Você está na página 1de 77

_{voz da literatura}

n. 3 | julho | 2018
distribuição digital gratuita

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {}


{CAPA} MARCOS GARUTI é artista visual, ilustrador de livros infantis, revistas e jornais.
Produziu a ilustração da capa especialmente para este número da {voz da literatura}.
Material usado na ilustração: grafite, tinta acrílica, madeira e digital.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018

moçambique: ernesto moamba. sala de aula: rafael


balseiro zin. poesia: alexandre pilati. enquanto os
dentes: um realismo de experiência. rafael voigt. redes
sociais: literatamy, bondele, despindo estorias,
margens, cabine literaria e literature-se. periódicos:
laranja original, cadernos de teatro, translatio,
kosmos, vozes e argumento. leitores: andreia guerini,
marcelo henrique marques de souza e laila correa
e silva. entrevista: aline bei. redivivo: aluísio azevedo.
teatro: andreia fernandes. japão: michele eduarda
brasil de sa. tradução: duas cartas de van gogh. daniel
dago. antonio candido: rodrigo ramassote e ana luisa
escorel. uruguai: sofia ferres. pesquisas: nagela neves
da costa e laura campos. prosa: ale motta. voz de
criança: vitrine. breves leituras: desobedecer, a velha,
alguns aspectos da teoria da poesia concreta e
poema/processo. peru: cinthya torres. música:
fernando andrade. sumário: o ciclo do totalitarismo.
editoras: unb, dublinense e laranja original. agenda:
eventos de julho e agosto.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {2}


{
}

{} colaboradores desta edição


Alexandre Pilati
Aline Bei
Alê Motta
Aluísio Azevedo {in memoriam}
Ana Luisa Escorel
Andreia Fernandes
Andréia Guerini
Cinthya Torres
Daniel Dago
Danilo Leonardi
Ernesto Moamba
Fernando Andrade
Filipe Moreau
Germana Henriques Pereira
Jéssica Balbino
Laila Correa e Silva
Laís Barros Martins
Laura Campos
Marcos Garuti
Marcelo Henrique Marques de Souza
Mariana Mendes
Mell Ferraz
Michele Eduarda Brasil de Sá
Nágela Neves da Costa
Rafael Balseiro Zin
Rodrigo Ramassote
Rodrigo Rosp
Sofia Ferrés
Tailany Costa
Tamy Ghanman

{} editor
Rafael Voigt Leandro

{voz da literatura}
revista de crítica e divulgação de obras literárias e afins.
independente, mensal, gratuita e distribuída digitalmente.
www.vozdaliteratura.com | facebook | instagram
vozdaliteratura@gmail.com
brasília-df | tiragem digital: ilimitada.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {3}


{
}

moçambique

moçambique. africa. literatura. voz.


voz. africa. moçambique. voz.
literatura. voz. moçambique.
moçambique. africa. literatura. voz.
voz. africa. moçambique. voz.
literatura. voz. moçambique. africa.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {4}


{
}

{moçambique}

___UMA LITERATURA SEDENTA E COESA

Moça(mbique) POR ERNESTO MOAMBA


Moça(mbique)
Pátria de shongane, Xirilo e Mondlane
Terra da cacana e mandande
E do aroma da xima no carvão.

Moça(mbique)
Berço sagrado da Josina
Terra amarga, Mãezinha!
Onde o povo ronca pelo perdão divino.

Moça(mbique)
Terra de ouro e mineral
País fardado de recursos minerais.
terra revestida de carvão
Pátria libertada na escravidão

Moça(mbique)
Terra Mãe, que me negaste o amparo
Terra onde nascemos
Patria amada, Onde pretendo morrer.

Ernesto Moamba
{Filho da África}

É desta forma, impiedoso e triste, que inicio o meu como nas lutas pela independência e, mesmo, nas guerras
ensaio literário sobre a literatura moçambicana pós-coloniais. Desse modo, o estudo da poesia de José
contemporânea. Na verdade escrever penetradamente Craveirinha requer um entendimento, nem que seja
sobre alguns aspectos que consolidam poeticamente a mínimo, da história de Moçambique, pois, de modo
literatura moçambicana nunca foi a minha intenção. Mas, diferente, a leitura de sua poesia pode resultar parcial. Se
com o impulso das veias e o ecoar das vozes cada poeta cria a partir de sua presença no seu mundo e
silenciadas dentro de mim, decidi tensamente a dos cidadãos de seu tempo, José Craveirinha confirma a
descrever. Não para contradizer o que outros dizem experiência como um motivo da construção literária. Nesse
sobre ela, nem para ferir com as sensibilidades sentido, Ana Mafalda Leite (1991, p. 21) afirma que a sua
humanas, mas, sim, para atrair emoções e despertar atividade enquanto poeta, assim como a da maioria dos
curiosidades e trazer uma ideia construtiva inerentes ao poetas e artistas de Moçambique, estava condicionada ao
seu trilhar no mundo da escrita. silêncio imposto e à ameaça da polícia política. José
Craveirinha enforma por esse motivo, com Rui Nogar,
A literatura moçambicana contemporânea dificilmente Malangatana Valente, Luís Bernardo Honwana e Orlando
poderia ser abordada sem a lembrança marcante de Mendes, aquela que poderemos designar por geração do
poetas como Rui Knopfli, Noémia de Sousa, Rui Nogar silêncio.
e, para saltar para o presente, Eduardo White, que a sua
vivacidade em poesia perdeu-se em 2014. Todos eles, Queria também esclarecer que a poesia é relativamente
poetas que contribuíram para a invenção de e pouco procurada pelos autores, assim como leitores
Moçambique. Mas José Craveirinha (1922-2003) ocupa moçambicanos, preferindo estes a prosa. No entanto, nesta
um espaço especial no contexto da literatura categoria, destacam-se brilhantes escritores como José
moçambicana. Os temas desenvolvidos na sua poética Craveirinha, vencedor do Prémio Camões, Albino Magaia,
estão intimamente imbuídos de experiências políticas do associado à prestigiada Associação dos Escritores
país e do seu envolvimento nos momentos de Moçambicanos, enquanto que na prosa moçambicana -
transformações decisivas do processo colonial, bem esta, sim, embora jovem, considerada um elemento vital e

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {5}


{
}

{moçambique}
prodigioso na literatura lusófona - destacam-se, frente, para um caminho cheio de espinhos que somente
primeiramente, Mia Couto, talvez o mais influente autor derrama lágrimas e sangue. Quero acreditar que muitos
moçambicano, vencedor do Prémio União Latina de entendam este fio de palavras não como uma crítica, mas,
Literaturas Românicas de 2007 - de importância sim, como uma visão espiritual ou uma análise pessoal.
amplamente reconhecida, visto que alguns dos seus Existem alguns escritores de renome que consideram a
contos são leccionados nas escolas portuguesas; escrita actual como "nada ou coisa nenhuma". Claro, cada
seguidamente, José Craveirinha, o aclamado vencedor um tem o seu ponto de vista e que deve ser respeitado,
do Prémio Camões, por votação popular, consagrando o embora haja uma necessidade de se filtrar o que se diz em
seu sucesso junto do público; e Paulina Chiziane, uma público para não resultar em confrontos linguísticos ou
das mais promissoras escritoras da lusofonia. perda moral da estatura ou humanismo, pois a literatura
moçambicana é feita de várias maneiras. Cada poeta ou
No presente contexto, espelhando ainda mais para o escritor tem o seu lado criativo. Eis a questão que deixo
dia de hoje, nos deparamos com uma escrita ficar: - Por que não olhamos para esta nova escrita como
unicamente esplendosa e riquíssima, carregando esta uma inovação ou continuidade?
uma temática de raiz e tensamente compreensível, visto
que a sua dinâmica é caracterizada pelos vários Para finalizar, apetece-me dizer que a literatura
momentos resgatados durante o percurso de sua moçambicana actual esta a caminhar positivamente. Existe
história. Embora observe-se por parte de alguns a perda dentro dela uma nova semente germinando. Esta nova
irreversível da nossa história baseada nas nossas geração apresenta-se mais rica de ideias, inovação,
origens tradicionalmente culturais. experiência e auto-determinação, resultado de muita
pesquisa e entrega. Gostaria de nomear alguns ou todos,
Permitam-me dizer que o poeta moçambicano de mas para não cair em queda de esquecer alguns prefiro
hoje considera-se "selvagem", quer fazer o que bem parabenizar ao grupo em geral pelo que têm feito pela
entender, preocupa-se com o amanhã mais do que com literatura moçambicana, apesar de estarmos a viver num
o resgate das suas origem esquecidos no passado. No país ainda em desenvolvemento cultural.
entanto, existe um ego dentro de si, que o guia para

ERNESTO MOAMBA, CONHECIDO TAMBÉM COMO “FILHO DA


ÁFRICA”, É poeta e escritor moçambicano. Lançou, em
2016, pela editora do Carmo (Brasília-DF), o livro de
poesia Liberta-te Mãe África.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {6}


{
}

sala
de
aula
sala. aula. aluno. professor. docente.
discente. homenagem. valor.
educaçao. formaçao. voz. sala. aula.
aluno. professor. docente. discente.
homenagem. valor. educaçao.
formaçao. voz. sala. aula. aluno.
professor. docente. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {7}


{
}

{sala de aula}
__ AO PROFESSOR EDUARDO DE ASSIS DUARTE, COM CARINHO
{} POR RAFAEL BALSEIRO ZIN

Durante a graduação em Sociologia e Política, que Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas
cursei na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Gerais, intitulado Notas sobre a literatura brasileira
entre os anos de 2009 e de 2012, diversos temas, afrodescendente:
assuntos e debates despertaram o meu interesse. Como
não poderia deixar de ser, aproveitei esse período de (...) no mesmo ano em que Luiz Gama publicava suas
efervescência mental e criativa para dar vazão a uma Primeiras trovas burlescas, Maria Firmina dos Reis trazia a
espécie de laboratório de experimentações. Entre as idas e público Úrsula. Deste modo, se a literatura afro-brasileira
vindas e os inúmeros exercícios de iniciação intelectual tinha, em 1859, um de seus marcos fundadores, após a
que uma empreitada como essa sugere, aos poucos, fui redescoberta de Úrsula, passa a ter dois, o que induz a
assentando minha curiosidade e orientando os meus pensar na existência não apenas de um Pai, mas também de
esforços de pesquisa no sentido de compreender um uma Mãe.
fenômeno bastante singular e que, comumente, é pouco Admito que, até então, jamais ouvira falar sobre essa
observado pelas ciências sociais: as condições e escritora e tampouco sobre sua obra pioneira – que é
possibilidades de emergência de escritores negros no considerada, inclusive, o primeiro romance de autoria negra e
Brasil do século XIX, bem como a fruição, a receptividade feminina da nossa literatura, além do primeiro romance de
crítica e o estabelecimento de suas ideias e de seus cunho abolicionista. Contudo, ao tomar conhecimento dessas
respectivos textos literários. Refletir acerca das informações, mesmo que de modo abreviado, fiquei ainda
contradições existentes na relação entre ser negro e mais intrigado: se a intenção de refletir acerca das
escritor em uma conjuntura social e econômica de ordem contradições existentes na relação entre ser negro e escritor
escravagista; composta por uma elite intelectual, política e em uma conjuntura política e econômica como a do Brasil
cultural de maioria branca; e em que boa parte da dos oitocentos havia se tornado um objetivo de vida a ser
população era praticamente analfabeta se tornou, para além perseguido, considerando o fato de ter sido Maria Firmina
de uma filiação acadêmica a uma determinada linha de dos Reis (1822-1917) uma escritora afrodescendente, com
investigação, um objetivo de vida a ser perseguido. atuação no mesmo período de Luiz Gama e com sua obra
Foi assim que, nos dois anos finais da graduação, inaugural publicada no mesmo ano em que a dele, minhas
iniciei todo um processo de pesquisa, ainda embrionário, inquietações somente fizeram aguçar a minha curiosidade e o
que resultou, algum tempo depois, em minha monografia meu interesse em estudá-la. Até porque, para além da
de conclusão de curso, voltada para a compreensão dos questão racial, a novidade que se me apresentava residia em
aspectos políticos e sociais contidos na vida e obra de Luiz novas contradições.
Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882), mais conhecido Dessa maneira, iniciei todo um processo de busca por
como Luiz Gama, o negro-autor das Primeiras trovas referenciais teóricos e demais informações que pudessem
burlescas de Getulino, publicadas, em 1859, na cidade de balizar o meu percurso, criando uma base de sustentação
São Paulo, e que, a despeito de ter sido escritor e de ser para reflexões mais substantivas. O resultado desse esforço,
considerado, hoje, um dos precursores do abolicionismo consequentemente, culminou em minha dissertação de
no Brasil, além de Patrono da Abolição em nosso país, por mestrado em Ciências Sociais, defendida em setembro de
muito tempo ficou ausente da história e da historiografia 2016 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e que
literária nacionais, tendo sido resgatado, com mais recebeu o título de Maria Firmina dos Reis: a trajetória
cuidado, somente nos últimos vinte anos, a partir de intelectual de uma escritora afrodescendente no Brasil
importantes trabalhos de pesquisadoras como Elciene de oitocentista. Até hoje, não sei ao certo se o professor
Azevedo e, principalmente, Ligia Fonseca Ferreira. Eduardo de Assis Duarte está ciente dessa história. Mas é a
Ao longo daquela pesquisa, curiosamente, em meio ele, e justamente a ele, que eu devo a inspiração para essa
a algumas leituras direcionadas para o aprofundamento da pesquisa e a quem eu ofereço todo o meu carinho e os meus
análise acerca da atuação política e da trajetória intelectual mais sinceros agradecimentos.
do advogado dos escravos, eis que me deparei com o
seguinte excerto de um artigo escrito pelo professor
RAFAEL BALSEIRO ZIN é doutorando em Ciências Sociais pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pesquisador do
Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp).

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {8}


{
}

poesia

poesia. poeta. poema. voz. poesia.


poeta. poema. voz. poesia. poeta.
poema. voz. poesia. poeta. poema.
voz. poesia. poeta. poema. voz.
poesia. poeta. poema. voz. poesia.
poeta. poema. voz. poesia. poeta.
poema. voz. poesia. poeta. poema.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {9}


{
}

{poesia} AUTOFONIA {POESIA} | ALEXANDRE PILATI | EDITORA PENALUX | 2017

No meio do caminho
That monster, custom, who all sense doth eat
Hamlet

minha cidade, encaro outra vez em delírio,


louco e velho príncipe, tua carranca; para ti arrasto
estes quarenta anos e tento encantar-te debalde.

balbucio em tuas tesourinhas um protesto errado


ou o nome mãe. (minha mãe bonita morreu triste
entre teus corredores de engolir estrelas e passarinhos).

minha cidade, envelheci e vejo tuas curvas rijas


que já não são de utopia, que são agora as curvas
de um boxer que duro canta uma ária de Turandot.

eu sangro enquanto choras asfalto, cal e carros


e te desejo monumental, tortamente Diadorim –
macho na chuva, fêmea nas manhãs: ninguém durma!

estou velho no sertão, na maloca, estou velho


na rosácea estéril da pequena burguesia, num circo
cheio de pústulas e dívidas, de nódulos e de relatórios.

pouca luz vem, minha cidade, de teus entardeceres,


e apalpo-me às dezenove horas de Brasília: reconheço
rugas; não tenho mais a mesma idade de David Beckham.

te aceito como um pederasta, te aceito como um comunista,


te aceito como Charles Chaplin, te aceito como uma super
bactéria, como um surto, um golpe de cotovelo: te aceito.

{continua}

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {10}


{
}

{poesia} AUTOFONIA {POESIA} | ALEXANDRE PILATI | EDITORA PENALUX | 2017

nas feiras de falsidades, vendi as quinquilharias de


meus sonhos, entreguei os vinténs dos meus sorrisos e
o dinheiro comeu aquele cavalo que me levava de ti através.

encaixei-me em teus eixos, caixeiro incurioso que sou;


de lasso papel que sou, aceito o verão que oprime,
anseio a seca que sempre derroga as águas do Paranoá.

mas ainda há algumas garças e trabalhos de Oscar, ainda


há a paixão de Lúcio no crucifixo; mas ainda há
um chope com Chico e Nicola à espera no Beirute.

então, não te mando embora pois sei mais de mim


sei amar mais, sei beijar melhor, sei melhor
reconhecer os companheiros que ao meu lado brigam.

entre hábitos, fantasmas e demônios, escrevo ainda


nesta vereda cerrada da vida, escrevo-te ainda, minha
cidade, para dar veias de verdade ao meu descontrole;

e te juro: não deixarei o monstro me devorar os sentidos.

ALEXANDRE PILATI É POETA e professor de literatura brasileira na


Universidade de Brasília (UnB). Entre outras obras, é autor de:

{} A nação drummondiana {} e outros nem tanto {} Poesia na sala de


{crítica literária} assim {poesia} aula
7Letras 7Letras Pontes Editores

2009 2015 2017

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {11}


{
}

crítica
literária
crítica. teoria. leitura. opiniao. analise.
crítico. voz. crítica. teoria. leitura.
opiniao. analise. crítico. voz. crítica.
teoria. leitura. opiniao. analise. crítico.
voz. crítica. teoria. leitura. opiniao.
analise. crítico. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {12}


{
}

{crítica literária}

ENQUANTO OS DENTES: UM REALISMO DE EXPERIÊNCIA


ENQUANTO OS DENTES {ROMANCE} | CARLOS EDUARDO PEREIRA | TODAVIA | 2017

{} POR RAFAEL VOIGT

{...} O mar está mexido, o que faz com que a barca


Enquanto os dentes {2017} marca a estreia do chacoalhe um pouco mais do que o normal, e o funcionário
romancista Carlos Eduardo Pereira. Nesse romance, de colete acha por bem transferir a manobra de embarque do
condensa-se matéria literária entre o realismo da CDR (é assim que eles chamam o Antônio, de CDR), para os
marujos vestindo outro tipo de colete, que já devem estar
experiência social e a memória. Cadeirante, acostumados com a operação de transferência entre o barco
homossexual e negro, o protagonista Antônio é quem dá e o cais que também balança, quase tanto quanto, só que no
força à densidade dramática do texto. Essa marca da sentido contrário. Os dois marujos articulam um movimento
literatura de Carlos Eduardo desvela o interesse pela luta coordenado, um deles empurrando por trás, empinando a
contra a invisibilidade social que tantas vezes as cadeira de Antônio, e o outro indo de costas meio abaixado,
puxando a cadeira para a frente. {...} (p. 28)
políticas públicas e os próprios cidadãos lançam contra
os Antônios do Brasil, negando a eles cidadania e Nesse trecho, a falta de autonomia constrange e
dignidade. demonstra a incapacidade de boa parte da sociedade em
Esse inconteste centro de força do romance de tratar pessoas como Antônio, em espantoso estado de
Pereira, ao qual, a propósito, chamo de realismo da coisificação. Essas vivências vão aparecendo no romance:
experiência social lança o leitor na pele de Antônio, para em um banheiro interditado, no passeio público mal
sentir as agruras de quem não quer ser observado tão
somente por sua aparente imobilidade ou deficiência conservado, enfim, nos vários obstáculos que impedem o
(palavra das mais estigmatizadas e que ganha novos que se chama convencionalmente de acessibilidade.
contornos nesse trabalho ficcional do autor). Carlos A estética da experiência de Enquanto os dentes só se
Eduardo cria, com aparente simplicidade, essa sensação torna possível pela habilidade de Carlos Eduardo na
que perpassa o leitor ao vivenciar, pela experiência de estruturação da narrativa. De modo perpendicular, cruzam-
leitura, uma experiência social como a de Antônio. Uma
se na discursividade literária a todo instante dois
das primeiras se refere às barreiras enfrentadas em
situações do dia a dia, quando o protagonista embarca elementos: a experiência de Antônio em sua volta para a
no Gaivota, no retorno à casa materna. casa dos pais, atravessando de barca a Baía de Guanabara,
após longos anos distante do convívio familiar; e suas

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {13}


{
}

memórias de formação como sujeito em um espaço- reducionista desvelar o sentido do título, é interessante
tempo avassalador da meninice na periferia, da escola, anotar algumas possibilidades de leitura que lançam novos
dos tempos de Marinha, da vida como instalador de olhares para o romance. Há dois momentos em que se
exposição artística, do trabalho no tribunal, do antigo revelam sentidos para esse título que muito diz em sua
apartamento, de Arnaldo (dançarino e seu polissemia do não-dito. O primeiro aparece em relação ao
companheiro), da tentativa de ser artista ou fotógrafo. apartamento reformado e adaptado ao cadeirante Antônio:
Enfim, nessa segunda perpendicular, a memória pontilha “{...} Só não tocaram no dente, na viga de sustentação”. O
segundo momento surge na lembrança sobre os tempos
a narrativa, em transições naturais, mas com substancial
da Marinha: “Enquanto os dentes da boca deram conta, ele
composição psicológica, com a revelação gradual da mordeu, sustentou a vida que havia construído tijolo a
doença degenerativa de Antônio e de seus dramas tijolo, só que agora não dá mais. Agora ele sabe que
pessoais. acabou.” (p. 58). Essa segunda expressão preenche o
enredo, por revelar a impossibilidade de Antônio seguir
Cada núcleo da memória e das experiências
sua vida no antigo apartamento, tendo que encontrar
fortalece a narrativa. A forma-romance de Enquanto os refúgio, mesmo a contragosto, somente no retorno à casa
dentes se estabelece esteticamente por uma materna, depois de um afastamento de 20 anos.
condensação da memória, que nos permite compor o
personagem e senti-lo bem presente, assim como notar Em meio à barca Gaivota, Antônio está confinado, pesa
as tensões existente na vida de Antônio. na barca lotada, quando precisa sair. A barca simboliza
uma metáfora por trás da história como uma transição na
A extensão reduzida do romance – são apenas 93 vida do personagem, de um inesperado e indesejado
páginas - possibilitaria retornar à velha discussão – em retorno à casa dos pais. Na barca, compreende-se o
boa parte infrutífera - de definição do gênero literário: espaço de confinamento do cadeirante Antônio não apenas
conto, novela ou romance? No caso de Enquanto os na cadeira e na imobilidade advinda da doença
dentes, o que se vê consagra-se como romance pela degenerativa, mas também no silenciamento e na
pluralidade de vozes e temas emaranhados. incompreensão de suas necessidades humanas, desde as
sexuais até as artísticas, levadas à tona em seu
No realismo desse romance, a semântica da memorialismo.
deficiência se amplifica quando, na leitura do texto,
importa considerar que socialmente o significado da Um ponto de contraste com a imobilidade se encontra
deficiência se alastra pelos sentidos de “deficiência na libertadora atividade artística desenvolvida por Antônio,
social”, seja pela homossexualidade incompreendida ou interrompida em parte após o desenrolar da doença
pela cor da pela, o que se ouve, ainda nos tempos parcialmente incapacitante. A arte e a fotografia parecem
coetâneos, nos discursos estigmatizados e alinhados a indicar algo mais sobre Antônio e sobre o próprio
certo conservadorismo liberal, sempre rebaixando a romance:
homossexualidade e o negro como fraquezas de caráter
unicamente morais, sem imbricar e comprometer a Antônio pensa que o artista deve encarar sua produção da
própria sociedade e a formação histórica dos valores mesma forma que uma criança olha para seus próprios
rabiscos. Ela desenha, pinta ou recorta algo e tem a
atribuído à deficiência física, à homossexualidade e ao capacidade de enxergar nesses borrões o mundo inteiro. Em
lugar do negro. É o pai, o Comandante, aposentado do seus experimentos, consegue ver nitidamente o pai, a mãe,
Exército, quem representa o conservadorismo e o um elefante alado, e é assim que toma pé das coisas, que vai
se constituindo como gente. Antônio costumava desenhar
discurso preconceituoso: “Quando é que você vai quando pequeno, e diziam que levava jeito. Ele prestava
procurar um trabalho de verdade, hein, rapaz? Esse atenção nas cores do bairro, no que estava a seu redor, e
negócio de pintura é coisa de mariquinha” (p. 87). vivia rabiscando em qualquer papel disponível, nos
envelopes que o Comandante trazia do trabalho e não
Do lado desses sentidos, a deficiência física nos prestavam para mais nada, nos versos das folhas com os
coloca diante dessa insolúvel equação dos nossos hinos da igreja que não se cantava mais, porque sempre
inventam novos. Mas, com o tempo, como acontece com
tempos, embutida em um único personagem. Contudo, todo mundo, ele foi se afastando dessa prática, foi sendo
o romance de Carlos Eduardo Pereira não se estende induzido a olhar para a frente, e não para os lados. (p. 88)
em comiseração ou no hasteamento de bandeiras de
Esse olhar artístico de Antônio reflete na própria
qualquer causa que seja, embora, nas entrelinhas, possa reflexão sobre a composição literária de Enquanto os
o leitor encontrar por conta própria todas essas dentes, como sugere essa passagem de de significativo
questões postas. A causa, na pele de Antônio, é teor metaficcional, com a ficção refletindo sobre si mesma.
simplesmente "ser" como qualquer cidadão. Em trechos como esses, observa-se como a memória
A expressão “enquanto os dentes”, que intitula o (espaço de liberdade) evidencia o lugar da literariedade em
romance, está indefinida, incompleta, como a nossas vidas. Antônio permite-se ser livre na sobreposição
demonstrar uma fratura, possivelmente dessas temáticas
sociais levantadas pela narrativa. Embora pareça
{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {14}
{
}

de sua experiência no tempo presente da narrativa com de uma cadeira de rodas, de aspectos orgânicos do
a memória de vários tempos. cadeirante, dos pertences pessoais levados na mudança,
importam muito para a função social da literatura da qual
O romance aparenta uma simplicidade de forma. É
Carlos Eduardo demonstra ter plena consciência.
justamente por entre essa simplicidade que se releva o
equilíbrio de uma narrativa densa, sem excessos, mas Enquanto os dentes é uma fotografia contemporânea do
muito bem urdida para o que chamei acima de realismo Brasil de hoje, com a objetiva bem preparada para
de experiência, em que o leitor é dragado para o estampar a incompletude social representada por
universo particular de Antônio. personagem negro, homossexual e cadeirante, em um
No desenrolar da narrativa, há também um desejo do drama pessoal e familiar que tensionam os vários nós da
narrativa. Esses nós ressoam no título e na obra, com seu
narrador em registrar as coisas da contemporaneidade,
dizer sem dizer por completo, que permanece até a última
porém sem qualquer afã balzaquiano de inventariar palavra do romance.
coisas e costumes. Não. As coisas estão no discurso
porque sua estética social requer. A descrição minuciosa

RAFAEL VOIGT, EDITOR DA {VOZ DA LITERATURA},


é doutor em literatura pela UnB.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {15}


{
}

{vitrine }

{} Raphael Rabello: o {} Ao jeito dos bichos


violão em erupção caçados {poesia}
{biografia}
Otávio Campos
Lucas Nobile
Editora 34; Rumos Itaú Macondo & Moinhos
Cultural
2018 2018
352 p.

{} Mídia: propaganda política {} Dicionário da escravidão


e manipulação {ensaio} e liberdade: 50 textos
críticos
Noam Chomsky
Org. Lilia Moritz Schwarcz;
Trad. Fernando Santos
Flávio dos Santos Gomes
1ª ed.
Companhia das Letras
WMF Martins Fontes 2018
2014 560 p.

{} Bahia: escravidão, pós-


{} O último juízo: gerações
abolição e comunidades
Vilém Flusser quilombolas: estudos
Org. Rodrigo Maltez Novaes; interdisciplinares
Rodrigo Petrônio Org. M. F. Novaes; N. P.
Santana; P. H. D. Santos
Editora É Realizações
Edufba
2017
2018
Filosofia História do Brasil

{} Textos e pretextos {} A trama da natureza:


sobre a arte de contar organismo e finalidade na
histórias {ensaios} época da Ilustração {ensaio}
Pedro Paulo Pimenta
Celso Sisto
Editora Unesp
Editora Aletria
2018
2012 469 p.
Filosofia

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {16}


{
}

redes
sociais
www. instagram.youtube. facebook.
twitter. voz. booktubers. v@z.
instabookers. blogueir@. vlogueir@.
v@z. www. instagram.youtube.
facebook. twitter. voz. booktubers.
instabookers. blogueir@. vlogueir@.
v@z.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {17}


{
}

{redes sociais}

LITERATAMY | YOUTUBE | FACEBOOK | INSTAGRAM | TWITTER

POR TAMY GHANMAN

Um dia comecei a ler e não parei mais. Paulo, sei que é pelas literaturas que devo continuar me
Da paixão pelos livros, surgiu a comichão de enveredando. A leitura permeia não só minhas vidas
compartilhar com alguém aquilo que a leitura me acadêmica e profissional, como também enriquece minha
oferecia. No entanto, como sempre fui muito tímida, não vida afetiva, trazendo amigos insubstituíveis e experiências
me era dada a oportunidade de conversar com quem maravilhosas que eu não obteria de outro modo. Graças ao
quer que fosse sobre a literatura. Os livros tornaram-se LiteraTamy, já tive a oportunidade de viajar por algumas
meus melhores amigos. Durante muito tempo vi a leitura cidades do país, conhecer e conversar com autores
como ato solitário e mais de uma vez tive que engolir admiráveis, firmar parceria com editoras das quais sou fã e
secamente minhas impressões sobre o que lia entrar em contato com livros incríveis que foram
simplesmente por não ter com quem dividi-las. indicações de outros leitores ou escritores que me
procuraram para que eu conhecesse e divulgasse suas
Até que, no final de 2014, cursando o segundo obras.
semestre do curso de Letras (que, naquele momento,
estava em greve), enquanto passeava pelo Instagram dei Posso dizer que, atualmente, o LiteraTamy expandiu
de cara com uma foto de Proust – o autor francês que seus horizontes, e se antes tinha como foco principal a
conheci na faculdade e por quem me apaixonei de tal leitura e comentários sobre livros clássicos, hoje estendeu
maneira que decidi, no mesmo instante, estudar francês o olhar primordialmente à divulgação e ao destaque da
para poder lê-lo no idioma original – e aquilo me literatura nacional contemporânea, movimento que vai de
encantou profundamente: quer dizer que havia pessoas acordo às minhas inclinações enquanto pesquisadora
falando sobre literatura nas redes sociais? Foi aí que científica na academia (onde estudo a obra de Lygia
entendi que a internet poderia ser um mecanismo para Fagundes Telles, nome de destaque em um projeto
me aproximar de outros apaixonados por livros, assim especial do canal). Naturalmente, tudo isso só faz sentido
como eu. Depois de passar meses maratonando vídeos porque há alguém do outro lado que me lê, que me escuta,
de canais literários e acompanhando de perto a rotina de que dialoga comigo. O LiteraTamy está disponível no
instabookers, em março de 2015 decidi criar o YouTube, no Instagram, no Facebook e no Twitter, meios
LiteraTamy, com o intuito de compartilhar minhas de acesso a essa partilha do encantamento que a literatura
experiências literárias. é capaz de oferecer.

Hoje, três anos depois, com 21 anos e prestes a


finalizar o curso de Letras na Universidade de São

TAMY GHANMAN É ESTUDANTE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE


SÃO PAULO (USP). DIRIGE O CANAL LITERATAMY.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {18}


{
}

{redes sociais}

{} BONDELÊ | YouTube | Facebook | Instagram


O canal Bondelê no Youtube nasceu em janeiro de 2017 com a
finalidade de apresentar obras e escritoras brasileiras por meio de
resenhas e entrevistas. As entrevistas com as escritoras procuram
abordar a trajetória e as particularidades de cada uma, demonstrando
como é rica e diversificada a literatura brasileira produzida por
mulheres. O Bondelê foi criado por Mariana Mendes (Formada em
letras. Atualmente é editora freelancer após trabalhar 19 anos no
departamento de educação da Companhia das Letras). e Carolina Freitas
da Cunha (Formada em cinema. Trabalhou em diversas áreas no campo
de produção desde preservação cinematográfica, produção de vídeos e
coordenação de mostras de cinema.). São postados 2 episódios
(resenha + entrevista) por mês às sextas-feiras.
YouTube: https://bit.ly/2k53aVM | Facebook: https://bit.ly/2MAhCjo

{} DESPINDO ESTÓRIAS | YouTube | Facebook | Instagram | Twitter


Tailany Costa
O canal Despindo Estórias surgiu em outubro de 2013 com o objetivo
de fazer críticas e indicações de livros, além de discutir assuntos que
permeiam o meio literário. Tailany Costa, que está à frente das
câmeras, idealizou o quadro #ajudabooktube, para auxiliar outros
produtores de conteúdo sobre livros nos seus primeiros passos na
plataforma do Youtube. Com a criação do projeto #umtetotododelas em
2018, visa ler e divulgar mais obras de autoras mulheres, que são,
ainda, minoria no universo literário. Fez, inclusive, uma maratona
literária dentro do projeto para ler apenas obras escritas por mulheres.
Frequência de publicação: segundas e quintas às 20h e domingo às
19h.
YouTube: https://bit.ly/2lwcAIr Facebook: https://bit.ly/2Kjacjf

{} MARGENS | facebook | instagram | twitter


O Margens é um projeto literário que mapeia as mulheres da literatura
marginal/periférica e compõe um mapa interativo. Além disso, divulga
obras, eventos e projetos ligados às mulheres, especialmente os
saraus, slams e mulheres periféricas.
Responsável: Jéssica Balbino, jornalista e mestre em divulgação
cultural.
www.margens.com.br

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {19}


{
}

{redes sociais}

{} CABINE LITERÁRIA | YouTube | Facebook


Danilo Leonardi, fundador. Lucia Robertti, Cesar Sinicio e Felipe Sali
O Cabine Literária é um canal de YouTube sobre literatura sem medo
de ser clássico ou pop que existe desde 2011. Traz experiências de
leitura e envolvimento com os livros com uma roupagem tranquila
onde a sofisticação pode estar presente, mas não se faz barreira para
impedir a comunicação com todo tipo de público. De clássicos a
fanfics do Wattpad, o pessoal do Cabine lê tudo buscando o que cada
obra tem para trazer como experiência de leitura
Envios semanais no YouTube e Facebook.
YouTube: https://bit.ly/2tCDDWl | Facebook: https://bit.ly/2MiuA4z

{} LITERATURE-SE| YouTube | Instagram | Facebook | Twitter


Mell Ferraz
Criado por Mell Ferraz em 2010, o Literature-se é um site/canal sobre
literatura feito por uma estudante de Estudos Literários (Unicamp) que
possui sempre a vontade de conversar com o mundo sobre sua maior
paixão: os livros! Por meio de pelo menos dois vídeos semanais, meu
objetivo é disseminar o hábito da leitura entre os seguidores tanto do
canal, quanto das redes sociais (Facebook, Instagram e Twit-
ter). Aborda diversos gêneros literários, com preferência para os livros
clássicos.
YouTube: https://bit.ly/2uqZodc | Facebook: https://bit.ly/2K7YM5J

{
. a cada número, a voz da literatura convidará outras
páginas, para se apresentarem aos leitores da revista.
. todas as informações foram fornecidas pelos próprios
responsáveis pelas páginas indicadas.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {20}


{
}

{vitrine}

{} Nós matamos o cão {} O fiel defunto {romance}


tinhoso {contos}
Germano Almeida
Luís Bernardo Honwana
Ed. Kapulana Ed. Caminho (Portugal)

Série Vozes da África 2018


2017 {1964}
Literatura Cabo-verdiana
Literatura Moçambicana

{} O poeta da madrugada {} Obra poética


{poesia}
Sophia de Mello Breyner
Alceu Valença Andresen

Ed. Chiado (Portugal) Assírio e Alvim (Portugal)

2015 2018

Literatura Portuguesa

{} Jóquei {poesia} {} Ladainha {poesia}

Matilde Campilho Bruna Berber

Editora 34 Record

2015 2017

{} Peixe cego {romance} {} Todas as funções de


uma cicatriz {poesia}
Priscila Gontijo Lâmia Brito
Ed. 7 Letras Independente
2016 2017

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {21}


{
}

periódicos

periodicos. revistas. jornais. periodistas.


período. voz. periodicos. revistas.
jornais. periodistas. voz. periodicos.
revistas. jornais. periodistas. voz.
periodicos. revistas. jornais. periodistas.
voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {22}


{
}

{periódicos}
{} REVISTA LARANJA ORIGINAL
poesia, prosa ficcional, crítica literária, artigos de opinião, ilustração,
fotografia e artes gráficas.
semestral | impressa e digital
laranjaoriginal.com.br/

{} CADERNOS DE TEATRO {1956-2007}


Teatro O Tablado {RJ}
números digitalizados: http://otablado.com.br/cadernos-de-teatro/
INTERESSADOS EM REATIVAR A PUBLICAÇÃO DOS
“CADERNOS DE TEATRO” PODEM REALIZAR CONTATO COM
A DIREÇÃO DO TEATRO O TABLADO.

{} TRANSLATIO
Revista de Tradução
n. 14, 2017 | semestral
Universidade Federal do Rio Grande do Sul {UFRGS}
http://seer.ufrgs.br/index.php/translatio/issue/view/3381/showToc

{} KOSMOS {1904-1909}
revista artística, científica e literária
mensal
Rio de Janeiro {RJ}
http://bndigital.bn.br/acervo-digital/kosmos/146420

{} REVISTA DE CULTURA VOZES {1907 - ?}


bimestral
Editora Vozes {Petrópolis, RJ}

{} ARGUMENTO {1973-1974}
slogan: “Contra fatos há argumentos”
mensal
Direção: Barbosa Lima Sobrinho; Redação: Anatol Rosenfeld,
Antonio Candido, Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso,
Francisco Correa Weffort, Paulo Emílio Salles Gomes.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {23}


{
}

leitores

ler. ver. visualizar. leitura. leitores.


crítica. recepçao. indicaçao. voz. vozes.
ler. ver. visualizar. leitura. leitores.
crítica. recepçao. indicaçao. voz. vozes.
ler. ver. visualizar. leitura. leitores.
crítica. recepçao. indicaçao. voz. vozes.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {24}


{
}

{leitores}

O PERDÃO {ROMANCE} | ANDRADINA DE OLIVEIRA | ORG. RITA TEREZINHA SCHMIDT | EDITORA MULHERES | 2010

O romance O perdão, de Andradina América de Andrade e Oliveira, veio ao público pela


primeira vez como folhetim na revista feminista Escrínio (1898-1910), fundada na cidade de
Bagé, pela própria Andradina e depois transferida para Porto Alegre. Em 1910, o romance
foi publicado em volume pelas Oficinas Gráficas da Livraria Americana de Porto Alegre.
Muito provavelmente a leitora e o leitor desconhecem o enredo deste romance de
Andradina: são os efeitos do cânone que se constitui, quase exclusivamente, por homens de
letras, principalmente entre os séculos XIX e XX... Trata-se de uma abordagem social e
cultural acerca da cidade sulina no ápice da belle époque brasileira. Estela, a personagem
principal, apaixona-se pelo sobrinho do marido e, a partir de então, inicia uma luta interna
na esperança de suprimir essa paixão avassaladora. A moça acaba cedendo à volúpia e
desapontando o que se esperava de uma boa esposa da alta sociedade e mãe de dois filhos.
Estela, então, foge com o amante; todavia, o peso do julgamento social era tão grande que a
desventurada adúltera comete o suicídio. Percebe-se que não se trata de uma temática
surpreendente aos romances escritos na mesma época, a novidade, porém, se mostra pela
perspectiva segundo a qual a trama foi narrada. Apesar do título, que remete ao
arrependimento, Estela comete o suicídio como efeito de um ato refletido, fruto do cálculo e
da consciência lúcida de que a sociedade na qual estava inserida não reservava um lugar
para mulheres como ela. Todavia, para o homem que a acompanhava, tão adúltero quanto
ela, sempre haveria oportunidade para o perdão.

LAILA CORREA E SILVA, doutoranda em História Social pela Unicamp.

ROSA DO MUNDO: 2001 POEMAS PARA O FUTURO | ORG. MANUELA CORREIA | EDITORA ASSÍRIO E ALVIM | 2001

Dentre os livros lidos em 2018, gostaria de destacar a bela antologia Rosa do Mundo.
2001 poemas para o futuro, organizada por Manuela Correia, com direção editorial de
Manuel Hermínio Monteiro, publicada em 2001, pela editora Assírio e Alvim, que contou
com a colaboração de mais de vinte especialistas. Essa antologia, de quase 2000 páginas,
apresenta 2001 poemas de autores das mais diferentes culturas, com o objetivo de trazer
“poemas escritos em todas as épocas, em todo o mundo. Palavras límpidas e exactas com
que cada um dos poetas escolhidos falou, dalgum modo, de futuro”. De fato, é uma
antologia riquíssima, que trata do futuro dialogando intensamente (quase 1/3 da antologia é
dedicado às tradições orais) com o passado: “não há futuro sem passado, mas também não
haveria passado se, na altura em que foi edificado, não fosse já um desejo de futuro”. Um
futuro que se abre com diferentes cosmogonias e avança até o ano de 1945. Desse longo
movimento temporal, retornamos à criação, ao poder da literatura, dos autores e dos
tradutores que puderam (re)criar em português textos da tradição oral e escrita. Não é
exagerado dizer que Rosa do Mundo oferece ao leitor um pequeno tesouro da literatura
universal.

ANDRÉIA GUERINI é professora do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras e da


Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC e Pesquisadora do CNPq. Organizou
junto com Márcia Martins o recém-lançado Palavra do tradutor - reflexões sobre a tradução
por tradutores brasileiros, pela Editora da UFSC. Atualmente, está realizando estágio sénior
na Universidade de Coimbra com pesquisa sobre a presença de Leopardi em Portugal.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {25}


{
}

{leitores}

COMO VER UM FILME {ENSAIOS} | ANA MARIA BAHIANA | EDITORA NOVA FRONTEIRA | 2012

Título enganoso, que sugere a ideia de "manual". Alarme falso, já que a listagem dos
aspectos técnicos que compõem a produção dos filmes – roteiro, montagem etc – vem
acompanhada de uma série de comentários críticos estimulantes, que permitem várias
possibilidades filosóficas, políticas e cotidianas para as obras cinematográficas citadas,
quando se as pensa em rede complexa com a vida, sem ingenuidades isolacionistas.
Um desses comentários traz a figura do "McGuffin". Técnica hitchcockiana usada para
sustentar o suspense das tramas até o final a partir de sutis pistas falsas que alimentam
brechas de enigma na narrativa, o McGuffin se materializa como uma espécie de estado de
drible praticado pela inteligência, que estende o raciocínio a um nível radical de rigor e
porosidade, típico de toda surpresa quando bem praticada. Estado que lembra a estética do
conto moderno, como a situa o crítico Ricardo Piglia, em seu Formas Breves, e que pode
explicar inclusive o próprio dilema do título do livro aqui resenhado.
O segundo destaque está na questão da "evolução" dos gêneros. Como toda arte, o
cinema tende a produzir seus criadores eventuais, que num repente revolucionam a forma
de se narrar uma história. Caso do Nosferatu de Murnau (1922) e de tantos outros. No
desenvolvimento direto, essas novidades acabam por germinar um intenso processo de
deslocamentos, que vai da repetição dos elementos inovadores iniciais até os metafilmes e
hibridismos, passando pelos estilismos clássicos; fórmulas, clichês e produção crítica, numa
lógica de variação que parece ser a dinâmica pulsante de todas as práticas artísticas.
Altamente recomendável.

MARCELO HENRIQUE MARQUES DE SOUZA, mestre em Comunicação Social, professor, escritor


e poeta.

{ . a cada número, a voz da literatura convidará leitores da


revista, do cadastro de assinantes, para contribuírem
voluntariamente com indicações de leituras.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {26}


{
}

entre-
vista
entrevista. entre. vista. voz.
entrevistar. perguntar. responder.
dizer. escrever. voz. entrevista. entre.
vista. voz. entrevistar. perguntar.
responder. dizer. escrever. voz.
entrevista. entre. vista. voz.
entrevistar. perguntar. responder.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {27}


{
}

{entrevista} O PESO DO PÁSSARO MORTO

ALINE BEI, ESCRITORA.

Você é formada em Letras e em Artes Cênicas. Como


sua escrita tem a ver com essa formação?
muito. hoje em dia não atuo mais, só de dentro dos
meus textos. mas minha vivência no teatro, ainda que
curta, moldou minha personalidade e por isso acaba
influenciando também no meu jeito de trabalhar na
página. a faculdade de letras consolidou essa carreira de
escritora em mim, mas a minha essência está no teatro.
Sua coluna no “Livre Opinião” serve/serviu como
laboratório para sua produção literária?
com certeza. o Livre acaba sendo um lugar de prática e
troca semanal com os que me leem. vejo como um
ensaio aberto.
Como surgiu o romance O peso do pássaro morto?
o livro nasceu de uma memória da infância, quando um
canário que eu tinha em casa morreu na minha mão.
anos depois andando na rua me brotou o título, porque
minha mão mudou pra sempre depois da morte do
canário, ficou pesada o Saramago, por exemplo, consegue oferecer silêncios
preenchendo tudo
e estrangeira, então decidi escrever um livro sobre
perdas já que os espaços e esperas da literatura Dele

e o Pássaro nasceu assim. estão na verdade dentro das palavras que ele escolhe e
constrói.
Você participou de oficinas de criação literária?
Esse estilo narrativo exige sua participação na produção
Sim, a oficina do Marcelino Freire. fiz a primeira em gráfica do romance, sugerindo soluções no projeto visual?
2015 e a segunda em 2016, que proporcionou a
publicação do meu livro. o Pássaro foi escrito como está no livro. a minha editora
respeitou meu estilo.
De que modo chegou à estética de seu livro de estreia?
Por que essa opção de “desmanchar”, ou seja, “retirar a O tema da morte e da perda estão muito presentes no
mancha” contínua da prosa tradicional e transformar sua livro, mas ao mesmo tempo uma certa dose de
prosa em versos, dando outro acento e outro ritmo à espiritualidade. É isso mesmo?
narrativa, como se fosse uma performance no palco? acredito que sim. quando pensei em escrever o Pássaro,
na verdade esse jeito de dizer na página me acompanha pensei em escrever um livro sobre perdas, sem tréguas,
há alguns anos. comecei a escrever assim porque sentia um pouco como no poema da Bishop. One Art
que as minhas palavras precisavam de silêncios pra mim é uma oração
e respirações e talvez a espiritualidade do Pássaro venha da profunda
que eu não conseguia dar caso eu preenchesse a folha admiração que tenho por aqueles versos.
da forma que a prosa costuma fazer.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {28}


{
}

{entrevista}

Como tem sido a divulgação e a recepção do livro em Poderia listar as escritoras brasileiras contemporâneas com
eventos literários, como as feiras literárias que se as quais tem afinidade literária ou cujos livros lhe
realizam em várias partes do país? marcaram como leitora.?
tenho tido uma experiência muito rica com os leitores e com Prazer.
isso é algo novo pra mim. eu publico meus textos curtos
pela internet há bastante tempo, mas ter um livro e sair Ana Martins Marques. Angélica Freitas. Matilde Campilho.
com ele pelo mundo é de uma força que eu não Maria Rezende. Luisa Mussnich. Lucrécia Zappi. Giovana
imaginava. Madalosso. Bruna Beber. Sheyla Smanioto. Andrea Del
Fuego. Alê Motta. Carol Rodrigues. Paulliny Gualberto
Você se dedica a estudos literários, gosta de ler Tort. Adriana Lisboa. Lâmia Britto. Carola Saavedra.
pesquisas e estudos teóricos de literatura? Priscila Gontijo. Anna Zêpa. Natasha Felix. Cristina Judar.
Patti Smith. Nayara Fernandes, Gisele Mirabai.
teoria não tanto. sou mais intuitiva na hora escrever e
pra mim funciona melhor assim. mas leio muita literatura Quais são suas leituras teatrais? Poderia indicar algumas
e escuto muita música, vejo bastante filme e procuro para os leitores da {voz da literatura}?
estar aberta para vida.
gosto muito de uma peça do Brecht chamada O declínio do
Aproveitando um pouco a divisão por idade dos egoísta Johanm Fatzer.
capítulos de O peso do pássaro morto, quais livros lhe
marcaram aos 8, 17, 20, 25, 30? Se não for possível também A morte de um caixeiro viajante, do Miller.
adotar essas idades, escolha cinco livros que marcaram Um bonde chamado desejo, do Tennessee Williams.
sua trajetória como leitora.
Identidades, do Felipe Franco Munhoz.
quando criança foi um livro sobre dentes, sobre boca
por dentro. eu não me lembro do título, infelizmente. Gota d’água, adaptação de Medéia feita pelo Chico Buarque
mas aquele livro estava sempre comigo e minha boca e pelo Paulo Pontes.
muito viva enquanto eu lia. Eles não usam Black-tie, do Gianfrancesco Guarnieri.
já na adolescência foram dois. Felicidade Clandestina, Gosto muito das peças do Plínio Marcos também.
da Clarice Lispector e Atos, da Marilena Ansaldi, uma
autobiografia da atriz e bailarina brasileira que eu Você costuma acompanhar revistas, blogs, canais literários
encontrei sem querer em um sebo. nas redes sociais? Poderia sugerir alguns para os leitores
da {voz da literatura}?
depois, na fase adulta, as peças de Nelson Rodrigues. e
os poemas de Fernando Pessoa, especialmente do o Margens da Jéssica Balbino e o Livre Opinião do Jorge
Álvaro de Campos. Filholini são dois que eu amo. Também o movimento
#leiamulheres
Alguma leitura de 2018 lhe marcou?
Algumas. a mais recente “Lunário” do escritor português Al
Berto. comecei a ler agora Dulce Maria Cardoso e já
percebo o impacto que ela terá sobre mim.

O PESO DO PÁSSARO MORTO {ROMANCE} | ALINE BEI | ED. NÓS | 2017

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {29}


{
}

redivivo

redivivo. vivo. de novo. voz. tempo.


arquivo. memoria. historia. estoria.
bau. retorno. volta. retrovisor.
espelho. voz. redivivo. vivo. de novo.
voz. tempo. arquivo. memoria.
historia. estoria. bau. retorno. volta.
retrovisor. espelho. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {30}


{
}

{redivivo}

PITICAIAS
{} Aluísio Azevedo

Os russos quando querem dizer “filho” empregam a


desinência wich, como por exemplo Csar-wich – o filho
do Czar. Os parisienses, a quem nada escapa,
aproveitam-se disto para chamar o filho da célebre
romancista George Sand – o sr. Sand-wich. Em cada número vem o retrato de um ator conhecido,
nacional ou estrangeiro, e todas as novidades teatrais da
De ora em diante ninguém mais dirá – filho das ervas época, além de várias notícias da vida de nossos nossos
e sim hervas-wich. artistas.

Sempre é um progresso. A Revista do Teatro saiu já duas vezes – da 1ª trouxe o


retrato do simpático ator brasileiro – Vasques, sua
* biografia, boas apreciações literárias e artísticas e a
transcrição da primeira cena de uma comédia dos Srs.
Com todo o respeito e acatamento pedimos licença Arthur e Aluizio Azevedo, que vai ser representada no Rio;
ao sr. Passos para declarar que não gostamos de sua da 2ª vem a fotografia do célebre trágico Ernesto Rossi, a
cena cômica, e para, outrossim, aconselhar a s. s. que competente biografia e, como no 1º número, minuciosas e
faça melhor escolha de peças – nada de pilhérias de universais notícias sobre teatro.
feira!
Quem desejar assinar a Revista dos Teatros queira se
E fique sabendo que, se não nos servia o antigo dirigir a nossa Redação, que espontaneamente se oferece
cemitério dos Passos por estar no Caminho-grande, para fazer encomendas.
muito menos nos servirá novo cemitério do Passos no
centro da cidade. Pitrybi {pseudônimo de Aluísio Azevedo}

* {} publicado originalmente em A Flecha, São Luís do Maranhão,


setembro de 1879, ano I, n. XIX, 7ª série.
Publica-se presentemente no Rio de Janeiro, sob a
direção dos srs. Arthur Azevedo e Lopes Cardoso, um
jornal mensal, com título – Revista dos Teatros.

É um magnífico folheto, bem escrito e bem impresso


que, pela quantia de 6$000 anuais, vale a pena possuir.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {31}


{
}

{redivivo}

TEATRO
{} Aluísio Azevedo

Ontem quase que se chega a representar o quase fidelidade do característico e a observância das
drama de Assis Machado – O Corsário Negro. entonações.
A peça é das tais escritas para o povinho e por tanto D. Rosa da Silva disse satisfatoriamente a sua parte
das tais que sempre agradam. inalterável e sumamente secundária de ingênua.
Falta-lhe tudo para ser um trabalho d’arte e não lhe D. Josefa apresentou um perfeito tipo de japonesa, tipo
falta coisa alguma para ser um drama de encomenda, que merece um cumprimento.
escrito em uma noite, entre três chávenas de café e meia
D. Ludegaria compreliendeu o tom romanesco do papel
dúzia de charutos.
que lhe caiu nas unhas e apresentou-se no primeiro ato
Ah, boemia literária! que carambelas não tens tu com um ar chique de pomba ferida.
dado ao teatro!
O sr. Pedro Augusto deu-nos ao vivo o que o autor do
Enfim deixemos o ligeiro trabalho do sr. Machado e drama entendeu de escrever.
tratemos do desempenho que lhe deu a companhia que
O sr. Cordeiro fez perfeitamente o seu tipo e disse
presentemente faz as delícias da plateia maranhense.
muito bem a seguinte frase, que nos ficou de memória:
Como bem se pode calcular os papeis nada
Este cara de alfarreca tem um focinho muito enjoado.
ajudaram os artistas, contudo alguns deles sempre
encontraram do que tirar partido. E creiam que não foi Para quinta-feira está anunciado a A pátria d’Ivry.
pouco.
O público, que dá o beiço pelos dramas de grande
O sr. Gaudêncio, por exemplo, a quem coube o espetáculo, não deve perder o de quinta-feira nós lá
papel de mais trabalho na peça, andou, regularmente, estaremos para dar um dedo de palestra na caixa e uma
graças ao cuidado com que dedica-se aos seus papeis, vista d’olhos pelos camarotes.
as pequeninas observações que faz o tipo que tem de
representar, e graças a veia especial que possui para o Giroflé {pseudônimo de Aluísio Azevedo}
gênero – meio-centro-rude. {} publicado originalmente em Pacotilha – jornal da tarde,
Coube o protagonista ao sr. Eduardo Alvares, que fez ano 1881, n. 42, Maranhão, 30 de maio de 1881. Tiragem
todo o pouco que exigia o papel. de 1.200 exemplares.

O sr. Passos, se bem que lhe faltasse figura para o


personagem que reproduzia, substituiu essa falta com a

}
A EDITORA TODAVIA
LANÇARÁ, EM JULHO,
NOVA EDIÇÃO DE
O CORTIÇO, DE
ALUÍSIO AZEVEDO,
COM APRESENTAÇÃO
DE REGINA
DALCASTAGNÈ E
CAPA DE MARCELO
D’SALETE.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {32}


{
}

teatro

teatro. dramaturg@. palco. cena.


atriz. ator. cenografo. iluminador.
autor. diretor. diretora. tablado. voz.
teatro. dramaturg@. palco. cena.
atriz. ator. cenografo. iluminador.
autor. diretor. diretora. tablado. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {33}


{
}

{teatro}

__ TABLADIANDO
{} POR ANDREIA FERNANDES

{Maria Clara Machado na porta da frente do Tablado. Acervo de O Tablado}

O Teatro O Tablado comemora em outubro 67 anos Entretanto, é ali que o teatro se manifesta inteiro.
de existência. Impossível negar sua importância para o Porque o teatro é a arte do encontro com o outro, com o
teatro do Rio de Janeiro e do Brasil. Mas não venho público. Mas para que esse encontro em cena aconteça, é
aqui falar de importâncias. Venho, antes de mais nada, preciso deixar de lado vaidades e certezas. O que vale é o
falar de desimportâncias. Coisas de tabladiana. jogo, o olho no olho, o coletivo. Por isso, afirmo que o
Brasil de hoje carece de teatro. Carece desse encontro
Maria Clara Machado é o denominador comum entre plateia e artista. Desse momento breve e único, mas
dessa longa trajetória. Vestida quase sempre de jeans e que pode gerar uma centelha capaz de iluminar o fundo
camiseta, com sua desimportância, escreveu para das almas e virar a realidade de ponta a cabeça.
crianças quando o teatro era considerado arte para
adulto. Mas suas peças infantis encantaram plateias de Foi por isso que, no palco do teatrinho da Lagoa, Maria
todas as idades. Seu Cavalinho Azul saiu do teatrinho da Clara Machado criou sua escola de teatro, mesmo para
Lagoa e voou pelo mundo todo, deixando na imaginação aqueles que não pretendiam seguir essa carreira. Ela e sua
de crianças de várias cores seu brilho azulado. Já o equipe sempre acreditaram que exercitar o poder do
fantasminha Pluft aplacou medos de gente grande e de coletivo, do olho no olho, é um caminho na direção de um
gente pequena.
No entanto, o Tablado vai além de Maria Clara. No
teatrinho desimportante da Lagoa surgiram, entre
Rubens Correa e Mateus Solano, vários atores,
cenógrafos, figurinistas, iluminadores e críticos de
teatro. Talvez porque no Tablado segue-se à risca a
ideia de que a pessoa de teatro se faz no palco.
O palco é um lugar perigoso, onde o sagrado e o
profano se confundem. Está-se sempre entre o dia e a
noite, a verdade e a mentira, o certo e o errado. Entre
sonhos, sombras e tumultos, tudo é mistério, duvidoso
e possível. Há sempre algo de podre no ar.
{Sombra do desfiladeiro. Rubens Correa e Germano Filho. 1956. Acervo de O Tablado}

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {34}


{
}

{teatro}

país mais ético, onde a arte se torna instrumento de


transformação da sociedade, uma vez que exige o
esforço de desprender-se de si e ir de encontro ao
outro. É lamentável que o Brasil seja um país cada vez
mais esvaziado no ensino e na valorização da arte.
Clara se foi, mas o espírito do Tablado permanece o
mesmo. Há anos faço parte dessa equipe. Dou aulas
para adolescentes no palco do teatrinho da Lagoa. No
início do ano, rostos de todos os jeitos: tímidos e
extrovertidos, mas todos ansiosos, com medo de pisar
no palco. Medo da vida que se transforma rapidamente,
das decisões a tomar. As aulas seguem, eles aprendem
a conviver com o medo. Aprendem o jogo, o olho no {Cena de Paz sem rosto, Hellerau Theater, Dresden, Alemanha. 2015. Foto Peter Fiebig.}

olho, a disciplina. No fim do ano, uma peça. A pessoa


de teatro se faz no palco.
escrever e montar uma peça com meus alunos no final de
No entanto, cada turma tem cerca de 25 a 30 cada ano. Uma temporada que dura dois dias.
adolescentes e a dramaturgia se mostra escassa para
tantos atores. Resolvi escrever peças para eles, pois Foi assim que surgiu Paz sem rosto. Escrita a partir das
considero importante que cada um interprete um angústias dos adolescentes frente a tanta desigualdade e
personagem, mesmo que seja um pequeno papel. É violência no Brasil, foi montada no fim de 2015 e
nesse momento que aprendem a entrega, a empatia, que convidada a se apresentar num festival, na Alemanha.
descobrem o poder do coletivo. E eu tenho sempre a Então, lá fui eu com 20 adolescentes para Dresden.
esperança de que possam sair do palco melhores do Foram dias intensos. Avião, translado, ensaios, conversas,
que entraram. brincadeiras e o medo de encarar um público
Minha experiência com os alunos me levou a me desconhecido, rigoroso. Na apresentação, emoção,
aventurar como autora de teatro. Escrevi e montei peças superação e a exigente plateia aplaudindo de pé. No fim, o
profissionais, mas minha paixão é a desimportância de prêmio de melhor espetáculo do festival.
Continuo dando aulas. A cada ano, novos alunos, novas
peças, novos desafios. Ensiná-los a magia do palco, o
encontro com o personagem e com o outro, que em última
instância, só é possível quando a pessoa se defronta
consigo mesma.
Da plateia, entre nervosa e emocionada, eu vejo o
amadurecimento daqueles jovens e o prazer de estarem
inteiros diante de uma plateia que os escuta. Por um
instante. Uma centelha, apenas. Desimportante. Depois,
tudo se apaga.

{Pluft. Claudia Abreu, Maria Clara Gueiros e José Lavigne. Foto Guga Melgar. 2013}

ANDREIA FERNANDES, formada em Física pela PUC/RJ, é escritora, dramaturga, diretora e professora de teatro. Iniciou sua
carreira no Tablado, com Maria Clara Machado. Foi indicada para o Prêmio Mambembe, pela autoria do infantil “Uma história
de circo”. Escreveu e dirigiu vários espetáculos entre eles o musical “Noel, Feitiço da Vila”, sucesso tanto no Rio como em São
Paulo. Recebeu um prêmio do RioArte com o musical sobre Ismael Silva. Sua última peça, “Paz sem rosto” foi convidada a
participar do Festival “Kids on Stage”, em Dresden, Alemanha, em 2016 e recebeu o prêmio de melhor espetáculo. Venceu o
Prêmio Saraiva de Literatura e Música de 2014, com o romance “Olhos de Cobra”, publicado pela Benvirá em 2015. Tem vários
contos premiados: “A Borboleta azul”: 1º lugar do Concurso de Contos de Araçatuba, 2013. “Lonjuras”: 2º lugar do Prêmio
Machado de Assis do SESC-DF, 2013. “A Moça do Rio”: 2º lugar no Concurso de Contos de Campos dos Goytacazes e “No
Elevador”: 3º lugar no Concurso de Contos Cidade de Lins, 2014.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {35}


{
}

{vitrine }

{} Vestidas e afeitas para


{} História agrária da
serem virtuosas: as
revolução cubana: dilemas
mulheres na Castela nos
do socialismo na periferia
séculos XIV e XV
{ensaios}
Joana Salém Vasconcelos Thiago Henrique Alvarado
Alameda Editorial EdUFScar
2016 2017
História Econômica História

{} Poesia africana de língua


{} Palavra de tradutor
portuguesa
Org. Marcia A. P. Martins;
Org. Livia Apa; Arlindo
Andréia Guerini
Barbeitos; Maria Alexandre
Editora UFSC Dáskalos
2018 Nova Fronteira
Edição Bilíngue 2012
Ebook gratuito 304 p.

{} Muitos escravos, muitos


{} Crime e transgressão na
senhores: escravidão
literatura e nas artes nordestina e gaúcha no século
Org. Julio Jeha, Laura Juárez, XIX
Lyslei Nascimento Org. Flávio Rabelo Versiani e
Luiz Paulo Ferreira Nogueról
Editora UFMG
Editora UnB
2015 2018
Coleção Babel História do Brasil

{} Crítica da razão negra {} Literatura infantil


{ensaios} brasileira: uma nova/outra
história {ensaios}
Achille Mbembe
Marisa Lajolo; Regina
N-1 Edições Zilberman

2018 PUC Press; FTD


2017
História e Ciência Política
eBook | impresso

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {36}


{
}

japão

oriente-ocidente. ocidente-oriente.
mapa. geografia. japao. sol. brasil
japones. niponico. voz. oriente-ocidente.
ociente-oriente. mapa. geografia. japao.
sol. brasil japones. niponico. voz.oriente-
ocidente. ociente-oriente. mapa.
geografia. japao. sol. brasil japones.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {37}


{
}

{japão}

__ O DIFÍCIL KAFKA À BEIRA-MAR


KAFKA À BEIRA-MAR {ROMANCE} | HARUKI MURAKAMI | TRAD. LEIKO GOTODA | ALFAGUARA | 2008 | 576 P.

{} POR MICHELE EDUARDA BRASIL DE SÁ

livro é “difícil”. A Sra. Saeki era ou não era a mãe de Kafka


Tamura? Depende. O que significa o personagem Coronel
Saunders? Depende. Por que Nakata conversava
justamente com gatos? Depende. Depende. Tudo depende
de outra coisa. Neste sentido, são múltiplas as
interpretações, o que deveria ser encarado como algo
positivo, mas infelizmente é muitas vezes tachado de
“difícil”. Esta realidade se percebe sobretudo no contexto
da sala de aula, já que, por diversos fatores que não cabe
desenvolver aqui, os alunos esperam uma resposta única –
uma só interpretação, uma explicação certa. Entretanto, o
que se pode fazer, no máximo, é dar “uma certa
explicação”. O resto é de cada um que lê.
“Você não deve começar a ler Murakami pelo livro
Kafka à beira-mar. É o mais difícil dele.” Vou tentar fazer um paralelo. Quando ainda na escola
eu li Dom Casmurro, de Machado de Assis, minha leitura
Tarde demais. Quando me disseram isso, eu não só era só o estudo de vocabulário – para compreender tintim
já o tinha lido, como já tinha amado e já o tinha tornado por tintim um romance do século dezenove – e o esforço
meu objeto de pesquisa. Ainda não li todos os livros do de tentar descobrir se Capitu traiu Bentinho. Frustração
Murakami (sim, ele tem vários!), porém acho que posso dos estudantes, nunca ninguém vai ter certeza. Já na
dizer que discordo que seja o seu livro mais difícil. Digo faculdade, durante a graduação, com mais vivência e mais
isso não me baseando em um suposto ranking de leitura, fui vendo Shakespeare no romance. Fui
“dificuldade” das obras, mas refletindo sobre o que essa percebendo outras coisas que não seria capaz de perceber
“dificuldade” pode representar. Na verdade, acho que é antes, no antigo ginásio. Tenho certeza que hoje, já como
um livro denso, cheio de elementos que dialogam entre pesquisadora, uma nova leitura me permitiria fazer mais
si e com elementos externos, tanto de outros romances conexões. Pois bem. Kafka à beira-mar é este tipo de livro.
como de músicas, de lugares, de mídias, de mundos. Eu Permite vários níveis de leitura – e nenhuma resposta
diria que é um livro mais rico do que difícil. O desafio é definitiva. Nele tem Kafka, tem Édipo, tem Natsume Sôseki,
conhecer as referências, os elementos externos que são tem Murasaki Shikibu, tem labirinto, tem corvo, tem
trazidos para dentro do romance. metamorfose, tem suspense, tem mistério, tem filosofia,
tem mais. Por isso é rico. Torna-se difícil, quando faltam
Talvez as pessoas estejam esperando um livro que
as referências com as quais o diálogo existe. Neste
tenha apenas uma interpretação ou um enigma que,
aspecto, realmente, Kafka à beira-mar parece ser o livro
apesar de complexo, tenha uma elaborada solução. Para
mais difícil de Murakami.
muitos, se você não consegue saber com certeza o que
é cada peça, cada personagem do romance, mesmo que Mas não deixe de lê-lo por causa disso.
tenha que esperar até o final da leitura para descobrir, o

MICHELE EDUARDA BRASIL DE SÁ É professora da área de


Japonês do Departamento de Línguas Estrangeiras e
Tradução da Universidade de Brasília (UnB).

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {38}


{
}

tradução

traduçao. adaptaçao. versao.


transmissao. transporte. transcriaçao.
voz. tradudor. tradutora. interprete.
vozes. línguas. idiomas. vernaculo. voz.
traduçao. adaptaçao. versao.
transmissao. transporte. transcriaçao.
voz. tradudor. tradutora. interprete.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {39}


{
}

{tradução}

_____DUAS CARTAS DE VAN GOGH


{} TRADUZIDAS POR DANIEL DAGO.

Haia, 29 de setembro, 1872.

Caro Theo,

Obrigado por sua carta, me satisfez saber que você


voltou bem. Senti sua falta nos primeiros dias & foi
estranho não encontrá-lo quando voltei de tarde para
casa.
Passamos agradáveis dias juntos, e aproveitei a
oportunidade para caminhar um pouco e ver uma ou
outra coisa.
Que tempo horrível, você deve se sentir bastante
angustiado em suas caminhadas a Oisterwijk. Ontem
houve corrida de cavalos por causa da exposição, mas a
iluminação & os fogos de artifício foram adiados devido
ao mau tempo, portanto, foi bom que não você tenha
permanecido aqui para vê-los. Saudações da família
Haanebeek & Roos. Sempre

Seu amado
Vincent
{fonte} http://vangoghletters.org/vg/

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {40}


{
}

{tradução}

Haia, 13 de dezembro, 1872.

Caro Theo,

Essa foi uma boa notícia que acabei de ler na carta de papai. De
coração, desejo-lhe toda sorte.
Não duvido que isso lhe dará prazer, é uma boa firma.
Será uma grande mudança para você.
Satisfaz-me imensamente que nós dois estamos no mesmo negócio e
na mesma firma, temos que nos corresponder intensamente.
Espero bastante vê-lo antes de sua partida, ainda teremos muito o que
falar.
Creio que Bruxelas é uma cidade prazerosa, apesar de que parecerá
estranha no começo.
Em todo caso, escreva-me em breve.
E agora adieu, essas são apenas algumas poucas palavras escritas às
pressas, mas eu tinha que lhe dizer o quão satisfeito fiquei.
Desejo-lhe bem & creia-me, sempre.

Seu amado irmão


Vincent

Lamento que você tenha que ir todo dia a Oisterwijk nesse tempo
ruim. Saudações da família Roos.

DANIEL DAGO É TRADUTOR,


especialista na tradução de autores clássicos holandeses. Sua mais recente tradução
é a obra Contos holandeses (1839-1939), pela editora ZOUK. Pela mesma editora, prepara para o segundo
semestre de 2018, entre agosto e setembro, o lançamento da tradução do romance Sobre pessoas velhas e
coisas que passam ... (1906), de Louis Couperus (1863-1923), autor comparado a Tolstói, edição que contará
com prefácio do tradutor e posfácio de Katherine Mansfield.

{} Contos holandeses: 1839-1939

Org.anização, tradução,
apresentação e notas de Daniel
Dago

Editora ZOUK

2017

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {41}


{
}

antonio candido
1918-2017

{} nas ediçoes do segundo semestre de


2018, a {voz da literatura}, em uma
seçao especial, prestara homenagem a
ANTONIO CANDIDO,
um dos maiores críticos literarios do
país.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {42}


{
}

{antonio candido}

__ O LEGADO ATUALÍSSIMO DE ANTONIO CANDIDO


{} POR RODRIGO RAMASSOTE

Aclamado como um dos principais expoentes dos contudo a livre-docência em Literatura Brasileira, o que lhe
estudos literários contemporâneos, Antonio Candido permitiu, anos depois, lecionar a matéria na recém-criada
(1918-2017) tornou-se ao longo dos anos referência Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto
incontornável no âmbito da modalidade de trabalho Isolado de Ensino Superior do Governo do São Paulo
intelectual que o consagrou. Em particular, no meio (atualmente integrado à UNESP), em Assis (SP), em
acadêmico paulista sua obra converteu-se em fonte de meados de 1958. Por essa época, lançou seu mais
inspiração e debate para inúmeras pesquisas importante e conhecido livro, A formação da literatura
relacionadas com a literatura brasileira. Ao mesmo brasileira: momentos decisivos (1959). Rompendo com a
tempo, nos últimos quarenta anos vem se ampliando perspectiva tradicional de periodização historiográfica,
exponencialmente a fortuna crítica voltada para o exame Candido postulava que, no processo formativo da literatura
de seu legado intelectual, objeto de apropriação e brasileira, devia-se distinguir analiticamente, de um lado,
disputa no interior do campo das letras e, em menor as “manifestações literárias” (compostas por um conjunto
medida, mas também de forma crescente, no campo das de obras isoladas e desarticuladas entre si, predominantes
ciências sociais. na fase inicial da produção literária no Brasil, ocorrida entre
os séculos XVI e XVIII), e, de outro, “literatura
Não faltam, sem dúvida, razões que atestem tal
propriamente dita”, definida pela existência de um sistema
incontestável reputação: leitor sensível, que, desde a
literário, formado pela presença concomitante de autores-
mocidade forrava os cadernos escolares com resumos e
obras-público (situação que emerge no Brasil a partir de
comentários sobre livros, Candido iniciou sua trajetória
meados do século XVIII, e que se consolida em fins do
como crítico literário na revista Clima (1942-1945),
século XIX). A partir desse ponto de vista, passa em revista
publicação dedicada às artes em geral criada por um
a produção literária brasileira, destacando suas principais
grupo de talentosos estudantes das primeiras turmas da
figuras e legado.
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da
Universidade de São Paulo (USP). Com a formação e Para além da autoria de extensa, erudita e relevante
prestigio amealhados em suas páginas, foi convidado a obra, Candido foi uma das figuras-chaves do processo de
assumir, a partir de janeiro de 1943, a coluna “Notas de modernização dos estudos literários no Brasil, ao tornar-
crítica”, que saia às quintas-feiras no jornal Folha da se, de 1961 em diante, o principal responsável pelo curso
Manhã (hoje Folha de S.Paulo). Nos rodapés, Candido – posteriormente área e depois departamento – de Teoria
se destacou pela sólida bagagem cultural e literária, Literária e Literatura Comparada (TLLC) na Faculdade de
assim como pelas contundentes opiniões políticas, as Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da
quais, não raro, reverberavam em suas apreciações Universidade de São Paulo (USP). No exercício de suas
estéticas, ainda que não as tenha comprometido. atividades, ele implementou um projeto de ensino e
Profissão de risco, o critico de rodapé colocava sua pesquisa bem-sucedido, que articulou vários níveis de
reputação à prova semanalmente, ao ajuizar o mérito e o atuação: a organização do currículo da Graduação e Pós-
valor de obras recém-lançadas e de autores muitas Graduação; o recrutamento e contratação, entre alunos e
vezes estreantes. Assim sucedeu com Clarice Lispector, orientandos, de futuros professores; o estímulo à aquisição
João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa, de acervos intelectuais e pessoais de grandes intelectuais e
prontamente reconhecidos por Candido como figuras de escritores (incorporando tal espólio ao meio universitário,
proa na cena literária dos anos de 1940. assim como supervisionando o seu acesso e consulta); a
captação de recursos financeiros para pesquisa (através de
Em junho de 1945, Candido apresentou a
bolsas de pesquisa da recém-criada Fundação de Amparo
monografia “Introdução ao método crítico de Sílvio
à Pesquisa do Estado de São Paulo, Fapesp); a
Romero” ao concurso da Cadeira de Literatura Brasileira
implementação de amplos projetos de pesquisa coletiva, e,
da FFCL-USP. Embora não tenha conquistado a cátedra,
sobretudo, a formação e treinamento acadêmico de, pelo
em certame polêmico no qual foi preterido em favor do
menos, três gerações de estudiosos da literatura, das quais
candidato que já exercia as funções da cadeira, obteve

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {43}


{
}

{antonio candido}

emergiu um dos segmentos mais expressivos e atuantes redemocratização (nucleada em torno da Faculdade de
nessa área de estudos. Desse ponto de vista, basta Direito de São Paulo). Dessas reuniões dominicais surge o
folhear as obras de Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Grupo Radical de Ação Popular (GRAP), que se ligou, em
Walnice Nogueira Galvão, Lígia Chiappini de Moraes 1943, a um núcleo combativo de estudantes ou jovens
Leite, João Luiz Lafetá, Telê Ancona Lopez, entre tantos formados em Direito para formar a Frente de Resistência.
outros, para espreitar alguma menção à profunda Com o desfecho da ditadura civil varguista, as divergências
influência intelectual de Candido. Como ele próprio internas afloraram e o grupo se desfez: os liberais
advertiu em entrevista: “Se você considerar a crítica ingressaram na União Democrática Nacional (UDN); os
brasileira atual, verá que alguns dos seus melhores socialistas fundam a União Democrática Socialista (UDS).
praticantes trabalharam e fizeram pós-graduação comigo”. Dada a dificuldade de arregimentar e coordenar as tarefas
para a luta eleitoral que então se iniciava o grupo
Não se pode deixar de mencionar, por fim, a socialista, antes de se dissolver, coligou-se à Esquerda
coerência e a lucidez das posições políticas de Candido, Democrática (ED) – que então se formara no Rio de
sobretudo em tempos de progressivo obscurantismo e Janeiro – e participou de seu estabelecimento em São
descaso com a vida pública. Desde a juventude, Candido Paulo. Em meados de 1947, a ED mudou o nome para
cultivou um interesse pelas ideias de esquerda, a Partido Socialista Brasileiro, no qual Candido militou até
começar pelo convívio com Teresina Rocchi, militante meados da década de 1950, quando se afastou. Com a
socialista italiana que vivia em Poços de Caldas (MG). fundação do Partido dos Trabalhadores, no começo dos
Com o ingresso na FFCL-USP tal inclinação foi reforçado anos de 1980, Candido retoma a militância, não deixando
pelo contato com os professores franceses, e, sobretudo, de apoiar e professar a fé no socialismo, como meta a ser
pelo exemplo do colega e amigo Paulo Emílio Salles alcançada no Brasil. E assim permaneceu até o fim de sua
Gomes. Em 1942, Candido integrou-se a um pequeno vida.
grupo de intelectuais que se reunia aos finais de semana
para discutir temas políticos, redigir documentos e Como se vê, o legado intelectual, acadêmico e político
praticar atos contra a ditadura instaurada pelo Estado de Antonio Candido, um ano após a sua morte,
Novo (1937-1945). Adotando uma fórmula de ativismo permanecem atualíssimos. Sinal mais do que eloquente de
marcada, de um lado, pela independência tanto em que sua contribuição para a cultura letrada brasileira, em
relação às posições stalinistas como trotskistas e, de especial para os estudos literários, ultrapassou os limites
outro, pela busca de um modelo de socialismo ajustado à físicos de sua existência, e permanecerá inspirando novas
realidade nacional, o grupo adquiriu certa expressividade, incursões, debates e leituras.
juntando-se a outros na rede clandestina de luta pela

RODRIGO RAMASSOTE É pós-doutor em Antropologia


Social pela Universidade de São Paulo (USP). Atua no
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN). Em 2013, na Unicamp, defendeu a tese de
doutorado “A vida social das formas literárias: crítica
literária e ciências sociais no pensamento de Antonio
Candido.”

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {44}


{
}

{antonio candido}

__ O AUTOR E A EDITORA
{} POR ANA LUISA ESCOREL

Cobiçar Antonio Candido como autor implicava, composição do discurso, num momento em que ela ainda
quase sempre, enfrentar dois movimentos diferentes e não era devidamente valorizada. Infelizmente, esse
até certo ponto contraditórios. O primeiro, vinha da caminho se revelou difícil, por conta do alto custo inerente
resistência à publicação de seus textos. O segundo, a produções editorias desse tipo.
diametralmente oposto, da absoluta cordura com que
enfrentava as decisões da casa editora no tocante aos A alternativa possível, então, foi a editora se voltar para
aspectos materiais do livro. Ou seja, depois de livros de texto na área das ciências humanas, que pareciam
concordar em trazer os textos a público, assumia um atender a uma necessidade real, num país em que as
comportamento de extrema docilidade não interferindo universidades se multiplicavam de alto a baixo. E, nessa
nas decisões da editora em nenhum momento do categoria, se encontrava a obra em livro de Antonio
processo de produção, aceitando sem discutir tudo o Candido, naquela altura extremamente dispersa, com
que se referisse ao aspecto gráfico do livro, mesmo se vários títulos esgotados e sem perspectiva de reedição.
incomodado com a solução da capa, o nível de Constatado esse quadro, a Ouro sobre Azul se dirigiu a
transparência do papel ou a escolha dos tipos no miolo. ele com a proposta de edição de todos os títulos livres de
Achava, com razão, não serem setores afeitos a seu compromisso com outras editoras. Como de hábito ele
juízo, e limitava a interferência ao texto, à correção com colocou algumas dificuldades, hesitou, pediu para pensar,
que esse texto estivesse reproduzido e, em função pesou prós, contras e depois de algum tempo acabou
disso, era bastante atento ao trabalho dos revisores. concordando.
Prosseguindo nessa divagação acerca da maneira Assim, de 2004 a 2010, a equipe editorial da Ouro
com que Antonio Candido lidava com os próprios sobre Azul se concentrou em um único autor, consciente
escritos, no que se refere ao elenco dos títulos de sua da importância de trazer a público o pensamento de um
autoria publicados em livro, apenas três atenderam a um dos intelectuais mais expressivos do Brasil, no século XX,
desejo de contato com o público: Teresina, etc., O cumprindo integralmente, com isso, o papel reservado ao
discurso e a cidade e O albatroz e o chinês. Todos os editor consciente, ou seja, promover o encontro entre uma
outros resultaram de pedidos ou de encomendas de obra necessária e seu leitor, nos melhores padrões de
editores. E como ele escrevia incessantemente nos qualidade a seu alcance.
cadernos que o acompanharam desde os dez anos de
idade – registrando impressões de leitura, observações Na busca desse padrão, a Ouro sobre Azul contou com
acerca do cotidiano do País, da vida familiar e esboços o próprio Antonio Candido, revisor minucioso de cada um
de cursos, entre outras coisas –, tinha sempre à mão dos originais diagramados, trazendo para alguns livros
farto material que, trabalhado com algum empenho, se modificações substanciais, corrigindo e atualizando todos
transformava em texto publicável. O albatroz e o chinês com a precisa concentração que sempre dedicou a seu
é um exemplo típico desse expediente, tendo sido trabalho.
extraído inteirinho dos cadernos. A Ouro sobre Azul fechou o ciclo das edições assistidas
Quando em 1999 nasceu a Ouro sobre Azul – editora pelo próprio Antonio Candido com Na sala de aula,
que reúne a obra em livro praticamente completa de lançado no ano passado, e Conversa cortada, que acaba de
Antonio Candido – a intenção não era publicá-lo, mas a sair. Foram, portanto, 14 anos dedicados a produzir a
livros ilustrados em que texto e imagem se melhor versão de um conjunto de textos essenciais, no
equivalessem no tocante ao peso da informação. O que contexto dos estudos literários contemporâneos
se pretendia era sublinhar a importância da imagem na produzidos por autor brasileiro.

{} ANA LUISA ESCOREL é designer, diretora da Ouro


Sobre Azul e escritora. Autora do premiado romance
Anel de vidro (2014).

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {45}


{
}

{antonio candido}

__ OBRAS DE ANTONIO CANDIDO PUBLICADAS PELA OURO SOBRE AZUL


{} Formação da literatura {} Brigada ligeira
brasileira momentos
4ª edição
decisivos 1750-1880
2017 {1945}
6ª edição
112 p.
2015 {1959}

800 p.

{} Literatura e sociedade {} A educação pela noite

Ouro Sobre Azul e EDUSP 4ª edição


2017 {1986}
13ª edição
264 p.
2014 {1965}
204 p.

{} Os parceiros do Rio Bonito {} Vários escritos

12ª edição 6ª edição


2017
2017 {1954}
272 p.
336 p.

{ a cada número em homenagem a Antonio Candido, a voz da literatura


destacará outras obras do autor publicadas pela Ouro Sobre Azul.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {46}


{
}

{antonio candido}

CONVERSA CORTADA: A CORRESPONDÊNCIA ENTRE ANTONIO CANDIDO E ÁNGEL RAMA - O ESBOÇO DE UM PROJETO
LATINO-AMERICANO {CARTAS} | ORG. PABLO ROCCA | TRADUÇÃO ERNANI SSÓ | ED. OURO SOBRE AZUL E EDUSP | 2018

{} Conversa cortada reúne o conjunto


da correspondência trocada entre
Antonio Candido e Ángel Rama –
inédito até agora – e se estende de
1960 a 1983, ano da morte de Rama
num desastre de aviação.

Os dois críticos se conheceram em


Montevidéu onde Antonio Candido fora
convidado a fazer um ciclo de
conferências, estabelecendo-se entre
eles uma amizade intensa que produziu
alguns projetos conjuntos.

A coleção Biblioteca Ayacucho é o fruto


mais importante dessa aliança
intelectual, responsável por inserir o
Brasil nos mapas culturais latino-
americanos, contando hoje com cerca
de 250 títulos publicados.

A organização da correspondência foi


feita por Pablo Rocca, que assina o
prólogo e as nota do livro.

{Fonte: site da Ouro Sobre Azul}

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {47}


{
}

“Uma sociedade justa


pressupõe o respeito
dos direitos humanos
e a fruição da arte e
da literatura em todas
as modalidades e em
todos os níveis é um
direito inalienável.”

ANTONIO CANDIDO
“O direito à literatura” {1988}.
In: Vários Escritos.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {48}


{
}

uruguai

uruguai. america–latina. america do sul.


hermanos. irmaos. uruguai-brasil.
fronteira. vizinhos. voz. uruguai. america
–latina. america do sul. hermanos.
irmaos. uruguai-brasil. fronteira.
vizinhos. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {49}


{
}

{uruguai}

_____EN_VUELTA {poesia} | SOFIA FERRÉS | ED. LARANJA ORIGINAL | 2018

ignoro despreparada as notícias do mês.


o funcionamento da opinião pública não me
convence
(esboços de sociedade)
nem a utilidade de uma revelia
contra o sentido inverso destes dias

pudicamente,
examino as fases da lua sobre meu signo
(forças primordiais de reinos mais sutis)
aprecio o brilho difuso do metal manchado
a rachadura da argila enquanto seca
a ordem cósmica de uma mandala hindu
, ou do teto de uma catedral europeia.

a cor e a metamorfose da sua existência


me faz pensar que toda árvore é uma igreja
{p. 30}

SOFIA FERRÉS É POETA URUGUAIA-BRASILEIRA. Seu primeiro


livro, O pequeno livreto de haicais, foi lançado em
2017, pela Oficina Tipográfica de São Paulo.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {50}


{
}

pesquisa

voz. pesquisar. pesquisa. investigaçao.


analise. pesquisadora. literatura =
pesquisa. pesquisa literaria. trabalho
de pesquisa. projeto de pesquisa.
alem-google. voz. pesquisar. pesquisa.
investigaçao. analise. pesquisadora.
literatura = pesquisa.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {51}


{
}

{pesquisas}
_______CAMÕES NA LINHA DOS TROVADORES: VESTÍGIOS DAS CANTIGAS TROVADORESCAS NA RENOVAÇÃO DA PAISAGEM E DO
RETRATO FEMININO

NÁGELA NEVES DA COSTA É mestranda em literatura pela


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ (UEM).

A mulher foi motivo de inspiração e tema de do retrato feminino. A pesquisa desenvolveu-se, por meio
inúmeros poetas e artistas de todas as épocas da de um estudo comparado, a partir de um corpus literário
História e não podia ser diferente na Renascença. O composto de cantigas trovadorescas portuguesas (de amor
retrato da figura feminina foi traçado com ênfase à sua e de amigo) e as redondilhas camonianas. Também se
beleza, apesar do seu papel social estar ligado à questão investigou, a partir desse corpus, a conceituação e a
da maternidade. Musa inspiradora, ela foi cantada, distinção da mulher, nos períodos Idade Média Central e
esculpida, retratada e escrita. Bela senhora e possuidora Baixa Idade Média (final do século XIII e XIV) e no
de alegria nos gestos e no olhar, repleta de graciosas e classicismo (século XVI), estabelecendo-se um contraste
delicadas formas, de acordo com as considerações de entre a realidade histórico-social e as concepções
Duby (1990). “Vênus foi uma manifestação das facetas literárias, nos referidos períodos. Considerando o
femininas para a cultura grega clássica: deusa do amor, andamento da pesquisa, algumas considerações podem
da beleza, da reprodução, da proteção, da sedução, da ser feitas: a jovem do povo é retomada nas redondilhas e
pureza e do erotismo”, segundo Cortez (2009, p. 356). cantigas, os mesmo olhos verdes, a mesma cor dos
No medievo, critérios morais e religiosos determinaram cabelos, sua graciosidade. Dois modelos, ainda, podem ser
a descoberta de outros aspectos femininos, modificando observados: a figura da moça comum, trabalhadora,
substancialmente a imagem da mulher. A interpretação simples ao vestir-se, que trabalha, carregando na cabeça
do modelo bíblico de Eva, a pecadora, contribuiu para a os potes de água, chora e sofre por amor, pelo domínio da
construção da imagem de uma mulher astuta; audaciosa; mãe, e a mulher de alta classe, inspiradora de elogios
vaidosa; ambiciosa; ingrata e traiçoeira. Esse perfil, no apaixonados do trovador e do poeta, apresentando sempre
entanto, não ofuscou a representação de Maria, a o sentimento de indiferença e desprezo ao amador. Nas
redentora, manifestando-se na sublimação da donzela cantigas de amigo, há campos, árvores, pedras e animais,
casta e virtuosa, a personificação da salvação. Mais os quais corroboram para a construção da figura da
tarde, no século XV, os artistas se voltam para as pastora, da menina simples do campo e de extrema beleza,
sugestões da arte clássica e reconstituem a figura de o que corresponde à mulher camponesa referida por
Vênus, somando a ela valores medievais e Macedo (2015), que cuidava dos afazeres domésticos,
renascentistas. Luís Vaz de Camões, poeta português participava do trabalho rural, bem como da fiação, da
que viveu e compôs no século XVI, foi um homem de tecelagem e da lavagem de roupas. Nas cantigas de amor,
seu tempo, ao retomar as raízes da tradição portuguesa, as mulheres são casadas e o trovador (de joelhos) lhe
cultivou largamente a redondilha, escrevendo os versos deve respeito, sem nunca mencionar o seu nome e nem o
em mediada velha. Camões utilizou essa métrica simples de sua família. A ausência de cenário, elementos naturais,
para apreender a beleza da jovem do povo, seu trabalho nessas cantigas, nos leva a concluir que se trata do espaço
diário, registrando-os em versos redondilhos maiores e da corte, o que reitera a condição de uma mulher da
menores, de indiscutível beleza lírica. Com efeito, a nobreza. Tem-se, portanto, nos textos, a evidência da
reconstrução dos retratos femininos, em textos escritos condição social da mulher nas sociedades medieval e
em medida velha, integra parte da proposta de pesquisa renascentista.
do projeto Camões na linha dos trovadores: vestígios
{} Este projeto de dissertação de mestrado é orientado pela
das cantigas trovadorescas na renovação da paisagem e professora doutora Clarice Zamonaro Cortez (Universidade Estadual
de Maringa, UEM)
_________BIBLIOGRAFIA

{} CAMÕES, L. de. {} COHEN, R. (ed. {} CORTEZ, C. Z. Literatura {} DUBY, G. (org.) {} MACEDO, J.


Lírica. Seleção, crítica). 500 cantigas e Pintura. In.: BONNICI, T.; História da Vida R. A mulher na
introdução e notas de d’amigo. Porto: ZOLIN, L. O. (org.). Teoria Privada – da Europa Idade Média.
Massaud Moisés. 17ª Campo das Letras, literária: abordagens Feudal à Renascença. São Paulo:
ed., São Paulo: 2003. Coleção Obras históricas e tendências São Paulo: Companhia Contexto, 2015.
Clássicas da literatura contemporâneas. Maringá:
Cultrix, 1997. Portuguesa. Eduem, 2009.
das Letras, 1990.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {52}


{
}

{pesquisas}

______ O DIFUSO NAS IMAGENS-TEXTO DE PATRICK MODIANO


{} POR LAURA CAMPOS, professora adjunta do Instituto de Letras da UERJ.

“Quem és, tu que vês sombras?”


Dylan Thomas

Os versos de Dylan Thomas, epígrafe do romance que, vale lembrar, foi pioneiro na releitura dos anos da
Vila Triste (1975), de Patrick Modiano, ilustram Ocupação nazista e, sobretudo, dos comportamentos
igualmente o conjunto da obra do autor francês na qual dúbios dos franceses durante a Colaboração com o
o jogo entre luz e sombras já se tornou uma marca de Terceiro Reich. Ao lado de nome
sua identidade textual.
s como Marcel Ophuls no cinema, Modiano mobilizou
Em Catherine Certitude (1988), a narradora aprecia na literatura personagens que são muito mais o produto de
tirar os óculos e interagir com a opacidade que a cerca, circunstâncias do que de opções categóricas. Nesse
com a falta de foco advinda da miopia, o que se sentido, o escritor das “zones d’ombres”, das incertezas e
configura, portanto, como uma tomada de decisão sobre do mundo desfocado ampliou os limites da literatura ao
sua relação com o mundo. Captar o difuso como chave entremeá-la com outros discursos e campos artísticos.
de leitura da realidade é um procedimento emblemático
do universo literário de Modiano cujos personagens A pesquisa analisa a precisão do difuso nas imagens
apresentam comportamentos tão imprecisos quanto as textuais do universo literário de Modiano, marcado pela
atmosferas em que se inserem. articulação da sintaxe simples com a ambivalência de
sentidos.
Bruma, cerração, névoa e janelas embaçadas são
algumas das barreiras sensoriais de predileção do autor

_________BIBLIOGRAFIA

{} D’ANGELO, Biagio; SOULAGES, {} HECK, Maryline; GUIDEE, {} HOLTER, Julia. Le Clair-


François (codir.). Temps Raphaelle (codir.). Modiano. Obscur Extrême
Photographie & Littérature. Écrits Collection "Cahiers de L'Herne" Contemporain: Pierre
parisiens 2017-2018. Collection nº98. Paris: Éditions de L'Herne, Bergounioux, Pierre Michon,
Eidos, serie RETINA. Paris: 2012. Patrick Modiano et Pascal
L’Harmattan, 2018. Quignard. Amsterdam :
Rodopi, 2017.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {53}


{
}

{vitrine}

{} E a literatura, hoje?: {} A circulação do sangue:


estudos de crítica, história entre o Oriente e o Ocidente,
e teoria literárias {ensaios} a história de uma descoberta
{ensaios}
Roberto Acízelo de Souza François Boustani
Tradução Marcio Arnaldo da
Ed. Argos
Silva Gomes
2018 Ed. UFRJ | 2018
História da Medicina

{} Os Estados Colapsados {} O Banquete


e a Democracia Latino- Platão
Americana: o caso do
Brasil {ensaios} Trad. Carlos Alberto Nunes
(Ed. Bilíngue)
Saulo Tarso Rodrigues Ed. UFPA
Ed. UFMT 2011
Filosofia
2010

{} Arquitetura e instrução {} Antropologia e Cinema


pública {ensaios} {ensaios}
Zilsa Maria Pinto Santiago
Marc Piault
Ed. UFC
2017 Ed. Unifesp
Arquitetura e História da 2018
Educação
Antropologia

{} História da imprensa {} Apresentação à


em Imperatriz-MA: 1930- Economia: um guia para o
exercício da cidadania no
2010 {ensaios} capitalismo {ensaios}
Thays Assunção Robson Antonio Grassi

Ed. UFMA Ed. UFES

2018 2016
Economia
Comunicação e História

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {54}


{
}

prosa

prosa. narrativa. poesia. voz.


romance. contos. cronicas.prosa.
narrativa. poesia. voz. romance.
contos. cronicas.prosa. narrativa.
poesia. voz. romance. contos.
cronicas.prosa. narrativa. poesia.
voz. romance. contos. cronicas.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {55}


{
}

{prosa} INTERROMPIDOS {CONTOS} | ALÊ MOTTA | EDITORA REFORMATÓRIO | 2017

Operação no morro
5 da manhã o comboio se reuniu.
7 da manhã todas as entradas e saídas estavam cercadas.
8 da manhã o tiroteio iniciou.
9 da manhã um dos policiais matou dois moleques que
fugiram para a mata.
10 da manhã este policial chorava, abraçado ao fuzil. Do
seu lado, o corpo destroçado.
Antes das 11 da manhã todo o comboio lamentava a
desgraça.
Até os mais durões tremem ao perder um filho.

Prato principal
Frango assado com batatas portuguesas. Arroz branco, bem
soltinho. Salada de rúcula e palmito. Molho de mostarda.
Fiz seu prato. Enquanto comia, falou do seu carro na
revisão, do CD novo da sua banda predileta, reclamou do
seu patrão e emendou na chuva que, se viesse, atrapalharia
seu futebol.
Sentada na cadeira, ao seu lado, acompanhei a revisão, a
banda, a possível chuva, a reclamação. Sou ótima para
acompanhar. Sou como o molho de mostarda.
Ele terminou de comer. Eu sorri. O veneno demora uns
minutos para fazer efeito.

ALÊ MOTTA É escritora. Participou da antologia 14 novos


autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa.
Interrompidos é seu livro de estreia.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {56}


voz de
criança
No próximo número da
{voz da literatura}, teremos um artigo
imperdível sobre literatura infantil.
Mas, para inaugurar o espaço “voz de
criança”, selecionamos algumas obras
que mostram a riqueza dessa
literatura.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {57}


{
}

{voz de criança}

__ Foi ele que escreveu a ventania


ROSANA RIOS (TEXTO) E MAURÍCIO NEGRO (ILUSTRAÇÕES) | ED. PULO DO GATO | 2017

Rosana Rios, com o personagem Tui, estimula as crianças


a brincarem de ler poesia. Certo dia, a caminho da escola,
Tui se surpreende com um poema escrito em um muro: “O
sol saracoteia/lá no céu./No solo seco/a gente seca,/só se
sente sede”. Tui, ao contrário dos colegas de sala, preferia
livros de poesia. Especialmente um, que era praticamente
só dele. À noite, em casa, assistindo ao telejornal, ficou
sabendo que o poeta e autor de seu livro preferido havia
morrido e descobriu que os poetas também morrem. Na
mesma noite, sonhou com o poeta e ele era capaz de
escrever no ar. No dia seguinte, de novo rumo à escola,
fica triste ao presenciar a demolição do muro onde leu o
poema que havia lhe impressionado tanto. Próximo dali,
em um poste, encontrou outro poema, em resposta à
demolição do poema-mural: “Quebram as paredes,/a gente
ergue outras./Apagam os versos,/a gente escreve mais./
Palavras/são eternas…”. Naquele mesmo dia, recebe de
presente de sua professora um livro novinho, aquele do
poeta de que tanto gostava. Assim, Tui começa a escrever
poemas e se dá conta de que com as palavras poderia
inventar a ventania. As ilustrações de Maurício Negro são
inseparáveis da narrativa. Um livro com o mérito de
desenvolver o gosto pela poesia nas crianças.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {58}


{
}

{vitrine}

{} Não confunda {} Duas casas {poesia}


Eva Furnari Roseana Murray

Editora Moderna Elvira Vigna (Ilustradora)


Editora Abacatte
2011
2017

{} Ernesto {} Meu pai, o grande pirata


Blandina Franco e José Maurício Quarello, Davide Calí
Carlos Lollo
Pequena Zahar
Companhia das Letrinhas
2018
2016

{} Meu crespo é de rainha


{} Na aldeia dos
Bell Hooks crocodilos

Ilustrações: Chris Raschka Adelino Timóteo


Pinturas: Silva Dunduro
Boitatá (Boitempo Editorial)
Kapulana
2018
2018

{} Madeline Finn e Bonnie {} Fábulas do mundo


islâmico {contos}
Lisa Papp Shahrukh Husain e Micha
Archer
Trad. Leunice Bueno
Negro Trad. Monica Stahel

Ed. Salamandra WMF Martins Fontes


2017
2017

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {59}


breves
leituras
breve. leitura. crítica. resumo. sinopse.
voz. olhar. escrever. sentir. transmitir.
voz. breve. leitura. crítica. resumo.
sinopse. voz. olhar. escrever. sentir.
transmitir. voz. breve. leitura. crítica.
resumo. sinopse. voz. olhar. escrever.
sentir. transmitir. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {60}


{
}

{leituras}

{} desobedecer {} a velha
Frédéric Gros | Trad. Célia Eulvaldo | UBU Editora | 2018 Daniil Kharms | Trad. Moissei e Daniela Moutian | Kalinka | 2018

Desobedecer, palavra que incomoda. Política, religião, O escritor, poeta e dramaturgo russo Daniil Kharms (1905-
cultura, arte, sociedade, ética, literatura. Para cada uma 1942) pode chegar a muitos leitores brasileiro por meio
dessas áreas, desobedecer adquire um significado. É dessa curta novela A velha, em edição bilíngue, traduzida
nessa busca por significados que se lança o filósofo por Moissei e Daniela Moutian, responsáveis pela editora
Frédéric Gros. Em seu discurso, vai nos colocando às Kalinka, que se dedica à edição e tradução de obras russas
voltas com Dostoiévski (Os irmãos Karamázov), Sófocles para o português. A velha é dessas narrativas de aparência
(Antígona), o julgamento de Adolf Eichamnn, o enigma simples, mas que suscitam dúvidas a todo instante. As
da conduta de Henry David Thoreau, o Ricardo III de cenas são verossímeis? O fantástico, o insólito e o absurdo
Shakespeare, episódios de Sócrates na República de se misturam a elas? Uma velha que segurava um relógio
Platão. E pelo caminho, Gros nos põe em contato com de parede no pátio e aparece morta na casa do narrador
vários filósofos e pensadores, como Aristóteles, Santo existe de fato? Seria ele o assassino da velha? O crime
Agostinho, Descartes, Kant, Hegel, Montaigne, aconteceu? Ou tudo é fruto da imaginação do narrador?
Rousseau, Marx, Max Weber, Nietzsche, Hannah Arendt, Um narrador que também é escritor. Ficção e realidade
Michel Foucault, Deleuze, Etienne de La Boétie, Simone soltam faíscas na prosa de Kharms. É impossível não
Weil, Günther Anders, Habermas. Tudo isso para pensar relacioná-lo à mente atormentada de Raskolnikov em
conceitos de (des)obediência, desobediência civil,
Crime e castigo, de Dostoievski. A solução de colocar o
superobediência, transgressão, servidão, conformismo,
corpo da velha em uma mala, para despejá-la em outro
consentimento, responsabilidade, coragem, obrigação,
lugar, se desfaz quando o protagonista perde a mala dentro
liberdade, justiça, entre outros de igual valor. Ao final da
de um bonde. Alívio? Por trás de cada elemento, cada
leitura, ficamos a indagar as coisas que nos são
ação, a narrativa de Kharms multiplica possibilidades
impostas: - Por que não desobedecemos?
metafóricas e filosóficas próprias da verdadeira literatura.
Do mesmo autor, a Kalinka já havia lançado Os sonhos
teus vão acabar contigo (190-1930) em 2013. E a
CosacNaify havia lançado seu livro de literatura infantil
Esqueci como se chama.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {61}


{
}

{leituras}
{} alguns aspectos da teoria da poesia concreta {} poema/processo: uma vanguarda semiológica

Paulo Franchetti | Ed. Unicamp | 4ª ed. 2012 Gustavo Nóbrega (Org.) | Ed. WMF Martins Fontes | 2017

A força e o valor desse livro de Paulo Franchetti estão O Poema/Processo, movimento brasileiro de vanguarda,
em sua capacidade de demonstrar como a teorização completou 50 anos em 2017. A Galeria Superfície (SP),
dos concretistas funciona como pedra de toque para a atenta à efeméride, apresentou a exposição 50 anos
legitimação da poesia concreta e do grupo Noigrandes. Poema/Processo: uma vanguarda semiológica durante os
O primeiro capítulo conta com análise percuciente de meses de outubro a dezembro do ano passado. A presenta
Franchetti a partir dos textos inaugurais de Augusto e obra, fruto de pesquisa minuciosa e organização de
Haroldo de Campos (1955-1956), em que se percebe a Gustavo Nóbrega, em edição cuidadosa da WMF Martins
tentativa de vinculação histórica da poesia concreta com Fontes, mostra a força e as contradições do movimento do
figuras de proa como Mallarmé, Joyce, Pound e poema/processo, recuperando não somente sua ligação
Cummmings, nomeando-os como precursores do umbilical com a arte e poesia concreta, desde a primeira
concretismo. Na sequência, o pesquisador põe em exposição de 1956. Pelo texto “Da poesia concreta ao
evidência a tendência à vinculação da poesia concreta poema/processo” (1975), de Moacy Cirne - reproduzido
com os novos recursos da era eletrônica e da mass no livro -, sabe-se mais do percurso histórico de formação
media, tanto nos artigos dos irmãos campos quanto no do movimento e da sua ruptura com a poesia concreta.
de Décio Pignatari, na revista Noigandres. No capítulo 3, Gustavo Nóbrega alinha textos históricos com farto material
dedica-se à leitura do “salto participante” no movimento, documental do movimento, com obras individuais,
com sua inflexão política, dando atenção, por exemplo, coletivas, exposições e textos de expoentes do grupo, em
ao texto “A poesia concreta e a realidade nacional”, de reprodução de originais, como os da revista Ponto mantida
Haroldo de Campos (1962, Revista Tendência, n. 4). No pelo grupo. Do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro,
último capítulo, a leitura recai sobre as aproximações e uma ponte constante do projeto poema/processo, embora
distanciamentos entre a “Geração de 45” e os não circunscrito a estes dois estados, tem-se uma visão da
concretistas, recorrendo à análise feita por críticos e resistência contra a ditadura, com rara consciência política,
historiadores da literatura como Afrânio Coutinho, bem como uma inventividade sem limites para a
Affonso Romano de Sant’Anna, Alfredo Bosi, Wilson reinvenção da linguagem poética, com uma ruptura radical
Martins, Antonio Candido. Nessa edição, Paulo com a poesia intimista brasileira, por meio de
Franchetti inclui ainda dois adendos: “Breve história do experimentos, processos, objetos, performances, em que
grupo Noigrandes”, texto de significativo lastro, por via de regra os leitores/consumidores detém boa parte do
recuperar, entre outras coisas, os primeiros poemas do processo criativo. Como no episódio de um pão poema-
grupo, com espírito muito próximo da geração de 45; e processo de 2 metros comido por 5 mil pessoas na Feira
“Poesia e técnica – poesia concreta”, um sucinto de Arte de Recife em 1970. É isso e muito mais o que se
panorama para enquadramento histórico da poesia vê em obras reproduzidas de Wladimir Dias-Pino, Moacy
concreta, ao jeito de resumo do que se discute ao longo Cirne, Neide Sá, Álvaro de Sá, Anselmo Santos, Frederico
de todo o livro. Morais, Raymundo Amado, Anchieta Fernandes, entre
outros.
{} O documentário “Apocalipopótase”, de Raymundo
Amado (1968), é um dos mais emblemáticos registros do
movimento e está disponível no YouTube:
https://bit.ly/2KhNkAl
{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {62}
{
}

peru

peru. america –latina. america do sul.


hermanos. irmaos. peru-brasil. fronteira.
vizinhos. voz. peru. america –latina.
america do sul. hermanos. irmaos. Brasil
-peru. fronteira. vizinhos. voz. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {63}


{
}

{peru}

____LA ISLA DE FUSHÍA DE IRMA DEL ÁGUILA Y OTROS MODOS DE VER LA SELVA AMAZÓNICA
LA ISLA DE FUSHÍA {ROMANCE} | IRMA DEL ÁGUILA | ALFAGUARA | LIMA, 2016 | 185 P.

{} POR CINTHYA TORRES

comentario crítico. La protagonista, Cristina, es una


periodista que viaja de Lima a Santa María de Nieva, una
comunidad rural en el Alto Marañón, siguiendo los pasos
de Juan Fushía, un comerciante cauchero que sirve de
inspiración a uno de los personajes literarios más celebres
de La casa verde (1966) de Mario Vargas Llosa. En la
versión original, Fushía es presentado como un
inescrupuloso contrabandista que llega a la selva peruana
en la década de 1950 huyendo de las autoridades
Una de las escenas más conocidas de la novela de la brasileñas, donde se enriquece comerciando caucho y
selva latinoamericana, como se denomina a las novelas pieles a expensas de las tribus locales. Un personaje
publicadas en el siglo XX que tienen como escenario la singular, Fushía vive en una isla escondida, en algún lugar
selva amazónica, es la del epílogo de La Vorágine entre la frontera de Perú y Ecuador, desde donde dirigía el
(1924) del escritor colombiano José Eustasio Rivera. contrabando local y, se decía, mantenía cautivas a jóvenes
“Hace cinco meses búscalos en vano Clemente Silva. Ni nativas como concubinas.
rastro de ellos. ¡Los devoró la selva!” (p. 203), concluye En La historia secreta de una novela (1971), ensayo
el cable del cónsul confirmando la desaparición de donde relata el proceso de composición de La casa verde,
Arturo Cova y sus compañeros. Una fuerza voraz que Vargas Llosa advierte que nunca conoció al verdadero
engulle a quienes se aventuran en sus dominios, desde Fushía y que su personaje se inspira en las historias que
su descubrimiento en el siglo XVI y hasta hoy en día la se contaban con “rebajas y añadidos de la fantasía local” en
particularidad geográfica de la Amazonia ha dado lugar a los pueblos y comunidades del Marañón (p. 43). Resuelta
un vasto conjunto de narraciones que, aun cuando a probar la existencia de Fushía y su legendaria isla,
diversas e incluso contradictorias, se construyen sobre Cristina se interna en la selva llevando consigo información
una visión exotizante de la región. sobre la familia del cauchero que aún vivía en la zona y un
En Canaima (1935) de Rómulo Gallegos y El mapa mal trazado de la región que acompaña la primera
Hablador (1987) de Mario Vargas Llosa, por ejemplo, la edición de La casa verde.
selva es representada como un espacio apartado e Una primera idea que vale la pena destacar es la
impenetrable donde hombre y naturaleza se enfrentan. habilidad de del Águila para tomar como punto de partida a
Publicaciones más recientes como la trilogía de William una de las novelas más reconocidas del canon literario
Ospina, Ursúa (2005), El país de la canela (2008) y La nacional, nada menos que La casa verde, y hacer algo
serpiente sin ojos (2012) y El príncipe de los caimanes distinto a nivel de forma y contenido. La técnica de tomar
(2002) de Santiago Roncagliolo, encuentran en la un personaje de una obra literaria como referencia o
alteridad geográfica un escenario ideal para las inspiración para crear otra, esto es intertextualidad, no es
peligrosas aventuras de sus protagonistas. No obstante, un procedimiento inusual en la literatura. James Joyce,
el esfuerzos de los escritores por apartarse de lugares Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway y Jorge Luis Borges en
comunes al hablar de la selva, elementos del mito la tradición latinoamericana, son algunos de los ejemplos
original perduran. más citados del canon. Todo texto literario es un “mosaico
Entre la narrativa más reciente, La isla de Fushía de citas”, en las palabras de Julia Kristeva, que se
(2016) de la escritora y socióloga peruana Irma del construye en la absorción y transformación de otro texto.
Águila destaca por la originalidad de la trama y En el ejercicio intertextual de escribir un texto a la luz del

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {64}


{
}

{peru}

otro, en La isla de Fushía Cristina descubre a un Una segunda idea que se desprende de la novela es la
personaje que poco tiene que ver con la ficción literaria importancia política, económica y social de la selva en
y que la obliga a repensar la historia original y los tiempos de globalización, políticas ambientales y desarrollo
términos en que ésta se escribe. sostenible. En el trayecto hacia Santa María de Nieva,
Después de entrevistarse con familiares y vecinos de Cristina pasa por Bagua, una comunidad rural localizada en
Nieva, Cistina descubre que lejos de ser un bandido que la selva norte que en el 2009 se hace mundialmente
maltrataba a Lalita, el Fushía de carne y hueso era un conocida al convertirse en escenario de uno de los
“hombre tranquilo” que en su tiempo libre cultivaba conflictos sociales más violentos de los últimos años.
orquídeas en su chacra y que es recordado con estima Aunque la referencia al Baguazo, como se conoce a este
por su conviviente indígena, Olga. Sin embargo, una y suceso, es breve en relación a la trama central, el
otra vez se sorprende a sí misma queriendo hacer comentario político es altamente efectivo.
encajar al personaje histórico con el de la ficción. Donde Cansados de ver sus derechos territoriales vulnerados,
la periodista insiste en descubrir al cauchero el 5 de junio de 2009 centenas de indígenas de las etnias
inescrupuloso, solo encuentra al “patrón fuerte” del awajun y wampi bloquearon un trecho de la carretera
caucho que sabía hacerse respetar por sus empleados. Fernando Belaunde Terry, conocida como “La curva del
Y donde imagina un harén tropical, solo existen diablo”. El objetivo era llamar la atención del presidente y
vestigios de un islote alguna vez habitado por dos exhortarlo a rectificar su decisión de dar en concesión
mujeres que cuidaban la tierra y animales de Fushía. tierras comunales a empresas transnacionales. El
De igual manera, al separar la verdad del mito, del enfrentamiento desigual que se dio entre policías y nativos
Águila anima al lector a reconsiderar los valores que ese día dejó un saldo de 33 personas fallecidas, 100
ordenan su comprensión de la selva y su gente. En vez detenidos, más de 200 heridos y un policía desaparecido.
de paraísos perdidos y nativos semidesnudos, en Nieva Si bien 7 años después la Corte Superior de Justicia de
los jóvenes bailan al ritmo de hip hop y cumbia Amazonas absolvió a los 53 nativos detenidos, acusados
amazónica, mestizos de apellidos “Ampan y Shawit [que] de homicidio calificado e instigación a la violencia, la Corte
portaban el documento nacional de identidad, hablaban tampoco identificó y dictó condena contra los responsables
un castellano selvático y zapeaban los canales del cable políticos de una masacre que podría haber sido prevenida.
que circulaban delante de sus ojos a la velocidad de la En un paralelo entre la era del caucho y la actual, del
luz” (p. 160). Una vez despojada del elemento Águila pareciera sugerir que la cultura de violencia e
exotizante, la Amazonia se asoma como un espacio impunidad en el Putumayo a comienzos del siglo XX, no
plural y dispar que existe en sus propios términos, es tan distinta a la ocurrida en Bagua. Lo mismo que antes,
problematizando la idea de una nación homogénea. Aquí la ciudadanía se vuelve privilegio de unos cuantos.
vale la pena subrayar que al presentar un perfil más En el proceso de reconstruir el pasado de un personaje
humanizado del cauchero la intención no es desestimar en apariencia improbable, La isla de Fushía plantea una
la violencia que asoló a la región durante la era del reflexión necesaria sobre la importancia de ver la selva
caucho o, aún peor, ignorar la marginalidad social y desde otros ojos, esto es una mirada integradora que
política que existe fuera de las zonas urbanas, sino abrir reconoce la singularidad de la Amazonia y la acepta como
espacio a versiones alternativas a la historia oficial de la parte necesaria de ese multicultural y multiétnico territorio
Amazonía. ¿Con qué propósito? Solo en la pluralidad de que es el Perú.
perspectivas es que se puede desarticular la tradición
colonial existente y ver la selva con otros ojos. CINTHYA TORRES é doutora em literatura pela Universidade de Harvard.
Professora de literatura hispânica na Morrissey College of Arts and
Sciences da Boston College. Há artigos seus publicados na Revista
Peruana de Literatura e Inti: Revista de literatura hispánica. Seu artigo
sobre Euclides da Cunha e o conflito diplomático no Acre (1899-
1903) sairá este ano na antologia Intimate Frontiers: A Literary
Geography of the Amazon , pela Liverpool University Press.
_________BIBLIOGRAFÍA
{} Kristeva, Julia. “Word, {} Rivera, José {} Vargas Llosa, Mario. {} Vargas Llosa, Mario.
Dialogue and Novel”. En The Eustasio. La vorágine. La casa verde. La historia secreta de una
Kristeva Reader. Toril Moi, Caracas: Biblioteca Barcelona: Seix Barral, novela. Barcelona:
editor. New York: Columbia Ayacucho, 1985. [1924] 1972. [1966] Tusquets Editor, 1971
University Press, 1986. 34-
61.
{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {65}
{
}

{vitrine}

{} Berta Isla {romance} {} Antología de crónica


latinoamericana actual
Javier Marías
{crônicas}
Editora Alfaguara Org. Darío Jaramillo Agudelo
{Colômbia}
2017 Editora Alfaguara
Literatura Espanhola 2012
Literatura latino-americana

{} A coleção {} Cartas da prisão de Nelson


privada de Acácio Mandela
Nobre
Ed. Sahm Venter
Patrícia Portela
Todavia
Dublinense
2018 | eBook e impresso
2017
Biografia
Biografia

{} Estudos {} Crítica, teoria e


epistemológicos do literatura infantil
romance {ensaios}
Peter Hunt
Org. Maria Veralice
Barroso; Wilton Barroso Trad. Cid Knipel
Filho
Cosac Naify
Editora Verbena
2010
2018

{} Poeira Lunar {romance} {} Cego aderaldo


{biografia}
Arthur C. Clarke Claudio Portella
Trad. Daniel Lühmann Ed. Escrituras
Aleph eBook | impresso
2018 2013

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {66}


{
}

música

voz. instrumento. cordas. sopro.


som. volume. cantor. cantora. cançao.
refrao. melodia. harmonia. voz.
instrumento. cordas. sopro. som.
volume. cantor. cantora. cançao.
refrao. melodia. harmonia. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {67}


{
}

{música}

__ MAURÍCIO PEREIRA: OUTONO NO SUDESTE


{} POR FERNANDO ANDRADE

A métrica do poema precisa de alguns ajustes para o


acerto ou padrão da música com letra. Cabe dizer, ser a Mulheres de Bengalas
canção um formato fluído, mexendo com verso livre ou
um soneto, como nas canções de Vinícius com Toc, toc, toc
Toquinho. Alice Ruiz transita livremente tanto pelo uma mulher de bengala toc toc
poema quanto pela letra quando compõe, e não há passa depressa ao meu lado
muitas diferenças de estilo entre uma e outra. Fez um ela tem a cintura dura
poema lindo que entregou ao Itamar Assumpção, para e joga a cabeça num modo intrigante
musicar, a bela “Milágrimas”. um modo talvez atraente
Estilos literários devem ser manuseados livremente toc toc toc
quando transpostos para a canção. A letra do Paulo a tatoo que ela tem na nuca
Leminski, também gravada pelo Itamar, “Dor Elegante”, é ( é um golfinho)
um bom exemplo que uma imagem / conceito no caso, o farol abre e ela cruza
a dor, pode vira-se do avesso, e mesmo sendo (Bela Cintra)
imagética fica melodiosamente bonita quando feita a
letra. Há ironia quando se refere a um tipo de conduta Toc, toc, toc
para dor, fazendo certas referências ao próprio ato do e alguém, me pegou pelo braço
criar poético. É por meio da observação do filtro de ver e na esquina da Augusta
observar informações cotidianas que muitos músicos assusto
têm trabalhados uma realidade comum ou (extra) ergo a cara para ver
ordinária em seus versos ou letras. É o caso do músico Um cara me diz assim
e compositor Maurício Pereira, que acabou de lançar o atravessa ela para mim
álbum Outono no Sudeste.
No álbum, o músico une ao trabalho poético de Toc, toc, toc
metrificar a letra, uma aguda visão da vida citadina. Mas de braço dado com uma mulher de bengala
como deve ser este lapidar informações sobre uma baixinha, cheirosa, tailleur, salto agulha
realidade que à priori, no poema ou letra pareceria fora até a Consolação
de lugar? Maurício prioriza pequenas epifanias sobre
algum tema, como no caso da letra “Mulheres de penso em todos os buracos da calçada
Bengalas”. e por um instante sou todo ouvidos.

Ele não faz da letra um conteúdo de observação de


uma ação cotidiana literal, apenas. Ele joga com cenas
sob uma ótica pessoal, absorvendo elementos do drama
cotidiano que possam ser poéticas em sua visualidade
espacial.

FERNANDO ANDRADE É poeta e jornalista, 50 anos. Escreve, para o Portal Ambrosia, resenhas de livros e faz entrevistas
com escritores. Participa do Coletivo de Arte “Caneta, Lente e Pincel” com textos narrativos ou poemas. Tem dois contos
em coletâneas do coletivo de literatura Clube da Leitura. Tem 3 livros de poesia publicados: Lacan por Câmeras
Cinematográficas e Poemometria (Ed. Oito e meio) e Enclave (Ed. Patuá). Estará lançando em julho o seu quarto livro
de poemas, A perpetuação da espécie (Ed. Penalux). Um poema seu “A cidade é um corpo” participou da exposição
Poesia Agora na Bahia e no Rio.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {68}


{
}

sumário

sumo. essencia. resumo. previo.


leitor. voz. sumo. essencia. resumo.
previo. leitor. voz. sumo. essencia.
resumo. previo. leitor. voz. sumo.
essencia. resumo. previo. leitor. voz.
sumo. essencia. resumo. previo.
leitor. voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {69}


{
}

{sumário}
O CICLO DO TOTALITARISMO {ENSAIOS} | RUY FAUSTO | EDITORA PERSPECTIVA | 2017

“O tema geral desses trabalhos é o totalitarismo, mas, em contraposição, eles também se


ocupam, em alguma medida, da democracia e dos caminhos da esquerda. O totalitarismo
não foi, entretanto, um verdadeiro ponto de partida. Não houve de minha parte um projeto
de escrever um livro sobre o totalitarismo. Na realidade, esse objeto me interessou muito
nos últimos vinte anos, e continua interessando, mas os estudos foram elaborados ao sabor
de circunstâncias objetivas ou subjetivas. (...)
Os ensaios têm, assim, como centro o totalitarismo, ou mais exatamente, os
totalitarismos: a saber, o totalitarismo de esquerda (o que chamei de “totalitarismo
igualitarista”) – tanto na sua versão russa como na sua versão chinesa – e o totalitarismo de
direita, cuja expressão por excelência foi o nazismo. O último ensaio não tinha, em
princípio, uma relação mais precisa com os anteriores. Ele comenta e teoriza os atentados
terroristas que tiveram lugar em Paris, no início do ano de 2015.” {p. XI-XII}

Introdução - XI V. REVOLUÇÕES RUSSAS:


I. O CICLO DO TOTALITARISMO E OS IMPASSES Questões “Políticas” de um Não Historiador
em Torno da História e da Historiografia das
DA ESQUERDA MUNDIAL Revoluções Russas
Primeira Parte: O Ciclo do Totalitarismo* - 1 1. Revolução e Revoluções - 193
Segunda Parte: Teoria (e Perspectivas Políticas Gerais)- 36 2. Leituras do Movimento de Outubro - 194
Terceira Parte: Os Impasses da Esquerda Mundial - 54 3. Os Partidos e as “Grandes Tendências“ nas
II. SOBRE AS ORIGENS DO TOTALITARISMO Revoluções Russas - 209

Introdução - 71 VI. SOBRE A REVOLUÇÃO CHINESA:


A Assim Chamada Revolução Chinesa Foi uma
1. Capitalismo, Democracia, “Pré-História” - 73 Revolução Camponesa? A Revolução Chinesa e a
Classe Média Intelectual
2. Das Origens Intelectuais do Totalitarismo Igualitarista - 80
Introdução:
3. Conclusão - 116
Revolução Chinesa e Revolução Russa - 245
III. COMUNISMO E NAZISMO
1. Os Movimentos Autóctones e a Terceira
Introdução - 121 Internacional - 246
1. Os Dois Totalitarismos - 122 VII. “JE SUIS CHARLIE”: BALANÇO E REFLEXÕES
2. Fases da História do Comunismo - 126 1. Introdução* - 274
3. A Emergência dos Dois Totalitarismos - 127 2. O Massacre e as Circunstâncias - 276
4. Despotismo e Burocracia - 133 3. Charlie Hebdo e os Atentados - 280
5. Do Leninismo ao Stalinismo - 142 4. Blasfêmia - 282
IV. EM TORNO DA INSURREIÇÃO DE OUTUBRO DE 1917 E 5. O Contexto - 287
DOS SEIS PRIMEIROS MESES DO PODER BOLCHEVISTA
6. Islã, Jihadismo. Religião, Religiões do Livro - 306
Primeira Parte - 149
7. Depois do Massacre - 322
Segunda Parte - 171
Fontes - 329

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {70}


{
}

editoras

ediçao. editar. editor. editora. livro.


publicaçao. publicar. catalogo.
voz.ediçao. editar. editor. editora.
livro. publicaçao. publicar. catalogo.
voz.ediçao. editar. editor. editora.
livro. publicaçao. publicar. catalogo.
voz.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {71}


{
}

{editoras}

A Editora UnB tem uma trajetória importante no cenário de


publicações editoriais, a começar pela sua origem. Ela nasceu do sonho
de Darcy Ribeiro, ciente da necessidade de dominarmos o saber
humano para colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional. Por isso
a aposta na publicação de obras relevantes para a reflexão do
pensamento nacional.

Como exigência da evolução da cultura nacional, a Editora UnB vem


cumprindo seu papel de propagadora do pensamento humanista,
intervindo, com suas publicações, nesse processo de pensar e operar a
própria ideia de uma universidade transgressora, como a definiu Darcy
Ribeiro, democrática e plural.

Ao observarmos o catálogo de obras publicadas pela Editora UnB


nesses mais de 50 anos de sua existência, é possível comprovar que os
ideais que principiaram a sua criação estão aí até hoje, acompanhando
os grandes temas de interesse cultural, social e econômico da atualidade
e consagrando-a como uma das melhores editoras universitárias do
país.

A Editora UnB vem aprimorando e definindo suas linhas de atuação,


com um perfil muito específico dentro do mercado editorial, voltada para
a divulgação do conhecimento. Para atender à crescente demanda por
publicações, temos mais uma etapa de ampliação e inovação em sua
política editorial. Para saber mais sobre as novas regras para publicação,
basta acessar o nosso site.

WWW.EDITORA.UNB.BR | FACEBOOK: @EDITORAUNB | INSTAGRAM: @EDITORAUNB

POR GERMANA HENRIQUES PEREIRA, DIRETORA DA EDITORA UNB.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {72}


{
}

{editoras}

A Dublinense nasceu em 2009 com os sócios Gustavo Faraon e Rodrigo Rosp, que
já havia criado a Não Editora. O objetivo era ter uma linha editorial mais ampla, com
títulos sobre música, negócios, esportes, psicanálise, mas sempre mantendo o foco na
ficção nacional, e tendo a Não Editora como selo para a literatura mais fora do comum.
A partir de 2012, a Dublinense passou a publicar literatura estrangeira contemporânea,
com autores da Argentina, África do Sul, Nigéria, Moçambique, Irã, Alemanha e,
principalmente, Portugal (com a coleção Gira, de escritores lusófonos não brasileiros).
A editora segue apostando em literatura nacional e já teve autores nas listas dos
principais prêmios literários do país, com destaque para o livro de contos Amora,
vencedor do Jabuti.

WWW.DUBLINENSE.COM.BR | FACEBOOK: @DUBLINENSE | INSTAGRAM: @DUBLINENSE

POR RODRIGO ROSP, EDITOR DA DUBLINENSE.

Em pouco mais de dois anos, a Editora e Produtora Laranja Original lançou mais de
quarenta livros, quatro CDs e, recentemente, o primeiro número de uma revista que
reúne trabalhos inéditos de seus principais autores e ilustradores. Também produziu
saraus e apresentações musicais para os lançamentos, mostras de filmes e palestras.
Participou da Bienal do Livro de 2016 e estará na FLIP de 2018. Em 2017, duas de suas
editoras ganharam prêmios de literatura: Clara Baccarin, com Instruções para Lavar a
Alma (livro do ano no prêmio Guarulhos) e Germana Zanettini, com Eletrocardiodrama
(melhor livro de poesia pela Academia Rio-Grandense). Também em 2017, a editora foi
finalista em duas categorias do prêmio Jabuti, sendo que em 2016 já ficara em terceiro
lugar com o livro Labirinto, produzido em parceria com a editora Neotropica (categoria
ilustração, pelos desenhos de Alex Cerveny). Em sua trajetória, fez experimentos com
diversas linguagens artísticas, tais como pintura e fotografia, para reencontrar na
literatura a sua principal área de confluência, em especial a poesia, seguida de crônicas
e contos (não para menos, pois todo o seu conselho editorial é composto de escritores).
Além da conferência e eventual melhora dos originais recebidos, é prática da editora o
cuidado na arte da apresentação, contratando excelentes designers. Também o controle
da produção e qualidade de acabamento é feito por profissional especializado, mantendo
-se um bom relacionamento com as gráficas.

WWW.LARANJAORIGINAL.COM.BR | FACEBOOK: @LARANJAORIGINAL | INSTAGRAM: @LARANJAORIGINAL

POR FILIPE MOREAU, EDITOR DA LARANJA ORIGINAL.

{ . a cada número da voz da literatura, convidaremos


diferentes editoras, por meio de seus editores ou diretores,
para que se apresentem aos leitores da revista.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {73}


{
}

agenda

* entre os dias 7 e 14 de agosto de 1960, aconteceu o


I Congresso Brasileiro de Crítica e Historia Literaria
na cidade de Recife (PE), patrocinado pela
Universidade do Recife.
* de 24 a 30 de julho de 1961, realizou-se o
II Congresso Brasileiro de Crítica e Historia Literaria
em Assis (SP), contando com a participaçao de
importantes escritores e estudiosos da literatura.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {74}


{
}

{agenda }

{7} julho
International Conference on Social Science, Literature, Economics and Education,
2-3 Canadá, Toronto University of Toronto
http://americanhealthcare.wixsite.com/soc-canada
Leitura ao Pé do Ouvido
Para conhecer novos autores, frequentadores da biblioteca são convidados a ouvir
4 SP, São Paulo a leitura de trechos de livros.
Biblioteca de São Paulo, quarta-feira, ao longo de todo o ano. Consulte as datas no
site da BSP.
Boris Schnaiderman, além das traduções
5-7 SP, São Paulo Curadoria de Lucio Agra
Ciclo de Conferências
7 RJ, ABL Poesia e Filosofia - Antônio Cícero
Teatro R. Magalhães Jr. , Av. Presidente Wilson, 203 - Castelo, às 17h30
Lê no Ninho
Atividades de estímulo e iniciação à leitura para crianças entre 6 meses e 4 anos.
7 SP, São Paulo Biblioteca de São Paulo, sábados e domingos, ao longo de todo o ano. Consulte as
datas no site da BSP.
Hora do Conto
Contação de histórias da literatura infantojuvenil, para estimular o hábito da leitura.
8 SP, São Paulo
Biblioteca de São Paulo, sextas-feiras e domingos, ao longo de todo o ano.
Consulte as datas no site da BSP.
Reino Unido, Contestations: Literature and Aesthetics
11-12 http://www.contestations.co.uk/
Londres
Encontro Internacional Linguagens de Poder – Braga, Portugal:
Portugal, Univer- http://ceh.ilch.uminho.pt/eventos_show.php?a=314
12-13
sidade do Minho
Seminário Interinstitucional de Pesquisa em Literatura e Leitura (SEIPELL)
12-14 PR, Maringá Universidade Estadual de Maringá

Indonésia, Fifth International Conference on Language, Literature and Society 2018


19-20 http://www.languages3000.com/
Yogyakarta
Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP)
25-29 RJ. Paraty http://flip.org.br/a-flip/sobre
Jornadas Internacionais de Teatro do Oprimido e Universidade
30- Universidade Federal da Bahia
BA, Salvador
01ago.
Congresso Internacional ABRALIC
30 – MG, Uberlândia
www.abralic.org.br
03.ago (UFU)

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {75}


{
}

{agenda }

{8} agosto
The INTESDA 5th Asian Conference on the Arts, Humanities and Sustainability -
01-02 Japão, Hiroshima ACAHS 2018
http://intesda.org/arts-humanities-sustainability-conference/submissions-
guidelines/#Submit-a-Proposal
Bienal Internacional do Livro de São Paulo
03-12 SP http://www.bienaldolivrosp.com.br
XIII Jornadas Andinas de Literatura Latinoamericana
Éticas e poéticas dos mundos andinos-amazônicos: trânsitos de saberes,
06-11 AC, UFAC
linguagens e culturas.
Campus da Universidade Federal do Acre
I Congresso Nacional do Núcleo de Estudos de Literatura e Intersemiose - NELI
8-10 PE, UFPE Universidade Federal de Pernambuco
II Congresso Internacional de Letras (UFMA)
8-10 MA, Bacabal Universidade Federal do Maranhão, campus III (Bacabal)
Jornada Literária Distrito Federal
14-17 DF, Ceilândia Teatro Newton Rossi - Sesc Ceilândia
Clariceana 2018
15-17 RJ, UFRJ Auditório E3 da Faculdade de Letras da UFRJ
Reino Unido, The Uncanny in Language, Literature and Culture
18 http://uncanny.irf-network.org
Londres
Bienal Brasil do Livro e da Leitura
18-26 DF, Brasília Centro de Convenções Ulysses Guimarães
Identidades e Itinerâncias no Romance Histórico de Língua Portuguesa
16 DF, UnB
Holanda, 2018 2nd International Conference on Culture and History
26-28 http://www.icch.org/
Amsterdã
Bulgária, Elenite Language, Individual & Society 2018, 12th International Conference
26-30
https://www.sciencebg.net/en/conferences/language-individual-and-society/

{ .a agenda da {voz da literatura} foi elaborada a partir de informações


enviadas por assinantes da revista e outros interessados na divulgação de
eventos literários.
. ajude a tornar nossa agenda ainda mais completa, enviando informações para
para o e-mail vozdaliteratura@gmail.com ou pelo perfil da revista no
facebook ou instagram.

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {76}


{voz da literatura}
www.vozdaliteratura.com
vozdaliteratura@gmail.com
facebook | instagram

{voz da literatura} n. 3 | julho | 2018 {77}