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Epístola aos Efésios

do apóstolo São Paulo


Autor: Bispo Alexander (Mileant)

Tradução: Elga Drizul

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Conteúdo:

Introdução.

1. A parte do ensinamento da fé (Ef 1-3).

Saudação (Ef 1:1-2). O plano divino da salvação (Ef 1:3-


14). Cristo ― cabeça da Igreja (Ef 1:15-23). Da morte à vida (Ef 2:1-
10). Agradeçam a Deus (Ef 2:11-18). A Igreja cresce e se expande (Ef
2:19-22). O mistério da salvação de todos os povos (Ef 3:1-12). O
incompreensível amor de Cristo (Ef 3:13-21).

2. A parte do ensinamento moral (Ef 4-6).

a) Estrutura geral da vida cristã. Almejem a unidade (Ef 4:1-


16). b) Regras gerais. Despojai-vos do homem velho (Ef 4:17-
24). Comportamento decente (Ef 4:25-32). Viver no amor (Ef
5:1-2). Não participar dos atos das trevas (Ef 5:3-14). Ajam
cuidadosamente (Ef 5:15-21). c) Regras particulares. Cristo e a
Igreja ― exemplo para maridos e esposas (Ef 5:22-33). O
relacionamento entre pais e filhos e entre escravos e senhores (Ef
6:1-9). d) Vida ― guerra contra os espíritos maus (Ef 6:10-
20). A despedida e a benção (Ef 6:21-24).

Conclusão.

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Introdução.
A epístola aos efésios distingue-se entre os livros do Novo Testamento pelo
tom especialmente elevado e solene. Ela foi escrita pelo apóstolo Paulo
provavelmente durante os dois anos de sua prisão na Cesaréia da Palestina,
aproximadamente 61 anos depois do nascimento de Cristo (cf. At 23-26). As
epístolas aos colossenses e a filêmon devem também datar dessa época.

O apóstolo Paulo responde normalmente em outras epístolas aos problemas


concretos e palpitantes que surgiam em uma ou outra Igreja, enquanto que na
sua epístola aos efésios ele compartilha as idéias e sentimentos elevados, com
os quais Deus o iluminou durante sua prisão. É muito provável que ele
escreveu essa epístola não somente aos efésios, mas também a outras Igrejas
da Ásia Menor que foram fundadas por ele anteriormente em suas viagens
missionárias. Aí incluiam-se além da Igreja dos efésios, as Igrejas de
Perigamo, Laodíquia, Mileto, Patar, Esmirna, Trôade, Colosso, Listra e outras,
localizadas na região sudeste da Ásia Menor. Por esse motivo a epístola aos
efésios deve ser vista como uma epístola "de caráter geral" e não particular.
Na realidade em alguns manuscritos antigos dessa epístola falta a palavra
"Éfeso." No entanto como Éfeso era a cidade mais importante dessa região da
Ásia Menor, a indicação Éfeso é bastante pertinente.

Éfeso era uma cidade litorânea ao sudeste da Ásia Menor (hoje Turquia)
famosa pelos centros comerciais, de arte e de ciência. Como a principal cidade
(metrópole) da província da Ásia ela era um importante centro pagão. Nela
encontrava-se o templo Artêmis ou Diana, à qual a cidade foi dedicada. Aí
estava o centro da magia pagã que se originou dos mistérios de Artêmis:
usava-se como amuleto palavras misteriosas colocadas em pedacinhos de
pergaminho e imagens da deusa e de seu templo, dando bons lucros aos
artífices. Em Éfeso moravam também muitos judeus que tinham lá a sua
sinagoga.

O apóstolo Paulo visitou-a no ano 54 d.C. (cf. At 18) e fundou a Igreja cristã.
Ele permaneceu lá por pouco tempo, pois tinha pressa em voltar para as
festividades em Jerusalém. Em Éfeso permaneceu o casal Priscila e Áquila,
ambos dedicados a fundamentar o cristianismo entre os recém-convertidos e
para ajudá-los foi enviado Apolo um judeu culto de Alexandria, que com sua
eloqüência e conhecimento das Escrituras muito contribuiu para a
consolidação do cristianismo nessa cidade.

Paulo voltou a visitar Éfeso na época de sua terceira viagem de boas novas
(cf. At 19). Lá ele encontrou dois discípulos que tinham recebido apenas o
batismo de João. Ele os reforçou na fé cristã e os convenceu a se batizarem no
batismo cristão, transmitindo-lhes o Espírito Santo pela imposição das mãos.
Depois disso ele se ocupou da pregação cristã em Éfeso, iniciando como de
costume pelos judeus, pregando na sinagoga. A sua pregação durou 3 meses,
mas "como alguns se endureceram e não creram, desacreditando na sua
doutrina diante da multidão," ele se apartou deles e reuniu à parte os
discípulos, ensinando-os diariamente na escola de um cidadão tirano. Esse
ensinamento durou dois anos, de tal modo, que todos os habitantes da Ásia,
judeus e gentios puderam ouvir a pregação sobre nosso Senhor Jesus Cristo. A
pregação do apóstolo era reforçada por muitos sinais e milagres, de maneira
que a Igreja de Deus lançou aí raízes profundas. Infelizmente, um tumulto
contra Paulo provocado pelo ourives de prata Demétrio, levou-o a antecipar a
sua partida de Éfeso (cf. At 19:23, 20:1). Depois de um certo tempo, o
apóstolo dirigiu-se a Jerusalém para a festividade de Pentecostes e passou
próximo a Éfeso a bordo de um navio. Parou em Mileto e convidou os
presbíteros da Igreja de Éfeso e redondezas para lhes dar as orientações finais
e se despediu deles dizendo:

"Vós sabeis, desde o primeiro dia que entrei na Ásia, de que


modo tenho procedido convosco durante todo este tempo,
servindo o Senhor com toda a humildade, entre as lágrimas e as
provações que me sobrevieram das emboscadas dos judeus.
Sabeis que nada tenho negligenciado do que podia ser-vos útil,
pregando-vos e instruindo-vos publicamente e pelas casas,
anunciando aos judeus e aos gentios a conversão a Deus e a fé
em nosso Senhor Jesus. Agora eis que eu, ligado pelo Espírito,
vou a Jerusalém, não sabendo as coisas que ali me hão de
acontecer, senão que o Espírito Santo, por todas as cidades, me
assegura e diz que me esperam em Jerusalém prisões e
tribulações. Porém de qualquer modo a minha vida importa-me
pouco, contanto que termine a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor Jesus, de dar testemunho do Evangelho da
graça de Deus. Agora eis que sei que não tornareis mais a ver a
minha face todos vós, entre os quais passei pregando o Reino de
Deus. Por isso eu vos protesto neste dia que estou limpo do
sangue de todos, porque não me esquivei a anunciar-vos todas as
disposições de Deus. Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho,
sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para
governardes a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o seu
próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, se
introduzirão então vós lobos arrebatadores, que não pouparão o
rebanho. Dentre vós mesmos hão de levantar-se homens a
ensinar doutrinas perversas, para levarem atrás de si discípulos.
Por isso estai vigilantes, lembrando-vos que, durante três anos,
não cessei, de noite e de dia, de admoestar com lágrimas a cada
um de vós" (At 20:18-31).

A seguir, todos se ajoelharam para rezar e depois os presbíteros com lágrimas


acompanharam o apóstolo até o navio e se despediram dele. Assim terminou o
relacionamento pessoal de Paulo com os efésios, mas não terminou o seu zelo
por eles como vemos nessa epístola.

Posteriormente, a cátedra de bispo de Éfeso foi ocupada até a sua morte pelo
seu fiel discípulo Timóteo, a quem ele enviou duas de suas epístolas. A
responsabilidade pela Igreja de Éfeso depois ficou a cargo do discípulo
amantíssimo de Jesus Cristo, o apóstolo João Cristófilo. No ano 431d.C.
ocorreu em Éfeso o 3º Concílio Ecumênico.

O apóstolo revela em sua epístola aos efésios aqueles caminhos grandiosos e


incompreensíveis, pelos quais Deus guia a humanidade à salvação. Aos
cristãos de Éfeso que viviam sob a sombra do famoso templo da deusa Diana
e que diariamente observavam o brilho e a pompa dos rituais pagãos, Paulo
contrapõe a grandiosidade da Igreja de Cristo, que inclui dentro de si os dois
mundos: o humano e o angelical.

Na primeira parte de sua epístola sobre o ensinamento da fé (Ef 1-3) o


apóstolo expõe sobre os maravilhosos caminhos da providência de Deus,
convocando tanto judeus como pagãos a ingressarem na Igreja encabeçada por
Jesus Cristo.

Na segunda parte sobre o ensinamento moral (Ef 4-6) ele aconselha os fiéis
a viverem com dignidade, de acordo com as suas condições elevadas de
membros da Igreja de Cristo e a almejarem mais que tudo a unidade e a
santidade. Ele desenha nessa epístola o quadro majestoso da salvação da
humanidade. Deus, antes ainda da criação do mundo, predeterminou salvar a
todos através de Seu Filho, mas somente realizou o Seu plano quando chegou
"a plenitude dos tempos," isto é, o amadurecimento do mundo para a fé cristã.
No centro do mistério da redenção está Cristo e Sua Igreja, que vem a ser o
Seu corpo místico que engloba o céu e a terra. A Igreja ainda não atingiu o seu
pleno desabrochar, mas ela ao absorver constantemente novos membros
cresce incessantemente, expande-se e se aperfeiçoa. Cada cristão
aperfeiçoando-se moralmente, contribui para o crescimento da Igreja.

Se nós julgarmos o tom inspirado da epístola, podemos concluir que o


apóstolo Paulo estando aprisionado, teve o merecimento de ser iluminado
espiritualmente por Deus e receber revelações sobre os mistérios da fé. A
epístola aos efésios foi motivada pelo desejo dele, de compartilhar com os
fiéis os seus jubilosos pensamentos e sentimentos.

1. A parte do ensinamento da fé
(Ef 1-3).
O apóstolo inicia a sua epístola com a habitual:
Saudação (Ef 1:1-2).
"Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus, a todos os
santos que estão em Éfeso e aos fiéis em Jesus Cristo. Graça e
paz vos sejam dadas da parte de Deus nosso Pai e do Senhor
Jesus Cristo."

A seguir, ele sintetiza o conteúdo de sua epístola e o faz em uma única


proposição como se fosse num um só sopro, seguindo o formato adotado
naquela época. Essa proposição ficou um tanto quanto longa ― 180 palavras
― a mais longa da Bνblia, por isso nós a dividimos aqui em diversas
proposições para maior clareza. Isso é como se o apóstolo tivesse tido a visão
global, abrangendo o majestoso e infinito panorama da obra da salvação do
gênero humano, o passado, o presente e o futuro e em êxtase agradecesse a
Santíssima Trindade ― ao Pai, que tudo pré-estabeleceu e realizou ― ao
Filho, que nos redimiu e renovou e ― ao Espνrito Santo, que nos iluminou e
enriqueceu.

O plano divino da salvação (Ef 1:3-14).


"Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos
abençoou com toda a bênção espiritual do céu em Cristo, assim
como Nele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por
amor, para sermos santos e imaculados diante Dele, O qual nos
predestinou para sermos Seus filhos adotivos por (meio de) Jesus
Cristo para Sua glória, por Sua livre vontade, para fazer brilhar a
glória da Sua graça, pela qual nos tornou agradáveis em Seu
amado Filho.

É Nele que temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão dos


pecados, segundo as riquezas da Sua graça, a qual derramou
abundantemente sobre nós, em toda a sabedoria e prudência a
fim de nos tornar conhecido o mistério da Sua vontade, segundo
o Seu beneplácito, que tinha estabelecido consigo mesmo, de
restaurar em Cristo todas as coisas, quando tivesse chegado a
plenitude dos tempos, assim as que há no céu, como as que há na
terra; Nele, em Quem também nós fomos chamados por sorte,
sendo predestinados pelo decreto Daquele que opera todas as
coisas, segundo o conselho da Sua vontade, para servirmos de
louvor a Sua glória, nós, que antes tínhamos esperado em Cristo;
no Qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade (o
Evangelho da vossa salvação), e, tendo crido Nele, fostes
marcados com o selo do Espírito Santo que tinha sido prometido,
o Qual é o penhor da nossa herança, para redenção do povo
adquirido (por Cristo) em louvor da Sua glória."

Essa introdução representa pelo seu conteúdo uma espécie de símbolo de fé,
no qual estão sintetizadas as mais importantes verdades da fé. Deus tendo a
intenção de criar o mundo e dar aos homens livre-arbítrio, previu a queda
deles no pecado desde a eternidade e por isso em Seu concílio da Santíssima
Trindade delineou o caminho da salvação. Ele previu e tudo se realizou, mas
não pôs em prática imediatamente o Seu plano de salvação dos pecadores. Ele
enviou aos homens, quando chegou a hora, o Seu Filho Unigênito Jesus
Cristo, que Se encarnou e viveu entre eles, ensinando-os a crer corretamente e
a viver segundo a verdade. Cristo sofreu e morreu pelos nossos pecados,
ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e sentou à direita de Deus Pai já como
Deus-Homem e como Cabeça da Igreja. Deus enviou depois o Espírito Santo,
Que através dos apóstolos começou a reunir os homens em uma família de
homens renovados espiritualmente ― a Santa Igreja, guardiã da verdade e da
bem-aventurança. Na Igreja, os fiéis são purificados, santificados e agraciados
pelo Espírito Santo com dons de bem-aventurança, direcionando-os para uma
vida virtuosa. Os cristãos aperfeiçoando-se em diversas virtudes passam assim
para as posições celestes, para o Reino da Glória. O apóstolo contemplando
essa infinita série de coisas da misericórdia divina, exclama em êxtase: "Deus
seja louvado"!

Essa epístola pode ser classificada como um hino de louvor se analisarmos o


seu modo de explanação. Nesse plano, ela pode ser comparada a um dos hinos
característicos do Antigo Testamento exposto no Salmo 135:

"Glorificai ao Senhor, porque é bom, porque a Sua misericórdia é eterna.

Glorificai ao Deus dos deuses, porque a Sua misericórdia é eterna.

Glorificai ao Senhor dos senhores, porque a Sua misericórdia é eterna.

O Único que faz grandes maravilhas, porque a Sua misericórdia é eterna.

O que fez os céus com sabedoria, porque a Sua misericórdia é eterna.

O que firmou a terra sobre as águas, porque a Sua misericórdia é eterna.

O que fez os grandes luminares, porque a Sua misericórdia é eterna.

O sol para presidir ao dia, porque a Sua misericórdia é eterna.


A lua e as estrelas para presidirem à noite,

porque a Sua misericórdia é eterna..."

Entre os dois hinos de louvor há sem dúvida uma certa semelhança de estilo,
porém, o tema dos hinos do Antigo Testamento é limitado ao povo judeu e cita
apenas os bens materiais temporários, enquanto que, o tema do hino
apostólico engloba todas as nações e inclui tanto bens atuais como futuros. Os
salmos do Antigo Testamento louvam a Deus mais como um sábio Criador,
como Aquele que livra os hebreus dos povos inimigos vizinhos, agradecendo a
Ele pela colheita e fartura dos frutos da terra. Nesses salmos toda atenção está
concentrada no que é visível e temporário. Os horizontes da fé se ampliaram e
o homem obteve a capacidade de vislumbrar e valorizar os bens espirituais
dando preferência à vida eterna à temporária, somente com a vinda do
Salvador. Com Ele não só os judeus são filhos de Deus, mas também os
pagãos. Com a vinda do Pacificador as antigas disputas e divisões cedem
lugar ao processo de unificação de todos a uma só grande família ― a Igreja
de Cristo.

Nós devemos agradecer incessantemente a Deus adorado na Trindade por


todos esses bens: Deus Pai, Que tudo previu, predeterminou e executou; o
Filho de Deus, Que remiu, purificou e uniu os fiéis Consigo; e o Espírito
Santo, Que iluminou, santificou e os agraciou com as forças espirituais.

A introdução da epístola, segundo a opinião de uma série de especialistas


bíblico, refere-se a uma típica oração litúrgica do tempo dos apóstolos, se
considerarmos o seu conteúdo universal e o seu tom de louvor. "Assim como
Nele mesmo nos acolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos
santos e imaculados diante Dele" (Ef 1:4). A moral irrepreensível e santidade
é o objetivo na construção de nossa salvação. Nós fomos criados para
permacermos nessas qualidades, mas por causa de nossos pecados, nós as
perdemos. Deus restabeleceu em nós a santidade e a pureza não apenas como
qualidades internas, mas como uma força atuante e diretriz que deve
manifestar-se em atos de amor. Os objetos também podem ser santos, como
por exemplo, os recipientes do Templo e os animais sacrificados a Deus, que
devem ser imaculados no sentido da perfeição física. O cristão deve ser santo,
imaculado, não apenas quanto aos defeitos físicos, mas também na
manifestação do amor vivo e ativo.

No centro da construção da salvação do gênero humano está o Senhor Jesus


Cristo. Nele somos escolhidos, reunidos e adotados e Dele recebemos a
bênção e a sagração.

As palavras, "para servirmos de louvor a Sua glória" não significam que Deus
necessite de nosso louvor, mas nós conscientes de Sua misericórdia para
conosco, devemos sentir a necessidade de agradecê-Lo e amá-Lo cada vez
mais. Nós devemos amar a Deus como o filho ama o pai; esse é exatamente o
sentimento que gera tudo de bom. O apóstolo estando em êxtase ao vislumbrar
a grandiosidade das graças de Deus derramadas sobre nós através do Senhor
Jesus Cristo, mais adiante, ele deseja aos efésios que participem dessa visão.

Apesar de Paulo ter pregado durante mais de dois anos em Éfeso e ter
ensinado muito àqueles que creram, ele reconhece que para uma profunda
compreensão das verdades da fé, necessita-se de uma iluminação divina. Por
isso, ele roga a Deus que ilumine os corações dos fiéis, pois apenas os sábios e
iluminados do alto podem entender a superioridade da fé cristã e avaliar a
grandiosidade de tudo aquilo que Deus fez e faz por eles.

O apóstolo sintetizando o conteúdo de sua epístola, passa agora a expor o


tema principal:

Cristo ― cabeça da Igreja (Ef 1:15-23).


"Por isso, eu também, tendo ouvido qual a fé que vós tendes no
Senhor Jesus e o amor para com todos os santos, não cesso de
dar graças a Deus por vós, fazendo menção de vós nas minhas
orações, para que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de
glória, vos dê o espírito de sabedoria e de luz, para O
conhecerdes, iluminando os olhos do vosso coração, para que
conheçais qual é a esperança a que Ele vos chamou, e quais as
riquezas da glória da Sua herança reservada aos santos, e qual é
em nós, os que cremos, a suprema grandeza do Seu poder,
atestado pela eficácia da Sua força vitoriosa, a qual Ele
empregou em Cristo, ressuscitando-O dos mortos e pondo-O a
Sua mão direita no céu, acima de todo o Principado, Potestade,
Virtude, Dominação e acima de todo o nome que é nomeado, não
só neste século, mas também no futuro. Pôs debaixo dos Seus
pés todas as coisas e constituiu-O Cabeça de toda a Igreja, que é
Seu Corpo e o complemento Daquele que cumpre tudo em
todos."

A maioria dos judeus idealizava o Messias como um rei-conquistador que iria


trazer ao seu povo glória e bem estar. Eles entendiam os bens do Reino
Messiânico como bem-estar terreno. Eles não compreendiam que a
infelicidade básica e a tragédia da humanidade, incluindo o seu povo, estava
na nossa submissão ao pecado. Essa causa primeira de todas as infelicidades
e sofrimentos do homem no mundo não pode ser solucionada por nenhuma
reforma política ou mudança social. Para curar-nos da úlcera do pecado e
fazer-nos renascer moralmente, era necessário primeiramente o Messias
derramar o Seu sangue puríssimo e morrer redimindo-nos na cruz.
Os profetas do Antigo Testamento para lançarem o alicerce da fé cristã em seu
povo, previram os sofrimentos e a morte do Messias, porém, a maioria dos
judeus revelou-se incapaz de entender essas profecias. O entendimento dessa
verdade superior vai além das forças do cérebro. Realmente, a iluminação do
alto é necessária para vermos o Filho de Deus encarnado em Jesus Cristo,
humilhado, ridicularizado e morto pela forma mais vergonhosa.

O apóstolo Paulo que foi antes defensor da lei, grande conhecedor das
Escrituras do Antigo Testamento e que via no cristianismo uma perigosa
heresia, sabia por experiência própria como era difícil ao homem pensar
segundo o plano terreno para compreender o mistério da redenção, pois ele
mesmo sózinho não obteve a fé pelo caminho da lógica ou do estudo
minucioso das profecias, mas a conseguiu através da revelação divina. Paulo
levando isso em consideração, rogava a Deus para iluminar a consciência dos
efésios e para que eles entendessem como é sábio e grandioso aquilo que Deus
fez para eles, através de Seu Filho Unigênito. Todo o ensinamento cristão não
pode ser visto como um sistema filosófico de lógica pura ou como um
conjunto de regras de vidas úteis reunidas por experiência durante muitos
séculos, mas deve ser visto e aceito como revelação de Deus, por isso, não só
o ato da redenção é misterioso. Nenhuma pessoa por mais culta ou inteligente
que seja é capaz por si só de avaliar a superioridade do cristianismo sobre
outras crenças, mas ao contrário é provável que a pessoa veja nele coisas
ilógicas, afirmações incompletas, exigências impossíveis de serem cumpridas
e promessas duvidosas.

A fé cristã será sempre um mistério de Deus, revelado por Ele e aceito pela fé,
assim como foi há dois mil anos, assim o é também agora. O homem
submetendo-se a essa verdade revelada por Deus não abdica ao seu bom
senso, mas ao contrário ele entra pelo caminho do entendimento de outros
mistérios de Sua sabedoria, assim como o apóstolo escreve aos
coríntios: "Não obstante, é a sabedoria que nós pregamos entre os perfeitos;
não, porém, uma sabedoria deste século, nem dos príncipes deste século, que
são destruídos, mas pregamos a sabedoria de Deus no mistério, que está
encoberta, e que Deus predestinou antes dos séculos para nossa glória, a
qual nenhum dos príncipes deste século conheceu, porque, se a tivessem
conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória" (1Cor 2:6-8).

Espírito de sabedoria e de revelação (cf. Ef 1:17). Sabedoria ― ι a


capacidade de entender a relação entre causa e conseqüência e a interligação
entre as várias verdades da fé. A presença da sabedoria é valiosa, mas ela é
insuficiente. Além dela, é imprescindível que Deus revele diretamente para a
alma aquilo que supera a glória terrena e que não se submete à
experimentação diária: é necessário que Deus dê visão ao homem. A sabedoria
espiritual e a revelação ― são frutos do Espírito Santo.
Iluminar os olhos do coração (cf. Ef 1:18). Coração é o homem interno. O
conceito de "coração" é mais profundo e abrangente que o conceito de
"razão." Coração é o centro espiritual não apenas da vida consciente, mas
também da subconsciente, centro de seus sentimentos, dos desejos ocultos e
aspirações e lugar da manifestação da consciência. O estado do coração
reflete-se diretamente sobre o grau de conhecimento das verdades cristãs.
Essas verdades são compreendidas mais profunda e abrangentemente à
medida que ocorre o aperfeiçoamento moral e à medida que o coração se
purifica. "Mas o homem físico não percebe aquelas coisas que são do Espírito
de Deus, porque, para ele, são uma estultícia, e não as pode entender, pois
elas ponderam-se espiritualmente" (1Cor 2:14).

Em (1Cor 3:20-23) contém um ensinamento importante sobre a exaltação do


Cristo ressuscitado como Deus-homem acima de toda criatura e a submissão a
Ele de tudo que existe. Aí vemos o engrandecimento da natureza humana na
pessoa do nosso Salvador, que testemunha o fato de Jesus Cristo mesmo como
Homem ser o Rei e Senhor dos céus e da terra, dos anjos e dos homens. Cristo
sendo Deus por natureza, esteve sempre acima das criaturas por Ele criadas.
Mas agora como Deus-homem Ele é exaltado acima de todos que se
encontram nesse mundo e também acima de todas as ordens das inteligências
celestes ― “Principados, Potestades, Virtudes e Dominaηões" ― acima de
todas as criaturas que nós conhecemos e acima daquelas as quais somente
conheceremos em outra vida. Cristo Deus-homem é o Chefe Supremo da
sociedade mundial, da "organização mundial," Ele é o Chefe Supremo da
Igreja.

O ensinamento do apóstolo Paulo sobre Jesus Cristo como sendo o Chefe


Supremo da Igreja é extremamente importante para o esclarecimento do
relacionamento entre os cristãos. Assim como os membros do corpo humano
constituem juntamente com a cabeça um organismo vivo, todos os que crêem
em Cristo formam um único organismo corpóreo-espiritual. Os que se
batizaram em Cristo revestem-se Nele, tornam-se um só com Ele. Por isso,
Cristo age nos cristãos como uma força criativa e orientadora. A vida física e
orgânica depende da cabeça. No aspecto psicológico, a cabeça, como
receptáculo do cérebro o mais importante órgão da atividade cerebral e dos
sentidos, é conhecida como princípio orientador da atividade humana. A
semelhança entre a Igreja e o corpo humano chefiado pela cabeça, dá a idéia
da total dependência que a Igreja tem de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo fato
do próprio Cristo reger a vida da Igreja e seus caminhos na história da
humanidade.

Dessa maneira, todos os cristãos representam algo como um todo


orgânico que pode ser comparado a um organismo vivo. Cristo é a cabeça da
Igreja não apenas no sentido de nutrí-la, dar forças e cooperar no seu
crescimento, mas Ele inspira os membros aprimorando-os moralmente. Assim
como cada organismo cresce naturalmente e se torna mais forte, assim a Igreja
é chamada a crescer e se aprimorar.

As palavras: "Que é Seu corpo e o complemento Daquele que cumpre tudo em


todos" (Ef 1:23) significam que após a ascensão de Cristo ao céu, a Igreja
Dele preenche tudo ― o mundo material e o espiritual, sendo ela prσpria
plena da Sua divindade. Antes da vinda de Cristo o gênero humano apenas
povoava a terra; era o grão de poeira microscópica na imensidão do universo.
O céu ― mundo dos anjos e espíritos superiores era inacessível para os
homens até mesmo no plano espiritual, devido aos seus pecados. Além disso,
o pecado provocou separações entre os próprios homens. Os homens se
dividiram em nações guerreiras entre si e surgiram as mais diversas religiões.
Era o tempo da desagregação física e espiritual e do isolamento. Cristo
renovando os homens espiritualmente, unifica-os com Ele e habitando neles
Ele os reúne em uma sociedade ― o corpo mνstico. A Igreja é uma estrutura
espiritual organizada, onde não há um local sequer desprovido da ação das
forças divinas de Cristo. Ela é plena de Cristo.

O Filho de Deus pela Sua natureza onipresente, antes da Sua encarnação,


sempre preenchia o mundo, mas de forma invisível. Ele tendo encarnado e
ascendido ao céu como Deus-homem, preenche também o mundo de forma
visível. Dessa maneira, Cristo elevou a natureza humana à esfera da existência
que antes lhe era inacessível.

A Igreja sendo o corpo do Cristo, graças a Ele preenche tudo e por isso pode
ser chamada de plenitude Daquele que preenche tudo. Os cristãos sendo
membros da Igreja, vêm a ser membros da grande organização mundial, à qual
pertencem os anjos e todos os justos no céu.

Os judeus do Antigo Testamento esperavam, com a chegada do Messias,


ampliar as fronteiras da sua pequenina nação de Israel. Porém, Deus fez bem
mais do eles sonhavam, pois juntos com os crentes de todas as nações, eles
vêm a ser membros do ilimitado e glorioso Reino de Deus. Todas as nações
terrenas cedo ou mais tarde entrarão em decadência, somente o Reino de Deus
crescerá e se tornará cada vez mais forte.

Mais adiante, Paulo explica aos efésios que com a vinda de Cristo começou
uma nova era para a humanidade. Eles e outras nações estavam antes
moralmente mortos, incapazes de viver segundo os interesses espirituais e de
almejar os bens celestes, pois eles estando algemados pelo nó do pecado,
estavam prisioneiros do demônio.

Da morte à vida (Ef 2:1-10).


A grandiosidade da providência de Deus manifestou-se primeiramente pelo
fato Dele nos ter libertado da tirania do príncipe das trevas, o qual nos
escravizou através do pecado. Deus ressuscitou espiritualmente os
moralmente mortos, isto é, Ele deu-lhes força espiritual e os fez capaz de
levarem um modo de vida espiritual. Deus incutiu-lhes a necessidade de se
aperfeiçoarem moralmente e dessa forma abriu-lhes o caminho para a eterna
bem-aventurança. Ele fez tudo isso exclusivamente pela Sua misericórdia sem
nenhum mérito da parte dos homens. O apóstolo escreve:

"E vós estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados, nos quais
andastes outrora, segundo o costume deste mundo, segundo o
príncipe que exerce o poder sobre este ar, espírito que agora
domina sobre os filhos da incredulidade, entre os quais também
todos nós vivemos outrora, segundo os desejos da nossa carne,
fazendo a vontade da carne e dos apetites, e éramos por natureza
filhos da ira, como todos os outros. Mas Deus, que é rico em
misericórdia, pela Sua extrema caridade, com que nos amou,
estando nós mortos pelos pecados, convivificou-nos em Cristo,
(por cuja graça fostes salvos), e com Ele nos ressuscitou e nos
fez sentar nos céus com Jesus Cristo, a fim de mostrar aos
séculos futuros as abundantes riquezas da Sua graça, por meio da
Sua bondade para conosco em Jesus Cristo. Porque é pela graça
que fostes salvos, mediante a fé, e isto não (vem) de vós, porque
é um dom de Deus, não pelas vossas obras, para que ninguém se
glorie. Realmente somos obra Sua, criados em Jesus Cristo para
(fazer) boas obras, que Deus preparou para caminharmos nelas"
(Ef 2:1-10).

Os homens não espirituais são chamados de mortos (cf. Ef 2:5), incapazes de


viverem segundo interesses superiores, não sentindo a presença de Deus,
portanto, estranhos a Ele. Essa é a condição de cada ser humano até o
momento em que ele crê em Deus e se batiza.

Os efésios sendo homens da cultura grega, vangloriavam-se pelos seus


conhecimentos em filosofia, literatura e arte e se elogiavam por saberem levar
a vida alegre e feliz. Porém, a vida que eles levavam não era a verdadeira
vida, mas era o seu apodrecimento moral, pois eles não tendo consciência
disso viviam de acordo com a vontade do demônio, o espírito das potestades
do ar (cf. Ef 2:2; 1Cor 10:19-21; 2Cor 4:4), que os escravizavam com diversas
paixões e os empurravam para o caminho da morte eterna. Com a vinda de
Cristo, esse espírito maldoso perdeu todo o poder sobre os crentes, mas
continua a reinar entre os filhos rebeldes, ou seja, entre aqueles que são
contrários à pregação do Evangelho. Paulo nomeia esse espírito de "o príncipe
que exerce o poder sobre este ar," pois ele dirigi o reino dos espíritos
decaídos, que apesar de serem invisíveis aos nossos olhos, eles nos rodeiam
por todos os lados e se esforçam para nos influenciarem em nossos
pensamentos, sentimentos e atitudes. Como resisitirmos a eles, o apóstolo dirá
a nós no final dessa epístola.

Paulo denomina os pagãos de filhos da ira (cf. Ef 2:3) e merecedores da


condenação e do castigo. Os pagãos estando espiritualmente mortos,
submissos às paixões e cumprindo a vontade dos espíritos decaídos, eram
completamente inúteis para o Reino dos Céus. Eles apresentavam a podridão
moral que só poderia ter um final: a rejeição de Deus.

"Porque é pela graça que fostes salvos, mediante a fé, e isto não (vem) de vós,
porque é um dom de Deus" (Ef 2:8). A nossa salvação é obra da infinita
misericórdia de Deus e devemos agradecê-Lo incessantemente por isso. Nós
não podemos falar em mérito aos homens perante Deus. No entanto, não
devemos entender essas palavras do apóstolo como entendem os sectários que
negam a necessidade de boas ações. Na realidade, ao lermos essas palavras no
contexto das proposições que as precedem e que as seguem, torna-se claro que
a salvação veio ao homem não por parte de qualquer mérito recebido por ele,
mas como dom da graça, isto é, da misericórdia divina. A fé é a condição
mínima, mas absolutamente necessária, que faz o ser humano receptivo à
revelação divina e a sua força regeneradora. Enquanto o homem não crê ele é
espiritualmente cego, incapaz de entender as coisas espirituais e de viver
segundo os interesses espirituais. É como se ele estivesse morto. Deus vendo a
incapacidade do homem, tem piedade dele e o auxilia a crer com a Sua graça,
manifestando-se na sua consciência. É como se Deus batesse no coração de
cada um e oferecesse a Sua ajuda: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém
ouvir a Minha voz e Me abrir a porta, entrarei até ele, e cearei com ele, e ele
Comigo" (Apoc 3:20).

Por esse motivo o apóstolo Paulo denomina a fé "como dom de Deus." Na


realidade se chega à fé nem tanto pelos próprios esforços, mas pela
iluminação divina. É Deus Quem eleva o homem do plano terreno ao celestial,
do carnal ao espiritual.

Quando alguém atende ao chamado de Deus e recebe a Sua luz ele é tido
como "salvo," porém, isso não significa que ele já tenha o paraíso garantido e
nem que ele não precise mais se aperfeiçoar espiritualmente, mas significa que
ele entrou para o caminho da salvação. A fé em Cristo abre o acesso ao
homem para todos os dons da graça. Toda vida, seja ela vegetal, animal ou
espiritual é natural que se manisfeste na atividade correspondente e no
crescimento. A fé cristã, caso ela realmente penetre no coração e modifique a
visão do mundo no homem, manifesta-se naturalmente em atos de amor e de
crescimento espiritual. Paulo acrescenta as palavras ao lembrar da
fé: "Realmente somos obra Sua, criados em Jesus Cristo para (fazer) boas
obras, que Deus preparou para caminharmos nelas" (Ef 2:10).

Ou seja, nós eramos antes incapazes de praticar boas ações, pois estavamos
mortos espiritualmente, mas agora é como se Cristo tivesse criado-nos
novamente dando-nos a capacidade de fazer o bem. A palavra "ações" não
deve ser entendida como os judeus entendem, no sentido de atos da lei, que
consiste na execução mecânica de regras externas e cerimoniais, mas devemos
entendê-la no sentido de atividade virtuosa e cheia de amor. No tempo dos
apóstolos a fé cristã era chamada de "caminho" (cf. At 18:25, 19:23), porque a
fé não é um estado imóvel em sua convicção autosuficiente, mas ela é uma
aspiração ativa ao aperfeiçoamento. Com a existência da fé, uma vida virtuosa
é tão natural quanto aos bons frutos em uma árvore com vida. Por outro lado,
quando o cristão tem a ausência do entusiasmo, a apatia quanto às questões da
fé e a indiferença em relação à vida espiritual, isso testemunha que a luz da fé
está apagando-se nele e que ele está morrendo espiritualmente.

O apóstolo lembra aos antigos gentios, o estado religioso lamentável que eles
se encontravam antes da sua conversão ao cristianismo para revelar a eles com
maior evidência a grandiosidade da misericórdia de Deus. Os judeus pelo
menos acreditavam em Deus e tinham uma certa idéia a respeito da vida
virtuosa, mas os pagãos estavam totalmente envolvidos pelas trevas da
superstição e atolados nos vícios. Por isso, os pagãos tendo acreditado em
Cristo,

Agradeçam a Deus (Ef 2:11-18).


"Por isso lembrai-vos que vós outrora fostes gentios de origem,
que éreis chamados incircuncidados pelos que se chamam
circuncidados segundo a carne; lembrai-vos que estáveis nesse
tempo sem Cristo, separados da sociedade de Israel e estranhos
aos testamentos, sem esperança da promessa e sem Deus neste
mundo. Mas agora graças a Jesus Cristo, vós, que outrora
estáveis longe, fostes aproximados pelo Seu sangue. Porque Ele
é a nossa paz, Ele que de duas coisas fez uma só, destruindo a
parede intermediária de separação, as inimizades, por meio da
Sua carne, abolindo a lei dos mandamentos com as Suas
prescrições, para formar em si mesmo dos dois um só homem
novo, fazendo a paz, e, para os reconciliar a ambos num só corpo
com Deus, por meio da cruz, destruindo as inimizades em si
mesmo. Assim veio anunciar a paz a vós, que estáveis longe, e a
paz aos que estavam perto, porquanto é por Ele que uns e outros
temos acesso ao Pai mediante um mesmo Espírito."
A idéia básica é aqui, que os pagãos devem agradecer a Deus mais que os
judeus. O Senhor preparou o povo judeu para a chegada do Messias ―
Salvador atravιs de Seus profetas durante o período do Antigo Testamento, por
isso no final desse período muitos judeus esperaram ansiosamente a chegada
do Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo e começou inicialmente a salvação
das ovelhas perdidas da casa de Israel (cf. Mt 10:16). No entanto, o plano
Divino incluia também salvar os povos pagãos e por isso Jesus Cristo disse
aos judeus: "Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; importa que Eu
as traga. Elas ouvirão a Minha voz, e haverá um só rebanho e um só
Pastor" (Jo 10:16).

A lei do Antigo Testamento tinha por objetivo proteger os judeus da influência


dos pagãos e da decadência moral dos povos vizinhos. Ela os ensinava a crer
corretamente, a viver na virtude e prometia-lhes proteção especial pelo
cumprimento dos mandamentos. A lei era uma espécie de muro de proteção,
que protegia os judeus da influência maléfica do paganismo, porém, ao
mesmo tempo ela era uma barreira, que impedia a propagação dos aspectos
positivos da revelação do Antigo Testamento para outros povos. Nesse
aspecto, a lei tornou-se um muro de isolamento e de hostilidade e assim mais
cedo ou mais tarde ela deveria ser afastada.

O Senhor Jesus Cristo eliminou tudo que era sem importância na lei de
Moisés, ou seja, tudo que tinha caráter temporal, tudo que se referia às
cerimônias e aos hábitos nacionais, tudo que alimentava o nacionalismo
exagerado e o isolamento, enaltecendo e enobrecendo tudo que havia de
verdadeiramente valioso. Segundo as palavras do apóstolo Paulo,
Cristo: "Abolindo a lei dos mandamentos com as suas prescrições, para
formar em si mesmo dos dois um só homem novo, fazendo a paz" (Ef 2:15).

O pecado é o princípio separador não apenas entre os homens, mas ele é


também um muro entre os homens e Deus e entre a terra e o céu. O Senhor
Jesus Cristo eliminou a fonte de discórdia entre Deus e os homens, cujos
pecados foram lavados com Seu puríssimo sangue derramado na cruz. Os
homens reconciliando-se e se aproximando de Deus, eles naturalmente
reconciliaram-se entre si. Por isso, tudo aquilo que era exterior e temporal,
incluindo a lei cerimonial de Moisés (lei mosaica), estava sujeito a
eliminação. A convocação para ingressar no Reino de Deus é dirigida a todos
os homens sem exceção: para os que estão próximos (judeus) e para os que
estão distantes (pagãos). Os dois têm acesso a Deus somente através de
Cristo: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por
Mim" (Jo 14:6).

A obra da salvação da humanidade pode ser comparada com o perdão aos


exilados. Alguns condenados por crimes perante o Estado foram exilados para
uma ilha longínqua e abandonados. Ninguém evidentemente interessou-se
pelo bem estar deles. No exílio eles sofreram muitas desgraças como: miséria,
fome, doenças contagiosas, etc. Devido aos poucos recursos da ilha eles
brigaram entre si e se dividiram em grupos, tornaram-se inimigos e tentaram
destruir-se uns aos outros. Todos estavam irritados sem a esperança de uma
vida melhor. Após um longo período de tempo, um novo rei assumiu o poder
do Estado de onde eles foram expulsos e esse novo rei tomou conhecimento
da situação lastimável desses exilados, apiedou-se deles e resolveu dar-lhes a
anistia. Ele foi até eles de navio, os fez embarcarem e deu ordem aos seus
criados para lavá-los, vestí-los e alimentá-los. O rei levou-os ao seu rico reino,
onde prometeu suprí-los com habitação, trabalho honesto e todos os direitos
civis. Imaginemos nós a alegria que sentiram esses antigos prisioneiros, vendo
de repente em suas vidas uma mudança radical para melhor. De repente, tudo
aquilo que eles antes disputavam, dispostos a aniquilar-se uns aos outros,
perdeu toda e qualquer importância por causa da misericórdia do rei. Ninguém
se interessou mais pelos seus miseráveis trastes. Eles retornaram à pátria
cheios de esperança e alegria. Ninguém quis lembrar o passado, perdoaram-se,
abraçaram-se uns aos outros e deram graças ao rei pela sua misericórdia, por
toda a vida.

Da mesma forma, quando o Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os
pecadores, Ele não veio para julgar as questões de um lado ou de outro entre
aqueles que brigavam e nem veio para dar vantagens a um povo sobre o outro,
mas Ele veio para se apiedar de todos, integrá-los na nova vida e reuní-los em
um único povo de Deus, porque: "Se algum, pois, está em Cristo é uma nova
criatura; passaram as coisas velhas; eis que tudo se fez novo" (2Cor 5:17).
Jesus Cristo tendo reconciliado os homens com Deus e entre si, reconciliou-os
também com o mundo dos anjos. O apóstolo Paulo contemplando todas essas
grandes obras da misericórdia de Deus, conclama a todos em êxtase espiritual
para agradecê-Lo.

Ao referir-se à lei dos mandamentos (cf. Ef 2:15) ele subentende as


deliberações da lei do Antigo Testamento a respeito da circuncisão e da
utilização dos alimentos, os que devem ser considerados puros e os impuros.
Tudo isso foi útil e necessário um dia, mas com o cristianismo perdeu o
significado, devendo ceder lugar a mandamentos de ordem moral mais
importantes.

O homem novo (cf. Ef 2:15) ou nova criação. O aspecto exterior do homem


permanece o mesmo com a sua aceitação ao cristianismo, porém, o seu
conteúdo interior muda completamente. Agora, o homem é preenchido com
novos pensamentos e sentimentos, ele tem uma nova visão do mundo, novos
valores e novos ideais que o inspiram para uma nova meta.

Paulo ao falar da Igreja como sendo a sociedade dos que crêem, recorre a duas
analogias: o corpo e o edifício. Ao utilizar a semelhança da Igreja com o corpo
ele desenvolve o seguinte pensamento: na Igreja, assim como em um
organismo vivo, não há membros supérfluos e inúteis, ao contrário, os
membros todos se completam e são necessários para o bem do todo. Na
semelhança da Igreja com o edifício (ou templo) o apóstolo revela a sua
majestade e a sua coerência, o seu poder, a sua firmeza, a sua beleza espiritual
e a sua harmonia. A Igreja é como um edifício altíssimo que começa na terra e
o seu topo alcança o céu, porém, esse edifício não está terminado.

A Igreja cresce e se expande (Ef 2:19-22).


"Vós, pois, já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois
concidadãos dos santos e membros da família de Deus,
edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas,
sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular, sobre O
qual todo o edifício bem ordenado se levanta para ser um templo
santo no Senhor, sobre O qual vós sois também juntamente
edificados para morada de Deus, mediante o Espírito."

A Igreja é como um edifício poderoso e majestoso fundamentada nos


apóstolos e nos profetas e tendo Jesus Cristo como pedra angular. As
analogias do corpo e do edifício falam sobre a unidadeda Igreja de Cristo: um
ensinamento único, uma única fé, um único objetivo e uma única graça
vivificante que foi lançada como alicerce pelos apóstolos e profetas, os quais
são a base da Igreja. Mas em última instância, tudo se fundamenta na fé em
Jesus Cristo e no Seu ensinamento, pois Ele é o redentor dos homens que
reconciliou os pecadores com Deus, Ele é o mestre da verdade, Ele é a fonte
das forças regeneradoras, Ele é o caminho para a salvação. A Igreja é
inexistente sem Cristo tal como um edifício é inexistente sem alicerce. Toda a
estrutura da Igreja desfaz-se, caso se tente ignorar Cristo e mude o centro do
ensinamento cristão para outros valores quaisquer. Por esse motivo as
Escrituras denominam Jesus Cristo como pedra angular (cf. Sl 117:22; Mt
21:42; Lc 20:17; 1Pdr 2:7).

Do ponto de vista da semelhança da Igreja com um edifício em construção, é


como se cada homem representasse no início da construção o material cru
ainda não trabalhado, a pedra não lapidada. Para a "pedra" tornar-se útil na
construção do edifício muito trabalho é necessário para com ela, ou seja,
muita lapidação. Esse ensinamento sobre a Igreja como um edifício em
construção foi desenvolvido em um livro escrito no século 2 conhecido pelo
nome de "O Pastor Erma" que foi muito popular na antiguidade.

O apóstolo está totalmente maravilhado com a contemplação do mistério da


salvação. Os detalhes desse mistério eram desconhecidos não somente às
gerações antecessoras, mas também aos anjos do céu. O mais inesperado por
todos, é que Deus predeterminou também chamar os gentios (pagãos) para
entrar na unidade da Igreja de Cristo juntamente com o povo de Israel. Paulo
agradece a Deus por Ele tê-lo feito merecedor em ser o pregador desse
mistério. Apesar dele ter sofrido muitas tribulações por causa de suas
pregações, ele não se enfraqueceu e convenceu aos cristãos convertidos (os
antigos pagãos) a não se lamentarem pelo que ele passou.

O mistério da salvação de todos os povos (Ef


3:1-12).
"Por esta causa, eu, Paulo, o prisioneiro de Jesus Cristo por amor
de vós gentios... se é que tivestes conhecimento da concessão da
graça de Deus, que me foi dada para vós, porque por revelação
me foi manifestado este mistério, como acima escrevi em poucas
palavras, por onde podeis, lendo-as, conhecer a inteligência que
tenho do mistério de Cristo, o qual não foi conhecido nas outras
gerações pelos filhos dos homens, como agora foi revelado aos
seus santos apóstolos e profetas pelo Espírito, isto é, que os
gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e
participantes da promessa de Deus em Jesus Cristo, mediante o
Evangelho, do qual eu fui feito ministro, segundo o dom da
graça de Deus, que me foi comunicada segundo a eficácia do Seu
poder. A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta
graça de anunciar entre os gentios as riquezas incompreensíveis
de Cristo e de manifestar a todos qual seja a comunicação do
mistério escondido, desde o princípio dos séculos, em Deus, que
tudo criou, para que a multiforme sabedoria de Deus seja
manifestada por meio da Igreja aos Principados e Potestades nos
céus, conforme a determinação eterna que Ele realizou em Jesus
Cristo nosso Senhor, No qual temos segurança e acesso a Deus
com confiança, por meio da fé Nele."

O mistério da conversão (à fé) dos povos pagãos: "O qual não foi conhecido
nas outras gerações pelos filhos dos homens" (Ef 3:5). "Porque não o recebi
nem aprendi de homem, mas por revelação de Jesus Cristo" (Gal 1:12). A
verdade é que alguns profetas previram, que um dia os povos pagãos se
converteriam à verdadeira fé e glorificariam a Deus (Sl 21:28, 71:10-17; Is
2:2, 11:1-10, 42:1-12, 49:6, 54:12-14, 55:5, 65:1-3; Dan 7:13-14; Ag 2:6-7).
Porém, o fato de que eles juntamente com os judeus compartilhariam todas
as bênçãos do Reino de Deus e junto com eles constituiriam um único povo
de Deus ― estava oculto aos homens. O apσstolo Paulo, assim como outros
judeus daquele tempo, entendia as profecias sobre a conversão dos pagãos no
sentido que alguns pagãos seriam perdoados e mereceriam uma posição
secundária no Reino do Messias, já os judeus sendo o povo eleito receberiam
uma posição privilegiada nesse Reino.

Porém, Paulo tendo recebido a revelação entendeu que o Messias veio para
salvar todos os povos. Deus dá às pessoas a cidadania no Seu Reino não por
direito, mas por Sua misericórdia. Diante disso, não se pode falar sobre
privilégio ou mérito perante Deus, pois a diferenciação das nacionalidades
perde todo e qualquer significado no Novo Testamento. Até a vinda de Cristo,
o plano de Deus sobre a salvação de todos os povos era um mistério que nem
os anjos entendiam. Apesar dos anjos conhecerem muito mais que os homens,
já que eles podem contemplar diretamente a majestade de Deus, não sabem de
tudo, mas apenas o que Deus quer revelar-lhes. Deus revela os Seus planos
aos anjos na medida necessária para o cumprimento da Sua vontade. Os
motivos ocultos, porque Deus determinou dessa forma ou daquela, outras
metas, e como os acontecimentos desenvolver-se-ão após a execução dos
planos continuam encobertos para eles, que ficam sabendo sobre isso mais
tarde já a partir dos próprios acontecimentos. À medida que esses
acontecimentos vão desenvolvendo-se, os anjos têm a possibilidade de
entender os mistérios que estão em suas bases. A Terra, os homens e
principalmente a Igreja de Deus são o palco principal das grandiosas e
maravilhosas obras de Deus. O centro da luta entre o bem e o mal concentra-
se em nosso mundo, após a expulsão do demônio dos céus juntamente com os
anjos decaídos. Os anjos contemplando os caminhos da Providência de Deus
na vida das pessoas, tomam parte nos eventos do nosso mundo obedecendo as
instruções de Deus. O apóstolo Paulo tendo em vista essa observação no
desenvolvimento dos fatos do Novo Testamento escreveu: "Em verdade,
entendo que Deus nos expôs a nós apóstolos como os últimos (dos homens),
como destinados à morte, porque somos dados em espetáculo ao mundo, aos
anjos e aos homens" (1Cor 4:9).

E ele vendo a grandiosa força e abundância da graça divina que atuava através
dele, reconhece a sua fraqueza e insignificância na obra da divulgação do
cristianismo e escreve: "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta
graça de anunciar entre os gentios as riquezas incompreensíveis de
Cristo" (Ef 3:8). Em outras palavras, tudo é realizado por Deus, o apóstolo
considera-se apenas um instrumento da Sua vontade. Deus criou tudo em
Jesus Cristo:

"E de manifestar a todos qual seja a comunicação do mistério escondido,


desde o princípio dos séculos, em Deus, que tudo criou" (Ef 3:9). Assim como
Deus Pai criou tudo que é visível e invisível através de Seu Filho, (cf. Col
1:16) agora o Filho toma para si a obra da regeneração do homem.
O incompreensível amor de Cristo (Ef 3:13-21).

Os efésios podiam estar confusos pelo fato de Deus permitir que Seus
servidores estivessem sujeitos a tantas tribulações e dificuldades, porém, o
apóstolo não responde às hesitações deles, ele somente roga a Deus para que
Ele os ajude a amadurecerem espiritualmente e a entenderem por si só, porque
é necessário para todos passar pela fornalha purificadora dos sofrimentos.

"Pelo que vos rogo que não desanimeis por causa das tribulações
que tenho por vós: elas são vossa glória. Por esta causa dobro os
meus joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do
Qual toda a família, quer nos céus, quer na terra, toma o nome,
para que, segundo as riquezas da Sua glória, vos conceda que
sejais corroborados em virtude, segundo o homem interior, pelo
Seu Espírito, e que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de
sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais
compreender, com todos os santos, qual seja a largura e o
comprimento, a altura e a profundidade; e conhecer também o
amor de Cristo, que excede toda a ciência, para que sejais cheios
de toda a plenitude de Deus. Àquele que é poderoso para fazer
todas as coisas mais abundantemente do que pedimos ou
entendemos, segundo a virtude que opera em nós, a esse glória
na Igreja e em Jesus Cristo, por todas as gerações de todos os
séculos. Assim seja" (Ef 3:13-21).

O apóstolo inicia e termina com oração a revelação aos efésios sobre o


mistério da salvação. Ele roga a Deus para dar-lhes a compreensão de
perceberem o imenso amor de Cristo, porque só assim, eles poderão crer e
amá-Lo intensamente começando então a enriquecer-se com virtudes cristãs.

O homem interior (cf. Ef 3:16; Rom 7:22) é aquela parte escondida do


homem, onde desabrocham as suas qualidades mais nobres e mais elevadas
como: o amor à verdade, a propensão para o bem, a nítida distinção entre o
bem e o mal, o sentido da moral, o fascínio pelos valores espirituais e a sede
do relacionamento com Deus. À medida que o homem interior coloca-se em
ordem e torna-se mais confortável, ele está apto a receber Cristo. O Senhor
disse ― sobre o Seu misterioso habitar dentro do homem que crκ: "Aquele
que retem os Meus mandamentos e os quarda, esse é que Me ama; e aquele
que Me ama, será amado por meu Pai, e Eu o amarei (também), e Me
manifestarei a ele. Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, qual é a causa
porque Te hás de manifestar a nós e não ao mundo? Respondeu Jesus e disse-
lhe: Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra, Meu Pai o amará, nós
viremos a Ele e faremos Nele morada" (Jo 14:21-23).

"... O que permanece em Mim e Eu nele..." (Jo 15:1-8). O bispo Teofan


Zatvornic explica detalhadamente como desenvolver o seu homem interior ao
interpretar a epístola aos efésios ("Epístola aos Efésios," Moscou, 1893, págs.
238-239).

"E que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e
fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a
largura e o comprimento, a altura e a profundidade; e conhecer também o
amor de Cristo, que excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a
plenitude de Deus" (Ef 3:17-19). O desenvolvimento das capacidades
cerebrais ou o aperfeiçoamento das diversas qualidades não é o que dá ao
homem a sabedoria espiritual, através da qual ele pode penetrar nos mistérios
espirituais, mas é sim o prosperar no amor. O mais maravilhoso e inspirador
de todos os mistérios da fé e ao mesmo tempo inatingível vem a ser o amor de
Cristo, que é tão imenso quanto ao espaço que nos rodeia. As
palavras "largura e comprimento" "altura e profundidade" usadas pelo
apóstolo Paulo é como se ele desenhasse a cruz perante os olhos dos fiéis,
lembrando-nos que Cristo manifestou Seu infinito amor a nós exatamente nos
Seus sofrimentos sobre a cruz.

Portanto, tudo vem de Deus. Ele nos criou, nós caímos e Ele nos levantou,
purificou os pecadores e os santificou, iluminou os insensatos e fortaleceu os
vacilantes. A contemplação dessa infinita seqüência das graças de Deus leva o
apóstolo a sentir a necessidade de glorificá-Lo incessantemente. O seu
ensinamento sobre a Igreja de Cristo, como uma sociedade universal que tudo
preenche com o corpo místico de Cristo, é muito importante para o
fortalecimento da nossa fé. Nós como membros de uma determinada paróquia,
freqüentemente, perdemos de vista a real grandiosidade e a força espiritual da
Igreja à qual pertencemos. Nos tornamos propensos a ver o nosso templo-
paróquia como uma ilhota perdida no oceano sem limites da sociedade, na
qual a maioria das pessoas vive de acordo com os entendimentos e os
interesses pagãos. As ondas espumantes das inúmeras heresias e a decadência
moral cada vez maior do ser humano fazem-nos parecer às vezes, que
finalmente estão afundando a nossa pequena paróquia e aos poucos o
cristianismo como um todo, de tal forma, que só nos restará lembranças da
Igreja de Cristo.

O apóstolo Paulo ajuda-nos a afastar tais pensamentos sombrios, pois ele


desvenda perante os nossos olhos espirituais a grandiosidade da Igreja de
Cristo que envolve o Céu e a Terra. A Igreja é o Reino de Deus, que inclui
não apenas aqueles que vivem aqui na terra e crêem sinceramente, mas que
envolve também a imensa reunião dos anjos e das almas dos justos que vivem
no céu. O Senhor Jesus Cristo ― a cabeηa da Igreja ― unifica essa imensa
reuniγo daqueles que estão salvos e daqueles que se estão salvando; por isso,
não existe organização maior e mais forte do que a Igreja. As nossas paróquias
não são ilhotas dispersas, mas sim saliências na rocha de uma montanha
monolítica e majestosa, cujo topo sobe ao céu. Mesmo a força das águas
batendo fortemente no sopé da montanha não conseguirá abalá-la. Por isso,
nós não devemos preocupar-nos com o destino da Igreja que aos poucos
cresce e se fortalece ― pelo menos em sua parte celestial. O que devemos
fazer é apenas nos agarrarmos e nos abrigarmos nela, porque enquanto
estivermos com ela não pereceremos nas ondas desse mundo.

A seguir, nós veremos a segunda parte da Epístola aos Efésios que contém
o ensinamento moral incluído nos três últimos capítulos de 4 a 6.

2. A parte do ensinamento moral (Ef


4-6).
Nos três primeiros capítulos o apóstolo esclareceu que todos os cristãos
constituem um só corpo ― a Igreja. Partindo desse pensamento principal, ele
conclui como devem viver e agir os cristãos membros do corpo místico de
Cristo. Ele mostra inicialmente: a) a estrutura geral da vida cristã, cuja linha
básica vem a ser a unanimidade na fé (Ef 4:1-6); expõe as regras gerais dessa
vida cristã (Ef 4:17, 5:21); mostra as regras particulares da vida referente aos
conjuges, aos pais e filhos, aos escravos e senhores (Ef 5:22, 6:9) e finalmente
convoca a todos para a luta contra os inimigos da nossa salvação, os diabos e
os demônios (Ef 6:10-18).

a) Estrutura geral da vida cristã.


Almejem a unidade (Ef 4:1-16).

O apóstolo Paulo após ter revelado o entendimento sobre a Igreja como sendo
uma sociedade grande e coesa que unifica os fiéis, conclama a todos a almejar
a paz e o entendimento:

"Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de um


modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a
humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos
outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito
pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como
também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa
vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só
Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e atua por todas as
coisas e reside em todos nós" (Ef 4:1-6).

As palavras introdutórias "que andeis de um modo digno da vocação a que


fostes chamados" (Ef 4:1) englobam tudo o que o apóstolo prepara-se para
falar. O Senhor tirou-nos do meio de uma sociedade moralmente apodrecida,
tirou-nos das trevas morais e nos fez entrar em Seu Reino de Luz, onde tudo
se baseia nos princípios da verdade e do amor. Por isso, vivam de acordo
com a sua vocação. No mundo impera o egoísmo, a vaidade, o orgulho e a
exploração dos outros para o proveito próprio. Freqüentemente, aquele que é
mais insolente e agressivo alcança um sucesso maior. Daí provem inimizades,
brigas e outros males que arruinam a sociedade humana. Para evitar isso, nós
devemos ser humildes e dóceis e em tudo manifestarmos a paciência e o amor.
É maravilhoso que na base da perfeição espiritual, o apóstolo coloca a virtude
com a qual o Senhor iniciou o Seu Sermão da Montanha, ou seja,
a humildade ― uma opiniγo modesta a respeito de si mesmo aliada à
esperança da ajuda de Deus (bem aventurados os pobres de espírito). Da
humildade nasce a docilidade que impede qualquer desavença. A meta comum
deve ser "conservar a unidade de espírito (unanimidade) no vínculo da paz."

Paulo, a fim de incentivar os cristãos a almejarem a unanimidade, lembra-os


que eles constituem uma sociedade espiritual ― o corpo mνstico de Cristo ―
que se torna vivo pela aηão do Espírito Santo. No cristianismo tudo leva à
unidade. Realmente, todos são chamados para um Reino; todos adoram um
único Deus; todos têm uma só fé e mistérios (Ef 4:4-6); todos compartilham a
mesma forma de pensamento e os mesmos valores espirituais; todos têm a
mesma meta e a mesma fonte da graça regeneradora.

Os ativistas modernos da Igreja que clamam por unidade e cooperação, devem


lembrar-se que isso só pode ser alcançado na unidade da fé. O apóstolo Paulo
assim como outros apóstolos pregando uma única fé, pediu a seus seguidores
para conservá-la.

"Pelo qual sois também salvos, se o conservais como eu vo-lo


preguei, exceto se tiverdes crido em vão" (1Cor 15:2). "O que
aprendestes e recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai"
(Flp 4:9). "Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as
tradições, que aprendestes, ou por nossas palavras ou por nossa
carta" (2Tes 2:14). "Nós vos ordenamos, irmãos, em nome de
Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que
viver desordenadamente e não segundo a doutrina que foi
recebida de nós" (2Tes 3:6). "Ó Timóteo, guarda o depósito (da
fé), evitando as novidades profanas de palavras e as contradições
de uma ciência de falso nome" (1Tim 6:20).

Paulo usa a palavra "tradição" para denominar tudo que ele ensinou. A Igreja
na pessoa de seus arquipastores, seguindo o preceito da tradição dos
apóstolos, procurou sempre protejer a fé dos diversos modernismos,
ensinando que é importante não apenas crer com sinceridade, mas da maneira
como os apóstolos ensinaram, pois qualquer arbitrariedade em questões da fé
ou qualquer fé "particular" afasta inevitavelmente o homem da Igreja.

No entanto, como nós vemos diante do preceito do apóstolo, a unidade em


questões da fé não anula as qualidades particulares ou os talentos de um ou
outro fiel, porque assim como no organismo cada membro desempenha uma
determinada função necessária para o corpo, assim também dentro da Igreja
cada membro pode e deve cooperar para o bem comum por meio de seus dons
naturais e benéficos. Deus não anula as qualidades individuais do homem,
mas ao contrário Ele as eleva, reforça-as e as manifesta em sua forma máxima
por meio da Sua graça. Assim como cada membro recebe a sua função no
organismo, assim cada um dos fiéis recebe seu talento como complemento
para as qualidades naturais. Esse talento é uma graça especial, um dom
espiritual especial, através do qual cada um deve servir ao bem comum.

"Mas a cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do


dom de Cristo. Pelo que a Escritura diz: "Tendo subido ao alto,
levou cativo o cativeiro, distribuiu dons pelos homens." Ora, que
significa subiu, senão que também antes tinha descido aos
lugares mais baixos da terra? Aquele que desceu, é Aquele
mesmo que também subiu acima de todos os céus para cumprir
todas as coisas. Ele a uns constituiu apóstolos, a outros profetas,
a outros evangelistas, a outros pastores e doutores, para o
aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a
edificação do corpo de Cristo, até que cheguemos todos à
unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do
homem perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo,
para que não mais sejamos meninos flutuantes, e levados ao
sabor de todo o vento de doutrina, pela malignidade dos homens,
pela astúcia com que induzem ao erro. Porém, praticando a
verdade na caridade, cresçamos em todas as coisas Naquele que
é cabeça, o Cristo, do Qual todo o corpo coordenado e unido por
meio de todas as junturas de comunicação, segundo uma
operação proporcionada a cada membro, toma o aumento próprio
do corpo para a sua edificação na caridade" (Ef 4:7-16).

O apóstolo Paulo cita o seguinte trecho do salmo 67, o qual se refere ao


Messias, indicando Cristo como sendo a Fonte dos dons da graça: "Subindo
nas alturas subjugou o cativeiro e deu dons aos homens para que aqueles que
recusam (pagãos) possam habitar com o Senhor Deus" (Sl 67:19).

O apóstolo citando o texto segundo a tradução grega da Bíblia conhecida pelo


nome de Septuaginta (70 intérpretes), corrige, no entanto, a
palavra "recebeu" pela palavra "deu," porque a tradução mais correta é a
tirada da palavra hebraica "lacah." Essa profecia significa que o Messias tendo
descido ao inferno após a Sua morte, tirou de lá os cativos do demônio
(subjugou o cativeiro) e os libertou. Depois disso, subiu aos céus e deu aos
fiéis dons benéficos enviando-lhes o Espírito Santo.

Cristo instituiu a uns apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a


outros pastores e doutores, exatamente para a edificação e consolidação da
Igreja de Deus. Os apóstolos são os discípulos mais próximos de Cristo, aos
quais foi confiada a divulgação da Igreja. Os profetas são orientadores
espirituais inspirados, que receberam de Deus revelações especiais, pois
tiveram grande importância na consolidação da Igreja no primeiro século do
cristianismo (cf. At 11:27, 21:10; 1Cor 14:3). Os evangelistas (aqueles que
levam a boa nova) são os pregadores do Evangelho, viajantes e missionários,
que assim como os profetas normalmente não eram vinculados a uma
determinada comunidade. Por outro lado, os pastores e doutores eram
orientadores espirituais permanentes de suas comunidades, que pregavam,
explicavam a palavra de Deus e respondiam às necessidades diárias dos fiéis.
Aqueles que recebiam a imposição das mãos dos apóstolos, eram consagrados
para o exercício do episcopado ou do sacerdócio e revestiam-se do direito de
realizar a comunhão, batizar, dar sacramentos de cura (miropomázanie) e
encabeçar as orações comunitárias (missas).

O apóstolo Paulo explica detalhadamente em suas epístolas a Timóteo e a Tito


em que consistem os deveres dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos
(auxiliares dos dois primeiros) e cita as qualidades morais que eles devem ter
(cf. At 14:23, 20:23-32). Em sua epístola aos Coríntios ele escreve a respeito
dos dons espirituais gerais que são dados a todos os fiéis, como por exemplo,
o dom da fé, da sabedoria, da cura, o de falar diversas línguas e o das
interpretações das línguas (cf. 1Cor 12:4-31). Na epístola aos efésios, no
entanto, ele se detem nos dons que são necessários para a estrutura da Igreja.

É importante lembrar que ninguém pode pela sua própria resolução assumir
alguma atividade de liderança na Igreja, seja um profeta, um evangelista, um
pastor ou um doutor, mas sim pela indicação daquele que Deus autorizou
nomear. Nos tempos dos apóstolos, as atividades na Igreja eram
desempenhadas por pessoas nomeadas pelos próprios apóstolos, mais tarde
eles passaram esse direito para os seus sucessores, os bispos (cf. Tit 1:5).
Paulo fala claramente sobre a hierarquia eclesiástica instituída por Deus em
sua epístola aos efésios assim como em outras epístolas, por isso, aqueles que
rejeitam ao clero vão contra aquilo que os apóstolos estabeleceram. O objetivo
dessa hierarquia é ajudar os fiéis no aperfeiçoamento moral (para o
aperfeiçoamento dos santos cf. Ef 4:12) e criar o Corpo de Cristo (a Igreja),
isto é, ajudar a difundí-la e a consolidá-la. Os pastores da Igreja devem
trabalhar nesse sentido "Até que cheguemos todos à unidade da fé e do
conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo a
medida da idade completa de Cristo" (Ef 4:13), isto é, que com a segunda
vinda de Cristo todos atinjam o nível espiritual máximo.

Dessa maneira segundo o apóstolo, a Igreja não é uma pedra imobilizada, mas
é sim um corpo vivo cuja vocação é crescer e aperfeiçoar-se. Um grande
carvalho difere muito no seu aspecto externo de um pequeno broto, do qual
ele cresceu, no entanto, a sua essência é a mesma. Da mesma forma, a Igreja
no seu estado atual parece ser diferente da Igreja dos tempos dos apóstolos,
mas a sua essência permanece a mesma: ela contem a mesma fé, a mesma
bem-aventurança, os sacramentos e a estrutura hierárquica que continha
naquela época. Em seu longo caminho histórico, a Igreja enriqueceu-se e
amadureceu em muitos aspectos. A luta contra as heresias ajudou no
entendimento de muitas verdades cristãs e a propagação do monastério ajudou
na consolidação de regras da vida espiritual. O magnífico canto litúrgico, as
ricas imagens e arquiteturas, tudo isso é resultado do crescimento interior e
exterior da Igreja.

"Para que não mais sejamos meninos flutuantes..." (Ef 4:14). O ideal do
cristão é atingir a bondade, a espontaneidade e a sinceridade da criança. "Na
verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não tornardes como
meninos, não entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18:3). Isso é dito em relação
ao coração.

No entanto, quanto às questões sobre o ensinamento da fé, o cristão não deve


ser ingênuo e crédulo "ao sabor das ondas e agitado por qualquer sopro de
doutrina," mas ao contrário, ele deve estar bem informado para ensinar os
outros a crerem corretamente (cf. 1Pdr 3:15; 2Pdr 3:17).

O objetivo de nossos esforços é orientarmos tudo para o bem do próximo,


inspirados no amor. Elucidando esse objetivo, Paulo lembra aos efésios como
eles estavam distante dele antes de sua conversão a Cristo.

b) Regras gerais.
Despojai-vos do homem velho (Ef 4:17-24).
"Isto, pois, digo e vos rogo no Senhor: que não andeis mais
como os gentios, que andam na vaidade dos seus pensamentos,
os quais têm o entendimento obscurecido, (e estão) afastados da
vida de Deus pela ignorância que há neles, por causa da cequeira
do seu coração, os quais desesperando, se entregaram à
dissolução, à prática de toda a impureza, à avareza. Mas vós não
aprendestes assim (a conhecer) Cristo, se é que ouvistes (pregar
Dele), e fostes ensinados Nele, segundo a verdade que está em
Jesus, a vos despojardes, pelo que diz respeito ao vosso passado,
do homem velho, o qual se corrompe pelas paixões enganadoras.
Renovai-vos, pois, no espírito do vosso entendimento, e revesti-
vos do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na
santidade verdadeira."

Devemos tomar cuidado para não retornarmos ao passado. O pecado é nocivo


não apenas porque infringe a norma moral, mas principalmente porque
ele obscurece a razão e endurece o coração do pecador, que cai em um
círculo vicioso: pecando, ele obscurece a razão e com a mente obscurecida ele
peca ainda mais. O que ocorre com o pecador é semelhante a uma pedra que
rola sobre um plano inclinado: quanto mais longe ela rola maior velocidade
ela adquire. Os pagãos estando prisioneiros do pecado não se entregavam
apenas à libertinagem, mas praticavam-na insaciavelmente. O apóstolo explica
aos efésios, que todos eles se afogariam no lodo do pecado, se não fosse
Cristo, porém, essa condição ficou para trás quando eles durante o batismo
trocaram a sua roupa velha pela nova, simbolizando a sua purificação da
corrupção moral. Eles sendo santificados pela graça de Cristo, adornaram-se
com as Suas virtudes e dessa forma assemelharam-se a Ele (cf. Ef 4:24).
Depois do esclarecimento de Paulo aos efésios sobre essa profunda mudança
ocorrida com eles através da aceitação do cristianismo, ele passa a esclarecê-
los mais detalhadamente sobre as qualidades espirituais, através das quais eles
devem distinguir-se.

Comportamento decente (Ef 4:25-32).

"Pelo que, renunciando à mentira, fale cada um a seu próximo a


verdade, pois somos membros uns dos outros. Se vos irardes,
não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar
ao demônio; aquele que furtava, não furte mais, mas antes
ocupe-se, trabalhando com suas mãos em qualquer coisa honesta,
a fim de ter que dar ao que está em necessidade. Nenhuma
palavra má saia da vossa boca, mas só a que seja boa para
edificação da fé, de maneira que faça bem aos que ouvem. Não
estristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo Qual fostes marcados
com um selo para o dia da redenção. Toda a amargura,
animosidade, cólera, clamor, maledicência, com toda a espécie
de malícia, seja banida de entre vós. Pelo contrário, sede
benignos uns para com os outros, misericordiosos, perdoando-
vos uns ao outros, como também Deus vos perdoou por Cristo."

Esse ensinamento é claro, nós devemos deter-nos apenas em alguns


pensamentos. O versículo 26 "Se vos irardes, não pequeis; não se ponha o sol
sobre a vossa ira" convoca-nos a tentarmos reconciliar-nos rapidamente com
quem estivermos irado antes que o sol se ponha. Isso porque, os sentimentos e
as sensações que recebemos durante o dia ficam gravados durante o sono em
nosso inconsciente. Se os sentimentos e as sensações gravados forem maus e
pecaminosos, eles nos influenciarão e nos empurrarão para uma direção
maléfica.

Os pecados, principalmente a depravação, entristecem o Espírito Santo (cf. Ef


4:30), através do Qual os cristãos foram selados no dia da sua redenção, ou
seja, durante o seu batismo. Já nos tempos dos apóstolos, era comum eles
oferecerem aos cristãos os dons do Espírito Santo logo após o batismo durante
o mistério da unção com mirra (miropomázanie). No início, esses dons eram
oferecidos aos novos cristãos pela imposição das mãos e mais tarde, ainda
durante a vida dos apóstolos, os dons eram dados a eles através do óleo
santificado (miropomázanie) acompanhado das palavras "selo dos dons do
Espírito Santo." Por esse motivo, o apóstolo usou na sua epístola a palavra
"selo," indicando que os cristãos receberam o selo espiritual.

Viver no amor (Ef 5:1-2).

"Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados, e


andai no amor, como também Cristo nos amou e Se entregou a Si
mesmo por nós a Deus, como oferenda e hóstia de suave odor."

Nós devemos imitar a Deus no amor, tal como os filhos imitam a seus pais.
Imitar a Deus significa seguir o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo. As
perfeições do Deus invisível tornaram-se visíveis a todos nos atos de Jesus
Cristo. Por isso o Salvador disse: "Quem Me vê, vê também o Pai" (Jo 14:9).
O apóstolo João aconselha-nos a imitar o maior ato de amor de Cristo, que foi
o Seu sacrifício redentor, sacrificando-nos pelo bem do próximo. "Nisto
conhecemos o amor de Deus: em ter dado a Sua vida por nós; igualmente nós
devemos também dar a vida pelos nossos irmãos" (1Jo 3:16).

O apóstolo Paulo recomenda novamente aos efésios para evitarem tudo aquilo
a que antes se submetiam, para eles evidenciarem com mais brilho o alto nível
da vocação cristã.

Não participar dos atos das trevas (Ef 5:3-14).


"Nem sequer se nomeie entre vós a fornicação ou qualquer
impureza ou avareza, como convêm a santos; nem palavras
torpes, nem loucas, nem chocarrices, que são coisas
inconvenientes, mas antes ações de graças a Deus. Com efeito,
sabei-o bem, nenhum fornicador ou impudico ou avaro, o qual é
um idólatra, terá herança no Reino de Cristo e de Deus. Ninguém
vos seduza com palavras vãs, porque por estas coisas vem a ira
de Deus sobre os filhos rebeldes. Não queirais, pois, ter
comunicação com eles. Outrora éreis trevas, mas agora (sois) luz
no Senhor. Andai como filhos da luz, porque o fruto da luz
consiste em toda a espécie de bondade, de justiça e de verdade.
Examinando o que é agradável a Deus, não tomeis parte nas
obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as. Porque as
coisas que eles fazem em segredo, vergonha é até dizê-las. Mas
todas as coisas que são condenadas, são postas a descoberto pela
luz, porque tudo o que é manifestado é luz. Por isso se diz:
"Desperta, tu que dormes; levanta-te dentre os mortos e Cristo te
alumiará."

Palavras vãs ― são conversas do tipo: "pecado não é algo tão grave, porque
pecar é algo natural a nossa natureza imperfeita; Deus é misericordioso, Ele
perdoa a todos" e outras conversas desse gênero. Paulo explica que todas as
tentativas de justificar de alguma forma os próprios atos pecaminosos, atraem
a justiça de Deus.

Nós devemos não apenas evitar os pecados, mas antes condená-los (cf. Ef
5:11), porém, para isso a pessoa tem que ter muita sabedoria espiritual e
experiência. Ser pacificador, ou seja, reconciliar os pecadores com Deus, é a
sétima virtude que se dá àqueles que são puros de coração (cf. Mt 5:9). O
apóstolo Paulo em sua epístola aos Gálatas encarrega alguns espirituais para
corrigir aqueles que cometem pecados: "Irmãos, se algum homem for
surpreendido em algum delito, vós, que sois espirituais, admoestai-o com
espírito de mansidão; refletindo cada um sobre si mesmo, não caia também
em tentação" (Gal 6:1). O homem espiritual deve ser prudente e refrear-se em
sua tentativa de corrigir o outro para que ele mesmo não caia em
tentação: "Aquele, pois, que crê estar de pé, veja não caia" (1Cor 10:12).

A tarefa de repreender os que pecam, deve-se deixar àqueles que têm essa
obrigação direta. Paulo orienta seu discípulo, o bispo Timóteo, como ele
deveria proceder perante a acusação contra um presbítero: "Aos que pecarem
repreende-os diante de todos, para que também os outros tenham
medo" (1Tim 5:20). "Levai os fardos uns dos outros e, desta maneira,
cumprireis a lei de Cristo" (Gál 6:2). "Confessai, pois, os vossos pecados uns
aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes salvos" (Tg 5:16).
O estado de um pecador arraigado é semelhante a um sono profundo, mas com
a ajuda de Deus até mesmo ele pode despertar. As palavras: "Desperta, tu que
dormes; levanta-te dentre os mortos e Cristo te alumiará" (Ef 5:14) pelo que
parece são extraídas de algum hino cristão no tempo dos apóstolos ou são
inspiradas no texto do livro do profeta Isaías, que profetizou sobre a glória
vindoura da Igreja de Cristo: "Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque
chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as
trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o
Senhor, e a Sua glória se verá em ti" (Is 60:1-2).

Mais adiante, o apóstolo explica que tudo aquilo que ele conclama, deve ser
aceito por nós não como plano geral para um futuro incerto, mas ao contrário,
cada crente deve esforçar-se o máximo possível para aproveitar o tempo
precioso que Deus deu a ele, a fim de se preparar para a eternidade.

Ajam cuidadosamente (Ef 5:15-21).

"Cuidai, pois, irmãos, em andar com prudência, não como


insensatos, mas como circunspectos, recobrando o tempo, pois
que os dias são maus. Portanto não sejais imprudentes, mas
considerai qual é a vontade de Deus. E não vos embriagueis com
vinho, no qual está a luxúria, mas enchei-vos do Espírito Santo,
falando entre vós com salmos e hinos e canções espirituais,
cantando e salmodiando ao Senhor em vossos corações, dando
sempre graças a Deus e Pai por tudo, em nome de Nosso Senhor
Jesus Cristo. Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo."

Paulo denomina aqui de "maus" (Ef 5:16) os dias de nossa vida terrena no
sentido de sua precariedade. Nós sempre pensamos que a nossa vida ainda
está por vir, que nós iremos conseguir regenerar-nos e fazer algo de bom. De
repente, de surpresa a morte espreita-nos e aí está o fim de todos os nossos
planos: não há como fazer o tempo retroceder. Por isso, o apóstolo roga para
não sermos insensatos, mas para nos esforçarmos a compreender a vontade de
Deus, isto é, entender o que devemos fazer e o que almejar. Deus indicará,
sem dúvida, algo de útil através das circunstâncias externas e através da
inspiração interna àquele que O procura para guiá-lo. O que devemos fazer é
somente aprender a ouvir a Sua voz.

Um noviço faz uma pergunta: "Quantas vezes se deve orar para receber a
mensagem como se deve agir"? O ancião Varsanof responde: "Quando não
há um ancião experiente para se perguntar, deve-se rezar três vezes sobre o
caso e depois observar para onde o coração inclina-se, nem que seja um
cabelo e assim agir. O coração pode perceber e compreender tal mensagem."
Noviço: "Deve-se rezar as três vezes tudo de uma vez ou em momentos
diferentes"?

Ancião: "Às vezes não há como protelar. Se houver tempo reze três vezes no
intervalo de três dias, caso houver necessidade premente como foi no tempo
da traição do Salvador, tome-O como exemplo. Ele se afastou por três vezes
para orar e as três vezes Ele pronunciava sempre as mesmas palavras (cf. Mt
26:44)."

Noviço: "Quando se pretende fazer algo para agradar a Deus e um plano


contrário opõe-se a ele, como saber se esse ato realmente agrada a Deus"?

Ancião: "Reze e observe. Veja se durante a oração o coração consolida-se no


bem e esse bem não diminui mas cresce e se o plano contrário, que se opõe,
permanece ou não. Saiba que toda boa ação acarreta uma reação contrária por
inveja do demônio e uma boa intenção consegue vencer através da oração.
Caso aquilo que pareça bom for inspirado pelo demônio e além disso,
acontecer que a reação contrária também provenha dele ― com a oraηão
enfraquece o bem aparente e juntamente com ele a reação contrária aparente.
Nesse caso, é evidente que o inimigo opõe-se ao plano, que ele próprio
colocou dentro de nós, para através disso nos tentar a aceitar o plano inspirado
por ele como bem. Quando se pensar sobre algo e se sentir embaraçado no
plano e após invocar o nome de Deus ainda restar o mínimo que seja desse
algo, saiba que essa ação que se quer executar é inspirada pelo demônio.
Então, não faça isso em hipótese alguma, pois o que é feito com embaraço não
agrada a Deus. Mas quando alguém reage ao embaraço (e quando ocorre
pensamento que se opõe ao embaraço) não se deve considerar imediatamente
o ato como nocivo, mas se deve examiná-lo se é bom ou não. Se não for bom,
abandone-o, se for bom, faça-o, ignorando o embaraço."

Assim como numa corrente um elo puxa o outro, assim também ocorre com os
vícios. O exagero ao beber-se vinho, por exemplo, leva o homem a uma vida
libertina (cf. Ef 5:18). O cristão deve procurar o consolo espiritual, ele
deve encher-se do Espírito Santo recitando salmos, hinos e cânticos
espirituais ao invés de procurar os prazeres da carne (cf. Ef 5:19). Ele deve
esforçar-se para que tanto a língua quanto o coração louvem a Deus, pois se
sabe que durante o tempo dos apóstolos já haviam hinos cristãos (cf. 1Cor
14:26). Um governante pagão chamado Plínio escreveu no início do século II
ao imperador troiano, que os cristãos reuniam-se antes do raiar do sol e juntos
louvavam Cristo como Deus.

O agradecimento a Deus deve sempre fazer parte nas nossas orações. O


apóstolo Paulo ensina em sua epístola aos Tessalonicenses: "Estai sempre
alegres; orai sem cessar: por tudo dai graças (a Deus)..." (1Tes 5:16-18). A
palavra tudo inclui também os acontecimentos tristes da vida: "Ora nós
sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a
Deus" (Rom 8:28).

Após a explicação das regras gerais da vida cristã, o apóstolo passa a explicar
as regras particulares, começando pela exposição das obrigações dos
conjuges. Ele representa aqui a união dos conjuges como sendo a imagem da
união mística de Jesus Cristo com a Igreja.

c) Regras particulares.
Cristo e a Igreja ― exemplo para maridos e esposas (Ef 5:22-33).

"As mulheres sejam sujeitas a seus maridos, como ao Senhor,


porque o marido é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da
Igreja, seu corpo, do qual ele é o Salvador. Ora, assim como a
Igreja está sujeita a Cristo, assim o estejam também as mulheres
a seus maridos em tudo. Maridos, amai as vossas mulheres,
como também Cristo amou a Igreja e por ela Se entregou a Si
mesmo, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela
palavra da vida, para apresentar a Si mesmo esta Igreja gloriosa,
sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e
imaculada. Assim também os maridos devem amar as suas
mulheres, como os seus próprios corpos. O que ama a sua
mulher, ama-se a si mesmo. Porque ninguém aborreceu jamais a
sua própria carne, mas nutre-a e cuida dela, como também Cristo
o faz à Igreja, porque somos membros do Seu corpo, da Sua
carne e dos Seus ossos. "Por isso deixará o homem seu pai e sua
mãe e se unirá a sua mulher; e serão os dois uma só carne." Este
mistério é grande, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja.
Por isso também cada um de vós ame sua mulher como a si
mesmo, e a mulher reverencie o seu marido."

O homem, que freqüenta a Igreja, reconhece nesses versículos o preceito que


foi lido durante o sacramento do matrimônio. Para o entendimento correto do
ensinamento do apóstolo a respeito dos conjuges, deve-se levar em
consideração que ele não teve como objetivo derrubar as estruturas sociais que
foram estabelecidas durante séculos. O apóstolo Paulo assim como os outros
apóstolos quando tinham a necessidade de dar conselhos práticos a respeito do
relacionamento entre os membros da família ou entre aqueles que
comandavam e os seus subordinados, esforçavam-se apenas em tornar esses
relacionamentos mais nobres e elevá-los moralmente para eliminar a
crueldade e o mau uso.
Os princípios de submissão e responsabilidade são princípios estabelecidos
por Deus, pois eles são absolutamente necessários para o bem estar da
sociedade. Os filhos devem obedecer aos seus pais, os empregados aos seus
patrões, os trabalhadores aos que os comandam, os cidadãos aos governantes,
os membros da paróquia aos seus pastores e mestres e todos devem obedecer a
Deus. Todos os direitos estão ligados aos deveres. Aqueles que comandam
são responsáveis perante a Deus pela maneira como eles utilizam o poder e a
posição que lhes foi concedida. Caso o comandante não se preocupar com o
bem estar de seus subordinados e fizer mau uso de seu poder, ele se
transformará em um tirano e poderá trazer prejuízo à sociedade. Deus cobrará
isso dele. Da mesma maneira, quando os subordinados não obedecem aos seus
comandantes ocorre a anarquia e a sociedade dissolve-se.

A família é a menor célula da sociedade. A própria natureza sugere que cada


membro da família tenha seus direitos, suas obrigações e responsabilidades
condizentes. O cristianismo reconhecendo a primazia masculina não diminui a
mulher deixando-a em segundo lugar, mas ao contrário, nós sabemos pela
história que o cristianismo libertou a mulher da posição da escravidão, na qual
ela se encontrava no mundo anteriormente e reconheceu a sua igualdade
religiosa e moral da mesma forma que reconhece para o homem. O apóstolo
coloca a mulher em segundo lugar (após o marido) nas condições de vida do
lar. Ele faz isso de acordo com o que foi estabelecido por Deus durante a
criação, onde ambos os sexos têm suas superioridades específicas e limites de
atividades. A superioridade do marido é a força física e a energia da vontade, a
superioridade da mulher é a disposição para as atividades práticas, ternura e
benevolência. De acordo com essas qualidades é completamente injusto fazer
a mulher praticar os mesmos deveres que o homem. Os direitos devem ser de
acordo com os deveres e vice-versa. Por determinação divina, ao marido cabe
o primeiro lugar na vida familiar, porque esse primeiro lugar é em suma o
conjunto de certos deveres, que as esposas não podem desempenhar pelas suas
forças. O marido deve amar a sua esposa como ele ama o seu corpo, porque
ela é osso de seus ossos e carne de sua carne (cf. Gên 2:23).

As esposas costumam sentir-se oprimidas com o peso do poder do marido


sobre elas e os maridos têm a tendência de fazer mau uso de sua posição de
primazia, por isso, Paulo ensina em sua epístola justamente o que é violado no
casamento: os maridos devem amar as suas mulheres e as esposas devem ser
obedientes a eles. Deus encarrega cada membro da família de "provações"
especiais para evitar brigas pela primazia e protegê-la. O marido deve ocupar-
se do bem estar da família e tomar decisões a respeito do andamento exterior
familiar e a esposa deve concentrar a sua atenção sobre a educação dos filhos
e aspectos internos. As atitudes do marido em relação à esposa devem vir do
sentimento de amor por ela e a mulher em troca deve permitir a ele o lugar de
cabeça da família, cedendo-lhe a última palavra. No plano ideal, o
relacionamento entre marido e mulher é como o relacionamento entre Cristo e
a Igreja: um amor absoluto pela Igreja até o sacrifício da Sua própria vida e
uma submissão agradecida da Igreja a Cristo.

A submissão da esposa ao marido, no entanto, não é de escrava e nem forçada,


mas é como uma submissão ao Senhor que provem do sentimento de
confiança e de gratidão. A postura de autoridade do marido deve ser entendida
como uma posição de liderança, que é sempre necessária em todas as uniões e
sociedades, porém, não deve ser uma postura de dominação. O marido é a
cabeça natural da família. Ele deve carregar o fardo principal das obrigações
familiares, os quais a esposa não pode levar devido a delicadeza relativa de
sua natureza e da fragilidade de suas forças físicas. O amor conjugal deve ser
principalmente um amor espiritual e ter um objetivo moral.

O apóstolo cita as seguintes palavras: "no batismo da água" (cf. Ef 5:26) que
subentende o mistério do batismo, com o qual Cristo purifica as pessoas que
ingressam na Igreja de todas as suas impurezas morais. De forma semelhante,
os maridos também devem cuidar da pureza moral e da salvação das almas de
suas esposas. Eles devem manifestar o seu amor nos cuidados com elas, assim
como eles cuidam de seu próprio corpo. Eles devem alimentá-las e aquecê-las
como o Senhor faz com a Igreja. Paulo lembra-nos sobre o embasamento
bíblico desse amor do marido para com a esposa: "Por isso deixará o homem
seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa só carne" (Gên
2:24).

Com essas palavras, o apóstolo deseja alertar os conjuges para uma união
sólida e demonstrar como as brigas conjugais são anti-naturais. A expressão "a
mulher reverencie o seu marido" (Ef 5:33) é evidentemente figurativa, isso
não significa que a mulher precise temer o marido como uma escrava, porque
tal temor não pode ter lugar no cristianismo. Esse temor nada mais é que
o respeito da mulher para com o marido. Ela deve respeitá-lo como cabeça da
família e ele deve ser responsável perante a Deus pelo bem estar dessa família.
Através desses e de outros ensinamentos apostólicos nós podemos ver como
era o relacionamento dos primeiros cristãos com o casamento. O marido e a
mulher são absolutamente iguais como colaboradores de Deus, do Reino de
Deus e herdeiros da vida eterna, porém, a diferença estabelecida entre eles
pela sua natureza, permanece. A esposa foi criada para ajudar o marido e foi
criada do marido (da costela dele) e não o marido para ajudar a esposa, apesar
dele ter nascido "da mulher." A esposa, pelo seu significado humano e pelo
desígnio de Deus, é igual ao marido em tudo, mas no aspecto prático ela vem
a ser a sua ajudante e dependente e o marido vem a ser a cabeça da família,
portanto, cabeça da esposa "e que vivam segundo a vontade de Deus" como
está escrito nas orações do sacramento do matrimônio.

O apóstolo Paulo a fim de complementar esses preceitos gerais a respeito das


obrigações dos conjuges, escreve sobre os votos conjugais: "Quanto àqueles
que estão unidos em matrimônio, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher
se não separe do marido; e, se ela se separar, fique sem casar, ou reconcilie-
se com seu marido. O marido igualmente não repudie sua mulher" (1Cor
7:10-11).

"Aos outros, sou eu que lhes digo, não o Senhor: se algum irmão
tem uma mulher sem fé, e esta consente em habitar com ele, não
a repudie. E, se uma mulher crente tem um marido sem fé, e este
consente em habitar com ela, não deixe esta o seu marido;
porque o marido sem fé é santificado pela mulher fiel, e a mulher
sem fé é santificada pelo marido fiel; doutra sorte os vossos
filhos seriam impuros, enquanto que agora são santos" (1Cor
7:12-14).

Esses últimos versículos são de grande importância hoje em dia nos


casamentos, nos quais apenas um dos conjuges tem fé ou é cristão ortodoxo.

"Este mistério é grande, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja" (Ef


5:32). No casamento existe mistério como: o marido e a mulher serão os dois
uma só carne, porém, esse mistério é ainda maior em relação a Cristo e à
Igreja, que o apóstolo nem tenta explicar. A seguir, Paulo passa a esclarecer os
deveres dos filhos em relação aos pais e dos pais em relação aos filhos.

O relacionamento entre pais e filhos e entre escravos e senhores


(Ef 6:1-9).

"Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo.


"Honra teu pai e tua mãe," que é o primeiro mandamento que
tem promessa, "a fim de que sejas feliz e tenhas larga vida sobre
a terra." E vós, pais, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas
educai-os na disciplina e nas instruções do Senhor. Servos,
obedecei a vossos senhores temporais com reverência e
solicitude, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não
os servindo só quando sob as suas vistas, como por agradar aos
homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a
vontade de Deus, servindo-os com boa mente, como se servísseis
o Senhor e não os homens, sabendo que cada um receberá do
Senhor a paga do bem que tiver feito, quer seja escravo quer
livre. E vós, os senhores, fazei o mesmo com eles, pondo de
parte as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso,
está nos céus, e que não faz acepção de pessoas."

Os filhos devem obedecer os pais, pois assim exige a lei natural da justiça. Os
pais devem evitar severidade com os filhos e educá-los segundo as leis do
Senhor. Todo relacionamento familiar deve ser no Senhor, isto é, deve estar de
acordo com o ensinamento cristão em relação à liberdade e pureza moral;
deve estar baseado no princípio da justiça, respeito mútuo e amor, e não deve
transgredir os limites permitido pela lei de Cristo.

"A fim de que sejas feliz e tenhas larga vida sobre a terra" (Ef 6:3). Esse é o
único mandamento acompanhado de uma promessa. O quinto mandamento ―
honrar os pais ― entre os dez mandamentos do Antigo Testamento ι o único
que promete uma recompensa: "Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas
uma vida dilatada sobre a terra que o Senhor teu Deus te dará" (Êx 20:12).

A seguir, o apóstolo fala do relacionamento entre escravos e senhores. Ele


pede aos escravos para obedecerem aos seus senhores e aos senhores ele pede
um tratamento justo e misericordioso para com seus escravos, porém, ele não
aborda o aspecto político ou social sobre a legalidade ou não da escravidão. A
Igreja cristã não tinha como função realizar reformas políticas ou sociais, mas
sim o renascimento interior dos homens. É natural que a renovação moral
da sociedade deveria levar a mudanças correspondentes favoráveis no
relacionamento entre as pessoas.

Concluindo os ensinamentos morais, Paulo conclama os cristãos a lutar contra


o inimigo invisível de nossa salvação ― o demônio e seus servos. Esse
ensinamento está na base da devoção cristã.

d) Vida ― guerra contra os espíritos maus (Ef


6:10-20).
"De resto, irmãos, fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua
virtude. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais
resistir às ciladas do demônio, porque nós não temos que lutar
contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e
potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso,
contra os espíritos malignos espalhados pelos ares. Portanto,
tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e
ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai, pois, firmes, tendo
cingido os vossos rins com a verdade, vestindo a couraça da
justiça, e tendo os pés calçados para ir anunciar o Evangelho da
paz; sobretudo embraçai o escudo da fé, com que possais apagar
todos os dardos inflamados do maligno; tomai também o elmo da
salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus), orando
continuamente em espírito, com toda a sorte de orações e de
súplicas, e vigiando nisto mesmo com toda a perseverança,
rogando por todos os santos e por mim, para que me seja dado
abrir a minha boca e pregar com liberdade o ministério do
Evangelho, do qual eu, mesmo com as algemas, sou embaixador,
e para que eu fale corajosamente dele, como devo."

A nossa vida toda é uma luta incessante contra as tentações que vêm de todos
os lados. Essas tentações nascem em nós freqüentemente sem um motivo
externo aparente ou provem às vezes de pessoas ou circunstâncias externas.
No entanto, cada um deve saber que o maior perigo que nos ameaça vem
exatamente dos demônios. O satã e os espíritos decaídos não são produtos de
fantasia supersticiosa, mas são seres reais apesar de serem invisíveis. Eles
direcionam conscientemente e segundo um plano todas as suas atividades,
artimanhas e experiência de milhares de anos, a fim de estimular paixões nas
pessoas e as empurrarem para todo o tipo de transgressão. A maioria dos
homens, pela sua ingenuidade, são inclinados a ver os seus concorrentes e
seus desafetos como inimigos e não levam em consideração a presença dos
espíritos malignos. Na realidade, como explica o apóstolo, a nossa luta não
deve ser dirigida contra a carne e o sangue, ou seja, ela não deve ser contra os
homens que se encontram em perigo como nós, mas ela deve ser contra esses
espíritos do mal. Nós não gostamos de sofrer perdas materiais, porém, esse
não é o maior perigo, o verdadeiro perigo é perdermos o Reino de Deus e a
vida eterna, isso é o que devemos temer, pois essa perda será uma tragédia
irreparável.

Paulo denomina os espíritos malignos de "dominadores deste mundo," não por


eles terem o poder sobre o mundo, mas por eles comandarem a parte da
humanidade que permanece no mal. Na realidade, os ateus, as pessoas
libertinas e os pecadores persistentes fazem de uma certa forma, mesmo que
inconscientemente, a vontade dos demônios. Esses espíritos usam essas
pessoas e através delas tentam influenciar as atividades sociais e políticas. A
expressão "pelos ares" significa que os espíritos malignos constantemente
permanecem entre o céu e a terra. Eles nos rodeiam por todos os lados, assim
como uma nuvem de mosquitos perturbadores que ficam procurando um lugar
desprotegido para picar.

O apóstolo pede a todos para tomar a armadura de Deus para nos


defendermos deles, isto é, utilizarmos todos os meios espirituais que Ele nos
deu através do cristianismo. Essa armadura é indispensável para nós
resistirmos aos espíritos malignos nos dias maus, isto é, nos minutos decisivos
de nossa vida, como por exemplo, nos momentos das provações pesadas e na
hora da morte. De acordo com diversos relatos da vida dos santos, no
momento que a alma sai do corpo e durante a sua viagem ao Céu os espíritos
decaídos fazem uma última e desesperada tentativa para destruí-la.

Esse ensinamento de Paulo inspira-nos a ver-nos como soldados de Cristo. Os


espíritos malignos tentarão atacar-nos com diversas tentações até o fim de
nossas vidas a fim de nos destruírem, pois queiramos ou não, estamos no
centro de um combate desesperado com eles.

O apóstolo Paulo não explica detalhadamente o que ele subentende por


diversos objetos de uso militar, mas a idéia geral é clara, as nossas armas
contra os demônios são: a fé firme e sincera (o escudo), a orientação pela
palavra de Deus (as Sagradas Escrituras como espada do espírito), o amor à
verdade, o esforço na vida cristã (a couraça da justiça) e a disposição para a
divulgação do ensinamento do Evangelho (a anunciação da paz).

Maiores detalhes sobre essas virtudes cristãs podem ser vistos no Sermão da
Montanha do Salvador (Mt 5-7). Dessa maneira, o modo de vida cristã correto
é a melhor defesa contra os espíritos decaídos, por outro lado, eles têm livre
acesso às pessoas que se encontram longe de Cristo, influenciando-as em seus
pensamentos e sentimentos, provocando nelas paixões e as empurrando para
todo o tipo de maldade. O pior de tudo é que o infeliz pecador nem desconfia
da tremenda desgraça, na qual ele se encontra.

A despedida e a benção (Ef 6:21-24).

O apóstolo pede para orarem por ele na conclusão de sua epístola aos efésios.
Ele faz isso em cada uma delas, ensinando dessa maneira que a oração
coletiva tem uma grande força, pois até mesmo os mais importantes servidores
da Igreja têm necessidade dela.

"E para que vós saibais também o estado das minhas coisas e o
que eu faço, de tudo vos informará Tíquico, nosso irmão muito
amado e ministro fiel no Senhor, o qual vos enviei para isto
mesmo, para que saibas o que é feito de nós e para que console
os vossos corações. Paz aos irmãos e caridade e fé, da parte de
Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os
que amam a nosso Senhor Jesus Cristo de um modo inalterável.
Assim seja" (Ef 6:21-24).

Conclusão.
Assim, em sua epístola aos efésios, o apóstolo Paulo compartilha aqueles
pensamentos e sentimentos elevados, com os quais Deus iluminou-o durante o
período de reclusão. Ele revela aqueles caminhos elevados, pelos quais Deus
leva a humanidade à salvação e revela também o significado da Igreja de
Cristo que envolve o mundo humano e o angelical.
No centro do mistério da redenção encontra-se Cristo e Sua Igreja, a qual vem
a ser o Seu corpo místico que envolve o céu e a terra. A Igreja não alcançou
ainda a plenitude de seu desabrochar, mas ela cresce e se aperfeiçoa com a
absorção constante de novos membros. Cada cristão, aperfeiçoando-se
moralmente, contribui para o crescimento dela.

O ensinamento do apóstolo sobre o Senhor Jesus Cristo como cabeça da


Igreja é importante para o esclarecimento do relacionamento mútuo entre os
cristãos. Assim como os membros do corpo humano juntamente com a cabeça
constituem um organismo vivo, da mesma maneira, todos os que crêem em
Cristo formam um único organismo corporal-espiritual. Aqueles que se
batizam Nele revestem-se Dele, tornando-se unos com Ele. Cristo age na
Igreja como uma força que reúne a todos e os direciona. Dele depende o
crescimento e o aperfeiçoamento da Igreja.

Os judeus do Antigo Testamento esperavam com a vinda do Messias a


expansão do estado de Israel. Deus fez muito mais que isso; Ele transformou o
pequenino estado terreno em Seu Reino Espiritual ilimitado, que absorveu
fiéis de todos os povos. Todos os governos terrenos mais cedo ou mais tarde
entram em decadência, somente o Reino de Deus permanecerá para sempre e
ficará cada vez mais forte.

A Igreja não é uma rocha imóvel em sua estagnação, mas sim o corpo de
Cristo vivo e em constante aperfeiçoamento. Uma árvore de muitos séculos
difere na aparência da pequena sementinha, da qual ela germinou, no entanto,
a sua essência genética permanece a mesma. Igualmente, é a Igreja de Cristo
hoje com toda a sua aparente diferença daquela Igreja dos primórdios do
cristianismo, mas que contem a mesma fé, a mesma graça, os mesmos
sacramentos e a mesma estrutura hierárquica que os apóstolos colocaram
como base.

A nossa vida é uma luta incessante contra os espíritos malignos que tentam
destruir as nossas almas, atacando-nos insistentemente com tentações. Um
modo de vida cristão e a graça de Deus são os meios mais seguros, isto é, as
"armas" para nos defendermos deles. A virtude mais importante é
o amor puro e desinteressado em primeiro lugar a Deus e depois ao próximo.
Aquele que se esforça a amar a todos com toda a sua força, encontra-se no
caminho da perfeição e os espíritos malignos não têm acesso a ele.

Folheto Missionário número P64


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Redator: Bispo Alexandre Mileant

(ephesians_p.doc, 05-18-2002)

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