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TODOS JÁ ENCONTRAMOS aquele homem que diz que coisas estranhas lhe

aconteceram, mas não acredita que tenham sido sobrenaturais. Minha posição pessoal é o oposto desta. Acredito no sobrenatural por uma questão de intelecto

e

razão, não por uma questão de experiência pessoal. Não vejo fantasmas; vejo apenas sua probabilidade inerente. Mas esta é inteiramente uma questão de mera inteligência; não é nem mesmo de impulsos. Meus nervos e meu corpo são inteiramente deste mundo, muito mundanos. Mas em pessoas com esse temperamento um incidente estranho freqüentemente deixará uma impressão peculiar. E a circunstância mais estranha de todas as que já me ocorreram ocorreu agora há pouco. Consistiu em nada menos do que eu jogar um jogo, e jogá-lo consideravelmente bem durante uns dezessete minutos consecutivos. O fantasma de meu avô me deixaria menos espantado. Numa dessas tardes azuis e muito quentes, encontrei-me, para meu inexprimível assombro, jogando um jogo chamado croquet. Eu imaginava que ele pertencia à época de Leach[ 8 ] e Anthony Trollope[ 9 ], e me omitira em providenciar uma daquelas longas e exuberantes suíças que são realmente essenciais para uma cena dessas. Joguei com um homem que chamaremos Parkinson, com quem tive uma discussão semi-filosófica que durou a partida inteira. Está profundamente arraigado em minha mente que levei a melhor na discussão; mas é certo e indubitável que levei a pior no jogo. “Oh, Parkinson, Parkinson!”, eu exclamava, dando-lhe golpes carinhosos na cabeça com um taco, “quão longe você realmente está do puro amor pelo esporte – você que joga bem. Somos apenas nós que jogamos mal, os que amam o Jogo em si mesmo. Você ama a glória; você ama o aplauso; você ama a voz estrondosa da vitória; você não ama o croquet. Você não amará o croquet até amar ser derrotado no croquet. Somos nós, os negligentes, que adoramos a ocupação em abstrato. É para nós que ela é a arte pela arte. Se pudermos ver a própria Croquet em pessoa (se é que me posso expressar assim), ficaremos