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RESENHA

POLÍTICA LINGUÍSTICA

No artigo “Por um constante repensar de nossas visões sobre língua: Revisitando o


conceito de Política Linguística”, Correa e Güths (2015) afirmam não ser algo novo o
surgimento de trabalhos na área de Linguística Aplicada que levam em conta a
natureza política da língua, trazendo, portanto, à discussão o tema política(s)
linguística(s), isso em virtude da estreita relação dessa(s) com o ensino de língua.
Essa ideia é corroborada por Calvet (2007), ao considerar que o homem sempre
interviu na língua, com o propósito de legislar e ditar o seu uso correto, assim como
do mesmo modo, para ele “o poder político sempre privilegiou essa ou aquela
língua, escolhendo sempre governar o Estado numa língua ou mesmo impor à
maioria a língua da minoria”. (CALVET, 2007, p. 11). Nesse sentido, é que temos em
Martines e Fraga (2012) a ideia de que a criação e desenvolvimento das políticas
linguísticas, em vez de corroborarem a heterogeneidade linguística, prestam-se para
reforçar a ideia de homogeneidade.

Temos clara, pois, a ideia de que a língua tem um caráter político e, em função
desse seu caráter é que a Sociolinguística, em meados do séc. XX, desenvolve o
conceito de política linguística e de planificação linguística, de forma a passar de
uma concepção de monolinguismo à concepção de multilinguísmo. (PEREIRA,
2006)

Calvet (2007, p. 73), deixa evidente em seu trabalho que a existência de uma
política linguística está implicada à possibilidade de escolha entre um e outro modo
e/ou nível de uso da língua, muito embora, para Fiorin (2000, p.222) “é evidente que
nem todos os níveis podem ser objeto da planificação linguística”. Para Calvet
(2007), é impossível se referir à política linguística sem se remeter também à
planificação linguística, considerando-se aquela como o conjunto das “grandes
relações entre língua e sociedade” e esta como “a implementação da política
linguística estabelecida”. Para esse autor (p.20-21) compete ao Estado a política
linguística, pois (p. 20- 21), “apenas o Estado tem o poder e os meios de passar ao
estágio do planejamento, de pôr em prática suas escolhas políticas”.

Referindo-se à gestão das políticas linguísticas, Calvet (2007, p. 69) afirma que ela
pode se dar in vivo e in vitro, sendo que a primeira “refere-se ao modo como as
pessoas resolvem os problemas de comunicação com que se confrontam
cotidianamente” e a segunda é a abordagem dos problemas referentes ao uso das
línguas pelo poder oficial.

Silva (2014) apresenta como exemplo da gestão in vitro no Brasil, a aplicação da Lei
do Diretório por Marquês de Pombal, a qual proibia o uso de línguas indígenas para
ceder espaço à obrigatoriedade do uso e do ensino do português como língua oficial.
O autor cita, ainda, a medida implementada por Getúlio Vargas de proibir o uso de
línguas estrangeiras no território brasileiro, a fim de manter a unidade da nação que,
a seu ver, era ameaçada por essas línguas. unidade da nação.

Reportando-se, ainda, às políticas in vivo e in vitro, Maher (2013) se posiciona


contrariamente a muitos que concebem a ideia de as decisões sobre políticas
linguísticas caberem somente ao Estado. Portanto, defende que “Políticas
linguísticas podem também ser arquitetadas e colocadas em ação localmente: uma
escola ou família, por exemplo, podem estabelecer – e colocar em prática – planos
para alterar uma certa situação (sócio) linguística [...]”. (p.120).

Ainda no que se reporta à gestão in vivo e in vitro, Correa e Güths (2015) tomam
como de grande relevância a noção de agente ao se tratar da gestão in vivo e in
vitro – “sujeito que conseguiu furar o cerco da estrutura que o esmagava e tolhia a
sua autonomia e desejo e direito de agir” (RAJAGOPALAN, 2013,p. 36) -- para se
compreender como se dá a criação das políticas linguísticas, se partem de baixo
para cima ou de cima para baixo, numa forma de imposição.

Nesse sentido, de acordo com Pagotto (2007), temos que a implementação de


políticas linguísticas parece obedecer à ações de força do Estado, visando à
reafirmação de sua própria existência e à ações que visam ao atendimento de
demandas específicas de grupos ou setores da sociedade, quase sempre tendo em
vista o plurilinguismo. Desse modo, é que temos a seguinte afirmação de Güths
(2015, p. 50) “as duas forma de gestão ocorre simultaneamente, assim ambas
exercem influência uma sobre a outra”

Em Santos (2012), lemos que os resultados da gestão in vitro das situações de


plurilinguismo são dependentes do total envolvimento da comunidade linguística
atendida, pois, faz-se necessário que os potenciais falantes se identifiquem com
dada língua e valorizem sua cultura, de modo a não desmerecê-la, julgando- a
inferior a outra. Nesse sentido, para Rajagopalan (2013) a língua deve ser objeto de
uma política, haja vista compreendê-la como uma atividade de direito de todos, sem
quaisquer intervenções do Estado e quaisquer tipos de pré-conceitos.

Nessa mesma linha de pensamento de Rajagopalan (2013), tomamos as


considerações de Lora et all (2015), que consideram de fundamental importância a
participação ativa do cidadão como agente da linguagem, principalmente, no debate
sobre política linguística, de forma a romper com a concepção de língua tão só
como imposição do Estado. Desse modo, para Mira Mateus (2010)

a política linguística deve estimular os falantes a perceberem e


sentirem que a língua que falam, pela possibilidade que lhes dá
de se expressarem e comunicarem, merece ser enriquecida e
trabalhada por eles com entusiasmo porque é uma forte
característica da sua identificação. Ela serve o quotidiano dos
indivíduos e contribui para a sua realização como membros de
uma sociedade. (p.74).

A autora corrobora, assim, o pressuposto de Calvet (2007) de que “as línguas


existem para servir aos homens e não os homens, para servir às línguas”, o que, por
sua vez, enfatiza a ideia de Ribeiro (2011) da língua não como produto, mas como
processo, haja vista ela sofrer alterações e mudanças de acordo com as
transformações sociais, históricas e ideológicas pelas quais passam a sociedade em
que se insere.

É nesse contexto, que Ribeiro (2011) elucida a relevância de a sociedade conhecer


a heterogeneidade da língua, a qual, manifestada nas práticas linguísticas dos
falantes, acaba por refletir a heterogeneidade social, cultural, geográfica e
econômica de uma dada comunidade. Frente, então, a essa realidade da língua,
Ribeiro (2011, p. 100) afirma ser inegável que “precisa haver políticas linguísticas
que viabilizem os usos do português e não apenas o uso da norma-padrão”. E
acrescenta a necessidade de “um conjunto de políticas que assegurem as
realizações da língua de forma plena e sem preconceitos, assim como possibilitem
diretrizes para um ensino produtivo e eficiente”. (p. 101).

Ribeiro (2011), em meio à discussão sobre a variabilidade e política da língua, como


que se referindo à gestão da política linguística, reforça o pressuposto de sua
instituição passar também pela participação e apoio da comunidade linguística, com
menos dependência burocrática e mais atividade dos falantes dessa comunidade.
Para o autor, isso se torna condição para se formar uma maior proficiência dos
usuários da língua nas suas práticas linguísticas, como também para uma maior
capacidade de atuação social. Só assim, o falante obterá benefícios com a política
linguística, conforme assevera Mira Mateus (2010).