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Defensoria Pública – MG

TUTELAS COLETIVAS

Professor José Roberto Mello Porto

AULA 01

22/08/2018

Bloco 1

Professor faz uma breve apresentação sobre suas aprovações, e dá início a aula
falando sobre a divisão das matérias. De um tempo para cá os editais têm cobrado mais
sobre a Tutela coletiva, e a ideia do Professor é trazer as matérias mais cobradas nas
últimas provas.

Em um primeiro momento o professor fala sobre o conceito de tutela coletiva,


afirmando que esse tema não é muito trabalhado nas universidades.

Temos que lembrar que a tutela é uma proteção dada a um direito material, pelo
exercício da jurisdição. A CF/88 garante que nenhuma lesão ou ameaça a lesão vai ficar
fora da apreciação do poder judiciário. Sendo assim, uma das funções do poder estatal
é o poder jurisdicional, Art.5, XXXV da CF/88, que consiste na proteção dos bens
jurídicos por parte do Estado, pelo Poder Judiciário. Quando provocado, o Estado
protege tal bem jurídico, tutelando-o.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: [...]

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XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a
direito;

A Doutrina então conclui que se essa tutela disser respeito aos bens jurídicos
transindividuais, ela será uma tutela coletiva. Logo a tutela coletiva é aquela que protege
bens transindividuais, bens coletivos.

OBS: os direitos individuais homogêneos também estão incluídos nesse conceito.


Lembrar que o certo é falar a palavra no plural, pois não existe apenas um direito
individual homogêneo.

Uma segunda corrente vai dizer que o processo coletivo, para ter esse aspecto
de proteção, necessita de trazer 3 elementos:

 Legitimidade ou legitimação
 Coisa julgada
 Objeto/Direito tutelado

Então a tutela é o fruto do exercício da função jurisdicional e o processo é o meio


que permite a garantia de se chegar a esse fruto.

Ação coletiva: será a demanda que leva a iniciar esse processo coletivo. Logo temos
uma ação que seria o primeiro momento que vai deflagrar o processo, e se tudo correr
bem, levará a uma tutela.

O processo coletivo é classificado por parcela da doutrina, destacando Gregório


Assagra de Almeida, membro de MP do Estado de MG, como processo coletivo comum
e processo coletivo especial.

O processo coletivo comum tem como objeto um bem jurídico transindividual


ou tratado coletivamente por opção legal, em outras palavras, é o processo que tem
como objetivo direitos latu sensu, que podemos incluir os direitos difusos, os direitos
coletivos em sentido estrito e os direitos individuais homogêneos. Nesse processo
coletivo comum, nós teremos um conflito real, no mundo dos fatos, ainda que seja uma
tutela inibitória, mas deve ser um dano aferível.

O processo coletivo especial tem como objeto a compatibilidade de uma


norma com a constituição. Uma compatibilidade que pode ser aferível em tese,
abstratamente. Diz respeito as ações de controle concentrado de constitucionalidade,

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pois todas as normas devem ser compatíveis com a CF/88. Na verdade não há um
conflito, a norma é vista em teses e a discussão gira em torno da compatibilidade da lei.

Essas classificações também são adotadas pelo Ministro Teori Sawazki e o


próprio professor.

Ainda sobre as classificações, a doutrina ensina, com exemplo Aluisio Mendes,


que existem 3 métodos de proteção de direitos transindividuais, de solução coletivas de
conflitos.

1º. Ações coletivas


2º. Procedimentos-modelo
3º. Meios extrajudiciais de resolução de conflitos coletivos.

Além dessa possibilidade nos temos mais duas outras vias que a doutrina aponta
como caminhos possíveis para a solução de conflitos coletivos. A segunda via são esses
procedimentos-modelo que a doutrina chama também de tutela plurindividual, que se
refere aquela resolução dos chamados casos respetivos, elencados no art. 928 do CPC.
Nós temos nesse caso uma tutela plurindividual pois se resolve várias ações a partir de
um mesmo julgamento paradigma.

Art. 982. Admitido o incidente, o relator:

I - suspenderá os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitam


no Estado ou na região, conforme o caso;

II - poderá requisitar informações a órgãos em cujo juízo tramita processo no


qual se discute o objeto do incidente, que as prestarão no prazo de 15 (quinze)
dias;

III - intimará o Ministério Público para, querendo, manifestar-se no prazo de 15


(quinze) dias.

§ 1o A suspensão será comunicada aos órgãos jurisdicionais competentes.

§ 2o Durante a suspensão, o pedido de tutela de urgência deverá ser dirigido ao


juízo onde tramita o processo suspenso.

§ 3o Visando à garantia da segurança jurídica, qualquer legitimado mencionado


no art. 977, incisos II e III, poderá requerer, ao tribunal competente para conhecer
do recurso extraordinário ou especial, a suspensão de todos os processos
individuais ou coletivos em curso no território nacional que versem sobre a
questão objeto do incidente já instaurado.

§ 4o Independentemente dos limites da competência territorial, a parte no


processo em curso no qual se discuta a mesma questão objeto do incidente é
legitimada para requerer a providência prevista no § 3o deste artigo.

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§ 5o Cessa a suspensão a que se refere o inciso I do caput deste artigo se não
for interposto recurso especial ou recurso extraordinário contra a decisão
proferida no incidente.

O professor conceitua em seu livro as ações coletivas como tutelas coletivas pela
via principal, o pedido principal é a tutela coletiva, e a segunda via que são os
procedimentos pilotos, como tutela coletiva pela via incidental, pois se inicia por um
incidente temos uma tutela de grande coletividade.

A terceira via são os meios extrajudiciais de conflitos coletivos, como uma


autocomposição coletiva, recomendação administrativa, inquérito civil no caso do MP.
Logo, nos dias atuais nós temos várias outras saídas extrajudiciais, que são prioritárias
segundo o art. 3 da CPC e do art. 4, II da Lei complementar 80/94, que é a leio orgânica
da Defensoria Pública. Além disso há quem considere as ações de controle concentrado
de constitucionalidade como uma forma de Tutela coletiva.

Art. 3o Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito.

§ 1o É permitida a arbitragem, na forma da lei.

§ 2o O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos


conflitos.

§ 3o A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de


conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e
membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial.

Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras: [...]

II – promover, prioritariamente, a solução extrajudicial dos litígios, visando à


composição entre as pessoas em conflito de interesses, por meio de mediação,
conciliação, arbitragem e demais técnicas de composição e administração de
conflitos;

Sobre o histórico da tutela coletiva: iremos focar na evolução legislativa do


tratamento legal da tutela coletiva.

A. Tutela coletiva no mundo:

Temos que lembrar que nos países de civil low, que seguem a tradição Romano
Germânica, a doutrina em geral vai buscar como referência afastada dos nossos dias,
a chamada ação popular, que é a possibilidade de um cidadão tutelar a coisa pública,
a res publica. Ideia difusa dos bens públicos já existia no direito romano, que começou
com uma feição penal, buscando sanções penais, e depois foi evoluindo para aspectos

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civis e administrativos. Isso desapareceu com a queda do direito romano, mas voltou a
aparecer na Bélgica em 1836, na França em 37 e na Itália em 59.

No Brasil a ação popular esteve presente em quase todo o nosso ordenamento


jurídico aparecendo com as ordenações Filipinas, e quase todas as constituições
mencionam a ação popular.

Nos países do comom low, a doutrina vai buscar a influência do direito inglês,
seja no período medieval em que havia certos grupos que eram representados pelos
líderes, no século XII, seja posteriormente nas chamadas courts of legacy ou courts of
changery. Nessas cortes, percebendo quão ruim era a exigência de todos os
interessados para se formar coisa julgada, foram criados no Bill of Peace Inglês, no sec.
XVII, em que se pedia, que a partir de uma ação individual o resultado fosse coletivo.
Podemos fazer um paralelo com a conversão da ação individual em ação coletiva, que
chegou a estar prevista no CPC de 2015, no art.333, mas foi vetado pela Presidência
da República.

Bloco 2

Visto esses antecedentes mais remotos, vamos para os precedentes mais


próximos.

Podemos apontar 2 elementos;

1º. Ideia de gerações ou dimensões do direitos:

Podemos afirmar que existe uma evolução nessa linha, onde em um primeiro
momento havia uma grande preocupação com os direitos de liberdade, que eram
aqueles direitos de não fazer Estatal, mas ele não satisfazia todas as pretensões. Por
conta disso em um segundo momento nós falamos em um direito de igualdade, um fazer
do Estado para garantir efetivamente, igualdade material para os cidadãos. O nosso
foco é na terceira geração ou dimensão que é o da Fraternidade, que seria uma
fraternidade entre gerações.

Além de se preocupar na relação do cidadão e o Estado, seja em uma abstenção


seja em uma ação, se percebeu que não existem direitos que pertençam apenas a um
cidadão ou a um grupo especifico mas sim amplamente a coletividade, é dai que nasce
a concepção de que existam direitos que pertençam a mais de uma pessoa, ou até a

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todas as pessoas. Por conta disso as gerações presentes devem se preocupar com as
gerações futuras.

2º. Ondas renovatórias oriundas do chamado Projeto Florença, capitaneado


por Mauro Cappelletti e Bryant Garth:

Essas ondas são basicamente 3:

a. Acesso do hipossuficiente econômico, ao processo, em outras palavras, o


acesso do pobre ao processo. Por conta disso se percebeu nesse estudo que
em varias situações os pobres ficavam alheio ao sistema judiciário. Por conta
disso se preocupou com a criação de meios dos pobres para custear o acesso
ao processo. Isso está ligado diretamente com a atuação da Defensoria Pública.
Além da oportunidade de ter um advogado temos também a gratuidade da
justiça, sendo que esses dois juntos se complementam em alguma medida, o
que permite que se ultrapasse essa primeira onda.
b. A tutela dos direitos coletivos em sentido amplo: o sistema jurídico não estava
preparado para tutelar direitos coletivos em sentido amplo.
c. Ainda temos a terceira onda que esta direcionado para o aperfeiçoamento dos
direitos, que tentaria a modificação dos procedimentos, o estímulo a solução
consensual do litigio.

Essas ondas renovatórias tiverem enorme influência na tutela coletiva em todo o mundo.

3º. Questão da sociedade de massa, sec. XX, massificação dos litígios:

A partir da revolução industrial passou-se a produzir muito mais, e com isso


ocorreu o consumo de massa, que se liga por um contrato de massa, contrato
massificado, que se repete em um numero gigante de consumidores e fornecedores. O
problema ocorre quando há os litígios de massa, gerando os conflitos massificados.
Especificamente, podemos citar os chamados litígios de massa ou agregados, que são
aqueles relacionados com os direitos individuais homogêneos, agregação de litígios
individuais.

Por conta disso devemos obter outros meios de acesso à justiça, que não
houvesse grande custo. Os danos nesses casos podem ser irrisórios, quando pensado
individualmente, mas coletivamente, na soma desses danos, o dano total é enorme.
Então a sociedade de massa também tem uma influência sobre esses danos.

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B. Histórico da Tutela coletiva no Brasil:

Podemos citar um grande numero de leis que trouxeram a tutela coletiva para o
nosso país, como por exemplo, no ano de 63, que permitiu que a OAB representasse
todos os advogados, mas em geral podemos pensar em 4 marcos principais no
desenvolvimento da tutela coletiva no nosso país:

 A lei de Ação Popular, Lei 4.717/65:

Ela trouxe para nós, em um primeiro momento, a ideia do patrimônio público que
depois, em 77 foi ampliado para receber a ideia do patrimônio turístico. Na CF/88 passou
a mencionar como objeto da ação popular, o meio ambiente, a moralidade administrativa
e o patrimônio histórico e cultural (art. 5, LXXIII da CF/88).

[...] LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise
a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado
participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio
histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas
judiciais e do ônus da sucumbência;

A grande relevância dessa lei foi:

 Legitimidade ativa do cidadão


 Legitimidade bifronte, que trouxe a possibilidade do ente público, que inicia como
réu, se tornar litisconsorte do autor
 Coisa julgada material secundum eventos litis e secundum eventum probationis,
duas designações que até hoje se mantém no microssistema de tutela coletiva,
prevista no CDC.
 Possibilidade de execução obrigatória daquela decisão proferida naquele título
executivo constituída na ação popular
 Reexame necessário na ação popular, em segundo grau.

Depois dessa lei, temos a lei de proteção ao meio ambiente, Lei 6.938/81, a lei
orgânica do MP teve uma grande novidade trazendo essa função do MP de proteção
dos direitos difusos e coletivos.

 Lei de Ação Penal Civil Pública, Lei 7.347/85:

É uma lei fundamental dentro do microssistema de tutela coletiva. Um dos


marcos foi ter trazido no artigo 1, um rol de direitos tuteláveis. Hoje, lendo esse rol
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podemos presumir que é um rol exemplificativo, mas em sua versão originária foi vetada
essa cláusula geral, então existia um rol aparentemente taxativo, mas de todo modo era
uma grande evolução pois não havia antes.

Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as
ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados

l - ao meio-ambiente;

ll - ao consumidor;

III a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico;


III à ordem urbanística

III – a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico;

IV (VETADO).
IV a qualquer outro interesse difuso ou coletivo.
IV a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico

IV - a qualquer outro interesse difuso ou coletivo

V por infração da ordem econômica


V a qualquer outro interesse difuso ou coletivo
V por infração da ordem econômica e da economia popular;

V - por infração da ordem econômica

VI por infração da ordem econômica

VI - à ordem urbanística.

VII – à honra e à dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos. VIII – ao


patrimônio público e social.

Parágrafo único. Não será cabível ação civil pública para veicular pretensões
que envolvam tributos, contribuições previdenciárias, o Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço - FGTS ou outros fundos de natureza institucional cujos
beneficiários podem ser individualmente determinados

Outro grande passo importante foi trazer um rol de legitimados ativos, no art. 5,
rol bastante amplo. Outro elemento importante trazido por essa lei foi o tratamento do
inquérito civil, instrumento exclusivo do MP. E o ultimo elemento que a doutrina aponta
como sendo importante é o papel do MP como fiscal da lei, quando ele não for legitimado
ativo, ou assumir o caso quando houver o abandono pelo legitimado ativo.

Curiosidade: porque ação civil pública? Ela se refere em um primeiro momento


ao papel do MP, pois ele tinha duas espécies de ação que poderia ajuizar: uma ação
penal ou uma ação civil que era pública, pois movida por um ente público. Logo em um

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primeiro momento esse termo ação civil pública nasce dessa ideia de uma ação, que
não é penal, e não é privada.

C. Terceiro marco apontado pela doutrina, é a CF/88:

Com a CF/88, trouxe o tratamento do direito coletivo como um direito


fundamental. Isso está expresso em dois momentos: no capitulo que trata dos direitos
fundamentais, a CF traz em seu título como “direitos e deveres individuais e coletivos”
deixando claro que há uma ampliação do leque de direitos garantidos pela CF/88, não
mais restrito a uma perspectiva individualista.

Outro elemento que a doutrina traz, é que p art. 5, XXXV da CF/88 não se fala
mais em lesão ou ameaça a lesão a direito individual, somente. Hoje a inafastabilidade
da jurisdição não traz mais essa delimitação. Podemos pensar também no art.6, além
de vários, como direito ao trabalho, ao lazer, entre outros.

Além disso a CF traz dois aspectos quanto a legitimidade para a tutela coletiva,
que são paradigmáticos, art. 5, XXI trouxe o direito de representação associativa, que é
a legitimidade das associações para representar os associados quando em juízo. Outro
artigo seria o artigo 8, III da CF/88, que trata da legitimidade sindical para a proteção
dos direitos e interesse daquela categoria, tanto em questões judicias como em
questões administrativas.

XXI - as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm


legitimidade para representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente;

Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: [...]

III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais


da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; [...]

Bloco 3

A CF/88 também ampliou os objetos da ação popular, como já foi falado, e


incorporou para o plano constitucional, a ação civil pública, que já existia no plano legal,
que não só tratou como também ampliou o seu objeto, no art. 129, III da CF/88. Além
dos direitos já garantidos como o da proteção do patrimônio público e cultural, e do meio
ambiente, agora existe uma cláusula de abertura, havendo a ampliação do objeto, onde
é mencionada o termo “outros interesses difusos e coletivo”.

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Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: [...]

III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio
público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos;

Além do mais a CF/88 em sua redação originária, criou o Mandado de segurança


coletivo, art. 5, LXX da CF/88. Só em 2009 que esse objeto foi mais esmiuçado. Logo
podemos concluir que a CF/88 trouxe inovações no plano substanciais no direito
fundamental, e depois dá instrumentos para que fossem efetivados esses direitos.

Último aspecto que temos que lembrar na CF/88, em seu ADCT, no art. 48,
trouxe a obrigação de criar um código e defesa do consumidor, com prazo de 120 dias
para que o congresso elaborasse tal código. O congresso não atendeu a tal prazo mas
no ano de 90 o código foi publicado.

Art. 48. O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação


da Constituição, elaborará código de defesa do consumidor.

Quarto marco é o código de defesa do consumidor:

A Lei 8.078/90 trouxe um regramento rico sobre a tutela coletiva. Aluísio Mendes
chama o CDC de um modelo estrutural para as ações coletivas no Brasil, e para Didier,
Hermes Zaneti, o título terceiro do CDC é um verdadeiro código brasileiro sobre o
Processo Coletivo.

Um dos aspectos importante seria a conceituação dos direitos tuteláveis,


inclusive acrescentando nesse rol os direitos individuais homogêneos. Além disso, o
CDC alterou a lei da ação civil pública, acrescentando a possibilidade de se firmar um
TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), e passou a mencionar também a
possibilidade de um litisconsórcio inclusive de Ministérios Públicos diversos, mutatis
mutandis. O CDC também traz um regramento da extensão subjetiva da coisa julgada,
art. 103 se refere a produção de efeitos daquela sentença coletiva que transita em
julgado. O tratamento da litispendência também, em relações as ações individuais, em
se tratando de direitos individuais homogêneos, também é outra novidade que está no
art. 104.

Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará coisa
julgada:

I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por


insuficiência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar

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outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova prova, na hipótese do
inciso I do parágrafo único do art. 81;

II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo


improcedência por insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior, quando
se tratar da hipótese prevista no inciso II do parágrafo único do art. 81;

III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar


todas as vítimas e seus sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único
do art. 81.

§ 1° Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudicarão


interesses e direitos individuais dos integrantes da coletividade, do grupo,
categoria ou classe.

§ 2° Na hipótese prevista no inciso III, em caso de improcedência do pedido,


os interessados que não tiverem intervindo no processo como litisconsortes
poderão propor ação de indenização a título individual.

§ 3° Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com o


art. 13 da Lei n° 7.347, de 24 de julho de 1985, não prejudicarão as ações de
indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas individualmente ou na
forma prevista neste código, mas, se procedente o pedido, beneficiarão as
vítimas e seus sucessores, que poderão proceder à liquidação e à execução,
nos termos dos arts. 96 a 99.

§ 4º Aplica-se o disposto no parágrafo anterior à sentença penal


condenatória.

Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo único


do art. 81, não induzem litispendência para as ações individuais, mas os efeitos
da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem os incisos II e III do
artigo anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se não for
requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a contar da ciência nos autos
do ajuizamento da ação coletiva.

Além dessas previsões relevantes, o CDC também traz outros regramentos


processuais, como a vedação da denunciação da lide em desfavor do consumidor, a
previsão da competência para julgar ações que busquem indenização de danos,
descrito no art. 101, I, a possibilidade do uso de todos os meios processuais cabíveis
para a tutela dos direitos do consumidor.

Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços,


sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão observadas as
seguintes normas:

I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;

Visto isso, vamos passar a estudar o chamado microssistema de tutela


coletiva:

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Alguns vão chamar de mini sistema de tutela coletiva, como Ada Pelegrini, outros
vão chamar de sistema coletivo. Esse microssistema consiste em um conjunto de
normas que vão recomendar, exigir, uma interpretação coerente entre elas, uma
interpretação integrativa, a luz de certos princípios. Esse conjunto de normas devem ser
lidas de maneira coerente, que se da a luz dos princípios, que iremos estudar em
seguinte. Esses princípios motivam até o STJ a decidirem contrário as leis, mas que
seguem de acordo com esses princípios.

A doutrina fala que existe um núcleo duro, nesse microssistema, que é formado
pela lei da ação civil pública e o título terceiro do CDC. Esse núcleo duro é o tronco
central que se complementam.

Pergunta: entre elas existe prioridade? Existem 2 correntes:

 Didier e Zanetti, falam que se houver um choque deve aplica a lei da ação civil
pública, seguindo o art. 21, usando o termo “no que for cabível”.

Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e


individuais, no que for cabível, os dispositivos do Título III da lei que instituiu o
Código de Defesa do Consumidor.

 Para Nelso Neri Jr., a prioridade é o CDC sobretudo quando se tratar de tutela
dos consumidores.

Além desse núcleo duro existem normas esparsas, e surge outra dúvida:

Entre o núcleo duro e uma norma especifica, o que teremos que aplicar se houver esse
choque?

 Didier: deve ser aplicado o núcleo duro para gerar uma homogeneidade entre o
sistema.
 Almeida: aplica a lei específica, segue o regramento basilar da hermenêutica
jurídica: norma geral não derroga norma especial.
 Daniel Assumpção: aplica-se a lei mais benéfica no tratamento daquele direito.

Demonstração de relação entre normas especificas e o núcleo duro:

I. Prazo prescricional:

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 Primeira corrente da doutrina: vamos aplicar a norma daquele direito material,
pois não deve haver um tratamento específico na prescrição quando a tutela
coletiva. Se a pretensão diz respeito a uma indenização por dano moral, por
exemplo, se não for caso do CDC, deve ser aplicado o CC, com prazo de 3 anos.
 Segunda corrente (STJ): vai trazer a ideia de que o prazo prescricional na tutela
coletiva é de 5 anos, devido ao artigo 21 da Lei 4.717/65, de ação popular traz
esse prazo.

Art. 21. A ação prevista nesta lei prescreve em 5 (cinco) anos.

OBS: no que tange a Competência territorial para a ação popular, o STJ não aplica essa
regra do microssistema, aplicando aqui o CPC, não aplicando o CDC e nem a Lei de
ação civil pública.

II. Remessa necessária: segundo o art. 19 da Lei de ação popular, quando extinta
a ação popular sem julgamento do mérito ou for julgado improcedente a ação
popular, sobre essas duas decisões contrárias a pretensão inicial, vai haver uma
remessa necessária. Além da previsão do art. 496 do CPC que trata sobre a
remessa necessária que tutela os interesses da Fazenda Pública, temos uma
tutela às avessas, que não trata dos interesses da Fazenda mas o interesse do
legitimado coletivo.

Art. 19. A sentença que concluir pela carência ou pela improcedência da


ação está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito
senão depois de confirmada pelo tribunal; da que julgar a ação
procedente caberá apelação, com efeito suspensivo.

Art. 496. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito
senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: [...]

No CDC e na lei de ação civil pública, não existe remissão de remessa necessária, e o
STJ traz a lei de ação popular como regra geral do microssistema, aplicando essa
remessa necessária para as ações civis pública, ainda que não haja Pessoa Jurídica
Pública no polo passivo. Mas o STJ não aplica essa previsão para as ações civis
públicas que tutelem direitos individuais homogêneos.

A terceira turma do STJ entendeu assim, pois faltam dois elementos, que são
justamente os que justificam a importação desse comando como regra geral. O primeiro
é: não há uma representação da coletividade como um todo, mas sim uma agressão de

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litígios. O segundo é: o fato é que esses direitos não são transindividuais e sim direitos
individuas tutelados coletivamente. Por conta disso o STJ não aplica esse regramento
da remessa necessária.

Outra questão que também está pacificada no STJ é sobre as ações de improbidade
administrativa, deve ser aplicada esse regramento do art. 19 da lei de ação popular.

Para decorar: remessa necessária no processo coletivo:

1º. extinção sem resolução do mérito e sentença terminativa


2º. Julgamento de improcedência

Logo, se der errado para o legitimado coletivo, provavelmente vai ter remessa
necessária. A hipótese que isso não ocorre é na Ação civil pública para tutelar direitos
individuais homogêneos.

Bloco 4

Ainda sobre o núcleo duro e outras normas, o STJ entende que aquele juízo
prévio da lei de improbidade administrativa, só se aplica para as ações de improbidade
administrativa típicas, isso quer dizer que são para aquelas ações que veiculam o pedido
sancionador. Isso porque na improbidade administrativa nós podemos veicular um
pedido de sanção e um pedido de anulação do ato ilícito, por exemplo.

O STJ admite que esses pedidos podem ser veiculados em uma ação civil
pública comum, que se convencionou chamar de ação civil pública de improbidade
administrativa. O pedido sancionador só pode ser imposto por meio do procedimento de
improbidade administrativa típico, por assim dizer, e ele não prescinde daquela fase
prévia. Logo quando é ajuizado uma ação de improbidade administrativa há a
oportunidade daquele agente publico ou seu litisconsorte, se defender previamente, e
depois disso pode ser que se receba aquela inicial na improbidade administrativa. Esse
juízo inicial é fundamental para as ações de improbidade administrativa que buscam
sancionar aquele agente público e um particular que tenha agido em conluio com ele.

Outra questão importante é a interação com outras normas:

 ECA:

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O livro II, título IV, capítulo VII traz normas que dizem respeito a tutela coletiva
relativo aos direitos das crianças e dos adolescentes. Por exemplo no art. 210 traz a
legitimidade do MP, dos Entes público e das associações para essas ações de
improbidade administrativa.

Art. 210. Para as ações cíveis fundadas em interesses coletivos ou difusos,


consideram-se legitimados concorrentemente:

I - o Ministério Público;

II - a União, os estados, os municípios, o Distrito Federal e os territórios;

III - as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam


entre seus fins institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por
esta Lei, dispensada a autorização da assembléia, se houver prévia autorização
estatutária.

§ 1º Admitir-se-á litisconsórcio facultativo entre os Ministérios Públicos da União


e dos estados na defesa dos interesses e direitos de que cuida esta Lei.

§ 2º Em caso de desistência ou abandono da ação por associação legitimada, o


Ministério Público ou outro legitimado poderá assumir a titularidade ativa.

Art. 209, regramento especifico sobe a competência nessas ações, que não se
rege pelo local do dano, mas pelo local da ação ou omissão, o critério aqui é diferente.

Art. 209. As ações previstas neste Capítulo serão propostas no foro do local onde
ocorreu ou deva ocorrer a ação ou omissão, cujo juízo terá competência absoluta
para processar a causa, ressalvadas a competência da Justiça Federal e a
competência originária dos tribunais superiores.

Art. 213, falando sobre as astreinte, §3o, traz uma sistemática diferente da
execução dessas astreinte, dizendo que a execução fica condicionada ao trânsito em
julgado. Percebe que aqui existe uma dicotomia ao regramento do CPC/15, que adota
uma posição que o STJ já vinha entendendo assim, que seria, a multa já pode ser
executada de imediato, mas só pode levantar aquele valor, recebe-lo, após o trânsito
em julgado. Isso é bastante criticado pela doutrina, propondo que esse regramento seja
interpretado a luz do CPC de 2015, garantindo a imediata execução.

Art. 213. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou
não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.

§ 1º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de


ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou
após justificação prévia, citando o réu.

15
§ 2º O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa
diária ao réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou
compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o cumprimento do
preceito.

§ 3º A multa só será exigível do réu após o trânsito em julgado da sentença


favorável ao autor, mas será devida desde o dia em que se houver
configurado o descumprimento.

Ainda sobre o ECA, vamos falar agora sobre as custas.

A previsão que nós temos no art. 218, é desfavorável do que a previsão geral do
microssistema. No ECA quando a ação for manifestadamente infundada, existe o
pagamento de honorários, e quando houver má fé naquele ajuizamento a associação e
os diretores responsáveis pelo ajuizamento vão pagar 10x as custas mais perdas e
danos se for o caso.

Art. 218. O juiz condenará a associação autora a pagar ao réu os honorários


advocatícios arbitrados na conformidade do § 4º do art. 20 da Lei n.º 5.869, de
11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), quando reconhecer que a
pretensão é manifestamente infundada.

No caso do Processo coletivo como um todo, art. 18 da Lei de ação civil pública
e o art. 87 do CPC, não há o pagamento de custas e honorários, apenas se houver má-
fé. Não existe essa previsão do pagamento em razão da falta de fundamento manifesta
daquela ação coletiva. No ECA o que temos de diferente é que se a ação for
manifestadamente infundada já haverá o pagamento, e no resta só haverá pagamento
se houver má-fé.

Art. 18. Nas ações de que trata esta lei, não haverá adiantamento de custas,
emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem
condenação da associação autora, salvo comprovada má-fé, em honorários de
advogado, custas e despesas processuais.

Art. 87. Concorrendo diversos autores ou diversos réus, os vencidos respondem


proporcionalmente pelas despesas e pelos honorários.

§ 1o A sentença deverá distribuir entre os litisconsortes, de forma expressa, a


responsabilidade proporcional pelo pagamento das verbas previstas no caput.

§ 2o Se a distribuição de que trata o § 1o não for feita, os vencidos responderão


solidariamente pelas despesas e pelos honorários.

16
Embora se fale em associação, o STJ já admitiu que o MP e outros legitimados,
também pague essas custas, no caso do ajuizamento de má-fé. O STJ também,
recentemente, decidiu que se o MP vencer ele também não recebe honorários. Se o MP
ou legitimado qualquer perde, ele não paga honorários e não adianta custas, tendo isso
como um estímulo.

Pergunta: o réu também está dispensado do pagamento dos honoris? O STJ


tinha decisão de que o réu não paga honorários, seguindo a simetria, mas existia
decisões em sentindo contrário, que agora tendem a perder sua influência.

Outro entendimento do STJ, ainda sobre o MP, mas aplicável para a DP, seria
que o MP não adianta honorários, como por exemplo, honorários periciais. O
entendimento é que a fazenda pública respectiva é que deve pagar tais honorários
periciais. O STJ aplicou a súmula 232 por analogia, e estendeu isso para o MP, que
pode ser aplicado no caso da defensoria.

Súmula 232, STJ: A Fazenda Pública, quando parte no processo, fica sujeita à
exigência do depósito prévio dos honorários do perito

Decisão importante do Informativo 556, segunda sessão, do STJ, diz que esse
regramento se aplica as ações civil públicas, as ações coletivas em meteria de consumo,
a ação cautelar relativa a ação publica prevista no art. 4 da lei de ação civil pública, mas
isso não se aplica a uma ação rescisória que visa desconstituir um titulo executivo
judicial formado em uma ação coletiva e nem para incidentes processuais. Logo ela se
aplica para ação cautelar e para ação de conhecimento.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. ALCANCE DA REGRA DE ISENÇÃO DE


CUSTAS PROCESSUAIS DA LACP E DO CDC.

Não é possível estender a regra de isenção prevista no art. 18 da Lei


7.347/1985 (LACP) e no art. 87 da Lei 8.078/1990 (CDC) à propositura de
ações ou incidentes processuais que não estão previstos nos referidos
artigos. Isso porque a regra contida nos referidos dispositivos legais – que isenta
o autor de ações civis públicas e de ações coletivas do adiantamento de custas,
emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas –, por ser regra
de isenção tributária, deve ser interpretada restritivamente (art. 111 do CTN). Com
efeito, observa-se que as custas judiciais têm, de fato, natureza tributária, sendo
consideradas taxas nos termos do art. 145, II, da CF. Essa qualificação jurídica já
foi reiteradamente afirmada, tanto pela jurisprudência do STJ (REsp 1.107.543-
SP, Primeira Seção, DJe 26/4/2010 e REsp 1.199.760-DF, Primeira Turma, DJe

17
15/4/2011) quanto do STF (ADI 1.772 MC-MG, Pleno, DJ 8/9/2000). É possível,
portanto, o confronto entre as isenções estabelecidas na LACP e no CDC com a
regra do art. 111 do CTN. Nesse contexto, diante da necessidade de se conferir
às regras de isenção tributária interpretação restritiva, as disposições dos arts. 18
da LACP e 87 do CDC só impedem o adiantamento das custas judiciais em ações
civis públicas, em ações coletivas que tenham por objeto relação de consumo e
na ação cautelar prevista no art. 4º da LACP, não tendo o condão de impedir a
antecipação das custas nos demais tipos de ação, como, por exemplo, em ações
rescisórias ou em incidentes processuais. PET 9.892-SP, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 11/2/2015, DJe 3/3/2015.

Outra questão sobre as custas processuais e o entendimento o STJ, ele também


já aplicou esse regramento no caso de sindicatos, e entendeu que na execução essa
dispensa de adiantamento das custas não se aplica.

Princípios da Tutela Coletiva:

1. Princípio do ativismo judicial ou da máxima efetividade do processo coletivo:

O processo deve ser o mais efetivo possível, deve-se buscar a sua máxima
efetividade, ou seja, trazer para o mundo dos fatos aquela decisão judicial, dando um
papel ativo para o juiz.

Um primeiro elemento desse principio é a gama de poderes do juiz, ou seja, o


juiz em um processo coletivo tende a ter mais poderes. Com o CPC de 2015, o art. 139
traz um rol de poderes do juiz, trazendo uma postura mais inquisitiva o juiz. Exemplo
seria a possibilidade de o juiz poder inverter a ordem de produção de provas, dilatar
prazos em geral, pode marcar uma audiência de conciliação ou mediação, entre outros.
Mesmo antes desse dispositivo, a doutrina já falava sobre isso, exemplo, STJ, quarta
turma admitiu a emenda da petição inicial após a contestação do réu, e quando decidiu
dessa forma mencionou o princípio da máxima efetividade.

Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código,


incumbindo-lhe:

I - assegurar às partes igualdade de tratamento;

II - velar pela duração razoável do processo;

III - prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça e indeferir


postulações meramente protelatórias;

18
IV - determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-
rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial,
inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária;

V - promover, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com


auxílio de conciliadores e mediadores judiciais;

VI - dilatar os prazos processuais e alterar a ordem de produção dos meios de


prova, adequando-os às necessidades do conflito de modo a conferir maior
efetividade à tutela do direito;

VII - exercer o poder de polícia, requisitando, quando necessário, força policial,


além da segurança interna dos fóruns e tribunais;

VIII - determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal das partes, para


inquiri-las sobre os fatos da causa, hipótese em que não incidirá a pena de
confesso;

IX - determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de


outros vícios processuais;

X - quando se deparar com diversas demandas individuais repetitivas, oficiar o


Ministério Público, a Defensoria Pública e, na medida do possível, outros
legitimados a que se referem o art. 5o da Lei no 7.347, de 24 de julho de 1985, e
o art. 82 da Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990, para, se for o caso,
promover a propositura da ação coletiva respectiva.

Parágrafo único. A dilação de prazos prevista no inciso VI somente pode ser


determinada antes de encerrado o prazo regular.

Em um segundo aspecto, o princípio este relacionado a implementação das


políticas públicas pelo judiciário, em uma ação civil pública. Normalmente cabe aos
entes políticos executar políticas públicas, mas não raro, se ingressa com ações para
que tais políticas sejam incrementadas, e há uma discussão sobre isso. As
procuradorias em geral usam duas defesas:

 Separação dos poderes, tendo em visa que o judiciario obrigaria o executivo a


agir. A resposta aqui é que não há violação a separação dos poderes. O que
existe é efetivação dos direitos fundamentais. Nessas hipóteses está se
efetivando os direitos fundamentais.
 Reserva do possível: seria aquela limitação de ordem prática, financeira ou de
outra natureza para a efetivação de políticas, ou seja, há um limite. A resposta
que é dada aqui é que quando se trata do mínimo existencial, a defesa da
reserva do possível não pode ser usada.

Bloco 5

19
Uma última demonstração é o que Zanetti propõem sobre a relativização da
congruência, que já foi inclusive adotado pelo STJ. Normalmente o juiz tem que julgar
de acordo com aquele pedido especifico. Ex: em um caso especifico de uma ação
coletiva, em um caso aonde o dano se estendeu, indo além do pedido, deve o juiz ficar
restrito apenas a área pedida ou deveria também estender a proteção, seguindo o
principio da congruência? O STJ já aceitou que em uma ação coletiva que verse sobre
meio ambiente, o juiz decidisse sobre área diversa da que constava no pedido.

2. Economia processual:

Diz respeito a finalidade de diminuir, primeiramente, o numero de processos,


economia macroscópica. E uma redução de atos e custos dentro do próprio processo,
microscópio.

O STJ tem decisão que, extraindo essa essência da lei, além da previsão legal,
prevendo a suspensão da prescrição para ações individuais quando há citação na ação
coletiva, além disso, o STJ determina a suspensão obrigatória das ações individuais
quando há o ajuizamento de ação coletiva. Em ambos os casos se tratando de ações
que tutelem direitos individuais homogêneos.

Exemplo, compra-se um produto que está com problema, e todos os produtos


do fornecer estão viciados. A defensoria percebe isso e ingressa com uma ação civil
pública buscando a retirada desse produto do mercado. Vamos pensar que um indivíduo
ingressou individualmente contra essa empresa, e a Defensoria ingressou com uma
ação coletiva. Pela lei não há suspensão da prescrição das ações ainda não ajuizadas
quando se ajuíza uma ação coletiva. O natural então seria que o indivíduo pense que
se já há uma ação coletiva, irá ajuizar também uma ação individual para que não perca
seu prazo. O STJ diante disso suspende o prazo para essas ações ainda não ajuizadas
quando houver citação na ação coletiva.

Segunda decisão importante é que a princípio, se há uma ação individual sobre


a matéria e sobrevenha uma ação coletiva sobre a mesma matéria, aquele réu comum
terá a obrigação de informar que há uma ação coletiva para que o autor decida se
continua na ação individual ou se suspende a individual e se vale da ação coletiva.

Nesse caso o STJ contraria o art. 104 e suspende obrigatoriamente os processos


individuais. O fundamento utilizado é o princípio da economia processual.

3. Princípio da disponibilidade motivada:

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Previsto no art. 9 da lei de ação popular, e art.5, §3 da lei da ação civil pública.

Art. 9º Se o autor desistir da ação ou der motiva à absolvição da


instância, serão publicados editais nos prazos e condições previstos no
art. 7º, inciso II, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao
representante do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa)
dias da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação.

Art. 5o Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar:


[...]

§ 3° Em caso de desistência infundada ou abandono da ação por


associação legitimada, o Ministério Público ou outro legitimado assumirá
a titularidade ativa.

Se houver uma desistência infundada ou um abandono daquela ação coletiva, o


MP ou outro legitimado pode assumir o polo ativo daquela demanda. O STJ afirmou que
não é obrigatório que os legitimados assumam o polo ativo da ação, nem mesmo o MP.

É possível que haja uma disponibilidade motivada de uma ação coletiva. Quanto
a isso teve uma decisão importantíssima do STJ que excepciona desse sistema de
intimação da expedição de editais para que os outros legitimados eventualmente
assumam o polo ativo em uma ação coletiva proposta por uma associação. Nesse caso,
outra associação pode assumir o polo ativo? MP, DP outros legitimados podem assumir
o polo ativo se encontrarem fundamento para prosseguir com a ação. Mas uma outra
associação não poderá assumir essa ação civil pública ajuizada por outra associação.

Os tribunais enxergam na associação não uma substituição processual, mas


uma representação dos associados. Na substituição processual, nós temos um
legitimado extraordinário que independentemente de autorização daqueles que serão
substituídos, ingressam com a ação e tutela esses direitos. Na representação
processual, existe a necessidade de autorização previa daquele que será substituído,
representado, e é isso que acontece nas associações. Nas associações a CF exige que
haja expressa autorização para que a associação tutele os interesses dos associados.
Esse é o entendimento do STF e do STJ. O MP, DP e outros legitimados poderiam pois
são substitutos processuais e independem de autorização prévia.

4. Princípio da obrigatoriedade da execução do título coletivo:

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Não existe uma obrigação do ajuizamento da ação coletiva, pois se houver lesão
ao direito coletivo, os legitimados podem celebrar um TAC, resolvendo
extrajudicialmente aquele conflito coletivo. Uma vez que foi formado um título executivo,
o ordenamento obriga que aquele título seja executado.

Como isso se dá na prática:

O art. 15 da lei de ação civil pública, vai dizer que o MP é obrigado a iniciar a
execução do titulo executivo judicial, se o legitimado originário não executar, em 60 dias,
a contar do trânsito em julgado.

Art. 15. Decorridos sessenta dias do trânsito em julgado da sentença


condenatória, sem que a associação autora lhe promova a execução, deverá
fazê-lo o Ministério Público, facultada igual iniciativa aos demais legitimados.

OBS: no caso de ser uma Ação Popular, os 60 dias começam a contam da decisão de
segunda instância.

Em se tratando de um título executivo judicial coletivo que versem sobre direitos


individuais homogêneos, a solução é que o MP seja obrigado a executar também se
após um ano do trânsito em julgado, não houver uma execução significativa. Essa é a
chamada execução por Fluid Recorevy.

Se a decisão versar sobre direitos individuais homogêneos?

Cada um com sua decisão, que tem esse direito individual, pode liquidar a
sentença e adequá-la ao seu caso individual e ela vai direto para a execução.
Imaginando que seria um dano que envolvia muitas pessoas, o MP pode executar
aquele titulo em favor daqueles que não executaram e esses valores vão para um fundo.

5. Princípio da não taxatividade da tutela coletiva:

Diz respeito aos direitos materiais tuteláveis na tutela coletiva. Nós falamos
quando da ação civil pública, que no seu art. 1 existe um rol aberto, exemplificativo de
direitos tuteláveis. Em seu inciso quarto, fala sobre qualquer outro interesse difuso ou
coletivo.

Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as
ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais
causados: (Redação dada pela Lei nº 12.529, de 2011).

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l - ao meio-ambiente;

ll - ao consumidor;

III – a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico;

IV - a qualquer outro interesse difuso ou coletivo. (Incluído pela Lei nº 8.078


de 1990)

V - por infração da ordem econômica; (Redação dada pela Lei nº 12.529, de


2011).

VI - à ordem urbanística. (Incluído pela Medida provisória nº 2.180-35, de


2001)

VII – à honra e à dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos. (Incluído


pela Lei nº 12.966, de 2014)

VIII – ao patrimônio público e social. (Incluído pela Lei nº 13.004, de 2014)

Parágrafo único. Não será cabível ação civil pública para veicular pretensões
que envolvam tributos, contribuições previdenciárias, o Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço - FGTS ou outros fundos de natureza institucional cujos
beneficiários podem ser individualmente determinados.

Mas existe um limite, exceções para essa tutela coletiva. Existem alguns direitos
que por conta da MP 2.180, em sua reedição 35 de 2001, não podem ser tutelados em
uma ação civil pública. É um rol taxativo que devem ser decorados: são as pretensões
que envolvam:

 Tributos
 Contribuições previdenciárias
 FGTS ou outros fundos institucionais

O STJ já se posicionou no sentido em que se a causa de pedir disser respeito a


um desses elementos não há problema, o problema é o pedido se relacionar a eles.
Restrição seria em relação ao pedido, segundo o art.1, parágrafo único.

Outra mitigação que os tribunais superiores fazem é que se for feito um pedido
a favor da fazenda pública, é possível, mas contra a fazenda pública, não.

Uma outra exceção diz respeitos a tutela de direitos difusos em um mandado de


segurança coletivo. Art. 21, parágrafo único da lei do Mandado de segurança, proíbe o
mandado de segurança sobre direitos difusos, proíbe indiretamente devido ao silêncio
da lei, segundo o entendimento de maioria da doutrina. Então direitos coletivos e

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individuais homogêneos podem ser tutelados por Mandado de segurança, mas direitos
difusos, não.

Art. 21. O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por partido
político com representação no Congresso Nacional, na defesa de seus
interesses legítimos relativos a seus integrantes ou à finalidade partidária, ou por
organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída
e em funcionamento há, pelo menos, 1 (um) ano, em defesa de direitos líquidos
e certos da totalidade, ou de parte, dos seus membros ou associados, na forma
dos seus estatutos e desde que pertinentes às suas finalidades, dispensada,
para tanto, autorização especial.

Parágrafo único. Os direitos protegidos pelo mandado de segurança coletivo


podem ser:

I - coletivos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os transindividuais, de


natureza indivisível, de que seja titular grupo ou categoria de pessoas ligadas
entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica básica;

II - individuais homogêneos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os


decorrentes de origem comum e da atividade ou situação específica da
totalidade ou de parte dos associados ou membros do impetrante.

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