Conselho de Defesa do Património Histórico, Artístico,
as câmaras municipais podem promover, junto às entidades competentes, a classifi-
cação de bens existentes em seus concelhos como "valores concelhios' (IPPAR, Arqueológicoe Turísticodo Estado de São Paulo (Condephaat)foi feito quando
os herdeiros de Warchavchick já haviam acertado a venda do imóvel com uma
1993, p. xx)l na Espanha, em decorrênciada situação das comunidadesautóno-
construtora e, inclusive, recebido um sinal do pagamento. Como o negócio fai
!. mas, que gozam de muito mais independênciaem relação ao poder central que
desfeito em conseqtlência do tombamento, os herdeiros tiveram que devolver.
os estados brasileiros. o poder local tem participação decisiva na construção do
corrigida e com multa, a quantia recebida. Esse fato provocou discussão e críticas
património nacional etc.l para não falar em países como a Grã-Bretanha e os Esta-

11
l
dos Unidos. onde entidades não-governamentais,como os National Trusts. têm
significativa participação nas atividades de preservação, ou do Canadá onde, des-
de 1951. integram a Comissão dos Lugares e Monumentos Históricos do Canadá
na imprensa às políticas de tombamento, não só nos estados, como também em
nível federal - embora. no caso, a população do bairro de Vila Mariana tenha se
mobilizadoe mesmo se organizado para impedir a destruição do imóvel.'l

IH representantesde todas as provínciase territórios.No Brasil, essa questão conti- As justificativas produzidas por agentes externos à instituição costumam en-
P
nua em aberto, e pouco se avançou na sua discussão(d. Falcão, 19841Bosi. 1987). fatizar o valor histórico do bem, apoiando-se, muitas vezes, em pesquisas de do-
cumentos e bibliografia. A aferição do valor artístico do bem - pelo menos dentro
5.1.2]us+ifica+ivas, pareceres e impugnações de critérios mais rigorosos - não só é menos accessível a esses requerentes
como não é o valor que predomina nas solicitações de tombamento.
Nesse período, os pedidos de tombamento vêm, necessariamente,acompanha-
dos pelos argumentos que os fundamentam. Muitas vezes. é possível distinguir o As justificativas dos pedidos de tombamento costumam se apoiar na letra do

interesse mais imediato do pedido (impedir uma demolição, desejo de dar deter- decreto-leiRo25, de 30.11.37,a que nas décadasde 1970 e 1980se incorporaram
minado uso ao Imóvel, como museu, casa de cultura etc.l meio de conseguirverba outros argumentos,como o potencial turístico do bem, seu valor afetivo para a

para restauraçãol mero desejo de garantir a preservação do bem por seu valor afe- comunidade, a falta de órgão- local de preservação etc. Os pareceres técnicos

tivo para a comunidade local etc.) da justificativa, que seria a afirmação do valor avaliam essas justificativas em termos do interesse, do ponto de vista da insti-

cultural do bem enquanto património nacional. Essa justificativa, que consiste basi- tuição, em preservar aquele bem o, quando é o caso, discutem os termos das

camentena afirmaçãode valor artístico.de valor histórico.


da excepcionalidade
do impugnações aos tombamentos.

bem ou de sua importânciaem termos nacionais. costuma ser formulada de um mo- Nesse período, vinte dos 135 bens tombados o foram compulsoriamento, con-
do que revela, por parte dos requerentes- no caso, refiro-me aos externos à institui- tra 53 entre os 803 tombamentos efetuados no período anterior.': Praticamente
ção - algum conhecimento do cód©o da Sphan, pois em geral se pode reconhecer todas as impugnações foram derrotadas no Conselho Consultivo, mantendo-se.
na justificativa dos pedidos a linguagem do discurso oficial. assim, a mesma conduta da fase hera/ca. O aumento proporcional do número de

Como frequentemente é a ameaça de perda que motiva os pedidos de tom- tombamentos compulsórios no período após 1970, que, aparentemente, indica
bamento- e não uma seleçãofeita na base de um inventárioprévio-, muitas maior resistênciaem relaçãoao tombamentoe a suas conseqüênciassobre a
posse e o uso de um bem Imãs que. suponho, decorro, sobretudo. do modo como
vezes o pedido é feito em um momento quando outros interesses, contrários à pre-
são conduzidos, nas últimas décadas. os processos de tombamento, dentro de
servação do bem, já estão em jogo. Foi o caso, por exemplo. das residências das
embaixadas da ltália e da Argentina, e da Casa do Duque de Caxias. ex-Palácio uma sistemática mais definida), levou à discussão e à elaboração, por parte de

Ducal. no Rio de Janeiro, que foram destruídas, e do Hotel Copacabana Palace técnicos e assessores jurídicos da Sphan, das questões suscitadas pelas impug-

A PRATICA DE TOABAAlINTO: 1970-1990 18 7


186 O PATRIÁÕNIO EA PROCESSO
nações, gerando assim uma jurisprudência sobre as novos problemas que se modernistas,a semelhança de sua arquitetura com a colonial não era de aparência
apresentaramà atividadeda instituição. ou de efeito, como ocorria com as construções neocoloniais, e sim de estrutura.

Esses problemas remetem à redefinição de valores - valor histórico, valor A ruptura com o passado. com a tradição, que caracterizou a arquitetura mo-
artístico,valor excepcional,valor nacional - e de conceitos - como o de centro derna desenvolvidana Europa, na primeira metade do século, como já foi dito no
histórico e de entorno. A própria competência exclusiva da Sphan de atribuir valor capítulo 3, não se reproduziu no Brasil da mesma maneira. Aqui, os arquitetos
a bens enquanto patrimóniohistóricoe artístico nacional se tornou também objeto modernistas,douó/és de funcionários públicos, procuraram estabelecor um sen-
ll de discussão e de reflexão. Esses temas foram levados às reuniões do Conselho
tido de continuidadee construir uma tradição brasileira com base em determi-
h'
b. Consultivo,órgão que foi assumindo,progressivamente,
mais atribuições. nados preceitos estéticos, os da l)oa arqu/fefura. A arquitetura moderna no Brasil
[.}
F[.) 5.2 0S PRINCIPAISPROüleAAS
rompia com a das belas-artes,de origem francesa, em dois sentidos, estético e
qk-'H ideológico. Do ponto de vista estético, os arquitetos modernistas consideravam
l que, no estilo eclético. o funcional e o decorativo estavam dissociados,o que fez
5.2.1 As concepções de valor histórico e de valor artístico com que considerassemesse estilo, assim como o neocolonial,"não-arquitetura'.
#.

Em relação ao va/or adéfico dos bens patrimoniais,as principais mudanças Do ponto de vista ideológico,as construçõesem estilo eclético eram consideradas
11 se deram em dois sentidos: primeiro,através da inclusão no patrimóniode estilos transposições acríticas de influências européias, modlsmo das elites que aqui
11: recentes, considerados, até então, pelos critérios da casa, como não-artísticosl tentavam reproduzir o Velho Mundo. Já a arquitetura modernista desenvolvida no
It segundo,atravésda ampliaçãodo que é consideradoobra de valor artístico. Brasil, embora fortemente influenciadapelo suíço Le Corbusier. procurara,desde
c.
A atribuição de valor artístico a estilos estéticos e arquitetânicos recentes é o início, afirmar seu caráter de arquitetura nacional,explicitando,de um lado, sua
um fato característico do processo de constituição dos patrimónios históricos e adequação ao clima e às condições económicas e sociais locais. e, de outro, de-
artísticosnacionais.a partir da década de 1960. Até então, considerava-seneces- monstrando sua vinculação com a tradição construtiva luso-brasileira.'3 Por esses
sário observarum recuo históricomínimo para a inclusãode bens nos patrimónios- motivos, o Estado pede, nos anos 30, encampar sem maiores dificuldades esse
recuo esse que, em geral, se situava em meados do século XIX. Ideário, que se prestava à afirmação da nacionalidade tanto na construção de
No caso brasileiro,porém,essa não era a principalrestrição.Já em 1947, o símbolosdo presente(o prédio do MEC) quanto na preservaçãodos marcos do
Sphantombara a Igreja de São Francisco,na Pampulha,e em 1948, o prédio do passado (o trabalho do Sphan).
MEC, ambos recém-construídose ambos por seu valor artístico. Por outro lado.
Não foi difícil para os arquitetos do Sphan a inclusãoentre os bens tombados
a seleção de bens imóveis para tombamento estava subordinada a uma concepção
de construçõesem estilo a/f-nouveau,por seu valor artístico.Nesseestilo, con-
bastante restritivade valor artístico, em função de uma visão normativa da arqui-
forme palavrasde Giulio CarãoArgan, "a decoraçãotambém se torna tensão, elas-
tetura, que Lúcio Costa assim sintetizou:
l ticidade. expressãosimbólica de uma funcionalidade cujo dinamismoé uma
A boa arquiteturade um determinadoperíodovai sempre bem com a arquitetura característicado mundo moderno' (1992b, p. 90).
de qualquer período anterior - o que não combina com coisa alguma é a falta de
Ainda na década de 1960, Lúcio Costa propusera o tombamento do prédio onde
arquitetura. (IBPC - Boletim Ra 22, 27.2.921
funcionava.no Centro do Rio de Janeiro, a tradicional loja de artigos masculinos
Esse princípio levou a uma leitura da arquitoturabrasileiraque via afinidades
A Torre Eiffel, em estilo arf-nouveau.O imóvel ia ser demolidoem função de sua
estruturaisentre as construçõescoloniais e as modernistas,numa linha de conti-
venda pelos proprietários:os comercianteseram locatários,e teriam que deixar o
nuidade que remontava à Antiguidade greco-romana. Recursos construtivos colo-
local. O tombamento não foi efetivado devido à argumentação dos advogados dos
niais, como as construções sobre estacas, as treliças, e o pau-a-pique, eram
proprietários,de que a motivação do pedido era proteger o uso do imóvel, en-
associadosaos pllotis, aos brlse-solel/se ao concreto armado. Para os arquitetos

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Dt TOABAAENTO:
1970-1990 189
T
quanto estabelecimento comercial, e não sua arquitetura. O processo foi arqui- De um lado, Lígia Martins Costa, então chefe da Seção de Artes da DET, em cujo
vado, o prédio demolido, mas várias peças da edificação foram cedidas ao Sphan." apoio veio posteriormente Lúcio Costa, já aposentado, considerava que faltava
Em 1970, Lúcio Costa pediu o tombamento de uma casa em estilo a/t-nouveau, unidade ao conjunto, quebrada por construções como o edifício Apoio ll e pelas
do arquiteto Virzi, na Praia do Russel. Rio de Janeiro (Proa. 825-T-70). Esse foi adulterações sofridas por alguns prédios. De -outro. o arquiteto e professor Paulo
o primeiro exemplar em estilo arf-nouveau tombado pelo Sphan, de que, segundo Santos, membro do Conselho Consultivo e relator do processo, que defendia o
Paulo Santos. existem pouquíssimos exemplares autênticos no Brasil. tombamentodo conjunto por seu valor em termos da história da arte brasileira.
l Mais complexa, e bem mais difícil, foi a valorização artística do ecletismo.'; Na verdade, mais que uma discussão sobre estilos ou sobre a noção de con-
q' Já nos anos 1960, haviam sido tombadas algumasedificações,mas por seu valor junto, o que se achava em jogo eram perspectivas distintas de valoração, ponto
b.«
histórico." Foi apenas com o tombamento dos prédios da Avenida Rio Branco que a que alude Paulo Santosem sua longa e detalhada resposta ao parecerde Lígia
:.) o valor artístico desse estilo começoua ser aceito pelo Sphan. Martins Costa:

l No processo do conjunto da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro (Proc.


Compreendo o enfoque de dona Lígia, seja em relação ao conjunto de edifícios.
860-T-72), ficou evidente o confronto entre critérios distintos de valoração dentro seja em relação aos do Dérbi e Jóquei. Ela apreciou uns e outros a partir dos princípios
dos quadros técnicos do Sphan. O pedido. feito pelo Instituto dos Arqultetos da que norteiam a Arquitetura e o Urbanismo modernos, em que a unidade de estilo, volume
JI.ü Brasil (IAB) e pelo Clube de Engenharia. "as duas entidades de classe mais pres- e forma é consideraçãobásicapara a qualidade da obra. Mas o enfoque, igualmente
tigiosas e mais habilitadasa fazê-lo' lo que dava a esse pedido um peso espe- moderno, para a apreciação de obras do passado é diferente, repudiando sejam elas
çi.,.
cial), solicitava o tombamentode nove edificações: Palácio Monroe, Tribunal de julgadaspela consciênciaestética dos nossos dias e sim a partir do pressupostode
que cada períododa História da arte tem direito a ter seu próprioestilo e deva ser
Justiça, Biblioteca Nacional, Escola de Belas Artes, Dérbi Clube, Jóquei Clube.
apreciado,em todos os seus aspectos,em função da cultura de que se nutre e das
Clube Naval, Teatro Municipal e Assembléia Legislativa. Tinha como justificativa
idéias estéticas por que se expressa. (p. 141
o fato de esseconjuntorepresentar
o testemunho
da remodelação
feita na cidade
pelo prefeito Perelra Passos. no início do século. Em termos de valor histórico, Paulo Santos se alinhava. poRanto. aos que reconheciam a relatividade dos
a antiga Avenida Central seria para a Primeira República o que a Praça XV fora juízos de valor, contra qualquer princípio canónico no ato de valoração que discri-
para o Império. A motivação do pedido surgiu da ameaça de demolição dos pré- minasse estilos na história da arquitetura - como faziam os arquitetos modernis-
dios do Jóquei e do Dérbi, que dariam lugar a um arranha-céu. tas. Desse ponto de vista, o valor histórico do conjunto enquanto único testemunho
A importância desse conjunto não era somente histórica. A arquitetura da de alto porte da Be//e Evoque na capital da Repúblicaadquiria maior importância
Avenida Central tinha, conforme observação de J. Needel1 (1993), função "meta- em termos da indicaçãopara tombamento.Paulo Santos consideravao ecletismo
fórica'. Sua concepção não visava apenas a resolver um problema urbanístico. como estilo estética e arquitetonicamente
válido, na medida em que se propunha
mas também a marcar a presença do progresso e da civilização, banindo os vestí- a analisa-loà luz do momento histórico em que emergiu. Via nesse estilo um do-
gios do período colonial, "símbolos de uma cultura que os cariocas europeizados cumento da evolução da arquitetura e a expressão de seu tempo, final do século
queriam esquecer' (Needel1,1993, p. 71). As fachadas dos prédios haviam sido XIX e início do XX - tempo de confronto entre a sociedade pré-industrial.carre-
submetidas a um júri, que as avaliou dentro dos critérios do ecletismo francês. gada de tradições. e a sociedade industrial nascente, que buscava novas formas
Para o autor já citado. "a Avenida Central tornou palpável a fantasia de Civilização de expressão estética. formas essas que só surgiram. no Brasil. a partir dos anos
compartilhada pelos cariocas de elite da Belle-Époque' (idem, p. 68). 20. com a arquitetura modernista de Warchavchicke do próprio Lúcio Costa.
A análise feita pela Divisão de Estudos e Tombamentos (DET) do pedido em Foi em nome da "boa arquitetura" que Lúcio Costa se insurgiu veementemente
questão - que, considerando que as edificações não constituíam um conjunto, as em seu parecer. Não consideravao ecletismo um período da história da arte e
avaliou individualmente, propondo o tombamento apenas do Teatro Municipal e da
sim "um hiato nessa história". Ao defender sua posição. que coincidia com a de
Escola de Belas Artes - abriu uma divergênciainusitada na história do Sphan.
Lígia Marfins Costa, Lúcio Costa fez as seguintes ponderações:

190 O PATRIAONIO [A PROCESSO A PRÁTICADE TOABAA[NTO: 1970-1990 }91


Se o lphan tomou a iniciativa de tombar as três 'casinhas' referidas - ruas da Sem dúvida, a linguagem da arquitetura eclética soa-nos quase sempre estranha.
Glória, da Quitanda e Mayrink Veiga,'' foi simplesmente porque tais 'casinhas'. Inclusive num primeiro momento. Um exame mais detido conduz-nos, no entanto, à identificação
a do Virzi, corresponderam, na sua época. à linha de evolução - ou revolução - arqui- de traços de outras culturas que são comuns à nossa. As propostas clássicas desse
tetõnica verdadeira, ao passo que as imponentes construções a que o Relator alude período. por exemplo. têm, com maior razão, elementos que nos são familiares. IProc.
são produtos marginais a essa linha evolutiva autêntica, e manifestações da falsa arqui- 970-T-78. Faculdade de Direito do Recife, PEI
tetura pejorativamentetachada. pela crítica intemacional autoHzada,como "beaux-ans".
No final da década de 1970, a percepção qlie as instâncias técnicas do lphan
Trata-se,pois, de uma distinção fundamental.
tinham do valor artístico dos monumentosjá era conduzida com base em uma con-
Essa seria, segundo Lúcio Costa, a justificativa de a antiga administraçãodo cepção não-canónicada história da arte, disciplina que Giulio Carlo Argan con-
Sphanter excluído de sua alçada o ecletismo:o fato de considera-lofora da "linha sidera "a única ciência possível da arte" (1992a, p. 16). Para Argan, a crítica de
legítima da evolução arquitetõnica'. Essa postura justificava inclusive a proposta arte se realiza na medida em que contextualiza e historiciza os fenómenos. É esse
de demolições.como a formulada pelo próprio Lúcio Costa em relação à "alman- procedimento
que,a seu ver, qualificaos juízosde valor.
jarra de concreto,coroada por uma cúpula, situada entre o cais e a esplanadado Se, nas décadas anteriores, a consideração do valor artístico de um bem era
Castelo, pertencenteao Ministério da Agriculturae que já nasceu bastarda para o critério prioritário, recorrendo-se ao valor histórico como única justificativa. ba-
a Exposição de 1922' (Proc. 982-T-781.Lúcio Costa classificou esse prédio de sicamente, para o tombamento daqueles bens que se enquadravam na letra do
"vilão arquitetõnico' e ele foi efetlvamente destruído. O mesmo destino teve o Pa- decreto-lei na 25, de 30.11.37, mas que eram desprovidos de qualidade estética,
lácio Monroe, incluído no processo da Avenida Rio Branco, e cuja demolição foi ob- ou haviam sofrido adulterações. a partir dos anos 70 a perspectiva histórica, am-
jeto de protestos na Imprensa.Ao final desse processo foram tombados quatro pliada. levou, inclusive, a uma reconceltuação dos valores artísticos. Os chafa-
prédios - Teatro Municipal, Escola Nacional de Belas Artes, Biblioteca Nacional rizes do período colonial, por exemplo, foram tombados. nos anos 30-40, por seu
e Caixa de Amortização - todos, curiosamente. inscritos apenas no Livro de Belas valor artístico. enquanto peças excepcionais em termos do trabalho artesanal exe-
Artes cutado em pedra. Nos anos 80, chafarizes do século XIX, tombados também por

Na análise dessa polêmica, é preciso deixar claro o que está implícito, ou sou valor artístico. são considerados, juntamente com aquedutos e caixas-d'água.
parte do "mobiliário urbano que testemunha o processo evolutivo das cidades'
seja, que o problema não era uma mera oposição história x cânone, pois assim
(Dou Alcântara. Proa. 1.132-T-84. Chafariz da Praça Mahatma Gandhi, Rio de
não se estaria elucidando a posição dos dois arquitetos envolvidos.Ambos par-
Janeiro). e se inserem na série histórica referente ao abastecimento de água nos
tiam de uma leitura da história da arquitetura.O que os distinguia,como procurei
centros urbanos. No século XIX, esse tipo de bem, produzido em série. era mais
demonstrar.era uma postura diferente na consideração da tradição e na cons-
ornamental que utilitário, e reproduzia símbolos do passado. Já as fábricas cons-
trução da continuidade histórica dos estilos arquitetõnicos.
truídas nesse período muitas vezes eram concebidas plasticamentede forma a
Anos mais tarde. e com maior distanciamento.a arquiteta Dará Alcântara,da disfarçar sua finalidade - como é o caso da Fábrica Santa Amélia, em São Luís.
DET, sintetizoua questão: Maranhão (Proc. 1.144-T-88), cuja fachada em alvenaria, à feição de uma resi-
Nossa sensibilidade, hoje em dia, inclina-se com mais facilidade para as construções dência, escondia sua estrutura em ferro. A mesma característica,o fnchadlsmo.
do período colonial e da primeirametade do século XIX. não só pelo fato de serem foi apontada no prédio da Light, Rio de Janeiro. A dissociação entre forma e fun-
o que de mais antigo possuímos, cama património arquitetõnico.como também porque ção, contrária aos cânones modernistas. era. no entanto, uma característica da-
a adequação da plástica à técnica construtiva com que eram concebidas encontra eco quele período histórico, e refletia as contradições sociais e culturais da época.
na maneira de considerarmos a arquitetura contemporaneamente. (Prac. 976-T-78.
Dentro de uma visão histórica mais ampla, portanto. certos traços estilísticos
Prédioda Cia.Docasde Santos.RJI
como o ornamento autónomo, a dissimulação de materiais. e a alusão a estilos
E, em outro parecer, a mesma arquiteta considerou a importância do ecletismo pretéritos, que caracterizam o ecletismo, deixaram de ser interpretados como
especificamente no contexto brasileiro: negativos.

192 O PATRIAONIO [Á PROCESSO A PRATICA


Dt TOABAAlINTO:
1970-1990 193
No caso específico de bens que referem classes de objetos antes excluídas série de acontecimentossempre dramáticos e breves' (Proa. 1.146-T-85. Prédio
do universo da estética, como as obras da tecnologia industrial - pontes, merca- da Light, RJ).
dos, fábricas, caixas-d'água, faróis. estações ferroviárias etc. -, essa nova leitura Nos anos 80, as concepçõesmais recentes da nova historiografiacomeçaram
possibilita inclusive a atribuição de valor estético a esses tipos de bem, que. de a ser incorporadasà prática de tombamentosda Sphan, mas eram reiteradamente
acordo com o recorte romântico, eram excluídos do fazer artístico, eminentemente contestadas nas impugnações. Foi dentro desça perspectiva que passaram a ser
artesanal. Em meados da década de 1980, Dera Alcântara, referindo-se ao tomba- lidos e valorizados alguns testemunhos da ocupação do território brasileiro, da
mento do chafariz da Praça Mahatma Gandhi, no Rio de Janeiro, usa o termo evoluçãodas cidades, dos diferentes grupos étnicos, da história da ciência e da
:estética industrial". tecnologiano Brasil. Tratava-se,como diz o arquitetoLuís FernandoN. Franco,
A atribuição de valor histórico, que reproduzia, na seleção de bens, os crité- da Sphan, de ler os "desertos' deixados pela história factual. Entretanto,se essa
rios excludentesda história factual, centrada no evento político e nos feitos das mudança
de perspectiva
veio possibilitar
a Inclusãode novostiposde bensno
classes dirigentes, é também ampliada de modo a abranger bens que, mesmo não patrimóniocultural brasileiro,falta ainda muito para cobrir as lacunas, mesmo em
podendo ser identificados com "fatos memoráveis da história do Brasil' e não se relação à história dos "grandes eventos', deixadas pela orientação anterior.
destacando por seu valor artístico excepcional, tornam-se passíveis de tomba- Além disso, fatores como a modéstiadas edificações,a falta de documentação
mento federal. Lembro que só recentementehistoriadores começaram a fazer parte escrita e a dificuldade de fiscalização constituem entraves para o tombamento de
dos quadros da área de proteção, produzindo paraceres especificamente sobre o certos bens historicamentesignificativosdentro dessa nova perspectiva.Foi o que
valor histórico dos bens propostos para tombamento. ocorreu com a Casa de Plácido de Castro, em Xapuri, Acre, com as ruínas da
Exemplo típico dessa mudança é a evolução do processo 953-T-77, da Escola Vila Porto Acre, em Rio Branco,Acre, com os marcos da ocupaçãoda Amazõnia.
de Enfermagem Ana Neri, no Rio de Janeiro. Instituição pioneira da enfermagem e com a casa da Sudeco Velha, em Nova Xavantina, Mato Grosso, marco da ocu-
no Brasil - justificativa apresentada no pedido - teve o tombamento federal recu- pação do Centro-Oeste, todos pedidos de tombamento encaminhados por entidades
sado em 1978por falta.de valor arquitetõnico
(trata-sede construçãoem estilo locais e todos arquivados.

neocolonial), recomendando-seo tombamento estadual. Ante a insistência dos O dilema entre a ênfase na visibilidade do bem, consideradoenquanto edi-
solicitantes, em 1984 o Diretor da 6a DR recomendouque os historiadores da ficação excepcional, propiciadora de uma experiência estética e de uma leitura
Divisão de Tombamento e Conservação (DTCF' fizessem estudos visando a uma de estilos arquitetõnicos, ou palco de eventos notáveis, e a consideração do valor
possível inscrição do bem no Livro Histórico. tendo sido a escola tombada em fun- do monumento enquanto documento, enquanto referência a significações históricas
ção de seu papel na história da ciência no Brasil. Também no caso do tombamento às vezes fluidas, sem precisão cronológica(como a noção de ambiente) ou em
do Forte de Santa Bárbara, Santa Catarina, o arquiteto Antõnio Pedra Alcântara função da carga afetiva que pressupõemas noções de identidadeou de qualidade
chamou a atenção para uma mudança nos critérios de avaliação que ocorreu entre de vida, constitui um problema levantado nesse período - problema que, como
1975 (quando se considerouque o bem não tinha valor artísticoou históricosufi- vem sendo apontado, assumiu uma dimensão não apenas conceptualcomo também
cientes) e 1982, data de sua inscrição no Livro Histórico. política.

Nessa linha. e discutindo a concepção de valor histórico que predominará até


5.2.2 Â$ toncepÇaes de valor excepcional
e de valor nacional
então na Sphan, Doía Alcântara observou que "nem sempre são os fatos fora do
comum ou as contribuições de caráter erudito que imprimem o cunho histórico ou A noção de excepcionalidade é tributária das idéias de genialidade e de
o valor arquitetõnico necessários ao tombamento de um local ou de um edifício' originalidade atribuídas pelo movimento romântico ao ato de criação, que põem em
IProc. 1.113-T-84. Casa Presser, Nova Hamburgo, Rio Grande do Sul). A mesma destaque o sujeito da criação ou o herói. ator de fato memorável.Como o de-
arquiteta considerava também que "fatos memoráveis não podem ser apenas a creto-leinQ25, de 30.11.37,mencionaexplicitamente
a expressão"valor excep-

194 O PATRIAONIOeA PROCESSO A PRÁTICA Dil TOÁBA#leNTO: 1970-1990 195


cional', e como se trata de avaliaçãoeminentementesubjetiva, não é difícil com- de naciona/Idade,vem sendo reelaboradanas últimas décadas.Lúcia Líppi de Oli-
preenderpor que essa noçãose tornou, duranteas últimasdécadas,foco de dis- veira resume essas dúvidas quanto à pertinência.hoje, de se invocar a idéia de
cussão nas impugnações aos tombamentos.E, na medida em que a tendência é de nação para legitimar ações de qualquer natureza:
preservarconjuntos, garantir a ambiência pela definição do entorno e proteger bens
Se todos os meios, princípios e objetivos da cultura moderna - que tanto almejamos
que são representativos
de determi.ladoestilo ou época, torna-sedifícil para o pro- e queremos redistribuir para todos - são internaçíonalístas,cosmopolitas, não estarão
prietáriode um imóvelaceitaro tombamentode um bem que, a seus olhos,se asse- os defensoresda nação fora do tempo? Se a nação religou os homens na modernidade.
melha a tantos outros. Num esforço de esclarecerousa nova visão, diz Dou Alcân- o que os religará agora? Qual é o sentido da construção de uma ideologia nacional nos

tara, falando do conjunto arquitetõnicoda Avenida Nazaré, em Belém. Para: tempos atuais? Em nome de que valores, princípios, interesses os intelectuaisse
lançariam em um esforço de construção simbólica de âmbito nacional?
O fato de que numa primeira etapa do património,apenas os monumentosenfáticas
Por outro lado, poderão as "comunidades"de base, de vizinhos, os usuárlosdo
no seu valor individual tenham sido atendidos, não deve levar à conclusão de que outros,
metro, os leitores de um jornal, os telespectadores se sentirem unidos, agregados? Pode
por si só menos significativos, se considerados em conjunto, não passem a ser de ex-
o indivíduo moderno hoje, solto das amarras do pertencimento à nação, viver uma tota-
cepcional valor. (-.) Esse valor relaciona-secom a leitura que nos proporcionam, através
lidade que dê sentido ao esforço cotidiano de viver? A aquisição de bens materiais por
da qual podemos situar os estilos europeus entre nós. em nossa versão brasileira. pelos
si só será capaz de garantir um sentido de identidade pessoal e coletiva? O retorno
reflexos encontrados numa arquitetura menor.(Proc. 1 .027-T-80)
da religiosidade,da espiritualidade, do misticismo parece ser um indício de que os seres
São, pois. as noções de representatividade,
de exemplaridade,e não a noção humanosnão permanecemmuito tempo presos numa jaula de ferro. 11990,p. 661
mais corrente de fora do comum, que são invocadas pela instituição para justificar
Essas perplexidades reporcutiram, sem dúvida, numa política pública fundada
vários tombamentos nas duas últimas décadas.
sobre o valor simbólico da nacionalidade e conduzida por uma instituição estatal
Para o arquiteto Luís Fernando N. Franco, o caráter de permanência e de vita- que gozava de alto grau de autonomiaem relação aos movimentosda sociedade.
lidado de um bem, no sentido de provocar continuadamentenovas leituras, é traço Na medida em que os próprios atores dessa política passam a põr em dúvida não
de sua excepcionalidade:
só a força política e simbólica da idéia de nação como também seu papel de úni-
Excepcional é todo material cuja forma revela um grau de elaboração e complexidade cos porta-vozes dos grupos sociais na construção do património nacional, torna-
que o torna intrinsecamente portador dos dados da cultura que o produziu. A possibilidade se imperioso buscar novos caminhos.
de novas leituras e de transcrição dessa forma segundo uma expressão diversa de sua
Em termos práticos, ocorrem também novas dificuldades na atribuição de va-
materialidadeé já um gesto virtual de preservação: é o gesto com que a cultura, nossa
e atual, incorpora o material e o apropria a um uso culturalmente contemporâneo. O
lor nacional a bens, na medida em que passam a se tornar viáveis tombamentos
tombamento,ao tornar real esse gesto, garante,com a preservaçãofísica do objeto, estaduais e municipais. Embora essas esforas de tombamonto possam se sobre-
a possibilidade de leituras futuras, inclusive as que contradigam a excepcionalidade por, o tombamentofederal, até há não muito tempo o único possível, continua
atualmente afirmada: é o risco com que. ao corrê-lo, a objeto denota sua própria vita- sendo considerado o de maior prestígio, e o que assogura efetivamente a proteção
lidade. IProc. 1.116-T-84. Museu Paranaense. Curitiba. PRI do bem. Foi o que ocorreu em Cananéia, São Paulo, onde os habitantes da cidade,

Dessa perspectiva, a excepcionalidadede um bem decorre menos de seus liderados por um jornalista local, não queriam aceitar o tombamento exclusiva-
atributos estéticos que de sua capacidade de mobilizar reações - ainda que nega- mente estadual que fora recomendado pelo Sphan, que arquivou o processo. Tom-
tivas - o que justificaria sua proteção. Porém, com a tendência atual de considerar bada em 1969 pelo Condephaat, a cidade teve imóveis restaurados por esse ór-
que qualquer objeto pode, em princípio, ser Integrado ao património, essa noção gão, trabalho que, embora executado sob critérios de restauro rigorosos, não foi
perdeu muito de sua fôrça para legitimar um tombamento. bem aceito pela população.Nessecaso ficou claro, inclusive,o conflito entre os
Assim como a noção de excepcionalidade,a noção de valor nacional, fundada critérios técnicos do órgão de preservação e a percepção que a população tinha
da anf©uldade
de seusmonumentos.
Do mesmomodo,o valor nacionalda casa-
na idéia de nação, assim como as práticas voltadas para suscitar um senflmenfo

196 O PATRIAONIO [A PROCESSO A PRÁTICA DE TOABÁAENTO: 1970$#90 197


Y
grande da Fazenda Ladeira de Taepe em Surubim, Pernambuco, foi enfaticamente esses bens realmente enquanto conjuntos, a partir da relação entre o meio geo-
defendido pelo solicitante, apesar do parecer contrário de Aírton Carvalho, diretor gráfico, natural, e os grupos humanos que ocuparam aquele solo e nele deixaram
da delegadalocal da Sphan. vestígios. E uma idéia que já estava implícita no decreto-lei Re25, de 30.11.37.

O fato é que, com a criação de órgãos estaduais e municipais de preservação, que previa a reunião dos três valores em um só livro (arqueológico, etnográfico
extingue-se o papel supletivo que a Sphan antes exercia, tornando-se, por outro e paisagístico), e também no anteprojeto de Mário de Andrade, quando se referia

lado, a cada dia mais importante discutir o que a instituiçãoentende atualmente às "artes arqueológicase ameríndias'. Nessa perspectiva, a história das cidades
como bem de valor nacional. não se resume mais à história de sua arquitetura, mas abrange todas as adap-
tações feitas pelo trabalho humano sobre o ambiente. de modo a adequa-lo a seu

5.2.3 0s con«idos de centro história e de entorna prometo.


Do mesmo modo, os bens naturais não seriam mais consideradosapenas
por seu valor paisagístico, também em consonância com o que já propunha o pará-
Os tombamentos de núcleos históricos nos primeiros tempos do Sphan foram
grafo 2a do artigo la do decreto-lei Ra25, de 30.11.37 ("que importe conservar e
realizadostendo em vista antes o número expressivode bens excepcionaisque
protegerpela feição notável com que tenham sido dotados pela naturezaou agen-
neles se concentravamque propriamenteo conjunto enquanto objeto de interesse ciados pela indústria humana').
llb.E da proteção. Mas. em texto publicado em 1970. Rodrigo M. F. de Andrade dizia
Na verdade, essa linha de interpretação é muito recente na instituição. e suas
que "justifica-sea conservaçãode um sítio urbano quando este constitui criação
conseqtlêncías práticas. em termos de mudanças na valoração de bens e nas con-
Ç.] notável e representativada vida e da organização social de um povo, em determi-
dutas visando à proteção - que deixam assim de ser tarefa exclusiva de arquitetos -
nada fase de sua evolução" (1987, p. 81). Foi dentro desse espírito que foram tom- ainda não podem ser avaliadas.
bados os centros históricosde Laguna, Natividade,São Franciscodo Sul, Pirenó-
Quanto ao entorno dos monumentos tombados, na legislação brasileira a de-
polis e Antânio Prado, entre outros. Pirenópolis,por exemplo, foi tombada por
finição é feita caso a caso. ao contrário da França, onde o perímetro é fixado por
constituir"cidade representativa
de certa forma urbana,certo modode ser nacio-
lei em 500 metros. Como a própria noção de entorno evoluiu da idéia inicial de
nal' (Francisco lglésias, relator do processo no Conselho Consultivo).
preservar a visibilidade do bem para a de garantir a manutenção de uma ambiên-
Em parecer sobre o Centro Histórico de Laguna, Luas Fernando Franco chama cia, a definição desse entorno tornou-se uma questão bem mais complexa. Tam-
a atenção para o fato de que esse tombamento não é indicado pela excepcio- bém nesse caso, a abordagem exclusivamente arquitetõnica é hoje insuficiente,
nalidadedos monumentose sim por sendo imprescindível o recurso a outros especialistas.

1...)tratar-se de documento precioso da história urbana do país, menos como sede de A compreensão do que seja o entorno de um bem tombado tem se constituído
acontecimentos notáveis - embora estes também tenham sido ali assinalados - do que em mais um ponto de atrito nos processos de tombamento. Protestos ocorreram
pela escolha criteriosa do sítio, pelo papel que o povoado pôde desempenhar,em virtude em Belém. Para, onde a Sphan admitiu, em resposta à impugnação do tombamento
de sua localização, no processo de expansão das fronteiras meridionais e. sobretudo.
do prédio Re482 da Avenida Nazareth, que "o prédio em questão. tal corno ocorreu
pela forma urbana assumida com precipitação espacial dos dois processos precedentes.
com sete outros nas proximidadesdo conjunto preservadoà Avenida Governador
Foi essa nova visão da história que motivou a proposta desse mesmo arquiteto José Malcher, foi tombado a fim de que se colabore na manutenção da ambiência
para transcrição dos centros históricos inscritos nos livros Histórico e de Belas do conjuntoda Av. Nazareth'(Dou Alcântara.Proc.1
.027-T-80).Mesmonão sen-
Artes para o Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Essa proposta, apre- do o caso - pois o pedido se justificou pela importânciada própria edificação - na
sentada na Informação nQ 135/86, implicava uma leitura mais abrangente desses impugnaçãoapresentadapela Braslightao tombamentodo prédio da Light, na Rua
bens, em consonância com as idéias da Ecole des Annales. que analisa os fatos Marechal Floriano, RJ. alegava-se que "o tombamento de um prédio para proteção

históricos a partir de uma postura multidisciplinar, para que concorrem a história. visual de outro, esse sim com as qualidades necessárias à sua integração no
a geografia, a arqueologia, a geologia, a antropologia etc. Essa leitura entende património histórico e artístico nacional, é Ilegítimo'

198 O PATR IAON IO [A PROCESSO A PRÁTICADe TOABAA[NTO:1970-1990 199


O fato é que é evidente que essa nova orientação, centrada no conceito de através de seus órgãos especializados e de seus técnicos, ajuizar da significação
ambiência, implica, mais ainda que a anterior, a colaboração dos moradores para e do valor da coisa tombadas tal Juízo é da sua exclusiva alçada e competência'
FI ser implementada. IProc. 853-T-72. Casa R. Mayrink Veiga, 9. Rio de Janeiro, RJ).
A qualificaçãodo poder de julgamento da Sphan como discricionárioimplica,
5.2.4Sobrea legitimidade do processo de portanto, certa dose de arbítrio. Essa realidade.é muitas vezes interpretadacomo
atribuição de valor nas +ombamen+os
"falta de critérios' ou como subjetividadedos juízos de valor emitidos pelo órgão.
A condução do processo de avaliação de bens para tombamento que, nas dé- Portanto, um dos cuidados da instituição - presente nas contra-razões às impug-
cadas anteriores, era fechado, e com base em uma autoridade reconhecida dentro nações de tombamento - é de, ao mesmo tempo, apresentar as justificativas técni-
e fora da instituição.passou,a partirdos anos 70, a encontraralgumasdificul- cas que levam (ou não) a cada tombamento, interpretandoas disposiçõesgené-
dades, e a ser objeto de discussão tanto internamente, entre grupos de opiniões ricas do texto legal, e defender a autoridade de sua decisão quanto à avaliação
distintas,'9 quanto nas impugnações, que questionam inclusive a autoridade exclu- de bens para tombamento.
siva do Sphan para emitir juízos sobre o valor cultural dos bens. Até os anos 70, essa responsabilidadeera exercida pelos agentes do Sphan
Embora explícita na lei 378. de 13.1.37, a competência do Sphan nesse sen- sem maiorescontestaçõosou discordâncias,dentro e fora da instituição.
tido só foi realmente legitimada juridicamente com o memorável julgado sobre o Como já foi obsewado, era sobre o valor artístico que, nas primeiras décadas
Arco do Teres. em 1943, quando o STF ratificou a constitucionalidadedo decreto- do Sphan, incidiam prioritariamente as inscrições e a noção de excepcionalidade.
lei Ra 25, de 30.11.37. Entretanto, no período que estou analisando, algumas im- A atribuiçãode valor artístico requer um julgamento especializado,que considera
pugnações contestaram essa competência, discutindo inclusive o caráter do tom- o bem sobretudo em seus aspectos formais - no sentido do uso dos materiais,
bamento enquanto ato administrativo. do apuro da execução e de seu optado de consewação. Reformas ou restaurações
Para os juristas do Sphan, o tombamento constitui um tipo de ato adminis- que descaracterizassem o programa original eram impedimentos para a atribuição
trativo discricionário e não vinculado,:' pois a legislação brasileira determina que de valor artístico. Nesse sentido, a ênfase na atribuição de valor artístico res-
cabe ao Estado, através da instituição competente, avaliar os bens a serem tom- guardava as prerrogativas dos agentes do Sphan.
bados pela instância federal. O exercício dessa competênciafoi regulamentado O valor histórico era, naquele período, claramenteconsideradocomo um valor
pelo decreto-lei RQ25, de 30.11.37. A legislação brasileira, à diferença de vários "de segunda classe', e atribuído com base na interpretaçãoliteral do decreto-lei
países, não estabelece critérios objetivos - como datação ou classes de bens - Rg 25, de 30.11.37 (ver Anexo 11). Foi possivelmente devido ao caráter sup/effvo
e sim competências,que devem ser exercidas levando-seem conta determinados desse valor que não houve no Sphan preocupação em recrutar historiadores nem
valores. Sõnia Rabelo de Castra (1991, p. 90) considera. inclusive. que mesmo em desenvolver critérios próprios e mais elaborados de avaliação do valor histó-
os valoresdiscriminados
no decreto-lelRa25, de 30.11.37- histórico,artístico, rico dos bens que se propunham para tombamento.
arqueológico, etnográfico, paisagístico e bibliográfico - devem ser entendidos
Esses critérios de atribuição de valor adotados pela instituição, apoiados na
como menções de caráter meramente exemplificativo, pois a própria noção de va-
autoridade de quem os formulava, começaram a ser questionados na década de
lor cultural varia de uma época para outra. Cabe à instituição competentedeter-
1970, sendo um marco nesse sentido o processo da Avenida Rio Branco, no Rio
minar o preciso conteúdo dos preceitos genéricos do decreto-lei Ra25, de 30.11.37,
de Janeiro (Proc. 860-T-72). Ao defender o tombamento de monumentos em estilo
desde que seja obsewada coerência no julgamento de casos similares conside- eclético, ao roconhecero valor próprio de cada estilo de época, e ao afirmar o
rados na mesma ocasião.
inconteste valor histórico dos monumentos, o arquiteto Paulo Santos, relator do
Fol, pois, apoiadoem argumentaçãojurídica. que Lúcio Costa afirmoucategori- processo no Conselho Consultivo, entrou em confronto com a autoridade de Lúcio
camente que "cabe por lei ao Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional, Costae coma tradiçãoda casa.

200 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO A PRÁTICA


Dll TOABAAeNTO:
1970-1990 201
A crítica à hierarquia de valores até então adorada terminou por provocar vá- interaçãocom a cultura das classes cultas (e também com a cultura de massa).
rias consequênciasna prática de tombamentos.Em primeiro lugar, a adição de Nesse caso. para o agente institucional. o problema.como obsewa Dina Lerner.
um ponto de vista que relativiza os juízos de valor propicia o deslocamento da "é a ignorância da nossa ideologia branca' (Sphan, Revfsfa do Pafrfmõn/o 22.
questão de uma instância exclusivamente técnica para uma instância política. 1987, p. 75). Fica evidente que o processo de atribuição de valor não pode ser
Nesso caso, o recurso à autoridade de quem julga torna-se insuficiente, e outros reduzido a uma questão técnica. As discussões levantadas por esses (ainda pou-
pontos de vista. de outros atores, passam a ser levados em conta. Além dos argu- cos) processos explicitam o caráter ideológico da construção dos patrimónios.
mentos técnicos, é preciso recorrer também à capacidade de argumentação e à Exemplarnesse sentido foi o processo de tombamento do Terreiro da Casa
habilidade política. Foi o que ocorreu em alguns processos de tombamento, como Branca,em Salvador, Bahia, o mais antigo terreiro de candomblédo Brasil, Guio
o do Terreiro da Casa Branca, o da Serra da Barriga, o da cidade de Antõnio Pra- pedidode tombamentoteve origem na FNpM, através do ProgramaEtnias e Socie-
do, o do Hotel Copacabana Palace, entro outros.
dade Nacional.Nas discussõesque constam do processo.fica claro o conflito
Mas foram sobretudo imperativos de ordem prática que levaram, nesse perío- entre os técnicos da Sphan- que se apoiavamnos critérios de valoraçãojá con-
do. os técnicos da Sphan a refletir e a discutir em seus pareceres a legitimidade solidados e, sobretudo, na defesa da especificidadedo instituto do tombamento
lb.h do processo de atribuição de valor adotado pela instituição. Essa questão foi le- a bens que interessamanter imutáveis- e os antropólogosda Área de Referência
IH
l dlk vantada tanto nas impugnações como em decorrência da apresentação de pro- da DinâmicaCulturalda FNpM,e do ConselhoConsultivo,que enfatizavama im-
lq::i postas de tombamento de "programas inteiramente novos, cujo universo (em ter- portância simbólica e política desse tombamento.2' Por esse motivo, o que impor-
c'n mos nacionais) nos é inteiramente desconhecido' (Proc. 1.064-T-82), conforme tava não era apenas o reconhecimento,por parte da cultura oficial, de um bem
observou a arquitota Dou Alcântara, então responsável pela Seção de Tomba- significativo para a cultura afro-brasilolra enquanto manifestação etnográfica, e
mentos da DTC. Foi a própria Dou que esclaroceu, em outro parecer, a natureza sim sua inclusão,com a inscrição no Livro do Tombo Histórico,entre os bens
do problema: referidos à história .nacional.::

Sempre que nos é proposta a presewação de um bem tradicional em nossa prática A apreciação e a inscrição de bens do que se veio a denominar "patrlmânio
institucional de tombamento - igreja, teatro etc. - não há dificuldade maior, porque já cultural não-consagrado'eram, até os anos 70, nos raríssimoscasos que se apre-
possuímoso necessário quadro de exemplos para referencia-lo. Se. ao contrário. a pro- sentavam para tombamento, tradicionalmente feitas por seu valor etnográfico.
posta refere-se a um objeto não tradicional - caixa-d'água. vila operária etc. - temos
Entretanto,na medida em que a perspectivaetnográficae a noção de folclore pas-
necessidade de organizar um mínimo quadro de referência para opinar com menor
margem de erro. (Proc. 1.072-T-82j
saram por um processode revisão crítica (d. Cavalcantie Vilhena, 1990 e Carva-
lho, 1991), esse valor passoua ser identificadocom a ótica das classes dominan-
Tratava-se de bens que não se prestavam a uma leitura estritamente estética.
tes, e sua utilização como justificativa para tombamento tornou-se ideologicamente
A inclusão de novos programas na prática de tombamentos da Sphan teve, portan- problemática.Por outro lado, o tratamento que essas produçõesrecebiam,consi-
to, algumas consequências não só no quadro de referências conceituais até então
deradas manifestaçõesexóticas ou típicas de contextos culturais "atrasados', difi-
utilizado, como também na sistemática de valoração. Tornou-se indispensável a
cultava sua avaliação a partir de outras escalas de valores.
participação de outros especialistas que não apenas os arquitetos. Afinal. o sal)er
A complexidadeda questãoque se apresentava,agora de modo diferente,para
que a Sphan deve agora produzir para fundamentar suas decisões em termos de
os técnicos da Sphan, pode ser avaliada na discussão do processo de tombamento
tombamentos é diferenciado, e exige o equacionamento de inúmeros problemas.
do Presépio do Pipiripau, Minas Gerais. proposto para o Livro de Belas Artes.
A questão demonstrou ser bem mais complexa quando se trata de avaliar bens
Nesse processo,o arquiteto da Sphan Luís FernandoFranco questionanão só os
produzidos e voltados para os grupos sociais populares. vinculados a outras tradi-
novos critérios de valoração propostos. supostamente mais democráticos.como
ções culturais que não a luso-brasileira,mas que atualmente estão em constante
o próprio /usar de ía/a dos agentes institucionais.

202 O PárRFAÕNIO eA PROCESSO A PRÁTICA


Dll TOABAA[NTO:1970-1990 203
No seu parecer, Luís Fernando Franco tece considerações sobre o processo do je da) Sphan.O tipo de inscriçãocondicionanão só a leitura do bem como
de avaliaçãodas produçõesculturaismarginalizadas
por parte da culturadomi- também o modo como será consewado.
nante. O arquitetofaz uma crítica à situação em que, em nome de uma postura
É difícil entender,por exemplo, por que a Caixa-d'Águade Pelotas, RS, cujo
democrática e "politicamente carreta', a defesa, por parte de agentes institucionais.
caráter pioneiroé referido por documentos,está inscrita apenas no LBA, enquanto
de um relativismo absoluto na atribuição de juízos de valor leva a equívocos con-
o Resewatório de Mocó, Amazonas, mais recente, tem dupla incrição(LH/LBA)l por
ceituais e também ideológicos.
que o Açude do Cedro,CE. que, além de obra notávelde arquitetura.foi a 'primeira
O arquitetoobsewaque. ao se partirdo pressuposto
ingênuode que a obje- rede de canais de irrigaçãolevada a efeito no Brasll', não está inscritotambém no
tivldade nos juízos de valor "pressupõe a possibilidade de uma perfeita aderência
LHI por que o Porto de Manaus. testemunho inconteste do ciclo da borracha, foi
do sujeitoao objetoobservado',se propõeuma concepçãode imparcialidade
há inscrito apenas no LBA e no Laep, enquanto o Teatro Amazonas, de inegável valor
muito criticada pela epistemologia.Essa pseudo-objetividadeencontra reforço nu-
artístico, havia sido'inscrito apenas no LH. Já no caso do Plano Piloto de Brasília,
ma "aspiração democrática do gosto, fundamentalmentehostil à noção de obra-
obra contemporâneaque. ao contrário de outras menos recentes, como o prédio do
prima e de monumento.' Ora. a abolição de qualquer escala de valores. em nome
MEC e o ParqueGuinle, ambos no Rio de Janeiro, foi inscrito unicamenteno LH,
do repúdio a uma leitura dominantee da inserçãoda obra em seu contexto, na
llü.u essa inscrição fez parte de uma estratégia a que recorreu Lúcio Costa para proteger
IÜh verdade significa a abolição dos conflitos inerentes à produção cultural. Esse pro-
sua obra, já tombada pela Unesco, das descaracterizaçõesque a ameaçavam. Foi
llH cesso de nivelamento- que desconhece o fato de que a cultura é justamente uma
escala de valores permanentemente retificada - seria próprio da indústria cultural.
a forma encontradapara contornar objeções que eram feitas por arquitetos locais
Clü do ponto de vista estético e urbanístico, movidas possivelmente também pelo inte-
portanto contrário aos interesses da preservação. Ao se querer, dessa maneira,
resse em liberar a área para investimentos imobiliários.24
corrigir desigualdades na constituição do património nacional, termina-se por mas-
carar os conflitos inevitáveis nessa prática quando exercida numa sociedade de
5.3 A ATUACÃO DO CONSELHOCONSULnVO
classes.

O arquiteto conclui que a falta de um estudo abrangente sobre o universo dos A análise das atas do Conselho Consultivo. no período que vai de 1970 a mar-
presépios não permitia estabelecer, com segurança, nesse caso. um juízo de valor ço de 1990. indica os efeitos das mudanças institucionais sobre esse conselho
artístico. Por esse motivo, o arquiteto propõe a inscrição do Presépio do Pipiripau e sobre a Sphan. A primeira reunião de 1970, realizada a 21 de janeiro, marca
exclusivamente por seu valor etnográfico.23 a saída de Rodrigo Meio Franco de Andrade como conselheiro - função que assu-
Nos dois casos mencionados,fica claro como motivaçõesde ordem política mira ao se aposentar, em 1968, em substituição a Miran Latif - em decorrência
e ideológicase cruzam.nesseperíodo,comas exigências
e os limitesda esfera de seu falecimento. É substituído por Prudente de Morais Neto, que já prestava
estritamente valorativa, que se estrutura no âmbito das definições disciplinares assessoria jurídica ao Sphan.
correspondentes aos Livros do Tombo. No início da década, foram levados ao Conselho casos que evidenciavam as
Nesses processos. os técnicos da Sphan se viram confrontados com a questão dificuldades da instituição em face da especulação imobiliária, principalmente na
que constituíao principalinteressedo 'grupoda referência"
- a proteçãodo "patri- cidade do Rio de Janeiro. Foi o caso do prometoda construtora Veplan para a Gá-
mónio não-consagrado' - tendo, porém, que a equacionar no campo específico da vea, denominado Chácara da Gáveal do pedido de tombamento das residências
prática preservacionista: o da seleção de bens com base na atribuição de deter- das embaixadas
da ltália e da Argentinas
do ParqueLage (reiteraçãode tomba-
minados valores culturais, visando à sua proteção legal. mento) etc. Foram tombados nesse período os morros do Rio de Janeiro (sete
Outro problema - aparentemente formal. mas com as implicações conceituais morros individualmente),:5o Horto Florestal e o Parque do Flamengo, visando a
e práticas que já foram apontadas no capítulo 3 - é o do critério nas inscrições proteger o património natural como moldura da cidade e a qualidade de vida de
nos Livros do Tombo, que sempre foi deixado em segundo plano pelos técnicos seus habitantes. Foram assuntos reiteradamente discutidos nas reuniões do Con-

204 O PATRIAONIO [A PROCESSO A PRATICA Dt TOABA#lENTO: 1970-1990 205


velho a questão do entorno dos bens tombados, dos centros históricos, e da saída gem de votos(três votos a favor, um voto contra. duas abstençõese um pedido

de obras de arte para o exterior. de adiamento).

Em 1979, na 86a reunião, Aloísio Magalhãesassumiu a presidênciado Con- O problemada definiçãoda funçãodos dois órgãosrecém-criados - Sphan
selho e definiu sua missão corno a de "dirigir e revitalizar o lphan'. E, embora e FNpM - também foi levado ao Conselho a 'propósito da elaboração do regimento
afirmasseque "quantoao pensamentooriginal do lphan nada há a inovarou in- da Sphan. A apresentaçãode duas propostas separadas, segundo o secretário

ventar', observou que "a expressão concreta dos bens culturais brasileiros são Ãngelo Osvaldo, expressava "as indagações e os conflitos conceituais que já es-

de pequena dimensão. Seu concerto, não claramente explicitado, encontrou na tavam latentes desde a criação da FNpM', mantendo-se a divisão entre o "patri-

Inteligênciade Rodrigo Meio Franco de Andradea ênfase no domínio da pedra e


mónio arquitetõnico' (Sphan) e o "património antropológico" (FNpM), apresentan-

cal e na luta da conscientizaçãodas elites culturais brasileiras'.Afirmou seu obje- do-se a Sphan como herdeira de Rodrigo e a FNpM como herdeira de Aloísio. A

tivo de atuar de forma planejada, equacionandoos problemaspara captar recur- questão foi retomada na 128a reunião em termos de uma crise institucional, em

sos, e anunciouo prometo


de reestruturaçãodo órgão. consequência da duplicidade de comando. Como solução, o Ministro da Cultura
terminou por optar pela unificação do comando das duas Instituições.
Em 1983 0 antropólogo Gilberto Velho passou a integrar o Conselho Consultivo.
Fora precedido pelo especialistaem desenvolvimentoregional Roberto Cavalcanti A partir de 1988, também os processos indicados para arquivamento come-

de Albuquerque (em 1982) e pelo empresário José Mindlin (em 19791. A configuração çaram a ser encaminhados ao Conselho Consultivo que, a partir de então. passou
a participar de todas as decisões relativas aos tombamentos.
do colegiada começava a se modificar.:' Por sugestão do presidente Marcos Vilaça,
o Conselho começou a se reunir também fora do Rio de Janeiro, visando a propiciar
maior envolvimentocom a comunidade,de desejável efeito didático. 5.4 0BSÉPVACÕtS FINAIS

Na década de 1980, começaram a chegar ao Conselho pedidos de tombamento Como espero tenha ficado evidente, os problemas que, nas décadas de 1970
dentro da idéia dos 'novos programas': bens representativosda etnia afro-brasi- e 1980. se apresentavamàs áreas técnicas e às instânciasdecisórias da Sphan
leira (Terreiroda Casa Branca, BA e Serra da Barriga, ALjl das diferentes corren- estavam bastante distantes das questões que então ocupavam os funcionários
tes de imigração(Casa Presser,RSI Casa do Professore Escola Rural,e Cemi- ligados ao CNRC, inclusive na medida em que esse grupo contestavaos critérios
tério Protestante,SC, testemunhosda imigraçãoalemãoCasarãodo Chá. SP, tes- de valoração da Sphan. Mas, ao simplesmente repudiarem os critérios estabele-
temunho da imigração Japonesascidade de Antõnio Prado. RS, testemunho da imi- cidos lo que lhes era facilitado pelo tipo de trabalho que desenvolviam)e ao se
gração italiana)l marcos da história da ciência e da tecnologia no Brasil (Casa limitarem ao que seria uma atuação correffva, os técnicos do CNRC terminaram
de Saúde Carlos Chagas e Estação Ferroviáriade Lassance,MGI Escola de En- por se furtar a enfrentaruma dimensãosem escapatóriada atividadede preser-
fermagem Ana Neri, Fundação Osvaldo Cruz e Hospital São Franciscode Assim. vação: a definição de critérios para a seleção de bens a integrar o património his-
RJI inúmeros exemplares da arquitetura em ferro. como pontes, mercados. caixas- tórico e artístico nacional - critérios tanto técnicos como políticos.:'
d'água, açudes etc.l novos exemplares de arquitetura civil, como curtume. fábricas No entanto, o fato é que vários projetos do CNRC foram parar nas instâncias
e conjuntos habitacionaispopularesl e até fazeres, objeto da propostade tomba- técnicasda Sphan, em muitos casos a contragostodos técnicos mais antigos da
mento da Fábricade Vinho de Caju Tito Salva,Paraíba). casa, que consideravam os bens propostos para tombamento desprovidos de ex-

Esses pedidos de tombamento provocaram discussões sobre o instituto do cepcional valor histórico ou artístico, ou incompatíveis com as exigências do insti-

J tombamento. suas finalidades e seus limites. Na 108a reunião, realizada em Salva- tuto do tombamento.Mas hoje é inegável que esse movimentopropiciou,em nível
dor em 31 de maio de 1984, o pedidode tombamentodo Terreiro da Casa Branca conceptual,pelo menos, algum grau de Integração entre as duas orientações.O

foi objeto de acaloradodebate e foi inusitadamenteaprovadopor uma estreita mar- afluxo de novos programas,entre eles várias propostas oriundas da Área de

O PATRIAÕNIOEA PROCESSO A PRÁTICA


Dll TOABAA[NTO:1970-1990 207
206
Referênciada Dinâmica Cultural da FNpM. contribuiu,sem dúvida. para provocar desses grupos estivesse voltado para outras frentes de atuação política. como
uma reflexãoteórica, metodológicae operacionalextremamentesalutar, mas que, ocorreu na Constituinte.
na medida em que ficou restrita aos processos de tombamento, não contribuiu para
Em suma, se, nesse período, o patrimóniose abriu para novos tipos de bens.
informara prática institucional. a Sphan ainda não sabia exatamentecomo fazer para protegeresses bens.
Fazondo um balanço dos tombamentosfeitos nas décadas de 1970 e 1980, A análise dos processos de tombamento abertos nas décadas de 1970 e 1980
observa-se que. sobrotudo nos anos 80, aumentaram consideravelmente as ins-
nos leva a caracterizar
esse poríodocomo um momentode coexistência
e, em
crições no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (46 inscrições, a partir
certos momentos. de confronto, entre orientações distintas, o que se expressou
de 1970). As inscriçõesno Livro Históricol94, entre 1970 e 1990)foram um pouco muito mais no nível das práticas que do discurso. Por outro lado, se considerar-
mais numerosas que as Inscrições no Livro de Belas Artes (86, no mesmo perío- mos essa situação em termos de longo prazo, podemos supor que, na verdade,
do), mas a diferença não é expressiva. se trate de um período de transição. Na medida em que se reconstruamséries
Quanto aos tipos de bens que foram objeto de tombamento, decresceu signifi- históricas,se proponhamleituras mais abrangentes,que não se limitem aos con-
cativamente o número de bens de arquitetura religiosa e militar, aumentando o nú- ceitos tradicionais de história e de arte, e sobretudo se abram espaços para a par-
mero de conjuntos. Mas o fato mais característico desse período é a diversificação ticipação de outros atores, que poderão propor outras leituras e dar suporte às
dos bens de arquitetura civil, e o tombamento de bens /nusflados,como o da Fábri- atividades de proteção, os efeitos dessa fase poderão redundar numa efetiva am-
ca de Vinho de Caju Tito Silva, já mencionado,propostopelo programa de Tec- pliação da eficácia simbólica do património e numa maior representatividadedos
nologias Patrimoniais da Área de Referência da Dinâmica Cultural da FNpM, cuja bens tombados relativamente à pluralidade cultural brasileira.
finalidade não era propriamente a proteção do imóvel e do equipamento, mas
dessos enquanto suporte de um "fazer intimamenterelacionadocom as caracte- NOTAS

rísticas regionais do processo cultural brasileiro'.:' O tombamentode bens natu-


O arquitetoCarlosLemos,do Condephaat.
de São Pauta,observouque, no casodas
rais é ainda esporádico. mesmo porque, no período. foi intensificada a atuação de fazendas paulistas antigas há, pelo contrário, interesse dos proprietários no tombamento.
outros órgãos públicos voltados especificamentepara a proteção do meio am- o que as valoriza no mercado imobiliário.

biente, que passou a contar também com inúmerasONGs. Entretanto,a análise


Sobre a sistemática dos processos de tombamento, ver Castra, 1991, p. 55-67 e,
dos processos de tombamentoabertos nesse período (ver Anexo VI) revela um de forma mais resumida,Meirelles.1991, p. 481-483.
3
dado curioso: se a difusão da ecologia sem dúvida mobilizou a sociedade bra-
Deprol/IBPC. Processos de tombamento: uma proposta de ação. Dezembro 1992
sileira para a necessidade da presewação, por outro lado o encaminhamentoà jmimeol.

Sphan de cerca de trinta pedidos de tombamentode bens naturais indica que a


Os dados mencionadosforam colhidos no Arquivo Central do IBPC, em pesquisa
figura do tombamentoainda é vista por nossa sociedadecomo o instrumentode concluída
emjulhode 1993.
preservaçãopor excelência.
De maio de 1992 - quando ocorreu a reconduçãodo Conselho Consultivo - a maio
l A proteçãopelo tombamentode bens de outros contextosque não o da cultura de 1995 ocorreram mais sete tombamentos: Sobrado do Padre Taborda e casario
luso-brasileira continua raras e a de bens que estão inseridos numa dinâmica de fronteiro e ao redor dele e da Igreja Matriz de Santo Antõnio jltaverava, MG); Con-
uso popa/ar - como foi o caso do Terreiro da Casa Branca, da Casa Presser, RS junto arquitetõnico,urbanístico e paisagístico da cidade de Cuiabá IMT)l Palácio Tira-
dentes Iria de Janeiro, RJ); Conjunto arquítetõnicoe paisagístico de Corumbá IMS)l
e do Conjunto Habitacional Avenida Modelo, RJ - é considerada problemática
Parque Nacional da Serra da Capivara (São Raimundo Nonato, PI), Parque Zoológico
pelos critérios em vigor. Outro fato a se observar é que não ocorreram tomba-
do Museu Emílio Goeldi IBelém, PAj. Cine-Teatro Central e as pinturas a ele integra-
mentosde bens referentesàs etnias indígenas,o que leva a supor que o interesse das(Juizde Fora.MG).

208 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO A PRÁTICA


Dt TOABAA[NTO:
1970-1990 209
'Y

6
Nesse total, além dos 74 processosarquivadosque foram abertos a partir de Em entrevista. Lúcio Costa definiu o 'ecletismo arquitetõnico':'Cada obra seguia um estilo
1.1.1970, incluem-se mais quinze processos abertos antes dessa data, mas que fo- característico do seu gênero, um estilo histórico, digamos assim. Uma casa não obedecia

ram arquivados durante as décadas de 1970 e 1980 desses números não são exatos, às mesmas linhas de um prédio comercial. Havia um receituário a ser seguido. As igrejas
pois em alguns processos não foi possível definir a data do arquivamento). eram românicas. góticas ou barrocasl os bancas se pareciam com palácios italianosl os
edifícios públicos imitavam o estilo Luís XV ou LuasXVI e por aí ía. passando. naturalmente.
Em 12 dos 135 pedidosque resultaramem tombamento,não foi possível identificar
pelo estilo colonial português,pelo normando etc.'(Fo/ha de São Pau/o,Caderno Mais,
a origemda solicitação.seja porqueos processosnão se encontravamno Arquivo 15.8.93,
P. 6).
Central do IBPC, seja porque neles não foi possível localizar essa informação.
Cf. capítulo 3, nota 28
Já na França, em 1980 - o Ano do Patrimõnia - foram identificadas cerca de seis 17

mil associaçõesem todos os domíniosdo patrimónioILéniaud, 1992, p. 104). Lúcio Costa refere-se aos processos 855-T-70 (Rua da Glória), 853-T-72 (Rua
Mayrink Verga) e 854-T-72 crua da Quitanda). todos pedidos encaminhados por ele.
Cabe observar que, entre os pedidos de tombamento encaminhados por prefeituras
e assembléias legislativas, dezoito foram arquivados, e apenas nove resultaram em A partir de 1979, a Divisão de Estudos e Tombamentos (DET) e a Divisão de
tombamento. Conservação e Restauração IDCR) foram fundidas na Divisão de Tombamento e

10
Conservação(DTC).
A antropóloga Eunice Durham considera que 'a idéia de 'comunidade' é um mito da
'9 Cf. mesa-redonda sobre tombamento ISphan. Revfsfa do Pafdmõnfo, na 22, 1987
nossa transformação política. Todo conceito de comunidade está preso à noção de
P. 69-79)
igualdade, de convivência etc. Pensar na comunidade urbana é muito complicado,
se não totalmente falso. E não há nada de que se fale mais no país ultimamente
a
'0 ato discrlcianário é a proleção, na prática, da faculdade discricionária ou poder
do que em comunidade.E a coisa que menos existe e sobre a qual mais se fala' discricionário,possibilidadede agir ou não, de operar ou não dentro de uma área
jem Arantes[org.],1984,p. 55). perfeitamentecircunscritapelo direita.
11
A Casa Modernistafoi tombadaem 14 de agosto de 1986 pela Sphan,juntamente Opondo-se ao ato vinculado, que é a manifestação obrigatória da administração
com duas outras casas de Warchavchik,a partir de propostaencaminhadapela 9: desde que o beneficiário do ato tenha preenchido os requisitos fixados pela lei, o
DR ato discricionáriomovimenta-senum campo muito mais livre, visto ser a manifesta-

Devo esses números à pesquisadora do IBPC, Mana Alice Siaines de Castra. Aas ção unilateral da vontade da administração que, fundamentada em regra objetiva
de direito. que a legitima e Ihe assinala o fim livremente. se concretize desvinculada
vinte tombamentos compulsórios relativos a processos abertos a partir de 1970 acrescen-
tam-se mais três, relativos a processos abertos no período anterior. de qualquer lei que Ihe date previamente a oportunidade ou conveniênciade conduta.
sendo por esse motivo mesmo insuscetívelde revisão judiciária nesse campo' (França.
13
Sobre o lugar dos arquitetos modernistas no seu campo profissional específico, diz 1978,P.465-466)
Louro Cavalcanti: 'A vitória dos 'modernos' no prédio do MES. na conquista da pri- 21

Os técnicosda Sphanponderavamque o uso da área do terreiro impediao cum-


mazia de criação de um órgão de Património e na afirmação de um discurso ético elegendo
primento das exigências do tombamento, na medida em que o ritual religioso podia
a habitação popular como objeto privilegiadode atuação jver Cavalcanti,1987), torna-os
determinaralteraçõesno espaçofísico do local, como corte de árvoresetc. Se
'dominantes' no campo arquitetõnico, havendo logradotecer argumentos em todos os planos
permitidoesse uso de um bem tombadopela Sphan,ficaria difícil impediroutros
de um debate colocado,ao qual passama recolocarem outros termos e constituirnovos
tipos de alterações.como modificaçõesem fachadas. em volumetriaetc., enfraquecendo-
enunciadospara esse mesmo campo-' (1991, p. 75)
se assim o instituto do tombamento. O mesmo tipo de problema foi objeto de discussão
14

O mesmo argumento foi utilizado na França em 1988. a propósito da proteção ao imóvel no caso do tombamento do conjunto habitacional Avenida Modelo, Rio de Janeiro, tombado
onde funciona o tradicional restauranteFauquet's, na medida em que o objetivo era preservar em 1985. Nos dois casos, como no do Santuário do Bom Jesus da Lapa. Bahia. em 1958
não o imóvel, sem maior valor arquitetõnico, e sim a marca. Em 1990, uma decisão da jver capítulo 41alegava-seque o tipo de uso desses bens pelas classes populares era
justiça considerou essa inscrição incompatível com a lei de 1913, que se refere a "bens incompatívelcom o tombamento,e que não seria correto impor a essas classes valores
móveis e imóveis' japud Léniaud, 1992, p. 119-120). culturais que lhes eram estranhos.

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO A PRATICA DE TOABAAlINTO: 1970-1990 211


210
T
Já os antropólogos,favoráveisa esse tipo de tombamento,consideravamque o CONCLUSÃO
mais importante.no caso, era a significaçãosimbólicae política desse ato, que por si só
justificava o risco de eventuais irregularidades"técnicas'. Para esses antropólogos, a
posição dos técnicos do grupo de pedra e ca/ apenas confirmava o caráter elitista da
compreensão que tinham do tombamento e da própria atividade de preservação exercida

lt
pelo Estado.
a O Terreiro da Casa Branca foi inscrito em 14.8.86 no Livro Histórico(na 504) e no Livro
Arqueológico. Etnográfico e Paisagístico (ng 931.
a
Embora concorde com a crítica do arquiteto aos pressupostos que fundamentaram o pedido
Tombam templos. Tombam prédios.
de tombamentodo presépio,considero que, nessecaso, não seria difícil recorrera outros Não falta tombar mais nada
q+'-,.
argumentospara inscrevê-lo no Livro de Belas Artes. Fujamos,fujamos
1: 24 Antes que a noite seja tombada.
Devo estes esclarecimentos aos arquitetos Antânio Pedro Alcântara e Ferrando Madeira.
QuadHnhacomposta por Manuel Bandeirano final de uma
8
il-. Em 1938, os 'morros do Rio de Janeiro' já haviam sido inscritos, genericamenteusem
especificações),nos Livros Histórico e de Belas Artes. Como se verificou ao longo dos anos,
longa reunião do Conselho Consultivo. citada de memória
por Afonso Arinos na 12# reunião, em 13.1.1987.
IHh
esse tipo de Inscrição não provocouos efeitos de proteção desejados.
8
A partir de maio de 1992. quando o Conselho Consultivofoi reconduzido,passaram a integrá-
lo representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente jlbamal e do lcomos. O número de membros nomeados, enquanto personalidades,
aumentou de dez para treze.
O objetivo deste trabalho foi acompanhar a trajetória da política federal de
27
Uma das raras ocasiões em que ocorreu esse debate foi a propósito do tombamento
presewação do património histórico e artístico nacional, com vistas a apreender
do Terreiro da Cata Branca.
de que modo essa política pública foi implementada no Brasil. O principal inte-
ZB Disse a respeito o relator do processo no Conselho Consultivo. José Mindlin: 'Trata-se de resse da pesquisafoi investigarcomo se deu, na conduçãodessa política no país.
inovaçãoem matéria de tombamento,pais visa à preservaçãode um processo industrial, a relação entre o Estado e a sociedade civil, tomando como referência três aspec-
e não de um monumento histórico ou artístico.
tos: a representação de património construída através da seleção e da valoração
de bens culturaisl os instrumentosutilizados para sua proteçãol os agentes que
se envolveram com essa prática.

Procurei inicialmente analisar, de um ponto de vista sociológico, as noções de


património e de preservação, partindo do pressuposto de que a prática de proteção
aos bens culturais constitui, nas sociedades modernas do Ocidente, um fato social
(capítulo 1)1 em seguida, procurei acompanhar o modo como essas noções foram
historicamente construídas no contexto da modernidade ocidental (capítulo 2).

Na consideraçãoda prática de preservação como fato social (capítulo 1), to-


mei como base três pontos: a construção de uma ordem jurídica próprias a utiliza-
ção do patrimóniocomo forma de comunicação sociall a instituição da proteção
como objeto de uma política pública. Embora esses três pontos sejam comuns à
práticade preservaçãoem qualquerpaís onde ela tenha sido incorporadaàs obri-

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO
212
gações do Estado, os subsídios para a análise foram buscados na legislaçãoe tico como questão politicamenterelevante, merecedorade intervenção por parte
do Estado.
nos procedimentos que foram adotados no contexto brasileiro. A perspectiva com-
parativa. aliás, percorreu todo o trabalho e revelou-se recurso extremamenteútil No Brasil, essa questão emergiu no bojo do movimento modernista(capítulo
para a apreensãoda especificidadedo caso brasileiro. 3). e foram intelectuais vinculados a esse movimento cultural que implementaram,

A reconstituição das condições de emergência de um "sentido do património" na administraçãofederal, uma política pública que tinha como objetivoa proteção
jcapítulo 2) remeteu ao contexto da modernidade,ou seja, a práticas orientadas do patrimóniohistórico e artístico nacional. Com o advento de um governo auto-
por valores leigos. à autonomização das diferentes esferas da vida social, e à ritário (EstadoNovo). esses atoros se viram confrontadoscom o problemade con-
constituição dos Estados-nações. legitimada sobre noções como cidadania e inte- ciliar sua posição de intelectuais comprometidos com valores da cultura e com
resse público. Além de atuar como mediador entre os interessesindividuais- de uma ética do saber, com a de políticos, cujo imperativo é agir visando a alcançar
'+'h.. que a propriedade privada é a expressão mais evidente - e o interesse da coletivi- resultados.A análise do programa e da prática política desenvolvidapor esses
[

dade, o Estado simboliza a nação e trata de promoverseus valores e objetivos. intelectuaisno Sphan levou à conclusão de que sua atuação na burocraciado go-
1} A instituição da idéia de património está, portanto, na confluência desses dois pro- verno getulista foi bem sucedida,sobretudo se lovarmos em conta o prestígio de
bb..l
cessos: o de demandas da sociedade e o da iniciativa do Estado. que a instituição (Sphan) e seu diretor (Rodrigo Meio Franco de Andrade) gozavam
l&E
w-l. Como ocorre com outras políticas públicas, também nesse caso a ação do Es- tanto entre os governantesquanto no meio intolectual,junto à opiniãopúblicae
até no exterior. Outro indicador de seu sucesso foi a inusitada continuidadedo
tado, no sentido de proteger bens culturais.é tanto mais centralizadorae autónoma
]

n
quanto mais limitados sejam os mecanismosde que a sociedadedispõe para se modelode atuaçãoimplantadono Sphan nos anos 30 e 40, que perduroupor mais
de três décadas.
fazer representarpoliticamente,e tanto mais seletiva quanto mais identificadoeste-
ja o Estado com interesses (económicos.políticos,simbólicosetc.) de grupos es- Por outro lado, era natural que esses intelectuais participassem de um governo
pecíficos. Ou seja, as políticas públicas de preservação e as representações do autoritário com alguma dose de ambigtlidade, em vista do inevitável compromisso
patrimóniocultural nacional construídas pelos agentes dessas políticas reprodu- com o regime político vigente. E o que denominei "autonomia para a instituição'
zem as contradiçõese os conflitos que se manifestamno contextomaior das Indicavasou relativoisolamentono aparelho estatal e na sua relação com a socie-
relaçõesentre Estado e sociedade. dade. Essa situação, no entanto, só foi ser objeto de crítica nos anos 70 (capítulo

Mas, em decorrênciade vários fatores - o lugar que essa política estatal ocu- 4), quando o modelo consolidado no então lphan se revelou inadequado para en-

pa na administração pública, as estratégias desenvolvidas pelos atores que a con- frentar os novos impasses que surgiam para a preservação. Nesse momento de

duzem e o grau de participaçãoda sociedadena sua implementação- o campo crise de legitimidadedo regime militar, abriu-se espaço no governo foderal para
dessa política adquire. em cada país e a cada momento,contornos específicos. uma reformulaçãoda política cultural e para a elaboração de um novo ideário
Em termos gerais, essas políticas se desenvolveramconforme dois grandes mo- sobre o património. Na burocracia estatal. o surgimento de atores com um novo

delos: o modelo francês, em que o poder de iniciativa se concentra no Estado, perfil, liderados por uma figura também carismática que foi Aloísio Magalhães.
e o modelo anglo-saxão. em que a sociedade civil se organiza para participar levou a uma ressemantizaçãodas noções de património e de proteção, à intro-
dessa tarefa. dução de conceitos novos. como referência e bem cu/fura/, e à busca de métodos
modernosde atuação. Aos recortes clássicos da história e da arte preferiu-sea
Na segunda parte. abordei a trajetória da política federal de preservaçãodo
noção mais abrangente de memó/fa. Um dos principais objetivos desses novos
património no Brasil. E, embora a pesquisa tenha se concentrado nas décadas de
atores era vincular a questão da cultura às áreas politicamentefortes do governo.
1970 e 1980, quando foi formulada uma proposta de democratizaçãoda política
como a do planejamentoeconómico. Enfatizava-seo potencial dos bens culturais -
cultural do MEC, foi necessário remontar ao início do século XX. momento em que
noção considerada mais abrangente que a de património, identificada à cultura
se começou a considerar, no Brasil, a proteção a bens de valor histórico e artís-

O PATRIAõNIO [A PROCESSO CO NCLUSÃO 215


214
T
luso-brasileirae aos valores da classe dominante- como geradoresde valor eco- A prática efetiva de proteção a bens de valor histórico e artístico nacional con-
nómico e como indicadores para a elaboração de modelos de desenvolvimento tinuou, porém, a ser exercida no âmbito da Secretaria do Património Histórico e
adequadosà realidade brasileira. Retomava-se,também, no contexto da política Artístico Nacional (Sphan), primordialmente por meio de tombamentos, e ainda com
cultural, a temática do Imperialismoe da dominaçãocultural dos países desenvol- predominância dos critérios formulados pelos intelectuais modernistas, sobretudo
vidos: mais que nos anos 30 e 40, o apelo a idéias nacionalistasfoi explorado os arquitetos. nos anos anteriores. A análise dessa dupla orientação da política
no discurso de Aloísio Magalhães. federal de presewação durante as décadas de 1970 e 1980 - a linha da pedra e
A reação a essas propostas foi, naquele momento, diferenciada. Junto aos go- ca/ e a linha da referéncü - demonstrou que, embora as relações entre os dois
vernos militares da fase de abertura, elas oncontraram amplo apoio e recepti- grupos fosse freqtlentemente marcada pelo antagonismo, as idéias desenvolvidas
vidade, levando a uma reestruturação da área cultural dentro do MEC. Junto à opi- no CNRC, e as propostas encaminhadas por esse setor para tombamento de bens.

nião pública, foram, em geral, identificadas a uma nova visão, mais atualizada, contribuíram para provocar um proveitoso processo de discussão dos critérios de

dos problemas culturais no Brasil. Entretanto, junto ao meio intelectual e, sobre- valoraçãoaté então acentossem maiores discussões,porque pautadospela auto-
tudo, junto à comunidadeacadêmica,então bem mais organizadae independente ridade de Rodrigo Meio Franco de Andrade e, sobretudo, de Lúcio Costa.

que na primeira metade do século, a posição ambígua dos agentes institucionais, A pesquisa nos processos de tombamento (capítulo 5) veio demonstrar que.
que se apresentavamcomo mediadoresentre os grupos identificadoscom a cul- na realidade, essa revisão de critérios e de normas de atuação Já vinha ocorrendo
tura popular e o Estado, era vista com desconfiança, embora raramente tenha sido dentro do próprio lphan, desde o início da década de 1970 (conforme ficou evi-
objetode críticasmais contundentes.O que se censuravana atuaçãodo Centro dente na polêmica sobre o tombamento de prédios da Avenida Rio Branco), em
Nacionalde ReferênciaCultural (CNRC),criado em 1975 e, posteriormente,incor- decorrência de mudanças nos campos disciplinares relacionados com a preser-
porado à FundaçãoNacional pró-Memória,era, além de uma imprecisão concei- vação. Os novos problemas que se apresentavam' à proteção de monumentos.
tual. uma indefinição ideológica, na medida em que se postulava o reconhecimento sobretudo nos centros urbanos, em franco processo de remodelação, também
da diversidade cultural brasileira mas não se explicitavam as desigualdades e as exerciam pressão sobre os funcionários do lphan, apontando para a necessidade
relações de dominação. de mudanças.
A proposta de democratização da política cultural do MEC, formulada no docu- Sintetizando os resultados da pesquisa, ficou claro que, durante essas duas
men\o Diretrizes para operacionalizaçãoda política cultural da MEC, de q98q, décadas. ocorreram mudanças significativas na representação de nação cons-
visava a. de algum modo, incorporar uma revisão crítica do modelo de atuação truída via património histórico e artístico nacional no Brasil. Foram incluídas pro-
inicial do CNRC, que entendia a mudança como modernizaçãodo conceito de duções referentes às diferentes etnias, aos grupos de imigrantes e às zonas de
património e dos instrumentos de preservação. Nesse documento, elaborou-se ocupação recente do território nacionall exemplares da cultura popular e do mundo
uma visão mais politizadada questãodo patrimõniolna verdade,desde o final dos industriall passaram a ser considerados estilos artísticos que, antes, eram excluí-
anos 70, membrosdo grupo da "referência"procuravamrelacionar a questão do dos em função de uma visão canónica de arquitetura. Entretanto, essa imagem oó-
patrimónioà luta pela cidadania. /effva da nacionalidade ainda está longe de ser representativa da pluralidade
cultural brasileira.
Entretanto,em conseqtlênciade inúmeros fatores, sobretudo de dificuldades
internas à área da política foderal de património, essas idéias se disseminaram Os instrumentos de proteção continuaram praticamente os mesmos: o tomba-
apenas no nível do discurso oficial. não chegando a transformar substancialmente mento para bens imóveis e os museus para a guarda dos acervos de bens móveis.
a prática de preservação. Mas foram incorporadas à Constituição Federal de 1988, A pesquisade outrasformasde proteção,apesarde ser reconhecida
como im-
nos artigos 215 e 216. prescindível,ainda está por ser feita.

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO CONCLUSÃO


216 217
T
Também a relação entre a instituição estatal e a sociedade pouco mudou. Se política de preservação,iniciada no Estado Novo, tenha se reduzido a ser mais

houve um aumento significativo na participaçãode agentes externos nos pedidos um reforço ideológicode um nacionalismodo Estado, ou que seu objetivo tenha
de tombamento, as instâncias decisórias continuaram restritas ao Conselho Con- sido apenas o de legitimarprojetos de governos autoritários,o fato é que a idéia
sultivo - cuja composiçãosomente em 1992 passou por uma mudança visando de fomentar um sentimento de nacionalidade está na base da noção de património.
a aumentarsua representatividade- e ao corpo técnico da administraçãocentral Retomemos, agora, à questão proposta no início deste trabalho: teria a política
da Sphan, que produz os pareceres técnicos com as indicações para tombamento de preservaçãodesenvolvidapelo Estadobrasileirodesdeos anos 30 se limitado.
(ou não). Como na grande maioria dos casos, o ConselhoConsultivo se limitou na sua trajetória.a funcionarcomo um recurso para legitimaçãodas ações seleti-
a ratificar essas indicações,e como as delegadas regionaisdo órgão tinham uma vas desenvolvidas pelos diferentes governos tendo em vista os interesses dos
participação limitada à produção de pareceres, pode-se caracterizaro processo grupos dominantes?Ou teria essa política conseguidoalcançar, em suas realiza-
de seleção e valoração de bens para integrarem o património cultural brasileiro, ções. um sentido social mais abrangente. indo ao encontro de demandas (ainda
aditado durante as décadas de 1970 e 1980, como altamente especializado e cen- que nem sempre explicitadas)da sociedade?E, independentementedas duas al-
tralizador.Entretanto,as circunstânciasque. nos anos 30 e 40, justificavamessas ternativas, a que se deve o baixo nível de participação da sociedade brasileira
característicasenquanto estratégiasnão mais existiam nos anos 70, e. sobretudo, em face da questão da preservação? Refiro-me à participação social, em três sen-
a partir de meados dos anos 80. tidos: no de incorporação,à imagem de nação construídaatravés do património.
O desmantelamento
da área da cultura,no início do governoCollor,produziu da pluralidade cultural brasileirasno de mobilização da sociedade - através da
uma quebra na continuidadede uma política estatal que se caracterizavapela es- imprensa, de sindicatos e outros órgãos de classe, da organizaçãode grupos e
tabilidade.Reorganizada
a partir da reestruturação
institucional(extinção
da Sphad associações,ou mesmo por meio de manifestaçõesmais restritas, como cartas.
FNpM e criação do IBPC), da recondução do Conselho Consultivo em maio de 1992. abaixo-assinadosetc. - relativamente a questões da preseívaçãol no de alteração
e da retomadada prática de tombamentos.essa políticaestatal se vê, atualmente. nos mecanismos decisórios institucionais, de modo a possibilitar a reprosentação
frente a uma nova realidade e a novos problemas. de diferentes grupos sociais (seja em termos de categorias profissionais,temas

Nesse meio tempo, a descentralizaçãoiniciada nos anos 70 consolidou-se, ou causas, contextos culturais etc.) na construção do património histórico e artís-

com a disseminação das secretarias de cultura e de órgãos estaduais e municipais tico nacional. Essas questões se tornam tanto mais procedentesquando compa-

11 de preservação. No nível estadual. tem predominado nos órgãos que trabalham ramos a receptividade da sociedade à questão do património à reação que essa
mesma sociedadevem tendo, nos últimos anos, à questão do meio ambiente.
com património a tendência para a exploração turística do património local, como
é patente nos estados do Nordestel no nível municipal, vêm sendo desenvolvidas A análise dos dois momentosmarcantes dessa política pública - o momento
experiências inovadoras. a partir do conceito de cidadania cultural, tendo sido pio- fundador, nos anos 30-40, e o momento renovador, nos anos 70-80 - indicou que,
neira, nesse sentido. a SecretariaMunicipal de Cultura de São Paulo. durante a mesmo em períodosautoritários.a política estatal de patrimónionunca se reduziu
gestão da prefeita Luísa Erundina. a um recurso ideológico do Estado. Em ambos os períodos analisados, o esforço

A instituição federal de preservação do património deixou, portanto, de consti- dos intelectuais que atuaram como mentores da política federal de preservação
tuir a única alternativapara a proteçãode bens de valor histórico e artístico. No foi no sentidode criar um campo próprio, com relativa autonomiadentro do gover-
exercíciode sua função, vê-se, inclusive.frente à necessidadede definir com cla- no, para a implementaçãode um prometopara a cultura brasileira. Nos anos 30.

reza o que entendepor valor nacionalde um bem, na medida em que, hoje, já exis- esse prometose voltou para a construçãode uma tradição cultural que fosse, ao
tem alternativas de proteção em nível estadual e municipal. mesmo tempo, universal e autenticamentenacionall nos anos 70, o objetivo era
ampliar e atualizar a representação da cultura brasileira construída pelas insti-
Além disso, o declínio dos nacionalismospriva a prática de preservação de
tuições estatais relacionando-acom interesseseconómicose sociais, prometoque
seu principal recurso de legitimação. pois, embora não se possa dizer que a

CONCLUSÃO
218 O PÂTRIAõNIO EA PROCESSO 219
T
se encaminhou,posteriormente,para a vinculaçãoda questãocultural aos direitos tuição desenvolveuestratégias para resistir a pressões externas e manter as
da cidadania. Essa função que alguns intelectuais brasileiros exerceram, como decisõesem um nível estritamentetécnico. Instaurou-se,assim. uma forma fe-
únicos mediadoros possíveis entre o Estado e a sociedade - referida como "as chada e altamente centralizadora na tomada de decisões, que continua a mes-
massas'na fase heróicae como"os diferentescontextosculturais'na fase mo- ma até hoje, mais de cinqüentaanos depois e em um país bastante diferente.

derna - se justificada em períodos autoritários, ou quando ainda predominava uma Esperar que os agentes institucionais alcancem, exclusivamenteatravés de

cultura política que identificava Estado, nação e sociedade, não encontra mais suas decisões, representatividadeem termos nacionais é incompatível com
argumentos nos tempos atuais. Trata-se, hoje, de procurar politizar a política uma proposta que se queira democrática.
federal de preservação no Brasil, o que não significa reduzi-la a uma prática ideo- 2. Em segundo lugar, o instituto do tombamento continua sendo pratica-
lógica, seja a serviço do Estado ou das classes que o ocupam, seja dos excluídos mente o único recurso realmente eficaz para a proteção de bens culturais,
até hoje dos benefícios dessa política. Politizar no sentido de ter como objetivo apesar dos debatesdesenvolvidosnas duas últimas décadassobre sua espe-
que esses bens sejam apropriados simbolicamente pelos diferentes grupos sociais cificidade e seus limites. A pesquisa de "outras formas de acautelamentoe
que compõem a sociedade brasileira. Ou seja, tira-los da situação de "pesados preservação', provista na Constituição de 1988, ainda está por ser feita.
e mudos' referida na introdução, e fazê-los circular no espaço público, enquanto
'tl

3. Em terceiro lugar, a persistirem os critérios tradicionais de valoração,


referências de identidades coletivas e enquanto conteúdos do imaginário social.
que dão ênfase aos aspectosformais e à dimensão estética dos bens, dificil-
] A elaboração de uma versão crítica da trajetória da política federal de preser- mente o patrimóniocultural brasileiro poderá adquirir uma significação social

g. vação no Brasil, que sina como base para projetos futuros, é uma tarefa a ser
realizada. A imagem que as instituições envolvidas têm construído de sua própria
mais ampla e referir a diversidade e a dinâmica culturais característicasdo
contexto brasileiro. Trata-se, portanto, de assumir uma posição crítica não
história se confunde com os mitos cultivados por seus funcionários. Para os mais apenas em relação ao conjunto dos bens tombados,como também quanto às
antigos, a fase hera/ca (que não por acaso recebeu essa denominação) é a Idade leituras que têm presidido os tombamentos. A Inclusão de museólogos, histo-
de Ouro do PafrlmõrTfo,cristalizada no culto à figura de Rodrigo M. F. de Andrade. riadores e cientistas sociais nos quadros técnicos da instituiçãolá constituiu
Já para os funcionários mais recentes, que participaram da experiência do CNRN um primeiro passo para que se elaborem leituras mais abrangentese social-
e/ou conviveramcom Aloísio Magalhães,vivia-se nos anos 70 uma invejável si- mente mais significativas. Entretanto, é preciso incorporar efetivamente a par-
tuação de exceção no emperrado universo do serviço público brasileiro, em que ticipação da sociedadenesse processo, o que significa criar mecanismosque
o trabalho tinha o sabor de um ato inaugural, orientado com habilidade e alegria assegurem algum nívol de representatividade a essa participação.
pela personalidado ímpar de Aloísio.
Atualmente, já não se espera de uma personagem carismática o prometoque
Essas versões mltificadoras encontram reforço na falta de diálogo, seja inter- virá sa/var essa política da situação subaltorna em que se acha, tanto dentro do
namente entre os agentes institucionais, seja entre eles e a sociedade. E neces- Estado como diante de sociedade. Pelo contrário, a análise da experiênciaante-
sário, portanto, elaborar uma reflexão desmitificadora, mas não desiludida, dessa rior, se considerada à luz do momento atual, indica que o caminho é explorar os
trajetória, que procure avaliar, com um mínimo de objetividade, resultados e carên- canais de comunicaçãoentre as instituições estatais e a sociedade.
cias, com a finalidade de vislumbrar perspectivas.
Se esse objetivonão diferemuito do que se dizia no discursooficial, desde
A partir da análise realizada, foi possível extrair algumas orientações tendo 1937, e, sobretudo,a partir das D/refrizes,os termos dessa relação se modificaram
em vista a elaboração de novas diretrizes. bastante. O Estado não se apresenta mais como protagonista do desenvolvimento

1. Em primeiro lugar, dificilmente o universo do património se tornará real- nacional nem como porta-voz exclusivo dos anseios da nação. Na mesma linha,
mente representativo da diversidade cultural brasileira enquanto persistirem a noção de cidadaniadeixou de ser entendidacomo uma concessãodo Estado-
os atuais procedimentospara seleção de bens. Desde seus primórdios,a insti- como ocorreu no período estadonovista- e passou a ser consideradacomo um

O PATRIAÕNIO[A PROCESSO CO NCLUSÃO 221


220
T
conjunto de direitos a serem conquistados e estendidos a toda a sociedade. Nesse Não estou propondo que a instituição federal abandone sua responsabilidade
contexto,a idéiade naçãose tornaindependente
da tule/ado Estado,e a socie- primeira de construir e proteger o património cultural nacional. Ainda que o traba-
dade civil emerge como ator político. lho já realizado seja significativo, esse processo é contínuo e dinâmico. tanto no

Essa nova conjuntura tem impacto sobre as políticas culturais, que passam sentido da inclusão de novos bens quanto da leitura dos bens já sob proteção

a buscar legitimação,sobretudo na idéia de direitos culturais. Nessa nova pers- legal. O que quero dizer é que, no momento atual, a ênfase deve se voltar para
pectiva, não tem mais sentido que os agentes institucionais se considerem os úni- ações, pontuaisou não, que contribuam para introduzir a questão do património

cos porta-vozesdos interessesda sociedadesesta. por sua vez, vê na sua capaci- no universo das questões de interesse para a sociedade brasileira.

dade de organizar-se e de encaminhar suas demandas - sejam elas na área eco- Mais uma vez parece correto buscar em Mário de Andrade inspiração, reto-
}
nómica, social ou cultural - o caminho para o exercício da cidadania. mando criticamenteseu ideal de coletivizaçãoda cultura e sua concepçãoampla
e dessacralizadade património. Digo criticamente porque a função dos agentes
)

Seria ingênuo. no entanto, supor que, no Brasil, essas transformações surjam,


sobretudo na área da cultura, como conseqtlência natural do processo de demo- institucionaisque hoje trabalhamnesse campo se propõe como bem diferente do

cratização política, como ocorreu om países de tradição cultural enraizada, como papel que se atribuíram os intelectuais que atuaram na área federal da política de
l a França, ou historicamente construídos sobre valores democráticos, como os preservação,tanto nos anos 3040, quanto nos anos 70-80. Funcionáriospúblicos
de um Estado democrático mas cuja estrutura se acha em fase de questionamento
Estados Unidos. Aqui, dada a extrema carência de bens materiais e simbólicos
B entre numerosos setores da população, e dados os processos de marginalização por parte da sociedade, atualmente a função mais importante desses agentes é
a e mesmo exclusão de parcela significativa da sociedade nacional, desenvolver contribuirpara que o maior número possívelde pessoas possa efetivamenteexer-
c. cer seus direitos culturais. No caso do património, o simples ato de garantir a per-
uma política cultural democrática é um Imenso desafio para seus mentores. tanto
maior quanto mais distantes estejam das comunidadeslocais. E inevitável. por- manência,no espaço público - por exemplo, em uma cidade - de bens que cha-

tanto. que esses agentes assumam um papel mais ativo junto à sociedade, caso mam a atenção por sua beleza. por sua riqueza ou apenas por seu poder de evo-

contrário correm o risco de não alcançarem mais que aqueles poucos setores já cação.e que foram subtraídosao uso e/ou posse exclusivamente
privadospara
tradicionalmente sensibilizados para questões culturais. ou, especificamente, para poderem se comum/carcom quem queira deles se aproximar. servindo como refe-

o interesse na presewação. rências de identidadescoletivas e como fonte de prazer estético, contribui para
dar visibilidadeà abstratanoçãode res puó/fca.Mas é evidenteque essa ação
No estágio anualda questão do património no Brasil, a atuação do órgão fede-
fará tanto mais sentido quanto mais amplamente esses bens possam ser /Idos e
ral de preservação deveria ter um caráter eminentemente didático e exemplar. Di-
apreciados,numa apropriaçãoativa, que contribua para o enriquecimentode cada
dático não apenas quanto a desenvolver ações voltadas para a difusão de um sen-
cidadãoe da coletividadecom um todo.
ffdo do património e do interesse social na preservação jinteresse que, em se tra-
tando do meio ambiente, já se tornou praticamente um consenso), como também Por outro lado, seria uma imperdoávelingenuidadesupor que a ação volunta-

quanto a se instrumentalizar para recorrer aos canais já existentes - mas muito rista de agentes estatais possa corrigir desigualdades produzidas em outras es-

pouco utilizados com essa finalidade - para se comunicar com a sociedade (edu- feras da vida social, ou que o exercício dos direitos culturais possa ser assegu-
cação formal e informal, instrumentos de referenciamento e informação, meios de rado por sua enunciaçãoem textos oficiais ou pelo tombamentode bens materiais.

comunicação, interface com outras políticas públicas. incentivos etc.). E exemplar Além disso, é preciso não esquecerque as políticas culturais, em geral, e as polí-
no sentido de que as ações específicas de proteção - tombamentos. inventários. ticas de preservação,em particular.têm um alcance restrito. se comparadascom
outras políticas públicas.
registros etc. - não precisam mais ser necessariamente extensivas e abrangentes,
na medida em que já existem órgãos locais para esse fim. mas devem sewir para Os efeitos mais evidentes das políticas de preservação se manifestam nos
explorar novas possibilidades na linha da idéia de cidadania cultural. ambientesurbanos, na configuraçãodo espaço das cidades, sobretudodas cida-

222 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO CO NCLUSAO 223


T
des antigas. é claro. Mas, se considerarmos o espaço físico e o que o homem R[FERÉNCIAS BIBHOGRÁl:OCAS
nele produz como uma riqueza social, fruto do trabalho coletivo de gerações,
parte, portanto, da história da nação, o interesse na preservaçãodeixa de se limi-
tar apenas à proteção de valores culturais restritos, nos limites das concepções
tradicionaisde história e de arte. Abre-se,assim, no patrimóniolugar para as pro-
duções visualmentemenos imponentes,para os objetos modestos, para saberes
e fazeres. E. no nível simbólico, tornam-se possíveis leituras menos limitadoras.

Mas, para que essa ampliação (material e simbólica) do património seja


possível, não se deve vincular a produção dos bens culturais - que é fruto do
)

trabalho coletivo - à sua posse (em termos de apropriação,seja quanto a pro-


11. priedade e/ou uso, seja quanto a referência a uma Identidadecoletiva) por indi-
) víduos, grupos ou classes sociais. Pois o sentido mais profundo do tombamento
J
federal é justamente o de recuperar essa dimensão social de determinadosbens
que, exemplar e concretamente.referem a coletividade nacional. Não uma cole-
) tividade harmónica e artificialmente representada, mas o lugar onde se manifestam
a identidades múltiplas, diferenças, desigualdades e conflitos.
c.
Dentro dessa visão, a presewação passa do estatuto de exceção para o de
norma,e o interesseem destruir passa a ser avaliado a partir de uma perspectiva ALENCASTRO, Luís Felipe de. Não sabem dizer coisa certa. Rev/sfa Bías#eira de Cféncüs
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preservação.certamente contribuirão para uma reelaboraçãodos princípios, dos
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critérios e dos procedimentos que têm norteado a produção. a proteção e a promo-
ção do patrimóniocultural no Brasil. E, quem sabe, contribuirãotambém para que ANDRADE, Antõnio Luiz Dias de. Uma estada como/efo que pode jamaó fer exlsffdo. Tese de
doutorado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
a prática já consolidada da preservação de bens culturais seja democratizada, no
Paulo, 1993.
sentido de ser efetivamente apropriada, enquanto produção simbólica e enquanto
ANDRADE, Mário de. Áspecfos da/Ifeíafuna l)ías//e/ra. 4. ed. São Paulo: Martins=Brasília: INL
prática política. pelos diferentes grupos que integram a sociedade brasileira.
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.A

'FcÀ

236 O PAIRIÁÕNIO EA PROCESSO


l

ÂN[XO l
CRONOLOGIA DA POLITICA DE PR[S[RVACÁO NO BRASIL

19n Mário de Andrade elabora, por encomenda do ministro Gustavo Capanema, anteprojeta
para criação de um serviço federal de proteção ao património.

O Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional ISphan) começa a funcionar


em caráter provisório.sob a direção de Rodrigo Meio Francode Andrade.

IW7 Em 30 de novembro de 1937 é promulgado o decreto-lei Re 25, que cria o Sphan e


regulamenta o Instituto do tombamento.
l IHI E promulgado o decreto-lei Re3.866, de 29 de novembro de 1941, que dispõe sobre
b
B o cancelamento do tombamento pelo presidente da República.

196 O Sphan passa a denominar-se Departamento do Património Histórico e Artístico


Nacional (Dphan).

l IHI E promulgada a lei Re3.924, de 26 de setembro de 1961, que dispõe sobre a proteção
aos monumentos arqueológicos e pré-históricos.

19m RodrigoMeio Franco de Andrade se aposenta, entregandoa direção do Sphan a


Renato Soeiro.

1970 Realizaçãode reunião de govemadores para tratar da questão do património histórico


e artístico nacional e elaboração do documento Compram/sso de Brasilh.

O Dphan se transforma em Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional


jlphan).

1971 Realização de reunião com govemadores recém-empossados sobre o mesmo tema


e elaboração do documento Compromisso de Sa/fiador.

1973 Criação,junto à Seplan, do Programa de Reconstruçãodas Cidades Históricas (PCH)

1974 Início da gestão de Ney Braga no MEC

1975 Elaboração,no MEC, do documento Po/#lca r7aciona/de cu/fura

Criação do Centro Nacionalde Referência Cultural (CNRC).

Promulgação da lei RQ6.292. de 15 de dezembro de 1975, que torna obrigatória a


homologaçãopelo Ministro da Educação e Cultura de tombamentos e de can-
celamentos realizados no âmbito do lphan.
1976 Aprovação do regimento interno do lphan. As ruínas de São Miguel das Missões são inscritas na lista do PatrimónioCultura
da Humanidadeda Unesco.
Renovaçãodo convêniodo CNRC.

Incorporação
da CinematecaBrasileiraà FNpM.
O PCH é estendido aos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Incorporaçãodo Museu Lacar Segall à FNpM.
Início da gestão de Euro Brandão no MEC.

Assinaturado termo aditivo ao convênio do CNRC. Incorporaçãodo Sítio SantoAntõnio da Bica Ide propriedadede Burle Marx) à FNpM.

Extinção da SEC e criação do Ministério da Cultura IMinC), que é assumido por José
Início da gestão de Eduardo Portella no MEC.
Aparecidode Oliveira.
Aloísio Magalhãesassume a díreção do lphan. Criação.no âmbito do MinC, da Secretaria do PatrimónioHistórico e Artístico Nacional
O PCHé integradoao lphan. ISphan)e da Secretariade Ação Cultural (Seac).

Realizaçãodo Semináriode Ouro Preto, que inauguraa práticade diálogo com as AngeloOsvaldode Araújo Santosassume a direção da Sphan.
populações dos Centros Históricos tombados.
José Aparecido de Oliveira deixa o MinC para assumir o governo do Distrito Federal

Realizaçãode Seminário na Escola Superior de Administração Fazendária IEsaf), em Elaboração do documento Comproméso cu/fura/ da A/ova Repúb/lca.
Brasília,reunindofuncionáriosdo lphan, do PCH e do CNRC.
AluísioPimentaassumeo MinC.
Criação, no âmbito do MEC, da Secretaria do PatrimónioHistórico e Artístico Nacional
ISphan) e da FundaçãoNacional pró-MemóriaIFNpM). Rícardo Claglia assume a presidência da FNpM.

Realização,em Brasília.de dois seminários no MinC, um com representantesda


Aloísio Magalhães é nomeado secretário da Sphan e Presidente da FNpM.
sociedadecivil e outro interno, de que resulta o documento Po/arcacu/fura/.
Aprovaçãodo estatutoda FNpM.
O Centro Histórico de Salvador e o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos,em
A cidade de Ouro Preto é inscritana lista do PatrimónioCultural da Humanidadeda Congonhasdo CampoIMG), são inscritos na lista do PatrimónioCultural da Huma-
Unesco. nidadeda Unesco.

Início da gestão de Rubem Ludwig no MEC.


Início da gestão de Celso Furtado no MinC.
Criação da Secretaria da Cultura (SECAdo MEC. A Sphan e a Secretaria de Assuntos
JoaquimFalcãoassumea presidênciada FNpM
Culturais (Seac) transformam-se em Subsecretarias.
Aprovaçãoda Lei Samey.
Elaboração, em seminário da SEC, do documento D/refrlzes para operam/ona/lzação
da política cultural do MEC. Aprovaçãodos estatutosda Sphane da FNpM.

Aloísio Magalhãesmorre em Veneza. O Parque Nacionalde lguaçu é inscrito na lista do Património Cultural da Humanidade
da Unesco
MarcosVinícios Vílaça assume a SEC.
1987 Osvaldo José de Campos Meio é nomeado secretário da Sphan e presidente da
Início da gestão de Esther de FigueiredoFerraz no MEC.
FNpM
A cidade de Olínda é Inscrita na lista do PatrimónioCul ural da Humanidade
niaa da
O Plano Piloto de Brasília é Inscritona lista do PatrimónioCultural da Humanidade
Unesco.
da Unesco

Incorporaçãodos museus da Fundação RaymundoOttoni de Castra Maia e do Museu


Promulgaçãoda Constituiçãodo Brasil. em que os artigos 215 e 216 se referem
de Biologia Meio Leitão à FNpM.
especificamente
à cultura.

240 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO ANEXO 1: CRONOLOG]ADA POLí]]CA Dt PRESERVAÇÃONO BRASIL 241


V

IW7 Realização.em Fortaleza, do SemináHo Pafdmõnio fmafeHa/:esbaféghs e fo/mas de


Criaçãoda FundaçãoCulturalPalmares.
profeção,de que resultoua Ca/la cb Foda/eza.
José Aparecidode Oliveira assume o MinC.
O Programa Monumenta é transferido para o Ministério da Cultura.
Augusto Cáries da Silva Teles é nomeadoPresidenteda FNpM.
19W Portariado Ministro da Cultura cria Comissão e Grupo de Trabalho para elaborar
O Conselho Consultivo da Sphan passa a opinar também quanto ao arquivamento de propostade acautelamentodo patrimónioçultural imaterialbrasileiro.
processos de tombamento.
19W Criação,no âmbitodo Ministérioda Cultura,da Secretariade Património,Museuse
19© Augusto Cartas da Silva Teres é nomeado Secretário da Sphan. Artes Plásticas,assumida por Octávio Elísio Alves de Brito.

halo Campofioritoé nomeado secretárioda Sphan e presidenteda FNpM. Carlos Henrique Heck assume a presidência do lphan.

19W Extinção do MinC e criação da Secretaria da Cultura, diretamente vinculada à Ediçãodo decreto presidencial ne3.551 , de 4 de agosto de 2000, que institui o registro
presidênciada República. dos bens culturais de natureza imaterial e cria o Programa Nacional do Património
Imaterial.
Extinção da Sphan e da FNpM e criação do Instituto Brasileiro do Património Cultural
jIBPC). O Conselho Consultivodo Património Cultural aprova os registros do Ofício das
paneleirasde Goiabeiras (ESI e da arte gráfica Kusiwa,dos índios wajãpi(AM).
Extinçãodo Conselho Consultivoda Sphan.
GilbertoGil assume Q Ministério da Cultura.
lpojuca Pontes assume a Secretaria da Cultura, vinculada à presidência da República.

Lélia Coelho Frota assume a presidênciado IBPC Márcio Meira assume a Secretaria de Património, Museus e Artes Plásticas do
Ministérioda Cultura.
l®l Sérgio Paulo Rouanet assumea Secretariada Cultura.
Mana Elisa Costa assume a presidênciado lphan.
JaymeZettel assumea presidênciado IBPC.
Reestruturaçãodo Ministério da Cultura e extinção da Secretaria de Património.
Sanção da Lei Federal de Incentivo à Cultura (lei RQ8.313, de 23.12.1991). Museuse Artes Plásticas.

19U Reestruturaçãodo lphan e criação do Departamento de PatrimónioMaterial, do


Recondução do Conselho Consultivo do Património Cultural.
Departamento de Património Imaterial, e do Departamento de Museus e Centros
Extinção da Secretaria da Cultura e recriação do Ministério da Cultura, assumido por Culturais.
Antõnio Houaiss.
E aprovada na Unesco a Convenção para a Salvaguardado PatrimónioCultural
19W Jerõnimo Moscardo assume o Ministério da Cultura. Imaterial, que o Brasll ratifica em 2006.

Francisco de Meio Franco assume a presidência da IBPC. AntõnioAugusto Arantes assume a presidênciado lphan.
LuasRoberto Nascimento Salva assume o Ministério da Cultura. O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular saí da Funarte e passa a integrar
o lphan.
Glauco Campello assume a presidência do IBPC.
A arte kusiwa dos wajãpi(AP) é proclamada pela Unesco obra-prima do Património
IW4 O IBPCvoltaa se chamarlphan. Oral e Imaterial da Humanidade.

19H Francisco WeffoR assume o Ministério da Cultura. E criada, no âmbitodo lphan, a Coordenação-Geralde Pesquisa,Documentaçãoe
Referência (Copedoc).
19n Início da estruturação do Programa de revitalização de sítios urbanos através da
recuperação do patrimóniohistórico Ifuturo Programa Monumental, uma parceriaentre O samba de roda do Recôncavo Baiana é proclamado obra-prima do Património Oral
o lphane o BancoInteramericano
de Desenvolvimento
- BID. e Imaterialda Humanidadepela Unesco.

O PATRIAõNIO [A PROCESSO ANEXO 1: CRONOLOGIADA POLÍTICA DE PREsERvAÇÃo NO BRASIL 243


242
ANEXO ll
E aprovada na Unesco a Convenção para a Proteção e Promoção da Diversidade das
Expressões Culturais, que o Brasil ratifica em 2007. DECRETO-Le\ N- 25, Dt 30 Dt NOV[ABRO DE 1937

Luiz Fernando de Almeida assume a presidência do lphan. cumulativamente com a


direção do Programa Monumenta

É criado o Centro Regional para a Salvaguardado PatrimónioCultural Imaterial


ICrespial),com sede em Cuzco, no Peru, do qual o Brasil é um dos membros Organiza a proteção do património histórico e artístico
fundadores. nacional.

É criada a Câmara do Património Imaterial, vinculada ao Conselho Consultivo do


Património Cultural.
O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, usando da atribui
2(XB O Brasil é um dos países eleitos para compor o primeiro Comitê Intergovemamental ção que Ihe confere o art. 180 da Constituição,decreta:
do Património Imaterial, órgão criado pela Convenção para a Salvaguarda do Património
Cultural Imaterial, de 2003. CAPÍTULO I

2®7 O Brasil vara a integrar o Conselho do Património Mundial.

O Brasil passa a integrar o primeiro Comitê Intergovernamental criado pela Convenção Do património hi!dórico e ar+ís+imnacional
para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005.
Art. I'. Constitui o património histórico e artístico nacional o conjunto dos bens
20W O lphan inicia processo de criação do Centro de Formação em Património para a móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público.
América Latina, Caribe, e Países de Língua Portuguesa e Espanhola da Africa e da
quer por sua vinculaçãoa fatos memoráveisda história do Brasil, quer por seu
Ásia, a ser sediado no Rio de Janeiro.
excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
Criação do instituto Brasileiro de Museus (lbram).
$ 1'. Os bens a que se refere o presente artigo só serão considerados parte
integrante do património histórico o artístico nacional, depois de inscritos
separada ou agrupadamente num dos quatro Livros do Tombo. de que trata
o art. 4' destalei
$ 2'. Equiparam-se aos bens a que se refere o presente artigo e são também
sujeitos a tombamento os monumentos naturais. bem como os sítios e
paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que
tenham sido dotados pelo natureza ou agenciados pelo indústria humana

Art. 2o. A presente lei se aplica às coisas pertencentes às pessoas naturais,


bem como às pessoas jurídicas de direito privado e de direito público interno.

Art. 3'. Excluem-sedo património histórico e artístico nacional as obras de


origem estrangeira:
1) que pertençam às representações diplomáticas ou consulares acreditadas
no palsl

O PATRIAõNIO eA PROCESSO
244
Art. 5'. O tombamento
dos bens pertencentesà União,aos Estadose aos
2) que adornem quaisquer veículos pertencentes a empresas estrangeiras. que
Municípiosse fará de ofício, por ordem do diretor do Serviço do PatrimónioHistó-
façamcarreirano paísl
rico e Artístico Nacional, mas deverá ser notificado à entidade a quem pertencer.
3) que se incluamentreos bens referidosno art. 10 da Introdução
do Código
ou sob cuja guarda estiver a coisa tombada, a fim de produzir os necessários
Civil, e que continuam sujeitas à lei pessoal do proprietários
efeitos.
4) que pertençam a casas de comércio de objetos históricos ou artísticos;
Art. 6'. O tombamento de coisa pertencente à pessoa natural ou à pessoa jurí-
5) que sejam trazidas para exposições comemorativas, educativas ou comer-
dica de direito privado se fará voluntária ou compulsoriamente
çiaib.
Art. 7'. Proceder-se-á ao tombamento voluntário sempre que o proprietário o
61 que sejam importadas por empresas estrangeiras expressamente para ador-
pedir e a coisa se revestir dos requisitosnecessáriospara constituirparte inte-
no dos respectivos estabelecimentos.
grante do património histórico e artístico nacional, a juízo do Conselho Consultivo
Parágrafo único. As obras mencionadas nas alíneas 4 e 5 terão guia de licen- do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, ou sempre que o mesmo
ça para livre trânsito, fornecida pelo Serviço do Património Histórico e Ar- proprietárioanuir, por escrito, à notificação, que se Ihe fizer, para a inscrição da
tístico Nacional. coisa em qualquer dos Livros do Tombo.
Art. 8'. Proceder-se-áao tombamento compulsório quando o proprietário se
CAPÍTULO II
recusar a anuir à inscrição da coisa.

Art. 9'. O tombamento compulsório se fará de acordo com o seguinte processo:


Do +ombamen+a
1) o Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, por seu órgão com-
Art. 4o. O Sewiço do Património Histórico e Artístico Nacional possuirá quatro petente. notificará o proprietário para anuir ao tombamento, dentro do prazo
Livrosdo Tombo, nos quais serão inscritasas obras a que se refere o art. I' desta de quinze dias, a contar do recebimento da notificação, ou para, se o quiser
lei, a saber: impugnar, oferocer dentro do mesmo prazo as razões de sua impugnação.
1) no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, as coisas per-
2) no caso de não haver impugnaçãodentro do prazo assinado. que é fatal.
tencentes às categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e o diretor do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional mandará
popular.e bem assimas mencionadas
no $ 2' do citado art. I'; por simples despacho que se proceda à inscrição da coisa no competente
21 no Livro do Tombo Histórico, as coisas de interesse histórico e as obras Livro do Tombo.
de arte histórica;
3) se a impugnação for oferecida dentro do prazo assinado, far-se-á vista da
3) no Livro do Tombo das Belas Artes. as coisas de arte erudita, nacional ou mesma,dentro de outros quinze dias fatais, ao órgão de que houver
estrangeiras emanado a iniciativa do tombamento, a fim de sustenta-la. Em seguida.

4) no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se incluírem na cate- independentemente de custas. será o processo remetido ao Conselho

goria das artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras. Consultivo do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, que
proferirá decisão a respeito, dentro do prazo de sessenta dias, a contar do
$ 1'. Cada um dos Livros do Tombo poderá ter vários volumes.
seu recebimento.Dessa decisão não caberá recurso.
$ 2'. Os bens que se incluemnas categorias enumeradas nas alíneas1, 2.
Art. 10'. O tombamentodos bens a que se refere o art. 6' desta lei será consi-
l 3 e 4 do presente artigo serão definidos e especificados no regulamento
que for expedidoparaexecução
da presentelei. derado provisório ou definitivo, conforme esteja o respectivo processo iniciado pe-

ANEXO11: D[CR[TO-Lt] N' 25, Dt 30 Dt NOVÉABRODt 1937 247


246 O PATRIÁÕNIO [A PROCESSO
l

Art. 15. Tentada, a não ser no caso previsto no artigo anterior, a exportação,
la notificação ou concluído pela inscrição dos referidos bens no competente Livro
do Tombo. para fora do país, da coisa tombada. será esta seqt)estradapela União ou pelo
Estado em que se encontrar.
Parágrafo único. Para todos os efeitos, salvo a disposição do art. 13 desta lei,
$ 1'. Apuradaa responsabilidade
do proprietário,
ser-lhe-áimpostaa multade
o tombamento provisório se equiparará ao definitivo.
cinqüenta por cento do valor da coisa, que permanecerá sequestrada em

CAPITULO III
garantiado pagamento,
e até que estese faça.
$ 2'. No caso de reincidência,a multa será elevadaao dobro.
Dos efeitos do +ombamen+o $ 3'. A pessoa que tentar a exportação de coisa tombada, além de incidir na
multa a que se referem os parágrafos anteriores. incorrera nas penas
Art. 11. As coisas tombadas, que pertençam à União, aos Estados ou aos Mu-
cominadas no Código Penal para o crime de contrabando.
nicípios, inalienáveis por natureza, só poderão ser transferidas de uma a outra das
Art. 16. No caso de extravio ou furto de qualquer objeto tombado. o respectivo
referidas entidades.
proprietário deverá dar conhecimento do fato ao Serviço do Património Histórico
Parágrafo único. Feita a transferência, dela deve o adquirente dar imediato co- e Artístico Nacional, dentro do prazo de cinco dias, sob pena de multa de dez por
nhecimento ao Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. cento sobre o valor da coisa.
Art. 12. A alienabilidade
das obrashistóricasou artísticastombadas,de pro-
Art. 17. As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum. ser destruídas,
priedade de pessoas naturais ou jurídicas de direito privado, sofrerá as restrições demolidas ou mutiladas. nem, sem prévia autorização especial do Serviço da
constantes
da presentelei. Património Histórico e Artístico Nacional, ser reparadas. pintadas ou restauradas,
Art. 13. O tombamento definitivo dos bens de propriedade particular será, por
sob pena de multa de cinqüenta por cento do dano causado
iniciativa do órgão competente do Serviço do Património Histórico e Artístico Na
Parágrafo único. Tratando-se de bens pertencentes à União, aos Estados ou
cional, transcrito para os devidos efeitos em livro a cargo dos oficiais do registro aos municípios, a autoridade responsável pela infração do presente artigo
de imóveis e averbado ao lado da transcrição do domínio.
incorrerapessoalmente
na multa.
$ 1'. No caso de transferênciade propriedadedos bens de que trata este ar-
Art. 18. Sem prévia autorização do Serviço do Património Histórico e Artístico
tigo. deverá o adquirente, dentro do prazo de trinta dias, sob pena de multa
Nacional, não se poderá, na vizinhança da coisa tombada, fazer construção que
de dez por cento sobre o respectivovalor, fazê-la constar do registro,
Ihe impeça ou reduza a visibilidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob
ainda que se trate de transmissão judicial ou causa mortas.
pena de ser mandadadestruir a obra ou retirar o objeto, impondo-seneste caso
$ 2'. Na hipótese de deslocação de tais bens, deverá o proprietário. dentro do a multade cinqüentapor cento do valor do mesmoobjeto.
mesmo prazo e sob pena da mesma multa, inscrevê-los no registro do
Art. 19. O proprietáriode coisa tombada.que não dispuserde recursospara
lugar para que tiverem sido deslocados.
proceder às obras de conservação e reparação que a mesma requerer. levará ao
l $ 3o. A transferência deve ser comunicada pelo adquirente, e a deslocação
pelo proprietário, ao Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional,
conhecimento do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional a necessi-
dade das mencionadas obras. sob pena de multa correspondente ao dobro da im-
dentro do mesmo prazo e sob a mesma pena.
portância em que for avaliado o dano sofrido pela mesma coisa.
Art. 14. A coisa tombada não poderá sair do país, senão por curto prazo, sem
$ 1'. Recebida
a comunicação,
e consideradas
necessárias
as obras,o diretor
transferência de domínio e para fim de intercâmbio cultural, a Juízo do Conselho
do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional mandará executá-
Consultivo do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. las, a expensas da/União, devendo as mesmas serem iniciadas dentro do

249
O PATRIAõNIO [A PROCESSO ANEXO 11: DECRETO-L€1N' 25, De 30 DE NOVEIKBRODÉ 1937
248
ri
prazo de seis meses, ou providenciará para que seja feita a desapropriação dos titulares do direito de preferência não tiver adquirido a coisa no prazo
da coisa. de trintadias.

$ 2'. A falta de qualquer das providências previstas no parágrafo anterior, $ 3'. O direito de preferência não inibe o proprietário de gravar livremente a

poderá o proprietário requerer que seja cancelado o tombamento da coisa. coisa tombada. de penhor, anticrese oú hipoteca.

$ 3'. Uma vez que verifique haver urgência na realização de obras e conser- $ 4'. Nenhuma venda judicial de bens tombados se poderá realizar sem que,

vação ou reparação em qualquer coisa tombada, poderá o Serviço do previamente, os titulares do direito de preferência sejam disso notificados
PatrimónioHistórico e Artístico Nacional tomar a iniciativa de projetá-las judicialmonte, não podendo os editais de praça ser oxpedidos. sob pena

e executa-las. a expensas da União, independentementeda comunicação de nulidade, antes de feita a notificação.


a que alude este artigo, por parte do proprietário. $ 5'. Aos titulares do direito de preferência assistirá o direito de remissão, se
Art. 20. As coisas tombadas ficam sujeitas à vigilância permanente do Serviço dela não lançarem mão, até a assinatura do auto de arrematação ou até
do Património Histórico e Artístico Nacional, que poderá inspecioná-lassempre a sentençade adjudicação,
as pessoasque, na forma da lei, tiverema
que for julgado conveniente, não podendo os respectivos proprietários ou respon-
faculdado
de remir
sáveis criar obstáculos à inspeção, sob pena de multa de cem mil réis. elevada $ 6'. O direito de remissãopor parte da União. bem como do Estado e do mu-
ao dobro em caso de reincidência. nicípio em que os bens se encontrarem, poderá ser exercido, dentro de cin-
Art. 21. Os atentadoscometidoscontraos bens de que tratao art. I' desta co dias a partirda assinaturado auto de arrematação
ou da sentençade
lei são equiparados aos cometidos contra o património nacional. adjudicação, não se podendo extrair a carta, enquanto não se esgotar este
prazo, salvo se o arrematanteou o adjudicanto for qualquer dos titulares
CAPÍTULO IV do direito de preferência.

CAPÍTULO V
Da direito de preferência

Art. 22. Em face da alienação onerosa de bens tombados, pertencentes a


Disposições gerais
pessoas naturais ou a pessoas jurídicas de direito privado, a União, os Estados
e os municípios terão, nesta ordem. o direito de preferência. Art. 23. O Poder Executivo providenciará a realização de acordos entre a
União e os Estados, para melhor coordenação e desenvolvimento das atividades
$ 1'. Tal alienaçãonão será permitida.sem que previamente
sejamos bens
oferecidos. pelo mesmo preço, à União, bem como ao Estado e ao municí- relativas à proteção do património histórico e artístico nacional e para a unifor-
mização da legislação estadual complementarsobre o mesmo assunto.
pio em que se encontrarem. O proprietário deverá notificar os titulares do
direito de preferência a usá-lo, dentro de trinta dias, sob pena de perdê-lo. Art. 24. A União manterá, para a consewação e a exposição do obras his-
tóricas e artísticas de sua propriedade, além do Museu Histórico Nacional e do
$ 2. É nula alienação realizada com violação do disposto no parágrafo ante-
rior. ficando qualquer dos titulares do direito de preferência habilitado a se- Museu Nacionalde Belas Artes, tantos outros museus nacionaisquantos se tor-
narem necessários, devendo outrossim providenciar no sentido de favorecer a ins-
qüestrar a coisa e a impor a multa de vinte por cento do seu valor ao trans-
tituição de museus estaduais e municipais, com finalidades similares.
mitente e ao adquirente, que serão por ela solidariamente responsáveis. A
nulidadeserá pronunciada.na forma da lei, pelo juiz que conceder o se- Art. 25. O Serviço do PatrimónioHistórico e Artístico Nacional procurará en-
questro, o qual só será levantadodepois de paga a multa e se qualquer tendimentoscom as autoridades eclesiásticas, Instituições científicas, históricas

O PATRIAÕNIO EÁ PROCESSO ANEXO 11: D[CR[TO-L]] N' 25, Dt 30 De NOVÉ#IBRODe 1937 251
250
ANEXO l\l
ou artísticas e pessoas naturais e jurídicas. com o objetivo de obter a cooperação
das mesmas em benefício do património histórico e artístico nacional. PARECER Dt CARLOS DRUAAOND Dt ANDRADt

Art. 26. Os negociantesde antiguidades,de obras de arte de qualquer nature-


za, de manuscritos e livros antigos ou raros são obrigados a um registro especial
no Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional, cumprindo-lhes outrossim
apresentar semestralmente ao mesmo relações completas das coisas históricas
e artísticas que possuírem
Art. 27. Sempre que os agentes de leilões tiverem de vender objetos de natu- ünóBI'caio OA ÜoueaGZO

reza idêntica à dos mencionados no artigo anterior, devorão apresentar a respec-


D.P.B.l.X.
tiva relação ao órgão competente do Serviço do Património Histórico e Artístico D. 1. e.
80Çlo d.o XIBtÓrlü
Nacional.sob pena de incidirem na multa de cinqtlenta por cento sobre o valor
dos objetos vendidos.
Art. 28. Nenhum objeto de natureza idêntica à dos referidos no art. 26 desta
lei poderá ser posto à venda pelos comerciantes ou agentes de leilões, sem que
tenha sido previamenteautonticado pelo Serviço do Património Histórico e Artís- Ao qtn oonBba. nXo ao acha a l8re.ja nabrlz d.e R.8A a4
coDcolçãop an laeboelrq'dg 3t IP Bata.o a.ó Blo Granel.oâ.o.8ul,
tico Nacional,ou por peritoem que o mesmose louvar,sob penade multade ;ini;ii.à.a'a fato aaaorávo3. d.e ÚoBaa .blat6='1a , que .Juiablflquó a
iii;'iiàiuaão ao Idvx'o ao Tombo Xlató!'loo. lato aaa'oabai'BO â.o
cinqüentapor cento sobre o valor atribuído ao objeto. oanstltull' o i'ofa'lÂo tamlplo um &oa'üaatziboda pollpação.do tor
ÜãÍimwã":.Eti:mU::H:W&kg.::"8
;3aã;-'a8=B:; B:ig:,'e*a-
:.,;?;::;;'.="R'=i;;.=t.'i;
Parágrafo único. A autenticação do mencionado objeto será feita mediante o
pagamentode uma taxa de peritagemde cinco por cento sobre o valor da $Rg,:";%$%'=ã;;tiU}H';l?=Hl:.:!:$gl.
ã.!,g" M,:;2=u=::H::l'd.:8,:= :'Ü:Hg.u..W2''
coisa. se este for inferior ou equivalente a um conto de réis. e de mais Pólõ aõBrulle . euü.Iglgla 'aloanqou
ea 1779o.tíçul? e.pei''
z'ogaBlvaad.e ffQ8uosla- .'Bãõ oansba.'pordn. a or6nloa do Can
dbooll'a 8 000:=uula, ü,o íbto d.e .alBplflcaçlo a=oepoloaal B qlu
cinco mil réis por conto de réis ou fração, que exceder. Opte.3a118M.aa m.ü'iz ü.a pal'6qula. Deva x'õO.süw.sa o a aüi
BÍDlãi. voi'lH.oU.o ao qou lbtoríox' en 8 d.o aateãU'oâo 18601d.o
IJaar'rarraupllba.4nbãnlg .Vlaanto üa Fontoxa'1l que all no ao
Art. 29. O titular do direito de preferência.goza de privilégioespecialsobre faia batlsadÕ.Fato eazd.ávidaíqpol"tanto, aãÓae reveste oon
ttd.ol a aoasovor. do al@.Iflcação .ba.stantopara ao abrlbbulr
ao lóoa]. oM.eoe .üosaai'filou9 a' catogol'ía do .laoaucxanbo
blsto-
o valor produzido em praça por bens tombados, quanto ao pagamento de multas r'ico nacional.
impostas em virtude de infrações da presente lei. l vlo'ba do a©08tos Jt:18a a 8.R. aXo BB.Juati.flua!'
o tanbaaonto.
Ba 27.111.19S2
Parágrafo único. SÓ terão prioridade sobre o privilégio a que se refere este
artigo os créditos inscritos no registro competente,antes do tombamento r;.-Í- &--'--.Í4..4K.l....L
Cardos DI'uaxaaad d.o .hd='aàé
Chefe da 6.B.
da coisa pelo Serviço do PatrimónioHistóricoe Artístico Nacional.
Art. 30. Revogam-se as disposições em contrário. a «,4 'C /. «u c'-- -. 4' A
à.f. 7- , /jb--...a''e'+c.'e - ü A c'u,'. ca c.-.l
Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1937. 116' da Independênciae 49' da 4 C-.»,/( C.,.//;« ,c-.-. a,Z
República. s:},- . 6-&x«-CE »l.;Ê-.L , '"- .A-..*
k ?'bl-.,..,c' «- -A 71 h b..-,.L- b -.
GetúlioVargas a= ü Jo d.. )-..y.-...&.. A- érJ7
Gustavo Capanema ,Ê- :a. J. 4'.r Z

252 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO


ANEXO IV
O COAPROAISSO CULTURAL DA NOVA REPUBLICA

Em razão de sua experiência de trabalho institucional e de ação política junto


à sociedade nos âmbitos nacional e local. e sentindo-se legitimados por sua ante-
rior luta - contra todas as dificuldades - em defesa dos segmentos sociais cuja
história e produção cultural têm sido sistematicamente obscurecidas ou tomadas
objeto de apropriação indébita - trabalhadores em entidades culturais e represen-
tantes de entidades e associações civis consideram oportuno declarar publica-
mente a sua aspiração de que o recém-instituídoMinistério da Cultura venha a
se constituircomo capaz de estar efetivamentea serviço da sociedadebrasileira
e, assim,tomar-seum dos principaisimpulsionadores
da mudançaa que se pro-
põe a Nova República.
Espera-se, nesse sentido, que em todas as suas áreas de competência o Mi-
nistério da Cultura venha a assumir, entre outras preocupações,determinados
compromissos considerados como imprescindíveis ao processo de sua contínua
legitimaçãojunto aos segmentossociais que deve ouvir e apoiar.
Somente a adoção desses compromissos e o seu cumprimento serão capazes
de tornar esse Ministério exemplar no atendimento ao interesse público que, in-
cluindo os interesses de específicos setores sociais, assim como determinadas
reivindicações político-partidárias e, também, os argumentos de personalidades
importantes no processo cultural e político do país, não pode restringir-se a seu
atendimento exclusivo, sob pena de comprometer sua eficácia para uma atuação
voltada para a totalidade e a particularidade dos interesses da nação.
São os seguintes os compromissos julgados fundamentais, e aqui explicitados
em nível de amplitude a ser particularizada na determinação da política cultural,
em diálogo com os segmentos sociais representativos da pluralidade cultural bra-
sileira

Que a cultura seja amplamente concebida como um processo decorrente


dos diversos modos de agir e de pensar da sociedade brasileira. Assim.
a política cultural não deverá restringir sua atenção somente a deter-
minadas expressões da cultura, mas estender suas preocupaçoes a as-
l

pectos fundamentais desse processo, como, por exemplo: saúde, educa- Brasíiia-Mulher/DF
ção,acessoe uso do solo,trabalho,habitação
etc.
Associação Cultural Zumbe/AL
Quea pluralidade
e a diversidade
culturalsejamrespeitadas,
masque
AssociaçãoNacionaldo Índio/BA
a diferença não implique justificativa para a desigualdade social. Nesse
Sociedade Beneficente São Jorre de Engenho Velho da Federação/Salvador-BA
sentido os grupos diversificados em situação de subalternidade por vá-
rios fatores culturais - tais como indígenas, negros. ciganos, migrantes. Associaçãodos Ex-Alunosda UnB/DF

mulheres. favelados. garimpeiros. seringueiros, bóias-frias etc. - devem Cresça/DF


merecer atenção e apoio especiais para superação desse estado. Ordemdos Músicos/DF
Que se integre à política cultural o compromisso de se discutirem am- Grupo de Teatro- Abibiman/PE
plamente os projetos ditos de desenvolvimento.que implicam alterações
Centro Latino-Americanode Altos Estudos/DF
consideráveis nos contextos culturais, de modo a avaliar seus possíveis
Bloco Carnavalescollê Aiyê - Salvador/BA
benefícios em relação aos custos socioculturais por eles exigidos.
Grupo Niger-OKAN - Salvador/BA
Que o Ministério da Cultura envide todos os seus esforços para que Bra-
sília, cidade politicamente cassada e culturalmente discriminada, venha ACAAN - AssociaçãoCultural de Apoio às Artes Negras/RJ

a desenvolver as suas potencialidades e desempenhar os papéis para Cine-ClubeOlhod'Água/DF


os quais foi concebida. no sentido não só de sediar o poder, mas de res- Cine-ClubePodaAbertado Gama/DF
ponder pelo crescimento do espírito federativo, que decorre do reconhe-
Cabeças- Centro Brasiliense de Arte e Cultura/DF
cimento de uma sociedade pluricultural e multiétnica.
Cine-Clube Gláuber Rocha/DF
Quea responsabilidade
do Ministério
da Culturaem contribuir,funda-
ComissãoOrganizadorado Festival de Música Popular do Gama/DF
mentalmente, para o processo de democratização do país se concretize
em todos os níveis de sua atuação, assim como nas constantes preocu- Grupo de Teatro do Gama/DF

pações de servir aos interesses e à identidade de nossa sociedade plu- Biaco CarnavalescoApaches do Tororó- Salvador/BA
ral, e de prestar contas a essa sociedade da política adotada e do traba- Associação Profissional dos Sociólogos do DF
lho realizado. reorlentando-os segundo as indicações originadas no de-
Administração Regional de Planaitina/DF
ver do diálogo.
Grêmio CamavalescoCacique de Ramos/RJ
Brasília (DFj, 7 de maio de 1985.
TEN- TeatroExperimental
do Negro/RJ
ComissãoBrasília/DF
lpeafra - Instituto de Pesquisas e Estudos Abro-Brasileiros/RJ
Centro de Estudos Abro-Brasileiros/DF
Funafro - Fundação Abro-Brasileira de Arte, Educação e Cultura
Memoda+ Zumbe
União das Nações Unidas
Associação Brasileira de Antropologia/DF
Fetadif - Federação de Teatro Amador do Distrito Federal
Comissão Píó-Índio
ABTB-DF- AssociaçãoBrasileira de Teatro de Bonecos
FundaçãoPedrosoHorta/DF
CompanhiaNosso Grupo de Teatro/DF
Frente Nacional Abro-Brasileira
Candango Produções ARísticas/DF

256 O PATRIAONIO [A PROCESSO


ANEXO IV: O COAPROAISSO CULTURAL DA NOVA RllpÚBLICA 257
ANEXO V
PROCESSOS DE TOABAAENTO ABERTOS

DE 1.1.1970 A 14.3.1990*

Ng Processo Nomedo Bem UF Localidade

1970

825-T70 Casa à Praia do Russel, 734 RJ Rio de Janeiro


826-}70 ãeafroSãoJogo CE Sobram

827-}70 Forte São José RJ Rio de Janeiro


828-}70 Casa à Praça do Erário, atual Correio PB João Pessoa
829-}70 Acervo do Museu de Arte Contemporânea SP São Paulo
830-T-70 Castelo da Baronesa
ICasa à Av. Domingos de Almeida) RS Pelotas
831-}70 Igreja de N. Srü.da Conceição PE ltamaracá
832-T-70 Remanescentes da Fazenda Pombas.
onde nasceu Tiradentes MG Ritápolis

1971

833-}71 Conjunto arquitetânicoe paisagístico da


Praça Getúlio Vergas RJ NovaFriburgo
834-}71 Igreja de N. SP. da Conceição MG CoutoMagalhães
835-T-71 Igreja de Santo Antõnio PE Tracunhaém
B36-T.71 igreja do Bom Jesus dos Martírios PE Recife
837-}71 Casa à Praça Dr. Jefferson, 13 MG Campanha
B38-T-71 Fazendado Pocinho RJ Vassouras/
Barrado Piraí
839-}71 Igreja Matriz de São José MG Serra
MO-T-71 Solar da Barão de Vila Flor RJ São Fidélis
841-}71 Palácio Louro Sodré FU Belém
M2-T-71 Caverna do Alambari, Fazenda Sãa Luas SP Bananal
M3-T-71 Conjunto arquitetõnicoe paisagístico
de Cachoeira BA Cachoeira
Ba-T-71 Casada Fazendado Pau Grande RJ Vassouras
M5-}71 Imagem de São Francisco de Paula MG Mariana

Adotou-se a seguinte convenção por tipologia gráfica: negrito tombadositálico - arquivados


redondo em estudos. Foram assinalados em negrito os bens cujo tombamento foi homologado
até 2007, conforme listagem fornecidapela Copedoc/lphan,datada de 4 de março de 2008
l

Ng Processo Nomedo Bem UF Localidade Ne Processo Nomedo Bem Localidade

Casa da Fazenda Rio de São João MG Bom Jesus 871-}73 Faculdadede Direito da UFRJ RJ Rio de Janeiro
do Amparo
872-T.73 EngenhoMorenos PE Morenos
M7-}71 Conjunto arquitetõnico e
paisagístico de Lençóis BA Lençóis 873-T-73 Igreja da antiga Conventode
São Francisco ES Vitória
M8-}71 Conjuntoarquitetõnico e
paisagísticode Porto Feliz SP PortoFeliz 874-}73 Igreja de N. Se. do Pilar SP RibeirãoPreto
849-}71 Casa no Distritode GatasAltas MG Conselheiro 875-}73 Conjuntoarquitetõnicoe urbanístico
Lafaiete das áreas da Bahia de Suape e do
850-T71 Igreja Matriz de Sant'Ana jfachadas) CE lguatu CaboSantoAgostinho PE Recife

851-}71 Casa à Praça José Feliciano, 9 GO Pirenópolis 876-T-73 Capelade São Pedra PE Pajeú

877-}73 Igreja Matriz de Vila Bela e


1972 MT
Palácio dos Capitães Generais Wla Bela
852-T-72 Igreja Matriz de N. SP. da Conceição RJ Paudo Alferes/ 878-}73 RJ Rio de Janeiro
LagoaRodrigo de Freiras
Vassouras
879-}73 Casa de Câmara e Cadeia CE Aracati
853-}72 Casa à Rua Mayrink Verga, 9 RJ Riode Janeiro
880-T-73 Conjunto arquitetõnicoda Praça da
854-}72 Casa à Rua da Quítanda,61 RJ Riode Janeiro
Matriz e Museu de Arte e História MG NovaEra
855-}72 Igreja Matriz de São Sebastião RJ Niterói
881-T-73 Casa da Fazenda Santa Mânica RJ Valença
856-}72 Casa Frei RogéHa- Fórum sc Porto União
882-}73 Igreja Matiz do Desterroe Igreja
857-F72 Casa onde nasceu o marechal Artur
da Costae Sirva RJ do Rosário MG Desemboque
Taquaíi
858-}72 883-}73 Mercadode São José PE Recife
AntigaEstaçãoFerroviária PB Campina Grande
859-T-72 Igreja Matriz de Santo Antõnio MG Alvorada
de Minas 884-T-73 Museudo Colono RJ Petrópolis
860-T-72 Conjunto arquitetõnico da Av. Rio Branco RJ Riode Janeiro B85-T-73 CapelaerigidaporAnhanguera MG Uberlândia

861-T-72 AntigaFaculdadede Filosofia, 886-T-73 TeatroApoio


Ciências e Letras (Casa à Praça (Casa Rua do Apoio, 121) PE Recife
Terreirode Jesus) BA Salvador
887-}73 Casa de João Niderauer Sobrinho RS SantaMana
862.T-72 Liceude Artes e Ofícios
888-}73 ForteJunqueira MT Corumbá
ICasa à Praça da República) PE Recife
889-}73 CemitéHoda IrmandadeN. Sr. Passos SP Guaratinguetá
863-T-72 Assembléia Legislativa(antigo edifício
da AssembléiaProvincial) CE Fortaleza 890-T.73 Solar da baronesa de Muriaé RJ Campos
BM-T-72 Casa e capela da Fazenda da Luz RJ São Gonçalo B91-T-73 Conjunto arquitetõnicode Rio de Contas BA Rio de Contas
865-T.72 Casa da Fazenda dos Macacos MG Conselheiro 892-T-73 Casa da Fazenda Quebra de Canoas MG PonteNova
Lafaiete
B93-T-73 Casa onde morou o Barão do
866-T-72 Igreja do Divino Espírito Santo PE Recife
Rio Branco crua Westphalen,2791 RJ Petrópolis
B67-T-72 Coieçãode AbeiardoRadrigues PE Recife

868-}72 Pinturas de Benedito Calixto que 1974


estão no Palácio Episcopal SP São Cardos
8«.T.74 Sobrado e respectivo terreno em que
em 1845,se hospedou d. Pedra ll RS São Gabriel
1973
895-T-74 Lavabo em mármore português
869-T-73 Morros do Rio de Janeiro (7) RJ Rio de Janeiro
IConventode SantoAntõnio
870-T-73 Igreja Matriz de N. Slü. da Concepção MG Prados BA
do Paraguaçu) Cachoeira

260 O PATRIAÕNIO [A PROCESSO ANEXO V: PROCESSOS


DE TOIKBAAENTOABERTOSDE 1.1.1970 A 14.3.1990 261
l

N2 Processo Nomedo Bem UF Localidade Ne Processo Nomedo Bem

896-}74 AntigaFaculdade
de Medicina
da Bahia 925-}75 Casas à Praça Cel. Pedra Osório, 2 6, 8 RS Pelotas
l(Casa à Praça Terreiro de Jesus) BA Salvador
926-T-75 Igreja Matriz de S. Bemardo BA Alcobaça
897-T-74 Solardos Garcez 927-T-75 Cine-teatro (antigo Teatro 7
CondeviveuEuclidesda Cunha) RJ São Fidélis
de Setembro) RS Rio Grande
898-T-74 Museus Castra Maia e respectivos acervos RJ Rio de Janeiro 928-}75 Casa-grandedo Engenhode Lajes PE Ribeirão
899-}74 Casaà RuaPresidenteDomiciano.
195 RJ Niterói 929-}75 Casa MG Cataguazes
900-T.74 Farmácia
Brita.9 930-T-75 Remanescentes da Fortaleza de
(Casaà RuaLeaisPiedade,
2) BA Salvador
Santo Antõnio MA São Luís
901-T-74 Igreja de N. Slü.do Rosário MG Rio Preto
931-T-75 Conjuntoarquitetõnico
de Luziânia GO Luziânia
902-T-74 Conjunto de nove imóveis RJ Maré 932-}75 Praia Baía da Traição PB Baíada Traição
903-}74 14 quadros de Portinari 933-}75 Embaixadada ltálía
jlgrejado BomJesus) SP Batatais
crua das Laranjeiras,154) RJ Riode Janeiro
904-}74 Casado Engenholtapuá PB São Migue 9%-T-75 Embaixadada Argentina
do Taipu
IPraia de Botafogo,228) RJ Riode Janeiro
905-T-74 Diverys monumentos MG TrêsPontas
93&T-75 PaçoMunicipal BA Inhambepe
906-}74 Casa 'Loja MaçónicaConciliação' PE Recife
936-}75 Sobrado RJ Porciúncula
907-T.74 Chácarado Hnoco MG Caeté
937-}75 Casa do Padre Belchior MG Pitangui
908-}74 Peças da coieção Octales Marcondes SP São Pauta
938-T-75 Casado Aleijadinho MG Sabará
909-}74 Casa da Fazenda Ponte Alta SP Redenção
da Serra 1976
910-T-74 Casa da Fazenda da Concepção SP Paraibuna 93$}76 Grutas e lapas do AHzona MG LagoaSanta
911-T-74 Igreja Matriz SP Cona
940-}76 Casa à Rua Oswaldo Cruz. 782 MA Sãa Luas
912-}74 Casade Pedra RJ Igrejinha 941-T-76 Casasde três fazendas (Mantiqueira
913.T-74 Casa do Sítio Umbuzeíro CE Aiuaba Machadinha
e Matode Pipa) RJ Macas
914-}74 AntigaAlfândega(Prédio
à 942-T-76 Arraial Novo do Bom Jesus PE Recife
Rua Conselheiro Mafra) sc Florianópolis U3-}76 Forte N. Srü. da Conceição sc Florianópolis
915-}74 Igreja Matriz SP Franca
944-}76 Prédio da Estação da Luz e
916-}74 Fazenda
da Engenho
Novo RJ São Gonçalo PinacotecaEstadual SP São Paulo
917.}74 ForteCoimbrã MT Corumbá 945-}76 Igreja de N. SP. da Paz RJ Rio de Janeiro
918-}74 Casa do Engenho Camaragibe PE SãoLourenço 946-T-76 Escala Tiradentes RJ Rio de Janeiro
da Mata
947-T.76 Ruínas do Fode em Arraial
das Tesouras GO Mozarlândia
1975
948-T-76 Casa da Antigo Fórum BA Caetité
919-T-75 Reservatóriode água(Laranjeiras) RJ Riode Janeiro
949-}76 IgrejaPositivistado Brasil RJ Rio de Janeiro
920-T-75 Capela N. Sls. da Piedade RJ Riode Janeiro
950-}76 Capela de N. Srü.do Rosário da
921-T-75 Casa"Estaçãodo Brum' PE Recife
ErmidaSanta EHgênia MG Sabará
922-T-75 Igreja do Terço PE Recite
923-T-75 Igreja de São José do Ribamar PE Recife 1977

924-}75 EscolaJútiaKubiíschek DF Brasília 951-T-77 Casa do Museu Prof. ZoroastroArtiaga GO Goiânia

262 O PATRIAõNIO [A PROCESSO ANEXO


V: PROCESSOS
Dt TOÁBAAeNTO
ABERTOS
Dt 1.1.1970A 14.3.1990 263
Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade NeProcesso Nomedo Bem Localidade

952-}77 Casa onde morou o Duque de Cabias RJ Rio de Janeiro 977-}78 Cinemaids RJ Rio de Janeiro
953-}77 Pavilhão de aulas da Escola de 97&}78 Hospital São Francisco de Assim RJ Rio de Janeiro
EnfermagemAna Neri 979-T-78 Grutas Azul e N. Srl. de Aparecida MT Bonito
ICasa à R. Afonso Cavalcanti, 275) RJ Rio de Janeiro
980-T-78 Gruta do Rei do Mato MG
9M.}77 PHmeiraFábHca de Laticínlos no
981-}78 Igreja de N. SP. dos Remédios Femando
Norte do Brasil RJ Riode Janeiro
de Noronha
955-T.77 Sabre de honra do Gal. Osório
982-F78 Prédio da antiga Ministério
IMarquêsde Herval) RJ Rio de Janeiro
da Agdcuitura RJ Rio de Janeiro
956-T-77 Quartelda Polícia Militar
AM 983-T-78 Asilo d. Pedra ll BA Salvador
ICasa à Praça Heliodoro Balbi) Manaus
984-}78 Casa dos Carvalhos BA Salvador
957-}77 Igrejade N. SP. do Amparo PE Olinda
985-178 VilaLoura
958-}77 Igrejade São João PE Olinda
ÍCasa à Rua Raul Leite, 68} BA Salvador
959-}77 Cemitério (onde repousam os
986-F78 Casas à Rua Gonçalves
restos mortais dos heróis
da Retiradada Laguna) MG MonteAlegre Leda. 5, 5-A, 5-B, 7 e ll RJ Rio de Janeiro

960-}77 987-}78 Ponte Seca RS Bagé


Igreja de Santo Antõnio dos índios BA Aratuipe
961-}77 CachoeiraPaulista 988-}78 Solar Amado Bahia BA Salvador
Estaçãofenoviáda SP

962-}77 Casa que pertenceu ao Visconde


989-T-78 Imagemde Santa Teresade
RJ Rio de Janeiro Axila, um retábulo e um espelho RJ Rio de Janeiro
de itamaraty
963.}77 CemitéHod. Francisca sc Joinville 990-T-78 Ruínasjesuíticasdo
Mocambinho ou de Pachoca MG Manga
964-}77 Área onde se desenvolveu a Batalha Vitóriade Santo
'Monte das Tabocas"(3.8.1645} PE Antão 991-}78 Igrejade N. SP. do Uvramento PE Recite

965-F77 AntigoPaço Municipal PI Parnaguá 992-T-78 Casaà Praça Marquês


de Monte Alegre SP Santos
966-}77 Marco Jauru MT Cáceres
993-T-78 Imagemde N. SÉ. da Escada SP Barueri
1978 994-}78 AeroportoBartolomeude Gusmão
967-}78 Solar da Família Franklin Sampaio e seu hangar RJ Riode Janeiro
ICasa à Praça Rui garbosa, 55) RJ Petrópolis 995-T.78 MuseuMaHanoProcópio(Prédio) MG Juiz de Fora
968-}78 Conjunto arquitetõnico e urbanístico
da cidade de lcó CE lü 1979

969-T.78 Conjunto arquitetõnico e urbanístico 996-}79 Casa Paroquial, anexa à Igreja Matriz
da cidade de Aracati CE Aracati de Santo Antõnio
970-T-78 Faculdadede Direito PE ICasaà PraçaIndependência,
s/na) PE Recife
Recife
971-T-78 Igreja de N. Srü. da Penha MG Passos 997-T-79 Prédioda antigaCasade Câmara Santa Cruz de
e Cadeia BA Cabrália
972-T-78 Solar do Conde de Subaé BA SantoAmara
998-T-79 Igreja Matrizde N. Slü. BA Santa Cruz de
973-}78 Conjunto arquitetõnico, urbanístico e
da Conceição Cabrália
paisagísticoda Ilha de ltaparica BA ltaparica
974-}78 999-T-79 Capelado CemitérioPúblico CE Quixeramobim
Conjuntoarquitetõnico e urbanístico
de Mucugê BA Mucugê 1000-T-79 Acervo do Palácio dos Bandeirantes SP São Paulo
975-}78 Hotel Colonial BA Salvador 1001
-}79 Casade Euclidesda Cunha
976-}78 Prédio da Cia. Docas de Santos Pinto Madfns (aviador) CE Camocim
RJ Rlo de Janeiro

264 O PATRIAÕNIO [Á PROCESSO ANEXO


V: PROCESSOS
Dt TOÁBAA[NTO
ABERTOS
De 1.1.1970 A 14.3.1990 265
Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade Nomedo Bem UF Localidade

1002-T-79 Igrejade N. Sls. da Lapa Campos 1026-T-80 Conjunto arquitetõnico à ]

IOO&T-79 Cine-teatro Santa Mana Av. Governador José Malcher FU Belém

1004-}79 Igreja de Sant'Ana Macaé 1027-T-80 Conjunto arquitetõnico à Av. Nazareth Fn Belém

1005-}79 Antigo alojamento da Westem 1028-T40 Forte de Óxidos e Fode Serra


Telegraph Niterói da Escama FU Óbidos

tOO&T-79 Conjuntoarquitetõnicoda 1029-T.80 Conjuntoarquitetõnicoe paisagísticodo


Rua da Carioca RJ Riode Janeiro Largo das Mercêse sua área de entomo m. Belém
1007-}79 Casa à Rua Cónego Bittencoud,47 RJ Angrados Reis 1030-T-80 Conjuntoarquitetõnicoda Rua
1008-T.79 Estaçãoferroviária MG ltaguaí biqueira Mendese Largo do Carmo m Belém

1009-T-79 ObservatórioNacional RJ Riode Janeiro 1031-T-80 Colégio Pedra ll RJ Rio de Janeiro


101&F79 Casaonde funcionouo Fórum MG Matozinhos 1032-T-80 Casa da Fazenda Rio Novo RJ Paraíbado Sul
1011-}79 Conjuntoarquitetõnico 1033-T-80 Igreja de Santo Antõnio MG Ouro Branco
de Conservatória RJ Valença
10%-T-80 Pantheondo Mal. Floriano Pelxoto
1012-T-79 Serra de São José MG Tiradentes
ICemitérioSão Joga Batista) RJ Rio de Janeiro
1013-T-79 Conjuntourbano da Lapa e 1035-T-80 Figueirada Rua Falto RJ Rio de Janeiro
encostade Santa Teresa RJ Riode Janeiro
1036-T-80 Prédio dos Correios e Telégrafos
1014-}79 Lampião(Lapa),relógio
IPraçaBarãodo Rio Branco) RS PortoAlegre
alargoda Carioca)
e luminárias(R. da Conceição, 1037-T-80 Instituto OswaldoCruz RJ Rio de Janeiro
Senhordos Passos,Alfândega. 1038-T-80 Casa-grande da Fazenda Cachoeira
Ouvidor e Praça XV e adjacências) RJ Riode Janeiro MG Surubim
de Taepe
1039-}80 Coleção de ex-votos do Santuário do
1980
Bom Jesus do Matosinhos MG Congonhasdo
t015-T-80 Duas quadras da Rua da Aurora PE Recife
Campo
1016-}80 Pinça Florfano(Cinelândial RJ Rio de Janeiro
1040-T-80 Igreja do Senhordo Bonüm RJ ltaboraí
1017-}80 Sítio de Santo Antõnio da
MA São Luís 1041-T-80 Antigaestaçãoferroviária
Alegria ou do Físico
de Guaratinguetá SP Guaratinguetá
1018}80 Sede da Fazenda Pinheiro RJ Pinheiral
1042-T-80 PE Recife
Campodo Jiquiá
1019-}80 Palácioda Justiça AM Manaus
1020-T-80 Teatro Municipal José de Alentar
1981
RJ Niterói
ICasaà Rua XV de Novembro)
1043-T-81 Igrejade N. Sle.das Mercês CE Arapari
1021-}80 Acervo paisagístico de Santa Santa Cruz de
Cruzde Cabrália BA Cabrália IOM-T-81 EstaçãoferroviáHa RJ ltaguaí

1022-}80 Casaà Rua RivadáviaCorreia, 1045-T-81 Casaà RuaAlexandreMoura,


262 e 266 (antiga residênciado 23 a 29 RJ Niterói
poetaargentinoJosé Hemandez, RS Santanado RJ
1046-T-81 Igreja Matrizde Saquarema Saquarema
autor de Madfn Pleno) Livramento
1047-T-81 Pórtico central e armazénsdo
Cais do Porto RS PortoAlegre
1023-T40 Prolongamento
do conjuntoVer-o-Peso PA Belém
1048-T-81 Capela de São Jogo ES Carapinada Serra
1024-}80 PalacetePinho PA Belém
102&T-80 1049-T-81 Morro O Frade e A Freira ES ltapemirim
Conjuntoarquitetânicono entorno
do MercadoVer.o-Peso PA Belém 1050-}81 Aldeiados índiosTapirapés GO Banana

266 O PATRIAON10 EA PROCESSO ANEXOV: PROCESSOS


DE TOABAA[NTO ABERTOSDE 1.1.1970 A 14.3.1990 267
Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade

1051-T-81 Conjunto arquitetânico de 1079-T-83 Quinta das Magnólias(Casa Peru) RJ Teresópolis


Angra dos Reis RJ Angrados Reis 1080-T-83 Fazenda do Vauaçu(solar do padre Jogo
1052-}81 Mercadoda carne e lojas adjacentes CE Aquiraz do Monte-Antigos MG PonteNova
]05$T-81 Forte de Santa Bárbara sc FloHanópolis 1081-}83 Monumentodo Imigrante RS Caxiasdo Su
1054-}81 Fábricade vinho de caju Tito Silva PB Jogo Pessoa 1082-T-83 Açude do Cedro CE Quixadá
1083-T-83 Casa onde nasceu Vital Brasii MG Campanha
1982
10M-}83 Conjuntohabitacionaloperário PE Goiana
1055-T-82 Museu Rondon RO Vilhena
1085-}83 Conjunto habitacional "Av. Modelo' RJ Riode Janeiro
105G}82 Instalações de água potável PR Curitiba
1086-T-83 Máquina a vapor 'Mana Fumaça' MG AntõnioCardos
1057-T-82 Antiga sede do DNOCS CE Fortaleza
1087-T-83 Igreja Matriz de Santo Antõnio MG ltaverava
1058-T-82 Casa à Rua da Aurora. onde nasceu
Manuel Bandeira PE Recife 1088-}83 Sobrado do padre Taborda e
casario fronteiro MG ltaverava
1059-T-82 Fábrica
Baniu RJ Rlo de Janeiro
1089-F83 Prédioda PrefeituraMunicipal RS Lajeado
1060-T-82 Santuáriodo MonteSanto BA MonteSanto
109&T-83 Caixa de Sacoríos d. Pedra V RJ Rio de Janeiro
1061
-}82 Casa em que residiu Canos Oswald RJ Rio de Janeiro
1062-}82 1091-T-83 Igrejade N. SF. dos Navegantes FU São Caetanode
Fazenda de Sant'Ana FU Ilha de Marajó
Odivelas
1063-}82 Cadeia Velha CE Limoeirodo Norte
1092-T-83 Igreja Matrizde N. Slü
1064-T42 Caixas-d'água RJ Pelotas
dos Navegantes RS São José
1065-T-82 Casade Plácidode Castra AC Xapuri do Norte
1066-T.82 Vila de Porto Acre AC Rio Branco 109$T.83 Centro histórico de Salvador
1067-T-82 Terreiroda CasaBranca BA Salvador jre-ratiãcação) BA Salvador
1068-T-82 Sistema de bondes de Santa Teresa RJ Rio de Janeiro 1094-T-83 Estádio Mário Filho(Maracanã} RJ Rio de Janeiro
1069-T-82 Serrada Barriga 1095-}83 IgrejaMatriz de N. Srü.da
IQuilombo dos Palmares) AL União Conceição AL MarechalDeodoro
dos Palmares 1096-T-83 Trechoda antiga E. F. Oeste
1070-T-82 Canis da Pinça da Convenção,
de Minase estaçãoferroviária MG RibeirãoVermelho
125,131,153 PE Recife
1097-}83 Conjuntoarquítetõnicoe urbanístico
1071-T-82 Conjuntoarquitetõnico dos bairros da cidadede Paranaguá PR Paranaguá
da CidadeVelhae Campina Fn Belém
1098-T-83 Estradade Ferro Paranaguá-Curitiba PR
1072-T-82 Farol de Mucuripe CE Fortaleza
1099-}83 HospitalJuscelinoKubitscheck
1073-T-82 ImprensaOHciale
de Oliveira(HJKO) DF Brasília
Clube Monte Líbano FU Belém
1100-T-83 Prédio da ABI RJ Rio de Janeiro
107&T-82 Caixa-d'água RS Rio Grande
1101-T-83 Ginásio Pernambucano PE Recife
1075-T42 Palácio das Laranjeiras RJ Rio de Janeiro
t102-T-83 Pantanal Sul-mato-grossense MS
1983 1103-F83 Ilha do Bananas(oude Sana'Ana) GO
1076-T-83 Conjunto de 10 imagens missioneiras RS São Luís Gonzaga 1104-F83 AcervoferroviáHoda E. F.
1077-T-83 Forte de São Francisco ou do Queijo PE Olinda Perus-Pirapora SP

1078-T-83 1105-T-83 Casaque pertenceuao


Prédio High Ufe
crua Sarro .4ma/o. 2aU Rio de Janeiro cel. Malveiras CE Limoeirodo Norte

268 O PATRIAÕNIO[A PROCESSO ANEXOV: PROCESSOS


DE TOABAÁENTO
ABERTOS
Dt 1.1.1970 A 14.3.1990 269
Nomedo Bem UF Localidade NQProcesso Nomedo Bem U Localidade

110G}83 Casarãoonde se hospedou 113-FM ConjuntoarquRetânico,urbanístico


d. Pedral RS São José e paisagístico
de São Gonçalo
do Norte do Rio dasPedras MG Serra
1107-143 Colégio Estadual Pães de Carvalho PA Belém 1135-T.@ Conjuntoarquitetõnicodo DistHto
1108-T.83 Oufefrode Santa Cafarfna(Castelo) SP Santos de SantoAntõnioLisboa sc Florianópolis

1984 1985

1109.T-M Hotel do Parque São Clemente 'RJ


Nova FHburgo 1136-T-85 CasaRuralda Costeirada Ribeira sc Flolianópolis

1110-FM RJ Rio de Janeiro 1137-T-85 Ponte Hercílio Luz sc Florianópolís


Conjunto Residencial ParqueGuinle
1111-T:M Vla Opeüria AL DêlmlroGouveia 1138-T-85 Palácio
Cruze Souza
IPalácio Rosado) sc Florianópolis
1112-FM Embanaçõesa vapor do Rio
São Fmncisco MG Pirapora 1139.T-85 Mercado Público sc Florianópolis
1140-T-85 Casaà RuaBenfica,251 PE Recife
1113-T.@ Casa Presser RS Nova :Hamburgo
RS Santa Mana 1141-}85 Escola Rural e Casa do Professor sc Tlmbó
1114-T-M Casa 'H Sofria'
1142-T-85 Casa de Saúde Carlos Chagas MG Lassance
1115-FM Presépiodo Pipiripau MG Belo:Horizonte
lll&FM Museu Paranaense
114&T-85 Antigaestaçãoferroviária MG Lassance
PR Curitiba llM-T-85 Fábrica Santa Amélia MA São Luís
jantigo Paço Munidpal)
1117-FM Conjunto arquitetõnico, urbanístico e
114$T-85 Casarãode madeira
TO Natividade Iria Gustavo Sampaio, 34) RS AntõnloPrado
paisagístico da cidade de Natividade
lll$tM Coleçãode Lasar Segall SP São Paulo 114&}85 Prédio da Light RJ Rio de Janeiro

1119-}84 PR 1147-T45 Casa à Av. dos Imigrantes, 307 RS AntõnioPrado


Engenho do Mate (Museu do Mate) CampoLargo
PR 114&T45 Lagoa do Abaeté BA Salvador
1120-T44 Teatro São João Lapa
São Paulo 114$T-85 Pintura rupestre BA Centrale Uibaí
1121-}84 Casa à Rua Santa Cruz(Warchavchik) SP
1150-T-85 Painel de gravações rupestres MT CoronelPonte
1122-T-M Centro Histórico de Laguna sc Laguna
1123-T.@ Casa do Senador Canedo GO Boa Vista 1151-T-85 Áreade Lobato(subúrbio
ondepela
primeira vez jorrou petróleo no Brasil} BA Salvador
de Golas
1152-}85 Terras de ocupação imemoHal dos grupos
1124-}84 Casarãodo Chá SP Mogi das Cruzes
üibais remanescentes das grandes nações
1125-T-M Túmutado » barão de Guaratiba RJ Rio de Janeiro indígenas do Bmsil
1126-T-M Museude Biologia 1153-T-85 Casa à Rua Bahia, 1.126 (Warchavchik) SP São Paulo
Prof. Mello Leitão' ES SantaTeresa
llM-T-85 Casa à Rua ltápolis, 961 (Warchavchik) SP São Paulo
1127-T-M Caixa-d'água 1155-T-85 Conjuntoarquitetõnico onde funcionou a
AM Manaus
IReservatóriode Moca) Vinícola Luiz Antunes RS Caxiasdo Sul
1128-}84 Forte São Diogo BA Salvador t156-T35 Lagoa da Granja do Comari RJ Teresópolis
1129-FM Coleçõesarqueológicas 1157-T-85 Grutade N. Srü.da Lapa MG Ouro Preto
pe. João Alfredo Rohr DF/SC
1158-T-85 Arquiva dwumental, fotagrá$ca e jomaiísli-
1130-T-84 Acervodo IHGB RJ Rio de Janeiro co(Correio do Povo) da C;a. Ca/das Júnior RS PortoAlegre
1131
-T34 Sítio Santo Antõnio da Bica RJ Rio de Janeiro 1159-T-85 Engenho Corredor (rosé Lins do Rego) PB Pilar
1132-T-84 Chafariz da Praça Mahatma Gandh RJ Rio de Janeiro 116&T45 Parque memorial da imigração polonesa PR CuHtiba
1133-T44 PE Recife
Igreja capela N. Sr-. da Conceição 1161-T.85 Igreja Matriz de Paranguaba CE Fortaleza

270 O PATRIAõNIO eÁ PROCESSO ANEXOV: PROCESSOS


De TOABAA[NTOABERTOSDE 1.1.1970 A 14.3.1990 271
NeProcesso Nomedo Bem UF Localidade Nomedo Bem UF Localidade

1162-T-85 Imagem de Santana MG Povoadoda 1986


de Ouro Preto Chapada 1188-T-86 Prédio e sede da
1163-}85 Centro histórico e paisagístico de FazendaMelancias MG Água Comprida
São Francisco do Sul sc São Francisco
1189-T-86 Gruta do TamboHI MG Unaí
do Sul
1190-}86 TeatroMunicipal SP São João da
1164-T-85 Serrado Mar SP/PR
Boa Vista
1165-T-85 Ponte do Imperador RS lvoti
1191-T-86 Capela de N. Srü. da Boa Morte MG Barbacena
1166-T-85 Ponte da Rede Ferroviária Federal sc Blumenau
1192-}86 Conjunto arquitetõnico e paisagístico
1167-}85 Conjuntoarquitetõnicoe paisagístico do Porto de Manaus AM Manaus
da Praçada República PE Recite
1193-T-86 Parque estadual do Cabo Branco
1168-T-85 Conjuntoarquitetõnicoe paisagísticodo e da Ponta Seixas PB João Pessoa
antigo bairro do Recite e Cais Apoio PE Recife
1194-F86 PalácioMaçónicodo Lavradio RJ Rio de Janeiro
1169-T-85 Sobrado dos Andradas MG Barbacena
1195-T-86 Casa de Carlos Oswald RJ Petrópolis
1170-T-85 BA Arapiraca
Igreja de São Sebastião MG São Tomo
1196-T-86 Segmento
da Serrade
1171-T-85 Pintura de Vector Meireles sc FloHanópolis SãoTomodas Letras das Letras
1172-}85 Casaâ Rua Valparaíso,86 1197-T-86 Casa â AK Sele de Setembro, 200 RJ Niterói
jque teria pertencido ao
RJ Rio de Janeiro 1198-T-86 Solar Games Leitão (sede do
mal. Deodoroda Fonsecal
Rio de Janeiro Museude Antropologiado
1173-T-85 Estátua equestre de d. Pedra l RJ
Valedo Paraíba) SP Jacareí
1174-T-85 FábHcade tecidos São Luiz SP ltu
1199-T-86 GáveaGolf e CountryClub RJ Rio de Janeiro
1175-T-85 Conjuntoarquitetânicoà Rua Barão 1200-T-86 FazendaLordelo
de São Borla e à Rua Soledade PE Reclfe
IMarquêsdo Paraná) RJ Três Rios
1176-}85 Pinturas do padre Jesuíno do
São Pauloe ltu
1201-T-86 Conjunto arquitetõnico, urbanístico
MonteCarmelo SP
e paisagístico de Penedo AL Penedo
1177-T-85 Fábricade papel Bahia BA Salvador
1202-T-86 EngenhoCentral
1178-T-85 Anffgaestaçãolerrovfárla MG São Jogo MA Pindaré-Miram
(segmentodo Pireneus)
Nepomuceno
1203-T-86 Serrade Plrenópolis GO Pirenópolis
1179-F85 Mercadomunicipal AM Manaus
1204-T-86 Estaçãoferroviária MG Além-Paraíba
1180-T-85 Conjunto arquitetõnico, urbanístico
MT Cuiabá 120&}86 Casa à Rua N. Srü.da Glória MG Mariana
e paisagístico de Cuiabá
1206-}86 Pavilhão Luiz Nunes PE Recife
1181-}85 Conjunto arquitetõnico, urbanístico
e paisagístico de Pirenópolis GO Pirenópolis 1207-T-86 Igreja de N. Srü. do Rosário
e São Benedito GO Luziânia
1182-T-85 Conjuntoarquitetõnicodo casario
do Portode Corumbá MS Corumbá 1208-T-86 Antigoprédioda deiegacia
do
1183-T-85 Fazendado Conde de Pinhal SP São Carlos MinistéHo da Fazenda SE Aracaju

1184-T-85 Ponte metálicada Rede 1209-T-86 Casa de Cultura


b

FerroviáriaFederal cantiga Casa de Detenção) PE Recife

sobre o rio ltajaí-açu sc Blumenau 1210-}86 Obrado Berço RJ Rio de Janeiro


1185-}85 Estaçãoferroviária São Jogo del-Rei MG Hradentes 1211-T-86 Conjunto arquitetõnica de
1186-T-85 Hotel CopacabanaPalace RJ Rio de Janeiro N. SF.do Ó PE Paulista

1187-}85 Placa de ouro 1212-T-86 Complexo arqueológico


DF Brasília Lapada Pedra GO Formosa
jhomenagema Rui Barbosa)

272 O PATRIAÕNIOEA PROCESSO ANEXO


V: PROCESSOS
De TOABAAÉNTO
ABERTOS
DE1.1.1970A 14.3.1990 273
NQProcesso Nomedo Bem UF Localidade Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade

1213-T-86 Área central da Praça XV 1235-T87 Aceno da Uayd Brasileiro RJ Rio de Janeiro
e imediações RJ Riode Janeiro 1236-}87 Acervodo Seípro SewiçoFederal
1214-}86 Igreja Matriz de São de Processamento
de Dados RJ Rio de Janeiro
Gonçalodos Cacos CE lpueiras
1237-T-87 Aceno do antigo BNH -
1215-T-86 Conjuntoarquitetõnico,urbanístico BancoNacionalde Habitação RJ Rio de Janeiro
e paisagísticodo DistHto
1238-T-87 Acervo do Museu de Arte e
de Ribeirãoda Ilha sc Florianópolis
História'Rosa Mana' SE Amcaju
1216-T-86 Sítio arqueológicoDuna Grande N Niterói
1239-}87 Conjunto arquitetõnico e paisagístico
t217-T-86 Aceno histórico e documental do BeloVale
junto à Fazendada Boa Esperança MG
Instituto de Estudos Brasileiros
São Paulo Vila das Ferradas BA ltabuna
da Universidadede São Pauta SP 1240-T-87

1218-T-86 Conjuntoarquitetõnicoe paisagístico 1241-T-87 FazendaSãoJosé SP ManteitoLobato


do Hotel Quitandinha RJ Petrópolis ISiüodo PimpauAma lo}
1219.T-86 PonteMarechalHermes MG Pirapora 1242-}87 Vila operária em Fernão Velho AL Maceió

1220-T-86 Estrada de Ferro Madeira-Mamoré RO 1243-T-87 Fazenda Santa Cruz MA Buriti


1221-T-86 Capelade N. SP. da Boa Viagem 1244-F87 Casa à Rua 24 de Maio. 22 RJ Rio de Janeiro
do Pasmada PE lgarassu
1245-T-87 Vivendade Apipucos PE Recife
1222-T-86 Prédiodo ColégioEstadual
1246.T-87 Gruta da LagoaRica MG Paracatu
"Cuboà Ciência' SP Campinas
1247-}87 Gruta da Igrejinha MG Ouro Preto
1223-T46 Conjunto arquitetõnico e paisagístico
do Santuário do Bom Jesus 1248-T-87 Conjunto arquitetõnico e urbanístico
de Matosinhos MG Piranga de Antõnio Prado RS AntõnioPrado
1224-T-86 Casade Câmarae Cadeia PE BrejoMadre 1249-T-87 Igreja Matriz N. SFa.dos Prazeres
de Deus e EngenhoMaranguape PE Paulista

1225-T-86 FazendaCapãoAlto PR Castra 1250-T-87 JardinsAméHca,


Europa,Paulista,
Paulistano São Paulo
1987
1251-T-87 Igreja da Ordem Terceira do
1226-}87 CasaVelhada SUDECO- Carmoe seu acervo Santos
SupeHntendência de Desenvolvimento
1252-T-87 Vila ferroviáriade Paranapiacaba SantoAndré
do CentroOeste MT NovaXavantina
1227-}87 Museuao ar livre de Odeans 1253-T-87 SerraDourada Goiás

e seuanHO sc Orleans 1254-T-87 Orla marítima do Município do


Rio de Janeiro Rio de Janeiro
1228-T-87 Sítio arqueológicona FazendaLajes GO Niquelândia
1255-T-87 Igrejade São Lourenço Goiana
1229-T-87 Conjuntopaisagísticoda
Praçados Melros. 1256-T-87 Aldeiade Arcozelo Paudo Alferes
inclusiveseu coreto RJ Cantagalo
1257-T-87 Igreja N. Slg.dos Remédios lbitlara
1230-T-87 Prédiodo Fórum RJ Cantagalo
1258-T-87 Vila da Estrelae Vila InhomiHm Magé
1231-T-87 Prédioda Câmara Municipa RJ l Cantagalo Mata
1259-T-87 Reservas paleobotânicas
1232-T-87 Fazendado Gavião RJ Cantagalo
1233-T-87 Conjuntoarquitetõnicoe 1988
paisagísticode Paquetá RJ Paquete Rio de Janeiro
1260-T-88 Acervomóvelda Light
1234-T-87 Gruta Tocada Esperança Centra

274 O PATRIÁONIO [A PROCESSO ANEXOV: PROCESSOS


Dt TOABAA[NTOABERTOS
De 1.].1970 A 14.3.1990 275
Ne Processo Nomedo Bem UF Localidade NQProcesso Nomedo Bem UF Localidade

1261-T48 Conjuntocentro histórico do 1989

municípiode Paranaguá PR Paranaguá 1285-T-89 Edifício d. Pedra ll e Estação


1262-T48 Centraldo Brasil RJ Rio de Janeiro
PalaceteArgentina RS PortoAlegre
1263-T-88 AntigaCadelaPública CE lbiapina
1286-T-89 Conjuntoarquitetõnlco,urbanístico
e paisagísticode São Fénix RJ São Félix
12M-}88 Igrejade Santa Eõgênia GO Niquelândia
1287-T-89 InstitutoNacionalde Educação
1265-T-88 Casa à Rua Ana Jesuíno, 8 RJ Vassouras
de Surdos RJ Riode Janeiro
1266-T-88 Sobradoázima Canalha
1288-T-89 Conjunto arquitetõnico e
cantigasede do governocivil urbanístico de Laranjeiras PE Laranjeiras
e militarda Província) MA Viana
1289-T-89 Parquee Fonte do Queimado BA Salvador
1267-T-88 Mata de Maranguape PE Recife
1290-T-89 Igreja de N. SP. do Rosário MG Pains
1268T-88 Cine-teatroRlo Branco SP Aracaju
1291-T-89 Serrade São Domingos MG Poçosde Caldas
1269-T-88 Igreja de N. Srü.de França GO Corumbá
1292-T-89 Igreja de N. Srg.do Rosário MG LagoaSanta
de Goiás
1293-T-89 Igreja de N. SP. dos Remédios TO Arraias
1270.T-88 Acervode bens móveisque
pertenceramà capelade N. SP. 1294-F89 Reservaarqueológica