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Tradução de Luís Coimbra

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Para a minha família:
a minha esposa Marilyn e os meus filhos,
Eve, Reid, Victor e Ben

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Índice

Agradecimentos
Prefácio da Edição da Perennial Classics
Prólogo 19

O Carrasco do Amor 31

«Se a Violação Fosse Legal...» 83

A Mulher Gorda 103

«Morreu o Filho Errado» 133

«Nunca Pensei que me Pudesse Acontecer» 159

«Não Desapareças de Mansinho» 167

Dois Sorrisos 183

Três Cartas por Abrir 203

Monogamia Terapêutica 229

Em Busca do Sonhador 247

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Agradecimentos

ais do que metade deste livro foi escrita durante um ano de li-

M cença sabática repleto de viagens. Estou muito grato a diversos


indivíduos e instituições que me acolheram e facilitaram a es-
crita desta obra: o Centro de Humanidades da Universidade de Stanford,
o Centro de Estudos Bellagio da Fundação Rockefeller, os Drs. Mikiko e
Tsunechito Hasegawa em Tóquio e no Havai, o Caffé Malvina em São Fran-
cisco, e o Programa de Escrita Criativa de Bennington College.
Agradeço à minha esposa Marilyn (que é sempre a minha crítica mais
dura e a minha apoiante mais dedicada); à minha editora na Basic Books,
Phoebe Hoss, que muita liberdade me deu neste e nos meus livros anterior-
mente publicados pela Basic; e à minha gestora de projecto na Basic Books,
Linda Carbone. Agradeço também aos variadíssimos colegas e amigos
que não fugiram quando os abordei, com um novo texto na mão e que me
ofereceram ora críticas, ora encorajamento, ora consolo. Foi um processo
moroso e decerto ter-me-ei esquecido de alguns nomes pelo caminho, mas
não posso deixar de agradecer a Pat Baumgardner, Helen Blau, Michele
Carter, Isabel Davis, Stanely Elkin, John Felstiner, Albert Guerard, Maclin
Guerard, Ruthellen Josselson, Herant Katchadourian, Stina Katchadourian,
Marguerite Lederberg, John L’Heureux, Morton Lieberman, Dee Lum, K.
Y. Lum, Mary Jane Moffatt, Nan Robinson, à minha irmã Jean Rose, a Gena
Sorensen, David Spiegel, Winfried Weiss, ao meu filho Benjamin Yalom,
aos alunos de 1988 na Universidade de Stanford e aos estagiários de psico-
logia do mesmo ano lectivo, à minha secretária Bea Mitchell, que, ao longo
de dez anos, dactilografou os apontamentos clínicos e as ideias que deram
origem a estas histórias. Como sempre, agradeço à Universidade de Stan-
ford por me dar o apoio, a liberdade académica e a comunidade intelectual
essenciais para o meu trabalho.
Tenho uma divida de gratidão para com os dez pacientes cujos casos
são apresentados nestas páginas. Cada um deles leu na íntegra a sua história

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(exceptuando um, que faleceu antes de a sua estar concluída) e autorizou a
respectiva publicação. Cada um deles verificou e aprovou o disfarce que lhe
foi atribuído, muitos deram contributos editoriais, um (Dave) sugeriu-me
o título da sua história, alguns comentaram que o disfarce que lhes dera era
escusadamente denso e insistiram que a minha descrição deles fosse mais
fiel, um ou dois ficaram perturbados com o modo como me expus nesta
obra, ou com algumas das liberdades dramáticas que tomei, mas, ainda as-
sim, esperando que a sua história viesse a ser útil para psicoterapeutas e/ou
outros pacientes, deram-me o seu consentimento e a sua bênção para a pu-
blicar. Quero deixar-lhes, a todos eles, os meus profundos agradecimentos.
Estas são histórias verídicas, mas tive de fazer bastantes alterações para
proteger a identidade dos pacientes. Em muitos casos, incluí substitutos
simbolicamente equivalentes para determinados aspectos da identidade e
das circunstâncias de vida de certo paciente; noutros, enxertei aspectos da
identidade de outros pacientes no protagonista. Em vários casos, os diálo-
gos ficcionais e as minhas reflexões pessoais são post hoc. Os disfarces es-
colhidos são densos e as únicas pessoas que conseguirão ver quem está por
detrás da máscara são os pacientes em causa. Qualquer leitor que julgue
reconhecer um dos dez protagonistas estará, com toda a certeza, enganado.

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Prefácio da Edição da
Perennial Classics

stas histórias são revoluções criativas. Vão virar o leitor do avesso.

E Agora disponível em nova edição da HarperCollins Publishers, A


Psicologia do Amor, obra consagrada de Irvin Yalom, mergulha-nos
no universo privado da psicoterapia.
Cada uma destas dez histórias relata um encontro verídico entre dois
indivíduos com papéis bem definidos. Estas narrativas clínicas, sujeitas a
transformação artística, são retiradas da experiência profissional do Dr.
Yalom. Foram tratadas com meticuloso cuidado para as identidades dos
pacientes referidos serem disfarçadas, de modo que respeitasse a sua priva-
cidade e a merecer o seu consentimento para publicação.
Tendo isso presente, o que aqui lemos são versões literárias de encon-
tros clínicos reais, narrativas fascinantes sobre o processo psicoterapêutico
e o seu desenrolar no contexto da vida subjectiva e da interacção entre dois
seres humanos, o Terapeuta e o Paciente.
Em determinado sentido, o que aqui temos não é arte, mas artifício.
Nestas páginas, maravilhamo-nos com a evolução de seres humanos que
enfrentam com coragem as circunstâncias difíceis das suas vidas e as suas
angústias. Simultaneamente, acompanhamos um psicoterapeuta dotado a
aproximar-se daquilo que Martin Buber descreveu como o modo de rela-
cionamento entre Eu e Tu, modo que pauta pela reciprocidade absoluta.
Também se verifica aqui um passe de magia do autor, que encontra
um modo de ensinar conceitos de psicoterapia e dar lições de vida de um
modo novo e original.
Como leitores, como público, damos por nós no papel de observa-
dores silenciosos que ouvem, indiscretamente, estes momentos de intensa
intimidade. Não podemos deixar de encontrar aspectos de nós próprios
reflectidos nestas histórias.
Ao escrever estes parágrafos, recordo-me da primeira vez que me deti-
ve a olhar para o Monumento aos Combatentes do Vietname em Washing-

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ton, DC. Mesmo à luz amortecida do entardecer, os nomes gravados em
mármore negro não me impediam de observar a minha própria imagem
reflectida naquela superfície espelhada. Por instantes, cada um dos solda-
dos imortalizados no monumento e quem contempla as inscrições estão na
presença uns dos outros.
As narrativas integradas em A Psicologia do Amor homenageiam vi-
das reais. A prosa fina de Yalom não se limita a agarrar-nos; convida-nos a
participar em cada um destes encontros e arrasta-nos para o âmago destas
conversas. Gravadas na nossa imaginação, alteram o modo como vemos o
mundo e as nossas próprias pessoas.
Muitas pessoas, dedicadas ou não às profissões sociais e de saúde, be-
neficiaram da leitura de A Psicologia do Amor. Outras, sensibilizadas com
estas histórias, foram levadas adoptar nova perspectivas sobre si próprias
ou as dificuldades da vida. Algumas optaram por se submeter, pela primei-
ra vez, a psicoterapia.

ostaria, no entanto, de sugerir que, em A Psicologia do Amor, nem


G tudo é exactamente aquilo que parece ser. Embora pareça uma ferra-
menta educativa, este livro também anuncia a criação de um novo género
artístico por parte de um autor com verdadeiro talento literário.
Esta obra situa-se na encruzilhada da arte com a ciência. Serve simul-
taneamente ambos os ramos. A Psicologia do Amor deriva inspiração das
obras clássicas da Psicologia que recorrem a casos clínicos para apresenta-
rem novos pontos de vista: o estudo clássico de S. Freud sobre o «Pequeno
Hans»; o «Case of Ellen West», de L. Binswanger, Memories, Dreams, de
C. G. Jung; Young Man Luther e Gandhi’s Truth, de E. Erikson. Também as
obras Doctor of Desire e The Listener, do Dr. Allen Wheelis, e Lives of a Cell
de Lewis Thomas, fazem essa ponte entre ciência e arte.
Porém, a sua originalidade, aquilo que demarca esta obra da ciência
criativa (neste caso, da psicoterapia criativa) e a insere num género artístico
próprio, é o modo como a narrativa clínica deixa aqui de ser um signo e se
transforma num autêntico símbolo.
As histórias de Yalom mudam o nosso enquadramento conceptual. A
narrativa clínica, nas mãos deste artista, converte-se numa metáfora para o
percurso da alma ao longo da vida. Entramos no mesmo território artístico
que é ocupado por O Coração das Trevas de Joseph Conrad, Moby Dick de
Melville, e Dom Quixote de Cervantes. Os episódios relatados em A Psico-
logia do Amor são metáforas para o caminho para a plenitude e a realização
pessoal, percurso descrito com recurso a vocabulário transparente: o te-
rapeuta, o paciente, a história de vida, a doença, as circunstâncias difíceis.
Esta obra preludiou dois romances subsequentes: Quando Nietzsche

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Chorou e Mentiras no Divã, além de um livro de contos: Momma and the
Meaning of Life. Nessas obras, Yalom alarga o âmbito artístico e a diversi-
dade do discurso humano, transformando, metaforicamente, a consulta de
psicoterapia numa nova forma artística.
Antes de embarcarmos nesta viagem literária, é importante compre-
endermos que o terapeuta referido em A Psicologia do Amor é ao mesmo
tempo três doutores Yalom, cada um dos quais revela um aspecto da vida e
dos projectos dele.
A primeira encarnação remonta aos anos em que ficou conhecido por
Dr. Yalom, professor de psiquiatria na Universidade de Stanford. Desde iní-
cios da década de sessenta até hoje, tem-se mantido como docente, mentor
e investigador conceituado. Na fase inicial, a sua investigação e os seus es-
critos sobre psicoterapia de grupo e os fenómenos sociais emergentes dos
encontros em grupo deram-lhe relevo a nível nacional. Esses estudos foram
apresentados em duas obras que merecem destaque: Theory and Practice
of Group Psychotherapy e Encounter Groups First Facts. O autor esclareceu
o valor intrínseco, e até mesmo a qualidade reparadora, dessas formas so-
ciais de psicoterapia, e o porquê de determinados indivíduos se mostra-
rem especialmente capazes de beneficiarem dessa abordagem. Investigou
os aspectos que promovem a evolução dentro de todos os grupos de tera-
pia e encarou o grupo propriamente dito como um processo evolutivo cuja
identidade está em constante mutação. Atentou nas subtilezas da relação
entre quem gere e quem participa no grupo, esmiuçando, decididamente,
as questões de poder e controlo, amor, agressão, auto-estima e domínio.

segunda encarnação — o Dr. Yalom, por vezes, apelidado de «Irv» —,


A é um muito estimado médico psiquiatra. Ao longo do seu percurso
profissional, logo desde o internato de psiquiatria no Johns Hopkins, o Dr.
Yalom questionou, constantemente, as tendências psicanalíticas dominan-
tes em cada época, sem ignorar certos aspectos profundos e úteis: a com-
preensão da vida inconsciente; a estrutura da consciência, os métodos que
utilizamos para darmos sentido ao mundo, para nos defendermos da an-
siedade, para definirmos objectivos na vida, para encararmos o luto e para
recuperarmos. Na primeira metade do século xx, no Johns Hopkins, o ilus-
tre psiquiatra americano Adolph Meyer apresentara o conceito da análise
pormenorizada da vida como método para a compreensão do surgimento
e do impacto das doenças mentais, e o estudo das suas características espe-
cíficas e dos fenómenos relacionados.
Anos mais tarde, o Dr. Jerome Frank, outro conceituado psiquiatra
do Johns Hopkins, debruçou-se sobre o contributo de factores «não espe-
cíficos» para a eficácia da psicoterapia. A investigação clínica do Dr. Frank

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incidiu sobre a relação subtil entre o contexto específico, a consistência e a
previsibilidade da presença e da atitude do terapeuta, e a confiança e a acei-
tação que a atitude deste merece.
Bebendo da tradição analítica, das ideias de professores influentes e
aproveitando a sua própria aptidão para questionar com compaixão, mas
sem vacilar, Yalom entrou, determinadamente no universo da psicoterapia
existencial. Quem sabe quando o seu eterno fascínio com a narrativa da
vida humana, ou as cambiantes da existência, ou os nossos modos específi-
cos de estarmos connosco e com os outros se conjugaram para dar origem
à sua nova identidade?
Como se terá ele tornado, realmente, num psicoterapeuta existencial?
Talvez tenha sido através do modo absolutamente sincero como encara a
sua realidade particular em relação ao próximo, ou através da sua noção da
atitude análoga do próximo em relação a ele. Talvez tenha sido por ter per-
cebido que os universos, tantas vezes secretos, e, até esquivos, do pensamen-
to, do sentimento e da imagem poderiam ser transportados directamente
para o encontro terapêutico — com transparência, coragem, respeito —, e
por ter subsequente e cuidadosamente experimentado essa possibilidade.
É certo que o Dr. Yalom não descobriu, nem reinventou os conceitos
de transferência e de contratransferência, essas realidades subjectivas que
trazem para o presente novas versões activas das nossas antigas, por vezes
até arcaicas, maneiras de ver o mundo, de o pensar e de nos relacionarmos
socialmente. No entanto, explorou essas realidades sociais da terapia com
uma perspectiva nova, empenho e ousadia. Ao partilhar com franqueza
os seus apontamentos sobre o processo de terapia de grupo com os parti-
cipantes nos intervalos entre sessões, ou ao trocar apontamentos sobre o
processo psicoterapêutico com os pacientes para melhor reflectirem sobre
uma sessão, variação original que descreve em Every Day Gets a Little Clo-
ser, Yalom começou a desmistificar o processo de tratamento e o papel do
terapeuta no mesmo.
Ironicamente, deste modo, os mistérios da terapia adensam-se. Como
o autor descobriu, assim os pacientes entregavam-se mais no diálogo com
ele, aprofundavam cada vez mais a análise das suas vidas e dos seus próprios
seres. Descobriu que se debatiam corajosamente com aquilo que é comum
a todos nós, cada um à sua a maneira, o modo como damos sentido à vida
ou tentamos evitá-lo, a nossa solidão e isolamento, o medo que a vida, bem
como a morte e a inexistência nos suscitam, o modo como limitamos a
nossa liberdade e as nossas possibilidades. O notável contributo que deu na
sua obra Existential Psychotherapy (1980), que já vai na sua segunda edição,
tornou o Dr. Yalom, investigador e psicoterapeuta, numa figura de renome
mundial.

16
...
terceiro Dr. Yalom, autor e artista, oferece-nos uma perspectiva cria-
O tiva sobre a condição humana. Nessa encarnação, o Dr. Yalom desta-
ca-se como um óptimo contador de histórias.
Ao ler as histórias que se seguem, tenha presente que, aqui, as pala-
vras-chave são a «abertura» e a «predisposição para a sinceridade inédita».
Decerto, alguns leitores ficarão perturbados com tamanha transparência da
parte de um psicoterapeuta.
Por fim, é legítimo perguntarmos: «Porquê justapor amor à execução
da pena capital?» Relativamente a esse assunto, creio que Yalom, como ar-
tista, nos está a propor um estudo das nossas pretensões humanas funda-
mentais e do modo como estas podem obscurecer, ou nos podem desviar
do caminho para a verdade e a plenitude. Ele acusa, e até condena verda-
deiramente à morte, as ilusões que temos sobre o amor: o amor que temos à
nossa própria imagem; o amor restrito e distorcido que temos pelos outros;
o amor que temos às nossas vidas tantas vezes limitadas e autodestrutivas;
o amor que temos ao vazio ou à destruição ou à insignificância ou à solidão.
Não posso deixar de citar as palavras do poeta W. B. Yeats:

«O amor é coisa retorcida


Ninguém tem sabedoria
Para descobrir tudo de que é feito»

W. B. Yeats, Brown Penny, 1990

o nosso “modo retorcido de amar”, deparamo-nos com guias, pesso-


N as que não estão dispostas a partilhar ilusões, optando sim por aju-
dar a desfazê-las, a descobrir a essência da nossa humanidade. J. P. Sartre
escreveu sobre como reivindicamos a nossa liberdade. Subjaz a essa ideia a
consciência da responsabilidade que temos para com os outros e o mundo
que ajudamos a criar. É nessa noção livre e responsável do amor e da exis-
tência que descobrimos a «vertigem de possibilidades» que Yalom exalta
nestas histórias.

Dr. Randall Weingarten,


professor de psiquiatria,
Universidade de Stanford,
Abril de 2000

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Todos os nomes, traços característicos e outros
pormenores dos indivíduos cujos casos são retratados
neste livro foram modificados.

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Prólogo

magine o seguinte espectáculo: é pedido a trezentas ou quatrocentas

I pessoas, que não se conhecem umas às outras, que se agrupem em pa-


res e façam ao respectivo parceiro apenas e só uma pergunta: «O que
quer?», vezes e vezes sem conta.
Haverá algo mais fácil do que isso? Trata-se de uma pergunta inocente
e da sua resposta. Ainda assim, vezes e vezes sem conta, vi este exercício de
grupo suscitar, inesperadamente, emoções fortes. Muitas vezes, em poucos
minutos, a sala enche-se de emoções à flor da pele. Homens e mulheres —
indivíduos que não são, de modo algum, desesperados nem carentes, mas
pessoas bem sucedidas, funcionais e elegantes que parecem luzir quando
se passeiam —, sentem-se abalados até ao âmago do seu ser. Bradam a en-
tes desaparecidos — pais, cônjuges, amigos e filhos falecidos ou ausentes:
«Quero voltar a ver-te.» «Quero que me ames.» «Quero saber se te orgulhas
de mim.» «Quero que saibas o quanto te adoro e o quanto lamento que
nunca to tenha dito.» «Quero que voltes para mim... estou tão sozinho.»
«Quero a infância que nunca tive.» «Quer ter saúde... quero voltar a ser jo-
vem. Quero ser amado e respeitado. Quero que a minha vida tenha sentido.
Quero fazer algo da vida. Quero fazer a diferença, quero ser importante e
não cair no esquecimento.»
Tanto querer. Tanto ansiar. E tanta dor, tão à flor da pele, a poucos
minutos de se expor. Dores do destino. Dores existenciais. Dores sempre
presentes, que arranham, constantemente, a membrana da nossa vida.
Dores demasiado acessíveis. Muitas situações — um exercício de grupo,
um instante de profunda reflexão, uma obra de arte, uma homilia, uma
crise pessoal, a perda de um ente querido —, relembram-nos de que os
nossos desejos mais íntimos podem nunca vir a ser satisfeitos: o desejo
de juventude e de travar o envelhecimento, o desejo do regresso de pes-
soas desaparecidas, de amor eterno, de protecção, significância, até de
imortalidade.

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É quando esses desejos inviáveis dominam a nossa vida que pedimos
socorro à família, aos amigos, à religião e, por vezes, a psicoterapeutas.
Narro neste livro as histórias de dez pacientes que recorreram à te-
rapia e que, no decurso do processo terapêutico, se debateram com dores
existenciais. Não foi esse o motivo pelo qual procuraram a minha ajuda,
muito pelo contrário, visto que os dez sofriam de problemas banais do
dia-a-dia: solidão, auto-desprezo, impotência, enxaquecas, compulsões se-
xuais, obesidade, hipertensão, angústia, uma obsessão amorosa que a tudo
o resto consume, mudanças de humor e depressão. Porém, de algum modo
(“modo” que se desenrola de maneira diferente em cada história), o proces-
so terapêutico desenterrou as raízes desses problemas corriqueiros, raízes
que se estendiam até ao cerne da existência.
«Eu quero! Eu quero!» são palavras recorrentes em todas estas histó-
rias. Uma certa paciente chorava: «Quero que a minha querida filha ressus-
cite», ao mesmo tempo que votava ao abandono os dois filhos que haviam
sobrevivido. Outro insistia: «Quero comer todas as mulheres que vejo», en-
quanto um cancro linfático invadia todos os recantos do seu corpo. Outro
clamava: «Quero os pais e a infância que nunca tive», enquanto se angus-
tiava a respeito de três envelopes que não tinha coragem para abrir. Outra
afirmou: «Quero ser jovem para sempre», enquanto, idosa, não conseguia
desistir do seu amor obsessivo por um homem trinta e cinco anos mais
novo do que ela.
Creio que o aspecto fundamental da psicoterapia é sempre essa dor
existencial, e não, como muitas vezes se diz, os instintos reprimidos, ou
os despojos mal enterrados de um passado trágico. Durante o proces-
so terapêutico com cada um destes dez pacientes, o meu pressuposto
clínico fundamental — no qual baseei a minha abordagem — é que a
ansiedade essencial emerge dos esforços conscientes e inconscientes do
indivíduo por lidar com as duras realidades da vida, os «dados adquiri-
dos» da existência.1
Constatei que existem quatro dados adquiridos particularmente rele-
vantes para a psicoterapia: a inevitabilidade da morte, a nossa e a dos entes
queridos; a liberdade para vivermos como nos aprouver; a nossa solidão
fundamental, e, finalmente, a ausência de qualquer sentido ou significado
na vida. Por mais terríveis que estes dados adquiridos possam parecer, con-
têm as sementes da sabedoria e da redenção. Espero demonstrar, nestas dez
histórias de psicoterapia, que é possível enfrentar as verdades da existência

1
Para uma abordagem pormenorizada a esta perspectiva existencial, bem como à te-
oria e à prática da psicoterapia nela baseada, ver o meu livro Existential Psychotherpy
(Nova Iorque: Basic Books, 1980).

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e aproveitar a força destas para alimentar a mudança e o desenvolvimento
pessoais.
Entre estes factos da vida, a morte é o mais evidente, o mais intuitiva-
mente palpável. Desde cedo, bem mais cedo do que muitas vezes se julga,
compreendemos que a morte há-de chegar e que não há escapatória. No
entanto, nas palavras de Spinoza: «Tudo se esforça por prolongar a sua exis-
tência». Desenrola-se no nosso imo um conflito eterno entre o desejo de
continuar a existir e a noção da inevitabilidade da morte.
Para nos adaptarmos à realidade da morte, somos infinitamente habi-
lidosos no desenvolvimento de técnicas para a negarmos, ou a evitarmos.
Na juventude, negamos a morte com a ajuda do encorajamento dos pais e
de mitos seculares e religiosos; posteriormente, personificamo-la, transfor-
mando-a numa entidade, seja ela um monstro, um João-Pestana, ou um
demónio. Afinal, se a morte for uma entidade que nos persegue, talvez en-
contremos maneira de escapar; além disso, por mais assustador que possa
ser um monstro que traz a morte em si, é menos assustador do que a ver-
dade: que trazemos dentro de nós os esporos do nosso próprio fim. Mais
tarde, as crianças experimentam outros métodos para atenuarem a ansie-
dade face à morte: tiram-lhe o veneno provocando-a, desafiando-a através
de actos temerários, ou através da dessensibilização, expondo-se a histórias
e filmes de terror na companhia reconfortante dos seus semelhantes e de
pipocas com manteiga.
À medida que envelhecemos, aprendemos a não pensar na morte; dis-
traímo-nos; transformamo-la em algo de positivo (uma travessia, um re-
gresso a casa, a reunião com Deus e, finalmente, paz e sossego); negamo-la
com mitos que nos sustentam; esforçamo-nos por alcançar a imortalidade
através de obras imperecíveis, projectando a nossa semente para o futuro
através dos nossos filhos, ou aderindo a um sistema religioso que admita a
eternização das nossas almas.
São muitas as pessoas que se opõem a esta descrição da negação da
morte, afirmando: «Que disparate! Nós não negamos a morte. Sabemos
que toda a gente há-de morrer. Trata-se de um facto evidente, mas faz al-
gum sentido repisar o assunto?»
A verdade é que estamos, mas não estamos cientes dela. Sabemos da
sua existência, admitimos esse facto intelectualmente, mas nós — ou seja, a
parte inconsciente da psique que nos protege da ansiedade avassaladora —,
rompemos, ou dissociamos o terror subjacente à morte. Esse processo de
dissociação é inconsciente, não nos é perceptível, mas é possível convencer-
mo-nos da sua existência naqueles raros episódios em que os mecanismos
de negação falham, ou a ansiedade perante a morte penetra as defesas com
toda a sua intensidade. Trata-se de acontecimentos muito raros, nalguns

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casos, só se verificam uma ou duas vezes na vida. Por vezes, acontecem
quando estamos despertos, depois de escaparmos à morte por pouco, ou
quando um ente querido falece; mas é mais frequente a ansiedade diante da
morte manifestar-se em pesadelos.
Um pesadelo é um sonho falhado, que, por não «resolver» a ansieda-
de, não cumpre o seu papel como guardião do sono. Embora os pesadelos
variem de acordo com o seu conteúdo manifesto, o processo subjacente
é igual em todos: a ansiedade de morte em estado puro solta-se das suas
amarras e rebenta no consciente. A narrativa de «Em busca do sonhador»
oferece uma perspectiva única dos mecanismos da nossa fuga à ansiedade
perante a morte e dos derradeiros esforços da mente humana para a con-
terem: nesse caso, entre as imagens fúnebres e sinistras que preenchem o
pesadelo de Marvin, encontra-se um instrumento que promove a vida e
desafia a morte: a bengala luminosa de ponta branca com a qual o sonha-
dor trava um duelo sexual com a morte.
O acto sexual também é visto pelos protagonistas de outras histórias
como um talismã para esconjurar o enfraquecimento, o envelhecimento
e a aproximação da morte: daí a promiscuidade compulsiva de um jovem
face ao cancro fatal («Se a violação fosse legal...»), bem como o apego de um
senhor de idade a cartas amarelecidas, escritas por uma falecida amante há
trinta e um anos («Não desapareças de mansinho»).
No trabalho que fiz ao longo de muitos anos com doentes onco-
lógicos confrontados com a iminência da morte, apercebi-me de dois
métodos particularmente poderosos e comuns utilizados para espantar
o medo da morte, duas crenças, ou ilusões, que oferecem alguma sensa-
ção de segurança. Uma delas é a fé no estatuto especial do eu; a outra, a
fé na chegada de uma salvação na hora H. Embora sejam delírios, por
representarem «convicções falsas inabaláveis», não lhes atribuo essa de-
signação de modo pejorativo: são fés universais que, em algum nível da
nossa consciência, existem em todos nós e desempenham um papel em
muitas destas histórias.
A sensação de que somos especiais está relacionada com a convic-
ção de que somos invulneráveis e invioláveis, de que vivemos à margem
das leis fundamentais da biologia humana e do destino. Nalgum ponto
da vida, todos nós enfrentamos uma crise: pode ser uma doença grave,
um insucesso na carreira, ou um divórcio; ou, como aconteceu a Elva, na
história «Nunca pensei que me pudesse acontecer», pode ser um inci-
dente tão simples quanto o roubo de uma carteira, que, de súbito, põe a
nu a nossa banalidade e desmente a ideia frequente de que a vida é e será
sempre uma espiral ascendente.
Apesar de convicção de que somos especiais ofereça uma sensação de

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segurança interna, o outro mecanismo fundamental de negação da morte
— a fé num salvador — permite que nos sintamos sempre vigiados e pro-
tegidos por uma força exterior. Embora possamos cair e adoecer, embora
possamos chegar ao limite da nossa vida, convencemo-nos de que existe
uma entidade indefinida, omnipotente, que nos trará sempre de volta.
Em conjunto, estes dois sistemas de crença constituem uma dialética
— duas respostas diametralmente opostas à condição humana. O ser hu-
mano ou reforça a sua autonomia através de uma auto-afirmação heróica,
ou procura segurança através da fusão com uma força superior. Por outras
palavras: ou emergimos, ou nos fundimos; ou nos separamos, ou nos inte-
gramos. Ou nos tornamos como que nos nossos próprios pais, ou continu-
amos a ser crianças para sempre.
A maior parte de nós, na maior parte das circunstâncias, sente-se con-
fortável a evitar, hesitantemente, olhar para a morte, rindo e concordando
com Woody Allen quando diz: «Não tenho medo da morte. Só não quero
estar presente quando ela acontecer.» Contudo, existe outra via — uma tra-
dição antiga, que se aplica à psicoterapia —, que nos ensina que a perfeita
consciência da morte amadurece o nosso pensamento e enriquece a nossa
vida. As derradeiras palavras de um dos meus pacientes (em «Se a violação
fosse legal...») demonstram que, embora o facto, o aspecto físico da morte
nos destrua, a ideia da morte pode ser a nossa salvação.

liberdade, outro dado adquirido da existência, constitui um dilema


A para muitos destes dez pacientes. Quando Betty, mulher obesa, anun-
ciou que tinha comido até se fartar pouco antes de ir ao meu consultório e
que tinha a intenção de fazer o mesmo assim que saísse de lá, estava a tentar
prescindir da sua liberdade, procurando convencer-me a assumir controlo
sobre a situação. Todo o processo terapêutico com outra paciente (Telma,
em «O carrasco do amor») girou em torno do modo como se entregara
a um antigo amante (e terapeuta) e da minha procura de estratégias para
ajudá-la a recuperar o seu poder e a sua liberdade.
A liberdade, como dado adquirido, parece ser a antítese da morte. En-
quanto temos pavor da morte, geralmente consideramos que a liberdade é
inequivocamente positiva. Não terá sido a História da civilização ocidental
pontuada com o desejo de liberdade e até impulsionada por ela? Porém, a
liberdade do ponto de vista existencial está associada à ansiedade por im-
plicar que, ao contrário do que a experiência do nosso dia-a-dia possa dar
a entender, não entramos e acabamos por abandonar um universo bem
estruturado que se rege de acordo com desígnios eternos. A liberdade im-

23
plica que somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, as acções que to-
mamos e a condição das nossas próprias vidas.
Embora a palavra «responsável» possa ter diversas acepções, prefiro
o modo como Sartre a definiu: ser responsável é «ser o autor de», sendo
cada um de nós o autor do percurso da sua própria vida. Somos livres de
sermos tudo, excepto não livres: estamos, tal como Sartre decerto diria,
condenados a sermos livres. De facto, alguns filósofos sugerem ainda mais
do que isso, sugerem que a arquitectura da mente humana nos torna até
responsáveis pela estrutura da realidade exterior, pela composição do es-
paço e do tempo. É nessa ideia de auto construção que reside a ansiedade:
somos criaturas que desejam estruturas de apoio e assustamo-nos com um
conceito de liberdade que implica que não existe nada sob os nossos pés,
a não ser o abismo.
Todos os terapeutas sabem que o primeiro passo essencial na tera-
pia é o paciente assumir responsabilidade pelos problemas da sua pró-
pria vida. Enquanto estivermos convencidos de que os nossos proble-
mas são provocados por forças ou entidades exteriores, a terapia não
tem qualquer influência. Se, afinal, os problemas estão lá fora, porque
haveríamos nós de mudar a nossa maneira de estar? O mundo exterior
às nossas pessoas (os amigos, o trabalho, o cônjuge) é que deve modifi-
car-se, ou até mesmo ser substituído. Foi por esse motivo que Dave (em
«Não desapareças de mansinho»), queixando-se com azedume de que
fora encarcerado numa prisão conjugal por uma esposa que mais parecia
uma directora-prisional bisbilhoteira e possessiva, só conseguiu progre-
dir no processo terapêutico quando reconheceu a sua responsabilidade
pela construção desse cárcere.
Como os pacientes tendem a resistir a assumir as suas responsabili-
dades, os terapeutas têm de desenvolver técnicas que lhes permitam fazer
com que eles tomem consciência de como criam os seus próprios proble-
mas. Uma técnica eficaz, que emprego em muitos destes casos, é concen-
trar o diálogo no que se passa aqui e agora. Como os pacientes tendem a
recriar no contexto terapêutico os mesmos problemas interpessoais que
os perseguem nas suas vidas, concentro-me naquilo que se passa no mo-
mento da consulta, entre mim e o paciente, evitando os acontecimentos
passados ou actuais na vida dele. Analisando os pormenores da relação
terapêutica (ou, na terapia de grupo, das relações entre os participantes),
consigo determinar facilmente o modo como um paciente influencia as
reacções de terceiros. Assim sendo, embora Dave tenha resistido a assu-
mir responsabilidade pelos seus problemas conjugais, não pôde resistir à
impressão imediata que ele próprio deixava na terapia de grupo, ou seja: o
secretismo que caracterizava o seu comportamento, provocador e esquivo,

24
fazia com que os outros participantes tivessem reacções muito semelhantes
às da esposa que tinha em casa.
Por motivos semelhantes, o processo terapêutico de Betty («A mulher
gorda») foi ineficaz enquanto ela atribuiu a sua solidão à cultura excêntrica
e instável da Califórnia. Só quando lhe demonstrei, nas horas que passa-
mos juntos, como o seu comportamento tímido, inacessível, o recriava esse
mesmo ambiente impessoal no contexto terapêutico, começou a explorar a
responsabilidade que tinha na criação do seu próprio isolamento.
Embora a capacidade para assumir as suas responsabilidades deixe
o paciente no limiar da mudança, não é sinónimo desta. E o prémio que
realmente perseguimos é a mudança propriamente dita, por mais que um
terapeuta possa procurar encaminhar o paciente para a introspecção, a as-
sunção das suas responsabilidades e a auto-realização.
A liberdade não só nos obriga a admitirmos a responsabilidade que
temos nas escolhas que fazemos na vida, como pressupõe que a mudança
exija força de vontade. Embora a «vontade» seja um conceito que os tera-
peutas, raramente, utilizam de modo explícito, realmente empenhamo-nos
sobremaneira em influenciar a vontade do paciente. Insistimos em escla-
recer e interpretar, pressupondo (sendo que se trata de uma demonstração
de fé secular, sem bases empíricas convincentes) que a compreensão gera
invariavelmente a mudança. Quando anos de interpretação não propicia-
ram a mudança, começamos a apelar directamente à vontade do paciente:
«Também é preciso esforço. Tem de se empenhar, sabe? Há um momento
para a reflexão e a análise, mas também há uma altura para agir». E quando
os apelos directos falham, o terapeuta vê-se limitado, como estas histórias
comprovam, a recorrer a todos os meios de que dispõe para influenciar o
próximo. Nesse sentido, aconselha, discute, persegue, provoca, engoda, im-
plora, ou simplesmente atura, na esperança de que a perspectiva neurótica
que o paciente tem sobre o mundo desapareça por força do cansaço.
É através da vontade, a força motriz da acção, que a nossa liberdade
é exercida. Considero que a vontade tem duas etapas: o indivíduo inicia o
processo com um desejo e executa-o quando se decide.
Há pessoas cujos desejos estão bloqueados, não sabem o que sen-
tem, nem o que querem. Sem opiniões, sem impulsos, sem tendências,
tornam-se parasitas dos desejos alheios. Tais pessoas tendem a tornar-se
cansativas. Betty era uma personagem aborrecida precisamente porque
abafava os seus desejos, e os outros cansavam-se de lhe fornecerem desejos
e imaginação.
Outros pacientes não se decidem. Embora saibam precisamente o que
querem e o que têm de fazer, não são capazes de agir, e, em vez disso, mar-
cam passo, atormentados, no limiar da decisão. Saul, em «Três cartas por

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abrir», sabia que qualquer homem ajuizado abriria os envelopes; no entan-
to, o medo que estes lhe incutiam paralisava a sua vontade. Thelma («O car-
rasco do amor») sabia que a sua obsessão amorosa estava a consumir tudo
o que de real existia na sua vida. Sabia que estava, como ela própria disse, a
viver no passado, oito anos atrás, e sabia que, para retomar a sua vida, teria
de desistir da sua paixão. No entanto, não conseguia, ou não queria, dar
esse passo e resistia, ferozmente, a todas as minhas tentativas no sentido de
reforçar a sua força de vontade.
A tomada de decisões é difícil por diversos motivos, alguns dos quais
relacionados com os aspectos fundamentais da existência. John Gardner,
no seu romance Grendel, fala de um sábio que resume a sua meditação so-
bre os mistérios da vida em dois simples, mas terríveis axiomas: «Tudo de-
saparece: as alternativas excluem». O primeiro, relacionado com a morte,
já o abordei. O segundo: «as alternativas excluem», é uma chave impor-
tante para melhor compreendermos a razão das dificuldades da decisão.
Invariavelmente, a decisão exige uma renúncia: por cada sim, tem de existir
algum não, cada decisão que tomamos elimina ou aniquila outras alternati-
vas. A palavra [decidir] tem na sua origem o conceito de «matar», tal como
acontece com as palavras [homicídio] e [suicídio]). Assim sendo, Thelma
agarrava-se à hipótese infinitesimal de um dia poder vir a ressuscitar a re-
lação com o seu amante e renunciar a essa possibilidade seria sinónimo de
diminuição e de morte.

isolamento existencial, um terceiro dado adquirido, refere-se ao abis-


O mo intransponível entre nós e os outros, intervalo que existe mesmo
na presença de relações interpessoais profundamente gratificantes. Não só
nos encontramos isolados de outros seres humanos, como também, uma
vez que em que cada um de nós constitui o seu próprio universo, estamos
também isolados do mundo. Esse isolamento não deve ser confundido
com dois outros tipos de isolamento: o interpessoal e o intrapessoal.
Conhecemos o isolamento interpessoal, ou a solidão, quando não
temos as competências sociais ou estilo de personalidade que permite in-
teracções sociais íntimas. O isolamento intrapessoal verifica-se quando as
diversas partes do eu estão dissociadas, como quando dissociamos uma
emoção da memória de um acontecimento. A manifestação mais extrema
e mais dramática desse modo de dissociação, o desenvolvimento de múl-
tiplas personalidades, é relativamente rara (embora se torne cada vez mais
reconhecida); quando se verifica, o terapeuta pode ver-se confrontado,
como me aconteceu durante o tratamento de Marge («Monogamia tera-

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pêutica») com o dilema desconcertante relativamente a qual das personali-
dades deve “agarrar”.
Embora não haja solução para o isolamento existencial, o terapeuta
deve desencorajar a adopção de falsas soluções. Os esforços que fazemos
para evitarmos o isolamento podem sabotar as nossas relações com os ou-
tros. Foram muitas as amizades e os casamentos que já falharam porque,
em vez de as partes envolvidas procurarem entender-se e estimar-se, uma
delas utiliza a outra como escudo contra o isolamento.
Uma tentativa comum, e enérgica, para resolver o isolamento existen-
cial, que ocorre em muitas destas histórias, passa pela fusão, pelo esbater
dos nossos limites, pela nossa diluição na identidade do outro. O poder
da fusão já foi demonstrado em experiências para o estudo da percepção
subliminar durante as quais a mensagem «Eu e a mamã somos um só» era
projectada numa tela tão rapidamente que os participantes não podiam
vê-la conscientemente, teve como resultado afirmarem que se sentiam
melhor, fortalecidos, mais optimistas, além esses indivíduos terem reagido
melhor do que outros ao tratamento (com modificação comportamental)
de problemas como o tabagismo, a obesidade, ou perturbações no compor-
tamento de adolescentes.
Um dos grandes paradoxos da vida é que a consciência de nós pró-
prios gera ansiedade. A fusão erradica a ansiedade de modo radical — eli-
minando a consciência de nós próprios. O indivíduo que se apaixona e
entra num estado feliz de fusão com o outro não reflecte sobre si próprio,
porque as interrogações do «eu» solitário (e a ansiedade concomitante face
ao isolamento) acabam por se diluir no «nós». Assim sendo, libertamo-nos
da ansiedade, mas acabamos por nos perder a nós próprios.
É precisamente por isso que os terapeutas não gostam de tratar pa-
cientes apaixonados, visto que a terapia e o estado de fusão amorosa são
incompatíveis, porque o trabalho terapêutico exige uma noção inquisitiva
do eu e uma ansiedade que, no fundo, acabará por funcionar como um
mapa dos conflitos internos.
Além disso, tal como a maioria dos terapeutas, tenho dificuldade em
criar uma relação com um paciente apaixonado. Em «O carrasco do amor»,
por exemplo, Thelma recusava-se a relacionar-se comigo: a sua energia era
totalmente consumida pela sua obsessão amorosa. Devemos ter cuidado
com a forte ligação exclusiva a outra pessoa; não é, ao contrário do que por
vezes se julga, prova da pureza do amor. Esse amor exclusivo, encapsulado,
que se alimenta de si próprio, sem dar nada a terceiros nem qualquer pre-
ocupação com eles, está condenado a ruir. O amor não é apenas o nascer
de uma paixão entre duas pessoas; existem infinitas diferenças entre apai-
xonarmo-nos e mantermo-nos nesse estado. Aliás, o amor é uma forma

27
de estar, é algo que se «dá» e não um estado em que se «mergulha»; é um
modo de nos relacionarmos com o mundo e não um gesto limitado a uma
só pessoa.
Embora nos esforcemos muito por viver a vida dois a dois, ou em
grupos, há ocasiões, principalmente com o aproximar da morte, em que a
verdade o facto de nascermos sozinhos e de assim termos de morrer, nos
assalta com uma lucidez arrepiante. Já ouvi muitos pacientes moribundos
comentarem que o aspecto mais terrível da morte é o facto de ser forço-
samente um processo solitário. Porém, mesmo na hora da morte, a dis-
posição de outra pessoa para estar verdadeiramente presente pode furar
esse isolamento. Tal como me disse um paciente em «Não desapareças de
mansinho»: «Embora cada um esteja sozinho no seu barco, é sempre um
consolo ver as luzes dos outros navios a boiarem por perto.»

gora, se a morte é inevitável, se tudo o que realizámos e, de facto, todo o


A nosso sistema solar haverão de desaparecer um dia, se o mundo é fruto
da eventualidade (ou seja, se tudo poderia ter sido de maneira diferente), se
os seres humanos têm de definir o mundo e o percurso da sua própria vida,
que importância duradoura terá a nossa existência?
Essa dúvida persegue os homens e as mulheres contemporâneos, e
muitos deles recorrem à terapia por sentirem que as suas vidas são isen-
tas de sentido e de objectivos. Todos nós somos criaturas que procuram
sentido. Biologicamente, os nossos sistemas nervosos estão organizados
de modo que o cérebro agrupe automaticamente os estímulos recebidos
em determinadas configurações. O sentido também oferece uma sensa-
ção de controlo: sentindo-nos desamparados e confusos perante aconteci-
mentos aleatórios, que não se inserem em qualquer padrão, procuramos
ordená-los e, ao fazermos isso, ficamos com a impressão de que os con-
trolamos. Mais do que isso, o sentido dá azo a valores e, por conseguinte,
origina códigos de comportamento, desse modo a resposta a perguntas
sobre «porquês» (porque é que estou vivo?), fornece a resposta a perguntas
sobre «como» (como é que eu devo viver?).
Ao longo destas dez histórias de psicoterapia, são raras as discussões
explícitas sobre o sentido da vida. A procura de sentido, muito como a pro-
cura do prazer, deve ser abordada de modo oblíquo. O sentido resulta de
actividades significativas: quanto maior a determinação com que o pro-
curamos, menor a probabilidade de o encontrarmos; serão sempre mais
numerosas as perguntas racionais do que as respostas encontradas na nos-
sa busca pelo sentido. Na terapia, tal como na vida, o sentido resulta do

28
empenho e da dedicação ao processo e é para aí que os terapeutas devem
direccionar os seus esforços, não que o empenho proporcione respostas ra-
cionais a dúvidas sobre essa matéria, mas faz com que essas dúvidas percam
alguma importância.
O dilema existencial de um ser que procura sentido e certezas num
universo onde nem um nem as outras existem é de tremenda relevância
para a profissão do psicoterapeuta. No seu trabalho diário, para se poder
relacionar de modo genuíno com o paciente, o terapeuta é assaltado por
bastantes incertezas. Não só o confronto do paciente com as perguntas que
não têm resposta expõe o terapeuta a dúvidas semelhantes, como este se
vê obrigado a reconhecer, como me aconteceu em «Dois sorrisos», que a
experiência do próximo é, no fundo, pessoal, insondável e intransmissível.
De facto, a capacidade de tolerar a incerteza é um pré-requisito desta
profissão. Embora os leigos possam crer que os terapeutas conduzem os pa-
cientes de modo sistemático e com firmeza através de etapas previsíveis no
processo terapêutico rumo a um objectivo pré-definido, raramente acon-
tece assim; pelo contrário, tal como comprovam as histórias aqui inclusas,
é frequente os terapeutas vacilarem, improvisarem e apalparem terreno à
procura do caminho certo. A forte tentação de ter certezas através da ade-
são a uma escola ideológica e a um sistema terapêutico restrito é traiçoeira:
essa atitude pode inviabilizar o encontro incerto e espontâneo que é essen-
cial para a terapia eficaz.
Esse encontro, o coração da psicoterapia, é o encontro terno e profun-
damente humano entre duas pessoas, uma delas mais perturbada do que a
outra (geralmente o paciente, embora nem sempre seja assim). Os terapeu-
tas têm um papel ambivalente: compete-lhes observar e, ao mesmo tempo,
participar nas vidas dos pacientes. Como observador, o terapeuta deve ser
suficientemente objectivo para proporcionar o aconselhamento básico de
que o paciente necessita. Como participante, entra na vida do paciente, aca-
bando por se deixar afectar e, às vezes, transformar por esse encontro.
Ao optar por entrar profundamente na vida de cada paciente, eu, te-
rapeuta, não só me exponho às mesmas questões existenciais que eles se
colocam, como tenho também de estar preparado para os analisar segundo
as mesmas regras. Tenho de partir do princípio que saber é melhor do que
não saber, que correr riscos é melhor do que evitá-los; e que a magia e a
ilusão, por mais férteis e sedutoras que possam ser, acabam por enfraque-
cer o nosso espírito. Encaro com toda a seriedade a firmeza das palavras
de Thomas Hardy: «Se há maneira de chegarmos ao Melhor, exige atenta
contemplação do Pior.»
Esse papel duplo de observador e participante exige muito do tera-
peuta, e, quando me confrontei com estes dez casos, suscitou-me perguntas

29
angustiantes. Seria, por exemplo, legítimo da minha parte esperar que um
paciente, que me pedira para guardar as suas cartas de amor, fosse capaz
de resolver os mesmíssimos problemas que eu, na minha própria vida, te-
nho procurado evitar? Seria possível ajudá-lo a chegar mais longe do que
eu alguma vez conseguira chegar? Deveria eu fazer dificílimas perguntas
existenciais a um homem às portas da morte, a uma viúva, a uma mãe que
chorava a morte da filha e a um reformado a quem sonhos transcendentes
provocavam ansiedade, ainda para mais perguntas para as quais não tinha
resposta? Deveria confessar as minhas falhas e limitações a uma paciente
cuja outra personalidade achava muito sedutora? Seria possível desenvol-
ver uma relação honesta, compreensiva, com uma mulher gorda cujo as-
pecto físico me repugnava? Sob a bandeira do auto-conhecimento, deveria
eu delapidar a ilusão amorosa irracional, mas reconfortante e animadora,
de uma senhora de idade? Ou impor a minha vontade a um homem que,
incapaz de defender os seus interesses, se deixava aterrorizar por três enve-
lopes por abrir?
Embora nestas dez histórias de psicoterapia as palavras «paciente» e
«terapeuta» se repitam muitas vezes, que o leitor não se deixe iludir por
esses termos: estas são histórias sobre todos os homens e todas as mulhe-
res. Todos nós padecemos destes problemas; o rótulo de paciente é essen-
cialmente arbitrário e, muitas vezes, depende mais de factores culturais,
educacionais e económicos do que da gravidade da patologia. Visto que os
terapeutas, assim como os pacientes, têm de enfrentar os mesmos dados
adquiridos da existência, a atitude profissional pautada pela objectividade
desinteressada que se impõe na aplicação de métodos científicos não se
coaduna com a terapia. Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente
estalar a língua, comiserando, e exortar os pacientes para que enfrentem
com determinação os seus problemas. Pelo contrário, devemos falar de nós
próprios e dos nossos problemas, pois a nossa vida, a nossa existência, es-
tará sempre ligada à morte, o amor ligado à perda, a liberdade ao medo e o
crescimento à separação. Nós, todos nós, estamos nisto juntos.

30
UM

O carrasco do amor

ão me agrada trabalhar com pacientes que estejam apaixonados.

N Talvez o desagrado se deva à minha inveja: também eu anseio por


ser arrebatado. Talvez se deva ao facto de o amor e a psicotera-
pia serem fundamentalmente incompatíveis. Enquanto um bom terapeuta
confronta a escuridão e procura iluminar, o amor romântico alimenta-se
do mistério e desmorona quando examinado em pormenor. Detesto ser o
carrasco do amor.
Todavia, Thelma, logo ao abrir a nossa primeira consulta, disse-me
que estava perdida e tragicamente apaixonada, e não hesitei, nem por um
instante, em aceitar tratá-la. Tudo o que observei à primeira vista: o rosto
engelhado pelos seus setenta anos, com aquele queixo que a senilidade fazia
tremer, os despenteados cabelos ralos, louros e oxigenados, bem como as
mãos macilentas, percorridas por veias azuis, me indicava que a senhora
estava enganada, não podia estar apaixonada. Como poderia o amor esco-
lher aquele corpo velho e frágil, periclitante, para os seus maus-tratos, ou
alojar-se naquele deselegante fato de treino em poliéster?
Além disso, onde estava a aura de felicidade que os amantes irradiam?
O sofrimento de Thelma não me surpreendeu, visto que o amor está sem-
pre contaminado com a angústia; mas o amor dela era monstruosamente
desequilibrado: não proporcionava prazer absolutamente nenhum, a vida
da senhora era toda ela tortura.
Assim sendo, aceitei tratá-la, por estar certo de que sofria, não de amor,
mas de alguma variante rara que confundia com esse sentimento. Não só
me convenci de que poderia ajudá-la, como fui intrigado pela suspeita de
que aquele simulacro de amor poderia ser um farol que iluminaria parte do
profundo mistério da paixão.
Thelma mostrou-se distante e rígida da primeira vez que nos encon-
trámos. Não retribuíra o meu sorriso quando a cumprimentara na sala de
espera e seguira um passo atrás de mim quando a conduzira pelo corredor

31
abaixo. Assim que entrámos no consultório, não passou a vista pelo am-
biente circundante, sentando-se imediatamente e, então, sem esperar por
qualquer comentário da minha parte e sem desabotoar o casacão que trazia
por cima do fato de treino, respirou fundo, audivelmente, e começou:
— Há oito anos, tive uma relação amorosa com o meu psicoterapeuta.
Desde essa altura, nunca deixei de pensar nele. Já quase me suicidei uma
vez e creio que da próxima não vou falhar. O doutor é a minha última es-
perança.
Oiço sempre com muita atenção as primeiras declarações que me fa-
zem. Muitas vezes são revelações quase sobrenaturais e auguram o tipo de
relação que poderei estabelecer com o paciente. As palavras têm o condão
de funcionar como pontes entre a nossa vida e a do próximo, mas o tom da
voz de Thelma não me convidava a aproximar-me.
Prosseguiu:
— Caso tenha dificuldade em acreditar no que disse, talvez isto ajude!
Levou a mão a um saco vermelho e desbotado, com atilhos, e entre-
gou-me duas fotografias antigas. Na primeira, figurava uma jovem e bela
bailarina, vestida com um fato de malha justo, negro e luzidio. Admirei-me
quando, ao olhar o rosto da dançarina, vi os olhos grandes de Thelma, dé-
cadas atrás, fixos em mim.
— Essa — informou-me, quando me viu passar à segunda imagem,
de uma mulher com sessenta anos, bonita, mas impassível — foi tirada há
cerca de oito anos. Como vê... — passou com os dedos pelos seus cabelos
desgrenhados —... já não cuido da aparência.
Embora me custasse imaginar aquela velhota mal vestida a ter um
caso com o terapeuta, eu não tinha feito qualquer comentário no sentido
de duvidar das suas palavras. Aliás, ainda não dissera absolutamente nada.
Tentara manter-me totalmente objectivo, mas ela deve ter-se apercebido de
sinais de desconfiança, indícios ténues, talvez um minúsculo arregalar dos
olhos. Optei por não contestar a acusação de que não acreditava na senho-
ra. Não era altura para galanteios e, de facto, havia algo de incongruente na
ideia de uma septuagenária desalinhada se encontrar perdida e ferida de
amores. Ela sabia disso tão bem como eu, e sabia que eu tinha essa noção.
Passado pouco tempo, comunicou-me de que, ao longo dos últimos
vinte anos, sofrera de depressão crónica e submetera-se a tratamento psi-
quiátrico constante. Muito desse acompanhamento fora feito na clínica de
psiquiatria pública, onde a senhora tinha sido tratada por uma série de es-
tagiários.
Cerca de onze anos antes, começara a ser tratada por Matthew, um
jovem e elegante estagiário de psiquiatria, com quem tivera consultas sema-
nais na clínica ao longo de oito meses e por quem continuara a ser acompa-

32
nhada durante um ano na clínica privada dele. No ano seguinte, Matthew
assumira um cargo a tempo inteiro no hospital do Estado e tivera de dar
por encerrada a terapia com todos os seus pacientes do sector privado.
Foi com grande tristeza que Thelma se despediu dele. Tinha sido,
de longe, o melhor terapeuta que alguma vez tivera, afeiçoara-se muito
a ele e no decurso daqueles vinte meses passara as semanas a ansiar pela
sua hora de consulta. Nunca conversara tão abertamente com outra pes-
soa. Nunca outro terapeuta fora tão escrupulosamente honesto, directo
e gentil com ela.
Thelma cantou loas a Matthew durante vários minutos.
— Ele era tão atencioso, tão amável... Já tive terapeutas que tentaram
ser calorosos e pôr-me à vontade, mas o Matthew era diferente. Ele pre-
ocupava-se verdadeiramente comigo, aceitava-me de verdade. Fizesse eu
o que fizesse, quaisquer que fossem as ideias horríveis que me passassem
pela cabeça, sabia que ele me aceitaria e não deixaria de... como é que se
diz?... confirmar-me? Não, de validar-me. Ajudou-me como é costume os
terapeutas ajudarem, mas fez muito mais do que isso.
— Como por exemplo?...
— Apresentou-me a dimensão espiritual e religiosa da vida. Ensi-
nou-me a respeitar todos os seres vivos. Ensinou-me as razões pelas quais
fui posta na Terra, mas não tinha a cabeça nas nuvens. Estava sempre pre-
sente, sempre comigo.
Thelma ficou muitíssimo animada: rematou as palavras com convic-
ção e apontou para o céu e para o chão enquanto falava. Notava-se que
gostava de conversar sobre Matthew.
— Adorava a maneira como ele me dava luta. Não deixava escapar
nada. Chamava-me sempre a atenção para os meus hábitos merdosos.
Essa frase apanhou-me de surpresa. Não encaixava no resto da expo-
sição dela. Porém, Thelma escolhia tão deliberadamente as palavras que
presumi que aquela terminologia era da lavra de Matthew, talvez fosse
exemplo da sua bela técnica profissional! Os meus sentimentos negativos
em relação a ele iam aumentando rapidamente, mas guardei-os para mim.
As palavras de Thelma indicavam-me, claramente, que não levaria a bem
qualquer crítica a Matthew.
Depois dele, começara a ser acompanhada por outros terapeutas, mas
nenhum deles conseguira tocá-la, ou ajudá-la a dar valor à vida da mesma
maneira que Matthew.
Imagine-se, então, quão feliz ficara por se ter cruzado com ele um ano
depois do último encontro entre os dois, num sábado à tarde, em Union
Square, em São Francisco. Conversaram um pouco e, para fugirem ao cor-
rupio de gente que ali ia fazer compras, foram tomar café ao St. Francis Ho-

33
tel. Tinham tanto para discutir, havia tanto que Matthew queria saber sobre
como Thelma passara no ano anterior, que o café se prolongou até ser hora
de jantar e acabaram por ir comer cioppino de caranguejo ao restaurante
Scoma’s, no Fisherman’s Wharf.
Por qualquer motivo, todos esses desenvolvimentos pareceram natu-
rais, como se já houvessem jantado assim, juntos, variadíssimas vezes. Na
verdade, a relação entre os dois fora estritamente profissional, sem ter ex-
travasado, de modo algum, os limites formais da relação entre paciente e
terapeuta. Tinham aprendido a conhecer-se um ao outro em segmentos se-
manais com a duração exacta de cinquenta minutos, nem mais, nem menos.
Porém, naquela noite, por razões que Thelma, ainda agora, não conse-
guia entender, tinham-se desviado da sua realidade habitual. Nenhum dos
dois prestou atenção às horas; fizeram um pacto silencioso no sentido de
fingirem que não havia nada de invulgar naquela conversa particular, nem
no facto de terem tomado café e jantado juntos. Pareceu-lhe natural compor
a gola amarrotada da camisa dele, limpar a sujidade que lhe detectara no ca-
saco, dar-lhe o braço quando subiram a encosta de Nob Hill. Pareceu-lhe
natural que Matthew descrevesse a sua «casota» no Haight e foi com toda a
naturalidade que Thelma comentou que estava mortinha por ver como era.
Tinham partilhado risos abafados quando ela dissera que o marido estava
em viagem: Harry, membro do conselho consultivo do Corpo Nacional de
Escutas americano, quase todas as noites dava palestras em cerimónias da
organização em algum canto da América. Matthew mostrara-se divertido
com o facto de estar tudo na mesma; Thelma não sentira a necessidade de
lhe explicar nada: afinal de contas, já sabia tudo sobre ela.
— Mal me lembro do resto dessa noite — prosseguiu —, de como
aconteceu, de quem tocou em quem primeiro, de como decidimos ir para
a cama. Não tomámos decisões, aconteceu tudo com naturalidade, sem es-
forço, espontaneamente. Aquilo de que me lembro com maior nitidez é de
me ter sentido arrebatada quando estava deitada nos braços do Matthew:
um dos melhores momentos da minha vida.
— Conte-me o que aconteceu depois.
— Os vinte e sete dias que se seguiram, entre 19 de Junho e 16 de Ju-
lho, foram mágicos. Falávamos ao telefone várias vezes por dia e encontrá-
mo-nos catorze vezes. Senti que estava a voar, a deslizar, a dançar.
A voz de Thelma parecia agora alegre, cadenciada, ela acenava com a
cabeça a par de uma melodia de oito anos atrás. Tinha os olhos quase fe-
chados, pondo a minha paciência à prova. Não gosto de me sentir invisível.
— Foi o auge da mina vida. Nunca tinha sido tão feliz como nessa
altura e não voltei a sê-lo. O que aconteceu desde então nunca há-de apagar
o que ele me deu naqueles dias.

34
— O que aconteceu desde então?
— A última vez que o vi foi às 12h30 no dia 16 de Julho. Durante
dois dias, não consegui contactá-lo por telefone, portanto apareci-lhe no
consultório sem marcação. Ele estava a comer uma sanduíche e tinha cer-
ca de vinte minutos de intervalo antes de uma sessão de terapia de grupo.
Perguntei-lhe porque não tinha reagido aos meus telefonemas e limitou-se
a responder-me: «Ambos sabemos que isto não está certo.»
Thelma calou-se e chorou baixinho.
«Que óptima altura para ele descobrir que não estava certo», reflecti.
— Consegue continuar?
— Perguntei-lhe: «E se eu te telefonar no ano que vem, ou daqui a cin-
co anos? Encontras-te comigo? Podemos voltar a passear na Golden Gate
Bridge? Deixas-me voltar a abraçar-te?» A resposta do Matthew foi pegar
na minha mão, sentar-me ao seu colo e abraçar-me com força durante vá-
rios minutos.
«Desde então, liguei-lhe inúmeras vezes e deixei mensagens no aten-
dedor de chamadas. De início, respondeu a alguns dos telefonemas, mas
depois deixei de ter notícias dele. Cortou relações comigo. Remeteu-se ao
silêncio absoluto.»
Thelma voltou-se para a janela. Desaparecera-lhe a alegria da voz. Fa-
lava com um tom mais deliberado, amargurado, desconsolado, mas não
houve mais lágrimas. Pareceu-me que agora tinha mais vontade de bater e
de ferir do que de chorar.
— Nunca percebi porque acabámos assim, sem mais, nem menos.
Numa das nossas últimas conversas, disse-me que tínhamos de regressar
às nossas vidas reais e acrescentou que estava envolvido com outra pessoa.
Suspeitei, intimamente, que a nova pessoa na vida de Matthew era ou-
tro paciente.
Thelma não tinha a certeza se a nova pessoa era homem, ou mulher.
Desconfiava que Matthew era homossexual: vivia num dos enclaves ho-
mossexuais de São Francisco e pautava pela beleza característica de muitos
homossexuais, com o seu bigode aprumado, rosto jovem e corpo de Mer-
cúrio. Essa possibilidade ocorrera-lhe um ou dois anos depois do fim da
relação, quando levara uma visita de fora da cidade a ver as vistas, altura
em que entrara, receosa, num bar gay na Castro Street e se pasmara ao ver
quinze Matthews sentados ao balcão: quinze jovens elegantes e atraentes
com bigodes bem arranjados.
O corte súbito no contacto com Matthew fora avassalador; não saber
a razão por que isso acontecera era insuportável. Thelma estava constante-
mente a pensar nele, não passava uma hora sem fantasiar demoradamente
sobre ele. Vivia obcecada com porquês. Porque a teria ele rejeitado e aban-

35
donado? Porquê naquela altura específica? Porque se recusaria a recebê-la e
até a falar com ela ao telefone?
Ficara profundamente desanimada depois de todas as suas tentativas
no sentido de contactar Matthew terem falhado. Passava o dia em casa, a
olhar pela janela; não dormia; os seus movimentos e o seu discurso tor-
naram-se arrastados; perdeu o entusiasmo por toda e qualquer activida-
de. Deixou de comer e, dentro de pouco tempo, a sua depressão tornou-se
imune à psicoterapia e aos medicamentos antidepressivos. Depois de ter
consultado três médicos diferentes por causa da insónia e de ter consegui-
do que cada um deles lhe receitasse medicação para dormir, não tardou a
coleccionar uma quantidade mortífera de comprimidos. Precisamente seis
meses depois do seu encontro fortuito com Matthew em Union Square,
deixou mensagem de despedidas ao marido, Harry, que fora passar uma
semana fora da cidade, esperou que este lhe telefonasse da costa Leste do
país para lhe desejar boa noite, tirou o auscultador do descanso, tomou os
medicamentos todos e deitou-se na cama.
Harry, que nessa noite não conseguiu dormir, voltou a ligar-lhe e ficou
alarmado com o sinal constante de linha interrompida. Ligou aos vizinhos,
que bateram, em vão, à porta e às janelas de casa de Thelma. Passado um
pouco, chamaram a polícia, que arrombou a porta e foi encontrá-la mori-
bunda.
Thelma só se salvou graças aos esforços heróicos de uma equipa mé-
dica. O primeiro telefonema que fez assim que recuperou os sentidos foi
para o atendedor de chamadas de Matthew. Assegurou-o de que guardaria
o segredo deles e rogou-lhe que a visitasse no hospital. Visitou-a, mas só lhe
fez companhia durante quinze minutos e a sua presença, de acordo com
ela, foi pior do que o silêncio a que se remetera antes: esquivou-se a todas
as alusões de Thelma aos vinte e sete dias de paixão que tinham partilhado
e teimou em adoptar um comportamento formal e profissional. Só houve
um instante em que saiu desse papel, quando ela lhe perguntou como esta-
va a correr a sua relação com a nova pessoa da sua vida e Matthew ripostou:
«Isso não te diz respeito!»
— E foi tudo! — Voltou-se, pela primeira vez, directamente para mim
e acrescentou, numa voz resignada e desgastada: — Nunca mais tornei a
vê-lo. Telefonei para lhe deixar mensagens em datas importantes: no ani-
versário dele, no dia 19 de Junho (quando nos encontrámos pela primeira
vez), no dia 17 de Julho (a última vez que nos encontrámos), no Natal e
na passagem de ano. Sempre que troco de terapeuta, ligo-lhe para o avisar.
Nunca responde às chamadas.
«Há oito anos, nunca paro de pensar nele. Às sete da manhã, pergun-
to-me se já terá acordado e às oito imagino que está a comer os seus flocos

36
de aveia (ele adora flocos de aveia, foi criado numa quinta no Nebrasca).
Quando ando na rua, estou sempre à procura dele. Não é raro conven-
cer-me, erradamente, de que o vi algures e correr a interpelar um desco-
nhecido. Sonho com ele. Revejo na minha cabeça cada um dos nossos en-
contros ao longo daqueles vinte e sete dias. Aliás, esses devaneios ocupam
maior parte da minha vida, mal me dou conta do que se passa no presente.
Continuo a viver no passado, há oito anos atrás.»
«Continuo a viver no passado, há oito anos atrás»: uma frase que pren-
de a atenção. Memorizei-a para utilização futura.
— Fale-me da terapia que tem feito ao longo dos últimos oito anos,
desde a sua tentativa de suicídio.
— Durante esse período, nunca passei sem terapeuta. Receitaram-me
muitos antidepressivos, que não servem para muito, excepto para dormir
melhor. Tenho feito pouca terapia além dessa. A terapia baseada em conver-
sa nunca me ajudou. Pode-se dizer que nunca dei grandes oportunidades à
terapia desde que me decidi a proteger o Matthew, nunca mencionando o
nome dele, nem o nosso caso a outros terapeutas.
— Quer dizer que, em oito anos de terapia, nunca falou sobre o Mat-
thew!?
Foi uma abordagem pouco elegante! Tratou-se de um erro de prin-
cipiante, mas não consegui conter o meu pasmo. Passou-me pela cabeça
um episódio no qual não pensava há muitos anos, que aconteceu quando
estudava na faculdade de medicina, numa aula dedicada às técnicas de en-
trevista: um dos meus colegas, aluno bem intencionado, mas desbocado e
insensível (que, felizmente, viria a tornar-se cirurgião ortopédico), estava
a fazer uma entrevista diante do resto da turma e a tentar utilizar a técnica
de Carl Rogers para incitar o paciente a responder através da repetição das
palavras deste, regra geral, as últimas palavras de cada afirmação. O pacien-
te, que tinha estado a enumerar as perversidades do seu pai tirano, acabara
a lista com o comentário: «E ainda por cima come hambúrgueres crus!»
O entrevistador, que tinha vindo a esforçar-se por manter uma postura
neutra, não foi capaz de conter a sua indignação e respondeu tonitruante:
«Hambúrgueres crus?!» Até ao fim desse ano, a frase «hambúrgueres crus»
foi muitas vezes sussurrada nas aulas e arrancava, invariavelmente, garga-
lhadas aos colegas.
Claro que guardei essa divagação para mim mesmo e disse:
— Mas hoje, decidiu vir ter comigo e de ser falar sinceramente sobre si
própria. Fale-me dessa decisão.
— Investiguei-o. Telefonei a cinco terapeutas por quem fui acompa-
nhada, disse-lhes que queria dar uma última oportunidade à psicoterapia
e perguntei-lhes quem devia contactar. O seu nome apareceu nas listas de

37
quatro deles, disseram que era um bom terapeuta de «último recurso», o
que foi um ponto a seu favor. Além disso, eu sabia que eles tinham sido
seus alunos, portanto, investiguei um pouco mais. Fui à biblioteca e levei
para casa um dos seus livros. Fiquei bem impressionada com duas coisas: a
sua escrita era clara, não tive dificuldade em compreendê-la, e pareceu-me
disponível para falar abertamente sobre a morte. Vou ser sincera consigo:
tenho quase a certeza de que, num dia destes, ainda acabo por me suicidar.
Vim dar uma última hipótese à psicoterapia para ver se encontro alguma
maneira de viver minimamente feliz. Se não encontrar, espero que me aju-
de a morrer e a descobrir como provocar a menos angústia possível à mi-
nha família.
Respondi-lhe que achava que poderíamos trabalhar juntos, mas suge-
ri que marcássemos mais uma hora de consulta para ponderarmos melhor
a situação e também para lhe dar oportunidade de avaliar se estava dispos-
ta a colaborar comigo. Estava prestes a dar-lhe mais informação quando
olhou para o relógio e disse:
— Já percebi que os meus cinquenta minutos acabaram e, se há coisa
que aprendi, foi a não passar mais tempo do que devo em terapia.
Ainda eu estava a reflectir sobre o tom em que ela fizera o último co-
mentário — não fora exactamente sarcástico, nem exactamente coquete —
quando Thelma se levantou da cadeira e, à saída, me disse que marcaria a
próxima consulta com a minha administrativa.
Depois dessa sessão, tive muito em que pensar. Primeiro, pus-me a
pensar no Matthew, personagem que me enfurecia. Já conheci demasiados
pacientes que foram muito prejudicados por terapeutas que se aproveita-
ram sexualmente deles, algo que é sempre prejudicial para o paciente.
As desculpas invocadas pelos terapeutas para essas atitudes são sem-
pre racionalizações manifestas e egoístas, segundo as quais, por exemplo, o
acto é um modo de o terapeuta aceitar e afirmar a sexualidade do paciente.
Embora muitos pacientes possam precisar de afirmar a sua sexualidade,
nomeadamente aqueles que são vincadamente pouco atraentes, extrema-
mente obesos, ou deformados por cirurgias, nunca ouvi falar de nenhum
terapeuta que tenha afirmado a sexualidade desses. Os eleitos para a afir-
mação são sempre mulheres atraentes. É óbvio que quem precisa de afir-
mação sexual são os terapeutas infractores e são eles quem revela falta de
recursos, ou de desenvoltura para a obterem na sua vida privada.
Todavia, Matthew era uma figura algo enigmática. Quando seduzira
Thelma (ou se deixara seduzir por ela, o que vai dar ao mesmo), acabara de
fazer uma pós-graduação e, portanto, deveria ter vinte e muitos, ou trinta
e poucos anos. Sendo assim, porque teria feito aquilo? Porque teria um jo-
vem atraente, presumivelmente bem sucedido, seleccionado uma mulher

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de sessenta e dois anos há muitos anos deprimida e atolada na inércia?
Ponderei sobre a especulação de Thelma sobre a possível homossexuali-
dade dele. Talvez a possibilidade mais lógica fosse que Matthew estava a
tentar resolver (ou a manifestar) alguns dos seus problemas psicossexuais e
a aproveitar-se da(s) sua(s) paciente(s) para esse efeito.
É precisamente por esse motivo que insistimos com os nossos forman-
dos para se submeterem a períodos prolongados de psicoterapia. Contudo,
hoje em dia, dada a curta duração dos cursos, a menor supervisão, o rela-
xamento das exigências curriculares e dos requisitos para a certificação, é
frequente os terapeutas recusarem-se a isso, e já muitos pacientes sofreram
com a falta de conhecimento que o respectivo terapeuta revela ter sobre si
próprio. Compadeço-me pouco com a irresponsabilidade de determinados
profissionais e já procurei convencer muitos pacientes meus a apresenta-
rem queixa de terapeutas que cometem ilícitos sexuais a conselhos de ética
profissional. Ponderei, momentaneamente, sobre como actuar em relação
a Matthew, mas presumi que o ilícito já devia ter prescrito. Ainda assim,
queria que ele estivesse ciente do mal que tinha feito.
Desviei a minha atenção para Thelma e pus de parte, temporariamen-
te, a questão da motivação de Matthew, questão com que me viria a debater
muitas vezes antes do desenlace deste processo terapêutico, longe de ima-
ginar que, de todos os enigmas subjacentes ao caso de Thelma, o mistério
de Matthew seria aquele que estava destinado a resolver com maior êxito.
Fiquei espantado com a tenacidade da obsessão amorosa dela, que a pos-
suíra durante oito anos sem qualquer reforço exterior, obsessão que preenchia
toda a sua vida. Thelma tinha toda a razão: estava, de facto, a viver no passado,
oito anos atrás. Parte da força da obsessão tinha de derivar do empobrecimen-
to do resto da sua existência. Duvidava que fosse possível separá-la da obses-
são sem primeiro ajudá-la a enriquecer outras facetas da sua vida.
Interroguei-me sobre quanta intimidade teria Thelma no dia-a-dia.
Pelo que me contara até àquele momento sobre o seu casamento, parecia
haver pouca proximidade entre ela e o marido. Talvez a função da obsessão
fosse simplesmente proporcionar-lhe intimidade: unia-a a alguém que não
era uma pessoa real, mas uma fantasia.
Talvez a melhor solução fosse estabelecer uma relação significativa de
proximidade entre nós dois e utilizá-la como dissolvente no qual diluiria a
obsessão dela. Porém, não seria missão fácil. A versão que me contara sobre
a sua experiência em terapia era arrepiante. Imagine-se fazer oito anos de
terapia sem se abordar o verdadeiro problema! Tal só seria possível para
alguém com uma personalidade muito especial, alguém capaz de tolerar
comportar-se com duplicidade apreciável, alguém que procure intimidade
em fantasias, mas talvez a evite na vida diária.

39
Ao abrir a sessão seguinte, Thelma disse-me que aquela semana fora
terrível. Via na terapia algo de paradoxal.
— Sei que preciso de acompanhamento, não me aguento sem ele. No
entanto, cada vez que falo sobre o que aconteceu, tenho uma semana mise-
rável. As consultas terapia limitam-se sempre a mexer comigo. Nunca re-
solvem nada. Pioram sempre a situação.
Não gostei de a ouvir dizer isso. Estaria a mostrar-me cenas dos pró-
ximos episódios? Estaria a dizer-me que acabaria por desistir da terapia?
— Passei a semana toda a chorar ininterruptamente. Não parei de
pensar no Matthew. Não posso falar com o Harry porque só penso em
duas coisas: no Matthew, e em suicidar-me, assuntos que não posso, de
maneira nenhuma, abordar com ele.
«Nunca, nunca, nunca hei-de falar com o meu marido sobre o Mat-
thew. Há anos, disse-lhe que uma vez me cruzara por acaso com o Mat-
thew. Devo ter-me alongado demais sobre o assunto, porque, passado al-
gum tempo, o Hary comentou que estava convencido de que o Matthew
tinha sido, de algum modo, responsável pela minha tentativa de suicídio. Se
alguma vez vier a descobrir a verdade, acho sinceramente que mata o Mat-
thew. O Harry farta-se de pregar a honra dos Escuteiros, não pensa noutra
coisa senão nos escutas, mas, no fundo, é um homem violento. Foi oficial
dos comandos britânicos na Segunda Guerra Mundial e especializou-se em
ensinar técnicas para matar corpo a corpo.»
— Fale-me mais sobre o Harry.
Ficara espantado com a veemência que transpareceu na voz de Thel-
ma quando disse que ele mataria Matthew se descobrisse o que acontecera.
— Conheci o Harry nos anos trinta, quando trabalhava como dança-
rina profissional na Europa Continental. Sempre tive só dois interesses na
vida: fazer amor e dançar. Recusei-me a deixar de dançar para ter filhos,
mas fui obrigada a parar há trinta e um anos porque a gota me atacou o
polegar de um dos pés; não é doença agradável para uma bailarina. Quan-
to ao amor, quando era mais nova, tive muitos, muito amantes. O doutor
viu aquela minha fotografia... seja sincero: era, ou não era bonita? — Sem
esperar por resposta, prosseguiu: — Mas assim que me casei com o Harry,
acabou-se o amor. Muito poucos homens tiveram coragem para me ama-
rem (poucos, mas alguns). Toda a gente tinha medo que se pelava do Har-
ry e esse desistiu do sexo há vinte anos (tem muito jeito para desistir das
coisas). Hoje em dia é raro tocarmo-nos, creio que tanto por minha culpa,
como por culpa dele.
Estava prestes a perguntar-lhe sobre o jeito que Harry tinha para de-
sistir, mas Thelma seguiu adiante, a correr. Queria falar, mas ainda não dava
sinais de estar a falar comigo. Não se vislumbrava qualquer indício de que

40
quisesse resposta da minha parte. Não me olhava nos olhos. Tendia a olhar
para cima, como se absorta nas suas reminiscências.
— A outra coisa em que penso, mas que não posso discutir, é o sui-
cídio. Mais cedo ou mais tarde, sei que me hei-de matar. É a única saída.
No entanto, nunca me descoso com o Harry. Ele ia morrendo da última
vez que tentei suicidar-me. Teve um pequeno AVC e envelheceu dez anos
a olhos vistos. Quando acordei, sem contar com isso, no hospital, ponderei
muito sobre o que tinha feito à minha família. Foi nesse preciso momento
que tomei algumas decisões.
— Que tipos de decisões?
Na verdade, foi uma pergunta escusada, visto que Thelma estava pres-
tes a descrever as decisões que tomara, mas eu tinha de comunicar com
ela de algum modo. Estava a recolher muita informação, mas sem que es-
tabelecêssemos contacto um com o outro. Parecia que estávamos em salas
diferentes.
— Decidi que nunca diria nem faria nada que pudesse magoar o Har-
ry. Decidi dar-lhe tudo e ceder em todos os assuntos. Quer construir uma
divisão nova para arrumar o equipamento de ginásio — pode. Quer fazer
férias no México — seja. Quer ir conhecer pessoas novas em acontecimen-
tos organizados pela igreja — vamos.
Apercebendo-se do ar de estranheza com que reagi à alusão aos acon-
tecimentos na igreja, explicou:
— Nos últimos três anos, desde que cheguei à conclusão de que vou
acabar por me matar, não tenho querido conhecer gente nova. Fazer novos
amigos implicaria mais despedidas e mais pessoas para eu magoar.
Já trabalhei com muitos indivíduos que tentaram, realmente, suici-
dar-se, mas essa experiência tende a propiciar, de algum modo, uma meta-
morfose e um amadurecimento de quem a conhece e adquire nova sabedo-
ria. Um verdadeiro confronto com a morte costuma fazer com que nos in-
terroguemos com franca seriedade sobre os objectivos e o trajecto da nossa
vida até então. Passa-se o mesmo com quem enfrenta a morte por causa de
uma doença fatal. Quantas pessoas não se terão lamentado: «Que pena que
tenha esperado até agora, que o meu corpo está corroído pelo cancro, para
aprender a viver!» Porém, Thelma era diferente. Raras vezes me cruzei com
outra pessoa que tivesse estado tão perto da morte e tivesse aprendido tão
pouco com a experiência. Quanto às decisões que tomara quando recupe-
rara os sentidos depois da sua overdose, estaria realmente convencida de
que daria felicidade ao Harry subscrevendo tudo o que ele propusesse, es-
condendo os seus próprios desejos e pensamentos? O que poderia ser pior
para Harry do que ver a esposa chorar durante uma semana, sem partilhar
nada com ele? Tratava-se de uma mulher atolada em auto-ilusão.

41
A sua auto-ilusão tornava-se particularmente evidente quando falava
de Matthew.
— Tinha uma certa gentileza que lhe permitia afectar a vida de todas
as pessoas que tinham contacto com ele. As administrativas adoravam-no,
sem excepção. Tinha sempre uma palavra de carinho para elas, sabia os no-
mes de todos os seus filhos, levava-lhes doughnuts para o pequeno-almoço
três ou quatro vezes por semana. Sempre que saímos juntos durante aque-
les vinte e sete dias, fez questão de dizer algo que deixasse o empregado de
mesa, ou o caixa da loja bem-disposto. O doutor sabe alguma coisa sobre as
práticas de meditação budista?
— Bem, para dizer a verdade, até...
Mas Thelma não esperou que eu terminasse a frase.
— Nesse caso, sabe sobre a meditação consagrada ao amor e à bonda-
de. Ele praticava-a duas vezes por dia e também me ensinou como se faz.
É por isso que eu não sonharia, nem por sombras, que me pudesse tratar
assim. O silêncio dele está a dar cabo de mim. Às vezes, quando me ponho
a pensar no assunto, tenho a impressão de que a pessoa que me ensinou a
falar abertamente não poderia ter inventado um castigo mais terrível do
que remeter-se ao silêncio absoluto. Hoje em dia — Thelma baixou o tom
de voz até a reduzir quase a um sussurro —, estou cada vez mais convencida
de que a intenção dele é levar-me ao suicídio. Acha que é uma ideia maluca?
— Não sei se é maluca, mas parece-me sinal de desespero e terrivel-
mente doloroso.
— Ele está a tentar levar-me ao suicídio. Se conseguisse, livrava-se de
mim de uma vez por todas. É a única justificação possível!
— Pois, mas, mesmo estando convencida disso, não deixou de o pro-
teger durante estes anos todos. Porquê?
— Porque, acima de tudo, quero que o Matthew tenha estima por
mim. Não quero prejudicar a minha única hipótese que me resta de ser
feliz!
— Mas já passaram oito anos, Thelma. Não tem notícias dele há oito
anos!
— Mas ainda tenho hipóteses, por mais reduzidas que possam ser.
Uma possibilidade de dois por cento, ou até de um, é melhor do que não
ter possibilidade nenhuma. Não tenho esperança que o Matthew volte a
amar-me, só quero que se importe com o facto de eu existir neste planeta.
Não é pedir demais. Uma vez, quando estávamos a passear no Golden Gate
Park, quase torceu o pé para não pisar um formigueiro. Tenho a certeza que
também me pode dispensar algum desse amor e dessa bondade!
Tanta inconsistência, tanta raiva e quase escárnio a conviverem pare-
des meias com tamanha reverência. Embora eu tivesse começado a pene-

42
trar, gradualmente, no universo das experiências dela e me fosse acostu-
mando às considerações hiperbólicas que tecia sobre Matthew, fiquei fran-
camente desconcertado com o comentário que fez a seguir.
— Se ele me telefonasse uma vez por ano, se tirasse cinco minutos que
fossem para conversar comigo, para mostrar que tem interesse em mim,
então ficaria feliz. Será pedir demais?
Nunca antes encontrara alguém que cedesse tanto poder a outrem.
Imagine-se que ela afirmava que um telefonema anual de cinco minutos se-
ria a sua cura. Interroguei-me se tal seria possível. Lembro-me de ter pensa-
do que, se tudo o resto falhasse, não me coibiria de tentar providenciar essa
experiência! Reconheci que a terapia tinha escassas hipóteses de ser bem
sucedida: o modo como Thelma se auto-iludia, a sua falta de consciência de
si mesma, a sua resistência à introspecção, as suas tendências suicidas, tudo
isso me dizia: «Cuidado!»
No entanto, o problema dela fascinou-me. A sua obsessão amorosa —
que outra designação se lhe poderia dar? — era forte e persistente, tendo do-
minado oito anos da vida dela. Contudo, as raízes dessa obsessão pareciam
extraordinariamente friáveis. Bastariam um pouco de esforço e um pouco
de engenho para arrancar por inteiro aquela erva daninha. E depois? O que
iria eu encontrar por debaixo da obsessão? Descobrira os factos brutais da
experiência humana que aquele feitiço ocultava? Se assim viesse a acontecer,
talvez aprendesse, realmente, alguma coisa sobre a função do amor. Cien-
tistas descobriram, nos primórdios da investigação médica do século xix,
que a melhor maneira de se compreender a função de um órgão endócri-
no é removê-lo e, subsequentemente, observar o funcionamento fisiológico
da cobaia. Embora tenha ficado arrepiado com a desumanidade da minha
metáfora, perguntei-me: «Não se aplicará o mesmo princípio neste caso?»
Até àquele momento, tornara-se evidente que o amor que Telma nutria por
Matthew era, na verdade, algo mais: talvez uma escapatória, um escudo que
a protegia do envelhecimento e da solidão. Não tinha nenhuma relação fun-
damental com Matthew, e, se entendermos por amor uma relação de cari-
nho, generosidade, ausência de necessidade, pouco amor transmitia.
Outros sinais prognósticos chamaram a minha atenção, mas optei por
ignorá-los. Podia, por exemplo, ter ponderado com maior atenção sobre os
vinte anos de psicoterapia por que Thelma passara! Quando eu estudava na
Clínica de Psiquiatria do Johns Hopkins, utilizavam-se vários indicadores
de cronicidade nos «bastidores». Um dos mais irreverentes qualificava-a de
acordo com quilos: quanto mais pesada fosse a história clínica de um pa-
ciente, mais danificado estava e pior o seu prognóstico. Thelma seria uma
septuagenária de «dez quilos», pelo menos, e absolutamente ninguém lhe
teria recomendado psicoterapia.

43
Reflectindo hoje sobre o meu estado de espírito na altura, percebo que
me vali simplesmente da racionalização para sacudir essas preocupações.
Vinte anos de terapia? Ora, os últimos oito não podiam ser contabi-
lizados por causa do secretismo de Thelma. Não há terapia que possa dar
frutos se o paciente esconder os problemas fundamentais.
Os dez anos de terapia antes de Matthew? Ora, já tinha passado mui-
to tempo! Como se isso não bastasse, os terapeutas que a haviam acom-
panhado eram maioritariamente jovens estagiários. Decerto eu teria mais
para lhe oferecer. Thelma e Harry, dados os seus recursos financeiros limi-
tados, nunca haviam tido capacidades para procurar o auxílio de alguém
que não estudantes de psiquiatria. Na altura, eu estava a ser financiado
por um instituto científico para investigar a psicoterapia geriátrica e tinha
condições para acompanhar Thelma a troco de uma verba mínima. Cer-
tamente era uma oportunidade rara que ela tinha de ser tratada por um
psiquiatra experiente.
Os meus verdadeiros motivos para aceitar tratar Thelma eram outros:
em primeiro lugar fiquei fascinado por me deparar com uma obsessão
amorosa profundamente arreigada e, ao mesmo tempo, em estado exposto,
vulnerável, pelo que nada me dissuadiria de desenterrá-la e investigá-la; em
segundo, fui vítima do que hoje reconheço ter sido hubris: convenci-me
de que era capaz de ajudar qualquer paciente, de que nenhum caso estaria
além das minhas capacidades. Os pré-socráticos definiam essa variedade
de arrogância como uma «insubordinação perante a lei divina»; claro que
fui insubordinado, não relativamente às leis divinas, mas às leis da nature-
za, aquelas que governam o desenrolar dos acontecimentos no meu ramo
profissional. Creio que já na altura pressenti que, antes de o trabalho com
Thelma estar concluído, seria chamado a prestar contas pela arrogância que
me animara.
Ao fim da segunda hora de consulta, discutimos o contrato de tra-
tamento. Ela deixou explícito que não se comprometeria a fazer um tra-
tamento a longo prazo, e, além disso, eu julgava que dali a seis meses já
saberia se me seria, ou não, possível auxiliá-la. Portanto, combinámos en-
contrarmo-nos uma vez por semana durante um semestre (deixando em
aberto a possibilidade de fazermos um prolongamento de seis meses se nos
parecesse necessário). Comprometia-se a comparecer assiduamente nas
consultas e a participar num projecto de investigação em psicoterapia, que
implicava uma entrevista e uma carga de testes psicológicos para avaliação
dos resultados do processo, a serem efectuados duas vezes, uma no início
do tratamento e outra seis meses depois da respectiva conclusão.
Fiz questão de a informar de como a terapia seria certamente pertur-
bante e tentei convencê-la a prometer não desistir.

44
— Thelma, essa sua ruminação contínua sobre o Matthew... só para
abreviar, chamemos-lhe obsessão...
— Esses vinte e sete dias foram uma grande dádiva — redarguiu, irri-
tada. — Essa foi uma das razões pelas quais nunca os comentei com outros
terapeutas: não quero que os tratem como se tivessem sido uma doença.
— Não, Thelma, não me referia ao que se passou há oito anos. Re-
feria-me ao que se passa agora e ao facto de não ser capaz de aproveitar a
vida porque insiste em reviver constantemente o passado. Julgava que tinha
vindo falar comigo porque queria parar de se atormentar.
Suspirou, fechou os olhos e anuiu com um aceno. Já me lançara o aviso
que pretendia e recostou-se na cadeira.
— O que eu ia dizer é que esta obsessão... podemos arranjar uma de-
signação melhor, se a palavra obsessão a ofender...
— Não, não faz mal. Já estou a perceber o que quer dizer com isso.
— Bem, esta obsessão tem sido uma parte fulcral dos seus pensamen-
tos ao longo dos últimos oito anos. Vai ser difícil eliminá-la. Vou ter de ata-
car algumas das suas convicções e é possível que a terapia lhe provoque al-
guma tensão. Preciso que se comprometa a fazer um esforço por aguentar.
— Já me comprometi. Quando tomo uma decisão, não volto atrás.
— Além disso, Thelma, não consigo trabalhar como deve ser com uma
ameaça de suicídio a pairar. Preciso que prometa, solenemente, que duran-
te os próximos seis meses não fará nada para pôr em causa a sua própria
integridade física. Se, algum dia, se sentir à beira de o fazer, telefone-me.
Ligue-me a qualquer hora, que estou disponível para si. Mas se fizer algu-
ma tentativa, por mais insignificante que seja, o nosso contrato é nulo e
recuso-me a dar continuidade ao trabalho consigo. Muitas vezes, estabeleço
isto por escrito e peço ao paciente que assine, mas aceito a sua afirmação no
sentido de honrar sempre as decisões que toma.
Surpreendentemente, Thelma abanou cabeça.
— Não há maneira de lhe fazer essa promessa. Às vezes, tenho estados
de espírito em que sei que é a única saída. Não vou prescindir dessa alter-
nativa.
— Só estou a falar dos próximos seis meses. Não lhe peço um compro-
misso de prazo mais longo, mas recuso-me a começar sem essa promessa.
Quer mais tempo para pensar sobre o assunto, Thelma, e marcamos outra
consulta para a semana que vem?
Tornou-se imediatamente conciliatória. Creio que não contava que eu
marcasse uma posição tão firme. Embora ela não tenha dado qualquer si-
nal nesse sentido, creio que ficou aliviada.
— Não posso esperar mais uma semana. Quero que tomemos uma
decisão agora e que comecemos já a terapia. Prometo fazer por isso.

45
«Fazer por isso» não me parecia ser suficiente, porém, hesitei em en-
trar tão depressa num braço-de-ferro com ela. Assim sendo, não teci qual-
quer comentário, limitando-me a arquear as sobrancelhas.
Passado um minuto, minuto e meio (um silêncio muito prolongado
em psicoterapia), Thelma levantou-se, estendeu-me uma mão e disse:
— Prometo.
Na semana seguinte, começámos a trabalhar. Optei por não me deixar
desviar dos assuntos relevantes e urgentes. Thelma já tivera tempo suficien-
te (vinte anos de terapia!) para explorar as suas primeiras fases de desenvol-
vimento; não me interessava, minimamente, concentrar-me em aconteci-
mentos ocorridos sessenta anos atrás.
Ela encarou a terapia com extrema ambivalência: embora consideras-
se que era o seu último recurso, nunca teve uma consulta satisfatória. No
decurso das primeiras dez semanas de trabalho descobri que, sempre que
analisávamos os sentimentos que nutria por Matthew, durante a semana
seguinte era atormentada pela sua obsessão. Sempre que, por outro lado,
explorávamos outros assuntos, nomeadamente questões tão importantes
como a sua relação com Harry, ela considerava que a consulta era uma
perda de tempo, porque nela ignorámos o problema fundamental que era
Matthew.
Devido ao seu descontentamento, o tempo que passávamos juntos
também se tornou pouco gratificante para mim. Aprendi a contar que o
trabalho com Thelma fosse pouco recompensador para mim. Nunca expe-
rimentei qualquer prazer quando estava na presença dela e, logo a partir da
terceira, ou quarta consulta, percebi que qualquer gratificação que pudesse
vir a derivar daquele processo terapêutico seria forçosamente de natureza
intelectual.
A maior parte do tempo que passávamos juntos era dedicado a Mat-
thew. Interroguei-a sobre o conteúdo exacto dos seus devaneios e Thelma
deu sinais de ter gosto em falar acerca delas. As suas ruminações eram mui-
tíssimo repetitivas, consistindo, geralmente, um reconstituição bastante
fiél de um dos encontros entres os dois durante o período de vinte e sete
dias. A mais frequente incidia sobre o primeiro encontro fortuito entre os
dois em Union Square, seguido do café no St. Francis, a caminhada até ao
Fisherman’s Warf, a vista sobre a baía a partir do restaurante Scoma’s, a exci-
tação da viagem de carro até à «casota» de Matthew; porém, habitualmente
pensava apenas numa das conversas afáveis que tivera com ele ao telefone.
O sexo desempenhava um papel menor naqueles pensamentos: ra-
ramente lhe suscitavam qualquer excitação sexual. Aliás, embora tivesse
havido bastantes carícias sexuais no decurso dos seus vinte e sete dias com
Matthew, só houvera penetração uma vez, logo na primeira noite. Tinham

46
tentado repeti-la em duas outras ocasiões, mas Matthew fora tolhido pela
impotência. Comecei a ficar cada vez mais convencido de que o meu palpi-
te a respeito do comportamento dele fora certeiro, nomeadamente de que
sofria de graves problemas psicossexuais que se haviam manifestado com
Thelma (e provavelmente com outras infelizes pacientes).
Foram surgindo tantas pistas promissoras que se tornou difícil es-
colher e concentrar-me numa só. No entanto, primeiro era necessário
demonstrar convincentemente a Thelma que era imperativo erradicar a
obsessão, visto que a obsessão amorosa destitui a vida da sua realidade,
obliterando experiências novas, sejam elas boas, ou más, como constatei na
minha própria situação. Na verdade, a maior parte das convicções profun-
das que guardo relativamente à terapia e as áreas que mais interessam na
psicologia derivaram da minha experiência pessoal. Nietszche afirmou que
o sistema racional de um filósofo nasce sempre da sua autobiografia e creio
que isso se aplica a todos os terapeutas, aliás, a todos aqueles que reflectem
sobre o pensamento.
Numa conferência cerca de dois anos antes de ter conhecido Thelma,
cruzara-me com uma mulher que, subsequentemente, invadira o meu espí-
rito, os meus pensamentos e os meus sonhos. A sua imagem mudou-se de
armas e bagagens para a minha mente e opôs-se a todos os meus esforços
por despejá-la. Porém, durante algum tempo, isso não me fez mal algum:
eu gostava da obsessão e tinha prazer em saboreá-la vezes e vezes sem con-
ta. Semanas mais tarde, fui gozar férias com a minha família numa bela ilha
nas Caraíbas. Só ao fim de vários dias percebi que estava a passar ao lado
de tudo o que a viagem tinha para oferecer: a beleza da praia, a vegetação
exótica e luxuriante, até a emoção de fazer mergulho e de entrar no mun-
do submerso. Toda essa rica realidade fora eclipsada pela minha obsessão.
Ausentara-me. Encerrara-me nos meus pensamentos, onde assistia ao de-
senrolar de reposições sucessivas da mesma fantasia que, naquela altura,
já perdera todo o sentido. Ansioso e francamente farto da minha própria
atitude, submeti-me (novamente) à psicoterapia e, ao fim de vários penosos
meses, recuperei o controlo sobre a minha mente e pude dedicar-me, uma
vez mais, à emoção de viver a vida no momento em que acontece. (Apro-
veito para fazer um parêntesis a título de curiosidade: o meu psicoterapeuta
acabou por se tornar num amigo íntimo e, anos mais tarde, contou-me que,
enquanto me tratava, ele próprio estava obcecado com uma bela italiana
cuja atenção se centrava numa terceira pessoa. Entre o paciente, o terapeuta
e o paciente roda La Ronde do amor obsessivo.)
Portanto, nas consultas com Thelma, fui frisando o modo como a ob-
sessão estava a viciar a sua vida e repeti, várias vezes, o seu comentário ante-
rior no sentido de estar a viver no passado. Não admirava que odiasse estar

47
viva! A sua vida estava abafada num compartimento quase estanque, sem
janelas, apenas arejado por aqueles vinte e sete dias no passado longínquo.
Todavia, Thelma nunca achou essa tese convincente, creio hoje que
com todas as razões para isso. Tendo generalizado a partir da minha experi-
ência para compreender a dela, cometera o erro de presumir que a sua vida
tinha toda uma riqueza que lhe estava a escapar por causa da sua obsessão.
Thelma sentia, embora não mo tenha dito explicitamente em nenhuma al-
tura, que a obsessão era infinitamente mais vital do que a sua experiência
vivida. (Mais tarde, viríamos a explorar, também com impacto reduzido, o
inverso dessa formula: a hipótese de ter sido o empobrecimento da sua vida
a conduzi-la, desde logo, aos braços da obsessão.)
Por volta da sexagésima consulta, eu já a tinha conseguido desgastar
e — julgo que para me fazer a vontade —, aceitou que a obsessão era, de fac-
to, o inimigo e urgia exterminá-la. Passámos sessões atrás de sessões a fazer
um simples reconhecimento da obsessão. Pareceu-me que a força que esta
exercia sobre ela tinha origem no poder que Thelma atribuíra a Matthew.
Não havia nada a fazer enquanto não diminuíssemos esse poder.
— Thelma, essa sensação de que a única coisa que importa é que Mat-
thew tenha estima por si... diga-me tudo o que sabe sobre ela.
— É difícil articulá-lo em palavras. A ideia de ele me odiar é insupor-
tável. É a única pessoa que alguma vez soube tudo sobre mim, portanto,
o facto de, ainda assim, ser capaz de gostar de mim, apesar de tudo o que
sabia, tinha imensa importância.
Reflecti que é precisamente essa a razão pela qual os terapeutas nun-
ca devem ter relações emocionais com os pacientes. Graças à sua posição
privilegiada, ao acesso que têm a sentimentos profundos e informações se-
cretas, as reacções deles assumem sempre significado desmedido. É quase
impossível os pacientes verem nos terapeutas aquilo que realmente são. A
raiva que Matthew me provocava aumentou.
— Mas ele é só uma pessoa, Thelma. Alguém que não vê há oito anos.
Que diferença faz o que ele pensa de si?
— Não sei explicar. Sei que não faz sentido, mas, no fundo da minha
alma, acredito que eu ficaria bem e que seria feliz se ele tivesse estima por
mim.
Essa ideia, essa falsa convicção fundamental era a nossa inimiga. Eu
tinha de eliminá-la. Fiz-lhe um apelo exaltado:
— A Thelma é a Thelma, tem a sua própria existência, continua a ser
quem é de um momento para o outro, de dia para dia. A sua existência é
essencialmente imune aos pensamentos passageiros e às ondas electromag-
néticas que se propagam em alguma mente desconhecida. Tente perceber
isso. Todo esse poder que o Matthew tem, foi você quem lho deu, todinho!

48
— Fico com um nó no estômago quando penso que ele me pode des-
prezar.
— O que se passa na cabeça de outra pessoa, de alguém com quem a
Thelma nunca sequer está, que provavelmente nem dá pela sua existência,
que está preocupada com as dificuldades da sua própria vida, não muda
quem você é.
— Oh, pode crer que ele dá pela minha existência. Deixo-lhe muitas
mensagens na cassete do atendedor de chamadas. Aliás, ainda na semana
passada lhe deixei uma mensagem para o avisar de que estava a ser acom-
panhada por si. Achei que merecia ser informado de que ando a falar sobre
ele consigo. Ao longo dos anos, tenho-lhe telefonado sempre que mudo de
terapeuta.
— Mas eu julgava que não tinha falado sobre ele com nenhum dos
outros terapeutas.
— E não falei. Prometi-lhe que não falaria, embora ele nunca me te-
nha pedido, e cumpri a minha promessa... até hoje. Ainda que não tenha
conversado sobre ele ao longo desses anos todos, achei que o devia manter
a par de quem eram os terapeutas que me tratavam. Muitos tinham sido
formados na faculdade dele. Talvez até tenham sido amigos.
Tal era o rancor que tinha a Matthew, que as palavras de Thelma não
me desagradaram. Pelo contrário, diverti-me a imaginar o transtorno dele,
ao longo dos anos, cada vez que ouvia as mensagens ostensivamente solí-
citas que Thelma deixava no seu atendedor. Comecei a desistir da ideia de
ripostar contra Matthew. Aquela senhora sabia castigá-lo e não precisava da
minha ajuda para esse efeito.
— Voltando ao que eu estava a dizer antes, Thelma, não vê que está a
pôr-se a si própria nesta situação? O que ele pensa não pode mudar o tipo
de pessoa que você é. A Thelma é que se deixa influenciar. Ele é uma pessoa
como as outras, tal como nós. Se você tiver má opinião de alguém com
quem nunca tem contacto, os seus pensamentos: as imagens mentais que
circulam no seu cérebro e que mais ninguém conhece, afectam essa pessoa?
Isso só seria possível através da influência do vodu. Porque será que entrega
o seu poder ao Matthew? Ele não passa de uma pessoa como as outras, tem
de se debater com a vida, há-de envelhecer, há-de dar puns, há-de morrer.
Thelma não respondeu. Subi a parada.
— Disse-me que dificilmente alguém poderia ter adoptado com inten-
ção um comportamento que a magoasse mais do que o dele. Já lhe ocorreu
que talvez o Mathew estivesse a tentar levá-la ao suicídio. Não tem interesse
no seu bem-estar. Sendo assim, que sentido fará exaltá-lo desta maneira e
acreditar que não há nada mais importante na vida do que a consideração
que tem por si?

49
— Não acho sinceramente que esteja a tentar levar-me ao suicídio. É
só uma ideia que me passa pela cabeça de vez em quando. Aquilo que eu
sinto pelo Matthew varia muito e muito depressa. Regra geral, o que mais
importa é que ele tenha estima por mim.
— Porque tem a estima dele tanta importância? Elevou-o a um estatu-
to sobre-humano. No entanto, parece-me a mim que o Matthew é uma pes-
soa particularmente baralhada. Até a própria Thelma referiu os problemas
sexuais significativos que ele tem. Pense em toda a questão da integridade,
do código ético que ele segue. Violou a ética fundamental que rege toda e
qualquer profissão médica ou social. Veja a aflição que ele lhe causou. Am-
bos sabemos que é simplesmente errado um terapeuta profissional, alguém
que se compromete a defender os interesses do seu paciente, magoar uma
pessoa da maneira como a magoou a si.
Mas era como falar para uma parede.
— Foi precisamente quando ele começou a agir com profissionalismo,
quando voltou a assumir um papel mais formal, que me magoou. Quando
éramos simplesmente dois seres humanos apaixonados, deu-me a dádiva
mais preciosa do mundo.
Foi uma resposta frustrante. Era óbvio que Thelma era responsável pe-
las circunstâncias da sua própria vida. Era óbvio que o poder que Matthew
tinha sobre ela era uma ilusão. Era óbvio que ela lhe atribuía esse poder
num esforço por negar a sua própria liberdade e a responsabilidade que
tinha na constituição da sua própria vida. Longe de querer resgatar a sua
liberdade das mãos de Matthew, desejava submissão.
Claro que eu percebera, desde logo, que a convicção dos meus argumen-
tos não faria mossa suficiente para provocar qualquer mudança. Quase nunca
faz. Nunca funcionou comigo quando fui acompanhado por terapeutas. Só
quando o discernimento se entranha no mais fundo do nosso ser o assimila-
mos. Só então podemos passar à acção e podemos modificar-nos. Os psicólo-
gos populares referem constantemente a necessidade de «assumirmos respon-
sabilidade», mas não passa de conversa fiada: é extraordinariamente difícil, e
até mesmo assustador, assimilar a noção de que somos nós, e só nós, quem
define a nossa vida. Por esse motivo, na psicoterapia, o problema é sempre
saber a transição da ineficaz apreciação intelectual de uma verdade sobre nós
próprios para a experiência emocional da mesma. Só quando a terapia suscita
emoções profundas tem força suficiente para potenciar a mudança.
E a impotência era o problema do meu processo terapêutico com
Thelma. As minhas tentativas no sentido de gerar poder eram vergonho-
samente deselegantes e consistiam, sobretudo, em apalpar terreno, em im-
portuná-la, em rondar, repetidamente, à volta da obsessão dela, atacando-a
de todos os lados.

50
Como suspiro nessas circunstâncias pela certeza que a ortodoxia ofe-
rece. A psicanálise, para pegar na mais católica das escolas ideológicas da
psicoterapia, propõe sempre convicções fortíssimas sobre os procedimen-
tos técnicos necessários; aliás, os analistas parecem mais seguros de tudo
do que eu estou do que quer que seja. Ser-me-ia muito reconfortante sentir,
mesmo que por uma só vez, que sei exactamente o que estou a fazer no
meu trabalho psicoterapêutico e ter, por exemplo, a impressão de que estou
a atravessar ordeiramente, na devida sequência, as etapas precisas do pro-
cesso terapêutico.
Claro que tudo isso é uma ilusão. Se tiverem alguma utilidade para
o paciente, o sucesso das escolas ideológicas, com as suas complexas
construções metafísicas, deve-se ao facto de mitigaram a ansiedade do
terapeuta, não do paciente (permitindo assim que o primeiro enfrente a
ansiedade inerente ao processo terapêutico). Quanto melhor o terapeuta
for capaz de suportar a ansiedade da incerteza, menor será a necessidade
por ele sentida de aderir à ortodoxia. A evolução dos partidários criati-
vos de uma ortodoxia, seja qual for, acaba sempre por ultrapassar a dos
seus discípulos.
Embora haja algo de reconfortante num terapeuta omnisciente que
controle sempre todas as situações, pode haver algo de profundamente ca-
tivante num terapeuta mais trapalhão, que se predisponha a apalpar terreno
com o paciente até, em conjunto, tropeçarem numa descoberta potencial-
mente produtiva. No entanto, lamentavelmente, tal como Thelma me ha-
veria de ensinar antes de este caso ser encerrado, é possível desperdiçar-se
muita terapia maravilhosa com um paciente!
Na minha busca pelo poder, fui até ao limite. Tentei abaná-la e cho-
cá-la.
— Imagine, por um instante, que o Matthew morria! Isso chegaria
para a libertar?
— Já tentei imaginar isso. Quando o imagino morto, cai sobre mim
uma grande tristeza. Se isso acontecesse, o meu universo ficaria deserto.
Não consigo imaginar mais nada além disso.
— Como é que se pode libertar desta situação? Como é que alguém a
poderá libertar? Acha que o Matthew poderia libertá-la? Alguma vez ima-
ginou uma conversa em que ele a liberta?
Thelma respondeu à pergunta com um sorriso. Olhou-me com aqui-
lo que me pareceu ser respeito acrescido, como se estivesse impressionada
com a minha capacidade para lhe ler os pensamentos. Era nítido que eu
tocara numa fantasia importante.
— Muitas, muitas vezes.
— Partilhe isso comigo. Como seria a conversa?

51
Não confio em técnicas de role-play, ou de troca de lugares, mas pare-
ceu-me ser o momento ideal para isso.
— Vamos tentar simular essa situação. Faz o favor de passar para a
outra cadeira e de fingir que é o Matthew a conversar com a Thelma, como
se estivesse aqui sentada?
Visto que se opusera a todas as outras sugestões que fiz, já estava a pre-
parar argumentos para a convencer quando, com grande surpresa minha,
aceitou entusiasticamente. Talvez, no decurso dos seus vinte anos de tera-
pia, tivesse trabalhado com terapeutas gestalt que houvessem empregue as
mesmas técnicas; talvez a sua experiência em palco estivesse vir ao de cima.
Quase saltou da cadeira, pigarreou, simulou com as mãos a colocação de
uma gravata ao pescoço e o abotoar de um casaco, fez um sorriso beatífico e
uma expressão deliciosamente exagerada de magnanimidade benevolente,
voltou a pigarrear, sentou-se na outra cadeira e transformou-se em Mat-
thew.
— Thelma, vim ter contigo guardando memórias agradáveis do tra-
balho que fizemos juntos durante a terapia e querendo ter-te como amiga.
Gostei muito do nosso toma lá, dá cá e das nossas piadas sobre os teus há-
bitos merdosos. Fui sincero contigo. Tudo o que te disse foi sentido, sem
excepção. Depois, deu-se um incidente do qual optei por não te falar e que
fez com que eu mudasse de ideias. Não foi nada que tu tenhas feito, nun-
ca te achei desagradável, embora não tivéssemos afinidade suficiente para
construirmos uma relação duradoira. O que aconteceu foi que uma mu-
lher, a Sonia...
Aqui, Thelma saiu momentaneamente do seu papel e disse-me num
sussurro artificial:
— Sonia era o meu nome artístico quando era bailarina, Dr. Yalom.
Voltou a transformar-se em Matthew e prosseguiu:
— Essa mulher, a Sonia, entrou em cena e percebi que o caminho cer-
to para mim seria partilhar a vida com ela. Tentei afastar-me, tentei dizer-te
para não me voltares a ligar e, para ser sincero, irritou-me que não tenhas
desistido. Depois da tua tentativa de suicídio, percebi que tinha de ter mui-
to tento no que dizia e foi por isso que me distanciei tanto. Consultei um
psiquiatra e foi ele quem me aconselhou a remeter-me ao silêncio absoluto.
És alguém que eu adoraria ter como amiga, mas não há possibilidade de a
nossa amizade ser pública. Temos de respeitar o teu Harry e a minha Sonia.
Calou-se e afundou-se na cadeira. Os seus ombros caíram, o sorriso
benevolente sumiu-se, e, totalmente esgotada, voltou a transformar-se em
Thelma.
Deixámo-nos ficar em silêncio. Enquanto eu ponderava sobre as pa-
lavras que ela pusera na boca de Matthew, foi-me fácil compreender por-

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que seriam apelativas e porque decerto as teria repetido com frequência:
confirmavam o seu ponto de vista sobre a realidade, absolviam Matthew
de qualquer responsabilidade (afinal de contas, tinha sido o psiquiatra a
aconselhar-lhe silêncio) e confirmavam que não havia nada de mal nela
nem de incongruente na relação entre os dois; simplesmente Matthew ti-
nha um compromisso mais forte com outra. O facto de a outra mulher ser
Sonia, ela própria quando era jovem, indiciava que eu teria de dedicar mais
tempo à análise daquilo que Thelma sentia a respeito da sua idade.
Fiquei fascinado com a ideia da libertação. Seria possível que aquelas
palavras, vindas da boca de Matthew, a libertassem? Passou-me pela cabeça
uma interacção com um paciente no meu primeiro ano de internato (es-
sas primeiras experiências clínicas ficam para sempre connosco, são como
marcos na nossa infância profissional). O paciente, profundamente para-
nóico, insistiu que eu não era o Dr. Yalom, mas um agente do FBI e exigiu
comprovativo da minha identidade. Quando, na consulta seguinte, tive a
ingenuidade de lhe apresentar a minha certidão de nascimento, a carta de
condução e ainda o passaporte, anunciou que eu lhe tinha dado razão: só
alguém com contactos no FBI poderia ter obtido documentos falsificados
tão depressa. Quando um sistema está em expansão permanente, não há
maneira de não sermos cercados por ele.
Não que Thelma fosse paranóica, de maneira nenhuma, mas interro-
guei-me se não contrariaria também ela qualquer afirmação libertadora,
mesmo da parte de Matthew, exigindo sempre mais provas e confirmações.
Todavia, reflectindo hoje sobre o caso, creio que terá sido nessa altura que
comecei a admitir seriamente a possibilidade de integrar Matthew no pro-
cesso terapêutico, não a imagem idealizada que ela tinha dele, mas Mat-
thew como realmente era, de carne e osso.
— O que achou desta inversão de papéis, Thelma? Como se sentiu?
— Senti-me idiota! É ridículo para alguém da minha idade portar-se
como uma adolescente pateta.
— Quer com isso perguntar-me alguma coisa? Acha que é assim que
eu a vejo?
— Para ser sincera, essa é outra das razões (além da promessa que fiz
ao Matthew) pelas quais nunca falei sobre ele com terapeutas, nem com
mais ninguém. Sei que me dirão que foi uma reles paixoneta, ou uma ma-
nifestação de transferência. Até os imagino a dizer: «Toda a gente se apai-
xona pelo seu terapeuta». Ou isso, ou falarão do assunto como se fosse um
exemplo de... como é que se chama quando o terapeuta transfere qualquer
coisa para o paciente?
— Contratransferência.
— Pois, contratransferência. Aliás, ainda na semana passada o doutor

53
sugeriu isso quando disse que os problemas pessoais do Matthew se esta-
vam a manifestar na terapia que fazia comigo. Com toda a franqueza (que
é aquilo que o doutor me exige durante a terapia), fico ofendida com isso. É
como se eu não tivesse importância, como se fosse uma vítima inocente de
algum conflito entre ele e a sua mãe.
Não teci comentários. Ela tinha razão; era precisamente esse o meu
raciocínio. «Você e o Matthew foram “vítimas inocentes”. Nenhum dos dois
se relacionou verdadeiramente com o outro, relacionaram-se apenas com
uma versão fantasiada do outro. Apaixonou-se pelo Matthew por causa
daquilo que ele representava para si, alguém que a amaria absoluta e in-
condicionalmente; alguém que se dedicaria completamente ao seu bem-es-
tar, conforto e evolução; alguém que reverteria o seu envelhecimento e a
amaria como se ainda fosse a jovem e bela Sonia; alguém que lhe daria a
oportunidade de fugir à angústia de ser independente e a felicidade de uma
união em que ambos se confundiriam. Talvez se tenha “apaixonado” por
ele, mas uma coisa era certa: não amou o Matthew; aliás, nunca chegou a
conhecê-lo.»
E Matthew? Por quem ou o quê se teria ele apaixonado? Eu ainda não
sabia, mas não me parecia que se tivesse “apaixonado”, nem que a amasse.
«Ele não a amou, Thelma, aproveitou-se de si. Não nutriu qualquer carinho
genuíno por si, não pela Thelma de carne e osso! O comentário que fez so-
bre a possibilidade de ele estar a resolver um conflito com a mãe talvez não
esteja longe da verdade.»
Como se me lesse os pensamentos, Thelma prosseguiu, de queixo er-
guido e projectando as palavras como se as dirigisse a um grande auditório:
— Quando as pessoas julgam que, na realidade, não nos amámos um
ao outro, isso tira valor ao amor que conhecemos. Tira-lhe a profundidade
e redu-lo a nada. Esse amor foi, e é, genuíno. Nunca senti nada tão genuíno
quanto isso. Aqueles vinte e sete dias foram o auge da minha vida. Foram
vinte e sete dias paradisíacos e daria tudo para voltar a vivê-los outra vez!
Reflecti que era uma mulher de armas. Marcara efectivamente a sua
posição: «Não me tire o auge. Não me tire a única coisa genuína que me
aconteceu.» Quem seria capaz de fazer uma coisa dessas a alguém, particu-
larmente a uma septuagenária deprimida com tendências suicidas?
Contudo, eu não estava disposto a deixar-me chantagear daquela ma-
neira. Ceder-lhe seria neutralizar por completo o meu impacto. Sendo as-
sim, insisti, num tom seco:
— Fale-me da euforia, conte-me tudo aquilo de que se lembrar.
— Foi como se tivesse sido transportada para fora do meu próprio
corpo. Senti-me como se não tivesse peso. Foi como se não estivesse pre-
sente, pelo menos a parte de mim que me angustia e me deixa abatida. Pura

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e simplesmente parei de pensar e de me preocupar comigo própria, como
se nos tivéssemos tornado numa só entidade.
O “eu” solitário rejubilara-se com a dissolução no “nós”. Quantas vezes
já ouvi essa mesma conversa! É o denominador comum a todos os tipos de
felicidade: romântico, sexual, político, religioso, místico. Todos nós deseja-
mos e agradecemos essa fusão feliz. Porém, o caso de Thelma era diferente:
não se podia dizer que a desejasse, mas que tinha de a encontrar para esca-
par de um perigo incerto.
— Isso bate certo com aquilo que me contou sobre o sexo com o Mat-
thew: disse-me que não era importante que ele estivesse dentro de si. O que
importava era que se ligassem, ou até que se fundissem.
— Precisamente. Era aí que eu queria chegar quando disse que o dou-
tor estava a dar demasiada importância à relação sexual. O sexo, por si só,
não desempenhou um papel particularmente importante.
— Isso ajuda-me a compreender o sonho que a Thelma teve há umas
semanas.
Duas semanas atrás, Thelma contara-me um sonho prenhe de ansie-
dade, o único sonho que me narrou durante todo o processo terapêutico:

«Estava a dançar com um homem negro, grande. Depois transformou-se


no Matthew. Estávamos deitados na pista de dança, a ter relações sexu-
ais. Quando eu estava prestes a atingir o orgasmo, sussurrei: “Mata-me”,
ao ouvido dele. Desapareceu, de repente, e fiquei abandonada na pista
de dança.»

arece que a Thelma quer livrar-se da sua individualidade, quer per-


P der-se (o que é representado no sonho pelo pedido: «Mata-me»), e o
Matthew é o instrumento que tornaria isso possível. Imagina porque isso
terá acontecido na pista de dança?
— Eu tinha-lhe dito que aqueles vinte e sete dias foram os únicos mo-
mentos em que alguma vez me senti eufórica. A verdade não é exactamente
essa. Senti-me eufórica muitas vezes quando dançava. Nessas alturas, sentia
muitas vezes que tudo desaparecia, eu e todo o resto, só existiam a dança
e aquele instante. Quando danço nos meus sonhos, quer dizer que estou a
tentar fazer com que tudo o que há de mau desapareça. Acho que também
significa voltar a ser jovem.
— Falámos muito pouco sobre como se sente em relação aos seus se-
tenta anos de idade. Pensa muitas vezes sobre isso?
— Suponho que talvez tivesse uma visão diferente da terapia se tivesse
quarenta e não setenta anos. Teria perspectivas para o futuro. Os psiquia-
tras não preferem trabalhar com gente mais jovem?

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Eu sabia que havia ali uma abundância de material para explorarmos.
Estava convicto de que a obsessão de Thelma era alimentada pelo seu medo
do envelhecimento e da morte. Uma das razões pelas quais desejava uma
fusão amorosa na qual se pudesse dissolver era a vontade de evitar o terror
de enfrentar a dissolução pela morte. Nietzsche afirmou que «a derradeira
recompensa dos mortos é não poderem morrer mais». Porém, também se
me apresentava uma óptima oportunidade para aprofundar a nossa rela-
ção. Embora os dois temas que tínhamos vindo a investigar (a fuga à liber-
dade e à solidão da individualidade) constituíssem na altura, e estivessem
destinados a constituir futuramente, o conteúdo do nosso diálogo, eu tinha
a sensação de que a melhor maneira de ajudar Thelma passava pelo de-
senvolvimento de uma relação significativa com ela. Esperava que o tecer
de laços estreitos entre nós soltasse as amarras que a prendiam a Henry o
quanto bastasse para romper com ele. Só então poderíamos dedicar-nos à
identificação e eliminação dos obstáculos que a impediam de estabelecer
relações de intimidade na sua vida social.
— Thelma, quando me pergunta se os psiquiatras não preferem tra-
balhar com pacientes mais jovens, parece-me que quer com isso lançar-me
uma questão mais pessoal.
Ela, como de costume, evitou personalizar a questão.
— É evidente que teria mais a ganhar em trabalhar com, por exemplo,
uma mãe jovem de três filhos, mulher com toda uma vida pela frente, caso
no qual a melhoria do seu estado psicológico seria benéfica para a prole e
para os netos.
Insisti:
— Onde eu queria chegar é que fiquei com a impressão de que havia
interrogação subjacente ao seu comentário, uma pergunta pessoal que me
queria fazer acerca de algo que diz respeito a nós os dois.
— Os psiquiatras não teriam mais interesse em tratar uma paciente
com trinta anos do que uma velha com setenta?
— Importa-se que nos concentremos em nós os dois, em vez de falar-
mos da psiquiatria, de psiquiatras e de pacientes? A pergunta que me quer
fazer não é a seguinte: «Como é que você, Irv...» — aqui, Thelma sorriu.
Raramente me chamava pelo nome, fosse o nome próprio ou o apelido —
«...se sente a tratar de mim, a Thelma, uma mulher que já tem senta anos»?
Não deu resposta. Olhou fixamente pela janela. Abanou muito ligeira-
mente a cabeça. Irra, que a mulher era teimosa!
— Tenho, ou não tenho razão? Era essa a sua dúvida?
— Essa é uma dúvida, mas não necessariamente a dúvida. Dito isso,
se tivesse simplesmente respondido à pergunta como lha coloquei inicial-
mente, ter-me-ia dado resposta à pergunta que acabou de me fazer.

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— Quer com isso dizer que, se soubesse a minha opinião sobre o que a
generalidade dos profissionais de psiquiatria sente a respeito do tratamento
do paciente geriátrico comum, depreenderia disso que é assim que me sinto
em relação à terapia que faço consigo?
Thelma anuiu com um aceno.
— Mas isso é tão retorcido, além de poder ser impreciso. O meu co-
mentário generalista poderia ter sido uma suposição acerca de todo um
ramo profissional e não uma expressão da opinião pessoal que tenho de
si. O que a impede de me fazer directamente a pergunta que a apoquenta?
— Foi este o tipo de problema que trabalhei com o Matthew. Era pre-
cisamente a isto que ele chamava um dos meus hábitos merdosos.
Isso deu-me que pensar. Conviria aliar-me, de qualquer modo que fosse,
a Matthew? Ainda assim, senti-me seguro de que estava no caminho certo.
— Deixe-me tentar esclarecer as suas dúvidas: a geral, que me colocou,
e a particular, que guardou para si. Comecemos pela geral. Eu, pessoalmen-
te, gosto de trabalhar com pacientes mais idosos. Como sabe, depois de
ter preenchido aqueles questionários todos antes de começarmos o trata-
mento, estou a trabalhar num projecto de investigação e lido com muitos
pacientes nas casas dos sessenta e dos setenta. Tenho vindo a descobrir que
evoluem tão bem como, se não melhor que os pacientes mais jovens e te-
nho igual prazer em trabalhar com ambos.
«Compreendo a sua pergunta acerca da mãe jovem e da sua possível
influência, mas eu vejo a questão de outra maneira. A Thelma também é
muito influente. Todas as pessoas mais jovens com quem tiver contacto vão
procurar a sua orientação, ou vê-la como um modelo a seguir nas próximas
etapas das vidas delas. Do seu ponto de vista, creio que é possível descobrir
aos setenta uma nova perspectiva sobre a vida que, por assim dizer, trans-
bordará retroactivamente para toda a sua experiência anterior, dando-lhe
outro significado e outra importância. Sei que agora lhe é difícil perceber
isso, mas acredite quando lhe digo que acontece muitas vezes.
»Agora, deixe-me responder à parte mais particular da sua dúvida:
como me sinto eu a respeito do trabalho consigo. Eu quero acompanhá-la.
Creio que compreendo aquilo que está a sofrer e ponho-me no seu lugar...
eu próprio já conheci esse tipo de angústia antes. Tenho interesse no pro-
blema com que se está a debater e julgo que posso ajudá-la. Aliás, estou
empenhado em ajudá-la. O que mais me custa no nosso trabalho é a frus-
tração que me provoca o abismo que a Thelma cava entre nós. Ainda há
pouco me disse que é capaz de descobrir (ou, pelo menos, de adivinhar) a
resposta a uma pergunta pessoal através de uma pergunta impessoal, mas
pense no efeito que isso tem na outra pessoa. Quando teima em fazer-me
perguntas impessoais, como fez há pouco, sinto que está a afastar-me.»

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— Era precisamente esse o tipo de discurso do Matthew.
Sorri e rangi discretamente os dentes. Não me ocorria nenhum co-
mentário construtivo para acrescentar. Aquela interacção frustrante e pe-
nosa era típica. Ainda viríamos a ter muitas conversas semelhantes.
O trabalho era difícil e pouco gratificante. Semana a semana, fui ga-
nhando terreno a pouco e pouco. Tentei ensinar-lhe o á-bê-cê da intimi-
dade: o uso dos pronomes eu e tu, como identificar sentimentos (partindo
da diferença entre sentimentos e pensamentos), como assumir esses sen-
timentos e exprimi-los. Falei-lhe das emoções mais básicas (más, tristes,
furiosas e felizes). Apresentei-lhe determinadas frases para ela completar,
como, por exemplo: «Quando o Irv diz isso, eu sinto-me _____ consigo.»
Thelma tinha um reportório impressionante de mecanismos de dis-
tanciamento. Um deles passava por prefaciar o que estava prestes a dizer
com longos preâmbulos aborrecidos. Quando lhe chamei a atenção para
isso, reconheceu que eu tinha razão, mas depois deu início a uma descri-
ção de como, quando alguém lhe perguntava as horas, respondia com uma
lição de relojoaria. Ao fim de vários minutos, depois de ter concluído essa
anedota (rematada com um relato histórico completo sobre como ela e a
irmã haviam adquirido o hábito de fazerem longos apartes), tínhamo-nos
afastado irremediavelmente do ponto de partida e dei por mim efectiva-
mente distanciado.
Numa ocasião, reconheceu que tinha dificuldades significativas em
exprimir-se. Só fora igual a si própria, de modo absolutamente espontâ-
neo, em duas circunstâncias no decurso da sua vida adulta: quando estava
a dançar e quando partilhara vinte e sete dias de paixão com Matthew. Essa
era uma parte importante da razão pela qual a aceitação dele adquiria tanta
preponderância:
— Ele conheceu-me como muito poucas pessoas alguma vez me co-
nheceram, ou seja, como realmente sou, completamente exposta, sem es-
conder nada.
Quando lhe perguntava como estava a correr o dia, ou lhe pedia que
descrevesse todas as sensações que tinha tido em relação a mim até ao mo-
mento em determinada consulta, raramente respondia. Costumava negar
ter tido qualquer sensação, mas, por vezes, deixava-me completamente
desarmado, declarando que sentira uma grande intimidade naquela hora,
hora durante a qual me parecera particularmente evasiva e distante. Es-
miuçarmos a discrepância entre as nossas perspectivas seria um processo
traiçoeiro, pois era provável que ela se indignasse com as conclusões.
Com o acumular de sinais de que não se estava a desenvolver qualquer
relação significativa entre nós, senti-me despistado e rejeitado. Ao que me
parecia, tinha-me mostrado disponível para ela. No entanto, Thelma con-

58
tinuava indiferente a mim. Esforcei-me por abordar esse assunto com ela,
mas, quaisquer que fossem os termos escolhidos para o efeito, davam-me
a sensação de que estava a choramingar: «Porque é que não gosta tanto de
mim quanto gosta do Matthew?»
— Sabe, Thelma, passa-se aqui mais alguma coisa além do facto de
permitir que a opinião que o Matthew tem de si seja de suprema impor-
tância e é a sua recusa em permitir que a minha opinião tenha qualquer
significado para si. Afinal, tal como ele, conheço-a bastante bem. Também
sou terapeuta, aliás, tenho mais vinte anos de experiência e, provavelmente,
sou mais versado do que o Matthew. Porque será que aquilo que eu penso
e sinto sobre si não conta?
Respondeu ao conteúdo, mas não à emoção subjacente ao comentá-
rio. Tentou apaziguar-me:
— A culpa não é sua. Tenho a certeza de que sabe o que faz. Acho
que me portaria assim com qualquer terapeuta do mundo. O problema é
que o Matthew me magoou tanto que não vou voltar a expor-me a outro
terapeuta.
— Tem boas respostas para tudo, mas, no fundo, todas elas dizem:
«Não se aproximem.» Não pode aproximar-se do Harry porque não quer
magoá-lo, falando-lhe dos seus pensamentos íntimos sobre o Matthew e o
suicídio. Não pode ter intimidade com amigos para não os magoar quando,
mais cedo mais tarde, se suicidar. Não pode ter intimidade comigo porque
foi magoada, há oito anos, por outro terapeuta. A letra muda de caso para
caso, mas a cantiga é sempre a mesma.
Finalmente, no quarto mês de terapia, houve sinais de progresso. Thel-
ma parou de contestar tudo o que eu dizia e, com grande surpresa minha,
no início de certa sessão, começou por me dizer que dedicara muitas horas
da semana anterior a fazer uma lista de todos os seus entes mais queridos e
do que acontecera a cada um deles. Concluiu que sempre que se aproxima-
va verdadeiramente de alguém, arranjava maneira de cortar relações com
a pessoa.
— Talvez o doutor tenha razão. Se calhar tenho grandes dificuldades
em aproximar-me das pessoas. Creio que há trinta anos que não tenho uma
boa amiga. Nem sei se alguma vez tive uma.
Essa conclusão poderia ter sido um ponto de viragem na nossa terapia:
pela primeira vez, Thelma identificara um problema específico e responsa-
bilizara-se por ele. Tive esperança de que pudéssemos agora mergulhar a
fundo no trabalho. Porém, aconteceu o inverso: Thelma retraiu-se ainda
mais, alegando que os seus problemas com a intimidade condenavam a te-
rapia ao insucesso.
Não me poupei a esforços para a convencer de que aquela era uma

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questão positiva e não negativa que emergira no processo terapêutico. Ex-
pliquei-lhe uma e outra vez que as dificuldades com a intimidade não são
apenas ruído de fundo que atrapalha o tratamento, mas sim o problema
essencial. O facto de o problema ter surgido naquelas circunstâncias, con-
texto no qual podíamos analisá-lo, era um desenvolvimento positivo e não
negativo.
Todavia, o desespero dela agravou-se. Agora, todas as semanas lhe
corriam mal. Tornava-se mais obsessiva, chorava mais, afastava-se mais
de Harry e passava muito tempo a planear o seu suicídio. Eram cada vez
mais frequentes as suas críticas à terapia. Dizia que as nossas sessões apenas
contribuíam para «pôr o dedo na ferida» e aumentar o desconforto dela,
arrependida de se ter comprometido a fazer seis meses de terapia.
O tempo estava a esgotar-se. Entrávamos no quinto mês de terapia e,
embora Thelma me continuasse a garantir que respeitaria o seu compro-
misso, deixou expresso que não estava disposta a prolongá-lo além dos seis
meses. Fiquei desanimado: todos os meus esforços diligentes tinham sido
ineficazes. Nem sequer conseguira criar uma aliança terapêutica consisten-
te com ela: a sua energia emocional era, até à última gota, dedicada a Mat-
thew e eu não encontrara maneira de a libertar. Chegara a altura de jogar a
minha última cartada.
— Desde aquela sessão, há uns meses, em que fingiu que era o Mat-
thew e disse as palavras que a libertariam, tenho ponderado sobre a possi-
bilidade de o convidar a vir ao consultório para fazermos uma sessão a três:
eu, a Thelma e o Matthew. Já só temos sete consultas pela frente, a não ser
que admita a possibilidade de não desistir já... — Thelma abanou a cabeça
com firmeza. — Acho que precisamos de ajuda para avançarmos mais nes-
te processo. Gostaria que me desse autorização para telefonar ao Matthew e
para o convidar a vir ter connosco. Creio que bastará uma sessão a três, mas
é melhor não a adiarmos muito, porque depois vamos precisar de várias
horas para integrarmos aquilo que viermos a descobrir.
Thelma, que até àquele instante se deixara ficar apaticamente afunda-
da na cadeira, endireitou-se de repente. O seu saco caiu-lhe de cima dos jo-
elhos e entornou-se no chão, mas ela ignorou-a para me ouvir de olhos ar-
regalados. Finalmente, finalmente tinha conseguido chamar a atenção dela
e calou-se durante vários minutos, meditando sobre as minhas palavras.
Embora a minha proposta não houvesse sido muito reflectida, estava
convencido de que Matthew aceitaria reunir-se connosco. Esperava que a
minha reputação no meio o intimidasse a ponto de colaborar. Ainda para
mais, seguramente ter-se-ia deixado afectar por oito anos de mensagens de
Thelma no seu atendedor de chamadas e também estaria ansioso por se
libertar.

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Não tinha a certeza do que aconteceria naquele extraordinário encon-
tro a três, no entanto, sentia-me estranhamente confiante em que correria
tudo bem. Qualquer informação que eventualmente descobríssemos seria
útil. Qualquer injecção de realidade me ajudaria a libertar Thelma da sua
fixação em Matthew. Independentemente da gravidade das deformações
de carácter dele — que decerto seriam falhas de magnitude considerável
—, tinha a certeza de que não faria nada à minha frente que alimentasse as
fantasias dela sobre uma reconciliação futura.
Depois de um silêncio invulgarmente prolongado, Thelma afirmou
que precisava de mais tempo para pensar no assunto.
— Por enquanto — disse ela —, vejo mais contras do que prós...
Deixei escapar um suspiro e recostei-me na cadeira. Sabia que Thelma
passaria o resto daquela hora a urdir teias obsessivas.
— Relativamente aos pontos positivos, suponho que isso permitiria ao
Dr. Yalom observar o nosso comportamento presencialmente.
Suspirei ainda mais alto. Aquela sessão ia ser ainda pior do que era ha-
bitual; estava a falar sobre mim como se eu não estivesse presente. Fiz men-
ção de sublinhar que estava a falar como se não partilhássemos o mesmo
espaço, mas não tive forças para tanto... Thelma conseguira desgastar-me.
— Relativamente aos pontos negativos, ocorrem-me várias possibi-
lidades: primeiro, o seu telefone pode aliená-lo. Tenho um ou dois por
cento de possibilidades de o reconquistar. A sua chamada pode redu-
zi-las a zero, se tanto.
Comecei a ficar definitivamente irritado e pensei: «Passaram oito
anos, Thelma, como é que ainda não percebeu a mensagem? Além disso,
como é que as suas possibilidades podem ser menos do que zero, sua ton-
ta?» Aquela era realmente a minha última cartada e começava a ficar com a
impressão de que ela ia cortar-me a vaza. Todavia, calei-me.
— O único motivo que ele poderia ter para participar seria profissio-
nal: ajudar uma doentinha demasiado incompetente para gerir a sua pró-
pria vida. Em terceiro lugar...
Meu Deus! Estava outra vez a fazer enumerações. Tirava-me do sério.
— Em terceiro lugar, é provável que o Matthew me diga a verdade, mas
por palavras condescendentes e profundamente influenciadas pela presença
do Dr. Yalom. Acho que não aguentava se fosse condescendente comigo. Em
quarto lugar, isso colocá-lo-ia numa posição muito comprometedora e em-
baraçosa em termos profissionais. Nunca me perdoaria uma desfeita dessas.
— Mas ele é um terapeuta, Thelma. Sabe que, para você melhorar, tem
de falar sobre ele. Se for uma pessoa tão espiritual como a Thelma o julga,
então, decerto tem-se sentido muito culpado pela sua aflição e terá todo o
gosto em ajudá-la.

61
No entanto, Thelma estava demasiado embrenhada no desenrolar da
sua lista para ouvir as minhas palavras.
— Em quinto lugar, o que teria eu a ganhar com uma sessão a três?
Não há quase hipótese nenhuma de ele dizer aquilo que eu gostaria de lhe
ouvir. Só quero que ele diga que gosta de mim, pouco me importa se é isso
o que sente, ou não. Se não vou ter aquilo que quero e que me faz falta, por-
que me hei-de eu expor a essa angústia? Já estou suficientemente magoada.
Porque hei-de eu aceitar essa proposta?
Levantou-se da cadeira e foi até à janela.
Eu começava a ficar muito preocupado. Thelma estava a entrar num
frenesi irracional e ia boicotar o meu último recurso para ajudá-la. Dei tem-
po ao tempo e escolhi cuidadosamente as palavras:
— A melhor resposta que lhe posso dar a todas as dúvidas que
apresentou é que falar com o Matthew nos aproximará da verdade. Te-
nho a certeza de que é isso o que lhe interessa... — Estava de costas
para mim, mas pareceu-me que a vi acenar discretamente com a ca-
beça, em concordância. — Não pode continuar a viver esta mentira, a
viver nesta ilusão!
«Sabe uma coisa, Thelma? Já me fez muitas perguntas sobre a minha
orientação teórica. Raramente lhe respondi porque achei que conversar-
mos sobre várias escolas de psicoterapia nos afastaria do diálogo pessoal
que tínhamos de estabelecer, mas deixe-me tirar-lhe essa dúvida agora.
Segundo aquela que talvez seja a máxima terapêutica mais importante a
que me agarro: «A vida não examinada não merece ser vivida.» Trazer o
Matthew a este consultório talvez seja a chave que nos permitirá examinar e
compreender verdadeiramente aquilo que se tem passado consigo ao longo
dos últimos oito anos.
A minha resposta tranquilizou Thelma. Voltou à cadeira e sentou-se.
— Isto está a mexer muito comigo. Tenho a cabeça a andar à roda.
Dê-me uma semana para pensar no assunto, mas tem de me prometer uma
coisa: não telefona ao Matthew sem a minha autorização.
Prometi que, se não tivesse notícias dela, não telefonaria a Matthew na
semana seguinte e despedimo-nos. Não estava disposto a garantir-lhe que
nunca tentaria contactá-lo, mas, felizmente, não me pediu que o fizesse.
Quando chegou para a consulta seguinte, Thelma pareceu-me dez
anos mais nova e bem mais animada. Fora arranjar o cabelo e vestira roupa
atraente: uma saia de malha com losangos e meias de vidro, em vez das
calças de poliéster, ou o fato de treino habituais. Sentou-se prontamente e
foi directa ao assunto:
— Passei a semana a pensar no tal encontro com o Matthew. Analisei
todos os prós e os contras e convenci-me de que o doutor tem razão: estou

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num estado tão deplorável que duvido que alguma coisa pudesse piorar a
situação!
— Não foi isso o que eu disse, Thelma. Disse que...
Mas ela não tinha interesse nas minhas palavras e interrompeu-me:
— Dito isso, a sua ideia de lhe telefonar não me pareceu a mais indi-
cada. Teria sido um choque para ele receber um telefonema seu sem mais,
nem menos, portanto decidi-me a ligar-lhe para o preparar para a sua cha-
mada. Claro que não o consegui contactar a ele, mas falei da sua proposta
ao atendedor de chamadas e pedi-lhe que nos telefonasse, a si, ou a mim
e... e...
Nesse instante, com um sorriso rasgado nos lábios, parou para au-
mentar o suspense.
Fiquei pasmado. Nunca a tinha visto brincar assim.
— E...?
— Bem, parece que o doutor tem mais influência do que eu imagi-
nava. Pela primeira vez, desde há oito anos, retribuiu a chamada e tivemos
uma amena conversa de vinte minutos.
— Como é que se sentiu a falar com ele?
— Foi maravilhoso! Nem lhe sei descrever bem. Foi como se ainda na
véspera tivéssemos conversado. Voltou a ser o Matthew gentil e carinhoso
de antigamente. Perguntou tudo sobre mim. Ficou preocupado com a mi-
nha depressão. Ficou feliz por eu estar a ser acompanhada por si. Foi uma
boa conversa.
— Importa-se de me dizer sobre o que falaram?
— Credo. Sei lá. Estivemos na cavaqueira.
— Falaram sobre o passado? Sobre o presente?
— Sabe?, talvez pareça estranho, mas não me lembro!
— Não se lembra de nada?
Nas mesmas circunstâncias, muitos terapeutas teriam interpretado o
modo como ela me estava a excluir. Talvez eu devesse ter feito o mesmo,
mas estava cheio de curiosidade. Estava em pulgas! Era típico de Thelma
esquecer-se que eu também tinha desejos.
— Compreenda que não estou a tentar esconder nada. Simplesmen-
te não me lembro. Estava demasiado entusiasmada. Ah, pois, ele disse-me
que se tinha casado e divorciado, explicou que tinha passado por uma fase
muito turbulenta por causa do divórcio.
«O que importa é que está disposto a participar numa sessão a três.
Sabe uma coisa? Achei engraçado que ele até me tenha parecido ansioso,
como se tivesse sido eu a evitá-lo e não o inverso. Disse-lhe que apareces-
se aqui na semana que vem, na minha hora de consulta habitual, mas ele
pediu-me para perguntar ao doutor se seria possível antecipar esse encon-

63
tro. Agora que decidimos fazer isto, quer tratar do assunto o quanto antes.
Suponho que eu sinta a mesma ânsia.»
Propus-lhe uma hora para dali a dois dias e Thelma comprometeu-se
a transmitir essa informação a Matthew. Depois tornámos a rever a con-
versa telefónica entre os dois e fizemos planos para a consulta seguinte.
Ela não chegou a recordar-se de todos os pormenores do telefonema, mas
lembrou-se dos assuntos que não tinham discutido:
— Desde que desliguei a chamada, tenho andado a castigar-me por
me ter acobardado e não ter feito ao Matthew as duas perguntas que real-
mente interessam. A primeira: afinal o que aconteceu há oito anos? Porque
é que ele cortou relações comigo? Porque não me deu notícias desde essa
altura. A segunda: o que sente ele por mim agora?
— Temos de garantir que não sai da nossa consulta a três com vonta-
de de se castigar por ter guardado perguntas para si. Prometo que a ajudo
a formular qualquer questão que tenha interesse em esclarecer, quaisquer
perguntas que a possam libertar da influência que deu ao Matthew. Vai ser
essa a minha função essencial na consulta.
Durante o resto daquela hora, Thelma repetiu muito material an-
tigo: falou sobre o que sentia por Matthew, sobre como não era um
exemplo de transferência, sobre como ele lhe proporcionara os melho-
res dias da sua vida. Fiquei com a impressão de que se tratava de uma
divagação interminável, uma sucessão de desvios atrás de desvios e de
que, como se isso não bastasse, me estava a dizer tudo aquilo como se
fosse pela primeira vez. Apercebi-me de quão pouco ela mudara e de
como tantas coisas dependiam de um potencial desenvolvimento dra-
mático na nossa próxima sessão.
Chegou vinte minutos adiantada à consulta. Nessa manhã, eu esta-
va a tratar da correspondência e passei uma ou duas vezes por ela na sala
de espera, onde fui conferenciar com a minha administrativa. Thelma
trouxera um atraente vestido de malha azul-marinho: trajo ousado para
uma senhora de setenta anos, mas que lhe ficava bastante bem. Mais tar-
de, quando a convidei a entrar no consultório, elogiei a roupa dela e dis-
se-me, num sussurro conspiratório, com um dedo encostado aos lábios,
que passara grande parte da semana às compras, antes de ter escolhido
aquele. Era o primeiro vestido novo que comprara desde oito anos atrás.
Enquanto retocava o batom, disse-me que Matthew chegaria dentro de
um ou dois minutos, em cima da hora. Ele explicara-lhe que não queria
passar muito tempo na sala de espera, porque pretendia minimizar as
possibilidades de se cruzar com algum colega que por ali andasse. Não
me admirou que tivesse esse cuidado.
De súbito Thelma parou de falar. Eu deixara a porta do consultório

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entreaberta e percebemos que Matthew chegara e estava a conversar com a
administrativa.
— Assisti a algumas aulas aqui, quando o departamento ficava no edi-
fício antigo... Quando é que mudaram de instalações?... Gosto muito desta
luz, do ambiente arejado deste edifício, e você?
Thelma encostou uma mão ao peito, como se para abrandar as palpi-
tações do coração e segredou-me:
— Está a ver como parece ser naturalmente afectuoso?
Matthew entrou. Há oito anos que não via Thelma e, se ficou de algum
modo espantado com o envelhecimento físico dela, o seu sorriso jovem e
bem disposto não o denunciou. Era mais velho do que eu esperava, talvez
tivesse quarenta e poucos anos, um fato de três peças conservador e pouco
californiano. De resto, correspondia à descrição de Thelma: magro, bron-
zeado, com bigode.
Eu estava preparado para que ele fosse directo e sincero, portanto não
me surpreendi com a sua atitude. (Reflecti que os sociopatas muitas vezes
tinham boa apresentação.) Comecei por lhe agradecer sucintamente por
ter vindo.
Retorquiu imediatamente:
— Há anos que estou desejoso de ter uma consulta assim. Eu é que te-
nho de lhe agradecer a si por ma proporcionar. Além disso, há muitos anos
que leio os seus livros. Conhecê-lo é uma honra.
«Este tem o seu charme», pensei, mas não quis deixar-me distrair com
uma discussão pessoal ou profissional com Matthew: era melhor man-
ter-me discreto durante esta sessão e permitir que Thelma interagisse o má-
ximo possível com ele. Deixei a gestão dos procedimentos ao critério deles:
— Temos muito para discutir hoje. Por onde vamos começar?
Thelma começou:
— É engraçado que nunca tenha chegado a aumentar a dosagem da
medicação. — Voltou-se para Matthew e acrescentou: — Continuo a tomar
antidepressivos. Já lá vão oito anos, meu Deus, até custa acreditar, mas já
passaram oito anos, devo ter experimentado oito antidepressivos diferentes
e ainda nenhum deu resultado. O mais interessante é que os efeitos secun-
dários se fazem sentir mais hoje em dia. Tenho a boca tão seca que mal
consigo falar. Porque será que isso acontece? O stress potencia os efeitos
secundários?
Thelma continuou a divagar e a consumir grandes troços do precioso
tempo que nos restava com preâmbulos a preâmbulos. Era um dilema: em
circunstâncias habituais, provavelmente teria tentado esclarecer as conse-
quências daquele discurso indirecto. Talvez tivesse frisado, por exemplo,
que ela estava a colocar-se num papel de fragilidade que os desencoraja-

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ria, desde logo, de terem a discussão aberta que dizia pretender; ou que
convidara Matthew a ir ali para falar livremente, mas, ainda assim, apelara
prontamente ao sentimento de culpa dele, relembrando-o de que estava
medicada com antidepressivos desde que a deixara desamparada. Todavia,
tais interpretações resultariam apenas na conversão de maior parte daquela
hora numa sessão de terapia convencional, o que era precisamente aquilo
que nenhum de nós queria. Além disso, se eu rotulasse de algum modo o
comportamento dela como problemático, sentir-se-ia humilhada e nunca
mais me perdoaria essa atitude.
No entanto, demasiadas coisas dependiam daquela hora. Não podia
admitir que Thelma desperdiçasse aquela oportunidade com indirectas e
conversas redondas. Tratava-se da sua grande oportunidade para fazer as
perguntas que a perseguiam desde oito anos a esta parte. Era a sua grande
oportunidade para se libertar.
— Se me permite, Thelma, vou fazer uma curta interrupção. Se estive-
ram de acordo, gostaria que hoje fosse você a assumir a responsabilidade de
cronometrar a sessão e de se assegurar de que não nos dispersamos. Pode-
mos tirar um ou dois minutos para definirmos a nossa agenda de trabalhos?
Seguiu-se um silêncio momentâneo, até que Matthew o desfez:
— Vim cá hoje para ajudar a Thelma. Sei que ela tem passado mal e sei
que a responsabilidade por isso é minha. Vou responder com a franqueza
possível a toda e qualquer pergunta.
Foi uma deixa perfeita para Thelma. Deitei-lhe um olhar para que co-
meçasse. Percebeu o sinal e disse:
— Não há nada pior do que sentirmo-nos abandonados, sentir-
mo-nos como se estivéssemos absolutamente sozinhos neste mundo.
Quando eu era pequenina, um dos meus livros favoritos, que costumava
levar para o Lincoln Park em Washington, DC, onde o lia sentada num
dos bancos... era...
Nesse instante, deitei a Thelma o olhar mais fulminante de que fui ca-
paz. Ela percebeu.
— Vou directa ao assunto. Suponho que o que interessa é... — vol-
tou-se lenta e cuidadosamente para Matthew —... saber o que sentes por
mim.
Linda menina! Dediquei-lhe um sorriso absolutamente radiante.
A resposta de Matthew apanhou-me desprevenido. Olhou directa-
mente para ela e disse:
— Há oito anos que penso em ti todos os dias! Gosto de ti. Gosto
muito. Quero saber o que se passa contigo. Quem me dera que houvesse al-
guma maneira de nos encontrarmos de tantos em tantos meses para saber
como estás. Não quero cortar relações contigo.

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— Nesse caso, porque é que não falaste comigo durante estes anos to-
dos? — perguntou-lhe.
— Às vezes, o silêncio é a melhor maneira de exprimirmos o quanto
nos preocupamos com alguém.
Thelma abanou a cabeça.
— Isso é como um dos teus enigmas Zen, que nunca consegui com-
preender.
Matthew prosseguiu:
— Sempre que tentava falar contigo, a situação piorava. Exigias cada
vez mais de mim, até que chegou uma altura em que não sabia o que mais
te dar. Telefonavas-me dez vezes por dia. Teimavas em aparecer na sala de
espera do meu consultório. Quando só por pouco não te mataste, percebi...
e o meu terapeuta concordou... que o melhor seria cortar completamente
relações contigo.
Pensei que a declaração de Matthew fora estranhamente semelhante
ao momento de libertação que Thelma descrevera durante a nossa sessão
de inversão de papéis.
— Mas é natural que uma pessoa se sinta desamparada quando algo
de tão importante lhe é tirado tão de repente — comentou ela.
Matthew acenou com a cabeça, compreensivo, e pousou, por um
breve instante, uma mão sobre as mãos dela. Então, voltou-se para mim e
disse-me:
— Parece-me importante que o doutor saiba exactamente o que acon-
teceu há oito anos. Digo-lhe isto a si, e não à Thelma, porque já lhe contei
esta história mais do que uma vez. — Virou-se para ela e acrescentou: —
Lamento que tenhas de tornar a ouvir isto tudo.
Nessa altura, voltou-se para mim com um ar sincero e começou:
— Isto não me é fácil. A melhor maneira de resolver o assunto é dizer
tudo de uma vez, portanto, vamos a isso.
«Há oito anos, cerca de um ano depois de ter terminado o internato,
tive um surto psicótico grave. Nessa fase, estava muito dedicado ao budis-
mo e a praticar Vipassana, uma variedade de meditação budista...» Ao ver o
meu aceno, interrompeu a sua narrativa. «Parece que conhece essa prática.
Teria todo o interesse em saber que opinião tem dela. Dito isso, hoje é me-
lhor continuar a história... andava a fazer três ou quatro horas de Vipassana
por dia. Admiti a hipótese de me tornar monge budista e fiz um retiro de
meditação na Índia, passei trinta dias em Igapuri, aldeola a norte de Bom-
baim. O regime foi demasiado duro para mim: silêncio absoluto, isolamen-
to total, catorze horas de meditação por dia e comecei a perder noção dos
limites do ego. Na terceira semana comecei a alucinar e convenci-me de
que via através de paredes e de que tinha acesso total às minhas vidas pas-

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sada e futura. Os monges levaram-me a Bombaim e um médico indiano
receitou-me medicação antipsicótica e telefonou ao meu irmão, que apa-
nhou um avião para a Índia e me trouxe para casa. Passei cerca de quatro
semanas hospitalizado em Los Angeles. Assim que me deram alta, meti-me
num avião para São Francisco e foi no dia seguinte que conheci a Thelma,
por mero acaso, em Union Square.
»Ainda estava num estado de espírito muito fragmentado. Tinha con-
vertido as doutrinas budistas numa verdadeira loucura e julgava que vivia
em comunhão com toda a gente. Fiquei feliz por me ter cruzado com a
Thelma, contigo, Thelma — disse, voltando-se para ela. — Fiquei satisfeito
por te encontrar. Isso ajudou-me a assentar novamente os pés no chão».
Matthew tornou a virar-se para mim e, até ao fim da história, não vol-
tou a olhar para ela.
— Tive uma grande ternura por ela. Senti que éramos a mesma pes-
soa. Queria que ela tivesse tudo o que desejava na vida. Mais do que isso,
pensava que a sua busca pela felicidade era a minha busca também. Era a
mesma senda, nós éramos iguais. Eu levava a fé budista na unidade uni-
versal e na ausência de ego muito à letra. Não sabia onde acabava à minha
individualidade e começava a dos outros. Dei-lhe tudo o que ela queria.
Queria intimidade comigo, queria ir para casa comigo, queria sexo... eu es-
tava disposto a dar-lhe tudo num estado de perfeita união e amor.
«Mas ela queria mais e eu não tinha mais para lhe dar. Fiquei mais
perturbado. Ao fim de três ou quatro semanas, voltei a ter alucinações e tive
de voltar para o hospital, dessa vez passei seis semanas internado. Tinha
saído de lá há pouco tempo, quando ouvi falar da tentativa de suicídio da
Thelma. Eu não sabia o que fazer. Foi uma situação catastrófica. Nunca me
tinha acontecido coisa pior. Há oito anos que tenho sido perseguido por
isso. Inicialmente, atendi os telefonemas dela, mas nunca mais acabavam.
O meu psiquiatra acabou por me aconselhar a cortar todas as linhas de
comunicação e a remeter-me ao silêncio absoluto. Disse que era necessário
para bem da minha sanidade e que estava certo de que também seria me-
lhor assim para Thelma.»
Ao ouvir a história de Matthew, fiquei com a cabeça a andar à roda. Já
tinha desenvolvido várias hipóteses para explicar o comportamento dele,
mas não estava minimamente preparado para o que acabara de me contar.
Antes de mais, seria verdade? Matthew era um homem cativante. Era
muito insinuante. Teria encenado tudo aquilo por minha causa? Não, eu
não tinha dúvidas de que a descrição dele correspondia à realidade dos fac-
tos: as suas palavras soavam inconfundivelmente verdadeiras. Disse-me de
livre e espontânea vontade os nomes dos hospitais e dos médicos que o
tinham tratado, para a eventualidade de eu querer contactá-los. Além disso,

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Thelma, a quem ele afirmara ter já contado tudo aquilo, ouvira-o com toda
a atenção e não apresentara qualquer objecção.
Voltei-me para ela, mas desviou o olhar. Depois de Matthew ter acaba-
do a sua história, Thelma olhou fixamente pela janela. Seria possível que ela
soubesse tudo aquilo desde o início e me tivesse omitido essa informação?
Ou teria estado tão absorta na sua aflição e nas suas próprias necessidades
na altura, que, ao longo de todo o processo, não se apercebera minima-
mente do estado psicológico de Matthew? Ou teria tido essa noção durante
um curto período de tempo, antes de a ter reprimido, por ser contrária à
mentira essencial a que se agarrava?
Só Thelma me poderia esclarecer, mas qual delas? A Thelma que me
iludira? A Thelma que se iludia a si própria? Ou a Thelma que se deixara
iludir por si mesma? Duvidei que viesse a descobrir respostas para essas
dúvidas.
Entretanto, a minha atenção estava essencialmente fixa em Matthew.
Ao longo dos meses anteriore pintara uma imagem dele, ou, aliás, várias
imagens alternativas: imaginara um Matthew irresponsável, sociopata que
explorava os seus pacientes; um Matthew insensível e sexualmente confuso
que manifestava os seus conflitos pessoais (relacionados com as mulheres
em geral, ou a mãe em particular); um jovem e pomposo terapeuta errante
que confundia o amor desejado com o amor necessário.
No entanto, ele não correspondia a nenhuma dessas personagens. Era
algo de diferente, algo que eu não tinha antevisto. Não sabia ao certo do que
se tratava. Seria uma vítima bem intencionada? Um curandeiro ferido, um
homem à imagem de Cristo, que sacrificara a sua própria integridade em
nome de Thelma? Seguramente já não o considerava um terapeuta culpado
de um ilícito: tinha tanto de paciente quanto Thelma e, além do mais (como
não pude deixar de reflectir ao olhar para ela, que continuava a olhar fixa-
mente pela janela), era um paciente esforçado, paciente à minha medida.
Lembro-me de me ter sentido baralhado depois de tantas idealizações
se terem desfeito em tão poucos minutos. Desaparecera para sempre a ima-
gem que construíra de Matthew como sociopata, ou terapeuta abusador.
No lugar dela surgira uma pergunta obsidiante: «Na relação entre os dois,
quem se aproveitara de quem?»
Eu não conseguia processar mais informação (e estava convencido
de que tinha tudo o que era preciso). Do resto da sessão, guardo apenas
memórias vagas. Lembro-me de Matthew ter instado a Thelma que fizesse
mais perguntas. Parecia que também tinha a impressão de que ela só pode-
ria ser liberta através de informação, que as suas ilusões não resistiriam ao
farol da verdade. Também creio que terá percebido que só através da liber-
tação de Thelma poderia conquistar a sua própria liberdade. Recordo-me

69
de que eu e ela fizemos muitas perguntas, a cada uma das quais respondeu.
A esposa dele deixara-o quatro anos antes. Matthew e a sua mulher tinham
desenvolvido perspectivas cada vez mais divergentes sobre assuntos religio-
sos e ela não fora capaz de acompanhar a conversão do marido a uma seita
fundamentalista cristã.
Não, ele não era homossexual. Aliás, nunca fora, embora Thelma lhe
tivesse feito muitas perguntas a esse respeito. Só nesse momento o sorriso
de Matthew se estreitou e indícios de irritação transpareceram na sua voz
(«Fartei-me de te dizer que também moram heterossexuais na zona de Hai-
ght, Thelma.»)
Não, ele nunca tivera nenhuma relação pessoal com outro paciente.
Aliás, devido à sua psicose e ao que se passara com Thelma, há muitos anos
chegara à conclusão de que os seus problemas psicológicos constituíam
uma barreira intransponível e desistira de exercer a profissão de terapeuta.
No entanto, dedicado ao serviço, passara alguns anos a trabalhar em inves-
tigação no seu ramo; depois, trabalhara num laboratório de biofeedback, e,
mais recentemente, tornara-se gerente de uma organização de saúde cristã.
Estava eu a meditar sobre a decisão profissional que Matthew tomara,
interrogando-me inclusive se a sua condição não evoluíra o suficiente para
dever voltar às nossas lides, visto que talvez agora se pudesse tornar num
terapeuta excepcional, quando reparei que o nosso tempo estava prestes a
esgotar-se.
Indaguei se tínhamos abordado todos os assuntos previstos. Pedi a
Thelma que fizesse uma projecção futura e imaginasse como se sentiria
dali a várias horas. Perguntei-lhe se achava que tinham ficado perguntas
por fazer.
Surpreendentemente, rompeu num pranto tão intenso que tinha
dificuldade em respirar. Jorravam lágrimas sobre o azul do seu vestido
novo, até que Matthew se me antecipou e lhe ofereceu uma embalagem
de lenços. À medida que o choro amainava, as palavras de Thelma tor-
naram perceptíveis.
— Não acredito. Simplesmente não posso acreditar que o Matthew se
preocupa mesmo com o que me possa acontecer.
Essas palavras não tinham sido dirigidas nem a Matthew, nem a mim,
mas sim para um ponto intermédio entre nós dois no consultório. Reparei,
com alguma satisfação, que eu não era o único com quem ela falava como
se não estivesse presente.
Tentei ajudá-la a exprimir-se.
— Porquê? Porque é que não acredita nele?
— Ele está a dizer isso porque tem de ser. É a atitude correcta. Não me
pode dizer outra coisa senão isso.

70
Matthew bem se esforçou, mas a comunicação tornou-se difícil devi-
do ao choro dela.
— Fui sincero em tudo o que disse. Pensei em ti todos os dias ao longo
destes oito anos. Preocupo-me com o que se passa contigo. Gosto muito de ti.
— Mas esse gosto... que significado tem? Eu sei como funcionam as
tuas preocupações. Preocupas-te com os pobres, com as formigas, com
plantas e ecossistemas. Não quero ser como uma das tuas formigas!
Já passavam vinte minutos da hora marcada para o final da consulta e
tivemos de interrompê-la, embora Thelma ainda não se houvesse recom-
posto. Marquei nova sessão com ela para o dia seguinte, não só para lhe
dar apoio, como também por me parecer melhor tornar a vê-la dentro em
breve, enquanto os pormenores da consulta a três ainda estivessem vivos
na memória dela.
Terminámos a hora com apertos de mão entre os três e despedimo-nos.
Quando fui buscar café, minutos mais tarde, reparei que Thelma e Matthew
tinham ficado a conversar no corredor. Ele estava a tentar fazer passar uma
mensagem, mas ela não o olhava nos olhos. Passado pouco tempo, vi-os
afastarem-se em direcções opostas.
No dia seguinte, Thelma ainda não recuperara e mostrou-se excepcio-
nalmente instável durante a nossa sessão. Chorou muito e teve um ou outro
acesso de raiva. Começou por lamentar o facto de Matthew ter tão má opi-
nião dela. Esmiuçara e retorcera a afirmação dele no sentido de se «preocu-
par» com ela, a ponto de agora lhe parecer um insulto. Frisou que ele não
mencionara nenhuma das características positivas de Thelma e estava con-
vencida de que a atitude de Matthew para consigo fora «pouco simpática».
Ainda para mais, estava convencida de que, talvez devido à minha
presença, ele assumira uma voz e em comportamento pseudoterapêuticos
que Thelma achara condescendentes. Alongou-se muito e o seu discurso
foi alternando abruptamente entre a sua reconstituição da consulta a três e
as suas reacções ao sucedido.
— Sinto-me como se me tivessem amputado. Arrancaram-me qual-
quer coisa. Apesar da ética aparentemente nobre do Matthew, creio que sou
mais sincera do que ele, sobretudo no que respeita à descrição de qual dos
dois seduziu o outro.
Sobre esse assunto, Thelma manteve-se enigmática e não a pressionei
para que se explicasse melhor. Embora estivesse em pulgas por descobrir
a «verdade» dos factos, aquela alusão que ela fizera à «amputação» pare-
ceu-me mais intrigante ainda.
— Não voltei a ter fantasias com o Matthew — prosseguiu. — Já não
sonho acordada, mas quero sonhar. Quero sentir o consolo de um deva-
neio qualquer. Sinto-me fria e vazia por dentro. Não me resta nada.

71
«Como um barco à deriva, solto das amarrações», pensei, mas um
barco senciente em busca frenética de um qualquer ancoradouro. Entre
obsessões, Thelma encontrava-se agora num estado raro de liberdade.
Era o momento que eu esperava. Tais estados não são duradouros: o ob-
sessivo em estado livre, tal como o oxigénio nascente, não tarda a estabe-
lecer ligações com uma ideia ou uma imagem mental. Aquele instante de
intervalo entre obsessões era a hora da verdade no nosso trabalho, antes
que Thelma recuperasse o equilíbrio agarrando-se a alguma coisa ou a
alguém. Provavelmente, reconstituiria a hora que passara com Matthew
de modo que a sua versão da realidade pudesse novamente reforçar a sua
fantasia de fusão com ele.
Parecia-me que tínhamos feito progressos: a cirurgia estava ter-
minada e agora competia-me impedi-la de conservar o membro am-
putado e de voltar a enxertá-lo rapidamente. Passado pouco tempo tive
a minha oportunidade, quando Thelma começou a lamentar aquilo
que perdera.
— As minhas previsões confirmaram-se. Perdi a esperança, nunca
mais terei satisfação nenhuma na vida. Era capaz de conviver com um por
cento de possibilidade. Vivi assim durante muito tempo.
— Que satisfação retirou disso, Thelma? Possibilidade de quê?
— De quê? De ter aqueles vinte e sete dias. Até ontem, sempre se man-
tivera a possibilidade de eu e o Matthew recuperarmos esse momento. Foi
um momento que vivemos de facto, as emoções foram verdadeiras. Reco-
nheço quando estou apaixonada. Enquanto eu e o Matthew fôssemos vivos,
teríamos sempre possibilidade de voltarmos a esse estado. Até ontem. No
seu consultório.
Ainda lhe restavam algumas pontas de ilusão que tinham de ser cor-
tadas. Já destruíra quase totalmente a obsessão dela. Estava na hora de con-
cluir o processo.
— O que tenho para lhe dizer é pouco agradável, Thelma, mas creio
que é importante. Deixe-me tentar exprimir claramente o que penso.
Quando duas pessoas partilham um momento ou uma emoção, se ambas
sentirem o mesmo, percebo que seja possível, enquanto forem vivas, recu-
perarem essa preciosa emoção partilhada. Seria um processo algo delicado,
pois, afinal de contas, as pessoas mudam e o amor nunca dura para sempre,
mas, ainda assim, não seria absolutamente impossível. Poderiam comuni-
car de modo pleno e tentar desenvolver uma relação profunda e autêntica,
que, sendo o amor autêntico um estado absoluto, deveria aproximar-se da-
quilo que tivessem partilhado antes.
«Mas imagine como seria se essa experiência nunca tivesse sido parti-
lhada! Imagine que as duas pessoas tinham vivido experiências diametral-

72
mente diferentes. E imagine que uma delas cometia o erro de pensar que a
sua experiência tinha sido igual à da outra?»
Thelma fixou-me com o olhar. Tive a certeza de que me compreendia
perfeitamente.
Prossegui:
— O que ouvi na nossa sessão com o Matthew foi precisamente isso.
A experiência dele e a sua foram muito diferentes. Agora já percebe como
seria impossível para ambos recriarem o estado de espírito específico em
que estavam na altura? Vocês os dois não se podem ajudar mutuamente
nesse sentido porque não foi um estado partilhado.
«Ele estava numa situação e a Thelma noutra. O Matthew estava en-
tregue à psicose. Perdeu a noção dos seus limites, de onde terminava a
identidade dele e começava a sua. Desejava que a Thelma fosse feliz porque
julgava que os dois eram uma e a mesma pessoa. Ele não estava a viver
uma experiência amorosa porque não sabia quem era. A sua experiência foi
muito diferente. Não podem recriar um estado de amor romântico mútuo,
em que se encontrem perdidamente apaixonados um pelo outro, porque
esse estado nunca chegou a existir.»
Não creio que alguma vez tenha dito coisa mais cruel, mas, para me
fazer ouvir, vi-me obrigado a escolher palavras tão fortes e tão cruas que
não pudessem ser retorcidas nem votadas ao esquecimento.
Sem dúvida alguma, o meu comentário tivera impacto. Thelma dei-
xara de chorar e ficara absolutamente quieta, a meditar sobre as minhas
palavras. Ao fim de vários minutos, interrompi aquele silêncio pesado:
— O que sente em relação ao que eu disse, Thelma?
— Já não sinto nada. Já não há mais nada que possa sentir. Preciso
de arranjar maneira de aguentar o tempo de vida que me resta. Sinto-me
entorpecida.
— A Thelma tem vivido e tem-se sentido de uma maneira específica
há oito anos, e, de repente, em vinte e quatro horas, tudo isso lhe foi reti-
rado. Ao longo dos próximos dias, vai sentir-se muito desorientada. Vai-se
sentir desnorteada. Mas temos de estar preparados para isso. De que outra
maneira se poderia sentir?
Fiz esse comentário porque, muitas vezes, a melhor maneira de se
prevenir uma reacção calamitosa é vaticiná-la. Outro método passa por se
ajudar o paciente a alhear-se da sua própria situação e a assumir o papel de
observador, portanto acrescentei:
— Nesta semana, vai ser importante comportar-se como uma observa-
dora e narradora do seu próprio estado de espírito. Gostava que, quando es-
tiver acordada, analisasse esse estado de quatro em quatro horas e que apon-
tasse as suas observações. Na semana que vem podemos rever as suas notas.

73
No entanto, na semana seguinte, Thelma faltou pela primeira vez à
consulta. O marido telefonou para pedir desculpa em nome dela, que não
acordara a horas e combinámos nova sessão para dois dias mais tarde.
Quando fui cumprimentar Thelma à sala de espera, fiquei desconso-
lado com a deterioração física que lhe detectei. Voltara a vestir o seu fato
de treino verde e era evidente que não se tinha penteado, nem feito qual-
quer outro esforço por se arranjar. Ainda para mais, pela primeira vez viera
acompanhada do marido, Harry, homem alto, encanecido, com nariz gran-
de e abatatado, que se encontrava sentado, a apertar duas molas de mão.
Recordei-me de Thelma me ter dito que ele ensinara técnicas de combate
corpo a corpo na guerra. Conseguia imaginá-lo a estrangular alguém.
Achei estranho que tivessem aparecido juntos naquele dia. Apesar
da idade que tinha, Thelma estava em boa forma física e sempre se des-
locara sozinha até ao consultório. Fiquei ainda mais curioso quando, na
sala de espera, a ouvi dizer que Harry também queria falar comigo. Eu já
lhe fora apresentado: na terceira, ou quarta sessão, reunira-me com ele
e com Thelma para uma conversa de quinze minutos — essencialmente
para apreciar como era Harry e para inteirar sobre como funcionava o
casamento na perspectiva dele. Nunca antes pedira para se reunir comi-
go. Claramente, passava-se qualquer coisa de importante. Aceitei falar
com ele nos últimos dez minutos da consulta de Thelma e deixei expres-
so que me reservaria o direito de lhe transmitir na totalidade o conteúdo
da conversa que tivesse com o marido.
Ela pareceu-me desgastada. Deixou-se ficar abatida na cadeira e fa-
lou-me numa voz arrastada e suave, com um tom resignado.
— Tem sido uma semana horrível, absolutamente infernal! Suponho
que a minha obsessão já tenha desaparecido quase completamente. Agora,
em vez de passar noventa e cinco por cento do tempo que estou acordada
a pensar no Matthew, passo menos de vinte por cento e mesmo esses vinte
já não são o que eram.
«O que tenho eu feito em vez disso? Nada. Nadica de nada. Tenho
dormido doze horas por dia. Passo o dia deitada ou sentada, a suspirar.
Parece que toda eu sequei por dentro, já nem sou capaz de chorar. O Harry,
que quase nunca me critica, disse-me ontem à noite, enquanto eu fingia que
jantava (já que mal comi esta semana): “Estás outra vez a lamentar-te?”»
— Como é que explica o que se está a passar consigo?
— Parece que estive num espectáculo de magia, mas depois saí e o
mundo parece-me muito cinzento.
Fiquei com pele de galinha. Nunca tinha ouvido Thelma comunicar
metaforicamente; parecia que quem estava a falar comigo era outra pessoa.
— Fale-me mais sobre como se sente.

74
— Sinto-me velha, muito velha. Pela primeira vez, tenho noção dos
meus setenta anos: sete zero, sou mais velha do que noventa e nove por cen-
to das pessoas que por aí andam. Sinto-me como se fosse uma morta-viva,
perdi o gás, não tenho nada na vida, estou num beco sem saída. Só me resta
esperar que chegue a minha hora.
Disse essas palavras rapidamente, mas a cadência abrandou na últi-
ma frase. Então, voltou-se para mim e olhou-me fixamente nos olhos. Esse
gesto era, por si só, invulgar, pois raramente me tinha olhado directamente.
Talvez esteja enganado, mas creio que aquele olhar me perguntava: «E ago-
ra, está satisfeito?» Não comentei a sua expressão.
— Tudo isso aconteceu no seguimento da nossa consulta com o Mat-
thew. O que aconteceu durante essa hora para a deixar neste estado?
— Fui tão tola por o ter protegido ao longo de oito anos!
A raiva de Thelma contribuiu para animá-la. Levantou o seu saco de
cima dos joelhos, pousou-a no chão e atirou energicamente as palavras se-
guintes:
— O que ganhei eu com isso? Digo-lhe já: ganhei uma afronta! Se não
tivesse guardado o segredo dele enquanto fui tratada por terapeutas ao lon-
go destes anos todos, talvez as peças de dominó tivessem caído de maneira
diferente.
— Não compreendo. Qual foi a afronta?
— O doutor estava lá. Assistiu a tudo. Viu a insensibilidade dele. O
Matthew não me disse olá nem adeus. Não respondeu às minhas pergun-
tas. Teria custado assim tanto? Ainda não me disse porque é que cortou
relações comigo!
Tentei descrever-lhe como tinha visto a situação de maneira diferente
e como, a meu ver, Matthew fora caloroso com ela e não se poupara a es-
forços para especificar, pormenorizadamente, os motivos pelos quais tinha
cortado relações com ela.
Mas Thelma seguiu em frente, sem dar ouvidos aos meus comentá-
rios.
— Ele só deixou explícita uma coisa: o Matthew Jennings está farto
da Thelma Hilton. Diga-me uma coisa: qual é o método ideal para se levar
uma antiga amante ao suicídio? Rejeitá-la subitamente, sem qualquer justi-
ficação. Foi precisamente isso o que ele me fez!
«Num dos meus devaneios de ontem, imaginei o Matthew, há oito
anos, a vangloriar-se e a apostar com um amigo que era capaz de usar os
seus conhecimentos de psiquiatria para me seduzir e depois me destruir em
vinte e sete dias!»
Debruçou-se, abriu o saco e tirou um recorte de jornal com a notícia
de um homicídio. Esperou alguns minutos enquanto eu lia a peça. Subli-

75
nhara a lápis vermelho um parágrafo onde se lia que os suicídios são, na
realidade, duplos homicídios.
— Encontrei isso no jornal do domingo passado. Será que isso se terá
aplicado a mim? Quando tentei suicidar-me, talvez a minha intenção, afi-
nal, tenha sido matar o Matthew. Faz sentido, não acha? Sinto isso bem aqui
no fundo... — apontou para o coração. — Nunca tinha pensado na situação
desse ponto de vista!
Esforcei-me por manter o equilíbrio. Naturalmente, a depressão dela
preocupava-me. Dito isso, era natural que estivesse desesperada. Como
haveria de estar? Só o mais profundo desespero poderia ter gerado uma
ilusão com força e tenacidade suficientes para ter aguentado oito anos. Se
eu erradicasse a ilusão, tinha de estar preparado para enfrentar o desespero
que esta escondia. Assim sendo, por maior que fosse a angústia de Thel-
ma, tratava-se de um bom sinal, confirmação de que estávamos no bom
caminho. Estava tudo a correr bem. Finalmente, os preparativos estavam
concluídos e podíamos começar a verdadeira terapia.
Aliás, já tínhamos começado! A explosão surpreendente de Thel-
ma, o seu acesso súbito de raiva em relação a Matthew, era sinal de que
as suas antigas defesas já não se estavam a aguentar. Encontrava-se num
estado fluido. Todos os pacientes com obsessões profundas têm raiva no
fundo do seu ser e não fui apanhado desprevenido pela manifestação
dessa fúria em Thelma. Bem feitas as contas, pareceu-me que a raiva
dela, apesar dos seus componentes irracionais, era um excelente desen-
volvimento.
Estava de tal modo preocupado com esses pensamentos e com planos
para o nosso trabalho futuro, que não ouvi a primeira parte do comentário
que Thelma fez a seguir, mas apanhei o final da frase com toda a nitidez:
— ... e é por isso que tenho de interromper a terapia!
Apressei-me a replicar:
— Como é que pode sequer admitir essa hipótese, Thelma? Esta é a
pior altura possível para interromper o tratamento. É altura para fazermos
progressos a sério.
— Já não quero continuar a terapia. Já sou paciente há vinte anos e
estou farta de ser tratada nessa qualidade. O Matthew tratou-me como pa-
ciente e não amiga. O doutor trata-me como paciente. Eu quero ser uma
pessoa igual às outras.
Já não me recordo da sequência das minhas palavras. Sei apenas que
joguei todos os meus trunfos e exerci toda a pressão possível sobre ela para
que repensasse. Relembrei-a do nosso compromisso para seis meses, dos
quais restavam cinco semanas.
Contrapôs:

76
— Tem de admitir que, a dada altura, temos de nos proteger. Mais
um pouco deste “tratamento” seria insuportável para mim. — Acrescentou,
com um sorriso algo sinistro: — Um pouco mais de tratamento ainda mata
a paciente.
Todos os meus argumentos tiveram o mesmo resultado. Insisti que
tínhamos feito progressos consideráveis. Relembrei-a de que, originalmen-
te, me abordara para livrar o seu espírito daquilo que a preocupava e que
tínhamos dado passos importantes a caminho desse objectivo. Chegara a
altura em que nos poderíamos dedicar à sensação subjacente de vazio e de
futilidade que tinha alimentado a obsessão dela.
Respondeu que, efectivamente, sofrera demasiadas perdas, mais per-
das do que aquelas que era capaz de suportar. Perdera a esperança no futuro
(referindo-se à perda do «um por cento de possibilidade» que tinha de se
reconciliar com ele); perdera os melhores vinte e sete dias da sua vida (se,
como eu demonstrara, essa experiência não fora “autêntica”, perdera o am-
paro daquela memória do ponto alto da sua vida), e perdera também oito
anos de sacrifício (se, na realidade, estivera a proteger uma ilusão, o seu
sacrifício não tivera qualquer significado).
As palavras de Thelma tiveram tal impacto que não encontrei ne-
nhum modo eficaz de contrariá-las, restando-me reconhecer o que ela per-
dera, afirmar que era natural que chorasse muito essas perdas e que queria
apoiá-la durante esse luto. Tentei, também, sublinhar que o remorso era um
sentimento extraordinariamente difícil de se suportar a partir do momento
em que se instalava, mas que tínhamos vários recursos para impedirmos
que outros remorsos se entranhassem. A título de exemplo, pedi-lhe que
pensasse na decisão que estava a tomar: dali a um mês, ou um ano, não se
arrependeria, profundamente, de ter decidido interromper o tratamento?
Thelma replicou que, embora admitisse que eu talvez tivesse razão,
prometera a si própria que ia interromper a terapia. Comparou a nossa ses-
são a três com uma consulta médica quando se suspeita ter cancro.
— Fica-se num estado muito turbulento, o medo é tanto que adi-
ámos uma e outra vez aquela consulta. O médico confirma que temos
cancro e toda a agitação provocada pela incerteza acaba, mas o que sobra
depois disso?
Ao reflectir sobre o que sentia a respeito da situação, percebi que uma
das primeiras reacções que me chamaram a atenção foi: «Como é que me
pode fazer isto?» Embora, com certeza, a minha indignação se devesse par-
cialmente à minha própria frustração, estava seguro de que era também
uma reacção àquilo que Thelma sentia a respeito da minha pessoa. Fora
eu o responsável pelas três perdas que referira. Fora minha a ideia de mar-
carmos um encontro a três, fora eu quem lhe tirara as ilusões, quem a de-

77
siludira. Ocorreu-me que me competia um trabalho ingrato. Até a palavra
desilusão, com a sua conotação negativa e niilista, me deveria ter servido de
aviso. Pus-me a pensar na peça The Iceman Cometh, de O’Neill, e na sina
de Hickey, o homem de todas as verdades. Aqueles a quem tenta devolver
a noção da realidade acabam por se revoltar e por reentrar numa vida de
ilusões.
Recordei-me de ter descoberto, semanas antes, que Thelma sabia
como castigar e não precisava da minha ajuda nesse sentido. Julgo que a sua
tentativa de suicídio foi, realmente, uma tentativa de homicídio e concluí
que a sua decisão de interromper a terapia também foi uma forma de duplo
homicídio. Ela considerava que a interrupção do processo era um ataque à
minha pessoa... e tinha razão! Percebera a importância fulcral que eu dava
ao sucesso, à satisfação da minha curiosidade intelectual, à conclusão de
todos os projectos a que dava início.
Vingou-se de mim frustrando cada um desses desejos. Pouco lhe im-
portava que o cataclismo que desejava para mim também a abrangesse:
aliás, as suas tendências sadomasoquistas eram de tal modo vincadas que
se sentia seduzida pela ideia de uma imolação conjunta. Reparei, perversa-
mente, que o meu recurso à gíria profissional dos diagnósticos implicava
que me encontrava muito zangado com ela.
Tentei explorar essas ideias com Thelma.
— Compreendo a raiva que tem ao Matthew, mas pergunto-me se não
estará também zangada comigo. Faria muito sentido se estivesse zangada,
aliás, muito zangada comigo. Afinal de contas, de certo modo, deve sentir
que fui eu quem a pôs na situação espinhosa em que está agora. Quem teve
a ideia de convidar o Matthew a vir cá fui eu, também fui eu quem sugeriu
que lhe fizesse as perguntas que fez.
Pareceu-me que a vi acenar com a cabeça.
— Assim sendo, Thelma, haverá melhor circunstância para resolver
esse assunto do que aqui e agora, em terapia?
Thelma fez que sim com mais convicção.
— A minha cabeça diz-me que o doutor tem razão, mas, às vezes, o
que tem de ser tem muita força. Jurei a mim mesma que ia deixar de ser
paciente e vou cumprir a promessa.
Desisti. Esbarrara num muro. A nossa hora de consulta já terminara
há muito tempo e eu ainda não falara com Harry, a quem prometera dez
minutos de conversa. Antes de nos termos despedido, arranquei alguns
compromissos a Thelma: aceitou ponderar melhor sobre a sua decisão e
voltar a reunir-se comigo dali a três semanas, e jurou honrar o seu com-
promisso no sentido de participar no projecto de investigação, marcando
encontro comigo e com o investigador para dali a seis meses, altura em

78
que preencheria uma série de questionários. Terminei a consulta com a im-
pressão de que, embora fosse possível que ela respeitasse o compromisso
associado ao projecto de investigação, era pouco provável que retomasse a
terapia.
Com a sua vitória pírrica garantida, podia dar-se ao luxo de ser gene-
rosa e, à saída do meu consultório, agradeceu-me pelo esforço e afirmou
que, se algum dia voltasse a procurar tratamento, eu seria a sua primeira
opção como terapeuta.
Acompanhei Thelma até à sala de espera e levei Harry para dentro do
consultório. Tratava-se de um homem brusco e directo.
— Sei o que custa manter a casa em ordem, doutor... Fui responsável
por fazer isso no exército durante trinta anos e já vi que está atrasado. Isso
implica que vai continuar atrasado todo o dia, não é verdade?
Assenti com um aceno, mas assegurei-o de que tinha tempo para falar
com ele.
— Bem, não me quero alongar. Não sou como a Thelma. Nunca me
ponho com rodeios. Vou direito ao assunto. Devolva-me a minha esposa,
doutor, a Thelma de antigamente, como era dantes.
A voz de Harry pareceu-me mais suplicante do que ameaçadora. Ain-
da assim, tinha toda a minha atenção e, enquanto ele falava, não pude dei-
xar de olhar para as suas manápulas de estrangulador. De seguida, deixan-
do transparecer censura na voz, descreveu o modo como Thelma piorara
gradualmente desde que começara a ser acompanhada por mim. Depois
de ouvir o que ele tinha para me contar, tentei consolá-lo, declarando que
uma depressão prolongada é quase tão difícil para a família quanto é para
o paciente. Ignorando a minha manobra, respondeu que Thelma sempre
fora uma boa esposa e que talvez ele tivesse agravado o problema por nunca
estar em casa e viajar muito. Por fim, quando o informei da decisão de Thel-
ma no sentido de interromper a terapia, mostrou-se aliviado e satisfeito: há
várias semanas que tentava empurrá-la nessa direcção.
Quando Harry saiu do meu consultório, deixei-me ficar sentado, can-
sado, desnorteado, zangado. Credo, que casal! «Deus me livre deles!» A
ironia de toda a situação... O velho tolo queria de volta a sua «Thelma de
antigamente». Teria andado tão “ausente” que nem se apercebera de que
nunca tivera a Thelma de antigamente? A Thelma de antigamente nunca
estava em casa: ao longo dos últimos oito anos da sua vida, passara noventa
por cento da vida entregue à fantasia de um amor que nunca existira. Harry,
tal como ela, optara por se agarrar à ilusão. Cervantes perguntou: «O que é
preferível: a sensatez da loucura ou o desvairo da sanidade?» A escolha feita
por Harry e Thelma era evidente!
Todavia, não me consolou apontar o dedo a Thelma e a Harry, nem

79
lamentar a fragilidade da alma humana: o espírito fraco que não sobrevi-
ve sem a ilusão nem o encanto, sem as falsas esperanças nem as mentiras
fundamentais. Estava na hora de encarar a realidade dos factos: estragara
o caso de modo inconcebível e não podia imputar responsabilidades à pa-
ciente, ao marido dela, nem à condição humana.
Os dias seguintes foram repletos de auto-recriminação e preocupação
com Thelma. Inicialmente preocupado com possíveis tentativas de suicí-
dio, acabei por me acalmar com a ideia de que a raiva dela era tão paten-
te e direccionada para o exterior que se tornava improvável que voltasse a
canalizá-la contra si própria.
Para combater a minha auto-recriminação, tentei convencer-me de
que adoptara a estratégia terapêutica indicada: Thelma estava in extremis
quando me consultara e era preciso fazer alguma coisa. Embora estivesse
mal agora, não estava pior do que quando começara a terapia. Talvez até
estivesse melhor, talvez eu tivesse conseguido tirar-lhe as ilusões e ela preci-
sasse agora algum tempo para lamber as feridas em paz e sossego antes de
avançar para outro modelo terapêutico. Durante quatro meses, eu tentara
empregar uma abordagem mais conservadora e só recorrera a intervenção
radical quando se tornara evidente que não havia alternativa.
Contudo, também esses raciocínios eram uma variedade de auto-ilu-
são. Eu sabia que tinha toda a razão para me sentir culpado. Mais uma vez,
fora vítima da convicção arrogante na minha capacidade para tratar qual-
quer pessoa. À boleia dessa arrogância e da minha curiosidade, desprezara
logo à partida vinte anos de provas no sentido de Thelma ser má candidata
a acompanhamento psicoterapêutico e sujeitara-a a um confronto doloroso
que, retrospectivamente, tinha poucas hipóteses de ser bem sucedido. Der-
rubara as defesas dela sem erigir nada que as substituísse.
Talvez Thelma tivesse razão em proteger-se de mim. Talvez tivesse ra-
zão para dizer: «Um pouco mais de tratamento ainda mata a paciente!» No
fundo, eu merecia as críticas de Thelma e de Harry. Além disso, passara por
uma vergonha em termos profissionais. Quando descrevera a psicoterapia
dela numa conferência académica semanas antes, despertara interesse con-
siderável no caso. Agora, até me arrepiava perante a perspectiva de colegas
e estudantes me virem a pedir ao longo das semanas seguintes: «Conte-nos
como foi. Como correu o tratamento?»
Tal como eu esperava, Thelma não apareceu para a consulta seguinte,
marcada para dali a três semanas. Telefonei-lhe e tivemos uma conversa
curta, mas espantosa. Embora tenha reafirmado terminantemente a sua in-
tenção de abandonar o universo dos pacientes, detectei menos rancor na
voz dela. Não só me informou espontaneamente de que perdera a fé na
terapia, como disso que já não lhe fazia falta: sentia-se muito melhor, bem

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melhor do que três semanas antes! Disse-me, como quem não quer a coisa,
que o facto de ter visto Matthew na véspera a ajudara imenso!
— Diga! O Matthew? Como é que isso aconteceu? — perguntei-lhe.
— Oh, fomos tomar café e tivemos uma conversa agradável. Combi-
námos reunir-nos para conversamos todos os meses.
Num frenesi de curiosidade, interroguei-a a fundo. Começou por me
responder em tom de provocação («disse-lhe desde o início que era disso
que precisava»). Depois, simplesmente deixou expresso que eu já não tinha
direito a fazer-lhe perguntas pessoais. Acabei por chegar à conclusão de que
não lhe arrancaria mais nada e despedimo-nos pela última vez. Cumpri o
ritual de a informar de que continuaria disponível para fazer terapia com ela,
caso mudasse de ideias. No entanto, pelos vistos nunca mais teve vontade de
se sujeitar à minha modalidade de tratamento e não voltei a ter notícias dela.
Seis meses mais tarde, a equipa de investigação entrevistou Thelma e
tornou a submetê-la à série de exames psicológicos. Quando emitiram o
relatório final, folheei-o rapidamente até chegar às conclusões respeitantes
ao caso de Thelma Hilton:

esumindo, T. H. é uma mulher casada, caucasiana de 70 anos, que, na


R sequência de cinco meses de terapia com consultas semanais, conhe-
ceu melhorias significativas. Aliás, dos vinte e oito sujeitos geriátricos que
participaram neste estudo, foi quem obteve resultados mais positivos.
Mostra-se significativamente menos deprimida. As suas tendências
suicidas, extremamente elevadas no início do processo, reduziram-se a
ponto de já não poder ser considerada um caso de risco. A sua auto-estima
aumentou a par de melhorias significativas em vários outros aspectos: an-
siedade, hipocondria, psicose e obsessão.
A equipa de investigação não determinou precisamente a natureza da
terapia que produziu estes resultados impressionantes, visto que a paciente
mantém secretismo incompreensível acerca dos pormenores do processo.
Parece que o terapeuta aplicou com êxito um plano de tratamento pragmá-
tico orientado de acordo com os sintomas, concentrado no alívio dos mes-
mos, em vez de se focar na introspecção profunda ou na modificação da
personalidade. Para mais, empregou com êxito uma abordagem sistemática
e introduziu no processo terapêutico o marido da paciente e um amigo de
longa data (de quem se encontrava afastada há muito tempo).
Palavras que me deixaram com a cabeça à roda! Contudo, pouco me
consolaram.

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