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Quantificação de vazão em pequenas bacias sem dados

Article · January 1998


DOI: 10.21168/rbrh.v3n3.p111-131

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Carlos Eduardo Morelli Tucci André Luiz Lopes da Silveira


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RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

QUANTIFICAÇÃO DE VAZÃO EM PEQUENAS BACIAS SEM DADOS

Geraldo Lopes da Silveira


Universidade Federal de Santa Maria
ger_ufsm@sma.zaz.com.br

Carlos E. M. Tucci e André L. L. da Silveira


Instituto de Pesquisas Hidráulicas - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Caixa Postal 15029 CEP 91501-970 Porto Alegre, RS

RESUMO total ausência de dados fluviométricos de peque-


nos mananciais para o desenvolvimento de
avaliações de potencialidades hídricas e energéti-
A falta de dados hidrológicos em pequenas
bacias gera incertezas que comprometem o gerenci-
cas.
amento dos Recursos Hídricos. Atualmente, inexiste Além disso, o abastecimento de água hu-
método confiável para estimativa de disponibilidade mano, a irrigação e o controle ambiental das bacias
hídrica na ausência da dados, o que limita a avaliação necessitam conhecer a distribuição temporal e
de aproveitamentos de pequenos mananciais, com espacial da vazão dos rios de pequenos mananci-
pequenas centrais hidrelétricas, sistemas de irrigação ais.
e abastecimento urbano, além de prejudicar os estu- A atual rede hidrometeorológica do Brasil
dos de avaliação da qualidade das águas e os de contempla praticamente as grandes bacias hidro-
apoio a instrução de processos de outorga. O método 2
gráficas (áreas maiores que 500 km ) conforme
proposto, baseia-se na combinação de um modelo pode-se observar no inventário das estações fluvi-
chuva-vazão simplificado, com amostragem reduzida ométricas do DNAEE (1991). Considerando-se
de vazões para obtenção de séries cronológicas con- bacias pequenas aquelas com drenagens inferiores
tínuas de descargas (fluviograma), sintetizando 2
a 100 km , pode-se constatar a carência quase
informações produzidas somente por monitoramento
total de dados através do inventário da rede nacio-
convencional. A rápida interação com o meio através
de algumas medições locais conduziu a boa avaliação nal.
da disponibilidade hídrica através de um modelo com Portanto, com a carência de dados fluvio-
dois parâmetros. Os resultados encontrados para 6 métricos, fica-se sujeito a grandes incertezas
bacias localizadas no Rio Grande do Sul, indicam um quanto aos resultados da quantificação de vazões.
erro padrão para as estimativas da curva de perma- Em conseqüência, por avaliações incorretas, pode-
nência na ordem de 20%. se considerar viável um aproveitamento inviável.
Do modo inverso, também pode-se considerar
inviável um aproveitamento adequado à sociedade.
INTRODUÇÃO No âmbito do controle ambiental, o conhe-
cimento do escoamento é fundamental para avaliar
A realidade brasileira contempla uma ca- a qualidade da água de pequenos rios, decorrente
rência enorme de energia para propriedades e de cargas pontuais e difusas. Para estimar as con-
aglomerados rurais em pontos isolados da rede dições ambientais sujeitas a essas cargas
interligada de transmissão de energia elétrica, e poluidoras, é necessário conhecer as vazões de
para localidades próximas a perímetros urbanos e estiagem do rio.
distritos agro-industriais de grande demanda ener- Da mesma forma, para a instrução de pro-
gética. cessos de outorga de uso dos recursos hídricos, as
Segundo as conclusões do II FOREMA Agências Governamentais necessitam conhecer as
(1996) - Fórum de Energia e Meio-Ambiente da respectivas disponibilidades hídricas de modo a
Região Sul - somente no estado do Rio Grande do não gerarem conflitos nem conceder outorga supe-
Sul existem, aproximadamente, 150 mil proprieda- rior à real. Este é um processo de desenvolvimento
des rurais carentes de energia elétrica que, em corrente no Brasil e no Rio Grande do Sul, função
parte, poderiam ser atendidas através de aprovei- das atribuições definidas pelas últimas constitui-
tamentos hidrelétricos de pequeno porte. ções Federal e Estadual (Brasil, 1997; Rio Grande
Entretanto, quando se parte para o estudo do Sul, 1994).
de viabilidade econômica e social dos aproveita- Há, portanto, grande demanda por estudos
mentos de pequeno porte, depara-se com a quase hidrológicos confiáveis para pequenas bacias que

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Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

levem em conta a carência de dados fluviométricos permanência é apenas um entre vários estudos
da rede existente de monitoramento. possíveis.
Na regionalização da curva de permanên-
cia podem ser adotados dois procedimentos (Tucci,
MÉTODOS 1991) baseados:

Os métodos utilizados para estimativa de · na parametrização da curva, relacionando


vazões em locais sem dados são: (a) estudos de os parâmetros com características fisiográ-
regionalização da curva de permanência de va- ficas e climatológicas da bacia, e;
zões; (b) modelos hidrológicos com parâmetros
extrapolados e; (c) medida direta de vazão no local · na interpolação, gráfica ou analítica, de
de interesse (Eletrobrás, 1983). Este último tipo de uma curva, passando por vazões com
metodologia não relaciona a vazão medida às esta- permanências pré-definidas e estimadas a
tísticas de ocorrência no local. partir das referidas características da bacia.

Os modelos de regionalização que definem


Estimativa da curva de permanência a curva de permanência na forma parametrizada
por regionalização hidrológica podem provocar erros nas estimativas do ramo
inferior da curva, onde os escoamentos são meno-
res, embora possa apresentar um bom ajuste
A curva de permanência representa a rela-
global. O uso de modelos do tipo interpolativos
ção entre a magnitude e a freqüência de vazões
minimizam este erro pela estimativa ponto a ponto
diárias, semanais, mensais (ou de qualquer outra
da curva no trecho de interesse.
duração) de uma determinada bacia hidrográfica,
fornecendo a porcentagem de tempo que uma O estudo de Dingman (1978) para New
dada vazão é igualada ou superada num período Hampshire (EUA), com dados diários de 24 esta-
histórico definido (Vogel e Fennessey, 1994). Con- ções fluviométricas com mais de 10 anos de
2
siderando-se o seu uso freqüente em engenharia, observação (bacias de 7 a 8000 km , mediana de
2
há relativamente pouca pesquisa sobre seu desen- 260 km ), é tipicamente do tipo interpolativo, defi-
volvimento em bacias sem dados (Murdock e nindo as vazões nas permanências de 2, 5, 30 e
Gulliver, 1993). Os trabalhos mais frequentemente 95%. As três primeiras, como uma proporção cons-
citados na literatura internacional são os de Ding- tante da vazão média, cujo valor por unidade de
man (1978), Quimpo et al (1983), Mimikou e área é função linear da altitude média da bacia e a
Kaemaki (1985) e Fenessey e Vogel (1990). No última, também tomada por unidade de área, é
Brasil, destacam-se os trabalhos de Kavisky e Fior uma função polinomial de segunda ordem da altitu-
(1985) e Tucci (1991). Um roteiro prático para o de média da bacia. O autor apresenta intervalos de
cálculo da curva de permanência é encontrado em 95% de confiança empíricos com base na variabili-
Tucci (1993). dade das vazões adimensionais (para as
permanências de 2, 5 e 30%) e na variabilidade da
A regionalização hidrológica, em geral, ca- altitude média das bacias (considerada em todas
racteriza-se por uma variedade de métodos que as quatro vazões). Para as variabilidades citadas,
utilizam informações regionais para sintetizar da- foram assumidas distribuições normais.
dos de vazão. Estas informações podem ser
características fisiográficas e hidrometeorológicas Quimpo et al (1983) propuseram para as
da bacia e parâmetros estatísticos calculados a Filipinas um modelo regional parametrizado para
partir das séries de vazões de postos da região. as curvas de permanência, voltado para o aprovei-
São exemplos típicos de métodos de regionaliza- tamento hidroenergético. Basearam-se em 35
ção aqueles que fazem ajuste de uma distribuição estações com dados diários de vazão e séries de 8
2
estatística a uma variável (ou a um parâmetro ou a a 21 anos (bacias de 29 a 4150 km , mediana de
2
uma função hidrológica), combinando-a com a 190 km ). De cada curva de permanência observa-
regressão desta mesma variável com característi- da foram retiradas 13 pares vazão-permanência
cas físicas das bacias (a área contribuinte quase (vazão por unidade de área) correspondentes aos
sempre é uma delas) e características hidrometeo- percentis 1, 5, 95, 99 e de 10 a 90, de 10 em 10.
rológicas (pluviometria média anual, Para cada estação, aos 13 pares, foi ajustada por
freqüentemente). Fica claro, assim, que, entre vá- mínimos quadrados a equação:
rias regionalizações usuais (vazões máximas, -cD
médias e mínimas), a regionalização da curva de q = qA e (1)

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RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

onde q é a vazão por unidade de área, D é a per- permanências (previamente as vazões foram orde-
manência (%) e qA e c são os parâmetros. nadas de forma decrescente e as correspondentes
O parâmetro c foi regionalizado por inter- probabilidades de excedência, as permanências,
médio de isolinhas no mapa das Filipinas, seguindo calculadas pela fórmula de Weibull). O ajuste reali-
tendências climáticas e o parâmetro qA foi relacio- zado para 23 estações (3 foram guardadas para
nado com a área da bacia por: validação) restringiu-se ao trecho entre as perma-
nências de 50 e 99%. A estimativa dos parâmetros,
-m 2
qA = p A (2) a saber a média, m, e a variância s dos logaritmos
neperianos das vazões, foi feita por minimização
2
onde A é a área da bacia (km ) e p e m são parâ- do erro médio quadrático porcentual (como a curva
metros que foram ajustados com base apenas nas de permanência engloba vazões correlacionadas
2
12 bacias com área maior que 100 km em razão temporalmente, logo não independentes, a estima-
de problemas amostrais nas pequenas bacias. tiva dos parâmetros pelo método estatístico da
O estudo de Quimpo et al (1983) não abor- máxima verossimilhança era inaplicável). As esti-
da o problema das incertezas nos resultados. mativas de m foram correlacionadas com as áreas,
2
A regionalização da curva de permanência e as estimativas de s com os desníveis máximos
apresentada por Mimikou e Kaemaki (1985) para das bacias. Foram calculados intervalos de 95% de
as regiões oeste e noroeste da Grécia seguiu tam- confiança de acordo com a teoria estatística (com
bém um modelo parametrizado. Foram utilizados uso da estatística de Student) onde foi deduzida
dados mensais de vazão de 13 postos (bacias de uma expressão para a variância da estimativa do
2 2
86 a 5005 km , mediana de 700 km ), sendo 11 logarítmo da vazão, função da área contribuinte e
para o desenvolvimento e 2 para a validação do do desnível máximo. A validação com as 3 curvas
estudo. De cada curva de permanência observada de permanência, que não participaram do estudo,
foram retirados 25 pares vazão-permanência cor- mostraram o bom desempenho do modelo.
respondentes aos percentis de 4 a 100%, de 4 em
4, cujos valores foram ajustados por mínimos qua- Kavisky e Fior (1985) compararam o de-
drados ao polinômio: sempenho de vários modelos paramétricos na
regionalização da curva de permanência no Estado
2
Q = a - bD + cD - dD
3
(3) do Paraná (Exponencial, Pareto, Lomax, Weibull,
Log-logística, Log-gumbel, Log-normal). Foram
utilizadas as vazões diárias de 63 bacias com á-
onde Q é a vazão, D é a permanência (%), e a, b, c 2 2
reas entre 54 e 5000 km (mediana de 900 km ).
e d são parâmetros, que foram correlacionados
Os parâmetros regionalizados foram os momentos
com a precipitação média anual P, a área da bacia
de primeira e segunda ordem para os quais foram
A, o desnível máximo da bacia H e o comprimento
feitos mapas de isolinhas. Também foi regionaliza-
do rio principal L pela expressão:
da a vazão média de longo período por unidade de
b1 b2 b3 b4 área na forma de um mapa de isolinhas. Os melho-
p = b0 P A H L (4)
res resultados foram obtidos com a lei Lomax. Para
a construção dos intervalos de confiança, os auto-
onde p representa os parâmetros a, b, c e d, e b0, res se basearam na distribuição estatística da
b1, b2, b3 e b4 são os parâmetros da regressão. vazão média de longo período.
Um efetivo de apenas 11 realizações e 5
parâmetros (portanto apenas 6 graus de liberdade) Tucci (1991) apresentou um estudo da cur-
fragilizam as regressões de Mimikou e Kaemaki va de permanência para o estado do Rio Grande
(1985). Como medida de validação, reservaram do Sul, dividido em seis regiões, pelo método inter-
duas curvas de permanência que não participaram polativo. Foram utilizados dados de vazões médias
do estudo. O erro médio quadrado de 3% para uma diárias de 105 postos com áreas de contribuição
2 2 2
bacia de 86 km e de 10% para a outra bacia com entre 41 e 189.300 km (mediana de 2058 km e
2 2
1481 km . média de 8292 km ). Foi feita uma comparação
Fennessey e Vogel (1990) utilizaram dados entre as alternativas de considerar a curva de per-
de vazões diárias de 26 estações (bacias de 4 a manência na sua forma empírica ou representada
2 2
390 km , mediana de 52 km ) para também estabe- por uma função lognormal, com parâmetros ajusta-
lecer um modelo paramétrico de regionalização da dos pelo método dos momentos. Esta última, que
curva de permanência em Massachusetts (EUA). caracterizaria um modelo paramétrico, foi descar-
Distingue-se dos modelos paramétricos acima por- tada pelos seus resultados julgados imprecisos (o
que ajusta uma função (no caso a lognormal) critério de análise foi a verificação do ajuste para
diretamente às vazões diárias observadas e suas as vazões com permanências de 50 e 95%, deno-

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Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

minadas por Q50 e Q95, respectivamente). Assim, de Mimikou e Kaemaki (1985) têm entre 86 e 700
2
foi adotado um modelo interpolativo exponencial km , e as de Fennessey e Vogel (1990) têm entre 4
2
que passa por Q50 e Q95: e 52 km . Fica evidente que bacias pequenas fo-
ram consideradas nesses estudos. O fato de que
aD+b
Q=e (5) elas possuem um regime hidrológico diferenciado
em relação às grandes bacias não impede, aparen-
onde Q é a vazão, D é a permanência (%) e a e b temente, que a regionalização da curva de
são dados por: permanência produza bons resultados.
Para a realidade brasileira, os estudos de
a = - (ln (Q50/Q95))/0,45 regionalização hidrológica, por serem definidos a
partir de uma base de dados proveniente de bacias
2
b = ln Q50 - 0,50 a maiores (área > 500 km ) não devem, por conse-
qüência, serem aplicados fora dos limites
A regionalização ocorreu pela regressão de estabelecidos pelas equações regionais e, princi-
Q50 e Q95 com a área da bacia através de uma palmente, para as bacias consideradas pequenas
2
equação de potência do tipo: (área < 100 km ). Estas limitações devem-se prin-
cipalmente aos seguintes fatores:
d
Q50 ou Q95 = cA (6)
1. diferenças nas escalas espaciais e tempo-
onde A é a área da bacia e c e d são parâmetros. rais dos mecanismos de transformação
Mesmo não presentes no estudo, intervalos chuva-vazão nas pequenas e grandes ba-
de confiança para Q50 e Q95 poderiam ter sido es- cias;
tabelecidos conforme indicado em Fennessey e 2. dificuldades de caracterização de regiões
Vogel (1990). Por outro lado, foi apresentada uma hidrologicamente homogêneas devido às
análise de sensibilidade para avaliar o impacto da especificidades locais do meio-físico.
consideração ou não, de dados da década de 40, Quando a área da bacia diminui, baixa a
uma década de vazões mais baixas, na curva de escala de detalhamento, e fica difícil a ca-
permanência. Em alguns postos as diferenças fo- racterização de regiões homogêneas, ou
ram importantes, sobretudo para a Q95. seja, a heterogeneidade das pequenas ba-
Os estudos acima mostraram que há uma cias é muito grande;
variedade de abordagens, tanto para modelos pa-
ramétricos como para interpolativos, para a 3. dificuldades de obtenção de dados confiá-
regionalização da curva de permanência, sem que veis convencionais para as vazões
nenhuma possa ditar sua superioridade sobre a mínimas. Muitas vezes, ao priorizar as va-
outra. Ressalte-se a adequabilidade da regionali- zões máximas e médias, os segmentos
zação da curva de permanência para uma ampla inferiores das curvas-chave dos postos flu-
gama de variação de áreas de bacias em diferen- viométricos deixam a desejar. A mobilidade
tes regiões do mundo. Por outro lado, ficou do leito é uma das causas destas incerte-
evidente, pelo conteúdo dos trabalhos analisados, zas.
que faltam ainda serem desenvolvidos critérios de
validação dos modelos análogos aos que Klemes
(1986) preconiza para os modelos chuva-vazão. Estimativa da disponibilidade hídrica
Também sentiu-se a necessidade de que análises por simulação chuva-vazão
de incertezas sejam incorporadas de ofício aos
estudos, para uma correta avaliação dos erros
envolvidos no uso dos modelos. Alguns estudos Dentre os vários usos dos modelos chuva-
são mais claros que os outros em relação às hipó- vazão, podem ser destacadas as seguinte aplica-
teses básicas adotadas, como, por exemplo, a ções:
hipótese de estacionaridade que é geralmente feita
em estudos deste tipo.
· a extensão de séries de vazões em seções
A simples observação dos intervalos de á-
fluviais monitoradas, com parâmetros esti-
reas abrangidas nos estudos acima, todos com
mados a partir dos dados existentes;
bons resultados, permite avaliar sua aplicabilidade
para pequenas bacias. Metade das bacias estuda- · geração de séries de vazões em seções
2
das por Dingman (1978) têm entre 7 e 260 km ; as não monitoradas, com estimativa de parâ-
2
de Quimpo et al (1983) têm entre 29 e 190 km ; as metros a partir de valores de outras bacias.

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Existe um grande número de modelos chu- no clima ou pela ocupação do solo. Dife-
va-vazão na literatura, cada qual com variantes de rencia-se do teste anterior porque exige
algoritmos empíricos dos processos hidrológicos uma estipulação prévia dos parâmetros pa-
representados. No entanto, a variabilidade tempo- ra a bacia de validação em função das
ral e espacial da precipitação pode embutir erros alterações que ela sofreu em relação à ba-
superiores a qualquer refinamento de metodologia cia de calibração. Em posterior uso do
que simule os processos hidrológicos em bacia. modelo aprovado em uma bacia da região
Independente da classificação dos modelos sem dados fluviométricos, conforme seja
chuva-vazão, seu uso eficiente para calcular va- sua situação (modificada ou não), um dos
zões em bacias sem dados está condicionado à dois jogos de parâmetros seria aplicável. O
sua validação. Neste campo, Klemes (1986) pro- jogo de parâmetros compatível, eventual-
põe os seguintes testes hierarquizados: mente sofre adaptações para se adequar à
bacia simulada (por exemplo, maior ou
1. Teste com amostra dividida (split-sample menor presença de determinado tipo de so-
test): consiste na calibração dos parâme- lo).
tros do modelo com base em 3 a 5 anos de
dados (primeira parte da amostra) com Em resumo, para os modelos chuva-vazão,
posterior validação num período similar o teste 1 de Klemes (1986) trata da validação de
(segunda parte da amostra); um modelo com vazões observadas na própria
2. Teste com amostra dividida não esta- bacia; o teste 2 refere-se à validação do modelo
cionária (differential split-sample test): em uma bacia sob condições não estacionárias; o
envolve a calibração do modelo num perío- teste 3 qualifica um modelo para gerar vazões em
do anterior a modificações na bacia ou no bacias não monitoradas com condições semelhan-
clima (primeira parte da amostra) e subse- tes às bacias vizinhas de calibração e validação e,
quente validação com os dados após estas por fim, o teste 4 avalia a capacidade do modelo
modificações (segunda parte da amostra, também para gerar vazões em bacias sem dados,
não estacionária em relação à primeira). mas abrangendo situações de mudanças (climáti-
Antes desta validação, os parâmetros do cas ou de ocupação do solo) captada no processo
modelo devem estar definidos, incorporan- de calibração e validação em bacias vizinhas (ba-
do eventualmente uma evolução lógica dos cia de validação com condições alteradas em
seus valores em função do impacto espe- relação à bacia de calibração).
rado das modificações nos processos Refsgaard e Knudsen (1996) aplicaram os
hidrológicos simulados. testes acima para comparar o desempenho de três
3. Teste com amostras de bacias próximas modelos correspondentes às categorias em que
(proxy basin test): baseia-se na calibração acreditam poderem ser classificados os modelos
do modelo em uma bacia próxima com da- hidrológicos: a) um conceitual concentrado; b) ou-
dos e validação em outra bacia da tro com base física distribuído e c) um terceiro
vizinhança (com dados) com regime hidro- conceitual distribuído, pois usa informações distri-
lógico semelhante. Evidentemente, para a buídas de natureza meteorológica, topográfica,
simulação de validação, os parâmetros são pedológica e de ocupação do solo, mas calcula as
eventualmente adaptados para refletir as respostas hidrológicas em cada unidade espacial
condições da bacia (por exemplo, um pa- de forma conceitual e não fisicamente baseada. A
râmetro que é dependente da área da comparação feita com dados de três bacias do
2
bacia). Adaptações similares são feitas nos Zimbawe (áreas de 254, 1040 e 1090 km ) resultou
parâmetros quando da aplicação do mode- o seguinte:
lo aprovado numa bacia sem dados
fluviométricos da região; 1. Alguns poucos anos de dados (1-3 anos)
4. Teste com amostras não estacionárias parecem ser suficientes para calibrar um
de bacias próximas (proxy basin differen- modelo chuva-vazão para simular o com-
tial split-sample test): a calibração do portamento hidrológico de uma bacia,
modelo é feita em uma bacia próxima com mesmo sob condições climáticas não esta-
dados, que não sofreu modificações, e a cionárias. E o uso de um modelo conceitual
validação em outra bacia com dados da vi- concentrado seria tão adequado quanto um
zinhança, mas com o regime hidrológico mais sofisticado de natureza distribuída.
original que era semelhante ao da bacia de 2. Para bacias sem dados fluviométricos, os
calibração, alterado por causa de variações modelos distribuídos parecem dar resulta

115
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

dos um pouco melhores que um modelo (iii) determinação da curva de permanên-


concentrado, desde que informações bási- cia.
cas da bacia possam ser obtidas (como a
posição das superfícies livres dos aquífe- A amostragem reduzida de vazões objetiva
ros). dar uma vinculação local às estimativas, funcio-
nando como ancoragem hidrológica aos
Os modelos hidrológicos são, portanto, for- procedimentos de simulação.
temente dependentes de dados locais devido à A caracterização preliminar do deplecio-
grande incerteza na definição dos seus parâme- namento fluvial em termos de magnitude e taxa de
tros. A questão básica é avaliar qual o período decaimento das vazões, exige um mínimo de três
necessário e sua representatividade. A metodolo- medições de descargas na seção de interesse,
gia a seguir busca resolver parte desta questão. espaçadas de alguns dias, em período de estia-
gem, de modo a se avaliar a estabilidade do
decaimento de vazões (Roche, 1963).
METODOLOGIA
O modelo
Este estudo apresenta um método para
avaliação da disponibilidade hídrica fluvial de pe-
quenas bacias hidrográficas com carência de O modelo proposto nesse estudo contém
dados fluviométricos. as seguintes premissas:
O método baseia-se na estimativa do com-
portamento da bacia na estiagem. A depleção de · possuir o menor número de parâmetros
possíveis que permita estimar a série de
uma bacia é um retrato do seu comportamento
(Figura 1) após a ocorrência das precipitações. Em vazões médias diárias em uma pequena
pequenas bacias esse processo é mais marcante bacia hidrográfica e;
devido à resposta rápida da bacia a estímulos de · permitir fácil ajuste e extensão de séries.
precipitações, função do seu pequeno tempo de
concentração. Assim, o escoamento superficial Para tanto, foram estabelecidas as seguin-
produzido ocorre normalmente nos próprios dias tes simplificações principais no seu
chuvosos, e os períodos de recessão representam equacionamento:
o período mais longo de tempo no fluviograma.
Portanto, obtidas algumas medições que 1. O armazenamento na camada superior do
reproduzam o comportamento da bacia nas estia- solo é desprezível no intervalo de tempo de
gens, busca-se representar sua resposta através análise (diário);
da simulação da precipitação em vazão. 2. A evapotranspiração potencial é retirada da
precipitação, quando houver, em cada in-
Em resumo, a metodologia consiste de du-
tervalo de tempo.
as etapas básicas (Figura 2):

1. Amostragem de vazões onde desenvolve- Formulação - a estrutura do modelo é descrita


se o levantamento de uma amostra reduzi- a seguir (Figura 3):
da de vazões em período de descarga do
aqüífero, num curto espaço de tempo (uma · A precipitação Pt (mm), em cada intervalo
a duas semanas), sem necessidade de o- de tempo (diário), é subtraída da evapo-
nerosas instalações tradicionais de transpiração potencial Et (mm). Quando Pt
funcionamento contínuo (linígrafos). Esta – Et < 0 não resulta precipitação para gerar
amostra é a condição inicial para a aplica- escoamento.
ção do método. · Na situação em que Pt – Et > 0, uma parce-
2. Simulação de série de vazões que envol- la da precipitação irá gerar escoamento
ve as seguintes etapas: (i) o ajuste de um superficial e outra infiltrará. Neste caso:
modelo simplificado de balanço hídrico com
a amostra reduzida, ou seja, com poucos Prt=Pt-Et (7)
valores de vazão conhecidos; (ii) a síntese
de vazões diárias através da simulação A precipitação efetiva fica:
chuva-vazão, a partir do histórico de preci-
pitações e evapotranspirações regionais; e, Pef(t)=(1-Cinf).Pr(t) (8)

116
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Figura 1. O hidrograma e os períodos de recessão.

onde Cinf representa a parcela da precipitação que diferencial do modelo do reservatório linear sim-
infiltra; Pef, a precipitação efetiva. O volume de ples.
infiltração Vi, fica expresso por:
dQb
Vi=Cinf.Pr(t) (9) Kb + Qb = Vi (12)
dt
A parcela infiltrada alimenta diretamente o
aqüífero, desprezando-se a variabilidade da cama- A solução desta equação é a seguinte:
da superior do solo associada a períodos úmidos e,
geralmente, de pequena profundidade na cabecei- Qb (t ) = Qb (t - 1).e - Dt / k b + Vi (t ).(1 - e - Dt / K b ) (13)
ra das bacias.
O reservatório subterrâneo pode ser ex- No período chuvoso em que Pr>0, a vazão
presso pela equação da continuidade incorpora também a parcela de origem superficial e
é dada por:
dS
= Vi - Qb (10)
dt Q(t ) = [Qs (t ) + Q b (t )] (14)

onde S é o armazenamento em mm; e Qb, a vazão onde Q(t) é a vazão total em mm/dia; Qs(t)=Pef(t).
de escoamento subterrâneo em mm/dia. Quando Pr=0, a equação se reduz a
O armazenamento (mm) e a vazão de saí-
da estão relacionados pela expressão Q(t)=Qb (t) (15)

S = Kb . Qb (11) Para transformar as vazões de mm/dia pa-


3 -1
ra m .s , basta multiplicá-las pela área da bacia em
2
onde Kb representa o tempo de esvaziamento do km e, em seguida, dividir o resultado pelo fator
reservatório em segundos. 86,4.
Derivando-se a Equação 11 e substituindo- O valor inicial do parâmetro Kb para simula-
se na equação da continuidade resulta a equação ção pode ser obtido a partir das medições onde

117
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

Figura 2. Estrutura metodológica.

Q1, Q2 e Q3 são as vazões conhecidas. Consi- Logo, o valor de K estimado pelas equa-
derando-se a Equação 13, na ausência de ções são:
precipitação pelo modelo, o valor do parâmetro
pode ser obtido da seguinte forma:
Q1 Q
K1b = Dt . ln \ K 2b = Dt . ln 2 (17)
Q2 = Q1.e - Dt / K1b \ Q3 = Q2 .e - Dt / K 2b (16) Q2 Q3

118
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

^ K1b + K 2b · se o registro de precipitação do período


Kb = (18) com vazões contiver erros, os mesmos são
Dt transferidos aos parâmetros e aos resulta-
dos. Evidentemente, quanto maior forem os
onde Dt é o intervalo de tempo entre as medições registros de vazões, menores serão as in-
^ certezas,
locais em dias; K b , a estimativa inicial para o pa- · conjunto de três vazões ajusta principal-
râmetro Kb. mente o parâmetro Kb e o Cinf é obtido
A estrutura do modelo pelo equacionamen- indiretamente e depende muito do evento
to proposto define, então, dois parâmetros de ocorrido,
ajuste para o desenvolvimento do balanço hídrico: · coeficiente Kb pode variar entre o período
chuvoso e a estiagem, a medida que dife-
1. o primeiro relaciona-se à quantidade de rentes partes do aqüífero contribuam para
água que infiltra e chega ao reservatório a vazão de saída e,
hipotético de escoamento subterrâneo e é · modelo despreza a evapotranspiração do
definido por um coeficiente de infiltração solo. Quando a camada superior do solo
Cinf; retém muita umidade, e perde por evapo-
2. o segundo relaciona-se ao decaimento das transpiração, esta limitação pode
vazões ao longo do tempo, liberadas pelo comprometer o balanço.
reservatório de escoamento subterrâneo,
sendo definido pelo parâmetro Kb do mode-
lo do reservatório linear simples.

Figura 4. Esquema de estiagem simulada.

Para minimizar o erro da estimativa, princi-


palmente do Cinf, deve-se verificar para o período
de avaliação se a vazão específica média gerada é
da mesma ordem de grandeza das observadas na
Figura 3. Modelo simplificado de balanço região. Desta forma, o modelo não estaria gerando
hídrico. valores acima ou abaixo em termos médios.

Metodologia de ajuste RESULTADOS

O ajuste do modelo pode ser realizado por Para a verificação da metodologia foram u-
tentativa e erro, ou por otimização. Considerando- tilizados os dados de uma rede experimental de
se a existência de apenas três valores de vazões seis pequenas bacias monitoradas por três anos
observadas, o ajuste manual tende a ser rápido continuados, com áreas de drenagem situadas
(Figura 4). Além disso, é desejável que o usuário entre 1 e 11 km2, segundo descrição apresentadas
adquira uma sensibilidade hidrológica no processo por Silveira e Tucci (1998) na região da encosta do
de ajuste dos parâmetros para melhor interpretar planalto do Rio Grande do Sul.
os resultados. A etapa inicial de avaliação da metodologia
As principais incertezas são conseqüência parte da seleção de eventos de estiagem junto ao
do seguinte: fluviograma monitorado para a bacia.

119
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

A seleção dos períodos de estiagem para tos de estiagens selecionadas, seriam insuficientes
cada pequena bacia foi baseado no seguinte: para uma melhor avaliação dos resultados encon-
trados. Para sanar tal dificuldade o critério de
1. a ocorrência de um período de ausência de seleção, inicialmente estabelecido, foi modificado.
chuvas na região; O critério modificado, que proporcionou a
2. a ocorrência real de estiagens no mananci- seleção de um número razoável de eventos de
al estudado. estiagens, foi o que permitiu a ocorrência de até 15
mm de chuva durante o período de tempo da estia-
A identificação da estiagem pode ser reali- gem selecionada. O período total de tempo da
zada através da análise visual direta do estiagem, seria constituído então pelos 7 dias an-
fluviograma observado em conjunto com os dados tecedentes à medição de descargas mais os 5 dias
de chuva disponíveis de um ou mais postos pluvi- nos quais as três medições seriam efetuadas, tota-
ométricos tomados como referência para a bacia. lizando 12 dias consecutivos. Entretanto, como os
Entretanto, para diminuir a subjetividade da esco- eventos potenciais de ocorrência de estiagens são
lha e melhor caracterizar o processo, foi selecionados através da precipitação regional e
estabelecido inicialmente como critério que os pe- não local, na etapa seguinte da seleção de estia-
ríodos de estiagem fossem selecionados a partir de gens, muitos eventos são descartados pela falta de
um número mínimo de 7 dias antecedentes e con- representatividade das chuvas na pequena bacia.
secutivos sem chuva. A partir do momento que se admitiu a ocorrência
A condição mínima para aplicação da me- de pequenas chuvas na região, já não é garantida
todologia foi definida como sendo o conhecimento regionalmente a ausência de chuvas em toda a
de três medições locais, avaliadas a cada dois área de influência assumida para os postos pluvi-
dias. A justificativa para o estabelecimento deste ométricos de referência. Isto implica na ocorrência
intervalo de tempo pequeno entre as medições, de de chuvas isoladas, espacialmente e temporalmen-
dois dias, refere-se a caracterização de um interva- te localizadas na região, que podem ocorrer na
lo inicial para a aplicação do procedimento. Na bacia e não na região dos postos pluviométricos
simulação do caso real de aplicação pelo usuário, ou, o contrário, de chuvas que podem ocorrer junto
estas medições poderiam ser desenvolvidas no à região dos postos pluviométricos e não na bacia.
período de uma semana, como por exemplo, nos Os eventos abandonados foram aqueles nos quais
dias úteis de segunda-feira, quarta-feira e sexta- se observou o seguinte: (i) quando não existia res-
feira. No entanto, intervalos maiores entre as medi- posta na bacia à estímulos de chuva dos postos
ções locais (5 dias, por exemplo) seriam melhores pluviométricos de referência ou; (ii) quando existia
para a caracterização do deplecionamento fluvial elevação de vazões na pequena bacia com ausên-
na estiagem, em função da melhor estabilização do cia de estímulo de precipitação no posto de
processo. A restrição ao aumento do intervalo de referência.
tempo entre as medições locais, refere-se a possi- No caso real de aplicação da metodologia,
bilidade de ocorrência de uma precipitação que estas dificuldades poderão ser minimizadas, já que
descaracterize a estiagem, provocando as perdas o hidrólogo responsável pela avaliação inspeciona-
das medições anteriores e, da mobilização de ida rá in loco a caracterização da estiagem, através de
ao local. consultas a moradores locais sobre a ocorrência de
A disponibilidade de uma série histórica de chuvas localizadas na área, nos dias anteriores aos
3 anos de dados fluviométricos para a avaliação do trabalhos de campo, assim como pela avaliação
procedimento, possibilitou a identificação de algu- direta da magnitude da vazão encontrada no ma-
mas dificuldades acerca das condições práticas de nancial fluvial.
aplicação pelo usuário. Observou-se que a ausên-
cia de chuva na região é um indicador satisfatório
da ocorrência real de uma estiagem na pequena Ajuste dos eventos
bacia, mesmo que os dados de chuva tomados
como referência para aplicação da metodologia Na simulação das pequenas bacias utili-
não estivessem inseridos nos domínios da bacia. zou-se os dados mais próximos, postos de
Entretanto, o critério adotado de ausência total de Sapucaia e Taquari, respectivamente, para precipi-
chuvas no período da estiagem, acabou por isolar tações diárias e evaporação do tanque classe A.
poucos eventos, em média apenas dois por ano Os dados de evaporação deste tanque podem ser
para cada pequena bacia. A aplicação prática do considerados como uma boa representação da
método não pode se restringir a raras ocasiões no evapotranspiração potencial em bacias rurais da
ano e além disso, este pequeno número de even- região (Dorfman, 1977).

120
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Para iniciar o ajuste do balanço hídrico es- das bacias. A incerteza da estrutura do modelo é
tabeleceu-se como valor inicial o parâmetro causada pela limitação da representação dos pro-
Cinf = 0,5 representando que a metade da precipita- cessos, enquanto a incerteza dos parâmetros é
ção, descontada das perdas por evaporação, resultado de inadequadas técnicas de estimativa,
produz escoamento de base na bacia e que a outra dos dados utilizados e da variabilidade temporal e
metade produz o escoamento superficial. En- espacial dos parâmetros.
tretanto, os primeiros ajustes do balanço hídrico
Vazão
para a bacia de Schneider I conduziram a um coe- 0,16
Bacia: Esque rdo (m 3/s )
ficiente de infiltração médio com valor próximo de 0,14
0,35. Embora isso não tenha sido uma questão Permanência observada
Permanência simulada 0,12
substancial do ajuste, passou-se a adotar, para o Seqüência3 0,10
início das simulações, este valor para o coeficiente 0,08
de infiltração. Com relação ao valor do parâmetro 0,06
Kb, para inicio da simulação, adotou-se o valor cal- 0,04
culado pela Equação 18 que pode ser obtido a 0,02
partir das medições locais, definidas pelo método 0,00
proposto. 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 90 95 % t
Na Figura 5 são apresentadas as curvas de
permanência geradas com base nas simulações de Vazão
0,08
vazão de todas as amostras em duas bacias (as Bacia: Schne ider 2 (m 3/s )
0,07
demais tem resultados similares). Junto, é apresen-
Permanência observada 0,06
tado a curva de permanência, obtida com base nos Permanência simulada
P02 0,05
dados observados. Observa-se que a dispersão
0,04
das curvas ajustadas contém a curva de perma-
0,03
nência observada.
0,02
Ressalte-se que cada curva de permanên-
0,01
cia ajustada a cada evento de estiagem, foi
0,00
construída com a reprodução das vazões no mes-
40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 90 95 % t
mo período para o qual se dispõe de observações
fluviométricas, a fim de que esta curva possa ser
comparada à curva de permanência construída Figura 5. Curvas de permanência simuladas
com essas observações (a curva de permanência com parâmetros amostrais das bacias de Vale
observada). Esquerdo e Scheneider 2.
Nas Tabelas 1 e 2 identificam-se as datas
de início dos períodos de estiagem selecionados,
assim como os parâmetros encontrados pelo ajuste A estimativa dos parâmetros pode ser pu-
do modelo. Esses resultados não consideram ainda ramente matemática ou estatística. A abordagem
a análise de incertezas, apenas explicam prelimi- matemática enfoca o ajuste dos parâmetros com
narmente a variabilidade do teste de curvas método determinístico, através do ajuste matemáti-
calculadas. Por isso elas foram chamadas de cur- co de função objetivo. A abordagem estatística
considera o modelo hidrológico assemelhado à
vas de permanência amostrais, para indicar
claramente que elas são resultados dos jogos de uma regressão estatística com as variáveis hidro-
parâmetros ajustados à amostra das estiagens. Os lógicas envolvidas, podendo ser consideradas, em
valores de Kb e Cinf nas Tabelas 1 e 2 representam grande parte, de natureza aleatória. Isto autoriza o
na linguagem estatística, amostras dos respectivos uso de técnicas estatísticas para a estimativa dos
estimadores. parâmetros e avaliação de suas incertezas.
Sendo os erros devidos aos parâmetros, a
análise estatística considera que os mesmos são:
Estimativas das incertezas a) independentes da magnitude das vazões; b)
independentes entre si; c) com valor esperado nulo
As incertezas dos modelos hidrológicos e variância finita e; d) com distribuição normal. A
decorrem (Haan, 1989): (a) dos dados de entrada e primeira e a terceira hipótese são frequentemente
saída; (b) da estrutura do modelo; e (c) dos parâ- violadas no uso de modelos hidrológicos.
metros. Estimada a distribuição estatística dos pa-
Os dados de entrada englobam variáveis râmetros é possivel, para uma dada entrada, gerar
meteorológicas de escoamento e de características respostas de bacia relacionadas com a probabili-

121
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

Tabela 1. Eventos selecionados e parâmetros de ajuste obtidos nas Bacias de Sapiranga.

Bacia de São Jacó Bacia de Schneider 1 Bacia de Schneider 2


N DATA Ksub Cinf N DATA Ksub Cinf N DATA Ksub Cinf
1 23/02/93 10 0,35 1 24/02/93 6,00 0,35 1 22/02/93 8 0,35
2 15/05/93 9 0,38 2 24/04/93 7,00 0,25 2 15/05/93 7 0,35
3 06/06/93 8 0,30 3 15/05/93 6,00 0,33 3 06/06/93 5 0,30
4 04/08/93 11 0,42 4 06/06/93 6,00 0,25 4 31/07/93 7 0,30
5 19/08/93 11 0,43 5 03/08/93 7,00 0,32 5 02/08/93 6 0,35
6 09/09/93 14 0,40 6 11/01/94 7,00 0,20 6 09/09/93 6 0,35
7 02/11/93 9 0,41 7 26/02/94 8,00 0,34 7 11/01/94 5 0,26
8 11/01/94 9 0,25 8 22/08/94 7,00 0,32 8 06/03/95 6 0,35
9 25/02/94 9 0,45 9 17/09/94 7,00 0,32 9 23/08/95 7 0,38
10 17/08/94 8 0,50 10 02/03/95 6,00 0,34 10 23/10/95 4 0,30
11 14/09/94 9 0,50 11 24/05/95 8,00 0,34 11 24/10/95 5 0,30
12 06/03/95 9 0,43 12 30/08/95 8,00 0,34 12 29/11/95 6 0,35
13 18/05/95 9 0,48 13 10/10/95 7,00 0,34 MÉDIA 6,00 0,33
14 24/05/95 9 0,48 14 23/10/95 6,00 0,28 Desvio padrão 1,13 0,04
15 23/08/95 9 0,39 MÉDIA 6,86 0,31
16 25/10/95 8 0,46 Desvio padrão 0,77 0,05
17 28/11/95 9 0,25
MÉDIA 9,41 0,40
Desvio padrão 1,46 0,08

dade de ocorrência devido às incertezas dos parâ- nas vazões calculadas nos períodos de estiagem,
metros através do método de Monte Carlo. sejam independentes da magnitude das vazões e
A variação das vazões ocorrem devido às tenham média nula e variância finita, as duas con-
características da bacia hidrográfica e, também, dições mais violadas pelos modelos hidrológicos
devido à variabilidade temporal e espacial da pre- das quatro necessárias para existência de parâme-
cipitação precedente à estiagem. Portanto, seriam tros reais.
necessários vários eventos de estiagem para avali- A metodologia de avaliação das incertezas
ar o erro estimado em cada estimativa isolada consistiu do seguinte:
(ajuste do modelo). Do conjunto de erros encontra-
dos são obtidas as incertezas das estimativas de
vazões. 1. avaliação da independência dos parâme-
Para tanto, foram selecionados do fluvio- tros;
grama monitorado em cada uma das seis bacias 2. ajuste de uma distribuição estatística para
estudadas, diferentes conjuntos de três vazões, em cada parâmetro em cada bacia;
período de estiagem. O conjunto de três vazões
define um evento a ser ajustado e produz, como 3. geração pelo Método de Monte Carlo de N
resultado, um jogo de parâmetros. As incertezas séries de vazões, onde cada parâmetro
associadas à simulação chuva-vazão podem ser tem seu valor determinado pela geração de
inferidas a partir das incertezas dos parâmetros números aleatórios com distribuição esta-
(Haan, 1989). Isto é, a incerteza das vazões calcu- tística, que no caso foi a Normal. O valor
ladas pelo modelo dependem do comportamento de N foi inicialmete estimado em 1000 e a-
probabilístico dos parâmetros. justado de acordo com a variabilidade das
Os parâmetros Cinf e Kb estão vinculados, estatísticas resultantes;
basicamente, ao processo de geração do escoa- 4. determinação da curva de permanência pa-
mento de base e suas estimativas procuram ajustar ra cada série;
o modelo preferencialmente na representação das
depleções. As vazões na depleção decrescem 5. para uma probabilidade P da curva de
continuamente, constituindo uma situação estável permanência existem N valores de Qp. A-
não sujeita à perturbações significativas que carac- justando a este conjunto de Qp uma
terizam os períodos de cheia, governados pela distribuição Normal, é possível obter o va-
precipitação. Logo, é razoável supor que os erros lor

122
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Tabela 2. Eventos selecionados e parâmetros de ajuste obtidos nas Bacias de Dois Irmãos.

Bacia de Vale Direito Bacia de Vale Esquerdo Bacia de Carpintaria


N DATA Ksub Cinf N DATA Ksub Cinf N DATA Ksub Cinf
1 22/02/93 7,50 0,35 1 22/02/93 6,00 0,30 1 22/02/93 11,00 0,35
2 15/05/93 8,50 0,40 2 15/05/93 6,00 0,34 2 16/05/93 7,00 0,40
3 06/06/93 7,70 0,30 3 06/06/93 7,00 0,25 3 17/07/93 9,00 0,33
4 14/07/93 7,00 0,50 4 15/07/93 6,50 0,33 4 02/08/93 11,50 0,36
5 02/08/93 8,00 0,50 5 11/08/93 6,40 0,34 5 06/09/93 12,00 0,40
6 15/08/93 10,00 0,43 6 01/09/93 7,50 0,38 6 02/11/93 7,50 0,40
7 04/09/93 10,00 0,40 7 02/11/93 7,00 0,35 7 27/03/94 9,00 0,44
8 02/11/93 8,80 0,40 8 11/01/94 5,00 0,25 8 04/11/94 12,00 0,40
9 12/01/94 7,00 0,30 9 25/02/94 8,00 0,38 9 15/01/95 7,00 0,30
10 27/03/94 7,50 0,50 10 12/07/94 8,00 0,38 10 12/03/95 12,00 0,40
11 15/01/95 7,50 0,30 11 17/08/94 7,50 0,36 11 21/04/95 12,00 0,40
12 09/03/95 8,90 0,48 12 13/09/94 7,50 0,36 12 03/05/95 12,00 0,40
13 03/05/95 9,00 0,45 13 15/01/95 8,00 0,25 13 28/05/95 12,00 0,40
14 05/05/95 9,00 0,45 14 10/03/95 8,00 0,33 14 28/08/95 10,50 0,32
15 24/05/95 9,00 0,45 15 20/04/95 11,00 0,34 15 28/10/95 10,00 0,30
16 23/08/95 10,00 0,29 16 03/05/95 5,50 0,32 16 21/11/95 9,00 0,33
17 23/10/95 10,20 0,27 17 10/05/95 8,00 0,27 17 10/12/95 9,00 0,33
18 22/11/95 11,00 0,27 18 26/05/95 7,50 0,29 MÉDIA 10,14 0,37
19 03/12/95 11,00 0,27 19 23/08/95 7,50 0,27 Desvio padrão 1,86 0,04
MÉDIA 8,82 0,39 20 05/10/95 8,50 0,40
Desvio padrão 1,28 0,09 21 23/10/95 6,50 0,25
22 24/11/95 6,70 0,25
MÉDIA 7,25 0,32
Desvio padrão 1,23 0,05

esperado de Qp e seu intervalo de confian- Este número de amostras geradas por Monte-Carlo
ça para um nível de significância de a. foi fixado em função da estabilização da média e
do desvio padrão que lhe deram origem.
Avaliação da independência entre Em seguida, o modelo chuva-vazão foi uti-
lizado para obter as séries de vazões e as curvas
parâmetros - Na Figura 6 são apresentados os de permanência correspondentes. Os percentis
valores obtidos para os parâmetros de todas as considerados foram as vazões com permanência
bacias, mostrando uma nuvem de pontos que induz de 40 a 95%, de 5 em 5%.
a não existência de correlação. O coeficiente de
Os intervalos de confiança de 95% de cada
correlação obtido foi r=0,06.
percentil foram calculados primeiramente com o
erro padrão da estimativa, centralizado no percentil
Ajuste de distribuição estatística aos observado.
parâmetros - A distribuição Normal não Na Figura 8 são apresentadas intervalos de
apresentou um ajuste ideal devido às confiança de 95% obtidos, centralizados com base
características do ajuste do modelo através de na curva observada. De forma geral pode-se dizer
tentativa e erro, já que o usuário tende a se fixar que estes intervalos, para todas bacias estudadas,
em alguns valores de parâmetros, gerando alguns situam-se a ± 50% do valor observado nas perma-
degraus na distribuição empírica. Na Figura 7 nências mais elevadas. Para efeito comparativo
pode-se observar estes resultados para duas são apresentadas também as curvas médias das
bacias. curvas estimadas pelo modelo, para duas bacias.
Um total de 250 pares de valores Cinf-Kb fo- Na Figura 9 são apresentados os intervalos
ram gerados, para cada uma das seis bacias de confiança, centralizados com base na média
estudadas, com base nas suas médias e desvios- das curvas calculadas pelo modelo. Nota-se que as
padrão amostrais que constam das Tabelas 1 e 2. bandas de confiança, no entorno da curva média,

123
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

são de magnitude semelhante às anteriores e a-


brangem com folga as curvas de permanência ksub - Schneider 2
observadas. 100% kb - Schneider 2

80%

Freqüência %
Par âmet r os de aj ust e 60%

0,6 40%

0,5 20%

0%
0,4
4,00 5,00 6,00 7,00 8,00 9,00 10,00
cinf

0,3
Cinf - Schneider 2
0,2
100%
0,1 80%

Freqüência %
0,0 60%
0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 40%
kkb/área
sub/ ár eda
a dabacia
baci a 20%

0%
Figura 6. Espectro de variabilidade dos 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45
paramêtros.

ksub - Vale Esquerdo


A diferença na forma de calcular os interva- kb - Vale Esquerdo
100%
los de confiança é a seguinte: enquanto a Figura 8
indica a incerteza do ponto de vista da curva de 80%
Freqüência %

permanência observada, a Figura 9 avalia a incer- 60%


teza a partir da tendência central das 250 curvas
40%
simuladas.
Assim, conhecendo-se um evento de estia- 20%
gem e valores indicativos da banda de confiança 0%
de 95% para os dois modos de cálculo abordados, 4,00 5,00 6,00 7,00 8,00 9,00 10,00
é possível interpretar o significado da curva de
permanência gerada com a ajuda do modelo: Cinf - Vale Esquerdo
100%
i. A banda de confiança 95% no entorno da
80%
curva de permanência observada, significa
Freqüência %

que há 95% de chance de que a curva de 60%


permanência calculada se distancie da cur-
40%
va de permanência observada em, no
máximo, meio intervalo para cima ou para 20%
baixo; 0%
ii. A banda de confiança 95% no entorno da 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45
curva de permanência média do feixe ge-
rado com o modelo, abrangendo a curva de
permanência observada, significa que há
Figura 7. Distribuição de frequências dos
95% de chance de que a curva de perma-
nência calculada se distancie em, no parâmetros para as bacias Vale Esquerdo e
máximo, meio intervalo para cima ou para Schneider 2.
baixo da tendência média que o modelo es-
tima para a curva de permanência. realização do universo possível das curvas de
permanência, a interpretação ii) deve ser utilizada.
Evidentemente, se uma visão puramente Se, por outro lado, houvesse uma certeza determi-
estatística predominar na análise, isto é, se a curva nística de que a curva de permanência observada
de permanência observada for tomada como mera equivale a curva de permanência média real da

124
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Bacia: Esquerdo
0,20 média das
previsões
1 evento - 95+
0,15
Vazão (m3/s) 1 evento - 95-
0,10
observado
0,05

0,00
40 50 60 70 80 90 % tempo

Bacia: Schneider 1
0,16 média das
0,14 previsões
0,12 1 evento - 95+
Vazão (m3/s)

0,10
0,08 1 evento - 95-
0,06
observado
0,04
0,02
0,00
40 50 60 70 80 90 % tempo

Figura 8. Curvas de permanência e intervalos de confiança de 95% centralizadas na curva média


observada das bacias de Schneider 1 e Vale Esquerdo.

Bacia: Esquerdo
0,16 média das
0,14 estimativas
0,12 (1 evento) +
Vazão (m3/s)

95%
0,10 (1 evento) -
0,08 95%
observado
0,06
0,04
0,02
0,00
40 50 60 70 80 90 % tempo

Bacia: Schneider 2
0,08
média das
0,07 estimativas
0,06 (1 evento) +
Vazão (m3/s)

95%
0,05 (1 evento) -
0,04 95%
0,03 observado
0,02
0,01
0,00
40 50 60 70 80 90
% tempo

Figura 9. Curvas de permanência e intervalos de confiança de 95% centralizadas na curva média


das estimativas das bacias Scheneider 2 e Esquerdo.

125
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

bacia, a interpretação i) seria mais aconselhável. O 2 gerações. Para n=3, foram gerados 750 Cinf-Kb e
enfoque estatístico não obriga que a curva de per- calculadas as médias para cada trinca de gera-
manência observada seja a tendência central. ções. E, finalmente, para n=10, foram gerados
Entretanto, não há garantia que a média do feixe 2500 Cinf-Kb, com média a cada 10. Assim, a e-
de curvas de permanência geradas pelo modelo, xemplo do item anterior, trabalhou-se com 250
seja a tendência central. pares de Cinf-Kb para cada n e para cada bacia.
Independente de sua interpretação, os in- Contando as simulações do item anterior o
tervalos de confiança das Figuras 8 e 9 são modelo chuva-vazão definido foi rodado 6000 ve-
indissociáveis das condições de análise estipula- zes (6 bacias, 4 conjuntos de estiagens, 250 jogos
das: eles correspondem à situação em que o de parâmetros), para traçar um panorama das in-
usuário tem acesso a apenas 1 evento de estiagem certezas envolvidas na aplicação do método-hora
(ou seja, 3 vazões em depleção) para ajustar o em análise.
modelo em função do histórico disponível de preci- Foram consideradas, também, as duas
pitações e evaporações. maneiras de calcular o intervalo de confiança de
Isto leva a pensar que esta medida da in- 95% das Figuras 8 e 9.
certeza pode variar, isto é, ela pode diminuir, Na Tabela 3 são apresentados os valores
quando houver possibilidade de obter-se mais de do desvio padrão (média gerada), em função da
um evento de estiagem, por medição direta na probabilidade P da curva de permanência e do
bacia. número de amostras para duas bacias. Observa-se
De fato, uma análise da incerteza do méto- que, após 3 eventos, o desvio-padrão está próximo
do que está sendo avaliado não estaria completa ao da série de três amostras de 10 eventos.
sem supor situações mais favoráveis de obtenção Em termos absolutos, o erro padrão das
de dados locais, como é feito no item seguinte. estimativas representa, em média, de 15% a 30%
dos valores esperados para n=1.
A consideração de mais de uma estiagem
Variabilidade da incerteza em função para aplicação do método proposto proporcionou
do número de estiagens medidas melhora dos resultados, mas isto pode estar rela-
cionado ao fato de que a consideração de apenas
Até aqui, considerou-se apenas uma um evento de estiagem pode coincidir com uma
estiagem para analisar as estimativas com o eventual falta de representatividade da precipitação
método proposto. Para avaliar o ganho de regional, pois, normalmente, não se dispõe de pos-
informação considerando-se mais de um evento de to ou informações pluviométricas na localização
estiagem, utilizou-se o critério descrito a seguir: específica da pequena bacia. Esta falta de repre-
define-se como evento de duas estiagens ou duas sentatividade das chuvas pode provocar ajustes do
depleções, a consideração de dois eventos de modelo de balanço hídrico, que induzam à afirma-
estiagem quaisquer (cada qual definido por três ção de parâmetros muito exagerados na
vazões medidas), intercalados por, no mínimo, uma associação com os macro-processos envolvidos,
cheia ou uma elevação de vazões. Generalizando, segundo a definição do modelo, podendo levar o
teríamos evento de 3, 4 até “n” estiagens. Entretan- analista a solicitar a agregação de novos eventos
to o ajuste permanece individual, por estiagem. de estiagem para a verificação dos resultados (pa-
Assim, os parâmetros do evento múltiplo de estia- râmetros) encontrados. Em segundo lugar, para
gem é a média aritmética dos valores obtidos reforçar a idéia de se dispor preferencialmente de
individualmente para cada estiagem. dois eventos para a aplicação do método, pode-se
O conhecimento de um evento múltiplo de afirmar que o ajuste de mais estiagens (n > 1) evita
estiagens significa ter-se, na realidade, vários con- que alguma tendenciosidade, que tenha passado
juntos esporádicos de vazões avaliadas em campo, despercebida do usuário, afete significativamente
sem que isso constitua um verdadeiro conhecimen- uma avaliação realista da disponibilidade hídrica.
to do fluviograma, espelho da produção hídrica da Neste sentido, pode ser recomendável a
bacia. instalação de um pluviômetro simplificado em lugar
Para verificar a diminuição da incerteza conveniente, junto aos domínios da pequena bacia
com um certo evento de n estiagens, à medida que e da residência de um morador local. Desta forma,
n aumenta, foram geradas por Monte Carlo conjun- poder-se-ia desenvolver uma avaliação mais par-
tos adicionais de pares de parâmetros Cinf-Kb. cimoniosa dos parâmetros do modelo, diminuindo
Consideraram-se as situações com n=2, n=3 e os riscos de falta de representatividade da precipi-
n=10, para cada bacia. Para n=2 foram gerados tação regional para o caso especial daquela
500 pares de Cinf-Kb, tomando-se a média de cada estiagem avaliada. No passo seguinte, para a ge-

126
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Tabela 3. Erro padrão das estimativas em percentuais do valor médio esperado.

o
BACIA (calha) A N de de- r* r* r* r* r* r*
(km2) pleções 50% 60% 70% 80% 90% 95%
por evento
1 19,40 19,88 20,26 21,17 24,10 26,04
SÃO JACÓ 8,98 2 13,95 14,49 14,77 15,22 17,22 18,62
3 12,12 12,46 12,79 13,07 14,80 16,21
10 6,73 6,98 7,21 7,42 8,61 8,97

1 12,77 16,45 20,89 25,49 35,29 41,07


SCHNEIDER II 3,23 2 8,64 11,11 14,41 18,06 25,58 29,82
3 6,74 8,83 11,26 14,01 20,69 25,00
10 3,94 4,70 5,58 6,92 9,09 14,29

1 14,07 14,48 15,33 16,32 19,25 22,55


SCHNEIDER I 6,13 2 9,95 10,20 10,80 11,42 13,04 15,69
3 7,83 8,15 8,69 9,34 10,56 12,75
10 3,86 4,08 4,22 4,50 5,00 7,77

1 12,59 13,35 14,31 15,99 20,68 23,71


CARPINTARIA 10,78 2 9,23 9,77 10,32 11,59 14,94 17,28
3 7,68 8,07 8,51 9,48 12,30 13,84
10 4,00 4,17 4,41 4,78 6,32 7,02

1 21,38 22,16 22,84 23,69 26,69 28,71


V. DIREITO 6,88 2 15,11 15,61 16,02 16,46 18,52 20,20
3 12,05 12,54 12,89 13,31 15,10 16,75
10 4,11 6,64 6,94 7,25 8,36 9,31

1 15,28 16,25 17,75 19,81 24,29 28,45


V.ESQUERDO 5,92 2 11,39 12,05 13,17 14,52 17,88 21,37
3 9,27 9,88 10,69 11,90 15,08 18,10
10 5,30 5,58 6,22 7,05 8,33 10,26

1 15,91 14,69 18,56 20,41 25,05 28,42


MÉDIAS 2 12,02 12,20 13,24 14,54 17,86 20,04
3 11,92 9,98 10,80 11,85 14,75 17,10
10 4,65 5,35 5,76 6,32 7,61 9,60
Onde r* é o erro padrão das estimativas em percentuais do valor médio esperado.

ração da série histórica de vazões para a pequena conforme recomendação da própria publicação (Tuc-
bacia, poder-se-ia utilizar a precipitação regional do ci, 1991). Entretanto, na ausência de metodologia
longo período disponível de dados, utilizando os pa- concorrente, muitas vezes o método é aplicado inde-
râmetros avaliados em função da chuva local. vidamente. Pretende-se, neste item, comparar os
resultados de uma aplicação como esta, com os obti-
dos neste trabalho.
COMPARAÇÃO DAS SÉRIES GERADAS E A comparação das curvas de permanência do
A REGIONALIZAÇÃO estudo regional com as curvas obtidas com o monito-
ramento das calhas produziria, a princípio, uma
Inicialmente, deve-se considerar que não e- análise tendenciosa, visto que as curvas regionais
xiste um estudo de regionalização da curva de foram elaboradas a partir de séries mais extensas (20
permanência para pequenas bacias do Rio Grande do anos em média), e as curvas observadas foram cons-
Sul. O estudo disponível abrange médias e grandes truídas com os dados de vazão de uma série curta
bacias e não deve ser aplicado em pequenas bacias, (1993-1995).

127
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

Para analisar esta possível tendenciosidade, Para outras regiões do Rio Grande do Sul,
foram comparadas as curvas de permanência gera- nada pode ser afirmado. As comparações realiza-
das com dados de precipitação de um período mais das não autorizam a dizer que o mesmo se
longo (1975-1995), e as geradas com as precipita- reproduziria em outras regiões do Estado. Pode
ções do curto período acima referido. O período curto, haver casos em que a extrapolação da regionaliza-
de monitoramento das calhas, apresenta precipita- ção estime curvas de permanência em pequenas
ções em torno de 7% mais elevadas. bacias mais próximas da realidade, assim como o
O modelo chuva-vazão foi aplicado para contrário pode se verificar. Somente será possível
avaliar a repercussão na curva de permanência chegar a alguma conclusão mais firme quando
desses 7% a mais. Para cada bacia, e para ambos houver dados de vazão suficientes para pequenas
os períodos considerou-se, evidentemente, um bacias em todo o Estado. A título ilustrativo, entre-
mesmo jogo de parâmetros, Kb e Cinf. O jogo de tanto, pode-se fazer uma projeção de retorno
parâmetros considerado para cada bacia (cada econômico no projeto de PCHs, considerando-se
jogo simulando ambos os períodos) correspondeu que as estimativas encontradas possam ser extra-
aos parâmetros médios de todos os ajustes do poladas para todo o Estado. Para potencial
modelo aos eventos individuais (Figuras 1 e 2). Na hidrelétrico remanescente de 6000 MW (Rio Gran-
Figura 11 são apresentadas, para duas das bacias de do Sul, 1986) em pequenas e micro-centrais,
estudadas, as curvas de permanência calculadas e considerando-se um aproveitamento de 50% da
a curva observada. Observa-se que os 7% a mais potência e uma tarifa média de energia de R$ 40,
da precipitação do curto período produziu uma uma subestimação sistemática das vazões em 75%
elevação dos escoamentos, avaliada em média em pode deixar sem aproveitamento uma riqueza anu-
5% para as seis bacias. Esta diferença pode ser al da ordem de 800 milhões de reais (6000
considerada pequena, significando na prática, que MW x 8760 h x 50% x 40 R$/MW x 0,75).
é possível realizar a comparação direta da curva de A incerteza que cerca a aplicação do estu-
permanência gerada pelos estudos regionais, com do de regionalização disponível (Tucci, 1991), de
a curva de permanência observada nas calhas. Por forma extrapolada para pequenas bacias, não deve
outro lado, a curva de permanência gerada pelo ser entendida como uma deficiência da técnica da
modelo com chuvas de 1975 a 1995 tem boa ade- regionalização. Provavelmente, no caso de exis-
rência à curva de permanência do período de tência de dados suficientes de pequenas bacias, a
monitoramento (1993 a 1995), o que reforça mais a regionalização e o método proposto neste estudo
possibilidade dessa comparação. seriam métodos concorrentes de estimativa da
Na Figura 12 apresenta-se, para duas bacias,
curva de permanência.
a curva de permanência observada, a curva estimada
com base numa amostra (n=1), o intervalo de confi-
ança e a curva obtida pela regionalização. Pode-se
CONCLUSÕES
observar que neste caso, a regionalização subestima
os resultados.
A diferença média porcentual, para todas Este estudo apresenta:
as bacias, foi avaliada em pouco menos de 80% no
trecho inferior da curva de permanência. Isto é, · uma alternativa à ausência de metodologia
houve uma subestimação das vazões dessa ordem para a quantificação de vazões medianas e
pela regionalização. Este resultado poderia indicar mínimas de pequenas bacias em regiões,
uma evidente inaplicabilidade do estudo regional cujos pequenos mananciais estão despro-
disponível. Entretanto, é preciso verificar se a curva vidos de dados fluviométricos - uma
de regionalização obtida com dados de bacias realidade quase constante no território bra-
médias e grandes, pode comportar-se como reali- sileiro;
zação estatística possível da estimativa do método · a estratégia de algumas medições locais
proposto, visto as suas incertezas. Via de regra, em períodos de estiagem associada ao
constata-se que a estimativa da regionalização cai modelo precipitação-vazão, permite a esti-
fora dessas bandas de confiança (Figura 12), o mativa da curva de permanência em bacias
que, na prática, é um indicativo consistente de que pequenas com erro aceitável.
a extrapolação forçada para pequenas bacias do
estudo regional não produz bons resultados. Entre- A estimativa obtida pela metodologia pro-
tanto, as equações de regressão para a região do posta não depende de parâmetros, equações
Estado das bacias estudadas são precárias (Tucci, regionais ou coeficientes de regiões definidas como
1991), o que coloca mais incerteza nesta compara- hidrologicamente homogêneas. Como o procedi-
ção. mento depende da avaliação específica de

128
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

Bacia: São Jacó


0,30 calculada para o
longo período 75-
95
Vazão (m3/s) 0,20 calculada para o
curto período 93-
95
0,10 Curva de
permamência
observada 93-95
0,00
% tempo
40 50 60 70 80 90

Bacia: Schneider 1
0,16 calculada para o
longo período 75-
0,12 95
Vazão (m3/s)

calculada para o
0,08 curto período 93-
95

0,04 Curva de
permamência
observada 93-95
0,00
40 50 60 70 80 90 % tempo

Figura 11. Curvas de permanência sintetizadas pelo modelo para o longo e o curto período de
precipitação considerado, com o mesmo jogo de parâmetros Cinf e Ksub – Bacias de Schneider 1
e Vale Esquerdo.

Bacia: Esquerdo
0,16
0,14 média das
0,12 estimativas
Vazão (m3/s)

0,10 (1 evento) +
95%
0,08
(1 evento) -
0,06 95%
0,04 curva regional
0,02
0,00 % tempo
40 50 60 70 80 90

Bacia: Schneider 2
0,08 média das
0,07 estimativas
0,06 (1 evento) +
Vazão(m3/s)

0,05 95%
0,04 (1 evento) -
0,03 95%
0,02 curva regional
0,01
0,00
40 50 60 70 80 90 % tempo

Figura 12. Limites de confiança do método proposto e a estimativa da regionalização. Bacias de


Vale Esquerdo e Schneider 2.

129
Quantificação de Vazão em Pequenas Bacias sem Dados

medições de vazões na seção fluvial de interesse, de uma série cronológica de vazões com um nível
o resultado de sua aplicação para outras bacias de informação mais realista que outros métodos
teria as mesmas dificuldades encontradas nas sem vinculação local poderiam fornecer.
estimativas desenvolvidas para as bacias monito-
radas produzindo, consequentemente, resultados
semelhantes. O procedimento não depende de REFERÊNCIAS
ajustes prévios, mas de uma interação direta com o
o
manancial a ser avaliado. Em resumo, a metodolo- BRASIL 1997, Lei n 9433 de 8 de janeiro de.
gia proposta reduz-se a um balanço hídrico Institui a Política Nacional de Recursos
desenvolvido especificamente para a seção fluvial Hídricos, cria o Sistema Nacional de
de interesse e incorre nos erros usuais e inerentes Gerenciamento de Recursos Hídricos,
a este tipo de avaliação, dependendo da qualidade regulamenta o inciso XIX do artigo 21 da
dos ajustes desenvolvidos e da qualidade dos da- Constituição Federal e altera o artigo 1 da lei
o
dos disponíveis. 801 de 13 mar. 1990, que modifica a lei n
A vazão, em determinada seção fluvial, é 7990 de 28 dez. 1989.
uma variável integradora da resposta da bacia ELETROBRÁS 1983. Manual de Pequenas
hidrográfica aos impulsos de precipitações e eva- Centrais Hidrelétricas. Ministério das Minas e
potranspirações locais, ao longo do tempo. Em Energia.
períodos de estiagem, as vazões são a resposta do DINGMAN, S. L. 1978. Sintesys of flow-duration
sistema aos impulsos de precipitação, ou melhor curves for unregulated streams in New
explicitando, à ausência de impulsos de precipita- Hampire. In: Water Resour. Bull., 14 (6), 1481-
ção no sistema. Desta forma, a avaliação de 1502.
vazões em período de estiagem, caracteriza a ofer- DNAEE 1991. Boletim das Estações
ta hídrica do sistema não produzida como Fluviométricas. Ministério das Minas e
conseqüência do escoamento superficial na bacia. Energia.
As estimativas pelo método devem ocorrer DORFMAN, R. 1977. Critérios para avaliação de
nas vizinhanças dos valores verdadeiros procura- alguns métodos de cálculo da
dos, conseqüência do balanço hídrico Evapotranspiração Potencial. Porto Alegre,
desenvolvido, conforme visualiza-se na nuvem de UFRGS. v.138f. Dissertação (Mestrado).
previsões para as seis pequenas bacias estudadas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O erro padrão médio das estimativas avaliado para Programa de pós-graduação em Hidrologia
as bacias estudadas, pode ser considerado satisfa- Aplicada.
tório, variando, em função do número de eventos FENNESSEY, N. E. & VOGEL, R. M. 1990.
conhecidos, em até 30% dos valores observados. Regional flow duration curves for ungages
Assim, a metodologia proposta caracteriza sites in Massachussets. J. Water Resourses
uma solução alternativa para a avaliação de dispo- Planing and Management, 116 (4).530-549.
nibilidades hídricas quando a regionalização não FOREMA. 1996. Fórum de Energia e Meio
produz bons resultados, ou precisa ser extrapolada Ambiente do Rio Grande do Sul. Anais do
quando não há tempo para o monitoramento contí- Encontro. Universidade Federal de Santa
nuo com registradores automáticos por um período Maria.
determinado de tempo (2 a 5 anos). Mesmo quan- HAAN. C. T. 1989. Parametric Uncertaint in
do a regionalização produz bons resultados por Hydrologic Modeling. American Society of
coeficientes de outras bacias de magnitude seme- Agricultural Enginers, Vol. 32 (1). p.137-145.
lhante, deve-se avaliar que o método proposto KAVISKY, E. & FIOR, M. T. A. B. 1985.
produz resultados a partir de coeficientes definidos Regionalização de Curvas de Permanência de
para a própria bacia alvo do estudo. Vazões Médias Diárias em Pequenas Bacias
A robustez do método reside na vinculação Hidrográficas do Estado do Paraná. In:
local proporcionada pelas vazões reais, medidas in Simpósio Brasileiro de Hidrologia e Recursos
loco. Também o funcionamento mais estável das Hídricos, 6 e Simpósio Internacional de
depleções, facilmente identificáveis com esvazia- Recursos Hídricos em Regiões
mento de aqüíferos, permite uma estimativa mais Metropolitanas. Anais, ABRH Vol. 3, p.188-
confiável dos parâmetros do modelo de balanço 200.
hídrico. Sendo apenas dois os parâmetros sugeri- KLEMES, V. 1986. Operacional testing of
dos ao modelo de balanço hídrico, o cotejo entre o hidrological simulation models. Hidrological
histórico das precipitações e evaporações, com a Science Journal, 31 (1), p.13-24.
depleção medida, propicia, por sua vez, a geração

130
RBRH - Revista Brasileira de Recursos Hídricos Volume 3 n.3 Jul/Set 1998, 111-131

MURDOCK, R. S. & GULLIVER, J. S. 1993. Quantifying Flow in Small Basins


Prediction of river discharge at ungaged sites
with analysis of uncertainty J. Water Resour. Without Records
Plng. and Mgmt.,119 (4).473-487.
MIMIKOU, M., & KAEMAKI, S. 1985. ABSTRACT
Regionalization of flow duration
characteristics. J. Hydrol.,82,77-91 Water resource management is hampered
QUIMPO, R. G., ALEJANDRINO, A. A. & by uncertainties caused by a lack of data from small
MCNALLY, T. A. 1983. Regionalized flow basins. At present, no reliable method exists for
duration curves for Philippines. J. Water estimating water availability in the absence of data;
Resour. Plng. and Mgmt. 109 (4), 320-330. this limits the extent to which small streams can be
REFSGAARD & KNUDSEN. 1996. Operacional exploited for hydropower production, irrigation or
validation and intercomparison of diferent urban water supply, and also limits the usefulness
types of hydrological models. Water Resour. of both water quality assessment and the data-base
Res., 32 (7). p 2189-2202. needed to inform planners granting licenses for
RIO GRANDE DO SUL 1986. Companhia Estadual water use. This paper proposes a method based on
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Sul: relatório. Relátorio. Não paginado. chronologically-complete discharge sequence
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RIO GRANDE DO SUL 1994. Lei n 10350 de 30 (hydrograph), thereby synthesizing information
de dezembro de 1994. Institui o Sistema otherwise obtained only by conventional discharge
Estadual de Recursos Hídricos e regulamenta monitoring . Supplemented by rapid visits to the
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Grande do Sul. Porto Alegre. 31des. using a rainfall-runoff model with just two
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Estimativa de Disponibilidade Hídrica. Artigo
submetido a RBRH de forma associada a
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131

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