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CONHECIMENTO CIENTÍFICO E SENSO COMUM


Liliana Pereira Lima

O SENSO COMUM

Quantas vezes dizemos que conhecemos um fato, uma pessoa, uma


situação, de apenas ouvir falar, ou ver na televisão? E se alguém perguntar
“o que você acha disso?” provavelmente emitiremos uma opinião, ou
responderemos, “eu acho” tal e tal coisa, etc. Ainda poderemos, o que
acontece comumente, julgar tal fato ou pessoa pelo que “achamos” ou
ouvimos dizer a respeito – “acho um absurdo ele ter feito isso, porque...”
Isto, se não rotularmos, ou estigmatizarmos o outro pelo que, na nossa
opinião, é certo ou errado: damos um título a ele, como “só podia ser ele
mesmo, aquele marginal!” , ou ainda “tal pai, tal filho”, “está no sangue”,
ou “filho de peixe, peixinho é”- como já dizia minha avó, “pau que nasce
torto, morre torto”. Fazer um pré-juízo do outro é prejudicá-lo, pois o pré –
conceito, que é o conceito a priori, sem conhecimento verdadeiro, julga e
muitas vezes condena injustamente. Em outras situações, muitos de nós
poderão dizer que conhecem um ótimo jeito de curar determinada
enfermidade, receitando um ótimo remédio caseiro que a vovó usava – ela
sabia das coisas; sempre deu certo. Realmente pode dar certo – ou não – e
não saberemos o porquê.
De que conhecimento estamos falando? Seria o conhecimento
científico? À primeira vista, sem grandes dificuldades, mesmo aqueles que
se sentem mais despreparados para responder, em geral respondem: NÂO!
Mas teriam alguma dificuldade em justificar a resposta. Por que não se trata
de conhecimento científico esses exemplos acima mencionados? A ciência
não se ocupa do conhecimento a partir de experiências? Não estamos
falando de experiências? Sim, é delas que estamos falando, mas não das
científicas, e sim das do senso comum, aquelas do nosso cotidiano, das
nossas vivências espontâneas e despreocupadas, que vão nos acontecendo
no decorrer da vida e sendo transmitidas de geração para geração.

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Para falarmos do conhecimento científico, será que é preciso deixar


de lado essas “bobagens” do senso comum? - vamos então falar a sério, o
que é para poucos, os mais, digamos, iluminados, que podem entender a
linguagem dos cientistas - não; essa idéia, em geral, é uma crença, um mito
sobre a ciência e o cientista, que acredita que a ciência é inalcançável, ou
alcançável só para alguns poucos privilegiados. Se a ciência fosse
inalcançável para a maioria dos pequenos mortais, a teoria, o discurso
científico, estaria separada da prática, como diz o ditado popular: “a teoria
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na prática é outra”. Ora, se a teoria na prática é outra, ela não funciona,


então não é uma boa teoria. Toda teoria parte da prática, e é para ela que irá
existir. Se as duas estão separadas, então não há porque se elaborar teorias.
A ciência existe graças à realidade cotidiana, que é mundo das
experimentações e vivências de todos nós. O conhecimento a respeito da
natureza e dos fenômenos mais diversos que fazem parte do nosso mundo
foi sendo criado porque alguém se perguntou um dia como resolver
determinada questão prática para a própria sobrevivência: a alimentação, o
abrigo, o fogo, muito depois a roda, etc. A necessidade, os problemas do
dia – a dia, foram encarados como desafios para se criar possibilidades de
sobrevivência e de vida diferenciada, transformada conforme as
circunstâncias. A capacidade criativa do ser humano, que é imensa, foi
evoluindo para que fossem criadas novas formas de resolver conflitos e
obstáculos da vida cotidiana; paradoxalmente criando também novos
problemas ao destruir a natureza e se auto destruir: vide o avanço
tecnológico e científico a que chegamos e quantos problemas nós mesmos
criamos.
Consideremos, portanto, a sabedoria do senso comum que é muitas
vezes intuitiva, ou aplicativa daquilo que deu certo, mas que não tem
fundamento como saber científico, isto é, ciência no sentido de estar ciente,
estar consciente do porquê tais procedimentos, no que implica tal fato, etc.
Enquanto o senso comum se ocupa de resolver questões práticas de forma
simplista, fundamentado em crenças, mitos, receitas “infalíveis”, a ciência
se ocupa da observação constante e aguçada do fenômeno, considerando-o
segundo o contexto presente, com atenção às mudanças, e a constante
pergunta que traz a dúvida necessária para se repensar e recriar novas
maneiras de encarar aquele mesmo fenômeno; é o fruto do olhar da
contínua investigação.
Por outro lado, o conhecimento científico obedece a um rigor que o
diferencia do senso comum. O rigor científico é a trajetória de que iremos
tratar ao falar do ato de pesquisar: o método, que, da etimologia grega –
‘méthodus’ - significa ‘caminho’; o caminho a ser traçado para aquele que
busca respostas para perguntas levantadas e a serem investigadas. Ter rigor
científico, portanto, é seguir o plano de pesquisa sem perder de vista a
questão central que norteará o estudo, assim como os objetivos a serem
alcançados. A metodologia implica no tipo de pesquisa, que seguirá a
forma que será realizada, ou seja, o como será feita a investigação:
visualizar exatamente os procedimentos a serem aplicados é imprescindível
para o acontecimento da construção do conhecimento científico. Isto não
quer dizer que o rigor seja sinônimo de rigidez. O rigor obedece a
organização necessária, e a rigidez seria algo cristalizado, imutável, o que
não deve acontecer na pesquisa científica: esta deve conter uma postura
flexível por parte do pesquisador – se o caminho traçado não estiver sendo
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proveitoso ao ser caminhado, que se tenha a coragem de mudar a trajetória


no que for necessário para que o trabalho possa fluir.

CONHECIMENTO, OPINIÃO E INFORMAÇÃO

Não podemos confundir opinião, ou “eu acho que”, ou ainda


informações que ouvimos, com conhecimento. Opinião, “achismo”,
reprodução de informações são parte do senso comum. Conhecimento é
aquilo que se constrói a partir de se pensar as informações que obtemos; é
levantar questões, é perguntar o porquê. A criança pequena já traz o esboço
de um pequeno cientista, a partir do momento em que tem a curiosidade
que a move para muitos porquês, quer entender os fenômenos que vivencia,
quer saber como funciona, e às vezes, faz perguntas desconfortáveis para os
adultos que não sabem responder, porque talvez eles um dia já as tivessem
feito e também não obtiveram respostas, e ainda por cima foram em
seguida treinados a ficar quietos e prestar atenção, em vez de perguntar e
lançar dúvidas: a escola tradicional sempre quis oferecer a resposta “certa”,
esperando que esta fosse automaticamente reproduzida. Como construir
conhecimento sem pensar a informação? É por isso que estamos, muitas
vezes, com dificuldades no mundo acadêmico da universidade quando
deparamos com a demanda de produção científica. Mas o que é científico?
É falar difícil, para que poucos entendam? Não. Isto seria outra crença do
senso comum. Precisamos agora, na universidade, reaprender a perguntar
porque, buscar respostas, inventar o novo, criar. Produção acadêmico-
científica é o ato de criar novas idéias a partir das já existentes, repensando-
as.
Ciência, oriunda do latim, scientia, que significa saber, tem suas
origens remotas na humanidade, desde que o ser humano começou a buscar
respostas para suas inquietações cotidianas. No entanto, as chamadas
ciências ou áreas científicas, como conhecemos hoje, tiveram início no
começo do século XX, com as ciências naturais. A necessidade humana de
comprovar e testar o fenômeno observado e criar teorias fez com que o
conhecimento, para ser considerado científico, passasse a ser observado
concretamente. O positivismo, que é esta tendência de objetivar os
fenômenos, tornando-os comprováveis pela observação e concretude, é a
inauguração do conhecimento científico ocidental. As ciências da saúde e
as chamadas exatas foram as que primeiramente passaram pelo crivo do
reconhecimento enquanto ciência necessariamente dita. O conhecimento
mais abstrato da conhecida área de humanas foi o que mais demorou a ser
reconhecido como científico; mas hoje podemos afirmar que temos também
as ciências humanas: pode haver um estudo científico na área da filosofia,
por exemplo, apesar de o objeto de estudo não ser concreto, e nem o
procedimento acontecer de forma positivista: ver para crer. Basta haver
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rigor científico, trajetória com procedimentos de estudo e fundamentação


teórica. Aliás, todas as ciências são humanas no sentido de serem criadas
pelo ser humano e para serví-lo.
A ciência não é para complicar nossa vida, mas para nos ajudar a
esclarecer muito da complexidade que nos é apresentada, e da qual fazemos
parte, porque também somos parte da natureza deste planeta. Mesmo os
grandes cientistas eram seres humanos mortais simples; talvez tivessem se
diferenciado pela sensibilidade em observar de modo aguçado os
fenômenos mais simples que vivenciavam para perguntar e buscar
explicações. Arquimedes, deitado na banheira, sentindo seu próprio corpo
flutuar na água teve um insight, ao sair gritando “heureka”, isto é,
“descobri!” a lei da física de flutuação de corpos, que implica na densidade
da água, relacionada à massa e volume do corpo. Todas as fórmulas que
aprendemos na escola têm um porquê, apesar de muitas vezes parecerem
sem sentido, porque “aprendemos” apenas decorá-las e aplicá-las. A
palavra aprendemos está entre aspas justamente porque não podemos
considerar que foi um aprender real. A verdadeira aprendizagem é aquela
que parte do porquê, descobre o significado, faz a relação com a própria
vida, isto é, parte da atividade do pensar. E não pode ser acabada: é
contínua, porque outros porquês devem ser criados, e renovadas as teorias.
A certeza científica é fundamentada nos princípios da trajetória da
construção do conhecimento até que haja outra trajetória ou transformação
que confirmem outro resultado, ou ainda que mostre a relatividade dessa
“certeza”. Algo pode estar certo ou adequado dentro de um contexto, mas
inadequado para outro. Para isto, é preciso que o ser humano faça o que
nenhuma máquina é ou jamais poderá ser capaz de fazer: pensar e agir de
forma consciente – com-ciência. Isto implica em responsabilidade: a
capacidade de responder pelas próprias ações. Quem faz a ciência é o ser
humano, que tem intenções, perguntas direcionadas, e calcula as
repercussões dos resultados de suas experiências e descobertas; este fator é
importantíssimo para que saibamos que a ciência não é neutra, como se
considerava até algumas décadas atrás.
É por isso que não podemos confundir CIÊNCIA com
TECNOLOGIA. Posso ser um ótimo técnico especialista, saber muito bem
aplicar a técnica, e não saber o porquê estou fazendo aquilo, não ter
consciência das implicações de minha ação.