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EXPLORANDO GRANDES AUTORES

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Conselho Editorial de Filosofia
FRANÇOIS DOSSE
Maria Caroh"na dos Santos Rocha (Presidente). Professora e Doutora em Filosofia Contemporânea pela ESA/
Paris e UFRGS/Brasil. Mestre em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS)/Paris. Historiador, Professor do IUFM de Créteil, Université Paris XII
Fernando José Rodrigues da Rocha. Doutor em Psicolinguistica Cognitiva pela Universidade Católica de Lou-
vain, Bélgica, com pós-doutorados em Filosofia nas Universidades de Kassel, Alemanha, Carneg:ie Mellon,
EUA, Católica de Louvain, Bélgica, e Mame-la-Valle, França, Professor Associado do Departamento de Filo-
sofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Lia Levy. Professora Adjunta do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Dou-
tora em História da Filosofia pela Universidade de Paris IV-Sorbonne, França. Mestre em Filosofia pela UFRJ.
Nestor Luiz ]oão Beck. Diretor de Desenvolvimento da Fundação ULBRA.
Doutor em Teologia pelo Concordia Seminary de Saint Louis, :Missouri, EUA, com pós-doutorado em Teolo-
gia Sistemática no Instituto de História Europeia em Mainz, Alemanha.
Bacharel em Direito, Licenciado em Filosofia.
GILLES DELEUZE
Roberto Hojmeister Pich. Doutor em Filosofia pela Universidade de Bonn, Alemanha. Professor do Programa
de Pós-Graduação em Filosofia pela PUCRS. & FÉLIX GUATTARI
Valeria Rohden. Doutor e livre-docente em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com
pós-doutorado na Universidade de Münster, Alemanha. Professor titular de Filosofia na Universidade Lute-
rana do Brasil.
BIOGRAFIA CRUZADA

Tradução:
Fatima Murad

Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:


Maria Carolina dos Santos Rocha
Professora e Doutora em Filosofia Contemporânea pela ESA/Paris e UFRGS/Brasil
Mestre em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS)/Paris
D724g Dosse, François.
Gilles Deleuze e Félix Guattari : biografia cruzada I François 0701091615
Dosse; tradução: Fatima Murad; revisão técnica: Maria
Carolina dos Santos Rocha.- Porto Alegre: Artmed, 2010.
440 p. ; 25 cin + 1 encarte
1111111 111111111 I 111
ISBN 978-85-363-2370-1

L Filosofia. 2. Gilles Deleuze - Biografia. 3. Félix Guattari -


Biografia.!. Título.

CDU 101:929

Catalog~ção na pÚblicação: Ana Paula M. Magnus- CRB-10/Prov-009/10 2010


Obra originalmente publicada sob o título
Gilles Deleuze et Félix Guatarri: biographie croisée
ISBN 978-2-7071-5295-4

© Editions La Découverte, Paris, France, 2007.

Capa: Tatiana Sperhacke


Agradecimentos
Fotos da capa
© Raymond Depardon f Magnum Photos/Magnum Photos/Latinstock
© Philippe Bouchon/AFP

Preparação de original: Katia Michelle Lopes Aires

Editora Sênior: Mônica Ballejo Canto

Editoração eletrônica: Techbooks

Agradeço a todos aqueles que generosa- Bruno Guattari. Emmanuelle Guattari, Jean
mente me prestaram seu testemunho ao longo Guattari, Alain et Daniele Guillerm, Nicole

. ~Ê~~s~~~~s1s~~cA) das entrevistas realizadas entre 2000 e 2006. Guillet, Suzanne Hême de Lacotte, Eugene

j TOMBO_ I CLASSIFICAÇÃO l Essa contribuição foi essencial. Constituiu um


dos materiais mais importantes para a realiza-
Holland, Michel Izard, Eleanor Kaufman,
Lawrence Kritzmann, Christina Kullberg. Da-

~.f&j~
ção desta biografia cruzada de Gilles Deleuze e vid Lapoujade, Claude Lemoine, Jean-Louis
Félix Guattarí. Leutrat, Sylvain Loiseau, Sylvere Lotringer,

ireiJ~._/.1
• ~ svs
~l?. .2 ;}lf7í,.... ,.·
1
Alfred Adler, Éric Alliez, Dudley Andrew,
Bernard Andrieu, Manola Antonioli, Alain
Yves Mabin, Norman Madarasz, Robert Mag-
giori, ]osée Manenti, Jean-Paul Manganaro,
~\ Ri'''" ! (ÕCf GD1\::> . Aptekman, Olivier Apprill, Philippe Artieres, Patrice Maniglier. Michel Marié, Jean-Clet

pt~b :~~~~~=·~~a portuguesa, à


Zafer Aracagok, François Aubral, Danie!e Auf- Martin, Hervé Maury, Philippe Mengue, Alain
Reservados todos o S . ; : de fray, Jacques Aumont, Kostas Axelos, Alain Ménil, Catherine Millot, Olivier Mongin, Pierre
ARTMED® EDITORA S.A. Beaulieu, Raymond Bellour, Thomas Béna- Montebello, Liane Mozere, Lion Murard,
Av. jerônimo de Ornelas, 670- Santana touil, Réda Bensmaia, Denis Berger, Giuseppe Jean-Pierre Muyard, Stéphane Nadaud, Jean
90040-340 - Porto Alegre - RS Bianco, Pierre Blanchaud, Pascal Bonitzer, Narboni, Toni Negri, Miguel Norambuena,
Fone• (51) 3027-7000 Fax• (51) 3027-7070
julian Bourg, Christian Bourgois, Constantin Jean Oury, François Pain, Dominique Paini,
Ê proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer Boundas, Christine Buci-Glucksmann, Ber- ]o Panaget, Thierry Paquot, André de Souza
formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web nard Cache, Michel Cartry, Pascal Chabot, Parente, Giorgio Passerone, Paul Patton. Flo-
e outros), sem permissão expressa da Editora. Pierre-Antoine Chardel, Noeile Châtelet, Jean rence Pétry, Richard Pinhas, Rafael Pividal,
Chesneaux, Michel Ciment, Pascale Criton, Jean-Claude Polack, Matthieu Potte-Bonnev-
Unidade São Paulo Andrew Cutro-fello, Fanny Deleuze, Christian ille, Daniel Price, John Protevi, Olivier Quer-
Av. Embaixador Macedo Soares, 10.735- Pavilhão 5- Cond. Espace Center Descamps, Marc-Alain Descamps, Jacques ouil, Anne Querrien, David Rabouin, Jacques
Vila Anastácio - 05095-035 - São Paulo - SP Donzelot, Jean-Marie Doublet, jean-Claude Ranciere, François Regnault, Olivier Revault
Fone• (11) 3665-!100 Fax• (11) 3667-1333 Dumoncel, Élie During, Corinne Enaudeau. dAllonnes, Judith Revel, Alain Roger, Jacob
Jean-Pierre Faye, Pierrette Fleutiaux, François Rogozinski, Suely Rolnik, Élisabeth Roudines-
SAC 0800 703-3444 Fourquet, Daniel Franco, Gérard Fromanger, co, Jean-Michel Salanskis, Elias Sanbar, Anne
Maurice de Gandillac. Roger Gentis, Fernando Sauvagnagues, Renê Schérer, Dominique
IMPRESSO NO BRASIL •:.'
Gonzales, Frédéric Gros, Lawrence Grossberg, Seglard, Guillaume Sibertin-Blanc, Danielle
PRJNTED IN BRAZIL
vi

Sivadon, Gérard Soulier, Hidenobu Suzuki, convidado a intervir em duas jornadas apaixo-
]ean-Baptiste Thierrée, Simon Tormey, Serge nantes sobre O Anti-Édipo que organizou nos
Toubiana, Michel Tournier, Michel Tubiana, dias 2 e 3 de dezembro de 2005 na Universida-
Guy Trastour, Kuniichi Uno, Janne Vahanen, de de Poitiers.
Paul Veyne, Arnaud Villani, Tiziana Villani,]. Agradeço ainda a Anne Sauvagnargues e
MacGregor Wise, Frédéric Worms, Chris You· Guillaume Sibertin~Blanc por terem me acei-
nes, Dork Zabunyan, François Zourabichvi!L to em seu seminário "Leituras de Mil Platôs
Agradeço imensamente também a Virginie de Deleuze e Guattari", do grupo de trabalho Abreviações
Linhart por ter me passado as entrevistas que "Deleuze, Espinosa e as ciências sociais", pa-
realizou para sua pesquisa sobre a vida de Fé- trocinado pelo Centre d'Études en Rhétorique,
lix Guattari. Ela me ofereceu gentilmente essa Philosophie et Histoire des Idées (CERPHI) du-
documentação excepcional de entrevistas que rante o período 2005-2006.
realizou ao longo do ano 2000: Agradeço igualmente a Emmanuelle Guat·
Éric Alliez, Raymond Bellour, Franco Be· tari por seu apoio desde a formulação de meu
rardi Bifo, Denis Berger,Jacky Berroyer, Novella projeto e a José Ruiz Funes por ter me facilita·
Bonelli· Bassano, ]ack Briere, Brivette, Michel do o acesso ao acervo Guattari do IMEC.
Butel, Michel Cartry, Gaby Cohn-Bendit, Marie Agradeço também a Fanny Deleuze, Em·
Depussé, Gise!e Donnard,Jean-Marie Doublet, manuelle e Bruno Guattari por terem me pas·
Hélime Dupuy de Lôme, Mony Elka!m, Patrick sado e permitido que eu publicasse suas fotos
Farbias, Jean-Pierre Faye, François Fourquet, pessoais.
Gérard Fromanger, Gervaise Garnaud, Sacha Agradeço, enfim, mas com um sentimento A : !.Abécédaire de Gi/les Dele112e (avec Claire IncM : L'inconscient machinique, éd. Recher-
Goldman, Bruno Guattari, Emmanuelle Guat- intenso de reconhecimento, àqueles a quem Parnet), Pierre·André Boutrang, 1988. ches, 1979.
tari, Jean Guattari, Nicole Guillet, Tatiana Ke· confiei a árdua tarefa de serem meus primei- AH: LesAnnées d'hiver, Barrault, 1985. IT : Cinéma 2. L'lmage-temps, Minuit, 1985.
cojevic, ]ean-Jacques Lebel, Sylvere Lotringer, ros leitores críticos e que me ajudaram a me- AO : Capitalisme et schizophrénie, t. 1 K : Kafka. Pour une /ittérature mineure, Minuit,
Pierre Manart, Lucien Martin, Ramondo Mal· lhorar substancialmente o manuscrito inicial. !.Anti-OEdzpe, Minuit, 1972. 1975.
ta, Ginette Michaud, Gian Marco Montesano, Sem dúvida, devo muito a eles, tanto pelas
Yann Moulier-Boutang, Lion Murard, Toni Ne· inúmeras correções como pelas precisões e su- B : Le Bergsonisme, PUF, 1966. LS: Logique du sens, Minuit, 1969.
gri, Jean Oury, Pierre Pachet, François Pain, ]o gestões: Manola Antonioli, Raymond Bellour, CC: Critique et clinique, Minuit, 1993. MP : Capitalisme et schizophrénie, t. 2 : Mi/le
Panaget, Jean-Ciaude Polack, Anne Querrien, François Fourquet, Hugues Jallon, Thierry CH: Chaosmose, Galilée, 1992. Plateaux, Minuit, 1980.
Jacques Robin, Michel Rostain, Dominique Paquot, Guillaume Sibertin-Blanc e Danielle NEL : Les Nouveaux Espaces de liberté (avec
CZ : Cartographies schizoanalytiques, Galilée,
Seglard, Gérard Soulier, Jsabelle Stengers, Mas· Sivadon. Evidentemente, agradeço àquela que Toni Negri), éd. Dominique Bedou, 1985.
1989.
saki Sugimura, Paul Virilio, Claude Vivien. teve de sacrificar momentaneamente suas
D :Dialogues, avec Claire Parnet, Flammarion, Nph : Nietzsche et la philosophie, PUF, 1962.
Agradeço imensamente também ao meu próprias pesquisas, pois suas qualidades de es·
amigo ]ean-Christophe Goddard por ter-me tilista me são indispensáveis, Florence Dosse. 1977; rééd, augmentee, Champs Flammarion, PS : Proust et les signes, PUF, 1964 ; rééd aug·
1996. mentée, 1970.
DR: Différence et répétition, PUF, 1968. PCK : La Philosophie critique de Kant, PUE
ES : Empirisme et subjectivité, PUF, 1953. 1963.

FB : Francis Bacon. Logique de la sensation, La Pli: Le Pli. Leibniz et !e baroque, Minuit, 1988.
Différence, 1981, 2 vol.; rééd. Seuil, 2002. PP : Pourparlers, Minuit, 1990.
F: Foucault, Minuit, 1986. PT : Psychanalyse et transversalité, Maspero,
ID : L1te déserte et autres textes. Textes et entre- 1972, rééd. La Découverte, 2003.
tiens 1953-1974, ed. David Lapoujade, Minuit, Qph : Qu'est-ce que la philosophie ?, Minuit,
2002. 1991.
IM : Cinéma 1. L'fmage-mouvement, Minuit, RF: Deux régimes de fous. Textes et entretiens
1983. 1975-1995, éd. David Lapoujade, Minuit, 2003.
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RM :La Révolution moléculaire, éd. Recherches, SPE: Spinoza et le probleme de J'expression, Mi-
1977. nuit, 1968.
SM : Présentation de Sacher-Masoch (joint à L. SPP: Spinoza. Philosophie pratique, PUF, 1981.
VON SACHER-MASOCH, La Vénus à lajourrure), TE: Les Trais Écologies, Galilée, 1989.
Minuit, 1967.

Sumário

Prólogo .......... , , .. , .. , ........................................ 13

PARTE I DOBRAS: BIOGRAFIAS PARAlElAS


1 Félix Guattari: itinerário psica-político- 1930-1964 ..................... 29
"Y'a bon Banania". . . .. 29
A cena traumática . . . . . . . . . . . . . . . . ..... 31
Fim de guerra ......... . ....... 32
O engajamento trotskista.. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. . .. 35
Félix: um lacaniano precoce . . . .... 39
2 La Borde, entre mito e realidade ................................ , ... 44
A filiação da psicoterapia institucional . .. ... 44
Um novo construtor: Jean Oury .. . . ........... 46
A invasão dos "bárbaros" ............. . . ........ 50
3 A vida cotidiana em La Borde ........................ , .......... , .. , 56
Multiplicidade de agenciamentos institucionais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... 56
O grupo de trabalho de psicoterapia e de socioterapia institucionais . . . . . . . ..... 59
Transversalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .......... . ....... 61
A família Guattari e sua ruptura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..... 62
A prova por Lacan. . . . . . . . . .......................................... 67
As linhas de errância ..................................................... 63
4 A pesquisa crítica à prova da experiência ........................... , .. 72
A transdlsciplinaridade em ato. . . . . . . . . . . . . . . . ......................... 72
Uma oposição de esquerda. . . . . . . . . . . . . . . . . . ...... 74
Em busca de um programa . . . . . . . . . . . . . . . . . . ............................. 78
5 Gilles Deleuze: o irmão do herói ............................. , ...... 82
As primeiras aprendizagens. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 83
10 Sumário Sumário 11

Um "novo Sartre" . . . . . . . . . . . . . ....... . .... 84 14 Mil Platôs: uma geofilosofia do político .............................. 209
A ilha Saint-Louis. ........... . 89
Lógicas espaciais .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. .. 214
Um despertador de vocações filosóficas. . . . . . . . . ... 91
O caso de um povo sem terra: o povo palestino ............................... 215
6 A arte do retrato . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 7 Uma pragmática política em escala mundial . . . . . ......................... 217
Hume revisitado . . . . . . . . .. 99 15 O CERFI em suas obras .......................................... 223
Uma fase de latência. . . . . . . . . . . . . . . . 102
Um grupo de pesquisa autogerido. . . 224
O incontornável Kant ........................... . . ..... 107
Esclarecer as decisões do Estado .. . . 226
Proust em busca de verdade ....................... . . ........ 108
A arte do escândalo ............ . ....... . ............... 227
7 Nietzsche, Bergson, Espinosa: uma tríade para uma filosofia vitalista ....... 113 Grandes sucessos editoriais ............................................... 229
Um dos três mestres da suspeita: Nietzsche ................................... 113 À escuta dos atores ..................................................... 233
Bergson: o impulso vital ................................................. 117 16 A "revolução molecular": Itália, Alemanha, França ..................... 237
Um pensamento da afirmação: Espinosa ..................................... 122
O maio de 68 italiano: 1977 .............................................. 237
8 O deleuzismo: uma ontologia da diferença ........................... 131 A reação de Bolonha. . . . . . . . . . . . . . . . ....... . ....................... 241
Inverter o platonismo e o hegelianismo..... ....... . ... 131 A placa de chumbo na Alemanha ........ ........ . .... 243
A diferença por ela mesma . . . . . . . . . . . . . . . 132 Os anos de chumbo italianos. . . . . . . . . . . ................ 245
O cogito rompido . . . . . . . . . . ........ ......... . ..... 136 Do bobo da corte à liberação das ondas . . . . ......... . ... 248
A reabilitação dos vencidos . . . . . . . . . . . . . . . ............................ 138 17 Deleuze e Foucault: uma amizade filosófica .......................... 254
A outra metafísica ...................................................... 141
A aventura do Grupo de Informações sobre as Prisões ........................... 256
Como um peixe na água ................................................. 147
O momento das fraturas ................................................. 259
9 Maio de 68: a ruptura instauradora ................................. 147 A Verdade ............................................................ 262
Como um peixe na água ................................................. 147 Jogos de espelhos ...................................................... 264
Deleuze à escuta de 1968 ................................................ 152 Dois filósofos do acontecimento ........................................... 265
Deleuze, leitor de Foucault ............................................... 267
PARTE 11 DESDOBRES: BIOGRAFIAS CRUZADAS O desaparecimento ..................................................... 268

1O Fogo no psicanalismo ........................................... 15 7 18 Uma alternativa à psiquiatria? ..................................... 274


Lacan em Lyon com Deleuze .............................................. 158 Anti psiquiatria ......................................................... 2 74
Lacan-Deleuze em situação de proximidade .................................. 159 A "Rede Alternativa à Psiquiatria" . . . .. . . . . . .. . . .. . .. . . . . . .. ............. 277
Um dispositivo de trabalho a duas vozes ..................................... 163 Acusações de pedofilia .................................................. 278
Uma tentativa de antropologia histórica ...................................... 168 Gourgas tomada de assalto ............................................... 280
Para uma esquizoanálise ................................................. 171 A internacionalização da rede ............................................. 280

11 O Anti-Édipo .................................................. 175 19 Deleuze em Vincennes .......................................... 284


A linha de fuga que permite evitar o perigo do terrorismo ........................ 175 O caldeirão de Vincennes ................................................ 284
Um sucesso editorial estrondoso ........................................... 176 Lutas internas ......................................................... 286
Teses discutidas do lado dos analistas ........................................ 177 Deleuze pedagogo ..................................................... 291
Os apoios de Girard, Lyotard, Foucault ...................................... 180
20 1977: o ano de todos os combates ................................. 298
O Anti-Édipo a distância ................................................. 183
O "fascismo da batata" .................................................. 300
12 A máquina contra a estrutura ...................................... 189 Os novos filósofos: "um trabalho de porco" ................................... 306
Uma máquina de guerra contra o estruturalismo ............................... 189
Inverter o estruturalismo pelas ciências humanas ............................... 194 PARTE 111 SOBREDOBRAS: BIOGRAFIAS PARALELAS
Inverter a semiologia estrutural ............................................ 194 21 Guattari entre ação cultural e ecologia ............................... 313
A esquizoanálise contra a psicanálise ........................................ 197
As alamedas do poder ................................................... 313
Uma antropologia política contra a antropologia estrutural. ....................... 198
Relações tumultuadas ................................................... 315
13 A literatura "menor" sob um olhar cruzado ........................... 202 A revolução ecológica ................................................... 316
"É um rizoma, uma toca" ................................................. 202 Caosmose ............................................................ 320
O acontecimentQ,Kafka .................................................. 205 O desmoronamento de um mundo: 1989 .................................... 321
12 Sumário

22 Deleuze vai ao cinema ........................................... 325


Um companheiro dos Cahiers du Cinéma .. 325
Uma nova metafísica bergsoniana.. . . 331
Crítica da semiologia do cinema . . .......... . .......... 333
Os pioneiros do estudo cinefíllco na universidade. .......... . . 335
O sismo de 1939-1945........... ......... . .............. 337
Da imagem-movimento à imagem-tempo . . . . 338
O pensamento-imagem................ . .. 340 Prólogo
23 Guattari e a estética ou a compensação aos anos de inverno .............. 345
Joséphine . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 346
Ser escritor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 348
24 Deleuze dialoga com a criação .................................... 354
"Nós dois" ou o entre-dois
Trabalhar com os artistas . . . . . . . . . ............ 354
Da música antes de qualquer coisa . . . ........... . ......... 360
As dobras da imanência. .................. . .. 365
25 Uma filosofia artista ............................................. 372
Filosofar é criar conceitos ..... . . .. 372
Afetos e perceptos ............. . . .. 375
Uma estética da vida .......... . . ..................... 376
26 À conquista do Oeste ........................................... 379 A quatro mãos. A obra de Gilles Deleuze e artigos. Mesmo que, sem cair em um finalismo
Félix Guattari até hoje é um dilema. Quem es· histórico, se possam subscrever as palavras
O passador Lotringer .... . . ...... 379
creveu? Um ou o outro? Um e o outro? Como do jornalista Robert Maggiori, que qualifica
A admiração americana .. . . ....................................... 387
foi possível desenvolver uma construção inte- esse encontro de "predestinadO'\ como essas
2 7 Sob todas as lafltudes ........................................... 392 lectual comum entre 1969 e 1991, para além de duas galáxias acabam entrando em contato?
Rumo ao extremo oeste. . . . . ............................... 382 sensibilidades tão diferentes e estilos tão con- Como se verá, a explosão de maio de 1968 foi
O turno universitário. . . . . . . . . . . . . . . . . . ................................ 383 trastantes? Como podem ter sido tão próxi· um momento de tal intensidade que possibi·
Uma terra de escolha: o Japão. . . . . . . . . . . . .............................. 393 mos sem jamais abandonar uma distância ma- litou os encontros mais improváveis. Primei-
O Brasil: terra de esperanças. . . . . . . . . . . . . ........................ 395
nifesta no fato de se tratarem mutuamente por ramente, de forma mais prosaica, houve, no
As fronteiras mexicanas. . . . . . . . . . . . ......................... 397
senhor? Como relatar essa aventura única por começo desse encontro, um intermediário,
Um chileno escapa de Pinochet. ........................................... 398
Uma terra de escolha: a Itália . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .... 399 sua força propulsora e sua capacidade de fa· um personagem mercuriano, subterrâneo e
zer emergir uma espécie de "terceiro homem", fundamental: o doutor Jean-Pierre Muyard,
28 Dois desaparecimentos .......................................... 402 fruto da união dos dois autores? Parece difícil que trabalhava em La Borde prova disso é a
O amigo chorado . . . . . . . . . .......................................... 403 captar em seus escritos o que toca a cada um. dedicatória pessoal que lhe escreve Félix Guat·
A falta de ar até a morte . . . . . . . . . . ................................. 405 Evocar um hipotético "terceiro homem" seria, tari na primeira obra comum, O Anti-Édipo: "A
29 A obra trabalhando ............................................. 411 sem dúvida, um pouco apressado, na medida ]ean·Pierre, o verdadeiro culpado, o indutor, o
Os primeiros comentadores: um desdobramento da obra ........................ 411 em que, ao longo de sua aventura comum, um iniciador desta empreitada perniciosa".
A alternância por uma nova geração ........................................ 412 e outro souberam preservar sua identidade e Jean-Pierre Muyard estudou medicina em
Uma nova radicalidade cultural e política .................................... 414 seguir um percurso singular. Lyon no final dos anos 1950. Militante da ala
Críflcasda crítka ....................................................... 416 Em 1968, Gilles Deleuze e Félix Guattari esquerda da Union Nationale des Étudiants
Um pensamento do maquínico moderno .................................... 417 evoluem em duas galáxias diferentes. Nada de France (UNEF), que se opõe ativamente à
Uma atualidade crescente ................................................ 420 predestina seus dois mundos a se encontrar. guerra da Argélia, ele se torna presidente da
De um lado, um filósofo reconhecido que já seção de Lyon em 1960. Conhece ]ean·Ciaude
Conclusão ....................................................... 425 publicou boa parte de sua obra e, de outro, Polack, então presidente da Association Gé·
um militante que se move no campo da psi- nérale des Étudiants en Médicine de Paris. Pa·
~~ .......................................................... ~9
canálise e das ciências sociais, administrador ralelamente à especialização em psiquiatria,
de uma clínica psiquiátrica e autor de alguns Muyard faz cursos de sociologia na Faculdade
14 Fmnrr>is Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 15

de Letras em Lyon. Entre outros, assiste com Contudo, ele dizia ter vontade de escrever e pulmão - que o levará a sofrer de uma insufi- na primavera de 1969, em que testemunham
5
a maior paixão aos cursos do filósofo Henry não escrevia nunca" • Muyard pensa em um ciência respiratória crônica até a morte. Debi- a amizade nascente. "Caro amigo, nem tenho
Maldiney. Em 1965, Muyard torna-se vice-pre- estratagema: decide apresentar Deleuze e litado, ele deve repousar por um ano, na calma. palavras para lhe dizer o quanto fiquei tocado
sidente da Mutuelle Nationale des Étudiants Guattari. Em junho, ele embarca em seu carro em Limousin. Contudo, a debilidade é também com a atenção que o senhor teve a gentileza
de France (MNEF) e participa ativamente da Félix Guattari e François Fourquet e os conduz uma abertura, como mostra Deleuze a propó- de dedicar aos diversos artigos que lhe enviei.
10
implantação dos Bureaux dAide Psychologi- a Saint-Léonard-de-Noblat, em Limousin. A sito de Beckett . Esse estado é propício a um Uma leitura lenta, muito minuciosa, de Lógica
que Universitaires (BAPU). Encontra Guattari sedução mútua é imediata. Guattari é inesgo- encontro. Tanto mais que Deleuze está à beira do Sentido me leva a pensar que há uma espé-
pela primeira vez por ocasião de um seminá- tável nos temas que interessam a Deleuze, a de um outro precipício do qual fala em O Abe- cie de homologia profunda de 'ponto de vista'
rio da oposição de esquerda que se realiza em loucura, La Borde e Lacan - ele acaba de pre- cedário: o alcoolismo. O encontro com Guatta- entre nós. Encontrá-lo quando isso for possível
1964 em Poissy e para o qual foi convidado por parar uma exposição inicialmente destinada ri será essencial para ele superar esse impasse. para o senhor constitui para mim um aconte-
Polack: "Recordo-me da impressão, eu diria fi- à Escola Freudiana de Paris sobre "Máquina e Para prosseguir e aprofundar o diálogo ini- cimento já presente retroativamente a partir
3
siológica, que Guattari me causou de imedia- estrutura:"6• Para sua demonstração, retoma os ciado com Deleuze sobre a psiquiatria, Muyard de varias origens,.I , escreve Guattari em 5 de
to - uma espécie de estado vibratório incrível, conceitos lançados por Deleuze em Diferença e sugere promover um encontro de Deleuze e abril de !969, revelando a Deleuze seu bloqueio
como um processo de conexão. O contato com Repetição e em Lógica do Sentido. Guattari em Dhuizon, em um castelo alugado de escrita e sua incapacidade de atribuir a ela
ele aconteceu ali, e eu aderi mais ao movimen- Esse texto é importante. Até então, Guatta- por Guattari, próximo a La Borde. É lá que o trio o tempo necessário, em razão de suas ativida-
to de energia do que à personalidade, à pessoa. ri estava na posição de discípulo de Lacan e co- Gilles Deleuze,Jean-Pierre Muyard e Félix Guat- des em La Borde. Em contrapartida, ele tem a
Sua inteligência era excepcional, o mesmo tipo meçava a se apresentar como um interlocutor, tari debate o conteúdo da obra que virá a ser impressão de se comunicar com Deleuze como
de inteligência que Lacan, uma energia lucife- desejando inclusive obter junto de seu mestre O Anti-Édipo. Uma carta de François Fourquet que por ultrassons com Lógica do Sentido. Em
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riana. Lúcifer sendo o anjo da luz" • Em 1966, a postura do parceiro privilegiado. A ambigui- ao seu amigo Gérard Laborde, datada de 19 de uma carta anterior que enviou a um de seus
Nicole Guillet pede a Muyard que se instale em dade da atitude de Lacan em relação a ele e a agosto de 1969, evoca a atmosfera que reina em ex-alunos, Ayala, Deleuze manifestou o interes-
La Borde, onde faltam médicos, para atender escolha feita por este último de privilegiar o Dhuizon: "O contexto aqui é cômico. A presen- se que teria de reunir todos os textos que lhe
ao afluxo de pensionistas. Ele se acomoda ali clã dos althusserianos-maoístas da Rue d'lJlm, ça de Deleuze em Dhuizon desencadeou uma foram passados por Guattari. Félix permanece
por um tempo- ficará até 1972. Por seus enga- como Miller e Milner, colocam de fato Guatta- série de fenômenos, e a meu ver essa série vai cético: "Será que tudO isso não é uma espécie
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jamentos, sua atividade profissional em LaBor- ri na sombra: "Quando entrei em contato com se prolongar por muito tempo. Há muita gente de bazófia. de vigarice?"
de, "Doe Mu" faz parte plenamente do "bando Deleuze em 1969, realmente aproveitei a opor- em Dhuizon: além de Félix e Arlette, há Rostain, Pouco tempo depois, em maio de 1969,
de Félix". tunidade. Avancei na contestação do lacanis- Liane, Hervé, Muyard, Elda, etc. Toda essa gen- Deleuze escreve a Guattari: "Eu também sinto
Quando era estudante em Lyon, Muyard mo em dois pontos: a triangulação edipiana e o te se alvoroça em torno de uma cena primitiva que somos amigos antes de nos conhecermos.
ouvira falar dos cursos de Deleuze por seus co- caráter reducionista de sua tese do significante. que se repete todas as manhãs: Félix e Deleuze Peço perdão também por insistir no seguinte
legas entusiastas da faculdade de letras. Tendo Pouco a pouco, todo o resto se esboroou como criam, intensamente, Deleuze toma notas, ajus- ponto: é evidente que o senhor inventa e ma-
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mantido contatos em Lyon, ele vai para lá de um dente cariado, como um muro detonadd' • ta, critica, remete à história da fllosofia as pro- neja alguns conceitos complexos muito novos
tempos em tempos. Em 1967, fica fascinado De sua parte, Deleuze passa por uma vira- duções de Félix Em suma, as coisas funcionam, e importantes, fabricados em articulação com
com a apresentação que Deleuze publica de da em sua obra. Depois de ter-se consagrado não sem deixar alguns rastros de transtornos a pesquisa prática de La Borde -por exemplo,
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Sacher-Masoch . Os dois homens tornam- à história da filosofia, com Hume, Kant, Espi- na pequena famflia (na qual nos incluímos Ge- fantasia de grupo ou, então, seu conceito de
-se amigos, e Deleuze, desejoso de conhecer nosa, Nietzsche, ele acaba de publicar dois li- nevieve e eu), tanto mais que um dos pequenos transversalidade, que me parece ser de na-
melhor o mundo dos psicóticos, mantém um vros mais pessoais em 1969: sua tese Diferença irmãos tem o privilégio de assistir ao combate tureza a suplantar a velha, mas sempre res-
diálogo permanente com Muyard: "Ele me diz: e Repetição' e Lógica do Sentido'. A filosofia é dos deuses: Muyard, que historicamente este- suscitante, dualidade 'inconsciente pessoal/
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falo da psicose, da loucura, mas sem nenhum fortemente contestada na época pelo estru- ve na origem da relação com Félix"". Muyard inconsciente coletivo' ". Deleuze estima que
conhecimento de dentro. Ao mesmo tempo, turalismo e sua ala avançada, o lacanismo. O ainda atua um pouco como mediador, antes de esses conceitos precisam ser submetidos a
ele era fóbico em relação aos loucos. Ele não "psicanalismd' ambiente e a devoção geral se eclipsar: "Eu tinha cumprido minha tarefa, uma elaboração teórica, e não concorda com
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conseguiria ficar por uma hora em La Borde" • por Lacan soam como um desafio lançado ao e Mefisto se retira. Minha intuição é que esse Guattari quando ele sustenta que a eferves-
Em 1969, Muyard se cansa do ativismo de- filósofo. O encontro com Guattari oferecerá a não era mais meu lugar, embora Deleuze tives- cência em curso não é o momento mais pro-
senfreado que Guattari promove em La Bor- Deleuze uma oportunidade magnífica de res- se vontade de trabalhar comigo e me quisesse pício; isso seria o mesmo que afirmar que "só
de, onde desfaz incessantemente os grupos ponder a isso. presente nas sessões, eu sentia que incomoda- se pode escrever realmente quando as coisas
constituídos para formar outros: "Ele depen- No momento de seu encontro com Guat- va Félix. A operação alquímica funcionou, e por vão bem, em vez de ver na escrita um fator
dia daquilo que se dá hoje às crianças hipe- tari, Deleuze está em convalescença. Atacado longo tempo"". modesto, mas ativo e eficaz, de se afastar um
rativas, um medicameqto chamado Ritalina. de tuberculose, fora submetido um ano antes Antes de seu primeiro encontro, Deleu- pouco da frente de batalha e de ficar melhor
por s1. mesmo" . De Ieuze tenta convencer
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Era preciso encontrar.llm meio-de acalmá-lo. a uma cirurgia complicada- retiraram-lhe um ze e Guattari tinham trocado algumas cartas,
16 François Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 17

Guattari de que a hora chegou. Finalmente, "a com Muyard uma relação entre crise capitalis- embora ambos utilizem com muita facilidade Oury viu essa mudança como um "abandono":
outra solução, publicar os artigos como tais, é ta e crise esquizofrênica'm. o você. Oriundos de dois mundos diferentes, Guattari, onipresente na vida cotidiana de La
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desejável e a melhor»> • Ela será Psicanálise e Ele acrescenta que a maneira como as um respeita o outro e sua rede de relações em Borde, se desinveste para se consagrar ao tra-
Transversa/idade, publicado em 1972 e prefa- estruturas sociais incidem "diretamente" no sua diferença. A condição mesma do êxito ele balho com Deleuze. É preciso inclusive que sua
18 sua empreitada intelectual comum passa pela companheira, Arlette Dona ti, leve seu almoço,
ciado por Deleuze • inconsciente psicótico poderia ser captada
Em 1º de junho de 1969, Guattari se abre graças aos dois conceitos de Félix Guattari "de mobilização de tudo o que constitui a diferen- pois ele não se autoriza nenhuma pausa.
com Deleuze sobre suas fraquezas e as razões máquina e de antiprodução", que ele conhece ça de suas personalidades, na ativação daquilo No essencial, o dispositivo de escrita de O
de sua "grande confusão extremista'' 19• Na base muito mal ainda. Assim, Deleuze acompanha que contrasta e não na osmose artificiaL Eles Anti-Édipo é constituído pelo envio de textos
dessa desordem de escrita, estaria uma falta Guattari em sua crítica do familiarismo: ''A têm uma concepção muito elevada da amiza- preparatórios escritos por Guattari, que De-
de trabalho, de leituras teóricas sustentadas e direção aberta pelo senhor parece-me muito de: "Eles mantinham essa distância que Janké- leuze retrabalha e aprimora em vista da versão
um medo de cair de novo naquilo que foi dei- rica pela seguinte razão: faz-se uma imagem lévitch chamava de 'distância amativa', que final: "Deleuze dizia que Félix era o descobridor
xado para trás há muito tempo. Seria preciso moral do inconsciente, seja para dizer que o é uma distância que não se fixa. Ao contrário de diamantes e que ele era o talhado r. Portanto,
acrescentar uma história pessoal complicada, inconsciente é imoral, criminal, etC., mesmo da distância gnoseológica, a distância ama Uva era preciso apenas que lhe enviasse os textos
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com um divórcio no horizonte, três filhos, a clí~ que se acrescente que está muito bem assim, decorre de uma aproximação/afa,stamento" • tal como os escrevia para que ele os arranjasse,
nica, os conflitos de todas as ordens, os grupos seja para dizer que a moral é inconsciente (su- Com certeza. Guattari, pela angústia do face a e foi o que ocorreu" 30• Sua realização comum
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militantes, a FGERI ... Quanto à elaboração perego, lei, transgressão). Eu disse certa vez a face com Deleuze, e porque sempre funcionou passa, portanto, mais pela troca de textos do
propriamente dita, para ele "os conceitos são Muyard que isso não funcionava, e que o in- ''em grupo'', desejaria envolver seus amigos do que pelo diálogo, ainda que eles estabeleçam
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instrumentais, truques" • consciente não era religioso, não tinha nem CERFl • A chegada de Deleuze a Dhuizon era uma reunião de trabalho semanal na casa
Logo após seu primeiro encontro de junho 'lei', nem 'transgressãO, e que isso era besteira ... a oportunidade, o primeiro círculo do CERFl de Deleuze na terça-feira à tarde, dia em que
de 1969, Deleuze escreve a Guattari para lhe Muyard respondera que eu estava exagerando, estava lá, e tudo o que esperava era participar. este último dá aula em Vincennes pela manhã.
dar alguns esclarecimentos sobre a maneira e que a lei e a transgressão, tais como emanam Contudo, o testemunho de François Fourquet é Nos feriados é Deleuze que vai ao encontro de
de encarar um trabalho comum: "Seria preci- de Lacan, não têm nada a ver com tudo isso. muito claro, não foi o que aconteceu. Deleuze Guattari, mas longe da loucura que ele não su-
so evidentemente abandonar todas as fórmu- Com certeza ele tinha razão, mas isso não tem tem horror a discussões de grupo não funda- porta: "Um dia, estamos jantando em Dhuizon,
las de polidez, mas não as fOrmas de amizade a menor importância, pois é toda a teoria do mentadas, e não pode nem quer imaginar um Félix, Arlette Donati, Gilles e eu quando o te-
que permitem que um diga ao outro: o senhor superego que me parece falsa, e toda a teoria trabalho que não seja a dois, no máximo a três. lefone toca de La Borde, anunciando que um
está se traindo, não estou entendendo, isso da culpabilidade" •
24 A companheira de Guattari, Arlette Donati, sujeito havia posto fogo na capela do castelo e
não está bom ... Seria preciso que Muyard par- Essa carta, escrita pouco antes das longas transmitiu então a Félix as reservas de Deleu- fugido para os bosques. Gilles empalidece, eu
ticipasse plenamente dessa correspondência. sessões de trabalho do mês de agosto de 1969, ze. A elaboração de seu primeiro livro será feita não-me mexo e Félix pede ajuda para encontrar
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Seria preciso, enfim, que não houvesse uma em Dhuizon, revela-nos que o principal alvo sobretudo por via epistolar • Esse dispositivo o sujeito. Gilles me diz nessa ocasião: 'Como
regularidade forçada"'. Deleuze retém de suas de O Anti-Édipo, publicado três anos depois, pactuado de escrita tumultua a vida cotidiana você pode suportar os esquizos?'. Ele não con-
primeiras trocas que "as fOrmas de psicose não já estava claro: a "triangulação edipiana'' e a de Guattari, que precisa mergulhar em um tra- seguia suportar a visão de loucos"31 •
passam por uma triangulação edipiana, pelo redução familiarista do discurso psicanalítico. balho solitário com o qual não está acostuma- Sobre seu trabalho comum, tanto Deleuze
menos não necessariamente e não da maneira Guattari responde muito rápido a Gilles Deleu- do. Deleuze espera dele que se debruce em sua quanto Guattari se explicaram muitas vezes,
como se diz. Isso é o essencial para começar, ze, em 19 de julho, explicitando seu conceito mesa de trabalho desde que acorde, que ponha expondo-se apenas parcialmente. Relatando
ao que me parece ... A gente não foge muito ao de máquina que "expressa metonimicamente no papel suas ideias (ele tem três no momento) sua escrita a dois quando do lançamento de O
'familiarismo' da psicanálise, de papai-mamãe a máquina da sociedade industrial"". Além e que lhe envie todos os dias, mesmo sem reler, Anti-Édipo, Guattari esclarece: "Essa colabora-
(meu texto que o senhor leu permanece abso- disso, em 25 de julho envia a Deleuze algumas o produto de suas reflexões em estado bruto. ção não é o resultado de um simples encontro
lutamente tributário dela) ... Trata-se então de notas que já estabelecem um traço de equiva- Assim, ele submete Guattari a essa ascese que entre dois indivíduos. Além do concurso das
mostrar como na psicose, por exemplo, meca- lência entre o capitalismo e a esquizofrenia: considera indispensável para superar seus pro- circunstâncias, houve também todo um con-
nismos socioeconômicos são capazes de inci- "O capitalismo é a esquizofrenia, ainda que a blemas de escrita. Guattari adere plenamente texto político que nos conduziu a isso. Trata-
dir diretamente no inconsciente. Isso não sig- sociedade-estrutura possa não ter assumido a ao jogo e se retira em seu escritório, traba- va-se, na origem, não tanto do compartilha-
nifica evidentemente que eles incidam como produção de 'esquizo' :'
26 lhando como um condenado. Ele que passava mento de um saber, mas do acúmulo de nossas
tais (como mais-valia, taxa de lucro... ), mas Sua relação situa-se de imediato no âmago o tempo dirigindo seus "bandos" encontra-se incertezas, e mesmo de uma certa confusão
sim algo muito mais complicado, que o senhor dos desafios teóricos. Provém de uma cum- confinado na solidão de seu gabinete· de traba- diante do rumo que tomaram os acontecimen-
aborda em outra ocasião quando diz que os plicidade amigável e intelectual imediata. lho todos os dias até as 16 horas. Só vai a La tos depois de maio de 1968""- Deleuze, por sua
loucos não fazem Sifi1p1esmente cosmogonia, Contudo, essa amizade jamais será fusional, e · Borde no fim da tarde, muito rápido, e em geral vez, comenta: "Quanto à técnica desse livro,
mas também econoillia-política ou quando vê sempre se tratarão rigorosamente por senhor, está de volta a Dhuizon antes da 18 horas. Jean escrever a dois não causou nenhum problema
18 François Dosse Cilles Deleuze & Félix Guattari 19

particular, mas teve uma função precisa que está citando quem. É uma escrita com varia- sempre os dois, é a fronteira, há sempre uma ta Guattari como uma "estrela" de grupo e faz
fomos percebendo progressivamente. Uma ções"37. Evidentemente, essa elaboração co- fronteira, uma linha de fuga ou de fluxo, ape- uma bela metáfora para expressar a natureza
coisa muito chocante em livros de psiquiatria mum pressupõe uma comunidade de ser, de nas não se pode vê-la, porque ela é menos per- de sua ligação, a do encontro do mar que vai
ou mesmo de psicanálise é a duplicidade que pensamento, de reatividade ao mundo: ''A con- ceptível. No entanto, é nessa linha de fuga que encalhar em uma colina: "Seria preciso compa-
os perpassa entre o que diz um suposto doente dição para poder efetivamente trabalhar a dois as coisas se passam, os devires se fazem, as re- rá-lo [Félix] a um mar aparentemente sempre
voluções se esboçam"~ • Isso constitui o caráter
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e o que diz o terapeuta sobre o doente ... Mas, é a existência de um fundo comum implícito, em movimento, com explosões de luz o tempo
curiosamente, se tentamos superar essa duali- inexplicável, que nos faz rir ou nos preocupar absolutamente único de seus livros. todo. Ele pode saltar de uma atividade a outra,
dade tradicional, era justamente porque escre- com as mesmas coisas, ficar desanimados ou Partir em busca de uma paternidade deste dorme pouco, viaja, não para. Ele não se inter~
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víamos a dois. Nenhum de nós era o louco, ne- entusiasmados com coisas análogas" • ou daquele conceito é, como escreve Stéphane rompe. Tem velocidades extraordinárias. Eu
nhum era o psiquiatra, eram necessários dois Guattari também lembra ao mesmo tem- Nadaud, "menosprezar um conceito essencial seria mais como uma colina: mexo-me muito
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para desencadear um processo ... O processo é po as sessões orais e as trocas de versões es- em seu trabalho: o do agenciamento" :l. Todo pouco, sou incapaz de tocar duas atividades,
»33
o que ch amamos dfl
e uxo . critas. Seu diálogo continua sendo o de duas o seu dispositivo de escrita consiste em esta~ minhas ideias são fixas, e os raros movimentos
Mais tarde, em 1991, por ocasião do lan- pessoas de caráter bem oposto: "Somos muito belecer um agenciamento coletivo da enun- que tenho são interiores ... Nós dois juntos, Fé-
17
çamento de O que é a filosofia?, Robert Mag- diferentes um do outro, de modo que os ritmos ciação, que é o verdadeiro pai dos conceitos lix e eu, daríamos um bom lutador japonês"' •
giori tem uma longa entrevista com eles, mais de adoção de um tema ou de um conceito são inventados. Será que com isso ele dá origem a Deleuze acrescenta: "Somente quando se olha
urna oportunidade de se explicarem sobre diferentes. Mas há também, é claro, uma com- um terceiro homem resultante da coalescên- Félix mais de perto, percebe-se que ele é muito
seu encontro e sobre sua colaboração: "Meu plementaridade. Quanto a mim, sou mais pro- cia dos dois, um Félix-Gilles, um "Guattareu- sozinho. Entre duas atividades, ou no meio de
encontro com Félix se deu sobre as questões penso a operações aventureiras, de 'comando ze", como satirizou o desenhista Lauzier? É o muita gente, ele pode mergulhar em uma gran-
de psicanálise e de inconsciente. Félix me pro- conceitual', digamos, de inserção em territó- que se poderia pensar ao ler as seguintes pala- de solidão"". Ele explica ao seu amigo japonês
porcionou uma espécie de campo novo, me fez rios estrangeiros. Já Gilles possui armas pesa- vras de Deleuze: "Não colaboramos como duas a que ponto vê Guattari como um criador de
descobrir uma área nova, embora eu já tivesse das filosóficas, toda uma intendência biblio- pessoas. Éramos mais como dois córregos que ideias de uma mobilidade e de uma inventi-
falado de psicanálise antes, e era isso que lhe gráfica ... "39 • Deleuze, que sempre teve horror se juntam para formar 'um' terceiro que serí- vidade que encontrou raríssimas vezes: "Suas
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interessavá em mim" • às discussões que decorrem, segundo ele, da amos nós" • Mas não é assim, e já dissemos a ídeias são desenhos ou mesmo diagramas. A
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Nos relatos sobre o encontro, o intermediá- troca estéril de opiniões, opõe a isso a prática que ponto eles respeitaram uma certa distân- mim o que interessa são os conceitos"' •
rio ]ean-Pierre Muyard "desapareceu''. Deleuze de conversar, que, ao contrário, instaura uma cia, conservaram sua diferença, preservaram Com seu conceito de máquina e sua pro-
afirma: "Foi Félix que veio me procurar"; Guat- verdadeira polêmica interna à enunciação. sua singularidade tratando-se por senha" "Há posição de substituí-lo à noção de estrutura,
tari confirma: "Eu então é que fui procurá-lo, Seu diálogo decorre de uma verdadeira ascese: entre nós uma verdadeira política dissensual, Guattari oferece a Deleuze uma possível por-
mas, em um segundo momento, foi ele que me "Um fica calado quando o outro fala, isto não não um culto, mas uma cultura de heteroge- ta de saída do pensamento estrutural, o que a
propôs o trabalho comum"'l5. Ainda que per- é apenas uma lei para se compreender, para neidade, e que fez com que cada um de nós Lógica do Sentido já procurava. Nesse plano, o
maneçam pouco loquazes sobre a elaboração se ouvir, mas significa que um se coloca per- reconhecesse e aceitasse a singularidade do da crítica de Lacan e de seu "inconsciente es-
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do manuscrito- um "segredo'', diz Deleuze -, petuamente a serviço do outro" • Mesmo que outro ... Se fazemos alguma coisa juntos é por- truturado como uma linguagem", e no nível da
eles são mais prolixos sobre seu trabalho co- a ideia apresentada por um pareça absurda que isso funciona, e porque somos levados por consciência política, Guattari está à frente de
mum. Deleuze invoca a figura de Kleist para ao outro, a vocação do outro deve ser procu- algo que está além de nós. Gilles é meu amigo, seu amigo quando se encontram em 1969. Em-
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descrever o que se passa com Guattari. Elabo- rar seus fundamentos e não a discutir: "Se eu não meu companheiro'' • bora Deleuze esteja em vantagem na história
rar uma ideia falando passa pelo gaguejo, pela lhe dissesse que no centro da terra há geleia de A ideia desse agenciamento é fundamental da filosofia, ele reconhece em I 972 que estava
elipse, pelos sons desarticulados -"não somos groselha, seu papel seria descobrir o que po- para compreender a singularidade do disposi- atrasado em relação ao amigo em alguns cam-
nós que sabemos alguma coisa, mas é antes deria comprovar tal ideia (se é que isso é uma tívo. Deleuze explica isso ao seu tradutor japo- pos importantes. "Eu trabalhava na época uni-
de tudo um certo estado de nós .. :' - e Deleuze ideia!)" 41 • Dessa troca nasce uma verdadeira nês Kuniichi Uno: "A enunciação não remete a camente nos conceitos, e ainda de forma mui-
36 "máquina de trabalho", na qual é impossível
afirma que "é mais fácil a dois" se pôr nesse um sujeito. Não há sujeito de enunciação, mas to tímida. Félix me falou do que ele já chamava
estado. Eles têm ao mesmo tempo sessões saber o que vem de um ou do outro. apenas agenciamento. Isso significa que, em de máquinas desejantes: toda uma concepção
orais em que, ao final de uma decantação do O que importa, explica Deleuze, é a trans- um mesmo agenciamento, há 'processos de teórica e prática do inconsciente-máquina, do
diálogo, são decididos os temas a trabalhar: formação do "é" em "e", não no sentido de uma subjetivação' que vão designar diversos sujei- inconsciente-esquizofrenia. Por isso, tive a im-
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em seguida, cada um se entrega ao trabalho relação particular e puramente conjuntiva, tos, uns como imagens e outros como signos" • pressão de que ele é que estava em vantagem
50
de escrita de versões sucessivas que circulam mas no sentido do envolvimento de toda uma É, aliás, com esse tradutor japonês, Uno, seu ek sobre mim ... " • Criou-se então a oportunidade
de um ao outro: "Cada um funciona como in- série de relações. O "e" é atribuído à possibili- -aluno que se tornou um amigo, que Deleuze de trabalhar juntos, da contribuição mútua,
crustação ou citação no texto do outro, mas, dade de criação, à gagueira criadora, à mul- se abre mais explicitamente sobre as modali- do humor, de momentos de pura diversão e
passando um instan:t€, nã~s~. sabe mais quem tiplicidade: "O E não é nem um nem outro, é dades de seu trabalho conjunto. Ele apresen- mesmo, como diz seu amigo comum Gérard
20 Dosse Gil!es Deleuze & Félix Guattari 21

Fromanger, "eles estavam orgulhosos um do licadeza das coisas que nosso livro termine em faz há muito tempo: í\h! O velho estilo .. : A bus- conceito nodal dessa nova publicação. Contu-
outro, e um se sentia honrado pelo outro, por um 31 de dezembro, a fim de fixar bem que os ca de novos meios de expressão filosófica foi do, o dispositivo de escrita muda um pouco: ''A
ser ouvido pelo outro. Tinham uma confiança fins são os começos. Esse trabalho está muito inaugurada por Nietzsche, e deve ser prosse- composição desse livro é muito mais comple-
enorme um no outro, eram como gêmeos não bonito, marcado por sua força criadora ele sua guida hoje em conformidade com a renovação xa, os âmbitos tratados muito mais variados,
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idênticos que se completam. Não havia entre parte, e por meu esforço inventiva e oleoso" • de algumas outras artes" 60• Como observa Ar~ mas havíamos adquirido hábitos tais que um
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eles nenhuma inveja, nenhuma reserva nas Entretanto, no momento da publicação da naud Bouaniche , quando Deleuze fala sobre podia adivinhar aonde o outro ia" • Tudo leva
sessões. A qualidade do que escreviam decor- obra, em março de 1972, Guattari atravessa "O pensamento nômade" em Cerisy, no âmbito a crer que, a partir dessas trocas intensas ini-
ria disso, dessa espécie de abertura total, de um período difíciL Percebe-se que o excesso da década consagrada a Nietzsche, exatamen- ciais e da cumplicidade que resultou delas, a
dádiva de confiança''51 • de atividade e o esforço titânico para realizar te no momento da publicação de O Anti-Êdipo, escrita de Mil Platôs, embora também tenha
Juntos, formam um verdadeiro laboratório esse trabalho ameaçam levar a um fenôme- ele anuncia a intenção de produzir uma nova dado margem a idas e vindas entre as diversas
de experimentação de conceitos em sua eficá~ no de descompensação, a um sentimento de estilística. A propósito de Nietzsche, define o versões, foi realizada mais por uma elaboração
cia graças ao caráter transversal do procedi- vazio. A realização nunca tem o mesmo valor que poderia ser um novo tipo de livro que não comum ao longo das sessões de trabalho oral.
mento. A contribuição de Guattari a Deleuze que as mil e uma possibilidades da imagina- se conformaria aos códigos tradicionais: "Os Com a publicação de Mil Platôs, em 1980,
terá sido sobretudo a de um sopro de oxigênio ção e que a alegria permanente de uma cria- grandes instrumentos de codiflcação já são co~ chega ao fim uma longa aventura iniciada em
em um universo onde está rarefeito: "Sentia-se ção prestes a se consumar: "Vontade de me nhecidos ... São conhecidos três principais: a lei, 1969: "Depois disso, Félix e eu precisávamos
que ele tinha urna espécie de júbilo em encon- encolher, de voltar a ser bem pequeno, de aca- o contrato e a instituição"62 • Nietzsche resiste voltar a trabalhar cada um do seu lado, para
trar Félix. Quando se viam, tinha-se a impres- bar com toda essa política de presença e de a todas essas operações de "codificação' e se recuperar o fôlego. Mas estou convencido de
são de que eles ficavam contentes de se encon- prestígio ... A ponto de sentir raiva de Gilles por engaja em urna tentativa sistemática de "deco~ uma coisa, vamos trabalhar juntos de novO',
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trar. Contudo, não se viam muito, pois sabiam ter me lançado nessa desventura'' • Em seu dificação''. É assim que Deleuze e Guattari con- escreve Deleuze em 198468. Ele mergulha então
52
que as relações humanas são frágeis" • ]ournal, a comparação com a eficácia de um cebem seu trabalho de escrita: "Embaralhar no estudo do cinema. enquanto Guattari reto-
A diferença de personalidades de Guatta- Deleuze parece perturbá-lo: "Deleuze trabalha todos os códigos não é fácil, mesmo no nível da ma com mais força ainda seu ativismo cultural
ri e Deleuze produz como que um motor em muito. Não temos efetivamente a mesma di- escrita mais simples, e da linguagem" 63. Os dois e político. Entretanto, mais uma vez, sente a
dois tempos:· "Nunca tivemos o mesmo ritmo. mensão! Sou uma espécie de autodidata inve- autores buscarão o meio de escapar a qualquer falta, o vazio, a solidão, a in quietude, e se abre
Félix me criticava por não responder às cartas terado, um artesão, um personagem à moda forma de codificação, deixando-se interpelar com o amigo, que o tranquiliza: "Li muito sua
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que me mandava: é que eu nunca estava em Julio Verne .. :' Sobretudo depois, quando o pelas forças externas para desfazer as formas carta onde diz que, nosso trabalho comum
condições a tempo. Eu só conseguia fazer isso agenciamento é suspenso por algum tempo, convencionais. Esse horizonte nômade será tendo esmorecido, já não sabe bem nem o que
muito mais tarde, um ou dois meses depois, como entre a conclusão de um livro e sua pu- alcançado no segundo volume de Capitalismo ele fOi para o senhor, nem onde se encontra
53
quando Félix já tinha passado adiante" • Ao blicação, Guattari se permite expressar suas e Esquizofrenia, publicado em 1980: Mil Platôs. hoje. já eu vejo claramente. Creio que o senhor
contrário, no corpo a corpo das sessões de angústias pessoais: "Preservar meu estilo, mi- Nesse meio tempo, Guattari encontrará é um prodigioso inventor de 'conceitos selva-
trabalho, um instiga o outro em sua fortaleza nha maneira própria. Eu não me reconhecia sua respiração pessoal. Descobre em Kafka um gens'. O que me encantava tanto nos empiris-
até o esgotamento total das forças dos dois verdadeiramente no AO [O Anti-Êdipo ]. Preci- universo que corresponde às suas angústias, tas ingleses, era o senhor que tinha ... De todo
lutadores, até que o conceito discutido e dis- so parar de correr atrás da imagem de Gilles ao desejo prolífero de criação, uma desordem modo, acredito firmemente que vamos voltar
putado possa levantar vôo, sair de sua ganga, e atrás do acabado, da perfeição que ele pro- criativa parecida com a dele: "Há conjunção a trabalhar os dois"69• Não são meras palavras
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a partir de um trabalho de proliferação, de dis- porcionou à última possibilidade de livro" • de duas máquinas: a máquina literária da de consolo; quando Deleuze se engaja no iní-
seminação: "Para mim, Félix tinha verdadeiros Uma súbita angústia de ter sido devorado, de obra de Kafka e minha própria máquina, de cio dos anos de 1980 em seus cursos sobre o
relâmpagos, enquanto eu era uma espécie de perda de identidade se apoderaram dele. "Ele Guattari" 64 • A escrita guattariana faz um des- cinema, não perde de vista o prosseguimen~
para-raios, eu enfiava na terra para que renas- tem sempre em vista a obra. E para ele [Gilles] vio por Kafka para em seguida voltar melhor to de um trabalho com Guattari. Ele enuncia
cesse de outra fOrma, e Félix retomava, etc., e tudo isso não passaria de notas, uma matéria a Deleuze e realizar, no meio do percurso, um muito cedo o tema que se tornará o título de
assim avançávamos"s.1• prima que desaparece no agenciamento final. livro sobre Kafka escrito a dois65• É nessa obra sua última obra comum, publicada em 1991. O
Em agosto de 1971, O Anti-Êdipo dá lugar É por isso que me sinto um pouco sobrecodifi~ que Guattari e Deleuze elaboram a noção que que é afilosofia?: "Eis, portanto, meu programa
a uma última e longa sessão de trabalho jun- cado pelo O Anti-Êdipo"59• desenvolverão mais tarde de "agenciamento de trabalho para este ano. De um lado, farei
tos, na baía de Toulon, em Brusc-sur-Mer. As Deleuze, por sua vez. graças à colabora- coletivo de enunciação'': "Não acreditamos que cursos sobre cinema e pensamento. Farei isso
duas famílias com os filhos alugam uma vila ção com Guattari, realiza o desejo manifes~ a enunciação possa estar relacionada a um su- em conexão com o Bergson de Matéria e lvfe-
para aproveitar as alegrias da praia enquanto tado já em Diferença e Repetição: escrever um jeito desdobrado ou não, clivado ou não, refle- mória, que me parece um livro inesgotável. De
os dois homens prosseguiam suas discussões novo tipo de livro, de natureza experimental: xivo ou nãd'66• outro lado, gostaria de continuar essa tabela
a portas fechadas. O texto é finalmente con- ''Aproxima-se o tempo em que não será mais A máquina se põe em marcha novamente de categorias que coincide com seu trabalho.
cluído em uma daüt'simbólica: ')\h! Quanta de- possível escrever um livro de filosofia como se para Mil Platôs. O agenciamento torna-se o E lá o ponto central seria para mim a busca de
22 Dosse
Gilles De!euze & Félix Cuattari 23

uma resposta bastante clara e simples a o que vor. O livro sairia em setembro. Deleuze aceita mado à ordem, em 1973, por parte de Deleuze, Gi!les: 'Você tem visto Félix, Marco?' - 'Sim'
é a filosofia? Daí duas perguntas de partida: 1 sem dificuldade, o que por si só diz muito sobre que não deseja se deixar levar em aventuras - 'Ah, sim! Félix está bem, muito bem .. :, uma
- Aquela que o senhor faria, imagino: por que a força de sua relação de amizade, a que vol- que não são as suas. A divergência'~· provém 78
súbita frieza" • Algo parece ter-se quebrado
chamar isso de 'categorias"? O que significam taremos mais adiante, mas há também uma do fato de que Deleuze e Michel Foucault são um pouco em relação ao seu primeiro período.
exatamente essas noções, 'conteúdo', 'expres- coerência intelectual na dupla assinatura, pois considerados pelo ministério do Equipamento Aos silêncios mais longos que se instalam, aos
são, 'singularidade', etc. Peirce e Whitehead essa obra vem coroar uma sequência de criati- como as duas autoridades intelectuais com- encontros mais espaçados, acrescentaHse a
fazem tabelas de categorias modernas: de que vidade conceitual de 20 anos de duração. petentes representantes do CERFI. Contudo, consagração, no final dos anos de 1980, de um
maneira evoluiu essa noção de categoria?; 2- A tendência atual é suprimir o nome de para Deleuze, está fora de cogitação deixar que Gilles Deleuze que alguns gostariam inclusive,
Depois, partindo-se das mais simples dessas Félix Guattari e manter apenas o de Deleuze. o associem ao CERFI: "Félix, ah Félix, querido como vimos, de "desguattarizar".
categorias, 'conteúdO e 'expressão', retomo Contudo, O que é a filosofia? não pode ser lido Félix, eu o estimo e nada de minha parte pode
minha pergunta: o que o levou a conceder um como um retorno à "verdadeira" filosofia por Contudo, quando da longa depressão que
afetar nossas relações. Então vou lhe relatar Guattari enfrenta nesses anos de inverno,
aparente privilégio à expressão do ponto de um Deleuze que teria se "desprendido" de seu o que, em uma iluminação, me deixa preocu-
vista do agenciamento? Precisaria que me ex- amigo Félix. Tanto por conteúdo, estilo, con- Deleuze está lá, presente: "Deleuze esgotado,
• . »70 pado exteriormente. Já lhe contei há pouco sem fôlego, me liga para perguntar o que vou
phcasse pacientemente ... ceito lançado nessa obra, tudo contradiz a tese
tempo que, desde o início de nossa afeição, eu fazer esta noite. Respondo que vou assistir à
Deleuze escreveu sozinho O que é afilosofia' de um Deleuze que deve se "desguattarizar".
tinha dito a Arlette: o que complicará as coi-
No entanto, como diz Robert Maggiori a propó- Não se pode passar ao largo do dispositivo es- Copa da Europa de futebol, porque sou louco
sas é que eu quero obter de Félix algo que ele por esporte. Deleuze me diz: 'Vou a uma fes-
sito dessa obra que considera essencial, "tem tabelecido pelos dois autores, análogo àquele
nunca vai querer me dar, e ele, me empurrar
Guattari nela, mas diluído no sentido da aspi- a que se referem em Rizoma, da ramificação, ta na casa de Félix, é preciso estar perto dele'.
em algum lugar para onde eu jamais gostaria Fui para lá ... Félix completamente hierático,
rina'm. Também ali, Guattari sugere, emenda, do agenciamento que se opera entre a vespa
de ir. Desde o início, aliás, o senhor propuse- sentado no chão assistindo à TV, justamen-
define novas pistas a partir do manuscrito en- e a orquídea: ''A orquídea se desterritorializa
ra ampliar o trabalho a dois, estender a certos te a final do futebol, e ao seu lado Gilles que,
viado por Deleuze: "Há um tema que eu gostaria formando uma imagem dela, um decalque de
membros do CERFI. Eu disse que estava fora sem dúvida, teria dado um dedo da mão para
de evocar: é o da oposição entre mistura e inte- vespa; mas a vespa se reterritorializa nessa
de cogitação de minha parte, e durante muito
ração ..: Sobre o cérebro que funciona sobre ele imagem; porém, ela se desterritorializa tor- não estar ali, diante do futebol, nessa festa, ele
tempo nos respeitamos plenamente: o senhor,
mesmo: ver Francisco Varela, os sistemas auto- nando-se ela própria uma peça no aparelho de para quem estar com duas pessoas já era uma
minha solidão, e eu, suas coletividades, sem multidão" •
79
poiéticos ... Falo um pouco disso em meu texto reprodução da orquídea; mas ela reterritoriali- 76
tocar nisso" •
'Heterogênese maquínica'... A passagem estética za a orquídea ao transportar seu pólen ... cap-
Essa amizade tão intensa é observada por
é um cruzamento do movimento do infinito do tura de código, mais-valia de código, aumento Notas
todos os próximos: "Raramente vi duas pes-
conceito e do movimento de finitude da função. de valência, verdadeiro devir, devir-vespa da
15 soas se amarem e se estimarem de verdade 1. Robert Maggiori, entrevista com o autor.
Há uma simulação do infinito, um artifício fini- orquídea, devir-orquídea da vespa'' • Por que
como Gilles e Félix. Uma delegação de con-
to do infinito que conduz a um ponto histérico a vespa mantém uma relação de ordem sexual 2. Jean-Pierre Muyard, entrevista com o autor.
72 fiança total entre eles. Uma ligação intelectual
conversivo o paradigma da criação" • com a orquídea, sabendo que, se de um lado 3. GiHes DELEUZE, Présentation de Sacher-Ma-
e humana total, comovente"77• Isso não impe- soch, Minuit, Paris, 1967 (doravante citado SM).
A amizade contou muito nessa coassina- há polinização, de outro, o da vespa, não ha-
diu alguns momentos de esfriamento em suas
tura. Na verdade, as contribuições de Guattari verá reprodução? Os etologistas explicam que 4. Jean-Pierre Muyard, entrevista com o autor.
relações, em particular no final dos anos de 5. Ibid.
são meramente marginais. A revista Chim6res existe aí uma relação entre dois ret,:rimes de có-
1980: "Senti as coisas mais frias falando com
Publica, aliás' desde 1990, o que será a intro-
73
digos em uma evolução paralela de duas espé- 6. Félix GUATTARI, "Machine et structure", 1969,
cies. Essas duas espécies não têm nada a ver um e falando com o outro, Falando com Fé-
dução da obra assinada apenas por Deleuze , Change, n. 12, Seuil, Paris, 1972; republicado
Segundo Dominique Séglard, "O que é a filo- uma com a outra, e no entanto há um ponto de lix de uma coisa que Gilles devia fazer, Félix em Psychanalyse et transversalité, Maspero,
sofia? foi escrito somente por Gilles Deleuze, encontro que transformará seu devir. me diz: J\h, sim! Pobre velho!', e de sua parte, Paris, 1972; reed. La Découv.erte, Paris, 2003, p.
foi ele que me disse. Félix Guattari desejava Esse agenciamento só pode funcionar, 240-248 (doravante citado PT); ver capítulo "La
74 machine contre la structure".
coassiná-lo, mas Deleuze não queria muito" • pelo menos para Deleuze, com a condição de f, N. de R. T.: No original, différend. A expressão usada por

Uma amiga próxima de Félix Guattari, bastan- fechá-lo aos outros. Quando há risco de dis- F. Dosse parece aludir aqui ao conceito empregado por]. F. 7. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com Eve
Lyotard, em que a compreensão dos "différends" diz respeito Cloarec, arquivos IMEC, 27 de outubro de 1984.
te preocupada com o estado depressivo dele, persão para fora, Deleuze reage prontamente
à sutileza psicológica, política ou diplomática que esposa a
convenceu-se de que a única maneira de salvá- para lembrar as regras, as condições que tinha 8, Gilles DELEUZE, Différence et répétition, PUF,
singularidade da [..J, e em que a política, a arte, a escritafi~
-lo seria proporcionar-lhe um segundo fôlego, colocado de início. No céu sereno de sua ami- Paris, 1968 (doravante citado DR).
losófica são, igualmente, maneira da escrita dos ''différends':
fazendo com que participasse da preparação zade, houve somente algumas pequenas eleva- ou seja, do aspecto irredutível e irrepresentávcl daquilo que 9. Gilles DELEUZE, Logique du sens, Mnuit, Paris,
final do manuscrito, No verão de 1991, ela de- ções de febre e pequenas tensões, O respeito acontece entre duas pessoas ou entre dois pareceres situa- 1969 (doravante citado LS).
cide telefonar p~ra Deleuze e lhe pedir esse fa-
ção. Ver Blay, Michel (dir.): Dictionnaire des Concepts Philo- 10. Gilles DELEUZE, posfácio a Samuel BECK.ETT,
ao agenciamento foi o que motivou um cha-
sophiques. Larousse, CNRS Éditíons, Paris, p. 218, 2006. Quad, rvlinuít, Paris, 1999.
24 Dosse Gil!es Deleuze & Félix

ll. François Fourquet, carta a Gérard Laborde, 19 Horace Torrubia, La Quinzaine littéraire, n. 143, 57. Félix GUATTAR].journal, 6/10/1972; citado por 66. Ibid., p. 149.
de agosto de 1969, divulgada por François Four- 16-30 de junho de 1972; reproduzido em Gilles Stéphane NADAUD, Écrits pour L.Anti-CE:dipe, 67. Gilles Deleuze, carta a Uno, "Comment nous
quet. DELEUZE, L1le deserte et autres textes, Minuit, op. cit., p. 490. avons travaillé à deux", 25 de julho de 1984, re~
12. jean-Pierre Muyard, entrevista com o autor. Paris, 2002, p. 301 (doravante citado ID). 58. Félix GUATTAR!, journal, 13/10/1972, ibid., p. produzida em RF. p. 220.
13. Félix Guattari, carta a Gilles Deleuze, arquivos 33. lbid., p. 304-305. 496. 68. Ibid.
IMEC. 5 de abril de 1969. 34. Gilles Deleuze, citado por Robert MAGGIORI, 59. Félix GUATTARI, fournal, 6/10/1972, ibid., p. 69. Gi!les Deleuze, carta a Félix Guattarí, não data-
14. Ibid. Libération, 12 de setembro de 1991; reprodu- 490-49!.
da (início dos anos 1980), arquivos IMEC.
15. Gilles Deleuze, carta a Félix Guattari, arquivos zido em nobert NIAGGIORI, La Philosophie au 60. Gílles DELEUZE, DR, p. 4. 70. Gilles Deleuze, carta a Félix Guattari, não data-
IMEC, 13 de maio de 1969. jour Le jour, Flammarion, Paris, 1994, p. 374. 61. Arnaud BOUANICHE, "Le mode d'écriture de da (com certeza 1981), arquivos IMEC.
16. Ibid. 35. Ibid., p. 374-375. L'Anti-CEdipe: littéralité et transversalité", co- 71. Robert Maggiori, entrevista com o autor.
17. lbid. 36. Gilles Deleuze, ibid., p. 375. municação oral no âmbito das oficinas domes-
72. Félix Guattari, notas datilografas sobre "O que é
37. Gilles Deleuze, ibid., p. 375-376. trado de filosofia Bordeaux, Poitiers, Toulouse,
18. Félix GUATTARI, PT. a filosofia?", arquivos IMEC.
38. Gilles Deleuze, ibid., p. 376. organizadas por jean-Christophe Goddard,
19. Félix Guattari, carta a Gilles Deleuze, arquivos 73. Gilles Deleuze, "Les conditions de la question:
39. Félix Guattari, ibid., p. 376. Poitiers, 2 e 3 de dezembro de 2005. Ver Arnaucl
IMEC, I' de junho de 1969. qu'est-ce que la philosophie?", Chim8res, n. 8,
BOUA.J'JICHE, GiLles Deleuze, une introduction,
20. FGEill Fédération des groupes d'étude et de re- 40. GiUes Deleuze, ibid., p. 376. maio 1990.p.123-132.
Pocket-La Découverte, Paris, 2007.
cherches institutionnelles criada em 1965 por 41. Gi!!es Deleuze, ibid., p. 377. 74. Dominigue Séglard, entrevista com o autor.
62. Gílles DELEUZE, "Pensée nomade" (1972), re-
Guattari; ver capítulo, ''A FGERl e o CERFI à 42. Gilles DELEUZE, Cahiers du cinéma, n. 271, no- produzido em ID, p. 353. 75. Gilles DELEUZE, Félix GUATTARI, Rhizome,
prova da experiência". vembro 1976; reproduzido em Gilles DELEUZE,
63. Ibid., p. 354.
Minuit, Paris, 1976, p. 29.
21. Félix Guattari, carta a Gilles Deleuze, arquivos PourparLers, Minuit, 1990, p. 65 (doravante ci- 76. Gilles Deleuze, carta a Félix Guattari, arquivos
64. Félix GUATTARJ, journal, 14/10/1972; citado
IMEC, I e de junho de 1969. tado PP). IMEC, 24de junho de 1973.
por Stéphane NADAUD, Écrits pour I.:Anti-CEdi-
22. Gi!les Deleuze, carta a Félix Guattari, arquivos 43. Stéphane NADAUD, É'crits pour I:Anti-CEdipe, 77. Gianmarco Montesano, entrevista com Virginie
pe, op. cit., p. 497.
IMEC, 16 de julho de 1969. op. cit., p. 12. Linhart.
65. Gilles DELEUZE, Félix GUATTARI, Kafka. Pour
23. !bid. 44. Gilles Deleuze,LeMagazine littéraire, n. 257, se- 78. Ibid.
une littérature mineur, Minuit, Paris, 1975 (dora-
24. Ibid. tembro de 1988, entrevista com Raymond Bel- 79. Michel Butel, entrevista com Virginie Linhart.
vante citado K).
lour e François Ewald: reproduzido em Gilles
25. Félíx Guattari, carta a Gilles Deleuze, de 19 de
DELEUZE, PP, p. 187.
julho de 1969, passada por François Fourquet.
45. Félix Guattari, em Robert NIAGGIORI, La Philo-
26. Félix Guattari, algumas notas sobre o presiden~
sophie au jour le jour, op. cit., p. 378.
te Schreber. enviadas a Gilles Deleuze em 25 de
julho de 1969, arquivos IMEC. 46. Gilles Deleuze, carta a Kuniichi Uno, 25 de ou-
tubro de 1982; reproduzido em Gilles DELEU-
27. Robert Maggiori, entrevista com o autor.
ZE, Deux régimes de Jous, Minuit, Paris, 2003, p.
28. O CERFI é um grupo de pesquisa em ciências
!85 (doravante citado RF).
sociais criado por Félix Guattari na segunda
47. Ibid., p. 218.
metade dos anos 1960 (Centre d'études, de re-
48. Ibid., p. 218.
cherches et de formation institutionnelles); ver
capítulo "A FGERI e o CERFI à prova da expe- 49. Ibid., p. 219.
riência". 50. Gilles Deleuze, Lll.rc, 1972, p. 47; reproduzido
29. O que atesta o trabalho de ordenação dos es~ em Gilles DELEUZE, PP, p. 24.
critos de Félix Guattari enviados a Gilles De- 51. Gérard Fromanger, entrevista com Virginie Li-
leuze para preparar O Anti-Édipo, realizado por nhart.
Stéphane NADAUD, Écrits pour I.:A.nti-CEdipe, 52. ]ean-Pierre Faye, entrevista com Virginie Li-
Lignes-Manifeste, Paris, 2004. nhart.
30. Arlette Donati, entrevista a Eve Cloarec, arqui- 53. Gilles Deleuze, carta a Kuniichi Uno, em RF, pp.
vos IMEC, 25 de outubro de 1984. 219-220.
31. Alain Aptekman, entrevista com o autor. 54. Ibid., p. 220.
32. Félix Guattari, "Deleuze e Guattari se expli- 55. Gilles Deleuze, carta a Félix GuattarL não data-
cam", mesa redonda com François Châtelet, da, arquivos IMEC.
Pierre Clastres, Roger Dadoun, Serge Leclaire, 56. Félix GUATTARI, }ournal, 13 de novembro de
Maurice Nadeau, Aaphae1 Pívidal, Pierre Rose, 1971; NRF, n. 564, janeiro de 2003, p. 357.
I
DOBRAS: BIOGRAFIAS PARALELAS
1
Félix Guattari: itinerário
psica-político- 1930-1964

"Pedrinho", como era chamado em casa, à sua paixão e se dirigir ao cassino como ou-
nasceu em 30 de março de 1930, sob o signo do tros se dirigem à fábrica, para ganhar dinheiro.
número três, caçula de uma fratria de três me-
ninos: Jean, Paul e finalmente Pierre-Félix. Seu
destino intelectual não está inscrito verdadei- "Y'a bon Banania"
ramente na herança familiar, embora logo seja
visto como um ser estranho e surpreendente: Durante a guerra, o pai de Félix simpatiza-
"Félix era o patinho na ninhada de pintos"', re- ra com um artesão já reputado, um tal de Pier-
corda Jean, seu irmão nove anos mais velho que re Lardet que havia descoberto na Nicarágua,
cumpriu um pouco a função de figura paterna. em 1912, uma bebida tão saborosa que logo
A família é antes de tudo tradicional e conser- pensou em importar para a França. Essa bebi-
vadora, mas concede mais liberdade ao caçula, da, que logo se tornará o famoso alimento ma-
que pode assim adquirir uma independência tinal Banania, é composto de farinha de bana-
mais precoce que seus irmãos - o mais velho na, cereais triturados, cacau e açúcar. De volta
teve de entrar no mundo do trabalho aos 17 a Paris, em 1914, ele se lança na produção in-
anos. Pierre-Félix, com 15 anos em 1945, verá se dustrial e na difusão em grande escala, com a
abrir para ele o mundo da universidade graças campanha "Y'a bon Banania'' [É bom Banania],
ao efeito do ânimo produzido pela Libertação. que aproveita, desde 1915, a popularidade dos
Embora não sejam intelectuais, os pais soldados senegaleses. Impulsionado pela onda
de Félix têm suas paixões particulares: a mãe, de seu produto, Pierre Lardet enriquece rápi-
pela literatura e por museus, e o pai, que to- do e se porta como grande senhor com seus
cava qualquer peça ao piano sem jamais ter cavalos de corrida, trajes de grande burguês.
lido uma partitura, pela música. Entretanto, a frequência ao Cassino de Paris ... Quando um
maior paixão do pai de Guattari é o jogo. Into- amigo o aconselha a entrar na bolsa de valo-
xicado durante a Grande Guerra, ele foi sub- res, ele decide criar uma sociedade anônima e
metido a uma trepanação, e sua necessidade comprar uma fábrica de chocolate em Épinay.
de iodo fez com que escolhesse Monte Carla Entretanto, o negócio malogra, e Lardet, que-
como local de repouso. Ali pôde dar livre curso brado, acaba por declarar falência. O processo
30 Fr<tncois Dosse Gilles Oeleuze & Félix Guattari 31

que se segue quase se transforma em drama Essa mãe, sensível ao mundo da criação ar- efeitos colaterais sobre o caçula: os pais já não Esse contato brutal com a morte aos 9
quando o empresário arruinado tenta dar um tística e literária, teve uma grande inf1uência tinham a mesma disponibilidade, o pequeno anos foi estruturante na personalidade de Fé-
tiro em pleno tribunal. sobre o filho caçula, particularmente ao proje- Pierre-Félix logo se sente abandonado. Deixa lix Guattari. Aos 54 anos, ele ainda esclarece
O pai de Félix Guattari assume o comando tar nele sua decepção por não haver tido uma transparecer seu mal~estar sem poder expres~ que precisou de muito tempo para se libertar
da fábrica da qual era administrador até então, filha. Pierre-Félix parece ter sido um menino sá~lo, somatiza a tal ponto que sua palidez e desse trauma. Reagiu a ele com sérias crises de
mas decide abandonar tudo e criar carneiros muito tímido, recolhido em si mesmo, "quase seu temperamento fechado acabam preocu- angústia, um sentimento agudo da finitude, da
no campo, em um vilarejo da Orne, La Rapou- feminino" 5. pando os pais. Eles são orientados a consultar fatuidade elas pessoas e da futilidade das coi-
ill€re. Fracassa com os carneiros e se instala no Em 1952, quando aos 22 anos deixou o do- um médico, que prescreve uma temporada sas: "Isso me tomava como algo que escorria
Oise para cuidar de coelhos angorás, muito na micílio familiar para viver com sua companhei- no campo para reanimar o menino, "e, da noi- sobre mim, crises terríveis de angústia que li-
moda no pós-guerra. É nesse período, rodeado ra, r.Aicheline Kao, algumas casas adiante, na te para o dia, eu, que era muito ligado a toda teralmente me deixavam aterrado de medd' 13 •
de coelhos, que nasce Pierre-Félix, em Ville- mesma rua, Félix Guattari menciona em seu essa vida com meus irmãos e tudo mais, me vi Para não deixar a avó sozinha, os pais de Félix
neuve-les-Sablons (hoje Villeneuve-le-Roi), ao diário um conflito entre Micheline e sua mãe, deportado na Normandia, separado de tudo, decidem mantê-lo com ela por algum tem-
lado de Méru. Em pouco tempo, com a crise e que revela o amor muito exclusivo desta última: na casa de uma avó um tanto quanto auste~ po, visto que ele já está cursando a escola em
10
a modernização da indústria têxtil, a ativida- "A insistência de minha mãe em querer contro- ra" . Manifestamente, Pierre-Félix aceita mui- Louviers. O sentimento de abandono redobra,
de tradicional de criação de angorás naufra- lar minhas noites me angustia ... (deve-se obser- to mal essa separação, que vê como um dis- agravado pela angústia decorrente do desa~
ga, e os Guattari são obrigados a comer seus var que nessa questão meu pai é espectador)"6 • tanciamento vindo de uma mãe que não tem parecimento brutal do avô. A avó acaba com-
coelhos: "Meu pai não foi feito tampouco para Pouco tempo depois escreve: "Jamais ousei mais tempo para dedicar a ele: "Eu chorava preendendo: "Ela me diz: 'Sim, você tem medo
2
criar coelhos" , conflrmajean, o mais velho dos amar minha mãe... Não ter a coragem de amar quando eles vinham me visitar e iam embora. de que isso aconteça comigo também'" 14, e de~
três filhos. sua mãe é se condenar a permanecer sempre Estava infeliz como um cão"ll. cide ligar para os pais do menino, a fim de que
A família retorna à região de Paris. Após hesitante no limiar da vida ... Estou sempre re- busquem o filho.
todos esses dissabores, o início é difícil. Os tirado do mundo. Não o sinto, não mergulho ... Desde então, o jovem Félix muda radical-
Guattari se instalam em um HLM'' da Cité Estou ao mesmo tempo perto demais e longe A cena traumática mente de comportamento. Ele, o menino re~
7
des Oiseaux, em Montrouge. O pai se lança demais dos objetos maternos ... Isso me mata'' • servado, tímido, quase temeroso, que deixa
ainda em outras pequenas aventuras comer- No mesmo diário, escreve três anos mais tarde: É na casa dos avós, em Louviers, que se que tomem seus brinquedos, dominado pelos
ciais sem futuro: vende cafeteiras, depois "Esse rigor que no raciocínio me dá uma grande desenrola uma cena traumática, e que sem irmãos e principalmente pelo do meio, Paul,
batatas. Isso não é suficiente para alimentar firmeza lógica e que em matéria de sentimen~ dúvida está na origem de uma mudança ra- que fez dele sua vítima, transforma-se de súbi-
uma família que se tornou numerosa. O pai de to logo transformou em rigidez esse espírito de dical de comportamento. Estamos em 1939, to em um verdadeiro chefe de bando: "Depois,
Guattari está no limite, é visto como suicida. sistema que faz com que fora de meu próprio Félix Guattari tem 9 anos. O avô Victor, segun- como ainda não era muito estimulante orga-
Entretanto, em 1934, ele consegue tomar um sistema eu me sinta desamparado, desespera- do marido de sua avó, um antigo mineiro em nizar um bando, eu tinha organizado o bando
empréstimo e reatar com a atividade chocola- do, deteriorado, esse rigor me parece vir de mi~ Montceau-les-:rviines, tem o hábito de ouvir no adverso»l • Sua reputação em La Garenne-Co~
5

teira criando uma nova sociedade, Mon-Bana. nha mãe. Ela está se mudando para Montoire. rádio uma série sobre "O traidor de Stuttgart". lambes logo se firmou: quando chegou a hora
Instala a fábrica em La Garenne-Colombes Recriminou-me por tê-la deixado. Tempera~ Para poder ouvir seu programa favorito, ele de matriculá-lo no colégio do bairro, o diretor
e se torna finalmente dono de uma pequena menta exclusivo. Vem dela também, sem dúvi~ leva o aparelho para o banheiro e deixa a porta recusou, e a mãe precisou procurar um esta-
empresa próspera que absorve todo seu tem- da, essa necessidade que tenho do clã ... Tenho aberta: 'Aos seus pés há uma caixa de recor- belecimento suficientemente distante para
po. Assim, é a esposa que se dedica à família, tanto dela, pois foi ela quem me deu a vida - tes: pequenas bonecas de papel para as quais que o filho encontrasse um bem-aventurado
com "um sentido claro do sacrifícid'3• Natural que história'. .. Fui amoldado demais por ela, confecciono vestidos. Vovô está com a cabeça anonimato.
da Córsega,jeanne Paoli reatara com o passa- não havia mais coexistência possível"8• completamente caída, apoiada nos joelhos, Foi no colégio que Félix teve um encontro
do italiano de sua ilha casando-se aos 17 anos Uma das primeiras lembranças de seu pai os braços pendurados. Será que está mexen- decisivo com um personagem sem par e sem
com um Guattari, cuja família era originária remonta a 1933- Félix tem 3 anos, e o pai lhe do nos meus brinquedos? Tenho vontade de normas, discípulo de Célestin Freinet"", Fer-
da Bolonha: "Casaram-se em 1919. Ele era en- comunica: "Preciso lhe dizer que a gente vai gritar alguma coisa! Silêncio. Viro a cabeça, nand Oury. Félix assiste às aulas desse profes-
tão herói da guerra, e foi portanto mais por montar um negócio". Essa frase, fruto do de- lentamente - uma eternidade - para a luz do sor de ciências naturais que se tornará céle-
admiração por um garoto como esse do que sespero do início dos anos de crise, marcada aparelho de rádio. Estrondo assustador. Caído
outra coisa'' 4• pela vontade imperiosa de sair dela, se torna- no chão. Vovó grita. Congestão''". A avó chega,
rá uma espécie de princípio de vida para o pe~ apavorada, e corta as pontas das orelhas para ~' N. de R. T.: Célestin Freinet (1896-1966 ). Pensador francês

queno Félix, fortemente impressionado: 'Acho tentar reavivar o coração, depois coloca um que desenvolveu uma pedagogia fundamentada em grupos
*N. de T.: Habitation à Loyer Moderé: conjunto habitacio- jornal sobre a cabeça do marido para prote- de cooperação a serviço da expressão livre ele crianças e da
nal construído por urn?-; coletividade e destinado às pes- que durante toda minha vida montei negó- formação pessoaL Education du Travail, de 1947, é urna de
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cios, golpes" • O êxito dessa iniciativa teve gê-lo das moscas.
soas de baixa renda. suas obras mais importantes.
32 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 33

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bre no campo da pedagogia institucional • O forças mortíferas e a angústia diante de uma recebem ali formação como agitadores cultu- por ele. Segue-se um longo período, até 1951,
primeiro contato é muito breve, pois ao cabo flnitude sem remédio. Essa presença da mor- rais, quadros políticos ou sindicais. Guattari durante o qual fazem o jogo do gato e do rato:
de três semanas de aula, Fernand Oury desa~ te, o jovem Félix a conhece muito cedo, antes tem então seus primeiros encontros feminis- "Eu não o queria, mas depois, um belo dia, aca-
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parece, preso pelos alemães em 1943. Contu- mesmo da morte do avô. Ele escreve em seu tas: Annick, mais velha que ele, que o leva para bei 'cedendO, se é que se pode dizer assim" •
do, a lembrança dessa passagem-relâmpago é Diário em julho de 1971 que, aos 6 ou 7 anos, sua casa. A mãe não gosta e o põe para fora Em 1951, decidem viver juntos na casa dos
tão intensa que, ao saber na Libertação- Félix um mesmo pesadelo o atormentava todas as sem qualquer formalidade. pais de Micheline Kao, um meio modesto de
tem 15 anos na época- que Fernand Oury é noites durante um longo período: "Uma dama O adolescente se lança na escrita. Desde operários muito acolhedores. A família de Félix
um dos encarregados da coordenação dos Al- de negro. Ela se aproximava da cama. Eu tinha 1944, sente necessidade de escrever histórias, aceita sua saída, mas fica estarrecida e muito
bergues da Juventude (AJ), ele se inscreve ime- muito medo, e isso me despertava. Não queria poemas, sonhos. Suas facilidades intelectuais descontente ao vê-lo instalar-se no outro ex~
diatamente. Fernando Oury desperta então voltar a dormir. Até que uma noite meu irmão são manifestas: "Eu tinha aprendido a escrever tremo da rua em uma família adotiva muito
Guattari para um mundo que rompe com a me emprestou seu fuzil de ar comprimido di- de um único golpe, a ler de um único golpe ... atenciosa com ele: "O pai Kao levava seu café
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rigidez que este percebe no olhar materno, um zendo que bastava atirar se ela voltasse. Ela Os garotos da classe tinham dificuldade, e eu da manhã na cama"! Os pais de Félix se per-
universo de sociabilidade fraterna. Fica fasci- não voltou. Mas o que me surpreendeu mais, lia muito bem'm. Ele prossegue com sucesso guntam, não sem preocupação, se não quise-
nado com a personalidade e com o talento de lembro bem, é que eu não tinha carregado o seus estudos no liceu Paul-Lapie de Courbe- ram se apropriar de seu filho. De sua parte, a
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pedagogo de Fernand Oury: "Tive uma vonta- fuzil" . Essa dama de negro, personagem que voie, depois no liceu Condorcet na série final f8.míliaKao libera o andar térreo para que oca-
de enorme de ver Fernand. Comecei a gostar dá nome ao romance de G. Leroux, evoca tam- do ensino médio onde obtém seu baccalauréat sal possa ficar à vontade. Félix mandou buscar
e a sentir saudades de sua maneira tão espe- bém um personagem real, o da tia Emilia, irmã em filosofia-ciências em 1948. Apaixonado seu piano e sua biblioteca, sinais de que estava
cial de encarar as coisas, a bruma misteriosa e de seu pai, que perdeu o marido - do nome de pela filosofia, espera de seu professor - que se instalando de verdade. O pai de Micheline
quase poética que envolve as coisas quando se Félix- nas trincheiras de Verdun: "Mas é claro, considera excelente- um sinal, um encoraja- adota Félix como se fosse seu filho.
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está em sua presença'' • é claro! O armário, a dama de tafetá, a arma mento para empreender esse caminho, mas, Essa reconstrução afetiva ocorre em um ce-
As redes de albergues da Libertação per- negra, a artemisa, as armas do ego, a miséria não obstante seus bons resultados, permanece nário de grande tormento profissionaL Guattari
mitem aos adolescentes de família modesta dos anos de 1930, meu pai tinha falido lançan- na incerteza, porque não é capaz de pergun- percebe com horror que o curso de farmácia o
viajar em 'férias. Para o chefe de bando em que do-se, com o apoio dessa tia Emília, na criação tar a ele. Seu irmão mais velho, Jean, consegue afastou da atividade de escrita, que é para ele
transformou Félix, os A] são sobretudo um d e coeIho angora...
'"" . que ele entre, apesar de sua forte dúvida, no uma respiração existencial: "Descubro cons-
meio de descobrir a convivência mista, depois curso de farmácia. Ele começa um primei- ternado que não sei mais escrever, que não sei
de se manter até então conflnado à fraterni~ ro estágio de farmácia em julho de 1948 em mais ler, e copio livros para me pôr novamente
dade masculina. É, numa dessas expedições Fim de guerra Bécon-les-Bruyeres, onde se aborrece profun- em contato com a escrita. Lembro de ter copia-
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que conhece um outro jovem Píerre: "Eu disse: damente e é reprovado nos exames do primei- do um livro inteiro de Camus" • A falta de diá-
'Não precisa me chamar de Pierre, basta me Na Libertação, a consciência política de ro ano. Sob o olhar vigilante do irmão mais ve- logo com seu pai não ajuda Félix a se orientar,
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chamar de Félix',[ . Esse segundo nome, que Guattari é precoce. Desde 1945, paralelamente lho, repete o ano, mas não adianta nada. Ele só mas ele está cada vez mais convencido de que
acabou por se impor, ele deve ao cunhado de à aventura dos A], começa a militar no Parti- deseja uma coisa: ir embora e passar num con- tomou o caminho errado. Decide então acabar
seu pai, o tio Félix, morto em Verdun. Esse tio, do Comunista (PCF). Seu pai, antigo Cruz de curso público para garantir sua independência com isso e se inscrever em filosofia na Sorbon-
apaixonado pela pintura e amigo de Vlaminck, Fogo nos anos 1930, que foi um gaullista con- financeira, e planeja então fazer um concurso ne. O pai de fato não tinha prestado atenção ao
deixou uma marca muito forte: "Era para mim victo durante a guerra, fica sabendo por ami- para inspetor~júnior nos correios e telégrafos. tormento do filho até o momento em que, após
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um pouco o ideal do ego" • A reconstrução gos que seu filho vende L'Hurnanité na ponte Nesse melo tempo, pensa ter encontrado dois dias vagando, Félix retorna ao lar e cruza
subjetiva e o mergulho no mundo, após as fra- da Estação de La Garenne-Colombes. Ele não a alma gêmea em l\tücheline Kao, uma moça com o pai, que está varrendo a neve caída na
turas profissionais dos pais - a necessidade gosta nem um pouco disso. Paul, o irmão do de origem chinesa que conheceu aos 16 anos. frente de casa. Esse pai até então mudo pergun-
de estar sempre prestes a "montar um negó- meio, tenta expressar a reprovação familiar em Eles são vizinhos na Rue de ll\.igle em La Ga- ta-lhe de súbito: "'Mas, Pierre, por que você quer
cio"- e a morte espetacular do avô, se realizam forma de zombaria: "Leve l'Humidité [a Umi~ renne-Colombes. Encontram-se em 1946 por largar o curso?' Eu digo: 'Porque eu não gosto,
assim sob um nome que significa satisfação, dade], órgão central do partido refrigerador!", ocasião de uma "caravanà' organizada por Per~ não tem nada a ver comigo: -'Mas, o que é que
felicidade. dizia ele pelos cantos. nand Oury, uma temporada de ferias nos Alpes você queria f8.zer?', coisa que todo mundo já
Essa exigência de satisfação imediata e A atmosfera reinante nos A] na época do em Aubier-le-Vieux: "Lembro-me de um meni- sabia há muito tempo. - 'Eu queria fazer filoso-
essa vitalidade excepcional nasceram, por- pós-guerra era particularmente intensa. É no que queria ter ares de adulto. Ele fumava fia: - 'Está certo, então você tem que fazer filo-
tanto, da tomada de consciência precoce da nesse meio, nos saraus cotidianos, que muitos cachimbo'"'. Micheline Kao tem 14 anos, está sofia"'27. Há claramente nesses anos um enfra-
finitude, da presença não fantasmática, mas se iniciam como cantores - Francls Lemar- antes de tudo intrigada com esse adolescente quecimento da imagem paterna, embora Félix
bem real, da morte. "Montar um negócio" que, os irmãos ]acques, os Barbus, Pierre Du- que lhe declara amor eterno. Parece-lhe bem ainda diga no diário, em 1953, que sua estrutura
torna-se a palavra::;d_e orderv. para conjurar as dan - ou como atores - Yves Robert. Outros curioso, mas não sente nada além de amizade moral está calcada na imago paterna. Ele julga
34 François Desse Gi!les Deleuze & Félix Guattari 35

essa f1gura do pai "ao mesmo tempo moral-na- de encontrar a felicidade ... Mas não é no pas- automóveis suntuosos, Rolls-Royce à francesa, de voleibol: "Durante as caravanas, as equipes
cionalista, Cruz de Fogo, nada de negócio com sado nem no futuro que se deve procurar esse assim como os motores que equiparam todos dividiam o trabalho: tarefa de cortar lenha,
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os alemães, escuta dos ingleses, respeito fami- 'consolo primário'. É preciso encontrá-lo no ser os aviôes da Grande Guerra. Para La Garen~ varrer ou descascar legumes .. , " • Essa vida
liar e, ao mesmo tempo. corroído pela liberda- mais imediatamente presente. É preciso se fa- ne, partilhada entre duas grandes empresas comunitária rompe as fronteiras hierárquicas,
de: meio termo, mentiroso, espectador, jogador, zer ser no mundo, dar ao mundo a imagem da - Peugeot e Hispano -,trata-se de um impor- e se estabelecem sólidas relaçôes de amizade
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comerciante, inteligência" • felicidade, por mais simples que seja esse ros- tante celeiro de emprego. palco da classe ope- entre os rapazes e moças do grupo.
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Nesse início dos anos de 1950, Guattari está to, mais desprovido de qualquer esperança" :l; rária. É preciso dizer que a empresa é dirigida O entusiasmo comunicativo de Panaget
fortemente marcado pela figura de Sartre, a "Magnífico. Magnífico o EN [O Ser e o Nada]". pelo filho de Léon Blum. Robert Blum, aberto, permite a difusão de tais atividades para além
ponto de adotar a língua sartriana em seu jor- Leio parágrafos que circundo com lápis verde e como o pai, ao diálogo e à inovação social. Na dos limites da empresa Hispano, na medida
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nal, onde se demarcam facilmente as temáti- fico muito contente, isso me despertd' ' • Hispano, um militante carismático, Raymond em que o grupo se abre para outros jovens do
cas existencialistas: "Essa objetivação (do tem- Essa admiração por Sartre jamais será re- Petit, reúne os jovens em torno de si e logo se bairro. A experiência seduz Félix Guattari, que
po) contribui por antítese para que possamos negada por Guattari, que escreve ainda no cre- torna seu pai espirituaL Consegue da diretoria participa das atividades do grupo e fica amigo
sentir o tempo em nós, isto é, para desligá-lo púsculo da vida em 1990: "Para mim, Sartre é e de seu comitê de empresa a constituição de de Raymond Petit e Roger Panaget. Petit repre-
29 um autor como Goethe ou Beethoven: ou se senta então para Félix um modelo de engaja~
do mundo'' • É sobretudo a temática do tempo, um Grupo de Jovens da Hispano para possibi-
do nada, da morte e da necessidade de supe- pega tudo ou se larga tudo. Passei quase quinze litar aos jovens operários viajar de férias e usu- menta: "Ontem à noite, com Raymond, ficou
rar uma angústia mortífera que lhe interessa, anos de minha vida sendo totalmente impreg- fruir de estações de esqui e da rede de AJ, Com claro para mim o tato de que meus estudos en-
a ponto de praticar sobre si mesmo exercícios nado não somente pelos escritos de Sartre, um forte carisma, Raymond Petit transmite travam agora diretamente no campo de meu
fenomenológicos - como outros praticam os mas também por seus atos e gestos. Tudo o que seu entusiasmo, e esse "agitador" não deixa de ideal revolucionário'm.
exercícios espirituais de Inácio de Loyola - a eu possa ter dito ou feito é evidentemente mar- suscitar uma certa desconfiança da direção. Quando Félix se instala em La Borde, em
fim de se conhecer melhor e espantar a má fé: cado por isso. Sua leitura da nadificação, da Propõem-lhe que se torne membro permanen- 1955, propõe a Roger Panaget que venha morar
"Eu mergulhei. Vivi o que podia ser uma angús- destotalização, que se torna em mim devir, des- te do comitê de empresa para cuidar do lazer em seu quarto na casa dos pais de Micheline
tia permanente. No trajeto, encontrei o méto~ territorialização, sua concepção da serialidade dos jovens da fábrica. Consciente dos riscos de Kao. Guattari adere ao Movimento Revolu-
do, se' é que existe um, para se ver inautêntico: e do prático-inerte, que irrigariam em mim a se distanciar de seu meio de origem, ele não cionário da Juventude (MRJ), que constitui
enumerar, explicitar todos os objetos dos quais noção de grupo-sujeito, seu entendimento da pode recusar essa "promoção". É graças a esse na época a porta de entrada no PC!. Ele faz ali
a gente se torna sujeito involuntário ... até que liberdade e o tipo de engajamento e de respon- cargo de membro permanente que acaba con- um estágio probatório antes de ser entroniza-
se produza uma espécie de vazio. É mais fácil sabilidade do intelectual que ele encarnava fo- seguindo que a Hispano seja a primeira empre- do entre os eleitos da vanguarda proletária.
ser fenomenólogo para as coisas do que para as ram em mim, se não imperativos, pelo menos sa em 1950 a enviar seus jovens operários com Contudo, sua adesão ao trotskismo perma-
pessoas ... O problema está em que o outro o vê, dados imediatos. Prefiro ter errado com ele do menos de 21 anos para o esqui nas férias de in- nece "subterrânea": é a onda da infiltração no
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em que ele tem um ponto de vista sintético so- que ter acertado com Rayrnond Aron'' . verno, concedendo-lhes inclusive uma terceira seio dos movimentos comunistas oficiais. Ele
bre seu ser. Tudo depende da intencionalidade É entre os jovens de subúrbio dos AJ que semana de férias remuneradas. participa de uma série de iniciativas, como
com que o faz existir para ele ... a luta sartriana Félix, de temperamento mais anarquizante no a das "brigadas" que se dirigem à Iugoslávia
continua"30; "Não há tempo no mundo, nós o início, embora membro do PCF, conhece mili- para apoiar a experiência titista condenada
projetamos sobre o mundo. Dizer que só en- tantes trotskistas em 1948 e se torna militante O engajamento trotskista na época pelas autoridades do PCF. Félix, que
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tendi isso ontem à noite" • político do Partido Comunista Internaciona- foi responsável por uma "brigada de trabalho',
Félix Guattari chega inclusive a comentar lista (PC!), seção francesa da IV Internacional Comunista libertário, Raymond Petit trava encontra-se em 1949 cavando as bases da fu-
capítulos de O Ser e o Nada em seu diário. A pro- que, na época, nada mais era que um pequeno uma guerra feroz contra todas as formas de tura universidade de Zagreb com um grupo de
pósito do capítulo "Da determinação como ne- círculo de dissidentes comunistas considerado aparelho burocrático, o que não agrada os di- jovens. Como militante responsável, confisca
gação'' ele escreve: "O para-si constitui o mundo pelo PCF como a referência dos piores inimi- rigentes do PCF. Abandonado pelo partido, ele dos voluntários recalcitrantes os bônus de ali-
como totalidade. Ele não é de modo nenhum o gos da classe operária. Guattari passa a ser in- retorna à base e a seus colegas de oficina. Um mentação quando resistem a carregar pedras
que é o ser. Essa totalização é nada sobre o ser, clusive um dos quatro responsáveis trotskistas de seus amigos, o jovem Roger Panaget, que ou cavar trincheiras.
entrou na Hispano em 1947, organiza reuniões
ela totaliza e retalha ao mesmo tempo. Não con- do grupo da região parisiense dos 'J\jistas". O jogo duplo que implicam a militância
sigo fazer explodir a noção do todo, agarro-me Em La Garenne, há um grupo de jovens uma vez por semana para programar fins de trotskista e as boas relações mantidas com os
a ele'm. Disso resulta um motivo existencial que particularmente dinâmico, o da fábrica His- semana e férias. Com o Grupo de jovens, toma militantes comunistas do subúrbio a oeste de
pano-Suiza. A empresa é conceituada: produz a iniciativa de promover visitas a museus, es- Paris nem sempre é fáciL Na época da propa-
por toda sua vida induzirá à busca desenfrea-
da da felicidade imediata na intensidade do caladas, saraus, grupos de dança folclórica, ganda em favor do apoio à experiência reali-
espeleologia, sessões de cineclube, idas ao tea- zada por Tito, em 1950, Félix e seu grupo de
momento presente e dos envolvimentos que
ele suscita: "seri'u como._que uma necessidade tro, círculos de estudo ou ainda competição trotskistas são atacados pelo braço pesado do
"'N. de T.: L'f:tre et le Néant.
Dosse Gilles De!euze & Félix Guattari 37

PCF. A investida dura uma noite inteira, du- é hostil a ele. Félix, que se matriculou em filo~ Alfred Adler, como também de Philippe Girard convocados para a guerra da Argélia. A primei-
rante a qual as batalhas são bastante violen- sofia na Sorbonne, não pode então praticar a e de Anne Giannini Monnet (da família de Jean ra manifestação de protesto é organizada por
tas. No subúrbio, Guattari começa a ser visto infiltração ali - ele é bastante conhecido como Monnet, o pai da Europa), entre outros. A di- Raymond Petit, Roger Panaget, Raymond Le-
no PCF como um perigoso propagandista "ti- trotskista. Ao mesmo tempo em que cultiva fusão da Tribune de Discussion ultrapassa rapi- vildier e Brivette. Há um choque violento com
tista". Chegam a convocá-lo um dia para que as redes militantes na Sorbonne, dedica-se às damente o meio estudantil da Sorbonne e ob- as forças da ordem em Bois-Colombes, que é
explique diante dos camaradas suas ativida- Amizades Franco-Chinesas. Nessa época, a es- tém a caução de dois intelectuais renomados: manchete do L'Humanité. A associação dos
des anti-Partido. Teme-se o pior, e os compa- perança segue a tiracolo e sobe ao céu no Les- François Châtelet e Henri Lefebvre. Jean-Paul dois grupos não dura muito, pois logo é denun-
nheiros trotskistas de Félix tentam dissuadi-lo te, e até no Extremo Oriente, desde a vitória de Sartre chega inclusive a contribuir com essa ciada como um grupo trotskista pelo aparelho
de ir a essa reunião onde existe muita chance Mao em 1949. iniciativa, e figurará na lista de doadores com do PCE A maioria dos militantes de L'Étincelle
de ele ser agredido. É nessa época que o Ko- Raymond Petit, do grupo Hispano. foi um o nome de "HK" (de "Heidegger/Kierkegaard") fica com medo e volta a se enquadrar, com ex~
minform,.' denuncia as "víboras lúbricas" do ti- dos primeiros a visitar essa nova China em até 1958, data em que deixará de contribuir. ceção do grupo de Spitzer (Simon Blumenthal,
tismo: Tito é considerado como um agente do 1953. Pouco depois, em 1954, uma delegação por considerar que, com o fascismo às portas Paul Calvez), que prossegue a aventura com os
imperialismo que teria instaurado uma dita- composta de cerca de 40 franceses - entre os da França, é preciso, dali em diante, fazer uma ex~ integrantes da Tribune de Discussion.
dura fascista. À véspera da convocação, Guat- quais Jean Eiffel, René Dumont, Michel Leiris, frente comum com o aparelho do PCE Desse agrupamento nasce um novo cader-
tari ainda participa de um confronto violento Claude Roy e dois estudantes - vai para Pe- No outono de 1956, com a invasão soviéti- no mimeografado, o Bul/etin de l'Opposition
em Paris, onde deveria ocorrer uma reunião quim. Félix é um dos viajantes: "Um dia, ele me ca da Hungria, a urgêncía de um discurso críti- Communiste, e ele recebe o nome de A Via
preparatória ao envio de brigadas: "Estávamos diz: 'Você pode me levar ao Bourget amanhã? co no interior do movimento comunista se faz Comunista em janeiro de 1958. Denis Berger,
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cercados pelas Seções da Federação de Paris. Vou para Pequim"' , recorda seu irmão Jean, sentir ainda mais. O grupo Tribune de Discus- membro da secretaria política do PCI. trava
Durante horas tínhamos sido atingidos pelas ainda sob efeito da surpresa. Sobre essa via- sion aproxima-se de um outro pequeno círculo uma batalha com Pierre Franck para conven~
ondas de assalto dos militantes do Partido ... gem-relâmpago, simultaneamente seduzido e de intelectuais comunistas que também fazem cê-Io a aceitar a existência desse jornal agrega-
Na saída, fomos perseguidos no metrô por sta- desorientado, ele escreverá em seu diário: "De um boletim, L'Étincel/e [A Centelha]. Há alguns dor que se pretende mais do que um simples
linistas enfurecidos. Eu tinha acompanhado minha viagem à China, ficou uma impressão intelectuais conhecidos, como o filósofo Victor boletim interno, e que ele acha que deve ser
até em casá uma moça iugoslava que traba- de sonho. Onde eu estava? Com quem? Que Leduc,Jean-Pierre Vernant, Yves Cachin (sobri- vendido em banca. Contudo, não consegue
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lhava na Embaixada, Miléva, uma morena de personagem representei?" É por ocasião de nho do fundador do PCF, Mareei Cachin),Jean convencer a direção do PC!: "Fui expulso.
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tirar 0 fôlegd' • O companheiro trotskista de seu envolvimento na associação das Amizades Bruhat, Anatole Kopp, assim como um núcleo Tinha aderido em 1950'" • Raymond Petit e
Guattari, Paulo, é ferido durante o confronto Franco-Chinesas que Guattari conhece o his- militante muito ativo no ll Q Distrito em torno Guattari decidem então sair do PCL Assim, A
e está com a cabeça enfaixada. Ele quer acom- toriador sinólogo Jean Chesneaux, que na épo- de Gérard Spitzer, que se engajou aos 15 anos Via Comunista não é apenas um jornal, mas
panhar Félix na sessão do dia seguinte, que ca fazia a aproximação entre os intelectuais nos FTP'', em 1943, e aderiu ao PCF desde a sim uma organização que surge nas fronteiras
corre o risco de degenerar em confronto, mas franceses e os militantes do Partido Comunis- Libertação. Todos têm em comum uma críti- do trotskismo. O primeiro boletim coloca a
este último o desaconselha, para não acirrar ta Chinês (PCC). ca radical do stalinismo e a denúncia das in~ questão: quem somos nós? O que queremos?
os ânimos. Vai então sozinho e dá um jeito de Reorientando seu trabalho militante para suficiências do engajamento do PCF contra a Reposta: "Encontrar a Via Comunista para o
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se safar graças à sua reputação de ajista: "Es- a "célula filosofia' do PCF na Sorbonne, Guat- guerra da Argélia. Eles contestam sobretudo nosso país"' • Nascido em plena contestação da
tava lá Poil de Carotte*'', um cara dos A]. Eu tari sugere a Denis Berger, militante do PCI e a votação dos poderes especiais. No dia 12 de guerra da Argélia, esse será o principal terreno
cheguei, a gente discutiu, bateu boca, mas não membro de sua secretaria política, lançar logo março de 1956, o secretário geral da SFIO*'·', de luta a que se consagrará A Via Comunista
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houve nenhuma bofetada'". Sua popularidade após o XX Congresso do PCUS, de 1956, um Guy Mollet, que se tornou presidente do Con- até 1962: "Primeiro a Argélia"' \ dama a 3u edi-
junto aos grupos jovens o salvou de um sério boletim mimeografado: Tribune de Discussion. selho após a vitória dos socialistas nas eleições ção, no momento em que a crise argelina abala
acerto de contas. A estratégia de inf1ltração atinge o limite: um legislativas, decide pôr em votação a lei sobre a IV República.
A família política de Guattari cinde-se em desejo de se expressar se faz sentir de maneira os "poderes especiais" do exército, dando-lhe O núcleo dirigente se reúne uma vez por
1951 entre a tendência Pablo-Franck, à qual ele premente e precisa ser difundido. A conjuntu- uma ampla autonomia de ação. A lei é votada semana. Guattari se investe ativamente na
acaba aderindo, que prega a infiltração no in- ra do relatório Kruchev favorece a formulação pela maioria dos grupos parlamentares, entre redação de artigos do jornal com o pseudôni-
terior do PCF, e a tendência lambertista, que de algumas questões, mas ainda não chegou a os quais o grupo comunista. Na Hispano, rea- mo de Claude Arrieux. Em fevereiro de 1961,
hora de propor uma organização política alter- ge-se imediatamente à decisão de mobilizar os juntamente com Claude Deville e Jean Labre,
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nativa. Ê preciso ainda suscitar indagações e faz uma entrevista com Sartre , e se dedica
*N. de R. T.: A Kominform, criada em l947 e extinta em promover o debate de ideias. Félix consegue sobretudo, nesse início dos anos de 1960, a
1956, era urna organização para o intercâmbio de informa- *N. de T.: Sigla de Francs-tireurs et partisans, movimento
a adesão ao PCI, que na época não passa de acompanhar de maneira crítica a evolução do
ção e experiência entre os partidos comunistas. na Hcsistência Francesa à ocupaçfto alemã.
um grupelho de oitenta membros, dos futuros PCF. Consagra muitas páginas à preparação e
*"' N. de T.: Poil de carot,t~: apelido que se dá às pessoas rui- """N. de T.: Sigla de Section française de I'Inlernationale ou-
vas (literalmente: pelo de cenoUra). antropólogos Lucien Sebag, Michel Cartry e vriCre. à realização do XVI Congresso, denunciando a
38 Dosse Gi!les Deleuze & Félix Guattari 39

fidelidade dele ao stalinismo. Quanto ao Gru- um jornal sem nenhum apoio institucional. se considera como um autêntico comunista: de Mohammed Boudiaf, que está em contato
po Hispano. ele é bastante comentado no jor- Tão logo é lançado, o Manifesto dos 121 "sobre "É claro que eu não tinha um retrato de Stalin então com A Via Comunista e do qual Guatta-
nal, mas com o nome de "Grupo Simca", para o direito à insubmlssão na guerra da Argélii' em casà''"'. A virada data de 1956: Alfred Adler ri se sente próximo 5ll. Entretanto, logo se dá a
não revelar o trabalho subterrâneo de solapa- aparece em A Via Comunista, que é imediata- lança-se com seus companheiros na aventura ruptura e em seguida o desaparecimento em
mento que se realiza ali contra o aparelho sta- mente apreendida'19• de A Via Comunista, onde encontra também 1965. É preciso dizer que alguns começaram
linista. Guattari detém inclusive as condições Os dois polos de A Via Comunista situ· os futuros escritores Pierre Pachet e Michel a debandar para o maoísmo sob o impulso de
de sobrevivência de A Via Comunista, pois o am-se na Hispano (para o polo operário) e na Butel, e muitos outros estudantes da Sorbon- Simon Blumenthal e de Benny Levy, enquanto
essencial dos subsídios que sustentam o jornal Sorbonne (para o polo estudantil). Guattari faz ne pertencentes ao "bando' de Guattari. En- outros fazem a apologia de Ben Bella. De fato,
vem da clínica de La Borde, da qual é adminis- a ponte entre esses dois mundos e consegue tre os adeptos de renome, o irmão de Daniel desde 1961. podem ser lidas em A Via Comu-
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trador nessa época • No clima de mobilização recrutar Michel Cartry, que conhece por oca- Cohn-Bendit, Gaby, que também é estudante nista as teses dos comunistas chineses sobre a
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contra a guerra da Argélia, A Via Comunista sião de um curso de propedêutica em junho de de filosofia na Sorbonne em 1956. "coexistência pacífica''f> , mas é sobretudo após
consegue rapidamente um grande número de 1952. Desde as primeiras conversas nasce uma Companheiro de Gaby Cohn-Bendit e de a guerra da Argélia, em 1963, que o jornal ad-
contatos, em torno de 200 a 300: "Isso corres- relação de amizade. Michel Cartry logo estará Pierre Pachet, Claude Vivien também é mem- quire às vezes uma coloração maoísta e publi-
pondia bem à maneira como Félix concebia o ao lado de Félix no grupo de fllosofia do PCF bro do grupo da célula filosofia em 1956: "Era ca o programa político de 25 pontos da direção
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trabalho. Não se conduz as pessoas com base que se reüne na Rue de la Contrescarpe: "Fé- o grupo mais extraordinário que tinha encon- do Partido Comunista Chinês •
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em um programa, mas se trabalha com elas. lix nos iniciou em Trotski"s • Eles distribuem trado em minha vidà'". Caçula do grupo, ele Essa evolução não agrada Guattari, que se
A atividade que desenvolvia em La Borde o a Tribune de Discussion nas caixas de correio participa de todas as discussões e da vida cole- concentra em seus artigos de 1964 sobre estu-
ajudava diretamente, e ele começava a teori- de seus colegas, escrevem com pseudônimos tiva dessa célula que domina o Quartier Latin dos críticos do regime soviético, mas se sente
zar"47. Tratava-se de constituir um grupo não e provocam reações por parte dos militantes nessa época de tensão com os grupos fascis- cada vez mais distante da orientação do jornal
sectário; não um partido clássico, mas uma or- ortodoxos do Partido, escandalizados com tas, sem contar as manifestações de oposição e acaba por abandoná-lo abruptamente: ''Afas-
ganização concebida mais sobre o modelo do a existência de traidores da causa da classe contra a guerra da Argélia. Guattari adota com tei-me de todos do dia para a noite ... Em 1964,
Grupo Jovens da Hispano. proletária: "Em uma das reuniões da célula fi· Claude Vivien o método testado com outros cansei""- Ele não será facilmente perdoado por
Três dirigentes de A Via Comunista, Denis losofia do Partido, alguém lançou: 'Tem gente para convencê-lo a romper com o stalinismo. isso, sobretudo por Gérard Spitzer, que o con-
Berger, Gérard Spitzer e Roger Rey, dedicam-se desleal entre nós', e foi um de meus melhores Convida-o a passar um fim de semana em La dena por ter cortado os meios de subsistência
51
mais especificamente ao trabalho clandesti- companheiros que disse isso" • No início de Borde: "Isso foi fundamental na minha vida. de A Via Comunista. Quando Félix Guattari sen-
no de apoio à luta de independência argelina. suas atividades na Tribune de Discussion, Mi- Vi os loucos e me dei conta de que eles não te que uma instituição está se perpetuando, no
56
Como diretor da publicação, Gérard Spitzer chel Cartry não sabe que Félix é um militante eram muito diferentes de mim" • Como mui- vazio, na simples gestão de seu pequeno capital
é condenado no final de 1959 por atentado trotskista organizado. Só após essa primeira tos, Claude Vivien, que foi para ficar dois dias, cultural, ele não hesita em tomar a dianteira e
contra a segurança do Estado. Na prisão, ini- experiência Félix lhe propõe, a ele e a Lucien instala-se em La Borde, onde vai trabalhar por encerrar suas atividades, para abrir outras pos-
cia uma greve de fome no dia 27 de fevereiro Sebag, dar um passo adiante e aderir à IV In· quatro anos como monitor, ao mesmo tempo sibilidades fora dali. Em 1964, a inspiração vem
que prossegue até 20 de março. Só será liberta- ternacional. Em 1958, ao denunciar no pátio em que prossegue o curso de filosofia e as ati- do movimento estudantil que se radicaliza.
do depois de dezoito meses, após uma ampla da Sorbonne a votação dos poderes especiais. vidades políticas. Participa do trabalho oposi-
campanha de sensibilização feita pelo jornal, Lucien Sebag, Michel Cartry e Philippe Girard cionista com Tribune de Discussion. Félix o faz
que constituiu um comitê de defesa presidido acabam expulsos da União dos Estudantes Co· ler Trotsky e aderir à N Internacional. Quando Félix: um lacaniano precoce
por Élie Bloncourt"3. Por sua vez, Denis Berger munistas (UEC). o PCF expulsa a célula fl!osofia e cria a UEC,
especializa-se na preparação de fugas. Deti- Michel Cartry partilha com seu amigo do em 1956, ele é secretário da célula dissolvida. Nos anos de 1950, além de sua identidade
do pela DST" em 5 de dezembro de 1958, fica liceu Condorcet, Alfred Adler, o mesmo entu· Adere a A Via Comunista ao lado de Guattari, de militante político, Guattari é visto como um
preso 10 dias - nessa ocasião é informado de siasmo por Sartre: "Eu sairia completamente de Gérard Spitzer, por quem tem grande es- especialista em teses lacanianas. Na Sorbonne,
sua expulsão do PC!. Mais tarde, em fevereiro nu pela neve para ir buscar Les Temps Moder· tima57, de Denis Berger e do futuro advogado desperta profundo interesse, pois é conhecido
de 1961, ele consegue organizar a fuga de seis
52
nes quando a revista era lançadà' • A aproxi- Simon Blumentbal. por difundir textos totalmente ignorados de
mulheres das redes de ajuda à FLN do presídio mação de Sartre com os comunistas leva Al- Até 1962, A Via Comunista é uma alavan- Lacan. Goza do prestígio de ser um teórico ca-
parisiense de Roquette. Entre 1958 e fevereiro fred Adler a aderir ao PCF em 1953, junto com ca eficaz contra os males da guerra colonial paz de entrar nesse pensamento muito obscu-
de 1965, A Via Comunista publica 49 números Michel Cartry, Pierre Clastres e Lucien Sebag. na Argélia, mas, com os acordos de Evian, a ro para os neófitos e, ao mesmo tempo, de ter
e conta com um público surpreendente para É ainda Guattari que induz Alfred Adler a to· hora é de desaceleração. AJnda restam alguns uma prática junto ao mundo da loucura por
mar distância de Sartre passando-lhe textos momentos de engajamento nesse local da suas atividades na clínica de La Borde: "Nes-
de Lacan: ''A partir daí, comecei a mudar de Rue Geoffroy-Saint-Hilaire. onde se reúne o sa época da Sorbonne, chamavam-me de 'La-
62
53
lado" . Contudo, politicamente, Adler ainda Partido Revolucionário Socialista da Argélia can' ... Eu aborrecia todo mundo com Lacan"
"N. de T.: Sigla de Direhion de la Sécurité du Territoire.
40 ""'"rnk Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 41

O encontro entre o psiquiatra Jean Oury e Isso explica em grande parte o caráter indes- No dia l' de setembro de 1953, ele escreve em mas que já está presente nos cursos de La-
Félix Guattari foi decisivo nesse aspecto. Em trutível da máquina bicéfala que constituirão seu diário em letras maiúsculas: "EU QUERO can de final de 1954 e início de 1955, a noção
1945, como se recorda, Félix ainda usa calças em La Borde, mas que deverá enfrentar fortes ESCREVER UM L!VRO", e no final do mês de máquina: "O sujeito como indivíduo-má-
curtas, tem apenas 15 anos e é aluno de Fer~ tempestades. Guattari faz a ponte entre Paris coloca-se a questão de saber qual poderia ser quina tem manifestações inconscientes que
nand Oury, que organiza então reuniões fre- e a clínica de Jean Oury em Saumery de mobi- o conteúdo dele: "Escrever! Eu quero escrever. não poderiam ser reintroduzidas no concreto
quentes com seus grupos de jovens dos A]. É lete: ''A gente passava noites inteiras discutin- Isso está se tornando uma necessidade im- sem um tratamento especial" 71 ; "Descartes: a
nesse contexto que o irmão de Fernand,jean, do, com um lado pitoresco, sobre o Rorschach. periosa ... Mas escrever o quê? Talvez comece máquina é o relojoeiro. Essas máquinas são
que está com 21 anos, encontra pela primeira Compunha música concreta, gravava os pássa~ pelas minhas dificuldades de escrever... Posso fundamentalmente humanas (Aragon saúda o
vez o jovem Félix em la Garenne-Colombes ros ou fazia aquilo que chamamos de 'mente fazer uma literatura filosófica. Escrever sobre relógio) .. :.n; "Se a máquina incorpora as formas
onde os dois residem. Quando Jean Oury vai aquática', que consistia em pegar objetos e fa- a morte, por exemplo? Mas não li nada. E por degradadas do conhecimento, tal como o de-
para Saint-Alban, as relações com Félix são zer frases em torno deles para estabelecer uma muito tempo ainda, não li nada sobre nada. As mônio de Maxwell, ela fará milagres. É aí que
temporariamente suspensas. Fernand, por sua nova sintaxe"65. lembranças da infância? Sím, evidentemente, está a inversão da inversão da entropia'm. A te-
vez, fica um pouco desamparado diante da Graças a Oury, Guattari descobre assim, de mas elas só vêm quando querem. É preciso mática maqulnica oposta à estrutura será mais
confusão de Félix, e o aconselha a visitar seu maneira precoce em relação ao resto do mun- trabalhá-las. CAVAR um primeiro buraco. Isso tarde um dos temas favoritos de Félix Guattari
irmão psiquiatra em dezembro de 1950. Jean do intelectual, os textos de Lacan sobre a "fase supõe um aprofundamento poético da situa- e, depois, da "dupla' Deleuze-Guattari 74 •
é responsável então pela clínica de Saumery do espelho", sobre a "agressividade" e sobre a ção. Tendo excluído o poético e o filosófico,
no Loir-et·Cher: "Fernand me disse: Acima família. Esses escritos têm tal efeito sobre ele resta-me optar pelo romanesco e pelo diário. O
de tudo, não vá quebrá-lo em pedacinhos'. Ele que aos poucos os aprende de cor e os reci- primeiro me assusta, o segundo me aborrece. Notas
não precisava de mim para se reduzir a peda~ ta a quem quiser ouvir nesses anos de 1951 e Poderia talvez fazer um romance no dia a dia 1. Jean Guattari, entrevista com o autor.
cinhos"63. Nessa época, Guatarri entra no curso 1952. Guattari assiste em 1953, no College de com eu, Micheline, }0. Uma moça ideal, etc.'! 2. Jean Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar-
de farmácia, que o aborrece profundamente: Philosophie, na Rue de Rennes, a uma confe- Alguma coisa que transmitisse e cristalizasse quivos IMEC, 15 de novembro de 1984.
em compensação, está fascinado com a ativi~ rência de Lacan sobre Goethe. O fascínio pelo aquilo que me prende. Escrever um livro foi o 3. Jbid.
dade psiquiátrica de Jean Oury. personagem é instantâneo. No final de 1954, grande mito de minha juventude"68• 4. Ibid.
Este último, em dezembro de 1950, aconse· Lacan o convida para assistir ao seu seminário Guattari fala então a "língua'' !acaniana, 5. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com
lha Félix enfaticamente a ler Lacan e inclusive em Sainte-Anne. Ainda havia pouca gente: "Eu escreve ao seu guru, que lhe responde e su- .Eve Cloarec, arquivos JMEC.
a mantê-lo a par das pesquisas deste, pois suas era o primeiro não psiquiatra, não médicd'66 a gere ocasiões de encontro, de discussões. Por 6. Félix Guattari, caderno n. 3, 27 de novembro
responsabilidades de psiquiatra o absorvem assistir ao seminário do mestre, que ainda não fim, acaba por se deitar em seu divã, anteci- de 1952, arquivos I'MEC.
demais, e o impedem de ir a Paris. Seis anos é então o must do parisianismo. Na mesma pando-se nisso a toda La Borde, a um custo de 7. Ibid., 19 de dezembro de 1952.
mais velho que ele, Jean Oury desempenha época, Félix descobre um campo que explora- 50 francos por sessão, um bom dinheiro para 8. Félix Guattari, caderno n. 4, 13 de janeiro de
junto a Félix Guattari o papel de confidente, rá com particular intensidade mais tarde, o da a época. Depois de convencer politicamente 1955, arquivos IME C.
novo substituto da figura paterna ausente. Em linguagem. O ano de 1953 é também o do fama· Claude Viviene e de instalá-lo em La Borde, 9. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com
seu diário, em 1952, Guattari menciona o que so discurso de Roma, no qual Lacan consagra ele o leva ao seminário de Sainte-Anne em Êve Cloarec, arquivos IMEC.
chama de 'A linha JO" (Jean Oury): "Nada de a prevalência dos métodos linguísticos para a 1956: "Lá fiquei realmente bastante impres- 10. Ibid.
proteção, deixar fazer desde que a pessoa não psicanálise. Mas Lacan não é para ele o único a sionado, porque ouvi alguém que se destoava 11. lbid.
se machuque concretamente (corte e ferimen- introduzi-lo nessa questão: "Pela primeira vez totalmente dos professores da Sorbonne que 12. Félix GUATTARl, La Révolution moléculaire,
to) ... Para isso, é preciso silêncio e pouca emo- coloco o problema da linguagem. Passei a me eu conhecia e que tinham sua importância: Encres, Recherches, Paris, 1977, p. 11-12 (do-
tividade. Ser simples""'. Aos 26 anos, Jean Oury interessar por ele a partir de Lacan e de suas Vladimir Jankélévitch, Jean Wahl, Ferdinand ravante citado lli\A).
já é um psiquiatra experiente. De suas intermi- invectivas contra Blondel. A partir de lzard e de Alquié. Fiquei seduzido, e depois foi Félix que 13. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com
náveis discussões, emergem alguns conselhos seu amor pela poesia acima de tudo. A partir me mandou para o divã de Lacan" 69• Em 1954, Eve Cloarec, arquivos IMEC.
de orientação profissional. Jean Oury o apoia de Roudant, a quem expliquei o quanto come- a atividade intelectual de Guattari é quase 14. Ibid.
em seu desejo de abandonar os estudos de far· ço a compreender agora seu projeto. Não existe que exclusivamente consagrada a Lacan: 15. lbid.
67
mácia e o encoraja a entrar em um curso de pensamento sem encarnação na linguagem" • "Sou filósofo? Sou apenas estudante de filo· 16. A pedagogia institucional foi elaborada por
filosofia. Faz a Félix algumas recomendações Além do interesse pelo funcionamento da sofia? Minha atividade destes últimos tempos Fernand Oury. Seu objetivo era estabelecer
de leitura a respeito: além de Lacan, Sartre, língua nesse momento em que a linguística contém uma marca de preocupação filosófi- regras de convivência dentro da escola que
Merleau-Ponty... Tal foi o papel fundamental está virando moda, existe nele a vontade de ca: os cursos de Lacan"70• favorecessem a tomada da palavra pelos alu-
desempenhado por Jean Oury na vida de Guat· expressar, de fazer obra, que é o tema mais Suas anotações deixam transparecer um nos e a ajuda escolar em estreita colaboração
tari e a força da rêÍ'ação que nascerá entre eles. recorrente e que o perseguirá por toda a vida. tema que Guattari sistematizará mais tarde, entre professores e alunos. Com essa pedago-
42 Françoís Dosse

gia, Oury pretendia propor uma alternativa às --------------------------------------------~G~il~le~s~D~e~le~u~z=e~&~F~e-/~ix~G~u~at~ffi~r~i--~43


escolas-casernas. 39. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com
Eve Cioarec, arquivos IMEC, 23 de agosto de 60. La Voie communü;te, n. 36, jun.-jul. de 1963.
17. Félix Guattari, caderno n. 3, 14 de novembro
de 1952, arquivos IMEC.
1984.
61. Fé~ix Guattari, entrevista com f:ve C!oarec, ar- 69. Claude Vivien, entrevista com Virginie Li-
40. Jean Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar- qUivos IMEC, 10 de julho de 1984. nhart.
18. Félix Guattari, entrevista autobiográfica, ar- 62. Ibid.
quivos IMEC. quivos IMEC, 15 de novembro de 1984. 70. Félix Guattari, caderno n. 4, 24 de maio de
41. Félix Guattari, caderno n. 4, 26 de novembro 63 1954, arquivos IMEC.
19. Ibid. · Jean OURY, 1/, donc, Matrices, Paris (1978),
de 1954, arquivos IMEC. 1998, p. 25. 71. Féli_x Guattari, "Cahier Lacan 1954-55", ano"
20. Félix GUATTARJ, '}ournal!97! ",La NRJ.: outu-
bro 2002, n. 563, p. 220.
42. Denis Bergec entrevista com o autor. 64. Félix Guattari, caderno n. 2, 2 de outubro de taço~s de curso de 15 de dezembro de 1954,
43. La Vaie communiste, n. l, janeiro de 1958, ar- .1952, arquivos IMEC. arquivos IMEC.
21. Jbid. [N. de T.: Com a tradução, perde-se o en- quivos IMEC. 65. Jean Oury, entreviSta com 0 autor. 72. lbid., anotações de 12 de janeiro de 1955.
cadeamento fonético do original; "Mais oui,
mais oui! 18.rmoire, la Dame de moire, l~u·me
44. Título de La Vaie cammuniste, n. 3, abril-maio 66. Fé~ix Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar- 73. lbid, anotações de 20 de janeiro de 1955.
de 1958, arquivos BDIC. qmvos IMEC, 29 de agosto ele 1984. 74. Félix GUATTARI, "Machine et structure" e -
noire, J'armoise, les armes de moi, la mouise
des années trente, mon pere avait fait faillite 45. La Voie cammuniste, n. 20, fevereiro de 1961, 67. Félix Guattari, caderno n. 3, 28 de março de p~sição feit~ à Escola Freudiana de Paris: p~­
arquivos BDIC. 1953, arquivos IMEC. bhcada em Change, n. 12; republicado em Félix
en se lançant, avec làppui de cette tante Émi-
lia, dans I'élevage du lapin angora .. :'J 46. Ver capítulo 2. 68. Ibtd., fim de setembro de 1953. GUATTARI, PT, reeel., p. 240-248.
22. Félix Guattari, entrevista com Êve CJoarec, ar- 47. Denis Berger, entrevista com o autor.
quivos IMEC, 10 de julho de 1984. 48. No dia 17 de março de 1960, é enviado um t€-
23. Micheline Guillet (Kao), entrevista com Eve legrama ao presidente da República, ao chan-
Cloarec, arquivos 1MEC, 20 de setembro de celer e ao ministro do Exército pela libertação
1984. de Gérard Spitzer, assinado por Élie Bloncourt,
24. Ibid. Claude Bourdet, Albert Chatelet, Gílles Marti-
25. Jean Guattari, entrevista com Virginie Linhart. net, Daniel Meyer, Mareei Prenant, Oreste Ro-
senfeld, Jean-Paul Sartre, Laurent Schwartz.
26. Félix Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar-
Texto em La Voie communiste, n. 12, abril de
quivos lMEC, 23 ele agosto de 1984.
1960, arquivos BDIC.
27.· Ibid., 10 de julho de 1984.
49. "Le Manifeste des 121 ",La Vaie communiste, n.
28. Félix Guattari, caderno n. 4, 1 de novembro de
16, setembro de 1960. Primeira publicação do
1953, arquivos IMEC.
texto que se pronuncia sobre a insubmissão.
29. Félix Guattari, caderno n. 1, janeiro de 1951, 50. Michel Cartry, entrevista com o autor.
arquivos IMEC.
51. Ibid.
30. Félix Guattari, caderno n. 2, 4 de outubro de
52. Alfred Adler, entrevista com o autor.
1952, arquivos IMEC.
53. lbid.
31. Ibid., 1952.
54. Ibid.
32. Ibid., 8 de outubro de 1952.
55. Claude Vivien, entrevista com Vírginie Li-
33. Ibid., 13 de outubro de 1952.
nhart.
34. lbid., 24 de outubro de 1952.
56. Ibid.
35. Félix GUATTARI, ''Plutôt avoir tort avec luí",
57. Gérard Spitzer tem a auréola de seu passado
Libération, 23-24 de junho de 1990.
de resistente. Seu pai, médico judeu húngaro,
36. Ouvriers face aux appareils, une experiénce de fOi deportado. Ele se engajou na Resistência
militantisme chez Hispana-Suiza, Maspero, Pa~ em Grenoble e foi responsável pelo FTP de Pa-
ris, 1970, p. 39.
ris em 1943, aos 15 anos de idade.
37. Félix Guattari, caderno n. 3, 27 de novembro 58. Entrevista com Mohammed Boudiaf, La Vaie
de 1952, arquivos IMEC.
communiste, n. 31, nov.-dez. de 1962, arquivos
38. Félix GUATTARI, "Journal197!", 10-23 de se- daBDIC.
tembro de 1971, La Nauvelle Revuefrançaise, n. 59. La Voie communiste, n. 23, jun.-jul. de 1961, ar-
563, outubro de 2002, p. 349. quivos da BDIC.
Gilles Deleuze & Félix Guattari 45

dado em 1921 pelo doutor Tissot, está na ori- Réus, onde se perpetuou durante um século

2
gem da instituição de La Borde. Uma mudança uma tradição fundada na atividade de centros
radical da prática psiquiátrica se cristalizou no de leitura. Participou cedo de uma experiência
fim da Segunda Guerra Mundial nesse hospital inovadora da Comunidade da Catalunha, e ali
de tipo particular, privilegiado pelo isolamen- aprendeu com o professor Mira e Lopes urna
to. A contestação encontrará em Saint-Alban organização original dos serviços de saúde,
um de seus redutos prediletos, pois o hospital amplamente inspirada na psiquiatria alemã.
La Borde, entre mito e realidade abrigou toda uma rede de resistentes durante Quando Tosquelles atravessa a fronteira fran-
a guerra. Foram acolhidos insubmissos e resis- cesa, leva com ele uma obra, que se encarre-
tentes, como também alguns grandes intelec- gará de traduzir para o francês, do alemão
tuais que passaram uma temporada ali. Desde Hermann Simon, a propósito de sua experiên-
as reformas de Pierre Balvet, que permitiram cia de Guttersloch, segundo a qual é preciso
transformar os executantes, que eram os enfer- cuidar da instituição psiquiátrica tanto quan-
meiros, em cuidadores legítimos, os doentes se to dos doentes, estimulando as atividades de
beneficiam de uma humanização do funciona- trabalho e de criação de toda a comunidade
3
mento asilar. Lucien Bonnafé, o novo diretor do hospitalar •
hospital a partir de 1942, comunista e chefe do As posições vanguardistas de Tosq uelles
maquis''' da alta Lozere, permite aos doentes encontram um quadro propício no hospital de
sair do recinto do asilo e travar relações com a Saint-Alban, graças ao clima de efervescência
Um lugar mítico no campo, o castelo de La lembra que estamos em Sologne. Nas proximi- população do entorno. intelectual que se desenvolveu ali durante a
Borde abriga uma clínica psiquiátrica singular, dades, há uma sala de espetáculos que podere- A chegada, em 1939, de uma forte perso- guerra. Esses psiquiatras são quase todos da
na qual se trata a loucura de maneira diferen- ceber uma centena de pessoas e uma pequena nalidade, François Tosquelles, mudou total- mesma geração; com menos de 30 anos, eles
te. La.Borde tornou-se ao longo do tempo uma capela transformada em biblioteca. Foi ali, na mente os hábitos. Esse psiquiatra catalão foi têm o mundo a reinventar. Com a iniciativa da
utopia realizada - o movimento ali é testado comuna de Cour-Cheverny, na região central. responsável pelo serviço psiquiátrico do exér- criação de um clube dos doentes do Hospital
e provado em processo. Brecha na tradição do não longe de Chambord e a 15 quilômetros de cito republicano espanhol. Militante do POUM Saint-Alban, Tosquelles encontra seu lugar em
aprisionamento do mundo da loucura, a expe- Blois, que tomou corpo essa experiência coleti- (Partido Operário de Unificação Marxista, de um trabalho coletivo intenso que leva à criação
riência realizada em plena Sologne, no Dépar- va que pretendia reinventar o mundo, manten- orientação trotskista), ele fugiu da Espanha de uma sociedade erudita, chamada de Socie-
1
tement du Loir-et-Cher, parece reatar com ou- do-se à parte de seus sobressaltos . franquista, atravessando os Pirineus a pé até dade do Gévaudan: "Para preparar um futuro
tras modalidades, pré-cllnicas, da indistinção chegar ao campo de refugiados espanhóis de feliz, falava-se da psiquiatria, tratava-se de re-
de loucos e de homens dotados de razão, da Sept-Fons. Informado por outro psiquiatra ca- ver de maneira crítica os conceitos de base e
normalidade e da patologia, sem com isso ne- A filiação da psicoterapia talão, Angels Vives, a respeito do confinamento 4
os tipos de ação possíveis" • Em 1952, quando
gar o horizonte medicalizante necessário para institucional de Tosquelles nesse campo, Pierre Balvet, que Bonnafé é chamado para um cargo em Paris,
responder ao delírio psicótico. conhecia bem a reputação desse "psiquiatra Tosquelles se torna médico-diretor do hospital.
Mundo à parte, o navio labordiano navega Na origem desse mundo à parte, uma lei vermelho", vai libertá-lo e o leva para a clínica O contexto global da Resistência, a espe-
no espaço aberto de um vasto parque de 18 da primeira metade do século XIX define em de Saint-Alban, para que ele contribua com sua ra das remessas de armas por paraquedas,
hectares em cujo centro desponta o velho cas- !838 o estatuto jurídico dos "estabelecimentos experiência e seu desejo de renovação. os acolhimentos dos maquisards, os vínculos
telo de um século que, no início da aventura, públicos destinados aos alienados". Pode-se Tosquelles se iniciara na psiquiatria aos 16 construídos com a população vizinha: tudo
abriga o essencial do dispositivo clínico, com considerá-la como uma peça-chave da políti- anos. Aos 24, quando os republicanos espa- isso faz do hospital de Saint-Alban um meio
seus gabinetes, a cozinha, os salões, a enferma- ca de aprisionamento e do poder abusivo dos nhóis tiveram de enfrentar o pronunciamiento aberto que trabalha com os camponeses e
ria, a lavanderia e os quartos nos andares supe- alienistas. Contudo, ela pode ser vista também do general Franco, ele já era médico psiquiatra com os soldados do país e que se engaja naqui-
riores. O castelo é ladeado de alguns pavilhões como uma forma de proteção contra o arbí- fazia quatro anos no Instituto Pere Mata de lo que a Sociedade de Gévaudan qualificou de
aos quais está ligado. A certa distância, uma es- trio: 'A lei de 38 era uma lei que, bem utilizada, "geo-psiquiatria", isto é, a inserção da ativida~
tufa, uma horta e, mais adiante, no bosque, um permitia a defesa da pessoa ao mesmo tempo de psiquiátrica nas tradições locais. Esse meio
centro de equitação, galinheiros, chiqueiros. Ao contra sua família e contra as usurpações das "'N. de R. T.: Lugar retirado, geralmente nas montanhas ou montanhoso implica urna prática médica rni-
2
lado do castelo, um cedro centenário se impõe, autoridades administrativas municipais" • nas florestas, onde se agrupava a Resistência armada du-
grante, que consiste em buscar os doentes em
Um local memorável da renovação psiquiá- rante a segunda guerra mudial. Diz-se igualmente, de um
até ser abatido mais tarde por uma tempesta- grupo de resistentes da Ocupação. Por extensão, maqui- suas casas e em assegurar o acompanhamento
de, e um pouCé~ mais-àfrente um grande lago trica, situado em Saint-Alban, em Lozêre, e fun- sard é aquele que resistiu, na Ocupação, em um maquis. pós-cura no domicílio.
46 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 47

O elo entre o hospital e a Resistência era tão que falavam, até que no mês de maio ouço um uma verdadeira tribo: "Saumery é o período marxista-leninista ainda em voga nesse ano
orgânico que o recrutamento dos internos esta- sujeito; digo a mim mesmo: 'Enfim, alguém in- que chamei de 'portas fechadas">1 3. Em Sau- do desaparecimento do "pai dos povos". O
va estreitamente ligado às redes da Resistência teligente'; era Lacan, e isso permanece" 8• Essa mery, Oury concebe sua prática psiquiátrica segundo princípio, que prevê a precariedade
local. O diretor, Lucien Bonnafé, orquestra essa conferência determina sua vocação. Até então na linha de Saint-Alban: 'A psiquiatria sem dos estatutos, corresponde à utopia comunis-
atividade. Recebe Paul Eluard, que transforma ele vacilava entre o curso de física-química e a essa articulação é mistificação. Tosquelles fa- ta segundo a qual toda pessoa deve ser capaz
Saint-Alban em plataforma de edição clandes· psiquiatria: a voz/via de Lacan decídiu por ele. lava do heterogêneo policêntrico e ao mesmo de passar do trabalho manual ao trabalho in·
tina, assim como importantes agentes de liga- Contudo, ainda demorará para estabelecer um tempo do transdisciplinar. Não se pode cuidar telectual e vice-versa: qualquer um na clínica
ção da Resistência, entre os quais Georges Sa- contato pessoal com seu mestre: "Somente em de alguém sem levar em conta seu trabalho, pode ser convocado a passar da atividade de
1
doul e Gaston Baissette. Encontra seu seguidor outubro de 1953 é que o vejo em análise, e isso sua infância, sua situação material" 1' • Quando cuidados médicos a tarefas de limpeza, de co-
no curso de medicina que faz em Toulouse, o durou até 1980: 27 anos! À razão de duas vezes os proprietários da clínica manifestaram a in- ordenação de oficinas de criação ou, ainda, de
filósofo Georges Canguilhem, então comissário por semana, pois sou incurável"9• Jean Oury tenção de retomá-la e se opuseram a todas as preparação de espetáculos. Um mecanismo
adjunto da República em Clermont-Ferrand: participa, assim, de toda a aventura lacaniana; propostas de organização, Oury decidiu levar a de revezamento das tarefas é sistematizado.
"Tudo isso teve um papel muito importante a cisão de 1953, a fundação da Escola Freudia- experiência para outro lugar. O terceiro princípio, antiburocrático, institui
na aventura de Saint-Alban, esse lado muito na de Paris em 1964, e se ocupa durante quatro Oury havia conseguido ampliar a estrutu- uma organização comunitária com a coletivi-
misturado à guerra, ao movimento da guerra anos da comissão de adesão, ao lado de Lacan, ra de acolhimento para quarenta leitos, mas, zação das responsabilidades, das tarefas e dos
em todos os sentidos: a resistência local, os de Serge Leclaire e de Mustafa Safouan. isolado em Saumery, único responsável pelas salários. Sem se reivindicar um programa que
maquis de Auvergne, com o monte Mouchet, a questões psiquiátricas de todo o departa· posteriormente terá um nome, o de "psico-
resistência intelectual, a edição clandestina'' 5• menta, ele também tinha muita vontade de terapia institucional", já é possível demarcar
Essa experiência irá se revelar determinante na Um novo construtor: Jean Oury ir embora e de criar sua própria instituição. A todas as temáticas dessa corrente inovadora:
abertura de La Borde: segundo Jean Oury, cons- oportunidade surgiu em abril de 1953, quan- 'A permeabilidade dos espaços, a liberdade de
tituirá seu "crisol", sua "matriz" 6• Jean Oury permanece em Saint·Alban até do descobriu que o castelo de La Borde, a dez circular, a crítica dos papéis e das qualiflca-
No imediato pós-guerra, numerosos jovens 1949, quando então é chamado para substituir, quilômetros dali, estava à venda. Ele o adqui· ções profissionais, a plasticidade das institui·
internos optam pelo Saint-Alban. Jean Oury em Saumery, um amigo de Tosquelles, Solanes, riu e levou consigo quase todos os doentes de ções, a necessidade de um clube terapêutico
chega lá em setembro de 1947, com toda uma que partiu para assumir um hospital em Cara- Saumery e seus oito cuidadores. O estado do dos doentes" 15.
geração que se fOrma nessa escola7• O contato cas. Assim, Oury chega a Loir-et-Chair para um castelo era tal, na época, que não encontrava Um texto pomposo define ironicamente
com Tosquelles é imediato. Oury é portador período que não deveria durar mais do que um comprador. Do castelo cercado de construções essas orientações: "Ontologia para uma feno-
de um projeto que concebeu aos 18 anos, em mês e acaba se transformando em instalação em ruína, apenas o térreo e um andar eram ha- menologia não dedutiva', com um subtítulo
1942: constituir um grupo de trabalho entre definitiva, até 1953. O castelo do século XVII de bitáveis. Além disso, La Borde era bastante iso- mais curto: "La menthe àl'eau"'~. Trata-se de se
colegas, suficientemente libertário. Ele está Saumery é então a única clínica psiquiátrica lado, pois o vilarejo mais próximo encontrava- situar em uma postura criativa caminhos não
impregnado, como Guattari, da experiência de do departamento. Essa clínica privada "prati· -se a quatro quilômetros, e a primeira cidade, traçados da maneira mais inspirada, deixando
seu subúrbio de origem, a Garenne-Colombes, camente não funcionava mais, e tinha apenas a treze. Esse nascimento é acompanhado de que o acaso e a espontaneidade ajam, como
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dos A], de movimento de jovens muito ativos doze leitos" • É lá, em Saumery, na clínica de imediato de um reconhecimento pelo meio teorizaram os surrealistas. Oury invoca nesse
desde a Libertação. Nascido em 1924, Jean La Source, que se forma a futura equipe de La psiquiátrico: desde 1954, os psiquiatras Lou- campo a influência de Lacan, mas também de
Oury vem da camada popular: seu pai era po· Borde: "Sob muitos pontos de vista, os anos de is Le Guillant, Évelyne Kestemberg e Georges Francis Ponge: "Desviar o objeto é o procedi·
lido r na Hispano-Suiza, a grande e prestigiosa 1950 a 1953, o período da clínica de La Source, Daumézon procuram discutir com Oury e lhe mento de Francis Ponge. Fazer surgir aquilo
empresa de La Garenne. são o ápice da história labordiana"ll. enviam seus doentes. que Lacan chama de Coisa. Lá se toca uma
Jean Oury chega a Saint-Alban com o texto Nesse microcosmo, com um número muito Com a criação de La Borde, começa uma certa superfície, uma semântica que se reporta
de uma conferência de Lacan do mês de maio limitado de doentes, define-se um certo estilo aventura nova e revolucionária. Seu idealiza- diretamente ao acolhimento çie psicóticos" 16 •
de 1947 que se tornará para ele a referência de vida coletiva. "Tratava-se de um grupo bas- dor batiza a clínica conferindo-lhe, com certa Desde o início, além da paixão por sua fun-
mais importante ao longo de seu percurso psi- tante unido a partir de pessoas que tinham se dose de humor, uma constituição dita do "ano ção de terapeuta-psiquiatra, Oury tem o maior
quiátrico. Ocorre que o psiquiatraAjuriaguerra conhecido nos Albergues da Juventude ou no !",instaurada desde a abertura do estabeleci- interesse pela criação, à qual consagra sua
organizou com seu colega Georges Daumézon subúrbio de origem de Oury- La Garenne-Co- mento, em abril de 1953. Essa carta fundado- tese. Ao fazer a ligação entre criatividade e lou-
e com o sociólogo Georges Gusdorf uma série lombes -, ao qual se juntaram alguns ami· ra institui o princípio comum do coletivo de cura, ele pretende contestar a ideia segundo a
12
de intervenções da Rue d'Ulm para dar con· gos" • Todas as pessoas das relações de Jean trabalho como grupo terapêutico segundo
tinuidade ao congresso de Bonneval de 1946, Oury passam um tempo ali, para ajudar nos três princípios organizadores. O centralis-
cuidados ou nas oficinas de animação nos fins "'N. de R. T.: Literalmente pode traduzir-se como "a men-
no qual Lacan havia desenvolvido a tese da mo democrático assegura a preeminência ta na água" ou "chá de menta" (hortelã), e aponta para o
causalidade psíquica: "Vi ..desfilarem pessoas de semana ou durante as terias, constituindo do grupo gestor e responde a um princípio tom irônico do subtítulo.
----------------......
48 Dosse
Gilles Deleuze & Félix Guattari 49

qual a loucura só comporta negatividade: "Eu direção e o presidente. No início da aventura, o


entre os dois amigos. Embora Guattari conti-
apresentava essa criação como uma espécie de funcionamento da direção é permitido apenas minhado por Oury a Tosquelles, em Saint-Al-
nue sendo o preposto para as relações exter-
defesa biológica: tentativa de reconstrução do aos monitores, com a exclusão dos doentes, ban, para ficar internado por algum tempo a
~~s, incu~~em-no também do clube terapêu-
fim de -e~capar do serviço militar e da guerra
17
mundo, função de vicariância ... " Nessa tese, mas as coisas mudam quando se percebe que
tico da chmca e da organização do trabalho.
Oury estabelece uma conexão entre a fissura muitos doentes são plenamente capazes de as- da Argeh~. Nessa ocasião, ele avalia o quanto
Com a instal~çã? de Guattari, La_ Borde logo
provocada pela lesão psíquica do psicótico e sumir responsabilidades administrativas. Essa pode ser msuportável para um paciente estar
se tor~a uma maquina bicéfala". E essa dupla
uma auto produção: "O próprio delírio é produ- sociabilidade é mantida em La Borde por uma submetido a enfermeiros autoritários. Os de-
18 de amigos que permitirá superar todas as pro-
tivo ... Eu falava de 'co nação' estética" • profusão de comitês de oficinas e de reuniões bates desses anos de 1950 tratam da influên-
vas e manter o rumo de uma instituição que
Oury dirá que uma clínica não deve ser de todo tipo. A direção do clube comanda ofi- Cia de Sartre e de suas teses existencialistas
produz desequilíbrios para enfraquecer suas
confundida com uma "indústria de calçados". cinas que se ocupam do jornal dos internos, La bases e manter-se receptiva às inovações. A dis~u~são com Oury sobre as relações en~
O grupo terapêutico de La Borde deve se des- Borde-Éclair, da atividade de pirogravura, do tre medicos e enfermeiros é reveladora dessa
Guattari é mais atraído pela aventura in-
fazer do funcionalismo com suas seções, suas coral, do teatro de marionetes, etc. Ela tam- preocupação de disfuncionalizar: "A perspecti-
telectual encarnada pela experiência labor-
especializações e sua hierarquização. Ele não bém supervisiona a tesouraria e dispõe, para v~ central é, portanto, exatamente o desapare-
drana do que pelo mundo da psicose: "É mui-
quer reproduzir o que se passa nos hospitais isso, de autonomia financeira em relação à clí- cimento de determinados papéis, de estereóti-
to curioso, mas é verdade que eu não estava
clássicos, que empregam ergoterapeutas ou nica: "Estabelece-se assim uma estrutura fOr-
mui.t~ interessado na loucura'm. Ao contrário,
po_s: 0 mesmo deve ser feito pelo louco e pelo
socioterapeutas fechados em sua especia- mal, democrática, de representação dos inter- a atiVIdade de organizador e de coordenador medico ou pelo enfermeiro, para alcançar uma
lidade e separados do resto do pessoal. A re- nos"'-w. Para envolver todos os funcionários nas promoção de relações humanas que não mais
se a~.aptava perfeitamente ao militante polí-
volução deve ser permanente ali, assim como relações com os doentes, decide-se implantar,
tico: Eu tmha esse comportamento militante co~~uz~~ automaticamente a papéis, a este-
a reflexão, que deve seguir passo a passo as sete meses após a criação da clínica, uma co- reotipas - . Em La Borde, os enfermeiros são
um pouco rí~do em face dos funcionários que
iniciativas práticas para avaliar sua possível missão de cardápios: fazer o cozinheiro sair da monitores sem jaleco branco, e não se distin-
estavam murto surpresos ao ver se introduzir
fecundidade. cozinha e, ao contrário, fazer com que mais guem dos doentes. Com humor, Oury inverte
uma disciplina de funcionamento, um estilo
Uma das questões particularmente delica- pessoas participem das atividades da cozinha de reunião, de controle das tarefas" 23• A vida ?s valores estabelecidos segundo os quais a
das cliz respeito à retribuição salarial do traba- ajuda a desenclausurar, a acabar com as espe- mternação de um louco se reveste de um ca-
cotidiana na clínica não é de tato muito tran-
lho realizado em La Borde. O princípio de início cializações e a desencadear uma dinâmica de ráter definitivo. Ao contrário, ele considera
quila.. Antes da adoção dos neurolépticos e da
adotado, bastante complexo, é o da definição homogeneização do grupo.
q~mwterapia, os conflitos com os doentes po-
os doent~s.como passageiros, ao passo que o
do salário em função de um coeficiente esta- Essa política voluntarista não está isenta diam acabar em pugilato, e não era raro rece- corp? medico, este sim, é o elemento estável,
belecido provisoriamente segundo uma pon- de resistências e conflitos, pois atinge em cheio enraizado e crônico. Desde o início da aven~
ber uma cafeteira ou qualquer outro utensílio
deração de critérios ligados à dificuldade da a especialização de cada um. As tensões cria- na cabeça. tu_ra, e depois em Saint-Alban, encontra-se
tarefa e à sua capacidade terapêutica. Desde a doras devem suscitar uma atenção constante Guattari, já então chefe de bando, enfrenta a mtuição de que existe verdade no discurso
criação de La Borde, Oury implanta o Clube da à alteridade nesse lugar onde a psicose inter- com .determinação e põe em prática seus co-
do louco. Sem fetichizar o delírio, procura-se
Clínica, baseado no modelo de Saint-Aiban: "O pela sempre de maneira diferente as lógicas n:le uma parte de criatividade à qual o olhar
n~~cimentos de judô para imobilizar se neces-
primeiro gesto do doutor Odin [trata-se na ver- racionais. As trocas comunitárias implantadas sano qualquer veleidade de violência. Quanto clmrco deve estar atento, o que "foi chamado
dade de Jean Oury] foi procurar um lugar com nas instituições labordianas visam tirar os in- de dimensão transcendental do Ioucd' 25,
.aos ~ncionários, eles dispõem de vários locais
cadeiras e uma mesa para vender sabonetes divíduos do isolamento, arrancá-los de suas d.e diScussão para se expressar, e o diálogo Guattari logo se incumbe pessoalmente de
ou canetas esferográficas, jogar cartas ou ler tentações mortíferas, romper com a compul- alguns doentes, como Jack Briere, que chega a
19 aJ~da a neutralizar os litígios e a recuperar a
revistas" • Assim como em Saint-Alban, o ob- são de repetição, recriando permanentemente La Borde em 29 de janeiro de 1959. É recebido
flmdez necessária. Muito diretivo, Guattari co-
jetivo era criar um espaço social não tributário novos grupos-sujeitos. O objetivo da aplicação por Guattari, que fará psicoterapia individual
meça a acompanhar alguns doentes e se mos-
das relações hierárquicas de poder, um lugar dos princípios dessa terapia institucional não é c?m ele e o acompanhará. até que deixe a clí-
tra particularmente intervencionista em face
de trocas entre cuidadores e doentes, monito- tanto criar o relacional como tal, mas sim "de- daqueles que se refugiam em seu leito. Ele os mca em 1967. O tratamento de Jack Briêre, às
res e enfermeiros, pessoal de serviço e médi- senvolver novas formas de subjetividade"21 •
I~tlma a sair do quarto e a se dedicar às ati- vo_lta~ co~ _a_ngústias fóbicas, é inteiramente
cos. Esse clube não é nem um pouco marginal Félix Guattari mantém Jean Oury a par de classico: Fehx Guattari não falava. Eu deita-
VIda?e_s ?revistas na grade de horário. Entre o
na vida da clínica. Ao contrário, concede-se a suas atividades políticas, sobretudo do semi- semmano de Lacan que acompanha regular- va_:m seu,divã. Ele ficava atrás e ouvia" 26.Jack
ele a melhor parte do castelo, o grande salão nário de Lacan, que ele acompanha regular- Bnere s.era durante quatro anos presidente e
mente e o ter~eno labordiabo, Guattari adquire
do térreo e o pequeno salão contíguo. Abre- mente desde os anos de 1950. Convidado a uma verdadeira formação psiquiátrica. te.so~relro da Assembleia Geral dos internos.
-se ali um bar onde se encontram bebidas sem ir para La Borde, Félix instala-se ali com sua Guattari flexibiliza seus métodos quando DISpo,e de uma efetiva autonomia financeira,
álcool, cigarro. Uma assembleia geral deve ser companheira Micheline Kao em 1955. A divi- mant_e~ o registro contábil, gere uma conta
s~ :ncontra do outro lado do espelho na con-
realizada ;;'cada ql.linze dias para designar a são de competências se modifica um pouco diçao de paciente. Na verdade, em 1957 é enca- ba~cana em Blois e, por outro lado, se bene-
ficia da generosidade de Guattari, que lhe ga-
50 François Dosse Gi!les De!euze & Félix Guattari 51

rante o dinheiro necessário para a compra de teatro, representada à medida que ele escreve, tar com o mundo da loucura. O papel desses da mais o contato com La Borde, e sua mu-
!ívros sobre a metalurgia, sua paixão, e que lhe que, com duração de quase uma hora, é apre- "bárbaros", como Oury os chama outras vezes, lher, Christiane, decide se tornar monitora ali,
servirão mais tarde quando fizer o curso do sentada na clínica com o título de Exotique Oc- é muito importante, na medida em que a clíni- vivendo dois anos na clínica, onde nasce seu
Conservatório de Artes e Ofícios. ]ack Bri€re cident. O cineastajacques Baratier, seu amigo, ca cresce rapidamente - ela passa de 48 doen- filho.
fica aturdido diante do ritmo de Guattari, que que o visita sempre em La Borde, lhe dedicará tes em 1955 para 90 em 1958. Esses "bárbaros" O companheiro ele colégio de Cartry, Alfred
é apelidado por um ele seus colegas ele "Speedy um belíssimo filme em 2004, no qual Laurent advêm do mundo da cultura e da militância Adie r, também futuro antropólogo, vive ames-
Guatta"'. Quando se pergunta a Jack Briere o Terzieff encarnao papel de jacques Besse, em política. Os primeiros a chegar são os fllósofos ma experiência fascinante de La Borde e na
que Guattari lhe proporcionou, ele responde: grande parte escrito por ele mesmo, que dá elo "bando de Félix", que optam, quase todos, época considera Félix como seu "guru". Esses
"Viver. Ele estimulava as pessoas a realizar seu respostas do tipo: "Não procure a doença atrás pelas ciências humanas: Lucien Sebag, Michel "bárbaros" são chamados, aliás, de "soldadi-
»31
desejo e, quanto a mim, encorajou-me a fazer daspaIavras, mas o poeta . Cartry, Alfrecl Adler, Claude Vivien e a futura nhos de Guattari". Buscando como tantos ou-
28
escultura'' • Para sair do duplo impasse dos grupos psiquiatra Ginette Michaud. O local de encon- tros escapar da guerra, Alfred Adie r apresenta
Entre os pacientes, existe um a quem Guat- grandes demais ou da mera relação dual entre tro dos "bárbaros" com Félix é a biblioteca ela seu dossiê no Centro Hospitalar Universitário
tari é particularmente apegado, grande artis- cuidador e doente, decide-se em La Borde criar Sorbonne, lugar privilegiado de sociabilidade ao doutor Lebocivi, que o encaminha à clínica
ta, poeta e músico que aterrissou ali em 1955 pequenas unidades: "Tínhamos assim seis ou política: o bibliotecário Romeu, além de ser ele dirigida por um amigo de Guattari, Claude Je-
e permaneceu até sua morte em 30 de maio sete grupos com nomes bizarros. Houve um, grande ajuda por seu saber enciclopédico, ini- angirard, a uma dezena de quilômetros de La
ele 1999:Jacques Besse, nascido em 1921, faz depois de 1970, que foi chamado ele 'grupo dos cia os estudantes de tllosofia na política, con- Borde. Com isso, ele pode ir todos os dias a La
um curso médio brilhante e ingressa na classe desarvorados"':l 2 • Depois, passamos à constitui- duzindo-os na via do engajamento comunista. Borde, situada em Cour-Cheverny, e participar
preparatória, estuda filosofia e se torna diretor ção ele unidades terapêuticas ele base (UTB) Para Guattari, os caminhos da renovação da ao lado de Guattari de todas as atividades. É
musical da companhia de Charles Dullin em que têm como função estar na medida certa militância política passam por La Borde, onde ainda em La Borde que Claude Vivien escreve
1943. Na Libertação, assina algumas músicas para conseguir modificar a consistência sub- ele convoca seu "bando" a se investir nas ativi- seus primeiros textos sobre Freinet: ''A gente
36
de filme para Yves Allégret, Alain Resnais, e jetiva dos pacientes. Essas unidades restritas dades da clínica. dormia no castelo em saco de dormir" •
compõe úm concerto para piano. Em 1950, de composição numérica variável, mistas, pois Tão logo La Borde é criada, na primavera Quanto a Ginette Michaud, lança-se nos
retornando sozinho a pé de uma viagem à AJ'~ compreendem tanto internos como monitores, de 1953, Michel Cartry é convidado para lá. cursos de medicina e de psicologia. Para ela, La
gélia, sua vida sofre uma reviravolta. Vagueia tornam-se então unidades indivisíveis de quin- "Vivemos La Borde como uma grande utopia. Borde é decisiva nesse aspecto, onde se insta~
então de prisão em hospital psiquiátrico até ze pessoas, cuja lei se impõe aos indivíduos Lembro de Oury vindo nos buscar na estação lará como psicóloga: "O conceito de transver-
que Oury e Guattari o acolhem em La Borde, que são seus membros. A UTB eleve funcionar de Blois. Passamos uma noite inteira em seu salidade fui eu que inventei e transmiti a Félix
37
abrindo-lhe as colunas da revista Recherches, corno um lugar privilegiado do sujeito para gabinete comentando Diário de um Sedutor de para que trabalhasse sobre ele" • Na época, Gi-
29 34
que publica alguns de seus escritos . atenuar a dificuldade que o indivíduo sente Kierkegaard" • O futuro antropólogo é incum- nette Michaud vive com Lucien Sebag, jovem
Regularmente,Jacques Besse tem vontade de centrar bem sua fala e seu comportamento. bido do acompanhamento de um jovem esqui- filósofo convertido à antropologia e considera-
de sair da clínica e passear em Paris, fonte de Por fim, essas UTB tiveram o efeito perverso de zofrênico tratado por Guattari e que escreve do na época como potencial sucessor de Clau-
inspiração literária: "Voltando mecanicamente suscitar um familiarismo excessivo, reforçado poemas, tem um diário e assiste ao seminário de Lévi-Stauss. Ele também se envolve em La
para Saint-Germain-des-Prés, eu me pergunto nessas pequenas unidades que têm a tendên- de Lacan. Guattari o envia de tempos em tem- Borde e leva para lá seu irmão Robert Sebag, o
com que peso de Amor, com que imposto de cia a se fechar em si mesmas: "Lembro do caso pos a Paris e conta com seu amigo Cartry para brilhante matemático.
Amor que não seja o imposto de sangue, deve- de um doente em 1971 que chega aqui e a gente recebê-lo. Essa primeira "invasão" dos bárbaros é se-
remos pagar a necessidade de todos os nossos lhe diz: 'Você vai para tal UTB'. No dia seguinte Chegadas as férias universitárias, os "bár- guida de uma segunda onda, que corresponde
atos prosaicos em face do Céu que nos convi- ele veio me procurar dizendo: 'Estou com pro- baros" se instalam temporariamente em La ao flm da guerra da Argélia e à realocação do
da, nós, o mais absurdo dos povos, à mais poé- blemas com minha família. Consegui dinheiro Borde e participam de todas as atividades da investimento militante de Félix Guattari junto
30
tica das Alianças!" • Guattari lhe dá uma nota para que fosse embora daqui"t:~. clínica. São encarregados então da tipografia, aos estudantes nos meios sindicalizados da
de 500 francos para que possa fazer um pas- desta ou daquela oficina de argila, de cerâmi~ UNEF e dos mutuários da MNEF". Os anos de
seio, mas o dinheiro é gasto em bebida durante ca, e participam das reuniões em que estão 1960, após a independência da Argélia e antes
o dia, e no fim da tarde Jacques Briere é inter- A invasão dos "bárbaros" presentes médicos, enfermeiros e doentes: ''A da explosão de 1968, drenam um grande nú-
nado à força. É preciso muitas vezes buscá-lo recusa de ver a loucura como uma simples mero de estudantes estagiários, muitos dos
Com a instalação de Guattari em La Borde, doença e uma maneira de ligá-la à própria quais se investem com uma verdadeira paixão
no hospital psiquiátrico de Ville-Évrard para
há também a chegada do que Oury qualifwa aventura intelectual, em relação à linguagem, militante nas atividades da clínica. Para esses
trazê-lo de volta a La Borde.
de "invasores", jovens estudantes militantes à poesia. Tudo isso era verdadeiramente novo.
Besse participa ativamente de todos os
que, por recomendação de seu amigo Félix, 35
Não se ouvia isso correntemente" • Quando
saraus culturais de La Borde. Consegue-se in- ~'N. de T.: UNEF: Union Nationale des Étudiants de France;
<·' passam um tempo na clínica para se confron- Cartry opta pela antropologia, intensifica ain-
clusive convenCê-lo a escrever uma peça de MNEF: Mutuelle Nationale des Étudiants de France.
l
52 Dosse Gil!es Deleuze & Félix Guattari 53

estudantes animados por um ideal político, Ela é fascinada por Oury, mas não menos o encontro de minha vida. A gente começou diante de uma plateia estupefata, Polack pro-
trata-se do duplo encontro com o mundo da por Guattari, a quem vê como um incansável a conversar. Ele tinha o hábito de transfOrmar nunciou um discurso ultraesquerdista e agres-
psiquiatria e com uma utopia social realizada vendedor de esperança, capaz de convencer o sua vontade de conhecer as pessoas de forma sivo, tomando como modelo o sindicalismo
aqui e agora: "Cheguei a La Borde num dia de mais vacilante a se levantar. Essa tensão utó- incrível, indo diretamente ao essencial, e era dos bandos de estudantes extremamente vio-
verão. Acho que tinha 20 anos. Era o fim da pica encontra seu momento de paz cotidiana- capaz de falar de tudo"'15 , Guattari, dez anos lentos do Japão, os famosos Zengakuren. Para
guerra, um amigo tinha saído da prisão, o tem- mente na hora do chá de tília: "Que graça há mais velho que ele, seduz Butel pela amplitude evitar o pior, a minoria teve de procurar outro
38 de sua curiosidade intelectuaL Logo encon-
po estava bonito ... " É assim que a estudante na imobilidade dos seres, em torno das mesas, candidato, mais apresentável ao congresso. Po-
de letras e futura escritora Marie Depussé ini- diante de uma xícara de chá, às 9 horas da noi- tram um terreno comum, o da reflexão e da lack manifestamente dinamitara suas chances
da o relato de seu primeiro contato com esse te, em La Borde. Nessa hora, eles são escolhi- ação política. Nasce desse encontro uma ami- de chegar ao comando da UNEF.
outro-mundo. Na época, cursa a Escola Nor- dos. Convivialidade silenciosa ... Hora de sus- zade que não se desfará. Butel faz vários está- Esse estágio organizado pela mutual em
41
mal Superior (ENS) em Sevres e regularmen- pense, onde a pausa é interiorizada" • gios em La Borde, onde fica encantado com a La Borde suscita o entusiasmo de Polack: "Foi
te ouve Lacan com seu amigo, estudante de Marie Depussé tem a dimensão da perti- onipresença de seu amigo Félix: "Em La Borde. amor à primeira vista, o primeiro lugar onde eu
filosofia, que acabou de sair de três meses de nência analítica de Guattari principalmente ele era o Deus. Ele estava sempre lá. Morava tinha a impressão de que se fazia psiquiatria''47 •
prisão por causa de uma manifestação contra quando. num dia de grande abatimento, ali- na época em uma espécie de anexo ao lado da Polack volta à clínica para se reciclar e se ins-
a guerra da Argélia. Tendo decidido festejar a menta uma fantasia de autodestruição. Seu clínica. Quando acontecia alguma catástro- tala ali para trabalhar como psiquiatra a partir
libertação no campo, eles foram para La Bor- desejo de acabar com tudo é tão intenso que fe, mesmo que fosse às 3 horas da manhã, se de 1964, consagrando à clínica uma obra es-
de. A paixão foi imediata: "Se fiquei em LaBor- seu irmão percebe e se abre com Guattari: "Um podia contar com ele. Ele conduzia reuniões crita junto com sua companheira, a psiquiatra
de é porque estava maravilhada pelos loucos. dia, estupefata, cruzo com Félix longe dos ga- extremamente cansativas . .Era a alma da clíni- 18
Danielle Sivadon' • Quando Polack descobre
39
pela maneira como se cuidava deles" • Marie binetes de La Borde e ele me diz: 'Parece que ca! Oury tinha o estatuto da figura tutelar, mas La Borde, ele está ligado a toda uma série de
Depussé tornou-se então estagiária antes do você está com vontade de morrer. Então, eu era Félix quem tocava a máquina no cotidia- líderes estudantis, militantes sindicalistas e re-
tempo, pois em 1962, data de sua chegada. a quero lhe dizer uma coisa: morra!' E eu ri mui- no'"16. Nessa segunda onda de "invasão bárbara" volucionários, aos quais relata sua nova paixão,
função ainda não existe. Depois de desembar- to. Foi dito de tal forma, na hora certa, no cru- chega também a La Borde uma personalidade dizendo-lhes que lá se encontra um "pequeno
car em Lá Borde, Marie Depussé nunca mais zamento certo. Eis como Félix trabalhava com importante da extrema esquerda de Lyon, mi- míope" incrível, com quem se discute noites in-
42
partirá de verdade. um verdadeiro poder de terapeuta'' • Marie litante contestado r da UEC. a estudante de le- teiras sobre tudo, a vida, a morte, o amor. Con-
Ela intervém em uma reunião a propósito Depussé permanece, portanto, em La I3orde, tras Françoise Routier, que em sua passagem vida-os a ir lá o mais rápido possível e, enquan-
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de um doente cuja violência, para ser contida, e consagra duas obras à clínica , Seu talento subverte muitos hábitos já adquiridos pela to isso, organiza uma reunião na casa de Marie
parece exigir que se decida por uma série de na escrita lhe vale corrigir os textos de Guatta- instituição labordiana, o que nem sempre é do Depussé com Guattari. É lá que se articula o
eletrochoques - em La Borde assume-se tam- ri. Ela o dissuade a prosseguir suas tentativas agrado de Jean Oury. projeto político de constituir uma "oposição de
bém esse aspecto da psiquiatria, e, aliás, são ficcionais: "Ele foi muito obcecado por ]oyce Um dos futuros pilares de La Borde, psiquia- esquerda', que pretende se dotar de um pro-
muitos os internos que os solicitam reiterada- durante toda a vida. Ele chegou com Joyce e tra de profissão. chega em 1963: Jean-Claude grama. O bando de Guattari encontra-se em La
mente para acalmar sua angústia. Ela expressa morreu com Joyce. Há muitas pessoas que fo- Polack, que iniciou seus estudos de medicina Borde. Além de Michel Butel e jean-Claude Po-
44
sua convicção de que esse doente busca prin- ram destruídas por Joyce" • Em compensação, em 1954, acaba de concluir o curso universitá- lack, estão lá os futuros sociólogos Liane Mo-
cipalmente, com suas atitudes provocadoras quando corrige seu texto sobre a "transversali- rio em 1962. Interno em psiquiatria, é sobretu- zere e Hervé Maury, François Fourquet, assim
e violentas, instituir um diálogo, uma escuta: dade", fica elevada com a qualidade e densida- do um líder estudantil de primeiro plano que como Pierre Aroutchev, Georges Préli e alguns
"Félix veio em minha direção, sorriu e sem ro- de da reflexão. em 1961 dirigiu a seção de medicina da UNEF, outros em 1965: "Eu tinha então 26 anos, e a
deios me disse para abandonar meus estudos, Pouco depois, em março de 1963, outro uma sólida organização de 12 mil membros e gente estava apaixonado pelos loucos"49•
que meu futuro estava em La Borde ... Nessa escritor, militante da UEC, dá seus primeiros particularmente radicalizada contra a guerra Estagiários no verão de 1965, alguns se
época, Félix dizia: 'O mundo está em La Borde'. passos em La Borde, Michel Butel. Sua irmã da Argélia. Quando chega a La Borde, Polack instalam em La Borde para trabalhar, como
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Isso, em grande parte, era verdade" • A propos- está em mau estado psicológico, e seu amigo acaba de sofrer um revés. Ele fora sondado para François Fourquet, a partir do outono de 1966:
ta seduz e põe em dúvida Marie Depussé, que Jean-Claude Polack o aconselha a levá-la para se tornar o presidente da UNEF. e tudo levava "Pedi para trabalhar em La Borde. Félix me
divide seu tempo entre Paris, onde segue seu se consultar com Oury e Guattari. Michel Bu- a crer que sua eleição seria uma formalidade, olhou muito surpreso e me disse: 'O que é que
curso na ENS até a conclusão, e La Borde, para tel não espera muita coisa desse encontro e vai pois a corrente esquerdista que o apoiava, cha- te prende? Você tem um futuro como profes-
onde vai todos os fins de semana e participa por dever familiar, sem entusiasmo. Ele sofre mada de "minoria", era majoritária. Por ocasião sor universitário'. Ele tinha razão, tornei-me
das tarefas mais humildes: lavar louça, fazer fa- de asma nessa época, e uma noite se vê pres- das jornadas preparatórias para o congresso mais tarde professor universitário" 50• Uma es-
xina. Seu pai, arquiteto, constrói para ela uma tes a ter uma grave crise enquanto está hos- que se realiza em Talence, perguntou-se ao pécie de imperativo empurra Fourquet para La
casa de madeira,,muito bonita no parque de La pedado na clínica. Sai em busca dos medica- futuro candidato à presidência qual seria seu Borde. Tendo concluído seu curso de ciências
Borde, que lhe dá um ponto de ancoragem. mentos necessários quando chega Guattari: "É programa à frente da organização sindical e, políticas, ele está em condições de colocar
54 François Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 55

suas competências a serviço da clínica, que para o diploma de ciências políticas: Lion Mu~ trie de secteur, Recherches, Paris (1975), 1980, 25. Jean Oury, ibid., p. 25.
se debate com grandes dificuldades de ges- rard, que desembarca em 1966 em La Borde, p.22. 26. Jack Briêre, entrevista com Virginie Linhart.
tão. Guattari fica feliz por poder passar a in- fica imediatamente seduzido por essa clínica, 3. Hermann SIMON, La Psychothérapie de /'asile, 27. lbid.
cumbência a uma pessoa competente como que trabalha no "descolamento da pessoa e da Société générale d'imprimerie et d'édition, Pa~ 28. Jbid.
ris, 1933. 29. Jacques Besse publica notadamente La Gran~
Fourquet. Trata-se de conseguir o repasse da função pa~a impedir qualquer forma de sedi-
Seguridade Social e de racionalizar a gestão mentação""·1. 4. François TOSQUELLES, em !fistoires de la de Pâques, Belgfon, Paris, 1969.
psychiatie de secteur, op. cit., p. 68. 30. lbid., p. 93.
da clínica e de sua centena de pacientes, mo- Em 1966, vindo de Poitiers, François Pain,
nitores, estagiários, enfermeiros e médicos. cunhado do psiquiatra Tony Lainé, chega a La 5. Jbid., p. 72. 31. Jacques BARATIER, Rien, Vai/à L'ordre, 2004.
François Fourquet dedica-se, portanto, à ta- Borde para um estágio de um mês. Fica sete 6. Jean OURY, li, donc, op. cit., p. 73 32. Jean Oury, entrevista com o autor.
refa e passa os primeiros meses trabalhando anos. Muito jovem, recém saído do baccalau~ 7. Jean Ayme, Robert Millon, Mauríce Despinoy, 33. lbid.
Claude Poncin, Roger Gentis, Horace Torru-
regularmente até as 22 horas para recuperar réat;~. ele se inscreve em medicina em Tours, 34. Nlichel Cartry. entrevista com o autor.
bia, etc.
os dossiês perdidos e colocá-los em ordem. para ficar próximo a La Borde, onde é coloca- 35. Michel Cartry, entrevista com Virginie Li~
8. Jean Oury, entrevista com o autor. nhart.
Sua vida não se limita à burocracia. Ele assu- do à disposição do educador-psiquiatra Fer-
me também funções de enfermeiro quando nand Deligny. Sua ligação com Danielle Rou- 9. lbid. 36. Michel Cartry, entrevista com o autor.
necessário, junto com sua esposa, Genevieve, leau, ela também estudante, que abandonou 10. Jean OURY, em François FOURQUET, Líon 37. Ginette Michaud, entrevista com Virginie Li-
MURARD, Histoires de la psychiatrie de secteur,
enfermeira profissional na clínica: "Fiquei tão a faculdade de ciências de jussieu para fazer nhart.
op. cit., p. 145.
apaixonado por La Borde que me apaixonei medicina, em análise com Guattari, consagra 38. Marie DEPUSSÉ, Dieu gít dans les détails,
!I. Jean OURY (vulgo Odin), Histoires de La Borde, P.O.L., Paris, 1993, p. 9.
por uma enfermeira, com a qual tive uma fi- sua inserção por um longo período no meio Recherches, n. 21, mar.-abr. 1976, p. 35.
lha'". Fourquet também participa ativamente labordiano. Desde o primeiro estágio, há en- 39. Marie Depussé, entrevista com Virginie Li~
!2. Félix Guattari, "La Grille", exposição feita no nhart.
dos diversos grupos e das oficinas. Entretanto tusiasmo entre os 50 membros de seu grupo estágio de formação de La Borde. janeiro de
é antes de tudo secretário administrativo, sob vindos de toda a França para refazer o mundo 40. Marie DEPUSSÉ, em Jean OURY, Mario DE-
1987, arquivos IMEC.
o comando de Guattari, até 1972. todas as manhãs. Logo se trava entre Fran- PUSSÊ, À quelle heure passe le train ... , Cal~
13. Jean Oury, entrevista com o autor.
Na mesma equipe, que se encontra no çois Pain e Guattari uma relação de intensa mann-Lévy, Paris, 2003, p. 216-217.
14. Jbid. 41. Marie DEPUSSf:, Dieu git dans les détails, op.
CERFI, está um amigo de Jean-Claude Polack, amizade que não se desfará. Oury e Guattari Histoires de La Borde, op. cit., p. 26.
15. cit., p. 39.
secretário da UNEF em 1964, Michel Rostain, encaminham François Pain para análise com
16. Jean Oury, ibid., p. 31. 42. Marie Depussé, entrevista com Virginie Li-
que também descobre encantado La Borde Tosquelles, o pai espiritual da clínica: ''A certa
17. Jean Oury, "Créativité et folie", transcrição ele nhart.
em meados dos anos de 1960. Para um intelec- altura, Tosquelles me interrompe depois de um debate com Félix Guattari, 1o de junho ele
tual do Quartier Latin que acabou de concluir cinco minutos em que eu estava deitado em 43. Marie DEPUSSÉ, Dieu gtt dans les détails, op.
1983, arquivos IMEC. cit., 1993;Jean OURY, Marie DEPUSSÉ,À quelle
o curso de filosofia, a liberdade de expressão seu divã porque critiquei Oury e iniciou uma 18. Ver Jean OURY, Essai sur la conation esthétique, heure passe le train. .. , op. cit., 2003.
reinante ali, a preocupação de aprofundar os longa diatribe contra Félix. Ao final da sessão, Le Pli, 2005. 44. Marie Depussé, entrevista com Virginie Li-
pensamentos de Marx, Freud, Lacan e a anco- ele me pergunta quanto me deve, e como já fa- 19. Ginette MICHAUD, "La notion d'institution nhart.
ragem na realidade que pressupõe viver dentro zia várias sessões que eu não lhe pagava, res- dans ses rapports avec la théorie moderne des 45. :Michel Butel, entrevista com Virginie Linhart.
da clínica constituem o atrativo da travessia de pondi que isso cobria minha dívidd' 54 • groupes", D.E.S, 1958, p. 89, citado em Histoires
46. lbid.
uma experiência original. Professor de filosofia deLa Borde, op. cit., p. 61.
47. Jean~Claude Polack, entrevista com o autor.
no último ano do ensino médio, Rostain não 20. Jean-Claude POLACK. Danielle SNADON-SA-
gosta da rotina. Ele telefona para Félix, que o
Notas BOURJN, La Borde ou le droit à la folie, Cal-
48. Jean-Claude POLACK. Daniel! e SNADON-SA-
BOURIN, La Borde ou !e droit à la folie, op. cit.,
convida a passar um tempo em La Borde, para 1. Ver Anne-Marie NORGEU, Roger GENTIS, La mann-Lévy, Paris, 1976, p. 41.
prefácios de Félix Guattari e de Jean Oury.
trabalhar ali: "Ele me diz: você vem, mas vai Borde: le château des chercheurs de sens? La vie 21. Félix Guattari, "La Grille", exposição feita no
quotidienne à la clinique psychiatrique de La 49. Liane Mozêre, entrevista com o autor.
trabalhar: vai lavar louça, conversar com os estágio de formação de La Borde, janeiro de
Borde, Êr€s, Paris, 2006. 1987, arquivos 1MEC. 50. François Fourquet, entrevista com Virginie Li-
loucos, aprender a dar injeções, fazer a guarda
nhart.
noturna, vender flores com os loucos e discutir 2. François TOSQUELLES, em François FOUR- 22. Félix Guattari, entrevista autobiográfica com
52 QUET, Lion MURARD, Histoires de la psychia- Eve Cloarec, arquivos IMEC, 29 de agosto de 51. François Fourquet, entrevista com o autor.
o organograma'' • Sua paixão é tamanha que
1984. 52. Michel Rostain, entrevista com Virginie Li-
ele se instala em La Borde de 1966 a 1973, vi-
23. Jbid. nhart
vendo de três meses até o ano inteiro na clí~
"'N. de R. T.: No original, "baccalau.réat". O primeiro dos 24. Félix GUATTARI, "Sur les rapports infir- 53. Lion Murarei, entrevista com o autor.
nica durante esse período. Na mesma época,
graus universitários outorgado por um diploma que marca miers-médicins" (1955), em PT, p.11. 54. François Pain, entrevista com o autor.
chega outro representante do "bando de Félix", o fim dos estudos secundários; diz-se também do exame
amigo de França\~ Fourquet, com o qual pre- que permite sua obtenção.
Gilles Deleuze & Félix Guattari 57

za. Era impressionante, pois eu tinha vivido Nicole Guillet sempre viveu em um am-

3
toda minha infância com uma Hispano~Suiza biente psiquiátrico - seu pai era o tesoureiro
1
na cabeça"· • Oury consegue para ele, em no- do hospital psiquiátrico de Saint-Alban desde
vembro, o belíssimo castelo de La Chesnaie, 1934.Já bem pequena, aos 12 anos, ela escapa-
que precisa de reforma. A equipe labordiana é va do ofício dominical, pois vivia em um meio
solicitada para os trabalhos de organização, e familiar protestante praticante, para participar
a clínica abre as portas em julho de 1956. das reuniões da Sociedade do Gévaudan, em
A vida cotidiana em La Borde Embora seu modo de funcionamento seja torno de Tosque!les: "Já se discutia para saber
similar ao de La Borde, La Chesnaie está na como desalienar os loucos, como evitar seu re-
origem de uma inovação importante: aquilo traimento, como chegar a serviços mistos. Nes-
que se chamou de "grade". A técnica da grade, se âmbito, Balvet foi um precursor da liberaliza-
logo exportada para La Borde, onde desempe- ção da psiquiatria'''- Aos 17 anos, Nicole Guillet
nhará de imediato um papel motor, é na ver- conhece Jean Oury quando ele chega a Lozere.
dade uma prática importada pelos educadores Durante seu curso universitário, aproxima-se
que vieram restaurar a clínica de La Chesnaie. de Frantz Fanon e o leva a Saint-Aiban para
Ela responde à necessidade de, com um nú- um encontro com Tosquelles: "Lembro~me da
mero de voluntários insuficiente, dar conta de primeira discussão entre Tosquelles e Fanon
uma grande quantidade de tarefas a realizar. A na sala de minha mãe: a questão era saber se
grade, que institui então um sistema de rodízio era imperativo que os enfermeiros tivessem di~
Entre esses diversos meios, os "indígenas"
1
socialização local' dos doentes" • Como sugere para determinadas atividades, se reveste do ploma de formação' 9 Nicole Guillet ainda não
e os "bárbaros", os cuidadores e os cuidados, Guattari, a troca verbal não tem como objeto caráter intangível de uma lei imposta a toda a havia terminado a residência em Lyon quando
a circulação é regulada no âmbito de incontá- um jogo de poder ou de saber; ela é fundada coletividade. Além disso, permite a integração recebeu uma chamada de Oury, que lhe pediu
veis reuniões na clínica. Toda ocasião é propí- em um arbítrio da troca considerada como do pessoal de serviços ao pessoal cuidado r. Às para ajudar seu amigo Claude Jeangirard a im-
cia para decidir uma nova. Entre elas, existe necessária para "ajudar o doente a escapar vezes, as relações são tensas entre as duas clí- plantar um serviço de insulina em La Chesnaie.
uma que há muito tempo atua como institui- de si mesmd'2 • Máquina de palavras vazias, o nicas irmãs: "Foi a guerra dos botões entre La Ela vai para lá em novembro de 1956 e fica até
ção: a subcomissão para a animação da jor- que se troca é da ordem do imaginário, com Chesnaie e La Borde, e, assim como nas sacie~ julho de 1957, quando os labordianos voltam
nada (SCAJ). Fundada em 1955, ela terá uma o objetivo de realizar uma melhor integração dades primitivas, houve raptos. Eles queriam ao seu castelo de origem. Ainda não há lugar ali
regularidade metronômica até 1965. Essa reu- simbólica: "Essa reunião cotidiana é uma es- levar para lá uma enfermeira da qual necessi- para um médico em tempo integral, mas Félix
5
nião plenária ocorre no grande salão, pontua a pécie de escumadeira para recolher o que flca tavam. Vieram raptá-la durante a noite" • pede a Nicole Guillet para ajudar na adminis-
organiza a atividade da jornada todos os dias boiando''3. A SCAJ funciona como uma imensa Em desacordo com Jeangirard, que par- tração: "Félix gostava muito disso, de deslocar
após o jantar. máquina de distribuir o trabalho com base no ticipa muito pouco das diversas reuniões da as pessoas: que um médico trabalhasse na área
princípio da mobilidade máxima. clínica, Oury decide retirar suas tropas. No dia administrativa. Os psicólogos, ele punha para
,10
O desenvolvimento da clínica de La Bor- 1ll de julho de 1957, os labordianos de La Ches- 1avar Iouça... .
Multiplicidade de de é tal que em 1957 se decide, à maneira das naie, retornam, Guattari sempre à frente da Durante quase dez anos, Félix Guattari as-
agenciamentos institucionais ordens da Idade Média, criar colônias e partir clínica-mãe. "Mas as coisas já não podem ser sume a organização do trabalho em La Borde
em missão. A algumas centenas de metros como antes em La Borde, como se nada tivesse adotando um sistema de eliminação de divisó~
Desde sua chegada a La Borde, Guattari as- dali, um amigo de Jean Oury, Claude Jeangi- acontecido''. A partir de julho de 1957, realiza- rias permanente: 'A grade é uma tabela dedu-
sume a coordenação das reuniões da SCAJ, pa- rard funda em La Chesnaie uma nova clínica, ~se uma nova reunião diária das 18 às 19 horas. pla entrada que permite gerir coletivamente as
pel delicado, pois elas têm a função de passar implantada pelos labordianos comandados Essa reunião logo se tornará o epicentro da atribuições individuais em relação às tarefas. É
informações de todo tipo, de organização de por Guattari. Jeangirard praticou a psiquiatria vida labordiana e tratará de aplicar o sistema uma espécie de instrumento de regulagem da
11
atividades, mas também de desrecalque e de à Sainte-Anne, em Vi!le-dAvray, onde se fica de grade, que articulará duas grandezas difíceis necessária desregulamentação institucional" •
exposição dos diversos litígios em curso. Para sabendo que em La Borde se desenvolve uma de pensar juntas: o afeto e a atribuição. Ela é A intenção é igualizar as condições a partir do
esse mundo de doentes em ruptura, consistem experiência interessante. Ele chega no mês de preenchida primeiramente para cobrir os bu- princípio de polivalência das tarefas. O méto-
sobretudo na ocasião de recriar uma sociali- agosto de 1955, para um encontro com Oury, racos do horário, e as atividades são assumidas do é autoritário, e todos esperam com ansie-
dade por meio da palavra, envolvendo-se em com a ideia de comprar um castelo e criar um segundo o querer de uns e de outros: "Um ver- dade para saber que função lhe foi atribuída
todas as contendas sem gravidade: "Não há lugar semelhante à prática de La Borde: "Ele dadeiro mercado persa todas as noites. A gente pelo comitê da grade; o resultado é eficaz, mas
dúvida para mim·, de que esse é o motor da 'res- chegou aqui com uma magnífica Hispano-Sui- chamava isso de grade"7, como em La Chesnaie. não isento de tensôes: "Eu estava motivado
' '
58 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 59

por uma espécie de centralismo militante. Do doentes que não podem ou não querem sair examinar as contas, constata assombrado que diversas atividades propostas. Essa reunião co-
mesmo modo que em uma organização políti- da cama. O pessoal de serviço é encarregado La Borde tem um passivo a descoberto de 30 meça com o silêncio, e, no final, todos devem
ca quando se decide ir colar cartazes no dia se- de preparar as bandejas que devem ser leva- milhões de francos da época. Precisa, então, ter feito uso da palavra. Com esse trabalho de
guinte"1.2. Alguns estão felizes por se lançar na das aos internos pelos monitores, que pouco usar todo seu charme, e isto não lhe faltava, psicoterapia de grupo não diretivo, Guattari e
experiência de uma sociedade que já superou a pouco se esquecem de que isso faz parte de para convencer o banqueiro de Blois, o senhor Guillet conseguiram criar uma necessidade, a
a distinção manuais/intelectuais, porém, entre suas atribuições: "É então o pessoal de serviço de Querotret. a lhe dar um crédito para poder ponto de os frequentadores, cerca de 15, insis-
o pessoal médico, são muitos os que se dedi- que se incumbe, de fato, desse trabalho. Aban- honrar as dívidas mais urgentes da clínica. tirem em saber a data do próximo "grande gru-
cam a contragosto aos trabalhos de faxina, dono de bandejas, abandono de funções"". Entre as numerosas instituições geradas po". Embora La Borde seja profusa em grupos
enquanto que, do lado do pessoal de serviço, Oury sugere então introduzir aquilo que por La Borde, a Rotunda flgura como o pul- muito efêmeros, esse terá uma longevidade
alguns temem tocar na coisa médica. chama de um "tempero" nos mecanismos, à mão político da clínica. As pessoas se reúnem excepcional: criado em fevereiro de 1961, ain-
A grade, estabelecida para um mês, é con- maneira do Cravo Bem Temperado, de Johann semanalmente nessa antiga lavanderia para da existe nos anos de 1970. Marie Depussé se
ferida diariamente. No diagrama aparecem Sebastian Bach. Com o desenvolvimento da discutir política, para se informar sobre a atua- recorda de ter assistido a uma dessas reuniões
em abscissa os nomes dos empregados e em clínica, Oury necessita de um número cada lidade por meio de uma revista. Nicole Guillet, durante a qual, após um longo silêncio, uma
ordenada o horário da jornada, e sobre essa vez maior de colaboradores. Em 1959, recorre que permanecerá como médica em La Borde voz parecia expressar algo de essencial sobre
base leem-se as atribuições: "louça'', "faxina'', àquela que se tornará, corno secretária médi- até 1974, cuida de vários comitês: o comitê de o horror elo nascimento; em seguida, um silên-
"galinheiro", "vigília", "oficina de argila", assim ca, um pilar fundamental do edifício e que faz cozinha, o comitê cultural, o comitê de faxina cio de chumbo recaía sobre o grupo, "e depois,
como as atribuições de mais longa duração. parte da família espiritual: Brivette Buchanan. e o comitê de cardápio, o que supõe uma reu- cinco minutos adiante ou cinco metros adian-
Ninguém escapa à grade, e para alguns ela en- Ela advém do mesmo subúrbio que Oury, La nião por clube e por semana: "Para o comitê te, havia uma outra voz que saía da água e que
carna, assim como seu chefe, o "gradista" su- Garenne-Colombes. Foi lá que se conheceram de cozinha, eu reunia os cozinheiros e todo o não parecia responder ao sentido corrente da
premo, a realização da utopia. Para outros, é nas atividades dos AJ, nas caravanas operárias, pessoal da cozinha. Fazíamos os cardápios, conversa ao tomar a palavra pela primeira vez,
um rolo compressor insuportável que esmaga no grupo jovem da empresa Hispano-Suiza. examinávamos os pedidos e as reclamações. mas na verdade respondia. Então podia res-
os indivíduos e seus desejos em nome do in- Brivette Buchanan torna-se a companheira do Para o comitê de faxina, procurava-se que não ponder ao nascimento pela fome, pela morte,
19
tereMe 'comum. Além disso, a distribuição do líder da Hispano, Raymond Petit. Secretária houvesse segregação entre enfermeiros e faxi- era uma palavra ele ricochete inesperad.a" .
trabalho é, em geral, objeto de uma sobreinter- médica no hospital Foch de Suresnes, Brivette neiras"17. A essas reuniões de comitês especia-
pretação por aqueles que são submetidos a ela passa férias em Saumery e participa ativamen- lizados, acrescenta-se uma reunião plenária,
e que veem nisso um meio de Guattari se agar- te da vida coletiva da clínica. Fica trabalhando chamada de "grande reunião" ou "grupo dos O grupo de trabalho
rar a tal ou qual inibição ou fobia para pô-la à em La Borde até sua aposentadoria. grupos", que se realiza no fim de semana, sex- de psicoterapia e de
prova: "As decisões do 'gradista' são entendidas Em 1958, a clínica está à beira da falência. ta-feira à noite, a propósito do trabalho geral
13 socioterapia institucionais
como sentenças" • Ao longo dos anos, o siste- A administração é exercida de maneira desas- da clínica. Começa por volta de 20h30 e rara-
ma um pouco rígido é motivo de um número trosa por uma certa senhora Fichaut que gasta mente termina antes de 1 hora da madrugada: Em 1960, Jean Oury, juntamente com os
crescente de reprovações e cristaliza as recu- sem controle, abastecendo a clínica nos vare- "É um grupo onde se discute sobre a vida da psiquiatras Hélime Chaigneau, François Tos-
sas: "A coisa degringola de todo lado. Moni- jistas a preços mais altos. Excelente na arte clínica entre cuidadores e onde Félix introdu- quelles, Roger Gentis, que trabalha no hospi-
tores que querem lavar louça! Uma vigilante de gastar, ela se mostra incapaz de garantir a zia o tempo todo linhas de fuga. Tratava-se ao tal psiquiátrico de Saint-Alban de 1956 a 1964,
noturna que está cansada de cumprir suas 12 entrada de dinheiro e transforma sua sala, que mesmo tempo da lei da instituição e da aber- Jean Ayme, um antigo trotskista que foi secre-
horas a fio e que deseja que a vigília seja redu- se tornou o domínio de seus numerosos gatos, tura de possibilidades. Tornar possível o im- tário do sindicato dos psiquiatras hospitalares,
zida a 5 horas! Uma faxineira que assiste ao em uma bagunça aromática. possível"1s. Mais tarde. acrescentaram-se ain- e alguns outros, cria um grupo de reflexão so-
médico nos tratamentos e se safa ... e que reto r- Um belo dia de abril de 1958, pouco antes da reuniões teóricas em pequenos grupos na bre a prática psiquiátrica: o Grupo de Traba-
na! Uma outra que leva doentes ao galinheiro! do 13 de maio, acontece o "golpe de Estado'', sala de Oury, consagradas no essencial a um lho de Psicoterapia e de Socioterapia Institu-
Uma lavadeira que monitora as insulinas! Está Guattari reassume o comando da administra- comentário das teses de Lacan, e que se torna- cionais {GTPSI). Retoma um projeto já antigo
tu do de cabeça para baum . "" . ção, responsável pelas finanças, depois de des- ram o seminário de Oury. de Tosquelles que em 1965 queria criar uma
Soma-se às mudanças de atribuições im- pachar do dia para a noite a incapaz que reina- Por sua vez, Félix Guattari e Nicole Guil- espécie de Partido Psiquiátrico }fancês - mas
postas o problema da remuneração e de seu va ali: "Fui ao encontro dessa boa mulher e lhe let se encarregam do que chamam de "grande a sigla PPF, que lembrava o partido fascista de
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cálculo. Logo se está falando de coeficiente de disse: isso já bastou'' • Guattari se forma para grupo''. Ele se reúne no gabinete que simboliza Jacques Doriot, não era das mais felizes.
"aborrecimento'', certamente difícil de calcular essa responsabilidade na prática. No início, o poder médico, o de Oury, mas na ausência Quando se constitui em 1960, esse grupo
de maneira científica ... Determinadas ativida- não tem nenhuma formação de gestor. Contu- dele, quarta-feira às 16 horas. É a ocasião de reúne pouco mais de uma dezena de psiquia-
des evoluem por si mesmas, como a de levar do, aos 25 anos, torna-se o verdadeiro diretor reunir os grandes doentes, aqueles que não tras20, agregados por Guattari a partir da quar-
as bandejas c<Yih as refeições ao quarto dos de urna grande clínica que salvou da ruína. Ao conseguem se envolver nas conversas ou nas ta sessão em novembro de 1961, e mais tarde
60 Fra,ncois Dosse Gilles Deleuze & Félix

psiquiatras de La Borde, como Jean-Claude tros campos e à sociedade em geral. No modo como uma combinação de fonemas, à ma- os grupos assujeitados para afirmar que essa
Polack, Renê Bidault e Nicole Guillet. Funcio- de funcionamento do grupo, "a cumplicidade neira como Lacan afirma, na mesma época, dupla tentação persegue todo grupo consti-
nará até 1965, data da fundação da Sociedade Oury-Félix é evidente, e muitas vezes seu hábi- que o inconsciente é estruturado como uma tuído. Guattari sugere substituir a noção mui-
de Psicoterapia Institucional (SPI). O objetivo to de discutir junto e de manejar os conceitos linguagem. Ele distingue, portanto, as diver- to vaga de transferência institucional por um
do GTPSI é "falar de psicoterapia institucional pega os outros participantes despreparados. As sas unidades significantes da clínica de La "conceito novo: o de transversalidade no gru-
2
fora dos próprios estabelecimentos" J. discussões revelam inspirações súbitas de Oury Borde e põe em evidência certas articulações, po"30. Esse conceito se opõe ao mesmo tempo
O GTPSI tinha como hábito reunir-se duas e de Félix, estimulantes, e reações um tanto como aquela que liga o interior do castelo à ao eixo de verticalidade fundado em um or-
vezes ao ano para um fim de semana de refle- quanto intensas, cômicas, agressivas ou defen- unidade-lavanderia e à unidade-insulina, cujo ganograma com estrutura piramidal e a uma
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xão, sempre em um hotel diferente. A secretá- sivas da parte de uns ou de outros" ' • Esse duo estado de simbiose é tal que há o risco da ar- concepção de horizontalidade que consiste
ria de Oury, Brivette Buchanan, encarregava-se estará no centro da vida do grupo, e, segundo madilha da separação do conjunto da clínica em justapor setores diferentes sem que se es-
de tomar notas de todas as discussões. Esse seu bom hábito, as duas partes repartem impli- -e portanto de isolamento: "Isso foi denomi- tabeleça uma relação entre eles: "Enquanto as
grupo de reflexão objetivava definir a singula- citamente os papéis: Oury, como especialista nado por um jogo de palavras de lingística''""'. pessoas permanecem imobilizadas em si mes-
ridade de um círculo de psiquiatras que acei- reconhecido em psiquiatria, utiliza as interven- "A gente dizia: Você não está na lavanderia, mas, não veem nada além de si mesmas" • Um
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tam determinados postulados próprios à sua ções de Guattari para perturbar as sessões, tirá- você faz lingística e, no entanto, não faz me- certo nível de transversalidade permite dar
disciplina e, portanto, não são assimiláveis às -las das categorias ordinárias, e essas incursões nos efetivamente lavanderia":". Essa expressão início ao processo analítico de saída de si e de
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diversas correntes da antipsiquiatria • selvagens são assim testadas junto a outros estruturalista, no entanto, não implica uma deslocamento necessário no confronto com o
Esses psiquiatras definem assim um campo membros, antes que Oury recoloque as suges- adesão total ao paradigma então hegemónico grupo: ')\, transversalidade é o lugar do sujeito
teórico e prático que recebe o nome de "psico- tões lançadas nos limites do possíveL 23
no campo das ciências sociais • A psicotera- inconsciente do grupo, para além das leis ob-
terapia institucional". Um dos princípios fun- Guattari encontra no GTPSI a ocasião de pia institucional participa plenamente dessa jetivas em que se fundamenta. O suporte do
damentais é considerar que só se pode cuidar um agenciamento de suas diversas filiações efervescência das ciências humanas, porém desejo do grupo" •
32

dos loucos em uma instituição que refletiu políticas e psicanalíticas: '1\.s reflexões de Félix toma suas distâncias desde o início da orien- La Borde é também um local altamente
sobre seu próprio modo de funcionamento. O são muito 'labordianas' em sua expressão, fa- tação estrutural dominante. Ela não pretende festivo. Um tempo importante da vida Iabor-
segundo princípio é que não se trata a psicose cilidade na réplica e na interpelação, referên- veicular a concepção de uma estrutura que se diana é dedicado à organização de festas, ce-
a partir de um suposto acesso direto a uma pa- cias numerosas às experiências da clínica em desenvolveria independentemente do sujeito rimônias, quermesses, que permitem sair do
tologia estritamente individual e desconectada matéria de organização do trabalho, enerva- e seria sobrevalorizada em relação a ele. universo psiquiátrico, abrindo-o amplamente
do sociaL Tomar a patologia como individual mento em relação à prudência ambiente, e em ao entorno. No início dos períodos de verão,
reduz o tratamento a uma interação simples seu conteúdo ainda muito marcado por Lacan as quermesses anuais montadas sob o patro-
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entre dois indivíduos: o doente e seu médico. e pela linguística estrutural" • De fato, duran- Transversal idade cínio da Federação de Ajuda à Saúde Mental
Para a psicoterapia institucional, ao contrário, te essa primeira metade dos anos de !960, o - Cruz-Marinha - são bastante difundidas
o tratamento passa pela invenção de novos trabalho teórico do GTPSI é também muito O outro grande conceito labordiano, de- e inclusive constituem as reuniões mais im-
agenciamentos e de conexões sociais. As teses influenciado pelo clima intelectual estrutura- senvolvido particularmente por Félix Guattari portantes elo departamento. Configuram a
elaboradas no início dos anos 1960 são o pro- lista da época, que atribui à linguística o papel em 1964 a partir de uma sugestão de Ginette ocasião de representações teatrais em que os
longamento da concepção sartriana do sujeito de ciência-piloto. As práticas promovidas fun- Michaud, é o conceito de transversalidade. doentes são os atores. Em geral, ilustram um
que deve se libertar da alienação para fazer sur- damentam-se em geral nas teses de Ferdinand Guattari consagra a ele sua intervenção diante tema: "1900", ')\, Sologne", ')\,Revolução France-
gir sua própria liberdade. A ideia lançada pelo Saussure, Roman Jakobson e Nicolai Troubet- do primeiro Congresso Internacional de Psico- sa', "Western", "Cafés dançantes", etc.
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GTPSI é, portanto, fazer emergir um grupo-su- zkoy. Assim, a vontade de chegar à distinção drama realizado em Paris em !964 • A aborda- O período mais intenso dessas animações
jeito e desconstruir os grupos assujeitados "que das pessoas em relação a papéis instituídos e a gem transversal tenta subverter as oposições culturais situa-se sobretudo antes de 1968. A
recebem sua lei de fora, diferentemente de ou- funções não é apenas de inspiração sartriana, estruturais binárias e contribui para manter clínica consegue envolver fortemente as co~
tros grupos, que pretendem se firmar a partir mas também estruturalista, e pretende dar um sempre em funcionamento o dispositivo ma- munidades vizinhas e até organiza um "mês
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da adoção de uma lei interna" . prolongamento psiquiátrico às análises fono- quínico. Partindo de uma analogia entre o cultural", em que toda noite se inventa uma
As primeiras intervenções de Guattari no lógicas da língua. modo de desvio de sentido que se opera nos nova animação em conjunto com a Casa de
GTPSI - no qual é praticamente o único não É o momento em que o psiquiatra Clau- psicóticos e os mecanismos de discordância Cultura de Blois. A vida da clínica se con-
psiquiatra - são moderadas e mais consen- de Poncin lança em La Borde a noção de "si- crescente que perpassam a sociedade, ele sis- centra na longa preparação desses eventos.
suais. Rapidamente, porém, ele assume um lu- tuemas", que aproxima as relações intrains- tematiza a oposição entre os grupos-sujeitos e Confeccionam-se roupas, aprendem-se mú-
gar importante, e suas intervenções são longas titucionais e as relações entre fonemas. A sicas e diálogos, percorre-se o departamento
e fundamentadas, saindo das referências pura- intervenção do Oury no GTPSI, em junho de para vender os bilhetes da tômbola em que o
"'N. de T.: No original, lingistique, de lingerie (lavanderia) e
mente psiquiáttiibas para._abrir a reflexão a ou- !960, demonstra que La Borde é estruturada linguistique (!inguística). vencedor pode ganhar um carro. Há ínclusive
62 ____________________________________________G_'i_lle_s_D_e_l_e_uz_e__
&_F_é_li_x_G_u_a_tt_a_ri___ 63

equipes que saem à noite para fixar cartazes da fotografia num jornal de uma das filhas de sua atividade oficial, Micheline Kao de dedica era sua mulher. Ele estava sentado um pouco
informando sobre as atividades previstas. A Charles Chaplin, Victoria. Além de sua beleza, a todas as atividades labordianas. Ela cuida distraído com essa jovem encantadora com a
quermesse sobre "A Hevolução Francesa" dei~ Jean-Baptiste descobre que ela gosta muito de principalmente de uma oficina de estenoda- cabeça apoiada nos seus joelhos. Disse a mim
xou lembranças muito fortes, com todos os circo. Thierrée escreve para ela: "Eu não tinha tilografia que funciona bem; de tempos em mesma: esse pequeno quatro-olhos, ele não
internos fantasiados de sans culottes cantando o endereço dela na Suíça. Simplesmente pus tempos, incumbe-se das prescrições de insuli- está aborrecido mesmo assim":ls.
La Carmagnole. Jean Renoir até apresenta ali no envelope: Victoria Chaplin. A carta chegou e na e faz algumas vigílias noturnas. Além disso, A família de Nicole, de origem campone-
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seu filme La Marseillaise. Nesse ano, quase 5 um mês depois ela estava junto de mim" • A se- continua a datilografar os artigos de Félix. É sa, vive em Tour-en-Sologne. Sua mãe é arru-
mil pessoas convergem para La Borde. Na pre- quência é um verdadeiro conto de f3.das, e sere- nessa época que Guattari se apega bastante a madeira e tem uma forte queda pelo álcool, e
f€itura de Blois até mesmo ressoava a ameaça: aliza uma grande cerimônia de casamento em um interno de La Borde totalmente recolhido seu pai, antigo mecânico e piloto de testes de
"Tbus les bourgeois, on les pendra'"·'. Quando da La Borde, em 15 de maio de 1971. Acompanhei- em si mesmo, autista, e consegue que faça pro- aviões, fOi vítima de um acidente que afundou
quermesse sobre o tema da Sologne, os organi- ra de Guattari então, Arlette Donati, é madri- gressos por força de redobrar as tentativas e os sua caixa torácica. Em 1955, ele acaba de fale-
zadores mandaram buscar rabiolots (caçado- nha de Victoria e Michel Rocard de Jean-Baptis- ângulos de abordagem. Comunica-se com ele, cer em decorrência desse acidente. Solicita-se
res no dialeto da Sologne), contadores de his- te Thierrée, militante do PSU. Esse casamento faz com que fale e acaba conseguindo curá-lo a Félix que cuide de Nicole, uma incumbência
tória, músicos com instrumentos antigos. Sob deixa Charles Chaplin desesperado, pois acaba depois de ter dedicado quase que exclusiva- que será total e se transformará em casamento.
um capitel de 3 mil lugares, Johnny Hallyday, de escrever um filme, The Freak, no qual ela de- · mente a ele sua atenção terapêutica. Dessa união nascem sucessivamente Bruno, no
o "ídolo dos jovens", entoa "Cabelos longos, veria t3.zer o papel de uma mulher-pássaro. A promiscuidade da vida comunitária de dia 12 de dezembro de 1958, Stephen, em 1961,
ideias curtas". No inverno, a clínica não para, O casal Thierrée~Chaplin cria uma anima- La Borde fragiliza o casa!'l6. Depois de um ano, e finalmente Emmanuelle, em .1964: "Nicole era
e organiza cerimônias para as quais convida às ção particularmente intensa em La Borde com em 1956, eles se separam, e Micheline Kao dei- muito frágil. Era adorável, mas um passarinho.
vezes estrelas de primeiro plano, como jacques suas tendas, seus cavalos, suas feras, serpentes xa La Borde. É o fim de uma longa ligação. Ape- Ele a ajudou, a estruturou e lhe deu prazer ca-
sando~se com elá' • A partir da integração de
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Brel, que esteve lá duas vezes. e animais de todo tipo, e os internos são convi- sar de tudo, Micheline e Félix preservam seus
La Borde é também o local de nascimento dados a participar dos espetáculos: "Tivemos vínculos de amizade. Inclusive, alguns meses Nicole Perdreau a La Borde, quase toda a famí-
de um circo, graças ao encontro de Guattari alguns êxitos. Penso principalmente no caso mais tarde, alimentam o projeto efêmero de lia Perdreau desembarca na clínica'10•
com]ean-Baptiste Thierrée, militante maoísta de Claude Farei, um catatônico. Tive a ideia voltar a viver juntos. Félix procura um aparta- Nicole Perdreau instala-se com Félix em
que se apresenta sempre no cabaré L'Écluse em de fantasiá-lo da cabeça aos pés, e nessa situa- mento em Paris e sugere a Micheline que res- uma pequena acomodação de três peças, e é
Paris, no começo do Boulevard Saint-Michel, ção ele fazia tudo o que eu lhe solicitava. Eu tabeleçam sua vida comum. No ano seguinte, muito exigente com a limpeza do lugar: "Havia
com um número de magia. François Paio, lhe perguntava sempre: 'Por que você se mexe em I 957, Micheline Kao conhece o irmão de uma única porta, e atrás da porta as pantufas
amigo ele Gattari, assiste ao espetáculo e, en- quando está fantasiado?' Ele não respondia Nicole Guillet, Pierre, com quem se casa. Quan- que a gente tinha de calçar se não quisesse ou-
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tusiasmado, sugere que faça seu número em jamais, até que um dia me disse: 'Porque isso to a Félix, ele tem dificuldade de superar essa vir os berros de sua mulher"' • Assim, quando
La Borde. Lá conhece Guattari, que lhe pro- não é sério"'%. No verão de 1971, o circo Bon- ruptura, a ponto de pensar e de escrever que queriam ver Félix, seus amigos passavam pela
põe trabalhar com ele. Thierrée vai então a jour de Thierrée e de Victoria Chaplin ainda sua companheira Michelíne não queria conti- janela para evitar a cerimônia das pantufas e o
La Borde toda semana para passar dois dias não havia sido criado oficialmente, mas eles nuar em La Borde e lhe teria dado um ultimato: encontravam na peça minúscula que lhe ser-
com os internos e montar espetáculos. Assim foram convidados por Jean Villar a apresentar ou eu ou La Borde, provocando assim a ruptu- via de escritório.
como os outros, integra-se na vida cotidiana seu espetáculo no quadro do Festival de Avig- ra. Quando Micheline Kao anuncia a Félix seu Félix não é um pai muito presente, na me-
da clínica com responsabilidades diversas. Em non. Ao retornar a La Borde, Thierrée sonha futuro casamento, a tristeza se transforma em dida em que divide seu tempo entre La Borde
mau estado psicológico, Thierrée é imediata- com Guattari montando uma exposição hu- raiva: "Se você quer se casar, será comigo e com e Paris, onde alugará um apartamento muito
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mente curado por Guattari: "Melhorei desde mana em que apresenta casos sociais de todas mais nint,'llém", disse-lhe ele • Apegada a Félix, bonito e espaçoso na Rue de Conde. Seu filho
que conheci Félix. Ele teve indiretamente uma as espécies ao invés de animais. hesitante, ela pede um tempo para pensar. Bruno lembra que, aos 5 anos, ia com mãe à
grande influência sobre minhas atividades por Nesse meio-tempo, Félix tem um encontro estação de Blois todas as quintas-feiras bus-
pensar que tudo o que se deseja é possível"::;:s. decisivo com aquela que se tornará sua esposa car o pai, que na segunda-feira partia nova-
Na época, Thierrée acalenta o sonho de A família Guattari e sua ruptura e com quem terá três filhos. Nicole Perdreau, mente para Paris. Guattari tenta compensar
montar um circo de tipo novo. Encorajado jovem e bonita, acaba de chegar a La Borde suas ausências com uma grande atenção aos
pelo novo amigo, encontra coragem para pro- A companheira de Guattari em 1955, Mi- como monitora. Quando a conhece, Félix está filhos. Trazia para eles de Paris todo tipo de
curar personalidades que não conhece. É as- cheline Kao, deixa a casa dos pais um pouco completamente perdido e deprimido: "Essa jogos educativos. Sobretudo, Félix ensina des-
sim que, certo dia, seus olhos se detêm diante vacilante e arrependida. Mesmo assim, ela ten- moça era encantadora, era o que minha avó de muito cedo ao filho mais velho a leitura e
ta a experiência e trabalha em La Borde como chamava de uma pequena Tanagra, uma jo- o cálculo mental; ''Aos 4 anos e meio, eu sabia
secretária médica. O casal vive em um quarti- vem morena, um corpo bonito, fina, radiante, ler e escrever, e aos 6 anos, conhecia todas as
~, N. de T.: Verso d~~.La Carmagnole: "Todos os burgueses.
nho embaixo da cozinha do castelo. Além de e a primeira vez que a vi com Félix ainda não tabuadas de multiplicação'' 42 • Muito autoritá-
vamos enforcá-Ioé
64 fr<tncoís Dosse Gilles De!euze & Félix Guattari 65

rio, Félix exige do filho Bruno, que tem apenas Sua ligação com Arlette pouco a pouco relação privilegiada com a natureza e a alegria amigo Félix um pouco tímido nesse campo.
6 anos, que mantenha um diário, o que causa leva Félíx a romper com sua esposa Nicole. de construir ninhos para os pássaros. Subita- Mas, em contato com ele, torna-se um corte-
ao filho um profundo embaraço - mas ele tem Quando Arlette retorna, eles só se veem em mente, as crianças se veem divididas entre o jador impenitente. É preciso dizer que a época,
de aceitar, pois o pai o tranca em um escritório La Borde na ausência de Nicole ou em hotéis conjunto habitacional com sua mãe e o fim de em torno dos anos de 1967 e 1968, também fa-
com um caderno a ser preenchido e um lápis. das proximidades. Contudo. logo saem dessa semana em Dhuizon, onde se misturam a uma vorece o questionamento de todas as formas
Contudo, absorvido por suas diversas ati- situação provisória. Cansada de "nomadizar" massa de amigos que cercam seu pai e formam de familiarismo e coloca ao lado do futuro re-
vidades, Félix logo não terá mais o tempo ne- em toda a Sologne de hotel em hotel, Arlette uma barreira. Quanto ao pai, ainda não é fácil volucionário um outro modo de relações en-
cessário para dedicar aos filhos e se apoia em Donati vai à agência de turismo de Blois para para ele viver essa situação: 'A.s crianças foram tre os sexos, mais livres, desembaraçadas dos
sua esposa. Após a ruptura do casal, delega sua conseguir uma casa. Procurando um local de embora. Impressão de falta. Foi a primeira vez constrangimentos momis e dirigidas apenas
responsabilidade ao filho mais velho, Bruno: veraneio, ela encontra um castelo magnífico e desde a separação que pude cuidar deles por ao desejo. O momento se presta, portanto, a
"Eu não tenho tempo, você cuida de tudo" 4 :~. muito amplo que Félix pode alugar em parte urn mês inteiro. Entre os três, eles fOrmam uma uma libertinagem generalizada, e o certificado
Nos momentos em que o pai está presente e onde o casal viverá por sete anos, não longe personalidade coletiva" •
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de bom revolucionário costuma ser avaliado
em La .Borde, as crianças vivem em horários de La Borde, em Dhuizon. Félix abandona sua Às· dificuldades próprias ao desmorona- pela capacidade de romper. Nesse campo. Fé-
defasados. O pai trabalha até tarde e se dei- esposa e o térreo de um galpão de La Borde. mento do círculo familiar acrescenta-se a con- lix Guattari dificilmente encontrará um con-
ta tarde, portanto as crianças nunca jantam Quanto a Arlette, sua situação de amante ofi- denação inapelável dos pais de Félix em rela- corrente perigoso.
com os pais. Visto que Félix não é muito dado cial de Félix lhe permite integrar-se nas ativi- ção aos seus fllhos. O divórcio ainda não é tão Nesse clima em que se prega a união livre
às férias, quando a esposa e os filhos viajam, dades ela clínica. Em Dhuizon, Félix mora em comum nesses anos de 1960, e eles reprovam contra o casamento, o intercâmbio sexual ge-
em geral para Sables-d'Olonne por um mês, um espaço amplo que Arlette organiza man- com rigor a ruptura que ele provocou. Soma-se neralizado, a liberação das mulheres, chega-se
ele os acompanha apenas por uma semana. dando derrubar as paredes e concebendo um à reprovação moral dos pais e dos irmãos o inclusive a perseguir toda forma de casais mui-
Bruno não sofreu muito com essa ausência, escritório e quartos modernos e iluminados. fato de que Arlette Donati é muito mal aceita to estáveis. Oury lança um olhar crítico sobre
pois, como fllho mais velho, sentia com forte Dhuizon logo servirá de acolhida para o "ban- na família Guattari. Ela subverte os hábitos de essa prática de "kamikazes eróticos"52: "Esses
intensidade a presença do pai, ainda que tão do" de Félix: seus amigos do CERFI se hospe· Félix. Ele que nunca dera atenção à maneira de kamikazes vinham de Dhuizon. Lá era seu
fugaz.. O mesmo não ocorreu com Stephen e dam regularmente ali em uma casinha situa- se vestir, que usava um pulôver em qualquer posto de comando, e quando um casal se man-
Emmanuelle, atingidos em cheio pela ruptura da próxima ao castelo. Félix mantém assim o estação, é induzido a se tornar mais elegante, tinha depois de oito dias, enviava-se um kami-
entre os pais. projeto de construir um casal, mas desta vez e Arlette se aplica em vesti-lo diferente: "Quan- kaze para desmanchá-lo, porque o amor era
Em 1967, uma jovem enfermeira de uma com Arlette: "Ingenuamente, eu pensava ter do o conheci, parecia um velho, à parte seus capitalista. O poder erótico também causou
clínica psiquiátrica de Marseille, Arlette Dona- rompido para sempre com esse tipo de conju- olhos. Estava vestido corno um velho, cabelo estragos, e, quando se aplica aos esquizofrê-
ti, vai estagiar em La Borde, por dez dias. Félix galidade' Porém, Já estava eu de novo, e desta cortado muito rente, com óculos grossos que nicos, isso se torna crime"53 . Por iniciativa de
se apaixona à primeira vista: "Em 1967, uma vez ainda por conveniência própria"'16• deviam pesar uma tonelada diante de seus Guattari, formou~se um grupo para perseguir
moça de extrema beleza vem para La Borde. Essa ruptura radical tem efeitos desas- olhos"". Arlette acha que Félix sofre de nu- casais que representavam a "terrível conjuga-
Chama-se Arlette. Trava-se uma relação mui- trosos para a esposa e para os filhos de Félix. merosas inibições sob sua aparente facilidade lidade"". Contudo, a psiquiatra Danielle Siva-
to mais séria desta vez, porque Arlette é uma Nicole Perdreau tem de se mudar, deixar a com os outros: "É que ele se sentia pouco à don, ao chegar a La Borde em 1972, consegue
personalidade extremamente rica"'14 • Bastan- acomodação em La Borde, mas continua tra- vontade, como se nenhum prazer da vida pu- formar um casal com Jean-Claude Polack, o
te perdida, não compreendendo muito bem balhando na clínica. Ela se instala com os três desse ou o tivesse tocado"50• Ela se surpreende, que não deixa de ser uma proeza: "Por pouco
onde mete os pés, ela é duramente criticada filhos e toda a família no conjunto habitacional ela que adora o sol, ao ouvi-lo dizer que o sol nossa vida foi salva. Tivemos um filho, mas
por Jean Oury: "Havia duchas comuns e lava- de Blois: "Para nós, o mundo inteiro vem abaixo provoca bolhas, e não compreende como qual- éramos mal vistos" 55•
bos comuns, de modo que todos iam lavar as com a separação dos pais. É uma catástrofe ter- quer atividade esportiva e corporal pode ser Essa explosão da sexualidade nem sempre
mãos e encontravam seu analista escovando rível. Ficamos todos doentes. Stephen rói até as totalmente estranha a Félix: "Ele nunca tinha é do agrado de Arlette Donati, que constata
os dentes .. : Eu tinha feito duas ou três refle- unhas dos pés. Emmanuelle está cheia de fun- tomado um banho de mar. Ele não sabia sair com despeito que o casal que forma com Guat·
xões para Oury, que me empurrou um monte gos na cabeça. Para nós, é um horror comple- para viajar, não sabia como devia comer, em tari fica a sós apenas na quinta-fCira à noite em
de livros, mas literalmente dizendo: 'Vá ler, to''47. Isso é agravado pelo fato de a vida em La que copo tinha de beber" 51 • Dhuizon. Félix usa sua rede de amizade para
você não passa de uma idiota. Você não enten- Borde ser mais idílica. Os filhos de Guattari e os Paralelamente à sua vida com Arlette, Félix se proteger, e seu grande amigo François Pain
de nada!"' 45• Contudo, Arlette Dona ti é apoiada dos outros psiquiatras, como os filhos de Oury, se envolve em relações cada vez mais nume- é encarregado de se ocupar de Arlette duran·
por Guattari, que, num primeiro momento, tinham uma vida comunitária. Podiam partici- rosas com as mulheres. F, encorajado por seu te sua ausência. No plano sentimental, assim
não lhe desperta muito interesse. Quando re- par das inúmeras oficinas da clínica e assim se "tenente" em La Borde, seu amigo psiquiatra como no plano político, Guattari revela uma
toma para Marseille, Félix não para de lhe pe· dedicar a atividades tão diversas quanto a mar- Jean-Claude Polack, cuja fama de mulheren- capacidade de romper fora do comum, que
dir que volte'para So)ogne. cenaria, a cerâmica, o desenho, sem contar a go já é conhecida. Polack inclusive achava seu pode estar relacionada com sua angústia de
66 Oosse Cilles Deleuze & Félix Cuattari 67

morte, sua rejeição quase fóbica de tudo o que qual estabelece uma relação e, no momento A prova por lacan discutir diretamente com ele quando o leva de
pudesse estar ligado à compulsão de repetição, da ruptura desta com Félix, vai com ela para carro de sua casa de campo de Guitrancourt
remetendo por isso mesmo à finitude, à mor- o pavilhão em frente. Michel Rostain vivia até A vida de La Borde é ritmada também pe- para Paris: "Tenho por essa pessoa um respeito
te. Para conjurar esse temor, precisava sempre 1969 com uma ex-aluna do colegial, chamada los seminários de Jacques Lacan. Como escreve absoluto. Não mudei de opinião. Para mim, é
apostar na novidade, tentar novas experiên- Catherine, que por sua vez se apaixona por um com humor Jean Oury, a quarta~feira é um dia o coeficiente de estabilidade que é absoluto'' •
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cias, saltar para outra coisa ou outra pessoa. dos grandes companheiros de Félix no CERFI, mais morto em La Borde que o domingo. Qual a Visto que numerosos monitores de La
A vida do casal Arlette-Félix está cada vez Lion Murard. Entretanto, Félix também man- razão disso? Nada a ver com o dia de folga esco- Borde eram compelidos a fazer análise com
mais dividida entre a Rue de Conde em Paris tém uma relação com essa mesma Catherine, lar, não, é por culpa de LaCan. Nesse dia é o se- Lacan se quisessem continuar na clínica, toda
de segunda-feira a quinta-feira à tarde e Dhui- enquanto Iv1ichel Rostain se torna amante de minário do Mestre: "Isso produzia em La Borde semana saía um vagão da SNCF* quase lotado
zon o resto do tempo. Em Paris, assim como Arlette Donati. uma hemorragia de pessoal, de dinheiro. Com da clínica para o divã de Lacan. Guattari ain-
em Dhuizon, o desfile de amigos é permanen- Guattari fez do combate contra o fami- Félix, a invasão, com Lacan, a hemorragia... "60. da acreditava que foi a análise com Lacan que
te, podendo chegar até 50 pessoas nos fins de liarismo um tema militante. Contudo, está Vimos que o primeiro contato entre Oury e Tos- lhe permitiu expressar sua experiência subje-
semana de tempo bom: "Félix habitava Dhui- longe de ser indiferente aos próprios pais, quelles ocorreu em torno de um texto de Lacan. tiva. Contudo, a duração da análise é das mais
zon em uma estrutura que lembrava muito a particularmente à mãe, personagem nodal O choque foi tamanho que Oury abandonou variadas, às vezes meia hora, mas geralmente
corte de Luis XIV Ele tinha a primeira favorita, na construção de sua personalidade. Os pais, suas veleidades de fazer biologia e decidiu se três ou quatro minutos fracionados em duas
a segunda, a terceira, e havia acertos de con- se reaproximaram dele geograficamente em orientar para a psiquiatria, e pouco depois já ou três sessões no mesmo dia, entrecortados
56
tas impiedosos" • Segundo Oury, Dhuizon era 1967. A mãe de Félix, com problemas oftal- estava em Saint-Alban: "Tosquelles mandava de momentos intermináveis na sala de espera.
o "jardim de Adonis". O casal atravessa sérios mológicos recorrentes, consulta regularmen- distribuir um texto aos internos: fazia-os ler a Às vezes, mediante pagamento, ele prolonga a
períodos de crise: "Arlette se apaixona por um te os médicos de La Borde e simpatiza com tese de Lacan e depois de um mês lhes pergun- sessão no carro, enquanto Guattari o leva para
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sujeito de Aix-en-Provence que eu tinha co- Oury, que cuida dela como da própria mãe. É tava o que achavam dele" • Na época, Oury de- casa, na Rue de Lille, após o seminário: "Isso
nhecido muito tempo antes em A Via Comu- durante essas visitas que o pai de Félix e seu vora todos os escritos de Lacan e resolve assis- faz parte da análise"", dirá Lacan.
nista.. De imediato, eles fazem projetos de ca- irmão Jean procuram uma casa de férias em tir regularmente seu seminário e f8.zer dele seu Guattari participa da criação da Escola
samento ... Tenho muita dificuldade de aceitar Loir-et-Cher. Chegam a Montoire - sinistra- analista, o que não é possível realizar de ime- Freudiana de Paris em 1964; associado à sua
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essa história!" mente conhecido pelo Ü1moso aperto de mão diato- a Lozere é muito longe de Paris. Quando arrancada, é ele que sugere a publicação de
Félix estimula Arlette a continuar seus es- entre Pétain e Hitler e se dirigem à casa do se instala em La Borde, seu sonho pode enfim uma "Carta" para tirar a Escola de sua tendên~
tudos, a se inscrever em psicologia em Paris primeiro notário. Ficam encantados com uma se realizar. O horário da clínica torna-se então cia ao confinamento sectário. Guattari, consi-
- ela se torna psicoterapeuta. O casal não con- magnífka casa de pedra em meio a um vas- tributário do famoso seminário parisiense de derado por Lacan como um jovem e brilhante
segue resistir muito à proliferação de relações to parque dominado por um grande cedro à quarta-feira em Saint-Anne e depois em Ulm, intelectual, espera se tornar um interlocutor
e ao ambiente de liberação sexual que preside beira do Loir, onde se pode passear de canoa. que Oury e toda a equipe de direção da clínica privilegiado do guru da cena parisiense, mas
La Borde. Quanto a Arlette, é cada vez mais di- Essa casa, onde os pais de Félix permanecerão não perdem por nada. Oury faz rigorosamente constata desolado a ascensão de toda a cor-
fícil para ela tolerar a invasão constante. Ele se por treze anos, fica bem próxima a La Borde anotações muito precisas, que serão objetos de rente maoísta em torno de Jacques-Alain Mil-
instala bem próximo de sua casa em Dhuizon, e se torna um lugar privilegiado para receber trabalho para as reuniões do GTPSI. ler. A concorrência é acirrada.
a uma centena de metros dali, em um grande suas crianças e seus amigos, entre os quais Oury torna-se um parceiro interessante Em 1969, antes do rompimento definitivo,
pavilhão, com amigos. Além disso, continua vi- Jean Oury. Os pais tentam inclusive transferir para Lacan, por estar ligado a uma clínica psi- Lacan lhe prega mais uma peça, como é seu
vendo na Rue de Conde em Paris, para onde só a fabrica Monbana para Montoire. Alugam du- quiátrica de renome, vanguardista, que pode costume. Guattari escreveu um texto impor-
vai agora temporariamente. A ruptura é brutal rante seis meses a parte desativada da estação ser uma fonte de inspiração e de prolongamen- tante para ele, que tem um papel estratégico de
e diflcil: "Deparei-me algumas vezes com essa da cidade, onde há agora apenas um trem por to clinico da abordagem lacaniana da psicose. resposta ao paradigma dominante do estrutura-
experiência de desordem em estado bruto, na dia, mas o projeto não dá certo. De fato, toda a equipe clínica de La Borde pas- lismo, ''Máquina e estrutura'',-que serviu inicial-
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separação de Arlette" . Essa aproximação espacial com o mundo sa pelo divã de Lacan: "Toda vez que chegava mente de exposição destinada à Escola Freudia-
De maneira geral, a chegada da segunda de Félix atesta a grande afeição que ele tem alguém em La Borde, a primeira coisa que lhe na de Paris. Nesse texto fundamental, Guattari
"invasão bárbarà' a La Borde com os estudan- por sua mãe. É claro que, publicamente, ele diziam é que deveria fazer uma análise e, na- retoma categorias de análise da obra de Gilles
tes contestadores da UNEF, em meados dos diz que a família não tem sentido e zomba de turalmente, com Lacan. Chegou-se a obrigar Deleuze, Diferença e Repetição, lançada em 1968,
anos 1960, favorece a aceleração das trocas Arlette, que convida seus pais para Dhuizon. pessoas a abandonar seu analista e se trans- que se tornará o suporte essencial de suas pri-
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nos casais e sua fragilização. Michel Rostain, No entanto, de maneira signitlcativa, quando ferir para Lacari' • Toda a abordagem da psi- meiras discussões e de sua futura colaboração.
que se instala em La Borde em 1965, vai mo- sua mãe morre em La Borde, em 1969, "ele não cose por Oury é marcada pelos ensinamentos
rar com Félix,em Dhuizon a partir de 1969. parava de dizer que estava órfão: 'Estou órfão', de Lacan, ainda que ele não se coloque como
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Ele coabita ehtão com Arlette Donati, com a ficava repetindo'' • cliscípulo, mas sim como alterego que costuma ~, N. de T.: Société Nationale des Chemins de fer Français.
68 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 69

Roland Barthes aprecia bastante esse texto de No pós-guerra, Deligny constituiu a "Grande Em .1965, é arruinada, sem nenhum recur~ guerra da Argélia. Félix simpatizou com ele em
Guattari e pede para publicá-lo em Communi- Cordée", que foi a primeira experiência de cura so, que a pequena tropa decola do campo de La Borde.
cations. Guattari fala sobre isso com Lacan no ambulatorial, evitando assim a internação psi- CevEmnes para seguir em direção de La Borde. Louis Ohrant instala-se com a mulher e os
divã, e o mestre fica indignado: Como! Por que quiátrica de jovens com transtorno de caráter. A Bem acolhido, Deligny trabalha por um bom três tllhos em Gourgas, onde cuida da manu-
não sua própria revista, Scilicet? Lacan obriga o iniciativa surgiu de seu encontro com Huguette tempo no Loir-et-Cher: "Ele passava o dia todo tenção, cultiva a terra e cria carneiros. Guatta-
analisando a escolher sua editora. Guattari tem Dumoulin, antiga responsável nacional pelas Ju- em sua oficina. Era muito bom para os doen- ri envia também seu amigo cineasta François
de se dobrar à exigência e procura Barthes para ventudes Comunistas e militante ativa na rede tes""'. Apesar de sua cumplicidade amigável, Pain para ajudar Deligny a montar os quilôme-
lhe pedir que desista da publicação. Longe de de AJ: "Os locais da Grande Cordée- que tinha ]osée Manenti tem um atrito com Guattari a tros de filme rodado desde a Grande Cordée.
cumprir sua promessa, Lacan procrastina e não começado em um teatro, em Montmartre pa- propósito do acompanhamento de um doente, Entretanto, François Pain desiste muito rápido:
publica o texto, que acabará sendo aceito na re- reciam saguão de estação de trem, com viajan- e não haverá mais acordo possível: "Ele [Félix] "Deligny queria que eu ficasse com ele, mas era
vista de Jean-Pierre Faye, Change, em 1972. tes bizarros, que passavam da manhã até a noi- me deu um ultimato: 'Ou você ürz o que digo uma vida monástica que não me convinha"n.
te, várias vezes por dia, nervosos, barulhentos, ou vai embora', e eu respondi: 'É muito sim- Em Gourgas, Deligny se vê em um lugar de in-
63
em uma demanda íncessante" . Foi nesse meio ples, eu vou embora'. Eu tinha relações muito teratividade, aberto aos quatro ventos, e isso o
70
As linhas de errância comunitário de ajistas da região parisiense, que engraçadas com ele" • Assim, ]osée Manenti incomoda: "Vou fazer 64 anos - é preciso dei-
transformavam seus estágios de férias em fa-· deixa La Borde e vai para Paris, onde preten- xar a cada tentativa um espaço próprio, pois é
Uma noite de 1965, um caminhão para lanstérios onde tudo era coletivizado, que Fer- de se tornar psicanalista. Quanto a Deligny, ele um verdadeiro caos ver essas pessoas tão dís-
diante do castelo de La Borde. Vem de Céven- nand Deligny recrutou seus educadores e ani- continuará trabalhando dois anos em La Bor- pares convidadas a se juntar em um mesmo
nes com o pequeno bando de Fernand Deligny, madores. Do mesmo modo que para La Borde, de na "estufa" onde instala seu ateliê: "ele tinha canto, ao passo que se a distância fosse respei-
sua companheira, a psicanalistajosée Manen- horror de grupos, uma verdadeira fobia. Fica-
o trabalho terapêutico pelas "curas livres" não tada elas se entenderiam bem" 74• A abertura de
ti, ex-mulher de Michel Durafour, com quem deixava de ter uma intenção política na contes- va no seu canto lá em baixo"71 . Oury tem um Gourgas a toda a extrema esquerda dá lugar as-
viveu doze anos, Yves, o menino austista do fil- tação dos poderes existentes. Comunista, Delig- enorme apreço por ele e considera que seus
65 sim a algumas situações ubuescas*, por exem-
me LeMoindre Geste , Guy, um grande enfer- ny recusava qualquer forma de proselitismo; Te- escritos possuem grande valor poético: "Ele plo, quando a organização trotskista Aliança
mei:fo~ ê Marie-Rose. Não tendo mais dinheiro rapeuta, não queria entrar na malha burocratlCa tem expressões magníficas como 'a sétima face dos Jovens pelo Socialismo (AJS), em estágio
nem onde se fixar, Fernand Deligny procurare- da incumbência pelos organismos de Segurida- do dado ou ainda 'o que seria dos dedos sem a
72 de formação política, decide repentinamente
fúgio em La Borde para continuar cuidand~ de de Social. Pedagogo, era muito crítico em b.ce palma?"' • Em Saint-Alban, seus escritos cons-
abandonar o local, pois seus dirigentes não su-
seus autistas. Oury os acolhe, aprova sua ms- dos profissionais da educação. . , tituíram as primeiras publicações da clínica. portavam conviver com doentes mentais.
talação, mas esclarece que é preciso que Gu~t­ Deligny inventou toda uma hnguagem poe- Após esses dois anos de trabalho em La Solicitado pelo educador Claude Sigala a
tari concorde. A pequena equipe espera entao tica para dar uma expressão gráflca ao compor- Borde, Deligny teve oportunidade de retornar abrir mais amplamente Gourgas para jovens em
o dia inteiro pela chegada de Félix: "Ele parou e tamento de seus jovens autistas. A criança que ao Gard, onde Guattari adquiriu em 1967 uma ruptura escolar, Deligny se opõe. Contudo, per-
olhou para mim: 'Você que éJosée Manenti'l- gira taz uma "auréola'; aquela que se balança faz grande edificação de muros espessos ao pé manece na comuna de Monoblet com seus jo-
Sim -Vamos conversar: Surpreendeu-me logo uma "nuvem de balanço'. Após uma passagem das Cevênnes, em Gourgas, na comuna de Mo- vens autistas, mas a um quilômetro de Gourgas.
de início sua vivacidade, sua inteligência bri- pelo Vercors, em 1954, Deligny com seu grupo noblet. Essa casa serve inicialmente de lugar
As cartas que Deligny envia a Guattari tes-
lhante, de tom muito seco, e por trás de uma parte sucessivamente para Haute-Loire de 1955 de descanso para os internos de La Borde. No temunham a proximidade/distância em face
incrível gentileza, bem dissimulada, sua fragi- a 1956, depois paraAllierde 1956 a 1959. Nesta pós-1968, Gourgas torna-se um dos centros de de suas posições. A propósito de A Revolução
lidade, sua sensibilidade. Era como uma for- data ele se muda para Cévennes, onde fica até confluência do movimento contestatório. Lo-
66 Molecular, publicado por Félix Guattari em
ma de superposição" • Em seguida, destina-se 1965. Huguette Dumoulin, com a qual ele tem cal privilegiado de encontros e de estágios, que 1977, Deligny se diz chocado com o qualifi-
uma oficina de desenho a Deligny, e toda sua duas filhas, e josée Manenti o acompanham a acolhe pesquisadores do CERFI, servirá de re- cativo empregado a propósito de seus doen-
equipe se instala em La Borde, onde se ocupa partir de Paris. É nesse universo pedregoso, e:n tiro para os militantes perseguidos pela justiça tes: "Por que você se refere a débeis quando
assim de psicóticos e sobretudo de autistas. Ao pleno desamparo, que ele se instala com Josee após o Movimento de Maio- foi alugado por um menciona aqui? Trata-se de crianças que se
chegar, Deligny já carrega toda uma história Manenti. Levou para lá uma criança auttsta tempo paraJean-Luc Godard. Guattari propõe 75
recusam a falar... " • Ao mesmo tempo, ele con-
de prática terapêutica. Ele se inscreve em uma profunda, Yves, que acompanhava desde 1956. a Deligny instalar sua tropa em Gourgas. Para fessa ter ficado muito surpreso ao constatar o
perspectiva diferente daquela de Oury-Guatta- Deligny era deliberadamente um genial não administrar o local, Félix designa o antigo res- quanto ambos estão empenhados na mesma
ri, mas igualmente inovadora. Sua vinda para conformista, distante de qualquer instituição. ponsável pelas Juventudes Comunistas de Blois, batalha. Evidentemente, eles não têm os mes-
La Borde não é mero acaso, pois seu itinerário Contudo, a negação da instituição e de suas leis Louis Ohrant, vulgo Mim ir. Personagem da mes-
seguiu uma pista bastante similar, a do s~bü~­ próprias tem um preço, e Deligny pagou à vista. ma estirpe que Raymond Petit da Hispano, esse
bio, dos AJ e d~ contestação dos poderes mstr- operário de origem é um militante ímpar, que ~ N. de R. T.: Digno do personagem do tirano grotesco
Isso levou ao rápido definhamento daquilo que
tucionais67. ficou preso dois anos por deserção durante a "Le pêre UBU" (O pai UBU), criado por A. jerry (França
a "Grande Cordée'' poderia ter criado. 1873-1907)
70 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 71

mos arroubos nem as mesmas simpatias, mas, 7. Ibid., p.l42. 30. !bid., p. 79. 56. Marie Depussé, entrevista com Virginie Li-
como diz Deligny com humor, "qualquer coisa 8. Nicole Guillet, entrevista com o autor. 31. fbid., p. 80. nhart.
serve para atormentar/fracassar o mundo, o 9. !bid. 32. !bid., p. 84. 57. Félix GUATTARJ, "Journal1971", 25 de setem-
76
NÓS do mundo" • A propósito da constatação !0. Ibid. 33. Jean-Baptiste Thierré, entrevista com o autor. bro de 1971, La NouveLLe Revue française, n.
final de uma revolução que se tornou molecu~ 564, janeiro de 2003, p. 336.
11. Félix Guattari, ''La Gril!e", exposição feita no 34. !bid.
77
lar , Deligny corrige: "Se as 'moléculas' preten- estágio de fOrmação de La Borde, janeiro de 58. FéUx Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar-
35. lbid.
diam ser particulares [de partículas], essa 're- 1987, arquivos IMEC. quivos IMEC, 1° de outubro de 1984.
36. De um lado, Guattari tem uma relação amo-
voluçãO a que você se refere não teria chances 12. OSCAR (Félix Guattari), Histoires de La Borde, rosa com a companheira do psiquiatra Jean-
59. Arlette Donati, entrevista com Eve Cloarec,
78
de ocorrer" , Deligny insiste sobre o autismo op. cit.. p. 226. arquivos IMEC, 25 de outubro de 1984.
girard,Jacqueline Moulin, depois com Ginette
dos jovens sob seus cuidados no Gard. Essa !3. Jean-Ciaude POLACK, Danielle SNADON-SA- Michaud, e de outro, Nlicheline Kao tem uma 60. Jean OURY, em Jean OURY, Marie DEPUSSÉ,À
palavra comporta por si só uma dimensão re- BOURJN, La Borde ou !e droit àfoLie, op. cit., p. relação amorosa com um psiquiatra argelino, quelle heure passe le train .. , op. cit, p. 243.
fratária que lhe agrada, pois refrata a lingua- 40. Ben Milard. 61. lbid., p. 247.
gem: "O a-consciente não se diz; não é efeito 14. Histoires de La Borde, op. cit., p. 247. 37. Micheline Guil\et (Kao), entrevista com Eve Clo- 62. Jean-Claude Polack, entrevista com o autor.
79
da linguagem" , rompendo assim com a con- 15. Liane MOZERE, Le Printemps des creches, arec, arquivos IMEC, 20 de setembro de 1984. 63. Jean OURY, emjean OURY, Marie DEPUSSÉ. À
cepção lacaniana de um inconsciente estrutu- L'Harmattan, Paris, 1992, p. 109. 38. Marie Depussé. entrevista com Virginie Li- queL!e heure passe le train ... , op. cit., p. 255.
rado como linguagem, e convergindo com as 16. Félix Guattari, entrevista autobiográflca com nhart. 64. Jacques Lacan, citado por Félix Guattari, ibid.
críticas formuladas por Guattari nesse campo. Eve Cloarec, arquivos IMEC, 29 de agosto de 39. Nicole Guillet, entrevista com o autor. 65. Le Moindre Geste, fllme de Fernand Deligny,
1984. 40. Sua mãe, BérangCre, vem trabalhar ali, sua Josée Manenti e Jean~Pierre Daniel, realização
Prevendo rodar um filme cuja história se
17. Nicolle Guillet, entrevista com o autor. irmã GeneviCve se casa com o cozinheirto, de Nicolas Philibert, 2004.
passa em Gourgas e que pretende realizar no
18. Liane MozCre, entrevista com o autor. Renê. Sua irmã Jeannine se casa com Ettore 66. Josée Manenti, entrevista com o autor.
outono de 1979, Deligny esbarra nos projetos
19. Marie Depussé, entrevista com Virginie Li~ Pellandini, e o responsável pelas quermesses 67. Nascido no subúrbio de Lille em 1913, Fer-
de Guattari. Este, na verdade, pretende ceder
nhart. de La Borde com a mulher do psiquiatra Bi- nand Deligny atua como professor primário
Gourgas, vender a quem fizer a melhor oferta dault, JYlichelle.
20. O núcleo fundador do GTPSI é composto por em Nogent, na região parisiense, em 1936, e
para atender às suas necessidades financeiras.
François Tosquelles,jean Oury, Roger Gentis, 41. Marie DEPUSSÉ, emjean OURY, Marie DEPUS- depois no Instituto Médico-Pedagógico de
Deligny fica ressentido e não esconde isso, e a SÊ, À quelle heure passe !e train ... , op. cit., p. 214. Armenti€res. Em 1941, trabalha no hospital
Horace Torrubia,jean Ayme, Hé!Cne Chaigne-
situação acaba levando à ruptura. Entre o desejo 42. Bruno Guattari, entrevista com Virginie Li- psiquiátrico de ArmentiCres em um pavilhão
au, Philippe Koechlin, Robert l\1illion, Mauri-
de um de preservar Gourgas como lugar aberto nhart. onde vivem juntos jovens psicóticos e jovens
ce Paillot, Yves Racine, Jean Colemin, Michel
aos quatro ventos e o desejo do outro de levar ali Baudry; vários outros psiquiatras se juntarão 43. !bid. delinquentes considerados irrecuperáveis.
uma vida de recluso, o acordo dificilmente pode- a esse grupo inicial: Giséla Pankow,Jean-Clau- 44. Félix Guattari, entrevista com Eve Cloarec, ar- 68. Josée MAl'IENTI. "Fernand Deligny.. :', Chime-
ria durar mais de dez anos: "O estilo de sua carta de Pollack, Denise Rothberg, Nicole Guillet quivos IMEC, 29 de agosto de 1984. res, n. 30, primavera 1997, p. 104.
me surpreende um pouco. Se tivermos de conti- (informações passadas por Olivier Apprill). 45. Arlette Donati, entrevista com Eve Cloarec, 69. Nicole Guillet, entrevista com o autor.
nuar trocando cartas, eu preferiria que fosse em 21. Roger GENTIS, Un psychiatre dans le sü~cle, arquivos IMEC, 25 de outubro de 1984. 70. josée Manenti, entrevista com o autor.
outro tom ... Não vejo por que os internos de La Éres, Paris, 2005, p. 38. 46. Félix GUATTARJ, 'Journal1971", 25 de setem~ 71. Jean Oury, entrevista com o autor.
Borde estariam impedidos de viver em Gourgas! 22. Ver capítulo "Uma alternativa à psiquiatria?" bro de 1971, La NouveLLe Revue Jrançaise, n. 72. Ibid.
Por quê? Em nome de quê? ... Fique com sua ami- 23. Félix GUATTARI, "Introduction à la psycho- 564, janeiro de 2003, p. 336. 73. François Pain, entrevista com o autor.
zade. Ela é realmente precária demais".s0. thérapie institutionnelle" (1962-1963), em PT, 47. Bruno Guattari, entrevista com Virginie Li- 74. Fernand Deligny, carta a Félix Guattari, arqui-
p.42. nhart. vos IMEC, 9 de outubro de 1977.
24. Olivier Apprill, entrevista com o autor. 48. Félix GUAT'J'ARI, "Journal1971", 2 de setem- 75. Fernand Deligny, carta a Félix Guattari, arqui-
Notas 25. Jbid. bro de 1971, La Nouvelle Revue française, n. vos IMEC, 31 de outubro de 1977.
I. Félix GUATTARI, "!.a S.C.A.j. Messieurs-Da- 26. Histoires de La Borde, op.cit., p. 273. 563, outubro de 2002, n. 563, p. 336. 76. lbid.
mes", em Bulletin du personneL soignant des cli- 27. Félix Guattari, "La Grille", exposição feita no 49. Arlette Donati, entrevista com Eve Cloarec, 77. Félix GUATTARI, La Révolution moléculaire,
niques du Loir-et-Cher, n. 1, 1957, reproduzido estágio de formação de La Borde, janeiro de arquivos IMEC, 25 de outubro de 1984. Recherches, Paris, 1977.
emPTp.36. 1987, arquivos do IMEC. 50. lbid. 78. Fernand Deligny, carta a Félix Guattari, arqui-
2. Ibid. p. 37. 28. Ver François DOSSE, Histoire du structuralisme, 51. lbid. vos IMEC, 31 de outubro de 1977.
3. Ibid. p. 37. tomo 1, La Découverte, Paris, 1991; reecl. col. 52. Jean Oury, entrevista com o autor. 79. Fernand Deligny, carta a Félix Guattari, arqui-
4. Jean Oury, entrevista com o autor. "Biblio-Essais", Livre de poche, Paris, 1995. 53. lbid. vos IMEC, 9 de abril de 1978.
5. Jbid, 29. Félix GUATTAR!, "La transversalité" (1964), 54. Danielle Sivadon, entrevista com o autor. 80. Félix Guattari, carta a Fernand Deligny, arqui-
6. Histoires de4aBorde, op. cit., p. 133. em PT, p. 72-85. 55. vos IMEC, 1979.
Ibid.
- ·-
Gi!!es Deleuze & Félix Guattari 73

pouco cansado, Recherchei. Esse é o título bra, longe do verdadeiro saber erudito. Desde

4 adotado, que se inscreve na continuidade da


revista conduzida por sua esposa, Renée Tras-
tour-Fenasse, codiretora da revista da MNEF,
Recherches Universitaires, que então cederá
seu lugar: a ancoragem nos meios estudantis
suas primeiras exposições apresentadas em
1966 na "comissão teórica' da FGERI. Guattari
marca distância das posições althusserianas,
então em plena onda, utilizando Lacan para
elaborar melhor sua crítica.
é garantida e claramente afirmada. A nova re- Ele lembra a esses defensores do conceito
A pesquisa crítica à prova da experiência vista será administrada e dirigida no primeiro pelo conceito o sentido das realidades: "Exis-
momento pela ex-companheira de Fernand te um patamar aquém do qual não se pode
Deligny, Josée Manenti. O desejo manifestado avançar na desrealização da história; existe
pelos iniciadores da FGERJ e por Félix Guatta- um realismo residual da história; essa reali-
ri é submeter as grandes referências tutelares, dade inexpugnável é o fato contingente que os
6
como Marx, Freud e Lênin, à prova da prática homens e ninguém mais fazem e falam" • Para
contemporânea, dos desafios do presente e do além da filosofia da história, essa crítica abre
estágio mais avançado dos conhecimentos em caminho a uma reconexão entre a pesquisa,
todos os campos das ciências humanas: "Are- o saber e o terreno da experiência, do vivido,
petição é a morte. Utilizar Marx ou Freud em das representações dos atores e de sua palavra.
forma de repetição é lançar-se em uma espécie Com isso, Guattari não opõe um sujeito pleno,
4
de incensamento mortífero'' • A FGERJ preten- senhor de si mesmo, ao "processo sem sujeito"
A criação da Federação de Grupos de Es- pedagogia de Fernand Oury ou na psicoterapia de promover a transdisciplinaridade, conce~ de Althusser; trata-se de um sujeito clivado: "O
tudo e de Pesquisas Institucionais (FGERJ) por de François Tosquelles, que já receberam suas bida não como uma partilha de proprietários sujeito esquizofrênico, na verdade, ficará no
Félix Guattari em 1965 marca nele uma verda- cartas de nobreza. Essa federação, muito fle- preocupados com suas delimitações frontei- segundo plano, será o sujeito do inconscien~
deira guinada estratégica, que deixa para trás xivel em seu funcionamento, agrupa mais de riças, mas como indagação original sobre o te, chave oculta das enunciações recalcadas ...
A Via Comunista e suas filiações trotskistas. O cem pesquisadores, e seu local de implantação território das disciplinas para articular suas Essa subjetividade não tem de prestar contas
7
objetivo é converter o trabalho intelectual em mais importante é, evidentemente, o meio psi- orientações de pesquisa "a fim de que seus nem perante a lei, nem perante a história:' •
um programa de pesquisa não acadêmica. Tra~ quiátrico. conceitos estejam em 'oposição distintiva' e Guattari quer manter o objetivo de trans-
ta-se de organizar, a partir das competências Sob o impulso de Guattari constitui-se um não se mantenham em estruturas antagonis- formação revolucionária que sempre defen-
5
específicas de cada um dos grupos autônomos organismo que terá grande ressonância no tas de desconhecimento recíproco" . deu, mas agora sustentado por uma reflexão
constitutivos da federação, a circulação má- campo das ciências humanas: o Centro de Estu- Afirmar entre 1965 e 1966 o valor das pes- conduzida do interior da sociedade. Não se
xima de suas contribuições; a intenção é sub- dos, de Pesquisas e de Formação Institucionais quisas empíricas em ciências humanas é sin- trata mais de esperar a "grande noite", mas
verter os hábitos e as falsas certezas de toda (CERFI), cujo objetivo é permitir à federação gularmente inovador e original em um con- de prepará-la mediante transformações efeti-
disciplina constituída. "firmar contratos de pesquisa com organismos texto intelectual muito "althusserizado". É o vas das instituições. A FGERI, essencialmente
públicos ou privados sobre problemas suscetí- grande momento do sucesso de Ler o Capital composta de intelectuais, tem ligaçôes tam-
veis de estimular e de enriquecer o trabalho da e Para Marx, do retorno "a Marx" seguindo bém no mundo industrial, em particular com
2
A transdisciplinaridade em ato FGER1" • O CERFI, que conhecerá sua idade de as vias do "corte epistemológico". Preconizar a prestigiada rede da Hispano comandada por
ouro nos anos de 1970, obterá subvenções subs- um desvio pelas práticas sociais e institucio- Roger Panaget, que cria o Grupo de Estudos e
A FGERJ desenvolve o princípio da trans- tanciais do Estado para financiar algumas pes- nais, assim como pela prova dos fatos, abre de Pesquisa do Movimento Operário (GERMO)
versahdade1 enunciado por Guattari nos espa- quisas de grande amplitude nas áreas da saúde, ligado à FGERJ. Outro grupo da FGERJ contri-
caminho a investigações promissoras que de
ços que têm em comum lidar com a institui- da formação, do equipamento, etc. imediato representam escapes, linhas de fuga bui desde 1965 para a difusão das teses femi-
ção: psiquiatras, antropólogos, psicanalistas, Para dar mais visibilidade a esses traba- nistas, o Grupo das Boas Mulheres de Esquer-
nesse ambiente científico e puramente con-
psicólogos, enfermeiros. O meio labordiano lhos, a FGERJ publica uma nova revista cujo da (GROBOFEGA), combinando uma reflexão
ceituaL Embora essa orientação permaneça
está na raiz desse projeto, ao qual se associam primeiro número sai em janeiro de 1966. Um marginal e a contracorrente das fascinações histórica e etnológica e um engajamento espe-
educadores, professores primários e universi- ano antes, um pequeno grupo em torno de cificamente feminino com ações de luta pela
do momento, a FGERJ dispõe da aquisição da
tários, urbanistas, arquitetos, economistas, co- Félix passou uma noite inteira pensando no reflexão sobre a análise institucional que pre- contracepção livre e gratuita, pela liberdade de
operantes, cineastas, etc. Em outubro de 1965, título da nova revista. Michel Butel propõe aborto e pela liberação sexuaL Encontram-se
tende conjugar as contribuições do freudismo
há doze grupos federados, e todos têm como um nome a cada quinze minutos. Guy Tras- ali, entre outras, Nicole Guillet, as sociólogas
e do marxismo, e colocar a libido no centro do
referência a an~li:se institucional inspirada na tour recorda de ter sugerido no final, já um Liane Moz8re e Anne Querrien, assim como a
processo de pesquisa, e não mais na penum-
74 François Desse Gilles Deleuze & Félix Guattari 75

escritora Annie Mignard e a futura psicanalista O fim da guerra da Argélia em 1962 reforça novação abrindo espaço para artigos menos organiza uma série de estágios, de encontros
Brigitte Maugendre. a atividade e a influência de Guattari no meio diretamente políticos, abordando a criação entre estudantes e os meios profissionais espe~
Os primeiros números da revista Recher- estudantil do lado da MNEF e da UNEF. A si- artística e o mundo intelectual. Podem ser cializados. É no âmbito de um desses estágios,
ches dão uma ideia da diversidade pretendi- tuação universitária é marcada por um duplo lidos ali textos sobre Alain Resnais, Maurice no final de 1963, que Jean- Pierre Milbergue
da pela F GERI, assim como de sua recusa de processo de radicalização política com a gui- Béjart, Samuel Beckett. que rendem ao sema- organiza uma reunião com o pessoal de La
qualquer forma de centralização. O primeiro nada à esquerda da UNEF em 1963 e com a au- nário uma ampla audiência (25 mil exemplares Borde: Oury, Guattari e alguns outros deixam
contém um artigo de Félix Guattari sobre a tonomização da UEC em relação à direção do vendidost Mais radicais que esses ''italianos" o seminário de Lacan da Rue d'Ulm para se di-
psicoterapia institucional que revela o verda- PCF. Após a guerra da Argélia, que havia mobi- da direção da UEC, correntes heterogêneas de rigir como vizinhos à sede da MNEF, na Place
deiro ponto de ancoragem dessa federação, lizado fortemente o meio estudantil, a UNEF uma esquerda que se pretende mais revolucio~ du Panthéon. Um novo permanente, recrutado
mas leem-se ali também artigos vindos dos entra em pane. A organização sindical tinha nária desenvolvem-se dentro da UEC, sobre- como assistente técnico para "higiene men-
grupos "teatro", "arquitetura", "economia". O um estudante a cada dois em suas fileiras, mas tudo no setor de Letras. Suas referências teó- tal", Guy Trastour, descobre nessa ocasião um
editorial do segundo número afirma a recusa um certo desencanto, a concorrência de um ricas são uma mistura de Victor Serge, Lênin, novo discurso que o deixa encantado: "Perce-
de encarnar uma corrente específica, ao con- sindicato criado pelo governo gaullista e o can- Trotski, Rosa Luxemburgo, e de André Gorz, bo uma outra forma de colocar os problemas,
trário das outras revistas desse tipo: "Nada de saço dos veteranos concorrem para uma crise no que se retere à análise da sociedade france- as relações com o outro, com a loucura, e estou
comitê de redação que determine a linha, que de esgotamento. Quando o congresso de Dijon sa. Esses escritos alimentam uma esperança completamente seduzido" 11 • Guy Trastour de-
selecione os artigos. Nada de teorias nem de abre as portas na primavera de 1963, impõe-se revolucionária na qual a contestação estu- cide de imediato implantar com Guattari um
conceitos a defender... Recherches é o órgão de um verdadeiro aggiornamento. Os dirigentes dantil desempenharia um papel fundamental: projeto de hospital-dia para adolescentes, que
expressão de todo grupo que trabalha em um da UNEF constatam desolados que sua orga- "O condicionamento estreito da universida- deve ser um local de acolhimento para estu-
setor do campo social orientado para a aná- nização só agrupa agora um estudante a cada de (pelo Capital) dá à ação universitária uma dantes e jovens operários. A rede constituída
lise das instituições nas quais cada um está quatro. É nesse contexto que emerge uma importância nacional", conclui Marc Kravetz, por Guattari assume amplitude particular em
10
inserido e que aceita ser interpelado cons- nova geração, bastante ativa e contestatória, um dos dirigentes da FGEL • A aspiração des- um meio sensível ao discurso psi, na medida
tantemente por outros grupos implantados vinda essencialmente das tlleiras da Federa- sa corrente é romper com a forma puramente em que Guy Trastour, que cuida dos BAPU,
em- outros setores"8• Não existe um aparelho ção Geral dos Estudantes de Letras (FGEL), corporativista da atividade sindical para dire- tem a possibilidade de percorrer o país para
12
para gerir a FGERI, e seus diversos grupos presidida a partir de 1963 por Jean-Lous Péni- cionar o movimento estudantil a questões de estabelecer ligações entre psi e estudantes •
têm apenas uma ocasião efetiva de encontro nou, e da Associação Geral dos Estudantes de vida concreta na sociedade, a problemas de or- O outro sinal de radicalização surgiu em
durante o ano: as quermesses anuais organi- Medicina (AGEMP), presidida por Jean-Ciaude dem existencial enfrentados pelos jovens que março de 1964 na UEC. O aparelho do Parti-
zadas em La Ilorde. Nem por isso a federação Polack. Os porta-vozes dessas correntes con- não se reconhecem nos valores dominantes da do preparou as coisas com o máximo cuida-
promove uma forma de interdisciplinaridade testatórias da esquerda sindical pregam uma sociedade de consumo capitalista. do, esperando tirar proveito das divisões de
"frouxà'. Ao contrário, os pesquisadores são radicalização das lutas e consideram que a Outro elemento da situação no meio estu- seus contestatários de todo matiz, "italianos",
solicitados para falar sua própria linguagem UNEF não pode apresentar uma simples lista dantil absolutamente essencial, em particular "trotskistas", "maoístas'', para retomar a dire~
disciplinar sem concessão à mundanidade ou de reivindicações, mas deve integrá-la em uma para realizar a conexão desejada por Guattari ção de sua organização estudantil. Encontra~
à vulgarização. crítica global da sociedade para defender um entre a política e a prática psicoterapêutica, é ram em Jean-Michel Catala e em Guy Hermier
programa global da transformação. Essa es- a evolução da MNEF, que administra a Segu- dois líderes incumbidos de comandar na bata-
querda sindical é comandada por militantes ridade Social estudantiL Ela volta a atenção lha as tropas reunidas pela direção para o con-
Uma oposição de esquerda da UEC, cuja autonomização em relação ao para as diversas patologias específicas que se gresso. O comitê nacional dominado pelos "i ta~
PCF tem uma ressonância crescente no meio encontram no meio estudantil no momento lianos" é amplamente minoritário e se orienta
Ao mesmo tempo em que se constitui a estudantil, criando uma dinâmica particular- de sua massificação e implanta agências de para um compromisso com a direção do Par-
FGERI, instala-se, ainda em torno de Guatta- mente entre os estudantes de letras e de medi- ajuda psicológica aos universitários (BAPU). tido a fim de manter o controle da UEC. O su-
ri, outra organização política que cristaliza as cina, os dois pilares da esquerda sindical. Estas últimas publicam a revista que estará na cessor natural de Alain Fofner, Pierre Kahan,
novas forças recrutadas no meio estudantil Criada pela direção do Partido em 1958 origem de Recherches Universitaires da FGEIU, prepara um relatório centrado na denúncia
a Oposição de Esquerda (OG). Na verdade, os para desmontar a célula filosofia da Sorbonne, e disso resulta a criação de um Comitê Nacio- das diversas alas esquerdistas. Entretanto, os
dois projetos são concebidos como comple- que se tornou agitada e contestatória demais, nal Universitário para a Saúde Mental. Um dos ''italianos", que representam não mais que 20%
mentares: a OG é a ala de intervenção política a UEC é dirigida pelos chamados "italianos", responsáveis pela MNEF, Jean-Pierre Milber- dos mandatos, acabam se colocando ao lado
de profissionais que se reconhecem na rede da Alain Forner, Pierre Kahn, Jean Schalit, entre gue, prega então a estruturação do movimen- da oposição de esquerda em uma mesma mo-
FGEIU. A criação da OG é fruto de todo um tra- outros, que têm em comum mirar-se na Itália to estudantil em torno de métodos psicosso- ção final que contabilizao mesmo número de
balho minucioso de "botões de casaco", como para encorajar a desestalinização do Partido. ciológicos, o que supõe uma ruptura com as votos (180) que os partidários da tendência or-
se dizia na ét:oca, comandado por Guattari. Seu jornal, Clarté, expressa esse desejo de re- formas tradicionais de militância política. Ele todoxa da direção do PCF. Diante desse empa-
76 François Dosse
Cilles Deleuze & Félix Cuattari 77

te, a tensão se acirra, e parte-se para a decisão também faz parte do primeiro círculo em tor-
líticas e militante da "esquerda" da UEC, en- verdadeiro front de recusa. Essa agitação do
nos pênaltis: 'A sessão é reaberta na manhã no de Guattari, que conheceu em La Borde
contra Guattari por ocasião do congresso da final de 1963 se traduz em vitórias importan-
de domingo. Logo na abertura, Marie-Noelle em 1963. Ele passa a vida na UEC e se dedica
UEC. Já Lion Murard é um pouco mais jovem tes: em janeiro de 1964, o governo desiste dos
Thinaut pega o microfone e, com a voz es~ à agitação política no Quartier Latin. Na Sor-
que seus colegas. Nascido em 1945, ele ingres- aumentos de aluguel e anuncia a construção
maecida, embargada de emoção, revela que bonne, Michel Butel reencontrou seu amigo
sa na faculdade de ciências políticas em 1963 de uma nova universidade em Nanterre, para
durante a noite foi fechado clandestinamente de infância Yves Janin, mais combativo ainda
e fica amigo de François Fourquet através da desafogar a Sorbonne. Tais concessões não de-
um acordo entre os 'pró-Partido' e os 'italianos'. do que ele. Eles formam um trio com o mais
ação que realizam juntos na minoria da UNEF sarmam o movimento estudantil, que se sente
Ela conta que ouviu por acaso uma conversa. ativista dos ativistas, Pierre Goldman, res-
e da UEC nos anos de 1964 e 1965. Outra re- encorajado por essas vitórias e quer acentuar
Roland Leroy e Alain Forner dividiam entre si ponsável pelo serviço de ordem da UEC. Essa
cruta importante em ciências políticas é Anne ainda mais a pressão sobre os poderes públicos.
os postos do comitê nacional; ficam cinco car- equipe afinada pretende manter o controle do
Querrien, que estuda na Rue Saint-Guillame Um novofrontse abre em 1965 por ocasião
gos para cada uma das tendências principais, Quartier Latin diante das ameaças constantes
mais para satisfazer a vontade de seu pai, que do congresso da UEC, que se realiza em um
e treze para a esquerda. O espanto toma conta da extrema direita.
é conselheiro de Estado. Ela logo se engaja de feudo do stalinismo, em Montreuil. É o segun-
da plateia. Um silêncio pesado, incrédulo, se Todavia, a Sorbonne e a faculdade de me-
forma muito ativa na esquerda da UNEF e em do ato da direção "pró~ Partido" para coroar o
estabelece por alguns segundos"". Pierre Gol- dicina não constituem o único terreno fértil
1964 está na presidência da seção de Paris da putsch de 1964, apoderando-se desta vez da to-
dman e Yves Janin lançam imprecações contra onde brota a esquerda sindical radical. As ra-
MGEN'' e depois na agência nacional da ins- talidade dos poderes da organização estudan-
Roland Leroy, provocando uma confusão tão miflcações se estendem do lado da faculdade
tituição em 1965. Juntamente com Liane Mo- til. Os "italianos" se desgastaram e já não têm
grande que a direção teme um possível ques- de direito em um ambiente hostil, assim como
zere, François Fourquet e Hervé Maury, Anne ilusões sobre sua sorte. De fUto, eles serão es-
tionamento de seu acordo por baixo do pano no Instituto de Estudos Políticos de Paris. No
Querrien faz parte do setor Direito da UEC. magados, como mostra o resultado da moção
e decide se reunir a portas fechadas. A cortina início dos anos de 1960, a faculdade de direi-
Ela se envolve nas atividades do Centro Estu- ele Guy Hermier (344 votos contra 145). Este
pode baixar pudicamente sobre o primeiro ato to se tornou um território ocupado pelas or-
dantil de Pesquisa Sindical (CERS) e descobre último será o novo dirigente da UEC: "Jean-Mi-
da nova sessão secreta, e os dois líderes por ganizações de extrema direita. O presidente
o nome de Guattari lendo Recherches Univer- chel Catala, apelidado de 'Dracatala' em razão
merecimento da normalização, Guy Hermier de honra da corporação não é outro senão
sitaires. Por outro lado, as enquetes do CERS de sua intransigência, o mais empedernido dos
e Jean-Michel Catala, podem ter acesso ao co- Jean-Marie Le Pen. Isso significa que não pega 14
possibilitavam associar política e abordagens pró-Partido, instala-se na tribuna'' • A direção
mitê nacional e se arrogar o controle do Clarté, bem ser de esquerda e menos ainda esquerdis-
sociopsicológicas, bem como possuíam a van- do Partido encontra no caminho um aliado
deixando a Pierre Kahn o papel decorativo de ta em Assas. Entretanto, começa a se organizar
tagem de ser transversais, realizando estudos inesperado, do qual não tem necessidade ne-
secretário-geral da UEC. um pequeno polo de resistência chamado de
que diziam respeito ao mesmo tempo aos nhuma, mas que lhe oferece seus serviços. Tra-
É nesse meio efervescente de sindicalistas Associação Cujas"''. Cruzam-se ali tanto jovens
meios estudantis, operários e camponeses. ta-se da corrente maoísta surgida na ENS de
da UNEF, membros da UEC, antistalinistas radicais quanto jovens católicos de esquerda,
Essas pesquisas-ações podiam chegar a resul- Ulm, que no entanto não se cansa de denun-
revolucionários que Guattari trava suas ami~ tanto socialistas como Pierre Guidoni quanto
tados para esclarecer um pouco melhor o mal- ciar o "revisionismd' e os "social-traidores". Os
zades e constitui seu "bando". O candidato militantes da UEC. É nesse caldo de cultura
-estar estudantiL Foram úteis para redeflnir de líderes dessa corrente, valendo-se do prestígio
da "minoria" em 1963, Jean-Claude Polack, vai de esquerda que se encontram aqueles que se
maneira mais apropriada as reivindicações do da ENS e da autoridade intelectual de Althus-
para La Borde como interno em psiquiatria e tornarão amigos próximos e fiéis de Guattari:
movimento estudantil medindo suas necessi- ser, decidem se aliar a Guy Hermier e Jean-Mi-
se torna imediatamente o "tenente" de Guat- Liane Mozere e Hervé Maury. Essa extrema
dades, suas aspirações. chel Catala para despachar da direção da UEC
tari. Outro dirigente da UNEF. secretário-geral esquerda plural tem de demonstrar uma cora-
A guinada à esquerda operada pela UNEF todas as outras correntes. Eles voltam a tomar
em 1964, JVlichel Rostain, estudante de filoso- gem singular, mas ela conta com alguns apoios
quando do congresso de Dijon se traduz em assento em um comitê nacional "expurgado"
fia na Sorbonne, na órbita de A Via Comunista, de peso, como o do decano da faculdade, Ga-
um reforço dessa corrente no aparelho sindical. ao lado daqueles da tendência pró-Partido.
fica incomodado ao constatar a distância en- briel Le Bras, especialista em direito canônico,
A MGEN é presidida então por um adepto da Esse expurgo põe fim às ilusões de uma possí~
tre o discurso sustentado por essa organização assim como de um outro grande jurista, na
esquerda sindical na pessoa de Antoine Griset. vel autonomia da UEC em relação ao aparelho
e suas práticas. Quando de uma reunião em pessoa de Georges Vedei.
A Federação de Letras da UNEF organiza uma do Partido. Entre 1965 e 1966, esse chamado à
1964, perto do Panthéon, onde se encontram, O Instituto de Estudos Políticos de Paris
grande manifestação parisiense com lO mil ordem levará ao surgimento de novas organi-
entre outros, em torno de Guattari, Antoine é um meio mais aberto que as faculdades de
estudantes que enfrentam a polícia. Eles impe- zações, primeiro trotskista, com a juventude
Griset, Jean-Louis Péninou e Marc Kravetz, direito. É inclusive outro viveiro onde Guattari
dem a visita do ministro da Educação Nacional, Comunista Revolucionária (JCR), depois ma-
Michel Rostain manifesta sua discordância poderá realizar encontros decisivos. Em 1964,
Christian Fouchet, à Sorbonne. A alta dos alu- oísta, com a União da Juventude Comunista
com A Via Comunista. Surpreso, ele percebe François Fourquet, estudante de ciências po~
guéis da Cidade Universitária esbarra em um Marxista-Leninista (UJCML). Quanto às redes
que suas palavras causam a maior alegria em
Guattari, que telefOna para ele no dia seguin- de esquerda constituídas por Guattari, elas es-
{' N. de T.: Sigla de Cercle universitaire juridique claction tão desconectadas das verdadeiras alavancas
te convidanpo-o para La Borde. Michel Butel sociale.
"'N. de T.: Mutuelle Générale de l'Education Nationale. políticas.
78 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari

Em busca de um programa A intenção dele a propósito das 9 teses é que se deduz delas nos parecem problemáti· 1967, a revista publica números temáticos, es-
cas'>~ • A sexta e a sétima teses tratam de apre-
8
criar um tipo de agrupamento de ordem políti- pécies de obras coletivas de reflexão sobre um
Na medida em que a "esquerda" está ex- ca, mas original, rompendo com o centralismo sentar um panorama da situação francesa em tema específico.
cluída da direção da UEC, é preciso prolongar democrático tal como funciona não apenas nas meados dos anos 1960 do ângulo da relação do O primeiro dessa série, "Programmation,
sua existência, mas agora de fora. Em 1965, é organizações stalinistas, como também nas Estado com os imperativos ela modernização architecture et psychiatrie", aborda a questão
com esse objetivo na cabeça que Guattari reú- trotskistas. Além disso, Guattari pretende tirar econômica e política. Finalmente, a oitava e a psiquiátrica estudada do ângulo da arquite-
ne alguns militantes estudantis na casa de Ma- as lições políticas da experiência de La Borde. nona teses se dedicam a colocar o problema da tura e do urbanismo. Ele associa as pesquisas
rie Depussé, em Paris, para criar a OG e esta- Cabe a ele levar em conta a dimensão subjeti- organização revolucionária e da etapa de agru- dos dois grupos mais dinâmicos da FGERI, o
belecer uma plataforma para ela. Em seguida, va dos indivíduos, seu desejo e, portanto, seu pamento a constituir. Partem da necessidade dos psiquiatras e o dos urbanistas. Na origem
um grupo inteiro se instala nos Godelins, entre inconsciente. Isso implica uma organização da criação de uma nova organização política dele, consultores do ministério elos Assuntos
Cour·Cheverny e Bracieux, bem perto de La bem diferente de A Via Comunista- que deres· para modificar as relações sociais de produção Sociais e da Saúde fazem um estudo sobre o
Borde, onde Guattari podia prosseguir o tra· to desaparece em fevereiro de 1965. Guattari e capitalista, mas constatam ao mesmo tempo caso da clínica de La Borde, que, com 150 lei-
balho junto aos internos da clínica. Ele vinha Fourquet passam todo o verão e todo o outono o impasse do centralismo adotado pelos parti· tos, cuida do mesmo número de pacientes que
de tempos em tempos visitar os amigos para de !965 pensando e redigindo essa plataforma dos comunistas: "Não se trata de negar o papel um hospital de 2 mil leitos. Não apenas os mé-
ver como os trabalhos estavam avançando. em La Borde. É preciso não apenas reescreVer dirigente do partido, mas de afirmar a necessi- todos da psicoterapia institucional começam a
Encontram-se ali François Fourquet, Michel a história do mundo como também extrair dade de uma descentralização efetiva da dire· seduzir para além do pequeno círculo labordia-
Butel, Pierre Aroutchev, Liane Mozêre, Hervé perspectivas para o futuro e ligar as tradições ção das lutas de massas nos diversos níveis se- no, como esse modelo seria mais interessante
Maury, Geoges Préli e sua mulher, Nicole. do movimento operário às aquisições do freu- toriais"19. Quanto à efervescência de grupelhos tendo em vista que permitiria uma economia
É uma responsabilidade pesada para os so· do-lacanismo. Guattari apressa o movimento de extrema esquerda, ela não constitui uma substanciaL O ministério decide então fazer
breviventes da UEC definir ao mesmo tempo as para que a plataforma esteja pronta o mais solução para esses problemas: a última tese um levantamento mais amplo, que resultará
regras e o programa político de uma organiza- cedo possível. Ela é concluída no Natal de 1965 coloca a questão de saber se é preciso adotar a na redação de relatório sobre um projeto de
ção que se pretende inovadora: ''A incumbência e lançada em forma ele brochura em fevereiro resolução de criar um novo partido. Os autores normas de construção aplicáveis aos hospitais
ei-a escrever teses, que se tornaram As 9 Teses de 1966, com prefácio de Gérard Spitzer. da plataforma constatam o fracasso constante psiquiátricos. Os encarregados disso serão Guy
da Oposição de Esquerda, mas na verdade o que A primeira tese propõe adotar uma escala dessas tentativas reiteradas. Diante da imatu- Ferrand e Jean-Paul Roubier, ambos médicos e
se fez foi sobretudo jogar um jogo chamado 'a de análise que ultrapasse o âmbito nacional e ridade das condições, o que está em questão é membros da FGERI: "O balanço dessas discus·
mano', que consiste em adivinhar o que se tem se situar de início no plano mundial para de- um agrupamento, mas com a firme vontade de sões é amplamente positivo. Sem dúvida, por·
na mãd,j 5• QuantO a Guattari, um pouco cha- monstrar melhor o que é considerado como não sucumbir na impotência. que põem em jogo mecanismos inconscientes
teado ao constatar que as coisas não avançam, uma nova contradição própria do capitalismo A OG é criada então com uma plataforma e não uma pura e simples transmissão de in~
20
aproveita para aprender a dirigir e fica dando entre uma lógica mundializada, de um lado, e e um pequeno jornal, o Bulletin de f'Opposition formações ou confronto de opiniões" • Esse
voltas em torno da casa, sob o olhar divertido a lógica dos interesses específicos do capitalis- de Gauche (BOG). Esse jornal contém todos os número faz eco a um questionamento real dos
e sob as caçoadas de Michel Butel. Depois, im· mo monopolista de Estado, de outro. A segun· endereços da rede constituída por Félix Guat· poderes públicos que estão mesmo decididos
paciente, Guattari decide suspender a locação da tese denuncia o projeto reformista e stali· tari nas alas esquerdas da UEF, da MGEN e da a abandonar o equipamento manicomial clás-
dessa casa dos Godelins e pôr toda essa gente nista de integração do movimento operário na UEC. Com tiragem de uma centena de exem· sico de ajuntamento de doentes em locais her-
para trabalhar levando o grupo para La Borde. lógica capitalista. A terceira e a quarta teses piares quinzenal ou mensal, ele faz a ligação dados do período carcerário. O Sº- plano tinha
Na clínica, o dispositivo de redação das 9 teses se analisam as contradições anti-imperialistas e entre o que se passa no movimento estudantil como ambição recuperar um atraso flagrante
reduz a um trio formado por Guattari, François a emergência de uma nova força com o tercei- e o que se passa no movimento operário gra- nesse campo, pautando a construção de 30 mil
Fourquet e]ean Médam: "Félix escreve mal, em ro mundo para tornar mais clara a dimensão ças ao grupo Hispano. leitos psiquiátricos públicos até 1975. Modes·
um jargão horroroso, ilegível, e ele achava que eu internacionalista elo movimento operário: "A Em 1966, surgem assim, e a coincidência to nas conclusões, esse número de Recherches
podia fazer uma revisão no projeto. Era impos- luta ele classes caracteriza-se por sua univer- no tempo não é mero acaso, duas iniciativas pretende sobretudo mostrar quais as escolhas
6
sível. Já quando fala, ele é cristalinci" Guattari salidade"17. A quinta tese é uma crítica em sob o bastão de Guattari, pensadas como com· decisivas a serem feítas: "Desejamos avançar
é, no essencial, a "voz" dessas 9 teses. François regra aos Estados socialistas existentes, por plementares: a revista Recherches da FGERI e no sentido de definições mais precisas, de um
Fourquet acrescenta e completa as proposições sua incapacidade de abandonar as regras do o Bulletin de l'Opposition de Gauche, chamado esclarecimento que permita às pessoas de boa
acerca da economia política e estimula o amigo mercado mundial. Essa crítica inspira-se forte- também de "Carré Rouge". Ao mesmo tempo, vontade que têm alguma responsabilidade
a desenvolver os aspectos psicanalíticos relacio- mente nas análises de Trotski, mas se demarca há uma mudança na maneira como se conce- nesse campo se situar com pleno conhecimen-
nados com a dimensão política da contestação. em alguns pontos: 'As análises de Trotski nos be Recherches. Até ali, os números eram hete· to de causa'm.
É a primeira_vez que Félix Guattari põe em práti- parecem tão irrefutáveis no plano econômico róc!itos por definição, expressão da diversida· Em 1967, Liane Mozere assume a direção
ca esse disj5'Üsitivo·de escrita a dois. quanto as consequências políticas e sociais de dos grupos da FGERI. A partir de junho de da revista Recherches, pela qual ficará respon·
80 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 81

sável até 1970. Nascida em 1939, ela foi criada coletivizar nossa força de trabalho e vamos ELON, flistoire de l'UNEF, Pllr: Paris, 1983. p. 19. !bid.,p.l21.
em Pequim - o pai trabalhava no jornal de Pe- 150. 20. Félix GUATTARI, "Présentation", Recherches,
negociá-la, vamos vendê-la. E o dinheiro que
quim, e o avô materno era ministro. Quando 1L Guy Trastour, entrevista com o autor. n. especial, junho de 1967, n. 6, p. 4.
tirarmos daí, bem, nós o dividiremos, ele nos
Mao assume o poder em 1949, a família deixa 12. Essa atividade se prolonga no lançamento 21. Ibid.. p. 9.
servirá para cultivar nossas ideias, nossa for-
de um Bulletin Santé mentale que vai asse-
a China e vai para a França, e ela abandona o ça de trabalho, nossa corrente enquanto cor- 22. Encontra-se ali a rede recrutada pela ação mi-
gurar a ligação entre informação e reflexão
sobrenome Tchang para adotar o patrônimo rente"24. Dessa experiência, o CERFI espera a litante na UNEP, na MGEN, na UEC, e depois
sobre o trabalho realizado pelas diversas
de sua avó, Moz8re. A formação em direito e na criação da OG: François Fourquet, Liane
emergência de outra forma de subjetividade comissões e difundir os resultados das pes-
a especialização sobre a China abrem-lhe as MozCre, Hervé Maury, Michel Rostain, Anne
que possa surgir de um "agenciamento coletivo quisas dos GTU (grupos de trabalho univer-
portas do CNRS, de onde acaba saindo para Querrien e Lion Murard. Todos fizeram um
de enunciação" ou de uma nova "subjetividade sitários).
estágio iniciático em La Borde.
se engajar plenamente em uma concepção de grupo", partindo de uma multilocalização 13. Hervé HAMON, Patrick ROTtvlAN, Génération,
23. Janet H. MORFORD, "Histoire du Cerfl.La tra-
mais coletiva da pesquisa, mais ajustada às 25
espacial: "Era uma comunidade u'rbana'' • tomo l, op, cit., p. 209-210.
jectoire d'un collectif de recherche sociale }),
suas posições militantes. O CERFI que se 14. Ibid., p. 240.
EHESS/DEA, texto datilografado, outubro,
constitui em 1967 reúne um primeiro circulo 15. Liane Mozere, entrevista com o autor. 1985, p. 55.
de responsáveis que, sarcasticamente, recebe Notas 16. François Fourquet, entrevista com o autor. 24. Michel Rostain, em Janet H. MORFORD, "His-
o nome de "Máfia"'- O CERFI se pretende um 1. Félix GUATTARI, "La transversalíté", 1964;' re- 17. Félix GUATTARI, "Les neufthêses de !'opposi- toire du Cerfi. La trajectoire d'un collectif de
organismo agregador de grupos autônomos produzido em PT. tion de gauche" (1966), em PT. p.108. recherche socíale", op, cit., p. 57.
e livres. Ele quer simplesmente caminhar por 2. Recherches. o. 6, junho 1967. p. 316. 18. !bid., p. 111. 25. Hervé Maury, ibid., p. 75,
suas duas pernas- Marx e Freud -,e a "Máfia" 3. Guy Trastour, entrevista com o autor.
cuida do resto. O CERFI será antes de tudo um 4. Editorial, Recherches, n. 1, janeiro, 1966, p. 2.
grupo~sujeito, o que implica uma vida comuni-
5. Jbid., p. 3. Entre os fundadores da FGERI, ao
tária entre seus membros. Em nome da recusa lado de numerosos psiquiatras, como Jean
da dissociação entre vida privada e vida pú- Ayme, Jean Oury, Gilbert Diatkine, Nicole
b-lica, corre-se o risco de muitos descontroles Guillet, Claude e Catherine Poncin,Jean-Clau-
passionais e fortes tensões afetivas. A atenção de Polack, Af€lio e Horace Torrubia, Germai-
voltada aos f€nômenos do inconsciente e do ne Le Gillant, Jean-Pierre Muyard; etnólogos:
desejo "queria dizer que as assembleias gerais Michel Cartry, Alfred Adler, Françoise e l\lli-
do Coletivo se transformam frequentemente chel Izard, Olivier Herrenschmidt; arquite-
em sessões de análise coletiva; que era preciso tos: Gérard Bufflere, Catherine Cot, jacques
assumir seu desejo reivindicando o montante Depussé, René Poux, Alain e Estelle Schiedt,
do salário que se acreditava poder justificar"2:1• Ametico Zublema; muitos estudantes, alguns
Em 1967, quando Liane Mozere assume economistas e sociólogos, psicólogos, estatís-
ticos e educadores, aos quais se juntam alguns
a direção da revista Recherches, ganham pro-
escritores, como Roland Dubillard, Thomas
jeção as revoluções latino-americanas: Fidel
Buchanan e Jean Perret. Ultrapassando o cen-
Castro, Che e a guerrilha na Bolívia, etc. Para
tralismo jacobinista, a FGERI implanta nume-
ampliar o pequeno cenáculo da OG, Guattari e rosos grupos correspondentes na província.
seus amigos criam em 1967 a Organização de Os primeiros grupos de correspondentes são
Solidariedade à Revolução Latino-Americana os de Blois, Dijon, Lyon, N<;tncy, Nantes, Nice,
(OSARLA), que também funciona de maneira Rennes, Strasbourg e Tours.
descentralizada: cada grupo da organização 6. Félix GUATTARI, "La causalité, la subjetivité et
se ocupa de um país particular da América l'histoire", 1966, em PT, p. 175.
Latina. Essa organização tende a envolver um 7. Ibid.. p. 182.
círculo mais amplo, e Guattari terá a oportu- 8. Editorial, Recherches, n. 2, janeiro, p. L
nidade de reencontrar um antigo camarada 9. Cifra informada por Hervé HAMON, Patrick
trotskista, Alain Krivine. ROT:tvlAN, Génération, tomo 1, Seuil, Paris,
Nesse flnal dos anos de 1960, a onda co- 1987. p.128.
munitária ._,vinda da América se propaga entre
~ 10. Marc KRAVETZ, Cahiers de l'UNEF. PUE de-
a juventude contestadora francesa: "Vamos zembro de 1963, citado por Alain MONCHA-
________________....
Gilles Deleuze & Félix Guattari 83

Gilles Deleuze, que não cansará de de- Isso me deixava em pânico. Era regulado em

5 nunciar o familiarismo e a atmosfera contlna-


da da burguesia, nasceu em 18 de janeiro de
]925, no 17' Distrito de Paris. De sua infância,
ele não é capaz de suportar a mera evocação.
Contudo, quando da realização da série de TV
milímetro. Meu pai achava que tinha o dom de
enunciar com clareza. A coisa desandava rapi-
damente. Em cinco minutos meu pai começa-
7
va a gritar, e eu, a chorar" •

EAbécédaire junto com Claire Pernet, ele recor-


Gilles Deleuze: o irmão do herói dará de alguns momentos-chave que marca- As primeiras aprendizagens
ram sua juventude.
Seu pai, Louis Deleuze, é engenheiro. Dono A guerra surpreende Gilles Deleuze aos
de uma microempresa- com um Uni co assala- 15 anos, quando se encontra na casa alugada
riado, um operário italiano-, ele explora uma por seus pais todo verão em Deauville. Deci-
técnica de impermeabilização de telhados. A dem deixá-lo na região e encontrar um lugar
crise de 1930 o atingiu em cheio, e ele precisou para ele como pensionista. Com isso, Gilles
se requalificar e arrumar emprego em uma fá- cursa um ano da escola num hotel de Deau-
brica de aeronaves. A vitória eleitoral da Fren- ville transformado em colégio para a ocasião.
te Popular deixou desolado esse empresário É nesse momento da descentração familiar
de direita, próximo do movimento dos Cruz que Gilles Deleuze situa uma primeira ruptura
de Fogo. Ele compartilhava o ódio de todo seu decisiva em sua personalidade. Ele diz ter sido
Estamos no verão de 1928, diante da casa Isso levará a uma rejeição precoce do meio meio social por esse judeu, Léon Blum, que se até então um aluno medíocre, que enganava
de férias dos Deleuze em Deauville: Georges, familiar, como se recorda seu amigo Michel tornou chefe do Executivo. Ao contrário, seu o tédio se lançando em uma coleção de selos.
5 anos, segura no ombro de seu irmão mais Tournier, com quem Gilles se abrira a respeito: filho Gilles se recorda desse momento extra· Um encontro produzirá o despertar intelectual
novo, Gi]]es. Ambos estão vestidos de palhaço. "Gilles sempre foi complexado em face de seu ordinário - o verão de 1936 quando, aos 11 e uma curiosidade sem limites.
Um pouco mais tarde, em 1934, os revemos, irmão Georges. Os pais devotavam um verda- anos de idade, assistiu encantado a chegada às De fato, em Deauville, ele sente uma ver-
ainda em Deauville, Gilles, então com 9 anos, deiro culto ao filho mais velho, e Gilles não os praias de Deauville dos primeiros beneficiários dadeira fascinação por seu jovem professor de
fingindo fumar um cigarro com um papel en- perdoava pela admiração exclusiva por Geor- 4
das férias pagas: "Era grandiosd' • letras, um certo Pierre Halbwachs. De saúde
rolado. No ano seguinte, eles posam de novo ges. Ele era o segundo, o medíocre, enquanto Sua mãe. Odette Camaüer, cuidava da casa frágil, ele fora dispensado, e como tinha uma
1
juntos, desta vez em trajes de tênis, cada um Georges era um herói" • Em nenhum outro e dos filhos. Ela compartilhava plenamente licenciatura, o requisitaram para lecionar nes-
com sua raquete. Georges segura novamente testemunho ou escrito encontra-se vestígio das ideias políticas do esposo e se indignava se hotel-liceu. Gi]]es Deleuze descobre através
no ombro do irmão menor. Depois, mais nada. desse ressentimento. Contudo, ]ean-Pierre diante da invasão popular de lugares até en· dele a literatura francesa. Torna-se um aluno
O irmão mais velho desaparece do horizonte. Faye, que descobriu uma relação de paren- tão preservados: "Minha mãe, embora fosse a devotado e não se contenta com as aulas; se-
Não se encontra mais nenhum vestígio dele. tesco por casamento com ele, recorda de ter melhor das mulheres, dizia que era impossível gue Pierre Halbwachs pelas praias e dunas: "Eu
Contudo, esse irmão maior desempenhou assistido, quando criança, a uma cena estra- frequentar uma praia onde há pessoas asslm"5. era seu discípulo. Tinha encontrado meu mes-
com certeza um papel importante na cons- nha e, para ele, inexplicável: "Durante a guer- Sem dúvida como reação ao seu meio familiar, tre'8 O professor declama para ele os textos de
trução da identidade de Gilles Deleuze, ainda ra, minha mãe foi ao enterro de um rapaz que GiUes Deleuze adorará afirmar mais tarde a Gide, Baudelaire, Anatole France. Essa proxi-
que como sujeito ausente. Georges Deleuze morreu quando chegava ao campo de con- origem meridional de sua família, que anti- midade levanta suspeitas de sua senhoria, que
entrou na escola militar de Saint-Cyr para se centração de Buchenwald, e estava lá o jovem gamente era "De l'yeuse", nome occitano que o adverte contra as supostas tendências pede-
tornar oficial. Durante a guerra, ele se engaja Deleuze [Gilles] com o rosto convulsionado significa "Do carvalho": "Uma árvore cuja úni- rastas de seu professor. Gilles Deleuze mencio-
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na resistência. Preso pelos alemães, é depor- de dor, transtornado" • No pós-guerra, esse ca preocupação, como da família, era se desar- na essa prevenção ao professor, que lhe pro-
tado e morto durante a viagem que deveria traumatismo logo será recalcado, ou evocado raigar, tomando a 'linha de fugà de uma livre mete esclarecer a senhoria e dissipar qualquer
conduzi-lo a um campo de concentração - 6 mal-entendido. Contudo, a discussão só serve
com ironia. Em 1951, professor de filosofia em derivà' • Evocando posteriormente, diante de
luto impossível dos pais, que erigem o filho Amiens, Gilles Deleuze contará a seu aluno de seus alunos, a figura de Pierre]anet, esse con- para inquietar ainda mais a boa senhora, que
mais velho em mártir. Assim, Gilles Deleuze colégio, Claude Lemoine, que teve um irmão, temporâneo de Freud que definia a memória alerta os pais de Deleuze sobre o perigo que
sofre duplamente com o desaparecimento de "mas esse imbecil, quando de uma cerimônia como "canal da narrativa", Deleuze menciona ameaça seu filho. É impossível retornar a Pa-
seu irmão: por mais que faça, sempre parecerá de calouros, se perfurou com a própria espada uma lembrança da infància que o marcou, a da ris, pois nesse meio-tempo os alemães haviam
insignificante aos olhos dos pais diante do ato de Saint-Cyr. Isso o fazia rir. Fazia-o passar ali ajuda que seu pai queria lhe dar no período de atravessado a fronteira e avançavam rapida-
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heroico do irmão mais velho. por um imbeci1" . férias em sua difícil aprendizagem da álgebra. mente sobre a capitaL Gilles e o irmão Georges
Cilles Deleuzc & Félix Cuattari 85

pegam então suas bicicletas e vão encontrar convidado por Maurice de Gandillac, em 1943, ensino médio Deleuze, que chama a atenção único número da revista com um vaso sanitá-
os pais em Rochefort, para onde a fábrica fora para as décadas organizadas por Marie-Mag- de imediato. Ali ele pode sobretudo conversar rio com a seguinte legenda: "Uma paisagem é
transferida a fim de escapar ao avanço das tro- deleine Davy em uma grande propriedade da livremente com Pierre Klossowski a propósito um estado de alma". Essa revista quer se erigir
pas nazistas. região parisiense, perto de Rosay-en-Brie. Ma- de Níetzsche. As pessoas cochicham em torno contra a "salmoura malcheirosa do Espírito",
Finalmente, após o armistícío, Gilles De- rie Magdeleine fez do castelo de La Fontrelle 14
dele: "Esse vai ser um novo Sartre" • Nesses como Sartre qualifica a vida interior, e escla-
leuze retoma à Paris ocupada e ao liceu Car- um lugar protegido onde pode esconder ju- anos, Deleuze participa também com Maurice rece na apresentação em forma de advertên-
not, onde estudava desde a S' série. Em 1943. deus, resistentes, refratários ao STO, aviadores de Gandillac das reuniões no último sábado de cia ao leitor: "Se os atrativos do espiritualismo
no último ano do ensino médio, poderia ter britânicos ou americanos. Para dissimular essa cada mês na residência de Mareei Moré, um declinam dia a dia, seria um erro não prestar
tido Maurice Merleau- Ponty como professor atividade, ela organiza inúmeros encontros grande apartamento do Quai de la Mégisserie atenção ao sucesso atual dos diversos huma-
de filosofia, mas volta para a classe do senhor culturais para os quais convida Michel Leiris, onde se encontram professores universitários nismos modernos" •
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Via!, que de imediato lhe transmite sua paixão Jean Paulhan, Léopold Sédar Senghor, Paul Fla- e intelectuais de renome. No dia 23 de junho No artigo que escreveu em 1946, De Cristo à
pela disciplina: "Desde as primeiras aulas de mand, Gaston Bachelard, Robert Aron, Jean de I94~i. discute-se ali a "civilização cristã:' com Burguesia, Deleuze denuncia a ligação de conti-
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fllosofia, soube que era isso que eu iria fazer" • Wahl, Jean Burgelin, Jean Hyppolite, Maurice Jean Grenier, Brice Parrain, Marie-Magdeleine nuidade histórica entre o cristianismo e o capi-
Deleuze, mais uma vez, vai além dos marcos de Gandillac e muitos outros. Davy, Michel Butor, Maurice de Gandillac talismo, apegado ao mesmo culto do engodo da
instituídos, está sempre criando oportunida- Personalidade surpreendente era essa e Gilles Deleuze. No dia 5 de março de 1944, interioridade. Paradoxalmente, dedica esse ar-
des de conversar com o professor de filosofia e Marie-Magdeleine Davy. Nascida em !903 na debate-se "Mal e pecado" a partir da obra de tigo à "Senhorita Davy", sua grande sacerdotisa,
se torna um aluno particularmente brilhante. região parisiense, "parecia mais um menino Georges Bataille com Jean Daniélou, Alexan- que no entanto é uma fervorosa espiritualista.
A descoberta da especulação filosófica é para de verdade, detestava vestidos e em 1908 só dre Kojeve, Jean Paulhan, Roger Caillois, Geor- Esse artigo tem claramente a marca de Sartre,
ele uma verdadeira revelação: "Quando apren- usava calções ou calças compridas. A mãe a ges Bataille, Pierre Klossowski,Jean Hyppolite, que detesta Marie-Magdeleine Davy. "Hoje,
di que havia conceitos, isso teve para mim o repreendia por não usar os adjetivos no femi~ Arthur Adamov,Jean-Paul Sartre e, mais uma muitos homens não acreditam mais na vida in-
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efeito de novos personagens. Isso me pareceu nino e por falar dela mesma no mascu1mo . vez, Maurice de Gandillac e o jovem Deleuze. terior"16 em um mundo de tecnicidade que es-
tão vivo, tão animadO' to. Além de esquisita, ela devotava tamanha Nesse ano de 1944, Michel Tournier leva De- vazia o homem para reduzi-lo à condição de ex-
-Quando iniciou o 4° e último ano do ensino adoração à natureza que fugia de seu quarto leuze também às aulas públicas dos psiquia- terioridade pura. Todo o artigo visa desenvolver
médio, Gilles Deleuze já tinha despertado um à noite, deslizando por uma corda amarrada, tras Alajouanine e Jean Delay em Salpêtriere. uma dialética de interioridade e exterioridade
pouco para a filosofia através de seu amigo Nli- para ir ao imenso parque e ao rio próximos à Desde essa época, Michel Tournier está para valorizar a segunda. Assim, Deleuze opõe
chel Tournier, apenas um mês mais velho que propriedade de sua avó. Desafiando a proibi- assombrado com a capacidade de seu amigo a interiorização à qual o marechal Pétain havia
ele. Em 1941. Michel Tournier faz sua "filô" no ção familiar, ela se inscreve na Sorbonne aos de tirar a poeira da tradição filosófica para lhe induzido os franceses ao ato de exteriorização
liceu Pasteur, onde tem aula com Maurice de 18 anos e se embrenha no estudo de filosofia dar um ar de atualidade. É preciso dizer que de um de Gaulle ao entrar na resistência. De-
Gandillac. Um amigo comum, Jean Marinier, e história, aprende latim, grego, hebreu e sâns- essas discussões ocorrem no clima sombrio da leuze vê no sucesso moderno da burguesia uma
que fará medicina, lhe apresenta Deleuze, que crito, além de umas dez línguas vivas. Conhece ocupação nazista. Ao abrigo de seu liceu pari- continuidade e uma acentuação do processo de
reside na época na Rue Daubigny com os pais e Étienne Gilson, que a inicia no latim medieval, siense, Gilles Deleuze, que tem 18 anos e está interiorização: ''A Natureza, ao se tornar vida
está no 2Q ano do ensino médio no liceu Carnot. frequenta os salões, sobretudo o de Mareei prestes a concluir o ensino médio, não entra privada, espiritualizou-se em forma de família
Michel Tournier recorda com certo orgulho Moré - um católico de esquerda e militante na Resistência. Contudo, está na mesma classe e de boa natureza; e o Espírito, ao se tornar o
esse momento em que inicia seu amigo Gilles personalista que fez parte da revista Esprit- do militante comunista Guy Môquet, que será Estado, se naturalizou em forma de pátria'' ,
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na filosofia ao falar sobre o curso de Gandillac. onde tem contado com toda a elite filosófica. abatido pelos nazistas. Ele lembra o pavor que Deleuze ironiza essa filiação comparando a
Logo admite: "Quando Deleuze entrou na filo- Ao mesmo tempo, faz uma licenciatura de teo- causou a noticia do massacre da população do "vida interior" e a "vida de interior", separadas
sofia, ele nos dominou a todos de cabeça e om- logia no Instituto Católico de Paris. Titular de vilarejo de Oradour-sur-Glane no dia lO de ju- apenas por uma palavrinha. Paradoxo extremo,
bros"n. Michel Tournier lembra as conversas um doutorado em teologia em 1941, entra no nho de 1944. a burguesia consegue conclUir o movimento
com seu novo amigo, em 1941 e 1942: ''As pala· CNRS como especialista do século Xll e traduz Não tendo se engajado, Deleuze forma jun- iniciado por Cristo interiorizando tudo o que
vras que trocávamos como balas de algodão ou obras de Guillaume Saint-Thierry, Pierre de to com outros, entre os quais Michel Tournier, este último execrava: a propriedade, o dinhei-
de borracha, ele nos devolvia endurecidas e pe· Blois e Bernard de Clairvaux. um pequeno grupo que partilha a mesma con- ro, o ter, que ele combatia para substituir pelos
sadas como projéteis de ferro fundido e de aço. cepção não acadêmica da filosofia. Criado sob valores do Ser. Ao se naturalizar, a vida espiri-
Logo passou a ser temido por esse dom que a égide de Alain Clément, o grupo publica uma tual cristã se degradou. Partindo de um ímpe-
tinha de nos pegar por uma única palavra em Um "novo Sartre" revista de fllosofia,Espace, que terá apenas um to rumo ao Espírito, tornou-se "uma natureza
flagrante delito de banalidade, de idiotice, de número. Seus redatores se dizem inteiramen- burguesa" 18• Um vasto movimento de seculari-
12 É nesse meio e sob a égide dessa mulher
laxismo do pensamento" , An t es d e mgressa
· · r te hostis à noção de interioridade e decidem zação transformou o Espírito em Estado, Deus
que aparece o jovem aluno do último ano do
na série fina:!: Deleuz~ acompanha seu amigo, fazer uma provocação ilustrando o primeiro e em sujeito impessoal e o Contrato Social em ex-
86 François Dosse Gilles Deleuze & Félix Cuattari 87

pressão da Divindade, que permite concluir que A primeira de todas as publicações de De- conseguem parar de pensar que seu entusias- da infância ou se, ao contrário, estava ali para
"a relação que liga o Cristianismo e a Burguesia leuze é um pastiche de Sartre intitulado: "Des- mo foi traído pelo mestre. Apesar da decepção, esconder um sotaque natal, e que se colocava
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não é contingente" • crição da mulher. Por uma filosofia de outro Deleuze estará ainda por muito tempo sob a a serviço dos dualismos cartesianos"; quanto a
No outono de 1943, tão logo ingressa na sexuaddm. Nesse "à maneira de .. :', Deleuze se influência da estrela sartriana, corno testemu- Hyppolite, ele "tinha um rosto forte, de traços
última série do ensino médio, um aconteci- lança a uma fenomenologia divertida do ba- nha o conteúdo de dois artigos que publicou incompletos, e ritmava com o punho as tríades
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mento filosófico desperta seu entusiasmo, tom que remete a uma exteriorização da in- em 1946 e 1947 e que posteriormente rene- hegelianas, encadeando as palavras'' •
partilhado por Michel Tournier: a publicação terioridade, a uma outra forma de revelação gou. Contudo, mesmo tomando outro cami~ Deleuze está também na mesma classe que
de O Ser e o Nada de Jean-Paul Sartre. "Gilles do oculto, para concluir que a mulher não é, nho, Deleuze sempre recOnhecerá sua dívida Jean-Pierre Faye. Este recorda que logo nos pri-
me telefonava todos os dias para contar o que mas que ela se temporaliza: "A maquiagem é para com Sartre, como atesta ainda um artigo meiros dias de aula "havia alguém nessa classe
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tinha lido na jornada. Ele sabia de cor" • Esse a formação dessa interioridade" . A urgência escrito um mês depois de Sartre ter recusado preparatória de Alquié que quase na primeira
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meteoro filosófico era diferente de tudo e tinha desse artigo, segundo o jovem Deleuze, quere- o prêmio Nobel em 1964 • Ali ele deplora uma fileira falava do cogito em Husserl, e era Deleu-
a capacidade de dar à filosofia uma presença toma por sua conta a crítica dirigida por Sartre geração sem mestres e reconhece em Sartre al- ze"32. Alnda aprendiz de filósofo, Deieuze já é
viva no clima mortífero da Ocupação: "Passa- a Heidegger por ter representado uma huma- guém que conseguiu dizer alguma coisa sobre ouvido por seus colegas, distinguindo-se por
mos esse inverno de guerra, negro e gelado, en- nidade assexuada, é dar um estatuto filosófl- a modernidade e se erigir em mestre de toda suas capacidades excepcionais.
rolados em cobertores, os pés envolvidos em co à mulher. Mas o discípulo quer ultrapassar · uma geração, a da Libertação: 'A gente conhe- Deleuze assiste ainda no liceu Henri-IV a
peles de coelho, mas a cabeça pegando fogo, o mestre que, a seu ver, não vai até o fim na cia então, depois de longas noites, a identidade algumas aulas de Jean Beaufret, que é então
lendo em voz alta as 722 páginas compactas de crítica, e descreve um universo desolador por do pensamento e da liberdade"". Deleuze não o introdutor na França da obra de Heidegger.
nossa nova bíblia'". Gilles Deleuze frequenta a seu caráter inteiramente assexuado. Com a se reconhece no espírito dos anos 1960, que Fascinado por seu mestre, Jean Beaufret afir-
obra de Sartre antes do deslumbramento co- mulher, é Outro que surge, e todo um mundo tende a considerar Sartre como "superado". Ao ma como ele que só é possível compreendê-lo
letivo a que a França da Libertação assistirá. interior se expressa nela: "A mulher é um uni- contrário, Deleuze denuncia o conformismo verdadeiramente falando e pensando em
Não apenas ele faz soprar um vento novo na versal concreto, é um mundo, não um mundo de seu tempo e saúda a Critica da razão dia- alemão. Na semana seguinte, Deleuze vem
filosyfia como também é escritor e teatrólogo, exterior, mas a face oculta do mundo, a morna - !ética como "um dos livros mais belos e mais contradizê-lo e lhe opõe uma solução sarcás-
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encarnando assim a possibilidade de conjugar interioridade do mundo, uma condensação do importantes lançados nos últimos anos" • tica, dizendo que encontrou em Alfred Jarry o
atividade especulativa e criação literária. Essa mundo interiorizado. Daí o incrível sucesso se- Passado o baccalauréat::', Deleuze ingres- poeta francês que não somente compreendeu,
é uma lição precoce para o jovem Deleuze, que xual da mulher: possuir a mulher é possuir o sa no curso superior de letras, e após a classe mas antecipou Heidegger. Beaufret pede que se
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jamais renegou sua dívida para com Sartre. mundd' • preparatória à ENS do liceu Louis-le-Grand em cale, mas alguns anos mais tarde, por ocasião
Durante a semana, Deleuze devora O Ser e Contudo, essa paixão sartriana sofre sua Paris. Está na mesma classe que Claude Lanz- do lançamento da obra de seu amigo Kostas
3
o Nada, e no domingo, quando vai ao teatro, o primeira fratura quando o fenômeno se trans- mann, que logo se torna seu amigo. Ali era alu- Axelos :\ Gilles Deleuze voltará por duas vezes
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que vai ver? Sartre. Num domingo de 1943, ele forma em moda da filosofia existencialista no assíduo de Ferdinand Alquié e de Jean Hyp- a essa surpreendente comparação . Ele afirma
vai com Michel Tournier ao teatro Sarah-Ber- na Libertação. No dia 29 de outubro de 1945, polite. Uma vez emancipado de sua profunda então que se "pode considerar a obra de Hei-
nhardt onde estão encenando As Moscas. Sur- Sartre pronuncia sua famosa conferência onde influência, ele descreverá um e outro com cer- degger como um desenvolvimento da patafí-
preendidos pela história trágica do momento, Paris inteira se amontoa: "O existencialismo to sarcasmo. Alquié "tinha longas mãos bran- sica'"'. A linguagem própria a Heidegger, que
eles têm de evacuar a sala diante de um alerta. é um humanismo". Uma multidão compacta cas e uma gagueira que não se sabia se vinha introduz o grego antigo e o velho alemão na
Enquanto a multidão se apressa para chegar se acotovela para conseguir um lugar. A im- língua moderna por meio de múltiplas agluti-
aos abrigos subterrâneos, os dois comparsas prensa repercute esse acontecimento cultural nações, encontra seu equivalente em]arry, que,
"N de R. T.: No original, llypokhágne. Primeiro ano da
desafiam o perigo nessa bela tarde ensolara- sem precedente que vê um fHósofo provocar por sua vez, introduz no francês moderno o la-
classe preparatória para o curso de entrada das seções li-
da: "Deambulamos pelos cais em uma Paris "quinze desmaios" e "trinta poltronas destruw terárias (francês, línguas estrangeiras, filosofia e artes) da tim e o velho francês, sem contar a gíria e mes-
absolutamente deserta: a noite em pleno dia. ídas". Nessa multidão, Deleuze, que acaba de Escola Normal Superior (ENS) da França. mo o bretão: "Talvez seja bom dizer que não há
E as bombas começam a chover. Os alvos da concluir o ensino médio, e seu amigo Michel Kdgne ou Cagne: segundo ano da classe preparatória para ali nada mais que jogos de palavras", comenta
o concurso de entrada na Escola Normal Superior. Ambos 36
RAF são as fábricas Renault de Billancourt... Tournier estão desapontados com a apresen- Deleuze .
são oferecidos após o Bacharelado (baccalauréat).
Não diremos uma só palavra sobre esse inci- tação de seu guru, e não o perdoam por tentar Baccalauréat: comumente denominado 'bac', é um diplo-
Não obstante suas aptidões excepcionais,
dente medíocre. Só sabemos dos embates de reabilitar essa velha noção de humanismo: "Es- ma que saciona o fim dos estudos do secundário francês. Deleuze não consegue entrar na ENS, ainda
Orestes e Júpiter às voltas com as 'moscas'. távamos arrasados. Assim nosso mestre reco- É o mais antigo exame da França e foi críado em 1808 por que suas exposições já sejam consideradas
Passada meia-hora, as sirenes anunciam o fim lhia da lata de lixo onde tínhamos jogado essa Napoleão. Existem 3 tipos de 'bac': o geral, o tecnológico e como eventos a que não se pode faltar sob
do alerta, e voltamos ao teatro. A cortina sobe. o profissional. As três séries propõem matérias gerais co- nenhum pretexto e mobilizem grandes pia-
besta deformada, fedendo a suor e vida inte-
26 muns cujo horário está adaptado para as especialidades
Júpiter-Dullin ~stá lá. Ele grita pela segunda rior, o humanismo" • Conversando em um café de: francês, matemática, história-geografia, filosofia, lín-
teias. É o caso, entre outros, da arguição sobre
vez: 'Jovem, nif6 incrimine os deuses!"m. após a conferência, os dois companheiros não guas vivas l e 2, educação física e esportiva. "Bárbaros e civilizados" a que é submetido por
i

l!ttl .--.··~----·
88 Dosse Cilles Deleuze & Félix Guattari

Georges Canguilhem. Gilles obtém uma boa Na licenciatura, Deleuze e Olivier Revault curso. Alain Delattre, primo do famoso general agregação. Quando começou a faltar às au-
nota, que permitiria seu ingresso se ele não dAJlonnes nunca faltam às aulas de Gaston de Latre de Tassigny. François Châtelet, Gilles las no ano da agregação, o pequeno grupo de
houvesse abandonado outra matéria. Assim, Bachelard, pelo qual têm a maior admiração. Deleuze e Olivier Revault d'Allonnes. A relação preparação fica preocupado e o visita na Rue
ele é reprovado, porém, devido aos seus bons Também fazem os cursos de Jean Wahl, que de textos de filosofia francesa para o progra- Daubigny. Deleuze. que está saindo de uma
resultados, consegue uma bolsa de agrégation~' sensibilizará o jovem Deleuze para a filosofia ma de agregação de 1948 é constituída então violenta crise de asma, está de cama. O pai
e se recolhe na Sorbonne, onde segue os cursos anglo-saxã e para o existencialismo pré-feno- pelo estudo de Matéria e Memória, de Bergson, falecera pouco depois do desaparecimento do
de Ganguilhem, de Bachelard e de Gandillac, menológico. Martia! Guéroult é outro mestre e pela obra de Durkheim, As Regras do Méto- filho Georges, e Gilles vive só com a mãe: "Fo~
que será o orientador de sua tese. para eles por sua leitura particularmente me- do Sociológico. Revault d'Allonnes recorda que mos vê-lo, e na minha lembrança é uma visita
Estudante na Sorbonne, Deleuze faz par- tódica dos textos: "Sempre achei que Gilles foi ele e Châtelet, mais marxizan tes, não tinham à Mareei Proust no quarto com a mãe, uma pe-
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te de um pequeno grupo de amigos entre os um grande aluno de Guéroult" • De sua parte, nenhum problema de se apropriar das teses quena lâmpada rosa e Gilles, que já tinha difi-
culdades respiratórias" • Nesse ambiente con~
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quais se encontram seu companheiro de sem- Guy Bayet consagra seu curso a Espinosa, que durkheimnianas, mas consideravam Bergson
pre,Jean-Pierre Bamberger, François Châtelet, está no programa da agregação. um espiritualista empoeírado em quem não finado, tudo que o jovem Gilles Deleuze deseja
Olivier Revault d'Allonnes, Claude Lanzmann, François Châtelet se recorda de um mo- viam interesse: "No Biarritz, o café onde a gen- é sair. O êxito na agregação é a chance de obter
Michel Butor e, naturalmente, Michel Tour- mento antológico entre o mestre Alquié e o te se encontrava, dizemos a Gilles que Bergson sua independência financeira. De sua relação
nier. Nem todos são filósofos: um trio formado estudante Deleuze a propósito de Malebran- nos aborrece um pouco. Ele retruca: 'Não, não conflituosa com o meio familiar, ele conserva
por Jacques Lanzmann, Serge Rezvani e Pierre che: "Guardo ... a lembrança de um trabalho de se enganem, vocês não leram direito. É um uma fobia a qualquer alimentação à base de
Dmitrienko se dedica à pintura e se instala em Gilles Deleuze que devia tratar de não sei mais grande filósofo""". Então, Deleuze tira de sua leite, o que surpreende seus amigos: "Convida-
uma antiga lavanderia na Rue de Vaugirard, que tema clássico da doutrina de Nicolas Male- maleta Matéria e Jvfemória e começa a ler em mos Gilles para jantar várias vezes. Ele sempre
onde fazem suas amigas posarem. O desfi- branche diante de um de nossos mais profun- voz alta uma longa passagem e a explicá-la, a perguntava à dona da casa se o prato continha
le de aprendizes filósofos que vão ver o trio dos e mais meticulosos historiadores da filoso- comentá-la com seus colegas: "Ele usou a se- alguma gota de leite, e, se era o caso, ele não
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pintar é permanente: Gilles Deleuze, Claude fia. e que havia construído sua demonstração, guinte expressão: Ah! Vocês não gostam de podia comer" •
Lanzmann, Jean Cau, Jacques Houdart, Renê sólida e sustentada por citações peremptórias, Bergson! Isso me deixa desolado'"".
Guillonnet, Pierre Cortesse,Jean Launay, de pé em torno do único princípio da irredutibilida- Portanto, desde 1947, Deleuze já conside-
em silêncio, contemplam à vontade as belas de da parte de Adão. Diante do enunciado do ra Bergson um filósofo de primeiro plano, e A ilha Saint-Louis
moças desnudas. O traje rigoroso desses estu- princípio adotado, o mestre empalidecera e, essa obra o acompanhará sempre e inspirará
dantes vindos da Sorbonne em suas jaquetas, manifestamente, tivera de se segurar para não toda sua filosofia. Num momento filosófico Em 1949, de volta da Alemanha, onde foi
camisas brancas e gravatas contrastava com as intervir; à medida que a exposição ia avançan~ marcado pela dominação do marxismo e do fazer o curso de filosofia na universidade de
roupas boêmias dos artistas: "Gilles Deleuze já do, a indignação se transformava em increduli- existencialismo sartriano, considerar Bergson Tübingen, Michel Tournier decide preparar-se
tinha na época um discurso originaL Os outros dade e, depois, no momento das considerações um filósofo importante denota uma originali- para a agregação um ano depois de seus ami-
- sobretudo Claude - se limitavam a reprodu- finais, em surpresa maravilhada. E ele acabara dade que Deleuze jamais deixará de reivindi- gos, mas não fará parte dos felizes eleitos: ele
zir a retórica pedante'm. Nessa época, Claude de concluir... que não era costume tratar os pro- car, sempre preocupado em pensar de maneira nutrirá um grande ressentimento por aquilo
Lanzmann e Gilles Deleuze são muito ligados, blemas como fora feito ali com tanta maestria intempestiva contra a doxa de sua época. O que qualifica de "curso hipertrofiado, inchado,
e Lanzmann fala de seu amigo com um fervor e que, em todo caso, quanto a ele, não poderia pequeno grupo solicita aos membros do júri ubuesco, a instituição mais desonesta e mais
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e uma admiração particulares. Quanto a Gilles menosprezar o elevado interesse de hipóteses do concurso, Alquié, Gandillac e Lacroze, que nefasta de nosso ensino" • Ao chegar, ele se
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Deleuze, ele "era muito gentil, muito desajeita- explicativas dessa natureza'' • lhes entreguem em envelope fechado os temas instala no Hotel de la Paix, no número 29 da
do; usava cachecol no verão; tinha o aspecto Para quem passou pela qualificação do de dissertação. O resultado do concurso este- Rue d'Anjou, na ilha de Saint-Louis. É lá que ele
de uma criança superprotegida por uma mãe programa de agregação, resta o temido gran- ve à altura das expectativas para esse pequeno acolhe Gilles Deleuze, que decidiu abandonar
preocupada demais. Sua inteligência deixava de teste oral que é dividido em quatro provas: cenáculo. Deleuze, sem dúvida fragilizado por a mãe em 1950. Esse hotel está magnificamen-
Claude em transe. Ele sorvia Deleuze. Procura- uma sobre um texto grego, outra sobre um sua reprovação na ENS, não queria se apresen- te localizado à margem do Sena, no coração de
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va por todos os meios apropriar-se dele" • texto latino e duas sobre textos franceses. tar no oral. Será necessária a capacidade de Paris, com suas agradáveis orlas bordadas de
Para se preparar melhor, um pequeno grupo convencimento de seu amigo Châtelet, que o álamos, seus galeristas famosos e livreiros. Al-
de candidatos se reúne regularmente na Rue encoraja a se apresentar em todas as provas, gumas estrelas vivem ali, como o escritor Yvan
Méchin, perto do Hospital Cochin, na casa de vai buscá-lo e o leva à força diante do júri. Ele Audouard e sobretudo Georges de Caunes, que
* N. de R. T.: Agrégation é um concurso francês acessível Olivier Revault d'Allonnes. Esse pequeno "clube foi admitido como colaborador. apresentava o telejornal da noite na única rede
após um Mestrado, bastante seletivo, que permite àquele dos cinco'' que se impõe uma ascese coletiva é O jovem Deleuze já tem problemas de de TV existente: "Ele era mais conhecido que
que o obtém lecionar em escolas secundárias. Esse diplo- 46
Brigitte Bardot ou De Gaulle" • Deleuze, como
constituído por Pascal Simon, que morrerá de saúde a ponto de não ter obtido o certificado
ma permite, igualmente, depois de alguns anos de expe-
riência profi"Ssional.ledonar em uma universidade. um câncer no cérebro quatro anos após o con- necessário para se apresentar nas provas da seu amigo, ocupa um quarto por mês nesse ho-
90 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari

tel onde viverá sete anos. A tarifa não é exces- a introdução a uma obra de natureza esotéri- de 1948 a 1952. O horário o retém boa parte da adolescentes, o esporte, o namoro, os animais,
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siva na época, mesmo porque o hotel não é de ca . O autor é um pseudônimo, e Deleuze deve semana em Amiens, aonde chega terça-feira de para em seguida elevá-los aos cimos da refle-
alto padrão. Assim, Deleuze vive no centro de ter recebido a incumbência dessa introdução manhã e só retorna a Paris sexta-feira à noite xão, apoiando-se em um repertório de autores
Paris e leciona então no liceu de Amiens, para graças ao convívio com os círculos de Mareei ou sábado de manhã. Descobre que é colega de clássicos da tradição filosófica. Nesse primeiro
onde viaja toda semana. Visto que o professor Moré, para tirar algum dinheiro. A obra, que Jean Poperen e de Max Milner. Quando se apre- ano, ele tala de Espinosa aos alunos, mas Ber-
de filosofia é julgado com muita complacência segundo Deleuze "apresenta um interesse ca- senta diante de sua primeira classe entre 1948 gson também já ocupa um papel importante
porque o tomam como o louco do lugar, ele pital", visa reunificar as linguagens separadas e !949, está vestido de forma bem clássica, um em seu ensino. Depois da aula, Michel Marie
pode se permitir uma certa excentricidade, e da ciência e da filosofia para encontrar a ambi- poUco exagerada até, camisa branca e gravata, frequentemente acompanha o professor até
assim, quando o cansaço se faz sentir, toca ser- ção cartesiana de construção de uma mathesis como é de uso em um liceu de uma cidade da em casa. Deleuze insiste para que ele faça um
rote musical para os alunos. Alain Aptekman, universalis. Contudo, por trás dessa introdução província. Contudo, já se distingue pelo cha- curso de filosofla. Entretanto, Michel Marie lhe
grande amigo de François Châtelet, que ele co- que parece fruto de mera contingência, pode- péu que deposita sobre a mesa quando sobe confessa que quer ser padre operário: "Senti
nheceu em Túnis, onde Châtelet foi nomeado -se encontrar o ponto de vista sempre defen- ao tablado e que tornará legendário. Fuma um uma reação dura, que o fazia sofrer. Ele não
para o liceu francês, lembra de ter visitado De- dido por Deleuze, de um monismo que parte cigarro atrás do outro enquanto dá aula. tinha um discurso anticlerical, mas acleri-
leuze nesse pequeno hotel várias vezes: "Fui de uma filosofia da vida que subsume qualquer cal"56. Michel Marie seguirá efetivamente esse
várias vezes ao seu quarto, que me angustiava subdivisão: ''A unidade, a hierarquia para além caminho, trabalhará mais de dois anos em
bastante, pois não havia um dedinho de pare- de qualquer dualidade anárquica, é a mesma da Um despertador de uma fábrica, mas a bula papal condenando
de que estivesse livre. Havia um monte de re- vida, que desenha uma terceira ordem, irredu- vocações filosóficas a experiência dos padres operários impedirá
produções de pintura penduradas na parede, tível às duas outras. A vida é a unidade da alma essa escolha. Então, tardiamente, ele seguirá
as persianas ficavam entreabertas. Era um lu- como ideia do corpo e do corpo como extensão Desde seu primeiro ano de ensino, ele é um os conselhos de Deleuze e irá se inscrever na
50
'hd"'"
gar comp Ietamente 1ec a o . da alma' , escreve ele, dando ali uma definição "fantástico despertador""', nas palavras de seu Sorbonne em 1954, para se tornar urbanista no
Michel Tournier e ele se encontram com de estrita obediência spinozista. Deleuze ofere- aluno Michel Marié. Nascido em 1931 e filho futuro e depois antropólogo.
n:mita frequência com os irmãos Lanzmann, ce uma leitura da obra que lhe permite escapar de uma família camponesa, este último não Outro aluno de Deleuze no liceu de Amiens,
Jacques e Claude, Serge Rezvani, François à parte mística para insistir em suas próprias está inscrito na área de filosofia, ele se prepara Claude Lemoine, será mais tarde diretor da
Châtelet, Kostas A.xelos. Eles têm seu bistrô temáticas. Define a mathesis como algo que para o curso em ciências experimentais, mas FR3. Ele recorda de Deleuze no ano letivo de
favorito na ilha com um nome muito filosófi- não é nem científico nem filosófico e que, por o fascínio que Deleuze exerce sobre ele mu- filosofia de 1951 e 1952, decisivo em seu curso:
co de "Mônada", que coloca o grupo de amigos transgredir as fronteiras, se oferece como "um dará sua vida: "Um dos professores que mais "Ele me transmitiu de imediato a necessidade
51 57
sob a elevada proteção de Leibniz. Tournier e saber da vida" . Encontra-se a marca de Sar- me influenciaram foi Gilles Deleuze, que me da filosofia' • Filho de advogado da boa burgue-
Deleuze, cujos quartos são vizinhos, também tre nessa introdução onde Deleuze afirma que dava aula de filosofia. Pela mobilidade e leveza sia da província, Claude Lemoine tinha um des-
se encontram quase sempre no restaurante "cada existência encontra sua própria essência de seu pensamento, pela aparente facilidade tino todo traçado: assumiria o escritório do pai
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La Tourelle, na rua Hautefeuille, para o jantar. fora dela mesma, no outro" • de seu ensino, pelo interesse que tinha pelas no dia em que este se aposentasse. "Deleuze me
Nesses anos, Deleuze tem uma breve relação Em 1947, Deleuze publica a introdução a coisas da vida (o esporte, a roupa, a comida, disse: 1\.s coisas não podem ser desse jeito!"'53 O
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amorosa com a comediante Évelyne Rey, irmã uma obra essencial de Diderot, A Religiosa • a história das técnicas ... ), esse rapaz de 24 ou rapaz pede para ter uma conversa com o pai:
dos Lanzmann. Serge Rezvani menciona ache- Ele expressa seu mais vivo interesse pelo per- 25 anos, que era antes um irmão mais velho este consente, sem entusiasmo, e finalmente
gada dessa moça à casa de Monny, padrasto sonagem de Susana, que encarna ao mesmo do que um pai, me inspirou conflança. Com acaba se convencendo: o filho estudará flloso-
dos Lanzmann: "De repente entra uma moça tempo a natureza e a liberdade a ponto de fa- ele, a filosofia não era essa disciplina rígida fia em Paris. Claude Lemo in e tira 19 em filoso-
magra, a testa escondida sob uma franja de ca- zer de seu autor, Diderot, o tolo de sua própria que eu temia. Era o encontro, a fusão entre, de fia e recebe felicitações de Deleuze através de
belos sombrios. É Évelyne, a irmã de Jacques ... trama romanesca. Ele ressalta a tensão do ca~ um lado, um aparelho conceitual, uma cultura uma carta. Essa atenção dedicada aos alunos
Sob a massa de cabelos, ela dissimula um ráter da heroína, dividida entre dois estilos di- com suas linguagens, suas técnicas de apren- que manifestam interesse e competência em
estranho olhar de pássaro noturno. O nariz ferentes, aquele específico do século XVIII, que dizagem, suas explicações e seus encadeamen- filosofia é absolutamente excepcional, e não se
pequeno e adunco (que mais tarde ela fará a remete à natureza, à eloquência, ao sentimen- tos, que se aprende em contato com gerações limita ao ano letivo. Quando Claude Lemoine
loucura de retalhar), lábios muito finos, sensí- tal e ao exclamativo, e um estilo-liberdade em de pensadores, e, de outro lado, uma espécie chega a Paris, fica um pouco perdido na capital.
veis, um maxilar um pouco largo e, sobretudo, que as consciências se opõem em frases curtas de impulso secreto, de disposição do espírito a Deleuze propõe que fique na casa de sua mãe,
iluminando a sombra na qual ela tenta escon- e em negações obstinadas. apreender, a conceber as coisas mais simples, na Rue Daubigny, se não tiver outro lugar onde
dê-los, os olhos, grandes olhos de um azul de Esse período do final dos anos de 1940 e iní- as mais cotidianas e as mais fundamentais da se instalar. Claude Lemoine ingressa no curso
43 55
miçangas, claros como praias ao ar livre" . cio dos anos de 1950, para Deleuze, é marcado existência" • Imediatamente, Deleuze adota superior de letras do liceu Louis-le-Grand e faz
No final dos anos de 1940, Gilles Deleuze principalmente pelo início de sua carreira de um estilo de ensino singular, abordando em um curso de filosofia na Sorbonne. Como não
prossegud~u trabalho de escrita. Em 1946, faz professor no liceu de Amiens, onde lecionará um tom leve os problemas mais concretos dos deseja lecionar, acaba optando, para grande
92 Dosse Cilles Deleuze & Félix Cuattari 93

desespero de seu mestre, pelo jornalismo e in- neta e contempla o vazio, desvairado, uma bi- queria se tornar ciclista passa de 9/20 em fi-
mar isso de transcendental? ... Não sei, não sei
gressa da Associação Geral de Imprensa. Para cicleta na cabeça. Isso não escapa à perspicá- losofia no início do ano para 16/20 antes das
mesmo". Pouco a pouco a decantação se opera,
demonstrar a importância que Deleuze e a fi- cia de Deleuze, que, vendo o aluno se esquivar férias de verão. A primeira prova do ano, que
as linhas do problema se desenham, as artlcu~
losofia tiveram para ele, Lemoine e sua mulher rapidamente no fim da aula às l 1 horas, abor- lhe vale um modesto 9/20, trata do seguinte
lações tornam luminoso o discurso: "Ele pro~
darão o nome de Gilles ao filho mais velho e de da-o no corredor e pede que não vá embora. tema: "O que é o desejo?", e a apreciação geral
cedia por repetições sob ângulos diferentes,
Sotla à filha, o que dá "Gillesofia' em forma de Alain Reger lhe explica as razões de seu desin- revela a vontade do mestre de tirar o aluno de
praticando uma espécie de perfuração em es-
homenagem e reconhecimento. teresse, e Deleuze tenta elevar seu moral: "Co- sua subordinação a Sartre: "Qualidade mosó-
piral"60. Assim como em Amiens, Espinosa é o
No final de 1952, Deleuze é nomeado para migo vai melhor?". Na verdade, o aluno havia fica incontestáveL Muita esperança, mas para
que mais se discute em suas aulas em Orléans:
o liceu de Orléans, onde lecionará até 1955. Ele obtido lJ em filosofia: "Então, responde De- conseguir realizá~las precisará renunciar a Sar-
"Ele comentou o início da Ética durante três
geralmente iniciava suas aulas com alguma 61 leuze. 11 + (-7), dá quanto? Quatro, isso deve tre, pelo menos por um ano. Você voltará a ele
ou quatro meses" . Também abre um espaço
facécia à qual dava a aparência de verossímil. dar 4, já é menos pior". Alain Roger diz que depois, e de outra forma. Será preciso ler Pla-
não desprezível à psicanálise e já a Lacan, com
Sempre lhe aconteciam histórias no trem vin- quer se tornar ciclista profissional. D:leuze o tão e Kant e compreender Sartre a partir daí,
uma aula sobre ')\,oposição Lagache/Lacan".
do de Paris, e os mais variados incidentes se leva então à biblioteca do liceu, e Alam Roger e não o inverso. Senão você ficará bloqueado
No último ano que lecionou em Orléans,
passavam no ônibus que o conduzia da esta- 0 segue um pouco encabulado, não ousando e não conseguirá progredir. De certa maneira,
Alain Roger é interno do hypokhâgne. O tra-
ção de Orléans à estação de Aubray, um trajeto contradizê-lo, mas também se mantendo fir- é o momento de partir do zero, não que você
balho de Deleuze se divide então entre três
de apenas dez minutos que logo se tornou um me em suas intenções. Deleuze tira três obras já não tenha feito uma boa aquisição, mas é
classes: uma do último ano do ensino médio,
concentrado de desventuras, como aquela já das estantes da biblioteca: as Entrevistas, de nessa condição que sua aquisição de filosofia
hypokhâgne e duas horas de ensino khâgne. A
relatada por um de seus alunos, Alain Roger: Epicteto, a Ética, de Espinosa, e a Genealogia ganhará sentido e irá se desenvolver"M.
classe de letras é constituída essencialmente
"Levaram minha valise ... Um engano ... uma ter- da Moral, de Nietzsche. Seleciona alguns capí- O mestre o e aluno deixam juntos Orléans.
de moças, boas alunas que, em sua maioria,
rivel confusão ... no ônibus de Aubrais ... Então, tulos desses três livros e manda o aluno prepa- A partir de 1955, Deleuze é nomeado para o li-
não têm a intenção de se preparar para a ENS,
imaginem vocês, abro minha valise no hotel, e rar uma exposição para a terça-feira seguinte: ceu Louis-Ie-Grande, em Paris, onde lecionará
mas que estão lá para fazer seu curso prepa~
o que é que eu vejo? Colgate, Palmolive, essas "Você vai procurar o centro de gravidade des- até )957. Quanto a A!ain Roger, entra na clas-
ratório antes de ingressar na universidade. O
coisas ... Um representante comercial... Lembro se triângulo, a intersecção de três medianas, se preparatória no liceu Henri-N, bem ao lado.
magnetismo de Deleuze será decisivo para
de!é. todo apressado ... um senhor gordo ... Um é taciJ". A linha de fuga é cortada, e o fim de Suas relações passam a ser então de amiza-
o futuro de Alain Roger. Nesse final de no-
belga, sem dúvida. Todos enormes numas ca- semana na casa dos pais comprometido. Alain de. Sabendo que ele está na penúria em Paris,
vembro de 1954, seu moral está baixíssimo.
sinhas pequenas ... Como vocês querem que eu Roger precisa flcar para preparar essa exposi- numa falta de dinheiro terrível, Deleuze o leva
Inscreveu~se em letras por pressão dos pais -
dê aula com dentifrícios e cremes de barbear? ção a contragosto, mas ninguém contesta De- ao restaurante com frequência, mas, como ele
tinha obtido menção honrosa em filosofia no
Por outro lado, o senhor gordo ... quando ele leuze. Pois bem, o mergulho nesses três textos próprio não dispõe de muitos recursos nesse
concurso geral, mas acaba de ter uma série de
abrir minha valise ... diante de todos os seus conseguiu convertê-lo definitivamente, pois meado dos anos de 1950, lhe diz: ''A gente vai
avaliações desastrosas, e, para completar, seu 65
clientes ... o que é que ele vai lhes mostrar? A ele irá se tornar professor de fllosofia na Uni- comer dois ovos fritos" • Em 1956, mais urna
professor de latim lhe dá uma nota negativa:
Crítica da Razão Pura ... e minha aula sobre o versidade Blaise-Pascal de Clermont-Ferrand vez, o apoio de Deleuze se revela decisivo para
7/20! Essa situação reforça sua ideia de que
transcendentaL. nada disso é vendáveL Ele vai de 1967 a 2004. Ele se pergunta então "como Alain Roger, que fica doente: 'No inverno de
não tem nada a fazer ali, que os pais se enga~
perder seu ganha-pão, eu me sinto maL Enfim, Deleuze podia prever que esses três nomes se- 1956, fui vítima de uma pleurisia, que me rete-
naram. Quanto a ele, sua paixão é a bicicleta,
vou pelo menos tentar lhes dar aula ... "59• riam, durante meio século, meus autores pre- ve na enfermaria do liceu durante longas sema-
da qual pretende fazer sua profissão. Seu llel
Após esse preâmbulo, a aula pode começar. feridos'.63. Esse triângulo ético, cuja exposição nas, onde, apesar de tudo, eu tentava trabalhar.
corcel da marca Stella está só esperando por
Deleuze tira um papel do bolso, desdobra-o durará mais de uma hora, irá se tornar de fato Gilles veio me visitar e, se não fosse ele, talvez
ele na casa da família em Bourges, e Alain está 66
lentamente e fica segurando na mão, sem a matriz da nova vocação. eu tivesse capitulado diante da ad vers1'd ade" .
muito decidido a abandonar o universo confi-
jamais consultar. Dá a impressão de impro- Alain Roger se vê bombardeado de exposi- Na classe preparatória, durante o ano esco-
nado das letras para voltar ao ar livre que so-
visação, mas se sabe, e voltaremos a isso, do ções o ano todo e não deixa mais o internato lar de 1955 e 1956, Deleuze tem na sua turma
pra nas estradas do Berry e se inscrever no clu-
cuidado meticuloso com que preparava suas para honrar a confiança daquele que se tornou aquele que será mais tarde diretor da revista
be de ciclismo profissional do local. Nascido
aulas. Dando a impressão de estar no mesmo mais que um professor, seu mestre espiritual. Positif, Michel Ciment, e François Regnault,
em 1936, Alain Roger idolatra Louison Bobet
nível que seu público, de não ter preparado Deleuze se incumbe dele e o submete a um futuro filósofo althusseriano. Michel Ciment,
e só tem um sonho: ganhar uma etapa do Tour
nada e de ser pego desprevenido, ele finge es- programa de leituras para quatro anos, cujos que na época escreve um diário, recorda de
de France depois de haver deixado Fausto Copi
tar perturbado diante das questões que coloca progressos acompanha regularmente: "E en- ter anotado várias vezes: "Que aula incrível!".
no Tourmalet. "Um sonho que jamais realizei
a si mesmo em voz alta: '1\h! O transcendental, 62 tão, o Sofista, está avançando?"; "E então, essa Ele não entende seus colegas, preocupados
por causa de Deleuze" •
o que é isso? Kant diz claramente que são as teoria da percepção pura em Bergson, você em não fazer o curso de maneira mais clássica.
Ê nesse estado de espírito que ele assiste
condições de P9~sibi!ídade ... Mas, por que cha- gostou?". A "terapià' funciona, e aquele que Contudo, Deleuze nunca foi afrontado: "Ele era
prostrado à última aula da semana. Larga a ca-
94 Fra,ncn•is Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 95

adorado por todo mundo"'''. Ele então dá uma e por isso nunca perde a calma. Por causa de por intermédio de Michel Tournier o galerista 8. Gilles Deleuze, A
aula sobre a questão do fundamento: "O que é suas unhas compridas e de seu tom afetado, Karl Flinker, e através deste último uma certa 9. Jbid.
fundar?", apoiando-se sobretudo em Heidegger um aluno o chama de "pederasta", e ele atende: Fanny Grandjouan, que trabalha com o costu· 10. lbid.
e em Leibniz, autores particularmente difíceis "Sim, e então?''. Outro aluno, militante marxis- reiro Pierre Balmain. Ela se torna sua mulher 11. J\lllchel Tourníer, entrevista com o autor.
para alunos que acabaram de sair do baccalau- ta muito "stalinizado", urn tal Fussmann, tinha em agosto de 1956. A cerim6nia religiosa foi 12. Michel TOURNIER, Le Vent Paraclet, Galli-
réat, e esse tema o faz remontar também à an- escrito em sua dissertação de filosofia que "o realizada na basílica Saint-Léonard de Noblat, mard, co!. "Folia", Paris, 1977, p. 155.
tiguidade grega: "Ele nos tinha feito ler um livro professor de filosofia é um lacaio da burguesia, onde fica a propriedade da família de sua es· 13. Marc-Alain DESCAMPS, Marie-Magdeleine
que me marcou muito, Da Tirania de Xenofon- estipendiada pelo capitalismo". Ao lhe devolver posa, e que se tornará seu local privilegiado Davy ou la Liberté du dépassement, Le miei de
te, lançado pela Gallimard com um prefácio de a prova, Deleuze lê a passagem para a classe e de trabalho, no centro de Limousin, na cida· la pierre, 2000, p. 97.
KojCve e a correspondência trocada entre Ko- comenta: "Primeiro flquei vermelho. Depois de natal de Poulidor. Deleuze escreve algumas 14. Maurice de Gandillac, entrevista com o autor.
j€ve e Leo Strauss"li~. Ele também consagra sua fiquei pálido .. :·, e seu aluno François Regnault, palavras ao seu orientador de tese, Maurice de 15. "Présentation",Espace, n. 1, 1946, p. 11.
aula a um comentário de f"édon, de Platão. fascinado, sabe muito bem o quanto isso o fa- Gandillac: "Foi uma bela festa. O casamento 16. Gilles DELEUZE, "Du Christ à la bourgeoisie",
Outra incongruência para os alunos da zia rir. Para desanuviar a atmosfera, ocorreu-lhe é um estado arrebatador, já era tempo de eu ibid., p. 93.
classe preparatória é que Deleuze fala muito tazer a classe jogar o jogo do cadavre exquis"'. saber. Sob o olhar severo de Fanny, Balmain 17. lbid., p. 97.
de literatura, de Proust, de Rousseau, mas tam- Cada um escreve uma palavra na borda de uma teve um ataque de fúria. A senhora Alquié nos 18. Ibid., p. 105.
bém de Claudel, cuja obra O Sapato de Cetim folha de papel, dobra e passa para o próximo, e apoiou nessa prova de uma maneira delicio- 19. lbid., p. 106.
está no programa de letras; comenta com eles Deleuze anota no quadro o poema que resulta sa .. :'74. Após uma breve passagem por Cham- 20. Michel Tournier, entrevista com o autor.
Proteu, que considera uma peça belíssima de dali. O nome do poema é "O nabo cívico" e co~ pigny, em um conjunto habitacional bem 21. íVlichcl TOURN1ER, Le Vent Paraclet, op. cit., p.
Claudel. Evoca também Ambrose Bierce, suas meça assim: "O avermelhado. Ela gozou, gran- triste, Deleuze e sua esposa se instalam no 15º 160.
histórias monstruosas e particularmente o de mosca ..:·: 'Ainda éramos um pouco meninos Distrito de Paris, Rue des Morillons - a rua dos 22. Michel T0Ufu\11ER, Célébrations, Gallimard,
conto ''óleo de cão" e, ignorando as barreiras de colégio, e Deleuze comentou o poema no objetos perdidos, perto do abatedouro - em col. "Folia", Paris, 2000, p. 425.
entre as literaturas, aconselha vivamente os quadro, deixando todo mundo deslumbrado um pequeno apartamento reformado pela fa· 23. Gilles DELEUZE, "Description de la femme.
alunos. a ler certos romances policiais da série com seu comentário. Ao mesmo tempo, isso mflia Grandjouan. Nesse ano de 1956, ele visita Pour une philosophie dftutrui sexuée", Poésie
Noire da Gallimard. Ele escreverá mais tarde nos livra de ter de descobrir o que o autor quis com frequência Maurice de Gandillac, e não 45, n. 28, out.-nov. 1945, p. 28-39.
72 24. Ibid., p. 33.
que "um livro de mosofia deve ser em parte dizer" • Sobre a questão da sexualidade, um se limita a uma troca meramente filosófica
uma espécie muito particular de romance po- campo ainda tabu na época, ele demonstra com seu orientador de tese. As duas filhas de 25. lbid., p. 32.
licial"69. Além da literatura, Deleuze é apaixo- uma certa audácia. Freud e a psicanálise têm Gandillac têm verdadeira adoração por ele, 26. Michel TOURNIER, Le Vent Paraclet, op. cit., p.
nado por cinema e comenta alguns filmes em lugar garantido em seu curso de fllosofia, fato que lhes conta histórias sempre mais extrava- 160.
aula, fascinado particularmente por aqueles raríssimo em 1955. Quando aborda as rela- gantes de um certo senhor "Cretino", de quem 27. Gilles DELEUZE, ''Du Christ à la bourgeoisie",
que põem monstros em cena, e que convida os ções homens/mulheres, refere-se ao desejo de ele diz ser vizinho no hotel do Quai d:Anjou. O Espace, 1946, p. 93-106; "Dires et profils", Poé-
alunos a ir ver. Michel Ciment, já um fanático humor já é um dos traços distintivos de Deleu- sie47, 1947.
"encontrar um parceiro sexual", longe da ideia
por cinema, que está sempre correndo entre o sentimental do grande amor. Quanto à homos- ze, sem dúvida uma maneira de mascarar seus 28. Gilles DELEUZE, "Jl a été rnon maitre", Arts, 28
de novembro de 1964, p. 8-9; reproduzido em
Louis-le-Grand e a cinemateca da Rue d'Ulm, é sexualidade na Antiguidade grega, ao contrário sofrimentos físicos e psíquicos.
ID, p.l09-113.
convidado por Deleuze para jantar no Balzar: dos comentários da Sorbonne sobre Platão,
29. Ibid., p. 110.
"Eu tinha 18 anos e ia ver as retrospectivas de que ainda evitavam o assunto, "[o] de Deleuze
Keaton, Bergman, Stroheim ... e a gente falava nesse momento era: 'Não fiquem chocados, o
Notas 30. lbid., p. 112.
de cinema. Ele já era muito cinéfilo e gostava 1. Michel Tournier, entrevista com o autor. 31. Gilles Deleuze, citado por Giuseppe BIANCO,
pederasta grego não tem nada a ver com o que
"Jean Hyppolite et Ferdinand Alquié", em Sté-
muito de}erry Lewis. E também gostava muito vocês pensam. Isso era absolutamente normal 2. jean-Pierre Faye, entrevista com o autor.
70 phan LECLERQ (sob adir.), Aux sources de
de Stroheim'' • Tudo em seu discurso mostrao no mundo grego. Eis a diferença com Proust, 3. Claude Lemo in e, entrevista com o autor.
la pensée de Gilles Deleuze, Sils Maria, Mons,
desejo de eliminar as fronteiras entre os gostos que mostra o pederasta enrustido'. Nessa época, 4. D!bécédaire de Gilles Deleuze (1988), 3 cas- 2005, p. 92, nota 2.
e os saberes. Ele já fala de animais, dizendo-se ninguém mais teria a audácia de dizer isso'm. setes, ed. Montparnasse, Arte Vidéo, 1997;
32. Jean-Pierre Faye, entrevista com o autor.
fascinado pelos rinocerontes. Quanto à músi- Em 1956, a vida privada de Deleuze encon· reed. DVD, 2005 (doravante citado A).
33. Kostas AXELOS, Vers la pensée planétaíre, :Mi-
ca, afirma ser tão apaixonado por Edith Piaf tra-se em um momento decisivo. Ele conheceu 5. Ibid.
nuit, Paris, 1964.
quanto por Mozart, "nos dizendo que temos o 6. René SCHÉRER, Regards sur Deleuze, Kimé,
34. Gilles DELEUZE, "En créant la pataphysique
direito de julgá-los igualmente belos"n Paris, 1998, p.12. jarry a ouvert la vaie à la phénoménologie",
*N. de T.: Literalmente, "cadáver delicioso", um dos jogos
Deleuze possui uma espécie de autoridade 7. Gilles Deleuze, curso em Paris-VIII, 3 de junho Arts, 27 de maio a 2 de junho de 1964, p. 5; re-
inventados pelos surrealistas para aumentar o repertório
natural, não .Ji',esponde a nenhuma provocação de 1980, arquivo sonoro, BNF. produzido em ID, p.!OS-108. Gilles DELEUZE,
•I • '·
imagétíco e onírico de seus participantes.
96 Dosse

"Un précurseur méconnu de Heidegger, Alfred 54. Michel Marié, entrevista com o autor.
jarry", Critique et clinique, Minuit, Paris, 1993, 55. Nlichel MARIÊ, Les 1'erres et les Mots. Une tra-

6
p. 115-125 (doravante cítado CC). versée des sciences socia!es, Méridiens-Kiinck-
35. lbid., p. 115. sieck, Paris, 1989, p. 82.
36. lbid., p. 123. 56. Ibid.
37. Serge REZVANL Le Testarnent amoureux, 57. Claude Lemoine, entrevista com o autor.
Stock, Paris, 1981, p. 124. 58. Ibid.
38. Ibid.. p. 126. 59. Alain ROGER, "Gilles Deleuze et 18.mitié", em
39. Olivier Revault d'Allonnes, entrevista com o Yannick BEAUBATIE (sob adir.), Tombeau de A arte do retrato
autor. Gilles Deleuze, Mille Sources, Tulle, 2000, p.
40. François CHÂTELET, Chronique des idées per- 36.
dues, Stock, Paris, 1977, p. 46. 60. Alain Roger, entrevista com o autor.
41. Olivier Ravault d'Allonnes, entrevista com o 61. Ibid.
autor. 62. Alain Roger, entrevista com o autor.
42. Ibid. 63. lbid.
43. Olivier Revault dAllonnes, entrevista com o 64. Gilles Deleuze, comentário ela dissertação de
autor. Alain Roger de 26 de outubro de 1954, passado
44. lbid. por Alain Roger.
45. J\!lichel TOURNIER, Le Vent Paraclet, op. cit., p. 65. Gilles Deleuze, fala relatada por Alain Roger,
162. entrevista com o autor.
46. Michel Tournier, "Gilles .Deleuze: Avez-vous 66. Alain ROGER, "Gílles Deleuze et l'amitié", em Deleuze explicou isso várias vezes. Ele se Deleuze, que, em 1973, não encontra palavras
eles questions à poser?", France Culture, pro- Yannick BEAUBATIE (sob adir.), Tombeau de lançou em seu próprio trabalho filosófico a suficientemente duras para expressar sua re-
grama de Jean Daive, 20 de abril de 2002. Gilles De!euze, op. cit., p. 40 partir de monografias de autores. Costuma- jeição a uma história da filosofia: "Sou de uma
47. Alain Aptekman, entrevista com o autor. 67. François Regnault, entrevista com o autor. -se separar sua obra em dois períodos: o das geração, uma das últimas gerações que foram
48. Serge REZVA.l"\JI, Le Testament amoureux, op. 68. :Nli.chel Ciment, entrevista com o autor. publicações clássicas sobre os grandes auto- mais ou menos assassinadas com a história da
cit.,p.219. 69. Gilles DELEUZE, Différence et répétition, PUF, res da tradição - Hume, Bergson, Nietzsche, filosofia ... Na minha geração, muitos não esca-
49. Gilles DELEUZE, introdução a Dr. Jean NIAL- Paris, 1968, p. 3. Espinosa, etc. e o de sua obra pessoal, mais param"3.
FATTI DE MONTEREGGIO, Études sur laMa- 70. Michel Ciment, entrevista com o autor. tardia. O próprio Deleuze induz a essa leitura Como conciliar esse paradoxo, uma vez
thk.se, éd. Du GriffOn d'or, Paris, 1946. 71. François Regnault, entrevista com o autor. em O Abecedário, quando compara o ato de fi- que essas afirmações, uma de 1973 e a outra
50. Ibid., p. YJ. losofar com o ato de pintar. Da mesma manei~
72. Ibid. de 1988, são ambas posteriores à sua emanci-
51. Ibid., p. XV. 73. ra como Van Gogh começou pelo retrato antes
François Regnault, entrevista com o autor. pação da história da filosofia? Pode-se consi-
52. lbid., p.XX. de se dedicar à paisagem, o filósofo deve antes
74. Gilles DELEUZE, carta a Maurice de G.AJ."\1- derar que Deleuze escapou dessa contradição
53. Gilles DELEUZE, introdução a DIDER01; La DILLAC, Le Siecle traversé. Souvenirs de neuf de tudo se empenhar em restituir a singulari- aparentemente servindo à história da filosofia,
Religieuse, éditions Mareei Daubin, Paris, 1947. décennies, Albin Michel, Paris, 1998, p. 357. dade dos pensadores que o precederam para, mas instalando verdadeiras minas explosivas
uma vez nutrido e mais bem armado com o sob o pedestal de cada um dos modelos in-
pensamento de outro, se lançar em um traba- telectuais: "Minha maneira de escapar nessa
lho de criação pessoal. Antes de se tornar um época, eu acredito, era conceber a história da
colorista à Van Gogh ou à Gauguin, o filósofo filosofia como uma espécie de sodomia ou, o
também deve passar pela "cor batata, cores de que dá no mesmo. de concepção imaculada.
terra, sem nenhum brilhd' 1• Deleuze prossegue Imagino-me chegando por trás de um autor
alertando contra aqueles que teriam a preten- pelas costas e lhe fazendo um filho, que seria
são de dispensar essa fase iniciática: "É neces- seu, mas que seria monstruosd' 4• Essa atitude
sário esse trabalho de história da filosofia, é suscita multas reservas por parte dos autores
essa lenta modéstia. É preciso fazer retratos visitados e fecundados por Deleuze e mesmo
por muito tempo" 2, em muitos de seus próximos que dizem não
Contudo, o esquema de um percurso tran- compreender isso. Para aqueles que consi~
quilo em dois tempos complementares é con- deram que Deleuze trai os autores sobre os
testado com muita veemência pelo próprio quais escreve monografias, ele teria aparecido
98 Fr~mçoís Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 99

mascarado até desvendar seu próprio sistema Olhando mais de perto, pode-se afirmar de pensadores, por torná~los vivos, introdu- dado por seu vizinho e amigo no Hotel de la
filosófico em 1969, com a dupla publicação de também, como Giuseppe Bianco, que Deleuze, zindo-os na França, trate-se de Kierkgaard ou Paix, :Michel Tournier, que se torna na ocasião
Diferença e Repetição e de Lógica do Sentido. Na no essencial, retomou os autores abordados de Whitehead. É espantoso como os livros de sua "força de dissuasão"*: "Ele não parava de
verdade, parece que Deleuze leva ao seu paro- por seus professores. De fato, na universidade Jean Wahl dominam tudo o que foi feito depois. me importunar, ou para que traduzisse páginas
xismo aquilo que julga ser o melhor e o mais de Strasbourg, Jean Hyppolite havia consagra- Ele sacudiu completamente a filosofia fran- de livros alemães, ou para que datilografasse
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autêntico no pensamento dos autores do qual do seu curso de 1946 e 1947 a Hurne, o de 1947 cesa. 2. Seu tom, seu humor, sua autoironia. e seus próprios manuscritos" • Resultado: o au-
se faz porta-voz em um procedimento que se- e 1948 a Kant e o de 1948 e 1949 a Bergson. sobretudo por seu estilo, ele acaba realmente tor não reconhece mais seu texto. Depois que
gue mais ou menos a lógica endógena de seu Entre 1949 e 1950, Hyppolite dedica quatro ar- com qualquer divisão entre filosofia e poesia, datilografo, ele o vê tristemente encolhido e
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pensamento, à maneira de um Martia! Gué- tigos a Bergson , cuja particularidade, na qual muito mais que Bachelard, que permanece no suspeita de alguma amputação. Essa suspeita
roult, cujo rigor ele admirava muito. Ao mes- Deleuze irá se apoiar, é reduzir a dimensão nível de um comentário sobre a poesia ou fan- é atestada pela dedicatória pessoal que escre-
mo tempo, ele sempre se situa a uma distância psicológica da obra de Bergson para destacar tasia, prolongando-a. Jean Wahl surge como ve no exemplar do livro oferecido ao seu amigo
que lhe permite oferecer uma visão singular. melhor sua natureza ontológica. Ferdinand Al- um filósofo-poeta irredutível à filosofia. 3. Seu Tournier: "Para Michel, este livro que ele dati-
Essa tensão o conduz a revitaiizar tradições quié, orientador da tese secundária* de Deleu~ próprio pensamento e a própria atualidade lografou, e também criticou, achincalhou du-
que de um golpe são metamorfoseadas e reju- ze sobre Espinosa, havia dado duas aulas sobre de seu pensamento: foi ele quem comandou ramente, e talvez tenha até diminuído, porque
venescidas. esse autor em 1958-1959. a reação contra a dialética quando Hegel do- tenho certeza de que era mais grosso, mas que
Nessa primeira fase, até 1969, Deleuze é Quanto a Jean Wahl. bastante aberto à fi- minou a universidade. Foi ele quem fez valer é também um pouco seu, na medida em que
movido pela preocupação de respeitar a origi- losofia anglo-saxã da qual foi um grande divul- o peso da construção do 'E'. Foi ele o pensador lhe devo muito (não por Hume) em filosofia'.
nalidade de cada autor, de descobrir os proble- gador na França, foi ele, sem dúvida, que con- da intensidade e igualmente da crítica da tota- A obra é publicada em 1953 com o títu-
mas que tentou resolver. Esse entrelaçamento venceu Deleuze a exumar Hume. Além dessa lidade. Em tudo o que foi importante antes e lo Empirismo e Subjetividade. É dedicada por
em que evolui ü:rz dele um filósofo que cultiva abertura internacional, Jean Wahl dá duas au- depois da guerra, encontram-se as marcas de Deleuze ao seu ex-professor Jean Hyppolite,
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ao mesmo tempo uma arte da distinção, uma las sobre Nietzsche entre 1958 e 1959 e entre Jean Wahl" • fundador e diretor da coleção "Épiméthée",
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sede de criação pessoal e um desejo de ruptura 1960 e 1961 Jean Wahl desempenha um papel que acolhe a obra • Esse livro é totalmente
com o prêt-à-penser (pronto para pensar). Ao igualmente inspirador para Deleuze na reabili- anacrônico: Hegel, que está no programa da
mesmo tempo, ele se inscreve na linha de uma tação da obra de Bergson. É de fato Jean Wahl, Hume revisitado agrégation em 1946, denunciou energicamen-
tradição francesa cuja originalidade reside na ex-aluno de Bergson a quem ele dedicará sua te o empirismo, que também sofreu críticas
singularidade de cada interpretação e em um tese, que introduz este último na universidade, Em 1952, Deleuze tem a oportunidade de veementes de Husserl. Esse estudo inspira~se
modo de intervenção "mais problemática que consagrando-lhe algumas de suas aulas. Como publicar uma primeira obra na coleção de seu amplamente nas teses críticas de Jean Wahl
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doxográfica, mais conceitual que erudita" • introdutor para Deleuze ao mesmo tempo de amigo André Cresson, professor de classe pre- contra o hegelianismo.
Muitos, incluídos seus amigos, o qualificaram Hurne, da literatura anglo-saxã e de Bergson, paratória, que dirige uma série de pequenos Por trás da apresentação das teses de
de "dândi", não por seu chapéu ou pelas unhas desempenhou um papel fundamental em sua livros de iniciação filosófica no modelo "Vida Hum e, já se percebe a singularidade da abor-
compridas, mas por sua arte de ser inoportuno formação. Isso é atestado por uma carta que e obra". Deleuze, que ficou seduzido com a lei- dagem deleuziana, que consiste em situar em
e por desenvolver um pensamento sempre in~ ele escreve muito mais tarde, em 1972: "O se- tura empirista de Descartes por Jean Laporte primeiro plano o problema que o autor tenta
tempestivo: "A originalidade de Deleuze está ... nhor me pergunta se pode utilizar meu pon- e com seu grande artigo sobre Hum e de 1933, resolver, isto é, em formular a pergunta certa:
em ter~ se colocado muito cedo numa posição to de vista sobre Jean Wahl no livro que está elabora junto com André Cresson essa intro~ "Uma teoria filosófica é, na verdade, uma per-
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de ruptura com todas as tendências contem- escrevendo. Com certeza. Esse ponto de vista dução a Hume • Os autores captam a essência gunta desenvolvida, e nada mais: por si mes~
porâneas que agitavam a nós, estudantes: an- é de total admiração. A importância de Jean da doutrina de Hum e em seu princípio de cau- ma, nela mesma, ela consiste não em resolver
tes de tudo o marxismo e a fenomenologia. Na Wahl para minha geração foi: l. Por ter trazido salidade e em sua reflexão sobre as probabili- um problema, mas em desenvolver até o limite
contracorrente, com um dandismo - tanto ao nosso conhecimento um número incrível dades: "FJe constata que a probabilidade tem as implicações necessárias de uma pergunta
intelectual quando nos trajes e na postura - regras, que alt,rumas proposições são mais pro~ 14
formulada'' • Descobre-se o que será a linha
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reconhecido por todos" • Ele está plenamente váveis que outras"n. Embora o absoluto esteja metódica constante de toda intervenção de
* N. de R. T.: No origínal: Doctorat. Para obter-se um dou- fora de alcance, a ordem probabilística permi-
convencido de que exumar Hume no clima Deleuze em uma carta enviada muito mais tar-
torado em filosofia. na França. como uma "norma gerar
intelectual dos anos 1950, dominado pelos te avançar alguns degraus no conhecimento. de, em 1986, a Arnaud Villani, em que define o
exige-se trBs teses: a principal que ocupa a maior parte do
"três H" (Hegel, Husserl, Heidegger), é coisa de corpus de pesquisa, uma secundária e uma complementar Deleuze se dedica ao mesmo tempo a pre- que é para ele um livro útil de filosofia: "Creio
urna arte consumada do contraponto. Deleu- que, via de regra, são extensões da principal. Evetualrnen- parar a publicação de sua tese de estudos su-
ze volta à carga quando lança em 1961 uma te pode-se escolher diretores diferentes para as diferentes periores sobre Hume, defendida sob a dupla
teses, por exemplo, para G. Deleuze, Maurice de Gandillac orientação de Hyppolite e de Canguillen. Como *N. de T.: A expressão "force de frappe" presta-se aqui a um
leitura destinada a marcar a importância de jogo de sentido, pois "frappe" significa também a ação ou
foi o promotor da tese principal e Fernand Alquíé o de sua
Sacher-Masoch, em plena onda de Sade. não sabe utilizar a máquina de escrever, é aju-
tese secundária. manei!'a de datllografar.
100 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari

que um livro, para que mereça existir, pode ser preciso assumir: "Uma das ideias mais simples te. Ele nos apresenta uma crítica do contrato sobre a natureza humana tem a ver com a di-
representado em três aspectos rápidos. Ape- de Hume, mas também das mais importantes, que não somente os utilitaristas, mas também ferença entre instintos e instituições. Nada no
nas se escreve um livro digno: L quando se é: o homem é muito menos egoísta do que par- a maior parte dos juristas que se opõem ao homem decorre de algo natural, tudo é cons-
acredita que os livros sobre o mesmo tema ou cial'20. Por outro lado, Hum e nos apresenta um direito natural, serão obrigados a retomar" 2 ~. trução, está em elaboração. O homem não nas-
sobre um tema próximo incorrem em uma es- sujeito que jamais é dado, mas sempre cons- Quando Dominique Séglard lhe perguntou por ce sujeito, mas se torna sujeito.
pécie de erro global (função polêmica do livro); truído. Ele já não é fonte de explicação, mas o que havia dedicado seu mestrado a Hum e, De- Portanto, o homem é impulsionado adian-
2. quando se acredita que algo de essencial foi que deve ser explicado: "A filosofia de Hume leuze respondeu: "Por causa do direito. lviinha te, em direção a um futuro, a sua inserção sin-
esquecido sobre o tema (função inventiva); 3.
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é sempre teoria da prática" . A razão está na verdadeira vocação era o direito, a filosofia e gular na prática. O hábito e a repetição tam-
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quando se julga capaz de criar um novo con- órbita da paixão e, portanto, é tributária da o direito" • Na época, é encorajado pelo juris- bém participam desse processo produtivo. O
ceito (função criadora). Naturalmente, esse é contingência, da diversidade de situações, ta Maurice Hauriou para quem a instituição sujeito e a subjetividade situam-se sempre no
o mínimo quantitativo: um erro, um esqueci- fundamentalmente variável de acordo com prevalece sobre o contrato. Essa referência é polo da criatividade: "Crer e inventar, eis o que
mento, um conceito ... Assim, eu pegaria cada o momento. Hume enfatiza assim a inserção muito importante para ele se inserir em uma faz o sujeito como sujeitdm. No plano do mé-
um de meus livros, abandonando a modéstia social do indivíduo, sempre ancorado em um flliação de crítica interna ao pensamento re- todo, Deleuze saúda Hum e por ter distinguido
necessária, e me perguntaria: L que erro pre- pertencimento, fonte de sua paixão: "Deleuze publicano, que procura limitar o princípio da a crítica transcendental que parte de uma cer-
tendeu combater?; 2. que esquecimento quis encontra a essência do empirismo no proble- soberania. Deleuze acrescenta: "Eu estava pro- teza de essência e seu próprio procedimento,
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reparar?; 3. que novo conceito criou? .. :' • ma da subjetividade, e o que faz o sujeito em curando meu homem na classe preparatória. que provém de um ponto de vista imanente.
Aplicando-se a ele seus próprios critérios Hum e é sua capacidade de crer e de inventar. Alquié era Descartes e Hyppolite era Hegel. Também aqui, Deleuze não deixará de seguir o
de avaliação, pode-se dizer que essa obra sobre a crença está na base do sujeito cognoscente, Mas eu detestava Descartes e Hegel'm. ensinamento de Hume de permanecer em um
o empirismo de Hume se justifica por várias a invenção está na base do sujeito da moral e No mesmo ano da publicação de sua mo- plano de imanência.
razões. O contrassenso praticado pela tradição da política"'- nografia sobre Hume, Deleuze publica na pe- O que é então o sujeito? Em primeiro lu-
filosófica e combatido por Deleuze seria con- Hume se dissocia ainda do caráter excessi- quena coleção dirigida por Canguilhem uma gar, uma duração, um hábito: "O hábito é a
siderar o sujeito como um dado natural e não vamente formalista, excessivamente abstrato, coletânea de 66 textos escolhidos e apresen- raiz constitutiva do sujeitdm. Uma das gran-
distinguir bem o atomismo e o associacionis- das teorias do contrato social como a de Rous- tados por ele sobre o tema Instintos e Institui- des regras da prática reside nessa condensa-
mo. A falha a suprir, o esquecimento, visaria a seau. A questão não é tanto refrear os ardores çõei8. Deleuze manifesta ali todo o interes- ção temporal constituída pelas convenções,
noção essencial da construção, a instituição. egoístas, mas sim ampliar as solidariedades: se de que se reveste a seu ver a dimensão da pelos costumes sociais. As relações são vistas
Quanto à novidade, ela "consistiria na possi- "O problema moral e social consiste em passar instituição que, segundo ele, está ligada, assim por I-lume como sempre exteriores aos seus
bilidade de uma ciência da natureza humana, das simpatias reais que se excluem a um todo como o instinto, a um mesmo princípio de termos. Quanto à associação de ideias, ela es-
substituindo uma psicologia do espírito por real que inclui as próprias simpatias. Trata-se satisfação: "Que na instituição a tendência se clarece apenas a fina película da consciência,
uma psicologia das afeições" •
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de ampliar a simpatia'm. Disso resulta uma satisfaça, não há dúvida: no casamento a se- a dos hábitos de pensamento, das considera-
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No caso de Hume, a pergunta é: "Como o teoria da instituição própria de Humel, que xualidade, na propriedade a avidez" . Nessa ções do senso comum, a doxa, mas não elucida
espírito se torna uma natureza humana?" • E
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pretende fazer prevalecer a regra sobre a lei: apresentação, Deleuze retoma a diferenciação as diferenças, o que só é possível mediante o
Deleuze restitui a originalidade da resposta de "A principal ideia é esta: a essência da socieda- entre lei e instituição, e se apoia na concepção recurso às circunstâncias: "Essa noção de cir-
Hum e. Ela reside na afirmação segundo a qual
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de não é a lei, mas a instituiçãd' • As teses de defendida por Hume sobre a positividade que cunstância aparece constantemente na filoso-
o espírito não preexiste aos seus conteúdos, Hume implicam, portanto, uma nova concep- representa a instituição enraizada no social, fia de Hum e. Está no centro da história, torna
que ele é fortemente tributário da travessia da ção do direito e uma nova definição da voca- diferentemente das teorias do direito natural, possível uma ciência do particular, uma psico-
experiência. Dessa primeira pergunta decor- ção de uma ciência do homem mais aberta a que rejeitam essa positividade reguladora fora logia diferencial"". No âmago do empirismo de
re uma segunda, essencial e que se coloca de essas dimensões psicológicas e sociais. do social, confinando o direito à sua dimensão Hume, Deleuze encontra o princípio ao qual
imediato: "Corno o espírito se torna um sujei- Essa redefinição de uma filosofia do direito negativa e limitativa: ''A tirania é um regime consagrará sua tese, o princípio da diferença:
to'?"18 Segundo Deleuze, Hum e permite deslo- interessa particularmente a Deleuze. Tal temá- em que há muitas leis e poucas instituições, ':Assim, a experiência é a sucessão, o movimen-
car a pergunta clássica que explica tudo pelo tica do direito como estreitamente articulado enquanto a democracia é um regime em que to de ideias separáveis na medida em que di-
30
sujeito, ao passo que a tarefa do filósofo deve ao social, como codificação da jurisprudência, há muitas instituições e pouquíssimas leis" • ferentes, e diferentes na medida em que sepa-
ser a de elucidar seu funcionamento. é uma ideia que continuará a se desenvolver e Antes da lei, a instituição impõe ao corpo do ráveis. É dessa experiência que se deve partir,
Hume é definido por Deleuze como um que ele retomará em 1988 em O Abecedário. O indivíduo e ao corpo social os modelos a partir porque ela é a experiência. Ela não supõe nada
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pensador da prática, um moralista, um pensa- direito, para ele, não é uma limitação canônica dos quais a ação poderá se desenvolver e que mais, nada a precede" , Sua tese encontrará
dor político, um historiador. O que é que funda e separada do socius, mas um processo perma- leva a pensar que "o homem não tem instin- ali sua fonte com a firme vontade de pensar a
a moral segunQ.~ Hum e? "É a simpatid' • Esse
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nente de invenção: "Nesse sentido, a concep- tos, é feito de instituições'm, Deleuze atribui a diferença por ela mesma e retornará as aquisi-
impulso afetivo" porta uina parcialidade que é ção que Hume tem da sociedade é muito for- Hume a intuição segundo a qual todo debate ções de sua monografia sobre Hume%.
102 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 103

O empirismo de Hume contém em si uma Uma fase de latência que lecionava na mesma sala, ficava com ape- Esse período parece constituir uma importan-
filosofia da prática, um sujeito envolvido, inse- nas seis pessoas. Ele era louco furioso e detes- te transição para sua relação com a história da
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parável do dado circunstancial. São as circuns- Depois de sua obra sobre Hume em 1953, tava Deleuze"' • Ele também dá uma aula no fllosofia e para sua emancipação dos mestres.
tâncias que afetam as paixões humanas e que e até a publicação da obra sobre Nietzsche sábado pela manhã, às !Oh 30: "Era fascinante, Institucionalmente, continua tributário de
permitem restituir a singularidade nos diversos em 1962, Deleuze escreve um bom número eu estava subjugado. Ele tinha resposta para sua formação primeira, na medida em que o
campos da economia, do direito e da moral. Se- de estudos e de resenhas, mas não um verda- tudo e com reviravoltas surpreendentes, com orientador de sua licenciatura, que deve acom-
gundo Deleuze, julgam erroneamente Hume deiro livro. Em uma entrevista com Raymond uma visão completa tanto de Platão quanto de panhá-lo em sua tese, é seu ex~ professor Jean
quando o acusam de ter pulverizado, atomiza- Bellour e François Ewald datada de 1988, ele se Espinosa, Kant ou Hegel", testemunha um de Hyppolite. Quando este último é nomeado
do o dado. Seu atomismo, assim como seu as- indaga sobre essa interrupção, sobre essa fase seus ex-alunos, Marc-Alain Descamps, vindo para a direção da ENS da Rue d'Ulm, Deleuze
sociacionismo, é o correlato de sua concepção de latência: "Se vocês querem aplicar a mim os de Bordeaux para fazer seu curso de filosofia o substitui na Sorbonne, onde é encarregado
do sujeito como se constituindo no dado. critérios bibliografia-biografia, vejo que escre- em Paris~ 3 . Segundo este último, Deleuze teria do ensino de história da filosofia. Deleuze já
Deleuze retomará sua leitura de Hume vi meu primeiro livro relativamente cedo, e de- mencionado em suas aulas, desde essa época, sente o que chamará mais tarde de "aversão"
mais tarde, em 1972, para sua contribuição pois mais nada durante oito anos. Sei, no en- a importância das raízes dos íris como possibi- ao hegelianismo e à sua dialética, mas ainda
a uma História da Filosofia dirigida por seu tanto, o que estava fazendo, onde e como vivia lidades de formar rede, o que ele conceituará está a serviço dos grandes maciços do corpo
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amigo François Châtelet • Ele insistirá ainda nesses anos, mas sei abstratamente, um pouco. mais tarde com Guattari na forma de um novo filosófico e demonstra uma certa "timidez fi-
na originalidade do procedimento empirista como se outra pessoa me contasse lembranças paradigma: o rizoma. Na Sorbonne, ele consa- losófica''4s, que o leva, por exemplo, a não men~
de Hume que se apresenta como um mundo em que acredito, mas que não vivi de fato. Ê gra seu curso entre 1954 e 1955 a Aristóteles cionar em seu curso sobre Hum e a tese central
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de "ficção científica" , embora a pesquisa que como um buraco na minha vida, um buraco de e a Hum e, frequentado por um futuro escritor de licenciatura defendida em 1947 e publicada
sustenta esse procedimento se abra para o oito anos. É isso que me parece interessante que se tornará seu amigo, Rafael Pividal: "Era em forma de livro em 1953, Empirismo e Sub-
campo da prática e, portanto, da cotidianida- nas vidas, os buracos que elas contêm, as la- absolutamente notável, ele ainda era muito jo- jetividade.
de, O mérito de Hume foi ter sido capaz de per- cunas, às vezes dramáticas, ou às vezes não" 41 • vem e já tinha feito sua reputação entre os in- Antes de mais nada, Deleuze está reali-
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ceber a-exterioridade das relações aos seus ter- Contudo, é nesses períodos de ausência que contáveis estudantes que faziam seu curso'' • zando sua progressiva emancipação, numa
mos--e de ter rompido assim com o julgamento se produzem as mutações essenciais, que as O curso de 1957 e 1958 atesta a importân- mescla de reconhecimento e ruptura com seus
de atribuição. Quem lê essa caracterização de forças em ação no movimento do pensamento cia que teve para ele Jean Wahl, de quem reto- dois mestres, Ferdinand Alquié e Jean Hyppo-
Hume em 1972 se pergunta se Deleuze não exercem sua pressão, cujos efeitos costumam ma as temáticas essenciais sobre diversidade, lite. Na época, Ferdinand Alquié é orientador
está qualificando sua própria ambição filosó- ser de retardamento. São momentos de de- filosofias pluralistas, irredutibilidade do diver- de sua tese secundária sobre Espinosa, quase
5
fica, Será que ele fez, segundo suas palavras, cantação necessária para perceber melhor seu so e "uma filosofia do ET'' ". Entre 1959 e 1960, concluída nesse final dos anos de 1950. Ele é
"um filho por trás" em Hume? O Hume de De- próprio caminho. ele consagra seu curso ao Capítulo III de A também, sobretudo, o grande especialista em
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leuze é pelo menos o filho de um sistema filo- Onde anda Deleuze nesse período'! Ele Evolução Criadora, de Bergson, e a Rousseau • Descartes, defensor fervoroso do dualismo
sófico concebido no século XVIII e de indaga- está exercendo então suas funções de pro- Este último curso sobre Rousseau revela o in- contra todas as tentações monistas que iden-
ções sugestivas formuladas no século XX que fessor de liceu em Orléans, entre 1953 e 1955, teresse de Deleuze, já mencionado a propósito tifica em Espinosa, Bergson, Hegel ou Marx.
renovam sua importância. Pode-se considerar, depois em Paris, no Louis-le-Grand, de 1955 de Hum e, pela questão do contrato social, do Segundo ele, apenas o dualismo pode permi-
então, que a problemática de Hume formula- a 1957. Esse é também, e sobretudo, o mo- direito natural em suas relações com o socius. tir desenvolver uma metafísica em torno da
da por Deleuze é "estranha ao vocabulário do mento em que se torna assistente de história Portanto, a dimensão prática e política do pen- distinção de objeto e sujeito. Nessa época,
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Hume histórico" • A contribuição de Deleuze da filosofia na Sorbonne, entre 1957 e 1960. samento deleuziano, sempre reiterada mais Deleuze partilha com seu mestre Alquié uma
foi reunir uma série de proposições esparsas Está assoberbado com a preparação de suas tarde, já está presente em estado embrionário. visão metafísica comum, na medida em que
de Hume em um conjunto coerente, sistemá- aulas às quais sempre dedicou bastante tem- Esse curso dará lugar, dois anos depois, a um ambos acreditam que a realidade não se re-
tico, visando mostrar que a constituição do su- po e atenção. Na Sorbonne, ele logo conhece pequeno prolongamento com uma publicação duz absolutamente à sua representação. Em
jeito se opera a partir do dado da experiência. um sucesso espetacular. Professor muito jo- a propósito do 250º aniversário do nascimen- 1956, Deleuze dedica uma resenha a uma obra
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O empirismo de Deleuze não fica às mar- vem nesse lugar venerável, ele oficia na sala to de Rousseau • Nessa evocação da obra de de Alquié sobre Descartes em que saúda seu
gens de Hume, ele toma ali seu primeiro im- Cavailles, quartas-feiras, das 14 às 15 horas: Rousseau, ele destaca como seu escrito mais mestre por ter ajudado tanto na compreensão
pulso, mas para radicalizar em seguida sua crí- "Não apenas a sala .ficava cheia, como havia significativo o Contrato Social. Seu maior ensi- da obra cartesiana e por ter evidenciado o fato
tica da subjetividade. Arnaud Villani vê nisso a estudantes sentados no pequeno tablado em namento está no fato de que, para Rousseau, a de que seu pensamento "expressa a própria
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tentativa de tornar indiscerníveis o empirismo torno da mesa do professor. Outros tinham de separação dos poderes é um engodo, e que o essência da metafísica'' . Ele o segue também
e a metafísica: "É por isso que, sem acrobacia ficar no corredor, e a porta era deixada aberta legislativo, o poder da lei, é que prevalece. em sua apresentação da atividade filosófica de
nem ilusionismo, pode-se considerar Deleuze para que pudessem ouvir. No final da aula, às Mas o que se passa de essencial para De- um Descartes que se descobre filósofo em um
metafísico e nebempiri~ta"~ •
0
15 horas, todos iam embora, e Raymond Polin, leuze durante esses oito anos meio apagados? movimento de singularização "que o conduz a
104 Dosse Gil!es De!euze & Félix Guattari 105

romper com os hábitos de seu meio, as lições como ficou definido, deveria tratar da "ideia Em 1967, quando a ruptura se consuma, já com enorme prazer, pois assim pode acabar
de seus mestres, as tradições de sua família, de problema'. Grande especialista de Hegel, faz um bom tempo que as relações entre Hyp- com o entusiasmo intelectual por Sade, que
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seu país, o próprio mundo objetivo" • Ninguém Hyppolite é o tradutor de Fenomenologia doEs- polite e seu aluno estão degradadas. Deleuze tem como efeito reduzir Masoch ao estado de
duvida que Deleuze reconhece ali um caminho pfrito, mas também aquele que abriu as teses tinha renunciado a Hyppolite para sua tese componente secundário do sadismo naquilo
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não traçado que delimita para si. hegelianas a um confronto permanente com a principal e escolhido Maurice de Gandillac. que era chamado de sadomasoquismo • Essa
Embora Deleuze dedique a Alquié sua obra modernidade filosófica. Professor de Deleuze Segundo Alain Roger, um dos elementos que intervenção de Deleuze é uma faca de dois
sobre Kant em 1963, suas relações se deterio- na classe preparatória, Hyppolite tinha a maior teria provocado uma situação irremediável gumes, pois não somente imerge na literatu-
ram rapidamente depois disso, e em 1967 Al- estima por seu aluno. Quando Deleuze não se entre eles, além de sua discordância teórica ra como se afirma no campo da pesquisa da
quié critica seu ex-aluno por se extraviar nos candidata à ENS, Hyppolite lhe propõe que sobre Hegel, seria aparentemente o rumor de psicanálise num momento em que a populari-
meandros de um método estrutural que vira as vá com ele para Strasbourg, para onde acaba que Deleuze tinha certa propensão à homos- dade de Lacan não para de crescer no campo
costas à própria essência da filosofia, à meta- de ser nomeado. Deleuze não vai para lá, mas sexualidade. 'A senhora Hyppolite, Marguerite, intelectual francês. Desde 1961, muito antes de
física e à questão do sujeito. Em 28 de janeiro obtém de seu mestre uma bolsa de agregação muito pudica, teria praticamente forçado o conhecer Guattari, Deleuze é instigado pelas
de 1967, quando de uma exposição perante os 56
concedida pela Universidade de Strasbourg. marido a despachá-lo" . categorias analíticas. Como explicou a Arnaud
membros da Sociedade Francesa de Filosofia Em 1954, Deleuze dedica uma resenha a Lógi- Quando em 1959 François Regnault ingres- Villani, um livro deve sua utilidade a alguns
sobre "O método da dramatização', Alquié cri- ca e Existência, de Hyppolite, lançado pela PUF sa na ENS da Hue d'Ulm e participa das pri- imperativos. No que se refere à sua Apresen-
53
tica Deleuze por ter condenado a pergunta "O em 1953 • Deleuze louva ali um distanciamen- meiras leituras de Marx em torno de Althus- tação de Sacher-Masoch, Deleuze esclarece
que é?": "Lamento a rejeição, um pouco rápida, to crítico do humanismo e o esboço de uma ser, ele manifesta com alguns colegas, corno em que medida ele responde a esses critérios:
da pergunta O que é?, e não poderia aceitar o ontologia, contra a leitura de Hegel feita por Pierre Macherey e Roger Establet, o desejo de "O erro foi ter negligenciado a importância
que ele nos diz no início, intimidando-nos um Kojév, excessivamente antropológica. convidar Deleuze: "Lembro muito bem que do contrato (e, para mim, o êxito desse livro
pouco, a saber, que nenhum filósofo havia fei- Essa reinterpretação de Hegel não deixa de Hyppolite nos perguntou quem gostaríamos é que depois dele todo mundo falou do con-
to essa pergunta, a não ser Hegel... Quando ele estar ligada à entrada de Heidegger na França que viesse, e quando falamos em Deleuze, ele trato masoquista, ao passo que antes esse era
chegou à verdade, disse a mim mesmo: enfim, no mesmo momento, sobretudo após a publi- respondeu: 'Não, eu não querO. A gente nunca um tema muito acessório): o novo conceito é
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eis um exemplo fllosófico! Mas esse exemplo cação em !946 da Carta sobre o humanismo. soube por quê"5'- Seja como for, o que se ates- a dissociação do sadismo e do masoquismd' •
logo se deturpou, pois Deleuze nos disse que Deleuze concorda com Hyppolite principal- tou foi o caráter ao mesmo tempo brutal e irre- O comentário que Deleuze faz aqui lembra sua
precisávamos nos perguntar: quem quer a ver- mente em sua definição do Ser como sentido, versível dessa ruptura. Deleuze não participará insistência já acentuada a propósito de Hume
dade? por que se quer a verdade? é o cioso que e não essência: "De uma certa maneira, o saber da Homenagem a Hyppo/ite publicada em !971, sobre a questão de um contrato social que não
quer a verdade?, etc., perguntas muito interes- absoluto é o mais próximo, o mais simples, ele com edição de Michel Foucault, do qual ele era seja abstrato, sua visão da instituição como
5
santes, sem dúvida nenhuma, mas que não to- está lá" ''. Se a ontologia abandona a essên- muito próximo na época. Não participará tam- ancorada no socius. Ele encontra essa diferen-
cam a essência mesma da verdade, que talvez cia, isso pressupõe a ausência de um segundo pouco do volume dedicado a Alquié, lançado ciação entre contrato e instituição também em
não sejam então perguntas estritamente filo- mundo, e, por isso mesmo, o saber absoluto um pouco mais tarde, em 1982. Sacher-Masoch, cuja relação com o contrato é
sóficas"51. Na resposta que Deleuze lhe dirige, não pode ser distinto do saber empírico. Entre 1960 e 1964, Deleuze fica afastado do absolutamente essencial.
sente-se que ele está muito abalado com esse Contudo, Deleuze não adere totalmente às CNRS, e sua maior disponibilidade lhe possi- Indo de encontro à assimilação que secos-
ataque crítico. Depois de ter admitido que, de teses de Hyppolite e inclusive discorda radical- bilitará explorar livremente textos que não fa- tumava fazer entre sadismo e masoquismo,
fato, numerosos filósofos colocaram a ques- mente quando ele, de maneira muito hegelia- zem parte do corpo clássico da história da filo- Deleuze opõe a prática contratual de aliança
tão do "o que é'!", mas antes de tudo em forma na, considera que o Ser só pode ser idêntico à sofia, mas que atendem ao seu desejo de ligar do masoquismo ao ato de posse instituída bus-
de "como", ele se diz ferido pela crítica de ter diferença quando ela é levada ao seu absoluto, a crítica e a clínica. O recurso literário torna-se cado pelo sadismo. É pelo contrato que o ma-
abandonado um questionamento propria- que é a contradição. Já Deleuze, desde 1954, então um objeto legítimo e mesmo privilegia- soquista garante sua relação com o parceiro,
mente filosófico: "Pois acredito inteiramente formula a hipótese essencial que estará no do de sua reflexão filosófica. A oportunidade conferindo-lhe todos os direitos por um tempo
na especificidade da filosofia, e essa convicção centro de sua futura tese, Diferença e Repeti- surge no início dos anos de 1960. Seu amigo limitado. Ao contrário, o pensamento de Sade
52
eu a devo ao senhor" . Consuma-se assim a ção, segundo a qual se trata de construir uma Kostas Axelos prepara um número da revista pertence à esfera da instituição, e nisso é um
ruptura entre Alquié e seu ex-aluno. "ontologia da diferença que não teria de chegar Arguments sobre "O amor problemà'. Ele tinha pensamento profundamente político, em rup-
Um processo similar de desligamento de até a contradição, porque a contradição seria recebido várias colaborações sobre Sade, mas tura com o quadro contratual que ele ultrapas-
55
Jean Hyppolite se desencadeia nesse mesmo menos que a diferença, e não mais" • Trata-se, nenhuma sobre Sacher-Masoch. E propôs a sa por todos os lados.
período. Depois de ter sido o coorientador, jun- para ele, de substituir a leitura de Hegel por Deleuze. O texto, publicado em 1961, é o pri- O segundo objetivo de Deleuze é fazer justi-
to com Ganguilhem, da tese de licenciatura de Hyppolite, que visa deslocar a ontologia para meiro estudo de Deleuze sobre uma obra lite- ça a Masoch diante do ofuscamento que sofreu
Deleuze sobre Hum e, Hyppolite estava previsto o Ser, por uma ontologia inteiramente voltada rária, que antecede seu Proust e é bem anterior em proveito de Sade. Ele não apenas deixou de
para ser o orient,ador de sua tese principal que, para a vida . ao seu Kafka"'. Ele atende ao pedido de Axelos ser lido como, no plano clinico, foi rebaixado a
., ·-
106 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 107

simples variante do sadismo na entidade "sa- dos de comportamento. Antes mesmo de seu fazer com que se comuniquem no abstrato de natureza entre o espaço-tempo e o "Penso",
,69
domasoquistd', ao passo que "está muito claro encontro com Guattari, em 1969, Deleuze já mundos reaImente estran hos . Kant se indaga sobre as condições do conheci-
que seu universo nada tem a ver com o univer- emprega a teoria analítica quando critica o mento. Ele faz com que intervenha então uma
so dsde a e"61DI
. e euze se propoe,.. portanto, a esquema edipiano e o estatuto atribuído à cas- terceira faculdade, certamente incapaz de se
refazer o percurso que conduz da crítica lite- tração na teoria freudiana. Deleuze considera O incontornável Kant livrar do buraco, mas cuja função é estabelecer
rária à clínica para discernir, por trás da sín- que a maneira como os analistas querem ver a relação: o que Kant chama de "esquematismo
drome, os sintomas próprios ao masoquismo e a qualquer custo a imagem paterna por trás Em 1963, Deleuze consagra um estudo a da imaginação''. O cogito cartesiano está fendi-
aqueles específicos do sadismo. Deleuze reabi- do ideal masoquista é singularmente redu- Kant, embora ele não faça parte de seu Pan- do agora- bem antes da psicanálise.
70
lita com seu estudo aquele que foi o verdadeiro tora. Sem dúvida, o pai tem um papel essen- teão filosófico • Ao evocar esse livro mais tar- Em A Filosofia Crítica de Kant, dedicada a
inventor da qualificação "masoquista, que não cial no sadismo, que se desenvolve com base de, ele dirá que o escreveu contra um "inimi- seu mestre Ferdinand Alquié, Deleuze segue o
é, como se acredita, o psiquiatra Krafft-Ebing, na negação da figura materna, mas é abusivo go"; porém, quando em !968 explica o porquê percurso da noção de faculdade nas três "Críti-
mas o próprio romancista Sacher-Masoch: 'A estendê-lo ao masoquismo. Ao contrário, o dessa obra, Deleuze não esconde seu fascínio: cas". A revolução copernicana de Kant está em
literatura não é secundária, testemunha ima- masoquismo vive em um universo simbólico "Quando se está diante de uma obra tão ge- submeter o objeto ao sujeito, e não em pres-
ginária de uma perversidade real. Ela contribui intermaterno no qual os tipos de ideal femini- nial, não é o caso de dizer que não se está de supor uma harmonia entre sujeito e objeto. ''A
efetivamente, e por seus próprios meios, para o no constituem uma ordem simbólica em que a acordo. É preciso antes saber admirar; é preci- primeira coisa que a revolução copernicana
quadro clínico da sexualidade"'". Ê preciso le- tlgura do pai está ausente, é suprimida. Nesse so encontrar os problemas que ele coloca, seu nos ensina é que somos nós que a comanda-
var a sério, como sugere Atme Sauvagnargues, plano, Deleuze se apoia na tese lacaniana da próprio maquinário. Ê por força da admiração mos ... Kant opõe à sabedoria a imagem crítica:
a indagação sartriana de Deleuze no início de forclusão do "nome do pai": "Lacan enunciou que se encontra a verdadeira crítica'm. Além 71
nós, os legisladores da Natureza" ' • Em A Criti-
sua apresentação de Sacher-Masoch: "Para uma lei profunda segundo a qual aquilo que é dessa obra, Deleuze publica no mesmo ano ca da Razão Pura, submetem-se os fenômenos
72
que serve a literatura'?''():). abolido simbolicamente ressurge no real em um artigo sobre a estética kantiana • Ele tam- a categorias que, enquanto conceitos produ-
67 bém deu algumas aulas sobre Kant, primeiro
Em seu artigo de 1961, Deleuze apoia-se forma alucinatória'' . Deleuze se apoia tam- zidos pelo entendimento, são objeto de uma
64 na Sorbonne, no final dos anos de !950, depois
sobretudo em Theodor Reik , apresentado bém naquilo que considera a obra-prima de dedução transcendental. A razão legisla, mas
comn-o principal teórico de referência por ter Freud, Além do principio de prazer, saudada na universidade de Vincennes, em 1978. Final- sob o impulso da faculdade de desejar, ou seja,
caracterizado bem a sintomatologia do maso- como uma incursão genial de Freud no conti- mente, em 1986, ele publicará um longo estudo sob o reino da razão prática, da vontade autô-
quismo, apesar de ter omitido o contrato. Reik nente filosófico. O princípio de prazer gover- sobre o tema de uma "poétici' kantianan. noma. Para fazer esse exercício autônomo, é
demonstrara que "o masoquista só consegue na tudo, não sofre de exceção, mas somente A genialidade de Kant, segundo Deleuze, necessário um regime de liberdade. No âmago
sentir prazer após a punição: isso não signifi- de complicações, fontes de exterioridade, de é ter descoberto que o homem é composto de do procedimento transcendental, Kant situa o
ca que ele tenha prazer (a não ser um prazer produção de um resíduo irredutível, de um duas faculdades de natureza diferente: de um uso da imanência, que será um de seus temas
secundário) na própria punição" 65• Em !967, para-além que reabre para a reflexão filosó- lado, a intuição, a receptividade, que está ligada favoritos: "O método transcendental é sempre
quando Deleuze publica sua Apresentação de fica. Essa exterioridade leva Freud a invocar à experiência e encontra sua fonte na sensibili- a determinação de um uso imanente da razão,
Sacher-Masoch, é Freud que se torna a refe- um princípio transcendentaL Assim, Eros está dade; de outro, o conceito, que tem sua fonte 75
conforme um de seus interesses" • Assim, De-
rência teórica matriciaL Retoma a distinção preso a um princípio de repetição: "É preciso no entendimento que define a forma do co- leuze sempre reivindica um criticismo trans-
feita por ele entre pulsão de morte e instinto compreender que a repetição, tal como Freud nhecimento, seu agenciamento no ser pensan- cendental, ao mesmo tempo considerando
de morte para esclarecer a propensão do sádi- a concebe nesses textos geniais, é em si mes- te. Entre essas duas dimensões heterogêneas, que a exigência fundamental de imanência é
co a se colocar do lado da negação pura e a se ma síntese do tempo, síntese 'transcendental' Kant percebe um buraco, e ele será o primeiro mais realizada por Nietzsche do que por Kant.
aproximar do instinto de morte. Freud e Lacan do tempo. Ê ao mesmo tempo repetição do an- a definir o ser humano a partir desse buraco Essa busca da imanência associa~se à
enfatizaram as resistências e os processos de 68
tes, do durante e do depois'' • Deleuze abando- que o atravessa; essa é sua contribuição fun- preocupação filosófica de Deleuze, mas não a
denegação, e Deleuze retoma a análise do lu- na Freud para revelar um destrinçamento do damental à modernidade. Enquanto no século preenche, pois Kant parou n.o meio do cami-
gar do fetichismo em Freud para fazer disso princípio de prazer e do princípio de desejo no XVII o pensamento se refletia no infinito, seja nho ao reduzir a dimensão transcendental às
um atributo do masoquismo: "Os principais masoquista. Essa desvinculação conduz o ma- em Descartes ou em Leibniz, sendo o infinito condições de uma experiência possível. Assim,
fetiches de Masoch e de seus heróis são as soquista a um duplo processo de dessexualiza- primeiro em relação ao finito, a intuição e o ele se condena à recognição, ao decalque do
peles, os calçados, o próprio chicote, os capa- ção e ressexualização em torno do princípio da entendimento se tornam com Kant dimensões real averiguado e, segundo Deleuze, cai nos
cetes estranhos com os quais gostava de pa- repetição. Anunciando uma temática central incomensuráveis, e o princípio de flnitude é eri- meandros da consciência psicológica. Deleu-
66
ramentar as mulheres" • A confusão das duas de O Anti-Édipo, Deleuze contesta em Freud gido em princípio constituinte. Essa revolução ze, ao contrário, reaflrma sua tese sobre a aber-
sintomatologias que chega à identidade de o papel atribuído às noções de castração e de é absolutamente fundamental: o dado e o con- tura a outras modalidades do pensável mais
um sadomasoquismo não deve ser atribuída culpabilização: "Elas se tornam fáceis demais, ceito não se sobrepõem, e o buraco não pode criativas do que as do simples reconhecimento
a Freud, que sefbpre diferenciou os dois mo- visto que servem para reverter situações e para ser tapado ou saltado. Constatando a diferença do mesmo, e que só se pode atingir insistindo
108 François Dosse Gil!es De!euze & Félix Guattari 109

76
sobre a diferença por si mesma . Com isso, ele filosófica sobre territórios não cultivados pela a qual a interpretação dos signos não poderia que é um alívio ler um ensaio sobre Proust em
modifica a acepção da própria noção de "facul~ tradição acadêmica, uma maneira de escapar superar sua opacidade aparente. que todos os temas da psicologia e da psicaná~
83
dade'', que ainda é entendida como uma dis~ da história clássica da fllosofia . Com Proust Um livro útil, segundo Deleuze, deve inven~
90
lise são eliminados" .
posição ou função cognitiva geral à espera de e os Signos, Deleuze deseja corrigir o erro co- tar um novo conceito, e nesse plano a obra so- Segundo o filósofo Jean~Claude Dumoncel,
seus conteúdos particulares "possíveis", mas se mumente partilhado pela crítica literária que bre Proust lança luz acerca da fecundidade da a chave para entrar no pensamento de Deleuze
torna uma força cada vez mais singular, susce- consiste em fazer da obra-prima de Proust noção de "captura". Deleuze retoma no plano está na leitura de Proust, pois o que aparece-
tível de afetar ou de ser afetada por um fenô~ uma obra sobre a memória: "Em que consiste a conceitual a captura efetuada entre dois ele- rá mais tarde como uma tese pessoal abstrata
meno também singular: "Há, portanto, modos unidade de Em Busca do Tempo Perdido? Sabe~ mentos: um animal - a vespa- e um vegetal - a - Diferença e Repetição - está lá, com a narra~
múltiplos (no sentido de Espinosa) de pensar, mos pelo menos em que ela não consiste. Ela orquídea-, em que a vespa fecunda a orquídea, ção proustiana, sua expressão mais legível e
de sentir, de recordar, de fantasiar, de falar... , não consiste na memória, na lembrança, mes- transgredindo as regras de separação entre os seu verdadeiro esquema diretor, que chega a
84
que constituem faculdades distintas, criadas a mo involuntária'' • Segundo Deleuze, a Busca dois mundos. Deleuze retoma conceitualmen~ considerar que "é a diferença que dá à repeti-
cada vez no contato com fenômenos ou obras se serve da memória, mas como ferramenta, te o primeiro capítulo de Sodoma e Gomorra ção seu objeto. O grau desta vem sempre da
. l ares ,n.
smgu como meio de chegar à verdade: ''A Busca do em que Proust consagra nada menos que trin- diferença. É a diferença que deve ser repetida,
A relação de Deleuze com Kant não é de tempo perdido é, na verdade, uma busca da ta páginas à metáfora da vespa e da orquídea. e Proust apenas relata isso ao longo de cente-
85
simples negatividade. Vincent Descambes verdade" . O movimento dessa busca só pode , Faz disso um modo de fecundação possível da nas de páginas"".Jean~Claude Dumoncel julga
apresenta-o inclusive como um continuador se realizar a partir de uma imposição ou de literatura pela filosofia e vice-versa. Aliás, ele tanto mais fundamentada a leitura filosófica
da obra crítica de Kant das ideias de alma, de uma situação violenta que a suscíta, e o moti- conclui a obra constatando que a procura da que Deleuze faz de Proust na medida em que
mundo, de Deus: "Gilles Deleuze é antes de vo essencial para Proust é seu ciúme. Segundo verdade da Busca rivaliza com a ambição filosó~ este último reivindica duas fontes de inspira-
tudo um pós~kantiano" • Kant foi o filósofo que
78
Deleuze, o herói proustiano se apaixona para fica. A imagem do pensamento, tal como o en- ção filosófica: Gabriel Tarde e Henri Bergson.
atingiu certos limites, como o do tempo, do su- poder liberar seu desejo de ser ciumento. Nes- tende Proust, "opõe-se ao que é mais essencial A Busca se desenvolve entre o que Deleuze
jeito, do pensamento, "mas sem jamais ousar se aspecto, a Busca não é orientada ao passa- em uma filosofia clássica de tipo racionalista'' •
88
qualifica como "diferenças livres" que fazem vi-
' l os"79 . .D el euze procura passar d o
u ltrapassa- do, mas ao futuro. A obra de Proust, ao significar que as verdades brar e "repetições complexas" que se revelam
decalque à construção de sua própria cartogra~ O segundo deslocamento operado por De~ não dependem nem do arbítrio nem da abs~ como ondulações vibratórias em uma relação
fia das teses kantianas. De fato, ele escapa da leuze consiste em reparar o principal esqueci- tração, tem portanto uma dimensão filosóflca. que leva a pensar naquele que une a nuvem de
alternativa kantiana na qual a multiplicidade é mento na análise da obra de Proust: o universo Essas verdades devem ser buscadas no interior tempestade e os estrondos do trovão. No en-
regulada por um tempo que ele percebe como dos signos, que dá o título à obra de Deleuze das zonas de opacidade nas quais agem as fOr- tanto, essas ondulações se distinguem das re~
uniforme, homogêneo e irreversível contra uma e constitui a seu ver a própria unidade da es- ças empregadas nos movimentos do pensamen- petições simples: ''A ondulação, diferentemente
abordagem que veria no tempo a expressão de crita proustiana: ''A palavra 'signo' é uma das to. Sob as convenções da comunicação regrada, da iteração, é uma maneira de não se repetir'm.
86
profundezas insondáveis. Deleuze, ao contrá- palavras mais frequentes da Busca" . Cada forças subterrâneas desempenham o papel de A repetição vibratória traz consigo no tempo
rio, reivindica uma temporalidade heterogênea segmento social é compartimentado e se re~ verdadeiros detonadores do pensamento. Esses diferenças potenciais. Proust indaga sobre a
cujos fragmentos não se juntam mais segundo conhece por signos comuns emitidos por seus conectores que o colocam em movimento são maneira como emergem na consciência as re-
80
a ideia de uma totalidade restaurada'' . Isso lhe .membros. Assim, os signos dos Verdurin não os próprios signos, que é preciso "sempre inter- miniscências que parecem depender de um
permite, em um procedimento que qualifica de têm muito a ver com os dos Guermantes; são 89
pretar, isto é, explicar, desenvolver, decifrar" , regime associativo do tipo: "O sabor da mada-
empirismo transcendental, libertar a fOrça de uma pluralidade de mundos incomensuráveis Deve-se observar que, se Deleuze inova por lena é parecido com o daquelas que degustá~
efração do acontecimento e das singularida- que constituem o universo social e sensível no seu tratamento da literatura como sintomato- vamos em Combray; e ela ressuscita Combray,
des: "Quando se abre o mundo fervilhante de qual o narrador evolui. Podem-se descobrir ali logia, como olhar clínico, na linha do que já ha~ . . vez"93 . El
on d e a d egustamos pe la pnmeira ' e se
singularidades anônimas e nômades, impes- subconjuntos coerentes, como os signos de via tentado com Sacher-Masoch, ele continua aproxima assim da concepção bergsoniana da
soais, pré-individuais, pisamos enfim o solo do pertencimento à mundanidade ou os signos fiel a toda uma tradição para a qual pensar é memória, que faz coexistir um presente que
81
transcendental" • próprios à expressão amorosa, ou ainda aque~ interpretar. Como assinala Robert Mauzi, es- invoca outro presente que foi, mas que não é
!e que desigua as qualidades sensíveis. Mas o pecialista em literatura francesa, Deleuze ofe- mais, e cuja evocação é tributária dos presen-
que subsume o conjunto é o mundo da Arte, rece uma leitura original da Busca, privilegian~ tes que o recompõem sem que o ser do passado
Proust em busca de verdade que desempenha o papel de mundo último dos do a temporalidade do narrador em relação à jamais seja atingido: ''A essência do tempo nos
signos então "desmaterializados" que "encon- do escritor, que é abandonada: ele não indaga
94
escapa" • A memória involuntária interioriza
Em 1964, um ano após a publicação de tram seu sentido em uma essência ideaL Desse sobre a intencionalidade de Proust, limitan~ o contexto antigo, que se torna inseparável do
sua obra sobre Kant, Deleuze volta à literatu- modo, o mundo revelado da Arte reage sobre
82 do-se a uma decodificação de seu universo de momento presente, e efeito disso como o essen-
ra com uma obra dedicada a Proust • Ele afir- 87
todos os outros" • A arte tem um estatuto pri- signos: "Seria preciso, portanto, parar de falar cial não é a semelhança, mas, ao contrário, "é
ma assim a vqntade de fazer valer a reflexão vilegiado na medida em que é a mediação sem 95
da subjetividade proustiana; há de se convir a diferença inleriorizada, tornada imanente" •
110 Françols Dosse
Cilles Deleuze & Félix Cuattari 111
Com o título que Deleuze dá à sua conclusão -
pela multiplicidade amorosa ou a viagem pela
'A imagem do pensamentO'-, é possível avaliar Concepts, "Gilles Deleuze I", janeiro de 2002,
multiplicidade de lugares, ou ainda o sono pela 46. Encontram~se alguns resquícios desses cursos
a permanência desse tema da busca em toda Sils Maria. Mons, p. 108.
multiplicidade de momentos. nos arquivos da Escola Normal Superior de
sua obra: esse será o título do Capítulo !li de im- 17. Gilles DELEUZE, ES, p. 2. Fontenay-Saint-Cloud que se encontram na
portância capital de Diferença e Repetição, e já 18. fbid, p. 3. biblioteca da ENS-LHS de Lyon. Curso sobre
se pode dizer que "a imagem do pensamento" Notas 19. Ibid, p. 23. Bergson: 19 páginas datilografadas, publicado
é o horizonte de toda sua exploração do uni- 20. Jbid., p. 24. em Frédéric WORl\IIS (sob a clir.), Annales ber-
1. Gilles Deleuze, A.
verso cinematográfico empreendida nos anos 21. Manola ANTONIO LI, Deleuze et l'histoire de la gsoniennes Jl Bergson, Deleuze, la phénoméno·
96 2. [bid.
de I 980 . Deleuze confirma em I 968, quando philosphie, Kimé, Paris, 1999, p. 30. logie, PUF, Paris, 2004, p.166-188; curso sobre
3. Gilles DELEUZE, "Lettre à un critique sévêre" 22. fbid., p. 31. Rousseau: 27 páginas datilografadas; curso
da publicação das Obras Completas, de Nietzs-
(1973), PP, p. 14. sobre Kant: 24 páginas datilografadas; curso
che, esse eixo fundamental de sua reflexão que 23. Gilles DELEUZE, ES, p. 27.
4. Gilles DELEUZE, PP, p. 14. sobre Hume: 38 páginas datilografadas.
perpassa todas as suas monografias: "Hume, 24. Ibid., p. 35.
5. Thomas BÉNATOUIL, "L'histoire de la phi· 47. Gilles DELEUZE, «jean-jacques Rousseau pré-
Bergson, Proust me interessam tanto porque há 25. fbid., p. 34-35.
losophie: de l'art du portrait au collage", cursem de Kafka, de Céline et de Ponge", Arts,
neles elementos profundos para uma nova ima- 26. Palavras de GUies Deleuze reportadas por Do-
Le Afagazine littéraire, fevereiro 2002, p. 36. n. 872,6-12 de junho de 1962, p. 3; retomado
gem do pensamento. Há alguma coisa de ex- minique Séglard, entrevista com o autor. em Gilles Deleuze, ID, p. 73-78.
6. Renê SCHERER, Regards sur Deleuze, op. cit., p.
traordinário na maneira como eles nos dizem: 12. 27. lbid..
48. Giuseppe BIANCO, "Trous et mouvemenL: sur
pensar não significa aquilo que você acredita ... 28. Jnstincts et institutions, textos escolhidos e le dandysme deleuzien. Les cours ele la Sor-
7. Jean Hyppo!ite, Figures de la pensée philoso- ·
Sim, uma nova imagem do ato de pensar, de seu apresentados por G. DELEUZE, Classiques bonne 1957-1960", op. cit., p. 95.
phique, PUF, Paris, 1991, tomo I, "Du bergso-
funcionamento, de sua gênese no próprio pen- Hachette, Paris, 1953. 49. Gilles DELEUZE, ''Descartes, l'hornme et
nisme à l'existentialisme" (1949), p. 443-459;
sarnento, e, exatamente Isso
. que buscamos>•97 .
"Vie et philosophie de l'histoire chez Berg~ 29. Gilles DELEUZE, ibid., p. VIII. l'CEuvre, por Ferdinancl Alquié", Cahiers du
Ao mesmo tempo, são perceptíveis cer~ son" (1949), p. 459-467; '1\spects divers de Ia 30. Ibid., p. IX. Sud, n. 337, outubro de 1956, p. 473-475.
tas modificações entre as diversas edições de mémoire chez Bergson" (1949), p. 468-488; 31. fbid., p. XL 50. fbid.
Proust e os Signos. Publicado em 1964, o livro "Vie et existence dapr€s Bergson" (1950), p. 32. Gilles DELEUZE, ES, p. 90. 51. Ferdinand ALQUIÊ, em Gilles DELEUZE, "La
dá lugar a duas versões posteriores ligeiramen~ 488-498. 33. Jbid., p. 101. méthode de dramatisation ", ID, p. 148.
te modificadas, em 1970 e em 1976. Entre a pri- 8. Informações transmitidas por Giuseppe 34. Gilles DELEUZE, ES, p. l15. 52. lbid., p. 149.
meira edição e a seguinte, ocorre o encontro BIANCO, "Trous et mouvement: sur le dan- 35. Ibid., p. 93. 53. Gilles DELEUZE, "Jean Hyppolite, Iogique et
fundamental de Deleuze com Guattari. A mar- dysme deleuzien. Les cours de la Sorbonne 36. Gilles DELEUZE, DR. existence'', Revue philosophique de la Fran-
ca deste é perceptível e reconhecida por Deleu- 1957-1960", op. cit., p. 93. ce et de l'étranger, n. 7-9, julh.-set. 1954, p.
37. François CHÂTELET, Histoire de La philoso-
ze, que lhe empresta a temática da transversa- 9. Gilles Deleuze, carta de 17 de julho de 1972, 457~460; reproduzido em Gilles Deleuze, ID,
phie, t. N: Les Lumi8res, Hachette, Paris, 1972,
lidade: "Em relação às pesquisas psicanalíticas, acervo Jean Wahl, IMEC, transmitida por Giu~ p. 18-23.
p. 65-78; reproduzido em Gilles Deluze, ID, p.
Félix Guattari formou um conceito muito rico seppe Bianco, "Philosophies du ET. Que se 226-237. 54. Ibid., p. 20.
de 'transversalidade' para dar conta das comu- passe+il entre (Jean Wahl et Deleuze)?", por 55. Ibid., p. 24.
38. fbid., ID, p. 226.
nicações e relações do inconsciente"98• Essas ocasião de umajornadajean Wahl, organiza-
39. Patricia de MARTELAERE, "Gilles Deleuze, 56. Alain Roger, entrevista com o autor.
da por Frédéric Worms e Giuseppe Bianco, 16
transversais são essenciais para compreender interprete de Hume", Revue philosophíque de 57. François Regnault, entrevista com o autor.
de abril de 2005, ENS.
a passagem de um mundo fechado a um outro Louvain, fevereiro de 1984, t. 82, p. 224. 58. Gílles DELEUZE, ~De Sacher-Masoch au ma-
lO. André CRESSON, Gilles DELEUZE, David
que não destrói sua singularidade, mas que, 40. Arnaud VILLANI, "Une généalogie de la philo- sochisme", Arguments, n. 21, 1961. Após esse
Hume, sa vie, son CEuvre, PUF, Paris, 1952.
sem confusão nem totalização possível, per- sophie deleuzienne: Empirisme et subjectivité", primeiro estudo, Deleuze lançará em 1967
11. Ibid., p. 41.
mite a passagem de um universo de signos a op. cit., p. 120. uma versão ampliada de sua abordagem ele
12. Michel TOURNIER, ''Gilles Deleuze", Critique, Sacher~Masoch: Gilles DELEUZE, Présenta-
outro. São essas transversais que conduzem a 41. Gilles DELEUZE, PP, p. 188-189.
n. 591-592, agosto-setembro de 1996, p. 699. tion de Sacher-Masoch, .Minuit, Paris, 1967.
passagem de uma Albertina a outra, com pas- 42. Olivier Revault dl\llonnes, entrevista com o
13. Gilles DELEUZE, Empirisme et subjectivité, 59. Essa onda de Sacie não parou de crescer desde
santes privilegiados como Swann. Essas trans- autor.
PUF, 1953 (doravante citado ES). os anos 1930, balizada por importantes estu-
versalidades têm como efeito tornar possíveis 43. Marc-Alain Descamps, entrevista com o autor.
14. Ibid., p. l19. dos como: Pierre KLOSSOWSKI, "Éléments
os encontros, suscitar novos fluxos, sem com 44. Rafael Pividal, entrevista com o autor.
15. Gilles Deleuze, carta de 29 de dezembro de d'une étude psychanalytique sur le marquis
isso pôr em perigo a existência da pluralidade, 45. Giuseppe BIANCO, ~Philosophies du ET. Que
1996 a Arnaud Villani, em Arnaud VlLLANI, de Sade", Revue de psychanalyse, 1933, e Un si
"sem jamais reduzir o múltiplo ao Um, sem se passe+il entre (Jean Wahl et Deleuze)?",
La Guêpe et l'Orchidée, Belin, Paris, 1999, p. 56. funeste désir, Gallimard, 1963; Maurice BLAN-
jamais reunir o múltiplo em um todo'm. Essas por ocasião de umajornadajean Wahl, orga-
16. Arnaud VILLANI, "Une généalogie de la philo- CHOT, Lautréamont et Sade, 1947; Simone DE
transversais são de todas as ordens: o ciúme nizada por Frédéric Worms e Guiseppe Bian-
sophie deleuzienne: Empirisme et subjectivité', BEAUVO!R, Faut-il bríiler Sade?, 1955; Geor-
co, 16 de abril de 2005, ENS.
ges BATAILLE, La Littérature et le Mal, 1957;
112 Dosse

jacques LACAN, "Kant avec Sade", Critique, 78. Vincent DESCOMBES, Le Même et t:Autre, Mi-

7
n. 191, 1963; Michel FOUCAULT, "De Sade à nuit, Paris, 1979, p. 178.
Freud", Critique, n. 195-196, 1963; CEuvres com- 79. Manola ANTONIO LI, Deleuze et l'histoire de la
pletes de Sade, 1967; Roland BARTHES, Sade, philosophie, op. cit., p. 87.
Fourier, Loyola, 1971, ...
80. Jean-Clet MARTIN, Variations. La philosophie
60. Gil!es Deluze, carta de 29 de dezembro de de Gi!les Deleuze, Payot, Paris, 1993, p. 34.
1986 a Arnaud Villani, em Arnaud VILLANI, 81. Gilles DELEUZE, LS, p. 125.
La Guêpe et l'Orchidée, op. cit., p. 57.
61. !bid.,p.1l.
82. Gilles DELEUZE, Proust et les signes, PU F, Pa- Nietzsche, Bergson, Espinosa:
ris, 1964 (doravante citado PS).
62. Anne SAUVAGNARGUES, Deleuze et làrt, PUF, 83. Sobre a unidade de projeto de prospecção
uma tríade para uma filosofia vitalista
Paris, 2005, p. 44.
da "imagem do pensamentO' que serve de fio
63. Gilles DELEUZE, SM, p. 15. condutor para Nietzsche e a filosofia, Proust e
64. Theodor REIK, Le Masochisme, Payot, Paris, os signos e Diferença e repetição, ver Arnaud
2000. BOUANICHE, Gilles Deleuze, une introduction,
65. Gilles DELEUZE, "De Sacher-Masoch au rna- op. cit., p. 45-52.
sochisme ", Arguments, n. 21, p. 44. 84. Gilles DELEUZE, PS, ed. 1970, p. 7.
66. Gilles DELEUZE, SM, p. 30. 85. !bid., p. 21.
67. Ibid., p. 57. 86. Ibid., p. 9.
68. Ibid., p. 99. 87. !bid., p. 19.
69. Ibid., p. 51. 88. Ibid., p. 186. Um dos três mestres da uma leitura bem diferente de Nietzsche. É pre-
70. Gil!es DELEUZE, La Philosophie critique de 89. !bid., p. 190. ciso considerar também a influência de Can-
suspeita: Nietzsche
Kant, PUF, Paris, 1963 (doravante citado PCK). 90. Robert MAUZJ, Critique, n. 225, fevereiro de guilhem, cuja tese defendida em 1943, Ensaio
71. Gilles Deleuze, entrevista, afirmações coli- 1966, p. 161. Nietzsche tem um papel fundamental para sobre Alguns Problemas acerca do Normal e do
gidas por Jean-Noel VUARNET, Les Lettres 91. Jean-Claude Dumoncel, entrevista com o autor. Deleuze na formalização de suas próprias Patológico, repele qualquer visão evolucionista
ftançaises, 28 de fevereiro-S de março de 1968; 92. )ean-Ciaude DUMONCEL, Le Symbole posições filosóficas. Ele aplica a Nietzsche o de um progresso contínuo da razão e opõe a ela
reproduzidaemiD,p.192. d'Hécate. Philosophie deleuzienne et roman mesmo procedimento de leitura que para os um ponto de vista resolutamente nietzschiano.
72. Gilles DELEUZE, ''L'idée de genese dans proustien, ed. HYX. Orléans, 1996, p. 60. outros. Trata-se em primeiro lugar de reparar Deleuze encontra ali, antes de tudo, uma refor-
l'esthétique de Kant", Revue d'esthétique, n. 93. Gilles DELEUZE, PS, p. 69. um erro, o da interpretação do eterno retor- mulação da vontade de potência como "nor-
2, abril-junho de 1963; reproduzido em ID, p. 94. lbid., p. 71. no do mesmo, conforme uma lei cíclica. Em matividade vital", da vida como ato de criação
79- I OI. 95. !bid., p. 73. segundo lugar, Deleuze contribui com outros ou de instituição de novas normas.
73. Gilles DELEUZE, "Sur quatre formules poéti- para tirar do esquecimento a faculdade críti- Em 1946, surge a Sociedade Francesa de Es-
96. Ver Dork ZABUNY!u\1, Gilles Deleuze. Voir, par-
ques que pourraient résumer la philosophie ca, corrosiva, progressista de um pensamento tudos Nietzschianos, que dura até J965 e tem
ler, penser au risque du cinéma, Presse de la
kantienne", Philosophie, n. 9, inverno de 1986; Sorbonne nouvelle, Paris, 2006. nietzschiano que foi utilizado até então essen- como objetivo "contribuir, sem nenhum desíg-
reproduzido em CC, p. 40-79.
97. Gilles Deleuze, entrevista com Jean-Noel cialmente em uma perspectiva reacionária e nio político nem intenção de proselitismo, para
74. Gilles DELEUZE, PCK, p. 23. Vuarnet, Les Lettres Jrançaises, 28 de fevereí- elitista. Por fim, ele extrairá de Nietzsche seu que se conheça melhor o pensamento de Niet-
75. Ibid., p. 54. ro-5 de março de 1968; reproduzida em ID, p. conceito fundamental da diferença como re- zsche, reconduzido do plano da propaganda
76. GillesDELEUZE,DR,p.l76-177. 193. sultado da libertação da vontade de potência. tendenciosa para o de uma compreensiva obje-
77. Guillaume Sibertin-Blanc, entrevista com o 98. Gilles DELEUZE, PS, p. 184, nota 1. Como mostrou bem o especialista do mun- 1
tividade e de uma crítica esclarecida" • Deleuze
autor. 99. !bid., p. 137. do germânico Jacques Le Rider, a recepção de está entre os membros mais átivos dessa socie-
Nietzsche na França, nos anos que antecede- dade presidida por Jean Wahl, que consagra dois
ram a guerra, foi essencialmente muito conser- de seus cursos a Nietzsche, entre 1958 e !959 e
2
vadora. No entanto, é bem diferente durante a 1960 e 1961 • Ao mesmo tempo em que se em-
Segunda Guerra Mundial, com o pequeno cír- preende um importante trabalho de tradução,
culo que se constitui em torno de Mareei More de edição e de interpretação nesses anos 1950, a
e que, como já mencionamos, é frequentado sociedade publica um obra antológica por oca-
pelo jovem Deleuze. Encontram-se ali Georges sião do cinquentenário da morte do filósofo em
3
Batai!le, Jean Wahl, Jean Hyppolite, que farão 1950 . Além disso, inicia-se um enorme trabalho
1 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 115

de edição das obras completas de Nietzsche, sob Dando ênfase à força afirmativa, ao ''sim", nietzschiana. Contra a ideia de que tudo o que tura qualificada de "original" feita por Deleuze,
a dupla responsabilidade de Gilles Deleuze e de Deleuze apresenta Nietzsche como o anti- He- se produz retorna segundo movimentos cícli- Wahl toma alguma distância do tom polêmico
Maurice de Gandillac. Assim, o livro de Deleu- gel, o antidialético. Canguilhem já havia deses- cos, Deleuze vê no eterno retorno a resultan- dirigido a Hegel, que ele atribui a "uma espécie
11
ze, Nietzsche e a Filosofia, publicado em 1962, tabilizado fortemente o continuísmo hegelia- te de uma seleção dos fortes, uma eliminação de ressentimento" , pois acha que Nietzsche
inscreve-se como extensão ele um interesse rea- no. Deleuze prossegue e radicaliza sua crítica dos fracos: "Ela faz do querer uma coisa intei- não está tão distante assim de Hegel sob vários
bilitado e de uma renovação dos estudos nietzs- a Hegel questionando seu conceito de negação ra ... ela faz do querer uma criação, ele efetua a aspectos. \tVahl considera que as páginas con-
9
chianos'1. O leitor é logo atraído pela novidade e de contradição que coloca a filosofia em um equação querer= criar" . Apenas as diferenças sagradas à dialética figuram entre as melhores,
da proposição e do olhar que resulta dali. impasse, pois ela permanece fundamental- voltam, e por isso o retonio não é do mesmo, mas diz que as críticas dirigidas por Deleuze a
Deleuze não se contentou em exumar com mente prisioneira de uma identidade primeira mas do outro. Hegel são tão superficiais quanto as da corren-
Nietzsche um maciço filosófico recoberto por cuja negação é apenas a repetição. Com isso, Ele extrai da leitura de Nietzsche uma te marxista, ao mesmo tempo em que admite
camadas sucessivas de comentários que te- Deleuze lança o conceito que será a própria es- nova tarefa da filosofia, que não deve mais se a necessidade de um olhar crítico sobre Hegel.
riam pervertido sua mensagem. Logo de iní- sência de sua tese e o fio condutor de todo seu contentar em ser o reflexo de seu tempo, mas Em compensação, Wahl saúda o final da obra
cio, ele dá um tom polêmico à sua obra contra pensamento: o da diferença. Uma filosofia da sim se aventurar nas vias da radicalização da consagrada a uma "nova imagem do pensa-
a dialética hegeliana para realçar a força de vontade faz valer a afirmação de sua diferença, crítica contra seu tempo para fazer surgir daí, mento" e que prolonga a obra nietzschiana por
desestabilização das leses de Nietzsche dirigi- e é esse "diferencial" que Deleuze procura valo- pelo caráter intempestivo, inatual de suas in- sua insistência nas forças que devem se apode-
das contra toda a história da filosofia. A filoso- rizar nas teses de Nietzsche. À cultura do res- dagações, as forças criativas. O método que rar do pensamento para torná-lo crítico e cria-
fia de Nietzsche, que Paul Ricceur qualificará de sentimento e da culpabilidade do cristianismo, deve prevalecer é o da "dramatização", Ele tivo. Contudo, a interpretação de Deleuze com-
"filosofia da suspeita", opera a "golpes de marte- Nietzsche opõe o indivíduo soberano, liberto consiste em deslocar o modo de questiona- porta riscos, segundo Wahl: "Estamos diante
lo" para desenvolver uma teoria dos conceitos da moral dos costumes, "o homem que pode mento, passando da pergunta tradicional da de dois perigos nessa interpretação, por mais
de sentido e de valor, que relega ao segundo prometer"'. Nietzsche vê nisso uma forma su- metafísica - "O que é?" - a outra indagação - interessante e profunda que ela seja, ou, pelo
plano a questão da verdade. Nietzsche preco- perior de responsabilidade. Sobre esse ponto, "Quem?"- para restituir as forças em ação no menos, diante de duas dificuldades: a dificul-
niza um procedimento específico que chama como de hábito, Deleuze faz o que chama de fenômeno estudado. Portanto, o conceito deve dade que consiste em eclipsar completamente
de "genealógico", que não tem nada a ver com um "filho por trás" do filósofo e transforma ser relacionado a um querer na perspectiva de o negativo e outra dificuldade que decorreria
um tribunal de valores: ''Genealogia significa essa lição em uma exaltação do homem liberto dar conta do universo concreto da vida. A fllo- do flito de que o positivo corre o risco de não
• . . »12
ao mesmo tempo valor da origem e origem dos da moral e, por isso, irresponsável: ''A irrespon- sofia se afasta, então, de sua inspiração platô- mms aparecer o tanto quanto sena preciso .
valores"'. A esse título, Nietzsche se opõe a qual- sabilidade, o mais nobre e o mais belo segredo nica, abandonando a questão da essência - o Pouco depois da publicação do livro, De-
8
quer absolutização dos valores. O sentido da de Nietzsche" • que é o certo? O que é belo?- que induz uma leuze organiza um colóquio sobre Nietzsche,
fenomenalidade é sempre os ligar aos diversos Ao polo da reatividade se opõe o da ativida- concepção dualista, opondo a essência do fe- realizado na abadia de Royaumont, de 4 a 8 de
pontos de vista que os comportam, às forças de, da vontade de potência. Ele pode levar até nômeno à sua aparência. Esse "método ele dra- julho de 1964. Ele submete a lista de convida-
ativas que constituem sua dinâmica. É esse jogo a figura do super-homem que está no Livro IV matização" tematizado por Deleuze para além dos a Jean Wahl e a Martial Guéroultl3. Como
0
de forças que a filosofia deve reencontrar na- de Zaratustra. Contudo, também aqui, as ins- das teses de Nietzsche, em 196i , abre para assinala David Lapoujade, essa será a única
quilo que Deleuze chama de "sinlomatologia"'" trumentalizações totalitárias ou simplesmente uma possível tipologia que interroga as forças manifestação coletiva organizada por Deleuze.
ou de "semiologia"6• Essa reavaliação do sentido conservadoras das teses de Nietzsche repou- do ponto de vista de suas qualidades ativas e O fato de ele conseguir superar sua aversão por
não deve conduzir a um refúgio na hermenêu- sam em um contrassenso na interpretação da reativas. Associa-se a uma sintomatologia que colóquios mostra a importância que atribui à
tica para reencontrar um suposto sentido origi- significação do super-homem que em Nietzs- interpreta os fenômenos a partir das forças renovação em curso nos estudos nietzschia-
nal perdido, encoberto ou rasurado. O sentido, che não está ligado absolutamente à exaltação que os produzem, e a uma genealogia que ava- nos. É nesse colóquio que Michel Foucault
em uma acepção nietzschiana, não provém de de um poder sobre outro. O super-homem não lia as forças em função de sua vontade de po- põe em discussão sua aproximação entre os
um reservatório já existente, mas de um efeito procura tanto converter a reação em ação, mas tência, ou seja, uma filosofia que cumpre uma três "mestres da suspeita", que são Nietzsche,
produzido cujas leis de produção é preciso des- sim transmutar a negação em afirmação. A tripla função: artística graças à sua tipologia, Freud e Marx~'~.
cobrir. A história de um fCnômeno é antes de afirmação, para Nietzsche, é o próprio ser em clínica graças à sua sintomatologia e legislati- Corno é de praxe, o organizador Deleu-
tudo a história das forças que se apoderam dele direção ao qual a humanidade deve caminhar. va graças à sua genealogia. ze deve apresentar uma conclusão sintética
15
e que modificam sua significação. Essa leitura de Nietzsche parece encontrar sua Jean Wahl, responsável pelo retorno em fa- para extrair os ensinamentos essenciais • Ele
fonte em Espinosa, o outro grande inspirador vor de Nietzsche, escreve uma longa resenha enfatiza que a edição crítica da obra de Niet-
da filosofia vitalista de Deleuze. da obra de Deleuze na Revue de Métaphysique zsche ainda tem enormes lacunas, o que dá
~ N. de R. T: O termo usado aqui é séméiologie e, embora Quanto ao eterno retorno, a interpretação et de la Morale: ele reconhece ali um grande li- livre curso a todos os contrassensos possíveis,
apresente a mesma definição de "semiologia", indíca mais
feita por Deleuze rompe totalmente com o vro que se soma à linhagem das melhores exe- e se pergunta, por outro lado, em que medida
espec\ftcamente sua.,pertença à área médica que trata dos
sinais clínicos e do§.~intomas das doenças. sentido que era atribuído até então à doutrina geses desse pensador. Contudo, em face da lei- a loucura que atinge Nietzsche no fim da vida
116 Dosse Gl!!es Deleuze & Félix Guattari 117

deve fazer parte ou não de sua obra filosófl- tério, algo como 'o livro' cujos segredos a gente maneira como Foucault havia destacado em nomadismo assumirão com Guattari urna di-
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ca. A verdadeira razão invocada por Deleuze nunca deixa de pressentir" • Royaumont o alvorecer de nossa modernida- mensão revolucionária, como assinala Mano la
para explicar a parte de opacidade na leitura Na explicação que dá quando da edição de em uma tríade reunindo Nietzsche, Marx Antonioli:n, dimensão que continuará ganhan-
do corpo nietzschiano é de ordem metodoló- das Obras Completas, Deleuze atribui boa par- e Freud. Segundo Deleuzc, diferentemente do do amplitude:1'1•
gica. Está ligada ao fato de que em Nietzsche o te desse retorno a Nietzsche à redescoberta do freudismo e do marxismo, Nietzsche consti~
sentido não é unívoco, não é tributário daquilo intempestivo e, portanto, da história como res- tui uma contracultura irredutível a qualquer
que designa: "Toda interpretação já é de uma surgimento do novo, do .inesperado - estamos recuperação institucional: "Nietzsche faz uma Bergson: o impulso vital
21
interpretação, ao infinito ... A lógica é substi- nos meses que precedem o Maio de 1968 • tentativa de decodificaçã6"~ 8 • Em contraparti~
16
tuída por uma topologia e uma tipologia" • A Nictzsche é apresentado por Deleuze como da, Deleuze vê uma aproximação possível de Assistente na Sorbonne de 1957 a 1960,
noção de valor transforma a busca da verdade: exemplo daquilo que a filosofia contemporâ- Nietzsche com Kafka. Nietzsche encarna uma Deleuze pede licença do CNRS. Acaba conse-
após a separação do verdadeiro e do falso, é nea deve cumprir em sua crítica radical, em possível filosofia contra a instituição filosófi- guindo a licença entre 1960 e 1964, o que lhe
preciso sair em busca de uma instância mais sua procura de outras formas além do "Ego" ou ca, sempre em relação com um de fora, como permite, como vimos, orquestrar seu retorno
profunda, a da vontade de potência. do "Eu" e em sua busca de formas de individua- mostrou Blanchot. A necessidade de separar a um Nietzsche revisitado. De 1964 a 1969, é
Em 1965, Deleuze consagra a Nietzsche lizações interpessoais ou de singularidades Nietzsche de sua ganga deformadora e fascis- encarregado de ensino na universidade de
uma nova publicação dentro de uma coleção pré-individuais. Para mostrar o caminho des- tizante foi suprida pela revista Acéphale e pe- Lyon'". Não se pode dizer que ele tenha ficado
17
de iniciação à filosofia • Ele mostra então a sa procura, Deleuze evoca uma linhagem de los trabalhos de Jean Wahl, Georges llataille e fascinado com essa nomeação, em que lhe dão
unidade impressionante em Nietzsche entre filósofos: "É Lucrécio, é Espinosa, é Nietzsche, Pierre Klossowski. No início dos anos de 1970, um posto de professor de moral: "Eis-me em
o pensamento e a vida em uma dinâmica de uma linhagem prodigiosa em filosofia, uma é importante, segundo Deleuze, sobretudo es- Lyon, lyonizado, instalado, moralizado, profes-
aflrmação de sua singularidade. Essa unidade linhagem estilhaçada, explosiva, totalmente tabelecer uma relação entre os aforismos niet~ sor de moral, etc. Fiquei muito feliz de vê-los,
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existencial tem suas raízes na tradição pré~so~ vulcânica" • zschianos e uma exterioridade que lhe dá seu o senhor mesmo e a senhora Wahl, antes de
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crática, mas constitui sobretudo um enorme O início dos anos de 1970 é um momento sentido libertador. O que é preciso resgatar é a minha partida'' • Ele participa com humor
potencial de renovação de toda a história da particularmente intenso da recepção de Niet- intensidade própria desses "estados vividos", o ao seu amigo François Châtelet os tormentos
filosofia. Ela prefigura o advir do pensamento zsche na França. As publicações se tornam nomadismo que isso induz e seu humor: ''Aque- que causa a preparação de sua tese: '1\h! l\!linha
por seu estilo inovador que adiciona ao corpo mais numerosas. Pierre Klossowski dedica seu les que leem Nietzsche sem rir, e sem rir muito, tese é uma sopa onde tudo boia (o melhor deve
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clássico de textos filosóficos os poemas e afo- ensaio sobre Nietzsche "a Gilles Deleuzc" e, sem rir com frequência e às vezes morrer de rir, estar no fundo, mas é o que menos se vê)'m.
rismos que se tornaram instrumentos privile~ sobretudo, toda uma geração oferece novas lei- é como se não lessem Nietzsche"29• Ele foi escolhido depois que o colegiado de
21
giados da interpretação. turas de Nietzsche ' • O apogeu desse momen- Máquina de guerra em favor do nomadis- professores descartou dois concorrentes peri-
Dois anos depois, Deleuze e Foucault re~ to, verdadeiro ponto de cristalização de toda mo e contra todas as formas de recodificação, gosos, mas conhecidos demais por suas opções
digem juntos uma introdução geral à publica- essa efervescência, ocorre em julho de 1972, o nietzschianismo torna-se uma via possível ideológicas:Jules Vuillemin, de um lado, e Hen-
18
ção das Obras Completas de Nietzsche . Eles por ocasião de uma década de Cerisy-la-Salle. de libertação dos servilismos, dos confinamen- ri Lefebvre, de outro: "Deleuze era jovem, sem
inscrevem sua edição na continuidade do tra- Todos aqueles que percorreram a obra de Niet- tos burocráticos, uma verdadeira escola da rótulo, inclassificável apesar do diabolismo de
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balho de exploração sistemática dos arquivos zsche se reuniram ali para expor suas interpre- vida. Nesses anos pós-68, pode-se falar de um Nietzsche que o ensolarava" • Deleuze encon-
e de sua publicação na ordem cronológica dis~ tações e debatê-las". A comunicação de De- "momento Nietzsche", no qual sua obra conhe- tra no departamento de filosofia um fenome-
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posta pelos italianos Giorgio Colli e Mazzino leuze in titula-se "Pensamento nômade" • Ele ce um verdadeiro sucesso junto a um número nologista bastante conhecido, Henri Maldiney:
Montinari. Manifestam também sua vontade tem apenas 47 anos na época, mas começa sua 30
enorme de leitores • Esse impulso encontra "Tudo começou com uma conferência sobre
de corrigir, por um retorno aos textos, as defor- exposição falando de uma defasagem de gera- em A Genealogia da Moral um ponto de apoio, a razão em que os colegas ficaram um pouco
mações e numerosas omissões praticadas pela ção: "O que um jovem descobre atualmente em sobretudo quando Nietzsche evoca os funda- deslocados, mas Maldiney tratou do seu tema,
irmã de Nietzsche, Elisabeth, que se erigiu em Nietzsche não é seguramente o que minha ge- dores de civilizações originais que "chegam o que, aliás, marcou o início de uma amizade
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herdeira testamental muito autoritária e abo- ração descobriu nele'm. Estamos então no ime- como o destino, sem causa, sem razão, sem entre os dois homens" • Deleuze é muito sen-
nadora da imagem ele um Nietzsche antissemi- diato pós-68, depois do encontro com Guattari. consideração, sem pretexto, aparecem com sível ao fato de que a notoriedade intelectual
ta e precursor do nazismo: "O anti-Nietzsche O recurso a Nietzsche assumiu um contorno a rapidez de um relâmpago, terríveis demais, de Maldiney não se traduz em uma posição
9
por excelência',j . Por esse "retorno a .. :', Deleuze bastante político, como arma da crítica mais súbitos demais, convincentes demais, outros institucional sólida. Na época, ele tinha ape-
e Foucault possibilitam ler um novo Nietzsche: radical, confirmando a virada em curso ao lon- demais para ser até mesmo objeto de ódio'' •
31 nas o estatuto precário de professor substi-
"Os pensadores 'malditos' se reconhecem do go de toda a década de 1960 de um pensamen- Deleuze encontra ali, com Nietzsche, uma fOn- tuto, apesar da repercussão internacional de
exterior em três traços: uma obra brutalmente to marcado à direita para a extrema esquerda, te de inspiração essencial para sua própria te- seus trabalhos, e era marginalizado dentro do
interrompida, parentes abusivos que interfe- graças principalmente à leitura de Deleuze. Em 32
mática da "nomadologia" . Já presentes antes departamento de filosofia: "Deleuze defendia
rem nas publicà'ções póstumas, um livro-mis- sua intervenção, Deleuze toma distância da de 1968 em Deleuze, as análises em termos de Maldiney contra as autoridades universitá~

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118 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 119

10
rias,. , confirma Chris YounCs. Eles tinham na marido, usufruem da vida cultural lyonesa, centenas de estudantes reunidos em um anfi- entre mundo sensível e mundo inteligível que,
época uma grande cumplicidade, e Maldiney ritmada pelos espetáculos de 1\oger Planchon teatro e, quando toma a palavra, "é carismático segundo Bergson, fazem parte de um mesmo
conseguiu inclusive arrastar o pobre Deleuze, e de Michel Auclair no Thêatre de la Cité. Vão a tal ponto que se ouvem as moscas voancIo'"" . movimento: "A distinção de dois mundos foi
que mal respirava, em excursões alpinas! frequentemente ao cinema, e correm para ver Deleuze já atrai numerosos estudantes vindos substituída portanto por Bergson pela distin-
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Já François Dagognet, ex-aluno de Cangui- os filmes de Jean-Luc Godard logo que lan- de outras especializações e, como de costume, ção de dois movimentos" •
lhem, ocupa uma posição institucional sólida çados, Pierrot le Fou, A Chinesa: ''Assisti nes- dá a impressão de improvisar as aulas que, na Nesse texto ele 1956, já estavam presentes
no departamento, como também no âmbito sa época a quase todos os filmes citados em verdade, foram cuidadosamente preparadas, a os prolegômenos da futura tese de Deleuze
nacional, como presidente do CNU'' a partir L'fmage-temps. Ah! Mônica Vitti e Antonioni, ponto de se dirigir a seu público sem recorrer sobre a diferença como absoluto, que tem sua
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de !967. As relações entre os dois homens logo os primeiros Fellini, os filmes de Bergman" • a anotações: "Ele nos mantinha em suspense fonte nas posições bergsonianas. De fato, se-
se deterioram. Quando Deleuze chega a Lyon, Chris Younês, que teve Deleuze como pro- com um evidente talento de narrador, ao mes- gundo Deleuze, Bergson desloca o questiona-
é inicialmente acolhido de forma calorosa por fessor durante quatro anos em Lyon, recorda mo tempo muito próximo e muito distante, mento clássico e sem resposta possível do tipo
Dagognet, que deseja integrá-lo à vida da uni- de seu uso da história da filosofia, bem dife- muito dândi. Com ele não tinha moleza, nem "por que alguma coisa ao invés de nada?" para
49
versidade. Contudo, Deleuze se mantém muito rente do que faziam seus colegas: "Com ele, favoritismd' . "por que tal coisa e não tal outra?", o que reme-
distante, e mesmo desdenhoso, em relação a a gente vivia de verdade Nietzsche, Espinosa, Esse período lyonês de Deleuze é marca- te à questão da diferença, de uma verdadeira
43
ele. Disso resulta um profundo rancor que de- Bergson, Leibniz" • Entre 1964 e 1969, Deleu .. do, antes da publicação de sua tese, pelo lan- metafísica da diferença: "Isso significa que o
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genera em conflito aberto por causa de Maldi- ze se emancipa progressivamente da história çamento de sua obra sobre o bergsonismo . ser é a diferença, e não o imutável ou o indi-
ney, firmemente defendido por Deleuze. clássica da filosofia e, embora insista sempre Esse ensaio resulta de uma longa gestação. ferente, nem a contradição que nada mais é
Entre seus colegas, Deleuze convive tam- em seus autores prediletos em aula, já desen- Todos se recordam que Bergson foi um autor que um falso movimentO'":'. A saída possível da
bém com uma celebridade acadêmica no volve temáticas mais pessoais. Em particular, de referência para ele nos anos 1940, enquan- aporia que insiste em opor de maneira biná-
campo da história da filosofia na pessoa de atribui enorme importância à noção de acon- to seus companheiros François Châtelet ou ria o uno e o múltiplo é fazer valer a diferença
Genevieve Rodis-Lewis, que dá aula sobre Pla- tecimento como surgimento do inesperado, Olivier Revault dA.llones manifestavam sérias enquanto diferença. Bergson tem uma preocu-
tão, Malebranche e sobretudo Descartes, do com a necessidade, que ele retém do estoicis- reservas em relação a esse filósofo, conside- pação particular em operar as cesuras certas,
qual é a grande especialista. Quando estoura mo, de se mostrar digno dele e de conseguir rado excessivamente idealista. Na Libertação em distinguir bem nas realidades híbridas da
Maio de 68, Rodis-Lewis não compreende por encarná-lo. Fascinado por toda uma reflexão e até os anos 1950, quando reinam incontes- matéria os elementos que as compõem. Nesse
que está sendo contestada, assim como os em torno da noção de acontecimento, ao lon- táveis os "3 H" (Hegel, Hussrl, Heidegger), não aspecto, apoia-se em Platão ao comparar o fi-
outros, e afirma: "Eu ensino Platão!". Deleuze, go desses anos, "Deleuze falava o tempo todo há realmente lugar para Bergson. Mesmo as- lósofo a um bom cozinheiro que faz os cortes
ao contrário, se regozija com a contestação e de ]oe Bousquet""''. A reedição pela Gallimard sim, Deleuze continua a trilhar seu caminho seguindo as articulações naturais. A intuição é
zomba da reação de medo dos colegas, princi- de Traduit du Silence"' em 1967lhe dá a opor- com uma fidelidade impressionante. Em 1956, o instrumento do filósofo, seu método de di-
palmente de Rodis-Lewis, cujos trabalhos ver- tunidade de inverter a posição temporal dare- Merleau-Ponty lhe oferece a oportunidade de visão, de construção de dualismos pertinentes
16
sam agora sobre os discípulos de Descartes, os lação do homem com sua ferida' • escrever o capítulo "Bergson" na obra que diri- que não cinclem tanto as coisas, mas suas ten-
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chamados de "pequenos cartesianos". A uma Outra grande temática desenvolvida por ge, Les Philosophes Célebrel • dências, suas inscrições mutáveis na duração
pergunta de seu amigo Alain Roge:r, que quer Deleuze em Lyon, e que vem de seu trabalho Nessa apresentação, Deleuze começa por conforme as linhas de diferenciação da maté-
saber como estão as coisas em Lyon na efer- sobre Nietzsche, é a do eterno retorno como afirmar que se reconhece um grande filósofo ria. É, portanto, na realização da virtualidade
vescência de Maio de 1968, se não há violên- retorno do diferente, o que implica uma valori- por sua capacidade de inventar conceitos. No que está o impulso vital. Deleuze encontrava
cia demais, Deleuze lhe responde que sim, "os zação da afirmação e uma crítica da lógica do caso de Bergson, as noções de "duração'' e de ainda em Bergson esse primado da diferença,
estudantes são muito violentos: eles desfilam ressentimento ou da negatividade: "Essa é a es- "memória", de "impulso vital'' ou de "intuição" que será inclusive o tema de sua tese: "O im-
nas ruas contra a senhora Rodis-Lewis carre- sência do que ele nos transmitia em Lyon e que estão indissoluvelmente ligados à sua contri- pulso vital é a diferença na medida em que ela
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gando um cartaz onde está escrito 'Basta de assumirá um contorno um pouco diferente de- buição. Filósofo que tem como principal im- passa ao ato .
pequenos cartesianos'"'n. pois"47. Seus alunos lyoneses estão estupefatos perativo colocar claramente o problema que Entre a virtualidade e sua atualização, o que
Em Lyon, Deleuze faz amizade com a filó- com a maneira bastante escrupulosa de De- pretende resolver, Bergson sugere um método liga na duração passa pela memória. É por ela
sofa]eannette Colombel, professora de classe leuze se manter muito próximo dos textos que fecundo para descartar os falsos problemas que o passado se prolonga no presente. A me-
preparatória, intelectual comunista que se si- evoca, de penetrar no mais profundo de sua graças à sua doutrina da intuição. Deleuze ffiória preserva o que foi e suas potencialidades
tua na linha de Sartre. Os dois casais, Fanny lógica própria. Ainda que Deleuze permaneça discerne em Bergson duas características da que sobrevivem no atual. Deleuze enfatiza essa
e Gilles Deleuze e Jeannette Colombel e seu um pouco à parte de seus colegas de Lyon, é intuição. Bergson torna possível a aparição contribuição essencial de Bergson que desalinha
uma autoridade incontestável e incontestada da coisa, e, ao mesmo tempo, ela se apresen- a concepção tradicional do tempo e rompe com
em face do enorme público que acorre às suas ta como um retorno. A maior implicação de a lógica simples da sucessão de momentos sepa-
"N. de T.: Conseif'National des Universités. aulas. Em propedêutica, ele se dirige a duas uma tal concepção é a superação do dualismo rados uns dos outros: "O passado não se consti-
120 Gilles Deleuze & Félix Guattari 121
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tu i depois de ter sido presente, ele coexiste consi- Como assinala Anne Sauvagnargues, dele a expressão de uma corrente ideológica doutrina de Bergson, assim como a de Deleu-
go como presente"55 . A valorização do virtual no "Bergson orienta Deleuze para uma filosofia da da burguesia: "Toda sua vida [de Bergson], as- ze, permanece resolutamente monista. Todo
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atual, que faz coexistir em um mesmo momento diferença, como operação da vida" . Deleuze sim como as indicações que deu de sua moral, o método bergsoniano consiste, de fato, em
passado e presente, conduz Bergson a preconi- encontra justamente em A Evolução Criadora que ainda não nasceu e não nascerá jamais, restaurar as diferenças de natureza nos mistos
zar o impulso criador, o abandono dos hábitos: a realização desse programa: "O impulso vital nos permitem compreender que ele se entre- que a experiência nos fornece, e é a intuição
gou tota!mente aos vaIores burgueses ""' . se-
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"Um tema lírico percorre toda a obra de Bergson: é a duração que se diferencia'' • Deleuze não que serve de guia nesse processo de discrimi-
um verdadeiro canto em louvor do novo, do im- se limita a uma simples repetição da temática gundo Régis ]olivet, Bergson era considerado nação. Assim, a percepção coloca de imediato
previsível, da invenção, da liberdade'''". bergsoniana, mas opera um deslocamento de- "cão morto" pela vanguarda filosófica dos anos a consciência em pé de igualdade na matéria,
Esse ano de 1956 é decididamente muito cisivo do vitalismo ao diferencialismo. Em seu 1940 e 1950. Portanto, ainda nos anos de 1960, enquanto a memória nos situa de imediato no
bergsoniano para Deleuze. Além de sua contri- curso de 1960, ele aproxima Freud e Bergson, o bergsonismo era suspeito de ser o tapa-sexo campo do espírito. Por outro lado, a intuição
buição à obra dirigida por Merleau-Ponty, ele que assumem a mesma postura ao atribuir a de uma burguesia revanchista. O fato de De- erigida em método de discriminação privilegia
publica um longo estudo, que já fora objeto de liberdade à novidade e a memória a uma fun- leuze assumir o "ismd' de bergsonismo nesse o tempo em relação ao espaço, pois a duração
exposição em 1954 perante a Associação dos ção voltada para o futuro: "Mais passado == contexto representa um extraordinário golpe é para Bergson o lugar próprio do processo de
Amigos de Bergson, sobre "a concepção da di- mais futuro e, portanto, liberdade. A memória de força: "Com Deleuze, é a operação de re- diferenciação, de alteração. Portanto, a intui~
ferença em Bergson"'". Deleuze extrai Bergson é sempre uma contração do passado no pre- torno do bergsonismo de uma ideologia para ção bergsoniana é mesmo um método rigo~
da ganga do psicologismo em que se acredita- sente"65. Para Deleuze, não se trata de recair uma doutrina filosófica. Ao mesmo tempo, rosa por sua capacidade de problematizar, de
va poder encerrá-lo e insiste na dimensão on- em uma fOrma de dualismo, mas de ressaltar chamar seu livro de O Bergsonismo é também diferenciar e de ternporalizar.
tológica da obra. Sobre esse ponto, essencial, as linhas da diferença segundo os movimentos um gesto de deboche aos próprios bergsonia- Um dos principais deslocamentos feitos
ele se apoia na leitura que Hyppolite já havia de diferenciação. Ao dualismo clássico na tra- nos, estigmatizando-os por terem constituído por Deleuze em relação às interpretações tra-
feito de Bergson, que era confrontado com He- dição filosófica entre o sujeito da representa- uma espécie de religião. Há ali uma jogada de dicionais de Bergson foi o de considerar que a
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gel sobre a questão da diferença • O artigo te- 70 essência de sua doutrina não é representada
ção e o objeto representado, que a fenomeno- gênio já no título na obra'' .
matiz~ essa conexão essencial entre a vida e o logia retoma por sua conta, Bergson e depois Desde as primeiras linhas, Deleuze investe nem pelo impulso vital, nem pela memória,
princípio de diferenciação: ''A vida é o processo Deleuze opõem outra via, monista, segundo a contra o lugar comum segundo o qual a intui- mas pela lógica da multiplicidade. Assim, dife-
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da diferença' • Seja na ordem vegetal, animal qual a consciência não seria "consciência de ção, em Bergson, estaria ligada a uma forma rentemente dos bergsonianos, ele dedica lon-
ou humana, os processos de diferenciação es- qualquer coisa'', pois a consciência é qualquer de espontaneidade infrarreflexiva. Ao contrá- gos desdobramentos à exposição de seu pri-
tão no cerne da emergência da multiplicidade coisa. Quanto à experiência, ela é feita apenas rio, ele vê ali o próprio método do bergsonis- meiro ensaio de 1889 caído no esquecimento,
das espécies. Ainda que a perspectiva seja es- de mistos nos quais o sujeito evolui, o que im- mo e "um dos métodos mais elaborados da Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciên-
sencialmente monista, e não dualista, Berg- plica da parte do filósofo recorrer à intuição ülosofiàm. Deleuze se apropria dessa doutri- cia72, onde encontra os fundamentos de urna
son distingue uma especificidade da história como método: "É papel da intuição decompor na. Ela exige a maior precisão, e sua primeira teoria das multiplicidades: "Não se trata para
propriamente humana, ligada à dimensão da os mistos, encontrar os 'puros'"66. regra, que Deleuze não cansa de evocar como Bergson de opor o Múltiplo ao Uno'"'. A noção
consciência: "Se a diferença mesma é bioló- Quando Deleuze publica em 1966 O Berg- a tarefa mesma da filosofia, é colocar bem os de multiplicidade possibilita abandonar a dia-
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gica, a consciência da diferença é histórica'' • sonismo67, é encarregado de um curso na uni- problemas, o que ele já havia dito em seu livro lética hegeliana- que, segundo Bergson, parte
Bergson também representa inicialmente uma versidade de Lyon. O próprio título de sua obra sobre Hum e. Com Bergson, avança-se mais um de uma abordagem abstrata demais, desligada
alternativa à dialética hegeliana, que valo- se reveste de um tom provocativo, em ruptu- passo ao denunciar os falsos problemas. O ver- da experiência - e substituí-la por uma per-
riza a negação e a contradição, ao passo que ra com a doxa em vigor sobre Bergson. O que dadeiro e o falso devem ser postos à prova não cepção flna das singularidades.
ele defende uma concepção da diferença sem prevalece a propósito de Bergson é a interpre- mais pelo mero exame das soluções apresen- A temática mais clássica desenvolvida por
negatividade. Com isso, permite sair do fina- tação ultracrítica, panfletária, feita antes da tadas, mas no próprio nível das questões le- Deleuze em sua obra diz respeito à memória,
lismo causal, de uma teleologia histórica, para guerra por Georges Politzer. Com o pseudô- vantadas. Assim, colocar o problema certo não na medida em que ela induz- uma concepção
ressaltar os jogos de séries temporais imbrica- nimo anticlerical de François A.rouet, Georges depende da capacidade de desvendar o que é, do tempo que não opõe mais um passado con-
das e que abrem para um devir marcado pela Politzer publicou em 1929 um livro bastante mas da capacidade de inventar. sumado cortado do presente, mas um tempo
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indeterminação. Esta não remete a uma noção corrosivo contra o bergsonismo • Militante Uma das regras básicas de Bergson decor- imbricado, graus coexistentes da duração. Se
frouxa e vaga. Concluindo esse intenso estudo, comunista fuzilado em Mont-Valérien, Polit- re do imperativo de discernimento das verda- o presente é do domínio da psicologia, o pas-
Deleuze escreve: "O bergsonismo é uma filo- zer torna-se uma celebridade no pós-guerra, deiras articulações entre categorias diferentes sado, por sua vez, remete à ontologia pura: "A
sofia da diferença, e de realização da diferen- e sua concepção do bergsonismo domina a por natureza. Desse ponto de vista, Bergson lembrança pura só tem significação ontológi-
ça: há a diferença em pessoa, e esta se realiza maior parte dos meios intelectuais. Politzer utilizará o dualismo, e Deleuze fará o mesmo ca''74, afirma Deleuze que, nesse plano, segue o
como novidade"(:!, apreciação que poderia se não somente reduz o bergsonismo a uma fOr- com frequência, não para fazer prevalecer um ensinamento de seu mestre Hyppolite, quando
., 62
aplicar muito be'tn a ele também . ma de psicologismo ultrapassado, como faz sistema filosófico binário, pois, ao contrário, a este criticava as interpretações psicologizan-
122 Gilles Deleuze & Félix Guattari 123

tes de Bergson. Em ruptura com as teses do de Deleuze, a uma leitura singular. Como disse como o autor de que tratou mais e que teve pa- no próprio húmus das controvérsias que teve
historicismo alemão de Hanke e com as da es- de todos os autores que explorou, ele acaba por pel fundamental sobre ele: "Foi sobre Espinosa de enfrentar, já é uma ruptura decisiva reali-
cola historiadora francesa de Langlois, Seigno- lhe fazer "um filho por trás". Bergson, apesar de que trabalhei mais seriamente seguindo as no r~ zada por Deleuze em face da reputação acadê-
bos e Lavisse, Bergson lança uma concepção seu estatuto privilegiado no Panteão deleuzia- mas da história da filosofia, mas foi ele que mais mica de um filósofo considerado o mestre de
do tempo muito inovadora, fundada na con- no, não escapa à regra. Como dis~::e o especia- me fez sentir o efeito de uma corrente de ar que um sistema ao mesmo tempo desencarnado e
cepção de um passado que nunca é verdadei- lista na obra de Bergson, Frédéric Worms, "o sopra nas suas costas toda vez que você o lê, de inacessível. Deleuze ressuscita Espinosa e, ao
ramente consumado na medida em que per- que quer que se diga, Bergson é espiritualista, uma vassoura de bruxa em que ele o faz montar. mesmo tempo, esse dom de fazer reviver passa
siste no presente do qual não é indissociável. mesmo que eu me insurja contra esse rótulo" 79• As pessoas nem começar'am ainda a compreen- por ele mesmo. É preciso dizer que toda uma
A filosofia da vida definida por Bergson Contudo, o Bergson de Deleuze é um Bergson der Espinosa, e eu não mais do que os outros" •
82
tradição filosóflcadifundia a imagem de um es-
pretende transcender os limites do causalismo sem a consciência, um Bergson do qual se teria Muito mais tarde, em !99!, quando da publica- pinosa puro metafísico, impraticável, por não
mecanicista: ''A atualização tem como regras, subtraído o espírito, o que de algum modo, não ção de O que é a filosofia?, Deleuze presta uma levar em conta a questão da liberdade: "Se ele
não mais a semelhança e a limitação, mas a di- é pareo. Segundo Bergson, uma coisa só existe vibrante homenagem a Espinosa, que é apre- foi tão desacreditado a ponto de se fazer do 'Es-
ferença ou a divergência, e a criação"7';. Essa via se a memória faz sua síntese temporal, e mes~ sentado como "o príncipe dos filósofos. Talvez o pinosismo' uma injúria, ou até um rótulo dia-
de escape dos fluxos criativos da vida que De- mo o corpo sozinho não se sustenta no Ser. O único a não ter assumido nenhum compromis- bólico, é porque se viu de imediato (ainda que
leuze desvenda em Bergson constitui um veio corpo só se sustenta então a partir de uma sub- so com o transcendente, a tê-lo perseguido por para deformá-las e caricaturá-las) as implica-
que ele continuará aprofundando ao longo de jetividade, de um ato imanente ao tempo e à 83
toda parte" ; "Espinosa é também o Cristo dos ções ateológicas e amorais de sua metafísicâ' •
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sua obra. Para reiniciar o movimento, para experiência, mas se trata de um ato. filósofos, e os maiores filósofos não passam de Para Hegel, Espinosa é o criador de um sistema
deslocar as formas e fazer valer as forças, fftlta Deleuze, porém, deixa totalmente na som- apóstolos, que se afastam ou se aproximam des- puramente teórico, e, depois dele, Kojeve con-
ainda poder pensar o descontínuo, as possíveis bra de seu comentário esse aspecto importante se mistério. Espinosa, o devir-f1lósof0 infinito. sidera que não se pode fazer nada com Espino-
rupturas. Aqui também Deleuze encontra su- das teses bergsonianas. Isso o leva a desconsi- Ele mostrou, traçou, pensou o 'melhor' plano de sa, cuja filosofia é sustentada por um sistema
porte em Bergson, pois "a inteligência só con- derar toda uma parte da obra: "Ele não fala de imanência, isto é, o mais puro, aquele que não se morto, que exclui tanto a liberdade quanto
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cebe claramente o descontínuo" • O que conta seu livro essencial As Duas fõntes da Moral e da entrega ao transcendente" •
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a subjetividade. Deleuze tira Espinosa desse
é o ato prestes a se realizar, o processo em cur- Religião, o que é surpreendente, pois essa obra Espinosa é o tema da tese complementar aprisionamento: "Fazendo dele o grande 'her-
so inovando e liberando de vires: "Há mais em traz já no título a noção de distinção de nature- de Deleuze, ''A ideia de expressão na filosofia deiro' de Nietzsche, o grande vivente, Deleuze
um movimento do que nas posições sucessivas 92
za. Estranha ausência, que certamente se deve de Espinosa', defendida em 1968 sob a orien- reverte completamente as coisas" •
atribuídas ao móvel, mais em um devir do que 0
ao tabu da consciência"s . A duração, segundo 85
tação de Ferdinand Alquié . Esse trabalho de "O fllósofo pode habitar diversos Estados,
nas formas atravessadas uma a umàm. Nesse Bergson, é um ato subjetivo, enquanto, para pesquisa, que de fato começou bem antes, já frequentar diversos meios, mas à maneira de
processo que é a vida mesma em seu impulso Deleuze, o movimento é inverso: o sujeito é um está praticamente concluído no final dos anos um eremita, de uma sombra, viajante, loca-
conjugam-se a matéria, que representa o polo efeito da duração. A consciência se apresenta, 1950. Deleuze tem, na verdade, uma diver- tário de pensões mobiliadas'm. Durante toda
da necessidade, e a consciência, que é o polo portanto, como uma simples contração de ins- gência bastante radical com seu orientador, sua vida, Espinosa se mostrou preocupado em
da liberdade. Esse caminhar para a criativida- tantes. Deleuze extrai assim uma parte da obra que defende Hrmemente o dualismo cartesia- manter sua independência e só pediu das au~
de passa por um método subtrativo - é o que de Bergson para abandonar outra que não julga no contra o monismo espinosista. Contudo, toridades para ser tolerado, o que mais tarde
Deleuze reterá mais tarde das teses de Berg- essencial. Apesar disso, sua leitura contribuiu Deleuze encontra em Alquié algumas suges- constituirá uma regra de vida do próprio De-
son no primeiro capítulo dejVfatéria e Memória muito para o retorno de Bergson ao cenário tões que lhe parecem fundamentais, como a leuze. Entretanto, no século XVII, mesmo nesse
(1896), ao preparar suas obras sobre o cinema fllosófico, para sua legitimação junto a uma ideia de considerar as "noções comuns" como meio efervescente de Amsterdã, o uso da liber~
nos anos 1980. A consciência não se junta ao nova geração de filósofos: "O filho que Deleuze "ideias biológicas", e não como essências geo- dade não é algo simples, e Espinosa teve essa
mundo. Ela lança suas redes para capturá-lo; fez por trás em Bergson é um filho genial, de métricas abstratas". Em 1970, Deleuze publica amarga experiência. Sua grande obra, a Ética,
ela é o próprio mundo por subtração. Tem-se que todos necessitam. Quanto a mim, adoto uma segunda obra sobre Espinosa em forma que lhe custou quinze anos de trabalho, não
aqui a definição da consciência não como feixe esse bastardo, fornece-lho o pão, a moradia, a 87
de antologia e, em 1978, escreve um artigo pôde ser publicada em vida, pois mexia demais
luminoso que junta, mas, ao contrário, como educação; foi o que tentei fazer" 8 J. 88
sobre a atualidade de Espinosa . Alguns anos com as convenções. Espinosa morre em 1677
algo de menos, que subtrai: "É uma mudança mais tarde, publica um ensaio que retoma sem ter conseguido torná-la pública. A forma
radical de regime metafórico. Não se está mais parcialmente os dois textos anteriores . En~
89
como foi recebida pelo Conselho Presbiteriano
na luz dirigida para as coisas, nem no arpão fe- Um pensamento da tre 1980 e 198!, consagra todo o seu curso de de Leyde confirmou os temores do filósofo. O
nomenológico, mas sim na tela escura onde se
78 afirmação: Espinosa Vincennes a Espinosa, ao qual ainda voltará julgamento foi implacável: esse "livro que, des-
projeta a matéria do menos" • posteriormente em Crítica e Clfnica, em 1993 •
90
de o princípio do mundo, e talvez até agora, é
Contudo, essa apropriação das teses berg- Espinosa ocupa um lugar privilegiado na Essa penetração no mundo de Espinosa, no ímpar em impiedade". Fez-se de Espinosa, re-
sonianas é as.Sociada,,~~omo sempre, da parte obra de Deleuze. Em !977, Deleuze o designará interior mesmo das questões colocadas por ele, sistente a qualquer submissão, um anacoreta,
124 Dosse Cilles Deleuze & Félix Gualtari 125

107
uma espécie de espectro desencarnado. Con- unitária entre a substância e a diversidade de do claro e do distinto para substitu.í-lo por um Deleuze um verdadeiro '"grito de guerra" ,
tudo, há urna grande distância entre tal repre- seus atributos. É pela expressão que oespino- método que não se pergunta mais se há ideias pois inverte a prevalência atribuída até então
sentação e a realidade desse fllósofo, percorri- sismo consiste em um monismo. Diferente- inadequadas, e sim como se formulam ideias às ações e reações da alma sobre as do corpo.
do "pela própria Vida", segundo Deleuze'''. Seu mente da dimensão do "explicar", o "exprimir" adequadas: "Nisso, a inspiração espinosista é O corpo, segundo Espinosa, ultrapassa o co-
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pensamento é em primeiro lugar e acima de reveste-se de uma dimensão ontológica cuja profundamente empirista'' 1o. • nhecimento que se pode ter dele, pois encarna
tudo um pensamento da vida, de sua potência, importância está em opor ao cartesianismo as Aspecto essencial ao qual Deleuze voltará uma maneira de ser de um dos dois atributos,
do triunfo dos afetos de alegria contra os afetos potencialidades de uma filosofia da natureza: com frequência posteriormente é a questão co- a extensão, feita de velocidades e de lentidões
tristes. É esse aspecto fundamental da mensa- ''A expressão não deve ser, portanto, objeto de locada por Espinosa sobre o que pode um cor- compostas entre elas. O que faz mover o corpo
gem espinosista que Deleuze ressalta sempre: demonstração; é ela que põe a demonstração po enquanto poder de afetar e de ser afetado: tem a ver apenas com a imanência.
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"A vida não é uma ide ia, um problema de teoria no absoluto" • Espinosa não chegou verdadei- "Não se sabe o que pode o corpo, ou o que se Espinosa situa-se em um plano que não é o
em Espinosa. É uma maneira de ser, um mes- ramente a tematizar essa noção de expressão pode deduzir da mera consideração de sua na- da oposição moral entre o Bem e o Mal, mas o
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mo modo eterno em todos os atributos" • em sua obra, corno admite Deleuze: ''A ideia tureza''105. Do que é capaz a potência própria ao plano ético do tipo de afetos que determinam
Espinosa pertence plenamente ao seu de expressão em Esplnosa não é objeto nem humano não pode ser predeterminado, na me- o conatus: "No limite, o homem livre, forte era~
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tempo, portanto seu sistema não tem nada de de definição, nem de demonstração" • Visto dida em que ao polo da atividade corresponde zoável vai se definir plenamente pelo domínio
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desencarnado. Expressa até o paroxismo das que os atributos só podem consistir em afir- sua contraparte, passiva, de ser-afetado. Essa de sua potência de agir" 1'. Lá onde o encontro
questões próprias a uma modernidade que mações, estas são expressivas: ''A filosofia de potência leva a existência aos seus limites ex~ - o que Deleuze chamará, depois de seu en-
passa de uma relação com um universo consi- Espinosa é uma filosofia da afirmação pura. A trem os, e é chamada de conatus, o esforço para contro com Guattari, de corte de fluxo - é es-
derado fechado, finito, no pensamento clássico, afirmação é o princípio especulativo do qual perseverar no ser. Deleuze confere a essa força sencial para perseverar no ser, é porque o "Eu
a uma relação com um universo que se desco- depende toda a Ética"' 00• o nome de "desejo" e insiste no fato de que este posso' está ligado à capacidade de ser afetado,
bre infinito. A grande pergunta do século XVII O tema da potência está no cerne do es- é determinado por afeições. Essa temática será e isso depende do encontro com outro, na me-
é como pensar o infinito. As teses de Espinosa pinosismo. A potência está em atividade por fundamental em Deleuze quando - primeiro dida em que ele pode alterar a identidade do
levarão essa pergunta ao extremo, recusando toda parte, e nesse campo o entendimento para se apropriar dele e depois para combatê~lo Mesmo.
o face a face entre uma finitude e uma infini- não tem privilégios em relação aos seus obje~ -vai ao encontro do discurso psicanalítico, Em 1977, quase dez anos após a publicação
tude graças à invenção de uma nova catego- tos, que desenvolvem a mesma potência para opondo~ lhe outra via, uma via f1losófica, que de sua tese complementar. Deleuze é convi-
ria, a do infinitamente pequeno, que se pode existir. A potência é o equivalente da essência. leva em conta essencialmente a questão do de- dado pelo Centre lnternational de Synthêse
apreender a partir ele séries. Nesse plano, Es- Todos os seres são animados pela potência de sejo, mas de forma não freudiana. A retomada por ocasião do tricentenário da morte de Es-
pinosa apresenta uma concepção singular do existir, que é para o homem "uma parte da po- desse conatus/ desejo provém, segundo Espino- pinosa. Ele faz uma conferência: "Espinosa e
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indivíduo como composição, potência e graus. tência infinita, isto é, da essência, de Deus ou sa, dos encontros. Tais encontros ou têm como nós»~ . Com essa fórmula, Deleuze exprime
da Natureza" • Essa potência divina se desdo~
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O indivíduo não é mais visto então como subs- efeito nos tornar mais ativos, redobrando as- seu próprio estilo de começar pelo meio das
tância, mas como relação independente de bra em uma potência de existir e de agir, de sim nossa potência, e então causar alegria ou, obras filosóficas para intensificar o agencia-
seus termos. Em segundo lugar, o indivíduo é pensar e de conhecer. Essa natureza divina é ao contrário, são portadores de afetos tristes mento entre o leitor atual e o filósofo solicita-
antes de tudo potência, e não forma; ele tende fundada "ao mesmo tempo na necessidade e e nos condenam à impotência, à passividade, do. Esse "começar pelo meio' possibilita, por
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ao seu limite. Espinosa propõe aqui o conceito na possibilidade" • obstruindo nossa capacidade de ação. O ho- outro lado, uma melhor inteligibilidade de
de conatus, segundo o qual "cada coisa tende a Deleuze mostra em que Espinosa toma mem dispõe portanto, enquanto ser afetado, de Espinosa: até então, os comentadores giravam
perseverar em seu ser". O indivíduo tende, por- distância de Descartes e de seu dualismo fun- uma capacidade ele discernir o que o torna tris- em torno dos dois atributos da substância se~
tanto, ao seu limite: "A potência é isso: o esforço dado na adequação entre a ideia e a coisa que te ou alegre. Ele tem condições de discriminar gundo Espinosa, que são a extensão e o pensa-
na medida em que ele tende para um limite"96• ela representa. Com isso, o cartesianismo se entre os encontros bons e os maus. É na esfera mento. De fato, só podemos conhecer dois dos
Em sua tese complementar, Deleuze te- condena a permanecer no nível da forma e prática que essa lucidez sobre si pode difundir atributos da substância, que, por sua vez, pro-
matiza um problema que julga central para não atinge a potência. Para Espinosa, a ideia suas luzes: "Triunfamos quando conseguimos vém do divino por seu caráter infinito: a exten-
Espinosa, o da expressão, termo utilizado no adequada não tem a significação de uma cor~ afastar esse sentimento de tristeza e, portanto, são e o pensamento. "Já Deleuze se instala no
destruir o corpo que nos afCta'>~ • Disso resulta
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livro primeiro da Ética e que serve de ponto respondência entre a ideia e a coisa, mas "é meio do sistema e circunscreve ali a substân-
de partida para Deleuze: "Entendo por Deus precisamente a ideia como que exprime sua uma ética que convida a não sucumbir no ódio cia, os atributos que se exprimem, e recompõe
3 ou na polêmica, assim como em qualquer outro
um ser absolutamente infinito, isto é, uma causa"w . Deleuze estabelece uma ligação en- todo o sistema de Espinosa a partir da noção
substância que consiste em uma infinidade tre Espinosa e seus trabalhos sobre Hume. afeto triste, para que prevaleça sempre a potên- de expressão"n°. O que é não é a substância,
de atributos, e cada um exprime uma essência Ele caracteriza o método espinosista como cia própria de agir e de criar. mas a exprime sem nenhum caráter hierár-
eterna e infi~üta" • O problema da expressão,
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"empirista'' a partir do momento em que Es- Quando Espinosa constata a incapacidade quico, o que faz de Espinosa um pensador da
segundo Dêleuze, condensa a diflcil relação pinosa desloca o questionamento cartesiano de conceber o que pode um corpo, esse é para imanência em ruptura com todo pensamento
126 Dosse Cilles Deleuze & Félix Guattari 127

emanativo. O Ser remete ao Uno, à univocida~ viver deve travar três combates: contra o poder permite a Espinosa afirmar que se experimenta 4. Gil!es DELEUZE, Nietzsche et La phiLosophie,
em vida uma forma de eternidade, que ele opõe PUF, Paris, 1962 (doravante cítado Nph).
de, quando todos os atributos estão em uma e suas proibições, contra a transcendência que
situação ele perfeita igualdade. à imortalidade dos teólogos. Nessas condições, 5. Gilles DELEUZE, Nph, p. 2.
cava um fOsso entre o pensamento e suas po-
Nessa comunicação, Deleuze já exprime o tencialidades e, finalmente, contra "uma con- "a ideia de pulsão de morte para ele é grotes- 6. Jbid., p. 3.
deslocamento que confirmará em 1981 quando cepção nociva das relações teoria-prática (pro- ca''08, afirma Deleuze, visando também Freud. 7. NIETZSCH E, La Généalogie de La morale, Il, §2,
Em 1993, Deleuze volta a Espinosa para trad. H. Albert, Mercure de France, 1900.
da publicação ele sua nova obra sobre Espino- eminência da primeira sobre a seguncla)"m.
distinguir três níveis, três rítmicas, correspon- 8. Gillcs DELEUZE, Nph, p. 25.
sa, isto é, o ensino essencialmente prático de Espinosa torna-se a referência fundamental de
sua Ética, que não consiste em um tratado de um pensamento plenamente imanente. dentes aos três gêneros de conhecimento na 9. Jbid., p. 78.
moral, mas em um ensaio de etologia: ''A eto~ Deleuze retoma, mas desta vez após uma Ética, cuja primeira leitura pode levar a pen- 10. Gilles DELEUZE, "La méthode de dramatisa-
sar em um fluxo contínuo: "Os Signos ou afe- tion", Bulletin de la Societéfi'ançaise de philoso-
logia é em primeiro lugar o estudo das relações breve apresentação de sua viela, o tema da di-
phie, n. 3, jul.-set. de 1967, p. 89-118; reproduzi-
de velocidade e de lentidão, dos poderes de afe- ferença entre moral e ética, pela qual Espinosa tos; as Noções ou conceitos; as Essências ou
119 do em lD. p.13H62.
tar e de ser afetado que caracterizam qualquer causou escândalo em sua época. Sua filosofia perceptos" • O livro se desenvolve, portanto,
11. Jean WAHL," Nietzscbe et la philosophie ".Re-
coisa"lll. Essa questão de velocidades diferen- prática é de fato apresentada como um triplo segundo rítmicas diferentes, mais ou menos
vue de métaphysíque et de la morale, n. 3, 1963,
ciais é essencial para Deleuze, que se apoia em desafio lançado ao reino da consciência, dos intensas, contraídas ou dilatadas, que fazem p. 353.
Espinosa para não definir uma coisa ou um in- valores e das paixões tristes, que lhe vale um com que o mundo dos "postulados", "demons-
12. Jbid., p. 373.
divíduo por sua forma, por seus órgãos ou suas triplo motivo de acusação ele materialismo, trações'' e "corolários" se suceda segundo sua
13. Na carta que envia ajean Wahl datada de 6 de
funções, nem como substância ou sujeito, mas de imoralismo e de ateísmo. A analogia com própria lógica contínua, enquanto que o elos junho de 1963, ele sugere que sejam convida-
por sua longitude e sua latitude. Ele retoma de Nietzsche impressiona Deleuze, que afirma de "escólios" transcorre nos estratos inferiores, dos onze conferencistas: da França, Beaufret
Espinosa a distinção entre esses dois modos de imediato a pertinência dessa aproximação um revelando.ali suas paixões e suas violências, ou Polin, Delay, Foucault ou Laplanche, Ga-
individuação, que são a existência enquanto tanto quanto diabólica. "Tudo tendia para a as dos afetos secretos da obra em uma or- briel Mareei, Jean Wahl; da Alemanha, Hei de-
114
conjunto divisível em partes extensivas e a es- grande identidade Nietzsche-Espinosa" • Es- dem descontínua, e o Livro V segue um ritmo gger, Fink, Lowith; da Suíça, Starobinski, Hans \
sência enquanto parte intensiva. Sua concep- pinosa serve então de máquina de guerra para bem diferente, procede por raios luminosos. O Barth; e da Itália, Vattimo.
;;''
ção do corpo é ele ordem cinética, opondo re- Deleuze contra o estruturalismo e contra o psi- modo demonstrativo se modifica então radi- 14. lvlichel FOUCAULT, "Nietzsche, Freud, Marx",
'
lações de velocidade e de lentidão de cada um canalismo. Espinosa permite exaltar as forças calmente, contraindo-se para dar livre curso a Cahiers de Royaumont, n. \11, Minuit, Paris,
de seus elementos. Essa distinção servirá mais da vida contra toda cultura de culpabilidade, 1967; reproduzido em Dits et É'crits, tomo I,.
uma velocidade superior.
tarde, tanto a Deleuze quanto a Guattari, para contra todo pensamento que parte da falta, da Gallimard, Paris, 1994, p. 564~579.
Depois ele ter pago seu tributo à corpora-
pensar em termos de cartografia do corpo. ausência: ''A alegria ética é o correlato da afir~ ção dos filósofos de ofício ao publicar essas 15. Gilles DELEUZE, "Conclusions sur la Volonté
5 de puissance et J'éternel retour", Cahiers de
A primeira leitura de Espinosa que Deleuze mação especulativa"n • monografias, ao mesmo tempo consolidando
Royaumont, n. VI, Nietzsche, Minuit, Paris, 1967,
publica em 1968 não é verdadeiramente supe- Tudo se opera na existência como expe- a base vitalista em que vai se apoiar, Deleuze p. 275-287: reproduzido em lD, p. 163-177.
rada pela segunda publicação, de !981. No en- rimentação das boas ou más combinações, passa a difundir suas próprias teses filosóficas,
16. lbid., p. 165.
tanto, pode-se compartilhar a constatação de e só elas podem fazer aflorar o que é bom ou em 1968· 1969, falando agora em seu próprio
17. Gilles DELEUZE, Nietzsche, PUF. 1965. Essa
François Zourabichvili, que aponta um deslo- mau: "Essa é portanto a diferença final do ho- nome aquilo com que está rompido. Afirma, obra aparece na coleção "Philosophes" e con-
camento do olhar que dirige a Espinosa "o herói mem bom e do homem mau: o homem bom, então, sua singularidade de pensamento e de tém uma apresentação da vida do autor, uma
filosófico do segundo Deleuze"w Quando De- ou forte, é aquele que existe tão plenamente escrita, de estilo. apresentação de sua filosofia, um glossário
leuze publica essa segunda obra sobre Espino- ou tão intensamente que conquistou a eter- com os principais personagens de Nietzsche e
sa, estamos no pós-68 e depois da publicação nidade em vida e para quem a morte, sempre sobretudo uma antologia com extratos de sua
dos dois livros mais importantes escritos com extensiva, sempre exterior, é pouca coisa" •
116
Notas obra.
Guattari, O Anti-Édipo e Mil Platôs. O resultado Essa exteriorização da morte, que é apenas um 1. Prospecto da Societé fi:ançaise d'études niet- 18. Gilles DELEUZE, Michel FOUCAULT, "In-
é que desta vez· a ênfase é colocada na dimen- acidente, para Espinosa, é outra convicção que zschéennes, citado por Jacques LE RIDER, troduction générale", CEuvres philosophíques
são prática dessa filosofia Espinosista, assim Deleuze nunca deixará de defender e de opor Nietzsche en F'rance. De la fln du XJ;( sikcle au completes de Nietzsche, Gallimard, 1967, t. V,
como em suas afinidades com a de Nietzsche. ao "ser-para-a-morte'' de Heidegger. A morte, temps présent, PUF, Paris, 1999, p. 185. Le Cai Savoir, hors-texte, p. I-IV; reproduzido
O Espinosa revisitado então por Deleuze é o fi. diz Espinosa, só envolve as partes extensivas, "a 2. Jean WAHL, La Pensée philosophique de Nietzs- em Michel Foucault, Dits et Écrits, op. cit., t. L
lósofo de uma arte de viver, de uma maneira de realidade da parte intensiva subsiste"m. Disso che des années 1885-1888, La Sorbonne, CDU, Gallimard, p. 561-564.
ser que permite combinar em uma harmonia resulta uma dupla eternidade, ao mesmo tem- Paris, 1959; I:Avant-demi6re pensée de Nietzs- 19. Jbid., p. 56].
as solicitações tanto do afeto como do conceito po a das relações que definem a singularida- che, La Sorbonne, CDU, Paris, 1961. 20. Jbid., p. 561.
para intensificar a coincidência de mais razão de de cada um e a da essência particular que 3. Nietzsche, 1844-1900, Études et témoignages da 21. Gilles DELEUZE, "L'éclat de rire de Nietzsche",
e mais alegria. Phra se impor, essa maneira de caracteriza aquilo que desaparece. É isso que cinquantenaire, ed. Martin Flinker, 1950. entrevista com Guy Dumm~ Le Nouvel Obser-

i
128 François Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 129

vateur, 5 ele abril de 1967, reproduzida em ID, 32. Ver Jean-Clet MARTIN, Variations. La philoso- 55. Jbid., p. 39. 84. lbid., p. 59.
p.!78·18l. phie de GiL!es De!euze, Payot, Paris, 1993, prin- 56. Jbid., p. 41. 85. Gilles DELEUZE, Spinoza et le probleme de I 'ex·
22. Gilles Deluze, entrevista com Jean-Noel Vuar- cipalmente o capitulo "Nomadologie", p. 51-7L pression, Nlinuit, Paris, 1968 (doravante citado
57. Gilles DELEUZE, "La conception de la différen-
net, Les lettres françaises, 28 fevereiro-S de 33. Mano la ANTONIOLI, DeLeuze et La histoire de ce chez Bergson", Les Études bergsoniennes, voi. SPE).
março de 1968; reproduzida em ID, p. 191-192. La philosophie, Kimé, Paris, 1999, p. 52. IV,l956, p. 77-112; reproduzido em][), p. 43· 72. 86. Ver Ferdinand ALQUIE, Servitude et Liberté
23. Píerre KLOSSOVVSKL Nietzsche et !e cerc!e !'i- 34. f: o que atesta o capítulo 12 de Mil Platôs, con- 58. Ver Giuseppe BIAl\JCO, "L'inhumanité de ia di- chez Spinoza, CDU Sorbonne, 1959; reed. em
cieux, Mercure de Prance, Paris, 1960. sagrado a um "Tratado de nomadologia. A Leçons sur Spinoza, La Table ronde, Paris, 2003.
fférence. Aux sources de l'élan bergsonien de
24. jean-Míchel REY, L'Enjeu des signes, Seuil, Pa- máquina de guerra". Deleuze", Concepts, Gilies Deleuze, Sils Maria, 87. Gilles DELEUZE, Spinoza, Textes choisis, PUF,
ris, 1971; Bernard PAUTRAY, Versions duSoleil, 35. Encarregado de ensino (chargé d'enseignement) Mons, 2003, em particular p. 68-73. Paris, 1970. Essa publicação encontra-se na
Seuil,Paris, 1971; Sarah KOFJ\!IAN,Nietzscheet significava na época professor titular mas sem mesma coleção, ~Les philosophes", que Nietzs-
59. Gilles DELEUZE, "La conceptíon de la diffé-
la métaphore, Payot, Paris, 1972. ter ainda a tese de doutorado. che, lançado em 1965, e compreende uma apre-
rence chez Bergson", em ID, p. 54.
25. Essa década de Cerisy é publicada em 2 vo- 36. Gilles Deleuze. carta a Jean Wahl, 16 de de- sentação da vida do autor, de sua filosofia, e o
60. Jbid., p. 57.
lumes: Nietzsche aujourd'hui?, vol. 1. Jntensi- zembro de 1964, acervo Jean Wahl, IMEC, car- ínclice de seus principais conceitos, que intro-
tés, vol. 2. Passion. Encontram-se ali Bernard 61. Jbid., p. 72.
ta comunicada por Giuseppe Bianco. duzem uma antologia de extratos de sua obra.
Pautrat, Jean-Luc Nancy, Pierre Klossowskí, 62. Be1gson, Mémoire et vie, textos escolhidos por
37. Gilles Deleuze, carta a François Châtelet, 1966, 88. Gilles DELEUZE, "Spinoza et naus", Revue de
Jean-François Lyotard, Giltes Deleuze, Sylvia- Gilles Deleuze, PUF: Paris, 1957.
acervo Châtelet, IMEC. synthJse, janeiro de 1978.
ne Agacinskl, Rodolphe Gasché, Êric Clemens, 63. Aime SAUVAGNARGUES, "Deleuze avec Berg-
38. jeannette COLOMBEL. "Deleuze-Sartre: pis~ 89. Gilles DELEUZE, Spinoza. Philosophie pra-
Roberto Calasse, Jacques Derrida,Jean-Ntichel son. Le cours de 1960 sur L'Évolution créatrice",
tes", em André BERNOLD, Richard PINHAS tique, Minuit, Paris, 1981 (cloravante citado
Rey,Jean-Noel Vuarnet, Pierre Bardot, Léopold em Frédéric WORMS (sob a dir.),Annales be1g~ SPP).
(sob a dir.), Deleuze épars, Hermann, Paris,
Fiam, Philippe Lacoue-Labarthe,Jean Mourel, soniennes !!, Bergson, Deleuze, la phénornénoio~
2005, p. 41. 90. Gilles DELEUZE, "Spinoza et les trais
Édouard Gaede, Sarah Kofrnan, Éric Blondel, gie, PUF. Paris, 2004, p. 153.
39. lbid., p. 41. Êthíques", em CC.
Jeanne Delhomme, Karl Liwith, Paul Valadier, 64. Gilles DELEUZE. "Cours sur le chapitre lil de
Eugen Biser, Richard Roas, Heinz Wisrnann, 40. Chris Younês, entrevista com o autor. 91. Guillaume SíbertinMBlanc, entrevista com o
L'Évolution créatrice de Bergson", ibid., p. 169.
41. Alain Roger, entrevista com o autor. autor.
Eugen Fink, Norman Palma. 65. Jbid., p. 170.
26. Gilles DELEUZE, "Pensée nomade", ibid., vol. 42. Jeannette COLOMBEL, "Deleuze-Sartre: pis- 92. Thomas Bénatouil, entrevista com o autor.
66. Jbid., p. 186.
1. p. 159·174: reproduzido em ID, p. 351·364. tes", op. cit., p. 42. 93. Gilles DELEUZE. SPP, p. !L
67. Gilles DELEUZE, B.
27. Ibid., em ID, p. 351. 43. Chris Younês, entrevista com o autor. 94. Ibid., p. 21.
68. Georges POLITZER. La Fin d'une parade phi· 95. lbid., p. 22.
28. Ibid., p. 354. 44. Ibid.
losophique, le bergsonisme, Les Revues, 1929;
29. Ibid., p. 359. 45. Joê BOUSQUET, Traduit du silence, Gallimard, 96. Gilles Deleuze, aula de 17 de fevereiro de 1981,
reed. Pauvert, Paris, 1968.
30. Jacques LE RIDER apresenta dados numéricos Paris(l941).1967. universidade de Paris-VIII, arquivos sonoros,
69. Jbid., p. 1!. BNF..
em Nietzsche en F'rance. De la fin du XIX siJcle 46. "Minha ferida existia antes de mim, nasci para
70. Frédéric WORMS, entrevista com o autor. 97. Spinoza, Éthique, livro primeiro, definição 6,
au ternps présent, PUF, Paris, 1999: La Généalo- encarná-la", escreve Bousquet, e Deleuze co-
71. Gilles DELEUZE, B, p. L GF-Flammarion, Paris, 1965, p. 21.
gie de la morale, a obra mais lida, vende 269 mil menta: ''A ferida é urna coisa que recebo em
exemplares na tradução Albert publicada pela meu corpo, em tal lugar, em tal momento, 72. Henri BERGSON, Essai sur les données imrné- 98. Gilles DELEUZE, SPE. p. 18.
coleção "Idées" em 1966; 11 mil exemplares na mas há também uma verdade eterna da ferida diates de la conscience, PUF, Paris, 1889. 99. Ibid., p. 15.
edição OPC, em 1971; 105 mil exemplares na como acontecimento impassível, incorpora!" 73. Gilles DELEUZE, B, p. !. 100. Ibid., p. 5!.
"Folid', edição de 1985; ou seja, um total de 385 (Gilles DELEUZE, D, p. 80). 74. Jbid., p. 5!. lO L SPINOZA, Éthique, livro IV, 4, dem., op. cit., p.
mil exemplares. Ainsi parlait Zarathoustra, por 47. Chris Younês, entrevista com o autor. 75. ibid., p. 100. 224.
sua vez, atinge 191 mil exemplares eLe Cai 48. Ibid. 76. Henri BERGSON, L'Évolution créatrice, op. cít., 102. Gilles DELEUZE. SPE, p. 108.
Savoir, 183.500 exemplares. Essa década de p.155.
49. lbid. 103. lbid., p. 119.
Cerisy sobre Nietzsche COITesponde ao ano de
50. Gilles DELEUZE, Le Bergsonisme, PUF, Paris, 77. Jbid., p. 315. 104. lbid., p. 134.
publicação de I.:Anti-(]j'dipe. Portanto, não é de
1966 (doravante citado B). 78. Élie During, entrevista com o autor. 105. SPlNOZA. Éthique,lll, 2, se., p. 137.
se surpreender diante da afirmação do signifi-
cado político contestador trazido pelo pensa- 51. Gilles DELEUZE, "Bergson, 1859-1941", em 79. Frédéric WORt\18, entrevista com o autor. 106. Gilles DELEUZE. SPE, p. 22!.
mento nietzschiano revisitado e pela abertura Maurice MERLEAU-PONTY (sob adir.), Les 80. Jbid. 107. Ibid., p. 234.
para linhas de fuga, para um nomadismo do Philosophes célebres, Lucien Mazenod, Paris, 81. Jbid. 108. Ibid., p. 240.
pensamento que deve se desterritorializar e se 1956, p. 292-299: reproduzido em ID. p. 28-42.
82. Gilles DELEUZE, D, p. 22. 109. Gilles DELEUZE, "Spinoza et nous", Revue de
decodificar. 52. Ibid., p. 31.
83. Gilles DELEUZE, Félix GUATTARJ, Qu'est-ce synthese, Albin Michel, Paris, 1978, n. 89-91; re-
31. NIETZSCHE, La Généalogie de La morale, II, 53. Ibid., p. 32. que la phiLosophie?, J\1:inuit, Paris, 1991. p. 49 tomado e ampliado em SPP, cap. VI, p. 164* 175.
§17. ···' 54. Ibid., p. 37. (doravante citado Qph). 110. Jean-Claude Dumoncel, entrevista com o autor.
130 Fra,ncc>is Dosse

111. Gilles DELEUZE, "Spinoza et nous", SPP. p. 168. !l5. Gilles DELEUZE, SPP. p. 43.

8
112. François ZOURABICHV!Ll. "Deleuze et Spi· 1!6. lbid., SPP. p. 59.
noza'', em Olivier BLOCH (sob adir.), Spinoza 117. Gilles Deieuze, aula da universidade de Vin-
auXX si8cle, PUF, Paris, 1993, p. 240. cennes, 17 de março de 1981, arquivos sono-
1!3. lbid., p. 238. ros, BNE.
11.4. Gillcs Deleuze, Le Magazine littéraire, n. 257, 118. lbid.
setembro de 1988, entrevista com Raymond 119. Gilles DELEUZE, "Spinoza et les trais
Bellour e François Ewald. 'Éthiques'", em CC, p. 172.
O deleuzismo: uma ontologia da diferença

Entre !968 e 1969, época em que Deleuze simulacros'' 3 • Para conseguir essa seleção, Pla-
defende sua tese de doutorado, chega a hora de tão lança o conceito de Ideia, que correspon-
i;
'

tornar públicas as "cores" propriamente deleu- de à essência do fenômeno. É em nome dessa


:r:
.Fi zianas. O autor de D{ferença e Repetição toma essência que Platão pode pretender separar
,.':..!:; distância daquilo que constitui a principal re- os rivais e descartar os imperfeitos, os falsá-
ferência filosófica preconizando uma inversão rios, os simulacros. Contudo, Deleuze chama
do platonismo. Por outro lado, sua intervenção a atenção para um momento excepcional no
ocorre em um momento filosófico, o dos anos final do Sofista, em que Platão, de tanto perse-
de 1960, em que se questiona de forma radical guir por toda parte o simulacro, descobre que
o monumento hegeliano, que até então domi- não é urna simples cópia falsa, mas "que põe
nava amplamente a história da filosofia. Quer em questão as próprias noções de cópia e de
se olhe do lado do nouveau roman, das ciências modelo: 'No simulacro há o que contestar, e a
humanas ou do fascínio heideggeriano, é a era noção de cópia e a de modelo. O modelo sub-
1
de um "anti-hegelianismo generalizadd' • merge na diferença. ao mesmo tempo em que
as cópias resvalam na dissimilitude das séries
que interiorizam, e é impossível dizer que uma
4
Inverter o platonismo é cópia, e a outra, modelo" • Platão teria sido
e o hegelianismo então o primeiro a anunciar uma possível via
de inversão de seu próprio método. Ironia do
O primeiro maciço a remover para avançar destino, supremo paradoxo, o sofista que Pla-
suas próprias posições é o de Platão, que deve tão injuria como encarnação do falso, do si-
sofrer uma "inversãd'2 pela filosofia moderna. mulacro, sátiro ou centauro, não é no fim das
O problema que Platão coloca é de fato muito contas o verdadeiro filósofo?
concreto. Consiste em fazer uma seleção entre Portanto, Platão ficara reduzido até ali à
I
I os pretendentes cada vez mais numerosos a univocidade das teses que desenvolve no Te-
encarnar a verdade na cidade ateniense, sub- eteto, onde figura como o instaurador de uma
metendo os rivais a uma prova filosófica que ordem moral orientada para a verdade segun-
permite separar o joio do trigo, "a coisa e os do o modelo imutável do reconhecimento. É
132 Dosse

preciso, portanto, seguir o próprio Platão na busca vias de acesso mais diretas às diferenças correr a algumas mediações capazes de redu~ programa filosófico apoia-se essencialmente
via que ele entreviu sem conseguir penetrar puras. Outra proximidade de Deleuze com Ri- zir as diferenças para pensá~las? Deleuze toma em dois filósofos: Espinosa que, na Ética, dell-
nela: "Inverter o platonismo significa aqui: ne- creur situa-se na metaestabilização da postura o exemplo da tempestade que irrompe quando ne os atributos como irredutíveis a gêneros por
gar o primado de um original sobre a cópia, de questionadora do filósofo. Na relação entre a as intensidades entre massas de ar diferentes serem formalmente distintos- eles são onto-
um modelo sobre a imagem. Glorificar o reino pergunta e a resposta, uma dessimetria atribui sãO excessivamente contrastantes. A tempes~ logicamente um enquanto substância. Deleu-
5
dos simulacros e dos reflexos" • Em Lógica do nos dois filósofos uma prevalência à pergunta: tade é antecedida de um precursor sombrio ze partilha o monismo de Espinosa acrescen-
Sentido, quando Deleuze distingue três pos- "Fazem-nos crer ao mesmo tempo que os pro- que indica sua precipitação no céu. Este últi- tando-lhe a torção iniciada por Nietzsche, que
turas possíveis do filósofo, ele radicaliza um blemas são dados prontos e que desaparecem mo seria o "em si" da diferença: "Chamamos permite realizar essa univocidade reimprimin-
pouco sua crítica do platonismo, visto aqui nas respostas ou na solução''ll, crença que de- de díspar a sombra precursora, essa diferença do-lhe uma dinâmica "como repetição no eter-
13
como tradição que teria cristalizado a atitude corre, para Deleuze, de um pré-julgamento in- em si, em segundo grau, que conecta as séries no retorno" • A univocidade tal como Deleuze
esperada do tllósofo como aquele destinado a fantil do qual é preciso se livrar. também heterogêneas ou disparatadas" 15 • segue o processo de radicalização de Espinosa
sair de sua caverna para se elevar aos céus do A tradição estaria encerrada no confor- a Nietzsche estimula uma crítica radical a toda
mundo ideal e partir em busca de uma verda- mismo de um modelo considerado iterável. substância, incluída a espinosista: "Daí sua
de inacessível às pessoas comuns. A filosofia A diferença por ela mesma Do Teeteto, de Platão, à Critica da Razão Pura, tese segundo a qual a substância como princí-
platônica é considerada então por Deleuze, de Kant, um modelo de recognição orienta a pio de ipseidade, de ideotidade em si e para si,
na linha de Nietzsche, como a expressão de Deleuze denuncia uma verdadeira maldiM filosofia para o que se tornará uma doxa, uma é segunda, derivada em relação ao devir-outro,
uma patologia, a de uma fuga constante para ção que se abateu sobre todo pensamento da ortodoxia, fonte de conformismo e prisioneira efeito do eterno retorno" 19•
o irreal ao ritmo das ascensões impulsionadas diferença na tradição tllosófica ocidental. A das ide ias do tempo, Deleuze se pergunta qual Deleuze conclui sua tese com uma espécie
pelo "bater de asas platônico''6 diferença foi identificada às forças do Mal, ao pode ser o valor de um pensamento que não de canto lírico, de grito filosóllco de natureza
A reabertura das virtualidades históricas, erro, ao pecado e ao monstruoso. O projeto de perturba ninguém. A filosofia teria funciona- fundamentalmente ontológica: "Uma única e
das potencialidades de transformação, de revo- Deleuze é reabilitar essa parte de sombra da do até ali apenas como reconhecimento dos mesma voz para todo o múltiplo de mil vias,
lução, passa "pela diferença e sua potência de história do pensamento. Retomando a metáfo- valores e instituições estabelecidos, como seu um único e mesmo Oceano para todas as go-
allrmar"'. O virtual que Deleuze valoriza desde ra de Platão, mas desta vez para o seu próprio duplo de legitimação, seu acréscimo de alma. tas, um único clamor do Ser para todos os
esse momento, antes de construir, muito mais projeto, Deleuze pretende conseguir "tirar de O projeto de Deleuze em 1968 é justamente 20
estados" • Essa tomada de posição sem equí-
tarde, uma verdadeira tllosofia do virtual', não sua caverna" a dif"erença J2. elaborar uma ontologia. O par pergunta-proble- voco pela univocidade do ser não significa, po-
se opõe ao real, mas ao atual: "O virtual pos- Como conseguir apreender a diferença? ma, tal como o concebe Deleuze, deve permitir rém, uma mino ração do múltiplo, ao contrário.
9
sui uma realidade plena, enquanto virtual" • À Não por meio da fenomenologia nem do mé- redinamizar um programa ontológico a partir Deleuze se explica na Lógica do Sentido, quan-
maneira do acontecimento que corre o risco todo dialético, pois pensá-la nela mesma pres- de uma brecha que não se pode preencher, Para do esclarece que a univocidade do ser "não
de ser subsumido, erradicado pelos esquemas supõe que se manifeste enquanto afirmação isso, é preciso partir do problema para colocar quer dizer que haja um único e mesmo ser: ao
explicativos, a diferença resiste à explicação. É própria, e, de fato, Deleuze sustenta que, "em a pergunta certa. A ontologia lembra um lançar contrário, os seres são múltiplos e cliferentes"21 •
isso que permite a Deleuze atingir o verdadei- sua essência, a diferença é objeto de afirma- de dado. Ela não tem o estatuto de um pedestal Eles provêm dessa entidade paradoxal que
ro horizonte problemático da filosofia, pensar ção, afirmação ela mesma'' 13• Levar em conta para se apoiar ou se recostar, mas de um devir mantém juntos elementos incomensuráveis
o paradoxo que é a grande figura. o principal essa essência pressupõe romper radicalmente aleatório, de uma abertura: "Os pontos singula~ em uma síntese disjuntiva.
tropa dos anos de 1960 contra a ilusão da supe- com um pensamento da representação que res estão no dado; as perguntas são os próprios A radicalização da diferença operada por
ração possível das contradições: "O paradoxo subordina sempre a expressão das diferenças dados; o imperativo é lançar. As Ideias são as Deleuze define uma via ao mesmo tempo
10
é o palhas ou a paixão da filosofia'' • Embora ao idêntico, ao modelo que se trataria de re-re- combinações problemáticas que resultam dos próxima e diferente daquela, fenomenológi-
16
encarnem duas orientações muito diferentes, presentar, e substituí-lo de maneira nietzschia- lances" • Esses lances de dado têm uma relação ca, proposta por HusserL Todo o percurso de
essa dellnição do ato de filosofar como respos- na por uma experimentação: "Il faut montrer com o sujeito, o "Eu", mas sempre fragmenta~ Deleuze leva muito em conta as contribuições
ta aos paradoxos, às tensões aporéticas, aproxi- la différence allant diflerantw' 14 O eterno retor- do, fendido, e deslocam as linhas da fenda na da fenomenologia, que se situa em um tal
ma no mesmo momento Gilles Deleuze e Paul no seria então o "para si" da diferença, não o ordem da temporalidade. grau de proximidade com suas posições que
Ricceur, cuja prática filosófica não consiste retorno do mesmo, mas do diferente. Não se é Uma repetição de ordem ontológica teria se pode afirmar, a exemplo de Alain Beaulieu,
tampouco em pretender superar as contradi- inevitavelmente conduzido ao Mesmo ou are- como finalidade distribuir a diferença entre re- que Deleuze não combate a fEmomenologia,
ções por uma síntese totalizante. Afirmando a petição física e psíquica e produzir a ilusão que mas "combate com ela'm. Deleuze travou uma
necessidade de pensar juntos polos incomen- as afeta. Realizaria a própria ontologia, não de relação ambivalente com a fenomenologia,
*N. de R. 1:: A expressão Jlfaut montrer la dif}üence allant modo analógico, como ocorre com a represen- mantendo-se à distância e ao mesmo tem-
suráveis, Ricceur procede de fato por escapes
dif!érant, ao levar em consideração o contexto epistemo-
sucessivos da.~,tensões aporéticas, inventando tação, pois "a repetição é a única Ontologia po recuperando para uso próprio um certo
lógico deleuziano, poderia traduzir-se como «é necessário
mediações irri~erfeitas; Deleuze, por sua vez, indicar a diferença dirigindo-se ao diferimento",
realizada, isto é, a univocidade do ser" 17• Esse número de noções husserlianas, como as de
134 Fco,nc-ni< Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 135

"síntese passiva" ou de "empirismo transcen- ação. É óbvio, por exemplo, que ir ao banho O mundo das ldeias nos estoicos está na anos de 1960, está particularmente fascina-
dental", Segundo seu amigo Paul Virilio, que, implica sair respingado, Sabendo disso, não há superfície. São os acontecimentos mais co- do pelo poeta ]oe Bousquet e pelo ferimento
de sua parte, reivindica com fervor o progra- do que se queixar - isso é parte integrante do tidianos, aqueles aparentemente mais insig- de que foi vítima durante a Primeira Guerra
ma fenomenológico, Deleuze gostava muito f8.to de ir ao banho. Trata-se de uma maneira nificantes, que o estoico mostra a quem lhe Mundial: "É preciso chamar Joe Bousquet de
do último livro de Merleau-Ponly, O Visível e o de estrangular os julgamentos e a moral em faz uma pergunta, O mundo dos paradoxos, estoico. O ferimento profundo que traz no
!nvisfvef 3• Segue também Husserl, que consi- termos lógicOs, visto que o importante é seguir mundo dos contrastes, é mostrado por Dió- corpo, ele o apreende em sua verdade eterna
dera o sentido como o exprimido, a expressão, as conjunções que funcionam melhor, o mais genes, o Cínico, e Crisipo, o Estoico, como como acontecimento puro'm. Ferido no dia
e se indaga sobre o sentido da percepção que próximo possível de sua vontade_ "Bordeandd' se pode ter conhecimento por intermédio 27 de maio de 1918 no combate de Vailly, ]oe
não se reduz ao objeto físico nem à vivência assim seus desejos, evitam-se os riscos do ines~ de Diog€ne La€rce. Dessa atitude filosófica Bousquet nunca mais saiu da cama, onde os
psicológica, Ele acaba por se perguntar: "A fe- perado e do desagradáveL A moral encontra-se nasce um método que Deleuze qualifica de ferimentos o retiveram até sua morte em 1950.
nomenologia seria essa ciência rigorosa dos então no entre-dois pelo qual DiogEme Laerce prática da perversão, "se é verdade que a per- Viveu recluso em Carcassonne em um quarto
24
efeitos de superfície?" • define a maneira como os estoicos entendem a versão implica uma estranha arte das super- com janelas fechadas, dedicando-se à escrita
Husserl não está tão longe assim de Deleu- filosofia: 'A casca é a lógica, a clara é a moral, e fícíes"32. François Zourabichvili qualifica com poética. Ele escreve: "Meu ferimento existia
ze quando afirma que a consciência se supera a gema, bem no centro, é a física'' •
28
pertinência o método deleuziano de método antes de mim, nasci para encarná-lo":c~s.
em um sentido visado. Contudo, ele erra o alvo Deleuze se sente encorajado também pela de perversão, que não tem muito a ver com Deleuze retoma também o triplo combate
ao partir "de uma faculdade originária do senso concepção estoica do acontecimento, por as pequenas máquinas perversas estigmati- travado pelos estoicos: "Ninguém melhor que
comum encarregada de dar conta da identida- essa ligação levada à potência máxima entre zadas pelos psicanalistas: "Há nele um alegre Deleuze enfrentou esses três combates contra
25
de do objeto qualquer" , Essa incapacidade de acontecimento e lógica, por essa promoção do perverso'm. Do mesmo modo, Deleuze des- a matematização da lógica, a naturalização da
romper com o senso comum condena o pro- acontecimento sobre o atributo. Segundo os creve o capitão Achab de Melville como um física e a tecnocratização da ética'm. No plano
grama fenomenológico à impotência_ Embora estoicos, tudo é potencialmente acontecimen- perverso sublime e, em seu comentário sobre da lógica, ainda que Deleuze siga os estoicos
Husserl tenha percebido bem a necessidade de to, até o fenômeno mais ínfimo, o menos no- o grande sucesso de :rvlichel Tournier, Sexta- nesse terreno, diferencia-se deles radicalmente
romper provisoriamente com a doxa ao preco- tável, concepção que Deleuze retoma por sua -Feira ou os Limbos do Pacífico, celebra um por sua rejeição da arte de dizer a verdade da
nizar umaxedução eidética, ele conserva o es- conta, que encontra ali, ainda, um ponto de mundo perverso sem outro. Esses usos filosó- dialética e pelo pouco caso que faz da retórica
i
I sencial do senso comum com sua ambição de apoio fundamental na distinção de natureza ficos da perversão são múltiplos em Deleuze, como arte de bem dizer. Ao contrário, segue
,I os estolcos na indagação sobre os atributos
elevar o empirismo ao plano transcendental. que ele opera entre "representação'' e "expres- Consistem "ora em desviar pedaços de teorias
11 Husserl compreendeu bem, então, uma certa são'' em proveito desta última. O sábio estoico de toda natureza e utilizá-las para outros fins, transformados em infinitivos (intensificar,
independência do sentido, mas "o que o impe- mantém-se na superfície, é animado pela lógi- ora ainda em relacionar um conceito às suas verdejaL) e sobre os artigos indefinidos (uma
de de conceber o senso comum como uma ple- ca que lhe permite ter acesso ao acontecimen- verdadeiras condições, isto é, às forças e aos vida, um devir, chove, morre-se ... ) e inclui os
na (impenetrável) neutralidade é a preocupa- to puro: "Lá o sábio espera o acontecimento. dinamismos intuitivos que o subentendem, paradoxos, as proposições disjuntivas, O acon-
ção de guardar no sentido o modo racional de Isto é, compreende o acontecimento puro na ora enfim, em vez de criticar de frente um tecimento é identificado como uma adequa-
40
um bom senso e de um senso comum, que ele sua verdade eterna, independentemente de tema ou uma noção, abordá-lo pelo viés de ção entre a forma e a vida .
26 29 34 35 A segunda vertente do estoicismo é a recu-
apresenta erroneamente como uma matriz" • sua efetivação espaço-temporal" , Seguindo uma 'concepção inteiramente distorcida' " .
Ao contrário, Deleuze procura atingir a dimen- as análises do filósofo Victor Goldschmidt, Deleuze toma uma situação concreta e ob- sa da naturalização da física. Deleuze exprimiu
são do pré-individual, do impessoal, que não Deleuze vê nessa postura estoica a expressão serva onde se exprime um excesso de energia, em 1988 seu desejo de prosseguir o trabalho
se confunde nem com qualquer profundidade mesma do desejo de encarnação do aconte- onde esta foge e - ao contrário da dialética empreendido com Guattari e de consagrar
informe nem com os esforços da consciência. cimento puro na própria carne do sábio, sua que tem como meta superar as contradições uma obra a "uma espécie de filosofia da Na-
Esse nível situa-se na própria superfície da vontade de "corporalizar" o ef€ito incorporaf' •
0
por uma síntese - procura demarcar a linha de tureza, no momento em que desaparece toda
41
emergência das singularidades, e estas últi- Quando define as três figuras possíveis do fi- fuga que mantém a tensão paradoxal. Por isso diferença entre a natureza e o artifício" . De
mas é que são "os verdadeiros acontecimentos lósofo, ele descarta duas: aquela que busca no mesmo, renuncia à postura crítica de projeção fato, Mil Platós não está muito distante desse
transcendentais" •
27
céu a verdade e aquela que, ao contrário, crê em nome da qual se pode escolher uma linha horizonte de uma filosofia da natureza, sub-
A outra tradição que Deleuze exuma é a es- encontrá-la nas profundezas da crosta terres- e não uma outra. Instala-se nessa posição su- jacente a toda a obra de Deleuze e Guattari,
toica, na qual ele se inspira amplamente para tre, aquela que pensa atingi-la por um bater bentendida pela frase enigmática do Bartleby na qual os personagens conceituais convivem

li avançar sua ideia de "conjunção disjuntiva". De


fato, essa noção de conjunção é essencial nos
de asas e a que usa batidas de martelo_ A essas
duas posturas, ele opõe a atitude estoica, que
de Melville: "Eu preferia não'",
Deleuze encontra as experimentações da
com os afetos de tiques, o tornar-se animal do
herói de A Metamoifose, de Kafka, as relações
entre a vespa e a orquídea em Proust, ou ainda
ii\I estoicos, mesmo entre os menos lógicos entre
eles. É uma corrente que raciocina a partir da
implica uma reorientação de todo o pensa-
mento: "Não existe mais nem profundidade,
atitude estoica sobretudo na literatura, em
Herman Melville, Lewis Carroll, Francis Scott a relação com a terra em sua dupla dinâmica
L 31 Fitzgerald, Charles Péguy, etc Nesse final dos de desterritorialização e de reterritorialização.
evidência das i'1}plicações desta ou daquela nem altura" .
:·I
i

J
136 Desse Gilles Deleuze & Félix Guattari 137

Ora, o mundo estoico oferece ali um modelo mo, nem a escatologia revolucionária, nem a singular, sua composição não permite nenhum é totalmente estranho, mas o encontro futuro
de plenitude interna e de vazio exteriorizado nostalgia passadista para preservar um dina- dos reducionismos em uso nas ciências neuro- parece já anunciado pelas questões colocadas.
em relação ao mundo. O que prevalece não mismo próprio à singularidade de cada ser e nais que localizam os genes e os neurotrans- Pode-se também levantar a hipótese de que a
vem de outro lugar, mas da própria natureza que respeita os seres vivos. A ética é concebi- missores, pretendendo reduzir o comporta- obra construída por Deleuze a partir dali não
47
em suas expressões mais diversas. A falta não é da, então, como uma "etologia superior" • mento humano a uma simples transposição da responde mais a imperativos de ordem aca-
mais o motor, pois "a Natureza dcleuziana só é materialidade subjacente do corpo humano. O dêmica dos quais já se libertou, mas torna-se
imanente nela mesma, é plenamente realizada corpo, segundo Deleuze, não tem a ver com uma maneira de exprimir seu próprio corpo:
em si mesma"42 • À parte de qualquer trans- O cogito rompido um dentro: "Nenhuma linearidade demons- "Ê um tanto quanto nietzschiana como atitude
cendência, é no plano da imanência que a na~ trativa abraça a subjetividade, pois o sujeito essa espécie de idiossincrasia na obra a partir
tureza se dá a ler em suas formas, a partir de A elaboração de uma ontologia da diferen- 52
vivente atravessa o corpo" • Ê essa fenda que da qual se fala do próprio corpo. Sua obra e os
conexões que questionam a própria distinção ça passa por uma critica de todo pensamento provoca a virada decisiva na demonstração diversos objetos que aborda não seriam meios
entre o natural e o artificiaL Existe na verda- que atribuiria um papel exagerado ao cogito, filosófica empreendida por Deleuze na 13• se- diversos para amoldar o movimento corporal?
de um fora, que Deleuze retoma de Blanchot a toda concepção voltada a uma suposta in- ção de Lógica do Sentido quando ela passa das O corpo vivo é dinâmico, está em movimento,
e de Foucault, mas é um "fora mais longínquo terioridade que realizaria a harmonia entre o lógicas formais de superfície de Lewis Carroll e a questão é encontrar objetos que permitam
43 homem e o mundo circundante. Embora suas. 56
que todo mundo exterior" • Ele elimina assim àquelas, vindas das profundezas, de Antonin descrever isso'' •
toda distinção entre interioridade e exterio- perspectivas estejam muito distantes, Deleuze Artaud, que exprime o sofrimento da esquizo- Deleuze percorre então com o maior inte-
ridade por seu distanciamento e sua indeter- retoma a fórmula apresentada por Ricceur em frenia confrontada com a vida e com a morte. resse um campo ao qual já consagrou seu es-
minação. Esse universo assume o aspecto de 1965 em seu ensaio sobre Freud, Da Interpreta- O que vive o esquizofrênico é justamente a tudo muito comentado sobre Sacher-Masoch:
um conjunto de singularidades mais ou menos ção: "O Eu ativo, mas fendido, não é somente a ausência de superfície dos corpos: "O primeiro a psicanálise. Com a figura elo psicótico, des-
conectadas, agenciadas entre elas, uma espé- base do superego, é o correlato do ego narcísi- aspecto elo corpo esquizofrênico é uma espécie cobre um ângulo morto da prática psiquiá-
cie de "muro de pedras livres, não cimentadas, co, passivo e ferido, em um conjunto complexo 3
de corpo-coador"s . Essa ausência de superfí- trica, sua insuflciência em dar conta dele, sua
onde cada elemento vale por si mesmo, mas que Paul Ricoeur chamou acertadamente de cie deixa o caminho livre a uma proliferação de impotência para curar aqueles acometidos de
44
em relação com outros" • Desse universo plu- 'cogito abortado'"". corpos vindos das profundezas: "Tudo é corpo patologias graves. Deleuze considera que a psi-
ral, multicósmico e que responde a lógicas de Na concepção deleuziana, a busca de pro- e corporaL Uma árvore, uma coluna, uma flor, canálise continua prisioneira da repetição sob
combinação mais variadas, resulta uma "sin- cessos de individuação, de afirmação da singu- uma vara penetram através do corpo'' • O cor~
54
o triplo registro do realismo, do materialismo
45
tonia da Natureza" que converge com o tema laridade não se reduz a um ego. Ao contrário: ''A po esquizofrênico assume três características: e do individualismo. Essa teoria da repetição
da simpatia universal entre as coisas terrestres individualidade não é o caráter do Ego, mas, ao é um corpo-coador, um corpo fracionado e um permanece fundamentalmente tributária ele
e celestes dos estoicos. contrário, forma e nutre o sistema do Ego dis- corpo dissociado. Artaud pode ser confronta- uma filosofia da simples representação, par-
Resta o terceiro combate comum aos es- solvido"49. O indivíduo não é mais considerado do ponto por ponto a Carroll, na medida em tindo de um princípio de identidade e de dis-
toicos e a Deleuze, o da recusa da tecnocrati- então como essa entidade irredutível e indivisí- que descobriu a linguagem prodigiosa do cor- tanciamentos que se pode discernir em face
zação da ética. Uma vez libertadas as pedras veL De fato, ele não para de se dividir, de mudar po vital. É nessa 13" seção de Lógica do Senti- de um modelo inicial. Certamente, essa repe-
do muro de seu cimento de encaixe, o mundo de natureza, de se fazer múltiplo a partir de sin- do que Deleuze identifica em Artaud o que se tição que se opera na psicanálise se desloca no
aparece como fundamentalmente disparata- gularidades pré-individuais segundo linhas de tornará um conceito central de sua filosofia, o tempo sob máscaras diferentes. Também aqui
do, deixando o caminho aberto às conexões intensidade. Ê na estrutura de outro e em seu "corpo sem órgãos", mais tarde rebatizado de Deleuze se separa de Freud e do modo de cau-
mais inéditas em um caosmo que não permite modo de expressão, a linguagem, que se situa "CsO". Como esclarece Anne Sauvagnargues, o salidade que apresenta quando vê em ação um
mais enraizar firmemente um universo hierar- finalmente a diferença encontrada. Na base da corpo sem órgãos não é um corpo desprovido processo de recalque que suscita esses traves-
quizado de valores morais. A que corresponde diferença, está a força que representa o corpo de órgãos, mas um corpo "aquém da determi- timentos do mesmo: "Não se repete porque se
o desejo da vida boa segundo Deleuze quando que, de maneira geral, foi subestimado na tra- nação orgânica, um corpo com órgãos indeter-
57
recalca, mas se recalca porque se repete" •
do lançamento de Lógica do Sentido em 1968? dição filosófica. Espinosa se mostrava surpreso minados, um corpo em via de diféenciação" •
55
Da mesma maneira que Deleuze havia
Que moral adotar? Mais uma vez, os estoicos já no século XVII por não se saber melhor que Essa 13" seção de Lógica do Sentido é ponto criticado o mecanismo da contradição na dia-
são fonte de inspiração com sua moral que pri- potência o corpo podia exprimir: "Espinosa nodal no percurso elo pensamento de Deleuze, lética hegeliana, critica o dualismo subjacen-
vilegia o acontecimento: "A moral estoica diz abria um caminho novo às ciências e à filoso- na medida em que essa descoberta da potên- te ao freudismo, que, na teoria das pulsões,
50
respeito ao acontecimento; consiste em querer fia: nós nem sabemos o que pode um corpo'' • cia das forças em ação no corpo dará lugar a atribui um primado ao modelo conflitual, à
o acontecimento como tal, isto é, em querer o Trata-se, portanto, de libertar a força de possíveis patologias psicóticas que podem fa- forma simples da oposição frontal, enquanto
que chega enquanto cheg,(". Toda a filosofia afirmação que o corpo contém em si, a fim de zer ruptura nos jogos linguísticos. Quando es- "os conflitos são a resultante de mecanismos
do acontecimento de Deleuze está ali, nessa "evitar viver de maneira separada ele nossos creve esse capítulo, Deleuze ainda não conhe- diferenciais mais sutis"s8. Deleuze reconhece
51
concepção quÇ não priyilegia nem o presentis- modos de existência imanentes" • O corpo é ce Guattari, e o mundo psiquiátrico ainda lhe em Melanie Klein o mérito de ter explorado
138 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 139

o teatro dos horrores tal como o vive o bebê A reabilitação dos vencidos onda, e não ao indivíduo. A imitação é a pro- ramente à liberação da pluralidade das forças,
no primeiro ano, perdido entre toda uma sé- pagação de umfluxo" 68• Daí a importância para transformando a concepção de Durkheim
rie de objetos introjetados ou projetados que Com a arte consumada de pensar contra Tarde dos cálculos infinitesimais, da estatísti- segundo a qual a sociedade é uma coisa em
permitem uma comunicação dos corpos pela seu tempo, Deleuze assume uma posição dia- ca em geral, para apreender no estado molecu- vitalismo social. Quando Deleuze, em sua tese
profundidade mediada por esses simulacros: metralmente oposta das afirmações peremp- lar as transformações mais ínfimas no campo em 1968, e ainda com Guattari em 1980, in~
"Melanie Klein a descreve como posição pa- tórias das tradições triunfantes e reabilita as das crenças e dos desejos. Fazer microssocio- siste sobre a contribuição de Tarde, prega no
ranoíde-esquizoide da criança" 5<), O esquema tradições esquecidas, as possibilidades não Iogia à maneira como Tarde a inventou "é f8.zer deserto. Contudo, essa reapropriação assume
kleiniano, que descreve essa tentativa de con- confirmadas. Revendo as controvérsias dopas- 0 estudo das ondas de propagação de crença
um aspecto profético: contata-se na França,
69
quista de uma identidade correspondente a sado, ele ressimetriza, dando toda a atenção e de desejo que percorrem o campo social" . desde o final dos anos de 1990, um "efeito Tar~
esses objetos parciais, não está muito distante necessária aos vencidos, que frequentemente Jurista, Tarde se confrontou com as teorias de", tanto mais marcante à medida que, se nos
do discernimento da posição do esquizofrêni~ são portadores de devires mais interessantes biologistas sobre a criminalidade defendidas permitem dizer, foi retardado.
co que, longe de substituir o bom objeto pelo do que aqueles, logo institucionalizados, dos por Lombroso, que havia considerado a ideia Deleuze atribui também uma grande
mau, opõe a ele um organismo sem partes, um vencedores. Enquanto a sociologia francesa de uma explicação social do ato criminoso, importância a um pensador solitário, seu
corpo sem órgãos. se encarnou desde cedo, já no final do sécu~ distinguindo~se de Durkheim e de sua tese da contemporâneo, Gilbert Simondon, que se
Deleuze minimiza já na Lógica dos Sentidos lo XIX, nas teses defendidas por Durkheim e criminalidade como fenômeno "normal" no interessa pelos fenômenos de individuação,
a importância nodal que a teoria freudiana sua corrente, que se impuseram e se prolon- plano social, não imputável a atores singula- pelo cruzamento de múltiplas culturas, tanto
atribui ao complexo de Édipo. Longe de ver garam no triunfo irrestrito do estruturalismo res. Esse combate em duas frentes de batalha técnicas e científicas, quanto fllosóficas. Ele
o risco da frustração depressiva ou da agres- nos anos 1960, Deleuze exuma em uma longa não contribuiu para dar visibilidade às suas te- encontra em Simondon a busca de processos
sividade esquizoide como resultado do dese~ nota de sua tese a sociologia de Gabriel Tarde, ses. Contra toda forma de reducionismo, Tarde de individuação que traçam seu caminho a
jo edipiano do incesto, considera este último o grande vencido da controvérsia que o opôs a se apoia no saber biológico com a competên- partir do encontro de duas ordens de grande~
como uma tentativa de neutralizar tais riscos Durkheim: ''A filosofia de Gabriel Tarde é uma cia estatística. za entre as quais se desencadeiam uma onda,
em um espírito salvador. Chega a apresentar das últimas grandes filosofias da Natureza, Como assinala Éric Alliez, o projeto de uma intensidade, potencial: ''A individuação é
Édipo como um "herói pacificador do tipo herdeira de Leibniz", afirma Deleuze 63. Tarde inscreve-se em uma perspectiva lelb- um ato de intensidade que impulsiona as rela~
60
Hércules" Édipo é movido, portanto, pelas Quando se sabe que Tarde escreveu que niziana: "Não se poderia projetar outro pon- ções diferenciais a se atualizarem'''~'~. Simondon
70
melhores intenções do mundo, mesmo que a "existir é diferir" e tentou, na virada do sécu- to de partida que não leibniziano" • De fato, consegue explorar esse estrato pré-individual
74
história acabe mal. Contudo, ao contrário do lo, restituir a dinâmica própria da diferença Tarde inspira~se em Leibniz para desenvolver como reservatório de singularidades • O indi-
que pensam os freudianos, sua ação decorre e apresentar "a diferença como objetivo dela uma forma de panvitalismo do infinitesimal. víduo, segundo Simondon - e Deleuze -,não é
64
de uma "tragédia daAparêncüi'61 • É, no sentido mesma'' , compreende-se todo o interesse de Durkheim conseguiu fazer com que Tarde um ser estável, mas o resultado de um encon-
da tradição estoica, alguma coisa que ocorre, Deleuze por essa sociologia nutrida de llloso~ passasse por um psicologista promotor de um tro de processos, de operações e de formas, um
um acontecimento puro projetado no plano fia leibniziana. Tarde recusa toda coisiflcação método puramente individualista e submisso encontro de energias diferenciais "entre afetos,
,75
do social. Parte da ideia de que as representa~
N

da imanência. a um natura.lismo biológico, embora ele tenha perceptos e emoçoes .


Entretanto, a psicanálise ainda é reconhe- ções coletivas não são um dado, mas um cons- desejado construir uma sociologia de vocação Simondon carregava sozinho "um mundo
cida por Deleuze, em 1969, como uma disci~ truído, que são trabalhadas por correntes de universal, mas fundada em uma abordagem surpreendente, o de um grande enciclopedista
plina promissora, uma verdadeira "ciência dos imitação e movimentos de invenção65 : "Tarde que desse lugar às diferenças, às multiplici~ dos anos de 1960 que realiza magnificamen~
62 76
acontecimentos" , mas não verdadeiramente se interessa mais pelo mundo do detalhe, do dades do ser vivo segundo o princípio leibni~ te a ligação entre física, biologia e tllosofia' •
por sua capacidade de desvendar o sentido dos infinitesimal: as pequenas imitações, oposições ziano de que uma mônada singular contém Além disso, era uma homem de experiência,
acontecimentos, pois o acontecimento é o pró- e invenções, que constituem toda uma matéria o mundo em sua totalidade. Seu problema é de competência, que conhecia de dentro o
prio sentido. Nesse plano, Deleuze segue Freud sub-representativa''66 • Durkheim e sua escola de início de ordem sociológica. Ele alega um mundo das técnicas. Aliás, desesperava-o a
em seu esforço de distinguir o acontecimento acusaram Tarde de querer reduzir a sociologia vetor em ação na sociedade, uma espécie de maneira como sua época havia fracassado no
do estado das coisas no qual ele se realizou. a uma psicologia ou interpsicologia, tendo a desejo de ser específico a cada mônada, "um contato com a inovação técnica, nesse encon-
71
O segundo mérito da psicanálise é descentrar pretensão de explicar o social pelo individual. sentido o mais próximo possível da jorça" • tro marcado, pois a maioria dos utilizadores
o sujeito, por sua teoria da fantasia. Deleuze, "Tarde jamais se reergueu" 67• Portanto, foi ex- Uma lógica da potência de ser de ordem espi~ da técnica ignora completamente seu modo
como a maior parte dos intelectuais desse fi- cluído das ciências sociais com base em um nosiana encontra-se em ação e orienta o de- de funcionamento e seus desafios. Simondon
nal dos anos de 1960, atribui um papel preemi~ contrassenso de grande eficácia polêmica. sejo para um ter: "Há portanto em Tarde um era professor, mas também homem de labora-
nente à psicanálise e inclusive se mostra muito Contudo, ele nunca quis dizer que a imita- poder constituinte do sociw!m. É fácil com- tório: fazia experiências em seu próprio labo-
atento aos escritos de]acques Lacan e de Serge ção decorria de uma lógica individual, e sim preender que Deleuze só pode ficar seduzido ratório na Rue Serpente, testando tanto quan-
Leclaire para J~clarecer essas lógicas do corpo. que ela "está relacionada a um fluxo ou a uma por esse materialismo vitalista voltado intei- to possível aquilo sobre o que iria falar.
François Dosse Gi!!es De!euze & Félix Guattari 141
140

89
Já em 1966, Deleuze escreve uma resenha processo aberto prestes a se realizar que retêm der uma filosofia da diferenciação • Para que se declarar metafísico era considerado
da publicação parcial de sua tese de doutora- o olhar de Deleuze e que o fazem preferir as Ruyer, como para Tarde, existir é diferir, pois o cúmulo do arcaísmo? É improvável. Existe
do, defendida em !95877 . A tese de Simondon orientações de Geoffroy Saint-Hilaire ao esta- a criação opera por diferenciações. Assim, nele a ideia de construção de um sistema- po-
impressiona Deleuze por sua originalidade. Ele tismo da tipologia de Cuvier. Contudo, na épo- em conferência de 1938, Ruyer opõe a relação deríamos acrescentar antissistemático - e a
encontra, enfim, um pensador para quem o in- ca, é Cuvier que aparece como moderno, ao mecânica do comportamento animal quando vontade de elaborar uma nova metafísica ade-
divíduo "não é apenas resultado, mas meio de lançar as bases de novos caminhos para a bio- movido por uma causalidade forte, por exem- quada à lógica das multiplicidades. Deleuze se
individuação"78 • Encontra também um ponto logia, ocupada em estudar a coordenação das plo, quando segue em linha reta em direção à explica na carta enviada a]ean-Clet Martin em
de apoio em seu confronto com Hegel graças à diversas funções do organismo para cada es- sua comida. Ao contrário,- quando se vê diante 1990: 'Acredito na fllosofia como sistema. O
noção de "desaparição'', tirada do vocabulário pécie. Ao contrário desse funcionalismo, para de um perigo, um complexo de fatores vai de- que me desagrada é a noção de sistema quan-
da psicofisiologia da percepção, que lhe parece Geoffroy Saint-Hilaire "a introdução do fator terminar a "geodésica animal" para se afastar do a relacionam às coordenadas do Idêntico,
83
mais adequada e profunda que a noção hege- temporal é essencial" • Geoffroy Saint-Hilaire dele- afastamento que, segundo Ruyer, decor- do Semelhante e do Análogo ... Sinto-me um fi-
liana de oposição. é convocado por Deleuze, assim como Simon- re de uma criação. É o encontro com o obstá- lósofo muito clássico. Para mim o sistema não
Deleuze se apropria dessa teoria simondia- don, para dar sustentação à sua ontologia da culo que estimula o animal a criar, e isso, na- apenas deve estar em perpétua heterogeneida-
na da individuação por diferenciação intensi- diferença. O corpo deve se libertar do jugo das turalmente, reforça muito Deleuze, para quem de, como deve ser uma heterogênese, o que, me
va: "A individuação aparece justamente como funções do organismo, e Deleuze evoca a "ge~ o verdadeiro pensamento não é uma operação parece, nunca foi tentado'm.
84
a chegada de um novo momento do Ser, o mo- nialidade de Geoffroy" , que, ao contrário de espontânea, natural, mas vem de uma necessi- Situando-se em tensão paradoxal entre o
79
mento do ser jasado, acoplado a si mesmo" • Cuvier, soube dar lugar às relações diferenciais dade exterior, de um encontro, de um corte de Uno e o múltiplo, não cedendo nem sobre a
Ele descobre ali uma dimensão ontológica, entre elementos anatômicos puros. fluxo que o obriga a isso. univocidade, nem sobre a pluralidade de sin-
mas uma ontologia da diferença, das multipli- Geoffroy Saint-Hilaire afirmava em !837 O projeto de Raymond Ruyer é articular os gularidades, sua metafísica se desenvolve no
cidades: "O que Simondon elabora é toda uma que seu sonho era se tornar o Newton do in- ensinamentos da revolução da física quântica plano da imanência em torno desse oximoro
80
antologia, segundo a qual o Ser jamais é Uno'' • finitamente pequeno, "descobrir 'o mundo dos e o domínio vital do biológico. Ele distingue que é nele sua noção de "superfície metafísi-
A problemática simondiana serve a Deleuze detalhes' ou das conexões ideais 'a curtíssima dois planos que Deleuze e Guattari retomarão ca", na mais pura tradição estoica: "Na rea-
de máquina de guerra eflcaz contra a dialética distância'"85. Nesse caso também, as diferencia- para outro uso, o plano "molar" dos grandes lidade, a metafísica que Deleuze reivindica
hegeliana: a ideia de "desapariçãO' vai dar em ções são uma questão de velocidade, de inten- conjuntos estatísticos e o plano "molecular", é menos um nome (uma 'essência') que um
92
De!euze o conceito de "díspar", de "disparidade sidade, de lentidões "que medem o movimento do microfísico psicológico e vital. Ruyer quer adjetivo (uma 'maneira de ser')" • A univoci-
constituinte", de "diferença em si": "Essa teoria da atualização" 86. Opondo os argumentos de ainda valorizar o nível das interações e dos dade é um princípio em Deleuze, e não pode
do díspar prepara a síntese heterogênea e defi- Cuvier e os de Geoffroy Saint-Hilaire, Deleu- fenômenos individuantes descoberto pela ser diferente: "O Ser é unívoco'm, o que não sig-
81
ne a diferença como diferença de diferença" • ze emprega pela primeira vez em sua tese o nova microfísica, agregando os resultados da nifica, ao contrário do que gostaria de fazê-lo
Simondon contribui finalmente para con- conceito de "dobra", que retomará mais tarde biologia sobre o modo de funcionamento das dizer Alain Badiou, que a univocidade afirma-
solidar a noção de corpo sem órgãos, dando- e que dará o título de seu ensaio sobre Leibniz moléculas. da por Deleuze remeta ao primado do Uno94 •
-lhe uma base nas ciências da vida. Deleuze re- em 1988: ''A discussão encontra seu método e Para se afirmar como programa filosófico, De fato, imediatamente após ter atlrmado
encontra nele essa arte dos limites que rompe sua prova poética na dobragem: é possível, por a ontologia da diferença deleuziana precisou, essa univocidade, Deleuze acrescenta: "O es-
o dualismo entre interioridade e exterioridade dobragem, passar do Vertebrado ao Cefalópo- portanto, rever o possível não confirmado, sencial da univocidade não é que o Ser se diga
e lhe permite dizer que "o mais profundo é a de?"87. Deleuze faz de Geoffroy Saint-Hilaire barrado, de alguns trabalhos da tradição ex- em um único e mesmo sentido, mas que ele
pele: 'O ser vivo vive no limite de si mesmo, no o defensor de uma concepção monista, espi- cluídos da história do pensamento. Não se tra- diga, em um único e mesmo sentido, de todas
seu limite ... A polaridade característica da vida nosiana, que promove um plano de composi- tava, nem para Deleuze nem para Guattari, de as suas diferenças individuantes ou modalida-
82
está no nível da membrana'" • Tal abordagem ção como pura multiplicidade. Sente-se então transportá-los como tais, mas de traduzi-los, des intrínsecas"95 • A metafísica de Deleuze é
do ser vivo escapa também das explicações encorajado pelas teses de Geoffroy a alegar a de transformá-los em operadores lógicos de a do desenvolvimento da figura do paradoxo,
causais mecanicistas para substituí-las pelo faculdade de variações da atualização diferen- acordo com sua própria construção filosófica. da tensão levada ao extremo contra a doxa, o
primado dos processos com múltiplas varia- ciante: "Um lugar à parte deve ser atribuído senso comum sempre tomado entre alternati-
ções de intensidade. à relação Espinosa/Geoffroy Saint-Hilaire, o vas, diante de escolher este ou aquele termo,
Outro grande vencido exumado por Deleu- plano de composição que fornece o ponto de A outra metafísica e assim se confinando facilmente naquilo que
ze é o biólogo Étienne Geoffroy Saint-Hilaire partida à concepção deleuziana do plano da Deleuze estigmatiza como o verdadeiro ini-
88
imanência'' . Diante da pergunta feita por Arnaud Villa- migo da fllosofia, a imbecilidade. É inclusive
que perdeu seu combate contra Cuvier. Aqui
Deleuze também encontra apoio para sua ni: "O senhor é um filósofo não metafísico?", o sentido mais eminente que ele reconhece no
ainda, como a propósito do confronto entre
ontologia da diferença em Raymond Ruyer, Deleuze respondeu: "Não, eu me sinto puro discurso filosófico: "Se o pensamento só pen-
Durkheim e Tarde, é o elemento temporal, a 90
cujo programa, exposto em 1938, é empreen- metafísicd' • Provocação num momento em sa coagido e forçado, se permanece estúpido
introduçãó:;de uma dinâmica e a atenção a um
142 Dosse Gilles Deleuze & Félix Guattari 143

enquanto nada o força a pensar, o que o força pura e o primado da relação entre essas dife- rito e substituí-la pela força da afirmação da Uma proximidade tão surpreendente tem
00
a pensar não seria também a existência da im~ renças em uma uontologia da relaçãó,j • vida em todas as suas formas: "Se o ser em si é, a ver com essa outra metafísica que atribui um
becilidade, ou seja, que ele não pensa enquan- Avalia-se a que ponto tal pesquisa oferece, fUndamentalmente, semelhante ao nosso ser, primado também à relação, sempre a conjun-
to nada o força?" 96 . na virada do século, os prolegômenos da on- não sendo mais aquilo que não se conhece, ção, o "e", fonte de agenciamentos, das cone-
05
Ainda que o horizonte metafísico pareça tologia da diferença preconizada por Deleu- ele torna-se aquilo que se manifesta''t . Como xões mais diversas. Contudo, a analogia para
ter sido evacuado pelo paradigma estruturalis- ze. Para esses pensadores, tratava-se, de fato, diz Nietzsche, o mundo é "um mundo de reJa- no terreno do religioso, pois a metafísica de
- ,,}()fi
ta dominante nos anos de 1960, Deleuze man- de ir mais adiante em um descentramento do çoes Deleuze recusa a pertinência de um discurso
homem para melhor reemergi-lo em seu meio A ontologia, tal como a concebe Deleuze, de ordem teológica, que ele situa em uma ex-
tém essa direção, essencial para ele, em suas
vivo e reencontrar assim a unidade perdida, de deve ser sempre indexada ao dever-ser. É por terioridade absoluta em relação à indagação
duas obras publicadas em 1968 e 1969. Contu-
desumanizar o homem para melhor humani- isso que ele se qualifica sem reservas como filosófica. Seu problema é encarnar o melhor
do, "não se deve fazer de Deleuze uma espécie
zar a natureza, naquilo que Pierre Montebello "empirista transcendental". o que o aproxima possível o filósofo, justamente separando es-
de OVNl da filosofia. Ele se inscreve em uma
qualifica de "a mais humana das metafísicas de Whitehead: '1\s categorias pertencem ao ses dois campos incomensuráveis e colocando
tradição e inventa sua tradição", adverte com
97 do cosmos e a mais cósmica das metafísicas mundo da representação, e a filosofia foi ten- apenas questões que podem retornar à filoso-
muita pertinência Pierre Montebello • Como
do homem posteriores à revolução copernica- tada com frequência a opor a elas noções de fia. Nesse ponto fundamental, como mostra
já vimos, há todos esses autores clássicos da
na"101. Assim, a questão não era exumar a velha' outra natureza, realmente abertas, testemu- Arnaud Villani, os caminhos se separam entre
história da filosofia revisitados por Deleuze,
metafísica que concede demais ao mesmo, à nhando um sentido pluralista e crítico da ldeia, um Deleuze que recusa toda transcendência e
particularmente a tríade vitalista constituída um Whitehead cuja filosofia se transforma em
identidade do modelo, mas de construir uma existenciais, perceptos, e a lista de noções em-
por Bergson, Espinosa e Nietzsche. Pode-se "soteriologia'>~lt.
nova metafísica, fazendo ressurgir uma filoso- pírico-ideais que se encontra em Whitehead, e
notar também uma concordância surpreen- que faz de Process and Reality um dos maiores O último texto de Deleuze publicado em
fia da Natureza que abre espaço ao desenvolvi-
dente com aquilo que Pierre Montebello quali- 107
livros de filosofia moderna • Mais tarde, em vida, algumas semanas antes de seu faleci-
98 mento de todas as diferenças, pois "o ser está
fica como sendo "o outro metafísicó' • A Dobra, Deleuze se apoia mais firmemente mento, e que tem um valor quase testamentá~
efetivamente do lado da diferença, nem uno
A ruptura moderna em todos os aspectos rio, é ainda uma afirmação metafísica: "Pode-
nem múltipló'w2• ainda nas teses de Whitehead a propósito da
enquanto revolução copérnico-galileana esta- natureza do acontecimento como vibração -se dizer da pura imanência que ela é UMA
O problema fundamental que colocam
belece um corte entre o mundo aqui de baixo contendo uma infinidade de harmônicos. Ele
2
VIDA, e nada mais"u • Nesta última ocasião,
esses metafísicos é justamente a incapacida-
e a autoridade celeste abrindo-se para o infi- encontra em Whitehead, assim como em Berg- Deleuze mobiliza um filósofo pouco citado
de tanto da ciência quanto do racionalismo
nito, e uma matematização da natureza, uma son, a pergunta para saber como uma produ~ por ele até ali: Fichte, que, em seus últimos
em geral de pensar a multiplicidade de nosso
evacuação do sujeito pensante. Ela submete ção subjetiva é capaz de criatividade: "Para trabalhos, sobretudo em sua Iniciação à Vida
mundo. Assim. Tarde, que, corno vimos, teve
as categorias do espaço-tempo a uma relação Whitehead, o indivíduo é criatividade, forma- Feliz, consegue superar as aporias da sepa-
uma enorme importância para Deleuze. ten-
de exterioridade que se prolonga com o cogito ta compreender a gênese das diferenças mais ção de um Novo" 108• Deleuze é um empirista ração entre o objeto e o sujeito. Como assi-
cartesiano e com a crítica kantiana. Toda essa ínfimas: "1àrde lança a hipótese de que a na- transcendental à maneira de Whitehead, com nala o especialista do pensamento fichtiano
evolução provocou uma crise do pensamento tureza é a constelação cósmica das pequenas a convicção de que o abstrato não explica, mas Jean-Christophe Goddard, poderia causar sur-
metafísico e um primado concedido ao domí- 103
diferenças monádicas" • Não se trata de virar deve ser explicado, e que não se trata de atingir presa ver assim Deleuze mobilizar Fichte. con-
nio propriamente científico que é autonomi- as costas para a ciência, pois suas descobertas as leis do universal, mas de discernir as condi- siderado o pensador por excelência do sujeito,
zado graças às suas conquistas sempre novas, são absolutamente essenciais para compreen- ções da produção do novo, o que implica partir mas seria ignorar a leitura que haviam feito
mas cada vez mais separado da unidade postu- der melhor tal dispersão de heterogeneidades, dos estados de coisas que não podem ser senão dele os primeiros mestres de Deleuze, Jean
lada até então entre o homem e o cosmos. Na e sim de religá-la ao infinito do universo. Nesse multiplicidades. Há uma grande proximidade Hyppolite ou Victor Goldschmidt. Estes últi-
virada do século XlX para o século XX, alguns plano, a explicação flsica logo topa com seus entre esse aventureiro de devires plurais que mos apresentaram a compreensão do trans-
pensadores tentaram refundar essa unidade limites, pois suas leis não levam em conta as é Whitehead, para quem "fixar limites à espe- cendental fichtiano como campo sem sujeito
109
rompida entre a experiência humana e essa relações laterais, transversais das mônadas culação é trair o futuró' e o grande viajante da produção do sentido, como "imanência in~
unidade originária: "Esse foi um momento ex- entre elas, nem sua ação de interpenetração: "imóvel" que é Deleuze. cujas viagens são de or- tegral colocada no fundamento, como campo
traordinário de criação filosófica'". A indaga- "Cada átomo é um universo em projeto", es- dem especulativa. Ele também converge com a~subjetivo: 'Reencontrando Fichte à véspera

ção sobre a unidade do Ser ressurgiu graças a 104


creve Tarde • Procurando reencontrar uma Whitehead em sua crítica de um cartesianismo d·e sua morte, Deleuze simplesmente retor-
uma renovação profunda da indagação metafí- unidade, ter acesso à univocidade do mundo, que isola a razão do resto do mundo, separa-a nava ao que havia sido o ponto de partida de
sica. Longe de procurar refundar essa unidade esses pensadores se agarram a todas as for~ da alma e da matéria. Tanto em um como no todo seu trabalho filosóficó" 113 • A substituição
por meio de uma interioridade maior do sujei- mas de dualismo. Descobre-se ali um adversá- outro, igualmente metafísicos, cantata-se uma da intencionalidade pela intuição intelectiva
to pensante, d.~ um primado do cogito, trata-se rio comum a Deleuze com a ideia de que se "insistência em fazer valer a plena realidade do e formadora da imagem, mediadora, também
agora de pôr em evidência a heterogeneidade pode superar a oposição entre matéria e espí- virtual, ainda que não seja atual" 110• reaproxima Deleuze de Fichte em sua recusa
144 Dosse Gilles Deleuze & Félix

comum do objetivismo e do pensamento da 30. Victor GOLDSCHMIDT, Le SystBme stoicíen et 54. !bid., p. 106. sources de la pensée de Gilles Deleuze 1, op. cit.,
representação, substituindo-os por outra me- l'idée de temps, Vrin, Paris, 1953. 55. Anne SAUVAGNARGUES, Deleuze et l'art, op. p.l96·197.
tafísica: "O que a imagem-fantasia, a imagem 31. Gilles DELEUZE, LS, p. 155. cit.. p. 87 ·88. 82. Gilbert SIMONDON, L'Jndividu et sa genese
sonhada sem sonhador nem mundo sonhado, 32. lbid., p. 158. 56. Bernard Andrieu, entrevista com o autor. physico-biologique, op. cit., p. 260.
revela para Fichte, como para Deleuze, é o ser 33. François Zourabichvili, entrevista com o au- 57. Gilles DELEUZE, DR, p. 139. 83. Gilles DE!.EUZE. DR, p. 278.
em si, o ser verdadeiro, o Ser-Uno como via e tor. 58. !bid., p. 140. 84. fbíd., p. 240.
atividade ilimitadi,j 14• 34. Gilles DELEUZE, PP, p. 229. 59. Gi!les DELEUZE, LS, p. 218. 85. fbid., p. 239.
35. François ZOURABJCHVILI, Le Vocabulaire de 60. lbid., p. 234. 86. Jbid., p. 240.
Deleuze, op. cit., p. 43. 6!. !bid., p. 24 I. 87. Gilles DELEUZE, DR, p. 278.
Notas 36. Gilles DELEUZE, posfácio a MELVILLE, Bar· 62. lbid., p. 246. 88. François CHOMARAT, "Geoffroy Saint-Hi-
I. Gilles DELEUZE, DR, p. I. tleby, Flammarion, Paris, 1989; reproduzido laire", em Stéüm LECLERQ (sob adir.), Aux
63. Gil!es DELEUZE, DR, p. 104, nota L
2. !bid., p. 82. em CC, p. 89·114. sources de la pensée de Gi!Les Deleuze 1, op. cit.,
64. Gabriel TARDE, "La variation universelle", em
3. Ibid., p. 85. 37. Gilles DELEUZE. LS, p. 174. Essais et mélanges sociologiques, Stock e Mas- p. 181.
4, !bid., p. 168. 38. joe BOUSQUET, citado por Gilles DELEUZE, son, 1895, p. 391. 89. Raymond RUYER, "Le psychologique et le vi-
5. !bid., p. 92. LS, p. 174. 65. Gabriel TARDE. Les Lois de l'imitation, Alcan, tal", Bul!etin de La Societé française de philoso-
39. Alain BEAULIEU, "Gilles Deleuze et les stol- Paris, 1890. phie, 26 de novembro ele 1938, A. Colin, 1939,
6. Gilles DELEUZE, LS, !969, p.l53.
ciens", em Alain BEAULIEU (sob adir.), Gi/les p.l59·l95.
7. Gilles DELEUZE, DR, p. 269. 66. Gilles DELEUZE. Félix GUATTARI, MP, p. 267.
Deieuze, héritage philosophique, PUF, Paris, 90. Gilles DELEUZE, "Réponses à une série de
8. Gilles DELEUZE, Le Pli. Leibníz et !e baroque, 67, Gilles Deleuze, curso na universidade de Pa~
2005, p. 50. questions", nov. 1981, em Arnaud VILLAl"\fi, La
Minuit, Paris, 1988 (doravante citado Pli). ris-VIII, 7 de janeiro de 1986, arquivos sonoros,
40. Ele não designa um objeto presente, mas ao Guêpe et l'Orchídée, op. cit., p. 130.
9. Gilles DELEUZE, DR, p. 269. BNF.
mesmo tempo passado e por vir, quebran~ 91. Gilles Deleuze, carta de 13 de junho de 1990 a
:I' 10. !bid., p, 293. do assim todo impacto da negatividade em
68. Gilles DELEUZE, Félix GUATTARI, MP, p. 267.
69. Gilles Deleuze, curso na universidade de Pa-
Jean-Clet MARTIN, Variations. La phiLosophie
11. Jbid., p. 205. proposições disjuntivas do tipo: "Como dizia de Gilles Deleuze, Payot, Paris, 1993, p. 7.
!I' 12. Gilles DELEUZE, DR, p. 45. Crisipo: 'Se você não perdeu uma coisa, você
ris-VIU, 7 de janeiro de 1986, arquivos sonoros,
Ir 92. Alain BEAULIEU, "Gilles Deleuze et les
it BNF.
13. !bid., p, 74. a tem; ora, você não perdeu os chifres, por- stolciens", em Alain BEAULIEU (sob adir.),
'~li tanto você tem chifres:" (Chrisippe em GILES 70. Éric ALLIEZ, prefácio a CEuvres de Gabriel
li 14. lbid.,p. 79. Gilles Deleuze, héritage philosophique, op. cit.,
li\• DELEUZE, LS, p. !61). Por essas proposições, Tarde, vol. 1, Monadologie et sociologie, Synthé- p. 52.
15, Ibid., p. 157. labo, Paris, 1999, p. li.
Deleuze pretende criar movimento no funcio- 93. Gilles DELEUZE, DI\, p. 52.
16. Ibid., p. 255. 71. !bid., p. 23.
namento da lógica.
17. lbid., p. 387. 94. Ver capítulo "1977: année de tous les com-
41. Gilles Deleuze, Le Magazine littéraire, setem- 72. fbid., p. 25. bats".
18. Ibid., p. 388. bro de 1988, entrevista com Raymond Bellour 73. Gilles DELEUZE, DR, p. 317.
95. Gilles DELEUZE, DR, p. 53.
19. Guillaume Sibertin-Blanc, entrevista com o e François Ewald; reproduzido em PP, p. 212. 74. Gilbert SIMONDON, L1ndividu et sa gen6se
autor. 96. !bid., p. 353.
42. Alaín BEAULIEU, "Gilles Deleuze et les stol- physico-biologique, PUF, Paris, 1964.
20. Gilles DELEUZE, DR, p. 389. 97. Pierre MontebeUo, entrevista com o autor.
ciens", op. cit., p. 63. 75. f>ascal Chabot, entrevista com o autor.
21. Gilles DELEUZE, LS, p. 210. 98. Pierre MONTEBELLO, üiutre Métaphysique,
43. Gilles DELEUZE, Michel Foucault, :Minuit, Pa- 76. !bid.
DDB, Bruxelas, 2003.
22. Alain BEAUL!EU, "Husserl", em Stéfan LE· ris, 1986, p. 92 (doravante citado F). 77, Gilbert SIMONDON, L'Jndividu et sa ge-
CLERQ, Aux sources-de la pensée de Gilles De- 99. Ibid., p. 8.
44. Gilles DELEUZE. CC, p. 110. nese physico-biologique, op. cit.; resenha de
leuze 1, Sils Maria, Mons, 2005, p. 84. 100. Jbid., p. 10.
45. Gil!es DELEUZE, SPP, p. 170. Gilles DELEUZE, "Gilbert Simondon, l'indi·
23. Paul VIRILIO, Voyage d'hiver, entrevista com vidu et sa genese physico~biologique", Revue 101. Ibid., p. 12.
46. Gilles DELEUZE, LS, p. 168.
Marianne Brausch, ed. ParenthCses, Paris, philosophique de la France et de l'étranger, 102. Gilles DELEUZE, "Bergson, 1859·194!'', em M.
47. Gilles DELEUZE, Félix GUATTARI, Qph, p. 71.
1997, p. 47. vol. CLVI, n. 1-3, janeiro~março de 1966, p. MERLEAU·PONTY (sob a dir.), Les Philoso·
48. Gilles DELEUZE, DR, p. 146,
24. Gilles DELEUZE, LS, p. 33. 115·118; reproduzido em Gilles DELEUZE, phes cél8bres, Mazenod, Paris, 1956; reprodu-
49. fbid., p. 327. zido em lD, p. 33.
25, !bid., p.ll9. ID, p. 120·124.
50. Gilles DELEUZE, Nph, p. 44. 103. Pierre MONTEBELLO, L'Autre Métaphysique,
26. Jbid., p. 124. 78. !bid., em JD, p. 120·121.
51. Bernard ANDRJEU, "Deleuze, la biologie et la op. cit., p. 113.
27. !bid., p. 125. 79. Ibid., p. 123.
vivant des corps", em Concepts, Gilles Deleuze, 104. Gabriel TARDE, La Logique sacia/e, Institut
28. DiogEme LAERCE, citado por Gilles Deleuze, 80. Ibid., p. 124.
ed. Sils Maria, Mons, 2002, p. 94. Synthélabo, Paris, 1999, p. 231.
LS, p.l67. 81. Anne SAUVAGNARGUES, "Gilbert Simon·
52. !bid., p. 92. 105. Gabriel TAHDE, Monadologie et sociologie, op.
29. Gilles DELE,UZE, LS, p. 172. don", em Stéfan LECLERQ (sob a dir.), Aux
53. Gilles DELEUZE, LS, p.I06. cit., p. 44.
146

106. NJETZSCHE, CEuves complktes, Fragments pos- !li. Arnaud VILLAl\íl, "Deleuze e Whitehead", op.

9
thumes. XIV, 14 (93). cit.• p. 256.
107. Gilles DELEUZE. DR, p. 364. 112. Gilles DELEUZE, "L'immanence: une vi e~, Phi-
108. Gilles DELEUZE. Pli, p. 105. losophie, n. 47, setembro de 1995, p. 3-7; repro-
109. WHITEHEAD, La Fonction de La Raison, et duzido em RF, p. 360.
atllres essais, Payot, Paris, 1969, p. 156. 113. jean-Christophe GODDARD, Fichte. L'émanci-
110. Arnaud VlLLANI, "Deleuze et Whitehead", Re- pation philosophique, PUE Paris, 2003, p. 8.
114. Ibid., p.!5.
vue de métaphysique et de mora/e, abriHunho Maio de 68: a ruptura instauradora
1996, p. 247.

Nesse mês de maio de 1968, o "movimen- mas Cohn-Bendit está acompanhado então de
to de 22 de março'' reúne-se todos os dias para 25 pessoas. e a gente decide que todos devem
1
preparar manifestações cada vez mais amplas voltar para lá, com]uly, Sauvageot, Geismar" •
e combativas. Quando Anne Querrien, estu- Daniel Cohn-Bendit e os líderes do movimen-
dante de Nanterre, amiga de Deleuze e pes- to estão um pouco irritados com as manobras
quisadora ativa do CERFI, chega com a mulher em curso para conter a contestação crescen-
de Serge July. Évelyne, para a reunião do mo- te. Os representantes do SNESup'', Alain Fes-
vimento, na noite 8 de maio, encontra a por- mar, e da UNEF, Alain Sauvageot, passaram o
ta fechada com o seguinte aviso: "Estamos na dia todo negociando com os representantes
casa de Félix". De fato, os militantes do 22 de do poder em busca do retorno à calma após a
março realizam sua reunião na sede do CERFI, grande manifestação de 7 de maio, que termi-
no número 17 da Avenue de Verzy, no 17o. dis- nou nos Champs-Élysées.
trito de Paris. Na Avenue de Verzy, procura-se desespe-
radamente manter vivo o movimento, quan-
do por volta de 3 horas da manhã Alain Geis-
Como um peixe na água mar empurra a porta. Está decomposto pelo
cansaço, e pela tensão por ele vivida entre a
Fortuitamente, o CERFI se dissolve no responsabilidade sindical, que o obriga a ne~
"movimento de 22 de marçó' em um momento gociar, e suas convicções revolucionárias, que
crucial da contestação de Maio. Nessa noite de o levam à inflexibilidade: "Diante dos enraive-
8 de maio, o CERF! tinha previsto preparar um cidos do 22 de março, ele veio se explicar, tão
número especial de sua revista sobre a con- intenso é seu desejo de mergulhar i/fico nessa
testação estudantil: ''A gente tinha portanto 2
rava transbordante" • Geismar explica com lá-
marcado reunião com Cohn-Bendit e alguns grimas nos olhos que teve de admitir o inacei-
outros na Avenue de Verzy no dia 8 à noite, tável, conseguiu a libertação dos estu