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VII COLÓQUIO INTERNACIONAL MARX E ENGELS

GT 3 - Marxismo e ciências humanas


A Anatomia do Macaco: Marxismo e Pré-Capitalismo
(Proposta de Mesa Coordenada)

Expropriação e Mediação nas formas de exploração pré-capitalistas


Fábio Afonso Frizzo e José Ernesto Moura Knust.

Na passagem fundamental de inspiração do nosso grupo de pesquisa, Marx afirma que


“a anatomia do ser humano é uma chave para a anatomia do macaco”1. Esta apresentação
pretende explorar algumas possibilidades desta poderosa metodologia marxiana, mas antes
precisa delinear, mesmo que superficialmente, o que entendemos desta emblemática frase.
Ao tratar do método de análise da Economia Política, na introdução dos Grundrisse,
Marx enfatiza que “todas as épocas da produção têm certas características em comum,
determinações em comum” e que “nenhuma produção seria concebível sem elas”, mas que “a
diferença desse universal e comum é precisamente o que constitue seu desenvolvimento”. Isto
é, “as determinações que valem para a produção em geral têm de ser corretamente isoladas de
maneira que, além da unidade (...) não seja esquecida a diferença essencial”2.
É neste sentido que a concepção de a “anatomia do homem” ser uma chave para a
“anatomia do macaco” deve ser entendida: o Capitalismo, por ser a organização histórica da
produção mais desenvolvida e complexa, permite a construção de catergorias que possibilitam
não apenas o estudo da própria economia capitalista, mas também dos sistemas econômicos
anteriores a ele. Assim, “a economia burguesa serve de chave para a economia antiga”3.
Contudo, tais categorias de análise do Capitalismo permitem tal estudo dos períodos
anteriores não pela sua imediata aplicação, da identificação simples das realidades antigas
com as categorias do presente capitalista. Isso é justamente o que Marx critica nos
economistas, que “vêem a sociedade burguesa em todas as formas de sociedade”4.

1
Karl Marx, Grundrisse. São Paulo: Boitempo Editorial e Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2011, p.58.
2
Ibidem, p.41.
3
Ibidem, p.58.
4
Ibidem, p.58.
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Para Marx, as categoras de análise da sociedade capitalista servem de chave para o


estudo do passado ao se identificar as diferenças essenciais entre as duas formas de economia
em questão. Desta forma, para Marx, essas sociedades do passado “podem conter tais
categorias [capitalistas] de modo desenvolvido, atrofiado, caricato, etc., mas sempre com
diferença essencial”5. É neste sentido que o historiador italiano Aldo Schiovone utiliza a
metodologia marxiana para estabelecer que o estudo histórico nada mais é que a construção
de um conhecimento pelas diferenças – e não uma assimilação confusa e estéril entre
elementos da sociedade do passado e da nossa sociedade. Desta forma, “o mais complexo não
explica diretamente o mais simples, mas permite elaborar um quadro de categorias adequadas
à sua interpretação”6.
Através desta chave de estudo, considerando que apenas a análise crítica da sociedade
burguesa permite a correta análise das sociedades do passado, pretendemos aqui analisar um
elemento que nos parece fundamental para as realidades Pré-capitalistas.
No famoso trecho dos Grundrisse dedicado às “Formas que precederam a produção
capitalista”, Marx afirma que um pressuposto fundamental do Capitalismo é o processo de
desvinculação do trabalhador de seu “laboratório natural”, isto é o processo pelo qual os
trabalhadores deixam de se relacionar com as condições objetivas de seu trabalho como sua
propriedade. Nas palavras de Marx:

Não é a unidade do ser humano vivo e ativo com as condições naturais,


inorgânicas do seu metabolismo com a natureza e, em conseqüência, a sua
apropriação da natureza que precisa de explicação ou é resultado de um
processo histórico, mas separação entre essas condições inorgânicas da
existência humana e essa existência ativa, uma separação que só está posta
por completo na relação entre o trabalho-assalariado e o capital.7

A partir da identificação da centralidade da expropriação dos trabalhadores da


propriedade de seus meios de produção como pressuposto do sistema capitalista, Marx é
capaz de, nas Formen, analisar algumas formas básicas de sociedades comunitárias, nas quais
o pressuposto da apropriação do produtor das condições naturais do trabalho é a sua
existência como membro de uma comunidade, assim como de, no capítulo 24 d’O Capital

5
Ibidem, p.59.
6
Aldo Schiavone, Uma História Rompida. Roma Antiga e o Ocidente Moderno. São Paulo: Edusp, 2005, p.71-
72 n.30.
7
Karl Marx, Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011, p.401.
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analisar o processo histórico de expropriação que foi fundamental na formação histórica do


Capitalismo.
Alguns historiadores tentaram utilizar o conceito de expropriação para realidades pré-
capitalistas apenas através da transposição direta da categoria, identificando processos pré-
capitalistas de “modernização” econômica. Acreditamos que este é uma forma equivocada de
utilizar o método marxiano. O que pretendemos neste trabalho é utilizar a categoria
Expropriação, fundamental na análise de Capitalismo, para analisar realidades Pré-
Capitalistas, mas seguindo o método esboçado por Marx nos Grundrisse que apresentamos –
isto é, identificando as diferanças fundamentais da expropriação pré-capitalista para a
categoria Expropriação utilizada para analisar a realidade capitalista.
Vamos partir de dois exemplos, bastante conhecidos na historiografia e bastante
díspares entre si – e que não por acaso são os objetos das pesquisas individuais destes dois
apresentadores. O primeiro exemplo são os escravos rurais da Itália Romana na Antiguidade.
O segundo, também vindo do mundo antigo, é o campesinato do Egito Farônico.
Acreditamos que uma das chaves para o estudo da escravidão rural italiana é entender
como as características fundamentais da escravidão se articulam com as características
fundamentais da uilla, um tipo específico de propriedade que surge no final do período
republicano. Aparentemente, a uilla utiliza escravos como trabalhadores residentes na
propriedade, fazendo-se valer, contudo, do uso de trabalhadores livres recrutados entre o
campesinato vizinho da propriedade nos momentos de maior necessidade de trabalho, como
nas colheitas.
Um dos elementos distintivos da uilla é seu caráter inovador na relação com a terra e a
comunidade que habitava a região em que ela se instalava. Esta inovação é marcada por certo
“isolamento” que a uilla impunha à localidade, diferenciando-se de formas mais comunitárias
de apropriação do solo. As famílias camponesas podiam ser proprietárias de parcelas da terra,
mas isso não as isolava da comunidade. As uillae, pelo contrário, caracterizavam-se por
modificar a forma de relação com a comunidade na apropriação do solo, isolando-se, em
algum nível, dela.
Pretendemos identificar como a inserção de trabalhadores escravizados nessas
propriedades fazia parte da construção desta inovação. A apropriação do solo de maneira
“isolada” não é possível sem o estabelecimento de relações sociais de produção que permitam
tal “isolamento”, pois o controle sobre o solo não é nada sem o controle sobre a mão-de-obra
para trabalhá-la. Dessa maneira, a existência de uma forma de apropriação do solo está
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intimamente ligada às formas de relação social de produção que se estabelecem para sua
exploração.
O escravo é justamente uma pessoa sob o poder absoluto do senhor e que, em algum
nível, tem suas relações sociais alienadas. Ao utilizar escravos como trabalhadores residentes
das uillae, os grandes proprietários romanos conseguiam diminuir a necessidade de
exploração do trabalho das comunidades locais em que tinham suas propriedades. Esta
exploração continuava necessária, certamente, em momentos específicos do ano agrícola, mas
já não era a base da produção ao longo de todo o ano. Esta ficava a cargo de trabalhadores que
tinham suas relações sociais, ao menos em tese, sob o controle do senhor. Sendo assim, a
inserção dos trabalhadores escravizados pode ser visto justamente como o elemento que
permite o tal nível de “isolamento” da uilla frente ao resto da comunidade: ao utilizar como
trabalhadores pessoas isoladas, em algum nível, do corpo social, os proprietários romanos
conseguiam criar uma propriedade isolada, no mesmo nível, das relações agrárias
comunitárias do campesinato da região.
Na realidade cotidiana, obviamente, este isolamento social dos escravos não existia no
nível absoluto que a teoria escravista pretendia. Certamente os escravos da uilla acabavam
travando relações sociais com a comunidade local independentemente de seu senhor. Mas, é
possível identificar em tratados sobre o campo escritos nessa época um esforço dos
proprietários para evitar tal socialização dos escravos com a comunidade – isto é, um esforço
senhorial para diminuir as possibilidades de socialização dos escravos na comunidade local, o
que mostra, justamente, a importância que isto tinha para a elite proprietária.
O historiador marxista Andrea Carandini afirmou que a expansão da escravidão na
Itália durante os séculos II e I a.C. foi o maior processo de expropriação na história pré-
capitalista. A expropriação dos meios de produção do trabalhador, no processo do
desenvolvimento do capitalismo, permitiu a classe dominante criar um sistema de extração de
trabalho excedente que se dá no (e pelo) próprio processo produtivo – o processo de produção
da mais-valia, analisado por Marx. O caso romano é bastante diverso, mas a comparação
proposta por Carandini pode ser inspiradora. Marx, na verdade, afirma que a separação entre
as “condições inorgânicas da existência humana” e a “existência ativa”, isto é, a expropriação
do produtor de seus meios de produção, que assume sua plenitude no Capitalismo, não existe
na escravidão. Segundo Marx, o escravo torna-se, para a comunidade na qual ele se insere,
uma condição inorgânica da produção, tal qual o gado ou o solo. Ou seja, mais do que
expropriado dos meios de produção, o escravo é convertido em meio de produção inorgânico.
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Porém, isto só pode ocorrer, como o próprio Marx identifica, porque “o escravo carece
de qualquer espécie de relação com as condições objetivas do seu trabalho”. Assim,
acreditamos ser razoável afirmar que a escravidão, de alguma maneira, é uma expropriação
não só dos meios de produção, mas, em certo grau, das próprias relações sociais do produtor
direto. Como as formações econômicas pré-capitalistas não constroem em seu próprio
processo produtivo o sistema que consolida a expropriação do trabalhador de seus meios de
produção e a extração de excedentes, como faz o sistema capitalista, elas precisam de
sistemas extra-econômicos que garantam a extração de excedentes – e, no caso da escravidão,
da expropriação do trabalhador de suas condições objetivas de trabalho, que não se resumem
aos meios de produção, pois as relações sociais comunitárias desempenham papel
fundamental. Assim, o desenvolvimento de uma forma de apropriação da terra privada, isto é
mais “isolada” da comunidade, a uilla, depende, em parte, da instituição de formas de
dominação pessoal que permitam isso, ao isolar os produtores diretos das relações sociais
comunitárias que regulam a organização da produção.
Na verdade, os camponeses autônomos italianos trabalhavam nas uillae, em momentos
de grande necessidade de trabalho, como a colheita. Contudo, isto não se dava nem pela
compulsão direta da escravidão nem pela compulsão indireta causada pela expropriação. As
circunstâncias sociais deviam pressionar parte relevante do campesinato a planejar suas
plantações de maneira que possibilitasse o trabalho sazonal nas uillae, seja como estratégia de
diversificação das atividades para minimizar riscos, seja pela necessidade de conseguir moeda
para o pagamento de tributos, rendas ou mesmo para obter produtos através do comércio, ou
ainda porque eles estavam inseridos em algum tipo de relação de obrigações sociais com o
proprietário de alguma uilla.
É importante notar que essas relações entre o campesinato vizinho e a uilla não teriam
a mesma forma se não houvesse o trabalho “fixo” escravo. É a existência deste trabalho que
estabelece a possibilidade de existência das relações de trabalho sazonais entre a propriedade
“isolada” e a comunidade vizinha, pois se não houvesse tal trabalho escravo, não haveria
propriedade “isolada” da comunidade, já que ela teria que ser trabalhada por tal comunidade.
Se para trabalhar suas propriedades fundiárias, um aristocrata romano não utilizasse (por
qualquer motivo que fosse) escravos, a relação com a comunidade local se transformava
completamente, pois ele teria que impor outras formas de extração de excedentes a estas
comunidades.

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A principal fonte para o estudo dos movimentos populares no Egito Antigo foi
publicada, em 1909, por Alan Gardiner, sob o título de As Admoestações de um Sábio
Egípcio, proveniente do texto do recto do Papiro Leiden 344, encontrado na região de Mênfis
e datado do final do primeiro milênio a.C. Logo de início, entendeu-se, a partir das suas
características gramaticais, tratar-se de uma cópia tardia de um texto anterior, que a maioria
dos egiptólogos atualmente localiza no espaço de tempo conhecido como Primeiro Período
Intermediário, no final do III° Milênio a.C..
O Primeiro Período Intermediário (2181-2055 a.C.) foi marcado pelo enfraquecimento
da monarquia faraônica e a descentralização do governo egípcio como havia existido no
Reino Antigo. Tais mudanças parecem ter sido causadas por uma revolta popular
acompanhada da invasão de asiáticos no Delta, conforme referência do próprio Papiro Leiden
344. Para o egiptólogo Moreno Garcia:
Dez anos após sua primeira publicação, as “Admoestações...” já começaram a passar
por um processo de revisionismo que afirmava o caráter não-histórico do texto. Até o final do
século passado, alguns egiptólogos, como Miriam Lichtheim, sustentavam que a obra era
apenas um exercício puramente literário que refletia o par ordem/caos, central na concepção
de mundo egípcia8. Tudo isto por tratar-se de um discurso de inversão social, incomum em
uma sociedade em que uma classe dominante constituída por no máximo 1% da população
produzia fontes escritas.
É importante fazer esta discussão, porque a gigantesca maioria dos documentos
egípcios retrata um estado de ordem social a partir de uma perspectiva idealizada de
continuidade ordeira, o que é explicado não somente por uma visão ideológica de classe, mas
também por um fator conjunto: o fato de que as escrituras tinham caráter mágico. Para os
egípcios escrever sobre a ordem era, também, uma forma de manter Maat, a deusa-conceito
de ordem, justiça, verdade e medida, responsável pela continuidade do universo tal como
existia.
O supramencionado processo de revisionismo historiográfico pelo qual passaram “As
Admoestações...” nada mais é, portanto, do que algo corriqueiro no campo de História Antiga
e Medieval, a saber, a confusão entre a escassez de fontes provenientes das camadas
populares e a inexistência de qualquer manifestação destas. Nas palavras de Walter Benjamin,

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LICHTHEIM, Miriam. Ancient Egyptian Literature. Vol. 1. Berkley: University of California Press, 1975. pp.
149-150.
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este tipo de pensamento cria uma imagem de passado apropriada pelo conformismo, vazia e
homogênea (Tese 14)9.
Um materialista histórico interessado em “escovar a história a contrapelo” (Tese 7)10
não pode aceitar a inexistência de conflitos sociais em uma civilização que durou cerca de
3000 anos, por mais forte que seja o poder do consenso criado pela ideologia religiosa.
Tampouco é aceitável responsabilizar apenas agentes exógenos, como invasões estrangeiras,
pelos períodos de intensa modificação social. Ademais, há argumentos suficientes para crer na
veracidade dos eventos descritos no texto do Papiro Leiden 344, conforme foi demonstrado
por Ciro Cardoso11.
Não é novidade que, a exemplo de qualquer outra sociedade pré-capitalista, o Antigo
Egito era eminentemente agrário. Com um meio ambiente altamente propício para o cultivo, a
produção egípcia era marcada por um baixo nível de desenvolvimento técnico e tecnológico
das forças produtivas, compensado pela abundância e intenso controle da força de trabalho.
Já há muito tempo, criticou-se devidamente o conceito de Modo de Produção Asiático
conforme elaborado por Marx e Engels12. A atividade estatal concentrava-se nos censos de
terras e trabalhadores, bem como na tributação tanto do excedente de produção quanto de
trabalho, que era feita de forma extremamente violenta e penosa para os camponeses. São
comuns nas cenas de tumbas imagens de lavradores diante de escribas recebendo castigos
físicos em caso de insuficiência no pagamento de cereais. Geralmente, as agressões
consistiam em espancamento com bastões de madeira nas plantas dos pés ou nas costas.
Toda essa repressão terminou em rebelião popular no final do Reino Antigo. O texto
das “Admoestações...” foi atribuído a um sábio egípcio conhecido como Ipu-Ur, que detinha
o cargo de “chefe dos cantores”, a julgar por outro documento da mesma época, conhecido
como “fragmento Daressy”.
As circunstâncias iniciais da revolta popular descrita no Papiro Leiden 344 não são
relatadas. O egiptólogo José Carlos Reyes afirma que a perda de força do Estado perante os

9
BENJAMIN, Water. Op. Cit. p. 14.
10
Idem, Ibidem. p. 225.
11
CARDOSO, Ciro. Violência e Política no Antigo Egito. Conferência apresentada no Ciclo de Debates do
Laboratório de História Antiga da UFRJ. Rio de Janeiro: 2010.
12
Um dos exemplos publicados em português é CARDOSO, Ciro, BOUZON, Emanuel & TUNES, Cássio.
Modo de Produção Asiático. Nova Visita a um Velho Conceito. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1990.
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nobres locais, que abusavam dos privilégios sobre a população, teria levado, em conjunto com
a crise econômica conjuntural, à rebelião13.
O texto das “Admoestações...” é composto por trechos em prosa e outros em verso e
se concentra em alguns eixos temáticos como, por exemplo: a oposição entre um passado
glorioso e um presente em desordem; a questão da traição das forças mercenárias estrangeiras
e a invasão da região do Delta; a inversão social entre ricos e pobres; o ataque às instituições;
o vandalismo e a pilhagem14.
No caso do eixo de inversão social, que é mais importante para o propósito desta
comunicação, há uma exaltação dos pobres em contraposição à humilhação dos ricos e à
tomada de bens dos segundos pelos primeiros.
Ainda que o texto se refira em alguns momentos aos artesãos, aparentemente, os
protagonistas do movimento popular foram os camponeses. Há menções à conquista de terras,
à tomada de grãos e ao não pagamento de tributos.
A partir de alguns fragmentos supracitados, José Carlos Reyes vê como indubitável a
existência de uma tomada popular do governo. Tal grupo popular parece ter se tornado
dirigente de pelo menos uma parte do Egito, ainda que tenha entrado em crise logo em
seguida, em decorrência da impossibilidade de resistir aos ataques dos nobres e funcionários
provinciais do restante do país.
A primeira medida dos dirigentes do governo popular teria sido a divulgação dos
“segredos do país”, ou seja, os mecanismos de administração pública e seus registros oficiais.
Para isto, é possível que se tenha contado com a ajuda de funcionários menores, incorporados
ao movimento.
A crise, todavia, não foi contida pelo governo popular, incapaz de resolver o problema
da fome e da insegurança derivada dos conflitos internos e ataques estrangeiros. Estima-se,
pelo contrário, que tenha produzido, aos poucos, a deserção de alguns grupos que apoiavam a
insurreição, como artesãos, que viram piorar a sua situação com a escassez de matérias-primas
e sem um governo investindo em grandes obras.

13
REYES, José Carlos Castañeda. Sociedad Antigua y Respuesta Popular. Movimentos Sociales en Egipto
Antiguo. Cidade do México: Universidad Autónoma Metropolitana, 2003. pp. 128-129.
14
Alguns destes eixos temáticos foram estudados, em seus aspectos literários, em JOÃO, Maria Thereza. “As
Admoestações de Ipu-Ur: Reflexões sobre a Sociedade Egípcia do Primeiro Período Intermediário.”. NEARCO.
N. 1. Ano II. Rio de Janeiro, 2009.
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Ainda que seja muito difícil precisar o intervalo temporal ocupado por este governo
popular, é provável que tenha durado entre 70 e 75 dias. Em seguida, sofreu com a repressão
coordenada pelos normarcas e grandes nobres15.
Como tentei demonstrar, a concepção de progresso tem levado os historiadores a uma
defesa – consciente ou não – de uma ideologia burguesa. Atuando em conjunto, história,
racionalização e justificativa do presente e projeto de futuro criam o mundo atual como
apoteose do “fim da história”, naturalizando uma continuidade artificial que mostra todos os
momentos de ruptura como barreiras superadas.
Como bem apontou Benjamin, o materialismo histórico deve demonstrar que não
escolhe aleatoriamente seus objetos e abandonar o conceito de progresso em troca da idéia de
uma “atualização”, explodindo a continuidade histórica reificada impregnando-a com o
presente16.
Durante as mobilizações populares na Praça Tahir e por todo o Egito, egiptólogos do
mundo, cobertos pela mídia internacional, demonstraram acima de tudo suas preocupações
com as “relíquias sagradas” do país, ou seja, os documentos arqueológicos da vasta cultura
material faraônica. Condenou-se a invasão de museus e templos por desordeiros interessados
em saquear o patrimônio histórico da humanidade. Foi com isso que os historicistas se
preocuparam!
Enquanto isto, os materialistas históricos observavam com admiração o levantar de um
povo oprimido. Não é uma questão de desprezo pelo patrimônio material, mas, sim, de uma
valorização do patrimônio imaterial do qual aquela população se apoderava, sua verdadeira
“relíquia sagrada”. Mais do que cacos de cerâmica milenares, tão valorizados pelos
arqueólogos, as camadas populares demonstravam interesse nos “estilhaços messiânicos”
descritos por Benjamin. Estes estão ao alcance de qualquer um, cabe a nós o trabalho
cuidadoso de reuni-los na luta pela redenção daqueles homens e mulheres que derramaram
sangue na mesma areia egípcia há mais de 4000 anos atrás.

A principal especificidade da expropriação no contexto pré-capitalista é o caráter


pessoal das relações de dependência. Aqui, voltamos a utilizar a comparação com o
capitalismo como elemento fundamental da análise: a expropriação no processo de formação

15
Sobre a teoria de um governo popular, ver REYES, José Carlos Castañeda. Op. Cit. pp. 139-145.
16
BENJAMIN, Walter. Passagens. Op. Cit. Ver especialmente as passagens N2,2; N9a,5; N9a, 6; N10a,1;
N11a,1. pp. 436-519.
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do Capitalismo cria trabalhadores sujeitos a relações impessoais de trabalho. No Pré-


Capitalismo isso não ocorre. A expropriação de elementos essenciais à reprodução social das
classes produtoras é imposta por uma elite que passa a mediar as relações sociais entre estes
produtores diretos e tais elementos expropriados, mas isso não se dá de maneira impessoal: a
construção e reprodução tanto da expropriação destes elementos quando da mediação impsota
pela elite exploradora dependem de relações de dependência pessoal – e, portanto, não se
reproduzem no próprio processo de movimento do sistema econômico, como no Capitalismo.

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