Você está na página 1de 10

Arquíloco (Paros, séc. VII AEC) [agora para nós Fr. 122W (tr.

Trajano Vieira)
voltou-se, e sangrenta ferida gememos,
ELEGIAS mas por outros a seu turno trocará. Mas Nada é espantoso, inesperado ou impossível,
[o quanto antes desde que Zeus, procriador da estirpe olímpica,
Fr. 1W (tr. Paula da Cunha Corrêa) suportai, afastando o lamento de mulher. fez noite ao meio dia ao ocultar a lâmpada
do sol. E o úmido temor domou os homens.
Sou servo do Senhor Eniálio1 e Fr. 16W (tr. Gustavo Frade) E tudo então tornou-se crível e possível.
das Musas o amável dom conheço. A Sorte e o Destino, Péricles, tudo dão ao homem. Ninguém fique espantado caso aviste feras
Fr. 17W (tr. Gustavo Frade) trocando com delfins o páramo marinho
Fr. 2W (tr. Paula da Cunha Corrêa) O trabalho e o esforço humano produzem tudo para e as ôndulas ecoantes tenham mais valor
[os mortais. que o continente, e o bosque agrade aos delfins.
Na lança, meu pão sovado, na lança, o vinho
Ismárico, e bebo apoiado na lança. JAMBOS Fr 19W (tr. Maria Helena da Rocha Pereira)

Fr. 4W (tr. Trajano Vieira) Fr. 114W (tr. Paula da Cunha Corrêa) Não me importa o ouro de Giges,
nem me domina a ambição, nem invejo
Vai! Pega a taça e entre os bancos do navio Não gosto do grande general, nem do que anda a as ações dos deuses. Não desejo a tirania poderosa.
avança! Tira a tampa da bojuda ânfora! [largo passo, Longe dos meus olhos está tudo isso.
Depõe o vinho rúbeo até que venha a borra, nem do que é vaidoso de seus cachos, nem do bem
pois não é boa ideia montar guarda sóbrio. [barbeado, Fr. 128W (tr. Maria Helena da Rocha Pereira)
mas que me seja pequeno e com pernas tortas
Fr. 5W (tr. Paula da Cunha Corrêa) de ser ver, plantado firme sobre os pés, cheio de Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
[coragem. eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
Com um escudo um saio ufana-se, o qual junto à adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
moita, arma irrepreensível, deixei sem querer, Fr. 131-132W (tr. Gustavo Frade) dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
mas salvei-me. Que me importa aquele escudo? Vencido, não te deixes em casa a gemer.
Que vá! Arranjo outro, não pior. Glauco filho de Leptines, assim é o coração dos Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças, sem exagero.
humanos mortais, conforme Zeus conduza o dia, Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.
Fr. 13W (tr. Teodoro Rennó Assunção) e pensam conforme a situação com que se
[deparam. Um poema que Trajano Vieira (2017, p. 38) atribui
Não por censurar, Péricles, o gemente luto a Arquíloco sem apresentar a referência:
o cidadão ou a cidade alegrar-se-á em festas Fr. 130W (tr. Gustavo Frade)
pois tais homens as ondas do estrondoso mar Só uma coisa Cápus ama de paixão:
inundaram, e inchados por dores temos Tudo vem dos deuses. Muitas vezes eles o ferro. O resto é léria, exceto o pau ereto
os pulmões; mas os deuses para males incuráveis, [endireitam a se mover pelos recessos de seus glúteos.
ó amigo, sobrepuseram a firme paciência como homens derrubados na terra pelos males, Seu olhar se derrete em direção do amante
droga. Uma hora um, outra outro suporta isto; mas muitas vezes também fazem os que vão bem até o momento em que, no espeto, atinge o zênite.
cair de costas. Então, muitos males surgem para Missão cumprida, dá adeus a seu querido
1
Deus da guerra: no período micênico parece uma [eles e vai atrás de cobridores de mais dotados.
divindade distinta, mas em Homero já é um epíteto de e vagam com necessidade de víveres e a mente Que morra, Zeus, e nunca mais reviva, a raça
Ares. [perturbada. sem afeição e sem palavras dos passivos.
Simônides de Amorgos (Adrados 1, dubium 8W) a que porta o fim da dolorosa velhice
Tr.: Gustavo Frade e a que porta o outro, o da morte: o fruto da Se é assim, se ao varão errante não vêm préstimo
[juventude ou respeito algum, e nem à descendência,
Uma coisa, a mais bela, disse o homem de Quios: vem a ser em pouco tempo, quanto sobre a terra o com ânimo lutemos por esta terra, e pelos filhos
―Como a geração das folhas, assim também é a dos [sol se espalha. morramos, não mais poupando a vida!
[homens‖. Mas uma vez que então este fim da estação passar, Jovens, vamos, lutai, mantendo-vos lado a lado,
Poucos dos mortais que a receberam nos ouvidos imediatamente, então, estar morto é melhor que a não inicieis a torpe fuga ou pavor [16]
a guardaram no peito: a esperança fica ao lado de cada um [vida. mas fazei grande e valente o ânimo no peito;
dos homens, a que brota nos peitos dos novos. Muitas desgraças acontecem no coração: um tem o não amai a vida, em luta com varões!
Enquanto um dos mortais tem a flor muito desejável da [patrimônio dilapidad o E não fujais, aos mais velhos abandonando,
[juventude, e restam os trabalhos da pobreza dolorosa. aos anciãos, que não têm mais joelhos ágeis. [20]
tem o coração leve e pensa muitas coisas vãs, Outro, por sua vez, carece de filhos, e intensamente
pois não espera a envelhecer nem morrer, os desejando, desce terra abaixo para o Hades. Pois, sim, isto é torpe: na vanguarda caindo,
nem, enquanto tem saúde, se preocupa com a exaustão. Outro tem uma doença que destrói o coração: não jazer ante os jovens um varão mais velho,
Tolos, aos quais a mente fica assim. Não sabem há pessoa a quem Zeus não dê muitos males. já de cabeça branca e barba grisalha,
como o tempo da juventude e da vida é pouco expirando o valente fôlego na poeira,
para os mortais. Mas tu aprende isso e até o fim da vida Compare: os ensanguentados genitais nas próprias mãos –
resolve alegrar a alma com as coisas boas. que espetáculo torpe, que visão revoltante! – [25]
Ilíada, VI, 146-9: e o corpo despido: Mas tudo convém aos jovens
Mimnermo (Colofón ou Esmirna, séc. VII) Como a geração das folhas, assim também é a dos enquanto tiverem a flor brilhante da amável
[homens. [juventude:
Fr. 1W (tr. Frederico Lourenço) O vento derruba umas folhas no chão, mas outra é admirado por homens, por mulheres amado,
[árvore quando vivo; e belo, se na vanguarda cai.
O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite? florescente brota na estação da primavera que vem
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem: [depois. Vamos! Cada um fique bem firme, ambos os pés
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama, Assim a geração dos homens, uma nasce, mas fixos ao chão, mordendo os lábios com os dentes!
que são flores da juventude sedutoras [outra acaba.
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa Sólon (Atenas, séc. VII)
velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo, Tirteu (Esparta, séc. VII) Tr. Rafael Brunhara
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos fr. 4W (Daisi Malhadas e M. H. da Moura Neves)
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol, Fr. 10W
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres. Nossa cidade jamais pelo desígnio de Zeus
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs. Belo, sim, é morrer na vanguarda caindo perecerá nem pela vontade dos bem-aventurados deuses
um varão valoroso a lutar pela pátria. [imortais
Fr. 2W (tr. Gustavo Frade) Mas mendigar, deixando sua cidade e férteis pois a tão magnânima e protetora Palas Atena,
campos, de tudo é o mais penoso,
Nós, como folhas que a multiflorida estação vagando com a cara mãe e o velho pai, [5] filha do poderoso pai, tem suas mãos sobre nós.
da primavera faz brotar, quando rapidamente crescem filhos pequenos e esposa legítima. Os próprios cidadãos, porém, querem destruir, com suas
pelos raios do sol, parecidos com elas durante curto tempo, Será odioso entre aqueles a quem chegar, [loucuras [5]
com as flores da juventude alegramo-nos, não conhecendo pois cede à carência e à pobreza horrível, nossa grande cidade, persuadidos pelas riquezas,
da parte dos deuses o mal nem o bem: as Queres negras envergonha a linhagem, vexa a forma esplêndida e há também o injusto propósito dos chefes do povo, para
[estão ao lado, e toda a desonra e vileza o seguem. [10] [os quais está reservado,
por seu grande descomedimento, muitas dores sofrer: faz cessar o ódio da terrível sedição, e graças a ela enganas-me, como a uma criança pequena, com
pois nem sabem controlar a fartura nem organizar todas as ações humanas são justas e sábias. palavras.
com tranqulidade as alegrias do festim de hoje [10] Teógnis (ou Theognidea)
.............................................. v.1327-34
enriquecem, por ações injustas deixando-se persuadir tr. Glória Braga Onelley Ó jovem, enquanto tiveres a face lisa, jamais
............................................. (tradução dos dísticos elegíacos em prosa) deixarei de te elogiar, nem mesmo se me estivesse
nem os bens sagrados nem os do estado destinado morrer. Para ti, que te entregas, é ainda
poupam, mas furtam-nos em pilhagem cada qual por v.19-30 honroso, mas para mim, que te amo, não é
[seu lado, Cirno, que o meu selo de poeta seja colocado vergonhoso suplicar. Mas te imploro, por nossos
nem guardam os veneráveis fundamentos da Justiça, nestes versos – roubados jamais serão esquecidos; pais; tem piedade de mim, Ó jovem, dando-me
a qual, silenciosa, ciente do que acontece e do que ninguém trocará o pior por este excelente que aqui gratidão, se é que algum dia tu também terás, se
[aconteceu,[15] está; assim todos dirão: ―São os versos de Teógnis desejares, o dom de Afrodite, coroada de violetas,
com o tempo vem para executar cabal vingança. de Mégara‖, célebre entre todos os homens; a todos e irás para junto de um outro (jovem); pelo menos
Esta ferida inevitável já atinge a cidade toda, os cidadãos, de modo algum, posso agradar. Não é que a deusa te permita receber em troca as mesmas
leva-a rapidamente à nociva escravidão, de se admirar, Polipaides, pois nem mesmo Zeus, palavras.
que desperta a sedição civil e a guerra adormecida, fazendo cair a chuva ou fazendo-a cessar, a todos
esta que foi a ruína da juventude encantadora de muitos agrada. A ti, por considerar-te, ensinarei precisa- v.1267-70
[homens;[20] mente aquilo que eu mesmo, Cirno, ainda criança, Um jovem e um cavalo possuem o mesmo feitio:
pois pelos inimigos rapidamente uma cidade formosa aprendi dos homens de bem. Sê prudente, não pois um cavalo não chora seu cavaleiro que jaz na
é arruinada nas associações em que se comprazem os obtenhas, por atos vergonhosos ou injustos, nem poeira, mas leva o homem que lhe sucedeu, se
[injustos. honrarias, nem fama, nem riquezas. estiver saciado de cevada; assim também o jovem
Esses os males que envolvem o povo; muitos ama o que está presente.
pobres chegam a uma terra estranha v.239-254
vendidos e, com desonrosas correntes, amarrados,[25] Eu te dei asas, com as quais sobre o mar sem v.959-62
................................................. limites levantarás voo, erguendo-te facilmente Enquanto só eu bebia da fonte de águas sombrias,
Assim o infortúnio público atinge cada um em sua casa; sobre a terra inteira, em festas e banquetes, em parecia-me ser a água, de certo modo, doce e bela;
as portas do pórtico não podem detê-lo, todas, estarás presente, pousando nos lábios de mas, a partir de agora, está turva, pois mistura-se
por cima do elevado muro salta, e encontra por certo muitos homens e, ao som de flautins sonoros, água com água; então irei beber de outra fonte ou
[morador jovens, sedutores, ordenadamente, com uma bela e de um rio.
mesmo que fuja para a parte mais recuada de seu harmoniosa voz, celebrar-te-ão. E quando, sob as
[quarto. regiões subterrâneas da terra sombria, chegares às v.1337-40
Ensinar isto aos atenienses é o que o meu coração moradas lamentosas do Hades, jamais, nem mesmo Não amo mais um jovem, expulsei os penosos
[ordena: [30] morto, perderás a glória, mas, possuidor sempre de sofrimentos, e, feliz, escapei aos terríveis
de que modo os mais numerosos males a uma cidade um nome imortal, serás reconhecido pelos homens, tormentos, e fui libertado do desejo por Citaréia, de
[Disnomia causa, Cirno, percorrendo a Hélade e as ilhas, cruzando o formosa coroa; para ti, ó jovem, de minha parte,
e de que modo Eunomia garante ordem e justiça plena e piscoso mar estéril, não montado no dorso dos não há reconhecimento algum
sempre aos injustos acorrenta; corcéis; conduzir-te-ão os luzentes dons das
ela aplaina as asperezas, faz cessar a fartura, aniquila o Musas, coroadas de violetas: a todos aqueles que v.1247-8
[descomedimento, disso se ocupam e aos vindouros serás motivo de Toma cuidado com meu ódio e minha violência,
seca as flores da desgraça, quando brotam, canto, enquanto existirem a terra e o sol; mas eu fica sabendo em teu coração
corrige os julgamentos errados e modera as ações não obtenho de ti a menor atenção, ao contrário, que, por causa de teus erros, me vingarei de ti com
orgulhosas; faz cessar as obras da discórdia, todas as minhas força.
Safo (Lesbos, c. 630-580) Fontes: Dionísio de Halicarnaso, Da composição,
23 e Papiro de Oxirrinco 2288 (s. II EC)
Fragmento 1

Tr. Joaquim Brasil Fontes: Tr. Trajano Vieira Tr. Guilherme Gontijo Flores

Aphrodite em trono de cores e brilhos, Afrodite imortal, ó tronicintilante, Multifloreamente Afrodite eterna
Imortal filha de Zeus, urdidora de trama! filha de Zeus, astuciurdidora, rogo: Zeus te fez ó roca-de-ardis e peço
Eu te imploro: a dores e mágoas não dobres, evita subjugar-me o coração, ó magna, deusa não permita que dor e dolo
Soberana, meu coração; ao desconforto e à dor, domem meu peito

mas vem até mim, se jamais no passado mas te aproxima, acaso de outra feita venha aqui se um dia ao ouvir meu pranto
ouviste ao longe meu grito, e atendeste, ouvindo minha voz longínqua, longe sem demora você me veio
e o palácio do pai abandonando, a ela deste ouvido, atrás deixando o sólio logo que deixava teu lar paterno
áureo, tu vieste; paterno sobre o coche ouro que jungiras, plenidourado

no carro atrelado: conduziram-te, rápidos, até aqui. Notáveis estorninhos norteavam-te sobre o carro atado e velozes aves
lindos pardais sobre a terra sombria, no círculo da terra negra, te levaram várias à negra terra
lado a lado num bater de asas, do céu, cerrando as asas tensas, numa nuvem de asas turbilhonantes
através dos ares, do urano-céu cortando o éter no entremeio. na atmosfera

e pronto chegaram; e tu, Bem-Aventurada, Houve presteza na chegada. junto a mim no instante você sorrindo
com um sorriso no teu rosto imortal, Teu rosto imorredouro, venturosa, riu, deusa aventurada de face eterna
perguntaste por que de novo eu sofria, querias saber de meu recente sofrimento, perguntou-me por que de novo sofro
e por que de novo eu suplicava; qual o motivo de outra invocação. chama de novo

e o que que para mim eu mais quero, O que meu coração em desvario por que ainda deixo nascerem chagas
no coração delirante. Quem, de novo, a Persuasiva queria mais? ―Ao sobreamor que é o teu, sobre o peito quem eu de novo devo
deve convencer para o teu amor? Quem, a quem convenço aceite que a conduzas? seduzir e dar aos amores? quem ó
ó Psappha, te contraria? Quem não faz jus a Safo? Safo te assola?

Pois, ela, que foge, em breve te seguirá; Se foge, em breve te persegue. pois se agora foge, virá em breve
ela que os recusa, presentes vai fazer; Diz não ao dom? Será ela a te dar. se presentes nega dará em breve
ela que não ama, vai te amar em breve, Desama? Em breve amará, se desama agora amará na hora
embora não querendo. Mesmo recalcitrante.‖ mesmo que negue

Vem, outra vez, agora! Livra-me Também agora, vem, e tira o peso venha agora aqui me livrar das longas
desta angústia e alcança para mim, do meu sofrer! Que venha a ser aflições conceda os afãs que anseio
tu mesma, o que o coração mais deseja: o que é meu coração: tão só querer! neste peito e seja aliada nesta
sê meu Ajudante-em-Combates. Empenha-te tu mesma, aliada em minha guerra! linha de luta.
Tr. Joaquim Brasil Fontes Tr. Trajano Vieira
Tr. Guilherme Gontijo Flores
Fragmento 31 Fonte: Pseudo-Longino, Do sublime, 10, 1-3.

Parece-me ser igual dos deuses A aparição de alguém sentado à tua frente
aquele homem que, à tua frente equivale a de um deus. O prazer que há no som Num deslumbre ofusca-me igual aos deuses
sentado, de perto, tua voz deliciosa de tua fala repercute em seu ouvido. esse cara que hoje na tua frente
escuta, inclinando o rosto, se sentou bem perto e à tua fala
doce degusta
e este riso luminoso que acorda desejos — ah! eu juro, Sorri com deleite. Não direi que a cena
meu coração no peito se estremece de pavor, não desapruma o coração que trago no peito, e ao teu lindo brilho do riso — juro
no instante em que eu te vejo: dizer não posso mais pois um momento em tua presença basta que corrói o meu coração no peito
uma só palavra; para calar a sílaba, impotente, porque quando vejo-te minha fala
logo se cala
minha língua se dilacera; mas rompe-se a língua e a sutileza que há
escorre-me sob a pele uma chama furtiva; no fogo logo corre sob a pele, toda a língua ali se lacera um leve
meus olhos não vêem; meus ouvidos a vista falha, zunem os ouvidos, fogo surge súbito sob a pele
zumbem; nada vê meu olho mas ruge mais ru-
ído no ouvido
um frio suor me recobre, um frêmito do corpo decaem de mim gotículas, tremor me doma,
se apodera, mais verde que as ervas eu fico; e o verde de uma planta gela-me a água e inunda-me o arrepio
que estou a um passo da morte, não se equipara ao meu, e tânatos me arrebata e resto na cor da relva
parece [ parece que me ronda. logo me parece que assim pereço
nesse deslumbre
Mas [ Mas cercear a ousadia é um erro a quem...
tudo é suportável se †até um pobre†
Fragmento 130 Fonte: Hefestião, Manual de métrica, 7. 7.

Eis que Amor solta-membro estremece-me


] de novo, Eros me arrebata, Agridoce, intratável, reptílico
ele, que põe quebrantos no corpo,
doceamargo, invencível serpente

Fragmento 131 Fonte: Hefestião, Manual de métrica, 7. 7.


Átis sei que detesta pensar em mim
] ó Atthis, tu me destesta até na lembrança: e hoje voa no vento de Andrômeda
e para os braços de Andromeda voas [
Tr. Joaquim Brasil Fontes Tr. Trajano Vieira Tr. Guilherme Gontijo Flores

Fragmento 16 Fonte: Papiro de Oxirrinco 1231

É um batalhão de infantes – ou de cavaleiros Há quem se alegre que a gala de cavalariços, D]izem uns que exércitos e uns que barcos
– dizem outros que é uma frota de negras naus há quem se alegre que a infantaria e os navios e uns que carros sejam o se[r] mais belo
a mais linda coisa sobre a terra – para mim, são o ápice da beleza sobre a terra que negreja. s]obre a terra negra — por mim seria o
é quem tu amas. Quanto a mim, afirmo ser o que se ama. ser que se ama
E como é fácil fazer clara essa verdade
Não creio haver dificuldade em fazer-me c]omo é fácil logo explicar o fato
para o mundo, pois aquela que triunfou
sobre o humano em beleza, Helena, seu marido, entender p]ara t[o]dos pois que já todos sabem
o mais nobre dos homens, a toda e qualquer pessoa. Ela, referência que a [mor]tal mais bela da terra Helena [a]o
em beleza em todos os quadrantes, [nob]re marido
abandonado, para Troia navegou; abandonou o consorte, exemplo de excelência,
para a filha, os pais queridos nem um só Des[denho]u e foi vele[jar] em Troia
pensamento voltando: arrastada e navegou até Troia: Helena. s[em seq]uer lembrar-se da fina [fil]ha
[ Nem a filha, nem os pais, que lhe eram caros, dos queridos [pa]is seduzidos pela
ocupavam sua memória, .] ` [. . . . . . ]sa [
[por Kýpris mas Amor a conduziu por senda paralela...
[ em sua levitude... pois [. . . . ] in]flexível mente
agora, esta lembrança: Anaktória
. . . . ] . . ( . ) levemente e[ . . . . . ] pensa
]daqui tão distante;
e me trouxe o recordo de Anactória, me] recordo agora da plen[a aus]ência
aquele modo de andar que acorda os desejos ausente de minhas cercanias. de Anactór[ia
e cambiantes brilhos, mais eu queria ver,
no seu rosto, que soldados com panóplias e carros Amaria vislumbrar sua erótica passada, quero ver passar o [seu] passo amável
lídios [em pleno combate] o fulgor (verdadeira lâmpada!) em seu rosto, quero o lustre intenso que traz no rosto
muito mais do que os coches lídios mais que as carruagens da Lídia e armadas
]sua parte não pode esperar e seus hoplitas no avanço por terra. in]fantarias
]o humano [ ] mas deseja-la.
]assim não será possível
Inesperadamente. ] . ao morta[l d]esejar partilha
]e por mim mesma
Fragmento 168B Fonte: Hefestião, Manual de métrica, 11. 5.

A Lua já se pôs, A lua se anula, idem as Plêiades.


e as Plêiades; é meia- Agora mergulha a lua
Aos dias a noite equidista.
noite; a hora passa e as Plêiades todas noite
Transcorre a hora.
e eu deitada estou sozinha profunda e o instante passa
Na solitude, afundo-me no sono.
e deito-me solitária.
Fragmento 38A (tr. Trajano Vieira) domando uns aos outros, e as Moiras isso
[fiaram,
Alceu (Lesbos, c. 630-580) Bebe comigo, Melanipo, até cairmos! que de pronto o fim da morte odiosa se realize
O que te leva imaginar que a luz do sol [para mim,
Fragmento 180 A (tr. Gustavo Frade) verás de novo pura após cruzar o túrbido antes de um dia eu ver estas multidoridas
Aqueronte? Não sonhes com enormidades, coisas lacrimosas sobre (minhas) dores
Não entendo o conflito dos ventos: pois Sísifo inclusive, o rei da estirpe eólida, os filhos mortos
a onda rola de um lado fino conhecedor do ser humano, achou-se no palácio ou a cidade capturada.
e de outro, e nós no meio alheio à morte. Embora astuto, duas vezes
somos levados em nossa nau negra, transpôs o Aqueronte, que assinou-lhe sua sina. Mas vinde, filhos, às minhas palavras, querida
E a pena de levar no dorso a terra negra [(prole?)...
penando muito na grande tempestade. Zeus lhe impôs. Nada esperes do que há de vir! pois com elas eu vos revelo o final:
A água do porão já chega ao pé do mastro, Mais do que nunca, em nossa juventude, a dor, um (de vós), tendo o palácio, habita próximo à
a vela já toda esfarrapada qualquer que seja a dor que o deus no dê provar, [fonte Dirceia,
e com grandes rasgos; devemos suportá-la... mas o outro parte, tendo rebanho
e todo ouro do caro pai –
cordas afrouxam... Estesícoro (Himera, c. 632/29-556/53) o filho que primeiro, extraído da sorte,
Tradução: Giuliana Ragusa obtiver seu lote, graças à Moira.
Fragmento 347 (tr. Trajano Vieira)
Fragmento 210 Pois penso que isto
Encharca a pleura de vinho, o astro encerra seu circuito, seria vossa libertação do mal destino,
a quadra é árdua, a sede dissemina da canícula. Ó Musa, tu, recusando as guerras, comigo, nos conselhos do vate divino,
Da pétala, o trilo é doce da cigarra... glorificando as bodas dos deuses e os se o Cronida ... a prole e também a cidadela
Aflora o cardo. Tempo de fêmeas lascivas, [banquetes dos homens, do soberano Cadmo,
de masculinidade flébil: nos joelhos, no couro cabeludo e as festividades dos venturosos... lançando para longe, por muito tempo, os
Sírio2 arde... [piores males...
Fragmento 222B destinados à linhagem‖.
Fragmento 346 (tr. Trajano Vieira) [Jocasta fala para Tirésias e depois para os filhos] Assim disse a esplêndida mulher, falando
[com palavras gentis,
Bebamos! A espera da lâmpada fará algum sentido? ― ... às (nossas) dores não juntes duros anseios, da guerra no palácio... os filhos,
O dia, mede-o um dedo... E nem, para o futuro, me mostres e, junto, Tirésias, intérprete de portentos;
As taças de maior portento, amigo, escolhe-as, que graves expectações. [e eles obedeceram...
[faísquem!
Se houve uma dádiva do filho de Semele e Zeus Pois os deuses imortais nem sempre Fragmento 223
aos homens, essa foi o vinho, deslembrança da agrura. fixaram similarmente, sobre a terra negra,
Para casa de água, duas de vinho, guerra contínua aos mortais, ... porque Tíndaro
no transbordo (quase) das taças, não! Nem tampouco amizade, mas sobre ... um dia, sacrificando aos deuses todos,
uma cedendo espaço à sucedânea... [mente... dos homens [só da generosa Cípris
os deuses fixam. se esqueceu; mas ela, irada,
Tuas profecias – que o senhor longifrecheiro, [as meninas de Tíndaro
Apolo, não perfaça todas! fez bígamas e também trígamas
2
Sírio: a estrela do Cão. Indica o auge do verão. Mas se me é destinado ver meus filhos e desertoras de maridos...
busco-te, mas tu não ouves, ou vendo um homem próspero,
não sabendo que deténs as rédeas [por quanto tempo o será.
Íbico (Régio, sul da Itália, ativo em 550) de minha alma. Nem a mudança da mosca alada
é rápida assim.
Fragmento 287 (tr. Giuliana Ragusa) Fragmento 395
Grisalhas já minhas Fragmento 542 (tradução: G Frade)
Eros, de novo, de sob escuras têmporas, e a cabeça, branca; Um homem ser realmente bom
pálpebras, com olhos me fitando derretidamente, a graciosa juventude não mais é difícil: perfeito como um quadrado nas mãos,
com encantos de toda sorte, às está presente, e velhos, os dentes, [nos pés
inextricáveis redes de Cípris me atira. e não mais muito tempo e na mente, feito sem falha.
Sim, tremo quando ele ataca, de doce vida resta. Apenas um deus teria esse privilégio.
Tal qual atrelado cavalo vencedor, perto da velhice, Por isso gemo, Um homem não tem como não ser ruim,
Contrariado vai para a corrida com carros velozes. amiúde temendo o Tártaro; se o abatem circunstâncias contra as quais
pois terrível é o recesso [não há recurso.
Anacreonte (Teos, ativo em c. 550) de Hades, e atroz a rota Todo homem é bom quando vai bem
Tradução: Giuliana Ragusa lá para baixo. É certo a e mau quando vai mal. Aqueles
quem tiver descido não subir. mais amados pelos deuses
Fragmento 357 são os melhores.
Ó senhor, com quem o domador Eros, Simônides (Ceos, 556-468/64)
e também as ninfas de escuros olhos Não considero certo o dito de Pítaco,
e a purpúrea Afrodite Fragmento 520 embora seja de um homem sábio.
brincam juntos, enquanto vagueias Dos homens, frágil Ele diz: ―é difícil ser bom‖.
pelo altivos picos das montanhas: a força, vãs as ânsias, Para mim é suficiente não ser sem lei demais
os joelhos abraço-te, e tu, propício, e em curta existência, fadiga sobre fadiga; e conhecer a justiça útil à cidade;
vem a nós, e aceitável e a inevitável morte lhes sobrepaira um homem são. Nele eu não
prece escuta: [similarmente, apontarei falhas, porque a raça
a Cleóbulo sê bom pois dela igual quinhão obtêm os bons dos estúpidos é sem fim.
conselheiro, para ele minha paixão, e cada um dos ignóbeis. Tudo é bom, tudo aquilo com que
ó Dioniso, aceitar. o que é vergonhoso não se mistura.
Fragmento 579
Fragmento 358 ... há um relato: Então, eu nunca jogarei
Com a bola purpúrea de novo me A excelência mora em rochas inacessíveis, o lote do meu tempo de vida para uma vazia
acertando, Eros auricomado perto dos deuses (?), e tem custódia sob [esperança
me chama a brincar com [sacro local; irrealizável, em busca do que não é possível,
a jovem de sandália furta-cor; aos olhos de todos os mortais não é um homem totalmente irrepreensível
mas ela – pois é da bem fundada visível, senão a quem bem de dentro entre todos que colhemos o fruto da ampla terra.
Lesbos – a minha coma o suor morde-peito, (Eu vos avisarei se encontrar.)
Censura, pois que branca, e alcança o ápice da coragem. Todos elogio e aprecio,
e por outra está ... de boca aberta! quem quer que, por conta própria, não faça
Fragmento 521 (tradução: G. Frade) nada vergonhoso. Com a necessidade,
Fragmento 360 Sendo um humano, nunca digas o que nem os deuses lutam.
Ó menino de olhar virginal, [acontecerá amanhã,
para que a saciedade, vindo, não incomode. O dever
Píndaro (Tebas, 518-446) Tr. Gustavo Frade que corre com meus pés, que parta para ti, jovem, o mais novo dos belos,
alado por meu engenho.
Ode Pítica 8 [epodo 2]
A Aristômenes de Egina, lutador Pois nas lutas, seguindo as pegadas dos tios maternos, 35
[estrofe 1] não denigres Teogneto em Olímpia
Gentil Calma, filha nem a vitória de membros ousados de Clitômaco no Ístmo.
da justiça, engrandece-cidades, Engrandecendo a família dos Midilidas, sustentas a palavra,
que tem chaves supremas exatamente a que um dia o filho de Oicles em Tebas de sete portões,
das assembleias e guerras, vendo os filhos resistindo pela lança, disse por enigma, 40
recebe a honra de Aristômenes pela vitória pítica, 5 [est. 3]
pois tu sabes realizar e receber suavidades quando de Argos vieram,
igualmente, na oportunidade exata. em uma segunda expedição, os Epígonos.
[antístrofe 1] Assim disse, quando eles combatiam:
Tu, quando quer que alguém um amargo Por natureza sobressai nos filhos a nobre
rancor no coração incuta, determinação dos pais. Observo claramente: 45
áspera, vindo de encontro 10 Alcméon o primeiro nos portões de Cadmo, brande
à força dos inimigos, colocas uma serpente colorida sobre o flamejante escudo.
a arrogância na sentina. Nem Porfírion [ant.3]
compreendeu que a provocou além do que cabe. O que sofreu no primeiro incidente
O ganho é o mais querido agora se mantém com um anúncio
se alguém trouxer da casa de quem dá de bom grado. de melhor auspício: 50
[epodo 1] Adrasto, o herói. Mas em casa
Violência abala até o orgulhoso com o tempo. 15 o contrário acontecerá, pois é o único do exército dos dânaos
Tífon, cilício de cem cabeças, dela não escapou, que recolhe os ossos do filho morto. Com a sorte dos deuses,
nem o rei dos gigantes: foram dominados pelo raio chegará com o povo armado intacto
e arcos de Apolo, o qual com mente benévola [ep.3]
recebeu, vindo de Cirra, o filho de Xenarces, coroado às ruas largas de Abas. Tais coisas 55
com folhas do Parnaso e festividade dórica. 20 disse Anfiarau. Também eu mesmo me alegro,
[estrofe 2] atinjo Alcméon com coroas e o aspirjo também com um hino,
Coube a ela, não longe das Graças, porque para mim é um vizinho e guardião das minhas posses.
a ilha da justa cidade, alcançar Veio ao meu encontro, quando eu ia rumo ao umbigo da terra digno
as famosas excelências de cantos e tocou-me com as congênitas artes dos oráculos. 60
dos Eácidas. Tem perfeito [estr. 4]
renome desde o início: por muitos cantada 25 E tu, que acertas à distância e gere
por ter nutrido heróis supremos em competições o templo glorioso que recebe a todos,
vitoriosas e em rápidas batalhas. nos vales de Píton,
[antístrofe 2] ali a maior das alegrias
Isso também se distingue entre os homens. concedeste e antes, na terra natal, trouxeste 65
Falta-me tempo livre para dedicar o arrebatador presente do pentatlo
todo o longo discurso 30 com vossas festas. Senhor, rogo que, com mente bem disposta,
à lira e à voz suave
[ant. 4]
conforme uma harmonia, olhes, Referências bibliográficas
por cada lado tudo o que percorro.
Na festividade de doce melodia, 70 ASSUNÇÃO, Teodoro Rennó. A morte na elegia grega arcaica
Justiça comparece. Peço, Xenarces, (Comentários a Arquíloco 5W e 13W, a Calino 1W e a Mimnermo 1W
favor imperecível dos deuses para vossas sortes, e 2W ). Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia, Letras e
pois se alguém obtém sucessos sem ser com grande esforço, Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1990.
para muitos dentre os tolos parece um sábio
[ep. 4] BRUNHARA, Rafael. As Elegias de Tirteu. São Paulo: Editora
a armar a vida com engenhos de decisão correta; 75 Humanitas, 2014
mas isso não jaz ao alcance dos homens. Algum deus propicia:
ora jogando um para cima, ora pelas mãos outro CORRÊA, P. da C. Armas e Varões: a guerra na lírica de Arquíloco.
derruba com medida. Tens honras em Mégara São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
e dentro de Maratona, e com tua ação dominaste
a competição do país de Hera com três vitórias. 80 FRADE, Gustavo, H. M.. Contingência em Píndaro: Olímpica 12,
[est. 5] Píticas 8 e 10, Nemeias 6 e 11. Dissertação (Mestrado). Faculdade de
Caíste do alto sobre quatro Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, 2012.
corpos com intenções malignas.
A eles, o retorno igualmente FONTES, Joaquim Brasil. Eros, tecelão de mitos. São Paulo:
feliz não foi decidido nos Píticos, 84 Iluminuras, 2003.
e quando foram para perto da mãe por todos os lados o riso doce
não despertou a graça. Mas, por ruelas, mantendo-se distantes dos inimigos, FLORES, Guilherme Gontijo. Safo: fragmentos completos. São
eles se encolhem mordidos pela desgraça. Paulo: Editora 34, 2017.
[ant. 5]
Mas o que recebeu algo novo de bom, LOURENÇO, Frederico. Poesia grega de Álcman a Teócrito. Lisboa:
em grande luxo, Cotovia, 2006.
voa a partir da esperança, 90
com alados atos de coragem, tendo MALHADAS, Daisi. & NEVES, Maria Helena da Moura. Antologia
ambição superior à riqueza. Em pouco tempo o prazer de poetas gregos de Homero a Píndaro. Araraquara: FFCLAr-
dos mortais cresce e assim também cai ao chão, UNESP, 1976.
abalado por uma resolução adversa.
[ep. 5] PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Hélade: Antologia da Cultura
Submetidos ao dia. O que alguém é? O que não é? Sonho de sombra: Grega. 8ª edição. Porto: Asa Edições, 2003.
uma pessoa. Mas quando um brilho dado por Zeus vem,
resplendente luz se sobrepõe aos homens, e o tempo de vida doce. RAGUSA, Giuliana. Lira Grega: Antologia de Poesia Arcaica. São
Egina, mãe querida, em livre percurso Paulo: Hedra, 2014
conduz esta cidade com Zeus, com o chefe Éaco,
com Peleu, com o corajoso Telamon e com Aquiles. 100 VIEIRA, Trajano. Lírica grega, hoje. São Paulo: Perspectiva, 2017.

Interesses relacionados