Você está na página 1de 340

Alciane Baccin Alda Cristina Silva da Costa Andressa Bandeira Santana

Caio Macedo Rodrigues Aniceto Célia Maria Ladeira Mota Cida Golin
Dayane do Carmo Barretos Demétrio de Azeredo Soster Diego Gouveia
Diogo Azoubel Duílio Fabbri Júnior Edgard Patrício Fabiana Moraes
Fabiana Piccinin Fabiano Ormaneze Felipe Viero Kolinski Machado
Heitor Costa Lima da Rocha Jaqueline Frantz de Lara Gomes
Karolina de Almeida Calado Lorena Tárcia Geane Alzamora Luana Ciecelski
Luísa Rizzatti Marta Maia Maurício Guilherme Silva Jr. Mayara de Araújo
Mirian Redin de Quadros Monica Martinez Nathan Nguangu Kabuenge
Renira Gambarato Rodrigo Bartz Sergio E. S. Ferreira Junior
Thais Luciana Corrêa Braga Thiago Haas Carlotto Valéria de Castro Fonseca
Vânia Torres Costa Victor Lemes Cruzeiro
Marta Maia e Monica Martinez
Organizadoras

NARRATIVAS MIDIÁTICAS
CONTEMPORÂNEAS:
perspectivas metodológicas

editora

Santa Cruz do Sul


2018
Editora Catarse Ltda
Rua Oswaldo Aranha, 444
Bairro Santo Inácio
Santa Cruz do Sul/RS
CEP 96820-150
www.editoracatarse.com.br
facebook.com/editoracatarse

C
Copyright dos autores
N234 Narrativas midiáticas contemporâneas: perspectivas metodológicas [recurso
eletrônico] / Marta R. Maia e Monica Martinez, organizadoras – Santa Cruz do
Sul: Catarse, 2018.
340 p. : 21x29,7 cm

Texto eletrônico.
Modo de acesso: World Wide Web.

1. Narrativa (Retórica) - Teoria. 2. Jornalismo. 3. Comunicação de massa.


I. Maia, Marta R. II. Martinez, Monica. III. Rede de Pesquisa Narrativas
Midiáticas Contemporâneas.

ISBN: 978-85-69563-27-3 CDD: 808

Bibliotecária responsável: Fabiana Lorenzon Prates - CRB 10/1406


Projeto gráfico e diagramação: Mirian Flesch de Oliveira
Revisão: Diana Azeredo
Edição: Demétrio de Azeredo Soster
Sumário
6
APRESENTAÇÃO

PREFÁCIO 8

I - Narrativas, memória e temporalidades 12

O relevo da cidade construído nos gestos memorativos


13
do jornalismo de suplementos: o caso de Cultura de Zero Hora
Cida Golin e Luísa Rizzatti

Análise das narrativas sobre a ditadura no jornal


Estado de Minas: memória e acontecimento 28
Marta R. Maia e Caio M. Rodrigues Aniceto

Fios narrativos da notícia: uma perspectiva metodológica


Valéria de Castro Fonseca e Célia Maria Ladeira Mota 42

Do passado ao presente pelo fio da memória: por uma


abordagem semântico-discursiva de perfis 54
Fabiano Ormaneze

Mídia, história e memória na narrativa comemorativa 69


da Rede Globo: os espaços “ocupados” pelos jornalistas
Duílio Fabbri Júnior

Memória, reconstituição narrativa e fontes/testemunhas 83


em Notícia de um Sequestro
Fabiana Piccinin e Andressa Bandeira Santana

II – Narrativas, subjetividades e rupturas 98

Para além do robô, a reportagem: pavimentando


uma metodologia do jornalismo de subjetividade 99
Fabiana Moraes e Diego Gouveia

Percursos metodológicos para análise de atos


de subjetivação em narrativas jornalísticas 115
Mayara de Araújo e Edgard Patrício

Um olho na escrita e outro no escritor: desafios


metodológicos na análise de narrativas jornalísticas autorais 132
Dayane do Carmo Barretos

As vozes que narram em O olho da rua, de Eliane Brum 147


Jaqueline Frantz de Lara Gomes
Últimas palavras? Formas de aproximação do inefável
através das narrativas biográficas de suicidas 160
Victor Lemes Cruzeiro

III – Narrativas e contextualizações 177

Metodologia para identificação de processos transcriadores 178


em narrativas jornalísticas
Maurício Guilherme Silva Jr.

A juventude ao alcance de suas mãos: uma análise dos discursos


sobre a velhice em cinquenta anos de Veja (1968 – 2017) 194
Felipe Viero Kolinski Machado

A Hermenêutica de Profundidade e os apontamentos


teórico-metodológicos de análise das narrativas jornalísticas 211
Alda Cristina Silva da Costa, Vânia Torres Costa, Nathan Nguangu
Kabuenge, Sergio E. S. Ferreira Junior e Thais Luciana Corrêa Braga

Jornalista e fonte na narrativa jornalística: hierarquia,


autonomia e problematizações em conceitos teórico-metodológicos 225
Karolina de Almeida Calado e Heitor Costa Lima da Rocha

IV – Narrativas convergentes 239


Cobertura jornalística transmídia de megaeventos esportivos:
proposta metodológica aplicada às Olimpíadas de Sochi (2014) 240
e do Rio de Janeiro (2016)
Lorena Tárcia, Geane Alzamora e Renira Gambarato

O jornalismo e as zonas intermediárias de circulação:


uma abordagem metodológica 254
Demétrio de Azeredo Soster, Luana Ciecelski, Rodrigo Bartz
e Thiago Haas Carlotto

Proposta metodológica para análise de reportagens hipermídia 277


Alciane Baccin

Metodologias de pesquisa em jornalismo: trabalhos apresentados


nos congressos da SBPJor (2004-2017) 296
Monica Martinez e Diogo Azoubel

Análise de narrativas jornalísticas radiofônicas: reflexões sobre 317


os desafios metodológicos da pesquisa em rádio
Mirian Redin de Quadros

Quem são os autores 332


apresentação

O crescente interesse pelo estudo das narrativas jornalísticas revela,


de maneira explícita, a diversidade de angulações possíveis das produções
em curso. Explicita ainda a relevância das narrativas como um dos lugares
privilegiados da produção de sentidos na contemporaneidade. Acompanhamos,
aqui, as palavras de Paul Ricoeur: “Contamos histórias porque, afinal, as vidas
humanas precisam e merecem ser contadas” (2010, vol. 1, p. 129).
Como pesquisadores da área, nos deparamos com um inquietante
problema: a diversidade das possibilidades de escolha de métodos e técnicas
mais adequados para o estudo desses relatos. Assim, como aponta José Luiz
Braga (2011, p. 3), as pesquisas no Campo da Comunicação indicam uma
“extraordinária diversidade de temas, objetos, questões, ângulos, conceitos,
paradigmas e teorias que hoje são acionados, conforme as escolas, as áreas de
interesse e as linhas de pesquisa”.
Desta forma, sabemos que relacionar objetos, sujeitos e fenômenos não
é uma tarefa fácil, nem pode ser feita de forma superficial. Tanto que, no
primeiro livro publicado em 2017 pela nossa Rede de Pesquisas “Narrativas
Midiáticas Contemporâneas”, a Renami, (disponível em http://editoracatarse.
com.br/site/2017/10/10/narrativas-midiaticas-contemporaneas-perspectivas-
epistemologicas/), trabalhamos as questões epistemológicas desse campo.
Agora, neste segundo volume, abordamos os aspectos metodológicos.
Entendemos que o compartilhamento de experiências de procedimentos
diferentes adotados nas pesquisas deve ser um mote em nosso ambiente
acadêmico. Por isso nossa preocupação em reunir, em um único volume,
trabalhos que poderão servir de inspiração para futuras investigações,
em especial, no campo jornalístico. Procuramos, na medida do possível,
costurar apoios e aproximar sentidos, sempre lembrando que as pesquisas só
prosperam quando compartilhadas e quando são passíveis de tensionamentos
entre os pares.
Isso posto, temos prazer em compartilhar este livro, “Narrativas midiáticas
contemporâneas: perspectivas metodológicas”, idealizado e organizado pela
nossa Rede. É com essa perspectiva, compreendendo que a diversidade é uma
força e não uma fraqueza de nosso campo, que anunciamos os capítulos que
compõem essa publicação, que conta com 37 autores de instituições públicas,
comunitárias e particulares de quase todas as regiões do Brasil.

6
No item I, “Narrativas, memória e temporalidades”, são apresentados
elementos polarizados entre o que Reinhart Koselleck (2006) define como as
categorias de “espaço de experiência” e as de “horizonte de expectativas”. No item
II, “Narrativas, subjetividades e rupturas”, aparecem questões que problematizam
o chamado jornalismo de referência e amplia os caminhos possíveis para o
processo de subjetivação nas narrativas atuais. Já o III, denominado “Narrativas
e contextualizações”, além de propor novas formas de análise das narrativas,
contextualizam as produções do campo. O item IV, “Narrativas convergentes”,
entrega para o leitor e para a leitora a potência das novas narrativas em voga,
além de mapear os movimentos das pesquisas específicas sobre metodologias.
Advertimos aos leitores e às leitoras que desejam simplesmente
textos acomodados que desistam da leitura. Garantimos, por outro lado, aos
atentos pesquisadores e pesquisadoras que anseiam por questões novas e
experimentações que não se arrependerão do acompanhamento das páginas a
seguir. Mais do que ler os capítulos e devolver a obra na estante da casa ou na
pasta do computador, no entanto, vivamente recomendamos que empreguem
as que julgarem adequadas para tensionar suas próprias pesquisas dentro do
contexto da revisão de literatura crítica que é um dos pilares do fazer científico.
O que faz nosso campo avançar não é o trabalho solitário do pesquisador de
narrativas, mas sim a aventura da descoberta coletiva, onde cada um contribui
com seu estudo. Para isso, temos certeza, trazemos aqui trabalhos autorais
consistentes e originais, lembrando assim o que nos diz o poeta Manoel de Barros:
“Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada
do ser que a revelou”.

As organizadoras,
Marta Maia e Monica Martinez
(em uma tarde ensolarada de domingo)

Referências

BARROS, Manoel de. Livro sobre Nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.
BRAGA, José Luiz. Dispositivos interacionais. In Anais do XX Encontro da
Compós, Porto Alegre, junho de 2011.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos
históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, Editora Puc-RJ, 2006
RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. São Paulo: Editora WMF/Martins Fontes,
vol. 1, 2010.

7
prefácio

Narrar no mundo: um desafio


desses nossos tempos

Fernando Resende (UFF)

Narrar no mundo, nos tempos em que hoje vivemos, é um desafio que


a mim parece central. Antes de tudo, porque ele nos joga no campo de uma
luta contra-hegemônica, já que vai de encontro aos modos legitimados de ver e
compreender o mundo. O pensamento moderno, ou o que nele hegemonicamente
se constituiu como legítimo, nos ensinou que o fundamento – e o desafio –
estaria em narrar o mundo. Foi com este princípio, aparentemente básico e
central, que o homem, através da ciência, das religiões, das disciplinas e de
muitos outros campos produtores de saberes, se lançou ao projeto de iluminar
e explicar as (des)ordens do mundo.
Como bem nos lembra D’Amaral (2004), narrar o mundo é a premissa que
rege a lógica moderna, esta na qual se ampara o pensamento dito “ocidental”.
Diferentemente dos princípios que sustentam esta lógica, que assenta o lugar de
quem narra aos dispositivos de legitimação que lhe dão autoridade, instituindo
modos que sejam adequados a contextos pré-supostos e/ou imaginados, as
nuances guardadas na premissa contrária ao hegemônico inevitavelmente nos
impelem a perguntar quem então narra, que mundo e de que modo. Narrar no
mundo, por este viés, é uma premissa que nos abre outros muitos desafios.
Vejamos, portanto, os desdobramentos que perpassam essas três perguntas.
Entender a ideia de narrar no mundo como uma premissa desafiadora
implica, antes de tudo, reconhecer o quanto ela coloca em cena problemas que
antes pareciam externos às narrativas, em especial às que hoje temos chamado
de “midiáticas”. Questões afeitas aos processos de alteridade e aos jogos de
poder – que envolvem, por exemplo, gênero, raça e lugares de fala – atrelados
a problemáticas relacionadas à memória, ao tempo, ao espaço, à história e às
geografias, somente para citar algumas, passam a ser discutidas como próprias
das condições narrativas e do seu lugar enquanto “escrita”. É nesse sentido que
a pergunta acerca dos modos de narrar ganha outros contornos, reconfigurando-
se a partir de outros problemas.

8
Sob essa perspectiva, as mídias, de modo geral, e o jornalismo, em
particular – já que são também e cada vez mais campos produtores de saberes
sobre o mundo – se veem desafiados a ressignificar os seus modos de agir, o que
podemos também chamar de “gestos narrativos”. É exatamente por ser possível
produzir narrativas outras, vindas de lugares distintos que invariavelmente se
misturam, que se torna evidente o fato de que narrar é estar no mundo. Ricoeur
(2010) tece este modo de compreender a narrativa nas entrelinhas do seu
pensamento, na medida em que, naquilo que chama de “círculo hermenêutico”,
não descola a narrativa do que ele chama de “mundo do agir”. São as lógicas
de produção e os jogos de alteridade e poder que se encontram neste que é
também chamado de “mundo do autor”.
São essas lógicas e esses jogos que, invariavelmente, se apresentam no
gesto de narrar. E este livro nos mostra bem este percurso, quando nos coloca
frente a problemas tão pertinentes e ao mesmo tempo tão fudantes para as
mídias e suas narrativas. As memórias, as temporalidades, os contextos, as
convergências, as rupturas e os processos de subjetivação inevitavelmente
entrelaçam fios (que são sim narrativos) não mais passíveis de serem mantidos
distantes dos olhos dos sujeitos que os tecem e/ou os leem. Assim é que a
indagação acerca dos modos de narrar se torna crucial. Pois, também como há
muito já nos dizia Barthes (2001), inumeráveis são as narrativas do mundo.
Da mesma forma, a entrada da narrativa como um problema no campo
de estudos das mídias e do jornalismo pode sempre ser entendida também
à luz dos avanços tecnológicos produzidos pelas sociedades contemporâneas,
particularmente essas que temos construído desde meados do século passado.
Em outras palavras, a variedade e a disseminação dos recursos tecnológicos,
aos quais, ainda que de forma assimétrica, passamos a ter acesso, fez com que
nós, pesquisadores deste campo, nos voltássemos às suas produções com olhos
atentos às pulverizações e às polarizações próprias de um cenário midiático
regido pelas convergências e pelas ubiquidades.
Nesse sentido, o desafio que este cenário impõe é estritamente ligado à
ideia de que narrar no mundo implica o reconhecimento da demanda por fazer
uso de outros instrumentos de análise e métodos que nos tornem aptos a criticar
e interpretar os gestos narrativos. Se muitos podem falar através de vários
lugares que a nós se apresentam, muitas vezes, de forma concomitante, quem
fala se torna uma pergunta crucial, pois é este o percurso que também nos fará
indagar acerca das legitimidades e dos poderes, dos artifícios de exclusão e das
estratégias de produção de autoritarismos.
Se tomarmos o jornalismo como exemplo, é no bojo deste cenário que
passamos a ter de pensar e discutir o lugar do jornalista, que antes se via
confortável no gesto simplório de recuar, ou de fingir estar ausente, no ato
próprio de narrar. Neste caso, o que vem à tona, como retórica e estratégia, é
a imparcialidade e a objetividade. E é com essas estratégias discursivas que

9
nos deparamos, por exemplo, quando aprendemos que quem narra pode até
criar modos, narrativos, para fingir que não está no mundo que narra, mas à
luz do cenário midiático contemporâneo, agora sabemos todos, sua presença é
incontestável. E mais ainda, sua presença inventada como ausência se traveste,
muitas vezes e muito particularmente no jornalismo, de autoritarismos e, sim,
parcialidades. Um exemplo de como temos enfrentado parte do desafio que este
dilema nos impõe é a emergência da problemática do testemunho – também
presente neste livro –, na complexidade que ela hoje nos chega enquanto questão
no campo de estudos do jornalismo.
No reconhecimento da premissa, a meu ver emancipadora, de que narrar
no mundo é o nosso atual desafio, as perguntas sobre os modos de narrar e as
indagações acerca de quem narra seriam fortuitas caso não as estendêssemos
à ideia própria de Ricoeur de que narramos tanto o mundo que lemos quanto o
que vivemos. É neste círculo hermenêutico complexo, que nunca é tautológico,
como nos diz o filósofo, que passamos a ter que buscar saber que mundo é
este narrado pelas mídias e pelo jornalismo. A questão assim se coloca da
seguinte maneira: regidas pela ideia sustentada pela lógica moderna legitimada,
as narrativas do mundo, particularmente as devedoras de uma referência à
realidade dos fatos – a histórica e a jornalística, por exemplo –, resguardam-
se no princípio da transparência. Nesta lógica, os documentos, ou os próprios
acontecimentos do passado ou do presente, seriam hipoteticamente revelados
na própria narrativa. Em outras palavras, o mundo do passado ou do presente
nos seria dado da forma mais limpa e clara possível.
O cenário midiático contemporâneo joga por terra este ingênuo pressuposto.
O mundo que nos chega, através das narrativas, é o mundo inventado – e
esta palavra aqui não tem nenhuma relação com a ideia de “mentira” – por
quem narra. Assim, perguntar que mundo é este que acessamos, na lógica
comprometida com o gesto de narrar no mundo, é saber, por princípio, que
as narrativas inventam geografias (RESENDE, 2014); um processo através do
qual territórios são produzidos, criados e legitimados. Sejam territórios-corpo,
territórios-cidade, territórios-cor, territórios-religião, ou os muitos outros que
acessamos nas narrativas que lemos, o que ali se encena e legitima, muitas
vezes, é uma geografia do poder. Nesse sentido, é contra os binarismos, as
estereotipias e os autoritarismos inscritos nessas narrativas que também lutamos
quando nos inquietamos e duvidamos acerca dos mundos que nos chegam
através dos jornais e dos tantos outros aparatos midiáticos.
Que a narrativa esteja agora presente no campo de estudos das mídias e
do jornalismo é, portanto, um fato que nos implica a todos, na medida em que
somos todos partes fundamentais no processo de construção do mundo que
vivemos. Este livro nos chama atenção para os relevos da cidade que a narrativa
constrói, para a problemática das subjetivações no escopo dos enquadramentos

10
da narrativa jornalística, ativa a ideia da memória como método de trabalho e
pesquisa, fazendo-nos particularmente atentos à escrita e aos que a produzem.
É isso que a narrativa requer de nós, olhos e ouvidos atentos às vozes e aos
sentidos que nos falam também do inefável que habita o mundo que vivemos.
Desta forma, ao cumprir a função de nos chamar a todos para estarmos
ativos e atentos ao processo de consolidação dos estudos da narrativa no campo
das mídias, este livro também nos diz que o tempo que hoje experimentamos
não é somente o tempo das convergências. Ele é, antes de tudo – e é aí que
está a sua força –, um enredamento de muitas espacialidades e temporalidades
dissonantes e em constante estado de confronto. Enfrentar a narrativa como um
problema é saber desta dimensão complexa, pois é também nela que as lutas
são travadas. Por esta razão, do meu ponto de vista, os estudos da narrativa –
do qual este livro agora é cúmplice –, quando afetados pelos desafios que nos
são postos pelo ato de narrar no mundo, evocam um gesto político e estético de
fundamental importância para o avanço das nossas pesquisas nos campos da
comunicação e do jornalismo.

Referências

BARTHES, Roland. A aventura semiológica. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


D’AMARAL, Marcio Tavares. Comunicação e diferença – uma filosofia de guerra
para uso dos homens comuns. Rio de Janeiro: UFRJ, 2004.
RESENDE, Fernando. The Global South: conflicting narratives and the invention
of geographies. Revista IBRAAZ – Contemporary Visual Culture in North Africa
and the Middle East, London, 2014.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa (Tomos 1, 2 e 3). São Paulo: Martins Fontes,
2010.

11
I
Narrativas,
memória
e temporalidades

12
O relevo da cidade construído nos gestos
memorativos do jornalismo de suplementos:
O caso de Cultura de Zero Hora1

Cida Golin
Luísa Rizzatti

O jornalismo constrói escalas sobre a cidade, projeta determinados


relevos sobre ela, espaços de onde se observa e se é observado, exercitando
seu poder simbólico de visibilidade. Instituição cultural que se desenvolveu
ancorada na experiência urbana, o jornalismo constrói a realidade social ao
mediar temporalidades e espacialidades. As mediações do espaço implicam
também em mediações simbólicas de contração temporal. Se tanto o tempo
como as espacialidades são produções sociais e relações de poder, encontramos
no jornalismo uma narrativa particular de produção destas experiências.
Situados em uma cultura da memória que preenche uma função importante
na experiência temporal contemporânea, os meios enquadram a memória a
partir de sua estrutura e forma (HUYSSEN, 2000). O campo jornalístico, por
sua vez, constitui-se em um dos tecelões da memória, produz paisagens por
onde ela toma forma, em que é inscrita, sobrescrita, reescrita ininterruptamente
(ZELIZER, 2014; LAGE, 2013). Este capítulo concentra-se em questionar a
construção jornalística da cidade a partir dos gestos memorativos de um
suplemento cultural, o caderno Cultura, de Zero Hora (RS), um dos suplementos
culturais mais longevos do Brasil que, somente na sua versão semanal impressa,
circulou durante 22 anos ininterruptos (1992 – 2014), apostando especialmente
no mercado editorial e do livro. Zero Hora é um dos principais diários do sul do
Brasil e o quinto do país em circulação conforme dados auditados do Instituto
Verificador de Comunicação (IVC).2
Trata-se de um recorte da pesquisa em andamento Jornalismo, memória
e cidade: estudo do suplemento Cultura de Zero Hora (2011-2014), com
financiamento do CNPq. Buscaremos dar ênfase aos procedimentos metodológicos
de construção da pesquisa, detendo-nos especialmente em refletir sobre a
leitura das espacialidades citadinas criadas a partir das narrativas jornalísticas
1 Este texto é uma ampliação de papers apresentados nos congressos Ibercom (Golin, 2018) e
Orbicom (Costa, 2018), expandindo a discussão e a reflexão sobre os procedimentos metodológicos
acionados na leitura de nosso objeto, o caderno Cultura de Zero Hora.
2 Em dezembro de 2017, totalizava a média de 181.129 exemplares somando as edições impressas
e digitais. Ver: << https://www.poder360.com.br/midia/tiragem-impressa-dos-maiores-jornais-perde-
520-mil-exemplares-em-3-anos/>> Acesso em: 07 jun. 2018.

13
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

encontradas no universo dos suplementos culturais, ou seja, no encontro entre


uma determinada experiência de tempo-espaço mediada pela narrativa.
Além da ênfase na discussão de base metodológica, vamos relatar nossas
considerações acerca dos personagens visibilizados para serem rememorados
pelo suplemento no acionamento das efemérides e no anúncio da morte e, por
fim, sistematizar espacialidades projetadas sobre a cidade a partir destes gestos
editoriais e biográficos. Partimos da premissa de que, ao iluminar a vida e a morte
de sujeitos notáveis, o jornalismo mobiliza um esforço de lembrança, projeta um
relevo da cidade, demarca lugares de prestígio e de memória e reverbera rituais
de distinção. Tanto no anúncio da morte como na datação da efeméride, trata-se
de sintetizar marcações temporais no esforço ilusório das biografias singulares,
projetando a notabilidade de suas ações na história cultural de um lugar (COSTA,
2018). Antes de problematizar este recorte, situaremos nosso trabalho de forma
mais ampla, recorrendo às leituras anteriores do mesmo objeto.

Procedimentos metodológicos

Esta pesquisa, de viés qualitativo e exploratório, dialoga com várias


investigações desenvolvidas no Núcleo de Estudos em Jornalismo e Publicações
Culturais do Laboratório de Edição, Cultura e Design (LEAD | CNPQ).3 Busca
investir na relação entre texto e contexto e, especialmente, na consciência de
que o objeto é conformado pelo tensionamento da moldura teórica construída
pelo pesquisador (BRAGA, 2011). A partir dessa tripla condição – especificidade
dos objetos, contexto e perspectiva teórica – é que enfrentamos a complexidade
de estabelecer índices para nossos gestos interpretativos.
Devido à extensão do corpus (coleção de jornais), buscamos articular
determinados procedimentos organizatórios de análise de conteúdo (BARDIN,
2011; GOLIN, CARDOSO, SIRENA, 2015) com o aporte da análise narrativa
(RICOEUR, 1994; CULLER, 1999; MOTTA, 2013),4 elemento decisivo para
entrelaçar os gestos memorativos do jornalismo na construção do espaço da
cidade. Analisar os modos de onde a cidade é falada, a partir do jornalismo, é
também tomá-la como personagem, espaço de experiência, cenário de conflitos,
como narrativas de cartão postal ou do seu avesso (PERES, 2012). Enfatizamos,
aqui, uma pergunta de Resende (2012, p. 193) que nos parece relevante quando
se trata do agenciamento da lembrança por meio de uma publicação seletiva
e perita: “[...] em que medida essas narrativas nos ajudam a compreender os
modos de instalação e reconfiguração de poder no espaço da cidade?”.
Em etapas anteriores, sistematizamos o corpus por meio da organização
3 O NEJPC do LEAD tem se concentrado, há mais de dez anos, em cercar as relações entre o jornalismo
e o sistema de cultura, especialmente em estudos de viés históricos.
4 Autores que temos como referências para a condução dos estudos, embora a bibliografia acionada
na pesquisa como um todo seja muito mais ampla.

14
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

em categorias classificatórias prévias. Sabemos pela literatura especializada


(BAUER, 2002; KRIPPENDORFF, 1997) que o exercício da análise de conteúdo
presta-se para o manuseio de amostras extensas e longitudinais, buscando
formular inferências que deem conta de aspectos mais gerais dos objetos e
de suas lógicas. Conforme relatado em Golin (2016), o cruzamento dos dados
quantitativos permitiu uma leitura das principais tendências da política editorial
da publicação entre 2006 e 2009,5 apontando para um mapa do sistema de
cultura ao organizar protagonistas, temas e temporalidades no espaço da cidade,
especialmente de Porto Alegre, norte editorial da publicação. A capital emergiu
como catalisadora de um fluxo incessante de mercadorias (agentes, eventos,
produtos), uma espécie de nó entre circuitos de produção artística e cultural,
lugar de passagem de notórios, uma cidade estrategicamente situada numa
fronteira geográfica e vista como vitrine ou palco.
Por outro lado, ao reduzir o corpus pela metade (104 edições) para refinar
os estudos qualitativos, encontramos os gestos recorrentes do jornalismo cultural
que reporta a cultura por meio das efemérides e das homenagens, realinhando
legados, reinserindo pautas e personagens e produtos na economia de oferta dos
bens culturais. Este marcador temporal de leitura projetou uma cidade tecida
pelo acionamento seletivo da lembrança (GOLIN; CAVALCANTI; ROCHA, 2015).
Entre a sobreposição da cidade vitrine e da cidade lembrança, nosso interesse
recaiu nesta última, especialmente nos gestos memorativos do suplemento cultural,
foco desta segunda fase em andamento da pesquisa que abrange a leitura da
fase final de circulação do suplemento, entre janeiro de 2011 e maio de 2014,
reunindo 173 edições. Em um primeiro momento, procuramos catalogar os textos
que acionavam a construção da memória sobre a cidade em torno de valores
jornalísticos de seleção (morte, notoriedade, notabilidade, entre outros) e os regimes
de temporalidade (eventos, eventos-efemérides). Buscou-se, também, sistematizar
quais temas, espaços e personagens foram destinados a serem lembrados.
A partir dessa primeira análise e organização panorâmica do corpus,
delimitamos amostras reduzidas visando a um tensionamento mais produtivo, no
contexto da perspectiva narrativa, a fim de refinar a construção de especialidades
projetadas pela publicação. É importante demarcar que o suplemento semanal
impresso, materialidade na qual estão inscritas nossas narrativas, possui uma
periodicidade alargada (semana), abriga temporalidades heterogêneas e carrega
consigo parte do conceito etimológico da revista, ou seja, o ato da re-vista, de
examinar, de inspecionar mais detidamente, pressupondo o exercício da crítica
e do ensaio e, portanto, da reflexividade em relação ao passado e ao porvir,
inscrito no agendamento do presente.

5 Os dados obtidos na panorâmica editorial do caderno Cultura de Zero Hora entre 2006 e 2009, a
partir do cadastro de 208 edições, totalizaram 1.413 textos lidos e indexados em um banco de dados
especialmente criado para a pesquisa. Corroboram resultados alcançados por Keller (2013) na leitura
de 422 textos publicados nas 52 edições de 2010. Somadas as duas pesquisas tivemos uma leitura de
cinco anos da publicação (2006 – 2010).

15
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Concebido no âmbito das lógicas editoriais do impresso, o suplemento


constitui-se como uma espécie de arquivo em relação às demais narrativas
efêmeras produzidas na redação jornalística, propondo um vínculo de tempo
longo com seu leitor. Constitui um mosaico de fragmentos heterogêneos
(materiais jornalísticos, textos analíticos e excertos ficcionais, eventualmente)
ancorados pela data da edição. Expressa com clareza uma política editorial
de leitura da cultura ao convocar especialistas e intelectuais a participar do
campo jornalístico. Nesta montagem, exerce seu poder de demarcar espaços de
conhecimento e de circulação de saberes (BAREI, 1999).

Pressupostos da leitura interpretativa

Propomos pontuar agora determinados pressupostos que constituem chaves


para nossa leitura interpretativa. Sob o parâmetro amplo de texto – tecido que
envolve a cidade e o jornalismo, assim como a lógica do fragmento, da montagem
e da superposição que caracteriza a estrutura narrativa de ambos –, partimos
da perspectiva da narrativa como lugar de mediação da memória, da cidade e
do jornalismo (RICOEUR, 1994). Enfatizamos aqui o círculo hermenêutico da
tríplice mimese apresentada por Paul Ricoeur ao pensar na arquitetura temporal
que atravessa esses três âmbitos. Ao articular determinados fragmentos de um
mundo de referência (prefigurado), cada intriga configura uma mediação deste
mundo prefigurado, fazendo a intersecção com o mundo do leitor, aquele que
refigura cada narrativa em um processo infinito de interpretação. Não apenas
cada texto-fragmento é atravessado por essa estrutura tríplice, como a própria
publicação (suplemento cultural) concretiza em si a tríade processual.
As narrativas sobre a cidade, quaisquer que sejam elas, também são
atravessadas por essa arquitetura. Nesse sentido, enfrentando a complexidade de
um objeto como a cidade, buscamos pensá-la como construto simbólico, um lugar
socialmente criado em um contexto histórico-espacial; texto feito de camadas e
superposições, cenário de disputa de relatos e perspectivas (CERTEAU, 2012;
MONGIN, 2009; LIMONAD; RANDOLPH, 2002). Seguimos Pesavento (2004)
ao aproximar a cidade, enquanto unidade de espaço e tempo, do palimpsesto, de
uma escrita que se oculta sobre a outra, deixando traços e vestígios.
Ao definir a cidade como laboratório comunicativo, Ferrara (2015) aponta
para duas categorias de leitura, a mediação e a interação. Na categoria da
mediação, estaria a imagem midiativa, a cidade apresentada, expressão
simbólica de um poder planejado, feita de lugares “iluminados” para a cidade
fazer-se ver dentro do panorama da cultura. Na categoria interação, estaria a
cidade vivida, que se manifesta nas relações sociais e no espaço vivido, que
constitui um processo de pertencimento a um lugar, a um “pedaço” da cidade,
que transforma o habitante em parte da cidade e que com ela se confunde.
Essas categorias não são separadas facilmente. Elas se superpõem, como de

16
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

resto tudo na experiência citadina.


Inseridos, portanto, na categoria da mediação pela escolha de nosso objeto,
encontramos aqui a dimensão artífice do jornalismo ao construir espacialidades.
Não esqueçamos, contudo, da polissemia do conceito de espaço, cuja definição
varia conforme o campo de saberes e que oferece perspectivas instigantes para
pensar a narrativa jornalística. Neste momento e em linhas muito sintéticas,
exploramos a perspectiva do espaço como relação de poder, como movimento
e processo que presume práticas sociais, representações concebidas e vividas,
demarcando que toda a representação é também uma espécie de espacialização,6
ou seja, ela representa e produz espaço ao mesmo tempo. Utilizaremos o termo
espacialidade para observar o relevo momentâneo de relações do conjunto de
narrativas, espacialidades da cidade que se projetam a partir do cruzamento das
biografias individuais produzidas pelo suplemento cultural.
Entre as 173 edições do Cultura, elencamos uma amostra específica com
32 personagens visibilizados que foram rememorados pelo anúncio da morte e
da efeméride, totalizando 55 textos distribuídos nas edições de 2011 a 2014.7
Por mais que apresentem diferenças estilísticas próprias de distintos agentes
colaboradores que participam do suplemento, consideramos todos os textos como
jornalísticos, já que foram publicados pelo jornal e atendem às expectativas e
aos enquadramentos da produção jornalística, ou seja, extensão breve, gancho
jornalístico e clareza que visa a atingir um público supostamente mais amplo.
Retomamos Certeau (2012) quando pensamos a leitura de nosso conjunto
de narrativas como uma espécie de caminhada deambulatória pela cidade-
texto, dilatando e ampliando elementos e detalhes presentes no percurso.
6 Estamos nos apropriando livremente de ideias dos filósofos Henri Lefebvre (2013), Pierre Bourdieu
(2007) e dos geógrafos David Harvey (2003), Milton Santos (1996; 1997) e Edward Soja (1993).
7 A amostra é composta pelos seguintes acontecimentos e edições:
150 anos do nascimento do cientista Padre Landell de Moura (15.01.2011); Morte da cantora Zilah
Machado (15.01.2011); Morte do jornalista Sérgio Jockymann (19.01.2011); 15 anos da morte
do escritor Caio Fernando Abreu (26.02.2011); Centenário do nascimento da bailarina e professora
Lya Bastian Meyer (12.03.2011); 90 anos do nascimento do escritor e jornalista Josué Guimarães
(26.03.2011); Morte do escritor argentino Ernesto Sabato (07.05.2011); Aniversário de 75 anos
do dramaturgo e professor de teatro Ivo Bender (21.05.2011); 90 anos do nascimento do professor,
gramático e linguista Celso Pedro Luft (28.05.2011); Aniversário de 80 anos do músico João Gilberto
(04.06.2011); 15 anos da morte do jornalista e escritor Luiz Sérgio Metz (09.07.2011); Morte do
professor de francês, radicado em Porto Alegre, Alexandre Aimé Ernest Roche (24.12.2011); Morte
do professor e historiador Telmo Lauro Müller (14.01.2012); Morte do ator e diretor teatral Fernando
Peixoto (25.02.2012); Morte do geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber (31.03.2012); Morte de Millôr Fernandes
(31.03.2012); Centenário de nascimento do bailarino e professor de balé clássico João Luiz Rolla
(07.07.2012); Centenário do nascimento do jornalista e historiador Carlos Reverbel (07.07.2012);
Morte do artista plástico Carlos Alberto Petrucci (14.07.2012); 120 anos do nascimento da fotógrafa
e artista plástica Margarethe Schoenwald Schneider (08.09.2012); Morte do livreiro e escritor
Arnaldo Campos (29.09.2012); Centenário de nascimento do cronista Rubem Braga (12.01.2013);
Morte do professor de cinema Aníbal Damasceno Ferreira (20.04.2013); Morte do cartunista Renato
Canini (02.11.2013); 130 anos da morte do dramaturgo Qorpo Santo (16.11.2013); Centenário de
nascimento do sambista Wilson Baptista (28.12.2013); Morte do músico Giga Giba (08.02.2014);
Morte do cineasta e documentarista Eduardo Coutinho (08.02.2014); Morte do artista uruguaio Carlos
Páez Vilaró (01.03.2014); Morte de Maria Coussirat Camargo (15.03.2014); Centenário do escultor
Vasco Prado (19.04.2014); Morte do escritor colombiano Gabriel García Márquez (19.04.2014).

17
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Nessa caminhada pelo conjunto de 55 textos, procuramos encontrar repetições


e regularidades com foco especialmente nas projeções de espacialidades
entendidas como relações. Palmilhamos espacialidades que se repetem, se
sincronizam, e que apontam para lugares biográficos, físicos e simbólicos. Esta
leitura interpretativa foi conduzida tanto pelas pistas encontradas no próprio
objeto como na armadura teórica que ilumina a pesquisa. Neste sentido, nos é
bastante cara a dimensão conceitual do lugar8 como um construto simbólico,
tecido pelas relações sociais, pelos sentidos impressos pelo uso e pelo vivido,
aquilo que se vincula ao conhecido e reconhecido e que diz respeito às formas
de habitar a cidade.
Ao percorrer as distintas narrativas, percebe-se a formação de uma topografia
da distinção composta por uma camada produzida pela política editorial ao dizer
quem deve ser lembrado e quem ganha o protagonismo da escrita. A partir desta
base, visualizamos o relevo singular e afetivo do habitar pela recorrência à casa, à
rua, ao bairro; seguimos com a remissão constante aos sistemas de transmissão
de saberes conduzidos pelos campos acadêmicos e jornalísticos. E, por fim,
apontamos determinados deslocamentos vividos pelos biografados dentro da
topografia da distinção construída pelo suplemento em torno da cidade.

A primeira moldura: quem deve ser lembrado e quem escreve

No contexto do Cultura, conforme relatado em Costa (2018), percebemos


que os rituais narrativos de aniversários e de mortes anunciadas são bastante
similares na medida em que projetam uma trajetória de vida de sujeitos
notórios, figuras que são destacadas pelo esforço de lembrança jornalístico. No
intuito de classificar e contextualizar, o suplemento transforma tais rituais em
acontecimentos inteligíveis e justificados para seu público dentro de quadros de
referência supostos, ou seja, justificam-se a partir do legado cultural deixado por
esses sujeitos para a história cultural da cidade.
Os notáveis estão inseridos e são reconhecidos no campo da cultura, das
manifestações artísticas e do ensino.9 O conjunto reverbera as características
de um suplemento voltado para lançamentos do mercado editorial, que tem
a literatura, a história, os intelectuais e a música como temáticas constantes.
Dos 32 perfilados, temos somente quatro mulheres, indiciando uma forte
predominância do gênero masculino na seleção de quem deve ser lembrado.
Há também uma prevalência da figura do professor, quase um terço (8)
8 O conceito de lugar abarca uma profusão de sentidos conforme a bibliografia acionada. Interessa-
nos, em função de nosso estudo específico, seguir a perspectiva de Carlos (2007) de que a produção
espacial realiza-se no plano do cotidiano e aparece nas formas de apropriação, utilização e ocupação
de determinado lugar.
9 Nossa amostra é regida pela prevalência do gancho jornalístico da efeméride (15 pautas) e do
anúncio da morte (17 pautas). Os perfilados fazem parte do campo da literatura, jornalismo e mercado
editorial (11); artes cênicas e dança (5); artes visuais e fotografia (5); música (4); ensino de línguas (2);
ensino e pesquisa da geografia e história (2); cinema (2) e ciências (1).

18
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

destas personalidades exerceram a docência como atividade principal, não


necessariamente exclusiva. Das figuras evocadas, apenas duas estavam vivas
(o dramaturgo e professor de teatro Ivo Bender e o músico João Gilberto) e
comemoravam, à época da publicação, seus aniversários de 75 anos e 80 anos,
respectivamente. Em geral, o arco temporal das histórias de vida abarca uma
média de 70 a 98 anos, com exceção dos escritores Caio Fernando Abreu e
Sérgio Metz, que estavam sendo lembrados pela passagem dos 15 anos de
suas mortes prematuras. Ao iluminar as trajetórias dos perfilados, os textos
configuram um contexto panorâmico especialmente do século XX.
Os textos provêm tanto de colaboradores convidados, geralmente do
campo acadêmico, como de profissionais da redação de Zero Hora, pontuando
uma marca editorial do caderno. Como dito acima, há nesses dados uma
camada espacial estruturante feita de escolhas jornalísticas e que indica a
perspectiva perita de onde se observam os temas enfocados. Dos 43 autores,
12 (27,9%) são jornalistas, sendo o restante de 31 (72,1%) composto por
profissionais especializados. Desses 31 autores, 17 (54,8%) são professores
universitários, o que mostra uma forte hegemonia do campo acadêmico. Os
outros 14 (45,2%) não são professores, mas estão inseridos dentro de um
sistema perito. As universidades, portanto, ocupam um lugar extremamente
importante na dimensão narrativa e no ponto de vista do suplemento.10 Entre os
17 autores/professores especializados, verificamos que a Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS) é a universidade protagonista, aquela que mais
ganha espaço, totalizando 58,8% de predominância. Quase um quarto de todos
os autores da amostra vem da UFRGS.11
Seguindo a perspectiva majoritária do conjunto, percebemos o tom de
enaltecimento que cerca os percursos biográficos, sintetizando o sujeito pela
dimensão cultural de sua ação profissional e artística. A cidade, aqui, serve
para demarcar momentos significativos da trajetória de boa parte dos notáveis.
As localidades ancoram nascimento, morte, infância, adolescência, vida adulta,
vida profissional e estas representações implicam, muitas vezes, em percursos
por sobre as ruas, bairros, instituições.
Na amostra de quatro anos da publicação, percebe-se a emergência,
em um número significativo de textos, da perspectiva da cidade porto seguro,
que abriga o personagem durante boa parte de sua vida e que se constitui
como espaço acolhedor para o desenvolvimento de sensibilidades artísticas.
Junta-se a isso o cultivo de memórias afetivas, elemento que aparece direta ou
indiretamente na obra dos criadores e que implica a criação de vínculos com
determinados lugares.
10 Os professores contabilizam 39,5% dos autores em relação ao total de 43. Além disso, pensando
no total de 17 professores, 65% deles são especialistas em Letras, o que indica a hegemonia dessa área
no recorte cultural do jornal.
11 Se formos comparar o número de colaboradores da UFRGS (10) com o número total de autores
(43), incluindo os jornalistas, a presença da Federal totaliza 23,25%, que é um valor bastante alto. Os
outros professores estão vinculados a PUCRS, Unisinos, Unesp, UFPel e UPF.

19
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Um breve percurso pelas chamadas de cada uma das edições aponta para
outra moldura em que estas narrativas são enquadradas sob o ponto de vista da
distinção e da trajetória superlativa e singular – “invenções de um padre genial”,
“mestre do cartum”, “pioneiro da escultura moderna gaúcha”, “escritor que
fundou a literatura pop”, “a voz do Brasil”, “erudito ímpar”, “maior dramaturgo
gaúcho vivo”, “um dos maiores pensadores da língua portuguesa”. Olhando em
conjunto, as chamadas mobilizam a atenção do leitor para aquilo que é único,
criando expectativa em relação a cada singularidade, narrativas que apontam
sempre o raro, mas que se repetem como enquadramento.
Dois terços dos personagens (24) têm uma relação direta com Porto Alegre,
reverberando a normativa hiperlocalista do jornal estudado. A capital aparece
como território construído em que cada um deixou um trajeto singular, trajeto
este enfatizado pelo esforço editorial de lembrança. Percebemos também,
no conjunto das narrativas, algo que Pollak (1989) sublinhou na recolha de
histórias de vida, isto é, certo alisamento dos conflitos e tensões que possam ter
havido no percurso dos sujeitos. Há uma tentativa de ordenação cronológica,
certa coerência entre acontecimentos-chave, organizando uma dimensão que é
da ordem da ilusão biográfica.
As narrativas, inseridas no protocolo editorial comemorativo, mesmo
quando se trata de anúncios de morte, buscam enquadrar cada história
naquilo que ela ilumina do presente. Pelos tipos de mortes relatadas na
amostra, percebe-se a morte como uma espécie de vida que prolonga, de
um modo ou de outro, a vida individual (e aqui entra em ação o rememorar
cíclico dos aniversários), ou seja, o reconhecimento de uma individualidade
(MORIN, 1997). Após este relevo de base, seguimos ampliando determinadas
espacialidades recorrentes de nossa amostra.

Microcosmos na cidade: as conchas desenhadas nas narrativas

No percurso pela cidade-texto (COSTA, 2018),12 chama atenção a


referência da casa, elemento central do habitar no sentido de apropriar-se,
de manter relações intensas e de constância (hábito, habitualidade) e que se
traduz, justamente, na relação de pertença (MENEZES, 1996), na apropriação
de um território. O território, aqui, aparece na sua dimensão de microcosmos, o
que pode nos levar a pensar a cidade como agregação de territórios atomizados
(BURGOS, 2005). A casa se apresenta como uma primeira concha, um território
de identificação e de sedimentação de memórias. Dos 32 personagens, 12
aparecem em relação explícita com sua residência, território de abrigo e criação,
e esta em relação à cidade.
Nesse sentido, é emblemática a reportagem sobre a busca pela casa-
12 O detalhamento deste percurso, com a superposição e sincronia dos excertos narrativos que, juntos,
constroem as espacialidades da cidade-texto, estão em Golin (2018) e Costa (2018).

20
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

esconderijo de João Gilberto, espécie de enclave onde o criador se recolhia. O


repórter atravessou com seu texto pelo menos três ruas do bairro Leblon no Rio de
Janeiro, trazendo à tona o relevo das ruas, que dá vida a uma cidade e ao próprio
jornalismo, compondo outro território tão caro à topografia dos afetos urbanos, o
bairro, cidades dentro de uma cidade.13 Se a busca pela casa, universo do homem
privado, onde habitar significa deixar rastros (BENJAMIN, 1991), o suplemento,
por meio da palavra e das fotografias ou ilustrações, vai escavando escritas ocultas
na cidade, suas rugas, como bem definiu Rodrigues (2014).
A própria casa, signo material e simbólico de uma história singular, passa a
ser objeto a ser preservado, nem sempre bem-sucedido, como aconteceu com a
casa do escritor Caio Fernando Abreu. Seus fãs e leitores tentaram, sem sucesso,
transformar sua residência no bairro Menino Deus em Porto Alegre em um
centro cultural para salvaguardar um acervo de mais de mil itens do escritor.14
Ou o caso da mansão demolida da avenida Vasco da Gama, que pertencera
à primeira fotógrafa mulher Margarethe Schneider (1892-1983), e que se
esvai na memória cultural de Porto Alegre, sendo novamente reapresentada em
fantasmagorias por um esforço de efeméride do suplemento.15
Provavelmente o caso mais emblemático de simbiose entre o sujeito e
seu abrigo é a descrição da casa-museu-ateliê batizada Casapueblo pelo artista
uruguaio Carlos Páez Vilaró (1923-2014), na ocasião de sua morte, que fez
dela uma escultura habitável e um cartão postal de seu país encravado num
penhasco à beira-mar de Punta Ballena. A casa-labirinto é tão personagem
quanto seu proprietário e criador.16
Sublinhamos a figura de Maria Coussirat Camargo (1915-2014), que
dedicou a sua longeva vida à guarda do legado do marido, o pintor Iberê Camargo,
organizando registros do processo criativo e da circulação de suas obras. Essa
mulher, que se recolheu à casa e aos bastidores do sobrenome,17 personificou
como poucos a gestão cotidiana da memória, concentrando em si a função de
guarda, de transmissão de uma herança, função tão característica das cidades
(MUMFORD, 1998) e que o suplemento, a partir de seus próprios arranjos e
fragmentos editoriais, também pedagogicamente configura.

A simbólica distintiva dos circuitos de transmissão

Gestor da lembrança de notáveis no palimpsesto da cidade, o suplemento


jornalístico aponta para a topografia da distinção em que as escolas, a
universidade e a experiência da aula são espacialidades privilegiadas. A
13 MELO, Itamar. À procura de João Gilberto. Cultura, Zero Hora, sábado, 04 de junho de 2011, p. 4 e 5.
14 MOREIRA, Carlos André. Um escritor vence o tempo. Cultura, Zero Hora, sábado, 26 de fevereiro
de 2011.
15 CHAVES, Ricardo. Frau Margarethe. Cultura, Zero Hora, sábado, 08 de setembro de 2012, p. 6.
16 LERINA, Roger. Um homem em busca do sol. Cultura, Zero Hora, sábado, 1 de março de 2014, p. 2
17 ZIELINSKY, Mônica. Caminhos da memória à história. Cultura, Zero Hora, sábado, 15 de março
de 2014, p. 2.

21
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

implementação do circuito de aprendizado do balé clássico em Porto Alegre,


por exemplo, centralizado em torno da figura de bailarinos que fundam suas
próprias escolas ao longo do século XX, pode ser visualizada nos textos
dedicados a pontuar os centenários de Lya Bastian Meyer (1911-2006) e de
João Luiz Rolla (1912-1999).18
A universidade, por sua vez, é captada nas descrições dos rituais de instituição
e de consagração (BOURDIEU, 1998). No processo de seleção de quem precisa
ser lembrado, conhecido e reconhecido, o caderno jornalístico ecoa os rituais
de investidura, reconhece e sanciona a diferença, atribui uma competência ao
retratado, comunicações estas exercidas pelo conjunto de textos memoriosos.
O sistema universitário tem protagonismo no caderno, não apenas porque
dali provém a maior parte dos colaboradores, como já foi visto, mas pela sua
dimensão e legitimidade institucional, de guarda e provocação da memória.
Alguns dos perfilados pertenceram aos quadros da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Ivo Bender, Celso Pedro Luft, Aziz Ab’Saber, entre outros) ou
foram por ela homenageados com distinções (doutor honoris causa), exposições
ou guarda de arquivos. A universidade, como instituição de preservação e
produção da memória, é realçada em iniciativas como as da Universidade de
Passo Fundo, no noroeste do Rio Grande do Sul, e da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que mantém o arquivo Delfos, reunindo
acervos deixados por escritores e intelectuais.
Nota-se também uma escritura que o suplemento é capaz de mobilizar no
sentido do registro da experiência efêmera da aula, que aparece aqui na sua
potência de abertura de horizontes. O perfil, os gestos, a voz do professor, sua
maestria, a localização da aula no mapa geográfico da cidade são rememoradas
muitas vezes em tom nostálgico, afetivo, da perspectiva de quem foi aluno.
Por outro lado, como há predominância da prática literária e do segmento
de produção editorial e jornalístico nos sujeitos perfilados, já que pelo menos
15 deles exerceram tais atividades em algum momento de suas vidas, as
redações jornalísticas entreabrem-se na sobreposição do conjunto de textos.
As redações locais de Porto Alegre cruzam-se com as redações do centro,
especialmente do Rio de Janeiro, apontando a referencialidade e a hegemonia
do jornal impresso na trajetória cultural de boa parte dos perfilados. Os
veículos da empresa Caldas Júnior,19 em Porto Alegre, e o jornal O Pasquim,20
no Rio de Janeiro, são as redações mais citadas por onde passaram alguns
18 Sem autoria. Mestre da dança, Cultura, Zero Hora, sábado, 07 de julho de 2012. MACHADO,
Janete da Rocha. Lya Bastian. A primeira dama do balé clássico de Porto Alegre. Cultura, Zero Hora,
sábado, 12 de março de 2011, p. 2.
19 Empresa jornalística fundada em 1895 em Porto Alegre, por Francisco Caldas Júnior, com o
lançamento do jornal Correio do Povo, principal jornal do Rio Grande do Sul a partir de 1920. No final
dos anos 1960, a empresa Caldas Júnior era a sétima maior no ramo jornalístico no país. Uma crise
financeira e estrutural levou ao fechamento da empresa em 1984.
20 Emblemática publicação independente que circulou no Brasil entre 1969 e 1991, cuja linha
editorial abraçava a contracultura, o humor e a produção de entrevistas sem censura, desafiando o
contexto da ditadura civil-militar.

22
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

desses indivíduos. Ao mesmo tempo, percebe-se aqui a construção de figuras


referenciais do jornalismo a partir do seu próprio campo. Em um movimento
bastante frequente – comum nos aniversários dos veículos, por exemplo –, o
jornalismo dobra-se e compõe uma narrativa sobre si, exercendo seu poder de
dizer e de escolher, assim como também de silenciar.

Processos de espelhamento e deslocação

Há também outro movimento de espelhamento a ser destacado. Ao longo


do curso das existências perfiladas, encontramos as cidades como pontos
luminosos que se espelham e se refletem entre si. As matérias dão grande
destaque, como vimos, para a perspectiva da cidade porto seguro, que estabelece
com o indivíduo uma simbiose, e também para os processos de deslocação. O
escritor Caio Fernando Abreu é um desses indivíduos para quem cada mudança
de endereço implicava um estranhamento sempre detectado em seus textos.
Percebemos também o contraste entre centro e periferia a partir dos
índices obtidos nas histórias de vida. Em relação a Porto Alegre, este liame fica
bastante demarcado. Pelo menos 10 personagens estabeleceram com ela este
vínculo tanto de adoção como de afastamento. Ora porque vêm de pequenos
municípios do interior do Rio Grande do Sul e se radicaram na capital para o
desenvolvimento de suas atividades profissionais, deixando na cidade algum
legado; ora porque fazem o movimento contrário, saindo da provinciana Porto
Alegre e encontrando em centros maiores a possibilidade de desenvolvimento de
suas aptidões expressivas.
Essa condição de sair e retornar, fazendo da experiência de deslocamento
um fator de distinção e influência no seu meio de origem, é bastante frequente em
algumas trajetórias. Lya Bastian, João Rolla, Carlos Reverbel, Vasco Prado são
alguns destes nomes que se deslocaram e fizeram-se reconhecidos justamente
pela experiência forânea. A escolha dos destinos das viagens formativas reverbera
uma visão eurocêntrica típica, tendo Paris como ideal formativo que se projeta
como uma sombra e um espelho nas expectativas cosmopolitas de boa parte
desses sujeitos.

Considerações finais

Entendemos que estes parágrafos finais apontam para ideias ainda


em processo de amadurecimento. Se as leituras sistemáticas anteriores nos
apresentaram a cidade percebida como um palco, uma vitrine, uma ambiência
perita, oferecendo dados indicativos das principais instituições e hierarquias
do sistema cultural, do seu mapa de valores, das redes de intelectuais em
dado período histórico, essa visada em amostras nos aproxima dos processos
temporais-espaciais exercidos pelo jornalismo no campo da cultura quando

23
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

configura biografias que, seguindo Harvey (2003), podem ser tomadas como
trilhas de vida no tempo e no espaço.
Segundo Pesavento (2004), haveria na urbe entendida como palimpsesto
uma espécie de reservatório, matriz de outros textos e imagens que, superpostos
e camuflados, se desvelariam a partir da atitude hermenêutica do pesquisador.
Esse exercício específico de sistematização das espacialidades projetadas
pelos gestos memorativos de um suplemento cultural sugeriu algumas pistas
amplificadas sobre o movimento que o jornalismo produz quando constrói e
reconstrói, junto a outras instituições, as imagens das personalidades a serem
lembradas em uma cidade, ao mesmo tempo em que a simboliza na evocação
de determinados lugares. Os lugares geográficos, como pondera Oliveira Júnior
(2014), são produtos narrativos que se constituem tanto de sua dimensão física
e social como dos discursos e falas que se dobram sobre eles.
A cidade é um tecido concreto e vivo em permanente construção, e o
jornalismo a habita produzindo sempre relações de tempo e espaço. Se toda a
relação espacial é também uma relação de poder – e aqui relembramos a pergunta
anterior sobre a configuração do poder na cidade –, o suplemento constrói um
espaço que chancela e ratifica o prestígio e a singularidade, identificando entre
tantos vultos aqueles que se reatualizam quanto mais se deslocam no tempo,
ancorados em datas. Verificamos que a maioria das narrativas configurou
biografias exemplares de quem já havia conquistado autoridade em vida e no
campo cultural.
Mesmo conduzida por autores distintos sobre diferentes personagens, há
uma série de paralelismos nestas trilhas de vida que apontam para a topografia
da distinção construída em torno da cidade. Não é à toa que um suplemento
estruturado editorialmente na expertise faça do prestígio do saber a sua
principal mirada. A geografia temporal comum às biografias analisadas ratifica
instituições canônicas de leitura e transmissão do século XX (a aula, a escola,
a universidade, o jornalismo) e personifica a cidade por meio da singularidade
dos lugares, especialmente daqueles atravessados pelo recolhimento e afeto
como a casa, a rua e o bairro. As cidades aparecem como pontos luminosos das
trajetórias, sendo atravessadas pelos processos de espelhamento entre si e pelos
deslocamentos dos sujeitos.
Por meio de um jornalismo cerimonioso, ritmado pelo ciclo de efemérides
e pelo sucessivo ato de prestar tributos aos mortos, o suplemento participa
da mediação dos vínculos de pertencimento de um sujeito a um lugar e vice-
versa. Ao funcionar pedagogicamente como um gestor de legados, a publicação
convoca a temporalidade mais lenta do texto de especialistas, devolvendo ao
leitor algum sentido temporal de permanência (HARVEY, 2003).
Dentro das múltiplas possibilidades de um mundo prefigurado, o suplemento
configura a trama de poder das histórias destinadas a serem contadas,
constituindo uma galeria de personagens representativos de uma cidade. Esta

24
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

maneira de reportar, concentrando-se na comemoração – e esta disposição vale


também para as mortes relatadas na nossa amostra –, insere os fragmentos
de histórias de vida em mapas de valores distintivos, que perduram ao acionar
um leitor suposto a quem cabe convocar nesse contínuo tecer dos quadros da
memória coletiva, incitando-o a uma relação de reconhecimento a um lugar.

Referências

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.


BAREI, Sílvia. Periodismo cultural: crítica y escritura. Ambitos: Revista
internacional de comunicación, Sevilha, edição 2, p. 4-9, 1999.
BAUER, Martin. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, M.;
GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual
prático. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 189-217.
BRAGA, José Luiz. A prática da pesquisa em Comunicação: abordagem
metodológica como tomada de decisões. E-compós, Brasília, v. 14, n. 1, p.
1-33, jan./abr. 2011. Disponível em < http://www.compos.org.br/seer/index.
php/e-compos/issue/view/24> Acesso em: 21 jun. 2018.
BENJAMIN, Walter. Paris, capital do século XIX. In: Flávio Kothe (Org.). Walter
Benjamin. São Paulo: Ática, 1991.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.
BOURDIEU, Pierre. Efeitos de lugar. In: ______. (Coord.) A miséria do mundo.
Petrópolis: Vozes, 2007.
BURGOS, Marcelo. Cidade, territórios e cidadania. Revista de Ciências Sociais,
Rio de Janeiro, v. 18, n. 1, p. 189 a 222, 2005.
CARLOS, Anna Fani Alessandri. O lugar no/do mundo. São Paulo: Labur Edições, 2007.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer. Petrópolis:
Vozes, 2012.
COSTA, Cassilda Golin. (Cida Golin). A construção jornalística da cidade nos
gestos memorativos de um suplemento cultural. Paper apresentado na 7ª.
Reunión Mundial de Cátedras Unesco em Comunicación. Orbicom. Universidad
de Lima, Peru, maio 2018.
CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca Produções
Culturais, 1999.
FERRARA, Lucrécia D’Alessio. Comunicação, mediações, interações. São
Paulo: Paulus, 2015.

25
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

GOLIN, Cida. A espacialidade da cidade nos gestos memorativos do jornalismo:


vida e morte de notáveis e a geografia da distinção e do afeto. In: Congresso Ibero-
Americano de Comunicação, 2017, Lisboa. Anais... São Paulo: AssIBERCOM,
2018. p. 5053-5058.
______; CAVALCANTI, A.; ROCHA, J.. A projeção da cidade nas efemérides
jornalísticas: estudo do suplemento Cultura de Zero Hora (2006-2009). Intexto,
Porto Alegre, UFRGS, n. 34, p. 623-639, set/dez 2015.
GOLIN, Cida. Percursos em torno da construção jornalística da cidade no
suplemento Cultura de Zero Hora. In: ROSÁRIO, N.; SILVA, A. R. Pesquisa,
comunicação, informação. Porto Alegre: Sulina, 2016.
GOLIN, C.; CARDOSO, E.; SIRENA, M. Jornalismo e sistema de cultura:
construção de panorâmicas, índices e padrões comparativos entre periódicos.
In: Thaïs de Mendonça Jorge (Org.). Notícia em fragmentos: análise de conteúdo
no jornalismo. 1 ed. Florianópolis: Insular, 2015.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia.
Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
KELLER, S.;  GOLIN, C. O suplemento como mapa da vida cultural: análise
do caderno Cultura (2010) de Zero Hora. Estudos em Jornalismo e Mídia,
Florianópolis, v. 10, p. 239-255, 2013.
KRIPPENDORFF, Klaus. Metodología de análisis de contenido: teoría y práctica.
Barcelona: Paidós, 1997.
LAGE, Leandro. Jornalismo e o dever de memória. In: ENCONTRO NACIONAL
DE HISTÓRIA DA MÍDIA, 9., 2013, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: Rede
Alcar, 2013.
MENEZES, Ulpiano Bezerra. Os “usos culturais” da cultura. Contribuição para
uma abordagem crítica das práticas culturais. In: YAZIGI et al. Turismo: espaço,
paisagem e cultura. São Paulo: Hucitec, 1996.
MORIN, Edgar. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: Editora Universidade
de Brasília, 2013.
MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e
perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
MONGIN, Olivier. A condição urbana. A cidade na era da globalização. São
Paulo: Estação Liberdade, 2009.
LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Madrid: Capitán Swing, 2013.

26
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

LIMONAD, E.; RANDOLPH, R. Cidade e lugar. Sua representação e apropriação


ideológica. R.B. Estudos Urbanos e regionais, São Paulo, n. 5, p. 9-22, maio
de 2002.
OLIVEIRA Jr., Wenceslao Machado. Lugares geográficos e(m) locais narrativos:
um modo de se aproximar das geografias de cinema. In: MARANDOLA Jr,
Eduardo et al. Qual espaço do lugar? Geografia, epistemologia, fenomenologia.
São Paulo: Perspectiva, 2014.
PERES, Ana Claudia. Narrativas e cidades possíveis: uma cartografia de
paisagens possíveis para o jornalismo. 2012. 113p. Dissertação (Programa
de Comunicação, Imagem e Informação – Mestrado) - Universidade Federal
Fluminense, Rio de Janeiro, 2012.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Com os olhos no passado: a cidade como
palimpsesto. Revista Esboços, Florianópolis, v. 11, n. 11, 2004.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de
Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
RESENDE, Fernando. Cidades, culturas e narrativas: espaços de negociação e
produção de sentidos. In: MAIA, J.; HELAL, C. Comunicação, arte e cultura na
cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa (tomo 1). Campinas, SP: Papirus, 1994.
RODRIGUES, Adriano Duarte. A rua, analisador da sociabilidade. In: CASTRO,
Paulo César. A rua no século XXI. Materialidade urbana e virtualidade cibernética.
Maceió: EDUFAL, 2014.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1997.
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. Da crítica da geografia a uma geografia
crítica. São Paulo: Hucitec, 1996.
SOJA, Edward. Geografias pós-modernas. A reafirmação do espaço na teoria
social crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
ZELIZER, Barbie. Memory as foreground, journalism as background. In: ZELIZER,
B.; TENENBOIM-WEINBLATT, K. Journalism and memory. New York: Palgrave
Macmillan, 2014.

27
Análise das narrativas sobre a ditadura no jornal
Estado de Minas: memória e acontecimento 1

Marta R. Maia
Caio M. Rodrigues Aniceto

Introdução

A América Latina foi atravessada, em meados do século XX, por governos


ditatoriais em vários países como o Brasil, o Uruguai, o Chile e a Argentina.
Destarte várias questões que poderiam ser arroladas nesta Introdução, é lícito
afirmar que a ideologia de segurança nacional, consubstanciada no “fantasma”
do comunismo, foi um dos elementos-chave para a justificativa de implantação
de tais ditaduras. Passadas algumas décadas, alguns países conseguiram
implementar uma justiça de transição com o objetivo de averiguar as os abusos
cometidos nesse período. No caso do Brasil, esse movimento só veio a ocorrer
quase 50 anos após o golpe de 1964, com a institucionalização da Comissão
Nacional da Verdade (CNV) por intermédio da Lei 12.528, de 2011, e a sua
efetiva instalação, em 16 de maio de 2012. Não obstante esse processo oficial
de política de estado, não se pode negar o papel que já vinha sendo realizado,
especialmente por familiares dos mortos e desaparecidos políticos e pela própria
Comissão de Anistia, em busca da verdade, justiça e reparação dos danos
ocasionados pelo poder ditatorial.
A CNV foi criada então para investigar as atrocidades cometidas por agentes
das Forças Armadas e de outras instituições brasileiras durante o período de 18
de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, a pedido da presidente Dilma
Rousseff. Seu objetivo maior era o de esclarecer os abusos cometidos pelos
aparelhos repressivos do Estado militar. O relatório final da CNV foi entregue à
presidência da república em 10 de dezembro de 2014, identificando mais de
434 mortes e outras centenas de desaparecimentos e de cadáveres ocultados
durante o período ditatorial. Entretanto, mesmo com várias recomendações de
encaminhamento, como a de que vários militares envolvidos em crimes como
tortura e desaparecimento de corpos sejam levados a julgamento, praticamente
mais nenhum outro encaminhamento foi dado aos resultados apresentados pela
Comissão, visto que algumas dessas recomendações levariam à revisão da Lei
de Anistia, promulgada em 1979 pelo Congresso Nacional.
1 Esse trabalho apresenta resultados de parte de pesquisas financiadas pelo CNPq, pela Fapemig e
pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que objetivaram acompanhar as narrativas da ditadura
do jornal Estado de Minas de 2014 a 2017.

28
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

De todo modo, concomitantemente, foram criadas comissões de


investigação em outras esferas, sejam regionais ou institucionais. Em Minas, foi
criada a COVEMG – Comissão da Verdade em Minas Gerais. Os trabalhos das
duas comissões (e seus resultados) encontraram reverberações nas narrativas
midiáticas atuais, que em processo constante de memoração trazem ainda à
tona as vozes e os acontecimentos silenciados por um regime que calou durante
mais de cinquenta anos muitas de suas vítimas.
Esse processo pode ser percebido nas matérias publicadas pelo jornal
Estado de Minas, o mais antigo veículo existente no estado, fundado em 7 de
março de 1928. Sendo o maior jornal circulante em Minas Gerais, representa um
dos contatos mais significativos dos habitantes com os processos jornalísticos, e
por este motivo sua escolha para caracterizar o objeto de análise deste trabalho
foi crucial. Optou-se por coletar as matérias produzidas pelo jornal entre janeiro
a dezembro de 2016 que tangenciassem de alguma forma os acontecimentos
da ditadura militar.
Dentre vasto material estudado, optou-se por um procedimento que levasse
em conta as especificidades não apenas das narrativas jornalísticas, mas
também de uma literatura atual que auxiliasse na compreensão sobre as diversas
formas de memoração presentes na produção jornalística e midiática, relação
ainda escassamente explorada nos estudos contemporâneos da comunicação.
Destacamos dentre elas as pesquisas sobre a história e a inserção comunicacional
do Estado de Minas (FRANÇA, 1998), os estudos sobre acontecimento (LAGE,
2013; FRANÇA, 2012; QUÉRÉ, 2012), os procedimentos metodológicos
para análise qualitativa de narrativas (RESENDE, 2011; MOTTA, 2005) e,
compondo a parte mais significativa do trabalho, os estudos sobre memória
jornalística (ZELIZER, 2014; TENENBOIM-WEINBLATT, 2014; OLICK, 2014;
SCHUDSON, 2014; NEIGER, ZANDBERG, MEYERS, 2014; READING, 2014).
Os estudos citados acima, além de alguns outros, foram fundamentais para criar
um procedimento metodológico que suprisse as necessidades emergentes no
objeto analisado.
Com a instalação da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual
da Verdade em Minas Gerais pretendeu-se investigar de que forma os eventos
do passado tangentes à ditadura foram retomados, ressignificados e atualizados
pela publicação ao longo do ano de vigência do estudo. Almejou-se também
compreender de que forma a memória emergiu nessas narrativas e qual sua
significância política e social para os debates da arena pública, diante dos recursos
de reordenação de narrativas e construções discursivas utilizadas pelo jornal.
O procedimento metodológico escolhido visava atender a uma análise
adequada da intersecção entre o estudo das narrativas (em especial, voltadas
ao jornalismo), do estudo do campo mnemônico, e do acontecimento como
ferramenta heurística. Dessa forma, visou-se construir uma análise fundamentada
não apenas no texto publicado, mas em camadas mais profundas de significância

29
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que pudessem perpassar também as dimensões afetivas e da experiência dentro


do campo jornalístico, levando em conta também as características produtivas,
mercadológicas e até mesmo geográficas da publicação estudada.

Articulações entre memória e jornalismo

Olick (2014) argumenta que jornalistas estariam interessados em memória


de diversas maneiras. O jornalismo “não apenas cobre comemorações e
efemérides, como as celebra ao publicar reportagens e edições especiais sobre
acontecimentos passados” (p. 17). O autor reforça a ideia de que uma memória
cultural é impensável sem os media. Ele critica, no entanto, a ausência concreta
de pesquisas sobre a área específica do jornalismo: “De fato, a literatura
existente sobre memória midiática, mídia e memória, e mídia da memória são
agora bastante extensas. Mas não sabe por quais motivos, maneiras ou até que
dimensão esse tipo de pesquisa deixou o jornalismo para trás”. (OLICK, 2014,
p. 19, tradução nossa)
O autor nota também que, frequentemente, o jornalismo é um fator
constitutivo dos acontecimentos em si. O jornalismo entraria no fluxo de
acontecimentos e os moldaria, tanto ativa como passivamente: “nossa memória
dos acontecimentos passados comumente incorporam as imagens jornalísticas
que o próprio jornalismo enquadrou. As memórias dos eventos públicos são,
então, indivisíveis de suas coberturas jornalísticas” (idem, p. 28, tradução nossa).
O resultado apontado por Olick é de que os objetos dos estudos da memória são
quase sempre de alguma forma constituídos pelo jornalismo, esteja o campo
mnemônico interessado ou não em seu papel constitutivo.
Para Paul Ricoeur (2010), se “a ação pode ser narrada, é porque ela já
está articulada em signos, regras, normas: está, desde sempre, simbolicamente
mediatizada” (p. 100). Isso não quer dizer, entretanto, que a linguagem é
transparente; pelo contrário, há disputa de sentidos no campo cultural e
comunicacional, visto que a composição da intriga nunca “é o mero triunfo da
ordem” (p. 126). As narrativas também se relacionariam intrinsecamente à arte
mimética2, ou seja, à imitação da ação que abarca tempo, espaço, transformação
e memória. No caso das narrativas jornalísticas, suas especificidades devem ser
observadas para que sua análise seja completa.
Zelizer (2014) propõe três hipóteses acerca da relação entre memória
e jornalismo. A primeira seria a de que o jornalismo tem feito seu “trabalho
mnemônico” desde que as primeiras ideias sobre memória coletiva se formaram
e que as evidências disso emergem das próprias práticas jornalísticas. A
segunda aponta que alguma presença do jornalismo tem sido implícita no que
diz respeito às ideias de memória em evolução, “não em sua margem, mas em
2 Ricoeur irá dizer que as narrativas vão além da imitação, já que há uma dimensão criadora nesse
processo, seja pelo agenciamento dos fatos na configuração da narrativa, seja pela presença do “leitor”
nesse processo de reconfiguração (que ele irá denominar de mímesis III).

30
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

seu centro” (p. 45, tradução nossa). A terceira diz que ideias iniciais e recentes
sobre estudos da memória foram uniformemente negligentes ao não articularem
o papel mnemônico cada vez mais central do jornalismo.
Em um recorte metodológico primário, foram divididas as produções
jornalísticas por editorias. De cada uma foi considerada sua materialidade
narrativa e significância social e política, já que se considerou desde o princípio
“que narrativas e narrações são forma de exercício de poder e de hegemonia
nos distintos lugares e situações de comunicação. (...) Todos realizam ações
e performances socioculturais, não são só relatos representativos” (MOTTA,
2005, p. 3). Os veículos jornalísticos assumem então seu papel no processo
de reconfiguração do passado por diversos eixos. Pollak (1989) ressalta a
importância da história oral na emergência de memórias submersas ao analisar
os excluídos, os marginalizados e as minorias, opondo-se à chamada “memória
oficial”. Por intermédio da valorização da fonte testemunhal, por exemplo, o que
foi possível de ser verificado pelos testemunhos agenciados pelas Comissões da
Verdade, o jornalismo inseriu-se nesta disputa de sentido cuja arena simbólica é a
memória impressa por uma cultura de Estado versus a memória clandestina que
surge da “irrupção de ressentimentos acumulados no tempo e de uma memória
da dominação e de sofrimentos que jamais puderam se exprimir publicamente”
(POLLAK, 1989, p. 5). A produção de sentidos, capitaneada pelas mídias e
acionada pela justiça de transição no Brasil, irá gerar a própria memória coletiva
no espaço público nacional.
Anna Reading (2014) nota o papel já há muito consolidado da mídia
como transmissora da história enquanto ela se desenrola. Os jornalistas teriam
desempenhado desde sempre um papel crítico no que tange à moldagem
tanto da lembrança pública como de seu esquecimento. Graças ao advento da
digitalização, o jornalismo tornou-se um componente ainda mais importante na
formação da memória coletiva. Disponibilizam-se online, por exemplo, jornais
que anteriormente só podiam ser acessados através de grandes livrarias ou
arquivos, que hoje não se limitam mais por seu espaço, estrutura e até mesmo
resiliência físicas, como foi o caso do presente trabalho, que se valeu de arquivos
dispostos pela versão digital do Estado de Minas. Neste processo, torna-se ainda
mais visível a importância do que a autora denomina “testemunho midiático” - a
maneira imediata pela qual jornalistas presenciam e relatam acontecimentos.
Segundo a autora, muitos estudiosos observaram como a globalização e a
digitalização estão alterando as vias de intersecção articuladas entre memória
e mídia. Desta forma, “a prática jornalística em relação à memória precisa
ser compreendida como remodelada dentro de uma ecologia midiática que é
digitalizada e globalizada desigualmente, e que nós podemos denominar ‘campo
de memória globital’” (READING, 2014 p. 166, tradução nossa).
Zelizer e Tenenboim-Weinblatt (2014) enxergam uma ausência do jornalismo
em relação aos parâmetros institucionais associados à forma como a memória

31
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

coletiva funciona. Segundo as autoras, esta ausência propiciou que o status da


prática jornalística permanecesse como a de um “arquivista primário” de um
passado compartilhado que é ao mesmo tempo desarticulado e desarranjado.
Apesar da emergência da memória coletiva depender frequentemente de um
amplo espectro de engajamentos institucionais, hoje, mais do que nunca, a
negligência que circunda o papel do jornalismo no estabelecimento e na
legitimação da memória compartilhada deixa uma abertura curiosa em nossa
compreensão sobre as formas de apreensão da memória.
De acordo com as autoras, o jornalismo demonstra-se tipicamente reticente
em relação a mover-se além do que é “tópico, novo, instantâneo e temporal” (p.
2). No entanto, em uma era definida por um turbilhão de domínios performáticos,
narrativas recicladas, imagens e impulsos que não podem mais ser rastreados
a um único ponto no tempo, de uma informação que parece surgir do nada, é
importante não apenas compreender as nuances temporais complexas através
das quais as notícias funcionam, mas “entender o papel central do jornalismo
como repositório primário da memória coletiva em toda sociedade em que ele
se encontra” (idem).
Tenenboim-Weinblatt (2014) questiona-se sobre formas por intermédio
das quais os jornalistas propiciam o engajamento do público nas narrativas
desenvolvidas por eles, e sua continuidade através de longos intervalos.
É possível produzir uma notícia sobre um acontecimento se ele não teve
novos desdobramentos? Como bem observa a autora, o jornalista não pode
simplesmente “inventar as reviravoltas em suas tramas para atrair o público” (p.
100, tradução nossa), a menos que cruze os limites da ética jornalística e negue
no exercício jornalístico sua aura de factualidade. Por mais ilusória que seja, o
público ainda relaciona o jornalismo a certa ideia de “verdade”.
A autora sugere que, na ausência de desenvolvimentos noticiosos padrão,
jornalistas frequentemente lançam mão de temas relacionados ao passado e
recursos discursivos para manter a continuidade da narrativa, o engajamento
dos leitores e um certo nível de visibilidade para as notícias ao longo do tempo.
Para Tenenboim-Weinblatt, a prática mnemônica de retomar o passado pode
servir como um rico recurso narrativo e discursivo aos jornalistas, permitindo
que eles gerenciem os aspectos temporais das notícias, enquanto “conectam
informação, rituais e agenda setting, assim como memorações retrospectivas e
prospectivas” (p. 109, tradução nossa).
Por fim, consideramos na análise também os conceitos de acontecimento
e acontecimento jornalístico (QUÉRÉ, 2012; LAGE, 2013 e FRANÇA, 2012).
Para Quéré (2012), os acontecimentos representam mudanças existenciais
experimentadas de acordo com “as dimensões do afeto, do conhecimento e da
prática” (p. 37). Nessa mesma perspectiva, Vera França (2012) explica que
o acontecimento possui uma “natureza relacional” (p. 19), que, de alguma
maneira, rompe com o estado de normalidade, levantando sentidos que afetam

32
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

os sujeitos: “Eles fazem pensar, suscitam sentidos, e fazem agir (...) E tais
ocorrências curto-circuitam o tempo linear; ocorrendo no nosso presente, eles
convocam um passado e re-posicionam o futuro (2012, p. 14).
Queré (2012) ainda argumenta que o acontecimento, além da instância
existencial, também é experimentado como uma configuração do discurso.
Dessa forma, as matérias publicadas no jornal são configuradas pelas narrativas
jornalísticas em estreita relação com a questão temporal. De todo modo, torna-
se importante frisar que antes de instituído discursivamente, os acontecimentos
representam um fenômeno. A partir das noções apresentadas por Louis Queré,
Vera França (2012) explica que as dimensões do acontecimento podem ser
delineadas como “primeira vida” – associada ao âmbito existencial -, e a “segunda
vida”, que é o “acontecimento tornado narrativa, tornado um objeto simbólico”
(p. 14). E é nessa perspectiva que trabalharemos a análise do material coletado.

Desdobramentos

Ao longo de doze meses, toda e qualquer matéria que tenho feito referência
ao período ditatorial ou seus personagens foi arquivada. O resultado final
compreendeu 72 notícias que compuseram o corpus de análise.3 Notou-se que,
das 72 notícias, a ampla maioria compunha a editoria de Política (40 matérias),
seguida pelos cadernos de Cultura (13 matérias), Pensar (7 matérias), Opinião
(4 matérias), Editorial (2), Internacional (2), Economia, Nacional, Gerais e
Especial (as últimas com 1 matéria cada).
Digno de nota, no entanto, é que apesar da maioria das matérias estarem
localizadas na editoria de Política, sua constância é irregular: há uma média de
quatro matérias publicadas por mês entre janeiro e março de 2016, mas durante
o mês de abril existe um aumento de mais de três vezes em relação à média:
foram 16 notícias publicadas que fizeram algum tipo de referência ao período
ditatorial. Situação que volta a se repetir quando da votação do impeachment
pelo Senado em agosto; são 7 matérias só nesse mês.
Este pico exponencial deve-se ao discurso proferido pelo deputado Jair
Bolsonaro no dia 17 de abril, durante a votação no Congresso que decidiu pelo
afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff:

Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo,


pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma
Rousseff, pelo Exército de [Duque de] Caxias, pelas Forças Armadas, o
meu voto é sim. (Jair Bolsonaro, 17/04/2016)

3 Os produtos, com os títulos, datas e posições dentro do jornal, seriam dispostos em tabelas anexadas
ao final do trabalho, entretanto, por falta de espaço, as matérias não foram dispostas nesse capítulo,
sendo citadas somente algumas delas. De todo modo, todas as matérias estão registradas no Relatório
de pesquisa enviado ao CNPq, em dezembro de 2016.

33
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A fala do parlamentar gerou uma série de manifestações dentro do próprio


jornal, mesmo que não necessariamente pela voz da própria publicação. Neste
mês, ocorre também um aumento no número de notas opinativas de leitores
e especialistas acerca da fala de Bolsonaro e sua representação pejorativa na
memória coletiva recente. A partir de novembro de 2016, a memória entra
novamente em disputa e a trama é reacionada com a divulgação de notícias
sequenciais sobre o desenrolar das narrativas originadas pelo voto do deputado.
Em matérias como “Foi 11 a 1” (10/11/16), inicia-se a retomada do conflito
entre Bolsonaro e o deputado Jean Wyllys. As figuras políticas tornam-se, aqui,
personagens colocados em constante oposição e que se digladiam. Efetivamente,
as páginas do jornal tomam a forma de um coliseu simbólico em que os leitores
fomentam suas próprias opiniões acerca dos protagonistas (ou antagonistas)
nas notícias subsequentes.
Já em “O Cuspe como Réu” (06/11/16), matéria publicada na editoria
de Política e sem assinatura explícita, causa estranhamento o tom opinativo
e até mesmo promotor de juízo de valor, em que o jornal publica: “Partindo
de Bolsonaro, é bem provável que motivo sério teve Jean Wyllys. Afinal, se o
parlamentar do PSC tivesse conseguido reagir e não fosse contido, seria até
covardia. Jean Wyllys, com aquela musculatura que tem, iria apanhar até falar
chega. Aliás, nem isso iria adiantar”. Matérias como “Proibido para menores”
(07/12/16) chegam até mesmo a transcrever as palavras pejorativas utilizadas
pelos políticos em suas discussões. O constante embate entre as personagens
promovido pelo jornal encontra reverberação nas participações do público,
ativo no processo de construção da intriga. A exemplo, abre-se na editoria de
Política um espaço opinativo sobre a notícia “Financial Times fala em avanço do
neonazismo no Brasil e cita Bolsonaro” (13/01/17), em que encontramos:

Sendo o único candidato digno a ser presidente, é natural que se


façam tais críticas e tais acusações. A única coisa realmente errada em
Bolsonaro é acreditar que o país é administrável. Isto aqui é uma torre
de babel, com todo mundo querendo o máximo para si e o mínimo para
os outros. A melhor prova disso é que o nosso comunismo é o mais
ladrão e usurpador da história mundial. Se ser Bolsonaro de carteirinha é
ser neonazista, podem me pendurar no poste. (JOSÉ. Opinião. Financial
Times fala em avanço do neonazismo no Brasil e cita Bolsonaro. Estado
de Minas. 13 de jan. de 2017)

Logo abaixo, outro leitor identificado também somente pelo primeiro nome
“Full”, estabelece o contraste: “não se combate violência elegendo figuras
esdrúxulas como este Bolsonaro. Existem medidas mais efetivas, inteligentes
e democráticas de se combater a violência sem termos que apelar para a
ignorância. Bolsonaro é uma figura a ser extirpada da vida política deste país”.
O recurso utilizado pelo Estado de Minas é o de deixar a opinião para
terceiros, isentando-se dessa forma de um distanciamento da suposta ideia de

34
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

objetividade reforçada pelos jornais diários. É o processo que Motta (2005)


denomina “de subjetivação do real”, em que as estratégias narrativas do jornal se
disfarçam através dos recursos próprios do discurso jornalístico. Estes recursos
linguísticos ocultam o papel de narrador do jornalista, e a responsabilidade de
opinar recai aparentemente sobre os leitores. O jornalista torna-se portanto um
“narrador que nega até o limite sua narração” (p. 8), fazendo “os fatos surgirem
no horizonte como se estivessem falando por si próprios” (idem). Observamos,
portanto, que os acontecimentos primários (a fala de Bolsonaro e o cuspe de
Jean Wyllys) permitem o desenvolvimento de uma miríade de outras narrativas
que são construídas em tempo real e fomentam, como consequência última,
a disputa ideológica e mnemônica não apenas entre os personagens como o
próprio público do jornal.
O problema da narração jornalística – ou melhor, do jornalista como
narrador – é também observado por Resende (2005). O autor concorda com
Motta ao enxergar na narrativa jornalística um discurso velado, que através de
recursos linguísticos e uma forma de narrar inerentemente autoritária, reveste-
se da frágil armadura da “factualidade” e da “verdade”, esta que é defendida
como fim último do jornalismo, mas que não encontra uma definição absoluta
diante da natureza incompleta e difusa do acontecimento. Quando o jornalista,
portanto, subtrai-se da ação narrada, não precisa enfrentar “a empiria implícita
ao mundo real” (p. 98).
Discutindo as narrativas do Holocausto e das vítimas do nazismo, Neiger,
Zandberg e Meyers (2014) sugerem o conceito de “memória reversa”: o
mecanismo cultural e a prática jornalística de focar no presente enquanto um
passado compartilhado é comemorado. “Ou seja, a memória reversa é um
dispositivo narratológico no qual a temporalidade funciona em direção oposta,
do presente ao passado” (p. 114, tradução nossa). Ao invés do argumento
de que as narrativas do passado adaptam as imagens antigas aos ideais do
presente, para a memória reversa o passado não seria meramente narrado
para servir a objetivos atuais, mas “comemorado pelos meios de narração do
presente” (idem).
Segundo os autores, a memória coletiva lida com passados compartilhados
do “lá e o então”, e as notícias com as informações que concernem o “aqui e o
agora”. Mesmo assim, a despeito de sua natureza aparentemente paradoxal, a
memória reversa permitiria a criação de narrativas que podem ser qualificadas
tanto como itens noticiosos e instrumentos comemorativos.
No caso da temática analisada pelos três autores, eles detectam dois
conjuntos de valores divergentes e até mesmo contraditórios nas produções
noticiosas: de um lado, normas jornalísticas profissionais (como objetividade,
neutralidade, valor-notícia e atualidade), e do outro, os valores que são intrínsecos
aos processos de construção da memória coletiva, como o etnocentrismo e a
solidariedade nacional.

35
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Narrativas da memória coletiva estão sempre atreladas simultaneamente ao


passado e ao presente. Neste caso, o presente ofereceria aos indivíduos e culturas
uma estrutura e uma perspectiva para avaliar e compreender o passado. Os autores
enxergam o passado também como um foco de cobertura, especialmente quando
as notícias citam efemérides ou acontecimentos mais obviamente relacionados a
eventos anteriores. Quando o jornalismo do Estado de Minas retoma ao período
ditatorial, posiciona o passado no centro dos processos de produção noticiosa,
narrando efetivamente acontecimentos socialmente significantes enquanto
fornece uma leitura deste passado através de “lentes de convicções e percepções
em constante transformação” (NEIGER et al, 2014, p. 117). Neste tipo de
cobertura, o passado ocupa o primeiro plano enquanto o presente e o futuro
pairam constantemente como contextos interpretativos de fundo.
Neiger et al sugerem que toda forma de reportagem associada à memória
coletiva requer “portadores da memória” que permitem a transformação de
eventos passados em produtos noticiosos atuais. Os autores identificam quatro
“portadores da memória” proeminentes nesse tipo de notícia:

1. Sujeitos: indivíduos ou grupos relacionados diretamente aos


acontecimentos, que servem para atestar sua ocorrência.
2. Lugares: espaços associados aos acontecimentos comemorados - locais
onde os fatos ocorreram ou onde são comemorados.
3. Objetos: artefatos emblemáticos que confirmam a ocorrência dos
acontecimentos e os simbolizam.
4. Fenômenos: manifestações de comportamento, práticas ou atitudes sociais
posicionadas no núcleo de acontecimentos passados, e que são associados a
esses acontecimentos.

Os “portadores de memória” também puderam ser identificados dentro do


material produzido pelo Estado de Minas. Matérias como “O mineiro que virou
lenda” (11/02 /16) e “Com licença, eu fui à luta” (26/06/16) têm os sujeitos como
principais vozes trazidas à tona para explicar vivências do período ditatorial. Já
produtos como “Morre ex-chefe de centro de torturas na ditadura” (16/10/16)
e “Ato lembra os 40 anos da morte de Herzog” (26/10/16) trazem os lugares
como portadores da memória, como o centro do DOI-CODI e a Catedral da
Sé. Os artefatos que confirmam a ocorrência dos acontecimentos, “portadores”
chamados de objetos pelos autores, podem ser acionados pelas matérias:
“Acampamento de manifestantes” (12/05/2016), “Roubo de peças sacras de
Basílica de Ouro Preto completa 40 anos de impunidade” (01/09/2016) e “A
bandeira da desordem” (17/11/2016).
Outra característica notável em reportagens analisadas foi a ressignificação
de acontecimentos do presente mediante fatos ocorridos no passado.

36
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Textos como “Jornalistas em perigo” (12/03/16), “Vestígios do passado”


(25/04/16) e “Tortura resiste à democratização (05/07/16) apresentam
análises comportamentais de acontecimentos atuais, remetendo a atrocidades
cometidas pelas Forças Armadas durante a ditadura. Nestas matérias, os
portadores da memória são fenômenos causados pelo próprio processo de
tensionamento das memórias em conflito.
Como observa Motta (2005), qualquer narrativa tem como elemento
estruturante o conflito, e isso torna-se ainda mais evidente no caso da narrativa
jornalística, que “lida com rupturas, descontinuidades e anormalidades” (p.
5). Toda a narrativa orbita ao redor da intriga, e é ela que abre espaço para
novas ações, sequências e episódios, “que prolongam e mantém a narrativa
viva” (idem).
No caso do Holocausto, os autores notam como os veículos noticiosos
tendem a dar um papel proeminente às vítimas e sobreviventes como
portadores da memória dominantes. Segundo eles, os sobreviventes têm
uma autoridade única e exclusiva para narrar – como resultado de muitos e
distintos constrangimentos. Primeiramente, o número de sobreviventes está em
declínio, e em breve o Holocausto não poderá ser contado por aqueles que o
experimentaram na pele. Outro problema decorre do próprio gênero jornalístico,
já que as convenções jornalísticas profissionais exigem fontes reais, que falam
por si mesmas, personagens que o público pode gostar ou desgostar, confiar
ou desconfiar, e assim por diante. A dinâmica própria da narrativa jornalística
a torna inapta para apresentar o passado como se ele estivesse ocorrendo no
presente – “em contraste, por exemplo, a narrativas ou roteiros dramáticos”
(NEIGER et al, 2014, p. 119).
Para os autores, a própria presença dos sobreviventes em detrimento de
vítimas que já morreram ou especialistas que não experimentaram pessoalmente
o Holocausto, personificaria um elo entre o “lá e o então” e o “aqui e o agora”.
Como isso pode ser comparado ao exercício jornalístico brasileiro, e mais
especificamente, ao jornalismo do Estado de Minas em se tratando da ditadura?
Notou-se a presença de indivíduos que experimentaram pessoalmente o regime
militar como fontes nas matérias citadas acima, demonstrando que, de fato,
os acontecimentos do passado são retomados pelo jornal e que este atribui
importância à autoridade das vítimas da ditadura ao conferir-lhes voz e sentido.

Considerações finais

Primeiramente, é mister notar que, apesar de valer-se dos mecanismos


formais de ordenação discursiva descritos por Reading (2014), o Estado de
Minas reconhece por si só seu trabalho na reconstrução e na retomada do
passado através de narrativas do presente, como é o caso da matéria “Verdade
Resgatada” (01/11/16). Os acontecimentos obscuros do período ditatorial são,

37
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

portanto, revistos pelo exercício prático do jornalismo.


A análise dessas produções indica a dimensão heterogênea do campo
jornalístico e a potência que essas narrativas acionam. É possível dizer que
algumas matérias, ao menos, evidenciam “uma forma de enfrentamento ao
‘desejo de esquecimento’ mobilizado pelo discurso oficial da ditadura. O que as
inúmeras variáveis deixam ver é um processo em aberto, ainda em constituição,
provocando fissuras na história oficial e desobstruindo barreiras”. (MAIA, LELO,
2015, p. 142)
Neiger et al. (2014) observam que uma das principais questões que a
presença da memória reversa traz frente à pesquisa de memória coletiva reside
na dúvida sobre quando exatamente um acontecimento do passado é socialmente
compreendido como concluído. Quando o passado se torna uma questão
resolvida? “Pode a sociedade tomar eventos do passado como encerrados,
encapsulados na História, enquanto notícias relacionadas a suas implicações
continuam sendo transmitidas?” (p. 125, Tradução nossa). As tentativas de
enquadrar acontecimentos do passado como contínuos surgiriam, portanto, do
amplo contexto político e à significância da memória reversa a eles atrelados, já
que controvérsias sobre a “interpretação de acontecimentos salientes do passado
estão sempre ancorados no embate entre agentes de memória rivais; dessa forma,
agentes interpretativos podem ganhar capital político ao manterem ocorrências do
passado vivas no território do debate público” (Idem, Tradução nossa).
Conclui-se ainda que os acontecimentos circundando o regime militar
nunca serão de fato absolutamente resolvidos ou terminantemente concluídos,
já que o conflito é a categoria estruturante narrativa e o jornal insere-se como
meio público de embate entre agentes de memória. O veículo serve então
como meio visível da memória globital. Como percebe Resende (2011), os
acontecimentos em curso nos escapam aos dedos e qualquer narrativa que os
tiver como estruturantes e busque sustentar-se segundo uma noção de verdade
só pode sê-la se forem feitos esforços de aplicação teórica ou se forem utilizadas
estratégias e recursos linguísticos que explicitem esta relação. Negligenciando o
problema da enunciação, de quem fala e media a informação por trás de uma
inexistente imparcialidade, reitera-se o uso de tais estratégias e, efetivamente,
sustenta-se “uma lógica de comunicação (...) supostamente eficaz” (p. 126).
Se o Estado de Minas constitui de fato “uma determinada faceta da
socialidade mineira”, como sugere França (1998), ou ainda se há de fato
um “olhar mineiro” sobre a informação global regionalizada nas estratégias
informativas do jornal, podemos pensar no jornal também como dispositivo capaz
de mesclar elementos da memória coletiva nacional (e em muitas instâncias
global) à potência mnemônica geográfica dos habitantes de Minas Gerais.
Michael Schudson (2014) caracteriza o jornalismo como sendo a
membrana mais pública, massivamente distribuída e facilmente acessível da
memória social. O autor comenta a amplamente reconhecida ação da mídia

38
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

noticiosa como instituição comemorativa: os jornalistas cobrem feriados,


aniversários, mortes de figuras notáveis, etc. Essa afirmação também é
válida quando, no contexto dos objetos analisados, a mídia brasileira cobre a
efeméride dos 50 anos do golpe militar. De acordo com Schudson, todos esses
empreendimentos em memory-keeping influenciam na moldagem, reforço e
renovação da memória cultural.
Schudson defende que o “jornalismo comemorativo” essencialmente
incorpora o passado no presente, de forma que toda vez que uma matéria
cobre algum evento ou ação de uma pessoa, grupo, organização “em que a
consciência do tempo passado ou do tempo que passa é um fator primordial,
a mídia colabora com processos sociais de memória cultural maiores que ela
mesma” (p. 85, Tradução nossa).
É interessante notar que, a despeito de suas considerações sobre as
efemérides no jornalismo, Schudson reflete também sobre a emergência do
passado no exercício diário das práticas jornalísticas. Segundo ele, os jornalistas
usariam o passado de forma não comemorativa de duas maneiras principais:
primeiramente, usando a História para intensificar a noticiabilidade de uma
matéria - para demonstrar, por exemplo, que um acontecimento em processo
de cobertura é raro ou sem precedentes. Depois, invocam o passado em seus
relatos para torná-los mais compreensíveis. O primeiro uso provoca o aumento
do valor-notícia e serve para atrair o leitor, enquanto o segundo auxilia o público
a entender a notícia. Os dois influenciam de forma igualmente substancial a
produção de notícias, e sua presença não pode ser negada nas reportagens
analisadas. Evidencia-se assim a importância do universo simbólico na
consolidação do discurso jornalístico, e o poder da narrativa de impulsionar
acontecimentos e, além de efeitos, fabricar sentidos.
Considera-se, por conseguinte, que os quatro “portadores da memória”,
a saber: sujeitos, lugares, objetos e fenômenos podem contribuir, conforme se
verificou no material analisado, para a ressignificação da memória coletiva. Eles
atualizam acontecimentos a partir do presente, por intermédio da produção de
matérias e reportagens que produzem sentidos diversos na esfera social.
O jornalismo insere-se, portanto, em um núcleo fundamental na junção
entre passado, presente e futuro – este sincro-diacronismo é observado como
consequência da natureza narrativa do jornalismo, e seu papel na emergência
e na ressignificação da memória não deve ser ignorado. Como observam Maia
e Ribeiro (2015), o jornalismo, dessa forma, consolida-se não somente como
prática, “mas também como sujeito social que participa da recomposição do
passado dentro das novas possibilidades que o presente lhe concede” (p. 181).
A memória, no contexto da perspectiva adotada nessa pesquisa, então pode
ser compreendida como uma força potente e que primordialmente orienta a
narrativa noticiosa.

39
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

CARVALHO, C. A. de. (orgs.). Narrativas e poéticas midiáticas: estudos e


perspectivas. São Paulo: Intermeios, 2013.
FRANÇA, Vera Veiga. Jornalismo e vida social: a história amena de um jornal
mineiro. Editora Ufmg, 1998.
FRANÇA, Vera. O acontecimento para além do acontecimento: uma ferramenta
heurística. Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica, p. 39-51,
2012.
LAGE, Leandro. Notas sobre narrativa e acontecimento jornalístico. Narrativas e
poéticas midiáticas: estudos e perspectivas. São Paulo, Intermeios, 2013.
MAIA, Marta R.; RIBEIRO, Isadora M. Narrativas jornalísticas acionam novas
histórias do passado ditatorial. Revista ECO-Pós, v. 18, n. 3, p. 171-181,
2015.
MAIA, Marta R.; Thales Vilela Lelo O potencial crítico das narrativas jornalísticas
sobre o período ditatorial no Brasil. Brazilian Journalism Research (Online),
v.11, p.128-145, 2015.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise pragmática da narrativa jornalística. In: Anais
do XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, p. 05-09, 2005.
NEIGER, Motti; ZANDBERG, Eyal; MEYERS, Oren. Reversed memory:
Commemorating the past through coverage of the present. In: Journalism and
Memory. New York: Palgrave Macmillan UK, p. 113-127, 2014.
OLICK, Jefffrey K. Reflections on the underdeveloped relations between
journalism and memory studies. In: Journalism and Memory. New York: Palgrave
Macmillan UK, p. 17-31, 2014.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. In: Revista Estudos
Históricos, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
QUÉRÉ, Louis. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista.
Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica, p. 21-38, 2012.
READING, Anna. The journalist as memory assembler: non-memory, the war on
terror and the shooting of Osama Bin Laden. In: Journalism and Memory. New
York: Palgrave Macmillan UK, p. 164-178, 2014.
RESENDE, Fernando. Às desordens e aos sentidos: a narrativa como problema
de pesquisa. Jornalismo contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas.
Salvador/EDUFBA, Brasília/Compós, p. 120-134, 2011.
_________________. O jornalismo e a enunciação: perspectivas para um
narrador-jornalista. Revista Contracampo, n. 12, p. 85-102, 2005.

40
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa: A intriga e a narrativa histórica. Vol. 1. São


Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
SCHUDSON, Michael. Journalism as a vehicle of non-commemorative cultural
memory. In: Journalism and memory. New York: Palgrave Macmillan UK, p.
85-96, 2014.
Site do jornal Estado de Minas. Disponível em http://www.em.com.br/. Acesso
em jan…dez 2016.
TENENBOIM-WEINBLATT, Keren. Counting time: journalism and the temporal
resource. In: Journalism and Memory. New York: Palgrave Macmillan UK, p.
97-112, 2014.
ZELIZER, Barbie; TENENBOIM-WEINBLATT, Keren. Journalism’s memory work.
In: Journalism and memory. New York: Palgrave Macmillan UK, p. 1-14, 2014.
ZELIZER, Barbie. Memory as foreground, journalism as background. In:
Journalism and memory. New York: Palgrave Macmillan UK, p. 32-49, 2014.

41
Fios narrativos da notícia:
uma perspectiva metodológica

Valéria de Castro Fonseca


Célia Maria Ladeira Mota

Introdução: a consciência do tempo

Quando um homem dorme tem em torno de si, como um aro,


o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Ao despertar,
consulta-os instintivamente, e, em um segundo, lê o lugar da
terra em que se acha, o tempo que transcorreu até seu despertar;”
Marcel Proust, “Em busca do tempo perdido”, volume 1 (No
caminho de Swann)

Pelos fios da consciência do tempo, como os acontecimentos constituem


memória? Qual é o destino dos acontecimentos jornalísticos de datas passadas?
São esquecidos para dar lugar a novos acontecimentos? Tornam-se fios de espera
para possíveis desdobramentos da notícia? Hoje, a narrativa jornalística está
imbricada com as tecnologias da informação que dilatam o presente cotidiano
em tempo real e expandem o sentido histórico dos acontecimentos. Recursos do
jornalismo de dados como infográficos, mapas interativos, tabelas e linhas do
tempo revelam fios narrativos que tecem e sustentam a consciência histórica.
Sabemos que as narrativas e seus fios constituem a narração dos fatos, envoltos
em véus culturais, bem como constituem uma forma de exercício de poder e de
hegemonia nos distintos lugares e situações de comunicação. Por conta disso, é
preciso lembrar que, “no plano mais profundo, o das mediações simbólicas da
ação, a memória é incorporada à constituição da identidade por meio da função
narrativa.” (RICOEUR, 2012, p. 98).
Claude Lévi-Strauss, num artigo intitulado A Estrutura e a Forma –
reflexões sobre a obra de Vladimir Propp, afirma que a narrativa consiste,
simultaneamente, numa sucessão de acontecimentos ‘no tempo’ e ‘fora do
tempo’, quer dizer, seu valor significante é sempre atual. Paul Ricoeur (2012)
nos lembra a asserção aristotélica de que memória é tempo, e que a coisa
lembrada é identificada a um acontecimento singular, que não se repete, sendo
que “o essencial é que o objeto temporal reproduzido não tenha mais, por assim
dizer, pé na percepção. Ele se desprendeu. É realmente passado. E, contudo, ele
se encadeia, faz sequência com o presente e sua cauda de cometa.” (RICOEUR,
2012, p. 53).
Conforme salienta Claude Bremond (2011), toda narrativa consiste em um

42
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

discurso que integra uma sucessão de acontecimentos dotados de significação,


pois estão necessariamente relacionados ao interesse humano e organizados em
uma série temporal estruturada. Para Barthes (2011), a significação de uma
narrativa não reside no final, mas atravessa toda a narrativa, sendo necessário
perceber os encadeamentos horizontais do fio narrativo sobre um eixo vertical,
assim como seus estágios. “E é assim que a narrativa ‘anda’: a estrutura ramifica-
se, prolifera, descobre-se – e recobra-se: o novo não cessa de ser regular.”
(BARTHES, 2011, p. 61).
No jornalismo, é preciso então puxar os fios dos acontecimentos e diferentes
versões dos fatos passados e as perspectivas e antecipações para o futuro a fim de
que a história do presente circule nas praças públicas como itens de atualidade,
ou agendas de atributos, que visem o bem comum. Personagens, depoimentos e
ações constituem estas agendas de atributos, que foram chamadas por Weaver
de “segundo nível” da agenda, sendo que o enquadramento está neste segundo
nível – que não é nem mais específico nem mais ou menos profundo que o
agendamento – é um desdobramento do próprio agendamento.
As agendas de atributos são perspectivas e frames usados pelos jornalistas
para chamar a atenção para determinados atributos dos objetos da cobertura
de notícias, e a estrutura básica dos fios narrativos tece a agenda, tanto no
agendamento quanto no enquadramento da notícia. Vejamos: pelos fios
narrativos, devemos ressaltar a conexão temporal da notícia, uma vez que ao
desorganizar o presente, o fato narrado estende o tempo para trás e para frente,
ligando-se ao passado e a futuros possíveis. Da mesma forma, a conexão dos
fios e malhas narrativas do acontecimento jornalístico, juntamente com os
acontecimentos sociais desencadeados por indivíduos, grupos e instituições irá
tecer no tempo e no espaço a história dos homens como uma grande narrativa,
alterando o conhecimento, produzindo efeitos e transformações pelo mundo.
As malhas e fios narrativos como estrutura básica de análise da narrativa
jornalística constitui inicialmente uma abordagem alegórica, visto ser uma
metáfora em movimento: os fios se interligam uns nos outros, possibilitam
distinguir os acontecimentos, diferenciar as leituras e níveis da narrativa
jornalística, e se engendrarem para formar ‘outras mesmas’ malhas discursivas.
Pela análise das realidades factuais, no plano do enquadramento e da narrativa
jornalística, a busca é pelo fio de Ariadne que permeia os tempos vividos e os
articula ao presente. Os personagens que habitam a narrativa jornalística fazem
parte desta história do presente, são fios de referência que proporcionam um
dado sentido subjetivo à notícia, informações que dão margem a diferentes
sentidos e sinais acerca dos acontecimentos e que podem, num determinado
momento, se intercalar a outras malhas narrativas, unidades autônomas do
próprio texto, a tessitura da narrativa. Considerando, então, que as malhas
e fios narrativos são estruturas específicas do texto jornalístico, é possível
consequentemente relacionar as representações sociais com estes fios narrativos

43
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que sustentam os sentidos da notícia, impedindo que escapem, e desse modo


captam os acontecimentos como representações da realidade social. Ademais,
visualizar a rede de malhas e fios narrativos nos permite desvendar a lógica
textual de episódios, intrigas, personagens e seus conflitos, suas estratégias
argumentativas que tecem o jornalismo como a história do presente.
Como estrutura básica de análise, entendemos as malhas narrativas como
os parágrafos retirados da matéria analisada, as sequências narrativas de
referência que irão se entrelaçar aos demais enunciados do texto jornalístico,
numa pluralidade de fios narrativos (Fonseca, 2012). A estrutura textual dos
fios como tessitura da narrativa compreende os fios nodais que envolvem as
informações principais, os fios de referência que revelam nomes, datas, locais,
e os fios de espera que trazem fatos já-ditos e sofrem uma descontinuidade
no texto (Lima, 1990); (Porto, 2012). Formam-se desse modo as malhas que
interligam materialmente a língua e a história através da narrativa jornalística.

Metodologia: fios e representações

Como as narrativas entrelaçam os fios das histórias e representam a


realidade? O caminho é o texto da notícia como ponto de partida uma vez que
as narrativas só existem em contexto e não podem nunca ser compreendidas
isoladamente sob pena de perderem o seu objeto determinante. A notícia como
narrativa do fato relata o que deve e o que não deve ser noticiado, envolvendo
personagens num jogo incessante de disputa de sentidos, “a narrativa se
apresenta assim como uma série de elementos fortemente imbricados; (...) um
jogo incessante de potenciais, cujas quedas variadas dão à narrativa seu tônus ou
sua energia; cada unidade é percebida no seu afloramento e sua profundidade.”
(BARTHES, 2011, p. 60).
Revisitando Gonzaga Motta (2004) em seu artigo Jornalismo e configuração
narrativa da história do presente, surge a questão: onde encontrar os fios que
conectam as histórias e tornam os acontecimentos compreensíveis? E Motta
prontamente dá a resposta: um novo tipo de acontecimento vinculado ao
jornalismo vislumbra hoje outra história, diferente. E logo vem a indagação:
Como? E a resposta: Pelos fios que atravessam as cordas do tempo e do espaço do
homo narrans na era do jornalismo digital. É preciso, pois, organizar, estruturar,
conceitualizar estes fios para que no campo da comunicação sejam úteis e não
apenas metafóricos. Este estudo traz como referência inicial o trabalho de Maria
Emília Lima (1990): A construção discursiva do povo brasileiro – os discursos
de 1º de maio de Getúlio Vargas, onde se lê:

(o discurso) pode ser considerado como o fio de montagem, como o texto


de referência em relação aos discursos que lhe sucederão. Podemos dizer
também que este discurso traz ‘malhas’ que serão tecidas na primeira
época do governo Vargas; outras ‘malhas’ serão colocadas em um fio de

44
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

espera (como é o caso para o que diz respeito aos trabalhadores rurais);
outras ‘malhas’ serão provisoriamente largadas, ‘malhas’ serão perdidas;
e, finalmente, ao longo da prática discursiva populista de 1º de maio,
outras ‘malhas’ serão acrescentadas. (LIMA, 1990, p. 118)

Sergio Porto (2010) menciona a mesma estrutura dos fios e malhas em


Análise de Discurso – as seis camadas de leitura em massa folhada:

Admitindo-se que os textos são tecidos, malhas que podem ser mais
bem vistas sob o reflexo da luz, buscar as malhas e as tramas nodais
fundamentais, os fios de montagem, as malhas básicas que sustentam
as narrativas expressivas do conhecimento humano, assim como outras
malhas, tecidos visíveis nos textos e nas práticas culturais que, embora não
sendo preponderantes, exercem papéis fundamentais para a compreensão
do discurso. Exemplo disso são as malhas de fio de espera, malhas
provisoriamente largadas, malhas perdidas e malhas acrescentadas. É o
momento da busca do já dito, do já visto, do já ouvido e que travará uma
relação expressiva e significativa com as coisas dizíveis, com as coisas
que ainda vão acontecer. (PORTO, 2010, p.30-31).

É o momento de busca da arca – que não está perdida – (Porto, 2010), é


o momento de descobrir as funções simbólicas da narrativa. Porto afirma ainda
que “discurso e narrativa são fios e malhas capazes de tecer o tecido social
adotando sempre fios de espera. Nesse sentido os fatos podem ser todos eles
arriscadamente equiparados a fait-divers, acontecimentos variados.” (PORTO,
2010, p.30). Para Motta (2013), toda narrativa constitui um permanente jogo
entre os efeitos de real (aqui e agora do jornalismo, as citações conferindo
veracidade, os lugares, os nomes próprios) e os efeitos de sentido (memória
cultural, comoção, dor, compaixão, ironia), sendo que o analista precisa
encontrar os fios que alinhavam a trama. “Mantendo a ideia de fio, continuidade,
seguimento ou conexão, fica mais fácil compreender as propostas para encontrar
as conexões, o caminho de Ariadne das narrativas. A metáfora do fio é útil
porque ajuda o analista a fixar a ideia de trilha e encontrar a lógica narrativa em
sua análise empírica.” (Motta, 2013, p. 151).
Para Célia Mota, “o grande desafio é perceber como a narrativa reconstrói a
realidade, numa atividade mimética que não se limita a copiar, mas a reinventar
criativamente o real. E algumas questões se tornam o foco da pesquisa: de que
maneira as narrativas tecem os fios e constroem o sentido das histórias?” (MOTA,
2012, p. 11). A narrativa jornalística como uma organização textual da notícia
traz relatos de acontecimentos que revelam personagens e conflitos, sendo
que o enquadramento da notícia evidencia o entrelaçamento de personagens,
interligando-os como sujeitos do acontecimento jornalístico.
É preciso desnovelar, decompor e recompor a história: “o enunciador
constrói as personagens de acordo com suas intenções comunicativas, e através
da argumentação antes retórica que dialética remonta e reconstitui os atores

45
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

sociais, mostrando e ocultando alguns traços em detrimento de outros. Forma-


se então a malha discursiva e seus fios, que é indissociável das falas e ações das
personagens na narrativa jornalística.” (FONSECA, 2012, p. 99).
Indagar sobre os diferentes fios e malhas do relato jornalístico nos conduz
pelo emaranhado do já-dito, do não-dito e do ainda por-dizer, que se identificam
na estrutura básica de análise da narrativa, de forma objetiva, simples e direta,
como segue:
Fios narrativos: os fios de referência, os fios de espera e os fios nodais
formam a estrutura básica para a análise narrativa. Os fios narrativos são atributos
da notícia que revelam o acontecimento-intriga através do entrelaçamento do
intradiscurso e do interdiscurso, presentes no enquadramento. Entende-se o
interdiscurso como a memória e a constituição do já-dito e por isso mesmo do
dizível, e o intradiscurso como a formulação do que está sendo dito naquele
momento e em determinadas condições, o que inclui os esquecimentos
ideológicos (Orlandi, 2009). Daí surge possivelmente a ilusão de os argumentos
da narrativa serem considerados a origem do que se diz, ao passo que as
estratégias argumentativas do personagem não raro abarcam silêncios fundantes
da dominação, ou da resistência. A partir dos fios formam-se desse modo
malhas narrativas que interligam materialmente a língua e a história, ao alcance
cotidiano da opinião pública pelos jornais, revistas, rádio, TV, internet. Neste
ponto, cabe ressaltar que a estrutura e o acontecimento da narrativa integram
fenômenos que se encontram em níveis diferentes nas escalas de duração e de
eficiência, cabendo à narrativa entrelaçá-los. (Ricoeur, 2012)
Fios de referência: informações objetivas no corpo da notícia, como data,
local, personagens, que tecem a trama do acontecimento pelo enquadramento
do relato, formando a pirâmide invertida. As expressões e locuções adverbiais,
tão comuns no jornalismo, são fios de referência muito frequentes na tessitura
da malha narrativa. Da mesma forma, novos episódios também se transformam
em fios de referência, fazendo surgir narrativas intermediárias semanticamente
coesas, com ações autônomas. Daí, surgem também novos personagens, que
além de guardarem uma relação estreita com a pessoa, o ser real objeto da
narração, habitam a realidade da própria narrativa, que é fática, referencial.
Assim, os fios horizontais do sujeito individual se entrelaçam aos fios verticais
que compõem o contexto histórico de um dado episódio, fazendo com que
os fios de referência irrompam no acontecimento, proporcionando um dado
sentido subjetivo ao texto, dando margem a diferentes sentidos e sinais acerca
dos acontecimentos.
Fios de espera: notícias passadas que sofreram dentro do texto uma
descontinuidade; possíveis narrativas que aguardam por novos acontecimentos
para um próximo desdobramento da notícia, ou então são simplesmente
esquecidas. Documentos, relatórios, mapas, citações, depoimentos a serem
divulgados de novo, ou mesmo pela primeira vez. Os fios de espera da narrativa

46
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

trazem informações arqueológicas ao relato e representam um possível e


novo frame ou enquadramento da matéria, um desdobramento do próprio
agendamento. Os conflitos no jornalismo dispõem as ações e personagens na
história, tecendo a trama, e, sobretudo, permanecem pendentes de novos fatos,
mantêm as expectativas e tensões do discurso noticioso, fazendo surgir assim os
fios de espera. Da mesma forma, os documentos, relatórios, registros e afins, que
proporcionam à notícia os sentidos de real, muitas vezes aguardam silenciosos
como fios de espera a serem puxados em arquivos confidenciais, cofres, gavetas
e envelopes lacrados.
Fios nodais: acontecimentos principais da narrativa, geralmente
encontrados no lide, evidenciando o personagem e/ou o conflito principal.
Qualquer um dos Quês da pirâmide invertida pode constituir o fio nodal, que por
outro lado também pode estar subentendido no relato, uma vez que os conflitos
que configuram a intriga e ações dos personagens às vezes são manifestações de
conflitos mais profundos, de ordem ética e moral, funcionando como estrutura
de fundo da narrativa. Identificando o fio nodal do relato, categorias mitológicas
e ideológicas irrompem no relato e sobem à superfície do texto, e assim surgem
na trama as metanarrativas. Identificar o(s) fio(s) nodal(is) é compreender a
lógica textual da notícia, desvendar a essência da narrativa, com as conexões e
elos de causalidade entre os incidentes da intriga e possíveis desdobramentos
de novos episódios, e assim fazer surgir os sentidos de real do fático, conferindo
veracidade à notícia. Sabemos que, no acontecimento jornalístico, os sujeitos e
suas ações se manifestam amiúde por meio de contradições, num entrelaçamento
de discursos, de estratégias argumentativas, jogos de sentidos subentendidos
que podem conduzir o leitor-ouvinte-espectador ao fio nodal da trama, “no
processo de historicização que pode seguir dois caminhos distintos, que só em
último caso juntam-se no mesmo ponto: o caminho do objeto e o caminho do
sujeito” (JAMESON, 1992, p. 9).
Malhas narrativas: lides, parágrafos, frases e períodos, unidades autônomas
e semanticamente coesas do próprio texto, que entrelaçam os três tipos de fios
narrativos – fio de referência, fio de espera e fio nodal.
Análise do objeto: Trechos da matéria Por trás do verdadeiro mecanismo
de corrupção do Brasil (El PAÍS digital, por Regiane Oliveira, 29 mar 2018)
Malha narrativa 1
Anões do Orçamento, Dossiê Cayman, Pasta Rosa, Máfia dos fiscais, compra de votos
para a reeleição. À parte a CPI do Banestado, que voltou a ganhar destaque ao ser mencionada
de forma caricata na série O Mecanismo, da Netflix, os muitos escândalos de corrupção que
assolaram o Brasil após a redemocratização parecem estar fadados ao esquecimento. A sucessão
de eventos, crimes, personagens, investigações, bem como as parcas condenações fazem com
que a realidade brasileira de combate à corrupção seja difícil, para não dizer quase impossível,
de acompanhar. Um projeto de pesquisa da USP, no entanto, aposta na ciência da computação
para tirar esses casos do ostracismo, revelar o verdadeiro mecanismo de funcionamento das
redes de corrupção no país e, no futuro, até prever como são formadas essas redes.

47
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Identificar os fios narrativos é aprender a desembolar o campo, a deslinearizar


o texto para fazer aflorar as diferentes camadas do passado que repousam
na lisura, no sentido parafrástico das palavras. Para tanto, é preciso lembrar,
reproduzir, reiterar o que foi dito, não-dito e também o que foi esquecido, num
processo duplo de retorno da memória e do esquecimento como ausência da
memória, uma ausência que por vezes deixa traços, trilhas, fios. O lide da
matéria em análise nos mostra fios de espera – os Anões do Orçamento, Dossiê
Cayman, Pasta Rosa, Máfia dos fiscais, CPI do Banestado, casos escandalosos
de corrupção que se tornaram acontecimentos jornalísticos de datas passadas,
sofreram uma descontinuidade como notícia e permanecem à espera de
novos fatos. Vale ressaltar que os enquadramentos dos episódios de casos
levantados pela mídia demonstram a capacidade que tem o discurso jornalístico
de fazer narrativa tanto pela memória, como também por uma organização
do esquecimento. Por sua vez, a série O Mecanismo, da Netflix, funciona
como fio de referência desta malha narrativa, uma vez que remete a referência
propriamente dita de novos episódios com outros personagens, conflitos e ações
que sustentam o enquadramento do relato. Da mesma forma, as expressões
escândalos de corrupção, crimes, investigações, parcas condenações, combate
à corrupção, redes de corrupção, e redes são fios de referência que imprimem
efeitos de sentido e tecem a trama do acontecimento, evidenciam o conflito e
marcam o território da memória nas narrativas de combate e redes de corrupção,
proporcionando um determinado sentido subjetivo ao texto.
Outro fio de referência presente no lide é a locução grupo de pesquisa da
USP, que apresenta a instituição acadêmica Universidade de São Paulo como
personagem do relato, e anuncia o surgimento de outros personagens reais que
fazem parte do grupo de pesquisa, bem como prenuncia novas informações no
relato que irão compor a trama da notícia. Portanto, a cartografia narrativa está
delineada no lide da matéria, cujo enquadramento conduz ao entrelaçamento de
fios narrativos que revelam o combate à corrupção. O termo corrupção, que com
sua carga semântica antecipa manifestações de conflitos arraigados, representa
o fio nodal da matéria, a essência da narrativa que vai conduzir e interligar os
fios do relato jornalístico em análise.
Malha narrativa 2
Na trama do Brasil real não há um personagem principal que lidera um grande esquema
de desvio de dinheiro público, como por vezes ronda a imaginação popular. Mas, sim, uma
rede bem engendrada de relacionamentos da qual foram mapeados 404 nomes – entre
políticos, empresários, funcionários públicos, doleiros e laranjas –, de pessoas envolvidas em
65 escândalos de corrupção entre 1987 e 2014. “Essas redes criminosas operam de forma
similar ao  tráfico de drogas  e às  redes terroristas”, explica Luiz Alves, pós-doutorando no
Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, em São Carlos, e um dos cinco
pesquisadores do projeto.
Para desnovelar os fios narrativos é preciso analisar a linearidade do texto
a partir dos diversos funcionamentos, como as reformulações parafrásticas, a

48
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

pluralidade de vozes, o encadeamento do texto. A recontextualização dos fios


narrativos reagrupa e reordena o relato, proporcionando um outro modo de
leitura que superpõe e desembaraça uns fios dos outros, realizando uma nova
tessitura sobre a narrativa. Dessa forma, a segunda malha narrativa está repleta
de fios de referência, revelando a terrritorialização da corrupção como “uma
rede bem engendrada de relacionamentos”, a corrupção que marca território, os
territórios da corrupção.
Os termos Brasil real, personagem principal e imaginação popular
representam três fios de referência fortemente interligados que proporcionam
efeitos de sentido ao texto, juntamente com os termos trama, lidera, ronda,
conduzindo à ideia de busca pela identificação do responsável, ou responsáveis,
ou até mesmo pela busca do(s) culpado(s) pelo esquema de desvio de dinheiro
público no país. O termo rede aparece novamente por três vezes nesta malha
narrativa, funcionando como fio de referência que representa a formação de
agrupamentos, de pontos e de nós, ligando o termo à ação de entrelaçamento:
redes bem engendradas. Por sua vez, os termos nomes, políticos, empresários,
funcionários públicos, doleiros, laranjas, são personagens que funcionam como
fios de referência do relato, e que podem vir a serem personagens principais em
novos acontecimentos, num próximo desdobramento da notícia. Esta pluralidade
de personagens ligados à expressão escândalos de corrupção proporciona
novos elementos para identificação dos nós presentes no corpus da narrativa.
Da mesma maneira, os termos quantitativos 404 nomes, 65 escândalos de
corrupção, e a data entre 1987 e 2014 funcionam como fios de referência, são
dados empíricos que produzem efeitos de real ao relato e fornecem os elementos
que confirmam a existência da prática de corrupção e dão consistência à análise.
O personagem principal e fio de referência desta malha narrativa é Luiz Alves,
pós-doutorando no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP,
em São Carlos, sendo Alves um dos cinco pesquisadores do projeto, descrito no
início da matéria, que fazem o mapeamento das redes de relacionamento entre
os escândalos de desvio de dinheiro público no Brasil, após a redemocratização.
Em discurso direto na matéria, Alves relaciona os termos redes criminosas,
tráfico de drogas e redes terroristas de forma explicita e direta, puxando novos
fios narrativos para a superfície do texto. A trama narrativa vai se compondo
com a conexão dos diversos personagens identificados no texto como fios
de referência, e suas ações entrelaçadas pelo fio nodal da corrupção e do
combate à corrupção, num engendramento de intrigas e conflitos comuns à
narrativa jornalística. Os fios narrativos se entrelaçam ora como fios de espera,
ora como fios de referência, todos perpassando pelo fio nodal do relato que
abrange as formulações narrativas tanto de forma explícita quanto implícita,
constituindo o corpus do relato como um emaranhado de fios, um nó em uma
rede narrativa e suas conexões, deslinearizada pela identificação, desconstrução
e desnovelamento das malhas e fios narrativos.

49
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Conclusão

Se “a comunicação tece o véu do mundo codificado” (FLUSSER, 2007, p.


91), os fios narrativos das notícias propiciam o entrelaçamento da história diária
do mundo dos homens, unindo o passado e o futuro dos acontecimentos, com
seus encadeamentos e reverberações. Pela tessitura desses fios narrativos, a
notícia produz diversos nacos de sentido, atua na reestruturação do real, permite
a interlocução de diferentes vozes e exerce dessa forma papel importante no
sentido de legitimar acontecimentos na comunicação política. O enquadramento
exerce influência direta na correlação de poder entre os grupos que se legitimam,
trazendo instabilidade e constante reatualização das narrativas jornalísticas.
A estrutura dos fios narrativos – nodais, de referência e de espera –
tece uma relação de complemento na identificação do enquadramento e das
estratégias narrativas, seus efeitos de sentidos e argumentação retórica. O poder
de enunciação faz parte do processo de configuração de realidades sociais, sendo
a mídia o espaço contemporâneo no entrelaçamento de vozes dissonantes.
Retomando o fio nodal da narrativa jornalística selecionada para análise,
consideramos que a compreensão de um determinado texto nos remete a ter
consciência das raízes de muitos problemas brasileiros. Segundo Gadamer, a
consciência histórica é privilégio do homem moderno de ter pleno conhecimento
da historicidade de todo o presente. “Os efeitos dessa tomada de consciência
histórica manifestam-se a todo instante sobre a atividade intelectual dos nossos
contemporâneos” (GADAMER, 2006, p.17). Para um país cuja agricultura surgiu
sustentada pelo trabalho servil dos escravos vindos da África, país marcado
por práticas de colonização mercantilista, de coronelismo, aliadas a um Estado
caracterizado pelo autoritarismo burocrático, a corrupção representa uma chaga
que é fruto de um jogo de poder aliado à cultura da impunidade.
O texto analisado, mostrando as relações de cumplicidade entre personagens
da vida pública brasileira em busca de lucros ilegais, traz à tona o processo de
‘patronagem’, trabalhado por Roberto da Matta em Carnavais, Malandros e
Heróis (1981, p.220). Ao desvendar os laços entre os poderosos ao longo da
nossa história, o antropólogo caracteriza as relações numa sociedade onde os
pobres têm que se associar aos ricos e aceitar suas condições, seus contratos.
Trata-se de uma cadeia de hierarquização que se apropria do trabalho alheio
em benefício próprio. É o rito do “você sabe com quem está falando?”, que
já foi tão popular no Brasil e que caracterizou posições sociais diferentes. Da
Matta afirma que o que se vê, no uso desta frase, é uma situação onde o que
se deseja é passar por cima de uma lei. Existe uma separação entre uma lei
geral, impessoal, e uma pessoa que se define como especial, merecedora de um
tratamento acima da lei. É a subversão do artigo constitucional que afirma que
a lei é igual para todos. Se a frase saiu de moda, seus efeitos ainda produzem
sentidos que ecoam na memória da população que, em geral, acredita que a

50
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

justiça funciona a favor dos ricos.


Estes esquemas hierárquicos do passado sobrevivem nos processos de
corrupção atuais que mostram o funcionamento de redes organizadas para
proveito financeiro. A hierarquia pode ser identificada por uma escala que integra
políticos, empresários, funcionários públicos, doleiros e laranjas, em diferentes
níveis. Suas práticas já são identificadas como corrupção em relatos noticiosos,
assim como estão sendo marcadas por uma palavra chave, que é o escândalo.
Este nome sintetiza o efeito de sentido do texto do jornal El Pais. Escândalo é
tudo aquilo que estava encoberto e começa a ser revelado. A revelação, por sua
vez, determina a adoção de novas posturas por parte da sociedade brasileira.
O trabalho dos pesquisadores da USP levantando os esquemas de
‘patronagem’ por trás das atividades de corrupção no Brasil, e divulgado pelos
jornais, se insere numa postura de luta por maior igualdade, que vem se
fortalecendo no país a partir da Constituição de 1988, que garantiu os direitos
civis e humanos da população. Esta é uma posição reflexiva, no sentido dado
ao termo por Gadamer, que permite que tenhamos um conhecimento maior dos
nossos problemas e de suas origens históricas. Com a divulgação pelos meios
de comunicação do modus operandi da corrupção no Brasil, pode-se imaginar
que a mudança é possível.

Referências

BARTHES, Roland (et al.). Análise estrutural da narrativa. Petrópolis, RJ: Vozes,
2011.
BREMOND, Claude. A lógica dos possíveis narrativos IN: BARTHES, Roland (et
al.). Análise estrutural da narrativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
FONSECA, Valéria de Castro. Fios de O substrato da corrupção pela análise
narrativa. IN: MOTA, C. L., MOTTA, L. G. e CUNHA, M. J. (orgs.). Narrativas
Midiáticas. Florianópolis: Insular, 2012.
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da
comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.
GADAMER, G. e FRUCHON, P. (org.). O problema da Consciência Histórica. Rio
de Janeiro: FGV Editora, 2006.
JAMESON, Fredric. O Inconsciente político. São Paulo: Ática, 1992.
LEVI-STRAUSS, Claude. ‘A Estrutura e a Forma: reflexões sobre uma obra
de Vladimir Propp’ IN: PROPP, Vladimir Iakovlevitch. Morfologia do Conto
Maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

51
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

LIMA, Maria Emília A. T. A Construção Discursiva do Povo Brasileiro – os discursos


de 1º. De maio de Getúlio Vargas. Campinas; Editora da UNICAMP, 1990.
MATTA, Roberto da. Carnaval, Malandros e Heróis: para uma sociologia do
dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
MOTA, Célia Maria Ladeira. Representações da Identidade Nacional na
notícia da TV. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Comunicação da
Universidade de Brasília, 2008.
MOTA, Célia Maria Ladeira. ‘Jornalismo: discurso, narrativa e cultura’. IN:
PEREIRA, F. H., MOURA D. O. e ADGHIRNI, Z. L. (orgs.). Jornalismo e
Sociedade: teorias e metodologias. Florianópolis: Insular, 2012.
MOTA, Célia Maria Ladeira, VIEIRA, Leilianne Alves. ‘A narrativa semiótica
de Dilma’. Pesquisa apresentada na reunião anual da SBPJOR, ao grupo de
Narrativas, RENAMI, 2016.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Jornalismo e configuração narrativa da história do
presente. Este artigo foi publicado na edição 1, em dezembro de 2004, da
revista eletrônica e-compós: http://www.compos.org.br/e-compos
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise Crítica da Narrativa. Brasília: Editora Universidade
de Brasília, 2013.
MOUILLAUD, M. e PORTO, S. D. (org.). O JORNAL – Da forma ao sentido.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2012.
ORLANDI, Eni. Análise de Discurso – Princípios e Procedimentos. Campinas,
SP: Pontes, 2009.
PORTO, Sérgio Dayrell. Análise de Discurso – O Caminho das Seis Leituras
Interpretativas em Massa Folhada. Brasília; Casa das Musas, 2010.
PORTO, Sérgio Dayrell. ‘Vivências interpretativas em jornalismo’. Versão
atualizada do método das “Seis leituras interpretativas em massa folhada”
IN: PEREIRA, F. H., MOURA D. O. e ADGHIRNI, Z. L. (orgs.). Jornalismo e
Sociedade: teorias e metodologias. Florianópolis: Insular, 2012.
PORTO, Sérgio Dayrell. Comentário na banca de qualificação (p. 169-172). IN:
FONSECA, Valéria de Castro. Memória e acontecimento jornalístico: Comissão
Nacional da Verdade. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de
Comunicação da Universidade de Brasília, 2015.
PROPP, Vladimir Iakovlevitch. Morfologia do Conto Maravilhoso. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2010.
PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. Volume 1. Acesso pelo site:
https://projetophronesis.files.wordpress.com/2012/06/proust-em-busca-do-
tempo-perdido-1-no-caminho-de-swann.pdf

52
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Unicamp,


2007.
WEAVER, David H. ‘Thoughts on Agenda Setting, Framing, and Priming’. Journal
of Communication, Volume 57, Issue 1, pages 142–147, March 2007.
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1992.
Site pesquisado: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/28/
politica/1522247105_599766.html

53
Do passado ao presente pelo fio da memória:
por uma abordagem semântico-discursiva de perfis

Fabiano Ormaneze

Narrativa, memória e antologia: breves notas sobre o tornar-se perene

Está lá, em todos os livros e manuais, seja explicitamente ou como uma


inferência do leitor: o Jornalismo é a narrativa do presente. Os mais apaixonados
nessa defesa poderiam dizer ainda que a “notícia de hoje é a história de
amanhã”, enunciado que, por sinal, circula em manuais de redação, como
uma das justificativas para que a apuração seja de qualidade, pois o que se
está produzindo para ser veiculado num jornal, independentemente do suporte
(impresso, TV, rádio, internet etc.), será também, futuramente, uma fonte
histórica em potencial:

O campo das práticas [do Jornalismo] não é alheio a essa interação com a
História, desde seu próprio âmbito. Ou seja, não são apenas os historiadores
que recorrem a jornais para elaborar suas narrativas (e jornalistas que utilizam
o conhecimento histórico), mas os jornalistas têm, por vezes, papel importante
e ao mesmo tempo polêmico na elaboração da chamada “história imediata”.
(ROMANCINI, 2007, p. 24).

Além da perspectiva narrativa dessa história imediata, a relação do


jornalista com o passado também ocorre no que Romancini (2007) nomeia de
“jornalismo retrospectivo”, que diz respeito à elaboração de materiais ligados
à História ou que, de alguma maneira, interseccionam-se com ela, como é o
caso das biografias, das edições comemorativas ou mesmo de alguns livros-
reportagem1.
Para além da “história imediata” ou do “jornalismo retrospectivo”, o foco
deste texto é discutir como uma narrativa jornalística, marcada pela atualidade
e o interesse público, delimitada pela periodicidade do veículo para a qual
é elaborada, produz novos e outros efeitos de sentido, quando, anos após a
publicação original, é republicada no formato de uma coletânea em livro, sem,
no entanto, deixar de carregar consigo elementos cristalizados na caracterização
dos personagens do texto. Com isso, pretendemos contribuir para a discussão
sobre métodos de análise da narrativa, considerando a possibilidade de uma
1 Nos últimos anos, diversos livros-reportagem foram publicados, em geral, com bons índices de
leitura, recontando fatos da História do Brasil. É exemplo, a trilogia de Laurentino Gomes, que narra
os acontecimentos históricos de 1808, 1822 e 1889 (Fuga da Família Real Portuguesa para o Brasil,
Independência e Proclamação da República, respectivamente).

54
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

reflexão semântico-discursiva.
Parte de uma pesquisa maior de doutorado centrada na análise de duas
antologias que compilam perfis publicados pela revista piauí2, esse percurso
metodológico é ilustrado aqui pela análise de trechos do corpus, focando-se,
principalmente, nos aspectos relacionados à presença de trechos descritivos e
nos títulos dados aos perfis. Por perfil, entende-se um texto jornalístico, que se
justifica pelos critérios de noticiabilidade, centrando-se em retratar um indivíduo,
que se torna, ao mesmo tempo, foco e protagonista da pauta concretizada3.
No perfil jornalístico, um sujeito é retratado por meio de signos verbais
ou pela combinação de palavras e outros tipos de signos, no caso de obras
audiovisuais. Como diz Maia (2013, p. 176), trata-se de uma “composição
textual do sujeito”, em que a não cronologia, a liberdade estético-estilística e
a variedade de recursos narrativos, em geral, fazem-se presentes. Acreditamos
que, se há palavra, assim como qualquer signo, deve haver aí um espaço para
a reflexão sobre o sentido e, por isso, levamos em consideração as questões da
narrativa jornalística a partir da Análise de Discurso (AD), em diálogo com a
Semântica do Acontecimento (GUIMARÃES, 2002).
A análise da narrativa jornalística avança em qualidade quando, à
perspectiva dos elementos formais, do conteúdo e das rotinas de produção,
associam-se questões relativas à produção de sentidos, à ideologia e à memória,
compreendendo o discurso como constituído historicamente, resultado de uma
série de outras formulações, que, com dominância de umas sobre as outras,
circulam socialmente, o chamado interdiscurso (PÊCHEUX, [1975] 2010).
A AD, surgida na França no final dos anos 1960, pelo trabalho de Michel
Pêcheux, concebe o discurso como só existente na relação entre os sujeitos,
determinados pela ideologia4 e pela história. A abordagem discursiva baseia-
se na não literalidade, entendendo a língua como um sistema que organiza
sentidos possíveis e não possíveis, a partir do momento histórico e dos sujeitos
que participam da enunciação. A Semântica do Acontecimento, por sua vez,
dialoga com a AD, ao entender que “o enunciado tem como suporte um dizível
historicamente constituído” (GUIMARÃES, 2002, p. 8). A enunciação é tomada,
então, como “um acontecimento no qual se dá a relação do sujeito com a língua”
(GUIMARÃES, 2002, p. 8).

2 A revista piauí (cujo nome é grafado oficialmente em letras minúsculas) surgiu em 2006, criada pelo
jornalista e documentarista João Moreira Salles. Inspirada editorial e graficamente na estadunidense The
New Yorker, tem periodicidade mensal e é comercializada atualmente pelo Grupo Abril. A tiragem, de
acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC), é de cerca de 20 mil exemplares/mês. Desde a
origem, a revista dedica-se a grandes-reportagens, caracterizando-se pelo uso do Jornalismo Literário,
ou seja, textos que se propõem à abordagem aprofundada, humanizada e utilizando estratégias estético-
estilísticas próprias da literatura, como a descrição, a linguagem metafórica e a voz autoral, entre outros.
3 Sobre a definição de perfis, cf. Vilas-Boas (2003), Maia (2013) e Ormaneze (2013).
4 Uma das contribuições trazidas por Pêcheux, sob influência de Althusser, é o rompimento com a
concepção marxista de ideologia. Para a AD, o ideológico não é simplesmente a expressão do poder
burguês, mas o local e o meio para a realização dessa dominação. Como lembra Orlandi (2009, p. 9),
“a ideologia não é x, mas o processo de produzir x”, levando a uma naturalização dos sentidos.

55
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Temos em mente que, como corpo teórico-metodológico, ambos os campos


podem contribuir para os estudos sobre jornalismo e narrativa, à medida que
levam em consideração os processos históricos e ideológicos nos quais a
produção dos diversos gêneros jornalísticos está imbuída. Mostra ainda que,
para além do sujeito coincidente consigo mesmo, herdado do Positivismo, existe
um sujeito-Outro, atravessado pelo inconsciente e pela ideologia.

Narrativas antológicas ou antologias narrativas?

As duas produções que analisamos estão organizadas no formato de livro e


pertencem a uma coleção denominada “Jornalismo Literário” (Cia. das Letras),
que conta com cerca de 30 títulos publicados desde 2002. Em comum, entre os
dois volumes com textos de piauí, está o fato de que eles reúnem, exclusivamente
ou não, perfis de políticos brasileiros.
O livro denominado “Vultos da República: os melhores perfis políticos da
revista piauí” (2010) traz nove perfis, publicados originalmente entre 2007 e
2010, em sessão homônima na revista. No segundo caso, “Tempos instáveis:
o mundo, o Brasil e o Jornalismo em 21 reportagens da piauí” (2016), entre
os textos compilados, há três perfis de políticos brasileiros. Ao contrário do
primeiro, exclusivamente de perfis, nesse segundo volume estão republicados
textos de vários gêneros que ocuparam páginas da revista entre 2011 e 2016.
Ao olhar para as referidas coletâneas, perguntamo-nos, entre outras questões,
sobre as regularidades que materializam o sentido de “melhores perfis políticos”
e da inclusão de (apenas) três perfis numa antologia que pretende dar conta de
meia década do “mundo, do Brasil e do Jornalismo”.
Questionamo-nos, por fim, como uma narrativa, centrada no relato do
presente, volta a produzir efeitos ao compor uma antologia, por um processo de
rememoração e esquecimento e, no caso particular da segunda das coletâneas
aqui analisadas, também de comemoração, já que um dos objetivos da
publicação foi celebrar os 10 anos de história da revista. Retornar àquilo que já
foi dito ou, no caso, publicado, não significa colocar-se no mesmo lugar, mas,
justamente pelo fato de retornar em outro espaço e em outro tempo, torna-se
imediatamente outro.
Nesse ponto, colocamo-nos na tensão entre dizer “narrativa antológica”
e “antologia narrativa”. Há três razões para isso. Primeiro, existe o
reconhecimento de que, quando textos são agrupados, cria-se um sentido
de unidade que se configura como uma nova narrativa. Não há mais como
analisar e compreender qualquer um deles como único ou particularizá-lo.
Eles passam a fazer parte de um todo que, de outro modo e antes, não
existi(ri)a. Significam na relação de uns com os outros. Ao mesmo tempo,
a segunda razão é o interesse que existe, por parte dos organizadores, em
conceder o atributo de antológica, portanto, de perene, a uma narrativa

56
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que, fora dessas condições, padeceria pela volatilidade de uma notícia ou


de qualquer texto publicado num veículo periódico. Por fim, há a relação
entre as duas considerações anteriores: na tentativa de se tornar História e
antologia, uma nova narrativa é colocada em circulação, passando a fazer
parte do conjunto de já-ditos sobre algo ou alguém.
Assim, esses textos produzem memória do que foi a revista durante esse
período, mas também são ressignificados numa nova rede narrativa, que tenta
reclassificá-los, reordená-los e dar a eles o caráter antológico e comemorativo, o
que justificaria a nova publicação. Além disso, os textos pretendem adquirir um
caráter histórico, tentando mostrar o que foi uma época, pela ótica da cobertura
de uma revista brasileira.
Se uma publicação no referido suporte passa “em revista” os acontecimentos
que tiveram lugar no tempo que compreende a periodicidade, o que se tem
na antologia é uma dupla passagem por esse passado: além do que mereceu
espaço no tempo entre duas edições da revista, republica-se o que desponta
como o que merece ser relembrado e cristalizado num livro, veículo que carrega,
socialmente, o pré-construído de um lugar de saber consolidado e durável. Eco
e Carrière (2010) chegam a garantir, inclusive, que é a credibilidade atribuída
ao livro como suporte que permitirá sua sobrevivência na era tecnológica.
A (re)publicação de textos marcados, em algum momento, pela fluidez
da periodicidade contribui ainda para o que Maingueneau (2012) chama de
“paratopia”, ou seja, a negociação de estar num ou noutro lugar, no território do
Jornalismo, da Literatura ou da História, permitindo que um texto num veículo
como um livro coloque-se como um discurso constituinte, ou seja, aquele que
confere sentido aos atos da coletividade e tem um estatuto singular. Dito de outro
modo, são as “zonas de falas entre outras e falas que se pretendem superiores
a todas as outras” (MAINGUENEAU, 2012, p. 61).
Como modo de circulação, as antologias são uma das invenções da produção
gráfica derivada do mercado livreiro após o surgimento dos tipos móveis em
meados do século XV, na Alemanha. Ainda na época das cópias manuscritas,
esse formato encontrava similaridade nos chamados “cancioneiros”, comuns
tanto na literatura espanhola quanto portuguesa dos séculos XII e XIII.
Benedict (1996) promove uma diferenciação entre o que seria uma
“coletânea” e uma “antologia”, embora seja comum que os termos sejam
tomados, por diversos autores, como sinônimos. As coletâneas, em sua origem,
de acordo com a autora, foram comuns no começo do século XVIII, organizadas
por livreiros com a proposta de apresentar escritores novatos, que tentavam
entrar no mundo literário. Já a designação de antologia, historicamente, diz
respeito às compilações, realizadas desde a Antiguidade, de textos já canônicos.
Assim, ao fazer memória, a antologia torna-se um gênero discursivo que
oferece indícios sobre o modo que se escreve, sobre os lugares de fala e os
gestos de leitura de uma determinada época ou, no nosso caso, de uma revista

57
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

e sua relação com a política brasileira. A matéria-prima de uma antologia é o


passado, que, como discurso, não é finito, nem está pronto, mas sempre sujeito
a ser posto em embates com novas significações. Falar do passado, narrá-lo,
significa também falar do presente e do futuro, pela rede de projeções que se
permitem materializar.
Como diz Serrani (2008, p. 278), na literatura, a reunião de poemas, contos
ou quaisquer outros gêneros discursivos em formato de antologia “contribui
diretamente para formar e transformar cânones, confirmar reputações literárias e
estabelecer ou interferir em práticas letradas de gerações de leitores”. No caso de
uma compilação de textos que fazem memória de uma época e de uma trajetória
de publicações sobre política, temos uma materialidade que reapresenta visões
sobre ser “político”, “ser republicano” e sobre a própria narrativa jornalística, já
que a revista piauí é tida como um exemplo de qualidade na imprensa brasileira
(CARVALHO, 2014).
Lembremos ainda de que, do ponto de vista didático, as antologias sempre
tiveram papel sobressalente na constituição de uma história dos gêneros
discursivos. “As tradições, os patrimônios literários nacionais e seus leitores
foram constituídos, em boa parte, por antologias” (SERRANI, 2008, p. 274). É
comum a utilização desse tipo de material como ferramenta didática, seja para
o ensino do idioma, quando se tem uma compilação de poesia ou de contos,
por exemplo, ou do próprio fazer jornalístico, já que textos da revista piauí são
utilizados, com regularidade, na formação de jornalistas, sobretudo quando o
assunto é a escrita de perfis ou o Jornalismo Literário.

Ser político na/da narrativa

A piauí, por meio das duas coletâneas aqui analisadas, instaura-se num
ritual de dizer o que é ser político e o que é falar sobre político(a) por meio de
um perfil jornalístico, além de dizer o que é ser “republicano”, no caso específico
da primeira antologia, e o que merece ser “republicado”, no caso de ambas.
O jogo de sentidos possíveis entre o “republicano” e o “republicado”
materializa-se no subtítulo da primeira antologia: “os melhores perfis políticos
da revista piauí”. A designação “melhores perfis” refere-se a quê? Produzem-
se aí sentidos que se relacionam tanto ao gênero discursivo a que os textos
pertencem (os melhores perfis) quanto à caracterização de um indivíduo, no
sentido de que os incluídos na coletânea têm o “melhor perfil” de político. Essa
possibilidade de deslize no sentido torna factível que o que esteja em jogo
como “melhores” sejam tanto os exemplos de “perfil” quanto de “perfilado”.
Estar ou ser incluído nesse grupo, portanto, significa também inscrever
tais discursos numa rede de formulações, em que eles se repetem num jogo
emaranhado de relações de poder:

58
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Suponho que em toda sociedade, a produção do discurso é ao mesmo


tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo
número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes
e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e
temível materialidade. (FOUCAULT, [1970] 2004, p. 8-9).

Esse emaranhado é o que dá materialidade à escrita e o que faz pensar


sobre os apagamentos que, no processo de inclusão/exclusão, compõem as
antologias. No caso de piauí, o sujeito do discurso apropria-se de um conjunto
de textos que circularam antes, em determinadas condições de produção,
para ressignificá-los, para propor uma identificação com os leitores (novos ou
que já tinham lido os textos na revista), num movimento de rememoração, de
comemoração e de esquecimento.
Ventura (2008) explicita que a rememoração funciona como uma evocação
da memória. A comemoração, por sua vez, como uma atualidade. Dito de outra
maneira, temos aí o discurso estruturado a partir de uma memória, tomada em
suas dimensões vertical e horizontal. Na rememoração, temos a retomada do que
fala antes, do já-dito. Já no eixo horizontal, onde está inscrita a comemoração, o
que temos é a linearização do dizer, materializado de uma forma e não de outra,
dentro de infinitas possibilidades da linguagem.
Nesse ponto de nossa reflexão, reunimos três conceitos: as noções de ritual,
como prevê Foucault ([1970] 2004), e as de função-autor e de efeito-leitor, de
Orlandi (2008). O ritual, como um procedimento de controle, diz respeito “a
todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a
eficácia suposta ou imposta das palavras, seus efeitos sobre aqueles aos quais
se dirigem, os limites de seu valor de coerção” (ORLANDI, 2008, p. 39). Assim,
no lugar de enunciação de piauí, os discursos colocam-se associados a uma
prática de ritual que determina, para “os sujeitos que falam, ao mesmo tempo,
propriedades singulares e papéis preestabelecidos” (ORLANDI, 2008, p. 39), o
que fica evidente já nos títulos dos perfis, como veremos.
O ritual está numa engrenagem de formulação e circulação de discursos
da qual fazem parte também a função-autor e o efeito-leitor. Orlandi (2009, p.
75) lembra que “a unidade do texto é efeito discursivo que deriva do princípio
de autoria”, e que “um texto pode até não ter um autor específico, mas, pela
função-autor, sempre se imputa uma autoria a ele”. O nome piauí tem um papel
que delimita fronteiras e tetos, caracterizando-se distintamente e em (o)posição
a outras publicações, seja em formato de livro ou de revista.
Da mesma forma, a designação como coletânea (ou antologia) e a
perspectiva de rememorar atribuída a esses textos caracterizam uma maneira
de enunciar. Como prevê um interlocutor, “ao produzir um texto, o autor faz
gestos de interpretação que prendem o leitor nessa textualidade, constituindo
assim ao mesmo tempo uma gama de efeitos-leitor correspondente” (ORLANDI,
2008, p. 151).

59
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Pelos modos como se constitui enquanto revista, ao organizar duas


antologias sobre (sua) história, a narrativa de piauí constrói um ritual discursivo,
inserindo-se como voz de autoridade aos seus leitores e ao próprio jornalismo
brasileiro. Para demonstrar essa perspectiva, focalizemos dois trechos. O
primeiro, vindo do posfácio de Vultos da República. O segundo, do prefácio de
Tempos Instáveis:

A) A piauí, de fato, chegou desafiando uma tendência imperiosa, para não


dizer tirânica, que nas últimas décadas tomou conta do jornalismo, e não
só no Brasil, baseada na convicção de que o leitor não gosta de ler, razão
pela qual é preciso servir-lhe rações de texto cada vez mais reduzidas.
(...) O mesmo se diga de tantos textos longos de piauí, capazes de fazer
o passageiro da ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro ansiar por um
voo bem mais demorado. Entre eles, perfis que, por sua alta qualidade,
são capazes de atravessar o tempo para, lá adiante, meses, anos após
sua chegada às bancas, fazerem a felicidade de quem se compraz na
leitura de revistas velhas. Poderiam, quase todos, se perenizar em livros
como esta primeira coletânea da piauí, dedicada ao que aqui se decidiu
chamar, com ironia opcional, de vultos da República. (WERNECK, 2010,
p. 291-292).

B) A forma de trabalhar da revista foi se tornando uma referência para os


jornalistas. Havia duas características cobiçadas e cada vez mais raras:
tempo para apurar e espaço para escrever. Além, claro, de independência
editorial, sem o que não se faz nada que valha a pena em jornalismo. (...)
A aposta na apuração paciente e minuciosa, que requer coleta exaustiva
de informações, contato demorado com as personagens e capacidade
de observação – o que o entrevistado fala pode não ser tão importante
quanto aquilo que o repórter vê -, representou um oásis no semiárido da
imprensa brasileira. (...). Este livro pode ser lido como um sismógrafo
de uma época. Ao organizá-lo, tive a pretensão de que as reportagens
pudessem, cada uma a sua maneira, tomar o pulso do passado recente e,
ao mesmo tempo, oferecer um retrato significativo do que fomos capazes
de realizar. (BARROS e SILVA, 2016, p. 9-10).

Nesses trechos, diversos elementos produzem sentidos para o efeito de


verdade no qual se insere a narrativa jornalística e cujas práticas constituem-se
como um ritual. É o caso das menções à apuração detalhada e à independência
editorial. Há uma tentativa de construção de um pacto de leitura que busca
garantir a veracidade do que os textos narram, buscando demonstrar um dos
pilares sobre os quais o Jornalismo se estrutura: a imagem de que há uma relação
íntima entre os personagens da narrativa jornalística e as pessoas físicas, “porque
personagens representam pessoas reais” (MOTA, 2007, p. 152). Todavia, essa
visão não considera que a imagem de um personagem passa também pela
representação midiática, por aquilo que a mídia formula como sendo o sujeito-
perfilado, trate-se de apenas um texto ou de uma sucessão de regularidades.
Isso explicita também a razão pela qual, para este texto, vamos nos deter, no

60
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

próximo item, à análise de trechos descritivos sobre os perfilados.


Nos trechos, há também pistas sobre o gesto de rememorar e organizar.
A palavra “antologia” não aparece nos textos dos organizadores dos volumes.
Entretanto, no caso de Vultos, a orelha do livro diz que “piauí tomou uma
ousada e bem-vinda contramão, dedicando largo tempo e espaço à elaboração
de perfis, que já poderiam render algumas coletâneas”.
Em Tempos Instáveis, o texto do organizador do volume evidencia a
pretensão de fazer história não só daquilo que ocorreu, mas também do que
significou a própria revista para a imprensa no período. O trecho final do
excerto – “fomos capazes de realizar” – tem “nós” como sujeito sintático. No
deslizamento do sentido e na ambiguidade aí produzida, tem-se o que é uma
antologia: a memória do que “nós” produzimos como “jornalistas da piauí”,
mas também do que “nós” produzimos como sendo os “sujeitos políticos” num
determinado período da história.
Esses excertos trazem ainda exemplos de enunciados que remetem à ideia
de comemoração, de rememoração e à tentativa de, pela compilação dos textos,
dar a eles o caráter antológico: em Tempos, além de serem definidos como
“sismógrafo de uma época” e “retrato significativo”, o prefácio diz que os perfis
“são capazes de atravessar o tempo”, entendendo o gesto de colocá-los na
história como algo natural e esperado.
A esses trechos, acrescentamos outro, retirado da orelha do livro, que
produz efeitos semelhantes, ao destacar que a apuração jornalística e as
características do texto, por si só, são garantias de verdade e completude:
“Lidos em conjunto, esses textos descem a detalhes capazes de revelar aspectos
insuspeitos dos temas que abordam, ao mesmo tempo que oferecem ao leitor
uma visão abrangente das engrenagens que regeram a política, a imprensa e a
história de uma década marcada por instabilidades de toda ordem” (BARROS e
SILVA, 2016, orelha).

Memória e narrativa nos títulos dos perfis

Nesse momento, perguntamo-nos: então quem são esses políticos que


mereceram a inclusão na antologia? No curto espaço deste capítulo, vamos nos
deter aos títulos dos textos, como parte da análise em busca da resposta a essa
pergunta. Entendemos que os títulos, mais do que síntese ou estratégia de sedução
do leitor para o texto jornalístico, atribuem sentidos aos perfilados, representam os
indivíduos de uma forma e não de outra. Usaremos o sumário dos livros para essa
análise, já que essa parte da publicação permite-nos atingir a nova temporalidade
imputada à coletânea. Como lembra Guimarães (2002, p. 14), o sumário “não é
uma mera indicação de onde algo está. É uma indicação que passa pelo sentido
que o acontecimento construiu. (...). É uma instrução de como interpretar tanto o
modo de chegar à matéria, como a própria construção de algo como notícia, que

61
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

para ser notícia é constituído por uma temporalidade específica”.


Em Vultos, temos:

O andarilho: Fernando Henrique Cardoso


O consultor: José Dirceu
O caseiro: Francenildo dos Santos Costa
As armas e os varões: a formação de Dilma Rousseff
Mares nunca dantes navegados: Dilma Rousseff da prisão ao poder
O mundo dos fundos de investimentos: Sérgio Rosa
Na hora da decisão: José Serra
Pão e glória: Márcio Thomaz Bastos
A verde: Marina Silva

Em Tempos:

A cara do PMDB: quem é e o que quer Michel Temer


O soldado do PT: Delúbio Soares explica que ele não inventou a corrupção,
apenas cumpriu ordens e serviu ao partido
O delator: Delcídio do Amaral fala sobre os tempos de poder, os meses na
prisão e a ruptura com Dilma, Lula e o PT

A forma de organizar os títulos materializa o “ser político”, colocando-o


numa rede de papéis e de enunciados que se tornam memoráveis. Nesses
enunciados, “ser político” e “ser republicano” são características ligadas a
uma ação específica, sintetizada no sintagma nominal que, em todos os casos,
antecede os nomes próprios, colocados sempre após os dois-pontos.
Embora haja uma diferença entre o padrão de escrita na primeira e
na segunda antologia (apenas o nome da pessoa em Vultos; uma sentença
com ação em Tempos), é possível categorizar a forma como os títulos foram
dados. Em parte deles, temos uma espécie de apresentação dos personagens
da narrativa: “o consultor”, “o soldado do PT”, “o caseiro”, “o delator”, “o
andarilho”, “a verde”. Em outra parte, há uma ação sendo descrita ou sintetizada:
“as armas e os varões”, “a hora da decisão”. Num terceiro grupo, o que está
em funcionamento são os lugares dessas ações, de modo metafórico: “mares
nunca dantes navegados”, “o mundo dos investimentos”. Os títulos, além de
representarem um direcionamento de leitura sobre os personagens retratados,
constroem também, pela função-autor, um todo narrativo. Estão aí representados
os personagens, o tempo, o espaço, o conflito e o desfecho do que é ser “vulto”
e estar nos “tempos instáveis”.
Com isso, o que se coloca em funcionamento para caracterizar a “república”
e “ser republicado” são, exatamente, papéis, a priori, pouco republicanos: a

62
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

coisa pública é colocada de lado para que a política seja enunciada não na
relação com o que é público, mas numa rede que se constrói por si e pelos
interesses de cada um dos personagens. Assim, vão surgindo, por exemplo,
aqueles que “querem” (como no título do texto sobre Michel Temer) e “aqueles
que cumprem ordens” (como no perfil de Delúbio Soares).
Mas, desse lugar que faz memória, do republicano e do republicado, há
também um apagamento. A revista surgiu durante o mandato de Lula como
presidente, que, independente de convicções políticas, tem importância histórica
reconhecida. A primeira antologia chegou às livrarias em 2010, dois anos depois
de encerrados os mandatos do petista. A segunda, em 2016, pretendia fazer
memória da década. Lula não figura, no entanto, como “vulto da República”,
nem tem texto exclusivamente dedicado a ele “no mundo, o Brasil e o Jornalismo
em 21 reportagens”. Em ambas as antologias, o ex-presidente é um personagem
coadjuvante, citados diversas vezes, pelas relações ou divergências, pessoais e
políticas, com os perfilados protagonistas.

Espaços significantes, imagens e memória

Numa antologia, o passado tem o caráter de uma rememoração de


enunciações e, nesse caso, ao ganhar o suporte livro, o texto periódico, volátil,
sujeito ao envelhecimento precoce, ganha perenidade. O que é ser “vulto”,
para recuperar o título da primeira coletânea? O que é a “ironia opcional” que
aí estaria, como afirma o organizador no posfácio do primeiro volume? É ser
figura importante, como os dicionários brasileiros trazem numa das acepções da
palavra “vulto”? Ou é ser uma imagem pouco clara, figura que não se percebe
bem, como diz outra definição para o mesmo verbete?
A enunciação de piauí, ao produzir memória, coloca-se nesse confronto.
Ser “vulto” é ser uma figura importante da história ou desempenhar, na rede
política, papéis nem sempre condizentes com a noção de república. Espaço
opaco do dizer, espaço significante da memória.
Textos biográficos, incluídos aí os perfis como um subgênero5, trabalham
não só com a memória no sentido daquilo que se recorda sobre um determinado
personagem, como também como sendo a rede de dizeres que se produzem
e se constituem no fio do discurso. Pêcheux ([1975] 2010) nomeia de
memória discursiva esse conjunto de dizeres que falam antes, de algum lugar,
e se materializam nos enunciados. Nesse caso, inclusive como uma proposta
metodológica, tem-se uma discussão que se refere à maneira em que, nos textos
biográficos, conjugam-se uma memória sobre o que é ser sujeito político, o que
é ser biografado e o que é ser homem ou mulher da política.

5 Consideramos perfis, narrativas de viagens, autobiografias e textos memorialistas, como subgêneros


da biografia, por usarem a história de vida como método de pesquisa e elaboração.

63
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A memória sobre o que é ser biografado carrega uma relação com o fato de que
esse gênero discursivo-jornalístico e seus subgêneros, confluências do Jornalismo,
da Literatura e da História, devem “nos proporcionar uma descrição detalhada
de uma existência” (VILAS BOAS, 2008, p. 21-22). A ideia de uma descrição
detalhada, por outro lado, abre-nos para a discussão de como esse princípio,
ligado à proposta de humanização6, presente na base conceitual de tais gêneros,
também está sujeita e é ela mesma uma forma de manifestação das formações
ideológicas. Que detalhes seriam esses que caracterizam essa descrição de uma
existência? Na concepção discursiva, mesmo quando há uma tentativa de se
desvencilhar dos estereótipos em busca de uma visão mais complexa e completa
de um personagem, só se consegue enunciar dentro daquilo que é formulável na
formação ideológica em que o sujeito-autor do texto se inscreve.
Como exemplo desse funcionamento da memória, citamos o caso de Dilma
nas antologias. A ex-presidenta tem dois perfis em Vultos. No primeiro, o título
já indica o caminho percorrido: “as armas e os varões”. Toda a narrativa sobre
o passado da presidenta é construída a partir de sua relação com homens, seja
pela presença grande do pai na primeira parte da narrativa ou pelo destaque dado
aos relacionamentos amorosos dela. Ao final do texto, é também um homem
que chancela sua (possível, naquele momento) candidatura: “(...) Qual seria a
alternativa que Lula teria em mente? O ministro Franklin Martins respondeu
de bate-pronto: ‘O presidente pode ter um plano B, mas não pode comentá-
lo absolutamente com ninguém. Porque, em política, o aparecimento de um
plano B inviabiliza imediatamente o plano A. Por isso, a candidata é Dilma”
(CARVALHO, 2010, p. 166).
Essa relação entre homens e mulheres está presente em outros trechos da
antologia. No caso do perfil de Marina Silva, por exemplo, a menção ao marido,
muito menos conhecido que ela no cenário nacional, vem acompanhada de um
sentido de concessão e de permissão, materializado pelo uso do mesmo verbo,
utilizado para abordar a relação da ex-senadora acreana com o marido, Fábio
Lima: “Alto, loiro e corpulento, Lima deixou Santos, onde cursou uma escola
agrícola, para morar numa comunidade alternativa no Acre. Filiado ao PT e com
um cargo no governo estadual, ele é discreto e deixa os holofotes para a mulher”
(PINHEIRO, 2010, p. 282).
Em manuais e materiais que tentam explicar como produzir descrições
de pessoas em textos jornalísticos e como usá-las em perfis e biografias, é
comum a citação às referências corporais ou aos chamados símbolos de status
de vida, características do cotidiano do personagem, que oferecem pistas sobre

6 A humanização, por definição, seria o foco na história de vida, na tentativa de compreensão da


complexidade do ser humano retratado. O conceito surge em oposição à prática jornalística de usar
pessoas apenas para ilustrar histórias, reproduzindo suas falas. Na proposta de humanização, o foco é
a história de vida do indivíduo. Cerne da discussão no Jornalismo Literário, a humanização propõe-se
a “proporcionar ao leitor uma visão complexa das pessoas e situações retratadas” [contrapondo-se] “à
mitificação ou estereotipagem dos personagens” (PASSOS, 2014, p. 67).

64
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

sua forma e padrão de viver. A presença dessas descrições são decisivas para
a classificação de um texto como Jornalismo Literário, o que é não só uma
referência habitual à proposta de piauí, como também é o nome da coleção em
que as antologias estão publicadas. No entanto, a presença dessas descrições é
indicativa de uma memória sobre o que se imagina de um corpo feminino e de
um corpo masculino, de modo que a humanização e as descrições são também
determinações ideológicas.
Dilma, por exemplo, desde o início de suas aparições mais corriqueiras
na imprensa ou na política, sempre foi associada a uma imagem de mulher
dura, com características historicamente associadas ao masculino. Nos perfis a
ela dedicados na antologia, isso se materializa, entre outras formas, na quase
ausência de descrições sobre o seu corpo ou seu modo de vestir-se, o que ocorre
de modo homólogo com os homens perfilados no material republicado de piauí.
Poucas são as referências a roupas nos perfis de Fernando Henrique Cardoso,
José Serra ou Márcio Thomaz Barros. No caso de José Dirceu e de Francenildo,
a vestimenta é citada pela relação existente com o nível socioeconômico. No
primeiro caso, por exemplo, a menção à marca é central na descrição: “Era o
começo da tarde de um sábado de novembro e ele vestia uma calça escura,
camisa polo com o decote forrado por um estampado Burberry e mocassins sem
meias” (PINHEIRO, 2010, p. 37). O mesmo ocorre mais à frente, noutro trecho:
“Vestido com um sobretudo azul, carregando uma pasta de uma marca francesa
com seu computador e o livro A era da turbulência (...), Dirceu só reapareceu
quando faltavam poucos minutos para o avião fechar a porta” (PINHEIRO,
2010, p. 42-43). No caso de Francenildo, a menção às roupas, que inicia o
perfil, produz o efeito de rememorar o passado do jardineiro e relaciona as peças
também à situação social, a exemplo do ocorrido no texto sobre Dirceu. “Era
caseiro, tinha 24 anos, quatro bermudas, três calças jeans, cinco camisetas,
três camisas, cinco cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e
um salário de 370 reais quando tudo começou” (SALLES, 2010, p. 69).
Em outro extremo, é sobre a mulher da qual mais se fala sobre maternidade
e família, que também se diz mais sobre roupas e atributos físicos: Marina Silva,
a quem são feitas referências sobre o peso, “o mesmo da juventude” (SALLES,
2010, p. 269), à “elegância natural”, a que se segue o fato de que “quase
sempre usa vestidos longos, arrematados por um xale. Tem perto de 50 deles.
O cabelo anelado é amarrado em um coque, circundado por uma fina trança.
No dedo anular esquerdo, usa uma aliança dourada com a inscrição Jesus”
(SALLES, 2010, p. 270). São também informações sobre ela o

vestido longo de estampa tie-dye em matizes amarelo, verde e azul, que


deixava seus braços firmes e finos à mostra. De meia calça cor da pele,
equilibrava-se com destreza em altíssimos saltos de verniz preto. Havia trazido
um xale cinza, mas pediu que o motorista voltasse em sua casa e buscasse
um lilás, ‘que era o certo para aquela roupa’ (SALLES, 2010, p. 270).

65
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

O pedido ao motorista para trocar o acessório é também o único momento


do texto em que uma cena de ordem dada por Marina é narrada, apesar de ser
tratada como um “pedido”. No restante do texto, ela apenas é descrita como
alguém que reage a situações e dá respostas às perguntas que lhe são feitas.
Essas características relacionadas aos símbolos de status de vida e às
descrições sobre corpo, que aqui fizemos relacionando à memória discursiva
sobre gênero, indicam a relação intrínseca e naturalizada e, portanto, ideológica,
que existe entre a narrativa e a historicidade, ponto central para um método de
análise da narrativa que se proponha a compreender os processos de significação.

Poder da narrativa e narrativa do poder: caminhos de análise

A colocação de um texto jornalístico numa antologia implica diversas questões


que, em uma reflexão sistematizada, devem extrapolar os atributos estilísticos,
embora sejam estes também essenciais. A breve análise do corpus aqui realizada
dá pistas de que uma narrativa não existe dissociada de uma prática política e
ideológica. Da mesma forma, uma antologia não se concretiza apenas por uma
comemoração. Essas são algumas contribuições que queremos registrar em torno
da temática da metodologia de análise de narrativas, tema deste livro.
O Jornalismo deve ser entendido, nessa perspectiva, também como uma
forma de manifestação da memória discursiva, que determina formas de dizer,
de construir personagens (em biografias ou não) e de relacionar sujeitos, uns
com os outros, numa trama ou num conjunto delas que se une numa antologia,
como no caso aqui abordado. Nesse jogo de significações, é papel do analista
desvelar possíveis caminhos que indiquem como funcionam essas determinações,
enriquecendo a reflexão sobre o Jornalismo como narrativa do presente.
A relação entre poder e narrativa mostra que o ideológico determina tanto
o estético quanto os recursos empregados, consciente ou inconscientemente,
pelo sujeito-autor. Para além do binônimo “narrativa e poder”, temos,
contemporaneamente, muitos textos que se dedicam ao “poder da narrativa”,
associando-a, inclusive, a características cognitivas ligadas à absorção e à
memorização de informações. No caso de Vultos e de Tempos, a narrativa do
poder é também uma forma de cristalizar o que, em determinado momento, o
veículo jornalístico compreende como sendo um retrato do período, colocando-
se como uma referência para o futuro.
Nossa reflexão é no sentido de que todas essas abordagens não esqueçam
também da “narrativa do poder”, que não pode ser negligenciada nas análises
do Jornalismo. Inclusive, deve ser potencializada quando reportagens, perfis
ou quaisquer outros gêneros ganharem suportes que lhe atribuem o status de
História, pois isso lhes confere mais força como discurso e como memória,
tomando os rumos do porvir.

66
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

BARROS e SILVA, Fernando. Tempos instáveis: o mundo, o Brasil e o jornalismo


em 21 reportagens da piauí. São Paulo: Cia. das Letras, 2016.
BENEDICT, Barbara. Making the modern reader: cultural mediation in Early
Modern Literary Anthologies. Princeton: Princeton University Press, 1996.
CARVALHO, Pedro Henrique Varoni de Carvalho. Revista piauí: acontecimento
no arquivo da brasilidade. Aracaju: Edunit, 2014.
CARVALHO, Luiz Maklouf. As armas e os varões: a formação de Dilma Rousseff.
In: WERNECK, Humberto (org.). Vultos da República: os melhores perfis
políticos da revista piauí. São Paulo: Cia. das Letras, 2010, p. 119-137.
ECO, U.; CARIÈRE, J. C. Não contem com o fim do livro. São Paulo: Record,
2010.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2004.
GUIMARÃES, Eduardo. Semântica do acontecimento. Campinas: Pontes, 2002.
MAIA, Marta R. Perfil: a composição textual do sujeito. In: TAVARES, F.;
SCHWAAB, R. (orgs.). A revista e seu jornalismo. Porto Alegre: Penso, 2013,
p. 176-188.
MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. São Paulo: Contexto, 2012.
MOTA, Luiz Gonzaga. Análise pragmática da narrativa jornalística. In: LAGO, C.;
BENETTI, M. Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis: Vozes, 2007,
p. 143-167.
ORLANDI, Eni. Discurso e texto – formulação e circulação de sentidos. 3. ed.
Campinas: Pontes, 2008.
______. Análise de discurso – princípios e procedimentos. 8. ed. Campinas:
Pontes, 2009.
ORMANEZE, Fabiano. O gênero perfil à luz dos valores-notícia: uma contribuição
ao estudo do Jornalismo Literário. In: ENCONTRO PAULISTA DE PROFESSORES
DE JORNALISMO, 6., 2013, São Paulo. Anais... São Paulo: FNPJ, 2013.
Disponível em: http://www.fnpj.org.br/soac/ocs/viewpaper.php?id=983&cf=26.
Acesso em: 28 jun. 2018.
PASSOS, Mateus Yuri. Jornalismo literário, humanização e polifonia: perfis da
música erudita em piauí. Estudos da Comunicação, Curitiba, v. 15, n. 36,
jan./abr. 2014, p. 64-78. Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/index.php/
estudosdecomunicacao/article/viewFile/22453/21543. Acesso em: 18 jun.
2018.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio.
Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

67
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

PINHEIRO, Daniela. A verde: Marina Silva. In: WERNECK, Humberto (org.).


Vultos da República: os melhores perfis políticos da revista piauí. São Paulo:
Cia. das Letras, 2010, p. 267-289.
______. O consultor: José Dirceu. In: WERNECK, Humberto (org.). Vultos da
República: os melhores perfis políticos da revista piauí. São Paulo: Cia. das
Letras, 2010, p. 37-68.
ROMANCINI, Richard. História e jornalismo: reflexões sobre campos de pesquisa.
In: LAGO, C.; BENETTI, M. Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis:
Vozes, 2007, p. 23-47.
SALLES, João Moreira. O caseiro: Francenildo dos Santos Costa. In: WERNECK,
Humberto (org.). Vultos da República: os melhores perfis políticos da revista
piauí. São Paulo: Cia. das Letras, 2010, p. 69-118.
SERRANI, Silvana. Antologia: escrita compilada, discurso e capital simbólico.
Alea, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, jul-dez. 2008, p. 270-287.
VENTURINI, Maria Cleci. Rememoração/comemoração: prática discursiva de
constituição de um imaginário urbano. 2008. 235 f. Tese (Programa de Pós-
Graduação em Letras – Mestrado e Doutorado) - Universidade Federal de Santa
Maria, Santa Maria, 2008.
VILAS BOAS, Sérgio. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003.
WERNECK, Humberto (org.). Vultos da República: os melhores perfis políticos
da revista piauí. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

68
Mídia, história e memória na narrativa comemorativa
da Rede Globo: os espaços “ocupados” pelos jornalistas

Duílio Fabbri Júnior

Introdução

Ao considerar a natureza da atividade jornalística, podemos pensar também


na constituição de um espaço privilegiado de produção de memória a partir das
narrativas por meio das quais as notícias são produzidas e os suportes utilizados
para a veiculação.
Como força ideológica, a mídia tende a construir e encadear fatos em um
conjunto de enunciados e acontecimentos de forma que apenas sua versão seja
memorável, ou seja, possam, em momento posterior, ser retomados como sendo
a narrativa da verdade sobre um acontecimento.
Neste capítulo, o objetivo é refletir sobre a relação entre história, memória
e narrativa, partindo de um caso em particular, ocorrido na principal emissora
de televisão aberta do Brasil, a Rede Globo. A estratégia metodológica que
utilizamos é a Análise de Discurso, de linha francesa, baseada, sobretudo, em
Michel Foucault. Queremos, com isso, discutir o papel da memória, quando
a narrativa jornalística não está centrada no presente, no acontecimento das
últimas horas ou dias, mas, sim, quando retoma fatos de outro momento
histórico, ressignificando-os. Temos, então, a importância de que as análises
sobre narrativa considerem também o caráter histórico e de memória, pontos
que queremos discutir e demonstrar.
Focalizamos nosso interesse na narrativa comemorativa que a Rede
Globo criou para comemorar seus 50 anos, em 2015, corpus de nossa
pesquisa de doutorado, do qual este capítulo é uma parte. Não temos aqui
a narrativa jornalística que, elaborada diariamente, pode, no futuro, ser lida
como testemunha ou história de uma época, mas a própria história tratada
pelo Jornalismo, retomando fatos do passado numa nova dinâmica, no nosso
caso específico, uma efeméride.
Entre os dias 20 e 25 de abril de 2015, a Rede Globo exibiu, no Jornal
Nacional, uma série comemorativa, com a participação dos mais antigos
repórteres da emissora ainda em exercício. O projeto foi idealizado, coordenado
e apresentado pelo jornalista William Bonner, também editor-chefe e âncora do
telejornal há mais de 20 anos. A cada dia da semana, foram exibidas reportagens
marcantes, sobre as quais os repórteres, num estúdio, em formato de arena,

69
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

faziam comentários. A análise desse material não se justifica apenas pela


importância da Rede Globo e do Jornal Nacional na circulação de informações no
Brasil, mas também por, nesse caso específico, a emissora difundir informações
sobre o passado, o que tem efeitos na memória e na constituição dos discursos
do presente.

História e memória nos processos de comemoração e rememoração jornalística

Falar de história e memória pressupõe pensar em algo já começado, como


uma origem determinada no passado, o que é diferente de trabalhar com o
“presente” que, ao cumprir critérios de noticiabilidade, torna-se a matéria-prima
da narrativa jornalística. Temos, então, processos discursivos distintos:

A memória cumpre uma importante função de verificação e controle da


consistência e da coerência das operações históricas de um sistema.
Com base na memória, um sistema social constrói uma história para si
mesmo, uma imagem coerente e consistente de si mesmo. A memória
permite lembrar, no presente, apenas o que é importante para dar
sentido às operações do presente. E permite esquecer todo o restante,
todas as contradições, os non senses, os paradoxos. A memória, portanto,
é lembrança e esquecimento ao mesmo tempo. (SIMINONI, 2016, p.
183, grifos meus).

Para essa dinâmica, faz-se necessário pôr em relevo as relações entre o que
se tem numa narrativa jornalística cujo foco é a rememoração e a comemoração,
refletindo sobre que memória é evidenciada. Essa contextualização auxilia-nos a
compreender de que maneira aquele que fala com seriedade (e/ou pretensão de)
assume, de maneira implícita, um compromisso diante dos seus interlocutores,
a saber, o compromisso de que os argumentos apresentados possam ser
julgados verdadeiros, não só como memória, mas como história. Como lembra
Foucault (1979, p. 12), a “verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças
às múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder”.
Isto posto, podemos pensar que a memória tem também uma outra função:
a de escolher o que pode ser lembrado e o que pode ser esquecido hoje e
no futuro. Assim, pode ser usada, no futuro, para evocar fatos que hoje estão
esquecidos. E, por outro lado, pode fazer esquecer aquilo que hoje é tido como
fundamental para dar sentido às nossas práticas e condições sociais. Sem esse
esquecimento, não haveria espaços para novos conteúdos, elaborações e para
a constituição e/ou manutenção das relações de poder. É preciso considerar,
então, que há na memória um pressuposto de esquecimento, que integra seu
funcionamento de forma nunca linear. Como lembra Courtine (2006, p. 79), “a
função interdiscursiva como domínio da memória permite ao sujeito, portanto,
o retorno e o reagrupamento de enunciados, assim como seu esquecimento ou

70
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

apagamento”. Como interdiscurso, por sua vez, compreendemos todo o conjunto


de dizeres que, com dominância de alguns sobre os outros, constituem o que
é dito sobre algo. Como pensar essa relação entre interdiscurso, memória e
história numa série comemorativa?
A cada cinco ou dez anos, a Rede Globo, dentro do Jornal Nacional,
realiza comemorações, rememorando fatos tratados pela emissora, em razão
de seu valor simbólico. Assim, a narrativa de rememoração de suas principais
coberturas nacionais e internacionais visa também a um consenso coletivo
nacional e investe em um poder político nas lembranças dos acontecimentos
sob a visão da emissora, de maneira a encontrar no passado uma legitimação
histórica, que permita consolidar uma memória.
Segundo Ricoeur (2007), comemorar é, de certa forma, reviver de maneira
coletiva a memória de um acontecimento considerado como ato fundador,
constituindo-se no objetivo principal dos valores sociais de uma comunidade ou
país. Assim, a memória e a história nos suscitam um questionamento da relação
espaço/tempo. O ato de rememorar consiste numa atividade narrativa em que
se retira um acontecimento do passado para fazê-lo penetrar na realidade e nas
questões do presente, abolindo tempo e distância.
Se suscitarmos um eixo, para pensarmos sobre memória, rememória e
comemoração, num primeiro momento podemos até considerá-las num espaço
de intersecção, mas, ao refletirmos como processos de estruturação do discurso,
rememorar faz parte dos processos constitutivos da narrativa sobre o passado. Já a
comemoração ocupa o lugar do intradiscurso, ou seja, daquilo que é materializado
por meio do arranjo de palavras, imagens e o conteúdo da narrativa.
Na relação com o jornalismo, a história ocupa um espaço de registro,
fonte e destino. Como registro, queremos dizer que os jornalistas e, por
consequência, o discurso jornalístico, como lembra Romancini (2010, p. 24),
“têm papel importante na elaboração da chamada história imediata”. Como
fonte, entendemos que a história é recorrentemente utilizada pelo jornalismo
em função da necessidade da menção a fatos históricos, por efemérides ou
na tentativa de explicar fatos atuais. Além disso, é comum a associação do
jornalismo como a narrativa do presente e uma das fontes históricas para o
futuro, ou seja, o jornalismo, vencida a periodicidade, tem como destino tornar-
se arquivo e fonte de pesquisa sobre as narrativas de um determinado fato:

A escrita possibilita o encontro entre a “memória” e sua “prova


documental”: lembrar-se — no caso do jornalismo e diante do fato de
que as reportagens são “documentos” que ocupam essa posição singular
e ambígua — é encontrar não um acontecimento no passado, mas
a narrativa desse acontecimento no passado. Com isso, a relação de
dependência do acontecido ao narrado torna a narrativa o documento
mais importante de todos. (BERGAMO, 2011, p. 5).

71
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Dessa forma, retomamos a preocupação de Foucault (1979) com o


conceito de ideologia, reforçando a importância de compreendermos como
determinados discursos inscreveram-se nos domínios de verdade, o que, no
caso específico em análise aqui, é reforçado pela importância histórica, cultural
e social da emissora e do telejornal em questão.

A narrativa da série comemorativa da Rede Globo

Comparadas às comemorações anteriores da emissora, o projeto dos 50


anos da Rede Globo teve uma configuração narrativa inédita, como a própria
emissora destacou no texto lido pela apresentadora Renata Vasconcelos,
reproduzido mais à frente e também disponível no site Memória Globo1.
Esse ineditismo deve-se ao fato de que essa comemoração foi apresentada
em formato de série, dentro do telejornal, numa proposta quase que exclusiva de
ser um ponto de rememoração jornalística. Nas efemérides anteriores, abriram-
se programas especiais, nos quais a transmissão era ao vivo, envolvendo
shows e jornalismo, aberta a convidados. Foi o que ocorreu, por exemplo, na
comemoração dos 40 anos da Globo. Naquela ocasião, segundo o Memória
Globo, houve uma “noite de gala”, com uma festa numa casa de espetáculos em
área nobre no Rio de Janeiro (RJ), cidade sede da emissora.
À frente do projeto de comemoração pelos 50 anos, Bonner reuniu os 16
jornalistas mais antigos da emissora para ajudar a contar a história e “para dividir
memórias de grandes coberturas jornalísticas” (MEMÓRIA GLOBO, 2015). Essas
memórias foram divididas por décadas e as lembranças foram provocadas pelo
próprio Bonner no estúdio, onde estavam. As falas dos jornalistas aparecem
entremeadas com as reportagens rememoradas.
A “série especial”, nomeação que a própria emissora utilizou, contou com
cinco episódios, sempre ao final do Jornal Nacional. No último dia, Cid Moreira e
Sérgio Chapelin, que durante 18 anos apresentaram o telejornal, voltaram à
bancada, num exercício de rememoração para eles e para os telespectadores:
vê-los novamente dando o “boa-noite” tão característico na TV brasileira.
A narrativa construída pela emissora demarca o desejo de fazer memória
(NORA, 1993) e de repetição, o que resulta em efeitos de verdade, dados pela
legitimação e sustentação institucional, não só pelo que a Rede Globo significa
para seus telespectadores como também pelos efeitos de sentido produzidos
pela presença de jornalistas antigos da emissora nessa série e pelo fato de
sua condução ser feita por Bonner. Jornalistas e âncoras tornam-se, assim,
personagens de uma narrativa que pretende não só ser crível, mas também
adquirir caráter de história da emissora e do País: “A verdade está circularmente
ligada a sistemas de poder que a produzem e a confirmam, e a efeitos de poder
que ela induz e que a reproduzem” (FOUCAULT, 1979, p. 14). A narrativa sobre
1 Disponível em: https://g1.globo.com/. Acesso em: 20 jun. 2018.

72
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

a história está, assim, indissociável do controle, da seleção, da organização e


da (re)distribuição.
Ao produzir esses enunciados de rememoração e de comemoração,
trabalha-se com a memória discursiva e com o esquecimento, fazendo com que
a espetacularização2 seja mais que uma forma de noticiar e constitua-se em
uma maneira de promover a difusão de valores e a ideologia. Sobre esse último
conceito, convém lembrar que nossa posição é foucaultiana, distinta daquela
definida por Marx e Engels ([1867] 2001). Foucault (1979) explicita que o
conceito de ideologia deve ser usado com parcimônia, dissociando-o do conceito
de falsa consciência. Para ele, o “problema não é fazer a divisão entre o que,
em um discurso, provém da cientificidade e da verdade e aquilo que provém de
outras coisas, mas sim ver historicamente como se produzem efeitos de verdade
dentro do discurso, que não são em si mesmos nem verdadeiros nem falsos”
(FOUCAULT, 1979, p. 148). Essa discussão é particularmente interessante
porque estamos exatamente no domínio em que historicamente determinados
fatos ganharam ou tiveram, durante um período, status de verdade a partir do
discurso do jornalismo e, no nosso caso, da Rede Globo.
Perguntamo-nos, por exemplo, qual efeito poderia ter essa introdução das
imagens das reportagens feitas e a rememoração oralizada por cada um dos
jornalistas convidados. De que forma esses sentidos estão sendo produzidos? Isso
abre portas para que possamos observar o momento em que um acontecimento
é memorizado socialmente e, ao mesmo tempo, torna-se histórico pela
credibilidade imputada a ele pelo jornalista que não só cobriu o acontecimento
como agora o relembra, em detalhes.
Nesse sentido, vale tomar para uma reflexão a mediação do projeto exercida
por Bonner. Ele foi o âncora escolhido pela presidência e direção do grupo para
falar sobre assuntos até então não discutidos pela emissora, como o caso dos
“supostos erros”3 no caso da cobertura das manifestações pelas Diretas Já
(1984) e na edição do debate entre Collor e Lula (1989), estando autorizado a
falar em nome da empresa.
Tanto no caso dos jornalistas quanto de Bonner, trata-se da consolidação de
um discurso competente, no qual os interlocutores já foram reconhecidos como
tendo o direito de falar. Os lugares e as circunstâncias foram predeterminados
para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, o conteúdo e a forma já foram
autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência.
De acordo com Foucault (1979), os rituais, ou seja, as normas e as
regras, definem a posição que um indivíduo deve ocupar em uma mediação,
provocação ou respostas e, consequentemente, os enunciados que deve produzir
e o comportamento socialmente aceito e esperado para tal. Quem mais poderia
2 Aqui nós trabalhamos o conceito no sentido de colocar em evidência a notícia de forma exagerada,
superestimada.
3 Supostos erros estão entre aspas, porque embora o site Memória Globo apresente-os como erros, na
televisão foram tratados apenas como “polêmicas” ou “mal-entendidos”.

73
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

representar a voz da Globo na narrativa sobre sua história do que o âncora casado4,
pai de três filhos, branco, hétero, com imagem de trabalhador construída pela
mídia, apresentador das “principais notícias” do Brasil e do mundo?
A narrativa sobre a história retoma, nesse ponto, características que são
próprias dos produtores jornalísticos, como a credibilidade. Isso se manifesta já
no texto que abre a série no Jornal Nacional, lido pela editora e apresentadora
Renata Vasconcelos:

Nesta semana, a Globo vai completar 50 anos. E a comemoração aqui no


JN vai ser de um jeito inédito. Para relembrar as coberturas jornalísticas
mais marcantes desse período, nós vamos provocar aqui a memória
dos autores daquelas reportagens. Para representar os milhares de
profissionais que construíram o jornalismo da Globo em cinco décadas,
nós reunimos 16 repórteres para dividirem experiências, lembranças,
informações de bastidores e a emoção que tudo isso junto pode provocar.

Já nessa abertura, o telespectador é avisado de que se trata de uma


comemoração. Pelas marcas dêiticas5 (grifadas no trecho), o texto da
apresentadora deixa claro de que se trata de uma versão oficial da história,
sob o olhar da Globo. Há uma ênfase sobre isso, quando a apresentadora diz,
por exemplo, “aqui, no JN”. Por outro lado, embora o trecho se construa no
sentido de demonstrar que se trata das “coberturas mais marcantes” e que
elas representam profissionais e décadas da história, fica apagada qualquer
marca de como isso foi feito, de quais elementos foram inscritos nessa memória
e quais passaram sem se inscrever ou foram silenciados. Como diz Pêcheux
(2007, p. 51):

Não é de se admirar, nessas condições, que a ideia de uma fragilidade,


de uma tensão contraditória no processo de inscrição do acontecimento
no espaço da memória tenha sido constantemente presente, sob uma
dupla forma-limite que desempenhou o papel de ponto de referência: - o
acontecimento que escapa à inscrição, que não chega a se inscrever;
- o acontecimento que é absorvido na memória, como se não tivesse
ocorrido. (PÊCHEUX, 2007, p. 51).

Por mais que se pretenda fazer jornalismo e história, o caráter comemorativo


é evidenciado por uma subjetividade e identificação que se busca atingir, pela
“emoção que tudo isso junto pode provocar”. Inversamente a essa questão da
subjetividade e da emoção, por princípio, o Jornalismo busca trabalhar com
a objetividade, tentando imputar, no discurso da comemoração, critérios para

4 Na época da exibição da série em 2015, Bonner e Fátima Bernardes, que também foi sua partner
de bancada, eram casados.
5 Marcas dêiticas são elementos linguísticos que não têm valor referencial próprio, mas remetem à
situação em que o texto é produzido, permitindo situar o enunciado em relação a tempo, espaço, sujeito
e circunstâncias.

74
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

a seleção dos fatos: estão retomados na memória dos jornalistas fatos que já
ganharam as páginas da história. A afetividade e emoção são derivadas disso,
apagando narrativas que sejam mais emocionais do que históricas, como
poderiam ser lembranças sobre coberturas factuais que possam ter marcado
sobremaneira os repórteres, mas não se inscreveram como fatos históricos. A
objetividade – como um efeito de sentido – é um pilar essencial para autorizar a
narrativa jornalística como porta-voz da verdade, da credibilidade infalível, que
garante o status de verdade. Na nossa perspectiva, a objetividade funciona como
um efeito de sentido do discurso jornalístico, que os veículos de comunicação,
sobretudo os hegemônicos destacam como sendo uma característica. Ao usar
a objetividade para justificar suas práticas, os veículos ocultam um dizer que é
ideologicamente construído.
Assim, os enunciados da apresentadora produzem o efeito de que a
memória fica atrelada ao que estaria na história e não nos processos subjetivos
de cada um dos repórteres que compuseram o projeto. É uma narrativa sobre o
passado que é mediada e medida para se tornar uma narrativa sobre a história.
Vê-se ainda que “memória” é tomada como uma espécie de lembrança,
como se fosse determinada por provocações e por evocações e não por um
processo histórico de constituição e formulação de discursos. A lembrança é
tida como “rememoração” e não como memória. Podemos perceber desse modo
que a memória é um fator de construção, revelação da história e da identidade.
No desenvolver da questão, existe uma imposição do tempo presente para que
as “memórias” do passado sejam recordadas, lembradas conforme o convite
da apresentadora do telejornal. “Como elaboração de variados estímulos,
a memória é sempre uma construção feita no presente a partir de vivências/
experiências ocorridas no passado” (KESSEL, 2009, p. 2). Mesmo a memória
podendo (re)ver e (re)visitar o passado, ela não pode ser compreendida se não
existir a ação no presente do sujeito que a recorda. E é nessa interação com o
telespectador e com os outros colegas jornalistas da série que as lembranças são
ativadas. Nota-se, então, que a memória é agente articulador do confronto entre
identidade, história e narrativa.
Ora, se ela se insere nessa posição, também está sujeita à traição6 e ao
esquecimento. Para evocá-la, é preciso confronto e que este desencadeie
um processo de imaginação, amparado por uma rede de lembranças para
preenchimento das lacunas trazidas pelo testemunho dos jornalistas enunciadores:

Deve haver, na experiência viva da memória, um rastro irredutível que


explique a insistência da confusão comprovada pela expressão imagem-
lembrança. Parece mesmo que a volta da lembrança pode fazer-se
somente no modo do tornar-se imagem. [...] A permanente ameaça de
confusão entre rememoração e imaginação, que resulta desse tornar-se
6 Por traição, referimo-nos aqui ao aspecto neurológico, mas também à ação do inconsciente.

75
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

imagem da lembrança, afeta a ambição de fidelidade na qual se resume


a função veritativa da memória. E, no entanto, nada temos de melhor
que a memória para garantir que algo ocorreu antes de formarmos sua
lembrança. (RICOEUR, 2007, p. 26).

Não se pode manipular e gerir a maneira como as lembranças são


desencadeadas em nós. Não podemos controlar ou confiar em suas impressões,
porque nas condições em que a série foi concebida, a partir de uma “arena de
lembranças”, não há como saber quais as intenções de seus autores e como
suas impressões são desenvolvidas: “o que já passou mantém sempre um
relativo caráter de indecifrável” (PADRÓS, 1991, p. 82). Dessa forma, podemos
pensar a memória como aquilo que se impregna das imagens e lembranças que
rememoram o passado para o tempo presente, para serem (re)construídas.
Logo após a apresentação pela apresentadora, as imagens exibidas passam
a ser do estúdio onde foi gravada a série. Na abertura, Bonner em trajes informais
(sem o terno com o qual apresenta o telejornal) enuncia:

Bonner: É nesse estúdio do Projac7, no Rio de Janeiro, montado


especialmente para esse encontro, que nós vamos fazer esse mergulho
nos 50 anos de história do jornalismo. Quem vai nos ajudar, a recontar
um dos momentos mais importantes dessa história, tá aqui com a gente,
são os nossos colegas jornalistas:
(Bonner vai andando pela arena, apresentando os jornalistas, dispostos
numa bancada em círculo, com o logotipo da Rede Globo ao centro. A
cada apresentação, uma foto antiga do jornalista, entre as décadas de
70 e 80, é projetada em telões dispostos no cenário).
Renato Machado: Essa imagem me lembra, infelizmente, uma década
que já está bem distante.
Bonner (ri): Mas você estava muito elegante. (Caminha para o jornalista
que está ao lado). De quando é isso, Luis Fernando?
Luis Fernando Silva Pinto: De quando eu devia pesar uns 12 quilos.
(A imagem corta direto para Glória Maria, que é apresentada apenas
com crédito, sem fala de Bonner)
Glória Maria: Isso foi quando eu fiz a posse do presidente Jimmy Carter.
Era Washington e, se não me engano, o Luis Fernando estava, não?
Luis Fernando: Não, não... Eu cobri a do Lincoln8.
(Todos riem)
Bonner: E temos também Tino Marcos... Olha que franja bonita ali!
Tino Marcos: Que fartura! Que saudade dessa fartura!
Bonner: De Roma, direto para o estúdio do Projac, Ilze Scamparini!
Ilze Scamparini: Obrigada, Bonner.
Bonner: E quem está aqui também é o Gaaalvão Bueno. Rapaz, que
cabelo, Galvão, que beleza!

7 É nome dado pela emissora ao complexo onde estão localizados os estúdios, cenários de novelas e
programas da Globo, no Rio de Janeiro.
8 Trata-se de uma ironia. Abraham Lincoln assumiu a Presidência dos EUA em 04.03.1861.

76
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Galvão Bueno: Só sei que faz muito tempo.


Bonner: Paglia, você não mudou nada.
Paglia: Nada.
Bonner: A mesma pessoa.
Paglia: É praticamente a mesma pessoa.
Bonner: André Luiz Azevedo.
André Luiz Azevedo: A gravata eu ainda tenho até hoje.
Bonner: Temos aqui: Caco Barcelos, magro...
Caco Barcellos: E lá atrás uma manifestação, uma periferia como sempre.
Bonner: A nossa voz, a nossa imagem no Nordeste, Francisco José.
Francisco José: Isso foi no início da minha carreira na Globo há mais de
35, 37 anos.
Bonner: E agora eu vou pedir, por favor, palmas para Sandra Passarinho.
Essa é a nossa pioneira, que nos honra aqui com a presença, para revisitar
um pouco da história desses 50 anos de jornalismo da Globo.
(Aplausos)
Sandra Passarinho: O tempo passou, né?
Bonner: Pedro Bial, olha só, é você magérrimo ali, hein! (Aponta para a
imagem no telão).
Pedro Bial: Isso aí me parece 85...
Bonner: Esse aqui, senhores... e senhoras é o Orlando Moreira. Pra ele,
palmas também. Orlando é um pioneiro, como vocês estão vendo por
essa imagem.
Orlando Moreira: Rio de Janeiro, mesma década dos 50 anos da Globo.
Bonner: Temos aqui Fátima Bernardes.
Fátima Bernardes: Olha, eu acho que estava a caminho do cabeleireiro,
se não me engano (risos).
Bonner: Heraldo Pereira, que elegância...
Heraldo Pereira: Isso é São Paulo. É São Paulo, década de 80.
Bonner: E, aqui, finalmente, o gaúcho de Santa Maria, Marcelo Canelas.
Marcelo Canelas: Aí era bem no começo. Saí do Rio Grande do Sul e fui
trabalhar em Ribeirão Preto, fim da década de 80.
(Entra uma vinheta de filmes antigos e a narração em off de Bonner)
Bonner: Vou convidar a todos vocês agora pra ver o primeiro vídeo que a
gente preparou especialmente para esse encontro aqui.
(Começa vídeo sobre a construção da Rede Globo).

Na narrativa introdutória à história, observa-se o enunciado de apresentação


de Bonner sobre o projeto da série. Logo no começo, aparece o advérbio
“especialmente”, que retoma a ideia de “série especial”. A ideia de “especial”
aparece reforçada, na sequência, por outros termos como “momentos mais
importantes dessa história”.
Ainda na caracterização do que será essa narrativa sobre o passado,
podemos pensar na apresentação dos autores das reportagens, os jornalistas
presentes no estúdio, como testemunhas que vão auxiliar o âncora a recontar os

77
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

fatos selecionados como principais para o jornalismo da Rede Globo. Há um jogo


nesse processo de seleção: os fatos são considerados como “os mais marcantes”,
como se essa característica fosse inerente a eles, como se fossem transparentes,
quando, na verdade, há uma seleção e um apagamento entre fatos da história.
Durante toda a série, o que se vê é um confronto na constituição da narrativa,
entre os “fatos da história” e aquilo que poderia ser compreendido como “fatos
na história (contada)” da Rede Globo.
O testemunho torna-se, então, elemento central e essencial na narrativa
sobre a história. Como lembra Ricouer (2007), o testemunho é um ponto de
inflexão no tangenciamento entre o que é memória e o que é história, existindo,
então, uma fala que pede crédito:

Existe uma estrutura básica nos depoimentos que trilha um processo


epistemológico a partir da memória declarativa, passando pelo
arquivamento e culminando com a produção de prova documental. Sua
estrutura fundamental é uma fala que relata algo visto e pede crédito: “Eu
estava lá; acredite em mim ou não, acrescenta ele; e se não acredita em
mim, pergunte a outrem”. (RICOEUR, 2007, p. 737).

O mesmo autor afirma que o testemunho tem um sentido quase-empírico,


ou seja, indica o relato de algum acontecimento que foi visto ou escutado
por alguém. Dessa forma, o depoimento já é relatado em outras dimensões
com um encadeamento de acontecimentos, que transfere o visto para o dito.
O testemunho também implica sempre numa relação dual: há aquele que
testemunha e aquele que recebe o testemunho. Apenas pela audição do relato, o
interlocutor irá acreditar ou não naquilo que lhe chega sobre fatos. Na narrativa,
o relato testemunhal serve como um instrumento a serviço de um julgamento,
de um juízo. Ele valora os motivos de uma ação, o caráter de uma pessoa, em
suma, atribui um sentido aos eventos.
Entretanto, não podemos pensar numa articulação ingênua para empregar
apenas o uso do testemunho numa operação que envolva a construção de memória
e rememória. Ao colocá-los todos juntos, num mesmo espaço, de “arena”, tem-
se a imagem de uma possível contestação, de onde abre-se caminho para o
debate público de ideias. A testemunha ganhará confiança do telespectador
quando for capaz de manter, ao longo do tempo, sua versão sem contradições.
Ainda nesse ritual de apresentação, é possível perceber algumas
regularidades, como menções a transformações no corpo e ao tempo de carreira
dos personagens, ou seja, os jornalistas. Além disso, esse ritual de apresentação
tem o papel de inserir os jornalistas na rememoração dos fatos, criando na
narrativa o efeito de lembrança e não de roteiro estruturado.
A apresentação dos personagens/jornalistas pode ser estruturada, para
efeitos de análise, em cinco grupos, a partir do tópico central utilizado por

78
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Bonner. No primeiro, são as referências ao corpo que trazem as menções ao


passado e à rememoração. É o que ocorre com Luís Fernando Silva Pinto ([...]
“eu devia pesar uns 12 quilos”), Tino Marcos ([...] “olha que franja bonita ali”),
Pedro Bial (“é você magérrimo ali, hein!”), Fátima Bernardes ([...] “eu acho
que estava a caminho do cabeleireiro”), Ernesto Paglia ([...] “você não mudou
nada”), Galvão Bueno ([...] “Rapaz, que cabelo, Galvão, que beleza”). Na relação
com o corpo, também estão as referências à elegância e às roupas, como ocorre
com Renato Machado ([...] “estava muito elegante”) e André Luiz Azevedo (“A
gravata ainda tenho até hoje”).
No segundo grupo, estão as apresentações a partir do pioneirismo, ou do
ponto de trabalho da emissora. Nesse caso, além do efeito emocional, produz-
se o efeito de testemunhas da história desde o seu princípio, que auxilia nos
processos de produção da verdade. É o que ocorre com dois jornalistas: Sandra
Passarinho (“nossa pioneira”) e Orlando Moreira (“um pioneiro”). Os dois são
também os que merecem reverência por meio de palmas solicitadas por Bonner.
Para além das referências ao corpo e da constituição desse pioneirismo,
no terceiro grupo, estão os jornalistas cujas apresentações foram feitas a partir
da origem geográfica, seja a menção a onde nasceram os jornalistas - caso de
Francisco José (“nossa imagem no Nordeste”) e Marcelo Canellas (“o gaúcho
de Santa Maria”) -, ao lugar onde trabalham atualmente - para Ilze Scamparini
(“De Roma, direto para o estúdio do Projac”) -, ou ao lugar onde trabalharam,
em algumas das emissoras da Rede Globo - caso de Heraldo Pereira (“Isso é
São Paulo”).
O quarto grupo de tópicos de apresentação diz respeito à menção ao
tempo de trabalho na emissora ou às datas das imagens que, concomitante à
apresentação, iam sendo projetadas. Apesar de recorrente na maioria, o que
auxilia a dar o efeito de credibilidade para comemorar e rememorar os fatos,
Glória Maria é a única apresentada apenas numa relação com o tempo ([...]
“quando fiz a posse do Jimmy Carter”).
Apenas em um dos casos, o que nos faz colocá-lo aqui num outro grupo,
há a presença de uma marca subjetiva e de estilo do trabalho do repórter, o que
caracteriza sua carreira. No caso de Caco Barcellos, ele aparece associado à
imagem de uma periferia, a que ele faz questão de reforçar “como sempre”. É o
único caso em que, na apresentação, faz-se uma referência a uma perspectiva
de trabalho e atuação.
Esse ritual de apresentação faz pensar numa discussão sobre o corpo
discursivizado compondo a narrativa. Como lembra Foucault (1977), o
poder opera sobre o corpo, investe-o, marca-o, obriga-o e dele exige signos
específicos. Opera ainda nessa apresentação o que pode ser dito sobre o corpo
e o que a memória sobre o corpo masculino e o corpo feminino permite ser
enunciado. É interessante pensar ainda que, em todas as apresentações em
que o corpo esteve presente no enunciado, quer seja do Bonner, ou do jornalista

79
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

apresentado, trata-se de homens, com exceção de Fátima Bernardes9, que, à


época, era esposa de Bonner e faz uma brincadeira com o cabelo. O que está
em jogo aí é um confronto entre lugar de fala, relação entre gêneros, (des)
autorizações e corpo como discurso. Nesse caso, os sentidos que emanam do
discurso de mulher jornalista na televisão, que, pelo pré-construído, deve ser
magra, de cabelos lisos, maquiada e com roupas discretas e elegantes, são
capazes de instaurar um efeito fundador da posição-sujeito em que o discurso
(machista) se inscreve e evidencia as “regras” do que se pode e deve falar
sobre o ser mulher.
Ao colocar os dois colegas jornalistas na categoria de “pioneiros”, existem
algumas tentativas de apagar diferenças, desigualdades e questões sociais como
gênero, que marcaram a história da televisão. De uma certa forma, há uma
escolha deliberada do diretor do projeto, no caso o próprio Bonner, de quem será
considerado pioneiro. Essa escolha é parte do discurso legitimador e dominante,
a fim de reconstruir o passado segundo um olhar de classe. Assim, fica clara a
necessidade de selecionar alguns nomes e sobrenomes para fazerem parte do
rol que deu forma ao jornalismo de TV.
Podemos ainda refletir sobre essa categoria “pioneiros/as”, sempre vaga e
pouco referenciada, principalmente no que tange à figura feminina, representada
no nosso recorte pela jornalista Sandra Passarinho. Historicamente e pelo pré-
construído, a mulher não se associa à imagem de bravura que a empreitada
pioneira demandaria para ser, por exemplo, correspondente internacional e
repórter especial, funções que a referida jornalista desempenhou, ainda nos
anos 1970.
Outra questão que também pode ser percebida diz respeito ao lugar
geográfico, às características e aos estereótipos que esse lugar de origem coloca
sob a luz da memória e pré-construídos. As identificações e estigmas sociais
são evocados pelas apresentações da abertura da série: “a nossa imagem do
Nordeste”, “a negra e o negro”, “o gaúcho”, “a pioneira”, “a estrangeira” etc.
Nesse sentido, é relevante, por exemplo, a inserção de Glória Maria,
como jornalista, mulher e negra que, desde os anos 1970, faz parte (e é assim
rememorada pela série) da história da Rede Globo. A narrativa da série considera
na construção dos personagens, não só a trajetória, mas também a representação
do caráter abrangente e integrador da proposta do Jornal Nacional, como a
inclusão de discussões mais contemporâneas, como a representatividade e o
respeito às diferenças.
O projeto da série produz discurso, visível desde essa apresentação, que
confere aos episódios um status de veracidade, como algo que ocorreu “de
fato” no passado, tomado como objeto de que se pode falar e quem são as
pessoas autorizadas a falarem. Por fim, lembramos que os enunciados a serem
rememorados, ou interditados via esquecimento, estão no bojo do interdiscurso,
9 William Bonner e Fátima Bernardes estiveram casados até 29/09/2016.

80
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

porque buscar o memorável no jornalismo é reconstruir o já enunciado e que,


por uma ou mais razões, permaneceu no tempo.

Considerações finais

A narrativa midiática constitui-se como uma rede dinâmica, inserida


em condições de funcionamento, que, em dado contexto, autoriza ou impede
certos dizeres, mas que, por outro lado, também produz os saberes desse
mesmo tempo. Tal fato nos é ainda mais importante quando o relacionamos à
credibilidade e ao discurso de verdade atribuídos ao jornalismo, dois de seus
pilares fundamentais.
Quando esse discurso midiático opera, produzindo uma “exposição” do
sujeito, do “eu”, realizada involuntária e/ou “voluntariamente”, colocando-se em
relevo o princípio da governabilidade de si e dos outros, os jornalistas convidados
passam a integrar um tenso e complexo jogo, sob o olhar atento de Bonner, que
os dispõe a ocupar lugares nessa ordem.
Podemos elencar o momento em que, ao serem alvos de uma intensa
exposição, os jornalistas se colocam como objetos, em que a experiência e a
admiração são espaços para a sujeição, a rendição e, por que não, o controle do
indivíduo. O interesse e o envolvimento, manifestados às imagens de arquivo,
passam a ser o principal responsável pela reconstrução dos significados
simbólicos mobilizados na/para a constituição de memórias, verdades e
credibilidade de fatos. Dessa forma, o processo de rememoração de “já ditos”,
(re)encetaram-se outros dizeres, promovendo, sobretudo, a emergência de
novos sentidos.
Através do acompanhamento da apresentação do primeiro capítulo da série
de reportagem especial no JN, nesse processo de (re)produção dos discursos,
pudemos constatar na narrativa, sobretudo pela movimentação da memória, a
presença de elementos relacionados à verdade, à história e aos arquivos, (re)
tomados e (re)elencados.
A reflexão empreendida neste capítulo colocou-nos diante de uma voz
institucional midiática que traz diferentes posições de sujeito enunciador, ou nos
termos de Foucault (2008), de descontinuidades no plano da fala, na tessitura
do relato midiático em torno da rememoração de fatos jornalísticos.
Sabemos que precisamos esquecer para lembrar e que a memória é porosa
na sua constituição. Na narrativa, os buracos são preenchidos por dizeres que
não se institucionalizam no discurso a não ser pelos fragmentos de rememória,
ajudados pelas imagens e depoimentos, encadeando-se para dar sentido ao que
ouvimos e compreendemos.

81
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

BERGAMO, Alexandre. Reportagem, memória e história no jornalismo brasileiro.


Mana. v. 17, n. 2. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: http://www.scielo.
br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132011000200001. Acesso
em: 18 jun. 2018.
COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político: derivas da fala
política. São Carlos: Claraluz,2006.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.
______. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1979.
KESSEL, Zilda. Memória e memória coletiva. Disponível em: <www.
museudapessoa.net/.../zilda_kessel_memoria_e_memoria_coletiva.pdf>.
Acesso em: 30 jun. 2018.
MARX, Karl.; ENGELS, Friederich. A ideologia alemã. 2. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Projeto
História, São Paulo, v. 10, 1993.
PADRÓS, Enrique Serra. Usos da Memória e do Esquecimento na História. Letras
- “Literatura e Autoritarismo”, Santa Maria, n. 22, p. 79-95, jan./jun. 1991.
PÊCHEUX, Michel. O poder da memória. Campinas: Pontes, 2007.
RICOEUR, Paul. A metáfora viva. São Paulo: Loyola, 2000.
______. A história, a memória, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp,
2007.
ROMANCINI, Richard. História e jornalismo: uma questão de método. In: LAGO,
C.; BENETTI, M. Metodologia de pesquisa em Jornalismo. Petrópolis: Vozes,
2007, p. 23-47.
SIMINONI, Rafael L. Arquivo, história e memória: possibilidades de diálogo
entre Luhmann e Foucault. Lua Nova, São Paulo, n. 97, jan-abr./2016.

82
Memória, reconstituição narrativa
e fontes/testemunhas em Notícia de um Sequestro

Fabiana Piccinin
Andressa Bandeira Santana

Narrar para lembrar

A ideia de que é pela competência narrativa que os indivíduos


sistematizam os fenômenos do mundo, dando ao tempo uma dimensão
humana, diz respeito à capacidade, sobretudo, de lembrar do que se
experiencia. Ou, como bem diz García Márquez na sua autobiografia Viver
para Contar, é a memória agente simbolizador da competência de dar sentido
e estruturação à narrativa. Não é sem razão que, também Benjamim (1994),
defende que as lembranças são mãe das musas da narrativa, evocando a
perspectiva grega. Em razão disso, a memória estabelece uma relação de
indissociabilidade à arte de narrar, sendo o recurso subjetivo a que recorrem
as narrativas tanto ficcionais quanto reais.
Assim, neste capítulo, discutimos a relação da memória com a narrativa
no livro-reportagem Notícias de um sequestro, do escritor Gabriel García
Márquez. Em García Márquez, esta dupla simbiótica se evidencia em toda
obra por ser uma narrativa jornalística que, em razão disso, assume-se em
comprometimento de vinculação com o real. Consideramos a importância deste
estudo por problematizar o lugar e a natureza das narrativas jornalística, e
nelas a referenciação aos fatos, porque construídas a partir da memória como
ferramenta estruturante deste processo. Ao entrevistar suas fontes, os jornalistas
valem-se de suas memórias e da memória que possuem dos acontecimentos
para compor suas narrativas que serão publicadas em jornais, telejornais, rádios,
sites, revistas e livros-reportagem.
Para darmos conta da problemática proposta, observando o papel da memória
nas narrativas jornalísticas, seguimos os seguintes passos metodológicos: 1)
revisão bibliográfica referente aos conceitos sobre memória e narrativa como
uma construção/versão do acontecido, considerando nesta perspectiva o impacto
dessa condição na narrativa jornalística, por seu compromisso com o real, 2)
apresentação de um mapa metodológico, construído a partir de categorias de
análise, fruto de um primeiro olhar exploratório do texto e, 3) a análise de
trechos previamente selecionados de Notícia de um sequestro, embasada no
referencial teórico levantado.

83
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Da memória estruturante da narrativa

O conceito de memória pode ser apresentado a partir de diferentes


perspectivas, desde cognitivas até filosóficas, o que demanda considerarmos
abordagens oriundas da sociologia e da história e, mais precisamente, da História
Oral1. Isto porque, desde a Grécia Antiga, a memória tem sido observada como
agente estruturante das narrativas. Para os gregos, era representada pela deusa
Mnemosine, a mãe das musas gregas e deusa da reminiscência. Como explica
Rosario (2002), o nome da deusa tem relação com a palavra “mimnéskein”
que, em grego, quer dizer “lembrar-se de”.
Nas narrativas da mitologia grega, Mnemosine era, de acordo com Freixo
(2007), uma Titã, irmã de Cronos (o Tempo). É interessante destacarmos a relação
da memória com o tempo, visto que as lembranças que utilizamos para narrar são
formadas justamente conforme o avanço do tempo, que precisa seguir para que
haja narrativa, posto que só somos capazes de narrar o que já aconteceu. Neste
sentido, bem atenta Benjamin (1994), quando trata do narrador, para dizer da
memória como a mais épica das faculdades, evidenciando a impossibilidade de
separação da memória e da narrativa, seja ficcional ou fática.
É pela memória que se dá a atualização de experiências passadas afim de
que possamos organizar o presente. Para Le Goff (1994), a memória é como uma
propriedade de preservação, que remeteria a um conjunto de funcionalidades de
natureza psíquica, com as quais o ser humano é capaz de atualizar informações
ou impressões passadas. Assim, compreendemos porque, do ponto de vista
da História Oral, segundo Hamilton (1996), em grupos, as memórias que são
originalmente individuais, nestes casos, podem inclusive produzir conflitos,
porque correm o risco de ser compreendidas como idênticas às lembranças dos
demais indivíduos. Ou seja, em reuniões de grupos de pessoas, é comum, de
acordo com Hamilton (1996), que haja debates entre os participantes sobre
as memórias de um evento, mesmo que todos tenham participado dele. A
discussão se dá sobre o que passou e sobre a interpretação que se deve dar à
rememoração do fato. O que, em última análise, responde pela complexidade
de uma narrativa construída a partir de relatos de quem viveu determinada
experiência, como é o caso das práticas jornalísticas. O jornalista, portanto, se
vale dos testemunhos de suas fontes que, como salientam Maia e Lelo (2014)
os testemunhos podem levar a conhecer e refletir sobre passados que podem ser
atualizados em qualquer momento.
Conforme Halbwachs (2004), as memórias de grupos sociais não são só as
lembranças que se tem quando se reconstitui fatos, mas também, lembranças
de outras pessoas sobre estes fatos. “Tudo se passa como se confrontássemos
1 A História Oral, conforme Martinez (2016), nasceu depois da Segunda Guerra Mundial como um
ramo de estudo e método da História. Para que este ramo da história se desenvolvesse, contou com os
avanços tecnológicos e com o desejo dos historiadores, desta época, de fazer o registro das experiências
dos envolvidos na Guerra.

84
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

vários depoimentos”. (HALBWACHS, 2004, p. 29). Mais uma vez, é importante


pensar desde a perspectiva jornalística, quando o autor diz que é “(...) porque
concordam no essencial, apesar de algumas divergências, que podemos
reconstruir um conjunto de lembranças de modo a reconhecê-lo”. Portanto,
as lembranças do passado sempre sofrem influência das características que
definem o indivíduo que recorda no presente. A lembrança atual de algo anterior
está, dessa forma, impregnada por diversas experiências além da que se tenta
recordar. E lembrar exatamente de algo, como fielmente aconteceu, torna-se
praticamente impossível, já que o ser atual contribui na recordação de fatos
vividos pelo ser anterior.
Assim, sempre que possível, nessa perspectiva, o indivíduo se apoia em
testemunhos para que se possa fortalecer ou enfraquecer, ou completar o que
sabe de um evento. É claro que o autor não está se referindo a qualquer tipo de
depoimento. Para que a memória de um componente de um grupo colabore com
a de outros, é preciso que se continue concordando com as memórias uns dos
outros e que existam muitos pontos de contato entre as memórias, para que as
lembranças sejam reconstituídas em um fundamento em comum.
De acordo com Halbwachs (2004), portanto, em um grupo, cada
memória individual é como um ponto de vista sobre a memória coletiva. Este
ponto pode mudar de acordo com o lugar que o indivíduo ocupa no grupo
e as relações que mantêm com outros meios. Essa relação entre os pontos
de memória individuais com a memória coletiva podemos ver no livro que
analisaremos neste capítulo, Notícia de um sequestro. O autor, no entanto,
faz uma ressalva, dizendo que mesmo que a memória coletiva envolva as
memórias individuais, estas não se confundem.
Como a rememoração não pode tudo, no sentido de que também as ausências
são estruturantes da memória que compõe a narrativa, as impressões precisam
se apoiar não somente em nossas lembranças, mas também em lembranças
de outras pessoas. É por meio dessa cumplicidade, que a confiança que se
tem em determinada evocação será ainda maior, porque assim, parece que a
experiência é recomeçada, não por uma pessoa, mas por várias (HALBWACHS,
2004). Dessa forma, quanto mais pessoas lembrarem de determinado fato,
mais “verdadeiro” ele parecerá.
Para Ricoeur (2007), a memória procura insistentemente ser fiel ao
passado. O autor percebe o esquecimento como uma forma avessa às regiões que
a memória ilumina. Portanto, as deficiências que procedem do esquecimento,
não devem ser tratadas como patologias ou disfunções (RICOEUR, 2007). O
esquecimento não é um defeito, mas parte integrante da memória. Em razão
disso, ao considerar as fragilidades de que a memória é acusada, Ricoeur
(2007) adverte que esta pode ser considerada pouco confiável, porque é
a única ferramenta de que se dispõe para significar o que se declara para
lembrar. Sempre precisamos recorrer ao que nos lembramos para nos referir

85
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

ao passado e, ao fim e ao cabo, é a memória que pode nos levar ao passado


individual ou coletivo.
Por decorrência da memória ser essa ferramenta de reconstituição do
passado, os fenômenos que estão em nossas reminiscências, conforme o autor,
estão também sempre perto do que somos. As experiências de que lembramos
constroem a narrativa que fazemos de nós, de forma que, memória e narrativa
trabalham juntas na constituição e reconstituição de coisas e das pessoas. É
possível percebermos a importância que a memória possui na perspectiva de
Ricoeur (2007) visto que por meio dela formam-se a identidade de culturas,
comunidades e pessoas. As lembranças, ou seja, a memória de uma cultura, uma
comunidade ou uma pessoa são as responsáveis por sua constituição, é por meio
delas que se formam, se narram e fortalecem suas características e identidades.
Em Bergson (1990), encontramos o conceito de memória como uma forma
de “sobrevivência das imagens passadas” (BERGSON, 1990, p. 49) na medida
em que qualquer percepção que temos é memória, pois, só percebemos, o
que já é passado. O que se alcança por meio da percepção, mesmo parecendo
recente, configura-se na memória. (BERGSON, 2006). Em relação ao passado,
Bergson (1990) o percebe como virtual, cheio de possibilidades de construção
e reconstrução a partir do papel da memória na reconstrução dos eventos
sucedidos. O presente, portanto, não existe na medida em que tudo que é, já foi.
O passado vem justamente por meio de imagens presentes que, assim, deixam
de ser. A constituição atual, portanto, afeta continuamente a rememoração do
passado (BERGSON, 1990), de modo que as experiências passadas completam
as experiências presentes.
As imagens passadas, nessa dinâmica, misturam-se com a percepção do
presente, podendo substituir essa percepção (BERGSON, 1990), o que aponta,
mais uma vez, para a fragilidade da memória. Mesmo que estas imagens
se conservem com o objetivo de ser úteis, como salienta Bergson (1990), a
todo momento as experiências presentes, misturadas e enriquecidas com as
experiências já adquiridas, confundem-se e misturam-se cada qual em seu
período de tempo. O que responde, em última análise, pelo poder de “criação”
da memória e da ideia de que o narrado será sempre uma versão mais ou menos
aproximada do evento sucedido.

Memórias para narrar os feitos jornalísticos

Conforme Sodré (2009), os enunciados que compõem as notícias são


também uma sequência de narrativas que, por decorrência, acionam as estruturas
de memória de quem as dão a conhecer. A narrativa é, dessa maneira, qualquer
discurso que consegue evocar um mundo que pode ser espiritual, material e
real e que se encontra em determinado espaço e tempo (SODRÉ; FERRARI,
1986) mediadas pela linguagem. Assim, também Medina (1996) diz que não

86
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

é apenas na literatura que o autor deve ter competência para a manipulação


da linguagem – neste caso, escrita – mas também o jornalista, como narrador
contemporâneo, que faz da narrativa a essência do seu trabalho, deve possuir
esta habilidade. É dizer que, não apenas escritores, mas os jornalistas ao lidar
com suas narrativas, acionam competências na manipulação das técnicas
de escrita com fins de adequação às demandas das mídias. Gabriel García
Márquez é um bom exemplo desta simbiótica relação entre narrativa literária e
jornalística, visto que usava as técnicas de escrita de ambas naturezas por vezes
juntas, ao longo de sua obra. O que legitima e responde pela eleição de uma
de suas obras para análise nesta discussão. A narrativa, assim, estrutura desde
reportagens na mídia impressa, audiovisual ou na web e em livros-reportagem,
como também constitui, conforme Sodré e Ferrari (1986), os fatos cotidianos
dos jornais diários. Para os autores, a narrativa jornalística está até mesmo nas
respostas do lead encontradas em notícias.
Por outras palavras, é o mesmo possuindo estratégias narrativas diferentes,
reconhecemos aí as distinções e pontos em comum entre textos jornalísticos e
literários. Assim, é possível que os profissionais que acumulem as funções de
jornalista e escritor acabem por aprender a realizar uma narrativa em função da
outra. E o próprio García Márquez já disse que o jornalismo o ajudou muito com
seu ofício de escritor. “O jornalismo me ensinou recursos para dar validade às
minhas histórias” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 47-48).
Para Medina (1996), a literatura tem o mérito de auxiliar o jornalismo a
ser mais humano. Ou seja, as técnicas que o jornalismo utiliza da literatura,
contribuem para que as histórias contadas por ele se tornem mais humanizadas
e, por consequência, aproximem o leitor. Além disso, para Sodré (2009), García
Márquez pode ser considerado um bom exemplo de acumulador das funções de
jornalista e de escritor, não só pela qualidade da produção, mas também por
ser um repórter que utiliza de recursos literários em seus textos jornalísticos.
É característico de García Márquez, de acordo com as observações de Sodré
(2009), o uso do jornalismo como um gênero literário, mesmo que García
Márquez estivesse ciente das diferenças entre literatura e jornalismo. Nessa
utilização em comum de técnicas jornalísticas e literárias, García Márquez
aciona memória como estruturadora das suas narrativas. O que se evidencia
no fato de que toda informação trazida pelo escritor/jornalista, para compor sua
narrativa, depende da memória de suas fontes.
Assim, quando se pensa em narrativa jornalística, Medina (1996) ressalta
que a estrutura não deve seguir um modelo fechado de pirâmide invertida posto
que o real não cabe em uma fórmula. O real exige a capacidade de sermos
maleáveis narrativamente (MEDINA, 1996). Podemos pensar, neste caso, nos
livros-reportagem que seguem fórmulas diferentes das que orientam as notícias
hard news. Para Lima (2009), a reportagem, em especial no formato livro, é
a maneira jornalística que mais se utiliza do fazer literário. Neste sentido, os

87
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

livros-reportagem, como Notícia de um sequestro, têm liberdade de tratar da


notícia com mais detalhes.
Posto isto, observamos o papel da memória na narrativa jornalística conforme
aponta Sodré (2009), quando, diante de um fato, fazemos uma apreensão que, além
de racional, é sensível, o que está relacionado também à condição e posição social
do indivíduo. Antes de Sodré (2009), Lima (1998) já apontava que o jornalismo
transcendia a reprodução dos fatos, visto que a ação jornalística está carregada
de intenções, de formas de compreensão do mundo para as quais se aciona a
capacidade de interpretar e rememorar. Ao escrever suas matérias, o repórter
traz consigo sua visão de mundo, seus valores sociais e culturais, baseado como
se viu (LIMA, 1998), no funcionamento da memória. Para recordar, utilizamos
do que fomos e do que somos, de nossos pontos de vista, que podem ou não,
corroborarem com de outras testemunhas. Assim, perceber algo para poder narrar
depois, está totalmente ligado à memória que se possui desse fato.
Para Lima (2009), a memória é o resgate de riquezas tanto sociais quanto
psicológicas, em um movimento aplicável à construção da narrativa do livro-
reportagem. Neste sentido, ainda conforme Lima (2009), justifica-se porque o
livro-reportagem vai além da informação bruta e pretende, na humanização do
relato, uma compreensão dos indivíduos em seus contextos social e cultural a
partir da significância que o fato busca retratar. É dizer que dado o fato de que
o livro-reportagem é uma forma de comunicação jornalística de caráter não
periódico, é uma narrativa bastante especial enquanto produto cultural. Isso se
dá porque o livro-reportagem não se caracteriza por ser um produto jornalístico
qualquer. Para o autor, o livro-reportagem dá novos contornos narrativos ao
jornalismo, porque, ao demandar a investigação para a construção de uma
narrativa mais liberta utiliza de conceitos e técnicas de áreas como a história
e a literatura, exigindo, por extensão, um bom manuseio das memórias e suas
possibilidades, na medida em que se utiliza da técnica da entrevista das fontes,
tomadas aqui como testemunho.
Assim, o livro-reportagem, ao lidar com as memórias de longo prazo, é também
feito da narrativa para além dos fatos atuais. Como não possui periodicidade, a
ligação do livro-reportagem com o tempo é de longa duração, tratando de temas
que permanecem interessantes à sociedade, em uma visada diferente das notícias
diárias. Para o autor, a grande qualidade do livro-reportagem está em seu poder de
estender as funções “orientativa” e informativa do jornalismo de estilo cotidiano.
Dessa forma, torna-se característico do livro-reportagem preencher lacunas que
o jornalismo do dia a dia2 não cobre (LIMA, 1998) – o que, na perspectiva do
2 A profundidade elencada por Lima (1998) como característica do livro-reportagem demanda o
acionamento e recuperação de diferentes memórias de duas formas: 1) o livro reportagem pode ser fruto
de compilações de textos já publicados em jornais, como é o caso de Relato de um Náufrago de García
Márquez ou 2) um texto pensado para ser livro, construído a partir de critérios jornalísticos pautados
pela narrativa aprofundada, baseada em fontes documentais e orais como é o caso do livro-reportagem
objeto de análise Notícia de um sequestro também de autoria de García Márquez.

88
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

autor, contribui para que os leitores tenham compreensão mais abrangente da


contemporaneidade. Por este mesmo prisma, Martinez, Correio e Passos (2015)
salientam o caráter de certa forma atemporal dos textos do Jornalismo Literário que
buscam mais retratar grupos e situações do que se preocupar com o valor-notícia.
Acreditamos que estes textos permaneçam sendo lidos também por tratarem de
condutas não apenas noticiosas, mas também humanas.
A memória é problematizada também no que diz respeito à condição
fundamental de sua escuta. Para Damasceno (2013), há limitações e
dependências do trabalho do jornalista neste movimento porque, diz o autor,
este só é “dono” de determinada memória quando está presente no local,
podendo-o narrar por conta própria, em primeira pessoa. Mesmo nestes casos,
ainda assim, é comum que recorra à memória e às percepções das suas fontes,
carregadas por sua vez, de suas memórias que resultarão na construção da
narrativa jornalística feita a partir da seleção das ações e falas. Da memória,
portanto, dependem tanto os jornalistas quanto as fontes que entrevista.
Para Palacios (2010), o jornalismo se configura, pelo exposto, como
a própria memória em ato. E como esta é múltipla, individual e coletiva
(PALACIOS, 2010), quanto mais fontes forem buscadas para relatar o passado,
mais versões do passado existirão (PALACIOS, 2010). Mesmo tão plural,
visto que cada indivíduo faz o seu próprio recorte dos fatos que presencia, a
memória é claramente evidenciada como ferramenta na narrativa jornalística.
Como diz Damasceno (2013), em razão disso, cabe ao jornalista ser o mediador
da memória dos fatos que já são públicos. Nesta mesma perspectiva, Maia e
Tavares (2017) apontam a relação do jornalismo com o tempo, visto que, o
jornalismo é um agente de memória.

A memória em Notícia de um sequestro

O jornalista e escritor colombiano Gabriel García Márquez é conhecido


mundialmente por suas obras literárias e jornalísticas. Por conta da qualidade
de sua produção, em especial o famoso Cem Anos de Solidão, García Márquez
foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Ao perpassar sua
obra, percebemos que a memória lhe foi sempre um assunto caro, tanto como
temática, quanto como técnica. No livro-reportagem Notícia de um sequestro,
por exemplo, ainda que a memória não apareça como temática, se constitui
como a própria técnica de rememoração para que a narrativa avance.
Na obra, publicada em 1996, García Marquez narra, por meio dos
testemunhos de fontes, os sequestros que ocorreram no auge do poder de Pablo
Escobar e seus narcotraficantes, na Colômbia. Diversos jornalistas e parentes de
figuras importantes no governo do país foram feitos reféns como moeda de troca,
para que Escobar e os seus não fossem extraditados pelos crimes cometidos. Em
um pouco mais de 300 páginas, García Márquez mistura técnicas jornalísticas e

89
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

literárias para apresentar, com todo o fôlego, seu poder de apuração jornalística
e capacidade de organização narrativa.

Analisando a memória

Para a análise, elencamos três formas mais recorrentes de estratégias de


memória utilizadas, observadas por ocasião do primeiro olhar exploratório da
obra e que consideramos que mais contribuem para a organização e produção
de sentido da narrativa. Foram selecionados trechos de Notícia de um sequestro
obedecendo o critério de presença longitudinal ao longo do livro, que pudessem
representar essas evidências, buscando dessa forma, identificá-los no decorrer
da narrativa. Assim, os excertos escolhidos por evidenciar padrões de repetição
relacionados às narrativas baseadas na memória do narrador e de suas fontes
foram agrupados a partir do reconhecimento de três tipos de memória: a) a
memória de contexto, b) a memória de tempo e c) a memória de verbo.
No caso da memória de contexto, seu embasamento é ideia de um sentido
conjuntural que a diegese traz, dando lugar a atores e eventos que tecem a
estrutura do acontecimento que origina o livro. São trazidos exemplos de
memória de fatos relacionados ao sequestro daquelas personagens permitindo
a compreensão da situação nos âmbitos sócio-políticos da história. Na memória
de tempo, trabalha-se com a dimensão da temporalidade, tentando justamente
articular esse conceito com a ideia de que só se narra o que já se viveu e que
de algum modo se pode elaborar. Trata-se da conexão memória e marcações
cronológicas. Na categoria memória de verbos, destaca-se situações em que
a memória aparece com ênfase linguística no texto. É a força da ação ligada à
memória que constitui a estratégia narrativa.
É importante salientar que, em alguns exemplos selecionados, verificamos
a presença de mais de um tipo de memória, o que reforça a estrutura narrativa
na perspectiva do objetivo pretendido. E para efeito de destaque às formas de
memória presentes nos referidos textos, as construções frasais foram negritadas.

a) memória de contexto:
A memória de contexto configura-se numa articulação fundamental à
estruturação da narrativa, especialmente do livro-reportagem que parte em sua
origem, de um fato gerador inserido em um contexto. Neste sentido, as remissões
são indissociáveis a esse narrar, dando-lhe forma e sentido.
A narrativa trata de dar ao leitor elementos que o permitem desenhar o
mapa e, por consequência, o sentido do sequestro à luz da problemática atuação
do narcotráfico na Colômbia

A Colômbia não havia tomado consciência de sua importância no


tráfico mundial de drogas até que os narcotraficantes entraram na alta

90
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

política do país pela porta traseira, primeiro com seu crescente poder de
corrupção e suborno, e depois com aspirações próprias. Pablo Escobar
tinha tentado se insinuar no movimento de Luis Carlos Galán, em 1982,
mas Galán tirou-o das listas de candidatos e o desmascarou em Medellín
diante de uma manifestação de cinco mil pessoas. Pouco depois Escobar
chegou como suplente à Câmara de Deputados por uma ala marginal
do liberalismo oficialista, mas não esqueceu a afronta e desatou uma
guerra mortal contra o Estado, em especial contra o Novo Liberalismo.
(...) No dia 18 de agosto de 1989, Luis Carlos Galán foi metralhado
em praça pública no município de Soacha, a dez quilômetros do palácio
presidencial e no meio de dezoito guarda-costas bem armados. (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2014, p .27).

Por meio da memória de contexto, a obra apresenta fatos importantes para


a organização histórica e temporal dos acontecimentos, evidenciando datas que
localizam o poderio e a extensão do narcotráfico na Colômbia, bem como suas
relações com o poder oficial e não oficial. Além da perspectiva sócio-histórica,
o trecho é um exemplo da memória temporal já que a contextualização acaba
por usar marcadores temporais como datas e advérbios temporais. Neste
sentido, é interessante pensar no que Le Goff (1994) fala sobre a memória ser
uma propriedade que serve para preservação e atualização de informações ou
impressões passadas. Mais um trecho em que é possível perceber esta estratégia
de memória é:

Villamizar, na verdade, já era um sobrevivente. Como deputado havia


conseguido aprovar o Estatuto Nacional de Estupefacientes em
1985, quando não existia legislação ordinária contra o narcotráfico
mas apenas decretos dispersos de estado de sítio. Mais tarde, Luis
Carlos Galán lhe indicou que impedisse a aprovação de um projeto de
lei que os parlamentares amigos de Escobar apresentaram na Câmara
com o propósito de se tirar o apoio legislativo do tratado de extradição
vigente. Foi sua sentença de morte. No dia 22 de outubro de 1986
dois mercenários que fingiam fazer ginástica na frente da sua casa
dispararam contra Villamizar duas rajadas de metralhadora quando ele
entrava em seu automóvel. Escapou por milagre. Um dos atacantes foi
morto pela polícia e seus cúmplices, presos, foram libertados poucos anos
depois. Ninguém pagou pelo atentado, mas também ninguém duvidou
sobre quem tinha sido o mandante. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 29).

Percebemos o uso da memória de contexto aliada à memória de tempo, visto


que, a data do fato é fundamental para organizar a narrativa cronologicamente.
Há outro exemplo em que a narrativa usa da memória de contexto para localizar
o leitor, mais uma vez, as datas também estão presentes.

O primeiro sequestro daquela série sem precedentes – no dia 30 de


agosto, apenas três semanas depois da posse do presidente César
Gaviria – havia sido o de Diana Turbay, diretora do telejornal Criptón e
da revista Hoy x Hoy, de Bogotá, e filha do ex-presidente da república e

91
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

chefe máximo do partido liberal Julio César Turbay. Junto com ela foram
sequestrados quatro membros de sua equipe: a editora do noticiário,
Azucena Liévano; o redator Juan Vitta, os cinegrafistas Richard Becerra
e Orlando Acevedo, e o jornalista alemão residente na Colômbia, Hero
Buss. No total, seis. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 33).

Notamos como essa forma de utilização da memória é usada para que


o leitor compreenda a dimensão do que acontecia na Colômbia, e acaba por
justificar a importância do livro-reportagem em si. Essa forma de compreender
a Colômbia de uma época, utilizando memória e depoimentos, concorda com a
forma na qual Ricoeur (2007) compreende a memória como uma formadora de
identidades e culturas. Afinal, para quem busca conhecer melhor esse período
colombiano, Notícia de um sequestro é um registro da identidade e da cultura
dessa época. Mais um trecho que exemplifica o uso da memória de contexto em
Notícia de um sequestro, a seguir:

Os primeiros a saber com certeza quem tinha Maruja Pachón e Beatriz


Villamizar em seu poder foram Hernando Santos e o ex-presidente
Turbay, porque o próprio Escobar mandou dizer isso aos dois por escrito
quarenta e oito horas depois dos sequestros através de um de seus
advogados. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014 p. 45-46)

Para que as informações acima sejam escritas é necessário o uso de várias


memórias. Estamos nos referindo às memórias das fontes entrevistadas e também
à memória de García Márquez. O resultado final, da união dessas memórias, é a
narrativa de Notícia de um sequestro. Essa colcha de memórias se justifica na
perspectiva de Palacios (2010) visto que, para o autor, o jornalismo é a memória
em ato. Além disso, as “quarenta e oitos horas” citadas indicam a relação que
esta narrativa estabelece entre passagem do tempo e memória.
Ainda na categoria de memória de contexto, trazemos mais este trecho:

O projeto do decreto foi discutido com uma diligência febril e um sigilo


nada comum na Colômbia, e foi aprovado no dia 5 de setembro de
1990. Este foi o decreto de Estado de Sítio 2047: quem se entregasse
e confessasse delitos podia obter como benefício principal a não
extradição; quem além da confissão elaborasse com a justiça, teria uma
redução na pena de até um terço pela entrega e confissão, e de até um
sexto pela colaboração com a justiça pela delação. No total: até metade
da pena imposta por um ou por todos os delitos pelos quais tivesse sido
solicitada a extradição. Era a justiça em sua expressão mais simples e
pura: a forca e o garrote. O mesmo Conselho de Ministros que assinou
o decreto rejeitou três extradições e aprovou três, como uma notificação
pública de que o novo governo só renunciava à extradição como um
benefício principal do decreto. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 83).

92
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A memória de contexto, o resgate do passado, contribui para o entendimento


do livro-reportagem construído. Nos trechos de memória de contexto, podemos
retomar como o jornalista é, no olhar de Damasceno (2013), um mediador da
memória de fatos que já são conhecidos pelo público em geral. A categoria de
memória de contexto, que traz informações complementares sobre os sequestros,
evidencia o uso de memórias de diversas fontes e, por conta disso, lembramos
de Palacios (2010) ao apresentar que quanto mais fontes são buscadas para
tratar do passado, mais versões do passado teremos. García Márquez dá voz às
fontes na busca de uma compreensão mais ampla e profunda, profundidade que
Sodré e Ferrari (1986), além de Lima (1998), acreditam ser característica do
livro-reportagem.

b) memória de tempo:
Deste ponto em diante, iremos destacar a categoria de memória de tempo
em que consideramos a relação entre memória e tempo. Há momentos em que
a memória do tempo é construída por meio das datas, objetiva e precisamente
como em: “O desaparecimento da equipe de Diana Turbay continuava sendo
um mistério dezenove dias depois, quando sequestraram Marina Montoya.”
(GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 37). Percebemos como a memória trata com o
tempo “dezenove dias depois”, ou seja, localiza a lembrança em um determinado
período depois do sequestro ocorrido. Enquanto em outras situações, se dá de
forma mais abstrata e psicológica, mas da mesma forma importante para a
construção de sentido do “clima” da narrativa.

Meia hora depois, o ex-presidente Turbay recebeu um telefonema de uma


fonte militar dizendo que sua filha Diana e Francisco Santos tinham sido
resgatados em Medellín por uma operação do Corpo de Elite. De imediato
telefonou para Hernando Santos, que soltou um grito de vitória e mandou
as telefonistas de seu jornal darem a notícia a toda a família dispersa.
Depois ligou para o apartamento de Alberto Villamizar e retransmitiu a
notícia tal como havia recebido. (GARCÍA MÁRQUEZ 2014, p. 159).

As expressões “meia hora depois”, “de imediato” e “depois” evidenciam


a organização cronológica que se encaixa na memória de tempo. Afinal, essas
informações apuradas por García Márquez sempre passam pelo crivo da memória
de cada fonte consultada. Há trechos em que a relação com a memória e o
tempo é focada em datas, como a seguir: “Isto recordou às cativas a promessa
anterior de libertá-las no dia 9 de dezembro, que tampouco se cumpriu” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2014, p. 179). A relação com a memória, neste exemplo, vai além
da data. Existe o verbo conjugado “recordar”, no caso, “recordou”. Este verbo
tem, claramente, estrita ligação com a memória, já que é de comum uso quando
falamos de algo que lembramos, que está em nossa memória.

93
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

c) memória de verbos:
Em diversos momentos, há palavras utilizadas que fazem com que
nos remetemos à memória e que podem ser identificados nos exemplos que
seguem. “Agiram tão entrosados e com tamanha rapidez, que Maruja e Beatriz
só conseguiram recordar retalhos dispersos dos dois escassos minutos que o
assalto durou” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 9). Aqui vemos um típico exemplo
do uso da memória na narrativa, visto que além do verbo “recordar”, há o
narrador nos dizendo que tudo ocorreu tão rápido que é difícil para as vítimas
lembrarem como tudo ocorreu.
Assim, por ser um momento de muita tensão, cheio de emoções e rápido,
as lembranças ficam confusas, transformam-se em retalhos difíceis de unir, para
ao final, recordar. Há também a ideia apresentada por Halbwachs (2004) de
que os depoimentos de uma mesma cena devem ser parecidos entre si para
que possamos reconhecer de que evento se trata. Mesmo Maruja e Beatriz não
podendo lembrar de tudo e recordar de formas diferentes, é possível perceber
que falam dos mesmos momento e fato. Ainda neste trecho é possível perceber
a importância da memória individual para compor uma memória coletiva. Como
Halbwachs (2004) enfatiza, a memória individual serve como ponto de vista
sobre a memória coletiva. Neste caso, a memória coletiva do dia do sequestro
recebe dois pontos de vista individuais, o de Maruja e de Beatriz.
Outro exemplo de memória de verbos é encontrado em: “Maruja enrolada
como um novelo no fundo do assento, nem lembrou que estava com um anel
de diamantes e esmeraldas que fazia par com os brincos” (GARCÍA MÁRQUEZ,
2014, p. 10). Evidenciando que Maruja não havia lembrado, no momento, de
seu anel, a memória é apresentada por sua falta neste momento. Assim, não
são apenas os verbos que remetem ao bom funcionamento da memória que
compõem Notícia de um sequestro. Há os momentos em que a memória não
funciona como deveria. “Só então Beatriz percebeu que tinha esquecido a bolsa
no banco do seu automóvel, mas já era tarde. Mais que o medo e a incomodidade,
o que não conseguia suportar era o fedor de amoníaco da jaqueta” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2014, p. 11). Ao trazermos essa parte da narrativa, evidenciamos a
ideia apresentada por Ricoeur (2007) de que o esquecimento não é um defeito
e, sim, parte da memória e que estas “ausências” completam o sentido da
narrativa. Sobretudo, compreendemos que, embora se use dados objetivos, a
memória narrativa é sempre uma criação e interpretação possível do evento. Na
página 14, há mais um exemplo da memória que não é única, evidenciando as
visões plurais e multifacetadas que se pode ter de um mesmo evento.

Beatriz, no outro automóvel, não pôde chegar a nenhuma conclusão


sobre o trajeto. Ficou o tempo todo estendida no chão do carro e não
recordava ter subido uma ladeira tão empinada como a de La Calera,
nem passaram por nenhuma barreira, embora talvez o táxi tivesse algum
privilégio para não ser detido. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 14).

94
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

No trecho acima, percebemos como os fatos podem ser diferentemente


elaborados pelas personagens, de forma similar à própria experiência de viver, em
acordo com as distintas retenções que as memórias podem ofertar. A memória
de Beatriz, que, contribuiu para a experiência do sequestro dela foi diferente da
experiência de sua amiga Maruja, bem como o modo como o narrador utiliza
dessa memória para narrar as impressões da sequestrada. A memória de verbos
segue sendo usada no livro todo e há exemplos mais simples também, como em
“Maruja lembrou de repete que tinha no bolso do blazer algumas sementes de
cardamomo, que são um tranquilizante natural, e pediu aos sequestradores que
a deixassem mastigar algumas” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2014, p. 12).

Considerações interpretativas: a memória como forma de organização


da narrativa

A partir do levantamento teórico a respeito da memória e da análise


empreendida na obra de García Márquez, observamos como a memória é uma
estratégia fundamental para a organização da narrativa. Capaz inclusive de
autenticar os eventos sucedidos especialmente por conta de o texto ser fruto da
escuta de fontes jornalísticas e documentais. Ou seja, é por meio da memória,
em sentido amplo, especial nas categorias analisadas, que García Márquez
desenvolve uma narrativa informativa, jornalística e esteticamente refinada,
já que possui estratégias linguísticas tanto do jornalismo quanto da literatura.
Por ser uma obra indexada como jornalística, os fatos apurados e narrados
por García Márquez são pautados na realidade e reconstruídos com base em
narrativas que, tanto documentais quanto fruto da oitiva das fontes, é muito
complexa pela dependência exatamente da memória individual e coletiva para
tal. E como dissemos, tendo a memória seu componente subjetivo, tanto para
quem lembra quanto para quem narra e escreve a partir disso, a narrativa será
sempre uma construção vista de uma determinada perspectiva.
Por conta disso, evidenciamos também, nos exemplos, que as categorias de
memória se misturam, já que, tratando de fatos reais, em um livro-reportagem,
também estão sempre submetidas à recriação do que lembram e como lembram
do fato as fontes consultadas. Assim, concluímos que a memória, enquanto
capacidade mobilizada para a estruturação da narrativa, ainda que com todas
as suas limitações e complexidades, é o que de fato se pode dispor para a
narrativa. O que permite pensar que, qualquer interpretação sobre o narrado,
é sempre um “narrado possível” fruto do acionamento das memórias daqueles
recursos - documentais e da escuta de alguém - fontes/entrevistados. E no caso
da narrativa de Notícias de um sequestro, esta é a versão oferecida por meio
da memória do narrador sobre as memórias das fontes acionadas por García
Márquez para a elaboração do livro-reportagem.

95
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e


história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BERGSON, Henri. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o
espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
BERGSON, Henri. Memória e Vida: textos escolhidos. São Paulo: Martins
Fontes, 2006.
DAMASCENO, Alex. A prática do Testemunho no Telejornalismo: Memória,
História e Justiça. Revista Brasileira da História da Mídia, Teresina, v. 2, n.
2, 2013. Disponível em: < http://www.ojs.ufpi.br/index.php/rbhm/article/
view/4118 > Acesso em: 06 jun. 2018.
ERBOLATO, Mario. L. Técnicas de codificação em Jornalismo. Petrópolis:
Editora Vozes, 1984.
FREIXO, Andre de Lemos. Entre Musas e Paradigmas: memória, historiografia
e a produção de conhecimento sobre o passado. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE
HISTÓRIA, 24., 2007, São Leopoldo. Anais...São Leopoldo, 2007.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Cheiro de goiaba: (conversas com Plinio Apuleyo
Mendoza). 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Notícia de um sequestro. 5. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2014.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Cem anos de solidão. 99. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2017.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Viver para contar. 11. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Centauro,
2004.
HAMILTON, Paula. Os debates sobre memória e história: alguns aspectos
internacionais. (Alistair Thomson, Michal Frisch e Paula Hamilton). IN:
FERREIRA, M. M; AMADO, J. Usos & Abusos da História Oral. Rio de Janeiro:
Fundação Getúlio Vargas Editora, 1996.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1994.
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão
do jornalismo e da literatura. 4. ed. Baueri: Editora Manole, 2009.
LIMA, Edvaldo Pereira. O que é livro-reportagem. 1 reimpressão. Tatuapé:
Editora Brasiliense, 1998.
MAIA, M. R.; TAVARES, M. S.. As temporalidades no jornalismo: do acontecimento
ás narrativas. IN: SOSTER, D. A.; PICCININ, F. Q. (Orgs.). Narrativas Midiáticas

96
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Contemporâneas: perspectivas epistemológicas. Santa Cruz do Sul: Editora


Catarse, 2017.
MAIA, M. R.; LELO, T. V. Memórias da ditadura militar no jornalismo: matrizes
do sentido nas narrativas sobre crianças vítimas de tortura. Revista Fronteiras:
estudos midiáticos, São Leopoldo, v. 16, n. 1, jan-abr. 2014. Disponível em: <
http://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/fem.2014.161.01
> Acesso em: 06 ago. 2018.
MARTINEZ, Monica. Reflexões sobre Jornalismo e História Oral: um campo com
mais convergências do que dissonâncias. Revista Observatório, Palmas, v. 2, n.
1, jan-abr. 2016. Disponível em: < https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.
php/observatorio/article/view/1869 > Acesso em: 06 ago. 2018.
MARTINEZ, M.; CORREIO, E. L.; PASSOS, M. Y. Entre fato e ficção:
personagens compostos e fictícios ou fraude em jornalismo?. Revista Estudos
em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 12, n. 2, jul-dez. 2015. Disponível
em: < https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-
6924.2015v12n2p238 > Acesso em: 06 ago.2018.
MEDINA, Cremilda. Povo e personagem. Canoas: Editora Ulbra, 1996.
MICHEL, J. O.; MICHEL, M. O. O jornalismo como memória: um estudo a partir
do gênero reportagem A floresta das parteiras. In: CONGRESSO BRASILEIRO
DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 38., 2015, Rio de Janeiro. Anais... Rio de
Janeiro: Intercom, 2015. Disponível em: < http://portalintercom.org.br/anais/
nacional2015/resumos/R10-2059-1.pdf > Acesso em: 07 jun. 2018.
PALACIOS, Marcos. Convergência e memória: jornalismo, contexto e história.
Revista Matrizes, São Paulo, v. 4, n. 1, jul.-dez. 2010. Disponível em: < http://
www.periodicos.usp.br/matrizes/article/view/38274/0 > Acesso em: 06 jun.
2018.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora
Unicamp, 2007.
ROSARIO, Cláudia Cerqueira do. O lugar mítico da memória. Morpheus - Revista
Eletrônica em Ciências Humanas, Rio de Janeiro, Ano 01, n. 1, 2002.
SANTOS, Kassia Nobre dos. Quando a fonte vira personagem: análise do livro-
reportagem A vida que ninguém vê da jornalista Eliane Brum. 2013. p.113 .
Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Letras – Mestrado) - Universidade
de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, 2013.
SODRÉ, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento.
Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
SODRÉ, M.; FERRARI, M. H. Técnica de Reportagem: notas sobre a Narrativa
Jornalística. São Paulo: Summus, 1986.

97
II
Narrativas,
subjetividades
e rupturas
Para além do robô, a reportagem: pavimentando
uma metodologia do jornalismo de subjetividade

Fabiana Moraes
Diego Gouveia

Introdução

O mercado de jornalismo no mundo vem passando por intensas e aceleradas


transformações provocadas, principalmente, pelos impactos das novas
Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Nesse cenário, o avanço dos
estudos em Inteligência Artificial (IA) tem modificado a produção de notícias,
que agora podem ser realizadas por robôs, por exemplo. Embora não esteja com
amplo uso nas redações, acredita-se que, em breve, esse modo de produção
domine o campo do jornalismo. Em sites como o da revista Forbes, robôs, desde
2010, estão escrevendo notícias. Esse passo foi dado depois que pesquisas da
“Northwestern’s Medill School of Journalism” resultaram na empresa Narrative
Science, responsável pela produção de programas de computador capazes de
redigir informações.
Esse investimento no uso de IA tem se intensificado também em um
contexto de jornalismo de dados. Desafiado pelo Big Data, termo utilizado
para nomear conjuntos de dados grandes e complexos que os mecanismos de
processamento tradicionais não conseguem lidar, o jornalismo de dados ganha
novas configurações diante da figura dos robôs-jornalistas que surgem como
ferramentas eficientes para lidar com a análise, captura, curadoria de dados,
pesquisa, compartilhamento, armazenamento e transferência das informações.
Assim, a observação do cenário atual leva a acreditar que a existência de
robôs-jornalistas é uma realidade irreversível para o campo da comunicação.
Dessa forma, a IA impõe novas demandas à área enquanto provoca reflexões
relacionadas ao fim do jornalismo. Há quem defenda, como o editor gráfico
do The New York Times, Wilson Andrews, que, neste primeiro momento, o
trabalho do jornalista não deve ser totalmente substituído. De acordo com ele,
os jornalistas devem continuar atuando quase como curadores, orientando e
calibrando os sistemas de inteligência artificial de modo que eles possam ser
mais eficientes, tanto do ponto de vista de informação de qualidade quanto de
adequação da linguagem (LEITE, 2017, informação eletrônica).
Essa perspectiva já corresponde à realidade de alguns profissionais da área
que atuam monitorando e programando as atividades dos robôs-jornalistas. No

99
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

entanto, restringir a atividade jornalística no futuro a apenas essa função seria


reduzir a capacidade do jornalismo no desenvolvimento de conteúdos.
A IA, apesar de configurar um processo de precarização do campo da
comunicação, não é a única responsável por essa realidade – entendendo,
importante frisar, essa precarização causada não pela IA em si, mas pelo
movimento de mera substituição desta pelo trabalho das e dos jornalistas,
sem levar em conta as diferentes dimensões impostas pela prática de narrar
o mundo. As redações funcionam hoje, segundo Trigueiro e Lins (2017),
com muitas colaborações dos cidadãos-repórteres e repórteres amadores que
acabam por atender, obviamente, a uma tendência de estímulo à participação
dos consumidores na produção da notícia, mas também a uma demanda de
empresas cada vez menores, estagiários assumindo papel de profissionais
formados e demissão dos jornalistas com mais tempo de carreira.
A sobrevivência do jornalismo enquanto atividade profissional e campo
de produção de conhecimento está sujeita também, entre outros fatores, a um
retorno a sua origem: a ênfase na sua capacidade investigativa, na sua potência
narrativa, que se mostravam férteis já no início do desenvolvimento da prática
(permeada por interesses econômicos desde seu nascimento). A investigação é
apontada como a busca e comprovação de informações, mas não somente isso.
Não existe consenso entre os pesquisadores sobre o jornalismo investigativo:
para alguns, é uma categoria diferenciada e, para outros, é parte constituinte do
processo de produção de notícias. Na produção de notícias feitas pelos robôs-
jornalistas, há investigação de dados. Isso não pode ser negado, mas o jornalismo
investigativo começa a ganhar novos contornos com a contemporaneidade,
passando a utilizar outros elementos em sua constituição.
De acordo com Lage (2006), o futuro da notícia ficará mais bem
representado por meio da reportagem. E, hoje, tem sido observado o investimento
em reportagens investigativas que priorizem a subjetividade como estratégia
metodológica para o desenvolvimento de narrativas na contemporaneidade.
Schudson (2010) explica que, até 1830, a objetividade não era fator determinante
na divulgação de informações nos jornais. Isso porque, no mundo, a imprensa
era deliberadamente partidária. Os periódicos da época tratavam assuntos
relacionados ao comércio e à política com opinião. O público, na verdade,
esperava encontrar nos textos posicionamentos, bússolas para o pensar (ou
reiterar o já sabido). Esse retorno do jornalismo às suas origens não está ligado
a produções sensacionalistas, como as do século XIX, mas à fuga de um modelo
que prioriza quase exclusivamente a objetividade nas narrativas do jornalismo.
Essa fuga parece ser, mesmo com o crescimento da IA, algo irreversível e
reclamado pela própria audiência (leitores, espectadores) atual, uma “massa”
heterogênea que cada vez mais questiona as representações geradas pelo campo
noticioso. É entendido que esses recortes, enquadramentos, usos e indagações
sistematizados dentro do jornalismo são gerados por sujeitos – e cada um desses

100
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

processos é atravessado pela subjetividade. Este artigo problematiza, então,


como o jornalismo de subjetividade (MORAES, 2015) constitui um método
importante para produção de narrativas e também para a própria manutenção
do campo, focando suas peculiaridades e sua dimensão humana. O objetivo
é apresentar o jornalismo de subjetividade e sua metodologia, pensando em
meios de sustentabilidade da área em um cenário de precarização e automação.

Abordagem metodológica

Como procedimento metodológico, este trabalho recorre à pesquisa


bibliográfica quando

[...] se realiza a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas


anteriores, em documentos impressos, com livros, artigos, teses etc.
Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros
pesquisadores e devidamente registrados. (SEVERINO, 2007, p. 122).

Dessa forma, foram consultados livros, artigos e outros trabalhos acadêmicos


sobre jornalismo, produção de notícias, reportagem, subjetividade, novo jornalismo.
Além de promover uma contextualização sobre o jornalismo e produção da notícia,
resgatando aspectos teóricos do campo, será proposto um caminho metodológico
de investigação para produção de jornalismo de subjetividade, que começou a ser
esboçado no livro O Nascimento de Joicy para demonstrar o uso de elementos
subjetivos necessários para dar conta de uma cobertura jornalística mais íntegra
- e integral. Dando continuidade à pesquisa iniciada no livro, Moraes (2015)
adiciona autores e autoras de áreas diversas, mas que se tocam, como Didi-
Huberman (2013), Perec (2010), Veiga da Silva e Marocco (2017) e Kilomba
(2013) na busca por um fazer jornalístico que fissure a epistemologia positivista
sobre a qual a prática - e parte de seu ensino foram construídos.
A pavimentação das estratégias metodológicas do jornalismo de
subjetividade é feita, neste trabalho, a partir dos recursos utilizados por Moraes
(2015) na reportagem observada nesta pesquisa. Por fim, este artigo se propõe
a contribuir para as reflexões relacionadas a narrativas na contemporaneidade,
traçando um caminho que não desprestigia a IA, mas que analisa os métodos
tradicionais e modernos do jornalismo como meios para garantir sua própria
manutenção.

Os novos jornalismos investigativos


Deslocamento do modo de objetivação jornalística

Os primeiros produtos jornalísticos atuaram como irradiadores de histórias,


faziam com que o desconhecido se tornasse próximo dos leitores. E essa realidade
que nos parece natural é, na verdade, construída pelos meios de comunicação.

101
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

No entanto, nos estudos do jornalismo, nem sempre as notícias foram vistas


dessa forma. Se, no começo, como vimos, os periódicos eram carregados de
opiniões, a partir de 1948, com a Associated Press, as notícias, utilizando-se da
tecnologia do telégrafo, que garantia agilidade na transmissão das informações,
passaram a focar na objetividade de forma que atrairiam também a atenção de
clientes de diversas bandeiras partidárias. Com a mudança de reportagens com
valores e posicionamentos a uma pautada em fatos, emergiu uma necessidade
de se estabelecer técnicas e normas que dessem credibilidade ao gênero. A
objetividade aparece nesse cenário (MOURA; ALVES, 2015).
A partir daí o que se viu no jornalismo foi uma preocupação em não
evidenciar a autoria dos textos, apagando a experiência e a voz de quem narra,
ideal preconizado pela teoria do espelho, segundo a qual as notícias são um
espelho da realidade. A notícia teria, assim, a função de orientação dos agentes
sociais no mundo, veiculando conteúdos que se tornam relevantes para a
manutenção da ordem social. Priorizam-se mais fatos e menos opiniões, numa
visão positivista da objetividade. A linguagem jornalística é, então, ancorada
em alguns princípios como objetividade, imparcialidade, universalidade e
pirâmide invertida. O uso da última determina o emprego de um modelo de
perguntas e respostas na construção do texto que atende à estrutura clássica
de apresentação de uma notícia. No modelo da pirâmide invertida (técnica
surgida em 1861 no jornal The New York Times), a narrativa é feita pela ordem
de importância da informação e não por ordem cronológica do acontecimento,
ou seja, consiste em colocar as informações mais importantes no primeiro
parágrafo, o lead, respondendo “o quê, quem, quando, onde, como, por quê?”.
A questão é que essa hierarquização, aparentemente técnica, própria de um
campo, colabora fortemente com a manutenção de hierarquias sociais que
emudecem e invisibilizam pessoas, grupos, regiões. Quando o jornalismo afirma
que um determinado “quem” deve ser prioritariamente noticiado, ele também
afirma que outros “quem” não devem sê-lo.
É justamente nesse tipo de notícia que os processos de automação
têm alcançado êxito. Por meio da Inteligência Artificial, robôs-jornalistas
têm conseguido desenvolver o lead, informando satisfatoriamente o público
interessado em uma leitura tradicional e rápida sobre um determinado assunto.
O desafio da IA, atualmente, é fazer com que os robôs avancem na progressão
textual estruturando notícias com título, lead e complemento do texto. Os
avanços mostram que a Inteligência Artificial não deve levar muito tempo para
conseguir isso.
Com o avanço do capitalismo, a notícia baseada no modelo da pirâmide
invertida se torna cada vez mais mercadoria, produto da indústria cultural. Os
manuais de redação, espécies de bíblias do como fazer notícias, vão perdendo
força dentro das salas de aulas, é verdade, mas ainda repercutem intensamente
no fazer. É interessante observar que um deles, o Manual da Redação da Folha

102
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

de S. Paulo, ainda comum em algumas universidades, redações e assessorias


de imprensa, reconhece a impossibilidade de alcançar a objetividade, mas
ressalta que “procedimentos consagrados de apuração e redação ampliam o
distanciamento crítico e tornam as descrições dos eventos tão exatas quanto
possível” (MANUAL da redação, 2018, p. 16).
Esses fatores geram um ciclo vicioso de informação com notícias repetidas
e escritas praticamente sob os mesmos pontos de vista (sem entrarmos aqui
em questões político-empresariais que permeiam os jornais, assim como todas
as empresas). Para romper isso, é preciso transgredir, acabar com esse jogo
de espelhos refletindo-se mutuamente. É preciso lembrar que as funções que
competem ao jornalista vão além do que meramente informar, mas também
incluir humanização de histórias, representação de sentimentos e emoções,
estes importantes para a compreensão de um fato, fenômeno. Da dinâmica
social, enfim.
Como contraponto à teoria do espelho, a partir da década de 70 do século
passado, teorias construtivistas passam a observar as notícias como formas de
ver, perceber e conceber a realidade, numa perspectiva mais de construção social
da realidade. De acordo com Traquina (2004) e Pena (2012), a objetividade não
seria uma negação da subjetividade, mas uma técnica que ajuda o profissional
a ordenar as ideias na hora de escrever os textos. A objetividade não precisa ser
negada, mas sim compreendida dentro de um quadro mais complexo.
“Uma boa reportagem se faz com precisão, rigor e correção, mas também
e sobretudo com emoção” (VENTURA apud SQUARISI; SALVADOR, 2004). Há
uma contestação do modelo da pirâmide invertida. Jornalistas como Tom Wolf,
Truman Capote, Gay Talese são exemplos de profissionais que abandonaram a
estrutura clássica e acrescentaram elementos literários, criando um estilo que
se popularizou sob o nome de Novo Jornalismo. No Brasil, a revista Realidade
(primeira edição lançada em 1966) continua sendo um dos exemplos desse
novo narrar.
Chaparro (2006 apud ROCHA; XAVIER, 2013, p. 141) considera que os
avanços da tecnologia e a rapidez da informação instigam os jornalistas de
hoje não apenas a dizer o que acontece, mas também a serem capazes de
compreender e atribuir significados aos fatos. Os robôs-jornalistas se encarregam,
em algumas redações, de criar os lides necessários para compreensão de um
fato, mas a função do jornalismo não é somente de informar: a ele cabe também
apresentar leituras sobre a sociedade. Nesse modelo de jornalismo, há um forte
investimento em levar imagens, sensações e sons para o leitor a partir de um
texto que busca fissurar e abrir novas perspectivas.
Há uma negação, nesse estilo de jornalismo, dos valores-notícia como
preponderantes para o repórter ir ao mundo. Se esses critérios definiam que
pessoas, situações e lugares mereciam ser pautas jornalísticas, com esse novo
procedimento, há uma quebra de pautas e/ou argumentos baseados em ideias

103
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

pré-concebidas e novos elementos se tornam temas de reportagens.


As reportagens ligadas ao novo jornalismo são, de acordo com Neveu
(2016), textos que exploram a base da vida social. Outro destaque dado pelo
autor é o método de trabalho utilizado nestes textos cujos temas passam por
uma revisão bibliográfica na área de sociologia, ciência política ou economia.
Para Neveu (2016), alguns métodos de trabalho foram emprestados de hábitos
acadêmicos, tais como pesquisa em bibliotecas, consulta a arquivos, leitura de
revistas científicas. Há, nos textos, assim, pesquisa acadêmica, representações
de afetos e sensibilidades. No processo de escrita, a observação continua como
um dos processos mais importantes na apuração dos fatos, mas não é o único.
Um importante recurso empregado é a representação de detalhes da vida das
pessoas e dos grupos que são objetos da reportagem. As emoções são reconhecidas
pelas reportagens. Há, de fato, uma valorização das subjetividades. Entre as
técnicas utilizadas, destacam-se o perfil, a narrativa em fluxo de consciência, a
presença do narrador em sua história e o uso criativo da linguagem.
Essas experiências se relacionam com o que vem se chamando de
jornalismo de subjetividade, conceito em desenvolvimento que será detalhado
na sequência.

Jornalismo de subjetividade: emoção também é informação

Com O Nascimento de Joicy, Moraes (2015) desenvolve uma reflexão


teórica sobre os limites da objetividade e as consequências que esta gera sobre
os enquadramentos da vida das pessoas. Para a jornalista, “[...] é preciso pensar
em um jornalismo que se utilize, sem constrangimentos, da subjetividade,
reconhecendo-a como um ganho fundamental na prática da reportagem e
mesmo na notícia cotidiana” (MORAES, 2015, p. 159).
Para isso, se propõe a realizar um percurso centrado no que chama
de jornalismo de subjetividade, articulando sua vivência enquanto repórter
e postulações de campos variados do conhecimento como a Filosofia,
Sociologia, Etnografia. A ideia da autora é estimular uma produção jornalística
que produza novas representações e que não se restrinja a uma objetividade
limitante (STASIAK; SCHWAAB, 2016). Entretanto, ela faz questão de destacar
que o jornalismo de subjetividade não significa um abandono da linguagem
jornalística e do mundo sensível como referência, mas “uma contestação à
concepção reducionista de objetividade gravada nos manuais de jornalismo,
que castra a autonomia do repórter e o condiciona a apenas ‘relatar fatos’”
(MORAES, 2015, p. 14).
É uma recusa a um jornalismo positivista, verificável e, como veremos
mais à frente, que privilegia um gênero em detrimento de outro. Nesse sentido,
se quer contribuir para uma discussão que parece longe de se findar no campo
do jornalismo: repensar os ideários de uma objetividade que, ao apagar o

104
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

subjetivo, acaba dificultando a reflexividade dos profissionais e contribuindo


para a reprodução de estereótipos e valores sociais dominantes nos processos
simbólicos – que ocorrem nas produções jornalísticas a partir dos sentidos
gerados nos jornalistas.
Um caminho primeiro para o desenvolvimento da prática jornalística
subjetiva está na própria forma de enquadramento da realidade: aprende-
se, comumente, que o que deve ser levado ao conhecimento do público é o
espetacular, o extraordinário. A questão é que este é um olhar muitas vezes
exotificante, aquele que busca enquadrar o outro sempre pelo que ele apresenta
como “diferente”. As semelhanças são deixadas de lado. Essa assimetria
proporciona aquilo que Hall (2016) chamou de “espetáculo do outro”, termo
feliz para pensar na vasta construção e difusão de estereótipos pelo equipamento
midiático. A prática subjetiva vai em busca de um modo de apreensão da realidade
não respaldado no espetacular, mas que se interessa também pelo banal; não
pelo insólito, mas aquilo o que é evidente; não pelo exótico, mas pelo endótico
(neologismo criado por George Perec para dar conta do evidente que não se vê).
Segue-se, assim, aquilo que o romancista e ensaísta francês classificou como
infraordinário, um método de observação do mundo baseado naquilo que não
chama atenção, naquilo que jamais, em tese, poderia ser alvo do interesse de
alguém. No pequeno e inspirador ensaio “Aproximações de quê?”, que abre o
livro no qual analisa o método, o autor observa:

O que nos fala, ao que me parece, é sempre o acontecimento, o insólito,


o extraordinário: cinco colunas na primeira página, largas manchetes.
Os trens só começam a existir quando descarrilam, e quanto maior é o
número de viajantes mortos, mais eles existem; os aviões só ganham
existência quando se perdem; os carros têm por único destino chocar-
se contra os plátanos: cinquenta e dois finais de semana por ano,
cinquenta e duas estatísticas: muitos mortos, e tanto melhor para a
informação se os números não param de crescer! É preciso que haja
por detrás do acontecimento um escândalo, uma fissura, um perigo,
como se a vida só devesse se revelar através do espetacular, como se
o eloquente, o significativo fosse sempre anormal: cataclismos naturais
ou reviravoltas históricas, conflitos sociais, escândalos políticos […]
(PEREC, 2010, p.13).

Esse (re)olhar de Perec (2010) é essencial, pensamos, para a produção


de um jornalismo de subjetividade, que não está preocupado em se guiar pelo
rosário de importâncias preconizado pelos valores-notícia. “Ver miúdo”, aqui,
vai além de descrições densas (necessárias e reveladoras). Há o exercício de um
olhar menos condicionado sobre o outro, a tentativa de desmonte de um certo
cinismo construído pela objetividade, aquele no qual jornalistas se escondem
atrás do fato e defendem-se dizendo que apenas “relataram a verdade.” Assim,
o ordinário é entendido como importante na construção de sentidos. Mais: eles

105
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

podem nos informar bem mais que as questões espetaculares, estas servindo
tanto para visibilizar determinado acontecimento - explosão, denúncia, acidente,
vitórias - quanto para invisibilizar o cotidiano que se esconde por trás destes.
Diz Perec (2010, p. 178) que o “escândalo não é a explosão, é o trabalho nas
minas. As ‘perturbações sociais’ não são preocupantes em períodos de greve,
elas são intoleráveis vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco
dias por ano”.
É preciso dizer que a adoção por um olhar miúdo na construção das
representações começou a ser alvo de interesse no campo do jornalismo já a partir
dos anos 30, durante o fortalecimento da Escola de Chicago. Criada em 1910,
ela fazia parte de uma certa “virada etnográfica” observada na antropologia: o
interesse migrava das ilhas distantes e dos “povos desconhecidos” para cidades,
suas populações, seus bairros e imigrantes, seus problemas, suas mudanças.
Agier (2015), ao fazer uma análise dos enquadramentos antropológicos
iniciais, aponta para um olhar imensamente exotificante e eurocêntrico por
parte dos que iam a campo - geralmente escolhendo aquilo que era distante,
“estranho”, aquilo que melhor podia se configurar como sendo “o outro”. Esse
enquadramento também transforma aquele que é visto em agente passivo, visto
que é o meu olhar o que perscruta. Enquanto observo, não me uno, mantenho
uma distância segura. Mas, quando abandonamos esse lugar (essencial também
na prática jornalística) que não se fecha ao encontro, abro a possibilidade de
meu olhar não ser o que domina, o entendido como não-contaminado, o isento.
O objetivo, enfim. É claro que o mero deslocamento do campo/objeto do olhar
não significa de saída a redução desse olhar exotificante sobre o outro, mas sem
dúvida o trabalho de autores como Robert Park, sociólogo e também jornalista,
mostrou que o jornalismo se favorecia bastante com a adoção de análises mais
apuradas e menos espetaculares para falar do comportamento humano. A
prática etnográfica, própria do campo das ciências sociais, é importante na
construção de um método para o jornalismo de subjetividade. Apesar de sua
enorme potência no fazer jornalístico, ela foi ora negada ora mal realizada
pelo próprio campo, em que se pese investigações que deixaram importantes
contribuições, aquelas que Neveu chamou de “jornalismo etnográfico” (2006).
É vital, aqui, também trazer a noção da visibilidade e de visibilidade distorcida
trabalhadas por Brighenti (2007) enquanto categoria para as ciências sociais,
como lugar de hierarquizações. Para o autor, visibilidade é uma propriedade que
pode ser usada para dividir as pessoas. Nesse sentido, trazer focos de luz para
grupos pouco ou mal representados também é importante não como “temas”
em si, mas justamente pelo fato de, nas relações assimétricas midiáticas, estes
ocuparem um lugar de desvantagem.
Esses estilos e modos de acesso são centrais na discussão. Há, sabemos,
a visibilidade de grupos vários em ambiente midiático, como indígenas,
quilombolas, mulheres marcadas pela violência, adolescentes, gays, mas como

106
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

essa visibilidade acontece? Frequentemente, com a utilização de enfoques que


não dão conta da diversidade e complexidade das pessoas e grupos retratados.
Assim, o que antes de tudo temos é uma visibilidade distorcida, que perpetua
estas pessoas e grupos em lugares de violência não só simbólica.
Há um outro elemento importante na sustentação de um jornalismo de
subjetividade: o entendimento de que a “contaminação” da emoção é antes
um ganho, e não algo a ser negado na construção das reportagens. Necessário
entender que o uso dessa emoção pelo jornalismo não é novo: desde o início
de sua história, a imprensa se utilizou da lágrima, do riso, da comoção, como
maneira de relacionar-se mais intimamente com o público - uma maneira até
hoje articulada, enfim, para vender mais exemplares, livros, programas. Mas a
instrumentalização da emotividade, para nós, no entanto, é uma estratégia tão
objetiva quanto a pirâmide invertida ou valor-notícia.
Entendemos que o uso da emoção, nesse jornalismo que preza também o
subjetivo, se dá primeiramente pelo não apagamento da jornalista/do jornalista
na produção que ela/ele realiza (entendendo que o lugar do jornalista não é o do
protagonismo, não é do heroísmo). A procura pela tradução desse encontro do eu-
outro na composição dos textos potencializa justamente a desconstrução de um
olhar de autoridade sobre a vida alheia, principalmente aquelas experenciadas
por pessoas/comunidades vulnerabilizadas. Nas reportagens, principalmente
aquelas nas quais a repórter cruza o caminho de pessoas historicamente
marginalizadas, de grupos desempoderados, das “ralés” (SOUZA, 2018), não
há possibilidade de não ser afetado pelo campo, pelo cotidiano de outrem - a não
ser que se vá para rua com a arquitetura da reportagem pronta e hermética, com
pressupostos que não podem ser contrariados. Em síntese, é dizer que emoção
e reflexividade não estão em separado - outra falsa dicotomia empreendida pelo
modo positivista, científico e verificável de estruturação do jornalismo (e não só
dele). Pensar o quanto situações vividas em campo colocam em xeque nossa
própria forma de enquadramento são necessárias para um fazer jornalístico
mais rico1.
É claro que entender emoção como falta de rigor, no jornalismo, é olhar
assentado no positivismo e, atrelado a esse, a um modo masculino que permeia
a prática (muito embora sejam as mulheres a maioria na profissão hoje, grande
parte seguindo pressupostos preconizados pela prática). O fato é que os valores
convencionais da profissão, um modo de fazer, permeiam o jornalismo de maneira
quase consensual. Duas questões aqui se impõem: o entendimento da emoção
como algo hierarquicamente menor que a razão e, ainda, o entendimento de
1 Aqui, eu, Fabiana, penso nos encontros com uma personagem maculada pelo crack e pelo sofrimento,
Carol (reportagem Casa Grande e Senzala, 2013, Jornal do Commercio), que ao me ver fotografá-la em
mais um de nossos encontros, em um dia em que havia passado algum tempo mendigando comida, me
olhou e disse: “tu quer me ver suja, né tia?”. As fotos eram para meu caderno de campo e não seriam
publicadas, mas a interpelação de Carol foi poderosa no sentido de mostrar sua compreensão do que
acontecia ali, dos enquadramentos midiáticos comuns sobre a pobreza. Decidi levar aquela frase a
público, para a reportagem, pois queria que ela desconcertasse e ensinasse não só a mim.

107
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que são as mulheres aquelas “naturalmente” ligadas ao primeiro, enquanto os


homens comandam, servindo como referência, o barco da racionalidade. Em
um simpático livro cujo texto original foi redigido para uma palestra cuja plateia
era de adolescentes, Didi-Huberman (2013) mostra brevemente que a emoção
historicamente foi relegada a um espaço do menos confiável (aos loucos, aos
velhos, crianças, mulheres). Esticando a corda, ele percebe que a mesma
desvalorização se dá entre os filósofos clássicos, totêmicos na cultura ocidental.
A razão (logos) deveria ser o farol do mundo, o guia, enquanto a emoção (phatos)
foi entendida como uma fraqueza, um defeito, uma incapacidade, o não confiável
(o “patético”) (DIDI-HUBERMAN, 2013, p. 21).
Esse lugar hierárquico menor ocupado pela emoção, associado a “todo resto”
que não foi civilizado, europeizado, tem relação direta com relações de gênero
e também de cor, com discursos autorizados e discursos pouco considerados.
Esse projeto de racionalidade trazido por Darwin e Platão é questionado em
instâncias várias - uma delas, a arte. Em O Projeto Desejo (2015), série de três
vídeos exibidos na Bienal de São Paulo, em 2016, a teórica e artista portuguesa
Grada Kilomba sintetiza de maneira poderosa as relações de poder estabelecidas
entre discursos, os autorizados sendo percebidos como os lugares da razão, da
neutralidade; os seguintes, os das prováveis distorções e calcados não em um
saber rigoroso, mas antes de tudo em impressões. No vídeo “Enquanto Falo”,
ela diz:

Comentários e avisos parecem-me aprisionar-me


em uma velha ordem colonial
Inadvertidamente, dizem-me
o que conta como a verdade
e em quem acreditar
lembrando-me de uma estranha dicotomia:
o que eles falam é científico
quando nós falamos, é não científico.
Quando eles falam, é imparcial.
Quando nós falamos, é parcial.
Quando eles falam, é objetivo.
Quando nós falamos, é subjetivo.
Quando eles falam, é neutral.
Quando nós falamos, é pessoal.
Quando eles falam, é racional.
Quando nós falamos, é emocional.
Eles têm fatos, nós temos opiniões.
Eles têm conhecimento, nós temos experiências.
Não estamos a lidar aqui com um simples jogo de
p-a-l-a-v-r-a-s
Mas sim com uma violenta hierarquia que define:

108
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

quem pode falar


e sobre o que se pode falar.

Veiga da Silva (2010) realizou uma importante análise teórico-etnográfica


sobre como as questões de gênero atravessam o fazer jornalístico e contribuem na
manutenção de desigualdade, na continuidade dessa hierarquia violenta à qual
Kilomba se refere em seu potente trabalho. Percebeu que esse fazer é permeado
por uma série de cânones estabelecidos culturalmente, sendo a masculinidade
(e toda a objetividade atrelada a ela) como o mais latente entre eles. Mais
tarde, em uma análise sobre livros-reportagem realizados por mulheres (no qual
também se debruça sobre O Nascimento de Joicy), Veiga e Silva e Marocco
(2017, p. 35) escrevem: “As lógicas positivistas-masculinistas se evidenciam
no jornalismo hegemônico tanto nas relações de poder como no delineamento
das práticas e nos tipos de conhecimento social”. Nesse bojo, a subjetividade é
algo a ser expelido da prática jornalística.

Discussão dos resultados


Metodologia – o subjetivo como elemento político no jornalismo

É possível identificar o caminho teórico proposto no jornalismo de


subjetividade articulado à reportagem O Nascimento de Joicy. Importante
dizer que esse caminho não estava estruturado durante a reportagem, mas que
ele nasce antes, na própria realização de outras investigações (a exemplo das
reportagens “A Vida Mambembe”, 2007; “Os Sertões”, 2009; e “Quase Brancos,
Quase Pretos”, 2010, todas publicadas no Jornal do Commercio).
Aqui, a partir de um contato contínuo com a Sociologia, área na qual
escolheu realizar seu doutorado, a autora vai realizando investigações que
procuram visibilizar pessoas e grupos cujas representações são diversas vezes
realizadas com lentes opacas, enquadramentos repletos de reduções (travestis
e negros no lugar da violência ou exotificação, por exemplo). Nessa busca, é
empreendido o esforço pelo encontro, pela semelhança, e não pela diferença (o
espetacular “Outro”). Também há a recusa a modelos de existência previamente
estabelecidos, assim como a abertura para o que o campo poderia trazer.
Assim, Joicy, apesar de não se enquadrar em um perfil de mulher transexual
que está previamente estabelecido em nosso imaginário - adornos como brincos
e batom, trajes como vestidos e saias - passou a ser a personagem de uma
investigação que durou meses e resultou na série publicada durante três dias.
Essa decisão rendeu, mais tarde, ruídos no ambiente da redação, quando
um editor escreveu na capa de jornal na qual Joicy surgia em sua casa como
uma Vênus de Botticelli: “você escolheu uma bicha pobre, feia e ignorante”. A
violenta frase - e uma série de cartas contrárias à presença de Joicy no jornal -
demonstrava que, se a repórter tivesse conformado a personagem no corpo da

109
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

mulher que leitores e chefes tinham previamente na cabeça (aquela vista nos
jornais, nas redes sociais, nas piadas, no cinema etc.), o assombro teria sido
menor ou mesmo não existiria. A imagem da mulher construída socialmente,
culturalmente, foi maculada, trazendo uma nova perspectiva sobre as construções
do feminino. Era fissura, e não repetição de modelos, algo que, entendemos, é
também obrigação de jornalismo.
Optou-se ainda pela não espetacularização da moradora de Alagoinhas
(agreste de Pernambuco), por uma observação densa, participante, com ênfase
no enfoque do cotidiano: foram vários dias acompanhando o movimento do
salão de beleza, as consultas médicas, as conversas com vizinhos e familiares.
Nessa observação, a repetição das ações, a banalidade dos fatos, traziam dados
importantes: a relação contínua com o celular, este um companheiro contínuo
da cabeleireira, quase sempre enfrentando solidão; as conversas no mercado
público, com frequentadores fazendo piadas ou olhando de maneira risível quando
Joicy passava. A escuta no pequeno sofá, enquanto Joicy cortava os cabelos de
seus clientes também era preciosa: ali, a contínua necessidade de falar sobre o
sonho que tivera com um anjo que lhe dissera seu novo nome mostrava como de
certa maneira o divino era usado como proteção por Joicy, como moeda para sua
aceitação em sua comunidade. O infra-ordinário mostrava sua potência. Acusar
a presença da repórter também é outra estratégia subjetiva assumida nesse
método, uma vez que ela proporciona um melhor entendimento da construção
própria que o jornalismo realiza de seus personagens. Não se trata de dar ênfase
a um testemunho, e mais acusar um processo de construção (ou seja, uma
verdade entre muitas). O processo de construção dessa metodologia, como dito,
está sendo pavimentado, mas podemos começar a sintetizar esse percurso, que
nasceu do abraço da longa prática com a teoria. Na busca por uma reportagem
que privilegie tanto a objetividade quanto a subjetividade, temos:

- Investimento na visibilidade de pessoas e grupos sociais cujas representações


são diversas vezes realizadas com lentes opacas em enquadramentos repletos
de reduções;
- Busca pelas semelhanças e não diferenças;
- Recusa a modelos de existência previamente estabelecidos;
- Não espetacularização, recusa da exotificação;
- Apuração e checagem intensas;
- Observação densa e participante (inclusive com registros imagéticos);
- Acatar a presença da repórter;
- Ter um tempo estendido para realização da reportagem;
- Trazer opinião e informação;
- Ser necessariamente polifônica;
- Convivência maior com as fontes – inclusive secundárias.

110
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Considerações finais

A ascensão do modelo do jornalismo imparcial e objetivo atende a uma


lógica industrial e capitalista de produção das informações. Não é, portanto,
de se estranhar os incentivos para redução de custos associados ao mercado
de notícias. De um lado, é possível identificar o encolhimento das redações e,
do outro, percebe-se o avanço e estímulo às pesquisas relativas à automação
do processo.
A sobrevivência do jornalismo e do campo está em despertar no público
o interesse por histórias e, sem dúvida, as reportagens investigativas com
investimento na metodologia do jornalismo de subjetividade são um caminho
possível.
Indo absolutamente de encontro a práticas positivistas estabelecidas na
maioria dos meios de comunicação, a subjetividade ganha, na contemporaneidade,
novo status com capacidade de atrair a atenção de um público exausto do modelo
mercantil de informações. Ela, ao reverter uma noção de uma realidade que
precisa ser espetacular para caber no jornalismo, vai além do que é preconizado
pelo valores-notícia, estes responsáveis por boa parte da invisibilidade de grupos
e/ou pessoas não vistas/ouvidas (ou vistas/ouvidas de maneira distorcida) nos
jornais, televisões, redes etc. Também possibilita que o encontro jornalista-
personagem seja mais explorado, evidenciado, mostrando que cada encontro
é um encontro em si, não repetível. Evidencia, mais ainda, o que a história de
cada uma dessas pessoas gera e desemboca nessas trocas:

Como poderia, pensando na questão de dar ou não dinheiro a Joicy,


deixá-la com apenas alguns trocados no bolso quando, após dois dias a
acompanhando, eu voltava para casa e ela permanecia, recém-operada,
sozinha e sem condições de trabalhar? [...] Como não sentir decepção
no momento em que Irene, mãe idosa da ex-agricultora, a visitou pela
primeira vez após a redesignação sexual2 e foi quase totalmente ignorada
pela filha que ela sempre julgou filho? No fim, o que é mais importante?
Respirar fundo e colocar esses “ruídos” de lado em nome do preconizado
e quase mítico distanciamento? Ou torná-los parte de uma escrita que,
de saída, se reconhece múltipla de sentidos e, é claro, imperfeita?
(MORAES, 2015, p. 22).

O jornalismo de subjetividade é, paralelamente às notícias produzidas


por robôs, uma tendência nas produções do campo, uma resposta ao próprio
desenvolvimento da IA, e este artigo lança um olhar diante de tema que continua
inquietando profissionais e pesquisadores para desvendar as tendências das
narrativas contemporâneas. Mais: é uma maneira de potencializar o jornalismo,
2 Termo usado no momento da escrita da matéria – hoje, entende-se que é melhor usar readequação
sexual.

111
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

área que perdeu boa parte de seu crédito nos últimos anos, uma forma de assegurar
espaço para pessoas e grupos cujas representações foram historicamente
mancas – e a própria mídia é responsável por boa parte desse fenômeno. Se
profissionais e mesmo estudantes desse campo aprenderam historicamente que
a prática, atravessada pela velocidade (outro bastião para defesa do privilégio
da objetividade), forja pessoas que não têm tempo para pensar (MORETZSOHN,
2007) – o que nos transformaria, ironicamente, em quase robôs – é hora de
reparar a produção massiva de sub-representações lançando um olhar mais
longo, generoso e integral sobre nossas realidades.

Referências

AGIER, Michel. Encontros Etnográficos – interação, contexto, comparação. São


Paulo: Editora Unesp; Alagoas: Edufal, 2015. 100 p.
BRIGENTHI, Andrea. Visibility - A Category for the Social Sciences. Current
Sociology, Londres, v. 55, n. 3, p. 323-342, 2007.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção? Que emoção!. Lisboa: KKYM, 2013.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: PUC-Rio e Apicuri,
2016. 264 p.
KILOMBA, Grada. O Projeto Desejo (enquanto falo; enquanto escrevo; enquanto
caminho). Lisboa, Berlim. 2015-2016. 3 vídeos, 9m59s
LAGES. Nilson. Estrutura da Notícia. São Paulo: Ática, 2006. 78 p.
LEITE, Samuel. Inteligência artificial e o futuro do jornalismo e da assessoria.
Meio e Mensagem, São Paulo, 20 mar. 2017. Disponível em: <http://sxsw.
meioemensagem.com.br/cobertura2017/2017/03/20/inteligencia-artificial-e-o-
futuro-do-jornalismo-e-da-assessoria/#>. Acesso em: 12 mai. 2018.
MANUAL da redação: Folha de S. Paulo. 21. ed. São Paulo: Publifolha, 2018.
486 p.
MAROCCO, B. Reportagens de ideias, uma contribuição de Foucault ao
jornalismo. Revista Galáxia, São Paulo, v. 18, p. 168-179, 2009. Disponível
em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/2649/1689>.
Acesso em: 10 mai. 2018.
MORAES, Fabiana. O nascimento de Joicy: transexualidade, jornalismo e os
limites entre repórter e personagem. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2015.
247 p.
MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos - Jornalismo e Cotidiano: Do
Senso Comum ao Senso Crítico. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2007. 304 p.
MOURA, S. R.; ALVES, C. A subjetividade no jornalismo: o método investigativo

112
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

da jornalista Fabiana Moraes na produção de reportagens complexificadas.


In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE JORNALISMO EM AMBIENTES
MULTIPLATAFORMA, 2., 2015, João Pessoa. Anais... João Pessoa: Coleção
Âncora Jornalismo, 2015. Disponível em: <http://www.bibliotekevirtual.org/
livros/registrados/978-85-67818-68-1/a05.pdf>. Acesso em: 10 mai. 2018.
NEVEU, Erik. Sociologia do jornalismo. São Paulo: Loyola, 2006. 216 p.
______. Novos jornalismos investigativos e ciências sociais: pensando
empréstimos, diferenças e hibridizações. Parágrafo, São Paulo, v. 4, n. 1, p.
28-39, 2016. Disponível em: <http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.
php/recicofi/article/view/376/373>. Acesso em: 10 mai. 2018.
PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2012. 236 p.
PEREC, George. Lo Infraordinário. Buenos Aires: Eterna Cadência Editora,
2010. 112 p.
PEREIRA JR, Alfredo Eurico Vizeu. Decidindo o que é notícia: os bastidores do
telejornalismo. 4. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. 142 p.
ROCHA, P. M.; XAVIER, C. O livro-reportagem e suas especificidades no campo
jornalístico. Rumores, São Paulo, v. 7, n. 14, p. 138-157, 2013. Disponível
em: <http://www.revistas.usp.br/Rumores/article/view/69434>. Acesso em:
10 mai. 2018.
SCHUDSON, Michael. Descobrindo a notícia: uma história social dos jornais
nos Estados Unidos. Petrópolis: Vozes, 2010.
SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. São Paulo:
Cortez, 2007. 304 p.
SOUZA, Jessé. A ralé brasileira. 3. ed. São Paulo: Contracorrente, 2018. 460 p.
SQUARISI, D.; SALVADOR, A. A arte de escrever bem. São Paulo: Contexto,
2012. 119 p.
STASIAK, L.; SCHWAAB, R. No encontro entre repórter e personagem: o percurso
de O nascimento de Joicy, de Fabiana Moraes. In: ENCONTRO NACIONAL DE
JOVENS PESQUISADORES EM JORNALISMO, 6., 2016, Palhoça. Anais...
Palhoça: SBPJor, 2016. Disponível em: <http://sbpjor.org.br/congresso/index.
php/jpjor/jpjor2016/paper/viewFile/263/24>. Acesso em: 10 mai. 2018.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: por que as notícias são como são.
Florianópolis: Insular, 2004. 224 p.
TRIGUEIRO, A.; LINS, A. M. G. A Formação em Comunicação e o Perfil
Profissional na Região Nordeste do Brasil: Possíveis Horizontes. In: CONGRESSO
DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO NORDESTE, 19., 2017,
Fortaleza. Anais... Fortaleza: Intercom, 2017. Disponível em: <http://www.
portalintercom.org.br/anais/nordeste2017/resumos/R57-0505-1.pdf>. Acesso

113
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

em: 1 jun. 2018.


VEIGA DA SILVA, M.; MAROCCO, B. O feminino no “livro de repórter”: uma
mirada epistemológica de gênero sobre as práticas jornalísticas. In: ENCONTRO
ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM COMUNICAÇÃO, 26., 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Compós, 2014.
Disponível em: <http://www.compos.org.br/data/arquivos_2017/trabalhos_
arquivo_HPYP1U9GFDE8MPXCN9XH_26_5505_20_02_2017_15_11_31.
pdf>. Acesso em: 1 jun. 2018.

114
Percursos metodológicos para análise de atos
de subjetivação em narrativas jornalísticas

Mayara de Araújo
Edgard Patrício

Introdução

O que é o jornalismo hoje? Quem são os jornalistas hoje? Estas perguntas têm
surgido com certa constância, estando no cerne de diversos estudos de jornalismo
contemporâneos, em um esforço de acompanhamento das transformações
inerentes ao campo. Na pesquisa que desenvolvemos, seguimos semelhante
caminho de questionamentos, abrindo, no entanto, uma vereda paralela, à
beira da estrada, circunscrita aos estudos sobre a problemática da narratividade
no discurso jornalístico (MOTTA, 2013; RESENDE, 2005): como fazemos
jornalismo hoje? Interessa-nos investigar, nesse sentido, os modos de apreensão
da realidade operados pelo jornalismo – que singra histórica e conceitualmente
entre fatos e valores (SCHUDSON, 2010) – e, assim, compreender como
construímos e somos construídos pelo real. Para tanto, voltamo-nos aos sujeitos,
buscando identificar como se dá a interação entre objetivação e subjetivação no
texto jornalístico e nas práticas e, mais especificamente, ensaiando a construção
de indicadores de atos de subjetivação nas etapas produtivas.
Pensar em como o jornalismo se enverga ao Outro na contemporaneidade
é entrevê-lo numa rede espessa (porém dinâmica) de poderes, firmada à base
de pequenas e grandes resistências, e em um cenário de transições. As rupturas
paradigmáticas ocorridas no campo, uma vez afetadas por transformações nas
práticas sociais (FAIRCLOUGH, 2010) – dada a relação umbilical do jornalismo
com o modelo sócio-político-econômico capitalista, urbano e industrial, interferem
diretamente no modo como os conceitos de objetividade e subjetividade foram/
são operados pelos múltiplos sujeitos da narrativa jornalística, estimulando e
desestimulando, autorizando e desautorizando, abrindo espaços ou silenciando
objetivações e subjetivações (assim, no plural), seja nos textos ou nas práticas
discursivas (FAIRCLOUGH, 2010).
Charron e Bonville (2016) distinguem quatro períodos em que as práticas
jornalísticas passaram por transformações paradigmáticas, que ajudam a perceber
a trajetória nada linear do discurso e das práticas jornalísticas, marcados, entre
outros, pelo tensionamento entre objetividade e subjetividade, fatos e valores. O
jornalismo de transmissão, próprio de meados do século XVIII, aponta para um

115
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

estágio inicial, quando os jornais funcionavam como canais, cujos conteúdos não
obedeciam necessariamente a critérios pré-estabelecidos – o impressor atuava
como um curador de anúncios, notas, pequenos registros. Funcionava como um
“elo entre ‘fontes’ e leitores” (CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 28), mas não
necessariamente desenvolvia uma identidade discursiva. Já no jornalismo de
opinião, durante o século XIX, como o termo já indica, parcialidade e subjetividade
dão o tom dos conteúdos, produzidos com intenções de ataque e revide. Nesta
fase, no entanto, ainda que os jornais tenham se tornado um importante campo
de disputas por poderes simbólico e político, o analfabetismo e os parcos recursos
tecnológicos, impedem os periódicos de alcançar uma maior parcela da população.
É durante o jornalismo de informação (no início do século XX) que, de fato, os
produtos jornalísticos terão um alcance considerável, interferindo de forma mais
relevante e estratégica no cotidiano das sociedades urbanas. Isto se dá graças a
uma série de transformações ocorridas à época: industrialização, produção em
massa, melhoria dos transportes e investimentos em publicidade (consequência
da evolução das práticas de comércio). Este momento é marcado, portanto,
pela percepção do jornalismo como oportunidade de negócio. Neste paradigma,
também como o termo sugere, vive-se uma nova virada, desta vez apontando para
a consolidação da imparcialidade e da objetividade como princípios norteadores
da produção jornalística – fenômeno justificado, entre outros fatores, como uma
estratégia comercial de ampliação do público-alvo.
Na contemporaneidade, por sua vez, percebem-se intenções de ruptura
com princípios até então canônicos, como a objetividade, a imparcialidade e
a percepção do jornalismo como a verdade dos fatos – tentativas estas que se
revelam em pesquisas acadêmicas e em experimentações midiáticas, no seio
das redações. No entanto, inclusive como marca da dinâmica entre paradigmas
(já que os autores admitem o entrecruzamento de elementos paradigmáticos
distintos numa mesma época e até em um mesmo produto), ainda que tais
princípios já sejam amplamente contestados (fazendo com que tal discussão
soe datada), eles são operados por muitas empresas de comunicação e por
jornalistas, como modo de atrair leitores e de conquistar credibilidade (MIGUEL;
BIROLI, 2010).
As transgressões do discurso e da prática jornalística a partir da
subjetivação, por sua vez, uma das características do jornalismo de
comunicação – atual paradigma que o jornalismo atravessa, segundo Charron
e Bonville (2016), dialogam com estudos de Medina (2014) sobre as
narrativas da contemporaneidade, produzidos desde a década de 1970. A
pesquisadora compreende esse cenário recente de transformações como um
momento de revisão de conceitos basilares do jornalismo e de se assumir um
fazer jornalístico que abrace a subjetivação, a contradição, a pluralidade de
vozes – que se afete. Para Medina (2014), o que se observa é uma espécie
de transição do jornalismo de explicação ao jornalismo de compreensão dos

116
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

sujeitos. “Os narradores da contemporaneidade abdicam então da arrogante


divulgação de realidades e de protagonistas preestabelecidos na generalização
plana e linear” (MEDINA, 2014, p. 44), dando lugar à sensibilidade e a fontes
não-convencionais, não-oficiais, complexas.
A autora ensaia um caminho para o fazer jornalístico contemporâneo
que se coaduna com a valorização da subjetividade observada por Charron e
Bonville (2016) no contexto do jornalismo de comunicação e com o conceito
de intersubjetividade pontuado por Bucci (2000). A autora propõe ao repórter
o mergulho na experiência, “para resgatar os perfis dos protagonistas sociais,
sobretudo aqueles que ainda não se consagraram como vedetes” (MEDINA,
2014, p. 43), e a adoção do pensamento complexo, “que transcende a dicotomia
racional/irracional” (MEDINA, 2014, p. 43).
Também para Bucci (2000), é necessário romper com dicotomias.
Segundo o autor, a resposta à possibilidade de se fazer jornalismo objetivamente
é subjetiva: “a objetividade depende de quem for o jornalista e de qual for a
história a ser investigada e contada. A melhor objetividade no jornalismo é,
então, uma justa, transparente e equilibrada apresentação da intersubjetividade”
(BUCCI, 2000, p. 93), que seria o intercâmbio de saberes e experiências entre
os sujeitos envolvidos no acontecimento, direta e indiretamente. Nesse sentido,
“o jornalista é, portanto, um sujeito falando de outro sujeito para um terceiro
sujeito. Ou é um sujeito falando com outro sujeito sobre um terceiro. E um
quarto. Rigorosamente, então, o jornalismo não tem objetos – só tem sujeitos”
(BUCCI, 2000, p. 93), o que dialoga com a perspectiva de múltiplos narradores
encampada por Motta (2013): não apenas o jornalista narra, mas também a
empresa jornalística e as fontes (com influências e intencionalidades distintas,
constantemente, em negociação).
Para Resende (2007), diante das transformações próprias da
contemporaneidade – o alargamento do espaço público, o avanço tecnológico,
a midiatização das relações e das sociabilidades, olhar para a narratividade no
jornalismo é também romper com as relações de dualidade que permeiam o
campo, uma vez que

(...) em se tratando de narratividade – espaço que não sobrevive de


dicotomias como opinião/informação/interpretação ou objetivo/subjetivo,
para tratarmos somente de algumas das noções com as quais opera a
epistemologia dominante no jornalismo –, um dos aspectos que prevalece
diz respeito à ordem própria da vida: não ser estanque. A narratividade
– e aí vale pensar a discursividade em seu sentido ampliado – busca
conhecer as falas, inclusive nas suas dissonâncias, com suas respectivas
personagens, naquilo que elas também apresentam de contraditório.
(RESENDE, 2007, p. 89).

O que esses autores contemporâneos apresentam, portanto, é um convite


a se repensar o modo como definimos o próprio jornalismo, que deixa de ser

117
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

encarado como a produção massificada de uma entidade jornalística idem para


uma população ibidem para ser lido como uma narrativa construída por sujeitos,
sobre sujeitos, com sujeitos.
Segundo Motta (2013), narramos para compreender quem somos e
entender como representamos o mundo. Narrar está, como afirmara Benjamin
(2012), estreitamente relacionado com algo de primitivo da atividade humana:
através da contação de histórias, traduzimos e fazemos perdurar representações
da realidade e de quem somos: assimilamos o mundo na medida em que o
traduzimos em palavras, quando superamos o emudecer que se abateu sobre
os soldados da I Grande Guerra retratados por Benjamin (2012). O mesmo se
aplica à compreensão dos sujeitos – emoções, sensações, histórias de vida se
apresentam na medida em que “empalavramos” os partícipes do acontecimento.
É possível perceber algo de revolucionário nesta ação:

Para o autor [Lluís Duch], exercer o ofício de homem equivale a dar


consistência verbal à realidade. Viver, resume, é um affair linguístico:
o homem só pode conhecer, conjecturar, assombrar-se, duvidar ou
questionar a realidade mediante a linguagem (DUCH, 1998). A linguagem
é o instrumento privilegiado pelo qual o homem se nega a aceitar o
mundo tal como ele é. (MOTTA, 2013, p. 64).

O termo “empalavrar”, cunhado pelo antropólogo catalão Lluís Duch e
citado por Motta (2013), coaduna-se com a atividade jornalística. Para além
da divulgação de eventos, o jornalismo se propõe a empalavrar sujeitos (a
partir de distintas intencionalidades e contextos idem). Perceber o jornalismo
como narrativa e o jornalista como narrador traz, portanto, ricas possibilidades
de leitura, em termos epistemológicos e metodológicos, pois, desse modo,
se assimilam jornalismo e jornalista como categorias mais amplas e menos
estanques. Para Resende (2005), em função dos “pressupostos conceituais
que formatam o seu texto – a necessária busca da verdade, valor encravado
na pressuposta imparcialidade de quem relata o fato” (RESENDE, 2005, p.
89), o repórter “se esvai do narrado e raramente se apresenta enquanto autor”
(RESENDE, 2005, p. 89), produzindo narrativas “autoritárias” (RESENDE,
2005, p. 89), justamente porque eliminam o sujeito que as conta.
Este narrador-jornalista transfigura-se, pois, enquanto elemento participante
da história e conceitualmente liberto de amarras próprias ao autor: o narrador
flexibiliza obrigações na organicidade da tessitura textual.

Em um texto habitado pelo narrador-jornalista, o seu criador é liberado


da obrigação de revelar qualquer verdade que seja; é o narrador quem
observa e conta a história, subtraindo-se da ação narrada (pressuposto
máximo da narrativa jornalística), sem ter de enfrentar a empiria
implícita ao mundo real. Ele é uma estratégia textual, e é no texto que
ele se revela. (RESENDE, 2005, p. 98).

118
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Os desafios epistemológicos (e metodológicos, inclusive) desta premissa se


constituem no fato de que a instância narrativa está circunscrita no texto, mas
fundada numa prática discursiva (FAIRCLOUGH, 2010). E se, na intradiegese
(MOTTA, 2013), o narrador-jornalista, segundo Resende (2005), se aparta de
determinações e obrigações, no seio das rotinas produtivas, as amarras constituídas
pela rede de poderes na qual o enunciado se funda ainda estão lá – interferindo,
alterando, dinamizando. Pode ser, por exemplo, percebida quando Amaral (1986,
p. 51) relaciona o que se exige do jornalista com as dificuldades que ele enfrenta:

(...) do jornalista, na busca diária da notícia, exige-se isenção e


imparcialidade. E nessa luta constante, ele enfrenta não só as dificuldades
criadas pela sua formação, posições e preconceitos, como outras cujo
controle escapa à vontade pessoal. É o caso dos interesses materiais da
empresa para a qual trabalha, da pressa para entrega do material, da
confiabilidade de informações prestadas por terceiros ou da omissão dos
mesmos.

O rol de interferências externas ao trabalho do repórter, listado pelo autor,


sugere que o produto jornalístico entregue por esse profissional é resultado de
um processo coletivo, constituído por muitos sujeitos, cada um com as suas
intencionalidades e imposições. É perceptível a atuação, por exemplo, da
empresa jornalística (“interesses materiais da empresa”), do(s) editor(es) ou dos
chefes imediatos desse repórter (“pressa para entrega do material”) e das fontes
(“informações prestadas por terceiros ou da omissão dos mesmos”). Portanto,
ainda que o repórter protagonize a escolha da pauta (motivada inclusive por
preferências/afetações pessoais), a produção e a escrita do conteúdo, não atua
isoladamente na construção dele.
Por sua vez, não se deve esquecer que o produto jornalístico é fruto ainda
de um processo e se constitui ao longo de diversas etapas: produção, apuração,
edição, planejamento gráfico (ERBOLATO, 1978). Assim, repensar o jornalismo
é repensar suas rotinas. Segundo Traquina (2005), quando a fé nos fatos
entra em crise – ainda durante o jornalismo de informação (CHARRON;
BONVILLE, 2016), os jornalistas passam a substituí-la por uma fé nas regras e
nos procedimentos, fazendo da objetividade não uma “negação da subjetividade,
mas uma série de procedimentos que os membros da comunidade interpretativa
utilizam para assegurar uma credibilidade” (TRAQUINA, 2005, p. 139).
Desse modo, a questão da objetividade passa a se revelar mais explicitamente
pelas rotinas produtivas: “a objetividade traça os métodos que o jornalista deve seguir.
Forçado pela exigência de rapidez, o jornalista precisa de métodos que possam ser
aplicados fácil e rapidamente. Assim, a objetividade ajuda o jornalista a vencer as
‘horas de fechamento’” (TRAQUINA, 2005, p. 141). Para o autor português, apesar
das críticas à objetividade enquanto ritual, “mesmo os proponentes do movimento
de renovação do jornalismo norte-americano (...) que encara o valor da objetividade
como um inimigo a abater, não encontram uma forma de o substituir” (TRAQUINA,

119
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

2005, pp. 142-143). Assim, o que se ensaia na contemporaneidade, segundo os


autores consultados, é o fim de uma percepção opositiva do binômio objetividade-
subjetividade, assumindo-os ambos como elementos fundantes do jornalismo, com
suas contribuições e limitações.
Esses pressupostos à produção predominante do jornalismo de
comunicação – produzida coletivamente por sujeitos narradores, cujas marcas
(ora mais subjetivas, ora mais objetivas) se apresentam ao longo do processo –
são centrais na construção da metodologia aqui descrita. Sob essa perspectiva,
questionamos: como a subjetivação se revela em produtos jornalísticos originados
no jornalismo de comunicação? Como objetividade e subjetividade se alternam,
fluem, nessas narrativas jornalísticas (que formas assumem)? E, considerando a
influência dos fatores externos, de que modo as rotinas produtivas do narrador-
repórter e a lógica empresarial da redação (narrador-jornal) estão relacionadas a
essa subjetivação dos discursos?

Construção metodológica

A fim de identificar os sujeitos narradores e os atos de objetivação e


subjetivação nos textos e nas práticas jornalísticas, optamos por construir um
percurso metodológico, em que se apliquem duas etapas de análise: uma à
narrativa textual, ou intradiegética, e outra à processual, ou extradiegética,
entendendo que os processos produtivos do jornalismo (a prática discursiva)
constituem também uma narrativa. Em ambas, pretende-se: 1. Identificar e
perceber a atuação dos narradores; 2. Identificar os atos de subjetivação por
eles empregados (e como interagem com os atos de objetivação). O método aqui
exposto vem sendo produzido a partir de contribuições da Análise Crítica da
Narrativa (ACN), desenvolvida por Motta (2013), e da Análise do Discurso Crítica
(ADC), de Fairclough (2001; 2016), além de outros autores – Tuchman (1999),
Medina (2014), Fígaro (2013), Miguel e Biroli (2010) e Tanikawa (2017).

ACN: contribuições para análise da narrativa textual

A ACN é composta por sete movimentos de análise, que podem ser aplicados
integralmente ou em separado. Nesta construção metodológica, optamos por
adotar duas contribuições de Motta (2013): o sexto movimento de análise, voltado
para a identificação das estratégias de objetivação e subjetivação no texto, e o
estudo das vozes narrativas. O sexto movimento é a identificação dos dispositivos
retóricos presentes nas narrativas jornalísticas. Para Motta (2013, p. 196), “toda
narrativa é um permanente jogo entre os efeitos de real (veracidade) e outros
efeitos de sentido (a comoção, a dor, a compaixão, a ironia, o riso, etc.)”. Partindo
desse princípio, o autor aponta alguns indícios desses efeitos, que podem ser
percebidos em recursos linguísticos e extralinguísticos: a “profusão de advérbios

120
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

e de expressões adverbiais de tempo e de lugar” (MOTTA, 2013, p. 200); o uso


de citações das fontes; “estratégias de referenciação” (MOTTA, 2013, p. 200); e
identificação sistemática de lugares e de personagens.
Por estratégias de referenciação, o autor entende “o uso de diversos recursos
de linguagem no texto narrativo para ancorar a significação na realidade referente”
(MOTTA, 2013, p. 200). “Será preciso perguntar: (...) o que faz a linguagem dar
a impressão de que as coisas pareçam evidentes? Quais operações linguísticas
realizam a tarefa de convencer o leitor de que o texto é uma representação fiel
da verdade e da realidade do mundo?” (MOTTA, 2013, p. 201). Alguns desses
referenciais são: de atualidade: “(dimensão de instantaneidade, de algo que
acaba de acontecer, de momento presente)” (MOTTA, 2013, p. 201), geográfico:
“(dimensão de um espaço configurado, de uma localização identificada)” (MOTTA,
2013, p. 201), de autoridade para dizer: “(dimensão de poder técnico, perito ou
político) que autentica e legitima a relação” (MOTTA, 2013, p. 201), de condições
de verdade: “(a precisão, a lógica da transparência jornalística, da representação
fiel)” (MOTTA, 2013, p. 201). Também o uso das citações se justifica como
estratégia de objetivação porque daria, segundo o autor, “a impressão de que são
as pessoas reais que falam, de que o jornalista não está intervindo. (...) As citações
produzem a sensação de uma proximidade entre a fonte e o leitor, dissimulam a
mediação” (MOTTA, 2013, p. 202).
Já a subjetivação tem por objetivo humanizar os fatos brutos, além de produzir
identificação e efeitos catárticos no leitor, comovê-lo. Estes recursos estão:

(...) nas escolhas léxicas, no uso de verbos prospectivos, verbos de


sentimento, verbos negativos, verbos de conselho, de advertência, etc.;
no uso de adjetivos afetivos, potenciais ou adjetivos de possessão; no uso
de substantivos estigmatizados como terroristas, radicais, pivetes, etc.
Estão nas exclamações, interrogações, comparações, ênfases, repetições
e reticências, mais comuns no noticiário que se pensa. Estão nas figuras
de linguagem (metáforas, sinédoques, sinonímia, hipérboles). Estão
nas ironias e paródias, que abrem âmbitos de significação. Estão nos
conteúdos implícitos, nas implicaturas de advérbios como “apenas”, “de
novo”, “só”, “ainda”, comuns nas manchetes. Estão nas pressuposições
e tantos outros recursos linguísticos e extralinguísticos que proliferam na
linguagem jornalística verbal e audiovisual. (MOTTA, 2005, p. 12).

Nesse sentido, o trabalho do analista consiste em “revelar a presença


de cada recurso da retórica jornalística, investigar sua dimensão semântica e
relacioná-lo à estratégia narrativa do narrador e do meio que utiliza” (MOTTA,
2005, p. 12). Essa orientação se torna mais complexa (e interessante para o
estudo que aqui intentamos) quando associada à perspectiva plurivocal do texto
jornalístico. Ao se considerar que a instituição jornalística e a fonte também
narram, retira-se do narrador-jornalista o mito de total autonomia em relação ao
texto final e a todo o processo produtivo.

121
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

O Primeiro-narrador, o jornal como instituição que fala, é extradiegético:


enuncia uma estória da qual não tomou parte, não testemunhou nem
apurou diretamente. O jornalista, Segundo-narrador, desempenha o
papel de narrador intradiegético, dentro da estória, porque ele apura,
seleciona, dispõe e hierarquiza as ações, conflitos, personagens, cenas e
enredo. A personagem, Terceiro-narrador, é um narrador definitivamente
intradiegético e detém menor poder de voz que o jornal e jornalistas na
cadeia. (MOTTA, 2013, p. 225).

No corpus selecionado para esta investigação, intentamos identificar que


marcas textuais indiciam a presença de três grupos de narradores: o narrador-
jornal (a instituição jornalística, neste caso o Diário do Nordeste), o narrador-
jornalista (Melquíades Júnior) e o narrador-fonte (indivíduos, empresas e grupos
sociais diversos consultados pelo narrador-jornalista), além de tentarmos perceber
que peso cada narrador tem nas narrativas: com que frequência surgem, de que
modo influenciam uns aos outros, em que momento parecem possuir mais ou
menos poder de voz – isso valendo-nos da análise de termos e elementos visuais
do projeto gráfico que indiciem a presença deles (como referências diretas ou
indiretas, no texto, à empresa jornalística; ou marcas de oralidade próprias da
fonte). É importante, no entanto, considerar a parcela de subjetividade inerente
ao método, principalmente porque nem sempre a negociação se expressa como
“um jogo explícito de forças colocadas sobre a mesa por esses atores. Realiza-se
mais frequentemente por meio de sutis jogos de interesses (...) como um poder
que está em toda parte e em parte alguma” (MOTTA, 2013, p. 224).
Por exemplo, ainda que o autor reforce a existência de uma hierarquia
de poder, “que flui de fora para dentro, do Primeiro para o Segundo-narrador,
e deste para o Terceiro” (MOTTA, 2013, p. 225), ele mesmo alerta para uma
negociação constante, podendo ocorrer de este poder simbólico “refluir de
dentro para fora, dependendo do capital político de cada ator e da correlação
de forças em cada situação concreta” (MOTTA, 2013, p. 226): muitas vezes,
a influência exercida pelo narrador-jornal pode torná-lo parte da história (e,
portanto, assumir-se intradiegético) ou a, depender dos arranjos contratuais, o
narrador-jornalista pode se fundir ao narrador-jornal.
Ao detalhar o método, Motta (2013, p. 211) reforça em diversos momentos
a importância de um olhar tridimensional e panorâmico: “o sentido provém não
só dos conteúdos, mas também dos artifícios discursivos postos em prática em
um ato comunicativo em contexto”. Aqui, os pontos de contato entre ACN e ADC
se explicitam.

ADC: contribuições para análise da narrativa processual

Para a ADC, o discurso contribui para a construção de identidades sociais,


de relações sociais entre as pessoas e de sistemas de conhecimento e crença,
estando, portanto, relacionado a uma dimensão textual, mas também de interação

122
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

e de ideologia. Possui, portanto, um formato tridimensional, como dissemos:


texto, prática discursiva e prática social. Na prática discursiva, que nos interessa
particularmente na construção deste percurso metodológico, o analista se dedica a
perceber os “processos de produção, distribuição e consumo textual, e a natureza
desses processos” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 106-107). Já a prática social
constitui-se terreno em que hegemonia e poder atravessam o objeto analisado.
Para o autor, hegemonia é “a construção de alianças e a integração,
muito mais do que simplesmente a dominação de classes subalternas,
mediante concessões nos meios ideológicos para ganhar seu consentimento”
(FAIRCLOUGH, 2001, p. 122). Ele associa, portanto, a luta hegemônica a
uma negociação constante, que se reflete e constrói em todas as dimensões do
discurso, justamente porque em todas elas o aspecto ideológico está presente -
dialogando, portanto, com a plurivocalidade de Motta (2013).
A ideologia é compreendida como elemento responsável por negociar
essas relações de dominação e por articular as dimensões social e discursiva,
principalmente, interferindo não apenas na reformulação de discursos, mas nos
modos de produzi-lo:

(...) a produção, a distribuição e o consumo (como também a interpretação)


de textos são uma faceta da luta hegemônica que contribui em graus variados
para a reprodução ou a transformação não apenas da ordem de discurso
existente (por exemplo, mediante a maneira como os textos e as convenções
prévias são articulados na produção textual), mas também das relações
sociais e assimétricas existentes. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 123-124).

Nesta pesquisa, como dissemos, procuramos voltar nosso olhar analítico


não apenas para o produto jornalístico acabado, mas para o processo de
produção das reportagens. É nesse sentido que Fairclough (2001) contribui,
ao perceber a importância de se investigar as condições de produção do
discurso jornalístico. Motta (2013) não se aprofunda no estudo das rotinas
produtivas (tanto que, ao elencar categorias de identificação d os efeitos de
real e de sentido, considera apenas o texto e não os processos de produção,
apuração e edição, por exemplo), ainda que aponte para a necessidade de
se investigar os contextos.
Fairclough (2016) dá pistas de como analisar os processos de produção
ao afirmar que os processos produtivos estão necessariamente relacionados
aos “recursos disponíveis pelos membros” (FAIRCLOUGH, 2016, p. 113) e
à “natureza específica da prática social da qual fazem parte” (FAIRCLOUGH,
2016, p. 113). Por recursos dos membros entende que sejam “estruturas sociais
efetivamente interiorizadas, normas e convenções, como também ordens do
discurso (...) que foram constituídos mediante a prática e a luta social passada”
(FAIRCLOUGH, 2016, p. 113).
O autor sugere, portanto, que para se compreender como os participantes

123
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

produzem e interpretam textos, é preciso antes conhecer “a natureza dos recursos


dos membros a que se recorre para produzir (...), e se isso procede de maneira
normativa ou criativa” (FAIRCLOUGH, 2016, p. 120). Mais adiante, o autor lança
ainda algumas perguntas-chave: “o texto é produzido individual ou coletivamente?
Há estágios distintos de produção? As pessoas do(a) animador(a), autor(a) e
principal são as mesmas ou diferentes?” (FAIRCLOUGH, 2016, p. 297).
Considerando isto, que atos (condutas, normas, convenções, estratégias)
dos narradores, afinal, poderiam apontar/indiciar subjetivação nos processos
de produção jornalísticos? O que seria agir mais objetivamente e agir mais
subjetivamente no trabalho jornalístico?

Indicadores de objetivação e de subjetivação nos processos produtivos

Tuchman (1999, p. 74) aponta que jornalistas definem a objetividade como


“um ritual estratégico”, utilizado com o objetivo de proteger “o jornalista dos riscos
de sua profissão”, “impostos pelos prazos de entrega de material, pelos processos
difamatórios e pelas reprimendas dos superiores” (TUCHMAN, 1999, p. 76).
Desse modo, percebe-se uma referência à objetividade que transpõe o texto,
revelando-a como uma necessidade procedimental. Partindo desse pressuposto,
Tuchman (1999) elenca algumas estratégias de objetivação utilizadas pelos
jornalistas. Para melhor visualizarmos esses indicadores, construímos um quadro,
apontando por que etapas produtivas estariam espraiadas.

Quadro 1 – Indicadores de objetivação segundo Tuchman (1978)

O que é agir objetivamente?


Etapas produtivas
Indicadores de objetivação Planejamento/ Apuração/ Redação Planejamento
Edição
produção Checagem gráfico
Seguir uma rotina produtiva
Atender à política editorial
da empresa jornalística
Verificação dos fatos
Apresentação de
possibilidades conflituais
Apresentação de provas
auxiliares
Uso de aspas
Estruturação da informação
numa sequência apropriada
Definição dos fatos mais
importantes e interessantes
Separação dos conteúdos sub-
jetivos em espaço específico
Fonte: Quadro desenvolvido pelos pesquisadores.

124
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Importante reforçar que Tuchman (1999) se mostra crítica a esses


procedimentos, apontados por seus entrevistados, pontuando sobretudo o
perigo de se adotar essa perspectiva datada de que os fatos falam por si e de se
acreditar numa relação quase de sinônimos entre objetividade procedimental e
profissionalismo.
Para pensarmos os indicadores de subjetivação nos processos, precisamos
primeiramente considerar as andanças históricas e teóricas dos dois conceitos.
De modo geral, como Tuchman (1999) revela, a objetividade se alinha à
homogeneização de produtos e à padronização de processos, com vistas
à continuidade de uma lógica hegemônica (SCHUDSON, 2010; AMARAL,
1986; TRAQUINA, 2005). Já a subjetividade aponta para a humanização e
a particularização dos processos, o que muitas vezes gera, em consequência,
resistências às hegemonias vigentes e propostas alternativas a elas (MEDINA,
2014; BUCCI, 2000; RESENDE, 2005).
Pode-se, portanto, pensar o binômio objetividade-subjetividade como uma
luta entre ordens discursivas que privilegiam aspectos distintos (FAIRCLOUGH,
2010; 2016). Ler objetividade-subjetividade segundo essa lógica é salutar
porque situa o embate não como uma rigorosa distinção dominador-dominado,
mas como uma troca dinâmica de posições. Assim, consideramos haver ordens
discursivas objetivadas e subjetivadas, que articulam e rearticulam procedimentos
a todo momento, com vistas a suprir seus interesses.
Seguindo a lógica de Tuchman (1999), que aponta para a objetividade
como ritual estratégico utilizado para dirimir riscos, acelerar processos e,
assim, preservar uma cultura organizacional hegemônica, acreditamos que
a subjetividade, neste jornalismo de comunicação, seria também um ritual
estratégico, cuja finalidade seria reorientar os mesmos procedimentos para
agendar a humanização das pautas e dos processos (fortalecendo o princípio
de responsabilidade social do jornalismo), a afetação dos narradores, a
emoção (MEDINA, 2014; BUCCI, 2000; CHARRON; BONVILLE, 2016) - não
necessariamente uma contraposição à objetividade, mas uma reorientação.
A partir das bases apontadas, indicamos como possíveis marcas de
subjetivação dos procedimentos jornalísticos as seguintes condutas: resistência
à compressão do tempo, reorientação das rotinas produtivas à valorização
dos sujeitos da narrativa jornalística, negociações com a política editorial
da empresa jornalística (com vistas à responsabilidade social do produto),
adoção eventual de imprecisões (afrouxamento de referenciais), parcialidade
justificada, mescla de discursos entre narradores (sobretudo narrador-jornalista
e narrador-fonte), legitimação de impressões do repórter como provas auxiliares,
ruptura à pirâmide invertida, desconstrução/reorientação de valores-notícia, e
diluição das fronteiras entre informação e opinião. Tais indicadores estariam
assim posicionados ao longo das etapas:

125
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Quadro 2 – Indicadores de subjetivação na rotina produtiva jornalística

O que é agir subjetivamente?


Etapas produtivas
Indicadores de
subjetivação Produção/ Apuração/ Planejamento
Redação Edição
Planejamento Checagem gráfico
Resistência à compressão
do tempo
Enfrentamentos/
negociações à política
editorial da empresa
jornalística (priorizando a
responsabilidade social)
Reorientação das rotinas
produtivas à valorização
dos sujeitos
Adoção eventual de
imprecisões
Parcialidade justificada
Adoção de impressões
do repórter como provas
auxiliares
Mescla de discursos entre
narradores
Ruptura à pirâmide
invertida
Desconstrução/
reorientação dos
valores-notícia
Diluição das fronteiras
entre opinião e informação
Fonte: Quadro desenvolvido pelos pesquisadores.

a) Valorização dos sujeitos e resistência à compressão do tempo

Como dito, transformações recentes no campo do jornalismo interferem


diretamente na definição dessas categorias. A compressão do tempo é um
exemplo. Entendida como uma das principais características pós-fordistas
assimiladas pelas rotinas de produção jornalística, a nova concepção de
temporalidade tem transformado a cadência nas redações de jornais. Para Figaro
(2013, pp. 1-2), “o tempo e o espaço, comprimidos pelas possibilidades das
tecnologias de comunicação e informação, foram assimilados nos processos de
produção de modo a reduzir o tempo para a reflexão, a apuração e a pesquisa
no trabalho jornalístico”.
Assim, agir objetivamente no contexto do jornalismo de comunicação
implica não só seguir as etapas de uma rotina produtiva, como sugere Tuchman

126
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

(1999), mas o mais rápido possível. Uma ordem discursiva subjetivada aponta
para uma resistência a esse imperativo temporal, perseguindo a reflexão, a
apuração e a pesquisa que a lógica hegemônica de trabalho retira do jornalista.
Sugere ainda, de modo geral, a reorientação dos métodos já utilizados em prol
da valorização dos sujeitos da narrativa jornalística (MEDINA, 2014).

b) Negociações com a política editorial da empresa e parcialidade justificada

Outra característica do atual paradigma é a aproximação entre jornalismo,


publicidade e marketing (FIGARO, 2013). Nesse sentido, ser objetivo no
jornalismo de comunicação não significa apenas “atender à política editorial da
empresa”, mas também estar alinhado à lógica de atendimento “às demandas
desenhadas pelo setor comercial” (FIGARO, 2013, p. 10). Ao considerar esse
aspecto, entende-se por marca de subjetivação negociações e enfrentamentos
às limitações impostas pela política editorial da empresa jornalística quando
esta cria obstáculos para a valorização dos sujeitos e o protagonismo da
responsabilidade social do jornalismo. Um jornalismo que se afeta, que encampa
certas bandeiras sociais e políticas, está sujeito a chocar-se com os interesses
empresariais do narrador-jornal, que, dentro da lógica capitalista, orienta sua
produção para que seja não apenas sustentável, mas lucrativa.
A adoção de uma parcialidade justificada também está relacionada a esse
tópico: quando se prioriza a responsabilidade social do jornalismo à mera escuta
aos dois lados do acontecimento. Miguel e Biroli (2010) associam o ideal de
imparcialidade praticado pela sociedade e pela mídia ao papel de silenciamento
de perspectivas antagônicas e de reprodução de estereótipos. Os autores apontam
a imparcialidade, portanto, como um risco à democracia, porque invalidaria as
diferenças, as especificidades dos grupos. Como alternativa a essa imparcialidade
reducionista, os autores apontam para a explicitação dos conflitos nas narrativas
jornalísticas, num movimento contrário ao simulacro de neutralidade proporcionado
pela técnica de escuta igualitária aos “dois lados”, pois “(...) o conhecimento
mais abrangente das relações sociais se funda justamente na interação entre as
diferentes perspectivas” (MIGUEL; BIROLI, 2010, p. 67), e citam Young (2000,
p.117 apud MIGUEL; BIROLI, 2010, p. 67) para melhor definir o conceito de
interação entre “outros multiplamente situados”:

A inclusão não deve significar simplesmente a igualdade formal e


abstrata entre todos os membros de um público de cidadãos. Ela
significa considerar explicitamente as divisões e as diferenciações sociais
e encorajar grupos diversamente situados a dar voz a suas necessidades,
interesses e perspectivas sobre a sociedade, de maneira que correspondam
a condições de publicidade e razoabilidade.

A parcialidade justificada constitui-se dessa explicitação de realidades

127
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

múltiplas, a partir de seus próprios atores, sem temer o conflito entre versões e
o desajuste da balança discursiva. O consenso ou a gestão neutra dos interesses
comuns nem sempre é alcançável e o produto jornalístico não deixa de ser
menos profissional por abrir mão dessas metas – pelo contrário.

c) Mescla de discursos, impressões do repórter e imprecisões

A ruptura da lógica asséptica de “apresentação de possibilidades conflituais”


(TUCHMAN, 1999, p. 79) se dá ainda através da mescla entre as vozes
dos narradores. Medina (2014, p. 76), por exemplo, defende uma ideia de
“fidelidade ao Outro reportado (...) que não é o mesmo que objetividade”. Para
a pesquisadora, um trato subjetivado demanda estabelecer uma relação EU-TU
com as fontes de informação.

O jornalista que apenas divulga não participa da esfericidade do signo da


relação, não compreende a dimensão humana na plenitude do encontro
sujeito-sujeito. O Outro não passa de uma fonte de informação, objeto
indistinto da rotina profissional. Por sua vez, esse objeto assim tratado
apenas declara o conveniente e o aparente, oferece a público a informação
permitida pela razão instrumental. Nem repórter nem fonte se alteram.
(MEDINA, 2014, pp.76-77, grifos da autora).

Quando, no entanto, se cumpre a relação sujeito-sujeito, ambos os partícipes


do diálogo abrem-se às incertezas, às imprevisibilidades, e se põem em igual
condição. Dessa atitude deriva não só a mescla entre vozes dos narradores,
mas também a adoção eventual de imprecisões, circunstância comum quando
se prioriza a fluidez da narrativa à descrição sequenciada e pretensamente
imparcial de informações.

d) Rupturas à pirâmide invertida e aos valores-notícia objetivados

Quanto ao reordenamento da informação, pesquisas como a desenvolvida


por Tanikawa (2017, p. 3520) apontam que “os jornais estão se tornando como
revistas de notícias”. A justificativa para essa transformação é o advento da mídia
on-line, com cujos fechamentos a mídia impressa não pode concorrer. Assim,
“os jornais se destacam reforçando a profundidade da informação, análise e
cobertura de tendências que não são publicadas em outro lugar” (TANIKAWA,
2017, p. 3520). Ainda que os jornais impressos procurem manter sua
identidade, é possível perceber um maior investimento em históricos, panoramas
e interpretações a acontecimentos, “desfocando a linha entre notícias diretas
e artigos analíticos. Notícias diretas podem também empregar tipos de leads
situacionais, anedóticos e outros descritivos, em vez da tradicional estrutura de
pirâmide invertida” (TANIKAWA, 2017, p. 3520).

128
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Essa tendência se alinha à relativização do real apontada por Charron e


Bonville (2016) como característica do jornalismo de comunicação. Segundo
os autores, “os jornalistas estão conscientes de poder ‘criar’ algo real a partir do
real, por exemplo, escolhendo o ângulo sob o qual abordar as ocorrências (...) ou
ainda se interessando por partes menos evidentes do real, como as ‘vivências’
das pessoas comuns” (CHARRON; BONVILLE, 2016, p. 199). É diante desse
panorama que se desenha a valorização da subjetividade: a valorização do ethos
interpretativo dos jornais impressos abre espaço para a incorporação de outros
valores aos critérios de noticiabilidade, não apenas nas grandes reportagens
(historicamente entendido como gênero e lócus de experimentação), mas
também na produção diária de notícias – o que proporciona uma ampliação
de possibilidades de temas, fontes e angulações antes não categorizadas como
importantes ou relevantes.
Finalmente, assim se aplicariam os procedimentos aqui pormenorizados:

Quadro 3 – Procedimentos metodológicos da análise em duas etapas


de atos de subjetivação em produtos jornalísticos

Análise de atos de subjetivação em produtos jornalísticos


(narrativas textual e processual)
Primeira etapa: narrativa processual

Descrever processos Identificar Identificar atos de subjetivação


Que estratégias de produção, narradores Que indicadores (a partir da tabela
apuração, escrita e edição foram Quem são construída) se manifestam ao
utilizadas? Tratam-se de recursos eles? Como longo das etapas?
normativos (já impostos pela se indiciam?
instituição à qual está vinculada De que modo
a equipe ou à cultura profissional influenciam
de que fazem parte) ou criativos uns aos outros?
(improvisados ou resultantes
de uma subversão às regras já
existentes)?

Segunda etapa: narrativa textual

Apresentar textos Identificar Investigar efeitos de sentido


Data de lançamento, tipo(s) de narradores Identificar os efeitos de sentido
plataforma(s), quantidade de Quem são e de Motta (2013): descrição
páginas, disposição, elementos como negociam pormenorizada, figuras de
gráficos etc. (a partir de linguagem, verbos de sentimento
termos e (ênfase/intensidade), quem os
elementos utiliza, e investigar sua dimensão
gráficos). semântica e intenção narrativa.

Fonte: Quadro desenvolvido pelos pesquisadores.

129
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Considerações finais

Para compreender as aproximações entre real e imaginário/informação


e opinião, indicadas por Charron e Bonville (2016) como sendo tão próprias
do jornalismo de comunicação, assumimos, através deste método, algumas
premissas: a compreensão do repórter como narrador, sujeito que conta histórias
e negocia com outros sujeitos, da reportagem como construção coletiva e
plurivocal, e da existência de uma narrativa processual, além da textual.
Detalhados os indicadores de objetivação e subjetivação, ressaltamos,
por fim, o caráter provisório dos quadros descritos. Tais características serão
observadas (ou não) no objeto desta pesquisa, mas não intentam ser grilhões,
engessando a análise. Elas devem funcionar sobretudo como lanternas,
orientando o olhar dos pesquisadores e das pesquisadoras, mas poderão (e
arriscamos dizer que tenderão a) ser modificadas ao longo do estudo.
Acreditamos que a identificação de atos de subjetivação nos textos e nas
rotinas produtivas auxilie, de modo geral, na adoção sistemática dessas ações,
por parte dos narradores jornal e jornalista sobretudo, dando vazão a uma lógica
subjetivada de produção jornalística, na qual se orientem texto e prática em
função da valorização dos sujeitos e da desconstrução/reorientação de princípios
canônicos que já não atendem às demandas da contemporaneidade. Uma
ordem discursiva subjetivada oferece ao paradigma atual importantes insumos
simbólicos, como a ampliação de possibilidades narrativas do conteúdo – a partir
da inserção do jornalista na narrativa ou da reorientação das angulações, como
sugerido por Charron e Bonville (2016); a transformação do jornalismo em um
exercício de empatia e compreensão entre os sujeitos, para além de descrição
objetiva/distanciada dos acontecimentos (MEDINA, 2014; BUCCI, 2000); a
oportunidade de uma representação mais ‘real’ da sociedade (MIGUEL; BIROLI,
2010; CHARRON; BONVILLE, 2016), fortalecendo o vínculo entre jornalismo
e democracia; e ainda a imersão e a fidelização do público leitor, através dos
efeitos de sentido (MOTTA, 2013).

Referências

AMARAL, Luiz. A objetividade jornalística. Porto Alegre: Sagra DC Luzzatto,


1996.
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.
In: Obras Escolhidas: magia, técnica, arte, política. v. 1. 8. ed. São Paulo:
Brasiliense, 2012.
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. Editora Companhia das Letras, 2000.
CHARRON, Jean. Natureza e transformação do jornalismo. Brasília: FAC Livros, 2016.

130
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

ERBOLATO, Mário L. Técnicas de codificação em jornalismo: redação, captação


e edição no jornalismo diário. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1978.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: UnB, 2001.
______. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UnB, 2016.
FÍGARO, Roseli. As Mudanças no Mundo do Trabalho do Jornalista. São Paulo:
Atlas, 2013.
MEDINA, Cremilda. Atravessagem: reflexos e reflexões na memória de repórter.
São Paulo: Summus, 2014.
______. Criador da assinatura coletiva ou artífice do diálogo social. In: MOURA,
D. et al. Jornalismo e literatura: Aventuras da memória. Brasília: UnB, 2014.
MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. A produção da imparcialidade: a construção do
discurso universal a partir da perspectiva jornalística. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, v. 25, n. 73, 2010.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: UnB, 2013.
RESENDE, Fernando. O jornalismo e a enunciação: perspectivas para um
narrador-jornalista. Revista Contracampo, n. 12, p. 85-102, 2005.
______. Discursividade e narratividade: vértices redimensionados no jornalismo.
Fronteiras-estudos midiáticos, v. 9, n. 2, p. 81-90, 2007.
SCHUDSON, Michael. Descobrindo a notícia: uma história social dos jornais
nos Estados Unidos. Petrópolis: Vozes, 2010.
TANIKAWA, Miki. What Is News? What Is the Newspaper? The Physical,
Functional, and Stylistic Transformation of Print Newspapers. International
Journal of Communication, v. 11, pp. 3519-3540, 2017.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2005.
TUCHMAN, Gaye. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das
noções de objetividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo:
questões, teorias e estórias. Lisboa: Vega Editora, 1999.

131
Um olho na escrita e outro no escritor: desafios
metodológicos na análise de narrativas jornalísticas autorais

Dayane do Carmo Barretos

Notas sobre um percurso de pesquisa

Neste capítulo a proposta é adentrar em questões metodológicas


diversas que permearam a minha experiência de pesquisa durante o mestrado
(BARRETOS, 2017). Inicio as considerações aqui trazendo algumas inquietações
que me acompanharam desde que comecei a discutir os rumos da investigação
que desejava empreender, partindo do pressuposto de que as inquietações
metodológicas estão presentes em todo o processo, desde a definição do
objeto empírico. Na sequência, apresento os caminhos que tornaram possível
o desenvolvimento de uma estratégia metodológica múltipla, que possibilitou
o tensionamento tanto de obras jornalísticas como das inquietações das
repórteres autoras das produções. Por fim, descrevo o processo metodológico e
as conclusões a que cheguei no âmbito deste estudo.
A entrada no mestrado representa o início efetivo no campo da pesquisa
acadêmica, que vem acompanhada de um amadurecimento no que diz respeito
à definição de interesses de investigação, de formas de abordagem e de modos
de tensionar problemas de pesquisa. Desde o meu ingresso, havia um interesse
explícito em estudar narrativas jornalísticas potentes, que permitissem vislumbrar
possibilidades para o fazer jornalístico no Brasil atualmente. A minha escolha
foi, então, por uma reflexão acerca dos aspectos que norteiam a construção de
narrativas jornalísticas acerca da alteridade e da partilha de sentidos possível
por meio da escrita. Assim, de saída, a escrita já se mostrava como o centro
da investigação e para abordá-la houve a necessidade de promover um olhar
que permitisse uma maior compreensão do narrar enquanto processo múltiplo e
complexo no âmbito das produções jornalísticas de caráter autoral.
Desse modo, o caminho metodológico que propus foi elaborada com o
intuito de contemplar essas questões a partir de uma coleta mista, composta pela
realização de entrevistas qualitativas semiestruturadas de três jornalistas Adriana
Carranca, Daniela Arbex e Fabiana Moraes. Além de uma leitura do material
fornecido por Eliane Brum devido à impossibilidade da realização de entrevista.
Assim como uma entrada nas obras de caráter jornalístico mais recentes de cada
uma das repórteres, sendo elas: Malala, a menina que queria ir para a escola
(2015), Cova 312 (2015), O Olho da Rua (2008) e O nascimento de Joicy
(2015). Assim, tanto na coleta, como na análise posterior, busquei direcionar

132
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

o olhar para as próprias sujeitas narradoras, a fim de questioná-las sobre suas


motivações e estratégias discursivas, sobre a constituição de seu estilo de narrar
e sua relação com os sujeitos que permeiam o relato, indagando o modo como
elas se apresentam por meio da escrita e o que revelam da relação com o outro.
É preciso destacar a necessidade de um olhar que se atente não só para a
dimensão textual, mas que leve em conta os diversos aspectos que perpassam
a narrativa, como o contexto cultural e sócio-histórico, a temporalidade
e a espacialidade apresentadas e as pistas que elas trazem consigo sobre a
constituição textual dos sujeitos. Para tanto, parti de uma compreensão da
narrativa especialmente inspirada pelo pensamento de Paul Ricoeur (1994),
principalmente no que se refere à sua discussão acerca da tríplice mimese.
Assim, a proposta foi buscar articular à contribuição de Ricoeur (1994) uma
visada complexa das falas e das produções das jornalistas, construindo uma
reflexão sobre como as escolhas durante a construção narrativa como um todo,
desde a captação, da configuração da intriga até o leitor que está pressuposto,
revelam acerca da relação com o outro em um jornalismo que anseia pelo
encontro e se permite ser consciente do si de que depende a escrita.

Ponto de partida: contextualizando o objeto dentro de um campo de estudos

Antes de dar início às considerações sobre as escolhas metodológicas


propriamente, mostra-se pertinente voltar o olhar para os caminhos teórico-
conceituais que foram percorridos de forma a permitir que eu chegasse a um
procedimento metodológico que considero múltiplo. Esse movimento de retorno
eu chamarei aqui de contextualização do objeto empírico dentro de um campo
de estudos, tendo em vista as diversas possibilidades quando se fala em estudos
do jornalismo.
Minha opção desde o início foi pela narrativa, tal interesse se articulava
com os objetivos do estudo e as inquietações centrais. Desse modo, defini que
a minha abordagem partiria de uma problematização da atividade jornalística
a partir da centralidade do sujeito no processo de construção da narrativa das
reportagens. À reflexão acerca do sujeito narrador no jornalismo, aliei discussões
sobre a alteridade e o processo de escrita.
Assim, foi fundamental direcionar o olhar para o sujeito que narra, mais
especificamente no caso deste estudo, para as jornalistas brasileiras enquanto
narradoras, cumprindo o papel de enunciadoras na construção da narrativa
jornalística. Resende (2014) acredita que a enunciação, no caso do jornalismo,
está intrinsecamente relacionada à problemática da representação das diferenças.
O autor parte da discussão de Benveniste (1995), que considera que o sujeito
da linguagem ocuparia o centro da reflexão, distinguindo o enunciado do ato
da enunciação. Segundo ele, “a linguagem só é possível porque cada locutor
se apresenta como sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no seu discurso”

133
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

(BENVENISTE, 1995, p. 286).


Já Bakhtin (1979, 2003), outro teórico dos estudos da linguagem que
tratou da enunciação, defende que ela seria um fenômeno social e que o
contexto histórico seria determinante, chegando a conformar a subjetividade. A
relação que é estabelecida com outros discursos na construção de um enunciado
também foi tratada pelo autor e constituem as suas explanações acerca do que
ficou conhecido como dialogismo bakhtiniano, segundo o qual o significado de
um enunciado ocorre a partir da sua relação com o não dito, com o lugar social
do qual se profere a enunciação e com os outros discursos que a compõem.
A questão da autoria em Bakhtin (2003) vai além da ideia de um sujeito
que escreve; em sua definição, o autor é o “agente da unidade tensamente
ativa do todo acabado, do todo da personagem e do todo da obra, e este é
transgrediente a cada elemento particular desta” (BAKHTIN, 2003, p. 10).
Desse modo, o autor é, portanto, a unidade responsável pela obra, é ele quem
dá conta do todo da obra, ainda que esta seja formada de outras unidades,
como personagens. Há ainda uma outra diferenciação feita por Bakhtin (2003)
ao tratar da concepção de autor. Segundo o filósofo, existiria o autor-pessoa e o
autor-criador, este último seria um elemento da própria obra, que existe apenas
nela. A partir dessa percepção surge uma relação intrínseca entre o autor, nesse
caso o autor-criador, e a obra que produz. Ao levar essas considerações para
o objeto de interesse dessa investigação, podemos compreender as jornalistas
e as relações construídas durante a apuração como elementos da obra final.
Ambos habitariam a reportagem, e só nela teriam sentido pleno. O cuidado
aqui é para não submeter o processo de escrita e de construção narrativa ao
enunciado final, ou até apagar o sujeito jornalista em função da reportagem. É
necessário pensar essas duas dimensões como elementos que se articulam em
uma unidade, sem relação de submissividade.
As proposições desses dois teóricos da enunciação, de forma complementar,
colocam em cena o sujeito da enunciação em sua interação com o contexto
social, cultural e histórico que o cerca, bem como em relação com as demais
unidades da produção do enunciado. Em ambos o foco sai do âmbito do texto
produzido (enunciado) e volta-se para o processo (enunciação) e tudo que dele
faz parte, principalmente o sujeito e suas marcas. O jornalista-narrador deve ser
compreendido, portanto, não a priori, mas sempre em relação, tanto ao próprio
campo do jornalismo, com suas transformações constantes, como ao entorno
que o envolve e a produção da reportagem, com seus sujeitos, realidades e
processos complexos. É essa múltipla gama de relações que deve ser abarcada
ao centralizar o olhar no sujeito que narra.
Partindo da perspectiva do sujeito que narra em sua articulação com a obra
que produz, avancei para a discussão da escrita no jornalismo. Entendi que o
processo de construção da narrativa jornalística envolve uma série de questões
que vão desde o olhar lançado para a realidade até a sua apropriação pela

134
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

escrita, passando pela relação com os diversos outros que surgem no processo
e dele passam a fazer parte. Assim, o jornalista, visto a partir de uma óptica
autoral, constrói um modo de narrar que compreende, além de estratégias
discursivas, modos de olhar o mundo e de se relacionar com os personagens e
fontes, construindo-se também como narrador.
Assim, se falar do outro é falar de si, está posto um diálogo, uma polifonia que
pressupõe a alteridade em contraste com uma polarização que segrega e aparta.
As grandes reportagens são um exemplo disso: a presença do enunciador, seja ao
narrar em primeira pessoa ou ao trazer para o relato elementos só possíveis a partir
da sua própria experiência no local, como descrições subjetivas do espaço, dos
sujeitos e dos processos retratados, traz consigo o rastro da experiência do narrador
repórter. “‘Ter’ uma experiência, nesse sentido, não significa controlá-la, possuí-la, e
sim vivenciá-la, tornar-se sujeito nela e para ela” (LEAL, 2013, p. 33).
A experiência nesse âmbito pode ser entendida em dois níveis. O primeiro diz
respeito à vivência do acontecimento, ao testemunho, já um segundo relaciona-
se ao contato com as pessoas que testemunharam, a escuta desses sujeitos
e a experiência tanto da relação como do contexto no seu sentido espacial.
A jornalista Adriana Carranca, em sua fala em uma mesa1 sobre narrativas
diversas, destacou a importância de se hospedar na casa de pessoas da própria
comunidade do local que aborda, como fez na Síria e no Paquistão, o que
possibilita um maior contato com a realidade vivida por aquelas pessoas, ouvindo
o que elas têm a dizer sobre a guerra, mas, acima de tudo, experienciando o
cotidiano daqueles sujeitos que sobrevivem à guerra. Dessa forma, por mais que
a jornalista não viva a experiência dos bombardeios, ela vivencia o cotidiano da
guerra, aproximando-se daquilo que é contado pelas pessoas.
Com base nessas questões, levando em conta que o meu interesse principal
passava pela problematização do narrar e das narrativas das quatro repórteres, foi
importante discutir alguns aspectos da prática jornalística vistos aqui enquanto
elementos-chave do processo de construção de uma reportagem, sendo eles: o
tempo, o cotidiano, o olhar, a escuta, a aproximação e o diálogo. Tais pontos
são tratados a partir da visão tanto de pesquisadores que se debruçaram sobre
o fazer jornalístico, como de outros jornalistas que expuseram os desafios e
potências vivenciados por eles. Novamente, o interesse era articular esses dois
lugares de produção de conhecimento sobre o jornalismo e, assim, cercar o meu
objeto empírico.

O tempo e o cotidiano

A relação entre jornalismo e tempo vai além da simples afirmação de que


uma maior disponibilidade de tempo promove um maior aprofundamento. O
1 Trata-se da mesa “Narrativas diversas” que fez parte da programação do Ciclo Jornalismo e Literatura
do Fórum das Letras de 2015, em Ouro Preto.

135
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

tempo conforma o discurso jornalístico e o discurso sobre a prática jornalística.


Tendo a abordagem do presente como um desses principais discursos sobre
a prática, o jornalismo instituiu a sua função social por meio da necessidade
de dar significado a esse tempo tão arredio. Com isso, podemos dizer que as
narrativas, que possuem o real como referente, como é o caso do jornalismo,
e buscam dar significado a um tempo, constituem em si uma temporalidade
singular que, mesmo tendo o presente como marco, também são habitadas
pelo acionamento de um passado e de um futuro que contribuem para a
compreensão dos eventos de que se trata. Sobre esse aspecto, Antunes (2007,
p. 289) considera que:

A mídia curto-circuita os tempos: ao mesmo tempo em que ela é


padronizadora do tempo atual – ritma e ordena cronologicamente o
cotidiano –, ela põe também em circulação representações de relações
temporais diversas, fazendo emergir outros tempos de outros estratos.

Dessa forma, podemos perceber que o tempo habita e tensiona a narrativa


jornalística das mais diversas maneiras, promovendo uma ruptura e criando
uma temporalidade própria que só existe na/pela narrativa. A narrativa não
reflete uma linearidade cronológica, ela constrói o seu próprio ritmo por meio da
escolha do modo como os eventos serão narrados.
Seguindo essa linha, podemos então delimitar duas possibilidades para a
relação entre tempo e a escrita no jornalismo: 1) o tempo que é constituído a
partir do jornalismo, ou seja, o tempo do jornalismo; 2) a apropriação do tempo
pelo jornalismo, que ocorre por meio da escrita, ou seja, o tempo no jornalismo.
Essas duas possibilidades, longe de serem excludentes, estão em contínua
articulação no fazer jornalístico, determinando e caracterizando o modo como o
jornalismo se apresenta hoje.
Em se tratando do tempo no jornalismo é possível problematizar a forma
como a prática jornalística, e em especial a narrativa jornalística, apropria-se do
tempo de forma a dar significado às nossas experiências sobre ele, principalmente
de um presente múltiplo, contribuindo para o modo como compreendemos esse
presente. Conforme nos diz Antunes (2014, p. 157), “a informação produzida
no sistema midiático poderia significar novas possibilidades de experimentação
social do tempo”.
O processo de escrita cumpre um importante papel na conjugação entre
sentidos, tempos e saberes. Ao narrar episódios que não ocorrem só no tempo,
como também ao longo do tempo, há a reconfiguração de memórias que
carregam diversos sentidos e saberes acerca dos eventos abordados e, ainda
que pertençam ao passado, são ressignificadas pelo presente na trama da
narrativa, bem como possíveis desdobramentos e afetações na vida dos sujeitos
que apontam para um futuro.

136
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Nesse sentido, o cotidiano é determinante para o jornalismo, pois


promove uma articulação entre o tempo do jornalismo, através da importância
da experiência do cotidiano pelo repórter durante a captação, propiciada por
uma maior disponibilidade de tempo; e o tempo no jornalismo, por meio da
apropriação desse cotidiano no momento da escrita, do modo como o jornalista
traz as experiências cotidianas para a narrativa.

O olhar e a escuta

Além de tempo, abordar o cotidiano demanda um modo de olhar que


desperte para as minúcias que revelam sobre as pessoas e os contextos. O olhar
deve dar conta não só do que está explícito, mas também do que se esconde pelos
silêncios, daquilo que só a percepção do sujeito é capaz de captar e desvelar na
narrativa. Esse olhar é único de cada narrador, que vai desenvolvendo o gosto
por determinados temas e assuntos.
O narrar diz sobre essa óptica singular que se materializa em forma de
marcas do sujeito narrador no texto e acaba por limitar a visada ao narrador,
evidenciando tanto uma unicidade autoral como a proposta de compartilhamento
que advém da enunciação que prevê o outro. Não há como submeter a enunciação
ao enunciado em um narrar assim. É aí que habita a sua riqueza.
Um olhar alargado está intimamente ligado a uma escuta atenta. O
jornalista e escritor Gay Talese destaca a importância da escuta e revela a sua
tática: “nunca interromper quando alguém tem dificuldade para se expressar,
pois nesses momentos hesitantes e confusos as pessoas quase sempre são
muito reveladoras” (TALESE, 2009, p. 73). O cuidado de Talese vai desde a
entrevista e a captação até a escrita, denunciando o nível de detalhamento do
jornalista – uma de suas marcas –; é como se nada escapasse ao seu olhar e
escuta atentos e, mesmo que na lapidação da escrita nem tudo vá para o texto,
essa atenção é essencial. Em suas palavras: “das informações que recolho das
pessoas, 80% terminam na cesta de lixo. Ainda assim, eu não teria conseguido
descobrir os 20% úteis sem abrir caminho através dos 80%, que acabam virando
lixo” (TALESE, 2009, p. 59).

A aproximação e o diálogo

O que deve estar no horizonte de qualquer jornalista durante a apuração e


as entrevistas que servirão de base para a escrita é a importância da relação a
ser construída com as pessoas envolvidas na história que ele quer contar. Para
Kapuscinski (apud BERGER, 2007, p. 181), “toda reportagem fala de gente”,
de modo que é necessária uma habilidade para se aproximar dessas pessoas e,
caso elas percebam que não há um interesse verdadeiro em seus problemas,
elas reagirão de forma negativa (KAPUSCINSKI apud BERGER, 2007).

137
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Essa aproximação na relação entre o jornalista e os sujeitos é abordada


por Medina (2008) pela chave do diálogo possível na entrevista, sendo que,
para tanto, a entrevista não deve ser encarada como simples técnica, pois esta,
“fria nas relações entrevistado-entrevistador – não atinge os limites possíveis da
inter-relação, ou, em outras palavras, do diálogo” (MEDINA, 2008, p. 5, grifo
da autora). Assim, para que a entrevista deixe de ser apenas uma ferramenta
de captação e constitua-se enquanto proposta de diálogo, é necessário dar a ela
o contorno dos significados humanos, torná-la parte da interação entre sujeitos
que aponta para além do texto, não insistir apenas na competência do fazer
(MEDINA, 2008). No entanto, devemos ponderar que não se trata aqui de um
diálogo que, por si só, seja harmonioso, tendo em vista que ele também traz
consigo tensionamentos e dissensos.
O cotidiano, o tempo, o olhar, a escuta, a aproximação e o diálogo
são determinantes para a constituição narrativa jornalística, seja de um
acontecimento, um tema mais amplo ou um processo. É durante a escrita que
eles se constituem e se articulam com a realidade, os relatos e as percepções
dos repórteres. Como descreve Coelho (2012, p. 158), “o jornalismo foi uma
travessia que me permitiu fazer esta ponte entre a escrita e o mundo, que me
permitiu viajar e ver o mundo. E aprender a ouvir as pessoas e aprender a olhar
para as pessoas”.
Segundo Maia (2013, p. 182), “quando o mediador social segue um
caminho menos ortodoxo, em especial por estar lidando com seres humanos,
consegue traduzir as ideias e a vida de maneira mais plural”. A escrita de um
texto que consegue romper com modelos, como o lead no primeiro parágrafo e a
pirâmide invertida, possibilita inúmeras formas de narrar. O jornalista pode tomar
as rédeas da sua produção, desenvolver o potencial criador do encontro com os
sujeitos e suas realidades, reivindicando a autoria do seu relato, da enunciação.
Os aspectos aqui elencados não são tratados enquanto uma outra forma de
conceituar o fazer jornalístico, uma vez que se trata de uma atividade complexa
que envolve processos diversos como disputas de poder e econômicas, além
das dinâmicas próprias das instituições. Sendo assim, é necessário ponderar,
que ao defender a centralidade do jornalista, não desconsidero as dificuldades
e particularidades que envolvem e limitam o narrar no jornalismo, mas busco
evidenciar possibilidades em que esse protagonismo é possível e profícuo para
a narrativa, como é o caso dos livros-reportagem.

Os caminhos metodológicos como construção múltipla

Tendo em vista que a intenção era compreender os aspectos que norteiam


a construção de narrativas jornalísticas, no que tange à alteridade e à partilha
de sentidos possível por meio da escrita de jornalistas brasileiras, o protocolo
metodológico foi desenvolvido com o intuito de contemplar essas questões, tanto

138
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

na realização de entrevistas com as jornalistas, como na apreciação de entrevistas


realizadas nos dois últimos anos e na análise posterior das entrevistas e das
obras mais recentes de cada uma delas. O desafio nessa fase foi desenvolver
um procedimento de coleta e de análise que contemplasse duas dimensões
distintas: os relatos das jornalistas acerca da sua produção e as produções
em si. Além disso, a análise teve como base as reflexões teórico-conceituais
presentes no decorrer do trabalho, que diziam das inquietações centrais.
A proposta metodológica foi contemplada pela Análise da Narrativa,
uma vez que ela permitiu um exame ampliado que se atentou não só para
a dimensão textual, mas levando em conta diversos aspectos que perpassam
a narrativa, como o contexto cultural e sócio-histórico, a temporalidade e a
espacialidade apresentadas e as pistas que ela traz consigo sobre a constituição
textual dos sujeitos, tanto do si como do outro. Dessa forma, mais que dissecar
as produções em busca de expressões recorrentes e seus correspondentes na
realidade, a Análise da Narrativa permite um olhar para todos os sentidos que
atravessam as narrativas.
Desse modo, tendo em vista que a investigação buscou tensionar os sujeitos
em cena no processo de construção narrativa, as potencialidades do encontro com
o outro e os agenciamentos possíveis, bem como dizer da escrita em si, a proposta
consistiu em direcionar a atenção para as narradoras, a fim de questioná-las sobre
suas motivações e estratégias discursivas, sobre a constituição de seu estilo de
narrar e sua relação com os sujeitos que permeiam o relato. Além das entrevistas
efetuadas, estabeleci que seria necessário examinar também os relatos produzidos
pelas jornalistas acerca do seu próprio trabalho, como outras entrevistas veiculadas
na mídia e outros textos em que as autoras expõem inquietações e processos de
produção, como é o caso do segundo capítulo de O Nascimento de Joicy (2015)
e dos textos posteriores às reportagens do livro O Olho da Rua (2008) em que
Eliane Brum conta sobre a produção de cada uma delas.
Assim, em um primeiro momento, realizei entrevistas com três jornalistas,
Adriana Carranca, Daniela Arbex e Fabiana Moraes, leitura das obras selecionadas
e posterior análise dessas narrativas. O projeto inicial dessa pesquisa contava
também com a possibilidade de entrevista com a jornalista Eliane Brum, o que
não foi possível devido a questões pessoais e profissionais da própria repórter
que inviabilizaram o nosso encontro. No entanto, houve um grande interesse
por parte da autora em contribuir para o trabalho, sendo que ela mesma indicou
o livro O Olho da Rua (2008) como o espaço em que ela melhor revela da
sua visão de jornalismo e da sua relação com o sujeito, além de disponibilizar
o posfácio da nova edição (naquele momento ainda no prelo) dessa obra em
que ela tece reflexões acerca da sua produção. Assim, devido à importância da
produção da autora no tocante a um exercício do jornalismo, que tem como
central a interação com o outro, a opção foi por mantê-la no recorte empírico,
analisando a obra indicada e o material fornecido por ela.

139
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

De posse das entrevistas, passei para uma reflexão sobre o movimento


de análise do material, sendo ele de caráter misto visto que constituído pelas
entrevistas e relatos das autoras e pelas obras das jornalistas, já citadas
anteriormente. A decisão por adentrar nas produções em livro mais recentes
das jornalistas se deveu a uma necessidade de discutir a forma como as
inquietações, as visões sobre a prática jornalística, as preferências e as escolhas
das repórteres estão presentes em suas obras, avaliando como narrativamente
elas foram constituídas.
Desse modo, com o intuito de problematizar a articulação entre o processo
de escrita e o encontro com o outro na narrativa jornalística dessas repórteres,
desenvolvi um protocolo de análise que tem como base três operadores a fim
de contemplar as narrativas que constituem o material, tanto das entrevistas,
como das obras, buscando tensionar o modo como elas se apresentam por
meio da escrita e o que revelam da relação com o outro. Cada um dos três
operadores conta com alguns eixos norteadores que se baseiam nos principais
conceitos e autores discutidos no trabalho e que guiaram a minha análise e as
considerações tecidas a partir dela, além de questões que emergiram do próprio
material empírico. Sendo assim, são esses os operadores e os seus respectivos
eixos norteadores:
1. A relação entre o narrador e os personagens durante a captação:
esse operador aborda a constituição das relações entre as jornalistas e os
demais sujeitos envolvidos no processo de captação de informações que serão
organizadas narrativamente. A reflexão a partir desse primeiro aspecto percorreu
as pistas sobre essa relação nas falas das repórteres e nos livros. Os eixos
norteadores desse primeiro operador são: o movimento de aproximação do
outro, além de refletir sobre outras possibilidades como o distanciamento, o
julgamento e a compreensão, baseados nos planos axiológico, praxiológico e
epistêmico de Todorov (1983); o acionamento de uma responsabilidade para
com o outro, a partir da discussão de Levinas (1982, 2005, 2008), sendo
que, como responsabilidade, entendemos o chamado do outro a que o narrador
responde durante a relação que ele constrói com os sujeitos, por meio da escuta,
e que atravessa a escrita.
2. A construção da narrativa: esse operador trata da configuração textual
da narrativa. É examinando as escolhas do modo de narrar efetuadas pelas
jornalistas, a proposta estrutural, a forma escolhida para organizar os sentidos,
as vozes e as presenças dos sujeitos, a presença do narrador, entre outros, que
podemos compreender sobre o processo de escrita em si e o modo como os
sujeitos são constituídos narrativamente desde a apropriação do eu-narrador.
Assim, os eixos norteadores deste segundo operador são: as temporalidades
envolvidas na constituição das narrativas, problematizando as nuances do
tempo do jornalismo e do tempo no jornalismo e como essas temporalidades são
determinantes para a construção das narrativas jornalísticas; e o olhar próprio

140
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

do sujeito narrador que as narradoras evidenciam e que são reveladores de


uma dimensão subjetiva do trabalho, tanto sobre a realidade de que tratam,
como sobre a própria prática jornalística. Além disso, questões relacionadas à
estrutura da narrativa também serão abordadas neste operador.
3. O processo de compartilhamento que pressupõe o leitor: este último
operador diz sobre o retorno dos sentidos ao mundo da experiência, à reconfiguração
efetuada pelo leitor. Essa reflexão ancorou-se na ideia de um leitor que é pressuposto
da construção narrativa, a quem a narrativa é dirigida e para quem ela é feita.
Nesse sentido, foram examinadas questões da relação última de compartilhamento
da narrativa jornalística: do jornalista com o leitor. Os dois eixos norteadores aqui
são a transparência, partindo da discussão de Maia (2008), pensando a escolha
em deixar claros os procedimentos adotados durante a investigação e, indo além,
examinando a evidenciação de outras questões, como detalhes das relações com
outros sujeitos, dos percalços durante a captação, das críticas e autocríticas que
as autoras efetuam e a visibilidade a partir de uma reflexão sobre momentos em
que as autoras problematizam a missão de dar a ver do jornalismo, promovendo
uma espécie de conscientização cujo intuito claro seja alcançar o leitor.
Assim, acredito que esses três grandes operadores e os eixos norteadores
se complementam em uma visada complexa das falas e das produções das
jornalistas, contribuindo para compreendermos sobre como as escolhas dessas
jornalistas durante a construção narrativa, desde a captação, da configuração
da intriga até o leitor que está pressuposto, revelam sobre a relação com o outro
em um jornalismo que anseia pelo encontro e se permite ser consciente do si de
que depende a escrita.
É pertinente pontuar que em nosso campo de estudos, em que os objetos
se modificam incessantemente, principalmente devido à sua vinculação com o
social e suas dinâmicas, a escolha metodológica é sempre um desafio. Afirmar
que utilizamos determinado método preexistente, advindo de outras áreas
do conhecimento, é um risco, uma vez que a adaptação que nossos objetos
demandam podem desconfigurá-la. Sendo assim, a minha escolha nesse
trabalho foi por desenvolver um procedimento autoral para a análise do material
empírico, ainda que eu tenha me balizado pela Análise da Narrativa, inspirada
por sua aplicação em outros trabalhos da área. Parti de uma compreensão da
narrativa especialmente a partir das contribuições de Paul Ricoeur (1994),
principalmente no que se refere à ideia de mimese.
O conceito de mimese como imitação na obra de Ricoeur não se baseia
em um decalque do real, mas diz respeito à ideia de uma imitação criadora
(RICOEUR, 1994). Essa apreensão vai ao encontro da discussão proposta, uma
vez que olho para o jornalismo a partir do seu caráter de referencialidade em um
real, pensando a apropriação desse real na construção da narrativa jornalística,
um texto que traria rastros dessa realidade em consonância com uma dimensão
criadora própria da enunciação.

141
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

À discussão de Paul Ricoeur (1994) busquei articular os demais conceitos


abordados na pesquisa, presentes nas reflexões sobre a alteridade, sobre a
prática jornalística a suas características, sobre o sujeito narrador e sobre o
processo de escrita, além de aspectos que surgiram da leitura exploratória do
próprio material.

Apontamentos sobre as análises

Ainda que o interesse nesse texto seja pela discussão metodológica,


considero importante destacar algumas considerações que foram tecidas a
partir das análises do corpus proposto, a fim de uma maior compreensão das
potencialidades desse procedimento metodológico desenvolvido no âmbito de
uma pesquisa mais ampla.
A análise efetuada no trabalho buscou contemplar aspectos da relação
entre as jornalistas e os sujeitos que fazem parte da produção jornalística. As
falas das entrevistadas foram articuladas às obras de modo a examinar quais
aspectos citados e problematizados pelas autoras, enquanto norteadores das
suas produções, estavam presentes nas narrativas produzidas.
No caso da escrita, como processo de organização do material captado,
dos sentidos, das vozes e dos sujeitos, podemos destacar que ela demanda
uma reflexão por parte do sujeito narrador, principalmente em se tratando de
grandes reportagens. Daniela Arbex conta que na escrita dos livros-reportagem,
o processo é o mesmo do dia a dia da redação, com uma grande preocupação
em tornar o texto de fácil compreensão. Já para Fabiana Moraes, a escrita é
compreendida como uma grande responsabilidade, pois é no processo de escrita
que ocorre a desnaturalização de questões arraigadas. O papel do jornalista
no momento da escrita é, portanto, determinante no combate a preconceitos
e sub-representações. Adriana Carranca destaca a importância da escrita em
imortalizar histórias. Eliane Brum considera a escrita como algo vital para ela,
não só em uma dimensão profissional. O seu cuidado com a escrita envolve a
responsabilidade que é narrar as histórias das pessoas, que não se limitam ao
dito. Transpor a oralidade para o texto é para a jornalista uma tarefa desafiadora,
mas faz parte do pacto firmado entre ela e os sujeitos com os quais se relaciona
durante a produção de uma reportagem em que ela se compromete em contar
as suas histórias para o mundo.
Nas falas das quatro jornalistas percebi uma atenção ao delicado processo
de levar a complexidade da realidade que desejam retratar e que envolvem
sujeitos para o texto de caráter jornalístico. Nas obras analisadas, é possível
observar como algumas dessas questões estão presentes, como o texto de fácil
compreensão de Cova 312 (2015) e a promoção de reflexões acerca da realidade
vivenciada por Joicy, da própria condição da transexual em O nascimento de
Joicy (2015) e o respeito a expressões e formas de falar das parteiras do Amapá

142
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

na construção textual de A floresta das parteiras, do livro de Eliane Brum.


Trazer o outro para o texto é um trabalho que demanda do narrador desde
o primeiro olhar, a escolha dos personagens, das fontes até o espaço que é
destinado aos sujeitos no texto publicado. A escrita é reveladora desse olhar,
dessa relação com o outro que nunca é neutra, que, por vezes, é conflituosa e
transformadora para todos os sujeitos envolvidos, o jornalista, os personagens
e fontes e o próprio leitor. A aproximação do outro é abordada pelas repórteres,
seja de forma explícita e, em alguma medida, já analítica, como fazem Fabiana
Moraes e Eliane Brum em suas obras, ou de forma mais sutil, como ocorre nas
produções de Adriana Carranca e Daniela Arbex, que tratam dessa aproximação
no decorrer do texto, descrevendo as relações e as suas experiências no contato
com os sujeitos na apuração. Assim, todas as autoras retrataram de alguma
forma os percalços e as percepções sobre essa interação com o outro.
A escuta exerce um importante papel nessa relação. Para Eliane Brum, a
escuta não se limita ao ato de ouvir o que o outro está dizendo, gravar e depois
reconstituir textualmente, a escuta é um processo multissensorial, que demanda
uma atenção não só para o conteúdo da fala, mas também para a escolha das
palavras, o modo de falar, os silêncios, a postura do sujeito, seus gestos. Na visão
de Fabiana Moraes, a escuta ganha na medida em que o jornalista compreende
que é necessário entender a realidade em que o outro está inserido para evitar
que os valores e visões do repórter apaguem as vulnerabilidades desses sujeitos.
Do mesmo modo, a disponibilidade do repórter em ouvir, em vivenciar o cotidiano
local com os habitantes, como é o caso de Adriana Carranca, ou em construir
um diálogo que demanda um contato mais duradouro, conforme relata Daniela
Arbex, é fundamental não só para uma reportagem potente, mas para o cultivo
de um jornalismo com primazia pelo caráter de compartilhamento próprio da
comunicação, da partilha entre sujeitos.
Essa partilha depende do leitor que já está pressuposto em toda produção
jornalística. Para as jornalistas, o papel do leitor é essencial, é ele quem irá dar
significação à narrativa, tirar suas conclusões sobre o que foi relatado, completar os
sentidos através da leitura. Se Fabiana Moraes vê a necessidade de conscientização
do leitor e, consequentemente, da sociedade, Daniela Arbex destaca o caráter
formador do jornalismo. No texto, esse aspecto aparece quando Arbex traz as
versões contraditórias e deixa a cargo do leitor escolher no que acreditar. Já
Adriana Carranca aciona o leitor no seu texto, chega a interpelá-lo diretamente. E
Eliane Brum destaca o desejo de que o leitor se aproxime dos sujeitos retratados
por uma escrita que busca trazer a complexidade do outro. A necessidade de
deixar transparecer para o leitor o processo de produção da reportagem também
é unânime, seja ao descrever como foi a investigação, destacando possíveis
intenções, ou deixando claro que o texto traz apenas determinada parte da história.
O si que narra está presente nas narrativas não apenas por meio do uso
da primeira pessoa, de que Adriana Carranca, Daniela Arbex e Eliane Brum

143
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

lançam mão em partes do texto, mas também através do compartilhamento


da experiência da produção da reportagem que aparece na narrativa textual.
Descrições de ambientes, de diálogos, propostas de reflexão pelo destaque de
determinados aspectos observados, como faz Fabiana Moraes ao descrever o
contato das outras pessoas com Joicy, são outras formas de revelar o olhar
do sujeito que narra no texto jornalístico, rompendo com um discurso de
distanciamento e impessoalidade.
Por fim, um último ponto que vale destaque é a questão do tempo. Embora as
autoras concordem que o tempo é essencial para uma apuração mais cuidadosa,
para a construção de uma boa história e, principalmente, para possibilitar uma
aproximação com os sujeitos e o seu cotidiano, Fabiana Moraes cultiva uma
posição crítica com relação ao tempo do jornalismo. Segundo a jornalista, o
tempo não adianta sem que haja uma disposição do jornalista em não reproduzir
posturas preconceituosas de escrita. Portanto, mesmo concordando com Adriana
Carranca e Eliane Brum quando as repórteres nos dizem que cada história tem
o seu tempo, que não é o tempo do jornal, novamente o olhar do jornalista que
irá narrar e a sua conduta na escrita se mostram definidores do texto final da
reportagem. Sendo que o ideal é aliar um olhar cuidadoso, uma escuta atenta,
uma aproximação que não promova o julgamento e uma disponibilidade de
tempo que permita um aprofundamento em uma escrita que seja reveladora do
si e do outro presentes na narrativa jornalística.

Considerações finais

O exercício de refletir sobre um narrar que é ação no mundo requer um


movimento metodológico que complexifique ao invés de reduzir. Ao buscar
escapar de procedimentos descritivos que concluam como tais narrativas são,
torna-se possível desenvolver uma investigação acerca das formas múltiplas
com que elas operam.
Neste capítulo, ao compartilhar o percurso que tracei, a intenção foi
apresentar as potencialidades e os desafios enfrentados na aplicação de
uma Análise da Narrativa que, longe de ser uma ferramenta pronta para ser
empregada em qualquer estudo, requer atenção para uma construção complexa.
No âmbito das narrativas jornalísticas, deve-se levar em conta os contextos e as
dinâmicas da produção, as relações constituídas durante o processo, a escrita e
a reverberação. Tal caminho me permitiu olhar para as obras e para os relatos
das suas autoras de forma articulada, possibilitando uma maior compreensão
de um fazer que foge aos padrões hegemônicos de produção jornalística, que
mostram novas possibilidades para esse narrar. A dificuldade que ainda se
delineia diz respeito ao leitor: alcançá-lo ainda é um desafio para os estudos de
jornalismo que discutem a narrativa. Na trajetória que apresentei neste texto,
o leitor revelava-se a partir das intenções das narradoras - era, portanto, um
pressuposto. Nesse sentido, ainda é necessário avançar.

144
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Por fim, é pertinente destacar que, durante todo o percurso, pude observar
que olhar apenas para a materialidade dos produtos jornalísticos não é suficiente
para uma reflexão sobre as narrativas. O narrar envolve sujeitos em uma relação
de partilha que é tensa, atravessada pelo social e possível pela linguagem. Sendo
assim, estudá-lo demanda um olhar que busque abarcar tal multiplicidade.

Referências

ANTUNES, Elton. O jornalismo é história malfeita? In: ANTUNES, E.; LEAL, B.


S.; VAZ, P. B. (Orgs.). Para entender o jornalismo. Belo Horizonte: Autêntica,
2014, p. 155-168
______. Videntes imprevidentes: temporalidade e modos de construção do
sentido de atualidade em jornais diários impressos. 2007. 321 f. Tese (Programa
de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas – Mestrado e
Doutorado) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007.
ARBEX, Daniela. Cova 312. São Paulo: Geração Editorial, 2015.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes,
2003.
______.  Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1979.
BARRETOS, Dayane do Carmo. Experimentar encontros e compartilhar
sentidos: a escrita de si e do outro nas narrativas de jornalistas brasileiras.
2017. 167 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Comunicação –
Mestrado) – Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2017.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Lingüística geral. 4. ed. Campinas: Pontes,
1995.
BERGER, Christa. A verdade histórica poética e transcendente do jornalismo de
Kapuscinski. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 178-
185, 2007.
BRUM, Eliane. O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real.
São Paulo: O Globo, 2008.
CARRANCA, Adriana. Malala, a menina que queria ir para a escola. São Paulo:
Companhia das Letrinhas, 2015.
COELHO, Alexandra Lucas. Uma ponte entre a escrita e o mundo (entrevista).
In: MAROCCO, Beatriz. O jornalista e a prática – entrevistas. São Leopoldo: Ed.
Unisinos, 2012, p. 157-179.
LEAL, Bruno Souza. O jornalismo à luz das narrativas: deslocamentos. In:
CARVALHO, C. A.; LEAL, B. Narrativas e poéticas midiáticas: estudos e
perspectivas. São Paulo: Intermeios, 2013, p. 25-47.

145
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

LEVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes,


2005.
______. Ética e infinito: diálogos com Philippe Nemo. Tradução de João Gama.
Lisboa: Ed. 70, 1982.
______. Totalidade e infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições
70, 2008.
MAIA, Marta R. Perfil: a composição textual do sujeito. In: SCHWAAB, R.;
TAVARES, F. M. B. A revista e seu jornalismo. Porto Alegre: Penso, 2013, p.
177-188.
______. A regra da transparência como elemento democratizador no processo
da produção jornalística. Brazilian Journalism Research, Brasília, v. 1, n. 1,
2008, p. 132-152.
MEDINA, Cremilda. Ciência e jornalismo: da herança positivista ao diálogo dos
afetos. São Paulo: Summus, 2008.
MORAES, Fabiana. O nascimento de Joicy. Porto Alegre: Arquipélago Editorial,
2015.
RESENDE, Fernando. Representação das diferenças no discurso jornalístico.
Brazilian Journalism Research, Brasília, v. 2, n. 2, p. 206-223, 2014.
RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa I. A tríplice mimese. São Paulo: Papirus,
1994.
TALESE, Gay. Vida de escritor. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo:
Martins Fontes, 1983.

146
As vozes que narram em O olho da rua, de Eliane Brum1

Jaqueline Frantz de Lara Gomes

Introdução

Fáticas ou ficcionais, as narrativas produzem sentidos e constituem a


realidade. Como diz Motta (2013), as narrativas permeiam toda a nossa
existência. A teoria de Genette (1973) reforça este entendimento, uma vez que
relata que nada é mais natural do que contar uma história, o que é perceptível
na rotina do ser humano, quando ele busca suporte narrativo para entender e
processar a realidade.
Se a narrativa deriva da necessidade de compreender o mundo em que se
vive (RESENDE, 2009), observamos que as narrativas jornalísticas, resguardadas
suas especificidades, também são uma forma de conhecimento da realidade e
sua face mais conhecida é a da reportagem. Em face às reconfigurações do
fazer jornalístico ao longo dos anos, em grande parte marcadas pelo caráter
das inovações sócio-técnico-discursivas, que permitem, pelo viés da internet,
por exemplo, produzir e divulgar narrativas a qualquer tempo, é interessante
estudar manifestações jornalísticas que fogem aos padrões convencionais da
notícia pautada pela grande mídia. Por outras palavras, é dizer que frente ao
paradigma da objetividade e da velocidade ditado pelos veículos com suporte na
internet, ficou cada vez mais latente a configuração de narrativas aprofundadas,
a busca pelos relatos de situações, cenários e pessoas que, tradicionalmente,
não figuram na grande mídia, além da aposta na linguagem com artifícios
literários para seduzir o leitor ante a multiplicidade de conteúdos disponíveis na
contemporaneidade.
A partir desse contexto, muitos jornalistas contemporâneos, tendo variadas
possibilidades tecnológicas, buscam praticar em livros, revistas, sites e diferentes
plataformas hipermidiáticas, o que autores dos anos 1960 e 1970 fizeram no
meio impresso norte-americano: a mescla entre jornalismo e literatura. Observa-
se, portanto, na aproximação do jornalismo com a literatura, a importância de
olhar para a narrativa e o que emerge da figura do narrador, tendo em vista a
sua capacidade de caracterizar social e culturalmente um determinado espaço e
carregar em si uma crítica ao momento/acontecimento histórico de uma época.
Partindo deste viés, e entendendo a reportagem como sendo uma narrativa
jornalística polifônica, contextualizante e estética, tal qual entende Medina
1 Artigo produzido a partir da dissertação “Narrativas jornalísticas contemporâneas e as vozes que
narram em O olho da rua, de Eliane Brum”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras –
Mestrado e Doutorado – da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), em junho de 2017.

147
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

(1996), observaremos a figura do narrador e a disputa de vozes presente na


narrativa jornalística em questão. Enfim, a ênfase à presença de características
da narrativa literária na reportagem jornalística deve-se ao fato de que a obra a
ser analisada em nossa pesquisa, O olho da rua, de Eliane Brum, é classificada
como um livro-reportagem, na qual estão reunidas reportagens publicadas
pela jornalista gaúcha durante sua atuação na revista Época. Diferentemente
da publicação original na revista, no livro as reportagens ganham um adendo:
as páginas que tratam dos bastidores da produção. Contudo, nossa proposta
é fazer um olhar mais atento para duas reportagens, como explicaremos
metodologicamente mais adiante.
Nosso objetivo central nesta pesquisa é, portanto, uma perspectiva possível
de análise do gênero reportagem e seus múltiplos níveis narrativos. Dessa
forma, adotaremos, para melhor compreensão e posterior análise, o diagrama
dos níveis de poder na narração jornalística apresentado por Motta (2013),
o qual segue o modelo de Genette (1998). Então, a partir da perspectiva de
que a narrativa existe desde que o indivíduo conseguiu dar alguma explicação
acerca da realidade que o cerca, pode-se pensar a experiência da vida ao narrar
contemporâneo e suas múltiplas formas e plataformas. E é exatamente essa
concepção que procuramos na narrativa de O olho da rua para compreensão do
posicionamento das vozes narrativas e os sentidos que dela emergem.

Disputa de vozes

Para subsidiar a análise da obra de Eliane Brum, recorremos ao conceito


de vozes narrativas de Motta (2013). Quem são as vozes narrativas? A voz
(ou as vozes) seria aquela que se dirige ao leitor (ouvinte ou espectador). A
categorização proposta por Motta, a partir de Genette, discrimina três níveis
básicos de narradores, conforme a posição diegética, a hierarquia de cada um e
a disputa pelo poder de voz. São elas: primeiro-narrador é o narrador-jornal ou
revista; segundo-narrador é o jornalista/repórter; terceiro-narrador é personagem,
que antes era a fonte. Por esta categorização, cada narrador é detentor de um
capital relativo, de um poder, o qual manifesta de acordo com o seu interesse
ou os de seu grupo.
Vejamos os três narradores discriminados no diagrama de Motta (2013,
p. 225):
O Primeiro-narrador, o jornal como instituição que fala, é extradiegético:
enuncia uma estória da qual não tomou parte, não testemunhou nem
apurou diretamente. O jornalista, Segundo-narrador, desempenha o
papel de narrador intradiegético, dentro da estória, porque ele apura,
seleciona, dispõe e hierarquiza as ações, conflitos, personagens, cenas e
enredo. A personagem, Terceiro-narrador, é um narrador definitivamente
intradiegético e detém menor poder de voz que o jornal e jornalistas na
cadeia. Entre estes três níveis há, portanto, uma hierarquia de poder que
flui de fora para dentro, do Primeiro para o Segundo-narrador, e deste

148
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

para o Terceiro. O narrador principal, a partir do qual os outros dois se


expressam, é o narrador-jornal [...].

É o narrador quem dispõe do poder de voz. Ele organiza, encadeia,


hierarquiza o discurso, dá pistas ao seu interlocutor por meio das quais pretende
que seu discurso seja interpretado. “Entretanto, ele faz isso em uma situação
de comunicação na qual está em constante processo de interlocução com o seu
destinatário”, o que implica influências recíprocas, de acordo com o que pontua
Motta (2013, p. 211-212).
Motta (2013) indica que é preciso observar as relações de conflitos
e negociações entre os atores envolvidos – empresa/jornal – profissionais –
personagens – para revelar os poderes que delas resultam. Então, quem é o
narrador que nos conta diariamente notícias e reportagens? Ou, como pergunta
Motta (2013, p. 222), “se as narrativas jornalísticas são polifônicas, entrelaçam
vários narradores, de quem são essas vozes sobrepostas?”.
Na busca por delimitar essas vozes, nas relações de hierarquias entre
os narradores, seus papéis e negociações de sentido e de poder entre eles,
Motta (2013) sugere um diagrama dos níveis de poder na narração jornalística,
no qual os três níveis de domínio se manifestam através de “uma escala de
subordinação relativamente nítida”. O Primeiro-narrador é o veículo (jornal,
revista, portal, telejornal). Este detém o maior poder de voz, inclusive sobre o
jornalista, que é o Segundo-narrador. O narrador-jornalista, por sua vez, detém
mais poder em relação às personagens que são, no caso, o Terceiro-narrador.
Na hipótese de Motta (2013), o produto jornalístico é, então, resultado de uma
permanente negociação entre os interesses do veículo, dos jornalistas e das
fontes (posteriormente personagens). Essa negociação nem sempre é explícita,
mas são acirradas e “implicam o poder de reter a voz e dominar a versão
hegemônica em cada relato que se torna público. (...) Jornal e jornalista são
também atores deste jogo de poder, onde entram com seus interesses próprios”
(MOTTA, 2013, p. 224).
Embora o poder opere predominantemente de fora para dentro, de acordo
com o diagrama, essa relação nem sempre é linear, uma vez que o poder simbólico
é continuamente negociado. “O Segundo e o Terceiro narradores possuem, cada
um, força política própria e manobram astutamente artimanhas que põem em
prática um contrapoder em cada momento” (MOTTA, 2013, p. 226).
Nos filiamos à proposta de Motta (2013), segundo Genette, todavia,
lembramos que esses esquemas foram oferecidos sob a ótica de narrativas
jornalísticas com circulação quase que diária, como o caso de jornais diários e
revistas. Trazemos isso à tona porque é preciso pensar os níveis narrativos quando
da publicação de narrativa de natureza jornalística em outros dispositivos, como
o livro, tal como é o caso do livro-reportagem de Eliane Brum, cujo recorte
vamos analisar.

149
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Disputa de vozes reconfiguradas

Bem vimos, pelo exposto acima, que o nível de poder entre os narradores
flui, predominantemente, de fora para dentro. Contudo, há questões a serem
consideradas em torno desse esquema de ascendência de poder. Desta forma,
pensamos que quando a disputa de vozes narrativas se estabelece em um
dispositivo de circulação temporal mais larga, em que não há pressões de espaço
e tempo como no caso de jornais diários e até mesmo de revistas semanais, há
uma reconfiguração no esquema de poder. Como o modelo do qual tratamos na
seção anterior foi elaborado pensando em narrativas jornalísticas publicadas,
principalmente, em jornais diários, recorremos a Soster (2015), que traz um
olhar que consideramos importante para subsidiar nossa análise acerca do livro-
reportagem O olho da rua. Vamos destacar alguns pontos principais.
Ao ponderar sobre as reconfigurações de ordem processual na emissão de
vozes narrativas em uma perspectiva de jornalismo midiatizado, Soster (2015)
chamou a atenção para o fato de haver uma reconfiguração na hierarquia de
vozes em função da periodicidade do diálogo dos dispositivos com seu público-
alvo, como no caso do livro. Isso porque, tanto jornais diários como, por exemplo,
livro, “são geridos, em termos de processos, por uma hierarquia produtiva
composta, de um lado, por organizações, que interferem hierarquicamente nas
demais instâncias narrativas, caso dos repórteres, e assim sucessivamente”
(SOSTER, 2015, p. 28).
Assim, se, na instância apresentada por Motta (2013), a interferência
tende a ser mais incisiva do primeiro para o terceiro narradores, essa lógica é
diferente quando muda a periodicidade. Soster (2015, p. 28-29), então, lança
mão de alguns questionamentos, entre os quais, “o que ocorre em modelos de
relatos jornalísticos em que a periodicidade não interfere em sua forma de ser,
caso dos livros-reportagem e das biografias de natureza jornalística?”.
O pesquisador aponta que “nestes casos, ainda que o primeiro-narrador
(organização) se faça igualmente presente, a hierarquia na emissão de vozes
parece se reconfigurar” (SOSTER, 2015, p. 29), inserindo novas vozes
enunciativas no sistema. Embora seja objeto de análise do autor, não daremos
foco à questão da configuração de uma quarta voz narrativa. Optamos, neste
momento, apenas pela reconfiguração do poder das vozes já conhecidas no
sistema jornalístico.
Então, a partir dessa proposição de reconfiguração das vozes, Soster
(2015), juntamente com membros do grupo de pesquisa Jornalismo e
literatura: narrativas reconfiguradas2, sugeriu um novo esquema analítico em
vista dos tempos diferenciados de narrativas jornalísticas. Com base no modelo
já proposto por Genette (1988) e adotado por Motta (2013), a sugestão é que
há uma diferença estabelecida no que se refere à emissão das vozes quando se
2 O grupo, constituído em 2013, é ligado, de um lado, ao Programa de Pós-graduação em Letras (PPG
Letras), enquanto que, de outro, ao Departamento de Comunicação da Unisc.

150
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

trata de narrativas de natureza jornalística nos livros-reportagem e biografias.


Sendo assim,

Como não há, no caso dos livros, exigência de processos produtivos


repetitivos, caso do que ocorre com um jornal diário, em decorrência da
periodicidade, que não existe usualmente no caso dos livros, podemos
pensar que a voz do segundo narrador (jornalista) ganha uma relevância
igual ou superior ao primeiro narrador (organização), e que ambos seguem
falando “mais alto” que o terceiro narrador. (SOSTER, 2015, p. 30).

De tal modo, diferente do esquema em que o poder age, geralmente, de


fora para dentro – do primeiro para o segundo e então para o terceiro narradores,
trata-se de um esquema em que o segundo narrador ganha evidência.
É preciso reforçar que a processualidade acima descrita, mesmo
reconfigurada na relação com o modelo original, diz respeito, principalmente,
ao dispositivo, embora esteja ele também inserido no sistema jornalístico.
Sendo assim, o primeiro, o segundo e o terceiro narradores têm visibilidade
no esquema. No caso do primeiro narrador, extradiegético, sua identificação se
dá pelas marcas existentes no livro (capa, índices, referências etc.). Por esta
perspectiva, o segundo narrador adquire centralidade operacional.
Em particular, reiteramos, pelas considerações de Soster (2015), que
determinados formatos de narrativa, caso dos livros-reportagem - presos a
temporalidades diferenciadas na comparação com jornais e revistas – há uma
reconfiguração da perspectiva de poder de vozes de enunciação narrativa.
Tem-se a potencialização do segundo narrador, que passa a exercer influência
diferenciada sobre o primeiro e o terceiro narradores.
Pelo exposto, assim como o modelo original dos níveis narrativos, as
considerações de Soster (2015) serão utilizadas para observar a narrativa de
Eliane Brum no livro-reportagem O olho da rua.

Estratégias de análise

Feito o aporte teórico precisamos, agora, explicitar os procedimentos


metodológicos de análise do livro-reportagem O olho da rua, da jornalista Eliane
Brum. Nossa escolha pela obra se deu pela observação prévia de que havia, nela,
consideráveis disputas de vozes narrativas. São 10 reportagens que compõem
o livro, mas originalmente publicadas na revista Época, entre 27 de março de
2000 e 18 de agosto de 2008. No livro, contudo, além das reportagens, Eliane
Brum apresenta espaço dedicado aos bastidores da produção do conteúdo,
onde descreve métodos de apuração, aspectos positivos e falhas na construção
das mesmas, algo que não é usualmente encontrado nas estruturas narrativas
de natureza jornalística com as quais dialogamos.
Para a análise no presente trabalho, no entanto, a proposta é um recorte

151
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

da obra, de modo que faremos a discussão dos níveis narrativos na primeira


e na quinta reportagens do livro, A floresta das parteiras e O Povo do Meio.
Consideramos, previamente, que as narrativas concentram as múltiplas disputas
de vozes apresentadas no esquema de Motta (2013), o que permite um panorama
geral da obra. Mais especificamente, em O Povo do Meio, daremos mais atenção
ao espaço dos bastidores da reportagem.
Como método, propomos a pesquisa qualitativa, pois entendemos que ela
não centraliza atenção na representatividade numérica, mas na compreensão
interpretativa de experiências dentro de um contexto, ou seja, um estudo
imersivo (MINAYO, 2003; GODOY, 1995). Seguimos nossa observação por
meio de um estudo de caso que, embora parta do texto da narrativa jornalística,
visa à compreensão do problema de pesquisa pelo viés da enunciação, não uma
análise de conteúdo.
Então, para alcançar nossos objetivos desenvolvemos uma tabela que nos
auxiliará a identificar, nas narrativas analisadas, a presença do narrador e como
ele se posiciona nos diferentes níveis narrativos existentes nas reportagens e
nos bastidores de cada publicação. Sendo assim, conforme o modelo que segue
abaixo, a tabela apresenta linhas horizontais nas quais indicamos marcas da
presença dos três níveis narrativos do modelo de original de Genette (1998),
apresentado por Motta (2013), tanto para as reportagens como para o espaço
dedicado aos bastidores da produção. Nas três colunas, a tabela dedica
espaço para a localização, por página, de excertos do texto que caracterizam a
identificação dos diferentes níveis narrativos:

REPORTAGEM 1
Título
NÍVEIS NARRATIVOS PÁGINA EXCERTO
1º narrador
2º narrador
3º narrador
BASTIDORES DA REPORTAGEM
NÍVEIS NARRATIVOS PÁGINA EXCERTO
1º narrador
2º narrador
3º narrador

Fonte: Elaborado pela autora.

Dessa forma, a partir dos excertos da reportagem postos na tabela é


possível identificar os múltiplos níveis narrativos apresentados por Motta
(2013), segundo seu poder de voz (veículo/suporte – repórter – personagem).
Sendo assim, na primeira linha, temos a localização de um excerto indicativo do
primeiro narrador, neste caso, o livro. Na segunda linha, a atuação do segundo

152
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

narrador, conforme o modelo exposto por Motta, é o narrador-jornalista, ou


repórter. A terceira e última linha é dedicada à identificação e localização, no
texto, da performance do terceiro narrador, a personagem.
Entendemos que a adoção de uma tabela para a análise da perspectiva
de enunciação dialoga com a proposta de pesquisa qualitativa, uma vez que os
exemplos possibilitam discutir o quê, dentro do texto, permite pensar sobre uma
possível reconfiguração das vozes narrativas. Entendemos que os exemplos dão
conta de subjetividades e interpretações que emergem das vozes na enunciação
da narrativa jornalística de Eliane Brum.
Feita a identificação das marcas no texto que sugerem os níveis narrativos,
o próximo passo é a análise desses indicadores pelo viés interpretativo da
pesquisa qualitativa, de forma a perceber se eles dão conta de extratificar a
disputa de vozes presente na narrativa jornalística de Eliane Brum.

Considerações interpretativas

Identificadas as marcas, passamos à análise dessas referências. Entretanto,


o primeiro aspecto a destacar, brevemente, é que nas dez reportagens e nos
seus bastidores o primeiro narrador se apresenta basicamente da mesma forma,
seja pelo layout de apresentação das páginas, fontes dos títulos e textos, assim
como nos marcadores de data nas quais, originalmente, os conteúdos foram
publicados, assim como constam fotos e legendas e o indicativo de crédito para
os respectivos fotógrafos. São referências que revelam o primeiro narrador sendo
a revista (pela data, fotos e créditos), agora transcritos para o suporte livro
que, igualmente, destaca esses indicadores e deixa as suas marcas pelo novo
layout de apresentação das reportagens. Servem para a padronização do texto,
uma uniformidade narrativa em sua primeira instância, quando nos referimos à
tabela dos níveis. Assim como padronizam, também organizam a leitura e criam
uma identidade na relação com o leitor na medida em que ele avança pelas
páginas. Sendo assim, adiante, daremos atenção aos demais níveis narrativos
nas considerações que se seguem.

A floresta das parteiras

A primeira reportagem do livro, intitulada A floresta das parteiras, foi


veiculada na revista Época em 27 de março de 2000. Na produção, localizamos
um dos poucos momentos em que o segundo narrador aparece de forma evidente
como participante da história. É quando a repórter refere que “A parteira da
Amazônia dá adeus enquanto nossa canoa some no rio” (BRUM, 2008, p.
23). A expressão “nossa canoa” revela muito bem a participação da mesma
na condução da cena, logo em seguida dando detalhes descritivos do cenário
que enxerga no cruzar da canoa pelo rio, reforçando, dessa forma, sua presença

153
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

entre as personagens da matéria3. Eliane Brum é mais do que observadora das


parteiras da Amazônia.
A linguagem empregada na observação também denota riqueza de
informação e técnica de apuração e de escrita, assim como observamos no
jornalismo literário e no New Journalism. Por exemplo, quando descreve uma
das personagens da história: “Negra, negríssima, como a terra do quilombo do
Curiaú, nos arredores de Macapá. Abre os braços gorduchos, musculosos de
pegar menino, alinhavar vestidos e benzer doentes” (BRUM, 2008, p. 28).
É mais comum, no entanto, a apresentação do segundo nível narrativo
do modelo de Genette (1998), pela repórter que observa e conhece a história.
É como o narrador heterodiegético (REIS; LOPES, 1988), colocando-se como
testemunha objetiva dos fatos, citando dados e falas dos personagens, como
neste caso:

A voz de Dorica, a mais velha parteira da floresta, ecoa em cada mulher


quando sentencia: “É o tempo que faz o homem, e não o homem que faz
o tempo. Parto é mistério. E menino, a gente nunca arranca. Só recebe”.
(BRUM, 2008, p. 34)

Assim, na maior parte desta reportagem, observa-se que o narrador não é


um personagem do que narra, mas a perspectiva da enunciação passa por este
narrador. E é assim que encontramos o terceiro nível narrativo, uma vez que as
personagens são apresentadas pela observação do segundo narrador, este que
também define em quais momentos elas detém o poder de voz, pelas citações e
diálogos colocados entre aspas.
O único momento em que uma das personagens, leia-se fonte da reportagem,
detém o poder de voz de forma mais intensa é em espaço aparte da construção
da matéria jornalística, situada na página 35 do livro. É quando Juliana Magave
de Souza, por exemplo, realiza um relato de página inteira sobre sua história
como “pegadora” e suas “mãos aleijadas pelo sangue da mulher”. Ainda assim
é um relato escolhido pela jornalista, por a considerar, no texto, “uma pegadora
em prosa e verso”.
Em três páginas dedicadas aos bastidores de produção da reportagem, Eliane
Brum revela ter cometido equívocos pelo pouco tempo disponível para a apuração.
Apesar de fazer referência à primeira instância narrativa em seu relato, o destaque
fica por conta do segundo narrador, que aparece sem qualquer timidez.
Ao abrir os bastidores, Eliane Brum explicita que era a sua primeira reportagem
para a revista Época e que ela e a fotógrafa que a acompanhava tinham, além
da pauta sobre as parteiras para fazer em quatro dias, uma entrevista com a
então governadora do Maranhão. Apesar de não ter esperado um parto acontecer
pelas mãos de uma parteira da Amazônia, Eliane confessa que a reportagem “por

3 Aqui, utilizamos o termo matéria para nos referirmos como sinônimo de reportagem, pauta, notícia.

154
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

cesariana” é “um filho bonito” devido ao respeito à linguagem das parteiras:

Minha reportagem por cesariana, ainda assim, é um filho bonito. Porque


minha pressa de obstetra com agenda lotada foi parcialmente compensada
pelo respeito à linguagem das parteiras. O que as pessoas falam, como
dizem o que têm a dizer, que palavras escolhem, que entonação dão ao
que falam e em que momentos se calam revelam tanto ou mais delas
quanto o conteúdo do que dizem. (BRUM, 2008, p. 37).

É uma posição diferente do que, em geral, ocorre no jornalismo dito


tradicional, em que a opinião do repórter não pode aparecer frente aos ideais de
imparcialidade e objetividade. Por outro lado, se observadas as complexificações
que emergem da relação entre jornalismo e literatura, podemos encontrar nesta
questão indicativos de estratégias de efeito de sentido, como humanização do
relato e efeito de real, ao dizer que estava lá, como viu e como procedeu,
valorizando a riqueza a partir da simplicidade das suas fontes.

As palavras também nasciam dessas mulheres extraordinárias de parto


natural. E emergiam como literatura da vida real. Elas falavam tão
bonito, com uma variedade e uma fundura tão impressionantes, que
meu trabalho era mínimo. Bastava escutar e anotar cada suspiro para
não perder nada. Nem que eu quisesse, nem que eu estivesse fazendo
ficção e pudesse inventar, eu chegaria perto da beleza com que elas se
expressavam. (BRUM, 2008, p. 38).

O terceiro nível narrativo não aparece no espaço dos bastidores de A


floresta das parteiras. Não tem manifestação, a não ser pelas menções de nomes
referidos pela jornalista Eliane Brum em sua confissão do equívoco na apuração
da pauta devido ao deadline da redação. É uma ascendência do segundo nível
narrativo sobre os demais quando Eliane Brum tenta justificar o fato de não ter
esperado um parto acontecer antes de encerrar a apuração da reportagem.

O Povo do Meio

O Povo do Meio é a quinta reportagem do livro O olho da rua. Nela, Eliane


Brum conta sobre a população que vive no coração da Amazônia e o faz por
meio de personagens como Raimundo, aliás, a maioria dos homens atende por
esse nome, segundo diz, na Terra do Meio. Fruto de sua observação, Eliane
Brum transforma as fontes em personagens ao trazer riqueza de detalhes nos
gestos, nas características físicas e emocionais destas.
Com sensibilidade, apresenta um povo analfabeto, esquecido do mundo.
A maior parte da reportagem é conduzida por sua observação e nas poucas
intervenções com falas, citações entre aspas, as personagens têm preservadas
características do modo de falar do lugar e a simplicidade que denota a falta de

155
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

conhecimento de um outro mundo para além da floresta.


Joga com as palavras, quase que transportando o leitor para dentro da Terra
do Meio. Em alguns momentos, deixa transparecer mais a sua presença como
observadora e alguém que, mesmo por alguns dias, vive a vida das personagens.
Por exemplo, quando diz que “nessas madrugadas, o silêncio da selva é feito de
ruídos” (BRUM, 2008, p. 167), denota-se um segundo narrador participante
da história, o que adiante é comprovado no espaço dedicado aos bastidores da
reportagem.
O primeiro narrador sempre evidente pelo projeto gráfico e um segundo
narrador que se posiciona diante das escolhas feitas na apuração e escrita da
reportagem. Nesta, especialmente, Eliane Brum apresenta duas vezes o espaço
dos bastidores da reportagem. Na primeira, conta que o texto foi produzido
para a internet, na semana da publicação da reportagem na revista Época.
Na sequência encontramos os bastidores dos bastidores da produção, uma vez
que no segundo momento Eliane Brum escreve para o livro. Se não fizesse
esta revelação, a atualidade do texto não permitiria tal constatação. Assim,
compreendemos uma vez mais que a reportagem parece ter continuidade e
atualização por meio do conteúdo dos bastidores.
Eliane Brum revela, mais do que a ascendência de um primeiro narrador
que, de certa forma, normatiza o seu trabalho (neste caso, na revista) e revela-
se como narradora que precisa fazer escolhas: “Como testemunhar a luta de
um punhado de brasileiros esquecidos, invisíveis e terrivelmente frágeis muito
depois do fim do mundo e contar isso em alguns parágrafos, páginas?” (BRUM,
2008, p. 181).
Na segunda parte do trecho em que expõe sobre a produção da reportagem, a
jornalista volta a mencionar as personagens da história, atualizando informações
dadas na reportagem original para a revista Época, ainda em 2004:

No final de outubro, Raimundo Belmiro, Herculano Porto e Luiz Augusto


Conrado, o Manchinha, foram retirados de helicóptero da selva e levados até
Brasília para dar notícias da guerra na floresta. Nessa viagem ao país oficial,
Raimundo se transformou num cidadão brasileiro ao fazer sua primeira
carteira de identidade. (BRUM, 2008, p. 182).

E mais: a jornalista revela que no momento em que esse texto foi


escrito, em maio de 2008, conquistas foram obtidas dada a repercussão da
publicação e das notas veiculadas depois da reportagem, como a instalação
da primeira escola na reserva extrativista. Por isso, para Eliane Brum, “este
é um daqueles momentos em que a felicidade de ser repórter não cabe nas
letras. Vale uma vida.”
Isso quer dizer que no livro há uma possibilidade de atualização da
reportagem, dada a perspectiva temporal diferente do que ocorre com a revista.

156
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A republicação em livro permitiu o espaço revelador sobre a apuração, sobre a


jornalista em sua posição de segundo narrador e, por vezes, terceiro também.
Em síntese, encontramos nas reportagens e seus bastidores, diferenças na
evidência dos níveis narrativos. Nas reportagens, o primeiro narrador se manteve
presente da mesma forma, a partir do projeto gráfico do livro. Já o segundo
narrador se apresentou em diferentes performances, com focos narrativos mais
ou menos revelados à percepção do leitor, especialmente o leitor leigo quanto
ao posicionamento narrativo. Já as personagens, enquanto detentoras de poder
de voz, estão perfeitamente visíveis.
O mais interessante, pelo analisado, é a ascendência do segundo narrador
no espaço dos bastidores. Enfim, são diversos os indícios para levarmos às
conclusões acerca do poder de voz nas narrativas de Eliane Brum no livro-
reportagem O olho da rua.

Considerações finais

Após o levantamento dos níveis narrativos, temos algumas inferências.


Para tanto, seguimos o que postula Motta (2013, p. 92) sobre a necessidade
de considerar “o foco no processo de comunicação narrativa, na atitude e na
posição do narrador, em suas intencionalidades e estratégias (...) nos efeitos de
sentido possíveis” e não apenas o produto.
Cabe uma indagação: por que a publicação dos bastidores das
reportagens só ocorre no livro editado por Eliane Brum? Temos algumas
pistas e acreditamos que a mais latente delas esteja na perspectiva da
periodicidade. Ou seja, diferente da revista Época, com edições semanais, o
livro não tem um prazo rotineiro de publicação e circulação. Embora estejam
datadas no livro, segundo sua publicação original na revista, o conteúdo das
reportagens nos parece atemporal. Perspectiva que, em nosso entendimento,
reforça que o que Eliane Brum faz não é puramente notícia factual e que por
meio das suas pautas consegue universalizar o interesse pelo conteúdo, a
abrangência das temáticas abordadas e o alcance da narrativa. A jornalista
conduz a narrativa por meio das fontes, que se tornam personagens. A partir
de profunda observação destas, dá a elas poder de voz na narrativa, ainda
que este poder seja controlado pelas aspas permitidas pela jornalista que é,
no caso, o segundo narrador.
De outra parte, entendemos que a classificação dos níveis narrativos
existente, segundo apresentado por Motta (2013) não dá conta da análise da
narrativa construída pela jornalista Eliane Brum. Todavia, o modelo original
serve de amostra e indica caminhos para a compreensão de uma nova oferta
de sentidos a partir do poder de voz que emana da figura do narrador quando
considerada a perspectiva das reportagens reunidas no livro. Vejamos alguns
aspectos a partir dessa compreensão. As inferências, longe de serem conclusivas,

157
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

norteiam uma possibilidade de estudo acerca dos níveis narrativos, do poder de


voz em questão e de suas múltiplas significações.
A partir dos bastidores das reportagens publicadas na revista Época
e apresentados, exclusivamente, no livro O olho da rua, entendemos que a
ascendência de poder de voz atua de forma diferenciada quando o suporte é o
livro. Se, na revista, o poder de voz é exercido de forma mais intensa do primeiro
para o terceiro narradores, no livro, quando tratamos do espaço dos bastidores,
essa ordem é transgredida.
Vimos sobre esse aspecto em Soster (2015) e concordamos que há uma
ascendência, através dos bastidores das reportagens de Eliane Brum, do segundo
narrador sobre os demais. A repórter, como segundo narrador, conta do processo
narrativo e entrega novas significações ao leitor ao descortinar a apuração e suas
impressões, bem como a própria crítica.
Sendo assim, entendemos que quando a periodicidade muda, como
no caso do livro, o segundo narrador tem ascendência sobre o primeiro. A
publicação dos bastidores revela uma crescente da jornalista Eliane Brum,
ou seja, o segundo narrador, sobre os demais. O suporte livro permite essa
elevação do poder de voz da repórter que, tradicionalmente, não é permitida
nos veículos, cuja pressão do tempo e critérios de noticiabilidade norteiam a
prática da narrativa jornalística.
Como vimos, podemos compreender o livro-reportagem como um “(...)
veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em
grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios jornalísticos
periódicos” (LIMA, 2009, p. 26). Tem, portanto, a possibilidade de experimentar
novas formas de captação sem ser premido pelo tempo.
Então, no diálogo com Soster (2015), percebemos que para extratificar
os níveis narrativos para a análise das vozes que narram no livro-reportagem
O olho da rua, de Eliane Brum, é preciso que se reconfigure o esquema de
poder de voz. Podemos pensar os sentidos que emergem do narrador proposto
por Motta (2013), pensando a disputa de vozes numa perspectiva jornalística
temporal, o que se aplica à revista Época, por exemplo, mas a extratificação
não funciona quando falamos da narrativa de Eliane Brum no livro. Ou
seja, quando falamos da narrativa transposta e reconfigurada pelo viés dos
bastidores no livro - e já concluindo com a certeza de que há ainda mais para
compreender a partir dessas inferências - temos que pensar na ascendência
do segundo narrador sobre os demais níveis narrativos, diferentemente do que
ocorre na apresentação de Motta (2013), segundo o qual o poder de voz flui,
predominantemente, de dentro para fora.

158
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

BRUM, Eliane. O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real.
São Paulo: Globo, 2008.
GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Trad. Fernando Cabral Martins.
Lisboa, Portugal: Vega, 1976.
GENETTE, Gérard. Nuevo discurso del relato. Madrid: Cátedra, 1998.
GODOY, Arilda Schmidt. Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades.
Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 35, n. 2, p. 57-63, abr.
1995.
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão
do jornalismo e da literatura. 4. ed. revisada e ampliada. Barueri: Monole, 2009.
MEDINA, Cremilda. Povo e personagem. Canoas: Ed. da ULBRA, 1996.
MOTTA, Luís Gonzaga. Narrativas: representação, instituição ou experimentação
da realidade? In: ENCONTRO DE PESQUISADORES EM JORNALISMO, 7.,
2009, São Paulo. Anais... São Paulo: SBPJor, 2009.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: Editora Universidade
de Brasília, 2013.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. (Org.) Pesquisa social: teoria, método e
criatividade. 22. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
REIS, C.; LOPES, A. C. M. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo: Ática,
1988.
RESENDE, Fernando. O jornalismo e suas narrativas: as brechas do discurso e
as possibilidades do encontro. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES
EM JORNALISMO, 7., 2009, São Paulo. Anais... São Paulo: SBPJor, 2009.
Disponível em: <http://www.sbpjor.kamotini.kinghost.net/sbpjor/admjor/
arquivos/fernando_resende.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2017.
SOSTER, Demétrio de Azeredo. A reconfiguração das vozes narrativas no
jornalismo midiatizado. Rizoma, Santa Cruz do Sul, v. 3, n. 1, p. 23, jul./2015.

159
Últimas palavras? Formas de aproximação
do inefável através das narrativas
biográficas de suicidas

Victor Lemes Cruzeiro

Introdução: Getúlio e Virginia

Este capítulo se inicia com a evocação de duas personalidades bastante


conhecidas: o presidente brasileiro Getúlio Vargas (1882-1954) e a escritora
britânica Virginia Woolf (1882-1941). Ainda que com histórias e vidas tão
distintas, esses dois contemporâneos compartilharam um mesmo terrível
destino: o suicídio. E, tão diversas quanto suas trajetórias, são distintas as suas
cartas que, cada uma a seu modo, coroam essa derradeira opção:

Sigo o destino que me é imposto. [...] Eu vos dei a minha vida. Agora
ofereço a minha morte. (VARGAS apud NETO, 2013, p. 346).

Eu sinto que eu fui longe demais dessa vez para voltar [...] estou certa
que não vou superar isso dessa vez. (WOOLF apud DALLY, 1999, p.
131).

Esses breves trechos das duas cartas de suicídio, tão diferentes em seus
contextos, estilos e destinatários, servem como uma demonstração do alcance
do autoextermínio. Enquanto Virginia escrevia para sua irmã e seu marido,
Getúlio endereçava suas palavras a todo o povo brasileiro. Contudo, apesar de
qualquer diferença que os separe, ambos uniram-se no inexorável momento de
dar cabo das próprias vidas. À guisa de introdução, essas cartas e seus dois
singulares autores abrem este trabalho sobre um assunto que permeia toda a
história da humanidade, a despeito de ser pouco discutido com profundidade.
Estima-se que 800 mil pessoas tirem a própria vida todos os anos, e acredita-
se ainda que, para cada suicídio, ocorram mais de 20 tentativas frustradas (OMS,
2017). Isso torna o suicídio a 15ª maior causa global de mortes, perdendo apenas
para as chamadas “doenças não-comunicáveis” (doenças cardiovasculares, câncer,
diabetes etc., responsáveis por mais de 70% das mortes globais) e ultrapassando
a soma de todas as mortes violentas – incluindo homicídios, conflitos e terrorismo
(RITCHIE, 2018). São inúmeras as motivações, desde econômicas a emocionais,
mas o fato é que suicídios aconteceram e acontecerão.

160
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Frente a tal cenário implacável, como compreender esse obtuso impulso


de tirar a própria vida? Coloca-se aqui, imediatamente, um obstáculo que
emerge de uma atitude evasiva da racionalidade frente a um tema tabu como
esse. Pouco se fala sobre suicídio, e menos ainda se publica sobre. Em um
estudo sobre obituários dos jornais The New York Times, dos EUA, e da Folha
de S. Paulo, do Brasil, Martinez (2018) não identifica nenhuma referência a
mortes por suicídio durante o período pesquisado: outubro e novembro de 2007
(MARTINEZ, 2018, p. 156). E, ainda que o período seja breve, há um consenso
de que pouco ou nada se publica sobre o assunto. Além do medo do “contágio”
– o incentivo a novos suicídios – são várias as causas desse silêncio, conforme
analisa a escritora Hersh (2010)1:

Eu compreendo porque as pessoas escondem o suicídio. Algumas religiões


não vão enterrar seus mortos se a família é honesta sobre a causa da
morte. Frequentemente cláusulas de seguros de vida trazem dispensas
no caso de suicídio. A vergonha também tem um papel importante. Os
padrões sociais devem ser protegidos.

É possível, no entanto, enfrentar essa aporia pelos lampejos sutis dessa


vontade derradeira nas palavras e vidas daqueles que optaram por essa solução
drástica. Assim, os encontros das notas de despedida das duas figuras que
iniciam esse capítulo, com duas biografias sobre eles, possibilitarão a construção
de pequenas pontes nesses abismos que se espraiaram entre suas vidas, suas
ações, seus afetos... e suas mortes. Deste encontro, irá nascer uma teia, que
alinhava o estudo exploratório das vidas – e mortes – das personagens (MATTAR,
2001), com a análise comparativa com suas biografias, buscando pontuais
semelhanças e diferenças (ANDRADE, 1999).
Para nortear o corpus de comparação, o trabalho estabelece o Jornalismo
Literário como ferramenta de libertação da voz do escritor e acolhimento de
outras formas de linguagem dentro do discurso jornalístico (SIMS, 1995; LIMA,
2009) para, dentro das narrativas biográficas sobre estas vidas, encontrar essas
vozes que se foram sem explicação.
Essa dissonância, entre as vozes dos mortos e dos vivos, em Getúlio e Virginia
não é, no entanto, algo novo, nem tampouco uma exclusividade de um campo
exclusivo chamado “Jornalismo Literário”. Muito antes de abraçar ferrenhamente
o título, deve-se lembrar que este é apenas uma das faces do Jornalismo, e como
tal, compõe a grande galeria de portas que sua pesquisa possibilita. Afinal, muito
antes de Lira Neto escrever a biografia do suicida Getúlio, o grande Alberto Dines
(1932-2018) já escrevera Morte no Paraíso: a Tragédia de Stefan Zweig (1981),
jogando luz, com sua voz única, sob a voz colossal de uma das mais fascinantes
personalidades do século XX, que também decidiu dar cabo da própria vida – e
1 Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/struck-living/201005/dont-omit-the-obit.
Acesso em: 03 ago. 2018.

161
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que foi, também, um exímio biógrafo. Mesmo não sendo um crítico do chamado
Jornalismo Literário, Dines não o compreendia como um campo separado da
área, mas como uma de suas melhores formas, a que ele também chamava de
“beletrística” (PEREIRA, 2008), as belas letras do jornalismo.
Dito isto, parte-se agora para uma imersão no campo fértil de visões e
possibilidades do Jornalismo Literário, presente nas biografias que possibilitarão
– introdutoriamente – o encontro com essas emoções tão avassaladoras que,
escondidas na escuridão inefável do irracional, levam alguém a botar fim à
própria vida.

Os portões das biografias

A metodologia desta investigação se ampara em dois polos. No primeiro,


percebe-se a grandeza do sentimento doloroso, grande demais para qualquer
registro científico oficial. No outro oposto, invoca-se o Jornalismo Literário, como
forma de registro distinta, que carrega em si um amálgama rico entre o factual e
o ficcional, abarcando níveis do real e o irreal, do criativo e do não ficcional, do
certo e do errado (CASTRO, 2010; CORSI, 2017; MYERS, 2012). É entre esses
extremos, no meio do caminho, que se encontra o caminho para o centro, onde
reside a possibilidade de compreender o inexprimível a partir dos lampejos da
sua própria invisibilidade.
Tentativas similares foram feitas ao analisar a incapacidade de se
descrever a dor física de Frida Kahlo (1907-1954), a partir de quatro biografias
romanceadas da pintora mexicana (CRUZEIRO, 2017) e a própria narrativa
íntima do diário como fortalecimento das narrativas biográficas (CRUZEIRO,
2016). A questão da narrativa se apresenta sempre como fio condutor dessas
pesquisas, por se apresentar como a zona interseccional entre o jornalismo
dos manuais strictu sensu, e suas várias faces literárias e autorais (CALADO;
ROCHA, 2017). Neste trabalho, em especial, busca-se, dentro da narrativa
biográfica, uma das formas da amplidão da vida do outro: o biografema
(BARTZ, 2014).
Retirado da teoria do literato francês Roland Barthes (1915-1980), o
biografema é o ponto de partida para compreender que escrever sobre uma vida
é selecionar. Ao decidir escrever a história de alguém, um biógrafo não possui
toda a vida que passou. Mesmo de posse do mais rico acervo de cartas, diários,
gravações, filmagens e testemunhos, sempre haverá pontas soltas e lacunas.
Philippe Artières, teórico francês do arquivamento do eu, nos lembra que não há
registro exaustivo, pois “não guardamos todas as maçãs da nossa cesta pessoal;
fazemos um acordo com a realidade, manipulamos a existência: omitimos,
rasuramos, riscamos, sublinhamos” (ARTIÈRES, 1998, p. 11). Portanto, toda
biografia é um apanhado de traços selecionados – afetiva e cuidadosamente
– para a construção de um mosaico de uma vida. E, no caso daqueles que

162
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

decidiram peremptoriamente pelo suicídio, o biografema torna-se uma pequena


relíquia, o resgate de uma vida inteira que foi, e que corre o risco de desaparecer
sob o manto áspero do tabu.
Assim, o biografema apresenta-se como um traço, um detalhe, um rastro
que se escolhe – obrigatório e voluntariamente – no tatear de uma vida que já
se foi. É a partir dos biografemas que nasce a biografia, habilidosamente tecida
pelas mãos do seu autor como uma teia, com lacunas desiguais, que abrem
espaço para o movimento violento de criação e recriação de mundos da escrita
(BARTZ, 2014).
A singularidade do uso do biografema está, especificamente, na sua
ligação com a vida. Mesmo que ele sempre conduza uma narrativa através de
um caminho selecionado pelo autor, o biografema não é absoluto, e sequer é o
mesmo para o biógrafo que é para o biografado – dado que para este ele não
existe. O que para o autor é um fato selecionado, que gera lacunas a serem
preenchidas pela escrita, para o outro é uma peça imperceptível de uma vida
inteira que foi percorrida e vivida sem a menor opção.
Assim, a biografia, tal como a entende Bartz (2014) e Artières (1998),
coloca o autor frente a uma questão ética2: a vida não é a sua. Frente a um
colosso de uma vida que sequer conheceram, biógrafos e biógrafas se aventuram
a recontar, renarrar, o que aconteceu, mas não viram. Mesmo no caso de exceções,
como a argentina Raquel Tibol e o britânico Quentin Bell, que conviveram com
seus respectivos biografados – Frida Kahlo e Virginia Woolf – não há garantia –
nem epistemológica, nem narrativa – de que aquela vida contada se desenrola
da maneira exata como ocorreu, e vice-versa.
Aplicada à investigação das notas de despedida, então, essa tessitura
biografemática dá abertura a uma multiplicidade de sentidos que vem da
narrativa do autor (a), através de uma leitura de uma carta (b) escrita por outro
sob o peso do impulso suicida (c) – algo como: “Lira Neto conta (a) que Getúlio
escreveu (b) depois de longa dificuldade (c)”, ou “Peter Dally relata (a) que
Virginia despediu-se da irmã (b) após tanto sofrer (c)”.
Este exemplo apresenta ainda alguns problemas que dizem respeito à
efetividade da empreitada biográfica. Nem Dally (1999) nem Lira Neto (2013)
possuem dados concretos sobre Virginia e Getúlio além de registros escritos,
outras biografias, gravações e, claro, as cartas de suicídio. Frente a uma limitação
de fontes, em que cada uma já apresenta um número imenso de biografemas e

2 A questão ética que aqui se apresenta não tem tanto um tom moral, mas uma nuance epistemológi-
ca, como a que cabe ao filósofo, e que o austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) coloca na premis-
sa 7 do seu Tractatus Lógico-Filosófico: “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Ao contrário
do cientista das ciências duras ou exatas, que não precisa se engajar diretamente no seu trabalho de
apresentar os fatos, dados de maneira objetiva, o cientista da complexidade – para trazer a noção de
Morin à discussão – seja o filósofo, o antropólogo, ou o escritor, envolve-se direta e demoradamente na
maturação de suas ideias. Antes do período de confecção desses fatos em sua subjetividade, é inútil
pronunciar-se. É importante evitar o “fascínio linguístico da exatidão” (MORENO, 2000, p. 71).

163
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

maior ainda de lacunas, deve-se abrir caminho para discussões sobre as formas
de construir narrativas.
E, no que tange especificamente sobre o ato de construir narrativas – e não
somente narrar –, deve-se lembrar que ele está intimamente ligado ao espírito
arquivístico do Ocidente, conjurado pela escrita alfabética e materializado em
uma série de objetos como o livro de contabilidade, o relógio, o calendário e,
por extensão, o livro3. Tal desejo de registro contumaz floresceu no desejo pela
biografia definitiva, aquela que, afastada do seu objeto (como preza a ciência),
esgota os detalhes, dos mais triviais, como o nascimento e a carreira, aos mais
sórdidos, como a sexualidade e o suicídio, esgotando até mesmo os biografemas.
A biografia romanceada, no entanto, está arvorada na multiplicidade
combinatória dos biografemas, e na infinitude de estilos e vozes oferecida pelo
Jornalismo Literário, não busca ser definitiva. Ela não deve ser vista como um
ponto de partida para uma narrativa linear e uma voz única, mas como um
grande pátio onde se encontram os corredores das várias narrativas de uma
vida. E, no caso específico de Getúlio Vargas e Virginia Woolf, um pátio onde
terminam as obscuras galerias por onde correram tantas perturbações, quase
invisíveis, e que os levaram à decisão última do suicídio.

Os corredores do fim da vida

Cabe investigar agora que tipo de biografema se selecionará nessa


investigação. Frente a uma miríade de eventos reais definitivos, tudo pode ser
recontado pelo biografema. E é curioso que, ainda que possam se selecionar
inúmeros, há sempre aqueles que dificilmente podem deixar de ser selecionados,
que geralmente foram divisores, definidores ou finalizadores de algo. A pintora
Frida Kahlo, por exemplo, teve a vida completamente transformada pelo acidente
de ônibus que sofreu aos 18 anos, fato que está sempre nas suas biografias.
A que se atribui a recorrente escolha desse biografema, e não dos seus casos
conjugais ou de sua primeira exposição solo?
A explicação está no fato de que a jovem pintora quase morreu, tendo sido
submetida a um longuíssimo e doloroso período de convalescência – muitas
vezes visto como início de sua pintura – que de certa forma estendeu-se por toda
sua vida com uns poucos momentos de paz e ausência de dor.
Mais do que o caráter novidadesco do acidente que quase matou Frida, a
presença do acidente nas suas biografias é explicada por uma vontade, ainda
que confusa, de compreender aquela dor. Conta-se que o namorado de Frida,
Alejandro, descreveu os gritos que a menina deu ao ter arrancado um corrimão
que lhe havia atravessado o abdome, como “mais altos do que as sirenes das
ambulâncias que chegavam” (MORRISON, 2003, p. 8).

3 Para uma discussão mais aprofundada da genealogia material do registro, principalmente íntimo, cf.
CRUZEIRO, 2018, capítulo 1.

164
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Essas várias camadas de narrativa conduzem de um sendeiro luminoso


para um insondável claustro onde não se divisa mais nada, nem mesmo a
exatidão da língua, eclipsada pelo grito ensurdecedor.
Scarry (1987, p. 4), ao investigar a dor física, diz que esta “garante uma
incompartilhabilidade [unsharability] por meio de uma resistência à língua”.
Contudo, a dor não apenas resiste ao vernáculo, mas o destrói. Não há idioma
capaz de suportar a força de uma dor de um corte profundo ou, como será visto
adiante, de um desespero infinito.
A teórica estadunidense prossegue, dizendo que a dor resiste à linguagem
porque ela não possui um conteúdo referencial. A consciência humana, diz a
autora, se baseia na união entre um estado interior de percepção e um objeto
no mundo exterior. Assim, os indivíduos não apenas “têm sentimentos”, mas
“têm sentimentos por algo ou por alguém” (SCARRY, 1987, p. 5). O amor, o
medo, e mesmo a dúvida, não existem por si na consciência, mas são o amor
por a ou o medo de b. E mesmo as sensações somáticas, como fome e sede,
não existem sem a conjunção com um objeto externo, pois sente-se fome de
p ou sede de q.
É através dessas relações referenciais que os humanos são capazes de
mover-se para além de seus próprios limites corporais, alcançando o mundo
externo e, assim, tornando-o compartilhável [sharable]. Com a dor, esse processo
inexiste, pois não há conexão alguma entre o estado de consciência interno
de sentir dor e um objeto externo que a causa ou motiva. Não há conteúdo
referencial objetivo na dor, pois não há dor de ou por ou sobre ou com ou para
algo. Há apenas dor.
O médico húngaro Victor Cornelius Medvei (1906-2000), conforme
cita Scarry (1987), percebeu na expressão da dor física por seus pacientes a
existência de um mecanismo de “como se”. Segundo o autor, no livro Os Efeitos
Mentais e Físicos da Dor (1948), há duas – e apenas duas – metáforas que
pacientes com dor utilizam: a primeira especifica um agente externo causador da
dor, na forma de uma arma (“Dói como se um martelo estivesse esmigalhando
minha espinha!”), e a segunda especifica um dano corporal que acompanha a
dor (“Eu sinto como se meu braço estivesse quebrado em cada articulação e os
pedacinhos pontiagudos estivessem rasgando a minha pele...”). Essa premência
ativa e contumaz demonstra a limitação linguística que a sua sensação carrega
(SCARRY, 1987, p. 15-16).
Contudo, como relacionar essa limitação da dor com o encerramento
voluntário e premeditado de uma vida? Como compreender e, em seguida,
preencher o espaço vazio deixado pela decisão secreta – e não registrada – e
deliberada – portanto, racional – de pôr fim à própria vida? Que espécie de
biografema ajuda a divisar o ato do suicídio? E como a carta de despedida pode
auxiliar nesse encontro entre o silêncio da morte e a voz da ficção?

165
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Para responder a essa pergunta, deve-se ir além das discussões médicas


que Scarry (1987) fornece, pois não há uma causa física que, sozinha,
possa esclarecer o mecanismo do suicídio. O sociólogo alemão Émile
Durkheim (1858-1917), precursor na investigação do tema no Ocidente,
define primariamente o suicídio como “toda morte que resulta mediata ou
imediatamente de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima”
(DURKHEIM, 2005, p. xl). Mais adiante o pensador, buscando criar uma
fórmula definitiva na qual enquadra o evento singular do autoextermínio,
conclui que “no momento da ação a vítima tem consciência do resultado
definitivo de sua conduta, independente da razão que o levou a agir dessa
forma” (DURKHEIM, 2005, p. xlii). O suicídio aparece, portanto, como uma
decisão consciente de interromper a própria vida. Sem aviso, sem recuperação
e, muitas vezes, sem justificativa.
Para compreender uma ação ao mesmo tempo tão singular e universal, tão
subterrânea e decisiva, é possível colocá-lo sob a ótica de um acontecimento. Gómez-
Esteban (2016, p. 134), em uma revisão sobre o tema, define acontecimento
como “aquilo que recai intempestivamente no decorrer da vida do indivíduo, cedo
ou tarde transformando radicalmente sua experiência e seu ser-no-mundo”.
Essa definição aproxima-se muito do conceito alemão da vivência
[Erlebnis], resgatado da tradição romântica pelo filósofo alemão Hans-Georg
Gadamer e trazido para o campo dos estudos biográficos pela argentina Leonor
Arfuch. A vivência é a experiência de um momento que se destaca do todo,
adquirindo uma totalidade de sentido que não apenas se completa, como se
volta para além de si própria – adquirindo assim um caráter fortemente estético
(CRUZEIRO, 2018). Dela, pode-se extrair três significados principais, a saber:

1) algo efetivamente vivido por si, sem o intermédio de nenhuma


construção exterior; 2) algo de tal forma significativo e intenso, que
modifica o contexto geral da vida; e 3) algo cujo conteúdo é de tal
forma transformador, que não pode ser apreendido racionalmente, mas
esteticamente apenas (CRUZEIRO, 2018, p. 28).

De fato, acontecimento e vivência se aproximam, compartilhando uma


singularidade, uma carência de nexos causais lógicos, uma irrupção inesperada
e imprevista e um caráter contingente e descontínuo. Sua análise exige, portanto,
procedimentos metodológicos distintos, que possibilitem recuperá-lo, tornando-o
inteligível e dando voz ao indizível que ele carrega – em uma palavra: narrando
(GÓMEZ-ESTEBAN, 2016).
De maneira concisa, o pesquisador investiga o acontecimento através
das tradições de análise da relação entre indivíduo e sociedade, já que ele
envolve o ser-no-mundo de cada indivíduo, sendo compreendido como algo
que necessita, portanto, de uma narração. O autor prossegue debruçando-se
sobre as principais tradições metodológicas da socialização, para concluir que

166
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

essas categorias se modificaram, partindo de um caráter vertical, individual


e micro, como pregava o estadunidense Charles Wright-Mills (1916-1962),
para uma natureza horizontal, integradora e plural, como implica a sociologia
fenomenológica de Alfred Schütz (1899-1959):

A ideia de que o indivíduo só pode compreender sua própria experiência


e avaliar seu próprio destino localizando-se em sua época. Ele só pode
conhecer suas próprias possibilidades na vida se conhece todos os
indivíduos que se encontram nas mesmas circunstâncias. (WRIGHT-
MILLS apud GÓMEZ-ESTEBAN, 2016, p. 135).

Ao viver no mundo, vivemos com outros e para outros, orientando


nossas vidas em direção a eles. Ao vivenciarmos com os outros, como
contemporâneos e congêneres, como antecessores e sucessores, ao
unirmos com eles na atividade e no trabalho comum, influenciando eles e
recebendo sua influência, ao fazer todas essas coisas, compreendemos a
conduta dos outros e supomos que eles compreendem a nossa. (SCHÜTZ
apud GÓMEZ-ESTEBAN, 2016, p. 137).

No entanto, ainda que a noção de acontecimento envolva uma noção


subjetivista, como busca Wright-Mills, ou constitua-se a partir da alteridade,
como propõe Schütz (e como superlativa Deleuze), é importante notar que
o acontecimento prescinde, ou melhor, exige, um atributo de socialização.
O sujeito, aquele apto a experimentar o acontecimento/a vivência, só o faz
quando se identifica como tal no mundo (como se engaja no mundo, como
prefere Maurice Merleau-Ponty4), na presença de seus pares. Na ausência do
outro, a sociabilidade deixa de existir e, por conseguinte, o sujeito torna-se
incapaz de reconhecer experiências modificadoras como o acontecimento.
Assim, a socialização deve ser compreendida como os galos que tecem
a manhã no poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)5. Passando
de um para outro, cria-se uma teia de socialização em que se projetam os
acontecimentos que atingem cada um – pois ainda que invisíveis, não são
imperceptíveis.
Como essa noção de acontecimento, no entanto, se liga ao ato suicida?
Ora, o suicídio é uma própria forma de negação do acontecimento, pois exclui

4 O fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) traz uma importante noção de enga-
jamento no mundo que envolve a percepção do indivíduo como sujeito e como objeto, num circuito de
existência que serve muito bem à discussão da dor, que o autor invoca na discussão sobre o membro
fantasma. (Cf. MERLEAY-PONTY, 2014, p. 121-131).
5 “1. Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe
esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito de um galo antes/e o lance a
outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/
para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos./2. E se encorpando em
tela, entre todos,/se erguendo tenda, onde entrem todos,/se entretendendo para todos, no toldo/(a ma-
nhã) que plana livre de armação./A manhã, toldo de um tecido tão aéreo/que, tecido, se eleva por si: luz
balão.” (MELO NETO, 1973, p. 15-16).

167
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

o próprio sujeito da equação do outro que o percebe. Ao se matar, uma pessoa


se exclui – repentina e violentamente – da tessitura da socialização, deixando
uma lacuna por onde passariam afetos e vivências de outros (como acontece
com uma rede neural).
Sem uma justificativa racional – nos moldes do “fascínio pela exatidão” – o
suicida nega, temporariamente, a possibilidade do acontecimento, da vivência
para o outro, pois surpreende o outro com a negação da própria subjetividade: a
característica básica para enfrentar e compreender tais eventos.
Feita uma breve compreensão desse ato, de tantos ângulos, sombrio, volta-se
à pergunta de como construir, registrar e compreender a narrativa do fim drástico
da própria vida? Dado que a biografia é apenas um eco colorido do som de outrem,
é preciso voltar-se àqueles que já se foram para responder essa pergunta.

Tiros e pedras

No dia 24 de agosto de 1954, por volta das 8h30 da manhã, ouviu-se


no Palácio do Catete, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro, um estampido
surdo. Aqueles que imediatamente entraram correndo no quarto de onde veio
o barulho, após disparar pelas escadas do suntuoso palacete, encontraram o
então chefe da nação, Getúlio Vargas, morto:

[...] deitado, com meio corpo para fora da cama. No pijama listrado,
em um buraco chamuscado de pólvora um pouco abaixo e à direita do
monograma GV, bem à altura do coração, borbulhava uma mancha
vermelha de sangue. O revólver Colt calibre 32, com cabo de madrepérola,
estava caído próximo à sua mão direita.

Getúlio ainda lançou um olhar indefinido pelo quarto. Era como se nos
segundos que lhe restavam de vida estivesse procurando, entre os que o
rodeavam, identificar a presença de alguém.

Os olhos, depois de um derradeiro vaguear, permaneceram imóveis, as


órbitas fixas em Alzira.

“Joguei-me sobre ele, numa última esperança”, a filha escreveu, anos


depois. “Apenas um leve sorriso me deu a impressão de que ele me havia
reconhecido”. (NETO, 2014, p. 344).

Quatorze anos antes, em 1941, enquanto Vargas ainda era presidente – ou


melhor, ditador – a mais de nove mil quilômetros dali, na pequena cidade de
Lewes, no interior do Reino Unido, o editor e político Leonard Woolf, então com
60 anos, achou sua esposa, Virginia, aparentemente calma e serena na manhã
de 28 de março, pouco antes de ela sair:

168
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

[...] e qualquer um que encontrasse Virginia no seu caminho até a


margem do rio [Ouse] não notaria nada fora do comum. Quando chegou
no rio, ela encheu os bolsos com pedras, deixou sua bengala no chão, e
entrou nas águas geladas.

Quando ela não voltou para o almoço, Leonard correu pelos campos até
o rio e encontrou sua bengala na margem. Após uma busca infrutífera,
ele chamou a polícia. O corpo foi encontrado três semanas depois por
crianças, perto de onde ela se afogou.

Ela foi cremada em Brighton, em 21 de abril, e Leonard enterrou suas cinzas


aos pés de um dos dois grandes olmos entrelaçados, na vila de Rodmell, que
os Woolfs chamaram de Leonard e Virginia. (DALLY, 1999, p. 132).

Essas duas breves descrições coroam e encerram duas biografias: Getúlio


(1945-1954) – da volta pela consagração popular ao suicídio, do jornalista/
escritor João Lira Neto, e O Casamento do Céu com o Inferno – Depressão
Ciclotímica6 e a Vida de Virginia Woolf, do psiquiatra/escritor Peter Dally. Ambas
trazem curiosos subtítulos longos, e compartilham entre si algumas valiosas
contribuições para entender a biografia daquele que acaba com a própria vida,
seja com tiros ou pedras.
Os dois trechos, curtos, praticamente encerram as obras. Lira Neto (2014)
ainda dedica sete páginas para apresentar, na íntegra, a carta de suicídio do
presidente e dizer o que aconteceu com cada um dos principais personagens
da tragédia varguiana, à maneira de um epílogo. Já Dally (1999) oferece três
parágrafos contando o destino do viúvo Leonard Woolf, e oferece, também,
numa espécie de epílogo-educativo, a relação entre a depressão, a insanidade
e a criatividade.
É curioso pensar, de antemão, por que as biografias terminam nesse ponto.
Ora, sendo construções narrativas de vidas, não há como e tampouco por que
continuar. A fortuna crítica ou repercussão de obras ou feitos já não é mais
biografia, mas análise. Sem o centro gravitacional daquele universo, todos os
objetos que lhe orbitavam ficam à deriva.
Importante notar também, como as descrições são totalmente objetivas,
sem a menor tentativa de colocar uma recriação de um pensamento nela. E longe
de classificar esse artifício como ferramenta de biografias mais poéticas, como a
biografia de Frida Kahlo escrita por Jamis (2008), são vários os momentos em
que Lira Neto (2014) coloca falas em seus personagens, retiradas de documentos
como cartas ou transmissões de rádio, garantindo ao seu reconstruído Brasil dos
anos 40 uma inegável fidelidade e veracidade, facilmente atestada com uma
visita a um arquivo ou acervo oficial.

6 O subtítulo original utiliza o termo Manic Depression, outro termo para o Transtorno Afetivo Bipolar
(CID-10 F31). No entanto, o próprio Dally, psiquiatra por formação, identifica as variações de humor
da escritora como ciclotimia (CID-10 F34.0), teoricamente excluído do grupo dos transtornos bipolares.
Essa diferenciação é, no entanto, meramente técnica, buscando classificar com exatidão uma variação
singular de espírito, de caráter biológico e emocional, que, como consequência, leva indivíduos ao suicí-
dio. Dally, compreendendo bem isso, colocou Manic Depression no título de forma a chamar a atenção
para a condição e suas consequências.

169
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

No entanto, mais do que a ausência de recursos factuais para transpor


os seus personagens, a ausência de uma subjetividade aparente nos relatos
do suicídio existe pelo completo mistério que cerca esse momento. O suicídio
é compreendido aqui como a decisão racional – e, portanto, subjetiva – de
anulação do próprio sujeito. É nele que se encontra o ato máximo da vontade
com o abandono completo da racionalidade.
Deve-se lembrar, ainda, que, fora do âmbito estritamente racional, na
esfera religiosa, a decisão de tirar a própria vida também é tabu, precisamente
porque vai contra a deliberação máxima do Divino. Diz o Salmo 13:15 que
“Todo o tempo da minha vida está nas Tuas mãos” e, portanto, a decisão de tirar
a própria vida antes do tempo determinado por Deus – aquele que dá a vida (Jó
1:21) – é uma afronta. Nos sete casos que a Bíblia faz referência ao suicídio,
cinco eram expressamente homens vis, sendo o mais famoso deles Judas, o
traidor de Cristo (Mateus 27:5).
Assim, seja no campo sociológico ou religioso, o suicídio se mostra como
um ataque de uma vontade extrema – incompreensível – de abrir mão do que
é tido como norma – a subjetividade, o Divino. O encontro destes dois opostos,
como luz e sombra, céu e inferno, vida e morte, que convivem no exato mesmo
local ao mesmo tempo, cria um turbilhão de onde não saem nomes precisos
ou certezas conceituais, mas persiste um afã de narrar, para compreender e
amenizar a angústia que emerge de tamanho mal:

O mal não é nenhum conceito. É mais como um nome para o ameaçador,


algo que questiona a consciência livre e que ela pode conceituar.
Questiona a natureza, ali onde esta se fecha à exigência de sentido,
no caos, no acaso, na entropia, no devorar e ser devorado, no vazio
exterior, no espaço cósmico, assim como na identidade, no turbilhão da
existência. E, ali, a consciência pode eleger a crueldade, a destruição, por
consideração de si mesma. Os fundamentos para o mal são o abismo que
se abre no homem. (SAFRANSKI, 2010, p. 14).

O mal que apresenta o filósofo alemão Rüdiger Safranski é, ainda, bastante


similar ao sublime que apresenta o também alemão Immanuel Kant, o sentimento
de inibição momentânea que surge da contemplação de algo grande demais
(como uma das grandes pirâmides do Egito) ou poderoso demais (como uma
tempestade no oceano).
O Sublime paralisa a Razão, a Subjugadora de Mundos. Frente a uma
pirâmide, a mente não consegue medir sua altura com a facilidade com a
qual faz com uma palmeira ou uma pessoa. Não há um referencial disponível.
Da mesma forma, não há um referencial disponível para a dor, seja física ou,
tampouco, emocional.
Assim, a dor do viver, avassaladora como o mais doloroso e implacável
câncer, sublima a razão, e abre caminho para a antinomia que é suicídio. E, deve-
se lembrar que essa antítese entre vida e morte, razão e insanidade, não apenas

170
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

termina com uma vida, mas cria um rasgo na teia vivencial dos sujeitos, abrindo
uma lacuna que, apesar de ser reparada com o tempo, cria – ao seu modo – uma
paralisação da razão, agora coletiva. O suicídio é, também, sublime7.
É ao auxílio desta aporia que surge novamente Gómez-Esteban (2016,
p. 140), que ao tentar resgatar o acontecimento “em uma perspectiva
geopolítica e cultural concreta”, para compreender os modos de existência
latino-americanos, sugere o uso de duas estratégias biográficas: a epifania e a
ficcionalização da biografia.
Interessa ao suicídio a epifania, que ele resgata da tradição literária de
James Joyce (1882-1941) e Ernest Hemingway (1899-1961) – ele mesmo um
suicida, assim como seu próprio pai8. Enquanto o irlandês Joyce considerava a
epifania “uma súbita manifestação espir itual, quer pela vulgaridade da
língua e do gesto, ou por um momento memorável da mente” (VALVERDE,
1982 apud GÓMEZ-ESTEBAN, 2016, p. 141) para descrever os momentos
mais delicados e fugazes, Hemingway buscava-a para descrever não apenas a
ação que um personagem realizava, mas “a emoção produzida por essa ação, um
‘evento no instante em que acontece’” (BOTERO, 1992, p. 222 apud GÓMEZ-
ESTEBAN, 2016, p. 141).
A epifania é, portanto, uma maneira de traduzir, na biografia, a vivência.
Trazendo consigo a carga etimológica do grego, das revelações divinas aos mortais,
a epifania é o fato, o acontecimento, o biografema que traz o elemento fantástico,
de desvelamento do incomensurável, do inefável, para a frágil mente humana.
Voltando-se, por fim, às últimas palavras de Getúlio Vargas e Virginia Woolf,
tem-se dois trechos marcantes que elencam, num único lampejo, não apenas a
fragilidade de seus espíritos, mas também a solidez de seu desespero.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o


direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação,
para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e
principalmente os humildes. (VARGAS apud LIRA NETO, 2013, p. 346).

Eu sinto que eu fui longe demais dessa vez para voltar. Estou certa agora
que estou ficando louca de novo. É exatamente como foi da primeira
vez, eu estou sempre ouvindo vozes, e estou certa que não vou superar
isso dessa vez. (WOOLF apud DALLY, p. 131).

7 Deve-se lembrar da delicada tomada do suicídio pela geração romântica, que desde Os Sofrimentos
do Jovem Werther, do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), aos sonetos do brasileiro
Álvares de Azevedo (1831-1852), carregam consigo um profundo pessimismo ultrasentimental, que vê
na morte a solução para as desilusões e os pesos do mundo. O livro de Goethe, em especial, que narra
as desventuras de um jovem aristocrata que se suicida por uma desilusão amorosa, gerou pela Europa
um efeito de contágio apelidado de Efeito Werther.
8 A jornalista estadunidense Janet Flanner, cujo pai também se suicidou, reconta o suicídio de Hemin-
gway como “o melodrama final da sua existência espetacular” (FLANNER, 2006, p. 18). Em seguida,
ela define o suicídio, a partir de uma visão “mais racionalista e agnóstica” que a do escritor, “como um
ato de busca de liberdade [...] possível e permissível de libertação de qualquer cativeiro humilhante, na
Terra, que não pudesse mais ser tolerado com respeito próprio” (FLANNER, 2006, p. 19).

171
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A transcrição de uma carta de suicídio9, portanto, mais do que a própria


cena ou a miríade de circunstâncias que construíram o ambiente em volta do
suicídio10, é a epifania perfeita, o lampejo divino da imensidão do sentimento
absurdo que levou aquela pessoa àquela decisão. E este lampejo é, ainda,
duplo, pois não só se tem a revelação privilegiada do que foi redigido – a
transcrição na íntegra, somada a um contexto factual anterior, que leva o
leitor a sentir a pressão que levou à sua escrita – como também se revive,
em certa medida, a sensação daquele que a leu pela primeira vez – também
imerso naquele mesmo contexto particular, além de possivelmente próximo
ao suicida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem,


sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à
vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e
vossos filhos [...] Cada gota de meu sangue será uma chama imortal
na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.
(VARGAS apud LIRA NETO, 2013, p. 346).

Eu queria dizer que você me deu felicidade absoluta. Ninguém poderia


ter feito mais do que você fez. Por favor acredite nisso. Mas eu sei que
eu nunca vou superar isso, e eu estou desperdiçando sua vida [...] Você
vai poder trabalhar, e você vai estar melhor sem mim. (WOOLF apud
DALLY, 1999, p. 131).

Desta forma, a epifania nada mais é do que uma outra forma de identificar o
afeto por trás do real, é um biografema que une o factual ao fantástico. Amparado
pela riqueza factual da vida, a biografia possibilita espaços de sensibilidade
igualmente ricos, eleitos pelo próprio autor, que em seguida os oferece ao leitor.
E, em meio a esses salões recriados dos escombros de uma vida que já se foi,
o autor tem a chance de compartilhar também sentimentos impossíveis, como
a dor e o desespero. A carta de suicídio não é, finalmente, uma resposta a uma
questão inconcebível, mas um chamado a um afeto incompreensível. É o brilho
de uma joia escondida na escuridão mais densa.

Considerações finais

O biografema, então, que por si já é um vislumbre da vida que já se foi,


torna-se, na medida em que é retirada da vida de um suicida, um lampejo
9 Por uma questão de economia de espaço, as cartas não serão disponibilizadas na íntegra aqui, mas
são oferecidos links onde elas podem ser conferidas: Seguem as três notas de Virginia Woolf, para sua
irmã, Vanessa (http://virginiawoolfblog.com/virginia-woolfs-suicide-note-to-vanessa-bell/), e duas para
seu marido (http://virginiawoolfblog.com/virginia-woolfs-misquoted-suicide-note/ e http://virginiawoolf-
blog. com/vir ginia-woolfs-last-day/), e a carta-testamento de Getúlio Vargas: https://pt.wikipedia.org/
wiki/Cart a-testamento_de_Get%C3%BAlio_Vargas.
10 Lira Neto leva quase mil páginas em seus três volumes da biografia de Getúlio, enquanto Peter Dally
ocupa pouco mais de 100 com o histórico familiar e relacional de Virginia Woolf.

172
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

desse impulso tão inefável. Ao ser invocada como biografema, a carta de


suicídio – a mais real e derradeira ligação do desespero do suicida com o
mundo real – amplia-se para além do factual, revelando ao leitor – e ao autor
– uma miríade de sentimentos até então invisíveis, não encontrados nas
descrições de eventos anteriores ou mesmo da personalidade do biografado.
A carta de suicídio é um biografema único, irrepetível e intenso, que traduz
algo que nem mesmo os mais próximos conseguiram visualizar: o ímpeto de
terminar com tudo.
Assim, ao tentar preencher as lacunas da vida de alguém, com sua delicada
escolha de fatos e vozes, estilos e direções, o biógrafo tenta reconstruir ao
máximo um ambiente e um espírito, para passar ao leitor o máximo possível
de afeto que aquela vida lhe proporcionou. No entanto, ao tentar preencher
as lacunas de uma vida que se interrompeu, o biógrafo se depara com uma
imensidão vazia, de onde parece não haver fatos nem vozes o suficiente para
romper o silêncio. A partir da última e principal relíquia deste mundo secreto,
da carta de despedida, o biógrafo abre à sua frente um abismo, de onde sobem
os ecos de um sofrimento intenso, bem como as sombras de toda uma vida
que não pode ser negada.
É importante notar, ainda, que a riqueza ficcional em torno da biografia
se torna uma vantagem e uma necessidade no caso do suicídio. Dado que a
insondabilidade do autoextermínio, a reconstrução dos momentos e encontros,
do cotidiano e dos personagens envolvidos, serve como cenário e anteparo para
o choque incomensurável da epifania da carta de despedida. Em suma, ao se
detalhar a vida de um suicida, garante-se que houve, por trás desse evento
perturbador, uma vida com sentido, sonhos, tristezas, conquistas, percalços,
amigos e inimigos.
A carta de suicídio como recurso biográfico é, portanto, uma derradeira
revelação de uma peça da qual já se sabe o fim, mas cuja abrangência
surpreende mais do que o próprio enredo biografado. Torna-se um recurso para
a discussão dessa dramaturgia tão complexa que é a subjetividade suicida, que
deve ser melhor trabalhada, e urgentemente publicizada – não só no campo das
narrativas, mas de toda a comunicação.

Referências

ANDRADE, Maria Margarida de. Introdução à metodologia do trabalho científico:


elaboração de trabalhos na graduação. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
ARFUCH, Leonor. O Espaço Biográfico – Dilemas da Subjetividade Contemporânea.
Tradução de Paloma Vidal. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2010.
ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. Estudos Históricos, São Paulo, v.
11, n. 21, pp. 9-21, 1998.

173
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

BARTZ, Rodrigo. Jornalismo e Literatura: as complexificações narrativas


jornalísticas de cunho biográfico. 158 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação
em Letras – Mestrado e Doutorado) - Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa
Cruz do Sul, 2014.
BÍBLIA. Jó. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira D’Almeida.
Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
Disponível em: https://www.biblegate way.com/versions/Almeida-Revista-e-
Corrigida-2009-ARC/#booklist. Acesso em: 01 ago. 2018.
BÍBLIA. Mateus. Português. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João
Ferreira D’Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2009. Disponível em: https://www.biblegate way.com/versions/Almeida-
Revista-e-Corrigida-2009-ARC/#booklist. Acesso em: 01 ago. 2018.
BÍBLIA. Salmo. Português. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João
Ferreira D’Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2009. Disponível em: https://www.biblegate way.com/versions/Almeida-
Revista-e-Corrigida-2009-ARC/#booklist. Acesso em: 01 ago. 2018.
CALADO, K. A.; ROCHA, H. C. L. Narrativas jornalísticas sob a luz da pragmática:
uma análise das implicações ideológicas a partir da perspectiva de Motta e Habermas.
In: PICCININ, F. Q; SOSTER, D. A. (Orgs.). Narrativas midiáticas contemporâneas:
perspectivas epistemológicas. 1. ed. Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017.
CASTRO, Gustavo de. Jornalismo Literário: uma introdução. Brasília: Casa das
Musas, 2010.
CORSI, Nathalia Maciel. Reportar a vida comum em imagens: como o cinema
documentário conversa com o Jornalismo Literário. In: ENCONTRO NACIONAL
DE PESQUISADORES EM JORNALISMO SBPJor, 15, 2017, São Paulo. Anais...
São Paulo: SBPJor, 2017. Disponível em: http://sbpjor.org.br/congresso/index.
php/sbpjor/sbpjor2017/paper/viewFile/925/478. Acesso em: 04 ago. 2018.
CRUZEIRO, Victor Lemes. Escritas da dor: o indizível das dores nas páginas
dos diários íntimos. 181 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em
Comunicação - Mestrado) - Universidade de Brasília, Brasília, 2018.
______. Uma leitura ontológica dos diários pessoais como fortalecimento das
narrativas biográficas. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM
JORNALISMO SBPJor, 14., 2016, Palhoça. Anais... Palhoça: SBPJor, 2016.
Disponível em: http://sbpjor.org.br/congresso/index.php/sbpjor/sbpjor201 6/
paper/viewFile/44/231. Acesso em: 27 jun. 2018.
______. “Você não faz ideia de como dói”: mecanismos de tradução da dor
física nas biografias da pintora Frida Kahlo. In: ENCONTRO NACIONAL DE
PESQUISADORES EM JORNALISMO SBPJor, 15., 2017, São Paulo. Anais...
São Paulo: SBPJor, 2017. Disponível em: http://sbpjor.org.br/congresso/inde
x.php/sbpjor/sbpjor2017/paper/viewFile/616/337. Acesso em: 27 jun. 2018.

174
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

DALLY, Peter. The Marriage of Heaven and Hell: Manic Depression and the Life
of Virginia Woolf. Basingstroke: Macmillan, 1999.
DURKHEIM, Émile. Suicide – A Study in Sociology. Londres: Routledge, 2005.
FLANNER, Janet. Paris era ontem (1925-1939). Trad. Sônia Coutinho. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2006.
GÓMEZ-ESTEBAN, Jairo. El acontecimento como categoria metodológica de
investigación social. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y
Juventud, Manizales, v. 14, n. 1, pp.133-144, 2016.
HERSH, Julie. Don’t Omit from the Obit. Psychology Today. 29 mai.
2010. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/struck-
living/201005/dont-omit-the-obit. Acesso em: 03 ago. 2018.
LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão
do jornalismo e da literatura. 4. ed. Barueri: Manole, 2009
LIRA NETO. Getúlio (1930-1945) - da volta pela consagração popular ao
suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
MARTINEZ, Monica. Life in 700 words: the obituaries in The New York Times
and Folha de S. Paulo. In: MOREIRA, S. V.; OTA, D. O. (Orgs.) Comunicação,
mídia e cultura: estudos Brasil-Estados Unidos. São Paulo: Intercom; Mato
Grosso do Sul: Editora UFMS, 2018.
MATTAR, Fauze Najib. Pesquisa de marketing. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução de Carlos
Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
MELO NETO, João Cabral de. Tecendo a manhã. In: __________. Antologia
poética. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympo Editora - Sabiá, 1973.
MORENO, Arley Ramos. Wittgenstein: os labirintos da linguagem – ensaio
introdutório. Campinas: Editora Unicamp. 2000.
MORRISON, John. Great Hispanic Heritage - Frida Kahlo. Filadélfia: Chelsea
House, 2003.
OMS, Organização Mundial da Saúde. Preventing suicide: a resource for media
professionals. Update 2017. 2014. Disponível em: <http://www.who.int/
mental_health/suicide-prevention/world_report_2014/en/>. Acesso em: 29 jun.
2018.
PEREIRA, Fábio Henrique. Os Jornalistas-Intelectuais no Brasil: Identidade,
práticas e transformações no mundo social. 469 f. Tese (Programa de Pós-
Graduação em Comunicação – Mestrado e Doutorado) - Universidade de Brasília,
Brasília, 2008.
RITCHIE, Hannah. What does the world die from? Our World in Data. 14 fev.
2018. Disponível em: https://ourworldindata.org/what-does-the-world-die-from.

175
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Acesso em: 08 ago. 2018


SAFRANSKI, Rüdiger. El Mal o el drama de la libertad. Tradução de Raúl Gabás.
Munique: Carl Hanser, 2010.
SCARRY, Elaine. The Body in Pain – The making and unmaking of the World.
New York: Oxford University Press, 1987.
SIMS, Norman. Literary journalism: A new collection of the best American
nonfiction. New York: Ballantine, 1995.

176
III Narrativas
e contextualizações
Metodologia para identificação de processos
transcriadores em narrativas jornalísticas

Maurício Guilherme Silva Jr.

Introdução

A proposta metodológica aqui desenvolvida, para análise ético-estrutural


de narrativas jornalísticas, resulta de investigações teóricas e experiências
práticas elaboradas e desenvolvidas ao longo de 22 anos. Em 1996, ainda como
estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – e
estagiário da então Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) da instituição
–, deparava-me com o (vasto) desafio da “tradução” discursiva requerida, à
escrita jornalística, para abordagem de temáticas científicas.
Em tal período, percebia-se a necessidade de problematização de parâmetros
para organização de textos e textualidades1 jornalísticos, destinados a “leigos” –
cidadãos com pouco conhecimento acerca de feitos, produtos e métodos científicos
em certas áreas do saber –, capazes, ao mesmo tempo, de preservar rigores
técnicos e tornar legíveis inúmeros processos e problemáticas da ciência.
Com o passar dos anos, a própria ideia de “tradução” – do discurso
científico ao texto jornalístico – acabaria por se revelar limitadora, no que tange
à natureza da abordagem almejada. Em primeiro lugar, tal método não se
resume a mera atividade tradutória, devido ao fato de que, durante o processo
de escrita jornalística, faz-se necessária uma série de procedimentos criativos
e adaptativos – para explicitação, ao público leigo, de conteúdos científicos
repletos de especificidade técnica.
Os trâmites de criação, por sua vez, alimentam-se não apenas de
similaridades entre as searas discursivas (ciência & jornalismo), mas,
também, e principalmente, de contradições, assimetrias, incompatibilidades,
assincronismos etc. Em função disso, o jornalismo (no caso, científico) recorre
a inúmeras alternativas linguísticas e/ou estruturais para desenvolvimento de
texto(s) condizente(s) ao conhecimento tácito do(s) público(s) almejado(s).
O título da discussão proposta neste capítulo remete, justamente, à
essência de tais mecanismos adaptativos da narrativa jornalística, aos quais,
1 O vocábulo texto, conforme aqui empregado – e em referência a Leal (2016, p. 206) –, não diz respeito
ao “artefato semiótico (verbal, na maioria das vezes)” para simples exposição do conteúdo (jornalístico)
abordado. Para muito além disso, trata-se de “composto necessariamente heterogêneo de signos, fortemente
vinculado a uma dada situação comunicativa”, ou de um modo “de apreender os acontecimentos e os
fenômenos sociais”. Em outras palavras: “a vida e o agir humanos podem ser vistos como ‘textos’”. Já o
termo textualidade há de ser compreendido como aquilo que faz “de um texto um texto”

178
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

hoje, reservo a alcunha de “processos de transcriação”. Tal conceito – a ser


melhor delineado nos tópicos subsequentes – agrega parte significativa das
problematizações por mim realizadas nas pesquisas de mestrado e doutorado2
– no campo dos estudos literários –, e, principalmente, no pós-doc em
Comunicação Social3.
Trata-se, em essência, dos procedimentos da adaptação jornalística – o que
inclui a práxis da composição de pautas, angulações, apurações, escritas, edições
e diagramações – necessária à transcriação do “discurso do outro” (fontes as
mais diversas) em “discurso outro”. A narrativa jornalística transcriada, porém,
não se revela apenas em função de metodologias de estruturação linguística,
semântica etc. Há que se levar em conta, também, uma série de imbricações
éticas, relativas à capacidade de o “discurso outro” estimular debates e
inquietações – e não apenas de apresentar versões parciais/totais acerca da
vida, do tempo, dos seres.
Em outros termos, para que se fale em processo de transcriação, a composição
jornalística deve estimular mecanismos de (trans)leitura em seu(s) público(s)-alvo,
assim como “instigar, esclarecer, entregar e promover as bases para interpretações
(pessoais) acerca do mundo da vida” (SILVA JR., 2017, p. 261).
A proposta metodológica apresentada no presente capítulo busca,
justamente, facilitar a identificação do processo de transcriação em narrativas
jornalísticas. Para tal, além do desenvolvimento teórico de elementos
constitutivos do mecanismo de composição discursiva aqui investigado,
recorreu-se à análise experimental de um objeto empírico, qual seja: a
reportagem “O procedimento – Como Rebeca Mendes se tornou um símbolo
da luta pela descriminalização do aborto”, publicada na edição 141 da revista
piauí, de junho de 2018.
Ao dissecar o referido trabalho jornalístico, de autoria de Mônica Manir,
busca-se não apenas identificar a existência de mecanismos de transcriação
na narrativa, como, também, problematizar os modos como o “discurso outro”
– a reportagem em si – instiga o que aqui chamaremos de “emancipação
intelectual do espectador”, mecanismo a ser problematizado, com mais ênfase,
nos tópicos seguintes.
Em síntese, pretende-se, neste capítulo, a partir de novo desenvolvimento
dos princípios norteadores do que ora se delineia como “processo de transcriação”
– calcado na noção de “transleitura”, terminologia proposta por José Paulo Paes
(1995), em diálogo com os desafios do procedimento de tradução abordados
por Paul Ricoeur (2011) e com as teorias do escritor Haroldo de Campos –, a
construção de caminho metodológico de análise e/ou observação de mecanismos
transcriadores em textos jornalísticos.

2 Ambas as pesquisas foram realizadas no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários (PosLit)


da UFMG.
3 Realizado no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da UFMG.

179
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Abordagem metodológica
Preâmbulo conceitual: transcriação

Ao observar, apurar, decodificar, editar e diagramar, os profissionais da


informação buscam qualificar o “acontecimento”, por meio de estruturações
técnicas e vetores ideológicos, além de recorrência a angulações sociopolíticas,
econômicas, culturais etc. Tais processos culminam em ressignificação do discurso
jornalístico, sob a égide de estratégias narrativas calcadas em construção de
significados, contratos cognitivos (com “o outro”) e procedimentos de natureza
objetiva e subjetiva (MOTTA, s/d)4.
Construtor de narrativas, o jornalista (trans)criador há de transfigurar
saberes e informações – recolhidos junto a fontes (diretas e/ou indiretas)
diversas, como fruto de práticas múltiplas, a exemplo de entrevistas, coletivas
de imprensa, documentações, processos imersivos e/ou de observação, dentre
outros –, em “narrativas dialógicas”, substanciadas por linguagens, ações e/
ou formatos relacionados a experiências recorrentes ao cotidiano (profissional,
pessoal, afetivo) daquele(s) a quem tais discursos se destinam (leitor, ouvinte,
espectador, usuário etc.).
Narrativas jornalísticas originadas de processos de transcriação, enfim,
mostram-se capazes de “problematizar/decodificar/descrever o(s) movimento(s)
do mundo” (SILVA JR., 2017, p. 255). Em função da alta complexidade das
categorias envolvidas em tal natureza de discurso, revela-se amplo o arcabouço
teórico para sua identificação e consequente investigação. Eis o motivo pelo qual
os processos transcriativos, no jornalismo, dizem respeito, também, a conceitos
e teorizações vinculados a vastos “ambientes” epistemológicos – do Jornalismo
à Comunicação Social; dos estudos literários à Linguística; da Hermenêutica às
teorias da tradução.
Fruto de teorizações do crítico e escritor Haroldo de Campos (1929-2003),
o termo “transcriação” nasce circundado por inquirições relativas à teoria literária
da tradução5. Em torno do vocábulo, o autor desenvolve argumentação acerca
dos princípios e das possibilidades da chamada “tradução criadora”, definição
amparada em discussões semiológicas6.
O que se revela seminal nas investigações de Campos é a análise do
processo tradutório como algo esteticamente compromissado com a criação
– termo que, somado ao prefixo trans, acaba por simbolizar a potencialidade
4 MOTTA, Luiz Gonzaga. A análise pragmática da narrativa jornalística. Disponível em http://www.
portcom.intercom.org.br/pdfs/105768052842738740828590501726523142462.pdf.
5 O autor debruça-se sobre a temática em trabalhos como “Da tradução como criação e como crítica”;
“Tradução: fantasia e fingimento”; “Texto literário e tradução”; “Para além do princípio da saudade: a
teoria benjaminiana da tradução” e “Tradução, ideologia e história”.
6 “Tradução e reconfiguração: o tradutor como transfingidor”; “Da transcriação: poética e semiótica
da operação tradutora”; “Tradição, transcriação e transculturação: o ponto de vista do ex-cêntrico”; e
“Tradução/Transcriação/Transculturação”.

180
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

inovadora do rico convívio entre “territórios” discursivos relacionados (porém,


categoricamente distintos): o “original” e o “transcriado”. O autor destaca a
dialética entre elementos macro e microestéticos. No que se refere à transcriação
de textos literários, soluções dialéticas podem ultrapassar a construção de meras
(e simplórias) “réplica[s] aproximativa[s]”.
Afora as conjecturas de Campos, importante ressaltar, como fundamentação
teórica imprescindível à estruturação da proposta metodológica aqui explicitada,
as ideações de Jacques Rancière (elaboração do princípio de “espectador
emancipado”, José Paulo Paes (“transleitura”), e Paul Ricoeur (complexidades
da tradução”).

Conversações críticas com “o outro”

Ao abordar questões ligadas ao teatro, Rancière (2012) problematiza o


olhar do espectador como ação antagônica ao conhecer e ao agir – visto que
possa permanecer isento perante aparências, de modo a ignorar processos: “É
preciso um teatro sem espectadores, em que os assistentes aprendam em vez
de ser seduzidos por imagens, no qual eles se tornem participantes ativos em
vez de serem voyeurs passivos” (RANCIÈRE, 2012, p. 9).
Trata-se, na visão do autor, de espectadores aptos a inquirir o mundo que os
cerca. Para tal, precisariam ser “arrastados” ao “círculo mágico da ação teatral”
(RANCIÈRE, 2012, p. 11), como forma de buscar emancipação intelectual,
único caminho para que passem a escolher, a problematizar e a interpretar
relações, símbolos, gestos, modos, ambientes e silêncios.
Em analogia à composição de narrativas jornalísticas dialógicas, para além
do que o jornalista almeja transmitir, há que se investir em transcriações capazes
de promover “interações complexas” entre texto e leitores/usuários/ouvintes/
telespectadores etc., afeitos a conversações e debates críticos7.

7 Importante ressaltar, neste ponto, o conceito de “tríplice mimese”, elaborado por Paul Ricoeur, no
que diz respeito aos atos de “resistência e contestação” do leitor (e/ou usuário etc.) diante de algo a ser
consumido e interpretado. Apesar de, neste capítulo, buscar-se percorrer tal “movimento” interpretativo
sob outros aspectos teóricos – com base, principalmente, em Paes (1995) e Rancière (2012) –, há que
se ressaltar certos pressupostos conceituais e éticos elencados por Ricoeur (2007, p. 159), a serem me-
lhor desenvolvidos em trabalhos futuros, de modo a também aproximá-los da lógica metodológica aqui
apresentada: “Em ‘architecture et narrativité’, Catalogue de La Mostra ‘Identitá e Differenze’, Triennale
de Milan, 1994, eu havia tentado transpor para o plano arquitetural as categorias ligadas à tripla mime-
sis expostas em Tempo e Narrativa (...): prefiguração, configuração, refiguração. Eu apontava no ato de
habitar a prefiguração do ato arquitetural, na medida em que a necessidade de abrigo e de circulação
desenha o espaço interior da moradia e os intervalos dados a percorrer. Por sua vez, o ato de construir
se dá como o equivalente espacial da configuração narrativa por composição do enredo; da narrativa
ao edifício, é a mesma intenção de coerência interna que anima a inteligência do narrador e do cons-
trutor. Enfim, o habitar, resultante do construir, era tido pelo equivalente da ‘refiguração’ que, na ordem
da narrativa, produz-se na leitura: o morador, como o leitor, acolhe o construir com suas expectativas
e também suas resistências e suas contestações. Eu concluía o ensaio com um elogio da itinerância”.

181
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Tradução e transleitura

Conforme destaca Ricoeur (2011), o ofício da tradução deriva da


possibilidade de aceitação de uma série de perdas. Na contramaré de certas
tradições teóricas – cujos princípios calcam-se na idealização de modus operandi
passíveis de produzir adaptações “idênticas” ao original –, o autor não se furta
a admitir a existência de expressões intraduzíveis, tanto linguística quanto
culturalmente. Importante destacar, pois, o papel – recreativo ou transcriador,
na acepção de Campos (2015) – do que se pode chamar de “luto”, causado,
justamente, por tais impossibilidades tradutórias.
O pensador francês, portanto, desconsidera a possibilidade de
“traduções perfeitas”, elaboradas a partir de racionalidades isentas de
“imposições culturais e de limitações comunitárias” (RICOEUR, 2011, p. 28-
29). Na verdade, estaria na essência do exercício de adaptação tradutória a
necessária articulação (“transcriadora”, diríamos nós) entre impossibilidades
linguísticas e culturais.
Ao abordar riquezas inatas à experimentação necessária ao ofício da
tradução, Ricoeur (2011) constrói o conceito de “hospitalidade linguística”, por
meio do qual destaca como é compensatório habitar a língua do outro “na
acolhida de sua própria morada” (RICOEUR, 2011, p. 30).
Em narrativas jornalísticas, a interpretação transcriativa de informações
advindas de fontes as mais diversas (a “língua do outro”) requer mecanismos
específicos de reordenação de sentidos, tanto linguísticos quanto culturais, sociais,
econômicos, políticos etc. Faz parte do dia a dia de jornalistas a transcriação de
“estrangeiridades” – concepções originais do acontecimento a ser transcriado –
e, conforme já ressaltado em outros movimentos deste capítulo, o fomento de
diálogos críticos e complexos com leitores/ouvintes/usuários.
No que diz respeito à natureza de convívio com “aquele a quem se
destina a narrativa jornalística”, faz-se necessário, neste momento, promover
a aproximação entre conceitos de Campos, Rancière e Ricoeur e o neologismo
transleitura, criado por Paes (1995). Tal termo busca sintetizar o caleidoscópico
mecanismo interpretativo de textos (no caso, literários) por parte de leitores:

O prefixo trans- visa simplesmente, no caso, a acentuar que a leitura


de uma obra literária é um ato de imersão e de distanciamento a um
só tempo. Tal duplicidade do ato de leitura responde, simetricamente, à
duplicidade do ato de criação literária” (PAES, 1995, p. 5).

“Transleitura”, portanto, trata da ideia de que os livros integram um


complexo sistema, constituído por todas as obras literárias escritas ao longo do
tempo, além de interpretações e/ou comentários críticos por elas suscitadas. Paes
(1995, p. D4) fala de um “corredor de ecos, em que uma voz responde à outra
e vai-se formando aquele coro de vozes isoladas de certo modo se articulando”.

182
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Quaisquer leituras, portanto, requerem, dos “transteitores”, sensibilidade para


com as “instigações extratextuais” do texto.
No que diz respeito às narrativas jornalísticas, o conceito de “transleitura”
apresenta-se como vital à problematização dos mecanismos de transcriação do
acontecimento em notícia. Afinal, os prosumidores8 de narrativas jornalísticas
atuam como transleitores, ao acionar, no ato de transleitura, de modo
consciente ou não, outros tantos e tantos símbolos, lembranças, experiências,
significados etc.

“Discurso do outro” e “Discurso outro”

Em narrativas jornalísticas transcriadas, o “discurso do outro” (fontes


diversas) é reconfigurado em “discurso outro”, de modo a estimular mecanismos
de transleitura, e, “ao mesmo tempo, instigar, esclarecer, entregar e promover
as bases para interpretações (pessoais) acerca do mundo da vida” (SILVA JR.,
2017, p. 261). Em resumo, trata-se da invenção de novos e instigantes modos
de diálogo – por meio, conforme ressaltado acima, da transcriação de um
“discurso outro” (a narrativa jornalística transcriada) – com a sociedade.

O método

Em resumo, mecanismos de transfiguração do acontecimento em notícia


nutrem-se da recriação de discursos, para que, então, seja possível expandir
a(s) habilidade(s) de reflexão e autorreflexão do(s) público(s). Com base em
tal máxima, a presente proposta metodológica, para identificação e análise de
narrativas jornalísticas transcriadas, calca-se na presença de quatro princípios
básicos, a serem identificados e dissecados, pelo pesquisador, em seus objetos
empíricos (as narrativas jornalísticas):

A) Presença de descrições contextualizadas do fenômeno acontecimental


(a realidade noticiável/reportável/interpretável), com recorrência ao uso de
multitemporalidades discursivas (tempos factual, psicológico, histórico etc.) e
à construção de cenários complexos (elaborados a partir de múltiplas vozes),
no que diz respeito ao tratamento narrativo em torno de personagens, fatos,
conceitos, ideias etc. Destaque-se que, neste tópico, a investigação busca
avaliar, nas narrativas, questões de natureza formal e estrutural, e não ético-
social (“território” a ser explicitado no item D, logo abaixo).

B) Diálogos (diretos e/ou indiretos) com o outro (leitor, espectador, ouvinte,


usuário, prosumidor), de modo a tratá-lo como sujeito ativo, emancipado, e a
8 Referência a termo cunhado por Alvin Toffler, no livro A terceira onda, em teoria acerca dos novos
consumidores de informação, que, agora, também atuam como produtores.

183
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

incitá-lo à interpretação de processos – “e não apenas ao consumo rasteiro


de signos sem profundidade e contextualização social, cultural, política etc.”
(SILVA JR., 2017, p. 261). Os diálogos podem se consolidar em “conversas”
diretas com o público, ou, por exemplo, em questionamentos estimulados, na
narrativa, pelo próprio jornalista.

C) Narratividade polissêmica, experimental e/ou esteticamente atraente/


inovadora, como resultado da superação de lógicas “fordistas” de produção
jornalística – a exemplo do lead e da pirâmide invertida –, além do uso de
recursos investigativos (jornalismo de dados, entrevistas em profundidade,
mecanismos de imersão, chat bots etc.), e literários (metáforas, analogias,
neologismos, dentre outros). Em tais narrativas, também devem se destacar
uma série de problematizações em torno do “discurso do outro” (depoimentos,
documentos etc.), que será aproximado, no “discurso outro”, de “experiências
vividas” pelos (trans)leitores (público-alvo da iniciativa jornalística).

D) Preocupação ético-social da narrativa, no que diz respeito à ampliação


das problematizações discursivas e/ou dos fenômenos acontecimentais
apresentados – por meio, principalmente, do estímulo ao debate e à criticidade
dos transleitores. Neste sentido, o pesquisador de narrativas jornalísticas
transcriadas deve se atentar à capacidade de o jornalista (autor da narrativa)
não apenas apresentar versões da(s) história(s), mas, principalmente, de (re)
inventar, criativamente, modos de amplificação/alargamento do diálogo entre a
narrativa transcriada e questões contemporâneas caras à sociedade. Isso pode
ser feito, por exemplo, por meio da explicitação e da sugestão de outros modos
de convívio e/ou interpretação com/de questões abordadas pela narrativa: sites,
links, livros, filmes, reportagens, dissertações, teses, produtos audiovisuais etc.

Aplicação da proposta metodológica em reportagem de piauí

Conforme revelado na introdução deste capítulo, pretende-se, neste


tópico, revelar as potencialidades da proposta metodológica aqui delineada,
para identificação do processo de transcriação em narrativas jornalísticas, por
meio de objeto empírico determinado: a reportagem “O procedimento – Como
Rebeca Mendes se tornou um símbolo da luta pela descriminalização do aborto”,
publicada na edição 141 da revista piauí, de junho de 2018.

A revista

Idealizada pelo documentarista João Moreira Salles, a revista piauí passou


a circular, mensalmente, no Brasil, em outubro de 2006. Elaborada pela Editora
Alvinegra, e impressa e distribuída pela Editora Abril, a publicação pratica o

184
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que muitos chamam de “jornalismo literário”: pautas experimentais, narrativas


delongadas, descrições pormenorizadas e recursos linguísticos que ultrapassam
a lógica “industrial” da maior parte das construções noticiosas factuais. Na
visão de Moreira Salles, porém, “o que a piauí faz é contar bem uma história”9.
Publicada em formato 26,5 cm X 34,8 cm, a revista é impressa em papel
especial, de alta qualidade, da Companhia Suzano de Papel e Celulose, o
mesmo usado em impressão de livros, e produzido em bobinas exclusivas para
sua impressão.

Case “O procedimento”

A reportagem intitulada “O procedimento – Como Rebeca Mendes se tornou


um símbolo da luta pela descriminalização do aborto” – a ser dissecada por meio da
estratégia metodológica para identificação de narrativas jornalísticas transcriadas,
conforme proposto no presente capítulo – foi escrita por Mônica Manir Miguel,
jornalista graduada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo (ECA/USP), com mestrado e doutorado em Bioética, pelo Centro Universitário
São Camilo. No jornal O Estado de S. Paulo, a profissional atuou como repórter
especial e, ainda, como editora do caderno “Aliás”. Atualmente, como freelancer,
escreve reportagens para BBC, piauí e Folha de S.Paulo.
Publicada entre as páginas 34 e 39 da edição de junho de 2018 de piauí,
a reportagem busca reconstituir a trajetória de Rebeca Mendes, figura simbólica
na luta das mulheres brasileiras pela descriminalização do aborto. Em exatos 67
parágrafos, Mônica Manir almeja transportar o transleitor da revista ao “território” de
experiências e acontecimentos significativos da vida da personagem retratada, que
culminariam com a ida da estudante à Colômbia, com o objetivo de interromper uma
terceira – e imprevista – gestação, fruto de relacionamento com o pai de seus filhos.
Nos tópicos seguintes, a reportagem será analisada à luz dos quatro
“movimentos” metodológicos propostos neste capítulo. Busca-se, em suma,
investigar possíveis mecanismos de transcriação na narrativa jornalística (o
“discurso outro”) de Mônica Manir, como, também, problematizar os modos
como tal discurso estimula múltiplas interpretações por parte dos transleitores.

A tétrade da transcriação, passo a passo


Descrições contextualizadas do fenômeno acontecimental

A reportagem de Mônica Manir inicia-se com detalhada descrição da


participação da estudante Rebeca Mendes em evento anual que busca “discutir
inovação e diversidade”. Já no início do texto, destaca-se a busca da jornalista,
em seu “discurso outro”, por revelar detalhes, aparentemente marginais à lógica
9 TAVELA, Marcelo. “João Moreira Salles fala sobre revista piauí e evita o jornalismo literário”.
Comunique-se, 2007.

185
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

central – qual seja: a luta da protagonista pela descriminalização do aborto –,


mas bastante importantes para recomposição da cena primeva.
Para além de explicações sobre a natureza do evento, percebe-se, na
narrativa, o resultado do criterioso processo de apuração – da reconstituição de
cenários à atenção aos detalhes:

Rebeca Mendes pegou a bolsa do chão e, risonha, subiu ao palco. Dentro


de alguns minutos, iria compor uma das 302 mesas do Festival Path,
em São Paulo. O evento anual – que, desde 2013, se propõe a discutir
inovação e diversidade por meio de shows, palestras, filmes e exposições
– ocorreu no mês passado, durante um fim de semana. Entre os trinta
espaços do bairro de Pinheiros ocupados pelo festival, destacava-se o
Instituto Tomie Ohtake, justamente onde aconteceria o debate vespertino
de que Mendes iria participar. Alisando a barriga com oito meses de
gestação, a mediadora Maíra Liguori, diretora da ONG feminista Think
Olga, comunicou à plateia que chegara o momento de tirar “a capa de
nebulosidade” que ainda encobre um dos temas mais caros às mulheres
do país: o direito de manter ou não uma gravidez. Olhou carinhosamente
para a jovem debatedora e afirmou: “Se um dia houver uma lei que
descriminalize o aborto no Brasil, teremos que chamá-la de Lei Rebeca
Mendes (MANIR, 2018, p. 34).

Ao longo de toda a reportagem, uma série de minúcias do fenômeno


acontecimental – no caso, a vida de Rebeca e as nuances de sua luta pelo
direito ao aborto – estrutura a narrativa, como forma de, ao mesmo tempo,
“transportar” o transleitor aos “territórios” do mundo da vida e a searas de
múltipla temporalidade. É possível, neste sentido, acompanhar pensamentos
e fatos da vida da protagonista em diversos instantes de sua(s) trajetória(s),
tanto pessoal quanto “imaginária e/ou metafísica” – termos que, aqui, dizem
respeito a elucubrações (pensamentos, ideais, crenças etc.) particularíssimas
da personagem central.
Senão, vejamos:

Seis meses antes daquele fim de semana, na noite de 13 de novembro


de 2017, Rebeca Mendes encarava o teste de gravidez sobre a pia do
banheiro. Em poucos segundos, confirmaria se o atraso na menstruação
era o que temia ser. “Mãe!”, chamou Felipe. Foi o tempo de responder
não lembra o quê ao menino e lá estava a cruz no visor do exame. O
teste se mostrara tão rápido quanto o Super-Homem, o Homem-Aranha e
toda a constelação de heróis que povoa a porta da geladeira e as paredes
da casa dela. Cruz azul. Positivo. Mendes engravidara pela terceira vez
(MANIR, 2018, p. 36).

[...]

A “pior hora” já durava certo tempo. A mãe de Thomas, 9 anos, e Felipe,


7, fazia malabarismos para equilibrar o orçamento doméstico com duas

186
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

fontes de renda mensais: a pensão do ex-marido, pai dos meninos, que


variava de 700 a 1 mil reais, e o salário de 1 200 reais, fruto de um
trabalho provisório no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o
IBGE. Só o aluguel da modesta casa em que a família vivia abocanhava
600 reais. Restavam, ainda, os gastos com alimentação, luz, água,
roupas, transporte, remédios… Não bastasse, o emprego temporário
findaria em três meses (MANIR, 2018, p. 36).

[...]

Confusa e aflita, a estudante recebeu de bom grado uma mensagem


enviada por um colega de Junior. O texto mencionava a campanha Eu Vou
Contar, que estimula mulheres a relatarem no Facebook suas experiências
com o aborto. Lançado em setembro de 2017 pelo Think Olga e pela
ONG Anis – Instituto de Bioética, o movimento toma o cuidado de só
divulgar casos que aconteceram há mais de oito anos. “Se uma mulher
interrompeu a gravidez em 2009, por exemplo, e as autoridades nunca
a investigaram, não poderão condená-la agora, já que esse tipo de crime
prescreve em oito anos”, explica a advogada Sinara Gumieri, da Anis
(MANIR, 2018, p. 37).

Conforme se pode perceber, as descrições pretendem não apenas


reconstituir os “passos” de Rebeca em nome de sua causa, mas, principalmente,
contextualizar temporalidades e fatos imprescindíveis à teia de causas e
efeitos da problemática em debate. Que o diga a abordagem dos trâmites da
descriminalização do aborto na Colômbia, país para onde a protagonista parte
em busca de solução a seus problemas.

Em 2006, a sentença C-355 despenalizou o aborto na Colômbia em três


circunstâncias: quando a má-formação do feto inviabiliza sua vida fora do
útero, quando a gravidez resulta de uma relação sexual não consentida
e quando há perigo à saúde da mãe. A partir de então, a Justiça passou
a aprovar outras sentenças sobre o assunto. Em 2007, permitiu que
mulheres com deficiência mental ou física interrompam a gravidez,
arvorando-se exclusivamente em sua própria vontade. No ano seguinte,
estipulou que não existe limite de idade gestacional para o procedimento
em situações previstas por lei. Assim, uma gestante com 28 ou trinta
semanas de gravidez tem a prerrogativa de solicitar a retirada do filho.
Em 2010, o país declarou o aborto um direito reprodutivo e, em 2016,
determinou que a “objeção de consciência do médico” não pode impedir
a intervenção. Caso um profissional se julgue impossibilitado de realizá-
la por razões morais ou religiosas, precisa indicar à paciente um colega
que o substitua (MANIR, 2018, p. 38).

Por fim, importante ressaltar, como aspecto fundamental ao processo de


contextualização acontecimental, a permanente tensão entre universos (políticos,
por que não?) de dimensão micro (Rebeca e seu universo íntimo) e macro
(julgamentos, leis decisões governamentais etc.).

187
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

No fim de novembro, a estudante já amargava os primeiros enjoos. O café, de


que gostava muito, não descia mais. Havia sido assim, com o Miojo, na
gestação de Felipe. Mas agora ela se sentia pior: o estômago virado se
associava ao choro convulsivo. [Narratividade micro]
Embora esperançosas de que Rosa Weber aprovaria o procedimento,
Mendes, a Anis e outras ONGs feministas se preocupavam com o
calendário. A Justiça não caminha na mesma velocidade da divisão
celular. Anais médicos indicam que abortos praticados nas primeiras
semanas de gravidez são mais seguros. Esperar aumentaria os riscos.
“Por isso, desde o início, tínhamos um plano B”, contou Debora Diniz
(MANIR, 2018, p. 38). [Narratividade macro]

[...]

Depois da jovem, quatro brasileiras viajaram para Bogotá a fim de fazer


aborto na Profamilia. A ONG também recebeu gestantes do Chile, onde a
intervenção é permitida apenas em casos de estupro e anormalidade fetal.
Mas boa parte das estrangeiras que recorreu à instituição nos últimos
meses provinha da Venezuela. Elas atravessaram a fronteira na região de
Cúcuta, fugindo do colapso econômico e da violência que imperam no
país sob o governo de Nicolás Maduro. [Narratividade macro]
Antes de se despedir, Rebeca Mendes passou num supermercado para
comprar frios e biscoitos de polvilho doce. “Se não levar nada, os meninos
brigam comigo.” Três semanas depois, avisou que a cachorra Tequila
havia fugido e que a gata prenhe dera à luz seis filhotes. “Jurei que não
ia adotar nenhum e acabei ficando com dois…”, contou, rindo (MANIR,
2018, p. 38). [Narratividade micro]

Nos breves trechos analisados neste primeiro tópico da problematização


de narrativas jornalísticas transcriadas, buscou-se, tão somente, compor parte
do cenário de descrições minuciosas – com proposta de interlocução entre
territórios de narratividade micro e macro – e contextualizações (multitemporais)
do fenômeno acontecimental. O “discurso outro” de Mônica Manir proporciona
ao transleitor, neste sentido, a experiência de “viagem no tempo”, tanto no que
tange ao histórico das políticas de proibição e liberalização do aborto (no Brasil,
na Colômbia e em outros países) quanto das motivações (internas e externas;
íntimas e sociais) das atitudes e dos pensamentos de Rebeca Mendes.

Diálogos críticos com o outro

Na narrativa de “O procedimento”, Mônica Manir não se dedica, de maneira


especial, a “diálogos” explícitos com o transleitor. Em outros termos, a autora
não recorre a debates diretos com seu público-alvo. Isso não quer dizer, porém,
que a dialogicidade crítica esteja ausente do “discurso outro” elaborado pela
jornalista. Afinal, a narrativa conta com uma série de “provocações” temáticas,
capaz de estimular, no sujeito em processo de transleitura, outras tantas
possibilidades de apreensão da realidade.

188
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Que o digam os exemplos a seguir, nos quais a repórter estimula novas


transleituras do tema por meio do uso de analogias e/ou do destaque de
frases de efeitos (proferidas, por vezes, pelas próprias fontes entrevistadas
para a reportagem):

Alisando a barriga com oito meses de gestação, a mediadora Maíra


Liguori, diretora da ONG feminista Think Olga, comunicou à plateia
que chegara o momento de tirar “a capa de nebulosidade” que ainda
encobre um dos temas mais caros às mulheres do país: o direito de
manter ou não uma gravidez (MANIR, 2018, p. 34).

[...]

Não, ninguém pode dizer o que uma mulher deve fazer com o próprio
corpo. Felipe, o caçula, estava com febre e dor de garganta. Será que o
pai do menino lhe ministrara as gotas de ibuprofeno? (MANIR, 2018,
p. 34).

[...]

Mais conhecido como Cytotec, um de seus nomes comerciais, o


medicamento foi aprovado pelo governo dos Estados Unidos na década
de 80 para tratar gastrite e úlceras estomacais. Por provocar contrações
uterinas, também passou a ser usado em clínicas e hospitais com o
objetivo de induzir o parto ou o aborto nos casos previstos em lei.
No Brasil, não é possível achá-lo em farmácias. Pelo menos, não
deveria ser. Desde 1998, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) limita a oferta de remédios com o princípio ativo do misoprostol
a instituições de saúde credenciadas. Ocorre que o potencial abortivo da
substância caiu nos ouvidos do povo, e o Cytotec, há tempos, é vendido
clandestinamente no país (MANIR, 2018, p. 36).

[...]

“Procedimento” é uma palavra-chave não só na Justiça, mas nas


entrevistas que a estudante passou a dar depois de se expor. “O termo
‘aborto’ choca as pessoas”, justificou Mendes, enquanto limpava com
alvejante a mesa em que as crianças haviam acabado de comer pastel
(MANIR, 2018, p. 37). [Grifos deste pesquisador]
 
Os trechos da narrativa em negrito revelam o interesse da jornalista em
informar, contextualizar, e, ao mesmo tempo, estimular, no transleitor, o interesse
por apreciações próprias. Tais provocações dialógicas servem de incitação à
busca por novas fontes de informação acerca não apenas do leit motiv da
reportagem, mas, também, a uma série de demandas, litígios, questionamentos
e discussões marginais.

189
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Narratividade polissêmica

Em comparação com inúmeras outras narrativas presentes em diversas


edições da revista piauí, o texto de Mônica Manir não se destaca pelo uso de
recursos literários, com ênfase em ambientações metafóricas e/ou expressões
hiperbólicas etc. Apesar disso, pode-se dizer que há recorrência de estratégias
capazes de estimular a polissemia discursiva da narrativa. No exemplo a seguir,
o processo de transcriação do fenômeno acontecimental em “discurso outro” está
na analogia entre o universo ficcional dos heróis cultuados na infância e a natural
apreensão de Rebeca Mendes diante da confirmação da imprevista gravidez.

Em poucos segundos, confirmaria se o atraso na menstruação era o


que temia ser. “Mãe!”, chamou Felipe. Foi o tempo de responder não
lembra o quê ao menino e lá estava a cruz no visor do exame. O teste se
mostrara tão rápido quanto o Super-Homem, o Homem-Aranha e toda
a constelação de heróis que povoa a porta da geladeira e as paredes
da casa dela. Cruz azul. Positivo. Mendes engravidara pela terceira vez
(MANIR, 2018, p. 34).

Preocupação ético-social

Para além da natureza ética da própria angulação de pauta da


reportagem “O procedimento”, a narrativa de Mônica Manir amplia o debate
em torno de problematizações sociais ao reconstituir, parágrafo a parágrafo,
inúmeras temporalidades, histórias, embates, políticas e legislações acerca
da descriminalização do aborto. Ao recorrer à trajetória de Rebeca Mendes,
é possível não apenas trazer luz à luta da estudante, mas, principalmente,
conforme descrito no quarto item do caminho metodológico aqui proposto, “(re)
inventar, criativamente, modos de amplificação/alargamento do diálogo entre a
narrativa transcriada e questões contemporâneas caras à sociedade”.
O leque de referências da narrativa jornalística transcriada de “O procedimento”
explicita o vasto fôlego do processo de apuração, por meio do entrelaçamento
entre nuances de foro particular (as dores e os desafios de Rebeca, tempo a
tempo, gesto a gesto, pensamento a pensamento) e universal (os embates – no
Brasil e na Colômbia, principalmente – acerca do aborto, e, de modo mais amplo,
em torno da autonomia das mulheres em relação ao próprio corpo).

Considerações finais

A estratégia metodológica apresentada e experimentada neste capítulo


busca “dar conta” do que se compreende por “narrativas jornalísticas
transcriadas”. Trata-se, conforme ressaltado, da possibilidade de elaboração
de textos/textualidades capazes de, ao mesmo tempo, informar e incitar,
crítica e criativamente, o debate em torno de questões prementes ao mundo

190
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

contemporâneo. Neste sentido, para que haja transcriação, faz-se necessária a


identificação, na narrativa jornalística, de mecanismos de estímulo à emancipação
intelectual do espectador (o transleitor).
Na reportagem “O procedimento”, aqui analisada como forma de pôr a
proposta metodológica em estado de experimentação, foi possível perceber, na
escrita de Mônica Manir, elementos constitutivos das quatros bases seminais às
narrativas jornalísticas transcriadas: descrições contextualizadas do fenômeno
acontecimental; diálogos (diretos e/ou indiretos) com o outro (leitor, espectador,
ouvinte, usuário, prosumidor); narratividade polissêmica, experimental e/ou
esteticamente atraente/inovadora e preocupação ético-social.
Para além de apresentar acontecimentos e vivências, a referida reportagem
“edifica um ‘discurso outro’ capaz de configurar (trans)experiências dialógicas
com seu público – conclamado, então, a olhar o mundo da vida não somente
em função de sua aparência imediata” (SILVA JR, 2017, p. 261). A narrativa
jornalística transcriada de Mônica Manir, portanto, estimula o transleitor à
complexa interpretação de processos sociais, culturais, políticos, econômicos etc.
Por fim, destaque-se que a referida análise da reportagem de piauí serv,
neste trabalho, como demonstração dos princípios, critérios e potencialidades de
sugestão metodológica ainda em processo de azeitamento. Importante ressaltar,
porém, que tal tétrade investigativa de narrativas jornalísticas transcriadas
apresenta-se como proposta capaz de agrupar e problematizar (além de dialogar
com) outras tantas correntes de análise de textos e textualidades (obviamente,
ligadas ao jornalismo).
Em trabalhos futuros, pretende-se aprimorar nuances teóricas e estruturais
de tal iniciativa metodológica, assim como ampliar a análise empírica referente
a outros tantos “territórios” e formatos – da web aos meios audiovisuais, do
jornal impresso às narrativas transmídia.

Referências

CAMPOS, Haroldo. Transcriação. TÁPIA, M.; NÓBREGA, T. M. (Orgs.). São


Paulo: Perspectiva, 2015.
______. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. In:
CAMPOS, Haroldo. Transcriação. TÁPIA, M.; NÓBREGA, T. M. (Orgs.). São
Paulo: Perspectiva, 2015.
CARVALHO, Carlos Alberto de. Entendendo as narrativas jornalísticas a partir
da tríplice mimese proposta por Paul Ricoeur. MATRIZes. Ano 6 – nº 1 jul./
dez. 2012. p. 169-187. Disponível em: file:///G:/Users/Goi/Downloads/48057-
Article%20Text-58230-1-10-20121213.pdf
GUIMARÃES, C.; FRANÇA, V. (Orgs.). Na mídia, na rua: narrativas do cotidiano.

191
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Belo Horizonte: Autêntica, 2006.


HISSA, Cássio Eduardo Viana (Org.). Conversações: de artes e de ciências. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2011.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.
LEAL, Bruno. Saber das narrativas: narrar. In: GUIMARÃES, C.; FRANÇA, V. (Orgs.).
Na mídia, na rua: narrativas do cotidiano. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
LEAL, Bruno; MENDONÇA, Carlos M. C. A textualidade como processo:
desafios comunicacionais. In: Memorias del XIII Congreso Latinoamericano de
la Comunicación - Discurso y comunicación. 2016. Disponível em: file:///G:/
Users/Goi/Downloads/Raza_y_genero_en_Disney_Interpretacion_d%20(1).pdf
MANIR, Mônica. “O procedimento – Como Rebeca Mendes se tornou um símbolo
da luta pela descriminalização do aborto”. piauí, 141, ano 12, junho de 2018.
p.34-39
MOTTA, Leda Tenório da. Céu acima: para um tombeau de Haroldo de Campos.
São Paulo: Perspectiva, 2005.
MOTTA, Luiz Gonzaga. A análise pragmática da narrativa jornalística. 2005.
Disponível em www.portcom.intercom.org.br/pdfs/10576805284273874082
8590501726523142462.pdf
PAES, José Paulo. Transleituras. São Paulo: Ática, 1995.
PEREIRA JR., Luiz Costa. Guia para a edição jornalística. 3ª ed. Petrópolis
(RJ): Vozes, 2011.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF: Martins
Fontes, 2012.
RICOEUR, Paul. Sobre a tradução. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
____________________. A memória, a história, o esquecimento. Campinas:
Editora da Unicamp, 2007
SANTAELLA, Lucia. Transcriar, transluzir, transluciferar: a teoria da tradução de
Haroldo de Campos. In: MOTTA, Leda Tenório da. Céu acima: para um tombeau
de Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2005.
SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de
Janeiro: Graal, 1989.
SILVA JR., Maurício Guilherme. A narrativa jornalística como mecanismo de
“transcriação”. IN: SOSTER, Demétrio de Azeredo; PICCININ, Fabiana Quatrin.
(Orgs.) Narrativas midiáticas contemporâneas: perspectivas epistemológicas.
Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017.
____________________. (Trans)criações jornalísticas na revista Minas faz
Ciência. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM JORNALISMO,

192
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

12., 2014, Santa Cruz do Sul, Anais. São Paulo: SBPJor – Associação Brasileira
de Pesquisadores em Jornalismo, 2014.
SILVA JR., M. G.; ANTUNES, E.; Do desejo de traduzir à transcriação:
apontamentos sobre a decodificação jornalística do discurso científico, com base
em conceitos de Haroldo de Campos, José Paulo Paes e Paul Ricoeur. Revista
da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação |
TÁPIA, Marcelo. Apresentação. In: CAMPOS, Haroldo. Transcriação. TÁPIA, M.;
NÓBREGA, T. M. (Orgs.). São Paulo: Perspectiva, 2015.
TAVELA, Marcelo. “João Moreira Salles fala sobre revista piauí e evita o jornalismo
literário”. Comunique-se, 2007.
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna. Trad. de Pedro A. Guareshi
et al. Petrópolis: Vozes, 1990.
____________________. A mídia e a modernidade – Uma teoria social da mídia.
Trad. de Wagner de Oliveira Brandão. Petrópolis: Vozes, 1998.
____________________. A nova visibilidade. Trad. de Andrea Limberto. In:
Revista Matrizes, São Paulo, n. 2, abr. 2008.
TOFFLER, Alvin. A terceira onda: a morte do industrialismo e o nascimento de
uma nova civilização. Rio de Janeiro: Record, 1995. 
WHITE, Hayden. The Value of Narrativity in the Representation of Reality. Critical
Inquiry, Vol. 7, No. 1, On Narrative, University of Chicago Press (Autumn,
1980), p. 5-27. Disponível em http://www.jstor.org/stable/1343174.

193
A juventude ao alcance de suas mãos:
uma análise dos discursos sobre a velhice
em cinquenta anos de Veja (1968 – 2017)

Felipe Viero Kolinski Machado

Introdução

O texto ora em tela é resultado de pesquisa desenvolvida entre os anos de


2011 e 2013 e que culminou em minha dissertação de mestrado (KOLINSKI
MACHADO, 2013). Uma versão inicial desse capítulo foi publicada em 2016,
em coautoria com a orientadora da dissertação, professora Christa Berger
(BERGER; MACHADO, 2016). O presente trabalho, cuja questão norteadora é
perceber como, ao longo de seus cinquenta anos (1968-2017), Veja mobilizou
e construiu sentidos sobre a velhice, consiste em uma reflexão ampliada dessas
produções e, ainda, em um exercício metodológico de aplicação da Análise de
Discurso francesa (AD).
Na pesquisa aqui relatada, indo ao encontro das propostas de Berger e
Luckmann (2009), compreende-se o movimento e a consolidação dos sentidos
e o desenvolvimento de uma cultura comum, dentro da qual se percebe o fazer
jornalístico, de um ponto de vista construcionista.
Sob tal lógica, o real, cotidianamente vivenciado, e a partir do qual os
sujeitos mobilizam-se, consistiria não em algo imutável, mas em um conjunto de
relações que, via disputas de poder, teria assumido uma posição hegemônica e,
via apagamentos de ordem ideológica, adquirido o caráter daquelas coisas que
parecem sempre ter sido tal qual são, independente da volição dos indivíduos.
O discurso, então, como lembra Foucault (2007), é aqui percebido não
apenas como aquilo que oculta ou que manifesta o desejo, mas como o seu
próprio objeto. Sob essa perspectiva ele tampouco se resumiria à tradução dos
sistemas de dominação, mas consistiria em sua própria motivação. Compreende-
se, ainda, o discurso como o trânsito dos sentidos, o mover dos significados e o
espaço de errância dos sujeitos (ORLANDI, 2009).
Considerando que, dentro de dado cenário, nem tudo pode e também nem
tudo deve ser dito, o discurso funciona igualmente, via materialização daquilo
que diz (e via materialização daquilo que não diz e, portanto, silencia), como
espaço de observação das disputas ideológicas que assinalam a consolidação
dos significados (PÊCHEUX, 1997).
A velhice, nesse contexto, pode ser percebida de múltiplas formas.

194
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Como questão biológica e discursiva, constitui-se tanto nos corpos físicos dos
sujeitos, que percebem em si as marcas da passagem dos anos, quanto no
corpo social de uma coletividade (ocidental, ao menos) que é assinalada por um
hedonismo crescente (LIPOVETSKY, 2005) e pela promoção da juvenilidade
(MORIN, 1997).
Conforme lembra Beauvoir (1990), apesar de ser um fato que transcende
a história (o homem sempre esteve, de uma forma ou de outra, sob a tutela
do tempo) a velhice, em seus múltiplos aspectos simbólicos, foi percebida de
maneiras plurais, variando conforme o contexto.
Podendo, ainda, ser vista como o resultado do investimento do discurso
médico sobre o corpo envelhecido (KATZ, 1996), a velhice traz, de modo
intrínseco, desde essa origem, as ideias de que a decrepitude seria uma
característica invariável desse ponto do ciclo vital e de que, nesse momento, o corpo
se degeneraria inevitavelmente. A juventude, em contrapartida, configurando-
se em valor, deixa de ser restrita a determinado instante do desenvolvimento e
passa a ser meta e desejo, um sonho de uma sociedade (DEBERT, 1999; LINS
DE BARROS, 2004).
Com o crescimento demográfico mundial da população com mais de 60
anos, contudo, todo um mercado buscou ressignificar tais traços estigmatizados
(GOFFMAN, 2008), na tentativa de consolidar uma identidade, em um sentido
de produção cultural e discursiva (HALL, 2000), mais plena de realização
(SARTRE, 1997). A terceira idade, a melhor idade e o público sênior (não
mais chamado de velho, deve-se perceber), assim, seriam tentativas não de
superação de imagens negativas, mas de postergação delas (LENOIR, 1979),
associando matizes menos nebulosas a um nicho comercial em expansão.
Em relação ao Brasil, de modo mais específico, há uma premência de se
discutir a questão da velhice mais profundamente. Entre os anos de 2012 e
2017, a população idosa no país aumentou 19% e, em 2017, o número de
pessoas com mais de 60 anos atingiu a marca de 30 milhões. Estima-se, ainda,
que em 2031 o Brasil já será composto, demograficamente, mais por idosos do
que por crianças e adolescentes (COSTA, 2018). Discutir e compreender tais
elementos, bem como seus impactos políticos, econômicos e sociais, mostra-se
então fundamental.
O jornalismo, pois, é aqui percebido como o “discurso revelador/plasmador
da sociedade contemporânea” (BERGER, 1996, p. 188) e como prática
social e discursiva cujas tramas costuram o presente, ao passo que dá a ver/
corrobora para a construção de determinados reais. Ainda sob esse ponto de
vista, o jornalismo pode ser compreendido como “um lugar de circulação e de
produção de sentidos” (BENETTI, 2008, p. 107) e como um discurso dotado
de características específicas. Conforme lembra Benetti (2008), o discurso
jornalístico poderia ser concebido como dialógico, polifônico e opaco, uma vez
que apresentaria um caráter interdiscursivo e intersubjetivo, que seria composto,

195
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

a princípio, por múltiplas vozes e que não seria transparente, apresentando


possibilidades de interpretação por parte dos sujeitos. Seria, ainda, ao mesmo
tempo, efeito e produtor de sentidos e condicionado às suas rotinas e às suas
condições produtivas específicas.
A revista Veja, enquanto veículo jornalístico específico, construiu-se como
objeto de análise coerente com as propostas e os questionamentos dessa
pesquisa. Criada em 1968, pelo Grupo Abril, Veja foi fundada com o intuito de,
através da informação, integrar o território nacional. A partir da retomada de
diferentes elementos de sua história (CONTI, 1999; MIRA, 2001; HERNANDES,
2004; KOLINSKI MACHADO, 2013), pode-se observar uma trajetória não linear,
assinalada pela diminuição das vendas e por diferentes mudanças de caráter
editorial e estratégico a fim de alcançar, finalmente, o “sucesso” pretendido.
Contemporaneamente, Veja é a segunda maior revista de informação do
mundo e a maior do Brasil. Com uma circulação média que supera um milhão
de exemplares, levando-se em consideração seu efeito multiplicador, estima-
se que seus leitores ultrapassem a marca de seis milhões de pessoas todas as
semanas (MEDIA KIT VEJA, 2018).
A escolha por Veja, igualmente, reside no fato de ela possuir um arquivo
digital com todos os seus exemplares disponíveis1 (o que permitiu, por conseguinte,
observar os modos pelos quais os sentidos sobre a velhice se materializaram ao
longo do tempo) e no fato de ela, progressivamente, ter voltado sua atenção
às questões de saúde, de comportamento e bem-estar (HERNANDES, 2004;
AUGUSTI, 2005; KOLINSKI MACHADO, 2013), espaços nos quais, usualmente,
enquadrou a temática da velhice.

A Análise de Discurso francesa como aporte teórico e metodológico

Recuperando as proposições de Charaudeau e Maingueneau (2008), é


possível constatar que as análises de discurso possuem uma origem transnacional
e plural, dificultando a precisão de um ato fundador. Sobre a Análise de Discurso
francesa (AD), em específico, os autores apontam que ela teria surgido em
meados dos anos 60, tendo como base a associação de uma linguística estrutural
à noção de ideologia e à psicanálise. Cabe, aqui, lembrar daquilo que postula
Orlandi (2009, p. 20).

Desse modo, se a Análise do Discurso é herdeira das três regiões do


conhecimento – Psicanálise, Linguística e Marxismo - não o é de modo
servil e trabalha uma noção – a de discurso – que não se reduz ao objeto
da Linguística, nem se deixa absorver pela Teoria Marxista e tampouco
corresponde ao que teoriza a Psicanálise. Interroga a Linguística pela
historicidade que ela deixa de lado, questiona o Materialismo perguntando
1 O acervo com as 2562 edições consultadas nessa pesquisa (todas as edições publicadas entre
setembro de 1968 e dezembro de 2017) encontra-se totalmente disponível (para assinantes) no site de
Veja. https://acervo.veja.abril.com.br/#/editions Acesso em: jun. 2018.

196
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, considerando


a historicidade, trabalha a ideologia como materialidade relacionada ao
inconsciente sem ser absorvida por ele.

Pêcheux (1997), autor mais representativo dessa corrente, ao falar sobre


as três épocas que assinalariam o desenvolvimento da AD, ressalta diferentes
elementos desse percurso. De um primeiro momento, marcado por uma concepção
da produção discursiva como “uma máquina autodeterminada e fechada sobre si
mesma” (PÊCHEUX, 1997, p. 311) e assinalada pelos esquecimentos do sujeito,
passa-se a um outro instante em que se atribui uma centralidade ao conceito de
Formação Discursiva (FD) e à perspectiva de retomada dos já-ditos. A centralidade
das questões da heterogeneidade, a qual seria uma característica constitutiva
de todo e qualquer dizer, a importância do gesto interpretativo e o caráter de
acontecimento do discurso já seriam marcas de uma terceira e última fase.
Acerca da noção de Formação Discursiva (FD), torna-se importante
discuti-la, uma vez que essa será, posteriormente, no instante das análises,
operacionalizada. Para Foucault (2012) uma FD está relacionada à regularidade,
à ordem e às correlações que, mediante um certo número de enunciados e
a um semelhante sistema de dispersão, puderem ser observadas e descritas.
Pêcheux (1997), ao estabelecer nexos com aquilo que é exterior a essa formação
e ao acionar o conceito althusseriano de ideologia, permite que se desenvolva
a perspectiva de que as FDs representariam, na linguagem, as Formações
Ideológicas que, então, lhes seriam correspondentes.
O conceito de ideologia, central nos trabalhos produzidos a partir dessa
matriz, advém da obra de Louis Althusser. Para Althusser (1974, p. 77), a
ideologia “representa a relação imaginária dos indivíduos com as suas condições
reais de existência”. Será assim, pelo viés da ideologia, que os indivíduos de fato
serão interpelados em sujeitos.
Nesse contexto, é com base em Marx e em Althusser que se consolida a
ideia de Formação Ideológica, a qual faria referência às

[...] posições políticas e ideológicas, que não são feitas de indivíduos, mas
que se organizam em formações que mantêm entre si relações de anta-
gonismo, de aliança ou de dominação [...] podendo incluir uma ou vá-
rias formações discursivas interligadas. (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX,
1971 apud CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008, p. 241)

Ao encarar o jornalismo como um discurso que, ao mesmo tempo, é leitor


e hiperprodutor de uma grande conversação (FAUSTO NETO, 1999), é compre-
ensível que se recorra à AD como uma forma possível de se constatar e de se
analisar os significados daí provenientes.
Benetti (2016) sugere que a Análise de Discurso seja tomada como um
dos possíveis dispositivos metodológicos para a pesquisa em comunicação.

197
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Ao passo que lembra que a AD consiste em um gesto de interpretação e que


o próprio pesquisador, portanto, está inserido nas tramas do discurso sobre o
qual se debruça, Benetti (2016) aponta três tipos de objetos então cabíveis
para os quais, no cenário da comunicação, a AD é pertinente: a) estudo de
textos de mídias tradicionais e organizações (textos jornalísticos e publicitá-
rios – caso dessa pesquisa); b) estudo de textos autônomos (tais como inter-
venções urbanas e grafite) e c) estudo de textos metodológicos (que seriam
aqueles coletados pelo pesquisador (entrevistas, grupos focais)).
Benetti (2016) define, igualmente, que existem quatro abordagens pro-
dutivas a partir das quais a AD poderia ser mobilizada. Sumariamente, a
análise dos sujeitos (1) refletiria sobre quem fala e para quem se fala; a
análise do silenciamento (2) abordaria, tendo em vista aquilo que pode e
aquilo que não pode ser dito em dadas condições, o que é silenciado; a
análise da estruturação do discurso (3) abordaria os modos pelos quais o
discurso se organiza, levando em conta, por exemplo, como se estabelecem
lugares de fala e de injunção à interpretação; a análise de sentidos (4),
aqui desenvolvida, refere-se à busca pelas marcas discursivas que permitam
estabelecer regularidades e, para além da superfície textual, as Formações
Ideológicas correspondentes. Nos trabalhos aí inseridos, como procedimento
metodológico, faz-se necessário extrair do corpus fragmentos significativos
(chamados então de sequências discursivas).

A sequência discursiva é o trecho arbitrariamente recortado pelo pes-


quisador, do texto em análise, porque contém elementos que respondem
à questão de pesquisa; seu início e seu final são definidos pela corre-
spondência a essa questão. É habitual numerar cada SD, para facilitar a
organização do corpus de pesquisa. (BENETTI, 2016, p. 248).

Empreendendo a análise: entre sequências e sentidos

Objetivando perceber os sentidos construídos e movimentados por


Veja, sobre a velhice, ao longo das 2562 edições analisadas (referentes
ao período 1968-2017), restringiu-se o corpus da pesquisa àquelas
reportagens que, dentre todas essas revistas, trouxessem essa temática
como um dos assuntos centrais.
Dessa forma, a partir da análise individual, de cada um dos números de
Veja aí englobados, chegou-se ao universo de 118 reportagens, distribuídas,
não proporcionalmente, ao longo desses 50 anos de jornalismo e, então, a 241
sequências discursivas. A tabela abaixo (tabela 1) traz esses textos, distribuídos
ao longo de dois blocos, destacando as décadas de publicação e as editorias em
que eles foram veiculados.

198
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Tabela 1 – Seções de publicação e ocorrência das reportagens


em blocos (1968 – 1989 e 1990 – 2017)

Período de tempo e ocorrência


Seção na qual o texto foi publicado
1968-1989 1990-2017
Beleza 0 16
Ciência, medicina ou saúde 10 30
Comportamento 02 05
Especial 02 17
Previdência ou Aposentadoria 01 01
Vida moderna, sociedade ou população/demografia 02 12
Outras 0 20
Total de textos 17 101
Fonte: Elaborada pelo autor.

Pode-se perceber, desde um primeiro momento, que há um crescimento


progressivo do número geral de reportagens cuja temática central envolve a
velhice. Separando, então, essas cinco décadas em dois grandes grupos, com
base em uma questão temporal, é possível constatar que em seus primeiros vin-
te anos de existência Veja publicou apenas 17 reportagens nas quais a velhice
correspondeu a um ponto de destaque. Todos os outros 101 textos, que corres-
ponderiam a cerca de 85% do material coletado, foram publicados no espaço
de tempo 1990-2017.
Mais do que um movimento próprio do veículo que tende, conforme foi
discutido em outras pesquisas, a dar uma maior ênfase às questões de saúde,
de estética e de comportamento nos últimos anos, em detrimento da política
e da economia, ênfase no período inicial de sua trajetória (AUGUSTI, 2005;
CONTI, 1999; HERNANDES, 2004; MIRA; 2001), as justificativas para tais
proporções extrapolam meras questões editoriais. Socialmente, a velhice, con-
forme lembra Debert (1999), vem passando por intensas modificações, che-
gando a ser reinventada. Em um contexto assinalado pela promoção de um
discurso que dota o corpo de características plásticas, apontando-o como ma-
leável conforme o empenho e a dedicação de cada um (LE BRETON, 2003) e
que delimita a juventude como esse valor a ser obtido em qualquer etapa da
vida (LINS DE BARROS, 2004), não é surpresa que o discurso de Veja traga
a maior parte de seus textos sobre a velhice circunscritos a questões de ordem
estética. Mesmo sob as editorias de Saúde e de Comportamento, por exemplo,
o foco central foi, em geral, as formas de combate e de prevenção ao envelhe-
cimento e às suas marcas.
Apesar de discutir a velhice também sob um ponto de vista de interesse
público (tais como ao abordar aposentadorias insuficientes ou mesmo o aumen-
to demográfico do número de idosos), usualmente, Veja contribuiu, conforme
será exposto, para a redução da complexidade do tema a procedimentos cirúr-
gicos rejuvenescedores e a dietas milagrosas.

199
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Algumas sequências discursivas dão a ver os modos pelos quais os sentidos


sobre a velhice foram sendo postos em trânsito por Veja. Vale salientar que os
textos, assim como as sequências, foram numerados em ordem crescente e
essas informações situam-se ao lado de cada trecho aqui reproduzido.

Em 145 clínicas espalhadas pela Romênia, sob orientação da Dra. Ana


Aslan, procura-se retardar a velhice. Como método de diagnose usam-se
a bioquímica do sangue, os raios X, dosagem das gorduras sanguíneas
e a oscilometria – nada de operações. Depois, algumas injeções de
procaína, e os velhos se sentem rejuvenescer. (CERCO..., 1973, p. 49)
(T05 SD10).
A síndrome de julho não é o único fenômeno a aquecer esse ramo da
medicina, impulsionado pela sadia vaidade de pessoas dispostas a
retardar os sinais de ação do tempo sobre seus rostos e corpos e pelo
desejo manifestado por outros de livrar-se de traços herdados cujos
contornos considerem indesejáveis. A cirurgia plástica, no que diz
respeito ao desenvolvimento de novas técnicas, vive um período de ouro.
(CONSTRUÇÃO..., 1986, p. 60) (T16 SD30).
Haja aeróbica. A academia Competition, uma das mais completas de São
Paulo, avalia que uma em cada cinco clientes são mulheres na idade da
loba. O índice sobe para 50% na lista de pacientes dos dermatologistas.
Nos consultórios dos cirurgiões plásticos, elas são 60%. O corpo é
reconstruído a bisturis, choques elétricos contra a celulite, aluviões de
cremes, massagens e malhação. (CAPRIGLIONE; LEITE, 1995, p. 87)
(T28 SD59).
Isso mesmo: Madonna, a loira de músculos definidos, magérrima
e conservadíssima é cinquentona. Sua figura é fruto de uma dose
excepcional de disciplina (e de exercícios), mas estar bem na sua idade
não tem nada de incomum. Só no mundo dos artistas, onde a imagem
não é tudo, mas chega perto, também acabam de dobrar o cabo dos
50 anos as atrizes Sharon Stone (em março) e Michelle Pfeiffer (em
abril), beldades de parar o trânsito em qualquer tapete vermelho. (A
AURORA..., 2008, p.98) (T84 SD180).
A ciência deu um grande passo para vencer uma batalha humana que
nos acompanha desde sempre: a luta contra as marcas do tempo. Uma
fórmula desenvolvida por um grupo de pesquisadores da Universidade de
Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos
Estados Unidos, mostrou-se capaz de reduzir em até 40% as rugas e as
bolsas abaixo das pálpebras quase instantaneamente (MELO, 2016, p.
96) (T115 SD237)

Dentre algumas das percepções as quais se foi chegando, mediante análise


e recuperação de outros trabalhos que com esse guardavam alguma semelhança,
pode-se destacar o caráter pedagógico (FISCHER, 2002) assumido pela revista.
Veja, via citação de estudos e de pesquisas e através de testes e de quadros
dirigidos a seus leitores (intensificados a partir da década de oitenta), foi,
continua e progressivamente, delimitando as formas adequadas de se portar e
de se viver, apontando o que viria a ser, para ela, um “envelhecimento saudável”
e, aí, como obtê-lo. Desenvolveu, assim, um verdadeiro receituário performativo,

200
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

conforme sugere Prado (2009), a partir do qual os enunciadores-cartógrafos,


sempre especialistas, designaram (e designam, ainda) os melhores caminhos
a serem seguidos. A revista, assim, configurou-se em um dispositivo discursivo
da velhice.

Para quem faz questão de ser bonita, manter a forma é uma luta que dura
toda a vida. Mas existem alguns cuidados que devem ser tomados desde
cedo e problemas que só surgem em determinadas etapas da existência.
Fazer ginástica ajuda a manter o peso e a elasticidade da pele. Já foi
criada até uma série de exercícios para manter o rosto sem rugas. Para
fazê-los, basta articular, forçando os músculos da face, as cinco vogais
nessa ordem: A, O, U, E, I. (A MEDICINA..., 1981, p. 64) (T13 SD 24).
A blogueira Carol Magalhães, 38 anos, é um exemplo de como a preven-
ção precoce é a maior aliada do espelho: “Só uso produtos antienvelhe-
cimento para a minha idade, vou atrás deles. Sei que com isso chegarei
aos 50 anos com uma pele boa e jovem, algo diferente da referência que
tenho de mulheres nessa faixa etária quando eu tinha 20 anos”. É um
bom sonho de juventude. (VIDALE, 2017, p. 92) (T118 SD 241).

Igualmente é importante ressaltar que Veja, ao relacionar a velhice ao


declínio físico e à perda de valores estéticos, situa em diferentes lugares
homens e mulheres. Indo ao encontro de Attias-Donfut (2004), que ao falar
em envelhecimento masculino e feminino, diz que no seio de uma sociedade
patriarcal o frescor, a beleza e a doçura são cobrados muito mais da presa, do
que do predador, observa-se que Veja não se omite ao ressaltar o charme de
algumas marcas (para eles) e a premência de evitá-las (para elas).

Como cabelo grisalho e rugas discretas nunca foram impedimentos para


o sucesso social masculino, permanecem galãs (ou por causa) da idade
madura os irresistíveis Pierce Brosnan, um poço de charme aos 55 anos,
Richard Gere, inalterável jeitinho carente aos 58, e José Mayer, que aos
59 e longe de sua melhor forma (por força do papel, ressalta-se), anda
aos beijos com Juliana Paes em A favorita, folhetim das 8 da Globo. (A
AURORA..., 2008, p.99) (T84 SD181).
Sabendo-se, portanto, que depois dos 60 lipo ondula, lifting estica
demais, Botox paralisa e preenchimentos inflam em excesso, conclui-se
que fórmula perfeita para o bem envelhecer não há. Ou melhor, há, só
que é privilégio de pouquíssimas – quem diz que Suzana Vieira, capaz de
tirar de letra cenas tórridas de paixão em novelas, tem 64 anos? Ou então
é questão de encarar a passagem dos anos da melhor forma possível,
exibindo rugas e cabelos brancos com pose e altivez, como faz, aos 80
anos, a rainha Elizabeth da Inglaterra – provavelmente a única milionária
do planeta que jamais se submeteu a uma cirurgia plástica. (ALISAR...,
2007, p. 93) (T78 SD167).

As tensões entre uma velhice temerosa (em geral asseverada pela


aparência física indesejada) e uma terceira idade positiva (sempre assinalada
pelas possibilidades de consumo) também se manifestaram no discurso de Veja,

201
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

dando a ver questões como uma escassez de discursos sobre a pauperização


na velhice (em especial mais contemporaneamente) e a apresentação de um
envelhecimento positivo sempre como reflexo das ações de cada um.

Nesta faixa [dos 45 aos 55 anos], a deterioração age rapidamente, a


qualquer descuido. O cabelo cai depressa, a postura tende a mudar
e a pele exige mais. É o último momento para uma primeira cirurgia
plástica rejuvenescedora e para o transplante de cabelos, para quem não
pretende chocar amigos e conhecidos e pretende continuar em forma. (A
MEDICINA..., 1981, p. 64) (T13 SD26).
Nos últimos anos, os cinquentões passaram a se divorciar mais, a
construir novas famílias, a paquerar como na juventude. Também
adiaram a decisão de pendurar as chuteiras no trabalho por ainda ter
energia sobrando. Ficaram mais saudáveis e estão mais vivos do que
nunca na cama. Além de incrivelmente mais bem conservados, graças às
inúmeras benesses das cirurgias plásticas, da ginástica e dos tratamentos
estéticos. [...] Calcula-se que hoje a turma chamada ‘terceira idade’ (a
que preferimos nos referir como ‘melhor idade’) já movimente 90 bilhões
de reais por ano no país. Para esses novos consumidores velhos, há uma
indústria trabalhando a todo o vapor [...] Pela primeira vez Veja publica
uma edição especial a esse grupo. [...] A iniciativa vai ao encontro de
uma tendência mundial. Só nos Estados Unidos, há cerca de quinze
revistas mensais destinadas ao público maduro. Boa leitura! (A MELHOR
..., 2005, p. 06) (T71 SD144).
Quem se cuida vai empurrando a velhice com a bem malhada barriga,
como atesta o analista financeiro Juarez Aguilar, 47 anos. Ele passa três
horas por dia numa academia de ginástica em São Paulo. “Chego em
casa muito mais disposto para namorar”, afirma ele, que cortou frituras
e gasta 200 reais por mês em suplementos vitamínicos com apoio da
mulher, Salete. (VEIGA, 2000, p. 124) (T48 SD94).

Tendo em vista aquilo que foi coletado e analisado, foi possível constatar dois
grandes núcleos de sentido, duas grandes categorias dentro das quais, mesmo em
diferentes momentos e de diferentes modos, sentidos comuns foram reiterados
por Veja. A tabela a seguir (tabela 2) expõe, portanto, as Formações Discursivas
percebidas, o número de sequências que cada uma agrega e a sua ocorrência.

Tabela 2 – Formação Discursiva, número de sequências


englobadas e ocorrência

Número de sequências Ocorrência


Formação Discursiva (FD)
discursivas percentual
Formação Discursiva 01
177 73,45
Velhice como questão privada
Formação Discursiva 02
64 26,55
Velhice como questão pública
Fonte: Elaborada pelo autor.

202
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A FD que se mostrou dominante, uma vez que agregou mais de setenta por
cento das sequências coletadas em todo o período de análise, permitiu que uma
velhice muito específica fosse constituída e consolidada nas páginas de Veja.
Não se trata da velhice do número crescente de idosos, tampouco da velhice
pauperizada à qual estão submetidos muito velhos brasileiros, mas da velhice
que é de uma esfera privada, de um processo de envelhecimento que está nas
mãos dos sujeitos que o vivenciam diariamente e que, portanto, possuem meios
de torná-lo menos agressivo ou até mesmo impedi-lo. Trata-se de um discurso
que tende a reprivatizar o processo de envelhecimento (DEBERT, 1999).

O KH-3, uma espécie de fonte da juventude que cientistas alemães


descobriram em seus laboratórios e conseguiram comprimir numa
pequena cápsula, está entrando no Brasil pela porta do contrabando.
No Rio, o seu consumo entre as pessoas de idade já começa a se
transformar em moda: por 250 cruzeiros novos consegue-se uma
caixa de 150 cápsulas – e alguma esperança. (JUVENTUDE..., 1969,
p. 47). (T01 SD01).
Para quem não se preveniu a tempo e já exibe os sinais da passagem dos
anos, a cosmeatria e a cirurgia plástica desdobram-se em criatividade,
novas ideias e técnicas mais apuradas. Em matéria de bisturi, a ideia
geral também é fazer intervenções mais precoces, quase preventivas, e
menos traumáticas. (VIVER..., 1993, p. 91) (T25 SD50).
Mas milagres, infelizmente, não existem. Fazer aniversário sem envelhecer
exige empenho e dedicação. Por mais que a natureza dê sua forcinha,
só chega à maturidade exibindo formas e pele admiráveis quem investe
tempo e dinheiro na fórmula plástica-dieta-creme-ginástica. (PINHEIRO,
2003, p. 89) (T61 SD121).
Vê-se o resultado da bichectomia em mulheres lindas, que aparentemente
não teriam nada a corrigir e que agora desfilam as maçãs faciais
protuberantes [...] Diz o cirurgião João de Moraes Prado Neto da Sociedade
Brasileira de Cirurgia Plástica: “O rosto ganha um aspecto mais jovem e
magro com a valorização das maçãs”. É o sonho de absolutamente todas
as mulheres do mundo. (MELO, 2015, p. 88) (T113 SD 234).

Para além desse núcleo de sentidos, contudo, uma segunda FD também foi
percebida. Com um total de 64 sequências, e uma representatividade da ordem
de 26,55%, ela construiu espaços para uma velhice pública, de características
coletivas e sociais.
Aspectos sobre a velhice que ultrapassam a esfera privada, concernentes,
por exemplo, a políticas públicas, foram aqui englobados. Questões como
aposentadoria, legislação específica, aumento demográfico do número de idosos
e sobrecarga da previdência tiveram vez, opondo-se à perspectiva que toma a
velhice meramente como relativa ao sujeito. A terceira idade, tomada como
fase positiva, gerando impacto social, também foi o foco em alguns textos. As
sequências abaixo ilustram tais pontos.

203
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Do completo desconhecimento das aspirações que pudessem motivar


esse contingente de 5 milhões de pessoas, vive-se agora o período das
primeiras certezas. Já se sabe, por exemplo, que, embora arredio aos
contatos iniciais com outros parceiros da mesma faixa etária, o idoso
acaba por integrar-se completamente a grupos, clubes, equipes, que
simplesmente realizem bailes, ou se dediquem à fabricação de artesanato,
ou até se reúnam para lembrar os tempos da mocidade. [...] A descoberta
das possibilidades do que os gerontólogos chamam de ‘terceira idade’ tem
sido, na verdade, o grande denominador comum a todos os movimentos
pró-idosos. (VIVENDO ..., 1976, p. 94) (T08 SD16).
‘Se o estado desse uma aposentadoria decente e fornecesse assistência
às famílias dos idosos, os velhos brasileiros estariam em melhores
condições’ a gerontóloga e psicanalista paulista Elvira Abreu e Melo
Wagner. (DIREITO..., 1993, p. 70-71) (T24 SD46).
Em 2050 haverá apenas três pessoas em idade potencialmente produtiva
para cada uma com 65 anos ou mais. É uma proporção que torna
impossível financiar o sistema. E o mais preocupante é que o Brasil tem
andado na contramão, insistindo num modelo de cobertura muito amplo,
em vez de restringir o acesso aos benefícios. (VENTUROLLI, 2004, p.
108) (T67 SD139).
O Brasil será, em poucas décadas, um dos países com maior número
de idosos do mundo, e precisa correr para poder atendê-los no que eles
têm de melhor e mais saudável: o desejo de viver com independência e
autonomia. (ALLEGRETTI, 2016, p. 88) (T114 SD 235).

O que um “veículo indispensável” tem a dizer sobre a velhice?

No que se refere à opção pela Análise de Discurso francesa (AD),


enquanto aporte teórico e metodológico, cabe salientar que foi através de sua
operacionalização que os objetivos dessa pesquisa puderam ser alcançados. A
partir de um mapeamento inicial, chegou-se a 118 reportagens veiculadas em
Veja que, ao longo de 50 anos, abordaram a velhice. Tendo em vista esse corpus
então arquitetado, foram selecionadas 241 sequências discursivas as quais, ao
exporem os sentidos principais então mobilizados e construídos, e tendo em vista
a questão norteadora, permitiram a configuração de dois núcleos de significação
(Formações Discursivas). Acredita-se assim, coadunando com as proposições
de Benetti (2016), que a AD conforma-se, a depender do trabalho proposto,
em um potente dispositivo metodológico para a pesquisa em comunicação e em
jornalismo. Nesse caso, em que se desejava perceber os sentidos materializados
acerca da velhice, em um corpus jornalístico extenso e ordenado, observando aí
os sentidos reiterados ao longo do tempo, consistiu em uma decisão pertinente.
Essa pesquisa diferencia-se em razão do modo como se dá o tensionamento
entre objeto empírico e fundamentação teórica e metodológica, resultando em
uma abordagem com contornos próprios em relação ao fenômeno. Em busca no
banco de dissertações e teses da Capes, não foram encontradas referências para
pesquisas realizadas na área da comunicação que, debruçando-se sobre um
corpus jornalístico conformado a partir de um recorte temporal tão amplo, voltem

204
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

sua atenção aos sentidos então constituídos acerca da velhice e empreendam


uma análise de caráter discursivo.
A partir dessa pesquisa foi possível constatar um movimento, por parte
de Veja, contínuo, mas com maior fôlego a partir de década de 90, no sentido
de reprivatizar a velhice, ou seja, de reduzi-la, a partir dos sentidos então
mobilizados em seus discursos, a uma série de questões de ordem individual e
particular (DEBERT, 1999).
Avanços na área da medicina estética e um maior conhecimento do
organismo humano, acionados pela revista, poderiam então fornecer aos seus
leitores atentos o elixir da vida longa e saudável. Uma dieta balanceada (e
mais contemporaneamente com restrições ao consumo máximo de calorias
diárias), exercícios físicos constantes (aeróbica, musculação, natação), hábitos
de consumo (por que não usar a mesma saia que a filha?) e uma vida ativa
poderiam gerar mudanças entre a idade verdadeira (marcada no calendário) e
a idade real (idade do corpo), conforme ensina Michael Roizen, médico que se
torna espécie de guru para Veja, especialmente a partir dos anos 2000.
Ser jovem, sob tal percepção, não corresponderia a uma característica de
dado estágio do desenvolvimento biológico, mas, ao invés disso, em um ideal
a ser cotidianamente buscado e desejado. Na corrida pela manutenção da
juventude e pelo adiamento da velhice, entretanto, conforme ressalta Veja em
alguns momentos, nem todos largariam do mesmo ponto. Homens e mulheres,
por exemplo, correriam em pistas diferentes afinal, de acordo com a publicação,
se, por um lado, as rugas de Richard Gere são um charme a mais do galã
americano, os cabelos brancos, da maior parte das mulheres, continuam sendo
vetados por remeterem ao anátema supremo: a velhice.
Do mesmo modo, embora em pouquíssimos casos problematize essa
questão, entre pobres que sobrevivem com um sistema público de saúde muitas
vezes ineficaz e ricos que podem, a cada dez anos, recorrer a um cirurgião
plástico para pequenos retoques, existe um grande abismo social que se reflete
diretamente nas experiências de velhice ou de não-velhice.
Nesse cenário, o corpo, então, deve ser diluído, não deve chamar a atenção
pelas suas características negativas. Por outro lado, o imperativo da forma exige
que o corpo seja exposto. “Fique nu”, ele diz. Mas reitera: “Para isso, seja belo,
jovem e bronzeado”. Um corpo que deve desaparecer não sendo estrangeiro.
Um corpo que não deve ser estranho, mas, ao contrário, plenamente incluído.
Bio-poder, nos termos de Foucault (1988) que, se dirigindo ao indivíduo,
visa a ensiná-lo a portar-se como ser vivo, ao passo que objetiva otimizar suas
chances de viver mais e melhor. Práticas bioascéticas, pois, que enquadrariam
sujeitos plurais nos formatos únicos da juventude e da magreza, por exemplo.
Em um mar de incertezas, o indivíduo/mercadoria pós-moderno de Bauman
(1998; 2008) clamaria por definições, por uma rota segura que lhe garantisse a

205
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

longevidade da não-velhice. O jornalismo então, e o jornalismo de Veja, analisado


aqui, assume o papel de conselheiro, reveste-se em manual de comportamento
e, pedagogicamente, ensina aos seus leitores como as vidas devem ser vividas
(FISCHER, 2002).
Em contrapartida, torna-se pertinente salientar, os discursos não são
proferidos em uníssono e, invariavelmente, na disputa simbólica e material em
torno do sentido, existem espaços para dizeres que são de outra instância, para
aqueles significados que vêm de outros lugares.
A segunda Formação Discursiva localizada nesse trabalho, “Velhice como
questão pública”, sinaliza empiricamente essa perspectiva. Apesar de minoritária,
as sequências que compõem a FD02 movimentam e estruturam sentidos
que se opõem àqueles presentes na FD01. De uma velhice de tons privados,
cuja administração caberia a cada um, chega-se, aqui, a uma velhice cuja
responsabilidade extrapola os hábitos e as vontades pessoais. A participação do
Estado, então, passa a ser percebida como essencial para que a maior parte dos
sujeitos possa ter uma vida longeva e plena. Igualmente, quando aqui inserida,
a velhice passou a ser vista como uma questão de interesse público, a partir do
aumento demográfico do número de idosos e das revoluções propiciadas pelo
desenvolvimento da terceira idade.
Hegemonicamente, apesar disso, mediante análise de seus cinquenta
anos de prática jornalística, pode-se dizer que Veja, que se intitula como
“indispensável” ao cidadão brasileiro, movimenta e constrói sentidos sobre uma
velhice de tons muito restritos. Se tomarmos o jornalismo como uma forma
de conhecimento, tal qual propõe Genro Filho (1987), e pensarmos ainda no
potencial de construção de outros mundos possíveis, por um jornalismo pautado
pelo interesse público, podemos pensar que Veja, no que tange à questão aqui
analisada, falha miseravelmente. Em contrapartida, se desejamos um arquivo
(FOUCAULT, 2012) sobre práticas rejuvenescedoras, que diga do sonho de uma
não-velhice eterna, então, teremos, na maior revista do Brasil, um excelente
material de consulta.

Referências

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado. Lisboa: Editorial Presença/


Martins Fontes, 1974.
ATTIAS-DONFUT, Claudine. Sexo e Envelhecimento. In: PEIXOTO, Clarice Ehlers.
Família e Envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
AUGUSTI, Alexandre. Jornalismo e comportamento: os valores presentes no
discurso da revista Veja. 2005. 181 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação
em Comunicação e Informação – Mestrado e Doutorado) - Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

206
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar, 1998.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em
mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. 6.. reimp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1990.
BENETTI, Marcia. Análise de Discurso como método de pesquisa em
comunicação. Pesquisa em Comunicação Metodologias e Práticas Acadêmicas,
Porto Alegre, p. 235-256, 2016.
BENETTI, Márcia. Análise do Discurso em jornalismo: estudo de vozes e sentidos.
In LAGO, C.; BENETTI, M. (Org.) Metodologia de pesquisa em jornalismo. 2.
ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
BERGER, C.; KOLINSKI MACHADO, F. V. Compre, leia, siga e rejuvenesça!
Sobre os sentidos movimentados e construídos por Veja acerca da velhice ao
longo de sua história (1968-2014). Galáxia, São Paulo, n. 32, 2016.
BERGER, Christa. Em torno do discurso jornalístico. In: FAUSTO NETO, A.;
PINTO, M. J. (Org.). O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Diadorim, 1996.
BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade: tratado de
sociologia do conhecimento. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do Discurso. São
Paulo: Contexto, 2004.
CONTI, Mario Sergio. Notícias do planalto: a imprensa e Fernando Collor. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999.
COSTA, Daiane. Brasil já tem 30 [...]. O Globo. Online. 2018. Disponível
em: https://oglobo.globo.com/economia/brasil-ja-tem-30-milhoes-de-idosos-
numero-de-criancas-diminui -22629229. Acesso em junho/2018.
DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice: Socialização e Processos de
Reprivatização do Envelhecimento. São Paulo. Editora da Universidade de São
Paulo: FAPESP, 1999.
FAUSTO, NETO. A. Comunicação e mídia impressa. Estudo sobre a AIDS. São
Paulo: Hacker, 1999.
FISCHER, Rosa Maria Bueno. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de se
educar na (e pela) TV. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 151-
162, jan./jun. 2002.
FOUCAULT, Michel.  História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de
Janeiro: Edições Graal, 1988.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do Saber. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2012.

207
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Aula Inaugural no Collège de France,


pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2007.
GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide: para uma Teoria Marxista do
Jornalismo. Porto Alegre: Editora Tchê, 1987.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade
deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da.
Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes,
2000.
HERNANDES, Nilton. A revista Veja e o discurso do emprego na globalização:
uma análise semiótica. Salvador: EDUFBA; Ma­ceió: EDUFAL, 2004.
KATZ, Steven. Disciplining old age: the formation of gerontological knowledge.
Charlottesville: University Press of Virginia. 1996
KOLINSKI MACHADO, Felipe Viero. Entre o público e o privado: dos sentidos
historicamente movimentados e construídos por Veja sobre a velhice. 2013.
165 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação –
Mestrado e Doutorado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo,
2013.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo: Antropologia e Sociologia. São Paulo,
Companhia das Letras. 2003.
LENOIR, Rémi. L’invention du “troisième âge”. Actes de la recherche en sciences
sociales Paris, v. 26-27, p. 57-82, mar./abr. 1979.
LINS DE BARROS, Myriam Moraes. Velhice na contemporaneidade. In: PEIXOTO,
Clarice Ehlers. Família e Envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo
contemporâneo. Barueri: Manole, 2005.
MEDIA KIT VEJA. Download do arquivo disponível em: http://publiabril.abril.
com.br/marcas/veja Acesso em junho/2018
MIRA, Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura
no século XX. São Paulo: Olho d’Água/ Fapesp, 2001.
MORIN, Edgar. Cultura de Massa do século XX: o espírito do tempo - volume 1:
neurose. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1997.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos. 8.
ed. Campinas: Pontes, 2009.
PÊCHEUX, Michel. A análise do discurso: três épocas. In GADET, F.; HAK, T.
(Orgs.) Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de
Michel Pêcheux. Campinas. UNICAMP, 1997.

208
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

PRADO, José Luiz Aidar. Experiência e receituário performativo na mídia


impressa. InTexto, Porto Alegre, v. 1, n. 20, p. 34-47, 2009.
SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica.
Petrópolis: Vozes, 1997.
SILVA, Luna Rodrigues Freitas. Da velhice à terceira idade: o percurso histórico
das identidades atreladas ao processo de envelhecimento. História, Ciências,
Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 15, p. 155-168, jan/mar. 2008.

Corpus de referência (reportagens citadas ao longo do capítulo)

A AURORA dos cinquentões. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 41, ed. 2068, 2008.
A MEDICINA da beleza. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 14, ed. 658, 1981.
A MELHOR idade. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 39, ed. 1920, 2005.
ALISAR ou não alisar. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 40, ed. 1990, 2007.
ALLEGRETTI, Fernanda. Envelhecer no século XXI. Veja. São Paulo: Editora
Abril, ano 49 ed. 12, 2016.
CAPRIGLIONE, L.; LEITE, V. A batalha começa aos quarenta. Veja. São Paulo:
Editora Abril, ano 28, ed. 1399, 1995.
CERCO à velhice. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 06, ed. 252, 1973.
CONSTRUÇÃO da beleza. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 19, ed. 933,
1986.
DIREITO ao futuro. Veja. São Paulo: editora Abril, ano 26, ed. 1287, 1993.
JUVENTUDE agora em pílulas. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 02, ed. 21,
1969.
MELO, Carolina. A matemática da beleza. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano
48, ed. 17, 2015.
MELO, Carolina. O truque da segunda pele. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano
49, ed. 20, 2016.
NEIVA, Paula. As idades do corpo. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 39, ed.
1957, 2006.
PINHEIRO, Daniela. Inteiras na meia-idade. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano
36, ed. 1793, 2003.
VEIGA, Aida. Sexo depois dos 40 (agora fora das telas). Veja. São Paulo: Editora
Abril, ano 33, ed. 1650, 2000.
VENTUROLI, Thereza. Viver mais e melhor. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano
37, ed. 1871, 2004.

209
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

VIDALE, Giulia. O sonho da juventude. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 50,
ed. 46, 2017.
VIVENDO a terceira idade. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 06, ed. 428,
1976.
VIVER bem é a melhor vingança. Veja. São Paulo: Editora Abril, ano 25, ed.
1306, 1993.

210
A Hermenêutica de Profundidade
e os apontamentos teórico-metodológicos
de análise das narrativas jornalísticas

Alda Cristina Silva da Costa


Vânia Torres Costa
Nathan Nguangu Kabuenge
Sergio E. S. Ferreira Junior
Thais Luciana Corrêa Braga

Introdução

Narrativas que convocam à compreensão, que mobilizam falas, que dão


a entender aspectos da vida social, que são parte de disputas e tentativas
de estabilizar sentidos. Todas essas são formas de caracterizar as narrativas
jornalísticas, sobretudo, quando pensamos que elas se processam no bojo
de relações sociais complexas que não podem ser reduzidas a concepções
excessivamente construtivistas, segundo as quais a mídia conforma a realidade
social ou produz a realidade de maneira irrefletida. Antes, trata-se mesmo
de um processo de mediação que só é possível pelo trabalho narrativo que
o jornalismo opera sobre essa realidade. Em que medida é possível, então,
adotar metodologias que deem conta de elucidar tal processo?
Partimos aqui de uma apropriação do projeto teórico de J. B. Thompson
(1995, 1998), de uma Hermenêutica de Profundidade (HP) para o estudo de
formas simbólicas, que visa a compreender os processos sociais de configuração
e espraiamento de formas culturais na sociedade contemporânea. Para ele,
as formas simbólicas são “um amplo espectro de ações e falas, imagens e
textos, que são produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como
construtos significativos. Falas linguísticas e expressões, sejam elas faladas ou
escritas, são cruciais a esse respeito” (THOMPSON, 1995, p. 79, grifo nosso).
Trata-se, portanto, de construções culturalmente significantes, integrantes
de processos comunicativos, cuja análise é essencialmente um problema de
compreensão e interpretação.
Advinda da Sociologia, essa perspectiva dialoga de modo bastante profícuo
com os estudos da Comunicação, já que se baseia em preocupações com
as relações sociais em torno da mídia e da cultura, abarcando contexto e a
os sentidos socialmente gestados pelos e em razão dos produtos midiáticos
(GOMES, M. B., 2012; GOMES, D. C. A., 2015). A esse respeito, é relevante o

211
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

levantamento de produções acadêmicas com referências à HP feito por Prediger,


Scherer e Allebrandt (2018), a partir das plataformas Redalyc, SciELO, SPELL e
IBICT, entre 2000 e 2016. De acordo com sua pesquisa, foram localizados 207
trabalhos, entre artigos, teses e dissertações. Desse total, 100 trabalhos – quase
a metade – eram oriundos das Ciências Sociais Aplicadas, dos quais 63 estavam
situados na área da Comunicação, fazendo com que os autores inferissem que
“a investigação sobre as formas simbólicas, sobre as mensagens transmitidas,
influenciadas e influenciadores da cultura, fazem da comunicação uma área
de conhecimento bastante ligada a Hermenêutica Profunda” (PREDIGER;
SCHERER; ALLEBRANDT, 2018, p. 15).
Apesar de fazermos recurso a essa metodologia e fazermos eco aos
atravessamentos das narrativas pelos sociais, não se trata de uma ordem
de preocupações isolada. Pelo contrário, dialoga com bastantes visadas
contemporâneas em torno das narrativas jornalísticas. Por exemplo, a
proposição que buscamos fazer se depara com um desafio apontado por
Quadros, Motta e Nasi (2017) quanto às metodologias para o estudo das
narrativas jornalísticas. De acordo com as autoras, houve um aumento na
produção recente sobre narrativas a partir dos estudos de jornalismo, com
esse representando de fato um novo viés para as encarar. No entanto, ao
mesmo tempo em que há um cenário de diversidade quanto à adoção de
metodologias, também há a carência de sistematização na sua aplicação
nas análises – algo que poderia sinalizar para a fragilidade de um âmbito de
pesquisa nascente. Junto a isso, detectaram também uma tendência segundo
a qual “mesmo os trabalhos que se voltam às textualidades buscam alcançar
as vinculações sociais e os sentidos implícitos nos textos, denotando uma
preocupação em romper com o texto em si como única superfície de análise”
(QUADROS; MOTTA; NASI, 2017, p. 45).
Sob outro prisma, Soster (2017), em um estudo sobre narrativas de
violência em redes sociais, assinala que se trata de narrativas midiatizadas que
se dão diante de uma “irritação” – algo conflitivo que irrompe no sistema social
–, que é ressemantizada em um processo de circulação, de reconfiguração de
lugares, nos quais a “a forma por meio da qual a violência é incorporada pelo
sistema e, posteriormente, devolvida ao meio e demais sistemas, é pelo viés da
ressemantização do acontecimento em questão, a partir de lógicas discursivas
midiatizadas” (SOSTER, 2017, p. 55). Diante disso, tem um processo no qual,
“ao transformar pessoas comuns em atores, e atores em pessoas comuns, o
sistema realiza ofertas de vínculos cujo objetivo é estreitar os laços entre as
ofertas de sentido e quem as acessa” (SOSTER, 2017, p. 55).
Essas preocupações acima – tanto de romper com o texto quando de encarar
processos narrativos em torno de violências – estão presentes no que nos impele
a trabalhar com essa proposição teórico metodológica da HP. Assim, na seção
seguinte buscamos apresentar as bases e o percurso da HP em Thompson,

212
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

de modo a apresentar na seção posterior uma leitura de um acontecimento


violento a partir desse caminho metodológico. Para tanto, trazemos narrativas
sobre uma chacina, no contexto da violência urbana de Belém/PA – um evento
que marca um contexto social contemporâneo e que exige de nós um processo
hermenêutico de análise das narrativas e do social. Cumpre, por fim, ressaltar
que a origem desse elemento empírico está nos esforços de investigação de
duas propostas: o Grupo de Pesquisa Narrativas Contemporâneas na Amazônia
Paraense (Narramazônia)1 e do Projeto de Pesquisa Mídia e Violência: Percepções
e Representações na Amazônia2.

Abordagem metodológica

É com o filósofo Paul Ricoeur (1976, 1998, 2010) que se tem uma
contribuição bastante original aos estudos da hermenêutica, na medida em
que ele busca refletir sobre o ato interpretativo como fenômeno e utilizando o
subsídio da linguagem para entender a compreensão como um modo de ser.
O projeto hermenêutico de Ricoeur constitui-se em um guia metodológico, de
orientação de leitura e escrita de obras literárias e outros textos; configura-
se como um método cujo objetivo é compreender uma obra. Para o filósofo,
hermenêutica diz respeito à “teoria das operações da compreensão em sua
relação com a interpretação de textos”, a fim de desvelar o sentido do ser
pelos movimentos de leitura (RICOEUR, 1988, p. 299). Desse modo, o
autor acredita que a hermenêutica pode oferecer tanto uma reflexão teórico-
conceitual quanto uma ferramenta metodológica que se expressa nos
seguintes termos:

[...] é tarefa da hermenêutica reconstituir o conjunto de operações


pelas quais uma obra se destaca do fundo opaco do viver, do agir
e do sofrer, para ser dada por um autor a um leitor que a recebe e
assim muda seu agir. [...] preocupa-se em reconstruir todo o arco das
operações mediante as quais a experiência prática dá a si mesma
obras, autores e leitores. [...] A questão é portanto o processo concreto
pelo qual a configuração textual faz a mediação entre a prefiguração
do campo prático e sua refiguração pela recepção da obra. (RICOEUR,
2010, p. 94-95).

1 O Narramazônia é um grupo de pesquisa e estudos, implementado em 2015, a partir de uma parceria


entre a Universidade Federal do Pará e a Universidade da Amazônia, com objetivo de promover reflexões
epistemológicas sobre o ato de narrar, fundamentalmente na compreensão da Amazônia paraense e
das diversas linguagens narrativas dela e sobre ela. Hoje, o projeto é uma espécie de guarda-chuva que
abriga outros projetos de pesquisa e extensão.
2 Projeto de pesquisa realizado desde 2016, na Universidade Federal do Pará, em parceria com
o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, Edital Universal. Integra
um conjunto de pesquisas que tem como finalidade compreender percepções, representações, usos e
apropriações feitos pelos receptores do conteúdo das mídias, considerando que não estão no processo
de produção e difusão das narrativas de violência, mas representam, no caso do receptor, a dimensão
de repercussão social e simbólica dessas narrativas.

213
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Tal ordem de preocupações impacta a proposição da hermenêutica de


profundidade (HP), realizada por J. B. Thompson (1995) a partir dessa ênfase
ricoeuriana e da sua “semântica de profundidade” (RICOEUR, 1976). Como
referencial metodológico, a HP reflete sobre formas de análise complementares
entre si a partir de um processo interpretativo complexo de realidade social –
não no sentido de revelar alguma verdade, mas de compreender os processos
de constituição sociossimbólica da realidade a partir da interação de elementos
diversos, como contexto sócio-históricos, saberes práticos, interpretações já
vigentes no social, entre outros.
A HP desenvolve-se dentro do que o autor chama de estudo das
formas simbólicas, entendidas como “um amplo espectro de ações e falas,
imagens e textos, que são produzidos e reconhecidos por eles e outros como
construtos significativos. Falas linguísticas e expressões, sejam elas faladas ou
escritas, são cruciais a esse respeito” (THOMPSON, 1995, p. 79). Trata-se,
portanto, de construções culturalmente significantes, integrantes de processos
comunicativos, cuja análise é essencialmente um problema de compreensão e
interpretação (THOMPSON, 1995, 1998).
O trabalho da HP inicia-se pela interpretação da doxa, ou seja, da vida
cotidiana e do entendimento dos sujeitos nessa realidade, suas opiniões,
crenças e compreensões. A partir disso, desenvolvem-se três eixos de análise:
1) análise sócio-histórica, em que são identificados os elementos do mundo
sócio-histórico que condicionam as narrativas; 2) análise formal ou discursiva,
em que é possível recorrer à narrativa a fim de compreender a sua textualidade;
e 3) interpretação/ reinterpretação, já que as formas simbólicas são formas já
produzidas no bojo de interpretações que inserem a sua configuração de mundo
possível de volta no mundo sócio-histórico.
É interessante perceber a existência de uma produção recente faz recurso
à HP nas Ciências Humanas e Sociais e na Comunicação. No primeiro âmbito,
há uma prevalência de estudos que focalizam em um processo analítico das
configurações complexas em torno da realidade, dos sentidos viáveis – e não
ocultos – das formas simbólicas (MOTTA, 2014), aspectos de contextualização
social em face da proximidade de objetos e a situações sociais (MOURA;
ALMEIDA, 2017), a inserção da HP em um quadro de possibilidades
interdisciplinares de abordagem (NASCIMENTO, 2017; PREDIGER; SCHERER;
ALLEBRANDT, 2018).
Já na Comunicação, a abrangência das preocupações sobre a HP se dá
quanto ao seu uso na compreensão das narrativas como processo de inscrição
de acontecimentos na vida social (CARVALHO, 2010), ao desenvolvimento de
uma reflexão que vá do texto para processos sociais em seu entorno (GOMES,
M. B., 2012), à ideia de que a interpretação é um processo aberto que confere
papel relevante aos sujeitos dos processos comunicacionais (GOMES, D. C. A,
2015), assim como à consideração do contexto social também como contexto

214
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

comunicacional (NAZÁRIO; REINO; MANFREDINI, 2016). Trata-se, portanto,


de contribuições à reflexão sobre as formas de adoção da HP como metodologia,
naquilo que ela tem de expresso em sua proposta e como potencial heurístico
dos processos individuais de pesquisa.
Assim, diante dos processos da análise requeridos pelos objetos ou
realidades em análise, Thompson (1995, p. 359) ressalta que, na medida
em que os analistas sociais procuram interpretar uma forma simbólica,
eles “estão procurando interpretar um objeto que pode ser, ele mesmo,
uma interpretação, e que pode já ter sido interpretado pelos sujeitos que
constroem o campo-objeto, do qual a forma simbólica é parte”. Ou seja, estão
oferecendo uma interpretação de uma interpretação, estão reinterpretando
um campo pré-interpretado”.
De acordo com Thompson, o campo-objeto pode ser entendido também
como um campo-sujeito, tendo relevância para o analista e para os sujeitos
nele inseridos. Como espaço da vida social, esse campo, sujeito e objeto, é
permeado pelas formas simbólicas, que convidam a uma (re)interpretação de
um domínio já interpretado. Esse campo-sujeito-objeto se perfaz socialmente
e se refere àquilo que se processa culturalmente nas sociedades e pode ser
reinscrito compreensivamente por meio de um processo interpretativo.
Desse modo, na adoção do método e na realização desse processo
interpretativo complexo, é preciso remontar às condições sócio-históricas da
produção e difusão dessas representações e dessas narrativas, desses objetos
significantes que fazem parte da vida social. Trata-se de conceber o contexto
como constitutivo das maneiras como elas serão socialmente construídas
e percebidas. Essa visada nos é relevante, pois a produção e reprodução
das narrativas jornalísticas de violência estão relacionadas a um contexto
específico que engloba rotinas midiáticas, modus narrandi convencionados,
mas também envolvem reinscrição do mundo sócio-histórico.
Dentre os elementos arrolados para cada uma das fases analíticas,
na análise sócio-histórica, Thompson dá ênfase à estrutura social, que diz
respeito a relações estáveis de assimetria e diferença, relacionadas ao acesso
de recurso e ao exercício do poder, além de dar ênfase aos meios técnicos
de construção de mensagens, compreendidos como substratos materiais em
que as formas simbólicas são fixadas, reproduzidas e postas em circulação.
Na fase da análise discursiva ou formal, há a utilização de alguns métodos
que servem para analisar a estrutura da forma simbólica, que é considerada
uma construção simbólica significativa, que representa algo (ou o diz) para
alguém (THOMPSON, 1995, p. 369). Nessa fase analítica, Thompson dá
ênfase à análise narrativa, que abarca os textos a partir da sua configuração
narrativa, como história que articula intrigas, personagens, temporalidades
etc. Já na terceira fase, a HP se constitui como (re)interpretação. De acordo
com o autor, esse procedimento representa um esforço criativo de síntese, por

215
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

meio do qual se constroem e reconstroem significados, além da conjuntura


em que se insere a forma simbólica, pois “as formas simbólicas representam
algo, elas dizem alguma coisa sobre algo, e é esse caráter transcendente que
deve ser compreendido pelo processo de interpretação” (THOMPSON, 1995,
p. 376).

Narrativas jornalísticas de violência sob as lentes da HP

Diante desse entendimento, voltamos o nosso olhar para a narrativização


de uma chacina que ocorreu nos dias 20 e 21 de janeiro de 2017, a primeira
daquele ano em Belém/PA, a qual consistiu em uma série de mortes ocorridas
após a de Rafael da Silva, 29 anos, integrante da Ronda Tática Metropolitana
(Rotam) da Polícia Militar do Estado do Pará (PM/PA), durante uma troca de
tiros no bairro da Cabanagem, quando o policial foi atingido na cabeça (OAB-
PA, 2017). De acordo com o Relatório da Situação dos Casos de Chacinas
e Extermínio de Jovens Negros no Estado do Pará, da Comissão de Direitos
Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará, houve 29 mortos
e 20 feridos durante os ataques relacionados à chacina (OAB-PA, 2017).
Notícias dos dias posteriores à chacina dão conta de números difusos de
mortos, já que se referem aos casos ocorridos após o assassinato do soldado,
que poderiam mesmo virtualmente ser parte da “resposta” à sua morte. Houve
vítimas em diversos bairros da Região Metropolitana de Belém, abarcando,
além da própria capital, os municípios de Ananindeua e Marituba.
Houve ampla reverberação a respeito desse acontecimento, tanto nas
mídias noticiosas locais (como nos jornais Diário do Pará e O Liberal ou mesmo
nos portais Diário Online e G1 Pará), quanto em manifestações para além
deles (HUMAN RIGHTS WATCH, 2017; CAMPELO, 2017; MENEZES, 2017).
Todas essas reverberações abarcam o episódio desencadeador, caracterizando a
chacina pelo número das mortes, pela ligação com milícias e pela brutalidade
policial, além de abordarem os depoimentos de testemunhas e das instituições
de segurança pública.
O nosso olhar se volta especificamente para um desses meios locais, o jornal
Diário do Pará3. Observamos ao longo do período, após a série de assassinatos,
uma cobertura que abarca aspectos bastante concretos de uma descrição dos
eventos, com destaque para a quantidade de mortos, os nomes das vítimas,
as ações de investigação, a problematização da política de segurança pública,
em um processo de narrativização da chacina que configura uma totalidade
constituída de episódios, marcada por relatos jornalísticos, pela continuidade na
cobertura do acontecimento.
3 O jornal Diário do Pará, do grupo Rede Brasil Amazônia de Comunicação, é considerado, segundo
Castro (2012, p. 180), um dos cinco grupos político-comunicacionais mais importantes da Amazônia.
Ele foi fundado em 22 de agosto de 1982, com a finalidade de subsidiar a candidatura de Jader Barba-
lho (PMDB), dono do referido grupo, ao governo do Estado do Pará.

216
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Como episódio inaugural que demarca o surgimento da chacina, temos


a morte do PM, para a qual as mortes ocorridas na cidade são a “resposta”.
Esse início da narrativa lança luz sobre a morte, informando os detalhes sobre
o assassinato, suas circunstâncias. De acordo com o jornal, a morte ocorreu
durante o que deveria ser uma ação rotineira dos policiais em um bairro periférico,
para atender a uma ocorrência de assalto. Os PMs realizaram uma perseguição
a um veículo e se engajaram em uma troca de tiros, momento em que Rafael
Costa foi atingido. A matéria, desse modo, dá ênfase ao evento desencadeador
da chacina, que aparece primeiramente pela referência a “14 assassinatos” em
um intertítulo, conforme segue:

PM morre em dia de assassinatos em série

Mais um policial militar foi morto em confronto com criminosos na


Grande Belém. A vítima foi o soldado PM Rafael da Silva Costa, de
29 anos, lotado no Batalhão de Policiamento Tático Operacional
(BPOT) da Polícia Militar. Ele estava em serviço por volta das 6h40,
de ontem, com outras guarnições, em busca de assaltantes armados
em um veículo no Bairro da Cabanagem em Belém. Houve troca de
tiros e o militar foi atingido na cabeça. Ele chegou a ser socorrido para
o Hospital Metropolitano de Urgência e emergência, em Ananindeua,
mas não resistiu aos ferimentos. [...]

14 ASSASSINATOS

Após a morte do soltado da PM Rafael da Silva Costa, a Região


Metropolitana de Belém viveu um dia de extrema violência, com outros
14 assassinatos. O caso é muito similar à chacina ocorrida na cidade
em 2014, após o assassinato do cabo Pet (leia no caderno Polícia)
(BECMAN, 2017, p. A3).

Nesse episódio, a vinculação das mortes à chacina é realizada pela


referência a outro acontecimento similar, também narrado no espaço midiático, a
chacina de 2014 (FERREIRA JUNIOR; LOUREIRO; COSTA, 2016), demarcando
também uma espécie de trabalho narrativo que informa o contexto da ocorrência
e da sua compreensão, pois, assim como essa chacina, aquela ocorreu após
a morte de um policial militar, contou com envolvimento de assassinos não
identificados, mas com suspeitas (e posteriormente evidências) de ligações
com milícias, vitimou jovens negros em áreas periféricas da cidade. Esses são
elementos do mundo sócio-histórico no qual se forma a narrativização desse
acontecimento violento, que informam a configuração narrativa das ações que
se seguirão, ao mesmo tempo em que abrem possibilidades de enredamento de
outras narrativas.
A narrativização nessa mesma edição prossegue em outro espaço
do jornal, o Caderno Polícia, suplemento que cotidianamente apresenta
matérias sobre violência urbana e mortes violentas no estado do Pará. No

217
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

interior do caderno, encontramos ainda a matéria “Violência sem limites:


16 assassinatos” (D’ALMEIDA, 2017). Com um pouco mais de detalhes,
ela foca nos homicídios que sucederam a morte do policial, dando uma
visão geral sobre o quadro das mortes na chacina. O que foi apenas citado
no episódio inaugural passa a ser dimensionado aqui, fornecendo-se mais
pistas para a compreensão dos elementos constitutivos dessa nova chacina.
Há um desdobramento no gesto narrativo que enfatiza o escalonamento de
uma violência letal – por meio, por exemplo, da relação entre a quantidade
de mortos e o período das ocorrências –, que traz novos elementos à intriga
narrativa do acontecimento, com novas ações.
Assim, voltamos à HP para realizar a incursão analítica ao percurso de
narrativização apontado acima. Cumpre ressaltar que é possível iniciar tal
processo por meio dos três passos da HP definidos por Thompson: 1) análise
sócio-histórica; 2) análise formal ou discursiva; 3) interpretação/reinterpretação,
conforme explicados nas seções anteriores. Esse movimento é possível pelo fato
de as narrativas do jornalismo estarem em um lugar que é de atravessamentos e
tensões em relação ao social, em relação ao qual a sua constituição como forma
simbólica é inegável. Buscamos apontar tais aspectos, assim, dentro do que é
possível no espaço deste artigo.
Na medida em que falamos de narrativas jornalísticas sobre violência, a
primeira indagação é mesmo sobre os elementos do mundo sócio-histórico que
a condicionam e as perfazem. De um modo muito concreto, podemos falar dos
acontecimentos em contexto de violência urbana na cidade de Belém, de um
recente contexto de “crise de segurança pública”, de uma mítica dos carros de
milícias que percorrem a cidade e assassinam jovens nas periferias da cidade,
em uma teia de eventos e de saberes da violência, que fazem seu caminho
às narrativas jornalísticas e às falas cotidianas e institucionais (COSTA et al.,
2017, 2018; FERREIRA JUNIOR; LOUREIRO; COSTA, 2016).
Não obstante, essa violência policial, especialmente em Belém, é
recorrente em um cotidiano no qual a chacina é a identificação que se dá a
esses massacres por policiais e a um perigo que ronda o espaço periférico. De
muitos modos, é possível pensar que a ocorrência da violência e o fato de ela
constituir cenas a partir de uma lógica de narrativa policial é tributária também
de uma continuidade autoritária que faz a polícia repressiva ser o único braço
do Estado a chegar nesses espaços das cidades brasileiras (PERALVA, 2000;
SMITH, 2016).
Do ponto de vista de sua caracterização formal ou discursiva, já apontada
também na seção anterior, é possível pensar que o trabalho narrativo confere à
chacina uma conformação na vida social, fazendo com que se possa falar sobre
as chacinas e sobre os eventos que as cercam. Essa inscrição narrativa envolve
não só um agenciamento dos acontecimentos, mas também produz um percurso
a partir do qual a violência urbana e letal passa a ser perspectivada. Não é um

218
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

processo de influência sem mediação, mas justamente de relações complexas


com os saberes sobre a violência que povoam o mundo sócio-histórico e aqueles
que as novas vinculações das narrativas geram.
A narrativização da chacina da RMB alinhava, entre outros elementos,
essa relação com os acontecimentos anteriores, a respeito da própria menção
da chacina de 2014, mas se insere em um universo no qual outras chacinas
já ocorreram e outros ocorrerão, apontando para uma narrativização que
ultrapassa a leitura de um único acontecimento, ancorando em uma classe
de eventos que mobiliza a narrativa jornalística por expedientes similares.
Daí a emergência desses elementos que encontramos na configuração sobre
as chacinas: vêm à cena personagens, como o policial morto – cuja morte
inaugura a série de assassinatos –, em oposição aos mortos anônimos, aos
quais se refere a partir da sua quantificação, que ocupam o centro desse
cenário conflitivo da narrativa, cuja intriga se desenvolve apontando as ações e
acontecimentos que emergem a cada novo episódio, produzindo uma descrição
que configura simbolicamente esse acontecimento na vida social e faz com que
ele exista em uma relação de compreensão do social pelo trabalho narrativo.
Essa relação, por sua vez, nos conduz à possibilidade de interpretação/
reinterpretação, conforme apontada por Thompson. O substrato para
a emergência das narrativas está na sua condição de inteligibilidade e
circulação no ambiente social do qual emerge, o que permite esse movimento
de reinterpretação. Do ponto de vista do que encontramos em relação aos
dois primeiros movimentos, tanto dos elementos sócio-históricos quanto
dos discursivos, é possível apontar para um contexto problemático no qual
a violência é socialmente reproduzida e reafirmada com base em distinções
que são também historicamente constituídas e que permitem a emergência
do acontecimento que ocorre a alguém - neste caso, as mortes –, assim como
a sua reinscrição na vida social a partir dos sentidos que a chacina e seus
mortos adquirem.
Daí, portanto, ser possível afirmar que o fato de haver milícias e
esquadrões da morte agindo nas periferias da cidade é algo que pode informar
estas ocorrências situadas nesse contexto histórico do presente, ao mesmo
tempo em que é parte de uma realidade da violência presente no espaço
brasileiro, que marca os corpos negros e periféricos como alvo da violência
letal, muitas das vezes chancelada pelo Estado – atentando-nos, portanto,
para a dimensão necropolítica da violência contemporânea no espaço brasileiro
(MBEMBE, 2018; SMITH, 2016). Esse processo caracteriza, assim, uma
situação problemática em que, mais do que naturalizada, a chacina passa por
um processo de estabilização de sentidos que se opera em toda a cadeia dos
elementos aqui apresentados, da sua emergência à sua recorrência, daquilo
que ela dá a ver e daquilo que faz compreender.

219
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Discussão dos resultados

Diante disso, cumpre ressaltar que tal abordagem da narrativa no


bojo da HP nos permite abarcar os aspectos de uma problemática social
em caleidoscópio, sem incorrer em essencializações em relação à própria
linguagem ou ao papel do jornalismo ou sobre uma dissociação completa
entre contexto e forma simbólica. Na verdade, faz com que nos atentemos
ao caráter principalmente de mediação das narrativas na experiência social,
lançando mão de uma visada hermeneuticamente informada a fim de garantir
uma abrangente leitura sobre esse atravessamento pelo social, que forja e que
anima os acontecimentos na vida da sociedade.
Se essa dimensão problemática destacada acima não é autoevidente
na narrativa, ela emerge justamente no processo de leitura que realizamos,
que alinhava mesmo a ideia ricoeuriana da dialética da explicação e da
compreensão (RICOEUR, 1976). Assim, diante da chacina, é o percurso por
esse arco hermenêutico abarcado pelo enfoque da HP que nos habilita a poder
reconstruir os fragmentos da cobertura de “um crime”, pondo-os como partes
de uma narrativa e de um percurso de narrativização de um fenômeno social,
que convoca à fala e à solução nos limites e para além do espaço midiático.
Se é possível dizer que há elementos da realidade social sobre os quais as
narrativas jornalísticas de violência silenciam ou buscam apaziguar, o processo
que alinhava o mundo sócio-histórico, sua textualidade e a sua reinscrição no
social é tornado possível pelo movimento hermenêutico aqui proposto.
Portanto, fazemos eco de modo concreto a considerações presentes já
em estudos anteriores que enxergam na HP um aporto teórico-metodológico
pertinente às Ciências da Comunicação. Os resultados dessa incursão dialogam
com a perspectiva de Nazário, Reino e Manfredini (2016), para quem os
sentidos que circulam por meio das notícias dão conta das dimensões conflitivas
da produção de imagens e textos sobre a realidade, sendo capazes de revelar
incongruências entre fins institucionais e a realidade do contexto de que essas
notícias tratam. De modo similar, Gomes (2012) ressalta que o caminho
analítico da HP se baseia nessa potencialidade de correlação de lógicas de
pesquisa aparentemente heterogêneas, mas que permitem desenvolver uma
reflexão que parte das narrativas da mídia e alcança processos sociais mais
amplos em torno delas.
Especificamente em torno da relação entre narrativas e acontecimento,
Carvalho (2010, p. 355) aponta a HP como relevante na compreensão de que
“os sentidos […] não se apartam do ambiente em que são construídos. Antes,
se configuram precisamente pelas diversas modalidades de interações sociais
verificáveis”. Essa postura resulta-nos também relevante nos cenários de
apropriações da HP, na medida em que – mais do que estruturar um caminho
demasiado rígido – enxerga nas etapas dessa proposta uma possibilidade de

220
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

maior abertura e de assunção de pressupostos hermenêuticos em relação à


inserção das narrativas jornalísticas em negociações e disputas de sentidos.
Assim, fazer esse percurso em relação a narrativas sobre a violência é uma
das formas de destacar o potencial desse caminho metodológico na compreensão
dos saberes em torno dessa violência e como eles se situam em cenários sociais
quer de tensão quer de silêncios, cuja configuração analítica se torna viável ao se
realizar uma incursão às narrativas jornalísticas. A HP, nesse sentido, apresenta-
se como ferramenta que nos impele a pensar a violência além de seus aspectos
“objetivos”, mas faz com que seja reinserida em processos comunicacionais nos
quais importa pensar as narrativas não como atestado da realidade social, mas
como reveladora dos trânsitos que as constituem.

Considerações finais

Ao final deste trabalho, cumpre assinalar que o referencial da HP como


forma de analisar as narrativas do jornalismo fornece um caminho metodológico
que é ao mesmo tempo prescritivo e aberto, na medida em que pressupõe
aspectos de uma reflexão sociológica – sobretudo, quando da análise sócio-
histórica –, mas também nos permite estar atento a movimentos de sentidos
outros, quando nos interpela a usar métodos explanatórios da análise formal/
discursiva, como a própria análise da narrativa ou análise de conteúdo, e
requer de nós que fechemos esse ciclo ou mesmo arco hermenêutico com uma
visada original, criativa, pertinente, empírica e teoricamente informada. Como
hermenêutica, ela requer abordagem qualitativa por excelência e não se furta a
assumir a subjetividade desse processo, que é incontornável.
Lançamos o nosso olhar em torno da violência, mas o escopo desse
proposta é capaz de abarcar basicamente qualquer domínio da vida social no
qual as formas simbólicas sejam produzidas, circulem e integrem processos
de interpretação. Desse modo, ao trazer essa contribuição para os estudos
das narrativas jornalísticas, buscamos assinalar possibilidades heurísticas que
ultrapassem dinâmicas muito restritivas, como a de pensar em diegético versus
não diegético, realismo versus estetização etc., já que cremos que o narrar nos
conduz a novos lugares de fazer problema, muito mais claro se o pensamos em
interface com a vida social.
Portanto, por meio dessa abordagem é possível delinear em processo como
o jornalismo apresenta relações entre saberes, dizeres, sujeitos e produções
discursivas, projetando cenas narrativas que os alinhavam e constituem as
narrativas jornalísticas tal como as encontramos no espaço midiático. Tal elemento
é relevante para nossa reflexão, já que as fissuras, as tensões e os conflitos que
são possíveis divisar a partir dessa incursão hermenêutica não são projetadas pelo
jornalismo em isolamento com a sociedade, advindo desse social para tornar-se
um saber animado e inscrito nas tessituras que o jornalismo configura.

221
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Referências

CARVALHO, C. A. Premissas para o tratamento teórico-metodológico do


acontecimento apanhado pela trama noticiosa. In: BRAGA, J. L.; LOPES, M.
I. V.; MARTINO, L. C. (Org.). Pesquisa empírica em comunicação. São Paulo:
Paulus, 2010. p. 341-359.
CASTRO, F. F. Sistemas de comunicação na Amazônia. Revista Fronteira:
estudos midiáticos. v. 14, n. 3, p. 179-191, 2012.
COSTA, A. C. et al. Narrativas jornalísticas e representações sociais da violência
na Amazônia urbana. In: Martins, F. (Org.). Trajetos da narratividade: ensaios
sobre narrativa, média e cognição. Porto: FLUP, 2017. p. 95-106.
______. Medo e violência no espaço midiático: reflexões sobre as narrativas
jornalísticas paraenses. In: COSTA, A. C.; AMORIM, C. R. T. C.; CASTRO, M.
R. N. (Org.). Comunicação e pesquisa na Amazônia: perspectivas e práticas.
Belém: PPGCom/UFPA, 2018. p. 108-131.
FERREIRA JUNIOR, S. E. S.; LOUREIRO, J.; COSTA, A. C. A violência e as
suas representações no Twitter: o caso da #ChacinaEmBelem. Mediação, Belo
Horizonte, v. 18, n. 22, p. 153-172, jan./jun. 2016.
GOMES, D. C. A. Hermenêutica e comunicação: contribuições para compreender
a teoria da interpretação e sua aplicação na sociedade midiática. Temática,
João Pessoa, v. 11, n. 4, p. 38-52, abr. 2015.
GOMES, M. B. Hermenêutica e Comunicação: apontamentos para uma teoria
narrativa da mídia. Revista Comunicação Midiática, v. 7, n. 2, p. 26-46, maio/
ago. 2012.
MBEMBE, A. Necropolítica. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
MOTTA, D. A. A Hermenêutica de Profundidade como instrumental de pesquisa
qualitativa em Ciências Sociais: uma introdução. In: CONGRESSO PORTUGUÊS
DE SOCIOLOGIA, 8., 2014, Évora. Anais… Lisboa: APS, 2014. p. 1-12.
MOURA, C. S.; ALMEIDA, A. C. Para além da doxa: caminhos metodológicos
da Hermenêutica de Profundidade. Cadernos UniFOA, Volta Redonda, n. 34, p.
75-86, ago. 2017.
NASCIMENTO, S. L. A Hermenêutica da profundidade (HP): interpretação e
reinterpretação e seus pressupostos interdisciplinares. Capoeira, v. 3, n. 2, p.
3-15, 2017.
NAZÁRIO, H. R.; REINO, L. S. S.; MANFREDINI, R. A Hermenêutica de
Profundidade e suas aplicações. Linguagens, Blumenau, v. 10, n. 2, p. 288-
305, mai./ago. 2016.

222
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

OAB-PA. Relatório da situação dos casos de chacinas e extermínio de jovens


negros no estado do Pará. Belém: Comissão de Direitos Humanos/OAB-PA,
2017.
PERALVA, A. Violência e democracia: o paradoxo brasileiro. São Paulo: Paz e
Terra, 2000.
PREDIGER, R. P.; SCHERER, L.; ALLEBRANDT, S. L. Hermenêutica de
profundidade e suas possibilidades metodológicas: um levantamento bibliométrico
da produção científica com essa metodologia, Revista Contribuciones a las
Ciencias Sociales, n. 39, p. 1-16, enero-marzo 2018.
QUADROS, M. R.; MOTTA, J.; NASI, L. Jornalismo e narrativa: aspectos do
estado da arte das pesquisas no Brasil. In: SOSTER, D. A.; PICCININ, F. Q.
(Org.). Narrativas midiáticas contemporâneas: perspectivas epistemológicas.
Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017. p. 36-46.
RICOEUR, P. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação.
Lisboa: Edições 70, 1976.
______. Interpretação e ideologias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.
______. Tempo e narrativa: 1. a intriga e a narrativa histórica. São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2010.
SMITH, C. A. Afro-paradise: blackness, violence and performance in Brazil.
Urbana: University of Illinois Press, 2016.
SOSTER, D. A. O quarto narrador, a midiatização e as narrativas da violência.
Intercom, São Paulo, v.40, n.1, p. 41-58, jan/abr. 2017.
THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos
meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.
______. A mídia e modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes,
1998.

Matérias

BECMAN, E. PM morre em dia de assassinatos em série. Diário do Pará, Belém,


21 jan. 2017, ano XXXIV, n. 11.865. Cidade, p. A3.
CAMPELO, Lilian. Belém registra chacina mais violenta dos últimos 22 anos.
Brasil de Fato, [on-line], 26 jan. 2017. Disponível em: <https://goo.gl/cU6ppZ>.
Acesso em: 23 jan. 2018.
D’ALMEIDA, D. Violência sem limites: 16 assassinatos. Diário do Pará, Belém,
21 jan. 2017, ano XXXIV, n. 11.865. Polícia, p. 4.

223
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

HUMAN RIGHTS WATCH. Brazil: Wave of Killings in North. Human Rights


Watch, [on-line], 27 jan. 2017. Disponível em: <https://goo.gl/xDemWw>.
Acesso em: 23 jan. 2018.
MENEZES, K. Dois anos após Chacina de Belém, periferia da capital paraense
volta a sofrer com grupos de extermínio. Revista Fórum, 25 jan. 2017. Disponível
em: <https://goo.gl/3yXhtm>. Acesso em: 23 jan. 2018.

224
Jornalista e fonte na narrativa jornalística:
hierarquia, autonomia e problematizações
em conceitos teórico-metodológicos

Karolina de Almeida Calado


Heitor Costa Lima da Rocha

O narrador e a personagem na narrativa jornalística

Este capítulo busca refletir sobre qual o melhor aporte teórico-metodológico


para aprofundar a compreensão da relação de autonomia entre o jornalista e
a fonte na narrativa jornalística, tendo em vista as intencionalidades de cada
pessoa envolvida na trama, as rotinas produtivas e a linha editorial do veículo.
Partimos, então, do pressuposto desenvolvido por Motta (2013) que considera o
jornalismo um campo em disputa, no qual o veículo, o jornalista e a personagem
expõem conflitos e interesses capazes de moldar a realidade conforme os
sentidos almejados. A partir desse argumento, objetivamos associar o estudo
da articulação das falas no modelo de análise proposto por Motta (2013) à
teorização de Genette (1989) e Stuart Hall et al (2016) sobre as variadas vozes
presentes na narrativa. Nossa discussão está ancorada ainda em autores como
Maia e Rodrigues (2009), Rocha (2007), Breed (2016) e Cornu (1999).
Os sete movimentos1 ou categorias analíticas indicadas por Motta (2013),
embora deem margem para a observação das várias vozes existentes na
narrativa, possuem como maior foco a figura do narrador-jornalista. Ele explica
que as fontes transformadas em personagens trazem as máscaras construídas
pelo narrador, pois o mesmo é responsável por mediar os fatos e caracterizar
as pessoas conforme a imagem idealizada. Seu conjunto teórico apresenta o
caminho a ser seguido pelo analista que busca elucidar as estratégias utilizadas
pelo narrador em sua fala, a fim de camuflar a narração, uma vez que grupos
de mídia não admitem o jogo intersubjetivo e narrativo na produção noticiosa; e
ainda insistem em validar o mito da objetividade e imparcialidade que implicam
na ocultação da autoria do jornalista como narrador.
Ideais de objetividade, imparcialidade e neutralidade já causaram
calorosos embates científicos sobre a origem e apropriação desses pelo
jornalismo. Pesquisadores como Genro Filho (1996), Hohlfeldt (2001), Goulart

1 1º - Compreender a intriga como síntese do heterogêneo; 2º - Compreender a lógica do paradigma


narrativo; 3º - Deixar surgirem novos episódios; 4º - Permitir ao conflito dramático se revelar; 5º - A
personagem, metamorfose de pessoa a persona; 6º - As estratégias argumentativas; 7º - Permitir o
florescimento das metanarrativas (MOTTA, 2013).

225
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

(2002), Sponholz (2008) e Rocha (2007) apresentaram importantes estudos


denunciando as distorções e mitificação de tais conceitos no campo jornalístico.
Para Rocha (2007), a busca pela imparcialidade gera uma supressão da figura
do narrador, transformando o mesmo em mero reprodutor da realidade, “o uso de
técnicas precisas de descrição do real, ao retirar do jornalista parte do seu poder
de manobra como codificador, retira-lhe também parte de sua responsabilidade.
Não é o repórter quem fala e escreve, e sim a realidade por ele espelhada”
(ROCHA, 2007, p. 172).
Maia e Rodrigues (2009) complexificam o debate ao argumentarem que a
noção do “jornalismo espelho da realidade” não leva em consideração a trama
social permeada de conflitos, nem o processo hierárquico com que determinadas
vozes sobressaem em detrimentos de outras. “O discurso com a típica ‘aura de
objetividade’ acaba por pedir para que as pessoas não participem dos conflitos
sociais. Se uma sociedade tem uma pluralidade de vozes, uma delas exercerá
hegemonia e procurará mantê-la, ou seja, não permitirá que todas as vozes
falem com o mesmo caráter de verdade” (MAIA; RODRIGUES, 2009, p. 3).
Acreditar que é possível transcrever a realidade tal como ela aparece, é não
enxergar as desigualdades existentes e as posições sociais assimétricas nas quais
os indivíduos estão situados. Essa concepção serve, certamente, para reforçar
o falso ideal de igualdade que busca manter o discurso da classe dominante
nos grandes meios de comunicação. “Um discurso comunicacional que não dê
conta dessa desigualdade de acesso ao controle dos órgãos de comunicação não
pode estabelecer um elo com a sociedade, já que privilegiará determinada classe
dominante ao difundir uma comunicação que se isenta de julgamentos de valores,
que se limita a apresentar os fatos” (MAIA; RODRIGUES, 2009, p. 3).
De acordo com os autores, entretanto, é possível construir um ideal de
verdade, mesmo que ciente da falibilidade, a partir da captação na construção
da notícia, a qual é caracterizada pelo método investigativo, apuração, diálogo e
tratamento humano entre o profissional e as fontes envolvidas.
Esse prazer pela construção de um bom texto jornalístico, humano, próximo
do real, que envolve apuração e tratamento na narrativa jornalística, acompanha
boa parte dos jornalistas, os quais agem a partir do valor-notícia denominado
por Motta (2013) de valor-narrativa, que descreve uma intenção estética por
trás da ação do jornalista.
Além do valor-narrativa que revela o desejo do jornalista de tornar seu
texto chamativo, emocionante e coerente, existe o dilema de perceber sob qual
enquadramento o profissional direcionará sua reportagem. Há uma tensão
gerada entre personagens e narrador quando cada um defende interesses
díspares. Se por um lado o repórter tem uma autonomia maior em boa parte
do tempo, por outro, a fonte que se torna personagem, pode ser detentora
de uma informação à qual o veículo é dependente, transformando-se em
“definidora primária”. Para Hall et al. (2016), após uma fonte oficial definir

226
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

o “enquadramento do problema”, dificilmente uma fonte alternativa, ou seja,


um contradefinidor o desconstruirá.
Neste sentido, Cornu (1999) chega a considerar a existência de uma
“assimetria fundamental”, em face da necessidade dos jornalistas de elaborarem
estratégias para enfrentar a sua complexa relação com as fontes, que se
desenvolve em níveis diferentes segundo o estatuto dos próprios jornalistas com
o objetivo de superar a condição de inferioridade.

A obtenção de informações é sempre o resultado de uma negociação


implícita, de uma relação de forças entre um dominante (o informador)
e o dominado (o que procura). Por um lado, a oferta é monopolística
(o informador pode escolher o momento e o conteúdo da oferta); por
outro, a procura é concorrencial (em muitos casos são vários jornalistas
que procuram a mesma informação). Esta assimetria só raramente
respeita o princípio da alternância. As fontes permanecem de uma forma
geral senhoras da situação, sobretudo quando representam o poder (os
representantes dos corpos constituídos do Estado) e o seu aparelho (a
administração), ou os meios influentes no seio da sociedade. (CORNU,
1999, p. 271).

Ao encontro dessa discussão, uma outra perspectiva teórica pode


auxiliar nossa compreensão acerca das vozes presentes na narrativa: trata-
se da ideia de níveis de poder, extradiegético, intradiegético e metadiegético
(GENETTE, 1989). Esses se relacionam ao processo de subordinação entre os
envolvidos na narrativa, especialmente narrador e personagens. A partir dessa
teorização, Motta (2013) faz uma alusão à hierarquia entre veículo, jornalista
e personagens. Interessa-nos, então, desenvolver o diálogo sobre o esquema
teórico-metodológico de ambos os autores, estabelecendo uma ponte sobre os
limites conceituais propostos por Hall et al. (2016).

As vozes na narrativa a partir de distintos embasamentos teórico-


metodológicos

A abordagem de Motta (2013) sobre a presença de fontes na narrativa


jornalística nos ajuda a compreender as estratégias argumentativas dos
narradores, bem como o jogo de sentido desenvolvido pelas próprias personagens
em questão. Fundamentado na teoria pragmática, cuja proposta leva em
consideração a intencionalidade dos indivíduos, Motta (2013) propõe que não
há ingenuidade na narrativa, e que a fala de cada um, seja do jornalista, seja da
fonte, atua para construir efeitos de sentidos pretendidos, conforme seus valores
e interesses, embora ele reconheça a hierarquia de forças nesta relação.
Seu modelo de análise trata-se de um guia que concebe o texto jornalístico
não mais como uma versão objetiva e imparcial, capaz de revelar a verdade
e transcrever a realidade. Sua concepção enxerga o texto jornalístico como

227
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

narrativa e demonstra que cada notícia ou reportagem apresenta apenas uma


versão da história dentre tantas possíveis. Essa constatação é possível após
análise da estrutura das narrativas e seus recursos discursivos.
Dos sete movimentos encontrados, entre os quais o foco na análise pode ser
a estrutura da narrativa ou o pano de fundo ideológico, dois deles, em particular,
chamam nossa atenção para a discussão aqui presente. O primeiro busca dar
suporte ao analista na observação do processo de transformação da personagem
em persona, ou seja, perceber as máscaras em que uma pessoa é vestida;
e o segundo traz o enfoque para as estratégias argumentativas do narrador.
Ele propõe uma série de pistas sobre como identificar as características, o uso
de dêiticos e adjetivos usados pelo narrador. É possível identificar, inclusive,
o esforço para tornar um texto objetivo ou imparcial quando se lança mão de
dados, lead ou da fala das fontes.
Motta (2013) mostra a complexidade que há na relação dos atores
envolvidos na narrativa jornalística e prevê três diferentes narradores para a
narrativa jornalística: o veículo, o jornalista e a personagem. Destaca que os três
estão na luta simbólica pela melhor versão, para estabelecer qual informação
será considerada a “verdade-verdadeira”. Propõe que o narrador-personagem,
que está numa posição subordinada em um momento, pode estar no comando
em uma situação seguinte, pois na comunicação a relação entre os indivíduos é
dialética. Entretanto, Motta (2013) não esconde a relação de poder do veículo
para com o jornalista e do jornalista para com o personagem. Ancorado em
Genette (1989), Motta (2013) discute o processo hierárquico do exterior ao
interior da narrativa, da autoria até a personagem.
O autor faz um esquema gráfico baseado em Genette (1989) para ilustrar
como as vozes estão presentes no texto e como as mesmas se articulam a partir
de uma posição extradiegética e intradiegética. “Na produção jornalística, os
três níveis de domínio de voz de modelo de Genette se manifestam através de
uma escala de subordinação relativamente nítida (embora haja sempre situações
controversas e complexas)” (MOTTA, 2013, p. 223).
A proposição de Genette (1989) coloca em cheque a sobreposição de
vozes na narrativa literária, a partir do momento em que se concebe a diegese,
ou seja, a virtualidade, o universo ficcional ou o “mundo real” pertencente à
narrativa. Há uma adaptação do modelo literário para o jornalístico, embora
saibamos que a própria reportagem faz uso também da ficção, a exemplo de
personagens que são transformados em mito, vilão, vítima ou herói. A articulação
dessas vozes no texto é cara para Genette (1989) que divide em três níveis as
vozes na narrativa: extradiegético, o intradiegético e o metadiegético. O primeiro
é a voz externa que pode pertencer ao autor; o segundo é a voz das personagens
e a terceira está associada a outros narradores internos que também podem
pertencer a outros personagens dentro daquela história.
Motta (2013) faz alusão a Genette (1989) para explicar a articulação das

228
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

vozes no texto jornalístico. “No jornalismo os sujeitos envolvidos na narração são


sempre pessoas ou instituições vivas e ativas que assumem no ato de enunciação
o papel de atores do discurso, que se projetam sobre os sujeitos interlocutores da
representação (mimese)” (MOTTA, 2013, p. 233). A primeira voz que aparece em
sua teoria pertence ao narrador-veículo, que pode ser um jornal, uma revista, um
telejornal ou um jornal online - esse, por sua vez, possui o maior poder de voz na
hierarquia e utiliza de seu poder para subordinar os demais narradores.
O narrador-veículo é extradiegético e atua no gerenciamento de atenção,
busca audiência a partir da sedução de manchetes, chamadas e títulos e objetiva
o aspecto econômico com a venda de boas histórias. “(…) O veículo joga assim,
um jogo de atração, sedução e persuasão no sentido semiótico da palavra,
mas que põe também em operação interesses comerciais e institucionais desse
narrador” (MOTTA, 2013, p. 227). É o veículo que possui a legitimação social
para ser portador da verdade. “Na divisão social do trabalho moderna, os veículos
de comunicação recebem da comunidade não só a incumbência de dizer e
narrar, mas ao mesmo tempo uma autoridade pressuposta e reconhecida (ainda
que não diretamente outorgada) para contar a estória verdadeira” (MOTTA,
2013, p. 227, grifo do autor).
Já o narrador-jornalista é subordinado ao narrador veículo, mas possui
uma relativa autonomia de voz, utiliza-se de uma performance para construir a
tecitura da intriga e interpretar os papéis de cada componente do conflito. Ele
seleciona os atores sociais e posiciona no espaço que lhe convém, conforme seus
interesses pessoais, profissionais e o interesse do jornal para o qual trabalha, “(...)
inclui, exclui, destaca, hierarquiza segundo seus valores pessoais, profissionais
e os interesses do jornal ao qual está subordinado, que ele assimila como uma
cultura profissional, e de acordo ainda com a sua negociação com as fontes”
(MOTTA, 2013, p. 228-229).
O narrador-jornalista tem, segundo o estudioso, uma relativa autonomia.
Ele media sua atuação em relação às outras vozes ali presentes e age para
que o conteúdo que deseja ressaltar seja formatado segundo seus moldes
preestabelecidos, respeitando prazos e se fazendo compreensível. “Ele negocia
a configuração da estória com o jornal e com as fontes a partir de sua posição
e ethos profissional: todo jornalista é possuído de forte ethos e age em função
dele – o desejo de contar uma boa estória (uma estória coerente, equilibrada,
verídica)” (MOTTA, 2013, p. 229). Conforme anteriormente falado, o jornalista
atua a partir do valor-narrativa, com o objetivo de desenvolver uma boa narrativa
que cause impacto positivo. “(…) Imbuído desse desejo, ele negociará com
os outros poderes movido pela exigência profissional de configurar uma boa
narrativa. O valor-narrativa, desejo de ordenar uma estória coerente, atraente e
verídica rege, portanto, a sua ação” (MOTTA, 2013, p. 229).
O narrador-personagem, subordinado ao jornalista e ao jornal, traz consigo
também uma relativa autonomia de voz, porque ele é fonte de informação à qual

229
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

o jornalista precisa recorrer, “(…) esses atores sociais passam muitas vezes a
narrar como testemunhas, ganham status de personagens e voz ativa na estória,
transformando-se, em última instância, também em narradores” (MOTTA,
2013, p. 230). Ciente de seu papel enquanto ator social, ele age para defender
seus próprios interesses. Dependendo do cargo que ocupa e de sua posição
na narrativa, poderá ter maior ou menor poder de voz. O autor deixa claro que
aquele que está subordinado em um primeiro momento poderá ser subordinador
em um momento posterior, pois essa relação é fluída e dinâmica.
No modelo de análise de Motta (2013), o primeiro narrador, ou seja, o
veículo, tende a exercer o maior poder da cadeia, estipulando o que o repórter
vai abordar e investigar, mas isso não significa que não haja abertura para
distintas perspectivas. A personagem-fonte que está sendo abordada pelo
jornalista também não é ingênua. Ela sabe do poder social que a mídia possui.
Seu discurso, portanto, estará alinhado aos resultados que deseja alcançar
mediante exposição, mediante fala (MOTTA, 2013). As fontes sabem de sua
importância para o jornalismo, sabem que o jornalista busca suas informações
para associar credibilidade aos seus relatos.
A fala da personagem poderá permear todo o texto jornalístico com citações
diretas ou indiretas dependendo de sua relevância para a narrativa. Ao tomar
consciência da visibilidade que a mídia proporciona, as fontes tentam distorcer
fatos em seu próprio benefício e em prol do favorecimento das instituições das
quais fazem parte; para isso, contam com o apoio de assessorias de imprensa.
Para Hall et al. (2016), a fonte e o jornalista possuem uma relação diferente
daquela pensada por Motta (2013). Hall et al. (2016) procuram dar o enfoque
para as fontes, pois as consideram mais decisivas em termos de enquadramento
do que o jornalista, seus olhares estão sobre a fonte, enquanto Motta (2013)
busca complexificar tal questão.
Os autores trazem à tona a discussão sobre os critérios de noticiabilidade
e enfatizam o quão relevantes são os rituais na rotina de produção para facilitar
que alguns objetivos sejam atingidos, a exemplo dos ideais de imparcialidade
e de objetividade. Para tanto, os jornalistas procuram fontes oficiais disponíveis
que possam dar mais confiabilidade ao conteúdo. A partir desse critério, vozes
que comumente falam se tornam cristalizadas e desenvolvem um domínio sobre
as demais. Os jornalistas transferem a responsabilidade do conteúdo para as
fontes noticiosas, munidos de um ideal de objetividade, fingindo não narrar e
fingindo descrever os fatos tal como acontecem.
Wolf (2003) e Tuchman (2016) acreditam que a consulta a determinadas
vozes acontece não exatamente por uma questão ideológica, mas por um
exercício rotineiro atrelado à rotina de produção. Limitados pela lógica do tempo
e do furo de reportagem, e para se resguardar de problemas em relação a
questionamentos sobre a parcialidade na interpretação dos fatos, os jornalistas
consultam geralmente as mesmas fontes em seu dia a dia. Para Wolf (2003), os

230
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

valores-notícia permitem que as rotinas produtivas nos meios de comunicação


garantam o funcionamento da produção noticiosa, sem os quais dificilmente se
conseguiria produzir em tão pouco tempo, com um menor custo financeiro. O
posicionamento desses autores é pertinente e revela uma parte da problemática,
mas não a sua totalidade.
Em relação ao fator tempo, na concepção de Wolf (2003), a fonte que possui
maior credibilidade e tempo tem mais chance de se tornar uma fonte regular.
“As fontes não são, por isso, todas iguais e todas igualmente relevantes, assim
como o acesso a elas e o seu acesso aos jornalistas não está uniformemente
distribuído” (WOLF, 2003, p. 198). Tal discussão vai ao encontro da proposição
de Gans (1979, p. 81 apud WOLF, 2003, p. 224): “Aqueles que detêm o
poder econômico ou político podem, facilmente, ter acesso aos jornalistas e são
acessíveis a estes; aqueles que não têm qualquer poder, mais dificilmente se
transformam em fontes e não são procurados pelos jornalistas até as suas acções
produzirem efeitos noticiáveis enquanto moral ou socialmente negativos”.
Corroborando a posição de Gans (1979) e Wolf (2003), Hall et al. (2016)
analisam a hierarquia da credibilidade proposta por Becker e enfatizam que os
media reproduzem as estruturas de poder existentes na sociedade. “(…) Deste
modo, os media tendem, fiel e imparcialmente, a reproduzir simbolicamente
a estrutura de poder existente na ordem institucional da sociedade” (HALL et
al., 2016, p. 316). Para Hall et al. (2016), os meios de comunicação atuam
ideologicamente, mas sem deixar pistas. Devido aos ideais de objetividade e
imparcialidade, transferem para as fontes de informação a responsabilidade
da fala, daquilo que é dito no seu conteúdo midiático (MOTTA, 2013; HALL
et al., 2016).
Ao questionarem o modo como as vozes são incluídas no texto jornalístico
e problematizarem que o jornalismo faz um recorte de classe em seu discurso,
Hall et al. (2016) observam que tal postura resulta no fato de a ideologia
dos media ser, quase sempre, a da classe dominante. A partir do conceito de
definidores primários, eles explicam que as fontes “credíveis” são aquelas que
estão hierarquicamente em posições sociais distintas e a elas cabe a função de
oferecer a “versão oficial” dos fatos. Essas fontes fazem o que Hall et al. (2016)
chamam de “enquadramento do problema”, ou seja, são responsáveis por
formular a versão oficial da história, a “verdade”; não possibilitando uma versão
distinta ou alternativa oriunda de um contradefinidor. Tal postura reverbera em
um oligopólio da fala por grupos de poder, em que grupos minoritários não
possuem ressonância nesses grandes grupos de comunicação.

Principais considerações

Conforme explicado no tópico anterior, estamos diante de duas perspectivas


teóricas que se diferenciam, mas há possibilidade de convergirem. No primeiro

231
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

caso, observamos que a teoria de Motta (2013) busca orientar para o relativismo
e a importância da voz de cada figura na narrativa, atribuindo poderes a cada
uma delas. Embora também esse autor deixe claro que o poder é transitório e
depende do papel que cada um exerce em um determinado contexto: o veículo
orienta a linha editorial a ser seguida; o jornalista enquadra a história; e a
fonte decide se fala, e em quais condições. Entretanto, um poder considerável é
destinado ao jornalista por sua capacidade de negociar com o veículo e com a
fonte, pois é ele quem narra a partir do critério de noticiabilidade valor-narrativa.
O modelo de análise de Motta (2013) está voltado à teoria da narrativa,
portanto, é compreensível que haja uma importância especial ao narrador. Seu
modelo teórico dividido em sete movimentos busca exatamente direcionar o foco
para quem narra os fatos, a exemplo de como o narrador estrutura a narrativa,
qual modelo organiza seu texto, como constrói seu enredo com base na intriga,
como elenca a sequência dos episódios, em torno de qual conflito dramático a
narrativa se estrutura, quais as pessoas que escolhe para fazer parte do texto,
quais as estratégias argumentativas utilizadas e em qual pano de fundo cultural
a narrativa está estruturada.
Trata-se de um material muito rico, porém, alguns questionamentos podem
ser desenvolvidos com base na responsabilização do profissional, entre elas: não
contar com a possibilidade de o editor atualizar o texto do repórter e ali estarem
impressas não necessariamente o recorte de quem assina a matéria, em uma
atitude que deixa evidente o poder do narrador-veículo sobre os demais narradores.
Na teoria problematizada por Hall et al. (2016) temos também uma
abordagem diferente que evidencia a importância da fonte em detrimento
das demais vozes na narrativa. A concepção revelada no artigo “The Social
Production of News: Mugging in the Media” publicado primeiramente no livro
“The Manufacture of News” de Stanley Cohen e Jock Young e, posteriormente,
no livro de Nelson Traquina “Jornalismo: questões, teorias e estórias”, traz à tona
a importância das fontes de forma decisiva nos meios de comunicação, uma
vez que possuem legitimidade por portarem o discurso da classe dominante.
Elas são privilegiadas e estão em um patamar de superioridade em relação aos
demais membros da sociedade, pois revelam um ethos distintivo e ocupam
cargos como representantes de órgãos do poder executivo, legislativo, judiciário,
administrativo, entre outros. Essas figuras públicas são consultadas todas as
vezes que há necessidade de checar alguma informação, ou seja, determinadas
pessoas são mais portadoras da verdade do que outras e, na narrativa jornalística,
elas se tornam personagens centrais, são os primeiros a definir uma situação, a
construírem o enquadramento do problema.
Essa concepção não leva em consideração que, dependendo da linha
editorial de um veículo, o poder de decisão de uma fonte, a exemplo de um
político de um determinado partido, é quase nulo, uma vez que o veículo não dá
espaço para o seu conteúdo específico ou mesmo age para distorcê-lo.

232
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Assim, além de não distinguir na produção jornalística o espaço de atuação


do jornalista e da política editorial da organização empresarial, a visão estruturalista
de Hall et al. (2016), a despeito de sua auspiciosa concepção de que a definição
primária das notícias está, em grande medida, determinada pelas fontes oficiais
da estrutura de poder dos grupos que controlam o aparelho de Estado e as grandes
corporações do mercado, conclui que o alinhamento da mídia noticiosa com a
ideologia dominante se dá de forma involuntária, embora autônoma.
O construto teórico que poderá ser utilizado em uma análise da narrativa
pode levar em consideração tanto a teoria de Motta (2013), quanto a teoria de
Stuart Hall et al. (2016). A relação entre o jornalista e a fonte é imbricada e
complexa, não sendo possível defender em absoluto o estruturalismo e mostrar
apenas que o poder de decisão está nas mãos das fontes ou do jornalista.
Tomemos, por exemplo, o caso da Lava Jato, em que determinados veículos
dão espaço e poder de fala a personagens da Polícia Federal, Justiça Federal ou
determinados políticos, enquanto outros tipos de mídia enquadram a narrativa
de modo a tornar a fala da Polícia Federal inválida e ressaltar a defesa de outros
réus - cada um a partir de uma abordagem específica.
É primordial que a função de integrantes de uma narrativa seja analisada
tanto em termos de intencionalidades quanto em termos de relações estruturais
que determinam as posturas dos narradores. Um caminho metodológico que
dê conta de compreender intencionalidades e estruturas pode relacionar a
demarcação da predominância de falas de fontes oficiais, por exemplo, com o
modelo de análise proposto por Motta (2013), a partir do estudo das estratégias
argumentativas, ou seja, das pistas deixadas pelo narrador-jornalista, a exemplo
de figuras de linguagem, dêitico espaço-temporal e dados estatísticos para criar
efeitos estéticos ou de real, bem como transformar pessoas em personagens
conforme objetivos específicos.
A perspectiva teórico-metodológica que poderá ser associada a função da
fonte em relação ao jornalista a partir da concepção de “definidores primários”
e “secundários”, questionará a voz que sobressai em determinadas narrativas,
atentando para quem e como elaboram o “enquadramento do problema”. Essa
análise pode acontecer de forma simultânea. Portanto, a análise das estratégias
argumentativas propostas por Motta (2013), junto à noção de definidores
primários e secundários, é importante para diagnosticar o jogo de poder e
sobreposição de vozes por motivos ideológicos e/ou comerciais.
Na concepção de Stuart Hall et al (2016), a importância da fonte é
evidenciada de forma superior em relação ao jornalista e ao veículo, pois
sendo ela detentora da informação da qual o jornalista precisa, ela procura
administrar de forma a desenvolver um perfil que valorize suas características
positivas, ou seja, ressaltará determinados aspectos e não outros. Os autores
propõem que as fontes possuem poder de dar um enquadramento definitivo
e, justamente, por estarem de acordo com a classe dominante, os mesmos

233
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

procuram trazer o foco para tais falas. Essa concepção é confirmada por Miguel
e Biroli (2010), os quais mostram que, como os jornalistas pertencem à classe
dominante, os mesmos abrem espaço para a voz dessa classe, não havendo,
portanto, um pluralismo.
Na complexa relação dos jornalistas com as fontes e a política editorial da
organização empresarial, podem-se registrar duas perspectivas diametralmente
opostas, ainda que igualmente consideradas equivocadas por Serra (2001).
Por um lado, uma abordagem liberal-pluralista, vinculada a uma concepção
dos veículos de comunicação de massa como “organizações independentes
da estrutura de poder da sociedade, controladas principalmente externamente
pelos seus consumidores e pela competição entre as fontes e internamente
pelos seus profissionais, influenciados pelos valores comuns da sociedade”
(SERRA, 2001, p. 85). Dentro dessa perspectiva, compete, idealmente, à mídia
noticiosa as funções de vigilância sobre os governos, garantia de acesso de
todas as interpretações e a disponibilização de representações objetivas para o
estabelecimento de um debate amplo e geral nas questões de interesse público.
Por outro lado, na perspectiva oposta, a abordagem radical denuncia que os
meios de comunicação exercem, principalmente, a função de veiculação da
ideologia da classe dominante, devido à sua subordinação aos interesses do
Estado capitalista e demais organizações poderosas na sociedade, apresentando
uma atuação controlada pelos governos, anunciantes e proprietários, sob a
influência das condições econômicas do mercado, a exemplo da concepção
marxista estruturalista de Althusser (1980).
Na superação deste reducionismo dicotômico entre a liberdade absoluta de
atuação do jornalista, porteiro responsável pela passagem de acontecimentos,
fontes e versões para se transformarem em notícia, por um lado, e, por outro, a
determinação total da atuação do profissional pela política editorial ditada pelos
controladores do investimento de capital no negócio da indústria das notícias,
apresenta-se como esclarecedora a reflexão de Breed (2016).
Segundo o teórico estadunidense, idealmente, numa democracia plena, não
existiria nenhum problema de “controle” ou de “política” no jornal. As decisões
estariam condicionadas exclusivamente pela natureza do acontecimento e a
habilidade do repórter para o descrever. Na realidade empírica, porém, verifica-
se que o proprietário define a política editorial que é, geralmente, seguida pelos
membros do corpo redatorial. Para Breed (2016), a aceitação, no entanto, não é
automática devido às normas éticas da ideologia profissional do jornalismo, que
prescrevem aos veículos uma autocompreensão normativa comprometida com
a autoridade do público; ao fato dos jornalistas funcionários terem posições e
interesses ideológicos diferentes dos seus patrões e poderem invocar as normas
éticas para justificar enquadramentos além dos limites da política editorial; e ao
“tabu ético”, que impede o proprietário de obrigar abertamente seus subordinados
a seguirem a sua orientação, sob pena de desmoralizar a imagem do veículo e

234
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

comprometer a sua credibilidade junto ao público (BREED, 2016).


O imprescindível desafio do conquistar a credibilidade do público, no
entendimento de Breed (2016), impõe o cuidado evidenciado no “tabu ético” de
não transparecer, na visibilidade midiática ou mesmo nos manuais de redação,
os aspectos mais delicados da política editorial, exatamente aqueles que
demonstram compromisso com interesses particulares poderosos em detrimento
do interesse público e do bem-estar coletivo.
Para constranger os jornalistas a se conformarem nos limites da política
editorial determinada pelo proprietário e seus executivos, que, muitas vezes,
transgride as normas deontológicas do jornalismo, Breed (2016) registra que
a organização empresarial conta com uma série de mecanismos dissimulados,
que podem ser sintetizados em seis fatores para evitar desvios dos jornalistas
funcionários. 1 - A autoridade institucional e sanções, por suas implicações
evidentes. 2 - Sentimento de obrigação e de estima para com os superiores.
Como as questões mais delicadas da política editorial não são explicitadas nos
manuais de redação, os novos jornalistas aprendem a evitar reprimendas através
de conselhos dos mais experientes. 3 - Aspirações de mobilidade. Como todo
jovem profissional, o jornalista iniciante tem a expectativa de conseguir viabilizar
sua carreira. 4 - Ausência de grupos de lealdade em conflito. As características
de uma atividade profissional altamente intelectualizada motivam aspirações
elitistas e posições refratárias à organização sindical ou mesmo em comissões
de ética. 5 - O prazer da atividade. O trabalho cooperativo de elaboração dos
conteúdos que servem de referência para a noção de realidade das pessoas
reveste-se de uma satisfação especial. 6 - A notícia torna-se um valor. Como
as notícias são um desafio constante que deve ser superado diariamente pelo
jornalista, há uma recompensa gratificante com a realização dessa tarefa.
Por outro lado, Breed (2016) teve a admirável sensibilidade para reconhecer
a existência de cinco fatores significantes dentro da área de influência do repórter
que o ajudam a abrir brechas na orientação política do veículo. 1 - As normas da
política editorial nem sempre são explicitadas claramente, pois muitas são vagas
e não estruturadas. Assim, política editorial é dissimulada por natureza e tem um
largo raio de ação, o que faz surgir uma “zona de crepúsculo que permite um raio
de desvio”. 2 - Os executivos podem desconhecer alguns dados de informação
e os jornalistas-repórteres, que têm que ir às ruas para obter notícias, podem
utilizar os seus melhores conhecimentos na subversão da política editorial, uma
vez que têm a opção de seleção em muitos pontos. 3 - Os repórteres podem
utilizar a tática da “prova forjada”, quando obtêm uma boa notícia e a política
editorial veta sua publicação, repassando a informação para colegas de outros
veículos publicarem e, assim, posteriormente, poder abordar o assunto. 4 -
Quando setoristas, os jornalistas usufruem uma certa autonomia, já que têm
a oportunidade de sugerir pautas e, assim, influir no seu enquadramento e
orientação política. 5 - Os jornalistas mais experientes e conceituados, com um

235
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

estatuto de “estrela”, podem, frequentemente, transgredir a política editorial,


pois seus superiores, em geral, temem entrar em controvérsia com eles e,
assim, ficarem desmoralizados na redação devido ao seu notório maior acervo
de conhecimentos na atividade profissional.
Desta maneira, Breed (2016, p. 163) conclui que “estes cinco fatores
indicam que, sob certas condições, os controles que levam ao conformismo
com a política editorial do jornal podem ser ultrapassados”, aprofundando a
compreensão sobre as complexas contradições de interesses entre os jornalistas,
a organização empresarial e o público.

Conclusão

Procuramos ressaltar em nossa presente abordagem duas perspectivas que


estudam a relação entre o jornalista e a fonte, entre o narrador e o personagem.
Concluímos que ambas possuem sua importância, mas também específicas
fragilidades. A primeira mostra o poder do narrador-veículo intensificado, o
primeiro na hierarquia, e considera o jornalista com relativa autonomia de voz,
entretanto, faltou especificar melhor a atuação do narrador-veículo no papel do
editor ou diretor, os quais podem influenciar de tal forma a transformar o texto
jornalístico de acordo com a linha editorial. Em sua teoria, o enfoque é dado
ao repórter por esse ser responsável pela elaboração da estrutura textual, mas
há condicionamentos externos de cunho político e ideológico, não somente no
que diz respeito ao pano de fundo tratado pelo autor como metanarrativa. A
intencionalidade do jornalista não é meramente casual e pessoal. Dentro desse
argumento podemos colocar que há uma rede de repórteres que podem atualizar
informações em uma cobertura.
O jornalista lança mão do valor-narrativa para escrever um bom texto, mas
ainda é influenciado por estruturas dominantes que o levam a querer abordar um
específico projeto-dramático a partir de uma ótica e não de outra, a entrevistar
determinadas pessoas tendo em vista a repercussão entre anunciantes, etc. A
responsabilidade dada ao indivíduo por toda estrutura e direcionamento do texto
é passível de discussão, uma vez que até mesmo as temáticas são independentes
da atuação do veículo, pois sua credibilidade é posta em xeque quando não
noticia fatos que estão circulando em veículos concorrentes. A narrativa pode
ser desenhada conforme o desejo do narrador, mas, ao mesmo tempo, pode ter
um direcionamento que independe dele.
Sugerimos, nesse sentido, que no momento da análise, a teoria pragmática
da narrativa jornalística proposta por Motta (2013) seja associada a alguma base
teórica de cunho estruturalista, no sentido de observar não apenas a narrativa
em si, mas os contextos social e histórico, em uma análise que extrapola a
materialidade textual e as intencionalidades dos indivíduos.
Ao trazer o jornalista como definidor secundário, acreditamos que Hall et al.

236
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

(2016) não dão conta da compreensão mais ampla do problema. Entendemos


que o jornalismo é um campo em disputa, e que os interesses de todos ali
envolvidos formam uma trama complexa. Por mais que se tenha a predominância
de uma voz, a exemplo de uma fonte oficial poderosa, se o conteúdo não estiver
de acordo com a linha editorial do veículo, o editor e os repórteres agirão no
sentido de adequar, distorcer ou omitir informações.
Falta na teoria de Hall et al. (2016), por sua vez, a ponderação sobre a
complexidade que permeia os narradores. Eles compreendem o jornalista como
força secundária e a fonte como força primária, ao contrário de Motta (2013).
É relevante evidenciar que não apenas as classes dominadas estão fora do
discurso, mas parte da classe dominante que não está de acordo com a linha
editorial do veículo. Sabemos que a leitura de classe é muito importante inclusive
nos dias atuais, mas em uma sociedade heterogênea em que os interesses são
múltiplos e estão no nível simbólico e econômico, a compreensão do discurso
presente na mídia de modo polarizado é um tanto simplista e perigosa.

Referências

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa:


Editorial Presença, 1980.
BREED, Warren. Controle social na redação. Uma análise funcional. In:
TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”.
Florianópolis: Insular, 2016.
CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade: para uma ética da informação. Lisboa:
Instituto Piaget, 1999.
GENETTE, Gérard. Figuras III. Barcelona: Editorial Lumen, 1989.
GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do
jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987.
MOTTA, Luís Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 2013.
HALL, S. et al. A produção social das notícias: o mugging nos media.
In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”.
Florianópolis: Insular, 2016. p. 309-341.
HOHLFELDT, Antonio. Objetividade: categoria jornalística mitificada. In:
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, XXIV, 2001, Campo Grande.
Anais… Campo Grande: INTERCOM, 2001.
MAIA, M. R.; RODRIGUES, F. Narrativa onisciente no jornalismo: possibilidade

237
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

de ampliação da captação. BOCC, Covilhã, 2009. Disponível em: http://www.


bocc.ubi.pt/pag/bocc-maia-narrador.pdf Acesso em: 03 ago. 2018.
MIGUEL, L. F.; BIROLI, F. A produção da imparcialidade: A construção do
discurso universal a partir da perspectiva jornalística. Revista Brasileira de
Ciências Sociais, São Paulo, v. 25, n. 73, p. 59-76, jun. 2010.
RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Memória de jornalista: um estudo sobre o conceito
de objetividade nos relatos dos homens de imprensa dos anos 50. In: Congresso
da Compós, XI, 2002, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, INTERCOM,
2002.
ROCHA, Heitor. Verdade e rigor no Jornalismo: A intersubjetividade como
referência na construção da notícia. Estudos em Comunicação, Covilhã, n. 2, p.
171-183, dez. 2007.
SERRA, Sônia. A produção de notícias e a esfera pública internacional. In:
FAUSTO NETO, A. et al. (Orgs.). Práticas midiáticas e espaço público. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2001.
SPONHOLZ, Liriam. As objetividades do jornalista brasileiro. Revista Líbero,
Ano XI, n. 21 - Jun 2008, p. 69-77.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: A tribo jornalística – uma comunidade
interpretativa. Florianópolis: Insular, 2005. 216 p.
TUCHMAN, Gaye. A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções
de objetividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson (Org.). Jornalismo:
questões, teorias e “estórias”. Florianópolis: Insular, 2016. p. 111-131.
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. 8. ed. Lisboa: Editorial Presença, 2003.

238
IV Narrativas
convergentes
Cobertura jornalística transmídia de megaeventos
esportivos: proposta metodológica aplicada às Olimpíadas
de Sochi (2014) e do Rio de Janeiro (2016)

Lorena Tárcia
Geane Alzamora
Renira Gambarato

Introdução

No cenário midiático contemporâneo, os fluxos de informação permeiam


meios de comunicação variados pela ação integrada de produtores e consumidores
de informação. Surge, nesse contexto, o conceito de Narrativa Transmídia (NT),
bastante difundido por Jenkins (2006). Trata-se de super-sistemas comerciais
de intertextualidade transmídia, tal como proposto por Kinder (1991), em
referência a franquias robustas distribuídas por múltiplas plataformas midiáticas.
O conceito pressupõe a construção de universos, fictícios ou não, expandidos
por distintos meios e enriquecidos a partir da participação das audiências.
Embora Kinder (1991) e Jenkins (2006) considerem, principalmente, o domínio
do entretenimento e Freeman (2016b) identifique a origem dos fenômenos
transmídia nas estratégias publicitárias, os princípios das NTs, conforme Jenkins
(2010), estendem-se para esferas como ativismo, branding, política, educação
e jornalismo, entre outras. Kerrigan e Velikovsky (2016) argumentam que as
formas transmídia não-ficcionais seguem os mesmos princípios e definições
das franquias de entretenimento e reconhecem o fortalecimento e contínuo
crescimento do fenômeno.
O jornalismo transmídia apresenta dinâmicas semelhantes às do
entretenimento, ao expandir narrativas noticiosas por plataformas diversificadas
e cultivar a participação cidadã em suas dinâmicas produtivas. O público pode
estar envolvido nas etapas de apuração, edição ou compartilhamento, via
websites ou mídias sociais digitais, contribuindo, desta forma, para a construção
de narrativas não-ficcionais ampliadas.

Em suma, consideramos que o jornalismo transmídia, bem como outras


aplicações da NT em perspectivas ficcionais ou não-ficcionais, é carac-
terizado pelo envolvimento de (1) múltiplas plataformas de mídia, (2)
expansão de conteúdo e (3) engajamento da audiência. O jornalismo
transmídia pode tirar proveito de diferentes plataformas de mídia como
televisão, rádio, mídia impressa e acima de tudo, internet e mídias mó-

240
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

veis para contar histórias mais profundas. A expansão do conteúdo, em


oposição à repetição da mesma mensagem em várias plataformas, é a
essência da NT e, portanto, também deve ser o ponto focal deste tipo de
jornalismo. (GAMBARATO; TARCIA, 2017, p. 1387).

Outra característica relevante da Narrativa Transmídia, com implicações


diretas no jornalismo, diz respeito às expansões contingentes ou planejadas.
Fast e Örnebring (2015) chamam de emergente/ad hoc os universos transmídia
que evoluem ao longo do tempo, cocriados por profissionais e amadores; já a
essência planejada/estratégica, para estes autores, diz respeito à estruturação e
cuidadosa repartição de narrativas por várias plataformas de mídia. Gambarato
e Tárcia (2017) enfatizam o aspecto planejado envolvido na otimização do jor-
nalismo transmídia, pois se torna um processo proativo planificado, com jorna-
listas assumindo a responsabilidade pela estruturação do universo constituinte
da história, em seus diversos ângulos e ampliações, fazendo uso estratégico das
oportunidades de engajamento da e com a audiência.
Embora um jornalismo noticioso inserido em rotinas produtivas diárias seja
possível, Moloney (2011, p. 12) argumenta que “o jornalismo diário, com sua
brevidade restrita no tempo, não é uma opção viável. Transmídia deve ser pro-
jetada com cuidado e desenvolvida com um longo prazo para ser efetiva”. Além
disso, Renó (2014) reforça a necessidade de projetar e planejar não só o conte-
údo a ser produzido, mas também como o público irá experimentá-lo.

A construção do conteúdo deve ser desenvolvida a partir de um script


transmídia, que é programado para que todos os fragmentos vinculados
se relacionem cognitivamente entre si e, ao mesmo tempo, não assumam
o papel de conteúdo multimídia, ou seja, o mesmo conteúdo em platafor-
mas distintas. (RENÓ, 2014, p. 11).

Uma das aplicações possíveis desta prática planejada são os megaeventos


midiáticos globais como as Olimpíadas, aqui analisados. Neste trabalho, obser-
vamos o jornalismo transmídia pelo viés do planejamento editorial de cobertura
transmídia, o qual lida, de modo bastante significativo, com a produção de in-
formações proveniente da audiência engajada.

Megaeventos midiáticos globais

Por eventos planejados, compreendemos, a partir de Getz (2012), ocor-


rências temporais esquematizadas e divulgadas antecipadamente, com local,
hora e programa revelados com antecedência. Incluem-se aí os megaeventos
midiáticos globais como os Jogos Olímpicos, objeto deste artigo.
Hepp e Couldry (2010) estendem a conceituação de evento midiático a par-
tir da globalização e de uma estrutura de poder multifacetada dos processos de

241
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

comunicação, reforçados pelo papel da internet e da produção multiplataforma


característica das mídias digitais. Assim, a cobertura jornalística em perspectiva
transmidiática dos megaeventos planejados é abrangente e engloba mais do que a
esfera esportiva. No nosso entendimento, a relevância do jornalismo transmídia na
cobertura de eventos como os Jogos Olímpicos baseia-se no fato de que, geralmen-
te, envolvem (1) aspectos ad hoc/emergentes, atraindo grandes públicos nacionais
e internacionais, potencialmente envolvendo-os e integrando-os no processo de pro-
dução de notícias e (2) aspectos planejados/estratégicos, implicando quantidade
significativa de recursos humanos, técnicos e financeiros, com provisão de inúmeros
protagonistas e histórias primárias e paralelas (GAMBARATO; TÁRCIA, 2017).
Conforme discutido por Gambarato, Alzamora e Tárcia (2018) e Tárcia
(2015), a cobertura de notícias multiplataforma de eventos planejados globais,
com cidadãos envolvidos na produção e distribuição de conteúdo, é uma prá-
tica que ganhou força especialmente durante os Jogos Olímpicos de Londres,
em 2012. Os Jogos Olímpicos realizados na capital inglesa (com produção em
múltiplas telas), confirmaram o surgimento de um cenário distinto no jornalis-
mo, um híbrido da lógica midiática verticalizada, transmissiva de massa, com a
lógica horizontalizada de compartilhamento das redes sociais.
No caso das Olimpíadas, o COI impõe um conjunto rigoroso de regras e re-
gulamentos aos atletas, treinadores, funcionários e organizações de mídia, entre
outros, que podem interferir deliberadamente nesse processo híbrido (INTER-
NATIONAL OLYMPIC COMMITTEE, 2015, 2016). De acordo com o historiador
olímpico David Wallechinsky (BARKHO, 2016), ao longo dos anos, o COI tem
procurado controlar a forma como as Olimpíadas são percebidas e, portanto,
tem guardado de perto o conteúdo com base em regras conservadas e datadas.

Abordagem metodológica: modelo analítico

A análise das estratégias transmídia para a cobertura jornalística de even-


tos planejados tem como objetivo contribuir para uma compreensão mais clara
da produção de notícias em perspectiva transmídia e estimular tais práticas
enquanto possibilidades narrativas em múltiplas plataformas, com o engaja-
mento da audiência. O método escolhido para a análise da cobertura dos Jogos
Olímpicos de Sochi (2014) e do Rio de Janeiro (2016) é o modelo analítico para
megaeventos midiáticos planejados proposto por Gambarato e Tárcia (2017).
O modelo aborda as especificidades de tais produções de notícias multiplatafor-
ma, esclarecendo como os recursos podem ser estruturados e implementados.
Conforme proposto por Freeman (2016a, p. 205), “o nosso papel como estu-
diosos da indústria de mídia é talvez ser brainstormers e analistas para ajudar
teoricamente a avançar o funcionamento da indústria de mídia de ponta”. O
método baseia-se no modelo analítico de projetos transmídia desenvolvido por
Gambarato (2013) e estabelece dez tópicos primordiais e subsequentes ques-

242
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

tionamentos sobre práticas possíveis, por exemplo, plataformas utilizadas, par-


ticipação do público, possibilidades narrativas.
Uma descrição concisa do modelo é fornecida na Tabela 1. Em um modelo
semelhante, esta proposta foi aplicada para analisar a dinâmica transmídia da
cobertura brasileira da Copa do Mundo FIFA 2014 (GAMBARATO et al., 2017).

Tópicos Questões relacionadas


1. Objetivos Trata-se de um evento planejado? Qual o tema principal?
e Premissas Qual o objetivo fundamental do evento?
Qual o objetivo primeiro da cobertura? Informar, engajar, entreter etc.?
O evento é local, regional, global? Qual a magnitude? (Detalhar dias,
horários, esforço necessário para a cobertura etc.)
Qual a mídia principal da cobertura (impresso, tv, rádio...)
2. Estrutura Qual a empresa responsável pela cobertura? Seu tamanho, estrutura?
e contexto Qual a infraestrutura disponível por parte dos organizadores para a
cobertura?
Todos os jornalistas têm acesso a esta estrutura?
Como funciona o credenciamento? Há restrições ao número de profissionais
envolvidos?
Qual o orçamento disponível para a cobertura?
A cobertura foi planejada para ser transmidiática?
Ao final do evento, as extensões continuarão ativas?
Como foi estruturada a cobertura transmidiática? Quais departamentos
foram envolvidos?
3. News Quais os elementos básicos da história (quem, o que, quando, onde, por
Storytelling que e como)?
Quais os eventos centrais ou desafios envolvidos na cobertura?
A cobertura envolve elementos de gamificação, personagens, vencedores
ou perdedores?
Quais as estratégias para expandir a cobertura ao longo do tempo e das
mídias?
Existem lacunas estratégicas e pistas migratórias (formas de levar as
pessoas de uma plataforma a outra) na estratégia de cobertura?
É possível identificar intermidialidade entre as plataformas?
4. Construção Onde acontece o evento?
do Universo Ele envolve alguma característica ficcional?
Como pode ser representado geograficamente?
Há zonas de tempo diferentes que exigirão atenção na cobertura
(diferentes fusos horários, por exemplo)?
Se houver, como as diferentes plataformas podem ser utilizadas de forma
estratégica?
Há regulamentações e restrições à atuação jornalística?
Quais os desafios, riscos e prazeres envolvidos nesta cobertura?
O evento tem porte suficiente para permitir expansões multiplataforma?
5. Personagens Quem são os principais personagens da cobertura. Quantos são? Há
outros a serem agregados posteriormente?
Quais as fontes principais e primárias? Como se dá o acesso a essas
fontes? Há coletivas, restrições quanto à aproximação, tempo limitado
para entrevistas?
Quais as fontes oficiais e não oficiais?
A audiência pode ser considerada como personagem também?

243
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

6. Extensões Quais as extensões incluídas na cobertura?


Estas extensões são mera reprodução do mesmo conteúdo ou expansões
genuínas?
A cobertura tem continuidade nas diferentes plataformas?
Há um planejamento para manter a atualização em cada plataforma?
Cada uma das extensões é canônica? Contribuem para enriquecer a
cobertura?
As extensões possibilitam outras expansões?
Além de expandir a informação, as extensões permitem o
aprofundamento?
A cobertura atiça a curiosidade da audiência para buscar e se aprofundar
nas informações? Como?
Se o evento for muito extenso, como a cobertura lida com o desafio de
manter a atenção e o interesse durante todo o tempo?
7. Plataformas Quais as plataformas utilizadas na cobertura (televisão, rádio, impresso,
e gêneros web, mídias móveis)?
Quais os equipamentos utilizados na cobertura (computadores, tablets,
câmeras, Go Pro, celulares, drones etc.)
Como cada plataforma participa e contribui com a cobertura? Qual a
função de cada uma?
O que caracteriza cada uma das plataformas?
Existe uma estratégia temporal para lançamento de informações em cada
uma das plataformas? Se existe, como funciona este planejamento?
Quais gêneros jornalísticos estão envolvidos na cobertura (notícias,
reportagens, artigos, debates, entrevistas, infografias, quadrinhos, jogos)
Quais as editorias envolvidas?
8. Audiência Qual o público-alvo da cobertura? Quem é o leitor / usuário / espectador /
e mercado ouvinte pretendido?
Como podemos caracterizá-los?
Que tipo de informação lhes interessa?
Que tipo de tecnologias e aparelhos utilizam?
O que pode lhes interessar em uma cobertura transmidiática?
Existem outras experiências de cobertura semelhantes? Atingiram seus
objetivos?
Qual o modelo de negócio da cobertura? Envolve plataformas abertas e
fechadas? A cobertura é lucrativa?
9. Engajamento Qual a porcentagem do público que comparece ao evento e aqueles que
acessam o conteúdo por meio das mídias?
Qual o papel da audiência na cobertura?
Quais os mecanismos de interatividade na estratégica de cobertura
transmídia?
Os leitores/usuários/telespectadores/ouvintes participam diretamente da
cobertura?
Existe a possibilidade de imersão na cobertura?
Há políticas restritivas à divulgação de Conteúdo Gerado pelo Usuário (CGU)?
Eles podem adquirir e levar consigo elementos do evento a
serem incorporados em suas vidas (DVDs, camisas, lembranças,
merchandising)?
Existe conexão entre as manifestações populares e a cobertura?
A audiência participa por meio das redes sociais? De que forma?
Há um sistema de recompensas pela participação? E de punição, como
bloqueio, remoção de comentários?

244
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

10. Estética Que tipo de elementos visuais (vídeo, fotos, infográficos, animações,
newsgame, holografia etc) são utilizados na cobertura?
A aparência geral da cobertura é realista ou um ambiente composto (uso
do grafismo, a holografia, o jornalismo de imersão, realidade aumentada)?
É possível identificar estilos de design específicos na cobertura?
Como funciona o áudio na cobertura? Existe som ambiente, efeitos
sonoros, música, e assim por diante?
Existem experiências visuais com incorporação de drones por exemplo?

Cobertura jornalística dos Jogos Olímpicos de Sochi (2014) e Rio de Janeiro (2016)
Objetivos e premissas

Os XXII Jogos Olímpicos de Inverno ocorreram de 7 a 23 de fevereiro


de 2014, em Sochi, Rússia. Participaram mais de 2.800 atletas (mais de
40% mulheres) e 12 esportes foram adicionados ao programa daquele ano,
incluindo snowboard e o salto de esqui para mulheres. As Olimpíadas de Verão
de 2016, conhecidas como Rio 2016, ocorreram de 5 a 21 de agosto de
2016, no Brasil. Mais de 11 mil atletas representaram 205 Comitês Olímpicos
Nacionais, incluindo os estreantes Kosovo, Sudão do Sul e a Equipe Olímpica de
Refugiados. Trezentos e seis eventos, de 42 disciplinas esportivas, aconteceram
em 32 locais de competição, em 16 dias. Rio de Janeiro tornou-se a primeira
cidade sul-americana a sediar os Jogos Olímpicos de Verão.

Estrutura e contexto

A ANO Sports Broadcasting - abrangendo Channel One, Rússia 1 e NTV+ -


foi responsável pela cobertura oficial em Sochi. A acreditação da imprensa, com
2.800 credenciais, começou dois anos antes do evento. Um número limitado de
credenciais foi concedido às organizações não oficiais (denominadas ENR pelo
COI), e houve restrições de credenciais, mesmo para os membros da emissora
oficial, com um total de 12.000 credenciais. Para as Olimpíadas de Verão de
2016, no Rio, os canais de televisão brasileiros Rede Globo, Rede Record e
Rede Bandeirantes foram responsáveis ​​pela geração de sinais internacionais
de rádio e TV. A acreditação de mais de 25.100 profissionais oficiais da mídia
começou três anos antes do evento. Mais de 7.000 horas de cobertura de vídeo
e áudio foram produzidas e distribuídas para uma audiência de seis bilhões de
pessoas em 220 países.
O Channel One tinha quatro estúdios em Sochi para programas de
entrevistas, um programa de entretenimento pela manhã e notícias. No Rio,
a equipe foi dividida em dois grupos: um grupo foi posicionado na sede da
Rede Globo, Globo Network no Rio de Janeiro, e o outro foi baseado em uma
redação no Centro Internacional de Transmissão (IBC). As operações voltadas
ao público da emissora ocorreram dentro da instalação do Estúdio Olímpico
da rede, localizado no coração do Parque Olímpico. Rede Globo supostamente

245
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

investiu cerca de US $ 250 milhões nesta cobertura (FELTRIN, 2016).

News Storytelling

Embora em ambos os casos a temática central fossem os atletas e as


disputas esportivas, a cobertura jornalística incluiu, nos dois países, os eventos
e contextos paralelos, como questões de segurança, controvérsias sociais,
políticas e econômicas. Em Sochi, entre as controvérsias estavam as questões
LGBT, o doping, ameaças terroristas e as críticas ao local e ao custo das obras,
que transformaram o resort de verão em espaço apropriado aos Jogos de
Inverno. No Brasil, a cobertura incluiu (1) manifestações e controvérsias sociais
e políticas, (2) um surto contínuo do vírus Zika transmitido por mosquitos no
Brasil, (3) a poluição da Baía de Guanabara, cujas águas foram utilizadas para
competições de vela e windsurf , (4) instabilidade política e crises econômicas,
(5) criminalidade no Rio de Janeiro, (6) o escândalo de doping russo e restrições
de participação, entre outros. O modelo de expansão de conteúdo desenvolvido
pelo Comitê Olímpico inclui diversas camadas temporais e narrativas, de
maneiras a permitir ampla visibilidade do evento, antes, durante e depois do
período dos Jogos.

Construção do universo

O universo construído no entorno dos Jogos Olímpicos de Sochi se


desenvolveu em várias plataformas de mídia, on e offline.  O fato de os Jogos
Olímpicos estarem rodeados de muita ação oferece amplas oportunidades de
expansão em toda a cobertura multiplataforma. No Rio de Janeiro, o evento se
expandiu por várias partes da cidade, o que proporcionou a oportunidade de
construir universos ainda mais ampliados. Numerosas manifestações artísticas
e shows foram programados durante o período dos Jogos. O Grupo Globo - que
inclui a Rede Globo (televisão), Globosat (televisão a cabo), Infoglobo (mídia
impressa) e Sistema Globo de Rádio (rádio) - envolveu várias plataformas
de conteúdo na cobertura. Foram criados diferentes conceitos para cada
plataforma de mídia, característica fundamental da narrativa transmídia e,
consequentemente, do jornalismo transmídia.

Personagens

Além da impressionante variedade de atletas internacionais, que foram o


foco principal da cobertura de notícias, a personagem-chave da transmissão
olímpica é o COI e suas ramificações. Várias personagens, além da série de
atletas internacionais, foram fontes da cobertura jornalística em 2014 e 2016.
Historicamente, a criação de personagens-âncora e as construções narrativas no
entorno de suas trajetórias de superação têm sido incentivadas e promovidas

246
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

pelo Comitê Olímpico, com suporte das emissoras oficiais (TÁRCIA, 2015).
No Rio, a visibilidade do estúdio da Rede Globo, no Parque Olímpico,
criou um fenômeno diferenciado em termos de coberturas Olímpicas. Durante
as principais transmissões televisivas, muitas pessoas se aglomeraram na
frente do prédio e acabaram sendo incorporadas ao show. Mesmo com esta
iniciativa, o controle excessivo, os regulamentos e os interesses econômicos do
COI restringiram a capacidade geral do público para participar ativamente da
cobertura de notícias de forma colaborativa. Portanto, o público não pode ser
considerado personagem principal da mídia em nenhuma das duas coberturas.

Extensões

A cobertura olímpica da Channel One incluiu transmissão de TV, transmissão


ao vivo on-line, um site especial (olymp.1tv.ru), redes sociais online globais e
locais (Facebook, Twitter, VKontakte e Odnoklassniki) e aplicativos móveis. O
Channel One, em colaboração com a RIA Novosti, criou um aplicativo móvel de
segunda tela para aumentar a cobertura de tela plana de Sochi 2014. Os esforços
do Channel One para tornar a experiência da segunda tela disponível durante
as Olimpíadas foram alinhados com a tendência internacional, especialmente
depois de Londres 2012. Não obstante, Channel One não avançou muito em
direção a uma experiência transmídia, porque tendeu a reorientar as informações,
em vez de oferecer novos conteúdos.
Apesar das restrições impostas pelo COI, a Rede Globo planejou a “maior
cobertura na história da emissora, após a inauguração do seu Estúdio Olímpico”
(REDE GLOBO, 2016c). A cobertura alargada envolveu todas as plataformas de
mídia do Grupo Globo: televisão, mídia impressa, internet e rádio. Durante as
transmissões, a participação pública nas mídias sociais online, mediada pela
hashtag #SomosTodosOlímpicos foi exibida ao vivo em uma tela gigante no
Estúdio Olímpico. Em uma parceria sem precedentes (REDE GLOBO, 2016a), o
perfil “Snapredeglobo” ofereceu conteúdo específico para o recurso “Histórias ao
vivo” no Snapchat, incluindo fotos e vídeos dos bastidores do evento, gravados
por jornalistas, comentaristas e fãs. Assim, foi estabelecida uma estratégia de
cobertura de notícias baseada em transmissão multiplataforma, na qual o conteúdo
específico foi atribuído a determinadas extensões para promover o engajamento.

Plataformas e gêneros

A cobertura de notícias Channel One convergiu para a televisão, internet e


plataformas de mídia móvel. A tecnologia móvel representa uma grande mudança
na cobertura Olímpica em todo o mundo, contribuindo para expandir o público
e a produção de conteúdo. As regras de mídia social do COI incentivaram a
postagem no ponto de vista da primeira pessoa, mas proibiram a divulgação de

247
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

informações confidenciais ou privadas relacionadas a equipes ou organizações


envolvidas nas Olimpíadas (IOC, 2013).
A perspectiva multiplataforma que delineou a cobertura de notícias dos
Jogos Olímpicos produzidos pela Rede Globo envolveu numerosos estilos
jornalísticos, como notícias, artigos, entrevistas e opinião. Embora a cobertura
multiplataforma do evento tenha se concentrado principalmente na televisão e
na internet, o rádio e os meios impressos também foram incluídos. Em suma, o
conteúdo produzido pela Rede Globo no âmbito da cobertura multiplataforma dos
Jogos Olímpicos foi complementar e, eventualmente, redundante, favorecendo as
escolhas dos usuários de acordo com seus hábitos de consumo midiático. Nesse
sentido, foi possível identificar a valorização de aplicativos e geolocalização de
segunda tela, bem como a interação nas redes sociais online, decorrentes do
conteúdo jornalístico oferecido pela emissora.

Audiência e mercado

De acordo com o Comitê Olímpico Internacional, para um registro de


102.000 horas de transmissão em televisão e plataformas digitais, o número
potencial de telespectadores durante os Jogos foi de 4.1 bilhões. Sochi 2014
foi transmitido por um número recorde de canais de televisão, mais de 300,
incluindo um número recorde de canais gratuitos, mais de 200. A diversidade
da cobertura e a variedade de modelos de negócio disponíveis durante os Jogos
contribuíram para experiências transmidiáticas simplificadas.
O público multiplataforma da Rede Globo registrou uma taxa de crescimento
incomparável. No que diz respeito ao impacto produzido pelo evento em diferentes
plataformas de mídia, a transmissão televisionada registrou um aumento de
40% das pessoas alcançadas, em comparação com as Olimpíadas de Londres
de 2012. Esses números mostram que a estratégia de cobertura multiplataforma
foi bem-sucedida: a Rede Globo bateu os recordes do público e tornou-se líder
desse segmento, atingindo um público variado com um projeto editorial robusto
e diversificado. No entanto, isso não significa que a participação cidadã tenha
permeado o planejamento editorial, mesmo que a participação tenha sido
discernível em contextos específicos, principalmente nas redes sociais online.

Engajamento

A relação entre o Movimento Olímpico e o público foi desafiada pela lógica


protetiva econômica do COI de exclusividade na geração e uso de imagens
e desejo das pessoas de compartilhar e participar. Em geral, a estratégia de
engajamento da audiência privilegiou a interação em detrimento da participação.
A interação pressupõe que o público possa “agir / reagir / interagir, mas não pode
interferir com a narrativa”, no sentido de que o “público pode decidir o caminho

248
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

para experimentá-lo, pode clicar aqui ou ali, pode reagir às entradas das redes
sociais, mas não é capaz de colaborar e co-criar” (GAMBARATO, 2012, p.
76). A participação implica cocriação, envolvendo o público “de uma forma
que expressa sua criatividade de forma única e surpreendente, permitindo-lhes
influenciar o resultado final” (GAMBARATO, 2012, p. 74).
Como reflexo, Channel One, em sua cobertura, privilegiou a interação em
detrimento da participação real. Portanto, a cobertura do Channel One funcionou
como um atrator cultural que conquistou “uma comunidade de pessoas que
compartilham interesses comuns” (JENKINS, 2009, p. 26), mas não como
um ativador cultural, o que daria à comunidade algo significativo a fazer em
perspectiva colaborativa.
De acordo com o estudo divulgado pela empresa de marketing SocialBrain
(SOUTELO, 2016), a Rede Globo alcançou o maior envolvimento de qualquer
marca em mídias sociais online durante os Jogos Olímpicos do Rio 2016.
Entretanto, como já ressaltado, as regras e regulamentos do COI diminuíram
as oportunidades para promover a participação, em perspectiva cocriativa, da
audiência na cobertura dos Jogos.

Estética

Historicamente, as coberturas midiáticas dos Jogos Olímpicos têm servido


como vitrine para uso e exposição das tecnologias de ponta disponíveis em cada
período (TÁRCIA, 2015). Em Sochi, a estética foi ampliada pelo uso de drones na
captura de imagens, infografias computadorizadas e imagens de alta resolução.
A inovação tecnológica marcou a cobertura jornalística dos Jogos Olímpicos
efetuada pela Rede Globo. Por um lado, não foram observadas inovações
linguísticas em relação, por exemplo, a iniciativas de incorporação de narrativas
de realidade virtual ou de newsgames na expansão de conteúdo. Por outro
lado, o planejamento editorial produziu estratégias sofisticadas de transmissão
e acesso à informação, disponibilizadas pela emissora em várias plataformas
de mídia. Por exemplo, o uso da realidade aumentada em aplicativos móveis,
como o Globo Rio 2016, permitiu ao público apontar seus smartphones em um
local de competição e receber informações em tempo real sobre o que estava
acontecendo naquele local específico. Os avanços tecnológicos foram destacados
pelas projeções holográficas e pela parceria estabelecida entre a Rede Globo e a
organização japonesa NHK para transmissões ao vivo no formato 8K de Ultra-Alta
Definição (UHD) durante as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos. A
série de narrativas especiais produzidas pela equipe do site globoesporte.com -
que empregou amplamente infografia, quadrinhos e animações - é outro exemplo
das preocupações com a criação de uma estética refinada, fundamentada na
produção de narrativas autônomas e complementares nas conexões digitais da
cobertura jornalística da Globo. No entanto, como em outros exemplos, este

249
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

elemento apresentou possibilidades limitadas para a participação cidadã, um


aspecto crucial para o desenvolvimento de narrativas transmídia.

Considerações finais

Os Jogos Olímpicos de Sochi e do Rio de Janeiro estiveram (e continuam)


cercados por controvérsias, antes, durante e após o evento, como tem acontecido
com todas as edições dos Jogos modernos, principalmente após o advento da
televisão (TÁRCIA, 2015). De questões ambientais a econômicas, da falta de
estabilidade política às ameaças terroristas, violações de direitos humanos e
corrupção alegada, as cidades e países-sede estiveram e ainda estão na mira da
imprensa mundial.
Em relação à perspectiva transmidiática das coberturas, em Sochi, podemos
falar de uma modesta expansão do conteúdo, especialmente por meio de
aplicativos online e móveis. A interação com o público existiu de forma bastante
limitada, principalmente nas redes sociais. Pode-se dizer que a cobertura russa
esteve mais próxima à proposta multitelas das Olimpíadas de 2012, do que
de uma experiência transmídia integral, particularmente em relação à cultura
participativa. As limitações da participação concreta do público na cobertura
oficial devem ser consideradas em suas várias facetas: (a) o fato de o Channel
One não oferecer oportunidades reais para o jornalismo participativo, que ainda
é uma nova experiência a ser desenvolvida na Rússia; (b) as restrições impostas
pelo COI; e (c) características inerentes à sociedade russa, como a autocensura
social (MOROZOV, 2011). Segundo este autor, «sabendo que podem ser vistos
por agentes do governo, mas não sabendo exatamente como essa vigilância
acontece, muitos ativistas podem se apoiar na autocensura ou até parar de
se envolver em comportamento de risco online» (MOROZOV, 201, p. 145).
Mesmo com a grande ressonância que, por exemplo, a hashtag #sochiproblems
tinha na Rússia, a resposta da audiência doméstica era mais humorística do
que crítica, com comentários como «não temos problemas na Rússia, temos
aventuras» (KEENEY, 2014, p. 8).
Apesar de uma modesta transmidialidade durante a cobertura olímpica,
o Channel One estava ciente das possibilidades desta proposta narrativa e
anunciou, em abril de 2014, a criação de um novo departamento responsável
pela expansão do conteúdo do canal por diferentes plataformas de mídia
(KITAEVA, 2014).
O mesmo conhecimento já existia na Rede Globo de Televisão, emissora
pródiga em produções transmídia no âmbito do entretenimento. A cobertura
jornalística da Rede Globo das Olimpíadas de 2016 envolveu, até certo ponto, as
três dimensões principais dos fenômenos transmídia. Em relação às plataformas
de mídia diversificadas, a Rede Globo aproveitou o consórcio de meios de
comunicação subsidiários no Grupo Globo, incorporando televisão, internet,

250
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

mídia impressa, redes sociais e rádio. O suporte principal da cobertura era a


televisão e a experiência da segunda tela foi amplamente oferecida ao público.
Não obstante, as redes sociais, como Instagram e Snapchat, desempenharam
um papel importante na expansão do conteúdo e na participação do público.
Um destaque da cobertura da Rede Globo foi o processo estrategicamente
orquestrado e o proativo, planejado com jornalistas que estruturaram uma
abordagem transmídia avançada. Este aspecto planejado/estratégico (FAST;
ÖRNEBRING, 2015) da cobertura, notável em 2016, é um passo à frente em
relação ao que a emissora ofereceu por ocasião da Copa do Mundo da FIFA 2014.
O planejamento e a integração transmídia de múltiplas plataformas,
disseminando conteúdo através de aplicativos móveis, transmissão em tempo real
na internet e em redes sociais, e uma experiência imersiva baseada em inovações
tecnológicas foram os principais destaques da cobertura da Rede Globo. No
entanto, a melhoria no engajamento da audiência, especialmente em termos de
participação cidadã, ainda deixa a desejar nas coberturas das Olimpíadas.

Referências

BARKHO, G. How social media changed the Olympics, and what it means for
#Rio2016. Later., 11 ago. 2016. Disponível em https://later.com/blog/how-
social-media-changed-the-olympics-and-rio-2016/. Acesso em: 22 ago 2016
FAST, K.; ÖRNEBRING, H. Transmedia world-building: The Shadow (1931–
present) and Transformers (1984–present). International Journal of Cultural
Studies, Londres, 2015.
FELTRIN, R. Exclusivo: Globo investiu US$ 250 milhões na Rio 2016 [Exclusive:
Globo invested US$250 million on Rio 2016]. UOL, Rio de Janeiro, 21 ago.
2016. Disponível em: https://tvefamosos.uol.com.br Acesso em: ago 2017.
FREEMAN, M. Industrial approaches to media: A methodological gateway to
industry studies. Londres: Palgrave Macmillan, 2016a.
FREEMAN, M. Historicising transmedia storytelling: Early twentieth-century
transmedia story worlds. Nova Iorque: Routledge, 2016b.
GAMBARATO, R. R. Signs, Systems and Complexity of Transmedia Storytelling.
Communication Studies, Londres, v. 12, p. 69–83, 2012.
GAMBARATO, R. R. Transmedia project design: Theoretical and analytical
considerations. Baltic Screen Media Review, Londres, v. 1, p. 80–100, 2013.
GAMBARATO, R. R.; TÁRCIA L. Transmedia Strategies in Journalism: An
Analytical Model for the Coverage of Planned Events. Journalism Studies,
Londres, v. 18, n. 11, p. 1381–1399, 2017.

251
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

GAMBARATO, R. R.; ALZAMORA, G.; TÁRCIA, L. Russian News Coverage


of 2014 Sochi Winter Olympic Games: A Transmedia Analysis. International
Journal of Communication, Londres, v. 10, p. 1446-1469, 2016.
GAMBARATO, R. R.; ALZAMORA, G.; TÁRCIA, L. Rio Summer Olympics and the
Transmedia Journalism of Planned Events. In: GAMBARATO, R. R.; ALZAMORA,
G. (Orgs.). Exploring Transmedia Journalism in the Digital Age. Hershey: IGI
Global, 2018.
GAMBARATO, R. R et al. 2014 FIFA World Cup on the Brazilian Globo Network:
A Transmedia Dynamics? Global Media and Communication, Londres, v. 13, n.
3, p. 283–301, 2017.
GETZ, D. Event studies: Theory, research and policy for planned events. New
York: Routledge, 2012.
HEPP, A.; COULDRY, N. Introduction: Media events in globalized media cultures.
In: COULDRY, N.; HEPP, A.; KROTZ, F. (Orgs.). Media events in a global age.
Londres: Routledge, 2010.
INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE. IOC social and digital media
guidelines for persons accredited to the Games of the XXXI Olympiad Rio
2016, 2015. Disponível em: https://stillmed.olympic.org/media Acesso em: 24
jun 2017,
INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE. Editorial use of the Olympic properties
by media organisations. 2016.
JENKINS, Henry. Convergence culture: Where old and new media collide. Nova
Iorque: New York University Press, 2006.
JENKINS, Henry. Transmedia education: the 7 Princples Revisited, 2010.
Disponível em: http://henryjenkins.org/2010/06/transmedia_education_the_7_
pri.html. Acesso em: 12 fev. 2017.
KERRIGAN, S.; VELIKOVSKY, J. T. Examining documentary transmedia
narratives through The Living History of Fort Scratchley Project. Convergence:
The International Journal of Research into New Media Technologies, Londres, v.
22, n. 3, p. 250–268, 2016.
KINDER, M. Playing with power in movies, television, and video games: From
Muppet Babies to Teenage Mutant Ninja Turtles. Berkeley: University of California
Press, 1991.
MOLONEY, K. T. Porting transmedia storytelling to journalism (Unpublished
master’s thesis). Denver: Universidade de Denver, 2011.
REDE GLOBO. Rio 2016: Globo e Snapchat fecham parceria para produção de
conteúdo. Rede Globo, Rio de Janeiro, 2016a. Disponível em: http://redeglobo.
globo.com/novidades/noticia/2016/08 Acesso em: 17 jul 2017.

252
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

REDE GLOBO. Aplicativo Globo Rio 2016: Guia de serviços e realidade


aumentada; baixe. Rede Globo, Rio de Janeiro, 2016b. Disponível em: http://
redeglobo.globo.com/novidades/noticia/2016/07/ Acesso em: 17 jul 2017.
RENÓ, D. Transmedia journalism and the new media ecology: Possible languages.
In: RENÓ, D et al. (Orgs.). Periodismo transmedia: Miradas múltiples. Barcelona:
Editorial UOC, 2014.
TÁRCIA, Lorena Péret T. Tramas da Convergência: cartografia de dispositivos
acoplados na cobertura dos Jogos Olímpicos de Verão pela BBC em 2012.
2015. 256 f. Tese (Programa de Pós-Graduação em Comunicação – Mestrado
e Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015.

253
O jornalismo e as zonas intermediárias
de circulação: uma abordagem metodológica

Demétrio de Azeredo Soster


Luana Ciecelski
Rodrigo Bartz
Thiago Haas Carlotto

Primeiros movimentos

Este capítulo busca refletir, em uma perspectiva qualitativa, nos moldes de


Demo (2000), sobre o que ocorre com os dispositivos de natureza jornalística
que integram o sistema midiático1 quando, em suas operações internas,
formam-se Zonas Intermediárias de Circulação (ZICs). Tratam-se, as ZICs,
de “(...) ‘zonas de contato’ de processualidade complexa, indeterminada, de
fluxo informacional contínuo, não previsível (...)” (SOSTER, 2017, 2017-a,
2017-b). Ou de “ambiências”, na nomenclatura de Gomes (2017) e Sodré
(2006), que se formam no interior dos dispositivos quando estes se veem
atravessados por circuitos informacionais múltiplos. Circuitos informacionais
múltiplos são fluxos de informação que se interpõe, de forma autorizada ou
não, nos processos de enunciação dos dispositivos (BRAGA, 2012). E que
tensionam, com estes atravessamentos, agora no diálogo com Fausto Neto
(2010), uma vez mais (SOSTER, 2017, 2017-a, 2017-b), as gramáticas de
produção e reconhecimento quanto às suas intenções de origem tanto em
termos de emissão quando de recepção.
As ZICs são “intermediárias” de uma forma substantiva, ou seja, porque
são bioindicadores da ação da circulação em um lugar usualmente pouco
observado nos estudos sobre este tema; neste caso, as processualidades internas
dos dispositivos. A afirmação se justifica à medida que o fluxo dos circuitos
informacionais geralmente é observado a) no espaço sistêmico existente entre
os dispositivos; b) entre os dispositivos e o sistema em que se inserem; c) entre
os dispositivos e outros sistemas; e, finalmente, d) entre os sistemas e o meio,
considerando-se que não se pode pensar sistema sem meio onde ele se insira
(LUHMANN, 2009). Pensar a circulação de informações nesta perspectiva,

1 O sistema midiático, no que ele tem de jornalístico, objeto de nosso interesse neste capítulo, é
composto pelo conjunto de dispositivos, em seus aspectos organizacionais ou institucionais, que, isola-
damente ou em seu conjunto, oferecem sentidos de natureza jornalística, caso, por exemplo, dos sites,
jornais, revistas, rádios etc.

254
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

portanto, implica delegar à mesma estatuto distinto daquele que usualmente


compreendiam-na como “zona insondável”, “intervalo” ou “lugar de passagem”
(FAUSTO NETO, 2010); espécie de caminho por meio do qual se alcançava este
ou aquele objetivo.
Observamos, em nosso percurso de pesquisa (SOSTER, 2017, 2017-a), que
a emergência das ZICs nestas ambiências se insere um fenômeno que se verifica
quando a midiatização, por meio da presença de circuitos múltiplos na tessitura
do sistema midiático, provoca interposições e atravessamentos nos referidos
dispositivos. Quando isso ocorre – e eis a essência da reflexão aqui proposta –
tem lugar uma série de reconfigurações narrativas, materializadas nos sentidos
que usualmente emergem das operações internas dos dispositivos, à revelia de
intencionalidades. É dizer, por outras palavras, que a circulação midiática, por
meio da presença de circuitos informacionais múltiplos na tessitura do sistema
midiático, interfere com cada vez mais potência nas operações dos dispositivos
de natureza jornalística, alterando seus “modos de dizer” e exigindo, de quem
analisa estes fenômenos, novas gramáticas explicativas.
O exemplo a seguir permite que observemos, preliminarmente, o que
estamos afirmando.
No dia 11 de fevereiro de 2018, um domingo, durante a transmissão do
desfile de carnaval, que estava se realizando na Avenida Marques do Sapucaí,
no Rio de Janeiro (RJ), os comentaristas da Rede Globo, a maior emissora de
televisão do país, omitiram que a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti realizara,
em seu desfile, severas críticas à conjuntura político-econômica do país. Estas
incluíam, entre outros, a caracterização do presidente Michel Temer como
“vampiro neoliberal” entre as alegorias que desfilavam naquele momento,
referências ao trabalho escravo no Brasil e outras de tonalidade semelhante.
O silêncio dos comentaristas em relação aos protestos que estavam ocorrendo
na avenida pela Paraíso do Tuiuti não passou despercebido das redes sociais,
caso do Facebook e do Twitter: logo em seguida, mensagens que circularam pelas
redes criticavam, em sua maioria, a forma parcial por meio da qual a cobertura da
Globo estava sendo realizada, como pode ser observado na matéria do site Fórum2:

A Rede Globo, enfim, não conseguiu mais esconder o que o Brasil todo havia
visto e repercutido nas redes sociais: protestos contra a violência no Rio de
Janeiro e críticas aos políticos, especialmente Michel Temer, e às questões
sociais foram uma marca forte e indiscutível deste Carnaval. Inicialmente,
o telejornal deu um tempo bem menor para a Paraíso do Tuiuti no dia
anterior, em relação às outras escolas. Além disso, durante a transmissão
dos desfiles, os apresentadores se calaram e sequer citaram os protestos.

É dizer, por outras palavras, que estes circuitos informacionais múltiplos, ao


2 Disponível em: [https://www.revistaforum.com.br/globo-se-rende-forca-das-redes-e-da-com-desta-
que-tuiuti-e-protestos-no-jn//] Acesso em: 29 maio 2018.

255
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

chegarem ao conhecimento da emissora de televisão, acabaram por determinar


mudanças de angulação no conteúdo por meio da qual a transmissão vinha
sendo realizada. O que se viu, a partir desde momento, foi um novo perfil
editorial onde a tônica do protesto não apenas era salientada como ganhava
lugar de destaque no conteúdo do noticiário. É o que está dito, literalmente, no
título de uma matéria veiculada no site da Folha de S. Paulo: “Globo de redime
de omissões sobre desfile da Tuiuti com edição do ‘carnaval dos protestos’”3
Instaurou-se, dessa forma, no âmbito das processualidades internas do
dispositivo “programa de televisão”, uma ZIC, cuja emergência, como vimos,
foi provocada pelas críticas que a mesma recebeu por meio das centenas de
mensagem que circularam pela internet tecendo comentários negativos à mesma.
O indício discursivo mais visível de sua presença, no exemplo demonstrado, é
a capitulação, por parte da emissora, do que vinha sendo noticiado: ao invés
de omissão, passaram a ser oferecidos noticiários com destaque às críticas que
vinham sendo realizadas na avenida.
Observar graficamente a composição das ZICs talvez nos
auxilie a compreender como isso se dá. As setas em vermelho
representam os circuitos múltiplos; as setas em azul, os diálogos
correferenciais, uma das características do jornalismo midiatizado4
(SOSTER, 2009). Graficamente, então, e com as limitações inerentes a este
modelo de representação, podemos compreender o exemplo acima a partir do
seguinte cenário:

Gráfico 1 – A formação das ZICs

Fonte: Elaboração do autor.

3 Matéria disponível em: [https://telepadi.folha.uol.com.br/globo-se-redime-de-omissoes-sobre-desfi-


le-da-tuiuti-com-uma-geral-sobre-o-carnaval-dos-protestos-no-jn/] Acesso em: 29 maio 2018.
4 As demais características são autorreferência, descentralização, dialogia e atorização.

256
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Reiterando o que afirmamos anteriormente, as ZICs se tornam visíveis,


por assim dizer, quando informações que circulam pela internet “invadem” os
dispositivos e acabam por interferir na processualidade interna destes. Não se
trata de um movimento de autorreferência, ou mesmo acoplamento estrutural, na
linguagem sistêmica (LUHMANN, 2009), provocados, em essência, pela irritação,
mas de atravessamentos, interposições. O gráfico 2, ao particularizar a criação da
ZIC no âmbito do dispositivo, permite que observemos melhor como isso se dá.

Gráfico 2 – Formação das ZICs no interior do dispositivo

Fonte: Elaboração do autor.

No exemplo que usamos acima (Gráfico 2), o círculo azul representa o


dispositivo telejornal da Rede Globo que transmitiu o desfile de carnaval. Isso em
seus aspectos organizacionais, ligados a emissores de televisão, e institucionais,
referentes ao caráter jornalístico da empresa. As setas vermelhas, por sua vez,
são os circuitos informacionais, ou seja, todas as mensagens que passaram a
ser veiculadas pela internet a partir do momento em que o noticiário omitiu,
em suas enunciações, as críticas que vinham sendo feitas na avenida. De sua
interseção e atravessamentos com o dispositivo, emergem as ZICs, ilustradas
pelos círculos em cinza.

Primeiros obstáculos metodológicos

De imediato, e antes mesmos das necessárias delimitações conceituais,


devemos observar que a emergência das ZICs no interior dos dispositivos é fenômeno
de delicada apreensão metodológica. Isso se deve a pelos menos dois fatores, o
primeiro deles ligado ao fato de o objeto estar em movimento5; transformando-se,
5 Desde 2010, pelo menos, alertávamos, no prefácio ao livro “Midiatização e processos sociais:
aspectos metodológicos” (Edunisc, 2010), que a principal dificuldade, quando o assunto é pensar as
reconfigurações decorrentes da processualidade da midiatização, era justamente o caráter efêmero dos
fenômenos observados e a intensidade com que ocorriam, cada vez mais acelerada. Em particular,
quando se estabelecem em objetos cujas matrizes constitutivas são seminalmente propensas a transfor-
mações, caso dos sites e redes sociais, de materialidade intermitente, portanto, não obstante as pistas
discursivas que suas operações deixam pelo percurso em que transitam e que nos permitem, ao fim,
reconhecê-los como tendo existido, pelo menos.

257
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

portanto, a cada momento. Significa, considerando Bergson (2005) na discussão,


que toda tentativa de o apreender, ou mesmo circunscrever em margens muito
precisas, dirá, antes, de um excerto do que do objeto propriamente dito.
O segundo obstáculo epistemológico é decorrência do primeiro e diz respeito
à materialidade dos sentidos que são gerados a partir da emergência das ZICs no
cenário proposto; neste caso, o interior dos dispositivos. Por materialidade dos
sentidos, vamos compreender o lugar onde as regras discursivas são explicitadas
e podem, portanto, ser reconhecidas como tal (TRAVERSA, 2014). É perguntar,
por outras palavras, se os sentidos que emergem, na forma de enunciados, das
reconfigurações provocadas pela ação das ZICs na processualidade interna dos
dispositivos são suficientes para que possamos apreendê-los de forma satisfatória.
No primeiro caso, podemos adiantar que o caráter intermitente, portanto
transitório, dos sentidos gerados a partir das ações produzidas pela emergência das
ZICs, será considerado “em essência”, ou seja, antes como característica primeira do
objeto que como obstáculo à sua análise. Partindo-se deste pressuposto, as marcas,
ou resíduos decorrentes da processualidade de suas operações se posicionam como
indexadores de instâncias mais profundas de significação (SOSTER, 2016).
Estamos nos referindo à existência de camadas superpostas de significação
textual que se estabelecem como pistas discursivas por meio das quais
podemos chegar a níveis narrativos de compreensão. Uma vez identificadas
estas pistas, ou marcas não homogêneas, na nomenclatura de Verón (1980,
2004), distribuídas na superfície dos objetos analisados, podemos alcançar,
então, identitariamente, as ZICs pelo viés da análise das operações linguísticas
que interferem diretamente nas “(...) formas de organização de circulação de
discursos” (FAUSTO NETO, 2013, p. 6).
No estágio atual da pesquisa, debruçamo-nos, do ponto de vista empírico,
sobre cinco casos em que as interposições e atravessamentos de circuitos
múltiplos provocaram a emergência de ZICs no interior dos dispositivos de
natureza jornalística. São eles 1) denúncia de assédio sexual da Rede Globo
(envolvendo funcionários da maior emissora de televisão do Brasil); 2) E se não
der certo? (sobre manifestações realizadas por alunos de uma escola de ensino
médio de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul); 3) Ladrão e vacilão (sobre
castigos físicos que um tatuador impingiu em um menino que flagrou furtando
em seu estúdio, em São Paulo); 4) cartografias da diferença (manifestações
sexistas contrárias a uma exposição em Porto Alegre); e, finalmente, 5) crime
no futebol (sobre goleiro de um time e futebol acusado de matar a sua mulher e
esconder o corpo dela).
Por se tratarem de eventos muito complexos, e considerando os
constrangimentos espaciais, ilustraremos nossa reflexão com os casos de número
1), 2) e 4), considerando, na escolha, que, por meio delas, podemos ter uma
visão das demais na problemática proposta. Antes disso, porém, as necessárias
delimitações conceituais.

258
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Delimitações conceituais

As tentativas de delimitações conceituais que faremos a partir desde


momento vêm sendo refletidas, e tensionadas em sua relação com o objeto
de pesquisa – a emergência das ZICs, desde 2016, pelo menos, em eventos
científicos6, capítulos e artigos, ou mesmo junto aos esforços decorrentes
do trabalho que desenvolvemos junto ao Grupo de Estudos sobre Narrativas
Literárias e Midiáticas (Genalim), ligado ao CNPq. Trata-se, portanto, aqui, de
uma revisão crítica de conceitos norteadores que busca, a um tempo, esclarecer,
delimitar e sistematizar as chaves hermenêuticas utilizadas neste capítulo,
refletindo sobre as mesmas neste movimento e confrontando-as com os novos
cenários que se interpuseram em nosso caminho de pesquisa.
Comecemos por salientar que a circulação midiática, nos moldes que
estamos pensando, é substancialmente distinta do conceito canônico de circulação
jornalística. A diferença se estabelece (SOSTER, 2016; 2017) à medida que,
para o jornalismo, circulação tem a ver, processualmente, a) com o percurso
por meio do qual determinada informação segue até alcançar seu destino, mas,
também, em um aspecto organizacional, b) com setores da empresa jornalística
responsáveis por fazer com que isso se dê dessa forma (BAHIA, 2010; ZAGO,
2012; MACHADO, 2008; NEIVA, 2013; RABAÇA, BARBOSA, 1995).
Assim, no caso dos veículos impressos, por exemplo, circulação tanto é o
caminho por meio do qual o jornal ou revista faz para chegar à casa do assinante
como os locais (bairros, bancas etc.) onde são distribuídos e o departamento da
empresa responsável por este trabalho. Pensando-se nos eletrônicos – rádios,
televisões e sites, por exemplo, algo semelhante se verifica, mesmo que, nestes
casos, não se tenha um controle tão aproximado7 como se tem com os impressos8;
considerando o caráter eletrônico, portanto difuso, das transmissões.
Já na perspectiva midiatizada, portanto não circunscrita apenas à atividade
jornalística, circulação tem a ver, antes, com “espaço gerador de potencialidades”
(FAUSTO NETO, 2010) do que como percurso existente entre uma instância e
outra de determinados processos produtivos, ainda que não exclua estes, o que
nos permite pensá-la como dispositivo. É dizer, de outra forma, que não se trata
mais de se observar “para onde se vai e de onde se partiu”, considerando, no
olhar, o percurso e o caminho, mas o que acontece entre estas instâncias.
Transformamos, dessa maneira, a circulação em “lugar de inscrição” capaz

6 Caso dos encontros anuais da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor),


Centro Internacional de Semiótica e Midiatização (Ciseco); Seminário Internacional de Pesquisa em
Midiatização e outros de natureza e relevância semelhantes.
7 Preferimos a expressão “aproximado” porque a experiência em 25 anos de redações jornalísticas
de todos os portes ou matizes nos permite observar que, por mais racionais que sejam os processos de
circulação, em particular nos veículos impressos, nunca se obtém um grau absoluto de controle dado à
complexidade de operações dessa natureza.
8 É o que fez Zago (2012) criar o conceito de recirculação, ou seja, a circulação que ocorre além dos
“limites” previstos.

259
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

de se transformar ela própria em “operadora de novas condições de produção”


(FERREIRA, 2013, p. 147). Tem-se, no cerne dessa delimitação, a emergência
de uma nova perspectiva para se pensar a circulação, que, vista como novo
objeto (FAUSTO NETO, 2010), deixa de ser um conceito associado a defasem,
ou mesmo diferença, e passa a ser compreendido como articulação entre as
gramáticas de produção e reconhecimento.
Observe-se que são, sob outro ângulo, as duas formas de se pensar a
circulação, antes complementariedades que diferenças, à medida que a
presença de uma (circulação jornalística) pode ser pensada concomitantemente
à existência da outra (midiática), mas com uma diferença a ser considerada:
no cenário atual, e com cada vez mais frequência, a circulação midiática não
apenas interfere como reconfigura processualmente a circulação jornalística.
Não enfrentaremos esta discussão neste momento, sob o risco de
desviarmos o foco da atenção. Importa observar, antes, que a materialidade da
circulação midiática se estabelece, como sugerido acima, a partir da ação dos
fluxos informacionais na tessitura do sistema midiático, onde os dispositivos
de natureza jornalística se inserem. E que estes fluxos, gradativamente
(BRAGA, 2012), não apenas interferem, relacionalmente, em todos os setores
da sociedade (dispositivos, sistemas e meio) como reconfiguram gramáticas
secularmente instituídas:

O fato de que os circuitos em desenvolvimento tenham a tendência


assinalada – de “atravessar” os campos sociais estabelecidos – mesmo
quando o ponto de origem de um circuito é um desses campos (...),
leva a uma espécie de “recontextualização”. As referências habituais
se encontram deslocadas ou complementadas por referências menos
habituais – fazendo com que os próprios circuitos em desenvolvimento
elaborem e explicitem os contextos requeridos para atribuição de sentidos
aos produtos e falas que circulam. (BRAGA, 2012, p. 49).

Os deslocamentos, ou complementaridades, a que se refere Braga (2012),


que são, ao fim, decorrência dos atravessamentos ocorridos nos campos sociais
pelos circuitos múltiplos, nos ajudam a compreender, por exemplo, porque uma
das características mais evidentes das ZICs é, justamente, a reconfiguração na
produção de sentidos em decorrência das referidas interposições. Em palavras
mais simples, por que o jornalismo tem se mostrado tão suscetível a inferências
externas ao ponto de mudar, com cada vez mais frequência, o conteúdo de
seus relatos sempre que se vê atingido por circuitos externos, o que até há
bem pouco tempo não ocorria, pelo menos não de forma tão imediata, em
decorrência da posição axiomática que ocupava na estrutura social em que
nos inserimos?
Dito isso, vejamos, agora, três exemplos de como as ZICs reconfiguram as
processualidades internas dos dispositivos de natureza jornalística.

260
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A processualidade do objeto
Assédio sexual na Rede Globo de Televisão

Partiremos, agora, para análise empírica da forma como as ZIC interferem


na processualidade dos dispositivos. O primeiro evento que analisaremos
envolve, de um lado, José Mayer, ator da Rede Globo, a maior holding do setor
da comunicação no país, com televisões, rádios, jornais, sites etc., e Susllem
Meneguzzi Tonani, de 28 anos, figurinista da emissora. Em carta veiculada
no blog #Agoraéquesãoelas9, do site UOL, ligado ao jornal Folha de S. Paulo,
concorrente da Rede Globo, a funcionária de 28 anos realiza um relato de 16
parágrafos, em tom confessional, intitulado “José Mayer me assediou”.
Um trecho da denúncia:

Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença


de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez
fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim,
ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu
desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar no meu lugar, não ficaram
constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só,
desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti
desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade,
sororidade10.

Na sexta-feira, dia 31 de março de 2017, a denúncia é retirada do blog


#Agoraéquesãoelas sob alegação de que feria os princípios editoriais da empresa,
haja vista que teria sido veiculada sem o depoimento da parte acusada11. Isso
viria a ocorrer somente às 17h30 daquele dia, liberando, portanto, dessa forma,
a veiculação do conteúdo escrito pela figurinista Susllem Meneguzzi Tonani no
blog #Agoraéquesãoelas. Após o momento da liberação da informação no blog
#Agoraéquesãoelas”, uma frase de duas linhas no texto que antecedia o relato
com um link para outra matéria do site do jornal Folha de S. Paulo informava
que “(...) devido ao trabalho de apuração e investigação do jornal e o esforço
de redação de escuta do outro lado (...)12” a mesma estava sendo finalmente
liberada à leitura.

9 Disponível em < http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/03/31/jose-mayer-me-asse-


diou/>
10 Disponível em: http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/03/31/jose-mayer-me-assediou/
Acesso em: 10 abr. 2017.
11 Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/03/1871534-folha-tira-do-ar-tex-
to-que-cita-o-ator-jose-mayer.shtml> Acesso em: 10 abr. 2017.
12 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/03/1871543-jose-mayer-da-globo-e-
-acusado-de-assedio-por-figurinista-ator-nega.shtml > Acesso em: 10 abr. 2017 <http://www1.folha.uol.
com.br/cotidiano/2017/03/1871543-jose-mayer-da-globo-e-acusado-de-assedio-por-figurinista-ator-nega.
shtml>

261
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Imagem 1: notícia irrita sistema midiático por meio de um blog

Fonte: #Agoraéquesãoelas

A partir deste momento, e em decorrência de um complexo processo de


correferenciação, o assunto deixa a esfera Globo/Folha de S. Paulo e se espraia
entre os demais dispositivos do sistema midiático. Depois de ser veiculada pelo
dispositivo blog com o título “José Mayer me assediou” escrito entre aspas,
denotando à fala um tom confessional, a notícia irritou gradativamente os demais
dispositivos do sistema que, por meio de operações de natureza correferencial,
passaram a repercutir o acontecimento. É o caso da revista Isto É13, que o faz em
seu site por meio da veiculação de matéria intitulada “José Mayer é acusado de
assédio por figurinista”:

Imagem 2: demais dispositivos passam a repercutir o acontecimento

Fonte: Revista Isto É.

13 Disponível em : < http://istoe.com.br/jose-mayer-e-acusado-de-assedio-por-figurinista/> Acesso


em: 10 abr. 2017.

262
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

E de texto veiculado no Jornal O Dia14 por meio de uma coluna especializada


em “destaques do mundo dos famosos”.

Imagem 3: abordagem a partir de aspectos familiares

Fonte: O Dia.

O site ClicRBS, ligado à holding Rede Brasil Sul de Comunicações, segue


a repercussão a partir de outras pessoas envolvidas direta ou indiretamente com
o autor, neste caso uma atriz que afirma ter passado o mesmo que a figurinista:

Imagem 4: novas denúncias

Fonte: ClicRBS.

14 Disponível em: < http://leodias.odia.ig.com.br/pronto-falei/2017-04-08/pronto-falei-mais-juntos-


-do-que-nunca-declara-mulher-de-jose-mayer.html> Acesso em: 10 abr. 2017

263
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Em um primeiro momento, por meio da criação de ZICs no âmbito dos


dispositivos; depois, no sistema como um todo. No exemplo que estamos
analisando, podemos observar, no primeiro caso, que um circuito informacional
se interpôs na processualidade das gramáticas de produção do dispositivo blog
e causou tensionamentos internos. O mais evidente deles diz respeito ao fato
de, mesmo já tendo sido veiculada, a notícia é retirada de circulação sob o
argumento de que “fere as normas internas de veiculação da empresa que dá
sustentação ao blog”, sendo disponibilizada novamente somente quando estas
exigências internas foram observadas.
Sabemos dessas operações por meio de marcas textuais deixadas na
superfície do dispositivo, caso da matéria publicada na editoria de “Cotidiano”
do jornal Folha de S. Paulo sob o título “Folha tira do ar texto que cita o ator
José Mayer” (Imagem 5), veiculada às 14h22 do dia 31 de março de 2017. Em
quatro frases, e de forma autorreferencial, é afirmado que 1) o texto foi retirado
do ar; 2) isso ocorreu porque feria as normas internas da empresa; 3) uma vez
sanado o “defeito”, a matéria era disponibilizada novamente e, finalmente, 4) é
dado em reportagem veiculada às 17h30 o espaço para o contraditório, ou seja,
para a opinião do autor José Mayer.

Imagem 5: marcas da presença de ZIC

Fonte: Folha de S. Paulo.

Observe-se, ainda, que não se trata apenas de um movimento segundo o


qual o dispositivo, irritado por uma informação vinda do meio em que se insere, ou
dos demais sistemas, absorve-a, pelo viés da irritação, e reduz sua complexidade
por meio de operações autorreferenciais. É mais do que isso: trata-se, antes, de
um atravessamento que tensiona o próprio dispositivo, e que é classificado,

264
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

textualmente, conforme enunciado no terceiro parágrafo, de “defeito”; ou seja,


algo que não estava previsto. Por meio dessa marca identificamos a presença,
no âmbito do dispositivo, de uma zona intermediária de circulação.
As redes sociais (Facebook, Twitter, blog etc.) exercem papel fundamental
nesta processualidade, à medida que é por meio delas que os circuitos
informacionais usualmente se estabelecem e atravessam o sistema midiático.
Importante lembrar que as redes sociais se tratam, igualmente, de dispositivos,
nos moldes daqueles que compõem o sistema midiático, mas não estão
institucionalmente incorporados a este, ainda que estes se valham de dispositivos/
redes sociais como Instagram, Facebook, Twitter etc. para estabelecer seus
diálogos e realizar suas consequentes ofertas de sentido.
É o que se constata quando se observa que o assunto “assédio sexual”
deixou o âmbito do sistema e passou a ser discutido livremente, sem a mediação
institucional dos jornais, revistas, rádios etc. por estes dispositivos.

Imagem 6: outros atores15

Fonte: Facebook.

15 É o que demonstra este post: https://www.facebook.com/leticia.sabatella.1/


posts/1265007726939521. Ou este: https://www.facebook.com/ticosantacruz/
posts/1104924556306850

265
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Imagem 7: outras redes sociais16

Fonte: Twitter.

Imagem 8: blogosfera17

Fonte: Blog Escreva Lola Escreva

A reação a esta espécie de entropia provocada pela instauração de ZICs no


sistema midiático se deu por meio de uma operação de natureza autorreferencial
16 Exemplos: https://twitter.com/VEJA/status/849292165524180992 e https://twitter.com/ThaiCo-
menta/status/849323205215100928
17 Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2017/03/figurinista-denuncia-jose-
-mayer-por.html> Acesso em: 10 abr. 2017.

266
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

ocorrida no âmbito das gramáticas de produção do dispositivo Rede Globo.


Nela, a emissora, pelo viés de notícia veiculada no Jornal Nacional, um de seus
principais programas informativos, anunciou a suspensão do ator José Mayer
“por tempo indeterminado”18. Uma apresentadora leu, no mesmo programa,
editorial em que salientou as medidas que tomaria diante das denúncias,
solidarizando-se com as manifestações e com a denunciante.
No mesmo contexto, foi lida, pela apresentadora do telejornal, carta de
José Mayer em que este admitia, publicamente, no programa em um quadro
negro ilustrado com uma foto sua e o símbolo da emissora, sob o título “Nota
de José Mayer”, não apenas sua culpa no episódio como a necessidade de uma
retratação em caráter ‘público’: “(...) A atitude correta é pedir desculpas. Mas
isso só não basta. É preciso um reconhecimento público, que faço agora19.”
O retratado afirmava, textualmente, mais adiante, e ainda pela voz da
apresentadora, “que o mundo havia mudado”, ou seja, que agora havia outros
valores, outras regras, e que ele achava bom que isso estivesse acontecendo.
Necessário salientar que, operacionalmente, não obstante o texto sugerir que
o autor do pedido de desculpas fosse mesmo José Mayer, quem o fazia era o
primeiro narrador, ou seja, a organização/instituição Globo, pela voz do segundo
narrador, neste caso a apresentadora do programa. Coube a Mayer, neste
contexto, o papel de personagem de sua própria história.

Imagem 9: reação do sistema

Imagem 10: reação do sistema

Fonte: G1.

18 Disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/globo-suspende-jose-mayer-atrizes-fazem-pro-


testo-contra-assedio.ghtml Acesso em: 10 abr. 2017
19 Disponível em http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/globo-suspende-jose-mayer-atrizes-fazem-pro-
testo-contra-assedio.ghtml Acesso em: 13 abr. 2017.

267
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Imagem 10: vozes narrativas no dispositivo

Fonte: G1.

Cartografias das diferenças

O segundo caso que ilustra a ação das ZICs é a exposição “Queermuseu


- Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”. Inaugurada a 15 de agosto de
2017, no Centro de Cultura Santander Cultural, em Porto Alegre, a mostra
(Imagem 1120) foi cancelada no dia 10 de setembro após manifestações nas
redes sociais. Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, os trabalhos ficariam em
cartaz até 8 de outubro. Entretanto, o espaço cultural cedeu às pressões de
internautas, que a criticaram nas redes sociais sob o argumento de que algumas
das obras desrespeitavam símbolos e crenças estabelecidos na sociedade.

Imagem 11: anúncio da mostra

Fonte: Facebook Santander Cultural.

20 Disponível em: https://www.facebook.com/pg/SantanderCultural/posts/ Acesso em: 7 maio 2018>

268
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Um dos críticos foi o advogado Cesar Cavazzola Junior, que publicou um


texto opinativo no portal Lócus21, de Passo Fundo, interior do Rio Grande do Sul,
no dia 6 de setembro, criticando a realização do evento (Imagem 12).

Imagem 12: críticas

Fonte: Lócus.

Novas postagens nas redes sociais (Imagem 1322) se multiplicam e


grupos políticos entram em cena.

Imagem 13: novas críticas

Fonte: Facebook

21 Disponível em: http://www.locusonline.com.br/2017/09/06/santander-cultural-promove-pedofilia-


-pornografia-e-arte-profana-em-porto-alegre/ Acesso em: 3 maio 2018.
22 Disponível em: https://www.facebook.com/direitasulista/posts/ Acesso em: 3 maio 2018.

269
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A partir disso, o Santander Cultural vê-se obrigado a posicionar-se e divulga


nota, via site (Imagem 14), configurando efetivamente a Zona Intermediária de
Circulação (ZIC), para esclarecer os propósitos da mostra. Logo em seguida,
anuncia, igualmente por meio do dispositivo site (Imagem 15), o cancelamento
da exposição.

Imagem 14: formação de uma ZIC

Fonte: Facebook Santander Cultura

Imagem 15: cancelamento da mostra

Fonte: Facebook Santander Cultural.

270
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

E se não der certo?

O terceiro e último caso analisado envolvendo a criação de ZICs no interior


de dispositivos jornalísticos ocorreu no dia 17 de maio de 2017, quando o site
Bambô23, do Grupo Editorial Sinos, de Novo Hamburgo – o segundo maior grupo
editorial do Estado (RS), veiculou fotorreportagem em slideshow dando conta
de evento ocorrido em uma escola daquele município. Na fotorreportagem, os
alunos do último ano do Ensino Médio perguntavam-se, por meio de cartazes,
fantasias e performances teatrais, o que fariam de suas vidas depois da escola
“se nada desse certo”. A ideia era ironizar a possibilidade de um futuro sombrio
aos olhos dos estudantes.

Imagem 16: profissões “menores”

Fonte: Bambô.

Imagem 17: notícia em primeira mão

Fonte: Bambô

23 http://www.bombors.com.br/ Acesso em: 10 abr. 2017

271
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A exemplo do que ocorreu no movimento anterior, a notícia começa a


circular na internet e provoca, neste movimento, a emergência de atores “não
autorizados” à discursividade midiática. Estes, por sua vez, começam a disparar
circuitos informacionais múltiplos, que acabam por irritar os demais dispositivos
que compõem o sistema midiático. Valem-se, para isso, de blogs e redes sociais,
por meio dos quais posicionam-se a respeito do assunto, invariavelmente de
forma contrária.
Importante lembrar (SOSTER, 2016) que os dispositivos repetem, em seu
interior, a mesma processualidade do sistema do qual fazem parte, de natureza
autorreferencial. Ou seja, sofrem, igualmente, irritações do meio em que se
inserem, absorvendo-as, como veremos em seguida. É o que nos sugerem os
exemplos abaixo (imagens 18 e 19):

Imagem 18: comentários via Twitter

Fonte: Twitter.

272
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Imagem 19: Redes sociais

Fonte: Facebook.

Estes movimentos, gradativamente, como sugerimos acima, acabam por


afetar os dispositivos do sistema midiático. Estes, por sua, vez, passam a divulgar
a notícia do evento na mesma tonalidade que os circuitos múltiplos, ou seja,
tecendo, em seus enunciados, comentários negativos à ação veiculada pelo site
Bambô. É o que ocorre, por exemplo, em matéria local do site G1 (Imagem 20),
cujo título é “Atividade com alunos vestidos de vendedores e garis em caso de
não aprovação no vestibular causa polêmica”.

Imagem 20: dispositivos repercutem ação

Fonte: G1.

273
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

À medida que todos os atravessamentos e interposições prosseguem, uma


Zona Intermediária de Circulação (ZIC) acaba por se formar no site Bambô, que
é obrigado a rever sua estratégia discursiva frente à “pressão” formada pela
presença de circuitos múltiplos no sistema midiático. Isso é feito por meio de dois
movimentos: o primeiro, e mais imediato, pela retirada do conteúdo original.
O segundo, por uma “Nota de esclarecimento” assinada pela instituição
que promoveu a ação em que esta afirma, em um texto de seis parágrafos, que
não houve intenção, de sua parte, em discriminar quem quer que fosse, muito
menos profissões: “(...) até porque, muitas delas fazem parte do próprio quadro
administrativo e são essenciais para o bom funcionamento da instituição”
(Imagem 21).

Imagem 21: reconfigurações

Fonte: Bambô.

Considerações interpretativas

Quando o assunto é refletir, metodologicamente, sobre o impacto das


Zonas Intermediárias de Circulação (ZICs) na processualidade dos dispositivos,
para além dos que já foram elencados neste artigo, dois obstáculos se interpõe
ao esforço de pesquisa. O primeiro deles está relacionado ao fato de que, não
obstante haver referências, na literatura, às zonas de contato que se formam
em decorrência dos atravessamentos e interposições provocados pela presença
de circuitos múltiplos na tessitura do sistema midiático (FAUSTO NETO, 2010;
GOMES, 2017), nenhuma delas observa a questão na perspectiva jornalística.
Ou seja, não considera, deontologicamente, as especificidades desta
reconfiguração, que se estabelece no referido cenário, como procuramos fazê-lo
aqui, limitando-se, na análise, a perceber a existência de fenômenos de natureza

274
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

semelhante às ZICs (as zonas de contato). É dizer, por outras palavras, que, em
se tratando de compreender reflexivamente as ZICs na perspectiva jornalística,
todo movimento é seminal, da ordem do porvir.
O segundo aspecto está relacionado à estratégia metodológica mais
adequada para dar conta de uma problemática dessa natureza. Se, de um
lado, sugerimos, neste capítulo, que “seguir as pistas” discursivas nos permite
compreender, ao fim, as reconfigurações narrativas que sofrem os dispositivos,
também é importante lembrar, como dito, e agora com Bergson (1995), que
o objeto está em movimento. Assim, muda constantemente, constituindo-se,
esta, antes uma característica do mesmo que um obstáculo. Bem por isso,
segue sugerindo que as ferramentas metodológicas utilizadas até então, sejam
no plano na comunicação, ou em sua especificidade jornalística, talvez não
sejam as mais adequadas para dar conta de uma problemática dessa dimensão.
É bem verdade que a abordagem qualitativa, com suas dimensões pragmáticas
e reflexivas, nos posiciona melhor diante do objeto. É por meio dela, por exemplo,
que definimos caminhos empíricos (gráficos, marcas textuais, processualidades
etc.) e sua necessária interpretação, mas isso antes de maneira indiciática que
peremptória. Ou seja, usando uma expressão referenciada em algum momento
neste capítulo, como indicador da existência de camadas mais profundas de
significação que como resultado efetivo. Resta ainda, portanto, considerando que
nossos esforços de pesquisa caminham neste sentido, o movimento do objeto e
a relevância e atualidade do fenômeno em questão, compreender este como um
desafio a ser considerado doravante em nosso percurso de pesquisa.

Referências

BAHIA, Juarez. Dicionário de Jornalismo. São Paulo: Mauad X, 2010.


BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
BRAGA, José Luiz. Circuitos versus campos sociais. In: JANOTTI JÚNIOR, J.;
MATTOS, M. A.; JACKS, N. Mediatização & midiatização. Salvador: EDUFBA;
Brasília: Compós, 2012.
DEMO, Pedro. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000.
GOMES, Pedro. Dos meios à mediação: um conceito em evolução. São Leopoldo:
Unisinos, 2017.
FAUSTO NETO, Antonio. Como as linguagens afetam e são afetadas na
circulação?. In: BRAGA, J. L. et al (Orgs.). Dez perguntas para a produção de
conhecimento em comunicação. 1. ed. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2013.
FAUSTO NETO, Antonio. As bordas da circulação. In: MEDIATIZACIÓN,

275
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

SOCIEDADE Y SENTIDO: DIÁLOGOS ENTRE BRASIL E ARGENTINA, 2010,


Rosário. Anais... Rosário: Departamento de Ciencias de la Comunicación, 2010.
FERREIRA, J. Como a circulação direciona os dispositivos, indivíduos e
instituições? In: BRAGA, J. L. et al (Orgs.). Dez perguntas para a produção de
conhecimento em comunicação. 1. ed. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2013.
LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
MACHADO, Elias. Sistemas de circulação no ciberjornalismo. Eco-Pós, Rio de
Janeiro, v. 11, n. 2, p. 21-37, 2008.
NEIVA, Eduardo. Dicionário Houaiss de comunicação e multimídia. São Paulo:
Publifolha, 2013.
RABAÇA, C. A.; BARBOSA, G. Dicionário de comunicação. São Paulo: Ática, 1995.
SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e
em rede. Rio de Janeiro: Vozes, 2006
SOSTER, Demétrio de Azeredo. O sistema midiático, os circuitos múltiplos e a
emergência das Zonas Intermediárias de Circulação. In: COLÓQUIO SEMIÓTICA
DAS MÍDIAS, 6., 2017, Japaratinga. Anais... Japaratinga, AL: UFAL, 2017.
SOSTER, Demétrio de Azeredo. O sistema midiático, os circuitos múltiplos e a
emergência das Zonas Intermediárias de Circulação. In: ENCONTRO NACIONAL
DE PESQUISADORES EM JORNALISMO - SBPJOR, 15., 2017a, São Paulo.
Anais... São Paulo: Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo,
2017a.
SOSTER, Demétrio de Azeredo. A midiatização das narrativas de bicicleta. In:
SOSTER, D. A.; PICCININ, F. (Orgs.) Narrativas midiáticas contemporâneas:
perspectivas epistemológicas. Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017-b. E-book.
SOSTER, Demétrio de Azeredo. O quarto narrador na perspectiva da circulação
midiática. In: COLÓQUIO SEMIÓTICA DAS MÍDIAS, 5., 2016, Japaratinga.
Anais... Japaratinga, AL: UFAL, 2016.
______. O jornalismo em novos territórios conceituais: internet, midiatização
e a reconfiguração dos sentidos midiáticos. 2009. (186p.) f. Tese (Programa
de Pós-graduação em Comunicação – Mestrado e Doutorado) - Universidade do
Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2009.
TRAVERSA, Oscar. Inflexiones del discurso: cambios y rupturas em las
trayectorias del sentido. Buenos Aires: Santiago Arcos Editor/Sema, 2014.
VERÓN, Eliseo. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo: Editora da Unisinos, 2004.
VERÓN, Eliseo. A produção de sentido. São Paulo: Cultrix, 1980.
ZAGO, Gabriela da Silva. Circulação jornalística potencializada: o twitter como
espaço para filtro e comentário de notícias por interagentes. C&S – São Bernardo
do Campo, São Bernardo do Campo, v. 34, n. 1, p. 249-271, jul./dez. 2012.

276
Proposta metodológica para análise
de reportagens hipermídia

Alciane Baccin

Ensaios gerativos

A proposta deste capítulo parte de discussões provocadas durante meu


doutorado. Na tese “Como contar histórias? O hipertexto jornalístico nas
reportagens hipermídia”, defendida em 2017, no Programa de Pós-Graduação
em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), sob orientação da professora Luciana Mielniczuk (in memorian), aplico
esta proposta de análise. A questão que move este capítulo é a carência de uma
metodologia que dê conta de analisar tanto as características hipertextuais das
reportagens hipermídia quanto a estruturação narrativa. O objetivo deste texto é
apresentar um caminho metodológico para a análise de reportagens hipermídia,
com vistas a atender dois eixos de investigação – o hipertexto, enquanto modo
de escrita do ambiente digital, e a estrutura organizativa da narrativa.
O percurso metodológico parte da Teoria do Hipertexto, especificamente
com base nos trabalhos de George Landow (1995, 1997, 2009). Landow é
professor de inglês e emérito de história da arte na Brown University (EUA),
é um dos principais teóricos do hipertexto, dos efeitos da tecnologia digital na
linguagem e da mídia eletrônica na literatura. De acordo com a pesquisadora
Katherine Hayles (2007), o livro Hypertext: The Convergence of Contemporary
Literary Theory and Technology, publicado pela primeira vez em 1992, é um
“marco” no estudo acadêmico de sistemas de escrita eletrônica, sendo o pioneiro
no uso do hipertexto e da web no ensino superior.
A Teoria do Hipertexto elaborada por Landow ao longo de pelo menos 30 anos,
desde os primeiros textos em 1987, sempre teve como foco as narrativas literárias.
Os livros do autor que reúnem a Teoria do Hipertexto são das décadas de 1990 e
2000. Em sua última obra, Hipertexto 3.0 (2005)1, Landow reúne toda a teoria.
Em virtude do limite de espaço neste capítulo não é possível citar todos os autores
que estudaram ou estudam as teorias do hipertexto, em Baccin (2017, p. 46)
construo um quadro com 119 obras que tive acesso, agrupando-as de acordo com
as várias abordagens sobre o hipertexto (estudos seminais, análise da tecnologia ou
da estrutura, análise dos elementos da escrita hipertextual, estudo do hipertexto a
partir do viés do leitor e abordagem das possibilidades do hipertexto).
1 Trabalhei com a versão espanhola de 2009.

277
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

O espaço de escrita digital é dinâmico e se transformou ao longo desse


período, de 2005 a 2017 muitas mudanças ocorreram tanto na web quanto
no jornalismo. Os autores do campo do jornalismo digital (PALACIOS, 1999;
PAVLIK, 2001, 2005; DÍAZ-NOCI, 2001, 2009; PRYOR, 2002; LONGHI, 1998,
2003, 2004; MIELNICZUK, 2003, 2005; SALAVERRÍA; DIAZ-NOCI, 2003,
2005; CANAVILHAS, 2007, 2008a, 2008b; LARRONDO URETA, 2004) que
fizeram aproximações com a Teoria do Hipertexto também as fizeram há mais
de uma década. Desse período até o momento atual, as narrativas jornalísticas
digitais passaram por modificações provocadas pelo melhor aproveitamento
das características do jornalismo digital (hipertextualidade, multimidialidade,
interatividade, memória, personalização, instantaneidade, ubiquidade).
A proposta de construção de uma matriz teórico-metodológica representa
os caminhos que encontrei para organizar o pensamento teórico de modo que a
metodologia escolhida não limitasse a construção teórica proposta na análise,
pois acredito que o potencial hipermidiático, que o espaço de escrita digital
dispõe ao jornalismo, possibilita aproveitar as características dos meios aliadas
ao hipertexto e ao uso de recursos expressivos que acionam sensações a quem
experiencia as histórias, aprofundando-as e ampliando o entendimento da
informação (BACCIN; DANIEL, 2014; CANAVILHAS; BACCIN, 2015; BACCIN,
2017). É a partir dos níveis de análise (características das narrativas hipertextuais
e eixos estruturantes da reportagem) que aciono conceitos e técnicas, que
permitirão atender as necessidades de compreensão e interpretação da narrativa
hipermídia nas reportagens, resultando numa contribuição efetiva para o campo
do jornalismo digital.

Entendendo a teoria

O desenvolvimento do hipertexto como área de conhecimento científico


inicia na década de 1980, quando as pesquisas se ramificaram em vários campos
do conhecimento: da linguística, da literatura, da filosofia, da sociologia, da
tecnologia e da educação. A Teoria do Hipertexto, proposta por Landow (1987,
1995, 1997, 2009), identifica características que o hipertexto apresenta nas
narrativas construídas para e no espaço de escrita digital: intertextualidade,
descentralização, multivocalidade, rizoma e intratextualidade.
1) Com forte influência do filósofo Jacques Derrida2, Landow (2009)
desenvolve os conceitos de intertextualidade e de descentralização, como duas das
características do hipertexto. A intertextualidade refere-se ao texto composto de
unidades discretas de leitura (lexias - fragmentos de textos que compõem a obra),
que permitem tornar mais explícito o que se relaciona com este texto, seja por
iniciativa do leitor ou uma ação já prevista pelo próprio autor. Esta característica

2 É a partir de Derrida que Landow reconhece que o hipertexto incorpora a abertura textual defendida
pela teoria pós-estruturalista.

278
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

do hipertexto abre o texto para uma gama de relações com outros textos e libera
o usuário à percepção de múltiplas interconexões. Essas interconexões são
possibilitadas pelos links que unem os vários textos que se relacionam.
2) Já o conceito de descentralização caracteriza o hipertexto como um todo
composto por vários fragmentos de textos conectados, formando um sistema
onde o leitor escolhe o centro de experiência, onde “o hipertexto se experimenta
como um sistema que se pode descentrar e recentrar até o infinito, em parte
porque transforma qualquer documento que tenha mais de um link em um
centro passageiro”3 (LANDOW, 2009, p. 89, tradução nossa). Isso quer dizer
que o texto principal é determinado pela lexia, nó ou fragmento de texto que o
leitor lê no momento, na medida em que acessa outra lexia o centro se desloca
também. A descentralização se refere também à ausência de uma hierarquização
mais rígida dos textos.
3) Para definir a multivocalidade como uma característica do hipertexto,
Landow (2009) recorre a Bakhtin (1981). De acordo com Bakhtin, o conceito
de polifonia é como se na narrativa estivesse inserida a réplica do outro, “o
nosso discurso da vida prática está cheio de palavras de outros. Com algumas,
fundimos inteiramente a nossa voz, esquecendo-nos de quem são; com outras,
reforçamos nossas próprias palavras (...); por último, revestimos terceiras das
nossas próprias intenções” (BAKHTIN, 1981, p. 181). A conceituação de
polifonia de Bakhtin pode abarcar duas formas de interpretação: tanto a de que
a narrativa do autor é construída a partir da multiplicidade de vozes de outras
pessoas com as quais o autor se relaciona em toda a sua vivência, bem como a
possibilidade de uma escrita colaborativa, onde outros vozes possam elaborar a
narrativa de modo cooperativo.
4) O rizoma, outra característica do hipertexto identificada por Landow
(2009) está intimamente relacionado com o conceito desenvolvido por Deleuze
e Gattari (1995), a partir da metáfora com a botânica4. Segundo os autores,
no rizoma não existem caminhos certos, não há uma forma fechada, não há
conexões definitivas, pois qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado
a qualquer outro, conectando assim cadeias semióticas de toda natureza. O
rizoma contrapõe-se à ideia de hierarquia porque um rizoma pode oferecer
muitos começos e muitos fins.
5) Embora Landow (1995, 1997, 2009) não deixe claro que considera
a intratextualidade uma característica do hipertexto. Essa característica fica
subentendida na obra do autor quando aborda a questão dos enlaces eletrônicos
3 “El hipertexto se experimenta como un sistema que se puede descentrar y recentrar hasta el infinito,
en parte porque transforma cualquier documento que tenga más de un enlace en un centro de pasajeros”
(LANDOW, 2009, p. 89).
4 A noção de rizoma foi adotada da estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se
em qualquer ponto, assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da
botânica, que tanto pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da
planta, servindo para exemplificar um sistema epistemológico onde não há raízes - ou seja, proposições ou
afirmações mais fundamentais do que outras - que se ramifiquem segundo dicotomias estritas.

279
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

que podem ser utilizados “para elaborar um mapa das alusões e referências do
texto, tanto internas como externas – sua inter e intratextualidade”5 (LANDOW,
2009, p. 106). A intratextualidade diz respeito às ligações internas que podem
existir entre lexias dentro de uma mesma obra. Nas reportagens jornalísticas
hipermídia, a intratextualidade é percebida em vários momentos da narrativa:
para acionar vídeos e áudios, acessar galerias de imagens e infográficos,
direcionar a narrativa para outros capítulos.
Essas características atribuídas por Landow ao hipertexto dizem respeito
às narrativas ficcionais. Por outro lado, de acordo com Landow (2009, p. 279),
o hipertexto informativo precisa utilizar-se de retóricas de orientação, navegação
e ponto de partida para que o leitor possa orientar-se na informação. A partir
dessa afirmação, percebo a necessidade de identificar quais características
então são pertinentes ao hipertexto jornalístico.

Tensionando a teoria

Após a observação sistemática das reportagens hipermídia publicadas


de 2012 a 2016 pela Folha de S.Paulo (Brasil), The New York Times (EUA),
The Guardian (Inglaterra), Público (Portugal), El País (Espanha) e Clarín
(Argentina), identifiquei que duas (rizoma e descentralização) das cinco
características, apontadas por Landow comum ao hipertexto literário, não
qualificam o hipertexto jornalístico. Nas reportagens hipermídia, as informações
são organizadas hipertextualmente a partir de um eixo central que conduz as
histórias. O mesmo ocorre com o rizoma. O próprio Landow admite que o
rizoma é essencialmente um contraparadigma, não algo realizável, mas que
pode servir como ideal para o hipertexto. Embora algumas particularidades
do rizoma convergem com o hipertexto jornalístico, como a possibilidade de
multilinearidade, que permite ao leitor escolher o caminho que seguirá na
narrativa jornalística conforme seu interesse por mais informação, há sim um
começo e um fim nas narrativas jornalísticas, mesmo que o percurso ao longo
do caminho seja escolhido pelo leitor.
Na reportagem hipermídia o leitor pode eleger apenas seguir a sequência
estabelecida pelos repórteres e editores (pelo menu ou índice das reportagens)
ou escolher alternar a leitura entre os capítulos da reportagem. Como salienta
Larrondo Ureta (2009, p. 72, tradução nossa), “esta escrita fragmentada não
implica em si mesma uma ausência de organização ou ordem lógica, já que
o autor mantém sua responsabilidade de articulação hierárquica de todo o
conjunto6”. No hipertexto informativo o enlace coerente e relevante é necessário.

5 “... para elaborar un mapa de las alusiones y referencias del texto, tanto internas como externas - su
inter e intratextualidade” (LANDOW, 2009, p. 106).
6 esta escritura fragmentada no implica en sí misma ausencia de organización u orden lógico, ya que
el autor mantiene su responsabilidad de articulación jerárquica de todo el conjunto.

280
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

A partir da breve constatação de Landow (2009) e das observações


das reportagens hipermídia, percebo que, como no texto jornalístico existem
especificidades próprias, como um eixo norteador da narrativa e um ponto de
partida para a história. Para dar conta de analisar as retóricas de orientação de
navegação e ponto de partida que as narrativas jornalísticas hipermídia apresentam,
identifico características (estrutura de navegação e camadas informativas) que
direcionam o leitor na narrativa. Essa foi a primeira pista teórica que reconheço
para construção das categorias de análise que aponto mais a frente.
A segunda pista acionada pela teoria surgiu da análise do ambiente
de escrita digital. No espaço digital o campo físico e visual é topográfico,
porque não possui limites pré-estabelecidos para se desenvolver, diferente de
todos os espaços anteriores que eram limitados. Com a textualidade digital,
a escrita que até então era física, se converte em códigos matemáticos.
Esses códigos, por sua vez, podem ser alterados, são flexíveis. A regra da
qual derivam os processadores de texto é “muda o código, muda o texto”7
(LANDOW, 2009, p. 126). No papiro, no pergaminho e no papel, o espaço
visual é físico e se caracteriza por ser bidimensional, tenho a visão da altura e
da largura do texto, do começo e do fim. Na escrita digital, o espaço visual é
multidimensional, é o hipertexto que possibilita essa multidimensionalidade,
porque há algo oculto que está em outra camada de informação.
Posso dizer que há uma estreita relação entre os espaços físico e visual
da escrita com as práticas e os usos da escrita e da leitura. Logo cada espaço
tem práticas próprias tanto de escritura quanto de leitura. Por exemplo, quando
a escrita era feita em superfície de argila, era impossível escrever grandes
narrativas porque o espaço físico e visual era extremamente limitado e, nas
escrituras em pedras, outro limite era a mobilidade, que interferia nas práticas
de leitura e escrita, porque os textos não podiam ser transportados. Logo, o
espaço de escrita não se caracteriza somente pela tecnologia, mas também pela
interação do escritor e do leitor com esse espaço.
As pistas identificadas a partir da Teoria do Hipertexto e do que constitui
o espaço de escrita digital nos possibilitam pensar as especificidades das
narrativas hipermidiáticas, em especial das reportagens escritas nesse espaço.
Na próxima seção, aciono essas teorias para a construção das categorias de
análise e do desenho metodológico.

Abordagem metodológica

A construção das categorias de análise

Nesse primeiro momento do desenho da metodologia identifico as


características específicas do hipertexto jornalístico e a estrutura da narrativa no
espaço de escrita digital onde o hipertexto se configura. Na observação atenta
7 “Cambia el código, cambia el texto”.

281
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

do objeto de estudo (as reportagens hipermídia) e no olhar criterioso durante o


estudo da teoria, pude perceber que a multivocalidade e a intratextualidade são
duas características que também ocorrem nas reportagens.
No ambiente digital, a multivocalidade pode ser compreendida tanto
como uma narrativa construída com a cooperação dos leitores – seja no
envio de imagens, no relato de quem presenciou o acontecimento ou nos
comentários das notícias, que contribuem com a construção e com a
ampliação da narrativa – quando uma informação jornalística é construída
pelas inúmeras vozes que compõem a história: as fontes, o repórter, o editor e
até mesmo as que estão representadas na linha editorial do meio. É verdade
que todas essas múltiplas vozes já eram possíveis de compor as narrativas
jornalísticas antes do espaço de escrita digital, mas o hipertexto jornalístico
aproxima a comunicação entre leitores e jornalistas, podendo resultar em
um discurso hipernarrativo polifônico (LARRONDO URETA, 2009), no qual
a narrativa é enriquecida com maior ou menor participação do leitor e com
a possibilidade de ampliação de vozes, tanto pelo espaço menos limitado,
quanto pelas relações que possam ser estabelecidas com outros textos, por
meio dos links.
Para refletir sobre a intratextualidade como uma característica das narrativas
jornalísticas no ambiente digital, amplo a análise e identifico a tipologia dos links
que promovem a conexão dos vários formatos de textos dentro da reportagem. Os
links representam uma possibilidade de ganho no jornalismo, porém De Maeyer
(2012, 2013, 2014) ressalta que este ganho ainda não é bem explorado porque
“o nosso mundo social não é ainda inteiramente feito de pedaços de dados e
meta-dados, ordenadamente mapeados e interconectados”8 (DE MAEYER, 2014,
p. 538, tradução nossa), o que possibilitaria que as informações estivessem
totalmente acessíveis a poucos cliques de cada um de nós.
O objetivo principal dos links entre lexias de uma mesma obra é aprofundar
a história, levar o leitor mais fundo ao contexto do acontecimento. Repórteres
descrevem os links internos como uma maneira de estender reportagens e o
poder explicativo dessas (CODDINGTON, 2012). É o link que possibilita a
construção de camadas de informação no espaço de escrita digital, quanto mais
informações o leitor desejar, mais fundo entra na narrativa, a projetando dentro
desse espaço virtual (DOHERTY, 2014). Nas reportagens hipermídia, os links
também sugerem a multimidialidade, que contribui para o enriquecimento da
narrativa, proporcionando que os jornalistas selecionem as formas expressivas
que melhor expressam a complexidade do que é narrado.
A partir da importância que o link tem nas histórias que são contadas
no jornalismo e nos estudos aos quais refiro, direciono o foco de análise aos
vários tipos de links que existem na reportagem e não apenas ao seu universo

8 ... even with trends such as “big data” or the “internet of things” gaining momentum, our social world
is not yet entirely made of pieces of data and meta-data, neatly mapped and interconnected.

282
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

de abrangência, se são links internos ou externos. Durante a observação


sistemática identifiquei que as reportagens hipermídia praticamente não
apresentam links externos. Isso chamou a atenção para a carência de
intertextualidade nas histórias jornalísticas de um modo geral, que ocorre
devido à preocupação de editores de perderem os leitores na medida em
que estes acessem outros sites que não sejam o da própria organização
jornalística (CODDINGTON, 2012). Esse entrave comercial tem inibido o uso
da intertextualidade no hipertexto jornalístico.
Landow (1995, 1997, 2009) defende que a descentralização como
característica do hipertexto. No jornalismo, as informações são organizadas
hipertextualmente a partir de um eixo central que conduz as histórias. O
próprio Landow admite que “o rizoma é essencialmente um contraparadigma,
não algo realizável em algum tempo ou cultura, mas que pode servir como
ideal para o hipertexto”9 (LANDOW, 2009, p. 95, tradução nossa). Por isso,
algumas particularidades do rizoma convergem com o hipertexto jornalístico.
O mais visível é a questão da multilinearidade, que permite ao leitor escolher
o caminho que seguirá na reportagem jornalística, conforme seu interesse
por mais informação. Na reportagem hipermídia, o leitor pode eleger seguir a
sequência estabelecida pelos repórteres e editores ou escolher alternar a leitura
entre os capítulos da reportagem. Como bem salienta Larrondo Ureta (2009,
p. 72, tradução nossa), “esta escrita fragmentada não implica em si mesma
uma ausência de organização ou ordem lógica, já que o autor mantém sua
responsabilidade de articulação hierárquica de todo o conjunto”10.
Como as características de descentralização e rizoma, identificadas por
Landow no hipertexto não se efetivam na plenitude no hipertexto jornalístico,
proponho (BACCIN, 2017) uma característica que dê conta de analisar
essas retóricas de orientação nas reportagens hipermídia, a estruturação da
navegação. Logo, as categorias de análise que dizem respeito às características
do hipertexto jornalístico são: multivocalidade, tipologia dos link e estruturação
da navegação.
Como a proposta é analisar dois níveis das reportagens hipermídia, um
relacionado às características do hipertexto jornalístico e outro com os eixos que
estruturam a reportagem, desenvolvo agora as categorias que dizem respeito
a este segundo nível, como essas narrativas são construídas nesse espaço
digital, onde a multidimensionalidade, a multimidialidade e a possibilidade
ilimitada de contextualização são características próprias desse espaço.
De acordo com Yara Medeiros (2017), “o repórter tem hoje um arsenal de
possibilidades visuais”. A reportagem hipermídia é um dos caminhos para os
9 El rizoma es esencialmente un contraparadigma, no algo realizable en algún tiempo o cultura, pero
que puede servir como ideal para el hipertexto, y el hipertexto, al menos el hipertexto nelsoniano ideal,
se acerca tanto a él como cualquier creación humana.
10 “esta escritura fragmentada no implica en sí misma ausencia de organización u orden lógico, ya que
el autor mantiene su responsabilidad de articulación jerárquica de todo el conjunto..”

283
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

repórteres aproveitarem as possibilidades proporcionadas pelo espaço digital.


As reportagens hipermídia, assim como as demais narrativas construídas
no espaço digital, estão projetadas em camadas ou níveis de informação. Os
elementos que possibilitam essa arquitetura são os links e as lexias. O link
é o elemento que dá acesso às camadas mais ocultas, onde estão dispostas
lexias com conteúdo mais aprofundado (BACCIN, 2017). A estruturação das
histórias em camadas informativas ocorre por meio dessas hiperligações que
são estabelecidas nas narrativas hipermídia. Nessas narrativas jornalísticas
hipertextuais as informações são construídas em camadas que agregam níveis
de profundidade à reportagem hipermídia, possibilitando ao leitor acesso às
camadas mais profundas de informação e da estrutura narrativa. É necessário
que o leitor percorra o espaço narrativo, que se configura nas camadas, para
ter acesso a partes da história que estão ocultas. As camadas informativas
formam uma das categorias de análise do nível eixo estruturante da reportagem
(BACCIN, 2017).
Este espaço também possibilita além da utilização de recursos multimídia
para contar as histórias, o uso de outras modalidades de comunicação, como
infográficos, mapas, tabelas animações, que extrapolam o conceito de multimídia.
Conceituo a segunda categoria deste nível como modalidades comunicativas,
pois dizem respeito aos recursos utilizados pelas reportagens hipermídia para
informar, interpretar, opinar, complementar, ilustrar, detalhar informações;
podendo ser reconhecidas como texto, som, vídeo, mapa, animação, infográfico,
fotografias, arquivos de documentos. Elas fazem parte da narrativa com o objetivo
de enriquecer o relato, pois, quando o jornalista expressa uma informação
em uma determinada modalidade comunicativa a seleciona de acordo com a
capacidade de cada modalidade, a que melhor expressa a informação.
Outra especificidade do espaço de escrita digital é a possibilidade ilimitada
de contextualização. A terceira categoria defino como variante contextual da
reportagem, que pode ser expressa pela utilização de bancos de dados, de
recursos imersivos, da humanização do relato e da utilização da narrativa
longform. A humanização do relato faz parte das características inerentes ao
gênero reportagem (CANAVILHAS; BACCIN, 2015), porém defendo que no
espaço de escrita digital essas características podem ser potencializadas e
assim colaboram ainda mais na contextualização das histórias.
As bases de dados se configuram como recurso narrativo e tecnológico
de contextualização (CANAVILHAS; BACCIN, 2015). Estão presentes
na estruturação da reportagem hipermídia, dando suporte à maneira de
apresentar o conteúdo. A utilização de bases de dados na reportagem vai
além das potencialidades tecnológicas desse recurso, como a estrutura
das informações e as combinações possíveis das informações entre si. As
bases de dados também fazem parte da construção textual das modalidades
comunicativas. Outra variante contextual, a imersão, oferece formas de

284
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

experimentar a notícia, que pode facilitar a interpretação dos acontecimentos


(CANAVILHAS; BACCIN, 2015), por meio de recursos linguísticos e
visuais. A imersão nas reportagens hipermídia oportuniza aos leitores um
nível diferente de compreensão das histórias. A reportagem hipermídia
com recursos imersivos conecta o público com a informação, ampliando a
contextualização das histórias narradas. Como variante contextual, o longform
(CANAVILHAS; BACCIN, 2015; LONGHI; WINQUES, 2015; BACCIN, 2017a,
2017b;) é muito mais que um formato longo de contar história. O longform
nas reportagens hipermídia requer estratégias que contemplem apuração
aprofundada das informações, apresentação atraente dessas informações e
verticalização da narrativa.
Como proposta para os dois níveis de análise sugiro:

Nível das características das narrativas hipertextuais

• Tipologia dos links - É a classificação dos links da reportagem de acordo


com o conteúdo a que se destina.
• Multivocalidade - É a expansão do espaço retórico, que pode ser
materializado nos comentários dos leitores; bem como na construção da história
enriquecida pela multiplicidade de vozes.
• Estrutura de navegação - É composta por links do tipo de navegação que
determinam quais desses levam para outras lexias capitulares ou para fora da
reportagem, e quais links mantêm a história na mesma lexia capitular.

Nível dos eixos estruturantes da reportagem hipermídia

• Camadas informativas - É a organização da informação por níveis de


profundidade, possibilitada pelos links que dão acesso às lexias que estão em
outro nível de informação, nas demais dimensões textuais.
• Modalidades comunicativas - São recursos expressivos utilizados nas
reportagens hipermídia para comunicar a informação, como texto, som, vídeo,
fotografia, mapa, animação, infográfico e outros elementos.
• Variantes contextuais - É a combinação de recursos narrativos e
tecnológicos para melhor contextualização da história a ser narrada. As
variantes contextuais são: base de dados, recursos imersivos, narrativa
longform e humanização do relato.

Como parte da abordagem metodológica apresento na sequência o objeto


selecionado para a análise neste capítulo e a construção da matriz metodológica.

285
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

O objeto de análise

A construção das seis categorias de análise tem como base as teorias


discutidas e a observação sistemática das reportagens publicadas de 2012 a
2016 pelos seis jornais listados. Para exemplificar a proposta de análise de
reportagens hipermídia que apresento neste capítulo a reportagem “A Crise da
Água – Líquido e Incerto11”, publicada pela Folha de S.Paulo em 2014. Essa
reportagem rendeu ao jornal, em 2015, os prêmios de Excelência Jornalística,
na categoria Cobertura Multimídia, organizado pela Sociedade Interamericana de
Imprensa (SIP) e o ExxonMobil (antigo prêmio Esso), na categoria de Informação
Científica, Tecnológica ou Ambiental.
O trabalho levou quatro meses de produção, apuração e edição da
reportagem, no qual participou uma equipe formada por 13 profissionais, sendo
seis repórteres, quatro artistas gráficos e três profissionais de vídeo e de foto,
que se debruçaram sobre todos esses problemas hídricos em três regiões do
país. A Crise da Água reúne várias modalidades comunicativas para expressar
e traduzir a complexidade desses problemas e as consequências para a vida
das pessoas. Além do texto que rege todos os quatro capítulos da reportagem,
são ao todo 23 infográficos, 11 vídeos, seis galerias, 28 fotografias individuais
(fora das galerias), quatro imagens em formato 360o, quatro vídeos em loop e
dois videográficos.
A reportagem é a terceira da série Tudo Sobre que o jornal desenvolve
desde 2013. A reportagem é dividida em quatro capítulos, onde apresenta
a radiografia dos principais problemas hídricos brasileiros: a crise de água
que atinge a região metropolitana de São Paulo, os impactos das enchentes
do rio Madeira em Rondônia e os problemas históricos de falta de água no
Nordeste do país, dando ênfase às obras incompletas de transposição do rio
São Francisco.

O desenho da matriz metodológica

Na definição dos critérios de análise para cada categoria é importante


construir os limites da análise e os parâmetros que vão nortear o olhar para
a reportagem. Para isso, organizo um quadro para cada categoria, conforme
demonstro no Quadro 1, onde estão expostos a delimitação e os parâmetros
de análise.

11 Reportagem disponível em: http://arte.folha.uol.com.br/ambiente/2014/09/15/crise-da-agua/index.


html

286
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Quadro 1 – Síntese das categorias de análise

287
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Fonte: Elaboração da autora.

Com base nessa delimitação e construção dos parâmetros de cada


categoria a análise das reportagens hipermídia é realizada. A partir dessa
análise é possível destacar o que é comum a cada nível e a cada categoria.
Após essa análise, os resultados são cruzados entre os dois níveis, as
características do hipertexto jornalístico e os eixos estruturantes da reportagem
hipermídia, conforme representação gráfica (Quadro 2). Com essa matriz-
metodológica são extraídos os indícios para a elaboração de elementos que
apontem especificidades da reportagem no espaço de escrita digital.

288
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Quadro 2 – Matriz teórico-metodológica dos cruzamentos entre as categorias

Fonte: Elaboração da autora.

Para cada análise das categorias são acionadas técnicas variadas de


pesquisa. Na identificação da tipologia dos links, por exemplo, foi realizada a
análise de conteúdo (BARDIN, 2011). Seguindo os links, analiso a função de
cada um no hipertexto. Na reportagem encontrei 80 links, sendo três do tipo
participação do público (botões para Twitter, Facebook e Google+), nove do
tipo organizativo (acesso ao site da Folha de S.Paulo, índice da reportagem
que leva aos quatro capítulos e setas que direcionam à sequência sugerida pela
reportagem, no final de cada capítulo) e 68 do tipo narrativo (que contribuem para
contar a história). Já é possível perceber que o esforço hipertextual concentra-se
no contar a história.
Ao olhar para as camadas informativas, aciono a análise da estrutura da
informação, como a apresentação das informações influencia a facilidade ou a
dificuldade de encontrar e/ou entender a informação. Na reportagem existem
duas camadas informativas, uma dá conta da informação que está disposta
no primeiro plano da tela e outra que está em um segundo plano, inicialmente
oculta. Os links distribuídos nos capítulos remetem a lexias que estão numa
segunda camada. As camadas informativas existem no âmbito da profundidade
da navegação e efetivam a multidimensionalidade da narrativa hipertextual.
Para facilitar o entendimento, identifico cada capítulo como sendo uma
Lexia Capitular, então tenho LC1, LC2, LC3 e LC4 referente aos quatro capítulos
da reportagem. Cada uma dessas lexias maiores é formada internamente por
vários links e lexias menores, as quais chamo de Lexias Modulares (Lm). São
algumas dessas que compõem o segundo plano de camadas informativas.
O primeiro plano é formado pela visualização das informações que estão na
vertical (por meio da barra de scroll) e na horizontal (entre os capítulos). Para
acessar o segundo plano, que dá acesso às informações que estão ocultas,
preciso acionar os links que abrem as lexias para serem reveladas. O conteúdo
que eu não visualizo está no segundo plano, inicialmente oculto, escondido,

289
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

por trás da primeira camada (ver Figura 1). Os conteúdos das lexias Lm3,
Lm6 e Lm7 estão na segunda camada informativa, onde cada um assume a
denominação de lexias modulares ocultas: Lm3O, Lm6O e Lm7O. As demais
informações da Lexia Capitular 1 (Figura 1) estão todas na primeira camada.

Figura 1 - Camadas informativas da Crise da Água

Fonte: Elaboração da autora.

Outra técnica utilizada na análise da reportagem é a técnica da moldura12.


Para facilitar a visualização da distribuição das modalidades comunicativas na
reportagem, construímos uma apresentação esquemática (Quadro 3) utilizando
a técnica da moldura que demonstra além da localização de cada modalidade
12 Técnica utilizada em pesquisas sobre interfaces digitais. Permite que o pesquisador congele no
tempo o objeto. A partir da imagem estática, é possível cartografar seu comportamento e o caráter. Para
mais detalhes ver Bittencourt (2007), Grossmann (2008), Daniel (2015).

290
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

comunicativa nos capítulos, o que cada uma expressa. Na reportagem Crise da Água
– Líquido e Incerto reconheço cinco modalidades comunicativas diferentes: texto,
vídeo, fotografia, infografia e videografia. A modalidade que mais vezes aparece é a
fotografia, precisamente 56 imagens estáticas diferentes compõem a reportagem.
Para compreender o objetivo de cada modalidade comunicativa na composição
da história contada, identifico assuntos que perpassam por várias modalidades.
No geral, as modalidades comunicativas nesta reportagem são utilizadas para
expressarem problemas, informar sobre questões técnicas, ambientar temáticas,
expor a avaliação de especialistas, apresentação de personagens e soluções
possíveis. Para entender os objetivos das modalidades comunicativas, em utilizar
determinado tema para contar a história, realizo a análise de cada modalidade.

Quadro 3 - Modalidades Comunicativas – Crise da Água


Líquido e Incerto (Folha de S.Paulo)

Após a análise das categorias, o cruzamento dos resultados possibilita


apontar as especificidades da reportagem hipermídia, o que de comum e de
singular existe nas reportagens. Na sequência, demonstro o cruzamento feito

291
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

com os resultados das análises dos dois níveis e seis categorias construídas
com a matriz teórico-metodológica proposta.

Quadro 4 - Cruzamentos das categorias de Crise da Água – Líquido e Incerto

Tipologia dos links Multivocalidade Estrutura de navegação


A primeira camada informativa Das 33 vozes utilizadas, 18 são Os 62 links conjuntivos levam
apresenta todos os tipos de expressas ao longo dos textos para lexias que se revelam na
links: participação do público, escritos, 11 em vídeos e quatro segunda camada informativa. Os
organizativo e tipos narrativos. são vozes que comunicam em sete disjuntivos por sobreposição
Na segunda camada, situam- textos e em vídeos. As múltiplas levam para lexias que se
se apenas os links dos tipos vozes que compõem os textos mantêm na primeira camada.
Camadas narrativos de complementação estão apenas na primeira Dez links do tipo disjuntivo por
informativas e detalhamento. A diversidade camada informativa. As que opção levam tanto para lexias da
de tipos de links é menor nas estão em vídeos são expressas segunda camada como para fora
camadas mais profundas. Na na segunda camada. As quatro da reportagem e um deste tipo
segunda camada, com os links de vozes que compõem as histórias mantém na primeira camada.
complementação e detalhamento, narradas estão expressas em O maior número de links
há aprofundamento do conteúdo. textos e em vídeos e constam conjuntivos revelam o cuidado
tanto nas primeiras quanto nas que a edição teve para manter o
segundas camadas das LC2, leitor atento à LC, que está indo
LC3 e LC4. mais fundo na história.
Os links de complementação estão As vozes expressam, via Nas 31 modalidades
presentes nas várias modalidades, modalidades comunicativas, comunicativas que possuem
permitem na primeira camada problemas que enfrentam com links, esses links somam
informativa o acesso a todos a falta ou com o excesso de 68, sendo 62 conjuntivos e
os infográficos, videográficos, água, expõem histórias de vida seis disjuntivos por opção. A
vídeos, galerias de imagens e e contraposição de ideias. As modalidade comunicativa que
fotografias em 360o. Os links de 18 vozes de personagens estão apresenta a maior quantidade de
detalhamento estão presentes na distribuídas: nove em vídeos, links conjuntivos é o infográfico,
primeira camada em infográficos e sete em textos escritos e duas que reúne 28 links. Os links
Modalidades videográfico. Os links de ilustração são expressas em vídeos e disjuntivos por opção estão
comunicativas estão em fotografias em 360o textos. Quanto às vozes oficiais, localizados nas quatro imagens
e em galerias de imagens. Os seis estão em textos e uma em 360o e nas duas infografias.
links de particularização e de em texto e vídeo. Quanto às A utilização de links conjuntivos
contraponto estão ligados aos vozes institucionais, duas estão nas modalidades comunicativas
vídeos. São os links narrativos que em textos e uma em texto e contribuem para manter a atenção
permitem o acesso às modalidades vídeo. As vozes de personagens e o interesse pela história, porque
comunicativas, contribuindo para o são expressas na modalidade não dispersam o leitor para outras
enriquecimento da história. vídeo, enquanto que as demais lexias capitulares, sem que este
compõem principalmente textos. termine a leitura da LC.

As bases de dados são reveladas A multivocalidade tem relação O formato longo de narrativa
por links narrativos do tipo direta com a humanização requer que a maioria dos links
complementação e detalhamento. dos relatos, quando expõe a de navegação sejam conjuntivos,
Os recursos de imersão são história de 18 personagens necessitando apenas da barra
distribuídos em todos os tipos que têm suas vidas impactadas de scroll para o acesso à
de links narrativos. Nos links de pelos problemas hídricos. Os reportagem. Os links sendo
particularização e contraponto, a relatos das histórias de vida conjuntivos também viabilizam
proposta imersiva é acionada por e dos dramas vividos pelos uma das características do
meio de recursos de linguagem. Os personagens têm potencial longform que é a verticalização
recursos visuais e sonoros também imersivo. As múltiplas vozes da narrativa. Os links
Variantes
contribuem para a proposta podem acionar por meio conjuntivos também contribuem
contextuais
imersiva. Os links de detalhamento de recursos de linguagem para a imersão, mantendo o
e complementação ativam o a sensação de imersão. O leitor com a atenção focada
potencial imersivo por meio de longform, enquanto variante na história, e não nas idas e
recursos de interação e animação. contextual, também colabora na vindas de páginas ou abas de
Os links de complementação multivocalidade, por meio do navegação.
e de detalhamento são os que texto longo, apuração profunda
mais aparecem no longform. e verticalização da história.
A humanização do relato está
presente nos links do tipo narrativo
de particularização.
Fonte: Elaboração da autora.

292
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Este capítulo se propôs a apresentar a proposta de análise de reportagem


hipermídia, a partir de seis categorias que contemplam os níveis das características
do hipertexto jornalístico e dos eixos estruturantes da reportagem hipermídia. Por
meio da construção e da aplicação da matriz metodológica analiso a reportagem
da Folha de S.Paulo. Os resultados que emergem dessa análise dizem respeito a
este recorte. Essa proposta metodológica foi também aplicada por alunos do 7º
semestre de Jornalismo da UFRGS, de maneira experimental, como exercício da
disciplina de webjornalismo, sob orientação da professora Luciana Mielniczuk
no primeiro semestre de 2017. Outros exemplos de aplicação dessa proposta
podem ser encontrados em Baccin (2017).
A construção dessa matriz metodológica é exemplo de que teoria e
metodologia devem são dependentes das escolhas que o pesquisador faz na
sua trajetória de investigação, por isso é importante que identifique nas teorias
eleitas as pistas que possam apontar o caminho a ser seguido, bem como quais
técnicas precisam ser acionadas para atingir os objetivos propostos na pesquisa.
É relevante deixar claro que não tenho a pretensão de propor um modelo
pronto, fechado, onde possa ser enquadrado outras pesquisas sobre narrativas
midiáticas contemporâneas, mas confesso que é minha intenção servir de
inspiração para que outros pesquisadores construam seus próprios caminhos
metodológicos em suas pesquisas, que deixem os rastros percorridos e contribuam
de alguma forma para a geração do conhecimento científico.

Referências

BACCIN, Alciane. Como contar histórias? O hipertexto jornalístico na reportagem


hipermídia. Tese de doutorado defendida no PPG em Comunicação e Informação
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2017a. Disponível: https://goo.
gl/CWA9rs
BACCIN, Alciane. A narrativa longform em reportagens hipermídia. Estudos em
Jornalismo e Mídia, v. 14, n. 1, p. 89-101, 2017b. Disponível: https://goo.gl/
FKD3uU
BACCIN, Alciane; DANIEL, Priscila. A integração dos meios no especial
multimídia” A Batalha de Belo Monte”. Verso e Reverso, v. 28, n. 69, 2014.
Disponível: https://goo.gl/MMS9Uj
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1981.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições, v. 70, 2009.
CANAVILHAS, João. Webnoticia: propuesta de modelo periodístico para la
WWW. Covilhã: Livros Labcom. ed. 1, 1 vol. 2007.

293
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

CANAVILHAS, João. Cinco Ws e um H para o jornalismo na web. revista Prisma.


com, n. 7, 2008a. ISSN 1646-3153.
CANAVILHAS, João. Hipertexto e recepção de notícias online. Universidade da
Beira Interior. 2008b. Disponível em: https://goo.gl/CepXNC
CANAVILHAS, João. A reportagem paralaxe como marca de diferenciação da
WEB. Contenidos Innovadores en la Universidad Actual. Madrid: McGraw-Hill
Education, p. 119-129, 2014.
CANAVILHAS, João; BACCIN, Alciane. Contextualization in Hypermedia news
report: narrative and immersion. Brazilian Journalism Research - http://bjr.
sbpjor.org.br/bjr/article/view/803, v. 1, p. 10-27, 2015.
CANAVILHAS, João; BACCIN, Alciane; SATUF, Ivan. Um ecossistema muito
além do PC: a nova tessitura da narrativa na web. In: PEIXINHO, A. T. (Ed.).
Estudos narrativos mediáticos lusófonos. Coimbra, 2017.
CODDINGTON, Mark. Building frames link by link: The linking practices of blogs
and news sites. International Journal of Communication, v. 6, p. 20, 2012.
DÍAZ NOCI, Javier. Multimedia y modalidades de lectura: una aproximación en
el estado de la cuestión. In: Comunicar, 2009, V. 17, n. 33, p. 213-219.
DÍAZ NOCI, Javier. La escritura digital: hipertexto y construcción del discurso
informativo en el periodismo electrónico. Bilbao: Universidad del País Vasco,
Servicio Editorial - Euskal Herriko Unibertsitateko Argitalpen Zerbitzua, 2001.
DELEUZE, Giles.; GUATTARI, Felix. Introdução: rizoma. Mil platôs, v. 1, p. 11-
38, 1995.
DE MAEYER, Juliette. Citation Needed: Investigating the use of hyperlinks to
display sources in news stories. Journalism Practice, v. 8, n. 5, p. 532-541,
2014.
DOHERTY, Skye. Hypertext and Journalism: Paths for future research. Digital
Journalism, v. 2, n. 2, p. 124-139, 2014.
HAYLES, N. Katherine. “Electronic Literature: What is it?”. The Electronic
Literature Organization. 2007. Disponível em: https://goo.gl/JPFxJa
LANDOW, George. Hipertexto 3.0: La teoría crítica y los nuevos medios en una
época de globalización. Barcelona: Paidós Ibérica, 2009.
LANDOW, George. La convergencia de la teoría crítica contemporánea y la
tecnologia. Barcelona, Barcelona: Paidós, 1995.
LANDOW, George. Relationally encoded links and the rhetoric of hypertext.
Proceedings of the ACM conference on Hypertext. Chapel Hill, North Carolina,
USA: ACM: 331-343 p. 1987.
LANDOW, George. Teoría del hipertexto. Barcelona: Paidós Ibérica, 1997.

294
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

LARRONDO URETA, Ainara. El reportaje se reinventa en la red: estructura del


reportaje hipertextual. Revista Latina de Comunicación Social, 57. 2004.
Disponível em: https://goo.gl/odURTp
LARRONDO URETA, Ainara. La metamorfosis del reportaje en el ciberperiodismo:
concepto y caracterización de un nuevo modelo narrativo. In: Comunicación y
Sociedad Vol. XXII, N. 2, 2009. p. 59-88.
LONGHI, Raquel; WINQUES, Kérley. O lugar do longform no jornalismo online.
Qualidade versus quantidade e algumas considerações sobre o consumo.
Brazilian Journalism Research, v. 11, n. 1, p. 110-127, 2015.
LONGHI, Raquel. Escritura em Hipertexto: uma abordagem do Storyspace.
2004. 122f. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, São Paulo, 15 out. 2004. Disponível em: https://goo.gl/XccW49
LONGHI, Raquel. Metáforas e labirintos: a narrativa em hipertexto na Internet.
Dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Informação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre, 1998.
MEDEIROS, Yara. Visualidades da grande reportagem no Brasil. In: SOSTER,
Demétrio; PICCININ, Fabiana. Narrativas midiáticas contemporâneas:
perspectivas epistemológicas. Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017. p. 138-151.
MIELNICZUK, Luciana. Jornalismo na Web: uma contribuição para o estudo
do formato da notícia na escrita hipertextual. 2003. (Tese de Doutorado).
PósCOM/UFBA. Disponível em: https://goo.gl/ZDn2ZK
MIELNICZUK, Luciana. O link como recurso da narrativa jornalística hipertextual.
XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005.
PALACIOS, Marcos. Hipertexto, fechamento e o uso do conceito de não-
linearidade discursiva. Lugar Comum, Rio de Janeiro, n. 08, p. 111-121, 1999.
SALAVERRÍA, Ramón; DÍAZ NOCI, Javier. Manual de redacción ciberperiodística.
Barcelona: Ariel, 2003.

295
Metodologias de pesquisa em jornalismo:
trabalhos apresentados nos congressos
da SBPJor (2004-2017)

Monica Martinez
Diogo Azoubel

Considerações preliminares

As pesquisas sobre o estado da arte da produção científica de um dado


campo, como o Jornalismo, ainda não são tão comuns no Brasil quanto em
outras nações, particularmente as de tradição investigativa anglo-saxônica.
Esforços empreendidos nessa frente são importantes para a compreensão da
configuração dos estudos na área a partir da abordagem de questões como
perfil das estudiosas/estudiosos, filiação e referencial teórico utilizado, além dos
resultados dos próprios estudos em si.
Como propõem Machado e Sant’Ana (2014, p. 27):

A construção de metodologias específicas para Jornalismo destacada


como uma das prioridades desde meados dos anos 1940, entre outros,
por (NAFZIGER; WILKERSON, 1968; MOTT, 1968; MACHADO, 2005,
2010; GROTH, 2011) continua uma tarefa ainda muito incipiente entre
os especialistas da área. A comunidade de pesquisadores em Jornalismo
vive o paradoxo de ao mesmo tempo que demonstra capacidade de
institucionalização através da criação de sociedades científicas, grupos
de discussão permanentes em congressos acadêmicos e revistas
especializadas revelar poucas iniciativas para pensar as metodologias do
ponto de vista epistemológico, uma vez que são escassas as discussões
metodológicas sobre a prática da pesquisa em Jornalismo.

Devido ao fato de a comunidade científica do campo do jornalismo brasileiro


ter uma forte herança ligada à Europa, em particular à França, país de grande
tradição ensaística no campo da pesquisa, o trajeto metodológico da pesquisa
no campo parece ter permanecido subliminar, desde sua construção no início
dos anos 1970. Como apontam Machado e Sant’Ana (2014, p. 28):

Ao longo de todo o século XX, os estudos sistemáticos de Groth e


Bruchner e as coletâneas de ensaios de Nafziger; Wilkerson (1968) e
de Marques De Melo (1970) são exceções entre uma comunidade de
pesquisadores que raras vezes empreendeu esforços institucionais
para elaborar manuais de referência para orientar o trabalho científico
na disciplina, como, por exemplo, os livros Metodologias de Pesquisa

296
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

em Jornalismo (BENETTI; LAGO, 2007), Global Journalism Research


(Theories, Methods, Findings, Future) (LÖFFELHOLZ, Martin; WEAVER,
2008), The Handbook of Journalism Studies (HANITZSCH; WAHL-
JORGENSEN, 2009).

A proposta neste capítulo é a de pormenorizar os estudos sobre metodologia


de pesquisa no âmbito das 15 edições do Encontro Nacional de Pesquisadores
em Jornalismo, organizados de 2004 a 2017 pela Associação Brasileira de
Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Trata-se, portanto, do Jornalismo
enquanto área do conhecimento humano. Optou-se pela abordagem quali-
quantitativa (MARCONI; LAKATOS, 2010) e os métodos de procedimento
monográfico e estatístico a partir da revisão de literatura e das análises
comparativa e de conteúdo (BARDIN, 2011; HERSCOVITZ, 2010; MARTINEZ;
PESSONI, 2015) como técnicas de pesquisa.
Mapeamentos como este têm sido testados pelo Grupo de Pesquisas em
Narrativas Midiáticas (NAMI-Uniso-CNPq) há cinco anos. Assim, podemos
afirmar que esta própria abordagem metodológica vem sido desenvolvida e
aprimorada ao longo do tempo por meio de estudos individuais ou em coautoria
de Martinez (2017, 2016, 2015a., 2015b., 2014a., 2014b., 2014c., 2014d.
e 2014e.), Azoubel (2016a., 2016b., 2016c., 2016d., 2015a., 2015b.,
2015c., 2015d., 2015e., 2015f. e 2015g.), Iuama (2016a., 2016b. e 2015),
Paiva (2017a., 2017b. e 2017c.), Silva (2017 e 2016), Fidelis (2018) e
Heidemann (2017), entre outros.
Trabalhamos a seguir sobre duas categorias a saber: 1) referencial teórico
sobre metodologia de pesquisa em Jornalismo (LAGO; BENETTI, 2010); e
2) perfil das pesquisadoras/pesquisadores investigados. Sobre as hipóteses,
acreditamos que: I) a investigação tende a revelar as regiões Sudeste e
Sul do Brasil como as que mais produzem estudos sobre o tema; II) haja
predominância das referências no formato livro assinados em detrimento dos
artigos científicos; III) a metodologia de pesquisa adotada para efetivação
de cada estudo não seja claramente descrita nos textos; e IV) baseados em
pesquisa recente (VALENTOVA et al., 2017), haja equilíbrio de gênero das
pesquisadoras/pesquisadores do campo da Comunicação e Informação.

Metodologia de pesquisa

Para compor o corpus deste capítulo partimos de consultas à Sala de Pes-


quisa no sítio da SBPJor. Em 2 de março de 2018, fizemos uma checagem
preliminar a partir da busca por palavras-chave que julgamos poderem nos
conduzir aos estudos sobre a metodologia de pesquisa em Jornalismo, conforme
consta no Quadro I:

297
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

Quadro I - Resultados obtidos na checagem preliminar

Palavra-chave Resultados obtidos


Metodologia de pesquisa em jornalismo --
Metodologia 30
Pesquisa 30
Jornalismo 29
Metodologia de pesquisa 04
Metodologia de jornalismo --
Pesquisa de jornalismo --
Fonte: Autoria própria.

Em 15 de junho de 2018, no mesmo sítio, foi realizada uma segunda


pesquisa por palavras-chave, tentando combinar termos como “metodologia +
pesquisa” e “pesquisa + jornalismo”. As pesquisas realizadas não retornaram
resultados. Em 25 de junho de 2018, decidimos investigar manualmente os
resultados apontados em 2 de março. A investida resultou em cinco ocorrências
(25% a mais que na pesquisa automática), como demonstrado no Quadro II.I.:

Quadro II.I – Metodologia de pesquisa como palavra-chave principal

Autoria Título Conferência


Tipo de comunicação
Gislene Silva Análise de cobertura jornalística: VIII SBPJor (2010)
Flávia Dourado Maia proposta de um protocolo metodológico para Coordenada
estudos do acontecimento
Carine Massierer A contribuição da etnografia para os estudos VII SBPJor (2009)
Leandro José Brixius em Jornalismo Individual
Marcos Palacios Metodologia de pesquisa em jornalismo V SBPJor (2007)
digital: algumas reflexões a partir de um Coordenada
caminho percorrido
Tattiana Teixeira Metodologias de pesquisa sobre infografia no V SBPJor (2007)
jornalismo digital: uma análise preliminar Coordenada
Aline do Amaral Análise global de periódicos jornalísticos IV SBPJor (2006)
Garcia Strelow Individual
Fonte: Autoria própria.

Durante a busca manual, identificamos um texto a partir da palavra-chave


“metodologias de pesquisa”, o único assim configurado na base de dados da
SBPJor (CORRÊA; CORRÊA,1 2007), incorporado ao corpus estabelecido. Opta-
mos por desconsiderar os dois outros resultados em que os termos “metodologia
1 Embora no texto ora analisado Luís esteja grafado com S e com acento agudo no I, optamos por
grafá-lo neste capítulo com Z e sem acento, como consta no currículo cadastrado na Plataforma Lattes
pelo referido pesquisador.

298
NARRATIVAS MIDIÁTICAS CONTEMPORÂNEAS: PERSPECTIVAS METODOLÓGICAS

científica” aparecem associados a Jornalismo e Comunicação2, respectivamen-


te. Desta forma, nosso corpus consiste em seis trabalhos (SILVA; MAIA, 2010;
MASSIERER; BRITOS, 2009; CORRÊA; CORRÊA, 2007; PALACIOS, 2007;
TEIXEIRA, 2007; STRELOW, 2006), conforme o Quadro II.II:

Quadro II.II – Metodologia de pesquisa como palavra-chave principal


Autoria Título Código Conferência Tipo de
comunicação
Gislene Silva Flávia Análise de cobertura jornalística: T1 VIII SBPJor (2010)
Dourado Maia proposta de um protocolo Coordenada3
metodológico para estudos do
acontecimento
Carine Massierer A contribuição da etnografia para os T2 VII SBPJor (2009)
Leandro José Brixius estudos em Jornalismo Individual
Elizabeth Saad Convergência de mídias: primeiras T3 V SBPJor (2007)
Corrêa Hamilton contribuições para um modelo Individual
Luiz Corrêa epistemológico e definição de
metodologias de pesquisa
Marcos Palacios Metodologia de pesquisa em T4 V SBPJor (2007)
jornalismo digital: algumas Coordenada4
reflexões a partir de um caminho
percorrido
Tattiana Teixeira Metodologias de pesquisa sobre T5 V SBPJor (2007)
infografia no jornalismo digital: uma Coordenada5
análise preliminar
Aline do Amaral Análise global de periódicos T6 IV SBPJor (2006)
Garcia Strelow jornalísticos Individual
Fonte: Autoria própria.

Deles, três (50%) apresentados em comunicações coordenadas (16,66%


em cada); e três (50%) em comunicações individuais.

Discussão dos resultados

Esta análise consiste em duas categorias: 1) referencial teórico sobre metodologia


de pesquisa em Jornalismo (LAGO; BENETTI, 2010); e 2) perfil das pesquisadoras/
pesquisadores investigados. Trata-se de análise de conteúdo a fim de, entre outros,
“descrever e classificar produtos, gêneros e formatos [...]” e de abordar a “produ