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RASCUNHO – O MAL RADICAL

De qualquer forma, parece ser coerente propor que a (de)limitação dos poderes
promoveria uma aproximação àquela proposta.

Decorreu três consequências:

1 Desenvolvimento da ciência positivista

2. Desenvolvimento do Estado e este gerido por procedimentos de racionalização


da economia e da sociedade

3. Desenvolve-se uma ciência do Estado

Trata-se da falta de coragem.

A responsabilidade é do próprio sujeito – nessa perspectiva, o oprimido é o


culpado (nas palavras de Kant, culpa) pela opressão que sofre, por deixar-se oprimir e
não insurgir-se tomando por meio sua razão.

É impossível seguir perfeitamente o imperativo – não é possível conhece-lo.


A liberdade transcendental depende justamente do submeter-se voluntariamente à
Lei.

O pensamento é o campo da liberdade, mas ele pode também ser tutelado. O


objetivo do iluminismo é desvencilhar-se de tal tutela.

Não se cumpre a Lei buscando com isso qualquer ganho, ainda que esse ganho
seja o de tornar-se um ser moralmente Bom.

Inversão realizada por mártires.

O meramente seguir a lei, performatizar atos como meio de graça, não é um ato
livre, mas sim fetichista.

Simplesmente seguir as leis da instituições é manter-se tutelado, o oposto do


esclarecimento.

O fetichismo aqui aparece como oposto ao esclarecimento. Esclarecer-se consiste


em sair da tutela, e não seguir a lei trazida por instituições. O fetichismo consiste, aqui,
numa adoração aos meios de obtenção da graça, como forma de indolência. Preguiça, em
oposição à coragem.

O fetiche crê em lugar do crente.

“O clericalismo é, pois, a constituição de uma Igreja enquanto nela reina um culto


feiticista com que se depara sempre onde os princípios da moralidade não constituem a
base e o essencial, mas sim mandamentos estatutários, regras de fé e observâncias”...”a
sua constituição é e continua a ser sempre, sob todas estas formas, despótica” (Kant, A
religião nos limites da simples razão, p.205).

“Todo o empreendimento em matérias de religião, se não se tomar de modo


simplesmente moral e, todavia, se se apreender como um meio que em si suscita a
complacência de Deus, por conseguinte, satisfaz através d‘Ele todos os nossos desejos, é
uma fé feiticista” (Kant, A religião nos limites da simples razão, p.220).

“Inclusive onde já penetrou a convicção de que aqui tudo depende do bem moral,
que unicamente brota do fazer, o homem, procura ainda, no entanto, para si uma senda
oculta a fim de se esquivar àquela condição penosa, a saber, que, se ele observar apenas
o modo (a formalidade), Deus aceitará isso em vez do próprio acto; o que decerto se
deveria denominar uma graça hiperbólica, se não fosse antes uma graça sonhada na
confiança preguiçosa, ou até uma confiança fingida. E assim o homem, em todos os
modos públicos de fé, inventou certos usos como meios de graça” (Kant, A religião nos
limites da simples razão, p.221).

Kantismo em Hanna Arendt.

Kantismo em Sade – última consequência ou falácia?

Texto:

Todos começam o mundo pelo bem: idade de ouro, vida no paraíso etc. Isso
lembra o que Lacan quis ao trazer à tona das Ding – colocar o objeto perdido como
precedido da perda.

O mais comum – em especial dentre as religiões – é crer que o mundo caminha


para o mal. Contrariamente a isso, somente alguns filósofos creem que ruma para melhor.

“Assim pois, para chamar mau a um homem, haveria que poder inferir-se de
algumas acções conscientemente más, e inclusive de uma só, a priori uma máxima má
subjacente, e desta um fundamento, universalmente presente no sujeito, de todas as
máximas particulares moralmente más, fundamento esse que, por seu turno, é também
uma máxima”(p.24).

Mas natureza seria oposto ao ato por liberdade, e, assim, seria contraditório com
os predicados moralmente mau ou bom. Por natureza então vai considerar o fundamento
subjetivo do uso de sua liberdade em geral. Fundamento anterior a qualquer fato que se
apresenta aos sentidos. Mas o fundamento subjetivo deve ser um ato de liberdade.

O fundamento do mal não pode ser obra de nenhum objeto que produza uma
inclinação, de forma a determinar o arbítrio. O fundamento do mal é uma regra que o
próprio arbítrio institui para si no uso de sua liberdade: uma máxima. Ou seja, o
fundamento de uma máxima é outra máxima.

Escolha insondável:
O fundamento de uma máxima é outra máxima. Se não fosse assim, teríamos de
atribuir o uso da liberdade à causas naturais.

Mas nessa busca pelo fundamento último não encontramos a primeira causa. A
questão é que não pode ser nada da natureza, sequer nada dado pela experiência – é inato.

Só que para criar uma teoria dos costumes há de se evitar conjugar – o homem é
bom E mau. Recorre então à lógica clássica, princípio da não contradição. (Para haver
ação moralmente indiferente teria de ser ela resultado de leis da natureza, e não do livre
arbítrio)

O esforço por ser melhor tem de ser alegre e movido pela perspectiva de ser
melhor – o que indica que o bem foi acolhido por amor ao bem, ou seja, em sua máxima.
Não como pecador arrependido e culpado. Ou seja, por amor à máxima e não por causa
de um fato da experiência.

Máxima: lei moral assumida pelo sujeito como regra universal para si

A lei moral é móbil (causa): quem age segundo a lei é moralmente bom.

Se a lei moral não causou a ação adotada, então outra força se contrapôs à lei. Essa
outra força seria igualmente uma outra lei, também móbil de sua ação.

É impossível ser indiferente à lei moral – a disposição ou é boa ou é má.

Também não é possível ser em parte bom e em parte mau – ou tomou a lei moral
como máxima de seus atos ou não. (Concepção rigorística. Faz uso da lógica clássica e
do princípio da não contradição).

O primeiro fundamento subjetivo da adoção das máximas só pode ser única e se


refere universalmente ao uso integral da liberdade.

A adoção das máximas se dá por uso do livre arbítrio

O primeiro fundamento subjetivo (causa/disposição de ânimo) para a adoção das


máximas não pode ser conhecido (a decisão insondável: porque a causa teria uma causa
e assim infinitamente. Não chegamos à causa última. Isso nos remete ao Incondicionado
absoluto?)
Mas por não conseguirmos localizar a causa última, ou fundamento supremo, de
qualquer primeiro ato temporal do arbítrio, chamamos isso de propriedade do arbítrio
(que advém por natureza, ainda que fundada em um ato de liberdade).

Ainda que inata, o homem é também autor de sua máxima na medida em que
cultiva uma determinada disposição de espírito. Só não podemos dizer que a disposição
foi adquirida no tempo (p.29).

Da disposição originária para o bem na natureza humana

Três classes de elementos da determinação do homem: animalidade (vivo),


humanidade (racional) e personalidade (imputabilidade)

A imputabilidade não é idêntica à racionalidade, é um passo a mais: a imputação


é a faculdade de determinar o arbítrio de forma incondicionada. “todas estas disposições
no homem são não só (negativamente) boas (não são contrárias à lei moral), mas são
igualmente disposições para o bem ( fomentam o seu seguimento). São originárias,
porque pertencem à possibilidade da natureza humana”(p.33).