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A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA DE UMA

MICRORREGIÃO DO SUDOESTE DO PARANÁ NO CONTEXTO DE


FRONTEIRA: A EPISTEMOLOGIA DA PRÁTICA DOCENTE

Cristiane de Quadros, UFFS/Realeza1


Ronaldo Aurélio Gimenes, UFFS/Realeza2
Marilene Aparecida Lemos, UFFS/Realeza3
Jéssica Pauletti, UFFS/Realeza4
Neusa de Fátima Gonçalves Veiga, UFFS/Realeza5

Resumo: Objetiva-se investigar a história das escolas (rurais, urbanas, interculturais de


fronteira e especiais/inclusivas) e a formação de professores a partir de suas memórias e
das epistemologias de suas práticas pedagógicas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, haja
vista a necessidade de investigarmos a constituição das escolas e suas práticas educativas
nos municípios que compõem essa região para então investir no processo de formação de
professores e na organização de um Centro de Memórias. Um dos recortes da presente
pesquisa diz respeito às escolas de fronteira vinculadas ao Programa Escolas Interculturais
de Fronteira (PEIF), realizado pelo Ministério da Educação do Brasil, em parceria com os
Ministérios de Educação de países vizinhos e com as Secretarias Estaduais e Municipais de
Educação. As cidades envolvidas nesse recorte de pesquisa do grupo são: as cidades de
Santo Antônio do Sudoeste (PR) que faz fronteira com o município argentino de San
Antonio, localizado na província de Misiones e Dionísio Cerqueira (SC) conurbada com
Barracão (PR) e Bernardo de Irigoyen (AR). A expectativa com a constituição de um
centro de memórias é de contribuir para formar uma massa documental que permita
subsidiar as pesquisas atuais e futuras sobre a formação de professores da região. A partir
da pesquisa e extensão, apropriar-se das experiências para melhor qualificar os alunos em
formação nas licenciaturas; dar visibilidade ao processo de formação de professores em
uma perspectiva que conceba as relações histórico-sociais, econômicas e culturais.

Palavras-chave: formação de professores, memórias, Educação Básica, interculturalidade.

1. Tecendo os fios da trama inicial

1
Professora adjunta da Universidade Federal da Fronteira Sul. Doutora em Educação pela UFG. Pós-doutoranda
PPGEDU – UFG/Catalão. Líder do grupo de pesquisa - (Trans) Formação Inicial, Permanente e Contínua de Professores:
processos teóricos metodológicos da ensinagem (Tripec). Email: Cristiane.quadros@uffs.edu.br.
2 Professor adjunto da Universidade Federal da Fronteira Sul. Doutor em Educação pela UFSCAR. Membro do grupo de

pesquisa - (Trans) Formação Inicial, Permanente e Contínua de Professores: processos teóricos metodológicos da
ensinagem (Tripec). Email: Ronaldo.garcia@uffs.edu.br.
3Professora assistente da Universidade Federal da Fronteira Sul. Doutoranda do Programa de Linguística (IEL/Unicamp),

sob a orientação da ProfªDrª Carolina María Rodriguez Zuccolillo. Membro do grupo de pesquisa - (Trans) Formação
Inicial, Permanente e Contínua de Professores: processos teóricos metodológicos da ensinagem (Tripec). E-mail:
marilene.lemos@uffs.edu.br.
4 Acadêmica do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e bolsista do PROICT/UFFS. E-mail:

paulettijessica@gmail.com
5 Acadêmica do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e bolsista do PROICT/UFFS. E-mail:

neusafgveiga@gmail.com
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Nosso compromisso e responsabilidade com a formação humana, a qualificação


profissional/professor, a inclusão social e a preservação das riquezas naturais, combatendo
as desigualdades regionais, nos mobilizam para a realização desta pesquisa. Neste
contexto, verifica-se que a história da região Sudoeste do Paraná ainda apresenta capítulos
a serem construídos e, as memórias precisam ser preservadas como elemento fundante para
pensar estratégias teórico-práticas e ações frente ao processo de formação de professores.
Para tanto, a indagação que nos mobiliza em busca de subsídios para nossa atuação, diz
respeito ao resgate dessa memória sobre a constituição das escolas da região Sudoeste do
Paraná. Sendo assim, objetiva-se investigar a história das escolas (rurais, urbanas,
interculturais de fronteira e especiais/inclusivas) e a formação de professores a partir de
suas memórias e das epistemologias de suas práticas pedagógicas.
O recorte ora apresentado, diz respeito as escolas de fronteira que fazem parte do
PEIF (Programa Escolas Interculturais de Fronteira). Trata-se de uma pesquisa qualitativa,
na perspectiva de aproximação de nosso objeto, na busca da valorização do mesmo em
suas especificidades e aprofundando-se nos dados materializados. Para além da formação
permanente dos professores em serviço, temos a expectativa de constituir um centro de
memórias, contribuindo assim, para formar uma massa documental que permita subsidiar
as pesquisas atuais e futuras sobre a formação de professores da região.

2. A região de fronteira: breve caracterização

No início do século XX a região do sudoeste do Paraná era parcialmente povoada,


principalmente as áreas mais próximas ao centro do estado. Precisamente na região do
atual município de Palmas - PR (SANTOS, 2005), no final do século XVIII, surgiram as
primeiras fazendas destinadas à criação de gado aproveitando as condições geográficas da
região. As demais áreas eram ainda pouco exploradas com marcante presença de povos
indígenas. Durante muito tempo esteve sujeita a extração de madeira e as chamadas drogas
do sertão.
Foi somente na segunda metade do século XX, interessado em ocupar a área,
principalmente a região de fronteira, que o governo estadual estimulou a ocupação da
região. Inicialmente a ocupação das terras devolutas esteve a cargo da Colônia Agrícola
General Osório (CANGO). Além daqueles instalados pela referida colônia, outros grupos
independentes se apossaram da terra, ora comprando áreas de outros posseiros ora
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simplesmente se instalando em áreas que aparentemente não tinham proprietários. É


interessante verificar como observou Foweraker (1982) que o processo de ocupação da
região ocorre num período de crescente concentração urbana com a expansão da
industrialização e a chegada ao país das grandes corporações multinacionais. A expansão
da área agrícola e a ocupação de áreas de fronteira era parte integrante da política
governamental que vigorava no período. A própria transferência da capital para o interior
do país já era um indício claro desse projeto.
A região Sudoeste do Paraná juntamente com as regiões Norte do Rio Grande do
Sul e o Oeste de Santa Catarina, compreende a chamada mesorregião, grande fronteira do
Mercosul. "Esta Mesorregião localiza-se em área de fronteira com a Argentina e
compreende 396 municípios, com área total de 120,8 mil quilômetros quadrados e
população de 3,8 milhões de habitantes" (UFFS, 2012).
A maior parte das microrregiões que compreendem a Mesorregião Grande Fronteira
do Mercosul (UFFS, 2012) são classificadas como estagnadas. Os indicadores demonstram
que a mesorregião, em relação à Região Sul e ao Brasil, vem empobrecendo. A mesma
possui uma identidade histórica forjada desde a chegada dos imigrantes europeus. O
processo de colonização trouxe consigo novos valores, formas de organização da produção
e da vida comunitária, que implicaram na quase exclusão das populações nativas e negras.
Ainda hoje, a forte presença de imigrantes europeus, juntamente com remanescentes de
indígenas e mestiços, é uma característica marcante. A religiosidade e o importante papel
da igreja na organização do povo é também outro elemento característico da região.

3. A formação permanente de professores no Programa Escolas Interculturais de


Fronteira

Entendemos, em nosso grupo de pesquisa, que estaremos envolvidos com o


levantamento de dados e análise dos mesmos por um tempo considerável, haja vista a
necessidade de investigarmos a constituição das escolas e suas práticas educativas em 49
municípios que compõem essa região para a então investir no processo de formação
permanente de professores e na organização do Centro de Memórias. Neste sentido, um
dos recortes da presente pesquisa, diz respeito às escolas de fronteira localizadas em duas
cidades, pertencentes ao Programa Escolas Interculturais de Fronteira (PEIF), realizado
pelo Ministério da Educação do Brasil, em parceria com os Ministérios de Educação de
países vizinhos e com as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação. Atualmente, o
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Programa é desenvolvido em treze escolas brasileiras da faixa de fronteira e treze escolas


nos demais países envolvidos: Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela.
O Projeto é desenvolvido em cidades brasileiras da faixa de fronteira de um lado e
em suas respectivas cidades gêmeas de países que fazem fronteira com o Brasil, de outro.
Seu objetivo maior é o de promover a integração regional por meio da educação
intercultural, considerando para isso os contextos multilíngues ou bilíngues existentes nas
fronteiras, tendo como consequência a ampliação das oportunidades do aprendizado das
línguas em uso e trocas culturais. O foco é a integração, a quebra de fronteira, visto que no
PEIF as aulas não se resumem ao ensino DE língua estrangeira, mas o ensino EM língua
estrangeira, criando um ambiente real de bilinguismo para os alunos.
As cidades envolvidas nesse recorte de pesquisa do grupo são: as cidades de Santo
Antônio do Sudoeste (PR) que faz fronteira com o município argentino de San Antonio,
localizado na província de Misiones e Barracão (PR) conurbada com a cidade de Dionísio
Cerqueira (Santa Catarina), e Bernardo de Irigoyen (Argentina) com as quais forma uma
tríplice fronteira (Argentina, Santa Catarina e Paraná). Uma vez já envolvidos com o
programa Escolas Interculturais de Fronteira, surge a necessidade de compreender melhor
a constituição das escolas e as práticas pedagógicas existentes nessa micro-região. O
segundo recorte do projeto corresponde às cidades de Realeza e Santa Isabel D’Oeste no
Paraná, devido a demanda de formação de professores advinda das mesmas, no entanto,
não será objeto de nossa discussão para o momento.
Neste trabalho iremos abordar as ações desenvolvidas no PROPEIF (Projeto do
Curso de Formação do Programa Escola Intercultural da Fronteira - Construção Criativa
Coletiva). Tal projeto compõe uma das ações do PEIF, com o apoio do Ministério da
Educação (MEC) em parceria com os Ministérios da Educação dos países da faixa de
fronteira. O objetivo é potencializar o trabalho didático-pedagógico no referido programa a
ser desenvolvido nas cidades participantes.
A primeira ação do projeto foi a organização e realização do I Encontro
Intercultural do PEIF - Paraná, Santa Catarina e Misiones que ocorreu nos dias 20 e 21 de
fevereiro de 2014 no Campus de Realeza, da Universidade Federal da Fronteira Sul -
UFFS. Nesse evento participaram os professores e gestores das escolas envolvidas no
projeto do Brasil e da Argentina, professores da Universidad Nacional de Misiones -
UNaM e docentes da UFFS. Nessa ocasião foi possível nosso primeiro contato com os
diferentes participantes do projeto para discutirmos coletivamente a proposta pedagógica
do PEIF. O objetivo do encontro foi desenvolver a metodologia da Pedagogia de Projetos
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que orienta as ações do programa. Para tanto, organizamos diferentes atividades que
envolviam sensibilização, trabalhos em grupo, leituras coletivas, apresentação das
diretrizes e dos documentos oficiais que institui o programa no âmbito dos países do
Mercosul, e momentos de confraternização que propiciaram maior vínculo e
comprometimento com a proposta intercultural.
Nas reuniões posteriores decidimos organizar duas equipes de trabalho constituídas
por professores da UFFS, juntamente com alunos bolsistas, voluntários e tutores para atuar
nas cidades de Dionísio Cerqueira (SC) e Bernardo de Irigoyen (Argentina); Santo Antônio
do Sudoeste (PR) e San Antonio (Argentina). As ações desenvolvidas pelas respectivas
equipes estão norteadas pelos eixos temáticos que estabelecemos no projeto: ações e
intervenções pedagógicas em escolas de fronteira; infância, alteridade e interculturalidade;
aspectos linguísticos na fronteira; educação especial-inclusiva; libras; língua espanhola; a
construção de repertório didático em ciências naturais; a construção de repertório didático
em expressões artísticas e orientação pedagógica.
Tendo em vista as peculiaridades do projeto, a equipe de trabalho de Santo Antônio
do Sudoeste (PR), da qual fazemos parte, promoveu um encontro na Escola Municipal
Pedro dos Santos, nessa cidade, no final do mês de março, entre os professores da
Argentina e do Brasil. Naquela ocasião a escola estava em processo de planejamento e nos
ofereceu a oportunidade de discutirmos com eles as atividades que seriam desenvolvidas
ao longo do ano letivo de 2014. Como as escolas de Santo Antônio do Sudoeste e San
Antonio ingressaram recentemente no PEIF elas ainda não desenvolveram as atividades do
“Cruce”. Em função disso, entendemos que nesse período seria oportuno iniciarmos uma
discussão conjunta sobre as diferentes possibilidades das metodologias da Pedagogia de
Projetos, numa perspectiva de instrumentalizar os docentes a vislumbrarem novas formas
de trabalho pedagógico.
Entre as atividades desenvolvidas na escola de Santo Antônio do Sudoeste temos as
oficinas de ensino de ciências. No início procuramos conhecer um pouco da prática de sala
de aula. As professoras e professores foram convidados a falar um pouco daquilo que
desenvolvem com seus alunos no que diz respeito ao ensino de ciências. No entanto,
verificamos que as exposições orais eram muito gerais e diziam pouco do que efetivamente
era realizado. Depois de algumas insistências de nossa parte alguns começaram a revelar
algo mais de suas experiências. Uma das docentes, que também é aluna de graduação em
Ciências Biológicas e que trabalha com sala de alfabetização, contou que vem introduzindo
palavras como células, DNA, ecologia e outras em suas atividades de leitura e escrita.
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Outra professora narrou um pouco do projeto que vem construindo com as crianças sobre
noções de higiene e cuidados pessoais. Logo percebemos que havia uma diversidade
grande de práticas, porém tínhamos ainda esparsas informações sobre os projetos da escola
e a forma como tudo ocorria. Diante disso, decidimos desenvolver oficinas que iniciassem
uma conversa sobre a Pedagogia de Projetos a partir de algumas provocações que
suscitassem dúvidas, questionamentos, debates para a possível construção de uma proposta
coletiva com a escola e o futuro trabalho com o “cruce”.
Outra iniciativa que acontece paralelamente às oficinas de ensino de ciências é o
curso de Língua Espanhola que inaugurou, no dia 03 de abril, nossas ações na Escola
Pedro dos Santos em Santo Antônio do Sudoeste. Tal curso tem como objetivo o estudo
introdutório da língua espanhola: leitura e produção de textos orais e escritos de diferentes
gêneros do discurso, fundamentalmente aqueles que circulam no espaço de atuação dos
professores nas escolas interculturais de fronteira. O projeto prevê 40 horas de curso, as
quais serão distribuídas em encontros quinzenais de 1 (uma) hora de duração até o término
da vigência do projeto (novembro/2015). Esse primeiro encontro foi valioso tanto para nós
formadores como para os professores participantes, pois construímos juntos os principais
temas que serão abordados no curso, a partir de seus próprios interesses, anseios e
expectativas.
A troca de experiências que temos realizado nos encontros tem sido muito rica, pois
os professores se sentem mais à vontade para arriscar falar em espanhol, enquanto buscam
a efetivação do aprendizado; e em uma proposta articulada, agregam informações sobre
seu espaço cultural e familiar que nos auxiliam a propor atividades que funcionam também
como sugestões de como eles podem colocar em prática em sala de aula a metodologia de
projetos. E é justamente isso o que buscamos: mobilizar o conhecimento da língua
espanhola nesse “espaço fronteiriço” (STURZA, 2006), para que assim, os objetivos que se
traçam e que vem sendo construídos por meio do PEIF sejam alcançados: uma proposta
cultural que perpasse os currículos. Portanto, se faz necessário que adentremos cada vez
mais nos espaços de funcionamento da língua espanhola.
Nas cidades de Dionísio Cerqueira e Bernardo de Irigoyen as escolas que
participam do PEIF vivenciam a experiência a partir da metodologia da Pedagogia de
Projetos, entretanto, a mediação por parte dos docentes da Universidade ocorre de forma
diferenciada a de Santo Antônio, uma vez que a escola já está vinculada ao programa há
cinco anos. Nessas escolas ocorre o “cruce” todas as terças e quintas-feiras pela manhã e à
tarde - os brasileiros ministram aula EM e não DE português aos alunos argentinos e os
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professores argentinos ministram aula EM espanhol e não DE espanhol aos alunos


brasileiros. Alguns professores são contratados especificamente para trabalhar no PEIF e
outros dobram atividade em suas salas de aula e no projeto.
A atividade em Dionísio Cerqueira compreende a orientação dos professores que
fazem o “cruce”, no que diz respeito ao planejamento e execução de todas as etapas da
proposta a partir da Pedagogia de Projetos (HERNANDEZ, 1998). O trabalho com a
escola, neste ano de 2014 teve início no mês de março, no qual realizamos um encontro de
formação em Dionísio Cerqueira, onde localiza-se a escola brasileira, em que foi reunido
professores brasileiros e argentinos com o intuito do planejamento das atividades que irão
acontecer durante o ano de 2014. Nesse encontro os gestores das duas escolas, também se
fizeram presentes. No primeiro momento das atividades foi organizado uma dupla de
professores mediadores da universidade responsável em acompanhar o trabalho das
professoras do primeiro ao terceiro ano e outra dupla de professores para acompanhar as
professoras do quarto ao quinto ano do ensino fundamental.
A orientação consiste em planejar e replanejar as atividades organizadas a partir da
Pedagogia de Projetos que vão acontecer ou que já aconteceram nas escolas co-irmãs. A
primeira etapa planejada, avaliada e replanejada foi a etapa da sensibilização. As
professoras durante três semanas, desenvolveram atividades dessa natureza junto aos
alunos da escola argentina e brasileira para coletarem as temáticas de interesse, para o
posterior planejamento do processo de ensino-aprendizagem. No segundo momento, elas
identificaram as temáticas e realizaram, juntamente com os estudantes, sua
problematização com vistas à construção dos projetos de trabalho. As temáticas que
emergiram das etapas de sensibilização e problematização foram: “Os meios de transporte”
– no primeiro ano, “O Sistema Solar” – em um segundo ano, “O surgimento do planeta
Terra” – em outro segundo ano, “Os dinossauros” – no terceiro ano, “A água” – em outro
terceiro ano. Todos os projetos estão sendo desenvolvidos, com pesquisas, curiosidades,
elaboração de maquetes, confecção de livros e outras estratégias para a construção dos
conhecimentos pretendidos.
Poder refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem é fundamental em nossa
proposta de trabalho, pois as professoras envolvidas no projeto se esforçam para planejar,
desenvolver e avaliar o mesmo, juntamente com os professores mediadores oriundos da
universidade, no qual coletivamente, por meio de um processo colaborativo e formativo
encontram uma alternativa de encaminhamento para melhor conduzir o processo. A
metodologia de trabalho desenvolvida nas escolas favorece o processo de formação
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permanente dos (as) professores (as) participantes (as) da proposta, pois possibilita a ação-
reflexão-ação.
O objetivo a ser alcançado posteriormente é a organização e o desenvolvimento dos
projetos de trabalho construídos a partir das temáticas coletadas entre os alunos de cada
sala de aula do ensino fundamental participante do programa, nos dois países. A
finalização dessa etapa reside em um evento de culminância do projeto, em que todas as
professoras e alunos apresentarão o resultado do trabalho realizado a partir de cada
temática levantada. Cada grupo de alunos e professor fará a opção no formato daquilo que
irão apresentar à comunidade local e externa.

4. Considerações finais

A produção historiográfica das últimas décadas é muito rica em diversidade de


temas, abordagens e métodos de investigação, além disso, cada vez mais um intenso
diálogo com outras áreas do conhecimento permitiu vislumbrar novas possibilidades de
interpretar as experiências humanas inseridas em diferentes temporalidades. Entre as
temáticas sempre presentes nas pesquisas atuais está a memória. Durante muito tempo,
concebida como uma preocupação única de memorialistas e autores amadores locais, a
memória ganhou outras dimensões nos estudos que perpassam o individual e o coletivo e
estabelecem um diálogo de múltiplas perspectivas, uma vez que nossas lembranças e
recordações não são estáticas e definitivas. Elas interagem com os espaços, com a cultura
material e com os valores sociais, provocando emoções, esquecimentos, silêncios e
sensações que embora sejam particulares e individuais são também coletivas e difusas
(HALBWACHS , 2004, p.85).
Os museus, os centros de memória ou arquivos também deixaram há muito de ser
um amontoado de coisas que leva as pessoas a refletirem. Nesse exercício de relembrar,
camadas de esquecimentos são removidas e permitem vislumbrar coisas que pareciam
terem sido para sempre sepultadas em nossa caixa de lembranças. São diversos os lugares
da memória, pois as marcas do tempo estão presentes em toda parte, seja nas ruas, prédios,
praças e na paisagem de uma maneira geral. O que torna um centro de memória ou museu
diferente é a disposição proposital de objetos, documentos e utensílios e tantos outros
elementos da cultura material ali presentes que convidam o visitante a pensar sobre si e sua
relação com o mundo que o cerca enquanto sujeito histórico.
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Não se pode negar que durante muito tempo os museus, os centros de memória e os
arquivos procuraram trazer ao público uma visão da história sob a perspectiva dos
vencedores, instituindo heróis, mitos e seus valorosos feitos para o bem do povo e da
comunidade a qual eles pertencem.
Certamente esta é uma marca evidente de nossa formação social e histórica e esses
espaços de memória não foram os únicos locais para celebrar os feitos dos poderosos. Ela
também está presente nos monumentos espalhados pelas cidades, nas construções, nos
livros e outros. Sendo assim, em todos esses espaços também existem evidências de um
contradiscurso que precisa ser identificado, tanto pelo pesquisador que tem isso como uma
das atividades essenciais de seu ofício, como o público leigo, que necessita educar seu
olhar para enxergar as diversas possibilidades de leitura de uma imagem, os silêncios dos
documentos e o desvelar do esquecimento. Logicamente que tudo isso não pode ser feito
sem uma educação de qualidade comprometida com a formação do cidadão.
Aqui acabamos descobrindo uma outra perspectiva para a criação e manutenção dos
espaços de reunião de memória, ou seja, o seu caráter pedagógico. A partir da reunião das
memórias que constituem as escolas da região Sudoeste do Paraná, potencializar-se-á o
estudo das epistemologias das práticas pedagógicas subjacentes a essa realidade e,
consequentemente, organizar-se-á um plano de trabalho para a formação inicial e
permanente nesse contexto.
Como meio interessante de reunir memórias da educação na região do sudoeste do
Paraná para futuras pesquisas e reflexões sobre a formação docente: coleta, seleção e
catalogação de relatos orais, histórias de vida, documentos e material didático também é
uma forma de construir um espaço para preservação da cultura escolar construída na região
Sudoeste do Paraná. Não se trata de uma atividade essencialmente acadêmica, mais do que
isso, deve ser visto como uma oportunidade de interação entre a Universidade e a
população local e regional. Do lado da comunidade é fundamental o contato com os
objetos da memória de outras épocas como forma de rememorar o vivido. Muitos museus
tanto no Brasil como em outros países já perceberam que investir nessa área é muito
importante e disponibilizam vários tipos de serviços para as instituições locais que vão
desde a visita monitorada até mesmo a realização de oficinas temáticas.
Trata-se de um projeto de caráter interdisciplinar envolvendo várias áreas das
ciências humanas (história, antropologia, linguística, sociologia, educação) e também das
ciências naturais, principalmente procurando rastrear a epistemologia das práticas docentes
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contidas nas memórias de professores, gestores, ex-alunos, nos materiais didáticos


utilizados e em todas as fontes que possam trazer possibilidades de análise.
O projeto envolve docentes de diversas áreas do saber (educadores, químicos,
biólogos e linguistas) que poderão contribuir para enxergar o objeto de estudo por
diferentes prismas, ampliando assim a complexidade do tema e suas múltiplas relações. O
envolvimento dos discentes das licenciaturas com o projeto é essencial em uma instituição
que pretende formar profissionais críticos e atuantes como docentes da educação básica
(PPC Letras, 2010). A Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9394/1996) afirma que a formação
dos profissionais da educação deve priorizar a articulação entre teoria e prática. Além de
converter-se em um dos fundamentos da formação dos futuros profissionais da educação
que irão atuar nos diferentes níveis e modalidades da educação.
A disposição e o desejo de um grupo de professores em dialogar com os pares em
prol de uma proposta de formação que favoreça o desenvolvimento de sujeitos ativos,
autores, buscando promover o diálogo entre saberes diferentes e aproximando o
conhecimento sistematizado da vida cotidiana pode ser o ponto de partida de uma prática
interdisciplinar.
A interdisciplinaridade, conforme demonstra Assis (2011) é baseada na relação
entre pessoas, pois é considerada uma inter-relação e interação das disciplinas com o
objetivo de atingir um fim comum e assim, explorar e ampliar as potencialidades das
disciplinas. Busca-se dessa forma (VILELA e MENDES, apud ASSIS, 2011) estabelecer
um diálogo com outras formas de conhecimento e outras metodologias.
Alguns autores (LENOIR, 1997; FERREIRA, 2010) destacam um argumento
crucial para legitimar a importância de vivenciar experiências interdisciplinares na
formação de professores. Ferreira defende a tese de que a atitude interdisciplinar do
formador do professor na prática do currículo é crucial “enquanto articuladora do espaço
para as experiências formadoras do professor da escola de educação básica” (2010, p.12).
Sem dúvida, o horizonte que buscamos é que o licenciando possa (re)significar essas
experiências na sua prática pedagógica enquanto professor e nas parcerias realizadas no
espaço-tempo da escola de Educação Básica.
É preciso que os conteúdos convertidos em problema sejam historicamente
relevantes, seja no âmbito humano, social e/ou natural e ambiental, para que os processos
investigativos nos aproximem progressivamente da compreensão da realidade. Partindo
dessa lógica, ressalta-se a proposta de trabalho por projetos apresentada pelo educador
espanhol Fernando Hérnadez, em seu livro “A organização de currículo por projetos: o
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conhecimento é um caleidoscópio” (1998) uma possibilidade de prática pedagógica que


visa à ressignificação do espaço escolar, transformando-o em um espaço vivo de
interações e promovendo uma nova perspectiva para a compreensão do processo de ensino
e aprendizagem, pois, a aprendizagem, nessa ordem salta de um simples ato de
memorização para a lógica do conhecimento construído em estreita relação com os
contextos, no qual, conhecer e intervir na realidade não se encontra dissociados. Na
mesma ótica, ensinar não assume mais a lógica de repassar conteúdos prontos.
Nossa meta é atuar juntamente aos professores da Educação Básica no movimento
de formação inicial e permanente, assim como, na reflexão sobre as práticas e as
epistemologias subjacentes às mesmas. Vale ressaltar que o PEIF, na modalidade atual, nos
permite permanente troca de experiências com os professores das escolas envolvidas.
Nessa lógica, trabalhamos em um processo coletivo, colaborativo e formativo juntamente
COM a escola, em um processo horizontal e não PARA a escola em um processo vertical.

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