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COMENTÁRIOS SOBRE O “MAL RADICAL” EM KANT

Presente em A religião nos limites da simples razão

Ariana Moura

À guisa de introdução, é necessário mencionar a centralidade que ocupa, na teoria


kantiana, a noção de liberdade transcendental.

Segundo Franklin Leopoldo e Silva, professor da USP


(https://www.youtube.com/watch?v=-9r0OKGryF4), muitos teóricos consideram que a
modernidade se inicia com Kant, e não com Descartes como aparece nos manuais, uma vez que
ele formula de forma tão explícita o projeto do Iluminismo. No centro deste projeto, cujo lema
poderia ser expresso na convocação sapere aude, está uma concepção de homem como dotado
de um senso moral inato e cujo dever seria prosseguir tal imperativo moral rumo à sua liberdade.

Como encontramos em seu artigo “O que é o esclarecimento”, está nas mãos do próprio
homem a saída de sua minoridade (incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem
a tutela de outro), a depender de sua coragem para assumir tal tarefa.

Com isso, podemos vislumbrar o que será debatido por Kant no que ele nomeia de “Mal
radical”. Pois, apesar de estar presente em cada homem a consciência moral necessária para
aceder o imperativo categórico, bem como ser a disposição ao Bem a disposição original do
homem, existirá, sempre, intrinsecamente à experiência moral, a tendência a que seus atos se
desviem desta disposição moral Boa.

Trata-se da falta de coragem.

A responsabilidade é do próprio sujeito – nessa perspectiva, o oprimido é o culpado (nas


palavras de Kant, culpa) pela opressão que sofre, por deixar-se oprimir e não insurgir-se
tomando por meio sua razão.

É impossível seguir perfeitamente o imperativo – não é possível conhece-lo.

A liberdade transcendental depende justamente do submeter-se voluntariamente à Lei.

O pensamento é o campo da liberdade, mas ele pode também ser tutelado. O objetivo
do iluminismo é desvencilhar-se de tal tutela.

Não se cumpre a Lei buscando com isso qualquer ganho, ainda que esse ganho seja o de
tornar-se um ser moralmente Bom.

Inversão realizada por mártires.

O meramente seguir a lei, performatizar atos como meio de graça, não é um ato livre,
mas sim fetichista.

Simplesmente seguir as leis da instituições é manter-se tutelado, o oposto do


esclarecimento.

O fetichismo aqui aparece como oposto ao esclarecimento. Esclarecer-se consiste em


sair da tutela, e não seguir a lei trazida por instituições. O fetichismo consiste, aqui, numa
adoração aos meios de obtenção da graça, como forma de indolência. Preguiça, em oposição à
coragem.

O fetiche crê em lugar do crente.

“O clericalismo é, pois, a constituição de uma Igreja enquanto nela reina um culto


feiticista com que se depara sempre onde os princípios da moralidade não constituem a base e
o essencial, mas sim mandamentos estatutários, regras de fé e observâncias”...”a sua
constituição é e continua a ser sempre, sob todas estas formas, despótica” (Kant, A religião nos
limites da simples razão, p.205).

“Todo o empreendimento em matérias de religião, se não se tomar de modo


simplesmente moral e, todavia, se se apreender como um meio que em si suscita a complacência
de Deus, por conseguinte, satisfaz através d‘Ele todos os nossos desejos, é uma fé feiticista”
(Kant, A religião nos limites da simples razão, p.220).

“Inclusive onde já penetrou a convicção de que aqui tudo depende do bem moral, que
unicamente brota do fazer, o homem, procura ainda, no entanto, para si uma senda oculta a fim
de se esquivar àquela condição penosa, a saber, que, se ele observar apenas o modo (a
formalidade), Deus aceitará isso em vez do próprio acto; o que decerto se deveria denominar
uma graça hiperbólica, se não fosse antes uma graça sonhada na confiança preguiçosa, ou até
uma confiança fingida. E assim o homem, em todos os modos públicos de fé, inventou certos
usos como meios de graça” (Kant, A religião nos limites da simples razão, p.221).

Kantismo em Hanna Arendt.

Kantismo em Sade – última consequência ou falácia?

Texto:

Todos começam o mundo pelo bem: idade de ouro, vida no paraíso etc. Isso lembra o
que Lacan quis ao trazer à tona das Ding – colocar o objeto perdido como precedido da perda.

O mais comum – em especial dentre as religiões – é crer que o mundo caminha para o
mal. Contrariamente a isso, somente alguns filósofos creem que ruma para melhor.

“Assim pois, para chamar mau a um homem, haveria que poder inferir-se de algumas
acções conscientemente más, e inclusive de uma só, a priori uma máxima má subjacente, e desta
um fundamento, universalmente presente no sujeito, de todas as máximas particulares
moralmente más, fundamento esse que, por seu turno, é também uma máxima”(p.24).

Mas natureza seria oposto ao ato por liberdade, e, assim, seria contraditório com os
predicados moralmente mau ou bom. Por natureza então vai considerar o fundamento subjetivo
do uso de sua liberdade em geral. Fundamento anterior a qualquer fato que se apresenta aos
sentidos. Mas o fundamento subjetivo deve ser um ato de liberdade.

O fundamento do mal não pode ser obra de nenhum objeto que produza uma inclinação,
de forma a determinar o arbítrio. O fundamento do mal é uma regra que o próprio arbítrio
institui para si no uso de sua liberdade: uma máxima. Ou seja, o fundamento de uma máxima é
outra máxima.

Escolha insondável:

O fundamento de uma máxima é outra máxima. Se não fosse assim, teríamos de atribuir
o uso da liberdade à causas naturais.

Mas nessa busca pelo fundamento último não encontramos a primeira causa. A questão
é que não pode ser nada da natureza, sequer nada dado pela experiência – é inato.

Só que para criar uma teoria dos costumes há de se evitar conjugar – o homem é bom E
mau. Recorre então à lógica clássica, princípio da não contradição. (Para haver ação moralmente
indiferente teria de ser ela resultado de leis da natureza, e não do livre arbítrio)

O esforço por ser melhor tem de ser alegre e movido pela perspectiva de ser melhor –
o que indica que o bem foi acolhido por amor ao bem, ou seja, em sua máxima. Não como
pecador arrependido e culpado. Ou seja, por amor à máxima e não por causa de um fato da
experiência.

Máxima: lei moral assumida pelo sujeito como regra universal para si

A lei moral é móbil (causa): quem age segundo a lei é moralmente bom.

Se a lei moral não causou a ação adotada, então outra força se contrapôs à lei. Essa
outra força seria igualmente uma outra lei, também móbil de sua ação.

É impossível ser indiferente à lei moral – a disposição ou é boa ou é má.

Também não é possível ser em parte bom e em parte mau – ou tomou a lei moral como
máxima de seus atos ou não. (Concepção rigorística. Faz uso da lógica clássica e do princípio da
não contradição).

O primeiro fundamento subjetivo da adoção das máximas só pode ser única e se refere
universalmente ao uso integral da liberdade.

A adoção das máximas se dá por uso do livre arbítrio

O primeiro fundamento subjetivo (causa/disposição de ânimo) para a adoção das


máximas não pode ser conhecido (a decisão insondável: porque a causa teria uma causa e assim
infinitamente. Não chegamos à causa última. Isso nos remete ao Incondicionado absoluto?)

Mas por não conseguirmos localizar a causa última, ou fundamento supremo, de


qualquer primeiro ato temporal do arbítrio, chamamos isso de propriedade do arbítrio (que
advém por natureza, ainda que fundada em um ato de liberdade).

Ainda que inata, o homem é também autor de sua máxima na medida em que cultiva
uma determinada disposição de espírito. Só não podemos dizer que a disposição foi adquirida
no tempo (p.29).

Da disposição originária para o bem na natureza humana


Três classes de elementos da determinação do homem: animalidade (vivo), humanidade
(racional) e personalidade (imputabilidade)

A imputabilidade não é idêntica à racionalidade, é um passo a mais: a imputação é a


faculdade de determinar o arbítrio de forma incondicionada. “todas estas disposições no
homem são não só (negativamente) boas (não são contrárias à lei moral), mas são igualmente
disposições para o bem ( fomentam o seu seguimento). São originárias, porque pertencem à
possibilidade da natureza humana”(p.33).