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A Importância do Ato de Estudar e Aprender


Prof. Luiz Gonzaga de Carvalho

Transcrição não revisada ou corrigida pelo professor.

Boa tarde a todos! Para quem não me conhece, meu nome é Luiz Gonzaga. Eu
vim aqui para dar algumas aulas, para ajudar o núcleo pedagógico a manter e elevar
a qualidade dos professores, mas, no final do projeto, surgiram ideias direcionadas
para os alunos e também agora para os funcionários.

Uma boa parte de vocês muito provavelmente está aqui simplesmente porque
isso faz parte dos seus deveres profissionais, isto é, o interesse pelo assunto por si
mesmo talvez não atraísse vocês para cá – essa é, então, a primeira dificuldade que
eu vou ter como professor aqui hoje. Em grande parte, vocês vieram aqui para
cumprir um dever profissional e não para refletir sobre um assunto. Isso é um
tremendo obstáculo para um professor, pois no ato ou processo de ensinar, a força
ativa é o aluno, não é o professor. Ou seja, o professor existe para dar os meios de
responder uma pergunta que o aluno tenha. Se o aluno não tem nenhuma pergunta,
se ele só se faz presente para não ser prejudicado profissionalmente, o professor já
perde 80% da força de ensino.

Nós estamos aqui, hoje, para explicar a importância de estudar e aprender.


Talvez isso colabore e coopere para que vocês venham a sentir uma motivação
[apropriada] para estar aqui numa próxima ocasião.

Vejam bem, por que estudamos alguma coisa? Cada uma das pessoas sentadas
aqui hoje, em algum momento, se dedicou a estudar, a aprender alguma coisa. Em
algum momento vocês encontraram alguma situação na vida em que vocês tinham
de fazer algo que não sabiam fazer – isso possivelmente aconteceu na primeira
infância. Algumas coisas nós temos de aprender muito cedo, porque logo
descobrimos que os outros sabem fazer aquilo e só nós não sabemos, e que a vida é
muito mais fácil quando sabemos. Existem coisas que a gente aprende, estudos aos
quais nos dedicamos que existem simplesmente para nos preparar para alguma outra
coisa.

Vejam, tão logo aprendemos, por exemplo, o alfabeto, a identificar as letras,


esquecemos o estudo do alfabeto; ninguém, por tê-lo aprendido, passa a ter um

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interesse em estudar as origens dele ou por que os sons são representados por aquele
grafismo etc., não é isso? A gente aprende as letras e segue em frente. Aquilo era só
um cenário para nos preparar para outra coisa. Assim como quando aprendemos a ir
no banheiro: depois de aprender isso, ninguém pensa mais no assunto, quer dizer, o
aprendizado só existia para nos preparar para um cenário social. Esse é um tipo de
estudo.

Outro tipo de estudo é quando estudamos algo que está ligado à nossa
profissão, ou quando fazemos um curso profissionalizante, ou um curso superior que
nos permite exercer determinada profissão – esse tipo de estudo já não é do mesmo
jeito [que o primeiro], ou seja, [não é porque] terminamos o curso [que] nós nunca
mais vamos [voltar a] estudar o assunto. Se quisermos exercer aquela profissão de
modo competente, de tempos em tempos muito provavelmente nós teremos de voltar
ao estudo do assunto e aprender algo a mais sobre tal profissão. Não é assim?

Primeira coisa: respondam às perguntas, elas não são meramente retóricas.


Vejam bem, eu estou habituado ao ensino de filosofia e nisso o que importa é o
aluno estar acompanhando ativamente o assunto. Alguns ramos de atividade humana
exigem uma aula meramente expositiva: eu vou expor algo, vocês vão anotar, e um
dia vão refletir sobre o assunto. O ensino de filosofia não funciona desse modo. O
ensino de filosofia é o próprio processo de reflexão filosófica. O que nós vamos
fazer hoje? Eu quero que vocês cheguem a um conceito sobre [o que é] aprender e
estudar. Para chegar a esse conceito, vocês vão ter de acompanhar a reflexão. Então,
quando eu perguntar uma coisa, respondam.

Quando nos dedicamos a um estudo profissional, quando acaba o curso e


arrumamos um emprego, o estudo não acaba, correto? O ensino do curso era só uma,
por assim dizer, introdução geral que lhe nos dava as mínimas competências para
começarmos a trabalhar. Portanto, não é como o ensino do alfabeto, na qual
aprendemos a ler, a usar a cartilha da 1ª, 2ª e 3ª série, e depois acabou; dificilmente
precisaremos acrescentar um nível de competência a mais na identificação do
alfabeto, ou identificamos o alfabeto inteiro ou não o identificamos de maneira
alguma.

Outros estudos existem por razões puramente intelectuais. Nós podemos


estudar uma coisa só porque temos uma pergunta em nossa cabeça e queremos uma
resposta para ela. Inúmeros cientistas, filósofos e pensadores deram grandes
contribuições para a humanidade só porque tinham perguntas na cabeça e decidiram:
“Eu vou responder essa pergunta por mim mesmo. Já que eu ninguém pode me
oferecer uma resposta satisfatória, eu vou procurar essa resposta”. Vejam bem, todo
esforço ou projeto científico e filosófico começa por formular as perguntas que os
indivíduos têm.

Então, já diferenciamos três tipos de estudo. Um que nos prepara para as

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funções sociais gerais, que uma vez completados são abandonados. Um segundo
tipo, que também nos prepara para funções sociais, mas que não é abandonado
quando completado, pois passamos a exercer essas funções; é um estudo que vai ter
de continuar, ou ser reeditado, ou reciclado, ou desenvolvido, durante toda a nossa
carreira profissional. E um terceiro tipo de estudo, que é simplesmente a pesquisa
científica ou filosófica, isto é, é a resposta às perguntas que o indivíduo tem, do
ponto de vista puramente intelectual, pois pode ser que ele não tenha nenhum outro
interesse na resposta a essa a pergunta além da curiosidade.

Se perguntarmos a um físico, a um químico, a um matemático, por que eles se


tornaram o que se tornaram, [ele dirá]: “Porque eu queria saber essas coisas”. Em
algum momento de nossas vidas, cada um de nós levantou perguntas sobre a
realidade, mas, sei lá, movidos por pressões do momento, da semana seguinte, da
vida em geral, simplesmente esquecemos aquelas perguntas. Mas saibam, são dessas
perguntas que surgem as grandes carreiras científicas e filosóficas. São essas
perguntas que vão pouco a pouco mudando o rumo da história.

Agora mesmo, por exemplo, estamos ampliando o som nesse ambiente e temos
um edifício construído de uma certa maneira: tudo isso aconteceu porque alguém
tinha uma série de perguntas. Algum dia alguém se perguntou: “Será que é possível
construir uma laje assim?” e em seguida descobriu “Agora, não. Por que não? Por
que os materiais se desgastam? Por que as coisas se partem?”. E assim por diante.
Antes de se tornar um produto na sociedade humana, cada uma dessas coisas foi
uma pergunta na cabeça de alguém.

Desses três tipos de estudos, os dois primeiros são muito comuns no Brasil. Se
perguntarmos para qualquer pessoa na rua “O que é estudar? O que você estuda?”,
elas vão identificar estes dois tipos: o estudo meramente preparatório e o
introdutório. Todas elas pensam que a escola, de um modo geral, existe
simplesmente como uma introdução ao mercado de trabalho, como um estágio
intermediário entre a proteção do lar na primeira infância e a luta pela sobrevivência
na idade adulta. A escola seria então somente um instrumento para você passar de
uma coisa para outra. Outras pessoas vão um pouco mais além e dizem que, além
desse tipo de estudo, existe a formação constante a que nos dedicamos para
desempenhar melhor nossa profissão – também se encontra pessoas assim
facilmente, no Brasil.

O que falta no Brasil são dois tipos de conceitos sobre o estudo. Os dois
primeiros tipos nós temos, mas o terceiro já é muito raro. Se alguém fala que
existem pessoas que se dedicam a décadas de estudos só para responder a perguntas
que elas mesmas colocaram na própria cabeça, os brasileiros geralmente acham isso
muito estranho. Vejam bem, a ideia de que a vida intelectual é uma vocação humana
é estranha no Brasil. E se alguém ainda falar que além de existir pessoas que se
dedicam quase que exclusivamente à vida intelectual, a responder perguntas que elas

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mesmas fizeram, existem pessoas também que têm uma outra vida, têm uma
profissão que não está ligada a vida intelectual mas que se dedicam a responder
certas perguntas fundamentais por meio do estudo, simplesmente para se tornarem
mais completas como ser humano, isso vai parecer mais estranho ainda para o
brasileiro.

Se alguém, tentando explicar isso, falar que metade do que somos é definido
pelas perguntas que temos, que as perguntas que colocamos para nós mesmos
definem metade da nossa biografia, dá para acreditar nisso? É estranho, não é? Isso
não parece normal ao brasileiro. Mas, se estudarmos a história de todas as
sociedades humanas fora do Brasil, descobriremos que sempre foi assim, que em
todas elas sempre existiu a vocação do estudo e, além dessa vocação, sempre
existiram pessoas que decidiram que iriam responder a essas perguntas não para se
tornarem intelectuais profissionais, cientistas ou filósofos, pois elas não tinham esse
interesse, que mesmo que elas tivessem o interesse em responder a essa perguntas
para si mesmas, elas não tinham o interesse de as responder para outros – pois o
filósofo, o cientista, o professor, têm de responder a perguntas dos outros também –,
mas apenas para se tornarem completas como indivíduo humano, porque essas
perguntas surgiram nelas e elas não iriam deixá-las desaparecer.

Pois bem, saibam que essas pessoas que constroem uma vida intelectual junto a
sua vida profissional, familiar, etc., simplesmente porque decidiram não renunciar a
esse pedaço delas mesmas, são o esteio da democracia. Não existe democracia sem
um número suficiente de pessoas assim.

Nós nos perguntamos muitas vezes, no Brasil, por que a democracia não
funciona aqui. Como o governo consegue entravar tanto o desenvolvimento de uma
nação e de um povo? Povo esse que não é incompetente. Nação essa que não é
totalmente desprovida de recursos. Sabe por que isso acontece? É porque, na nossa
população, o número de pessoas capazes de debater com os governantes de igual
para igual é ínfimo. O número de pessoas capazes de reclamar dos governantes é
imenso, só que, o governante olha para essas pessoas que reclamam e pensa que elas
são umas crianças, porque quem reclama é criança. Criança, quando tem um
problema, chora até que um adulto resolva. Quando o governante vê o povo
reclamando, ele pensa a mesma coisa, vocês sabiam disso? É como quando um
patrão vê um funcionário reclamando, ele pensa: “É criança!” – porque quem
reclama é criança, e isso é um fato que faz parte da natureza das coisas. Por quê?
Porque a atitude da reclamação, embora ela faça parte da constatação de um
problema, a simples reclamação, não tem como produzir de modo algum a solução
para o problema. O simples ato de reclamar: “Você pisou no meu pé. Não gostei!” –
isso vai impedir de alguém pisar no seu pé? Como você impede alguém de pisar no
seu pé? Como você vai impedir o governo de pisar no seu pé? Para que possamos
impedir o governo de pisar em nosso pé, é preciso que sejamos capazes de debater
com ele de igual para igual.

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A definição de uma democracia é a possibilidade de o governado vencer o
governante em um debate acerca do que deve ser feito. Que parcela da população é
capaz de fazer isso no Brasil? Eu digo: a única parcela da população capaz de fazer
isso é aquela que optou por uma profissão intelectual, no entanto, essa parcela
geralmente está desligada dos problemas que as outras parcelas têm.

O problema, então, no Brasil é que há muitas pessoas possuidoras de uma


cultura vulgar. Sabem o que significa cultura vulgar? É uma cultura que não
responde às questões cruciais sobre a própria vida. Quais são os instrumentos de
cultura que a maior parte da população faz uso no Brasil? Eu digo: 90% usa a
televisão e, talvez, haja uma pequena porcentagem que ainda lê revistas e jornais,
mas é uma porcentagem infinitesimal. Então, televisão, rádio, revistas e jornais são
os meios de acesso à cultura de que o brasileiro faz uso. Vejam bem, a televisão, o
rádio, os jornais e as revistas não têm o menor interesse em responder às perguntas
que são cruciais para a nossa própria vida.

A diferença entre o Brasil e uma democracia consolidada é que nessa última há


centenas de milhares de pessoas que têm perguntas do tipo “Por que algumas
pessoas prosperam economicamente e outras não?”, “Quais são as causas da
prosperidade e as causas do fracasso econômico?”, “O que é melhor e o que é pior
em música?” e assim por diante. Ao fazerem essas perguntas, essas pessoas fazem o
esforço de saltar da mera opinião para o conhecimento; [elas o fazem] só porque elas
querem. Em cada uma dessas questões, essas pessoas se tornam capazes de fazer
frente ao governo.

Notem bem, numa democracia, as pessoas já têm o poder de fazer frente ao


governo, isso já está garantido, mas esse poder é meramente virtual ou potencial, ou
seja, ele é garantido por lei [apenas]. Mas, se quando a população fala com o
governo, esse, com duas frases, consegue calar a boca da população e ela não sabe o
que responder, acabou a democracia, ela só existirá no papel, como um direito
formal.

Uma democracia total – e isso é um fato notório e conhecido há muitos séculos


– só seria possível se todas as pessoas tivessem uma índole aristocrática e nobre, ou
seja, se as pessoas tivessem uma excelente formação de caráter. Formação essa, dada
por elas mesmas, não pelos outros ou pela sociedade. Isso significa que uma
democracia relativa existe na medida em que existe uma parcela da população que é
relativamente aristocrática. O que significa aristocrata? Significa o império do
melhor, o poder do melhor. Então, tornarmo-nos relativamente aristocratas significa
permitir que, na nossa vida, impere em alguma medida o que de melhor há em nós
mesmos, que resistamos às pressões do cotidiano e dediquemos algo de nós mesmos
ao que há de melhor em nós mesmos.

O que acontece conosco é que cedemos aos problemas mais elementares e

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damos a eles o nosso sangue – “Ah, eu tenho de pagar as contas, tenho de comer etc.
E agora que eu fiz tudo isso, estou cansado. Só quero assistir televisão e dormir!”.
Entendem? Essa é a pressão da vida sobre todo o mundo. Esse mecanismo,
trabalhar-descansar, é a vida vulgar – todos nós o temos. Mas, podemos tomar uma
decisão: “Essa vida vulgar não tem de engolir todo o meu ser. Eu posso fazer um
sacrifício e dedicar algo da minha vida a mim mesmo, ao invés de dedicar à máquina
do mundo”. Percebam, o ciclo diário da nossa vida imita os ciclos naturais, nós
somos quase que uma tradução dos movimentos dos astros. Uma vida vulgar é uma
vida determinada puramente pelas nossas necessidades corpóreas e afetivas. Uma
multidão de pessoas dedicadas somente à vida vulgar necessariamente será
manipulada pelo seu governo.

Os governantes, pelo menos uma ou duas perguntas eles se colocaram e se


dedicaram a responder: “O que é o poder e como obtê-lo?”. E o fato de que eles
tinham de ganhar um prato de comida e descansar um pouco diariamente não os
impediu de se dedicarem a responder a essa pergunta. Quando esses sujeitos
conseguem o poder que eles querem e o exercem, só há uma coisa capaz de os
segurar, de cercear as suas ações: as outras pessoas que fizeram o mesmo, porém
não necessariamente sobre a ideia do poder, mas sobre as outras ideias e questões
que são cruciais para a vida humana.

O esteio, o fundamento, o alicerce da democracia, são as pessoas que não estão


aprisionadas a uma cultura vulgar, são as pessoas que se dedicaram a responder uma,
duas ou três perguntas que são cruciais para a vida humana. Nesse momento pode
alguém argumentar: “Não, essas perguntas cruciais para a vida humana não têm
respostas. As pessoas estão buscando as respostas há milhares de anos e não chegam
a um consenso”. Por exemplo: “O que é a felicidade? O que é o bem? O que é a
moral? O que é a vida? O que é o justo? O que é o injusto?”. A verdade não é que as
pessoas não chegaram a respostas muito coerentes acerca dessas perguntas, pois elas
[de fato] chegaram, mas que as respostas a essas perguntas derivam de um esforço
individual tão intenso que nunca se será capaz de comunicá-las à multidão. As
perguntas fundamentais sobre a vida não podem ser empacotadas e vendidas em
livros de auto-ajuda. Não dá para fazer um programa de televisão e dizer: “Agora
todo mundo vai saber a resposta da pergunta sobre o que é felicidade, ou sobre o que
conduz à prosperidade econômica etc.”.

Existem debates acerca dessas questões justamente porque as respostas só são


obtidas mediante muito esforço. Esse esforço consiste num processo pelo qual
saímos [do campo] da opinião e saltamos para o [campo do] conhecimento. É
engraçado pois falamos em “opinião” e “conhecimento” hoje [em dia] mas essas
duas palavras ressoam de modo diferente em nossa mente: quando falo “opinião”, as
pessoas pensam em algo subjetivo e pessoal, e “conhecimento”, em algo objetivo e
impessoal. Se vocês observarem, por exemplo, a 2500 anos atrás, essas duas
palavras, em latim ou em grego, tinham quase a mesma conotação para as pessoas.

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Estabelecer a diferença entre “opinião” e “conhecimento” foi uma conquista de
alguém que se dedicou a perguntar “O que é conhecimento?” e a estabelecer uma
diferença de significado entre ambas. Essa diferença possibilitou a geração de toda a
ciência que contribuiu para produzir todos os bens de que usufruímos hoje e, por
incrível que pareça, foi um trabalho de [apenas] três pessoas: Sócrates, Platão e
Aristóteles. Eles estabeleceram, em grego, a diferença entre doxa – a palavra grega
para “opinião” – e episteme – a palavra para “conhecimento” – e afirmaram que a
episteme é a doxa que passou pelo crivo e filtro de todos as informações e testes de
que se dispõe.

Cada um de nós tem uma série de opiniões do que deve ser a nossa própria
vida, não tem? E cada um de nós está apostando a nossa própria vida nas nossas
opiniões, não é assim? Você não tem um plano, uma ideia, de como deve ser sua
vida daqui a vinte anos? Cada um de nós tem uma ideia de como deve ser a nossa
vida daqui a vinte anos e uma ideia do que devemos fazer para que ela seja o que
queremos que ela seja daqui a vinte anos. Tudo isso são opiniões. E se elas
estiverem erradas? E se chegar esses vinte anos e eu não conseguir porque as minhas
opiniões quanto aos meios para chegar lá estavam erradas? Ou, pior ainda, eu
consegui, mas a minha opinião sobre o que era aquilo que eu queria estava errada e
eu me frustrei! Ninguém pode garantir para vocês que as opiniões que vocês têm
sobre suas vidas estão certas ou erradas. Mas, o problema não é que os outros não
podem garantir isso para gente, é que a gente mesmo também não pode garantir.
Não podemos nem garantir que a nossa opinião sobre a diferença entre uma vida
melhor e uma pior está certa. Ninguém tem o critério do que é uma vida melhor e
uma vida pior. E não é porque esses critérios não existem, é porque esses critérios só
podem ser obtidos por um intenso esforço pessoal.

A própria ideia, por exemplo, das democracias modernas, de que as pessoas


devem ser livres para determinar os seus próprios destinos, veio de onde? Ela nasce
quando uma série de pensadores conclui que as coisas mais importantes sobre a vida
só podem ser obtidas por esforço pessoal e individual, elas não podem ser
padronizadas em esquemas de aprendizado e então distribuídas para multidões.
Então, não dá para decidir de antemão o que é o melhor na vida de cada um da
multidão, cada um vai ter de decidir por si mesmo. O fato de que cada um tenha de
decidir por si mesmo faz com que seja de crucial importância que alguém na
sociedade pare e se pergunte: “É a minha vida que eu estou apostando. Então eu vou
tentar fundamentar um pouco melhor as minhas opiniões sobre a minha vida. Porque
a vida eu não vou poder apostar duas vezes”.

Se algum de vocês fizer uma faculdade para aprender uma profissão e não
gostar, vai poder fazer outra; diploma se pode sempre obter um outro. O que não se
pode obter novamente são quatro, dez, vinte, cinquenta anos de vida, isso não se
pode ser obtido novamente. Mesmo que o sujeito creia que vai para o Paraíso ou
para o Inferno quando morrer, ou mesmo reencarnar, pouco importa, esses anos

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perdidos ele nunca vai ter novamente, esses estão perdidos. E se ele apostou esses
anos numa ideia errada, se ele apostou tudo, ele perdeu tudo.

Vejam, existem estudos que são feitos só porque a vida é importante. Uma
democracia é próspera em proporção à parcela da população que se dedica a um
estudo sistemático das questões fundamentais e cruciais da vida humana.

Eu sei que as coisas são mais difíceis no Brasil do que em outros lugares. Aqui
nós trabalhamos muito, ganhamos pouco, as contas são altas, o governo pega 40%
do que ganhamos. Tudo isso é verdade. Mas, veja bem, pessoas em condições piores
do que as nossas fizeram muito mais do que nós fazemos em termos de cultura, em
termos de dar respostas às questões cruciais da vida – isso é cultura. Não confundam
isso com o que se chama de “cultura” em um país cujo ministro da cultura é o
Gilberto Gil. Cultura significa ser capaz de dar respostas às questões cruciais da vida
humana e demonstrar que ela é diferente de uma mera opinião por causa disso, disso
e disso. É saber a história daquela pergunta. É conhecer as vidas e biografias
humanas que apostaram nessa resposta. É conhecer as vidas e biografias que
apostaram na resposta contrária. Isso é cultura. Cultura é o produto do esforço
deliberado para dar uma resposta às questões cruciais e, depois, o teste que o mesmo
sujeito ou outros indivíduos fazem sobre aquelas respostas.

Parece que não mas nós pensamos que as coisas existem da natureza, mas tudo
o que há de bom na sociedade humana foi obtido assim. Falamos hoje que as
pessoas têm direito a vida, têm direito a isto, àquilo, etc., todos esses direitos
existem porque alguém pensou: “A vida funciona assim”. Todos os bens que temos
hoje são produtos da cultura. Quando comemos, hoje, já não estamos mais comendo
um [mero] produto da natureza. Por exemplo, hoje podemos entrar no supermercado
e comprar um frango, porque aquele frango cresceu de uma forma que permite uma
criação numa ampla escala que permite que o preço seja aquele. Percebam que tudo
de bom que temos [na sociedade] hoje é produto da cultura.

Todos os males que há na sociedade derivam do fato de as pessoas crerem que


os bens são produtos naturais, que os bens de que o ser humano precisa são produtos
naturais. “A minha vida vai dar certo, porque há uma força a impelindo para o
certo.” Sim, há uma força impelindo a vida humana para o certo, mas essa força age
por meio da inteligência individual, e não fora dela. Há também aqueles que
pensam: “Eu acho que Deus está cuidando da minha vida”. É claro que Ele está
cuidando da sua vida, Ele lhe deu a inteligência, esse é o primeiro instrumento d'Ele
para cuidar da sua vida, e se você o jogar fora, porque tinha de pagar as contas, bom,
como Ele vai substituí-lo?

Nós vemos a TV, lemos a revista Veja, e começamos a pensar que todo mundo
que enriquece, o faz ou roubando de alguém ou por sorte, mas não é assim. Nem
todo mundo que dá certo, que prospera, o faz por sorte ou porque engana o outro.

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Uma democracia subentende uma tremenda fé na capacidade do empreendimento
humano. Uma democracia é uma aposta: um legislador que faz uma constituição
democrática está apostando que aquela população é capaz de oferecer a sua própria
inteligência para as questões cruciais, pois se aquela população não fizer isso, ela
dependerá de uma pequena minoria que constituirá uma aristocracia e fará isso por
ela. Ou seja, alguém tem de fazer isso. Ou nós nos dedicamos a isso, ou entregamos
isso na mão de uma minoria. E é o seguinte: aquela minoria será “deus” para nós, ela
dirá e nós aceitaremos. O que ela ditar nós teremos de aceitar, porque não teremos
nada de diferente para propor. Tudo que poderemos falar é: “Ah, mas é que devia ser
melhor!”. “Devia ser melhor? Então, como faz melhor?” “Não sei.” Então, pronto!
Entenderam como funciona?

Existem estudos que são cruciais. Mais ainda, são estudos que só a escola não
pode nos dar. Um professor, uma instituição de ensino pode nos auxiliar
instrumentalmente. O que um professor, uma instituição de ensino, ou um curso,
pode nos dar em relação a essas questões fundamentais? É simples, eles podem
falar: “Até agora nós descobrimos estes métodos para você examinar as suas
próprias opiniões. E temos estas obras de pessoas que examinaram profundamente
as suas próprias opiniões sobre algumas questões”. Tudo o que uma instituição de
ensino ou um professor pode fazer é oferecer essas duas coisas, e aí o outro vai ter
de examinar as próprias opiniões.

Vejam bem, não é que cada um de nós precise examinar todas as questões
cruciais. Mas nós precisamos parar e pensar. Precisamos parar de nos iludir que
alguma coisa vai acontecer e tudo vai ficar bem. Essa coisa que vai acontecer é o
nosso esforço. É claro que podemos ter sorte, mas o que não podemos é contar com
a sorte. O ser humano só pode contar com a sorte quando ele não tem escolha –
quando o soldado é jogado no campo de batalha e a arma dele pifa, aí ele pode
contar com a sorte, porque ele já não tem mais nada com o que contar! Mas na vida
nós não podemos apostar na sorte. “Ah!, mas o governo deveria fazer isso...” – não.
O governo é gente, como nós. Ele não vai fazer mais por mim do que eu faria por
ele, vai fazer menos.

Se não formos capazes de fazer frente ao governo, de dizer “Vocês abaixaram


o nível. O patamar da sociedade era este aqui e vocês o estão baixando”, se uma
parcela da população não for capaz de falar isso demonstrando com argumentos,
ninguém fará frente ao governo. O que sempre teremos para dizer ao governo é
“Não, deveria ser diferente! Nós queríamos um mundo melhor”, e o governo vai rir
da sua cara e falar “Sua criancinha! Você queria um mundo melhor, você queria ser
o Super-Homem, mas você não é! Hahaha!”. Vocês percebem que é assim que as
coisas funcionam no Brasil? O povo fala ao governo que quer saúde, e mais isto e
mais aquilo, e o governo responde “Hahaha! Vocês querem, mas vocês não sabem
fazer!”.

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O governo é capaz de contrapor os fatos aos sonhos da população. A população
não é capaz de contrapor os fatos que o governo oferece com projetos: “As coisas
estão ruins, mas elas podem melhorar neste sentido, assim e assim”. Se o governo
apresenta fatos, você tem de apresentar projetos, não sonhos. Se você apresenta
sonhos, ele vai rir da sua cara, e vai pensar “Hahaha, este povo é massa de
manobra!”. Não é uma população, um povo para uma democracia, é uma população
feita para uma tirania. É uma população que só discute, só reflete, o que a televisão
fala. Não é que todo mundo concorda com a televisão, não se trata de concordar,
mas é que as únicas questões que se mostram na mente das pessoas são aquelas
oferecidas pela televisão. É uma população que não se dedica a aprender nada por si
mesma.

No Brasil, estamos acostumados a achar que esse negócio de estudar é só para


obter uma outra vantagem que não tem nada a ver com estudo, aqui, estudar não é
para saber, não existe nenhuma relação entre estudar e saber. Enquanto isso
acontecer e tentarmos ser uma democracia, o que estará acontecendo no Brasil é um
teatrinho, onde o governo faz de conta que é democrático e a população faz de conta
que é livre. Mas, na prática, a população é um conjunto de mendigos que esmola
benefícios do governo: “Ah, governo, por favor, melhore a saúde! Por favor,
melhore a educação! Por favor, me dê segurança!”.

Nessa população, quantas são as pessoas que não são formadas em pedagogia
ou em filosofia que sabem responder o que é educação? Ninguém. Não é que
ninguém da população tenha levantado essa pergunta para si mesmo, é que ninguém
teve a coragem de falar que tem essa pergunta e de respondê-la para si mesmo. Eu
vou dizer por que ninguém faz isso: é porque as pessoas pensam da seguinte forma:
“Eu não vou fazer isso, porque isso não vai me dar dinheiro nenhum. Não vai
aumentar o meu salário”. Vejam bem, o sujeito, quando dá esse argumento para si
mesmo, ele deixou de argumentar em termos humanos consigo mesmo, ele deixou
de tratar a si mesmo como ser humano. Ele tinha uma pergunta, um interesse
intelectual, um interesse humano real, mas pensou que se não lhe dessem dez reais
para fazer isso, ele não o faria; para ele mesmo, dez reais valem mais do que a
pergunta que ele tinha, valem mais do que a cabeça dele.

Nós temos o dever humano de lutar para responder a essas perguntas, não com
opiniões, mas com cultura, com o fruto de um exame. Sabe por quê? Porque a
felicidade e o bem-estar das próximas gerações depende da nossa geração fazer isso.
É assim que funciona a sociedade humana. E eu sei que é difícil, claro que é difícil.
Nós temos de trabalhar muito e, quando acabamos, já estamos cansados. Mas é o
seguinte: quando fazemos uma pausa de cinco minutos, no trabalho, lemos um
parágrafo e aí, enquanto estamos trabalhando, de vez em quando, pensamos naquilo
que lemos. Não temos de sentar e nos dedicar por quatro horas por dia. Ninguém
estuda quatro horas por dia. Quem diz que estuda quatro horas por dia está
mentindo. Os seres humanos mais intelectualmente ativos e eficientes do mundo

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talvez tenham a capacidade de examinar uma coisa atentamente durante duas horas
por dia.

Então, é fazer alguma coisa para responder àquelas perguntas, é não entregar-
se à imbecilidade, é dizer: “Eu tenho algum valor, nem que seja para mim mesmo.
Eu não nasci para viver sob um governo tirânico e vou provar que não nasci para
isso”. Como provamos que não nascemos para isso? Não é trabalhando. Ter um
emprego, responsabilidades, etc., nada disso prova que não nascemos para viver sob
um [governo] tirano – os bois também trabalham e vivem sob a nossa tirania, os cães
trabalham todos os dias. Então, [só] trabalhar não nos torna muito diferentes dos
bois. O que nos torna, então, diferentes dos bois? É simples: é conquistar para a
nossa consciência algo que ninguém pode conquistar. Pois qualquer coisa que
façamos no trabalho, outra pessoa pode fazer também. Trabalhar faz de nós uma
peça de mecanismo, não faz nenhum de nós algo único. Um funcionário pode ser
substituído por outro funcionário, mas uma pessoa não pode ser substituída por
outra. Não é assim: “Ah, o meu filho morreu” – “Não faz mal, é só fazer outro!”. Por
que não fazemos assim com as pessoas? Por que as pessoas são insubstituíveis?

Ouvinte: Porque elas são únicas.

Gugu: Por que elas são únicas?

Ouvinte: Porque cada pessoa nasce com algumas qualidades e defeitos que
lhes são próprios.

Gugu: Pois é. Existem algumas pessoas que só tem defeitos. Mas ela poderia
ter algo [único], ela poderia contribuir de modo único. Como ela pode fazer isso?

Ouvinte: Dando aquilo que ela tem de melhor.

Gugu: Descobrindo as verdades cruciais sobre a vida humana. Ainda que seja
uma só, ainda que ela tenha levado a vida toda para descobrir aquilo, isso é único.
Isso é algo que só a consciência individual pode oferecer.

O que nós descobrimos quando nos dedicamos sistematicamente a responder


uma pergunta crucial é que a resposta àquela pergunta já existe há milhares de anos,
que fazemos parte de uma cadeia de centenas de milhares de pessoas que afirmaram
e descobriram a mesma coisa, que isso não é uma grande novidade. Mas, quando
descobrimos, isso se torna real de novo, se torna presente novamente. Isso [é o que]
nos torna únicos. O que nos torna únicos não é o esforço que podemos oferecer, mas
as respostas que podemos oferecer às pessoas. Essas respostas são cruciais para que
apostemos nossas vidas em alguma coisa sem nos darmos mal. Elas não existem
para aumentar o nosso salário, elas existem para olharmos a vida e, no final,
dizermos que foi bom [termos vivido], que chegamos onde queríamos, que somos a
pessoa que cada um de nós gostaria de ser. Se não pudermos fazer isso, não importa

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quanto seja o nossos salário, nós iremos nos arrepender.

Mais ainda, como vamos garantir que daqui a vinte anos receberemos o salário
que queremos receber daqui a vinte anos? Como vocês acham que vão fazer isso
acontecer? Vão passar vinte anos rezando para que o governo fique bonzinho e
decida aumentar os seus salários? Acham que isso vai funcionar? Vocês acham
realmente que isso vai produzir algum efeito positivo?

Portanto, saibam, existem certas coisas que tem de ser estudadas e uma boa
parcela da população, para o benefício de todos os demais, tem de se dedicar a elas.
Não tem como forçar as pessoas a se dedicarem a essas coisas. Não dá para chegar
na escola, no primário, no ginásio, no colegial, e impor isso aos estudantes – toda
vez que um governo se coloca a fazer isso, ele se coroa como tirânico. Ou seja, isso
é algo que só pode ser feito por escolha individual.

Existem alguns deveres que as leis não podem nos impor, mas que a condição
humana nos impõe. A lei não pode nos obrigar as questões cruciais da vida humana,
mas a condição humana pode, ela exige isso de nós.

Transcrição: Ewerton Kleber


Revisão: Rahul Gusmão

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