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Poética do inóxio: precariedade da literatura na conjuntura sociopolítica brasileira

Este trabalho é um esboço inicial do cruzamento entre o diagnóstico das


transformações da sociedade brasileira, de 2013 para os dias atuais, com a produção
literária que tem se destacado neste mesmo período pela tentativa de apreender sob a
forma romanesca o Zeitgeist do cenário social e político contemporâneo brasileiro. O ano
de 2013 tem sido tratado como um marco na história do Brasil, pois acredita-se que as
insurgências das manifestações que tomaram de conta do país concentram o momento de
implosão da Nova República (SAFATLE). A partir de então, o Brasil é tomado por uma
série de instabilidade política, social e cultural, que tem como horizonte final uma
profunda crise, com culminância na destituição de Dilma Rousseff, em 2016, e no
implante de um regime político de ordem neoliberal em associação com recrudescimento
militar, conservadorismo cultural e apoio a movimentos políticos de extrema direita. Este
momento de desencadeamento de mudanças de visão de mundo ocorridas no Brasil a
partir das manifestações de rua de 2013 nos dá o entendimento de que, como argumenta
o professor Paulo Arantes (2014), gerou-se um novo tempo do mundo brasileiro, um
tempo de crise e emergência, na qual abriram-se as portas para novos modelos de
expressão de violência social recalcados e latentes na sociedade. A questão que
levantamos é: este contexto histórico de turbulência que divide o país, outrora tomado
por conciliado pela Era Lulista, pode impactar na forma romanesca? Ou seja, neste Brasil
de crises, quais vínculos sociais o romance contemporâneo aspira participação? De 2014
a 2016, três anos depois das manifestações, o que o romance tem a nos dizer sobre nosso
diagnóstico de tempo? Verificando a produção romanesca pós-2013, tentamos
compreender como alguns romances registram, através de sua representação ficcional, o
Brasil contemporâneo, seja do eclipse do progressismo pré-2013, seja da regressão
neoliberal pós-2013. Para tanto, em nossa primeira investida, selecionamos alguns
romances que, de alguma forma, representa uma miríade de transformações estéticas a
partir da convergência entre narrativa e contemporaneidade brasileira: O professor
(2014), de Cristovão Tezza; Luxúria (2015), de Fernando Bonassi; Ainda estou aqui
(2015), de Marcelo Rubens Paiva; O Marachel de Costas (2015), de José Luiz Passos.