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O MITO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Celso Furtado

OMITO DO DESEHVOLVIMEHTO ECOHOMICO

DO MESMO AUTOR:

A Economia Brasileira (Rio, 1954)


Uma Economia Dependente (Rio, 1956)
Perspectiva da Economia Brasileira (Rio, 1957)
A Operação Nordeste (Rio, 1960)
Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (Rio, 1961)
A Pré-Revolução Brasileira (Rio, 1962)
Dialética do Desenvolvimento. (Rio, 1964)
Subdesenvolvimento. e Estagnação na
América Latina (Rio, 1966)
Teoria e Política do Desenvolvimento
Econômico (São Paulo, 1967)
Um Projeto para o Brasil (São Paulo, 1968)
Formação Econômica da América Latina (Rio, 1969)
Análise do "Modelo" Brasileiro (Rio, 1972)
A Hegemonia dos Estados Unidos e o
Subdesenvolvimento da América Latina (Rio, 1973) Paz e Terra
Formação Econômica do Brasil (São Paulo, 1974)
\

Hermano . .. tuya es la hacienda . ..


la casa el caballo y la pistola . ..
Mia es la voz antigua de la tierra.
@ CELSO FURTADO Tu te quedas con tudo
l
f:I
y me dejas desnudo y errante por el mundo . ..
mas yo te dejo mudo . .. ! mudo!
, ;''",.";~,·.o ·i..rnr0 í'_____---f Y como vas a recoger el trigo
,~~ ..·· ··----- y alimentar el fuego
-~-> i. ,.'~''.'_t:) (11 111__r___ i~_~G t.Mr:.!:..
si yo me llevo la canción?
Cr·S --
-~~;a: _GI-1: n _. ;:--,_.·:. . .·
_1- - - · Leon Felipe

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Í <)51 YrJ
N.º de Chamada

CAPA: PAULO ÜLIVEI:RA

EDITORA PAZ E TERRA S/A


Av. Rio Branco 156 S/1222
Rio de Janeiro - GB
1974

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
lNDICE

Prefácio - 11
I. Tendências estruturais do sistema capitalista na
fase das grandes empresas - 15
1. A profecia de colapso - 15
2. A evolução estrut1\ral do sistema
capitalista - 21
3. As grandes empresas nas relações centro-
periferia - 44
4. Opções dos países periféricos - 60
5. O mito do desenvolvimento econômico - 68
II. Subdesenvolvimento e dependência: as conexões
fundamentais - 77
m. · O modelo brasileiro de subdesenvolvimento - 95
'] 1. Desenvolvimento e modernização - 95
1 2. O desempenho da economia brasileira - 100
3. A nova estratégia - 103
IV. Objetividade e ilusionismo em economia - 111

! 1
PREFACIO

Os ensaios que formam o presente volume foram es-


critos durante minha permanência, como professor visi-
tante, na American University (Washington, D.C.) no
segundo semestre de 1972, e na Universidade de Cam-
I' bridge durante o ano letivo 1973-1974. O último ensáio
1
foi originariamente escrito para o primeiro número do
hebdomadário OPINIAO, que circulou em outubro de
1972. O penúltimo foi escrito originariamente em inglês
e apresentado como conferência na American University
em outubro de 1972. Os primeiros dois ensaios foram
escritos em Cambridge: o primeiro é inédito, se bem que
retoma ideias esboçadas em trabalhos anteriores, par-
ticularmente em conferência pronunciada na Faculdade
de Economia da Universidade de Cambridge em março
de 1974; e o segundo foi originariamente escrito em
inglês e apresentado no seminário para docentes da Uni-
versidade de Cambridge, em novembro de 1973. Este
último ensaio pode ser considerado como o núcleo teó-
rico dos demais e constitui um novo esforço de apresen-
tação mais sistemática das ideias inicialmente sugeridas
em artigo publicado no número 150 de El Trimestre Eco-

11
nómlco (junho de 1971) e retomadas em diversas oportu- a capacidade de adaptação da grande empresa no plano
nidades, inclusive no livro Análise do "Modelo" Brasileiro internacional. Em plano distinto, mas não menos impor-
(Rio, 1972). • tante, é minha dívida para como Raúl Prebisch, cujas
O primeiro ensaio constitui um esforço de captação idéias sobre as relações Centro-Periferia constituem o
de aspectos fundamentais da evolução do capitalismo ponto de partida de muitas das hipóteses aqui esboçadas.
na fase de rápidas transformações constituida pelo úl- Por último, desejo expressar meus agradecimentos a Os-
timo quarto de século. Os leitores que se hajam interes- valdo Sunkel, que dirigiu minha atenção para novos as-
sado por trabalhos anteriores do autor perceberão que pectos das relações centro-periferia, e a Luciano Martins,
existem diferenças entre a visão global da evolução re- com quem mantenho, há vários anos, um diálogo perma-
cente do sistema capitalista, apresentada nestes ensáios, nente sobre o sistema capitalista e suas metamorfoses.
e algumas das idéias sugeridas em estudos escritos em
1967 e 1968 e recentemente republicados em A Hegemo- Cambridge, junho de 1974.
nia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da Ame-
rica Latina (Rio, 1973). Os estudos reunidos no último
livro citado foram o resultado de observàções feitas du-
rante minha permanência na Universidade de Yale, em
1964-1965, época em que se manisfestavam nitidamente
tendências policêntricas na economia mundial com a rup-
tura no mundo socialista e a brecha aberta por de Gaulle
na até então rígida tutela norte-americana. Os ensáios
do presente volume são o fruto de observações feitas
principalmente a partir da Europa, no correr dos últi-
mos cinco ou sete anos, período em que as verdadeiras
conseqüências do segundo conflito mundial, no plano
econômico, se manifestam com plenitude, mediante a
afirmação definitiva das grandes empresas no quadro
de oligopólios internacionais, o crescimento explosivo do
mercado financeiro internacional, a rápida industria-
lização de segmentos da periferia do sistema capitalista
no quadro de novo sistema de divisão internacional do
trabalho. As tendências a uma crescente unificação do
sistema capitalista, aparecem agora com muito maior
clareza do que era o caso na metade do decênio dos 60.
O meu interesse pelo fenômeno da grande empresa
como elemento estruturador do capitalismo na sua pre-
sente fase evolutiva, devo-o em boa parte a um íntimo
contacto intelectual com dois economistas já falecidos:
Stephen Hymer e Mau.Tice Byé. Hymer, a quem devemos
trabalhos sobre a economia internacional cujo valor se-
minal é hoje universalmente conhecido foi meu compa-
nheiro na Universidade de Yale; e Byé, meu mestre de
havia muitos anos, chamou-me a atenção, em 1966, para

12 13
CAP:tTULO I

TEND2NCIAS ESTRUTURAIS DO SISTEMA CAPITA-


LISTA NA FASE DE PREDOM:tNIO DAS GRANDES
EMPRESAS

A Profeeia de colapso

Os mitos têm exercido uma inegâvel influência sobre


a mente dos homens que se empenham em compreender
a realidade social. Do bon sauvage, com que sonhou
Rousseau, à idéia milenária do desaparecimento do Es-
tado, em Marx, do "princípio populacional" de Malthus
à concepção walrasiana do equilíbrio geral, os cientistas
sociais têm sempre buscado apoio em algum postulado
enraizado num sistema de valores que raramente che-
gam a explicitar. O mito congrega um conjunto de hi-
póteses que não podem ser testadas. Contudo, essa não
é uma dificuldade maior, pois o trabalho analítico se
realiza a um nível muito mais próximo à realidade. A
função principal do mito é orientar, num plano intui-
tivo, a construção daouilo que Schumpeter chamou de
visão do processo social, sem a qual o trabalho analítico
não teria qualquer sentido. Assim, os mitos operam como
faróis que iluminam· o campo de percepção do cientista
social, permitindo-lhe ter uma visão clara de certos pro-
blemas e nada ver de outros, ao mesmo tempo que lhe
proporciona conforto intelectual, pois as discriminações
15
valorativas que realiza surgem ao seu espírito como um near em que se embalavam os teóricos do crescimento.
reflexo da realidade objetiva. 1 Menos atenção ainda se havia dado ao impacto no meio
A literatura sobre desenvolvimento econômico do físico de um sistema de decisões cujos objetivos últimos
último quarto de século nos dá um exemplo meridiano são satisfazer interesses privados. Daí a irritação, pro-
desse papel diretor dos mitos nas ciências sociais: pelo vocada entre muitos economistas, pelo estudo The Limits
menos noventa por cento do que aí encontramos se fun- to Growth, preparado por um grupo interdisciplinar, no
da na idéia, que se dá por evidente, segundo a qual o M. I. T. , para o chamado Club de Roma. 2
desenvolvimento econômico, tal qual vem sendo pratica- Não se necessita concordar com todos os aspectos
do pelos países que lideraram a revolução industrial, metodológicos desse estudo e menos ainda com suas con-
pode ser universalizado. Mais precisamente: pretende-se clusões, para perceber a importância fundamental que
que os standards de consumo da minoria da humanida- tem. Graças a ele foram trazidos para o primeiro plano
de, que atualmente vive nos países altamente industria- da discussão problemas cruciais que os economistas do
lizados, é acessível às grandes massas de população em desenvolvimento econômico trataram sempre de deixar
rápida expansão que formam o chamado terceiro mun- na sombra. Pela primeira vez dispomos de um conjunto
do. Essa idéia constitui, seguramente, uma prolongação de dados representativos de aspectos fundamentais da
do mito do progresso, elemento essencial na ideologia estrutura e de algumas tendências gerais daquilo que
. diretora da revolução burguesa, dentro da qual se criou se começa a chamar de sistema econômico planetário.
a atual sociedade industrial. Mais ainda: dispomos de um conjunto de informações
Com o campo de visão da realidade delimitado por que nos permitem formular algumas questões de fundo
essa idéia diretora, os economistas passaram a dedicar relacionadas com o futuro dos chamados países subde-
o melhor de sua imaginação a conceber complexos es- senvolvidos.
quemas do processo de acumulação de capital no qual Em verdade, a prática de construção de modelos re-
o impulso dinâmico é dado pelo progresso tecnológico, presentativos da estrutura e do funcionamento a curto
entelequia existente fora de qualquer contexto social. prazo de grandes conjuntos de atividade econômicas não
é de hoje. Entre o tableau économique dos fisiocratas
Pouca ou nenhuma atenção foi dada às conseqüências, franceses e as matrizes de Leontieff decorreram dois sé-
no plano cultural, de um crescimento exponencial do culos, durante os quais algo se aprendeu sobre a inter-
stock de capital. As grandes metrópoles modernas com dependência das atividades econômicas. No último quar-
seu ar irrespirável, crescente criminalidade, deterioração to de século foram elaborados complexos modelos de
dos serv;iços públicos, fuga da juventude na anti-cultura, economias nacionais de dimensões relativamente redu-
surgiram como um pesadelo no sonho de progresso li- zidas mas amplamente abertas ao mundo exterior, co-
mo a da Holanda, ou de amplas dimensões e mais auto-
. 1. Não .é meu propósito àbordar aqui a epistemologia das centradas, como a dos Estados Unidos. O conhecimento
ciencias sociais. Desde Dilthey sabemos que as ciências sociais analítico proporcionado por esses modelos permitiu for-
"cresceram no meio da prática da vida". <Cf. Wilhelm Dilthey, mular hipóteses sobre o comportamento a mais longo
Introduction à l'étude des sciences humaines, Paris, 1942, pg. prazo de certas variáveis, particularmente da demanda
34) . E Max Weber demonstrou claramente como se comple-
mentam a "explicação compreensiva" e a "compreensão expli- de produtos considerados de valor estratégico pelo go-
cativa" dos processos sociais. O mito introduz no espírito um verno dos Estados Unidos. Esses estudos puseram em
elemento discriminador que perturba o ato de compreensão o
qual consiste, segundo Weber, em "captar por interpretação o
sentido ou o conjunto significativo que se tem em vista" <Cf. 2. Cf. D. H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jorgen Ran-
Max Weber, Economie et société, Paris, 1971, t. I, p. 8). Veja- ders, William W. Behrens III, The Limits to Growth <Nova
se também J. Freund, Les théories des sciences humaines (Pa- York, 1972), e para a metodologia J. W. Forrester, World Dyna-
ris, 1973). · mics (Cambridge, Mass., 1971).

16 17
evidência o fato de que a economia norte-americana ten- A importância do estudo feito para oClube de Roma
de a ser crescentemente dependente de recursos não re- deriva exatametne do fato de que nele foi abandonada
nováveis produzidos no exterior do país. 3 É esta, segu- a hipótese de um sistema aberto no que concerne à fron-
ramente, uma conclusão de grande importância, que teira dos recursos naturais. Não se encontra aí qualquer
está na base da política de crescente abertura da econo- preocupação com respeito à crescente dependência dos
mia dos Estados Unidos, e de reforçamento das grandes palaes altamente industrializados vis-à-vis dos recursos
empresas capazes de promover a exploração de recursos naturais dos demais países, e muito menos com as con-
naturais em escala planetária. As projeções a mais lon- seqüências para estes últimos do uso predatório pelos
go prazo feitas no quadro analítico que acabamos de primeiros de tais recursos. A novidade está em que o
referir se baseiam implicitamente na idéia de que a fron- alatema pôde ser fechado em escala planetária, numa
teira externa do sistema é ilimitada. O conceito de re- primeira aproximação, no· que concerne aos recursos não
servas dinâmicas, função do volume de investimentos renováveis. Uma vez fechado o sistema, os autores do
programados e de hipóteses sobre o progresso das técni- estudo se formularam a seguinte questão: que aconte-
cas, serve para tranqüilizar os espíritos mais indagado- cerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão
res. Como a política de defesa dos recursos não reprodu- sendo mobilizados todos os povos da terra, chega efeti-
tíveis cabe aos governos e não às empresas que os ex- vamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de
ploram, e como as informações e a capacidade para apre- \'ida dos povos ricos chegam efetivamente a universali-
ciá-las estão principalmente com as empresas, o proble- zar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambi-
ma tende a ser perdido de vista. 11:uidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos
não renováveis e a poluição do meio ambie:nte seriam de
3. Com base nos distintos estudos realizados nos anos tal ordem (ou, alternativamente, o custo do controle da
recentes, o Ministério do Interior do governo dos Estados Uni-
dos publicou em 1972 uma série de projeções da demanda de poluição seria tão elevado) que o sistema econômico
produtos bâsicos pela economia norte-americana até o fim do mundial entraria necessariamente em colapso.
século, indicando o grau provâvel de dependência vis-à-vis de Antes de considerar que significado real cabe atri"'.'
fontes externas. Segundo essas projeções, dos 13 principais mi- buir a essa profecia, convém abordar um problema mais
nerais de que depende a economia desse país para funcionar,
todos com uma exceção <os fosfatos) deverão ser abastecidos geral, que o homem moderno tem tratado de eludir. Re-
em mais de metade por fontes externas, antes do fim do sé- firo-me ao caráter predatório do processo de civilização,
culo. Em 1985, 9 dos 13 produtos Jâ estarão nessa situação, en- particularmente da variante desse processo engendrada
quanto em 1970 apenas 5 dependiam principalmente de fontes pela revolução industrial. A evidência à qual não pode-
externas. Um produto como o cobre, item tradicional nas ex-
portações norte-americanas e ainda em 1970 totalmente abas- mos escapar é que em nossa civilização a criação de valor
tecido por fontes internas, antes do fim do século serâ impor- econômico provoca, na grande maioria dos casos, pro-
tado em mais de 60 por cento. O enxofre, outro produto clâs- cessos irreversíveis de degradação do mundo físico. O
sico das exportações americanas, estarâ em Idêntica situação. · economista limita o seu campo de observação a proces-
Contudo, o caso mais dramâtlco é o do petróleo: havendo sido sos parciais, pretendendo ignorar que esses processos
o maior exportador mundial, os Estados Unidos tendem a trans-
formar-se em um dos malores importadores. Segundo o Minls- provocam crescente modificações no mundo físico. 4 A
térlo do Comércio, as importações americanas de petróleo, em
1985, muito provavelmente quadruplicarão as de 1970 e, no fim 4. Um dos poucos economistas que se têm preocupado
do século, serão oito vezes maiores. Esses câlculos, é verdade, seriamente com esse problema, o Prof. Georgescu-Roegen, nos
não tiveram em conta os efeitos do conslderâvel aumento dos diz: "Alguns economistas se têm referido ao fato de que o
preços relativos desse produto que ocorreria no último trimes- homem não tem capacidade para criar ou destruir matéria ou
tre de 1973. Se se tem em conta o aumento de preços, o valor energia - verdade que decorre da Primeira Lei da Termodinâ-
projetado das importações dos Estados Unidos de petróleo al- mica. Contudo, nenhum dentre eles parece haver-se colocado
cançariam, em 1985, soma equivalente ao duplo do total das a seguinte questão: "em que então consiste um processo eco-
importações desse país em 1970. nômico?" ... Consideremos o processo econômico como um todo

18 19
maioria deles transforma energia livre ou disponível, so- A evolução estrutural do sistema capitalista
bre a qual o homem tem perfeito comando, em energia
não .disponível. Demais das conseqüências de natureza As elocubrações sobre o destino de nossa civilização,
diretamente econômica, como seja o encarecimento das por fascinantes que ocasionalmente pareçam são de re-
fontes alternativas de energia, esse processo provoca ele- duzido impacto sobre o espírito do homem comum. A
vação da temperatura média de certas áreas do planeta psicologia humana é tal que dificilmente podemos nos
cujas conseqüências a mais longo prazo dificilmente po- concentrar por muito tempo em problemas que superam
deriam ser exageradas. A atitude ingênua consiste em um horizonte temporal relativamente curto. Meu obje-
imaginar que problemas dessa ordem serão soluciona- tivo é mais limitado e preciso e pode ser sintetizado em
dos necessariamente pelo progresso tecnológico, como se uma pergunta simples: que opções se apresentam aos
a atual aceleração do progresso tecnológico não estives- países que sofreram a deformação do subdesenvolvimen-
se contribuindo para agravá-los. Não se trata de espe- to, em face das presentes tendências do sistema capita-
cular se teoricamente a ciência e a técnica capacitam lista? De que ponto de vista o estudo a que antes nos
o homem para solucionar este ou aquele problema cria- referimos pode ter utilidade nessa exploração do futuro?·
do por nossa civilização. Trata-se apenas de reconhecer Desde logo, temos que reconhecer o irrealismo do
que o que chamamos de criação de valor econômico tem modelo utilizado para projetar a economia mundial e,
como contra-partida processos irreversíveis no mundo conseqüentemente, a irrelevância das conclusões cata-
físico, cujas conseqüências tratamos de ignorar. Convém clfsmicas apresentadas. Como admitir que um modelo
não perder de vista que na civilização industrial o fu·· baseado na observação do comportamento histórico das
turo está em grande parte condicionado por decisões que atuais economias industrializadas e na presente estru-
já foram tomadas no passado e/ou que estão sendo to- tura destas possa servir para projetar as tendências a
madas no presente em função de um curto horizonte longo prazo do processo de industrialização em escala
temporal. Na medida em que avança a acumulação de planetária? Com efeito: a estrutura do modelo se funda
capital, maior é a interdependência entre o futuro e o na estrita observação do bloco de economias que lide-
passado. Conseqüentemente, aumenta a inércia do sis- raram o processo de industrialização, que puderam uti-
tema e as correções de rumo tornam-se mais lentas ou lizar os recursos naturais de mais fácil acesso e que lo-
exigem maior esforço. graram o controle de grande parte dos recursos não re-.
neváveis que se encontram nos países subdesenvolvi-
e observemo-lo estritamente do ponto de vista tisico. Vê-se de dos. 5 Não se trata aqui de simplificação metodológica,
imediato que se trata de um processo parcial, circunscrito por de primeira aproximação a ser corrigida quando se dis-
uma frontelra através da qual matéria e energ:a são inter-
cambiadas com o resto do universo material. A resposta à ques- ponha de informações complementares. Trata-se simples-
tão em que consiste esse processo é simples: ele nem produz
nem consome matéria-energia; limita-se a absorver e a regei- 5. Os autores são explícitos sobre a metodologia adotada:
tar matéria-energia de forma contínua. Podemos estar certos "A base do método, dizem, é o reconhecimento do fato que a
de que mesmo o mais ardoroso partidário da tese segundo a estrutura de um sistema - as múltiplas relações circulares,
qual os recursos naturais nada têm que ver com a criação interconectadas, com intervalo de tempo que existem entre
de valor concordará finalmente em que existe alguma diferen- seus componentes - é freqüentemente tão importante na de-
ça entre o que entra e o que sai do processo referido ... Do terminação de seu comportamento quanto o são os componen-
ponto de vista da termodinãm!ca, a matéria-energia entra no tes individuais eles mesmos" <Op. cit. p. 31). E acrescentam
processo econômico num estado de baixa entropia e sai dele mais adiante: " ... um elevado grau de agregação é necessário
num estado de alta entropia". Cf. Georgescu-Roegen, N., T/J,e neste ponto para fazer o modelo compreensível... Fronteiras
Entropy Law and the Economic Problem; conferência pronun- nacionais não são tidas em conta. Desigualdades na distribui-
ciada na Universidade de Alabama, 1970. Veja-se também do ção de alimentos, dos recursos e do capital estão incluídas im-
mesmo autor The Entropy Law and the Economic Process plicitamente nos dados, mas não são calculadas explicitamen-
<Cambridge, Mass. 1971). .. , 1
te nem mostradas na produção". (Op. cit. p. 94) .

20 21
mente de uma estrutura que reflete uma observação ina- processos: o primeiro diz respeito a uma considerâvel
dequada da realidade, portanto inservível para projetar aceleração na acumulação de capital nos sistemas de
qualquer tendência desta última. produção, e o segundo a uma não menos considerável
A questão que vem imediatamente ao espírito é a intensificação do comércio internacional. Ambos os pro-
seguinte: dispomos de suficiente conhecimento da es- cessos engendraram aumentos substanciais da produti-
trutura da economia mundial (ou, simplesmente, da do vidade do fator trabalho, dando origem a um fluxo cres-
conjunto das economias capitalistas) para projetar ten- cente de excedente que seria utilizado para intensificar
dências significativas da mesma a longo prazo? Mesmo ainda mais a acumulação e para financiar a ampliação
que não estejamos dispostos a dar uma irrestrita respos- e diversificação do consumo privado e público. Como foi
ta afirmativa a essa questão, não podemos deixar de re- apropriado e como foi orientada a utilização desse exce-
conhecer que existe ampla informação sobre o processo dente, constitui o problema fundamental no estudo da
de industrialização em países de diversos graus de de- evolução do capitalismo industrial em sua fase de ama-
senvolvimento econômico. Porque dispomos dessa infor- durecimento. Durante uma primeira fase, grande parte
mação, jâ não é possível aceitar a tese, esposada pelos do referido excedente foi canalizado para a Inglaterra,
autores do estudo, segundo a qual "na medida em que transformando-se Londres no centro orientador das fi-
o resto da economia mundial se desenvolve economica- nanças do mundo capitalista. Financiando os investi-
mente, ela seguirâ basicamente os padrões de consumo mentos infraestruturais em todo o mundo em função
dos Estados Unidos". 6 A aceitação dessa doutrina im- dos interesses do comércio internacional, a Inglaterra
plica em ignorar a especificidade do fenômeno do subde- promoveu e consolidou a implantação de um sistema de
senvolvimento. A ela se deve a confusão entre economia divisão internacional do trabalho que marcaria definiti-
subdesenvolvida e "pais jovem"; e a ela se deve a ccm- vamente a evolução do capitalismo industrial. Esse sis-
cepção do desenvolvimento como uma seqüência de fa- tema tendeu a concentrar geograficamente o processo
ses necessârias, à la Rostow. 1 de acumulação de capital, pelo simples fato de que, em
Captar a natureza do subdesenvolvimento não é ta- razão das economias externas e das economias de escala
refa fácil: muitas são as suas dimensões e as que são de produção, as atividades industriais - às quais cor-
facilmente visíveis nem sempre são as mais significati- respondia o setor da demanda em mais rápida expansão
vas. Mas se algo sabemos com segurança é que subde- - tendem a aglomerar-se.
senvolvimento nada tem a ver com a idade de uma so- A reação contra o projeto inglês de economia mun-
ciedade ou de um pais. E também sabemos que o parâ- dial não se fez sentir. A segunda fase da evolução do
metro para medi-lo é o grau de acumulação de capital capitalismo industrial está marcada por essa reação: é
aplicado aos processos produtivos e o grau de acesso à o período de consolidação dos sistemas econômicos na-
panóplia de bens finais que caracterizam o que se con- cionais dos países que formariam o clube das nações de-
vencionou chamar de estilo de vida moderno. Mesmo senvolvidas no século atual. A forma como ocorreu essa
para o observador superficial parece evidente que o sub- tomada de consciência, constitui capítulo fascinante da
desenvolvimento estâ ligado a uma maior heterogenei- história moderna, mas é matéria que escapa a nosso
dade tecnológica, a qual reflete a natureza das relações interesse imediato. Basta assinalar que, em toda parte,
externas desse tipo de economia. o êxito da reação esteve ligado a uma centralização das
Quando observamos de forma panorâmica a econo-
mia mundial no correr do século XIX, particularmente decisões econômicas bem maior do que aquela que havia
na sua segunda metade, percebemos que as enormes conhecido o capitalismo industrial inglês em sua fase de
transformações ocorridas se ordenam em torno de dois consolidação. Em algumas partes essa maior centrali-
zação seria obtida através da preeminência do sistema
6. Cf. The Limits to Growth, cit., p. 109. bancário, o qual conheceria importante evolução estru-
22 23
tural; em outras o estado nacional assumiu funções mais grandes empresas. Os mercados internacionais tendem a
amplas na direção do processo de acumulação. 7 Por toda ser controlados por grupos de empresas, cartelizadas em
parte essa orientação levou a alianças de classes e gru- graus diversos.
pos sociais - burguesia industrial, comercial e finan- Por que este e não aquele país passou a linha de-
ceira, proprietários rurais, burocracia estatal - em tor- marcatória e entrou para o club dos países desenvolvi-
no de um "projeto nacional'', com repercussões signifi- dos, nessa segunda fase crucial da evolução do capitalis-
cativas na evolução do capitalismo industrial. Ao passo mo industrial que se situa entre os anos 70 do século
que na fase inglesa o comércio internacional crescia passado e o primeiro conflito mundial, é problema cuja
mais rapidamente que a produção no centro do sistema, resposta pertence mais à história que à análise econômi-
a tendência agora será em sentido inverso. 8 A evolução ca. Em nenhuma parte essa passagem ocorreu no qua-
dos termos de intercâmbio tende a ser desfavorável à dro do laissez-faire: foi sempre o resultado de uma po-
periferia do sistema - isto é, aos países produtores de lítica deliberadamente concebida com esse fim. O que
produtos primários - e a acumulação continua a con- interessa assinalar é que a linha demarcatória tendeu a
centrar-se no centro, agora transformadb num grupo de aprofundar-se. Como a industrialização em cada época
países em distintos graus de industrialização. Por outro se molda em função do grau de acumulação alcançado
lado, a nova forma assumida pelo capitalismo - maior pelos países que lideram o processo, o esforço relativo
centralização de decisões no plano nacional - facilita a requerido para dar os primeiros passos tende a crescer
concentração do poder econômico e a emergência de com o tempo. Mais ainda: uma vez que o atrazo relativo
alcança certo ponto, o processo de industrialização sofre
7. Sobre a especificidade da industrialização retardada, na importantes modificações qualitativas. Já não se orien-
Europa, particularmente no que respeita aos aspectos institu- ta ele para farmar um sistema econômico nacional e
cionais, veja-se o trabalho clássico de A. Gerschenkron, Eco- sim para completar o sistema econômico internacional.
nomic Backwardness tn Historical Perspecttve (Cambridge,
Mass., 1966) princ·palmente páginas 5-50. Veja-se também B. Algumas indústrias surgem integradas a certas ativi-
Gille, "Banklng and Industriallzation ln Europe 1970-1914" e dades exportadores, e outras como complemento de ati-
B. Supple, "The State and the Industrial Revolution 1700-1914" vidades importadoras. De uma forma ou de outra, elas
em The Industrial Revolutton, dirigido por Cario M. Chipolla, ampliam o grau de integração do sistema econômico in-
terceiro volume da Tlie Fontana Economic Histor11 o/ Europe
(Londres, 1973) . ternacional. Nas fases de crise deste último, procura-se
reduzir o conteúdo de importações de certas atividades
8. O periodo de mais rápido cresc,mento do comércio in- industriais, o que leva, ocasionalmente, à instalação de
ternacional, até o presente, foi 1840-1870, isto é, a fase de apo-
geu do projeto inglês de economia mundial, quando essa taxa indústrias integradoras do sistema econômico no nível
alcançou a média anual de 13 por cento. Cf. A. H. Imlah, Eco- nacional. Dessa forma, por um processo inverso, através
nomtc Elements tn the Pa:r Brttanntca (Cambridge, Mass., 1958) de um esforço para reduzir a instabilidade resultante da
p. 190 e também A. G. Kenwood e A. L. Lougheed, The Growth forma de inserção na economia internacional, vem a
o/ the International Economy 1820-1960 <Londres, 1971) p. 90. tomar forma um sistema industrial com um maior ou
Contudo, até o fim do século, o comércio internacional conti-
nua a crescer mais rapidamente que a produção no conjunto menor grau de integração.
da economia mundial. As mudanças estruturais, no sentido de Esse sistema industrial formado em torno de um
maior integração interna dos sistemas economicos nacional.E mercado previamente abastecido do exterior, vale dizer,
que se vinham manifestando nos dois últimos decênios do s~­
cu lo, sometlte terão reflexos no comportamento da econonm• engendrado pelo processo de "substituição de importa-
internacional no correr do século atual. Com efeito: a partir ções" é específico das· economias subdesenvolvidas. Ele
do primeiro decênio de século e até 1950, o comércio mundial apresenta características próprias que devem ser tidas
df' manufaturas crescerá menos rapidamente que a produção
dP.stas. Cf. A. Malzels, Industrial GrOWth and Wor~d Trade em conta em qualquer tentativa de projeção do conjun-
<Londres, 1963 pp. 139-40 e 388). to da economia mundial. Para compreender o que há de
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,
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próprio nesse novo tipo de industrialização, é necessário manda efetiva. Explica-se, assim, que aqueles países que
dar alguns passos atrás e refletir sobre a situação da- procuraram criar um sistema econômico nacional, na
queles subconjuntos econômicos que se integraram no segunda fase da evolução do capitalismo industrtal, ha-
sistema capitalista internacional, na fase de hegemonia jam protegido atividades agrícolas e outras, que não ofe-
inglesa, e permaneceram como exportadores de produtos reciam ''vantagens comparativas". Mediante essa prote-
primários, na fase subseqüente de ampliação do centro ção eles asseguravam demanda ao setor industrial, com-
do sistema. Nessas economias os incrementas de produ- pensando amplamente com incrementas de produtivida-
tividades resultam fundamentalmente de expansão das de neste setor o que perdiam nas demais atividades
exportações e não do processo de acumulação e dos avan- "protegidas".
ços tecnológicos que acompanhavam :QO centro do sis- Nos países em que as vantagens comparativas as-
tema essa acumulação. Tratava-se de illcorporar recur- sumem a forma de especialização na exportação de pro-
sos produtivos sub-utilizados ou recentemente adquiri- dutos primários (particularmente os produtos agrícolas)
dos, como no caso da mão de obra imigrante, a um o excedente adicional assume a forma de um incremen-
sistema produtivo que crescia horizontalmente. Esses to das importações. Como a especialização. não requer
aumentos de produtividade decorrem do que em econo-
mia, a partir de Ricardo, se chama de "vantag~s com- nem implica modificações nos métodos produtivos e a
parativas". A doutrina liberal, mediante a qual os in- acumulação se realiza com recursos locais (abertura de
gleses com tanta convicção justificaram o seu projeto terras, estradas e construções rurais, crescimento de re-
de divisão internacional do trabalho, fundava-se nessa banho, etc.) 9 o incremento da capacidade para importar
lei das vantagens comparativas. é principalmente utilizado para adquirir bens de consu-
Que países - com abundância de terras não uti- mo. Desta forma, é pelo lado da demanda de bens finais
lizadas e a possibilidade de receber imigrantes (ou de de consumo que esses países se inserem mais profunda-
utilizar mais intensamente uma mão de obra integrada mente na civilização industrial. Esse dado é fundamen-
num sistema pré-capitalista) - hajam optado pela li- tal para compreender o sentido que neles tomará, em
nha de menor resistência das vantagens comparativas fase subseqüente, o processo de industrialização. Não é
não é para surpreender. Afinal de contas a Inglaterra minha intenção abordar aqui, em detalhe, o problema
também estava optando pelas vantagens comparativas da especificidade dessa industrialização fundada na cha-
quando reduzia a pouca coisa a sua agricultura e se con- mada "substituição de importações"; 10 limitar-me-ei a
centrava na indústria e mesmo na produção de carvão, assinalar que ela tende a reproduzir em miniatura sis-
que em parte exportava. O que cria a diferença funda-
mental e dá origem à linha divisória entre desenvolvi- temas industriais apoiados em um processo muito mais
mento e subdesenvolvimento é a orientação dada à uti- amplo de acumulação de capital. Na prática essa mi-
lização do excedente engendrado pelo incremento de niaturização assume a forma de instalação no país em
produtividade. A atividade industrial tende a concen- questão de uma série de subsidiárias de empresas dos
trar grande parte do excedente em poucas mãos e a
conservá-lo sob o controle do grupo social diretamente 9. Ali onde a modernização da infra-estrutura requeria
importação de equipamentos (caso das estradas de ferro) os
comprometido com o processo produtivo. Por outro lado, investimentos tendiam a ser consideráveis e demandavam coo-
como o capital invertido na indústria está sendo cons- peração externa. Contudo, a redução da capacidade para im-
tantemente renovado, a porta fica permanentemen- portar, decorrente do endividamento subseqüente, só se faria
aberta para a introdução de inovações. Dessa forma, um sentir a mais longo prazo.
sistema industrial tende a crescer por suas próprias for- 10. Veja-se, mais adiante, o ensaio Subdesenvolvimento e
ças, a menos que seja submetido a insuficiência de de- Dependência: as Conexões Fundamentais.
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países cêntricos, o que reforça a tendência para repro- do sistema capitalista. Da mesma forma que o empresá- .
dução de padrões de consumo de sociedades de muito rio inglês, que financiava o seu projeto na City, se sen-
mais elevado nível de renda média. Daí resulta o conhe- tia livre para localizar a sua atividade em qualquer parte
cido síndrome de tendência à concentração da renda, tão do mundo, a filial "internacional" de uma empresa ame-
familiar a todos os que estudam a industrialização dos ricana ou italiana que é dirigida do Luxemburgo ou da
países subdesenvolvidos. Suíça também se sente livre para iniciar ou ampliar
A rápida industrialização da periferia do mundo ca- suas atividades neste ou naquele país financiando-se da
pitalista, sob a direção de empresas dos países cêntricos, forma que lhe convém, em função de seus próprios obje-
que se observa a partir do segundo conflito mundial e tivos de expansão. A diferença com o antigo modelo in-
se acelerou no último decênio, corresponde a uma ter- glês está em que o empresário individual foi substituído
ceira fase na evolução do capitalismo industrial. Essa pela grande empresa.
fase se iniciou com um processo de integração das eco- Se encontramos similitudes com o antigo modelo
nomias nacionais que formam o centro do sistema. Da inglês, cabe reconhecer que também são significativas
formulação da Carta de Havana e criação do GATT ao as semelhanças com o capitalismo da fase de consolida-
Kennedy Round, passando pela formação do mercado ção dos sistemas nacionais. Com efeito: foi no quadro
comum europeu, foram dados passos consideráveis no deste último que a grande empresa assumiu o papel de
sentido de estruturar um espaço econômico unificado centro de decisão capaz de influir em importantes seto-
no centro do sistema capitalista. O movimento de capi- res de atividades econômicas. A grande empresa requer
tais, dentro desse espaço em vias de unificação, alcan- um grau de coordenação das decisões econômicas muito
çou volume considerável (principalmente dos Estados mais avançado do que aquele que corresponde aos mer-
Unidos para a Europa ocidental, mas também, em fase cados atomisados. Essa maior coordenação foi inicial-
mais recente, em sentido inverso), o que permitiu que mente alcançada mediante a tutela do sistema bancário
grandes empresas se implantassem em todos os subsis- ou diretamente de órgãos do governo. 12 Mas na medida
temas nacionais e também qUe as estruturas oligopóli- em que as grandes empresas foram adquirindo maturi-
cas viessem a abranger o conjunto desses subsistemas. A dade e se foram dotando de direções profissionais, ten-
formação, a partir da segunda metade dos anos 60, de deram a desenvolver regras de convivência que permi-
um importante mercado internacional de capitais cons- tiam a troca do mínimo de informações necessárias para
titui o coroamento desse processo, pois permite às gran- assegurar uma certa coordenação de decisões. Essa evo-
des empresas liberar-se de muitas das limitacões criadas lução se fez inicialmente nos Estados Unidos, onde a
pelos sistemas monetários e financeiros nacionais. 11 grande riqueza de experiência permitiu explorar múlti-
Desta forma, os sistemas nacionais, que constituí- plas possibilidades. A tendência à concentração que
ram os marcos delimitadores do processo de industriali- criou em certos ramos situações de virtual monopólio,
zação na fase anterior, foram perdendo individualidade provocou reações inversas de defesa do interesse público
no centro do sistema capitalista, sem que surgisse cla- com as leis anti-trust do fim do século passado. Fechada
ramente outro marco para substituí-los. Tendeu a criar- a porta ao monopólio foi necessário desenvolver formas
se uma situação de alguma forma similar à que preva- de coordenação mais sutis. O oligopólio constitui o co-
lecia na época em que a Inglaterra era sozinha o centro roamento dessa evolução: ele permite que um pequeno
grupo de grandes firmas criem barreiras à entrada de
11. Uma apresentação sumária dos dados relacionados
com esse processo encontra-se em Multtnational Corporations 12. Exemplo clássico de tutela exercida pelo sistema ban-
tn Worlà Development, Naçõe$ Unidas, 1973. Para uma biblio- cário é dado pela industrialização alemã. Veja-se nota 7 e, para
grafia sistemática sobre a matéria veja-se R. Vernon, sove- uma apresentação dos remanescentes dessa tutela, A. Shonfield,
reignty at Bay (1971), edição Penguin, 1973. Modern Capitalism <Londres, 1965) pp. 239-297.
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outras em um setor de atividade econômica e adminis- processo de concentração da indústria moderna. A sua
trem conjuntamente os preços de certos produtos, con- grande força deriva de que ela trabalha em mercados
servando contudo autonomia financeira, tecnológica e organizados, está em condições de administrar os pre-
administrativa. A administração dos preços cria vanta- ços e, portanto, de se assegurar auto-financiamento e
gem relativa para as empresas que mais inovam tanto poder planejar suas atividades a longo prazo. Mas não
em processos produtivos quanto na introdução de novos há dúvida de que foram as industrias do primeiro tipo
produtos dentro de determinado setor. A diferença da que constituíram o campo experimental no qual se de-
concorrência tradicional de preços, que se traduz em re- senvolveram as técnicas oligopólicas. Isso porque on-
dução dos lucros, debilitamento financeiro fechamento de as economias de escala são importantes, as imobili-
de fábricas, ou, no caso de que se imponha um mono- zações de capital são consideráveis e isso facilita a cria-
polista, elevação de preços e redução de demanda o ção de barreiras à entrada de novos sócios no club. So-
mundo dos oligopólios se assemelha muito mais a uin.a mente quando essas barreiras são sólidas é possível ad-
corrida em que, salvo acidente, todos alcançam o obje- ministrar preços e planejar a longo prazo. Demais, nesse
tivo final, sendo maior a recompensa dos que chegam na tipo de indústria é muito mais difícil manter ocultos os
frente. É _u~ esporte ao qual só têm acesso campeões, planos de expansão. Por último, nas indústrias que pro-
como as fma1s de Winbledon. duzem produtos homogêneos, os custos de produção são
A forma oligopólica de coordenação de decisões, gra- relativamente transparentes, na medida em que as técni-
ças a sua enorme flexibilidade, pôde ser transplantada cas produtivas são conhecidas. É natural, portanto, que
para o espaço semi-unificado que se está constituindo hajam sido as empresas desse grupo as primeiras que
no centro do sistema capitalista. Favorecendo por todas se hajam organizado internacionalmente como oligo-
as formas a inovação, o oligopólio constitui poderoso pólios. E foi a evolução no país cêntrico da empresa oli-
instrumento de expansão econômica. Graças à liberdade gopólica internacional produtora de insumos industriais
de ação de que vêm gozando eles, o comércio de produ- que deu origem a uma das primeiras famílias de empre-
tos manufaturados entre os países cêntricos cresceu com sas diversificadas. Com efeito: na medida em que as
extraordinária rapidez no correr dos dois últimos decê- grandes empresas internacionais se foram capacitando
nios. Por outro lado, a enorme capacidade financeira para administrar os preços dos metais não ferrosos, tor-
que tendem a acumular, levam-nos a buscar a diversi- nou-se interessante para elas transformarem-se em
ficação, dando origem ao conglomerado, que é a forma grandes utilizadoras desses metais. Por outro lado, para
mais avançada da empresa moderna. 13 planejar a produção de cobre a longo prazo era necessá-
A primeira vista pode parecer que a grande em- rio conhecer a evolução da economia do alumínio, por
presa deriva sua força principalmente das economias de exemplo. Daí a emergência de novas formas de oligo-
escala de produção. Isso é apenas em parte verdade. As pólio visando a coordenar a economia não de um pro-
economias de escala são fundamentais na metalurgia, duto mas de um conjunto de produtos até certo ponto
na química básica, papel e outras industrias onde o pro- substituíveis. Exemplo claro dessa evolução é dado pe-
duto é homogêneo, e também ali onde a mão de obra é las grandes companhias de petróleo: elas tenderam a
intensa e o trabalho pode ser organizado em cadeia. diversificar-se no campo da petroquímica e da enorme
Tudo isso responde apenas por uma parte do enorme família de indústrias que daí parte; mas também pro-
curaram instalar-se nos setores concorrentes, do carvão
13. Cf. C. Furtado, A Hegemonia dos Estados Unidos e o à energia atômica.
subdesenvolvimetno da América Latina (Rio, 1973) pp.43-51, e Se observamos em conjunto as duas linhas de di-
J. Fred Weston, "Comglomerate Flrms", em Economics of In- versificação, a vertical e a horizontal, vemos que uma
dustrial Structure, dirigido por Basil S. Yamey (Londres, 1973).
onde se encontra uma bibliografia seletiva sobre a matéria. empresa que se expande nessas duas direções tende a

30 31
ser levada a controlar atividades econômicas na apa- europeus passaram por um rápido e drástico processo de
rência totalmente desconectadas umas das outras. A reestruturação em base regional e que o sistema ban-
partir de certo momento as vantagens da -diversificação cário norteamericano se expandiu .internacionalmente
passam a ser estritamente de caráter financeiro, pois de forma vertiginosa. Também sabemos que as grandes
o excesso de liquidez de um setor pode ser utilizado nou- empresas operam internacionalmente através de cen-
tro, ocasionalmente mais dinâmico. Ora, esse tipo de tros de decisão que escapam, em grande medida, ao
coordenação pode ser obtida através de instituições .fi- controle dos governos nacionais dos respectivos países. 15
nanceiras, por definição muito mais flexíveis. Esse pro- A evolução estrutural dos países cêntricos teria ne-
cesso evolutivo tende, portanto, a levar a uma coorde- cessariamente que repercutir nas relações econômicas
nação financeira, através de instituições bancárias e se- internacionais. Neste terreno, mais que em qualquer
melhantes, e a uma coordenação oligopólica, no plano outro, a grande empresa leva vantagem. 16 Com efeito,
operacional. 11 somente ela está em condições de administrar recursos
As observações que vimos de fazer se baseam na ob- aplicados simultaneamente em diversos países. É natu-
servação da estrutura econômica norteamericana. Muito ral portanto, que as antigas transações internacionais,
menos informação dispomos sobre as formas que estão organizadas por intermediários que especulavam com
assumindo os oligopólios no espaço econômico, mais he- estoques ou "jogavam" nas bolsas de mercadorias, hajam
terogênios, em processo de unificação no centro da eco- sido progressivamente substituídas por outras entre em-
nomia capitalista. Sabemos, sim, que os recursos finan- presas pertencentes a um grupo, cujas atividades estão
ceiros postos à disposição das grandes empresas cresceu
consideravelmente, que os sistemas bancários nacionais 15. Entre 1965 e 1972 o número de filiais de bancos ameri-
canos no estrangeiro subiu de 303 para 1.009; com respeito aos
grandes bancos sediados em Nova York, a participação dos de-
14. Evidentemente, a coordenação financeira pode ser le- pósitos estrangeiros subiu de 8,5 por cento (dos depósitos nacio-
vada muito mais longe do que a oligopólica. Esta última somente nais) para 65,5 por cento, entre 1960 e 1972. Veja-se Multinatto-
tem sentido na medida em que oferece vantagens operacionais e nal Corporations in World Development, cit. p. 12. A expansão
permite retificar os planos de produção e investimento de cada internacional da rede bancãria de outros países cêntricos tem
empresa com autonomia administrativa. A coordenação finan- sido igualmente considerãvel, particularmente da japonesa. As
ceira, ao permitir que um ramo de atividade subsid.e outro ou operações externas de uma grande empresa são, via de regra,
financie sua expansão, pode ser, teoricamente, extendida inde- dirigidas ostensivamente por uma subsidiãria "internacional"
finidamente; situando-se a um nível de decisões extremamente localizada em um país de conveniência, ainda que o centro de
geral, as deseconomias de escala são praticamente inex stentes, decisões se mantenha no país de origem da empresa.
neste caso. Estudos recentei; realizados nos Estados Unidos in-
dicam que a coordenação financeira é muito ma.s amplamente 16. Preferimos designar simplesmente "grande empresa"
praticada do que geralmente se supõe. Sem assumir a forma ins- ao que correntemente se vem chamando "corporação multinacio-
titucional que tem na Alemanh~. onde a existência do Auf- nal". Toda grande empresa, na economia capitai:sta atual, ex-
stchtsrat (Conselho supervisor da empresa) permite aos bancos cluidos os serviços públicos, é "internacional", no sentido de que
atuar ostensivamente na orientação da empresa, o entrelaça- atua simultaneamente em vãrios países, seja através de subsi-
mento dos diretórios e o controle de uma pequena fração do diãrias comerciais, seja por intermédio de subsidiãrias produ-
capital votante <não mais de 5 por cento) transformaram os toras ou de participação em empresas produtoras. A dimensão
bancos nos Estados Unidos em centros de controle do conjunto impõe a internacionalização, mesmo se a empresa tem o seu
da· atividade econômica de importancia que dificilmente pode capital controlado por um Estado Nacional. Por outro lado, uma
ser exagerada. Assim, eín 1971, conforme informações divulga- empresa grande ou média que tenha reduzida atuação interna-
das pelo Sub-comité de Banco e Moeda do Congresso americano, cional, pelo fato de atuar internamente no quadro de oligopó-
os bancos detinham em portafollo 577 bilhões de dólares de tí- lios, necessita seguir o comportamento "internacional" do con-
tulos emitidos por sociedades anônimas e administravam fun- junto do oligopólio. Em sintese: a diferença entre "nacional" e
dos que controlavam 336 bilhões de dolares adicionais em titu- "internacional" tende a ser secundãria, importando fundamen-
los financeiros dessa ordem. talmente o peso relativo da empresa.

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articuladàs. 17 Na medida em que as atividades econô- Estado, nacional ou multi-nacional, com a pretenção de
micas foram sendo organizadas dentro dos países cên- estabelecer critérios de interesse geral disciplinadores
tricos para permitir um planejamento das atividades do conjunto das atividades econômicas. Não que os es-
das empresas a mais longo prazo, impôs-se a necessida- tados se preocupem menos, hoje em dia, com o interesse
de de também planejar as· transações internacionais me- coletivo. Na medida em que as economias ganharam em
diante contratos de suprimento a longo prazo, instala- estabilibdade, a ação do Estado no plano social pôde
ção de subsidiárias ou outras formas de articulação. ampliar-se. Mas, como tanto a estabilidade e a expan-
Operando simultâneamente em vários países e rea- são dessas economias dependem, fundamentalmente,
lizando transações internacionais entre membros de um das transações internacionais, e estas estão sob o con-
mesmo grupo, as grandes empresas tenderam a desen- trole das grandes empresas, as relações dos estados na-
volver sofisticadas técnicas de administração de preços, cionais com estas últimas tenderam a ser relações de
que exigem na prática uma grande disciplina dentro dos poder. Em primeiro lugar, a grande empresa controla
oligopólios. O mesmo produto pode ser vendido a preços a inovação - a introdução de novos processos e novos
diversos em vários países, independentemente dos custos produtos - dentro das economias nacionais, certamen-
locais de produção, e os preços praticados nas transa- te o principal instrumento de expansão internacional.
ções internacionais dentro de um mesmo grupo são fi- Em segundo lugar, elas são responsáveis por grande
xados tendo em conta as diversidades de políticas fiscais, parte das transações internacionais e detêm pratica-
os problemas cambiais, etc. Essas técnicas são pratica- mente a iniciativa nesse terreno; em terceiro lugar, ope-
das no quadro dos oligopólios, portanto não devem de- ram internacionalmente sob orientação que escapa em
sorganizar oi; mercados, nem impedir o crescimento grande parte à ação isolada de qualquer governo, e em
destes. O interesse particular que apresenta o seu estu- quarto, mantêm uma grande liquidez fora do controle
do reside em que elas permitem entrever a verdadeira dos bancos centrais e têm fácil acesso ao mercado finan-
significação da grande empresa dentro da economia ca- ceiro internacional.
pitalista moderna. 1s O que dissemos no parágrafo anterior deve ser en-
O traço mais característico do capitalismo na sua tendido, não como declínio da atividade política, mas
fase evolutiva atual está em que ele prescinde de um como transformação das funções dos estados e emer-
gência de forma nova de organização política, cujo per-
17. A ligação entre a natureza monopólica ou ollgopólica fil ainda se está definindo. Não se necessita muita pers-
das empresas e os investimentos diretos no exterior, ou seja, o picácia para perceber que, a partir do segundo conflito
relacionamento entre a economia internacional tal qual se apre-
senta hoje em dia e a evo_lução estrutural da grande empresa, mundial, o sistema capitalista operou com unidade de
deve-se ao trabalho pioneiro do Stephen Hymer, cuja tese de comando político, apoiado em um sistema unificado de
doutorado no M.I.T. ("The International Operations of Na- segurança. A existência dessa relativa unidade de co-
tional Firms: A Study of Direct Investment") data de 1960.
Veja-se também John H. Dunning (diretor), International In- mando político se deve a rápida reconstrução das eco-
vestment <Londres, 1972), particularmente a Introdução. nomias da Europa ocidental e do Japão, o processo de
18. O superfaturamento e o subfaturamento são conhe- "descolonização", a organização do mercado comum eu-
cidas técnicas utilizadas pelas empresas que operam no co- ropeu, a ação persistente do Gatt visando ao desarma-
mércio internacional. Contudo, os estudos sobre esta matéria mento tarifário, os grandes movimentos de capital que
são extremamente escassos. As pesquisas feitas por C. V. Vaitsos
na Colômbia puseram em evidência que os recursos transferi- permitiram às grandes empresas adquirir a preeminên-
dos internacionalmente por esses meios são muito mais im- cia internacional, a aceitação do padrão dolar como
portantes do que antes se imaginava. Cf. "Transfer o/ Resour- substituto do antigo padrão ouro. A dificuldade para en-
ces and Preservation o/ Monopoly Rents" <Harvard University
1970). , tender esse processo está em que o raciocínio analógico
34 35
)

de muito pouco nos ajuda neste caso. l!: perfeitamente l!: possível que a tutela política norte-americana
claro que a tutela política americana foi um resultado haja sido facilmente aceita pelo fato de que, no plano
"natural" do último conflito mundial. Que o maior sa- econômico, ela não se ligou a um projeto definido em
crifício humano e econômico nesse conflito haja cabido à termos de interesses norte-americanos: foi apresentada
União Soviética e que a destruição do poder militar e como um instrumento de defesa da "civilização ociden-
político da Alemanha e Japão haja beneficiado aos Es- tal", o que, para fins práticos, se confundia ein grande
tados Unidos dentro do campo capitalista, são dados da medida com a defesa do sistema capitalista. Criou-se,
história que devemos aceitar como tais. O que interessa assim, uma superestrutura política a nível muito alto,
assinalar é que, estabelecida a preeminência política com a missão principal de desobstruir o terreno ali onde
americana, criaram-se condições para que se dessem os resíduos dos antigos estados nacionais persistiam em
profundas modificações estruturais no sistema capita- criar barreiras entre os países. A reconstrução estrutu-
lista. Não se pode afirmar que essas modificações hajam ral se operou a partir da economia internacional. No
plano interno os estados nacionais ampliaram a sua
sido desejadas e muito menos planejadas pelos centros atuação para reconstruir as infra-estruturas, moderni-
políticos ou econômicos dos Estados Unidos. A verdade zar as instituições, intensificar a capitalização, ampliar·
é que, delas, resultou um crescimento econômico muito a força de trabalho, etc. Tudo isso contribuiu, evidente-
mais intenso e uma elevação de níveis de vida relativa- mente, para reforçar a posição das grandes empresas
mente muito maior, na Europa ocidental e no Japão. dentro de cada país. Mas foi a ação no plano interna-
Aparentemente os americanos superestimaram a vanta- cional, promovida pela superestrutura política, que abriu
gem relativa que já haviam obtido no campo econômico, a porta às transformações de fundo, trazendo as gran-
ou superestimaram as ameaças de subversão social e a des empresas para uma posição de poder vis-à-vis dos
capacidade da União Soviética para ampliar a sua esfera estados nacionais.
de influência. Em todo caso, eles organizaram um siste- A reunificação do centro do sistema capitalista cons-
ma de segurança abrangente do conjunto do mundo titui, possivelmente, a mais importante conseqüência
capitalista e por essa forma exerceram uma efetiva tu- do segundo conflito mundial. Esse centro se apresenta,
tela política sobre os estados nacionais que formam esse hoje em dia, como um conjunto de cerca de 800 milhões
mundo. 19 de pessoas. O seu quadro político consiste num regime
de tutela, sob controle americano, dentro do qual os es-
19. O sistema de segurança global, que abrange o mundo tados nacionais gozam, ainda que em graus diversos, de
capitalista, comporta, evidentemente, distintos graus de auto- considerável autonomia. Nada parece impedir que a es-
nomia nacional. A França é o exemplo conspícuo de país que
defende o direito à autonomia de sua de/ esa, no quadro global trutura superior de poder evolua numa ou noutra dire-
do sistema. Essa autonomia deve ser entendida como o propó- ção, seja para reforçar ainda mais a posição norte-ame-
sito de não assumir os riscos que implica o controle pelos Es- ricana seja para admitir uma certa participação de ou-
tados Unidos das decisões fundamentais. Assim, teoricamente,
os Estados Uindos poderiam "sacrificar" uma parte da Europa
ocidental numa confrontação parcial com a União Soviética, França) responsável pelas decisões mais importantes. Esse dis-
afim de preservar a integridade de seu território. A autonomia positivo não atraiu os americanos e não dispensava o desen-
francesa significa que essa margem de manobra se reduz para volvimento de um poder atómico independente em cada um
os Estados Unidos, passando o território da França a gozar de dos três países. A irrelevância da autonomia francesa, como
proteção similar à que os americanos reservam para o seu pró- instrumento de política internacional, ficou patente no con-
prio território, sem que essa situação possa ser modificada por flito do Oriente médio de fins de 1973. A última "Declaração
decisão unilateral dos Estados Unidos. Um sistema alternativo Atlântica", de 19 de junho de 1974, confirmou a unicidade dos
foi inicialmente concebido por de Gaulle através da criação sistemas de defesa da Europa ocidental e dos Estados Unidos.
de um dispositivo conjunto (Estados Unidos, Gran-Bretanha e Cf. Le Monde de 21 de Junho de 1974, p. 5.

36 37
/

tros estados nacionais. 20 Também não se exclui a hipó- Dentro desse vasto mercado a chamada "economia in-
tese de que um determinado estado nacional procure ternacional" constitui o setor em mais rápida expansão
aumentar a sua autonomia. O problema principal que e aquele em que as grandes empresas gozam do máximo
se coloca neste último caso é de relações com as grandes de liberdade de ação. Toda tentativa de compartimenta-
empresas. Em primeiro lugar, as grandes empresas do ção desse espaço da parte de qualquer estado nacional,
próprio país, as quais já não poderão operar com a mes- mesmo os Estados Unidos, encontrará resistência deci-
ma flexibilidade dentro dos oligopólios internacionais dida das grandes empresas. Por outro lado, toda tenta-
e, muito provavelmente, perderão terreno para as suas tiva de compartimentação reduzirá o ritmo da acumu-
rivais ou passarão, parcialmente, para o controle de lação e da expansão econômica, no conjunto do sistema
uma subsidiária localizada em outro país. e mais particularmente no subsistema que haja tomado
O Produto Bruto do centro do sistema capitalista a iniciativa de isolar-se. A menos que pretenda modifi-
supera de muito, atualmente, um e meio trilhão de dóla- car o estilo de vida de sua população e, de alguma for-
res. O acesso a esse imenso mercado, caracterizado por ma, perder em grande parte as vantagens que significa
considerável homogeneidade nos padrões de consumo, integrar o centro do sistema capitalista, qualquer país,
constitui o privilégio supremo das grandes empresas. 21 independentemente de seu tamanho terá que conviver
com as grandes empresas, dirigidas de dentro ou de
20. As propostas americanas de 1972 visando a diferen- fora de suas fronteiras, respeitando a autonomia de que
ciar planos de decisão, - o que significaria institucionalizar o
que está demonstrado na prática, ou seja que os demais países necessitam para integrar oligopólios internacionais.
do mundo capitalista não dispõem de meios efetivos para levar No correr do último quarto de século o produto
adiante por conta própria uma política "planetária" - são uma bruto do centro do sistema capitalista mais que triplicou
indicação da tendência evolutiva do sistema no decênio atual. e as relações comerciais entre as economias nacionais
As duas maiores nações industriais, depois dos Estados Unidos,
pelo fato mesmo de que estão localizadas nas fronteiras do que formam esse conjunto cresceu . com velocidade ain-
sistema - a Alemanha de um lado e o Japão de outro - po- da maior. 22 Esse crescimento se fez em grande parte no
deriam influenciar a evolução politica deste. Contudo, essas sentido de uma maior homogeneização, declinando re-
duas nações são profundamente dependentes da forma evolu-
tiva atual do mundo capitalista para prossegulr com a extra- lativamente os Estados Unidos e aumentando com ex-
ordinária expansão econômica de que se estão beneficiando. cepcional intensidade a renda per capita daqueles países
No plano econômico, essas duas nações são as maiores bene- em que esta era relativamente baixa, como o Japão e a
ficiárias de um sistema de defesa para o qual contribuem com
a mínima parte. Itália. Mas, se é verdade que o crescimento nos Estados
21 O produto per capita do centro do sistema capitalista Unidos foi relativamente lento, também o é que foram
(os países desenvolvidos de economia de mercado, na lingua- as grandes empresas americanas as que mais se expan-
gem das publicações das Nações Unidas) foi estimado pelo
Banco Mundial em 1 964 dolares para 1968; e o da população
da periferia do sistema (chamados países em vias de desenvol- 22. O produto interno bruto dos países do centro cresceu
vimento) de economia de mercado em 175 dolares. Arredondan- no após guerra (dados relativos a 1950-1969) com uma taxa
do para 2000 dolares no primeiro caso e para 200 no segundo, e anuàl de 4,7 por cento; no decênio .dos 60, fase de mais rápida
tendo em conta que a população do centro se aproximava de inte1~ração do sistema, a taxa foi de 5,4 por cento; a taxa de
800 milhões, em 1970, enquanto a da periferia seria da ordem crescimento per capita é, no primeiro caso, de 3,5 e, no segundo,
de 1,7 bilhões, conclui-se que o produto no centro seria da or- de 4,3. O crescimento das exportações foi ainda mais intenso:
dem de 1,6 trilhões de dolares e o da periferia de 340 bilhões. 8,6 por cento anual no após guerra (1948-1970) e 10,1 nos anos
Veja-se o comunicado de imprensa do Banco Mundial de 38 de 60; e> comércio entre os países cêntricos conheceu uma taxa de
setembro de 1971 e, para os dados básicos de população Kings- crescimento ainda mais alta, pois a sua participação no total
ley Davis, "Population Policy: Will Current Programs Succeed?" do comércio exterior desses países passou de 64 por cento, em
Science, 10 de Novembro de 1967 e Tomas Freijka, "The Pros- 1948, para 77 por cento em 1970. Para os dados básicos veja-se
pects for a Stationary World Population", Scientific American. CEPAL, Estudio Económico de América Latina, 1971, vol. I, qua-
Março de 1973. dro 2.

38 39
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diram no plano internacional. 23 Essa expansão na maio- então houvera parecido inconcebível. Essa situação pro-
ria dos casos, não assumiu a forma de incremento das vocou duas consequências importantes, de natureza di-
transações comerciais dos Estados Unidos com os paí- versa. A primeira consistiu na formação de uma massa
ses em que operam as subsidiárias de suas grandes em- de liquidez que facilitaria o rápido desenvolvimento do
presas. As empresas americanas eram as que melhores- mercado financeiro internacional, ampliado assim o
tavam preparadas para explorar as novas possibilidades grau de liberdade de ação das grandes empresas. A se-
criadas pelas reformas estruturais ocorridas no sistema gunda foi o reconhecimento de que o sistema monetário
capitalista nesse período, seja em razão do maior poder internacional atual se baseia no dolar e não no ouro.
financeiro de que gozavam,· seja à causa do avanço tec- O fato de que a emissão de dolar seja privilégio do go-
nológico que haviam ganho em campos fundamentais. verno dos Estados Unidos, constitui prova irrefutável
Mas, ao evoluir o centro do sistema capitalista no sen- de que esse país exerce com exclusividade a tutela do
tido de uma maior homogeneização, as conseqüências conjunto do sistema capitalista. É possível que essa tu-
na economia norte-americana não se fizeram sentir. O tela, no futuro, seja partilhada com outros países, subs-
mais rápido crescimento da produtividade fora dos Esta- tituindo-se o dolar por uma moeda de conta caucionada
dos Unidos provocou uma deslocação da balança comer- por um conjunto de bancos centrais. Poder emitir moe-
cial desse país, que tendeu a ser invadido de importações da de curso forçado internacional, independentemente
provenientes das outras nações industriais. Sendo o dolar da própria situação de balança de pagamentos, é privi-
uma moeda "reserva", o resultado foi o endividamento légio real. Compreende-se, portanto, que os americanos
a curto prazo dos Estados Unidos numa escala que até se empenhem em não abandoná-lo. O regime de parida-
des fixas, prolongado por tanto tempo, se fundava na
23. O número de subsidiárias de firmas americanas no hipótese otimista de que o diferencial de produtividade,
exterior aumentou, entre 1950 e 1966 de 7 417 para 23 282 e a entre os Estados Unidos e as demais economias indus-
proporção dessas filiais em outros países cêntricos subiu de
62,8 para 65,0 por cento. A expansão das grandes firmas ame-
ricanas foi ainda mais intensa. Se bem a informação seja in- e os relativos ao Japão 5,2 e 0,6 bilhões. Parece claro que os
suficiente, sabe-se que a expansão das firmas japonesas e ale- custos substancialmente mais baixos do Japão e da Alemanha
mãs foi ainda mais rápida, mas partindo de uma base conside- (salários muito mais baixos e rápida modernização do equipa-
ravelmente inferior. Um dado comparativo pode ser obtido mento industrial no após guerra) permitiram, nesses dois paí-
através do valor contábil dos investimentos diretos: entre 1960 ses, que as firmas se expandissem internacionalmente usando
e 1971 os das firmas americanas passaram de 33 para 86 bilhões o caminho convencional da exportação; ademais, em face da
de dolares e os das firmas japonesas de 300 milhões para 4,5 unificação do mercado do sistema capitalista, as firmas de
bilhões; em 1971 os investimentos das firmas alemãs haviam al- países com mercado local menor teriam maiores possib1lldades
cançado 7,3 bilhões. Cf. Nações Unidas, Multinational Corpo- de obter economias de escala através da exportação. Nos Es-
rations in World Development, clt. p. 8 e quadro 8. Uma Idéia tados Unidos, onde o mercado local permitiu às firmas manu-
mais precisa do crescimento relativo do segmento Internacio- fatureiras maximizar as economias de escala, a descentraliza-
nal das economias nacionais cêntrlcas nos é dada por R. Row- ção geográfica da produçãõ, em base internacional, se apre-
thorn e S. Hymer em International Big Business 1957-1967 sentou mais cedo como via de expansão privilegiada. Dados
(Cambridge University Press; 1971) pp. 61-74. Os dados ai apre- mais recentes indicam que tanto as firmas alemãs como as
sentados indicam que, no que respeita ao setor manufatureiro, japonesas estão tendendo para o modelo de expansão interna-
o crescimento "Internacional" das economias alemã e japonesa cional americano. Contudo, em 1971 a produção internacional
se fez essencialmente através de expansão das exportações, ao japonesa (subsidiárias em todos os ramos) alcançou 9 bilhões
passo que, nos Estados Unidos e em menor escala no Reino de dolares, enquanto as exportações desse país passavam de 24
Unido, esse crescimento ~sumiu a forma de expansão das milhões; os dados relativos à Alemanha foram 14,6 e 39,0 bi-
vendas de subsidiárias iniitaladas no exterior. Assim, entre lhõe e relativos aos Estados Unidos 172,0 e 43,5 bilhões. Cf.
1957 e 1965 as exportações americanas aumentaram apenas em Nações Unidas, Cit, quadro 19, e s. Hymer e R. Rowtohrn,
4,2 bllhões de dolares, ao passo que as vendas de subsidiárias "Multlnational Coroorations and International Ollgopoly: The
de firmas americanas no exterior aumentaram em 24 bilhões: Non-American Callenge" ln C. P. Kindleberger (diretor) The
os dados relativos à Alemanha são 8,4 e 1,4 bilhões de dola::.-es International Corporation <The M.I.T. Press, 1970).

40 41
trializadas, se manteria. Fora dessa hipótese, ele somen- paises do ce1.1tro da economia capitalista 25 e toda tenta-
te seria operacional num mundo em que as relações eco- tiva para reduzi-lo provoca outras perturbações. Na me-
nômicas internacionais crescessem lentamente ou se dida em que as tendências referidas se agravam e prolon-
apoiassem em atividades em que as vantagens compa- gam, vai surgindo uma área de fricção entre as grandes
rativas se fundassem em fenômenos naturais. O aban- empresas e outros setores da sociedade norte-americana.
dono da convertibilidade do dolar em ouro e da fixidez É dificil especular sobre a evolução de um processo tão
das paridades cambiais entre as principais moedas, sig- complexo como esse, mas não se pode excluir a hipotese
nifica que o dolar se transformou em centro de gravi- de que ele tenha importantes conseqüências na estrutu-
dade do sistema de forma explicita. ração política do mundo capitalista. Se o processo de
Fizemos referência ao fato de que as subsidiárias fricção se agrava, é possível que surja uma tendência a
das grandes empresas norteamericanas, que operam nos diferenciar mais claramente o sistema de tutela política
demais países do centro capitalista, têm crescido com do mundo capitalista dos interesses mais específicos do
intensidade maior que suas matrizes. 24 Aproveitando-se Estado nacional norte-americano. A presente crise polí-
de condições favoráveis que oferecem esses países e ou- tica polarizada no caso do Watergate, pela qual o poder
tras ainda mais vantajosas que encontram na periferia legislativo procura recuperar parte das atribuições cons-
do sistema capitalista, essas subsidiárias se expandem titucionais que lhe foram subtraidas pelo poder executi-
·rapidamente e tendem a criar relações assimétricas com vo no correr dos últimos anos, pode constituir o prelúdio
a metropole. Por outro lado, durante o longo período de importantes reajustamentos no plano político-institu-
das paridades fixas, empresas de outros países indus- cional. 26 o reforçamento do poder legislativo implicará,
triais em que a produtividade crescia rapidamente, par- muito provavelmente, uma maior mobilização dos inte-
ticularmente o Japão e a Alemanha Federal, implanta- resses que conflitam com as grandes empresas, ao mes-
ram-se solidamente no mercado norteamericano. Criou- mo tempo que poderá reduzir a capacidade do governo
se, assim, uma situação estrutural pela qual as impor- dos Estados Unidos para exercer a tutela internacional.
tações tendem a crescer mais fortemente que as expor- Nesta hipótese,é perfeitamente possível que o sistema
tações, o Que não pode deixar de ter repercussõs negati- de tutela se reestruture em bases mais "internacionais". 27
vas no nível interno de emprego. Enfrentar essa situa- 25. A taxa de desemprego nos Estados Unidos tem flu-
ção com simples medidas cambiais significa elevar perio- tuado, nos ultimos 20 anos, entre 3 e 6 por cento e nos paises
dicamente os preços das importações indispensáveis e da Europa ocidental entre menos de 0,5 e 3 por cento, excluída
abrir a porta à degradação dos termos de intercâmbio. a Grã Bretanha.
Dessa forma, o êxito considerável das empresas norte- 26. O aspecto mais importante dessa crise está ligada a
americanas no exterior tem a sua contrapartida de pro- não execução, durante a primeira administração de Nixon, de
partes da lei orçamentária. Sob o pretexto de evitar aumento
blemas para outros setores da economia dos Estados Uni- da pressão inflacionária, o Presidente não pôs em execução
dos. Com efeito, este país apresenta um coeficiente de planos de gastos no campo da assistência soc 1al e do controle
desemprego muito superior ao que se observa nos demais da poluição, o que acarretou considerável desgaste político de
membros do Congresso.
27. A "internacionalização" da tutela, a exemplo da pra-
· 24. Já fizemos referência ao fato de que os investimentos ticada pelo Fundo Monetário Internaclonal sobre os governos
diretos americanos no exterior quase triplicaram seu valor latino-americanos durante muitos anos, tende a assumir a
contábil, entre 1960 e 1971, ao passo que a taxa de crescimento forma de explicitação de um código de "normas de bom com-
do PIB americano no após guerra (1950-1969) foi de 3,6 por portamento" a ser seguido pelas grandes empresas e pelos
cento anual e a de crescimento do setor industrial de 4,1. Pode- estados, sob a supervisão de orgãos "internacionais". No estudo
se estimar que a expansão da produção das firmas americanas das Nações Unidas que citamos anteriormente se faz referên-
no exterior é pelo menos três vezes maior que a do conjunto cia, por exemplo, à conveniência de estabelecer "um conjunto
das firmas que operam dentro dos Estados Unidos. Para os de instituições e mecanismos destinados a guiar as corpora-
dados sobre o PIB ameriéano veja-se CEPAL, cit., quadro 3. ções internacionais no exercício do poder ... " Ver página 2.

42 43
As grandes empresas nas novas relações centro-periferia internas à medida que se industrializam guiadas pela
substituição de importações. Já fizemos referência a esse
As modificações estruturais ocorridas no centro, a fato, conseqüência inelutável da tentativa de reprodução
que ·fizemos referência, devem ser tidas em conta em em um pais pobre das formas de vida de países que já
qualquer tentativa de identificação das tendênicas evo- alcançaram níveis muito mais altos de acumulação de
lutivas atuais do conjunto do sistema capitalista. Em capital. Ora, esse tipo de industrialização, que em perío-
primeiro lugar, é necessário ter em conta que o processo dos anteriores tropeçava com obstáculos consideráveis
de unificação abriu o caminho a uma considerável in- criados pela falta de capitais, pela dificuldade de acesso
tensificação do crescimento no próprio centro. Com efei- à tecnologia, pela pequenez do mercado interno, reali-
to: a taxa média de crescimento do bloco de países que za-se atualmente com extraordinária rapidez, graças à
formam o centro, mais que duplicou, no correr do últi- cooperação dos oligopólios internacionais. Utilizando
mo quarto de século, com respeito à taxa histórica de tecnologia amortizada, algumas vezes equipamentos
crescimento desses mesmos países. 28 Em segundo lugar, também já amortizados, e mobilizando capital local, as
ampliou-se consideravelmente o fosso que já separava o grandes empresas estão em condições de instalar indús-
centro da periferia do sistema, o que em grande parte trias na maior parte dos países da periferia, particular-
é simples conseqüência da intensificação do crescimento mente se essas industrias se integram parcialmente com
no centro. 29 Em terceiro lugar, as relações comerciais atividades de importação.
entre países cêntricos e periféricos, mais ainda do que Sobra dizer que a industrialização que atualmente
entre países cêntricos, transformaram-se progressiva- se realiza na periferia sob o controle das grandes empre-
mente em operações internas das grandes empresas. 30 sas é processo qualitativamente distinto da industriali-
Não havendo conhecido a fase de formação de um zação que, em etapa anterior, conheceram os países cên-
sistema econômico nacional dotado de relativa autono- tricos e, ainda mais, da que nestes prossegue no presen-
mia - fase que permitiu integrar as estruturas internas te. O dinamismo econômico no centro do sistema decorre
e homogeneizar a tecnologia, as economias periféricas de fluxo de novos produtos e da elevação dos salários
conhecem um processo de agravação das disparidades reais que permite a expansão do consumo de massa. 3•
Em contraste, o capitalismo periférico engendra o mi-
28. Já fizemos referência ao fato de que essa taxa, no metismo cultural e requer permanente concentração
período 1950-1969, foi de 3,5 por cento per capita; as taxas his- da renda a fim de que as minorias possam reproduzir
tóricas são as seguintes: França 0845-1950) 1,4; Alemanha as formas de consumo dos países cêntricos. Esse ponto
0865-1952) 1,5; Grãn Bretanha (1865-1950) 1,3; Estados Uni-
dos (1875-1952) 2,0; Japão <1885-1952) 2,6. Cf. S. Kuznets, é fundamental para o conhecimento da estrutura global
Economic Growth <Yale University Press, 1959) pp. 20-1. do sistema capitalista. Enquanto no capitalismo cêntri-
29. A taxa de crescimento da renda per capita foi de 3,5 co a acumulação de capital avançou, no correr do último
no centro e de 2,5 na periferia, no periodo 1950-1969. Cf. CEPAL, século, com inegável estabilidade na repartição da ren-
cit. quadro 2. Ainda que a taxa de crescimento da renda per da, funcional como social, 32 no capitalismo periférico a
capita fosse idêntica, o fosso estaria permanentemente aumen- industrialização vem provocando crescente concentra-
tando: um incremento de 3,5 por cento em uma renda de 200 ção.
dolares corresponde a 7 dolares e numa de 2000 a 70 dolares.
30. Exceto para os Estados Unidos, inexiste informação 31. Cf. C. Furtado, "Subdesenvolvimento e Dependência:
precisa sobre esse ponto. Na medida em que declina a impor- as Conexões Fundamentais", Cit. e também Analise do 'Modelo'
tância relativa dos produtos agrícolas e aumenta a das maté- Brasileiro (Rio, 1973).
rias primas minerais e, ainda mais, a dos produtos manufatura-
dos nas exportações dos países periféricos, estas tendem a des- 32. As estatísticas disponíveis com respeito ao processo de
locar-se dos "mercados internacionais" para o âmbito interno industrialização dos Estados Unidos, da França, da Grã-Breta-
de grandes empresas. nha e da Alemanha põem em evidência a estabilidade tanto

44 45
A evolução do sistema capitalista, no último quarto empresas e a orientação do progresso técnico para a
de século, caracterizou-se por um processo de homoge- produção em massa, torna ainda mais difícil, no quadro
neização e integração do centro, um distanciamento do capitalismo, a criação tardia de sistemas econômicos
crescente entre o centro e a periferia e uma ampliação nacionais. Evidentemente a situação varia na periferia,
considerável do fosso que, dentro da periferia, separa entre países, em função da população, da disponibilida-
uma minoria privilegiada e as grandes massas da po- de de recursos naturais, do nível de renda anteriormen-
pulação. Esses processos não são independentes um dos te alcançado, do dinamismo das exportações tradicio-
outros: devem ser considerados dentro de um mesmo nais, da capacidade externa de endividamento, etc. Em
quadro evolutivo. A integração do centro permitiu in- países de grande população, a simples concentração da
tensificar sua taxa de crescimento econômico, o que res- renda pode permitir a formação de um mercado sufi-
ponde, em grande parte, pela ampliação do fosso que o cientemente amplo e diversificado. 33
separa da periferia. Por outro lado, a intensidade do Que se pode dizer sobre as tendências evolutivas das
crescimento no centro condiciona a orientação da indus- relações entre o centro e a periferia a partir de quadro
trialização na periferia, pois as minorias privilegiadas estrutural que vimos de esboçar? Fizemos referência ao
desta última procuram reproduzir o estilo de vida do fato de que uma das características desse quadro é a
centro. Em outras palavras: mais intenso o fluxo de no- crescente internalização dentro das grandes empresas
vos produtos no centro (esse fluxo é função crescente da das transações comerciais entre países. Também obser-
renda média) mais rápida a concentração da renda na vamos que grande parte das atividades industriais na
periferia. periferia surgia integrada com fluxos de importação.
A intensificação do crescimento, no centro, decorre Dessa forma, uma mesma empresa controla unidades
da ação de vários fatores, sendo um dos mais importantes industriais em um país cêntrico (ou em mais de um),
as economias de escala de prodw;;ão permitidas pela cres- em vários países periféricos e as transações comerciais
cente homogeneização e unificação dos antigos mercados entre essas distintas unidades produtivas. A situação é
nacionais. Como a industrialização, que se realiza conco- similar à de uma empresa que se integra verticalmente
mitantemente na periferia, apoia-se na substituição de dentro de um país: opera uma mina de carvão, uma si-
importações, no quadro de pequenos mercados, é natural derurgia, uma fábrica de tubos etc. Existe, entretanto,
que os desníveis de produtividade tendam a aumentar e uma diferença importante decorrente do fato de que,
a descontinuidade estrutural dentro do sistema capita- no primeiro caso, as distintas unidades produtivos estão
lista a ampliar-se. Cabe acrescentar que o crescente con- inseridas em sistemas monetários diversos: surge, por-
trole da atividade econômica no centro pelas grandes tanto, o problema de transformar uma moeda em outra,
funcional como social da distribuição da renda, no correr do 33. Com efeito: um país com 100 milhões de habitantes e
último século, tidos em conta os efeitos da ação do Estado no uma renda per capita de 400 dolares (situação aproximada do
plano social e o incremento da participação do Estado no Pro- Brasil em 1970), pode, concentrando 40 por cento do produto
duto. Ademais, as informações indiretas levam a crer que no em mãos de 10 por cento da população, dotar-se de um mercado
período anterior, isto é, nos primórdios da industrialização, mais de 10 milhões de consumidores com uma renda média de 1 600
provavelmente houve concentração do que desconcentração da dolares, o que é suficiente para permitir a instalação de um
renda. Cabe, portanto, admitir que, se a renda dos países peri- moderno sistema industrial; um país com 10 milhões de habi-
féricos é hoje muito mais concentrada do que a dos países cên- tantes, mesmo que tenha uma renda per capita 50 por cento
tricos, ela também será muito mais concentrada do que o foi mais elevada (situação aproximada do Chile em 1970) ainda
a renda desses mesmos países em qualquer estágio anterior de que adote uma política igualmente drástica de concentração da
seu processo de industrialização. Para os dados relativos à dis- renda, não disporá de mais de 1,5 milhão de pessoas com renda
tribuição da renda nos países cêntricos veja-se J. Marchai e média de 1 600 dolares, o que seria insuficiente para fundar um
J. Lecaillon, La réparticion du Revenu nacional volumes I e II sistema industrial capaz de operar a um nível adequado de
<Paris, 1958). eficiência.

46 47
o que requer encontrar outra empresa que realize uma zado _em dolares, a rentabilidade somente poderia ser
operação equivalente em sentido inverso, ou provocar man~1da se os preços de venda da empresa crescessem
esta operação dentro da mesma empresa ou outra do re~ativame~te, o que tenderia a freiar a atividade indus-
mesmo grupo. Tradicionalmente essas operações de com- trial. Imagmemos, alternativamente, um outro senário
pensação são feitas pelos bancos. Contudo dada a si- para nossa indústria de máquinas de costura. Suponha-
tua9~0. errática cambial e monetária de ~uitos países mos que o industrial obtenha internamente uma receita
perifericos, uma grande empresa que opera internacio- suficiente para cobrir os seus custos em moeda local
nalmente pode preferir críar ela mesma os fluxos com- incl~sive impostos e gastos financeiros locais; que e~
pensatórios, estabelecendo um sistema de preços inter- segmda e?'l?<?r~e peças de máquinas para a matriz ou ou-
~ras subs1d1arias de forma a compensar os insumos que
no que permita planejar suas atividades a mais longo
prazo. importa; e com o resto da capacidade produtiva desen-
Tomemos um caso que não é típico mas que desco- V?lva uma linha de produção para o mercado interna-
bre o fundo do problema. Imaginemos uma empresa cional.' obtendo uma receita em divisas para remunerar
petrolifera operando na Venezuela de antes das compli- o cap1t~l. Por esta ~orma a empresa consegue pratica-
~ente isolar-se do sistema cambial do país da subsidia-
cações fiscais atuais. Essa empresa proúuzia para o mer-
cado interno uma certa quantidade de petróleo, cujos ria. Como a empresa está interessada em expandir-se
preços podiam ser mais ou menos manipulados de forma ela terá que praticar uma política de preços tanto n~
1

a permitir que ela obtivesse a quantidade de moeda lo- mercado interno como no externo, capaz de fomentar
cal necessária para cobrir todos os seus dispêndios lo- a_venda do produto .. Co~t~do, em cada plano de produ-
cais. Uma parte da produção seria exportada para co- çao ela tera que d1stribmr sua capacidade produtiva
brir os insumos importados, inclusive a depreciação do entre os dois mercados, tendo em conta que a partir de
capital. O resto da produção (de longe a maior parte) c~rto nível, a receita em moeda local deve s~frer o desá-
seria exportada e corresponderia ao lucro liquido do ca- gio da. t~ansferência cambial. Suponhamos que a em-
pital investido. Nessa situação extrema a empresa pode presa llm1te as suas vendas no mercado interno ao neces-
ignorar a existência de taxas de câmbio: se os custos sário para cobrir os gastos em moeda local e que com-
em moeda local aumentam, também aumenta o preço pense as importações de insumos com vendas de peças
do petróleo que ela vende localmente. Consideremos diretas à matriz. Neste caso, o lucro bruto corresponde
agora o caso mais real de uma indústria de máquinas às vendas no mercado internacional. Comparando esse
de costura, cujo produto é totalmente vendido no mer- lucro com o capital invertido na subsidiária a empresa
cado interno. A receita das vendas, depois de cobertos obtem a taxa de rentabilidade sem passar pelo sistema
mo~etário do país da subsidiária. Se a mesma empresa
os gastos locais, é levada ao Banco Central para ser reallza operaçoes dessa natureza com várias subsidiárias
transformada em divisas, afim de pagar os insumos im- é natural que indague que fatores respondem pelas dife-
portados e remunerar o capital. Se o Banco Central cria
dificuldades na remessa de dividendos, a empresa po- renças de rentabilidade entre estas últimas. Admitindo-
derá ser tentada a elevar arbitrariamente os custos dos se que a tecnologia seja aproximadamente a mesma
insumos importados: materiais especiais, patentes, assis- os principais fatores causantes das diferenças de renta~
tência técnica, etc. Suponhamos que casos como este se bilidade serão: a escala de produção, as economias exter-
multipliquem, surgindo empresas nessa situação de to- nas locais, o custo dos insumos que não podem ser im-
dos os lados; aumentaria a pressão sobre a balança de portados e dos impostos locais, em termos de produto fi-
pagamentos e depreciar-se-ia persistentemente o câmbio nal. Os três primeiros fatores estão estreitamente ligados
de forma mais acentuada do que se estaria elevando o à dimensão do mercado interno. Desta forma, se admiti-
nível interno dos preços. Como o capital está contabili- mos que o nivel dos impostos é o mesm~, a rentabilidade

48
49
relativa passa a depender da dimensão relativa do mer- dental a mão de obra estrangeira, considerada como
cado interno e do custo da mão de obra em termos "temporária", aproxima-se de dez por cento da força de
de produção final. Ora, o efeito positivo da dimensão do trabalho, alcançando, no caso da Suíça, um terço da
mercado local tende a um ponto de saturação, o qual mão de obra não especializada.
varia de indústria para indústria. Na medida em que, Não existe estimativa do volume da mão de obra
para determinada indústria, esse ponto de saturação é barata utilizada diretamente nos países periféricos pelas
alcançado, o fator fundamental passa a ser o custo da grandes empresas na produção m~nufatureira que e_s-
mão de obra em termos de produto final vendido no tas destinam ao mercado internacional. Mas, em razao
mercado internacional. dos custos crescentes da mão de obra imigrante tempo-
Se observamos o quadro que vimos de esboçar de rária, sob pressão dos sindicatos locais, e dos problemas
outro ângulo, vemos que a grande empresa, ao organizar sociais que se apresentam quando a massa, de trabalha-
um sistema produtivo que se estende do centro à perife- dores sõcialmente desintegrados cresce alem de certos
ria, consegue, na realidade, incorporar à economia do limites, é de esperar que a utilização da ~ão de oJ:>ra
centro os recursos de mão de obra barata da periferia. diretamente na periferia tenda a ser a soluçao preferida
Com efeito: uma grande empresa que orienta seus inves- pelas grandes empresas. Por outro lado, es~a, s~lução
timentos para a periferia está em condições de aumen- tende a reforçar a posição dessas empresa~ vis-a-vis dos
tar sua capacidade competitiva graças à utilização de estados nacionais. Em síntese: se está configurando uma
uma mão de obra mais barata, em termos do produto situação que permita à ~rande empresa ut.ilizar técnic~
que lança nos mercados. A situação é similar à das em- e capitais do centro e mao de obra (e capital) da peri-
presas que utilizam imigrantes temporários, pagando a feria aumentando consideravelmente o seu poder de ma-
estes salários muito mais baixos do que os que prevale- nobr~, o que ref~rça ~ te~dência já .ª!lteriorment~ r~fe­
cem no país. Imaginemos uma empresa americana que rida à "internac10nahzaçao" das atividades economicas
se situasse próxima da fronteira com o México, mas em dentro do sistema capitalista.
território dos Estados Unidos, e utilizasse mão de obra Dissemos anteriormente que são as atividades eco-
mexicana paga em moeda mexicana ao nível dos salá- nômicas internacionais as que mais rapidamente cresce-
rios do México; esses trabalhadores continuariam a re- ram no último quarto de século, no centro do sistema
sidir no México (atravessando a fronteira diariamente) capitalista. Ora, as relações, que se estão estabelecendo
e a realizar os seus gastos nesse país. Imaginemos, de- entre o centro e a periferia no quadro ~as gran~e~ em-
mais, que essa empresa exportasse para o México mer- presas, estão dando origei:n a um n?vº. tipo d~ atividade
cadorias no valor exato dos gastos que realizasse em internacional que pode vir a constitmr. o segmento ~m
pesos mexicanos. A legislação social que prevalece hoje mais rápida expansão do conjunto do sistema. Ca~e. in-
em dia em praticamente todo o mundo impede esse tipo dagar se é adequado continuar a chamar _essas ativida-
de "exploração" da mão de obra. Mas se considera como des de "internacionais". Quando o economista pensa em
normal que a mesma fábrica americana se instale do termos de comércio internacional, tem em vista transa-
lado mexicano da fronteira, utilize mão de obra local ao ções entre unidades econômicas i~tegradas e~ di~t.intas
nível de salários local e venda a sua produção nos Es- economias nacionais. O problema e menos de imobihdade
tados Unidos. Uma formula intermediária, que vem de fatores como deixam entender as formulações dos
sendo amplamente praticada, consiste em atrair os imi- primeiros ~conomistas que teorizaram sob~e essa maté-
grantes temporários e pagar a estes salários superiores ria, do que de existência de sistemas relativamente a~­
aos que prevalecem nos países de origem mas inferiores tônomos de custos e preços. Em outras palavras: a partir
aos salários que seriam pagos a trabalhadores originá- do momento que se postula a existência de um sistema
rios do país A • Em vários países da Europa oci- econômico nacional, dentro do qual os recursos produ-
tn,\b llot~cQ 51
50 '}.J
F.M.U•
tivos possuem um "custo de oportunidade", dado pelo fábrica cuja produção se destina ao mercado americano
mel~or uso que deles ~e pode fazer, a opção entre pro- - havendo nos Estados Unidos considerável desemprego
duzir para o mercado mterno o bem A, ou produzir um (o custo social da mão de obra é zero) - toma decisões
outro bem para o mercado externo e importar o bem A, a partir de um marco que supera a economia norte-ame-
deve ter uma solução ótima. É evidente que, se se trata ricana considerada em sentido estrito. A grande empresa
de multiplas opções, extendendo-se em períodos de tem- que desvia recursos financeiros de um país periférico,
po diversos, com repercussões retroativas umas sobre as porque os salários neste começam a subir, para inverte-
outras, o problema numa poderá ser adequadamente los em outro em que a mão de obra é mais barata, tam-
equacionado e muito menos sua solução obtida. Mas isso bém está .tomando decisões a partir de um marco mais
é diferente de dizer que a teoria está "errada". amplo. O problema não se limita, entretanto, ao âmbito
Ora, a partir do momento em que a categoria "sis- estreito das opções no uso de recursos escassos concebi-
tema econômico nacional" não pode ser tida em conta, dos abstratamente. A verdade é que a grande empresa
o teorema não poderá ser formulado. Voltemos ao exem- tem como diretriz máxima expandir-se e para isso ela
plo da fábrica de máquinas de costurar que se instala tende a ocupar posições nas distintas áreas do sistema
num país da periferia e remunera o seu capital com capitalista. 31 Os países do centro do sistema constituem,
parte da própria produção que exporta. Neste caso não de muito, as áreas mais importantes, razão pela qual o
existe uma contrapartida de importações, mas isso não esforço tecnológico está principalmente orientado para
invalida a teoria das vantagens comparativas. As im- atuar nesses países. Os planos de produção nos países
portações, no caso, estão substituidas pelo fluxo de capi- periféricos estão condicionados por essa orientação tec-
tal e tecnologia que marca a presença no país da grande nológica e os mercados internos desses países são mol-
empresa dirigida do exterior. Tudo se passa como se o dados à conveniência da ação global da empresa.
país periférico, que dispõe de um stock de mão de obra, Seria equivocado deduzir das observações acima
tivesse de optar entre; a) usar parte dessa mão de obra que as grandes empresas atuam fora de qualquer marco
para produzir o bem X destinado ao mercado externo, e de referência, o que implicaria negar, senão racionali-
poder assim pagar as máquinas de costura importadas, dade, pelo menos eficiência ao comportamento delas.
ou, b) com parte dessa mão de obra remunerar capital Mas parece fora de dúvida que esse comportamento,
e técnica do exterior, que se instalam no país e, em com- muito freqüentemente, transcende de qualquer marco
binação com outro contingente de mão de obra, produ-
zem aquelas mesmas máquinas de costura para o mer- correspondente a um sistema econômico nacional. Mais
cado interno. Esse raciocínio seria correto se o marco
de referência dentro do qual as decisões são tomadas es- 34. A rigor a expansão das grandes empresas não se res-
tringe à area do sistema capitalista; as relações econômicas
tivesse constituído pelo sistema econômico nacional. Em entre o sistema capitalista e as economias socialistas continuam
outras palavras: caso a congruência das decisões fosse a ser essencialmente de natureza comercial, sem que isto impeça
estabelecida internamente, figurando o preço dos recur- que tais transações se realizam cada vez mais por intermédio das
sos externos como simples parâmetro do problema. Ora, grandes empresas; ademais, acordos de cooperação industrial
estão sendo assinados em número crescente (cerca de 600 até
a realidade parece ser. totalmente distinta. As decisões 1973) entre governos de países socialistas e grandes empresas
são tomadas pela grande empresa, para a qual o custo do mundo capitalista. Esses acordos muito raramente envolvem
da mão de obra de um país periférico, em termos de um participação no capital das empresas (pequenas participações já
são admitidas na Romênia e na Hungria e, há mais tempo, na
artigo que ela produz nesse país e comercializa no exte- Yugoslávia e geralmente estão ligados à criação de um fluxo ele
rior, é um simples dado. exportações para os países capitalistas a cargo das grandes em-
A grande empresa que exporta capital e técnica dos presas. Veja-se Comissão Econômica das Nações Unidas para a
Europa, Analytical Report on Industrial Co-operation among
Estados Unidos para o México e instala neste país uma ECE countries 0973).

52 53
ainda: nos países periféricos, a crescente ação dessas tiva nas taxas de crescimento referentes a prazos mé-
empresas tende a criar estruturas econômicas com res- dios e longos. Mas isso é apenas uma hipótese. Pouca
peito às quais dificilmente se pode pensar a partir do dúvida existe, entretanto, de que a elevação das taxas
conceito de sistema econômico nacional. O marco das de crescimento está ligada às economias de escala, ao
grandes empresas tende a ser, cada vez mais o conjunto intenso intercâmbio tecnológico e ao movimento de ca-
do sistema capitalista, marco este que engloba um uni- pitais a que acompanharam o processo de integração das
verso econômico de grande heterogeneidade, cuja maior economias cêntricas. Sem o esforço simultâneo de maior
descontinuidade deriva do fosso existente entre o centro coordenação interna, ao níve.l nacional, a expansão in-
e a periferia. Nesse mundo de grande complexidade, ternacional sob a hegide das grandes empresas teria,
cheio de fronteiras nacionais, com grande variedade de muito provavelmente, provocado desajustes locais, maior
sistemas monetários e fiscais, onde pululam querelas concentração geográfica da atividade econômica e, pos-
poHticas locais que ocasionalmente se prolongam em sivelmente, reações no plano político que quiçá viessem
guerras - tudo isso sob uma tutela frouxa e pouco ins- a retardar o processo de integração cêntrica. É sabido,
titucionalizada - as grandes empresas não podem pre- por exemplo, que o forte dinamismo do setor externo dá
tender mais do que alcançar situações sub-ótimas. Não origem e tensões internas 36 que seriam particularmente
obstante os imensos recursos que dedicam à obtenção graves se essas economias não houvessem desenvolvido
de informações e os sofisticados meios que utilizam pa- técnicas tão sofisticadas de coordenação ao nivel interno.
ra elaborar essas informações, construir complexos mo- Dessa forma, também se pode afirmar que esse avanço
delos, simular "senários", etc., na prática devem con- da coordenação, ao nível interno, acelerou a integração
tentar-se com regras simples; o excepcional êxito de al- no nível internacional. Em síntese: a ação dos estados
gumas é atribuido pelos cronistas da profissão à intui- nacionais, no centro do sistema, ampliou-se em deter-
ção de "homens extraordinários", repetindo-se assim minadas direções para assegurar a estabilidade interna,
uma velha legenda da história política. sem a Qual as fricções no plano internacional seriam
,, A idéia, esposada por alguns estudiosos da evolução inevitáveis; mas, por outro lado, modificou-se qualitati-
1
atual do capitalismo, segundo a qual as economias cên- vamente, a fim de adaptar-se à atuação das grandes em-
tricas tendem a uma integração crescente ao nível na- presas estruturadas em oligopólios, que têm a iniciativa
cional, mediante a planificação indicativa ou à carteli- no plano tecnológico e são o verdadeiro elemento motor
zação e interpenetração dos grandes grupos com os ~r­ no plano internacional.
gãos do Estado, tem um elemento de verdade mas deixa As complexas relações que existem entre os gover-
de lado o essencial da evolução do capitalismo no último nos dos países cêntricos, isoladamente ou em sub-grupos
qaurto de século. 35 É fora de dúvida que, nos últimos (os "dez mais ricos", a comunidade econômica européia,
três decênios, as economias capitalistas industrializadas etc.), entre esses governos e as grandes empresas (estas
vêm operando com um grau da coordenação interna mui- em casos particulares atuando coordenadamente), entre
to superior ao que antes se considerava co~patíve~ co1!1 eles e as instituições internacionais (estas quase sempre
uma economia de mercado. Essa coordenaçao, de msp1- sob o controle do governo americano), finalmente entre
ração keynesiana, constitui essencialmente uma con- eles e o próprio governo americano, cuja posição hege-
quista de tipo social: graças a ela, os custos humanos e mônica em pontos particulares é muitas vezes contes-
sociais de operação das economias, cap_italista_s foram tada; essa rede de relações dificilmente pode ser perce-
consideravelmente reduzidos. Tambem e provavel que bida com clareza. Não somente porque faltam estudos
essa maior coordenação haja repercutido de forma posi- monográficos sobre muitos de seus aspectos fundamen-
35. Essa idéia está brilhantemente exposta e defendida no 36. Cf. N. Kaldor, "Problemas and prospects for reform'',
livro de A. Shonfield, Modern Capitalism, cit. The Banker, setembro 1973.

54 55
tais; mas principalmente porque ela está em processo junta de empresas originárias de países distintos visando
de estruturação. A experiência tem demonstrado que a a fazer pressão sobre os governos, inclusive o pró-
margem de manobra de que gozam os estados, para prio. A experiência tem demonstrado que -o controle
atuar no plano econômico, é relativamente estreita. Se do capital de uma grande empresa por um governo
uma economia sofre uma deslocação, as pressões exter- não afeta necessariamente de forma substancial seu
nas para que o respectivo governo adote certas medidas comportamento nessa matéria. As empresas, por maio-
pode ser considerável. Essas pressões são exercidas por res que sejam, são organizaçõões relativamente sim-
outros governos, por instituições internacionais e direta- ples no que respeita aos seus objetivos. Sendo altamente
mente pelas grandes empresas. Cabe referir que estas burocratizadas, elas possuem grande coerência interna,
últimas dispõem de uma massa de recursos líquidos bem o que facilita e requer a clareza de objetivos. O Estado,
superior ao conjunto das reservas dos bancos centrais. 37 numa sociedade de classe e onde grupos concorrentes
A situação do governo dos Estados Unidos é certamente competem e quase sempre se dividem de alguma forma
especial, entre muitas razões pelo fato de que emite a o poder, constitui uma instituição muito mais complexa,
moeda que constitui a base do sistema monetário inter- de objetivos menos definidos e cambiantes, portanto me-
nacional. Contudo a experiência de 1972 pôs em evidên- nos linear em sua evolução. Não há dúvida de que as
cia que o governo desse país não se pode lançar numa grandes empresas enfeixam um considerável poder no
política de "pleno emprego" descurando-se das reper- plano social, pois controlam as formas de invenção mais
cussões na balança de pagamentos. Se o endividamento poderosas, que são aquelas fundadas na técnica e no
externo a curto praso passa de certa cota crítica, as controle do aparelho de produção. Mas quando a socie-
grandes· empresas podem exercer uma pressão sobre o dade, ou segmentos desta, reage à asfixia criada pelo
dolar capaz de obrigar o governo americano a ter que uso desse poder, as ondas que se levantam repercutem
escolher entre desvalorizar a moeda ou mudar o rumo nas estruturas do Estado, de onde ocasionalmente par-
da política interna. tem iniciativas corretivas. Pode-se admitir a hipótese de
Qualquer especulação sobre a evolução, nos próxi- que a própria expansão internacional das grandes em-
mos anos, da rede de relações que forma a nova super- presas favoreça a liberação do Estado da tutela que elas
estrutura do sistema capitalista em processo de unifi- hoje exercem nos seus respectivos países. Em outras
cação, tem valor estritamente exploratório. Duas linhas palavras: na medida em que se apoie internacionalmen-
gerais parecem definir-se: por um lado o processo de in- te para ampliar o seu poder, a grande empresa possivel-
tegração tende a reforçar as grandes empresas, por ou- mente encontrará mais dificuldade para assumir o man-
tro a necessidade de assegurar estabilidade, a nível in- do, cobrir-se com o manto do "interesse nacional" den-
terno de cada sub-sistema nacional, requer crescente tro do próprio país. Haveria uma provincianização dos
eficiência e sofisticação na ação dos estados. A situação estados, mas, uma representatividade mais efetiva dos
corrente hoje em dia é de aliança entre grandes empre- distintos aspectos da sociedade civil capacitaria o poder
sas com os governos respectivos para obter vantagens político para exercer o papel diretor da vida social que
internas e externas. Mas também se observa a ação con- se faz cada vez mais necessário. Se a evolução se realiza
nessa direção, é de admitir que surjam tensões entre
37. As reservas líquidas de que dispõem as grandes empre- estados nacionais e grandes empresas, ou grupos de
sas no plano internacional, incluidos ativos que podem ser li-
quidados a curto prazo, são da ordem de 250 bilhões de dolares, grandes empresas, tensões essas que passarão a ser im-
superando de muito a totalidade das reservas do conjunto de portante fator nas transformações do sistema em seu
bancos centrais do sistema capitalista. Cf. Comissão de finanças conjunto: elas poderão agravar-se e abrir brechas capa-
do Senado dos Estados Unidos, lmplications of Multinational
Firms for World Trade and lnvestment and for United States zes de acarretar mutações qualitativas reorientadoras de
Trade and Labor <Washington, D.C., 1973). todo o processo evolutivo; mas também poderão provocar
56 57
1 1
reações no plano da superestrutura tutelar, levando a presas, tenderia a ser uma atitude generalizada das ca-
madas superiores da classe capitalista. A distância en-
1

um~ maior institucionalização desta e à constituição de


1

orgaos dotados de poder coercitivo, cujo objetivo seria tre a .atitude ideológica dessas camadas e a classe dos
preservar a integridade do sistema. pequenos capitalistas ainda não presos na rede de sub-
. O que se d!sse no parágrafo anterior são simples con- contratistas das grandes empresas, tenderia a ampliar-
Jecturas sugeridas pela obsei:'vacão de certfas tendências se. A pequena empresa local, antes apresentada como
da evoluç.ão .e~trutural do siste,ma capitalista. Não pre- anacronismo de alto custo social, passa a ser defendida
tendem s1gmf1car que as lutas de classes serão atenua- como parte de uma paisagem cultural ameaçada. Entre
das e muito menos que esse Estado, semi-provinciani- o poujadismo e a defesa da qualidade da vida existe
zado, mas ainda assim um Estado responsavel pela es- uma importante evolução com repercussão na relação
tabil!d~de de uma sociedade de classes, será o simples
de forças entre as classes sociais. ,
adm1mstrador de um ccnsensus que permearia toda a O papel da superestrutura tutelar do sistema capi-
vida social. É possível que as classes trabalhadoras ve- talista não se limita a promover a ideologfa da integra-
nham a ter um peso crescente na orientação de um ção e a, ocasionalmente, arbitrar em conflitos regionais.
Estado que deve entender-se com o sistema de grandes Essa superestrutura tem uma história, que está essen-
empresas a partir de posições de força. Nesta hipótese, cialmente ligada à delimitacão das fronteiras do siste-
seria de admitir que a evolução das classes trabalhado- ma. Pode-se admitir, no plano da conjectura, que as
ras se faça no sentido de crescente identificação com as economias capitalistas cêntricas sempre tenderiam, em
sociedades nacionais a que pertencem, ou melhor com uma fase de sua história, a um processo de integração.
um projeto de desenvolvimento social que pode se~ mo- Mas não há dúvida de que a rapidez com que avançou
nitorado a partir do Estado de cujos centros de decisão essa integração, no último quarto de século, e a forma
participam. 38 Não significa isso necessariamente que que ela assumiu estão diretamente ligados à existência
t:ndam par~ um nacio"!-alismo, e sim que suas preocupa- de um grupo de países não-capitalistas, considerados co-
çoes tenderiam a focallzar-se no plano da ação política mo ameaça externa e interna para o sistema capitalista
sobre o qual terão crescente influência. Paralelamente, pelos grupos dirigentes deste. A rápida e entusiástica
o peso crescente dos grupos dirigentes das grandes em- aceitação pelos grupos capitalistas dfrigentes, na Alema-
presas na classe capitalista não poderá deixar de influen- nha e no Japão, da liderança norte-americana, não seria
ciar a visão que esta tem do mundo, no sentido do dé- fácil de explicar sem o clima psicológico criado pela
passement do quadro nacional. O sentir-se membro de guerra fria. A mobilização psicológica foi essencial para
uma "classe internacional", que hoje é característica delimitar a fronteira, mas a consolidação desta requereu
dos quadros superiores da burocracia das grandes em- negociar com o adversário um conjunto de regras de
comportamento. Cabe à superestrutura tutelar a fun-
38. A idéia de um revigoramento do internacionalismo da ção de velar pela integridade das fronteiras e de enten-
classe operária, como resposta ao internacionalismo das grandes der-se com o adversário em qualquer momento em que
e~presas, me p~rece ter pouco fundamento na realidade. É per- problemas de solução pendente ou novos ameaçam es-
!I feitaz_nente poss1vel que os grandes sindicatos operários dos paí- capar ao controle mútuo. Na medida em que se acordou
ses centricos enfren~em, mediante ação articulada, manobras de
grande.s empresa~ visando a compensar a baixa da produção em um sistema básico de comunicação e que os interesses
um pais (onde ha uma greve) com o aumento da produção em fundamentais dos dois lados foi mutuamente reconhe-
ou~ro. Entretanto .s~ria difícil imaginar que os operários ·de um cido, criaram-se possibilidades para relações econômicas
pais possam mob1l1zar-se para reduzir o nível de emprego no
próprio p~ís, em benefício da expansão do emprego em outro. mutuamente vantajosas. Que essas possibilidades hajam
Tanto mais que os países cujos operários deveriam sacrificar-se sido exploradas rapidamente pelas grandes empresas
por. solidarie~ade. inte~nac;onal, são exatamente aqueles em que constitui clara indicação da extraordinária capacidade
o mvel de vida e mais baixo.
59
58
dessas organizações para atuar no plano internacional. O dado mais importante a assinalar, no que concer-
É esse um fato de. considerável importância, pois vem ne aos países periféricos em mais avançado processo de
revelar a capacidade que têm as grandes empresas de industrialização, é a considerável dificuldade de coorde-
adaptar-se a distintas formas de organização social. Tra- nação de suas economias no plano interno, em razão
ta-se de simples indicação de virtualidade, pois o com- da forma como se estão articulando com a economia
portamento das grandes empresas é tudo menos ideo- internacional no quadro das grandes empresas. Se difi-
logicamente neutro. A ação recente da ITT no Chile está culdades de coordenação interna existem nos países cên-
aí para demonstrar que muitas delas não relutam, em tricos, conforme observamos, o problema assume muito
uma confrontação em que o elemento ideológico está maior complexidade na periferia. Não me refiro à situa-
presente, a praticar atos de verdadeiro banditismo inter- ção clássica do pequeno país onde o nível dos gastos pú-
nacional. Contudo, outras experiências, como a da Gui- blicos e a situação da balança de pagamentos refletem
né, revelam que elas também se estão preparando para as decisões tomadas por uma grande empresa exporta-
defender os seus interesses sem dar demasiada atenção dora de recursos naturais. A situação é distinta mas
a querelas ideológicas locais. Parece certo que uma mu- nem por isso mais cômoda naqueles países em que as
tação social num país importante do centro do sistema principais atividades industriais ligadas ao mercado in-
capitalista, implicando em retirar às grandes empresas terno são controladas por grandes empresas com proje-
o controle da tecnologia e da orientação das formas de tos próprios de expansão internacional, dos quais pouco
consumo, não poderia ocorrer sem provocar grande rea- conhecimento têm os governos dos países em que elas
ção. Mas, tudo leva a crer que as grandes empresas em atuam. Essa debilidade do Estado, como instrumento de
face de uma situação de difícil reversibilidade, se adap- direção e coordenação das atividades econômicas, em
tariam, pois numa burocracia sempre tende a prevale- furição de algo que se possa definir como o interesse da
cer o instinto de sobrevivência, ainda que isso requeira coletividade lOC!:\-1, passa a ser um fator significativo no
amputações importantes ao nível dos dirigentes oca- processo evolutivo. Impotente em coisas fundamentais,
sionais. o Estado tem, contudo, grandes responsabilidades na
construção e operação de serviços básicos, na garantia
Opções dos países periféricos de uma ordem jurídica, na imposição de disciplina às
massas trabalhadoras. O crescimento do aparelho esta-
As novas formas que está assumindo o capitalismo tal é inevitável, e a necessidade de aperfeiçoamento de.
nos países periféricos não são independentes da evolu- seus quadros superiores passa a ser uma exigência das
ção global do sistema. Contudo, parece inegável que a grandes empresas que investem no país.
periferia terá crescente importância nessa evolução, não · Assim, a crescente inserção das economias periféri-
só porque os países cêntricos serão cada vez mais depen- cas no campo de ação internacional das grandes empre-
dentes de recursos naturais não reprodutivos por ela sas está contribuindo para a modernização dos estados
fornecidos, mas também porque as grandes empresas locais, os quais tenderam a ganhar considerável auto-
encontrarão na exploração de sua mão de obra barata nomia como organizações burocráticas. Sendo por um
um dos principais pontos de apoio para firmar-se no lado impotentes e por outro necessárias e eficientes, es-
conjunto do sistema. Mas, se é difícil especular sobre sas burocracias tendem a multiplicar iniciativas em di-
tendências com respeito ao centro, ainda mais o é no reções diversas. A orientação das atividades econômicas,
que se refere à periferia, cujas estruturas sociais e qua- impondo a concentração da renda e acarretando a coe-
dro institucional foram pouco estudados, ou foram vis- xistência de farmas suntuárias de consumo com a misé-
tos sob a luz distorcedora das analogias com outros pro- ria de grandes massas, é origem de tensões sociais que
cessos históricos. repercutem necessariamente no plano político. O Esta-
60 61
Dentro desse quadro estrutural, as burocracias que
do, incapaz para modificar a referida orienta~ão, se dirigem a maioria dos países periféricos avançaram con-
exaure na luta contra os seus efeitos. As frustraçoes po- sideravelmente num processo de auto-identificação com
líticas levam à instabilidade institucional e ao controle os "interesses nacionais" respectivos. Se l>em que, em
d'J Estado pelas forças armadas, o que contribui para casos particulares, esses interesses se confundam com os
reforçar mais ainda o seu caráter burocrático. Em sín- do pequeno grupo que controla o aparelho do Estado,
tese: o crescente controle "internacional" das ativida- via de regra a concepção de interesse nacional é mais
des econômicas dos países periféricos acarreta uma pre- ampla e visa à melhoria das condições de vida de um
coce autonomia do aparelho burocrático estatal. Fre- grupo importante da população, quase sempre constituí-
qüentemente esse aparelho é controlado de fora do país, do pelas pessoas integradas no setor "moderno" da eco-
mas por toda parte ele está sujeito a ser empolgado por nomia.
grupos surgidos do processo político interno, o qual va- Um dos setores em que os estados periféricos podem
ria de lugar para lugar e, com as circunstâncias, dentro exercer sua autonomia, em face das grandes empresas,
de um país, mas em toda parte está marcado pelo sen- é o da defesa dos recursos naturais não renováveis do
timento de impotência que resulta da dependência em respectivo país. A expansão do sistema, no centro, de-
que se encontram as atividades econômicas fundamen- pende, cada vez mais,. de. aces~o às fontes de~se~ r~cur­
tais de centros de decisão externos ao país. A

sos localizadas na periferia. Fizemos referencia a situa-


A relativa autonomia das burocracias que contro- ção dos Estados Unidos, que é, desse ponto de vis~a, u:n
lam os estados na periferia reflete, em certa medida, o país privilegiado. A demanda de recursos i;iaturais n~o
sentido das modificacões ocorridas na superestrutura cresce paralelamente com a renda per capita: a partir
política do conjunto do sistema. A destruição das formas de certo nível de renda ela tende a estabilizar-se. Por
tradicionais de colonialismo deve ser entendida como exemplo: o consumo de cobre por habitante triplicou
parte do processo de destruição das barreiras institucio- nos Estados Unidos entre 1900 e 1940, mas permaneceu
nais que compartimentavam o mundo capitalista. Na estável entre este último ano e 1970; o consumo de aço
medida que a economia internacional passou a ser prin- por habitante desse mesmo país cresceu mais de três
cipalmente controlada pelas grandes empresas, a ação vezes entre 1900 e 1950, mas permaneceu estável entre
direta dos estados do centro sobre as administrações dos este último ano e 1970. 39 Por outro lado, o consumo de
países da periferia tornou-se desnecessária, sendo cor- metais pela indústria pode ser maior ou menor, inde-
rentemente denunciada como descriminatória a favor pendentemente de nível de renda, em função da natu-
de empersas de certa nacionalidade. É bem sabido que reza das exportações do país. Contudo, se se tem em
esse processo se vem realizando de forma muito irregu- conta que o nível de renda média do conjunto da P?PU-
lar: em alguns casos populações "expatriadas" consti- lação do centro do sistema, excluídos os Estados Umdos,
é inferior à metade do deste país, faz-se evidente que a
tuem forte grupo de pressão, exigindo a presença direta demanda de metais continuará a crescer no centro ain-
ou indireta da antiga metrópole, o que dá lugar a for- da por muitos anos de forma bem mais intensa que a
mas apenas disfarçadas de colonialismo; outras vezes população. Se a isso se acres~enta !lue. as reservas de
grupos dirigentes, ameaçados de perder o controle do sis- mais fácil exploração, dos paises centrices, (conforme
tema de poder local, apelam para o apoio político externo. vimos no caso dos Estados Unidos) se estão esgotando,
Mas, de maneira geral, a intervenção direta dos gover- é fácil compreender a crescente "dependência" desses
nos dos países cêntricos nos países da periferia tendeu países vis-à-vis dos recursos não renováveis da periferia.
a ser excepcional, pondo-se à parte as intervenções nor-
te-americanas ligadas à "defesa" das fronteiras do sis- 39. Vejam-se os gráficos 29 e 30 de The Liimts to Growth,
tema. cit.

62 63
Essa dependência continuará aumentando mesmo que invertidos no centro do sistema. Ocorre, assim, uma
se estabilize o consumo dos referidos recursos no centro, transferência de ativos que transformará parte da po-
o que de nenhuma maneira é provável que aconteça em pulação dos países beneficiários em rentistas, sem que
futuro previsível. a estrutura da economia capitalista se modifique de
A utilização das reservas de recursos naturais como forma sensível. Também é possível que os países bene-
um instrumento de poder pelos estados periféricos re- ficiários coloquem à disposição de outros países periféri-
quer uma articulação entre países que, de nenhuma for- cos parte dos recursos referidos. Mas, se tais recursos
ma, é tarefa fácil. Mas que essa articulação se esteja rea- são utilizados para reforçar o processo de desenvolvi-
lizando, com evidente êxito no caso do petróleo, consti- mento tal qual este se realiza atualmente - por exem-
tui indicação da sofisticação considerável que estão al- plo, para criar infraestrutura e indústrias básicas gera-
cançando as burocracias que controlam esses estados. _É doras de economias externas para as grandes empre-
verdade que as grandes empresas nem sempre serao sas -, as relações entre o centro e a periferia não se
hostís a essa política, pois tratando-se de produtos de modificarão de forma sensível.
demanda inelástica a elevação dos preços não poderá A política de elevação dos preços relativos dos pro-
deixar de ter repercussão favorável em seu faturamento, dutos não facilmente substituíveis, 11 que exportam os
o que quase sempre significa elevação dos lucros. 10 Ev~­ países periféricos, constitui seguramente um marco na
dentemente a situação será diferente se os países peri- evolução desses países mas, conforme indicamos, não
féricos visarem a um controle total da produção e co- significa mudança de rumo no processo evolutivo do
mercialização desses produtos. Mas, mesmo assim, o conjunto do sistema capitalista. Não se exclui a hipó-
avanço que têm as grandes empresas, no que respeita a tese de que a posição internacional das grandes empre-
capacidade de organização e à tecnologia, assegura-lhes sas seja reforçada, encarregando-se elas de absorver
a possibilidade de continuar negociando de posição de grande parte dos nov'Js recursos líquidos encaminhados
força por muito tempo. para o mercado financeiro internacional. Uma pequena
Ocorre, entretanto, que os recursos não r~nováveis parte da população periférica, localizada em uns poucos
mais importantes, cujos preços podem ser efetivamente países, terá acesso às formas mais avançadas de consu-
controlados pelos países periféricos - sempre que estes
logrem articular-se de forma eficaz -, estão muito de- mo, e alguns estados poderão ascender à um papel he-
sigualmente distribuídos. O caso recente do petróleo pôs gemônico em certas sub-áreas. Contudo, as modifica-
em evidência as consideráveis transferências de recur- ções no conjunto da periferia serão pouco perceptíveis.
sos que podem ocorrer dentro da própria perif~~ia COfil;O
conseqüência desse tipo de política. Os benef1c1os reais 41 . A capacidade de um cartel organizado por um grupo
de países para elevar os preços de exportação de um produto
para certos países são importantes, ma~ esses países e assim modificar a repartição da renda em escala mundial, é
abrigam uma pequena minoria da populaçao q~e vive. na tanto maior quanto mais rígida é a demanda do produto a
periferia. Grande parte dos novos recursos fmance1ros curto prazo e mais difícil sua substituição a médio prazo. A
de que dispõem terão quase necessariamente que ser situação do petróleo a este respeito é extremamente favorável.
A situação dos metais não ferrosos se paroxima dela, particular-
mente se puderem ser considerados em conjunto. No caso dos
40. o ocorrido com as companhias petrolíferas recente- produtos agrícolas tropicais a possibilidade de substituição é
mente constitui claro exemplo dessa situação. No primeiro tri- maior, particularmente entre as camadas de população de nível
mestre de 1974, com respeito a igual período do ano anterior, os de renda mais baixo. Contudo, essa margem de substituição
lucros líquidos da Exxon aumentaram em 40 por cento, os da tende a esgotar-se e a partir desse ponto a demanda adquire
Mobil Oil em 65%, os da Texaco em 120%, os da OCcidental Pe- considerável rigidez. No caso dos produtos agrícolas de clima
troleum em 520%; por outro lado os lucros de 1973 já haviam temperado a margem de substituição é ainda maior, pois a mé-
aumentado em média 50% com respeito ao ano anterior. Veja-se dio prazo a sua produção pode ser aumentada nos países cên-
Le Monde de 29 de Maio de 1974, p. 38. tricos, caso os preços persistam acima de certos níveis.

64 65
I'
Mas é possível que a experiência adquirida no setor da indústria do cobre, no Chile, já haviam conseguido
dos recursos não renováveis, venha a ser utilizada na anos atrás elevar consideravelmente o seu salário com
defesa ?~ ~alor real do trabalho, que exploram nos paí- respeito ao "preço de oferta" da mão de obra nesse pais.
ses perifericos as grandes empresas. Conforme foi assi- Essa elevação poderia ter sido levada mais longe, mas o
n_alado antes, a rápida expansão da economia interna- governo chileno preferiu utilizar o método do imposto
c10nal - setor mais dinâmico do sistema capitalista - direto para ampliar a margem do valor adicionado des-
te~de a fundar-se na utilização das grandes reservas de sa indústria que era retido no país. Se se tratasse de
mao de obr.a b~rata que existem na periféria. Apresen- indústria manufatureira com múltiplas linhas de pro-
tam-se aqm d01s problemas: o da apropriação dos fru- dução, cujos preços de exportação podem ser facilmente
tos da expansão econ~mica e o da orientação geral do manipulados, a via fiscal torna-se de utilização mais di-
processo de acumulaçao. Dada a grande disparidade de fícil. Com efeito: como conhecer a rentabilidade da filial
n_íve~s de vida, que se observa atualmente dentro da pe- de uma grande empresa instalada num país do sudeste
nfena, as grandes empresas estão em posição de força asiático, se os preços de todos os insumos utilizados são
·para. conservar os salários ao mais baixo nível. 12 Toda administrados pela matriz, assim como os preços dos
pressão no sentido de elevá-los poderá ser contida com produtos exportados?
É difícil conjecturar sobre uma elevação geral dos
um desvio dos investimentos para outras áreas que ofe-
reçam condições mais favoráveis. A grande empresa que salários reais nas atividades exportadoras dos países pe-
produz produtos manufaturados, na periferia, para o riféricos. Como a taxa de salário varia muito entre paí-
mercado do centro, tem uma margem de manobra tan- ses periféricos, as conseqüências seriam distintas de país
to maior quanto mais baixos são os salários que paga. para país, particularmente se a elevação fosse feita no
Essa margem lhe permite, seja expandir o mercado a sentido de uma maior igualização. Não se pode perder
curto. prazo, seja aumentar sua capacidade de auto-fi- de vista que a uma tecnologia similar podem correspon-
nanciamento. Em qualquer dos dois casos , maior a mar- der diversos níveis de produtividade física da mão de
. obra em função do nível geral de desenvolvimento do
gem, maior a parte do valor adicionado que permanece
fora do país periférico em que se localiza a indústria. ·país. A unificação das taxas de salário, nas atividades
Tudo se passa como se o trabalho fosse um recurso que exportadoras industriais dos países periféricos tenderia,
s: exporta, s~ndo a taxa de salário o preço de exporta- portanto, a beneficiar aqueles com maior avanço relati-
çao. Se o con3unto dos países periféricos decidissem subi- vo industrial. O problema é certamente muito mais com-
tamente dobrar, em termos de moeda internacional o plexo que a elevação do preço de um produto homogê-
preço de exportação da força de trabalho o result~do nio que goza de demanda inelástica no centro. Mas é
seria similar ao que ocorre quando aument~m os preços por esse caminho que, mais cedo ou mais tarde, os paí-
de um produto de exportação que goza de uma deman- ses periféricos terão que avançar para apropriar-se de
uma parcela maior do fruto da própria força de traba-
da inelástica no centro. Em realidade essa elevação tem lho. Se as grandes empresas continuam a pagar na pe-
tido lugar em situações especiais: assim, os operários riferia salários correspondentes ao "preço de oferta" da
força de trabalho, o próprio processo de industrialização
,, 42. Mesm? pagando salários algo acima do "preço de ofer-
ta . local da mao de obra, as grandes empresas obtêm, na peri- dos países periféricos contribuirá para aumentar o fos-
feria, uma força de trabalho consideravelmente mais barata do so que os separa do centro do sistema.
que nos países cêntricos. Estima-se, por exemplo, que os salários A política de elevação da taxa de salário real a que
pagos pelas grandes empresas no sudeste da Asia, para tarefas
semelhantes! correspondem a um sexto dos pagos na Alemanha nos referimos nos parágrafos anteriores teria como con-
e a . u.m déc1~0 dos pagos nos Estados Unidos. Com respeito à seqüência direta a criação de um diferencial de salários
America Latma <excluída a Argentina) o diferencial deve ser entre o setor ligado à exportação e o resto da economia
semelhante.
67
66
local. Daí resultaria a formação de uma nova camada a ampliar o fosso entre um centro, em crescente homo-
social, semi-integrada nas formas "modernas" de con- geneização, e uma constelação de economias periféricas,
sumo. Como o grau de acumulação alcançada na econo- cujas disparidades continuam a agravar-se. Com efeito:
mia não permite generalizar essa taxa de salário, o fun- a crescente hegemonia das grandes empresas, na orien-
do do problema do subdesenvolvimento não se modifica- tação do processo de acumulação, traduz-se, no centro,
ria. Para alcançar esse fundo seria necessário que os re- por uma tendência à homogeneização dos padrões de
cursos retidos no país periférico pudessem ser utilizados consumo e, nas economias periféricas, por um distan-
em um processo cumulativo visando à modificar a es- ciamento das formas de vida de uma minoria privile-
trutura do sistema econômico no sentido de uma cres- giada com respeito à massa da população. Essa orien-
cente homogeneização. A questão última está na orien- tação do processo de acumulação é, por si só, suficiente
tação do processo de acumulação e essa orientação con- para que a pressão sobre os recursos não reprodutíveis
tinuaria na mão das grandes empresas. Assumir essa seja substancialmente inferior à que está na base das
orientação, vale dizer, estabelecer prioridades em função projeções alarmistas a que fizemos antes referência.
de objetivos sociais coerentes e compatíveis com o esfor- Cabe distinguir dois tipos de pressão sobre os re-
ço de acumulação, seria a única forma de liberar a eco- cursos. A primeira está ligada à idéia de freio maltu-
nomia da tutela das grandes empresas. Esse caminho siano: refere-se à disponibilidade de terra arável a ser
não é fácil e é natural que as burocracias que contro- utilizada no contexto da agricultura de subsistência.
lam os estados no mundo periférico se sintam pouco Nos países em que o padrão de vida de uma grande par-
atraídas por ele. Contudo, as tensões sociais crescentes te da população se aproxima do nível de subsistência,
que engendram as atuais tendências estruturais do sis- a disponibilidade de terras aráveis (ou a possibilidade
tema poderão forçar muitas dessas burocracias a adotar de intensificar o seu cultivo mediante pequeno aumento
caminhos imprevistos, inclusive o de uma preocupação de custos de produ_Gão em termos de mão de obra não
efetiva com os interesses sociais e busca de formas de especializada) é fator decisivo na determinaGão da taxa
convivência com as grandes empresas que sejam compa- de crescimento demográfico. Não há dúvida de que o
tíveis com uma orientação interna do processo de desen- acesso às terras pode ser dificultado por fatores insti-
volvimento. 13 tucionais e que a oferta local de alimentos pode ser re-
duzida pela ampliação de culturas de exportação. Nos
O mito do desenvolvimento econômico dois casos aumenta a pressão sobre os recursos, se exis-
te uma densa população rural dependente da agricultu- ·
Se deixamos de lado as conjecturas e nos limita- ra de subsistência. Os efeitos desse tipo de pressão sobre
mos a observar o quadro estrutural presente do sistema os recursos somente se propagam quando a populaGão
capitalista, vemos que o processo de acumulação tende tem a posibilidade de emigrar: de uma maneira geral,
eles se esgotam dentro das fronteiras de cada país. O
43. A aceitação pelas grandes empresas, inicialmente pelas
que interessa assinalar é que esse tipo de pressão sobre
européias e japonesas e mais recentemente pelas amricanas, das os recursos pede provocar calamidades em áreas delimi-
normas restritivas impostas pelo código de investimentos es- tadas, como atualmente ocorre no Sahel africano, mas
trangeiros dos países do Grupo Andino é exemplo claro da ra- em pouco afeta o funcionamento do conjunto do sistema.
pidez com que podem adaptar-se a novas situações essas em-
presas. Aparentemente a adaptação é mais fácil se as restri- O segundo tipo de pressão sobre os recursos é cau-
ções dizem respeito à propriedade dos bens de produção e mais sado pelos efeitos diretos e indiretos da elevação do ní-
difícil se interferem na orientação do desenvolvimento, isto é, vel de consumo das populações e está estreitamente li-
na definição dos produtos e métodos produtivos. Em síntese:
A grande empresa está disposta a abandonar a propriedade dos gado à orientação geral do processo de desenvolvimento.
bens de produção, mas não o controle da tecnologia. O fato de que a renda se mantenha consideravelmente
68 69
1·!
concentra~a nos países de mais alto nível de vida, agra-
va a pressao sobre os recursos que gera, necessariamen- pode aceitar é a hipótese, também fundamental nessas
te, o processo de crescimento econômico. 44 Também se projeções, segundo a qual os atuais padrões de consumo
pode afirmar que a crescente concentração da renda no dos .P~íses ricos. t~ndem a _generalizar-se em escala pla-
centro do sistema, isto é, a ampliação do fosso que se- netana. Esta hipotese esta em contradicão direta com
para a periferia desse centro, constitui fator adicional a orientação geral do desenvolvimento 'que se realiza
de aumento da pressão sobre os recursos não reprodutí- atual~ente no conjunto do sistema, da qual resulta a
veis. Com efeito: se fosse mais bem distribuído no con- e~~lusao das grandes m~ssàs que vivem nos países peri-
junto do sistema capitalista, o crescimento dependeria fencos_ das benesses criadas per esse desenvolvimento.
menos da introdução de novos produtos finais e mais Ora, sao exatamente esses excluídos que formam a mas-
da difusão do uso de produtos já conhecidos, o que sig- sa demográfica em rápida expansão.
nificaria um mais baixo coeficiente de derperdício. A ca- A população do mundo capitalista está formada
pitalização tende a ser tanto mais intensa quanto mais h_?je em dia por aproximadamente 2,5 bilhões de indi-
o crescimento esteja orientado para a introdução de no- viduas. 41' Desse total, cerca de 800 milhões vivem no cen-
vos produtos finais, vale dizer, para o encurtamento da tro do sistema e 1,7 bilhões em sua periferia. A tendên-
vida útil de bens já incorporados ao patrimônio das pes- cia evolutiva desses dois conjuntos populacionais estão
soas e da coletividade. 4 ; Desta forma, a simples concen- definidas em suas linhas fundamentais e não existe evi-
tração geográfica da renda, em benefício dos países que d~ncia de 9u~ venham a mod~fic~r-se, no correr dos pró-
gozam do mais alto nível de consumo, engendra uma ximos decemos, como decorrencia de pressão sobre os
maior pressão sobre os recursos não reprcdutíveis. recursos, do primeiro ou do segundo tipo referidos. Sen-
Se o primeiro tipo de pressão sobre os recursos é lo- do assim! e se excl~u ~ hipótese de um fluxo migratório
calizado e cria o seu próprio freio, o segundo é cumula- substancia~ da penfe:ia para o c~ntro, é de admitir que
tivo e exerce pressão sobre o conjunto do sistema. As a populaçao do conJunto de paises cêntricos alcance
projeções alarmistas do estudo The Limits to Growth se d~~tro de um século, 1,2 bilhões de habitantes. A opi~
mao de que essa massa demográfica tende a estabilizar-
referem essencialmente a este segundo tipo de pressão. se nos próximos decênios é aceita pela maioria dos es-
As relações entre a acumulação de capital e a pressão tudiosos da matéria. O quadro formado pelo segundo
sobre os recursos, que estão na base das projeções, se sub-conjunto demográfico é muito mais complexo em
fundam em observações empíricas e podem ser aceitas sua dinâmica. A pressão sobre os recursos do primeiro
como uma primeira aproximação válida. O que não se tipo, desempenha neste caso papel fundam~ntal. Contu-
do, se se tem em conta a atual estrutura de idade dessa
44. Se o grau de concentração da renda se mantem e a população, da qual cerca da metade se encontra atual-
renda média está em expansão, isso significa que os novos re- mente abaixo da idade de procriação, parece fora de dú-
cursos criados estão sendo distribuidos com o mesmo grau de
desigualdade que os recursos já existentes. Uma pessoa que já vida que as taxas de natalidade se manterão elevadas
dispõe de uma renda dez vezes superior à média estará rece- por algumas gerações. É essa uma das conseqüências da
bendo recursos novos em quantidade dez vezes superior à média. orientação do desenvolvimento que, ao concentrar a ren-
Se esses recursos fossem distribuídos entre dez pessoas, um da em benefício dos países ricos e das minorias ricas nos
mesmo bem multiplicado por dez poderia absorver o incremento
de renda; no caso de os recursos estarem concentrados na mão países pobres, reduz o efeito da elevação do nível de ren-
de uma só pessoa, quiçá sejam necessários dez bens diferentes, da na taxa de natalidade, com respeito ao conjunto do
o que, na prática, se consegue em grande parte reduzindo a sistema. Pode-se admitir como provável que, no correr
vida dos bens já existentes.
do próximo século, a população da periferia dobre, cada
45. Cf. C. Furtado, "Subdesenvolvimento e Dependencia",
cit. 46. Veja-se a nota 21.
70
71

J,
33 anos, o que significa que ela passaria de 1,7 para 13,6
' tiva pressão sobre os recursos alcança 885 milhões. No
bilhões. Sendo assim, a população dos países cêntricos quadro das projeções que fizemos, esse sub-conjunto po-
se multiplicaria por 1,5 e a dos países periféricos por 8, pu}acional alcançaria, dentro de um século, 1880 mi-
do que resulta que a população do conjunto passaria de / 1 1 lho~s. ~esta forma, .enquanto a população do mundo
2,5 para 14,8 bilhões, ou seja, se multiplicaria por 5,9. c~pitallsta aum.entana 5,9 vezes, a do conjunto popula-
No que diz respeito à pressão sobre os recursos do se- c10nal que efetivamente exerce pressão sobre os recur-
gundo tipo, isto é, a pressão cumulativa capaz de gerar .f sos aumen~aria, 21 vezes. Se a população que exerce
tensões no conjunto do sistema, interessa menos a di- forte pressao sobre os recursos dobra e ademais a ren-
visão entre centro e periferia que a divisão entre aque- da média dessa população também de~erá dobr~r antes
les que se beneficiam do processo de acumulação de ca- que o ponto de relativa saturação na utilização dos re-
pital e aqueles cuja condição de vida somente é afetada c:irsos não renováveis seja alcançado, temos que admi-
por esse processo de forma marginal cu indireta. Ou tir que essa pressão muito provavelmente crescerá cer-
seja: é mais importante o fosso que a atual orientação ca de quatro vezes no correr do próximo século. Cabe

l
do desenvolvimento cria dentro dos países periféricos do acrescentar que essa pressão quatro vezes maior se rea-
que o outro fosso que existe entre estes e o centro do liza sobre uma base de recursos substancialmente me-
sistema. As informações relativas à distribuicão da ren- nor. <?ontudo, seria irrealista imaginar que um ritmo de
da nos países periféricos põem em evidência· que a par- crescimento dessa ordem, na pressão sobre os recursos
cela da população que reproduz as formas de consumo não renováveis, constitui algo fora da capacidade de
dos países cêntricos é reduzida. Ademais, essa parcela controle do homem, mesmo na hipótese de que a tecno-
não parece elevar-se de forma significativa com a indus- l?gia_ continui a ser orientada em sua concepção e uti-
trialização. O fundo do problema é simples: o nível de llzaçao por empresas privadas. Esta afirmacão não im-
renda da população dos países cêntricos é, em média, plica desconhecer que é essa uma pressão c'onsiderável
cerca de dez vezes mais elevado que o da população dos cabendo assinalar que parte crescente dela se exercerá'.
países periféricos. Portanto, a minoria que nestes países sobre os recursos atualmente localizados na periferia do
reproduzem as formas de vida dos países cêntricos de- sistema.
vem dispcr de uma renda cerca de dez vezes maior que Outro dado importante a assinalar é o crescente
a renda per capita do próprio país. Mais precisamente: peso da minoria privilegiada dos países periféricos no
a parcela máxima da população do país periférico em conjunto da população aue desfruta de alto nível de
i vida no sistema capitalista. Sendo menos de dez por
questão aue pode ter acesso às formas de vida dos paí-
ses cêntricos é dez por cento. Nesta situacão limite, o cento atualmente, a participação dessa minoria tende-
resto da população (90 per cento) não poderia sobrevi- ria a superar um terço, na projeção que fizemos. Ora,
ver, pois sua renda seria zero. No caso típico da presen- se se tem em conta que os estados da periferia muito
te situação na periferia, entre um terço e a metade da provavelmente estarão em condição de apropriar-se de
renda é apropriada pela minoria que reproduz os pa-
drões de vida dos países cêntricos e a outra parte (en- 11
uma parcela maior da renda do conjunto do sistema,
mediante a valorização dos recursos não reprodutíveis e
tre metade e dois terços) se reparte de forma mais ou da mão de obra que exportam, a hipótese que formula-
menos desigual com a massa da população; nesse caso, mos de estabilização, ao nível de 5 por cento, do grupo
a minoria privilegiada não pode ir muito além de 5 por 1 privilegiado deve ser considerada como um mínimo. Se
cento da população do país. a melhora nos termos de 'intercâmbio permite que os 5
Os 5 por cento de privilegiados da periferia corres- por cento se elevem a 10, a minoria privilegiada da pe-
pondem presentemente a cerca de 85 milhões de pes- riferia superaria, em número, a população do centro do
soas; destarte, o conjunto da população que exerce efe-
72
1 sistema. Esta tendência também operaria no sentido de

'13
reduzir a pressão sobre os recursos, pois a ampliação trimenta do centro do sistema; no outro extremo surge
do número dos que têm acesso aos altos níveis de con- a possibilidade de modificações políticas de fundo sob
sumo significa que o crescimento se está realizando no a pressão das crescentes massas excluídas dos frut~s do
sentido de uma maior difusão dos padrões de consumo desenvolvimento, o que tende a acarretar mudanças
já conhecidos. substantivas na orientação do processo de desenvolvi-
O aumento relativo do número de privilegiados nos mento. Esta terceira possibilidade, combinada com a
países periféricos não impede, entretanto, que se man- melhora persistente nos termos do intercâmbio, corres-
tenha e aprofunde o fosso que existe entre eles e a ponde ao mínimo de pressão sobre os recursos, assim
grande maioria da população de seus respectivos países. como a persistência das tendências atuais à concentra-
Com efeito: se observamos o sistema capitalista em seu ção da renda engendra o máximo de pressão.
conjunto vemos que a tendência evolutiva predominan- A conclusão geral que surge dessas considerações é
te é no sentido de excluir nove pessoas em dez dos prin- que a hipótese de generalização, no conjunto do sistema
cipais benefícios do desenvolvimento; e se observamos capitalista, das formas de consl,l.mo que prevalecem
em particular o conjunto dos países periféricos consta- atualmente nos países cêntricos, não tem cabimento
tamos que aí a tendência é no sentido de excluir deze- dentro das possibilidades evolutivas aparentes desse sis-
nove pessoas em vinte. Essa massa crescente, em termos tema. E é essa a razão fundamental pela qual uma rup-
absolutos e relativos, de excluídos, que se concentra nos tura cataclísmica, num horizonte previsível, carece de
países periféricos, constitui por si mesma um fator de fundamento. O interesse principal do modelo que leva
peso na evolução do sistema. Não se pode ignorar a pos- a essa ruptura cataclísmica está em que ele proporcio-
sibilidade de que ocorram, em determinados países e na uma demonstração cabal de que o estilo de vida cria-
mesmo de forma generalizada, mutações nos sistemas do pelo capitalismo industrial sempre será o privilégio
de poder político, sob a pressão dessas massas, com mo- de uma minoria. O custo, em termos de depredação do
dificações de fundo na orientação geral do processo de mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma eleva-
desenvolvimento. Quaisquer que sejam as novas relações do que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexora-
que se constituam entre os estados dos países periféri- velmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em
cos e as grandes empresas, a nova orientação do desen- risco as possibilidades de sobrevivência da espécie hu-
volvimento teria que ser num sentido muito mais igua- mana. Temos assim a prova definitiva de que o desen-
litário, favorecendo as formas coletivas de consumo e volvimento econômico - a idéia de que os povos pobres
reduzindo o desperdício provocado pela extrema diver- podem algum dia desfrutar das formas de vida dos
sificação dos atuais padrões de consumo privado dos atuais povos ricos - é simplesmente irrealizável. Sabe-
grupos privilegiados. Nesta hipótese, a pressão sobre os mos agora de forma irrefutável que as economias da
recursos muito provavelmente se reduziria. periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de simi-
O horizonte de possibilidades evolutivas que se abre lares às economias que formam o atual centro do siste-
aos países periféricos é, sem lugar a dúvida, amplo. Num ma capitalista. Mas, como negar que essa idéia tem sido
extremo, perfila-se a hipótese de persistência das ten- de grande utilidade para mobilizar os povos da perife-
dências que prevaleceram no último quarto de século a ria e levá-los a aceitar enormes sacrifícios, para legiti-
intensa concentração da renda em benefício de reduzi- mar a destruição de formas de cultura arcaicas, para
da minoria; no centro está o reforçamento das burocra- explicar e fazer compreender a necessidade de destruir
cias que controlam os estados na periferia - tendência o meio físico, para justificar formas de dependência que
que se vem manifestando no período recente -, o que reforçam o caráter predatório do sistema produtivo?
leva a uma melhora persistente nos termos de intercâm- Cabe, portanto, afirmar que a idéia de desenvolvimento
bio e a uma ampliação da minoria privilegiada em de- econômico é um simples mito. Graças a ela tem sido
74 '15
possível desviar as atenções da tarefa básica de identi-
ficação das necessidades fundamentais da coletividade
e das· possibilidades que abre ao homem o avanço da
ciência, para concentrá-las em objetivos abstratos como
são os investimentos, as exportações e o crescimento. A
importância principal do modelo de The Limits do CAPtTULO II
Growth é haver contribuído, ainda que não haja sido o
seu propósito, para destruir esse mito, seguramente um
dos pilares da doutrina que serve de cobertura à domi- SUBDESENVOLVIMENTO E DEPENDtNCIA:
nação dos povos dos países periféricos dentro da nova AS CONEXÕES FUNDAMENTAIS
estrutura do sistema capitalista.

Uma observação mesmo superficial da história mo-


derna põe em evidência que formações sociais assinala-
das por grande heterogeneidade tecnológica, marcadas
desigualdades na produtividade do trabalho entre áreas
rurais e urbanas, uma proporção relativamente estável
da população vivendo ao nível de subsistência, crescen-
te sub-emprego urbano isto é, as chamadas economias
subdesenvolvidas estão intimamente ligadas à forma
como o capitalismo industrial cresceu e se difundi,u
desde os seus começos. A Revolução Industrial - a ace-
leração na processo de acumulação de capital e de au-
mento na produtividade do trabalho ocorrida entre os
anos 70 do século XVIII e as anos 70 do século XIX -
teve lugar no seio de uma economia comercial em rápi-
da expansão, na qual a atividade de alta rentabilidade
muito provavelmente era o comércio exterior. O efeito
combinado do incremento de produtividade nos trans-
portes - redução dos fretes a longa distância - e da
inserção no cm;nércio de um fluxo de novos produtos
originários da industria, deu origem a um complexo
sistema de divisão internacional do trabalho, o qual
acarretaria importantes modificações na utilização dos
recursos em escala mundial. Para compreender o que
chamamos hoje em dia de subdesenvolvimento, faz-se
76 77
necessário identificar os tipos partiçulares de estrutu- Desta forma, o capitalismo industrial levou certos
ras socio-econômicas surgidas naquelas áreas onde o países (os que lideram o processo de industrialização)
novo sistema de divisão internacional do trabalho per- a especializar-se naquelas atividades em que métodos
mitiu que crescesse o produto líquido mediante simples produtivos mais eficientes penetravam rapidamente, e
rearranjos no uso da força de trabalho disponível. levou outros a especializar-se em atividades em que essa
A nossa hipótese central é a seguinte: o ponto de forma de progresso técnico era insignificante, ou a bus-
origem do subdesenvolvimento são os aumentos de pro- car a via da alienação das reservas de recursos naturais
dutividade do trabalho engendrados pela simples realo- não reprodutíveis. A "lei das vantagens comparativas",
cação de recursos visando a obter vantagens compara- tão bem ilustrada por Ricardo com o caso do comércio
tivas estáticas no comércio internacional. O progresso anglo-lusitano, proporcionava uma justificação sólida
técnico - tanto sob a forma de adoção de métodos da especialização internacional, mas deixava na sombra
produtivos mais eficientes como sob a forma de intro- tanto a extrema disparidade na difusão do progresso
dução de novos produtos destinados ao consumo - e a nas técnicas de produção, como o fato de que o novo
correspondente aceleração no processo de acumulação excedente criado na periferia não se conectava com o
(ocorridos principalmente na Inglaterra durante o sé- processo de formação de capital. Esse excedente era
culQ antes refendo) permitiram que em outras áreas principalmente destinado a financiar a difusão, na pe-
crescesse significativamente a produtividade do traba- . riferia, dos novos padrões de consumo que estavam sur-
lho, como fruto da especialização geográfica. Este últi- gindo no centro do si~tema econômico mundial em for-
mo tipo de incremento de produtividade pode ter lugar mação. Portanto, as relações entre países centricos e
sem modificações maiores nas técnicas de produção, periféricos, no quadro do sistema global surgido da di-
como ocorreu nas regiões especializadas em agricultu- visão internacional do trabalho, foram, desde o começo,
ra tropical, ou mediante importantes avanços técnicos bem mais complexas do que se depreende da análise
n?_ quadro de "en~la.ves, como foi o caso daquelas re- econômica convencional.
g10es que se especializaram na exportação de matérias Aspecto fundamental, que se pretendeu ignorar, é
primas minerais. A inserção de uma agricultura num o fato de que os países periféricos foram rapidamente
sistema mais amplo de divisão social do trabalho ou transformados em importadores de novos bens de con-
seja, transformação de uma agricultura de subsistê~cia sumo, fruto do processo de acumulação e do progresso
em agricultura comercial, não significa necessariamen·· técnico que tinha lugar no centro do sistema. A adoção
te abandonar os métodos tradicionais de produção. Mas, de novos padrões de consumo seria extremamente irre-
se essa transformação se faz através do comércio ex- gular, dado que o excedente era apropriado por uma
terior, os inc~em~nt?s de produtividade econômica po- minoria restringida, cujo tamanho relativo dependia da
dem ser cons1derave1s. Certo, o excedente adicional as- estrutura agraria, da abundância relativa de terras e
sim ~riado, pode permanecer no exterior em sua q~ase de mão de obra, da importância relativa de nacionais
totahdade, o que constituia a situação típica das eco- e estrangeiros no controle do comércio e das finanças,
nomias coloniais. Nos casos em que esse excedente foi do grau de autonomia da burocracia estatal, e fatos si-
parcialmente apropriado do interior, seu principal des- milares. Em todo caso, os frutos dos aumentos de pro-
tino consistiu em financiar uma rapida diversificação dutividade revertiam em benefício de uma pequena mi-
dos hábitos de consumo das classes dirigentes mediante noria, razão pela qual a renda disponível para consumo
a importação de novos artigos. Este uso pa~ticular do do grupo privilegiado cresceu de forma substancial. Con-
excedente adicional deu origem às formações sociais vém acrescentar que, tanto o processo de realocação de
atualmente identificadas como economias subdesenvol- recursos produtivos como a formação de capital que a
vidas. este se ligava (abertura de novas terras, construção de
78 '79
estradas secundárias, edificação rural, etc.), eram pou- grande medida o processo de dominação cultural que
co exigentes em insumos importados: o coeficiente de se manifesta ao nível das relações externas de circula-
importações dos investimentos ligados às exportações ção.
em expansão era baixo. Exceção importante, consti· Chamaremos de modernização a esse processo de
tuiu-a a construção da infraestrutura ferroviária, a qual adoção de padrões de consumo sofisticados (privados e
foi financiada do exterior e assumiu parcialmente a fOL'· públicos) sem o correspondente processo de acumulação
ma de "enclave" produtor de excedente que não se in- de capital e progresso nos métodos produtivos. Quanto
tegrava na economia local. De tudo isso resultou que a mais amplo o campo do processo de modernização (e
margem da capacidade para importar, disponível para isso inclui não somente as formas de consumo civis, mas
cobrir compras de bens de consumo no exterior, foi con- também as militares) mais intensa tende a ser a pres-
siderável. As élites locais estiveram, assim, habilitadas são no sentido de ampliar o excedente, o que pode ser
para seguir de perto os padrões de consumo do centro, alcançado mediante expansão das exportações, ou por
a ponto de perderem contacto com as fontes culturais meio de aumento da "taxa de exploração", vale dizer,
dos respectivos países. da proporção do excedente no produto líquido. Visto o
A existência de uma classe dirigente com padrões problema de outro ângulo: posto que a pressão no sen-
de consumo similares aos de países onde o nível de tido de adotar novos padrões de consumo se mantem
acumulação de capital era muitÕ mais alto e impregna- alta - ela está condicionada pelo avanço da técnica e
da de uma cultura cujo elemento motor é o progresso da acumulação, e a correspondente diversificação do
técnico, transformou-se, assim, em fator básico na evo- consumo, que se estão operando nos países cêntricos -
lução dos países periféricos. as relações internas de produção tendem a assumir a
O fato aue vimos de referir - e não seria difícil forma que permite maximizar o excedente. Daí que
comprova-lo com evidência histórica - põe a claro que, apareçam crescentes pressões, ao nível da balança de
no estudo do subdesenvolvimento, não tem fundamento pagamentos, quando o país atinge o ponto de rendi-
antepor a análise ao nível da produção, deixando em mento decrescente na agricultura tradicional de expor-
segundo plano os problemas da circulação, conforme tação e/ou enfrenta deterioração nos termos do inter-
persistente tradição do pensamento marxista. Para cap- câmbio.
tar a natureza do subdesenvolvimento, a partir de suas A importância do processo de modernização, na mo-
origens históricas, é indispensável focalizar simultanea- delação das economias subdesenvolvidas, só vem à luz
mente o processo da produção (realocação de recurso:> plenamente em fase mais avançada quando os respec-
dando origem a um . excedente adicional e forma de tivos países embarcam no processo de industrialização;
apropriação desse excedente) e o processo da circulação mais precisamente, quando se enpenham em produzir
(utilização do excedente ligada à adoção de novos pa- para o mercado interno aquilo que vinham importando.
drões de consumo copiados de países em que o nível de As primeiras industrias que se instalam nos países subde-
acumulação é muito mais alto), os quais, conjuntamen- senvolvidos concorrem com a produção artesanal e se
te, engendram a dependência cultural que está na base destinam a produzir bens simples destinados à massa
do processo de reprodução das estruturas sociais corres- da população. Essas indústrias quase não possuem vín-
pondentes. Certo, o conhecimento da matriz institucio- culos entre elas mesmas, razão pela qual não chegam
nal que determina as relações internas de produção, é a construir o núcleo de um sistema industrial. É em
a chave para compreender a forma de apropriação do fase mais avançada, quando se objetiva produzir uma
excedente adicional gerado pelo comércio exterior; con- constelação de bens consumidos pelos grupos sociais
tudo, a forma de utilização desse excedente, a qual con- modernizados, que o problema se coloca. Com efeito: a
diciona a reprodução da formação social, reflete em tecnologia incorporada aos equipamentos importados não
80 81
1
1
se relaciona com o nível de acumulação de capital al-
cançado pelo país e sim com o perfil da demanda. (o
A industrialização de um pais periférico tende a
tomar a forma de manufatura local daqueles bens de
grau de diversificação do .consu~o) do setor mo~er~1za­ consumo ·que eram previamente importados, como é
do da sociedade. Dessa .or1entaçao do progresso tecmco e bem sabido de todos os estudiosos do chamado processo
da consequente falta de conexão entre este e o grau .d.e de substituição de importações. Ora, a composição de
acumulação previamente alcançado, resulta a espec1fl- uma cesta de bens de consumo determina, dentro de li-
cidade do subdesenvolvimento na fase de plena indus- mites estreitos, os métodos produtivos a serem adota-
trialização. Ao impor a adoção de métodos produtivos dos, e, em última instância, a intensidade relativa do
com alta densidade de capital, a referida orientação cria capital e do trabalho utilizados no sistema de produção.
as condições para qu·e os salários reais se mantenham Assim, se é a produção de bens de uso popular que au-
próximos ao nível de subsistência, ou seja, ~a~a que a menta, recursos relativamente mais abundantes (terra,
taxa de exploração aumente com a produtividade do trabalho não especializado) tendem a ser mais utiliza-
trabalho. dos e recursos relativamente escassos (trabalho especia-
o comportamento dos grupos que se apropriam do lizado, divisas estrangeiras, capital) menos utilizados
excedente, condicionado que é pela situação de depen- do aue seria o caso se fosse a produção de bens alta-
dência cultural em que se encontram, tende a agravar men-te sofisticados, consumidos pelos grupos ricos, a que
as desigualdades sociais, em função do avanço na aumentasse. Expandir o consumo dos ricos - e isto tam-
acumulação. Assim, a reprodução das formas soc~ais, bém é verdade para os países cêntricos - de maneira
que identificamos com o subdesenvolvimento, está liga- geral significa introduzir novos produtos na cesta de bens
da a formas de comportamento condicionadas pelas de- de consumo, o que requer dedicar relativamente mais re-
pendências. Abordamos o problema de outro ângulo: cursos a "pesquisa e desenvolvimento", ao passo que
nas economias subdesenvolvidas, o fator básico que go- aumentar o consumo das massas significa c1lfundir o
verna a distribuição da renda e, portanto, os preços uso de produtos já conhecidos, cuja produção muito
relativos a taxa de salário real no setor em que se provavelmente est~ na fase de rendimentos crescentes.
realiza a acumulação e penetra a técnica moderna, pa- Existe uma estreita correlação entre o grau de diver-
rece ser a pressão gerada pelo processo de moderniza- sificação de uma cesta de bens de consumo, de um
ção, isto é, pelo esforço que realizam os grupos que se lado, e o nível da dotação de capital por pessoa em-
apropriam do excedente para reproduzir as formas de pregada e a complexidade da tecnologia, de outro.
consumo, em permanente mutação, dos países cêntri- Mais o alto nível da renda per cápita de uma país,
mais diversificada a cesta de bens de consumo a
cos. Essa pressão dá origem à rápida diversificação do que tem acesso o cidadão médio desse país, e mais ele-
consumo e determina a orientação da tecnologia ado- vada a quantidade de capital por trabalhador no mes-
tada. Ela, mais do que a existência de uma oferta elás- mo. A hipótese implícita no que dissemos anteriormen-
tica de mão de obra, determina o diferencial entre o te significa que as mesmas correlações existem com res-
salário industrial e o salário no setor de subsistência. peito a setores de uma sociedade com diferentes níveis
Certo, o grau de organização dos distintos setores da de renda.
classe trabalhadora constitui fator importante e res- O processo de transplantação de padrões de consu-
ponde pelas disparidades setoriais desse diferencial. Em mo, a que deu origem o sistema de divisão internacio-
sintese: dado o nível de organização dos distintos seto- nal do trabalho imposto pelos países que lideram a re-
res da classe trabalhadora, a dimensão relativa do ex- volução industrial, modelou subsistemas econômicos em
cedente apropriado pelos grupos privilegiados reflete a que o progresso técnico foi inicialmente assimilado ao
pressão gerada pelo processo de modernização. nível da demanda de bens de consumo, isto é, mediante
82 83
~ observação de um fluxo de novos produtos que eram l~tas pelo po~er, porque "opunham o seu gênero de
importados antes de serem localmente produzidos. A vida, os seus mteresses e sua cultura aos das outras
dependência, que é a situação particular dos países cl~ss~s ~ociais". Entre as condições objetivas para a
cujos padrões de consumo foram modelados do exterior exist.encia de uma classe, portanto, estaria a sua auto-
pode existir mesmo na ausência de investimentos es~ nomia cultur~l. Ora, nos países capitalistas cêntricos,
ttangeiros diretos. Com efeito: este último tipo de in- essa autonomia cultural, no que se refere à classe tra-
vestimento foi raro ou inexistiu durante toda a primei- balhadora, foi consideravelmente erodida. O acesso da
ra fase de expansão do sistema capitalista. O que im- ~assa trabalhadora a formas de consumo antes priva-
porta não é o controle do sistema de produção local tivas das classes que se apropriam do excedente criou
por grupos estrangeiros e sim a utilização dada àquela par~ aquela um horizonte de expectativas que co~dicio­
parte do excedente que circula pelo comércio interna- naria o_ seu comportamento no sentido de ver, na con-
cional. Na fase de industrialização, o controle da produ- fro~taçao de cl!l~ses, mais do que um antagonismo irre-
ção por firmas estrangeiras, conforme veremos, facilita dutivel, uma ser~e de operações táticas em que os inte-
e aprofunda a dependência, mas não constitui a causa resses comuns nao devem ser perdidos de vista.
determinante desta. A propriedade pública dos bens de Nos paí.ses p~r~féricos, o processo de colonização
produção tampouco seria suficiente para erradicar o cultural ~~dica origmalmente na ação convergente das
fenômeno da dependência, se o país em questão se man- classes dmgentes locais, interessadas em manter uma
tem em posição de satélite cultural dos países cêntricos elevada taxa d~ exploração, e dos grupos que, a partir
do sistema capitalista, e se encontra numa fase de d? centro do sistema, controlam a economia interna-
acumulação de capital muito inferior à alcançada por c10nal e cujo principal interesse é criar e ampliar mer-
estes últimos. . cados ~ari:i- fluxo. de novos produtos engendrados pela
Pode-se ir ainda mais longe e formular a hipótese revoluçao mdustrial. Uma vez estabelecida esta conexão
de que um tipo semelhante de colonização cultural vem estava aberto o caminho para a introdução de todas a~
desempenhando importante papel na transformação da formas ?e "intercâm~io desigual", que historicamente
natureza das relações de classe nos países capitalistas c~racteriza~ as. relaçoes entre o centro e a periferia do
cêntricos. A idéia, formulada por Marx, segundo o qual si.sten:ia cap1tallsta. Mas, isolar essas formas de inter-
um processo crescentemente agudo de luta de classes, camb10 ou trata-las como uma conseqüência do processo
no quadro da economia capitalista, operaria como fator de acumulação, sem ter em conta a forma como o ex-.
decisivo na criação de uma nova sociedade, essa idéia c~den~e é utilizado, na .periferia sob o impacto da colo-
para ser válida requer, como condição sine qua non, mzaçao cultural, e deixar de lado aspectos essenciais
que as classes pertinentes estejam em condições de ge- do problema.
rar visões independentes do mundo. Em outras pala- _ É interessante observar que o processo de coloniza-
vras: a existência de uma ideologia dominante (que se- çi:1o_ culturS:l teve lugar mesmo em regiões em que con-
gundo Marx, seria a ideologia da classe dominante em d1çoes particulares permitiram que os salários locais su-
ascenção) não deveria significar a perda total de auto- bissem consideravelmente, ou se fixassem a níveis simi-
nomia cultural pelas outras classes, ou seja, a coloniza- lares aos dos países cêntricos. Foi esta a situação dos
ção ideológica destas. Marx, no seu 18 Brumário, quan- grandes esp~ço~ vasios das zonas temperadas, que se
do atribui papel importante aos paysans parcellaires - povo.aram I?rmcipa~mente com imigração de origem eu-
nos quais se teria apoiado Luis Bonaparte - afirma r?pe1a em fms do seculo passado. A produção agro-pecuá-
claramente que eles não haviam tomado consciência de si ria par9: a ~xportação des~nvolveu-se, nessas regiões, em
mesmos como classe; contudo, constituiam uma classe, con:orrencia com produçao similar de países cêntricos,
no sentido de que podiam servir de fator decisivo nas entao empenhados no processo de industrialização. A

84 85
abundância e a qualidade dos recursos naturais permi- picamente subdesenvolvidos. Este ponto põe em evidên-
tiram que se criasse um substancial excedente por pes- cia que o fenômeno que chamamos dependência é mais
soa empregada, mesmo que a taxa de salário tivesse que geral do que o subdesenvolvimento. Toda economia sub-
ser suficientemente elevada para atrair imigrantes das desenvolvida é necessariamente dependente, pois o sub-
regiões menos prósperas da Europa. A forma de apro- desenvolvimento é uma criação da situação de depen-
priação interna desse excedente e o número relativo da dência. Mas nem sempre a dependência criou as forma-
minoria privilegiada variaram conforme as condições ções sociais sem as quais é· difícil caracterizar um país
históricas prevalescentes em cada área. Contudo, na me- como subdesenvolvido. Mais ainda: a transição do sub-
dida em que esse excedente foi utilizado para finan- desenvolvimento para o desenvolvimento é dificilmente
ciar a adoção de formas de consumo engendradas pela concebível, no quadro da dependência. Mas o mesmo
industrialização no exterior, ocorreu um processo de não se pode dizer do processo inverso, se a necessidade
modernizacão similar ao aue antes descrevemos. A si- de acompanhar os padrões de consumo dos países cen-
tuação de 'dependência existe, nestes casos, na ausência tricos se alia a uma crescente alienação de parte do ex-
das formas sociais que estamos habituados a ligar ao cedente em mãos de grupos externos controladores do
subdesenvolvimento. Ela radica fundamentalmente na aparelho produtivo.
persistente disparidade entre o nível do consumo (inclu- O fenômeno da dependência se manifesta inicial-
sive, eventualmente, parte do consumo da classe traba- mente sob a forma de imposição externa de padrões de
lhadora) e a acumulação de capital no aparelho produ- consumo que somente podem ser mantidos mediante a
tivo, porquanto a elevação de produtividade, que dá geração de um excedente criado no comércio exterior.
origem ao excedente, resulta da utilização extensiva de E a rápida diversificação desse setor do consumo que
recursos naturais no quadro de vantagens comparati- transforma a dependência em algo dificilmente rever-
vas internacionais. A abundância de recursos minerais e sível. Quando a industrialização pretende substituir es-
de fontes de energia, entre outros fatores, permitiu que ses bens importados, o aparelho produtivo tende a di-
economias desse tipo tivessem uma precoce industriali- vidir se em dois: um segmento ligado a atividades tra-
zação, ainda que essencialmente sob o controle de firmas dicionais, destinadas às exportações ou ao mercado in-
estrangeiras. É este o caso do Canadá, cuja economia terno (rurais e urbanos) e outro constituído por indús-
integra o centro do sistema capitalista, não obstante a trias de elevada densidade de capital, produzindo para
extrema debilidade dos centros internos de decisão. Na a minoria modernizada. Os economistas que observa-
Argentina, condições históricas distintas fizeram que ram as economias subdesenvolvidas sob a forma de sis-
o processo de industrialização se atrazasse e assumisse temas fechados viram nessa descontinuidade do apa-
a forma de "substituição", isto é, de resposta à crise do relho produtivo a manifestação de um "desequilíbrio ao
setor exportador. Em razão do declínio da produtivida- nível dos fatores", provocado pela existência de coefi-
de, causado pela crise do setor exportador, o esforço de cientes fixos nas funções de produção, ou seja, pelo
capitalização requerido pela industrialização teve que fato de que a tecnologia que estava sendo absorvida era
ser considerável. A experiência tem demonstrado que "inadequada". Pretende-se, assim, ignorar o fato de que
as economias que se encontram nessa situação tendem os bens que estão sendo consumidos não podem ser pro-
a alternar sérias crises de balança de pagamento com duzidos senão com essa tecnologia, e que às classes diri-
períodos de relativa estagnação. Como a pressão no gentes que assimilaram as formas de consumo dos países
sentido de acompanhar a renovação dos padrões de cêntricos não se apresenta o problema de optar entre
consumo no centro se mantem, surge uma tendencia à essa constelação de bens e uma outra qualquer. Na
concentração da renda com reflexos nas estruturas so- medida em .que os padrões de consumo das classes que
ciais, as quais tendem a assemelhar-se às dos países ti- se apropriam do excedente devam acompanhar a rápi-

86 87
,,
l

da evolução nas formas de vida, que está ocorrendo no


centro do sistema, qualquer tentativa visando à "adap- as grandes empresas dos países cê_?tricos p~r~, ~ubsti­
tar" a tecnologia será de escassa significação. tuir, na periferia, mediante ~ ~r~açao de susidianas, .as
Em sintese: miniaturizar, em um país periférico, o empresas locais que hajam imciado o processo de m-
sistema industrial dos países cêntricos contemporâneos, dustrialização. Caberia mesmo indagar se .ª deman~a
onde a acumulação de capital alcançou níveis muito altamente diversificada dos grupos modermzados sena
jamais satisfeita, com produção local, caso o fluxo de
mais altos, significa introduzir no aparelho prod.ut~vo inovações técnicas devesse ser pago a preços de merca-
uma profunda descontinuidade causada pela c:_oexisten· do. Esse fluxo é criado ou controlado por empresas que
eia de dois níveis tecnológicos. Este problema nao estava consideram ser muito mais vantajoso expandir-se em
presente na fase anterior à "~ubst.it.uiç~o de importa- escala internacional do que alienar esse extraordinário
ções", simplesmente porque a diversificaçao do consumo instrumento de poder. Tratar-se-ia não somente de en-
da minoria modernizada podia ser financiada com o tregar o controle das inovações de uso imediato, mas
excedente gerado pelas vantagens comparativas do CO· também de assegurar uma opção sobre as futuras. Ade-
mércio exterior. Na fase de industrialização substituti- mais, o preço da tecnologia teria que ser elevado, para
va a extrema disparidade entre os níveis (e o grau de a empresa local que se limitasse a adquiri-la no mer-
di~ersificação) do consumo da minoria modernizada e cado, ao passo que, para a grande empresa que.ª con~
da massa da população deverá incorporar-se à estrutu- trola e vem utilizando no centro, essa tecnologia esta
ra do aparelho produtivo. Desta forma, o chama~o "de- praticamente amortizada. A este fato se deve que a
sequilibrio ao nível dos fatores" deve ser considera.do grande empresa possa, mais facilmente, contornar .os
como inerente à economia subdensenvolvida que se m- obstáculos de pequenez de mercado, falta de ec?nomi8:s
dustrializa. Ademais, se se tem em conta que a situação externas e outros que caracterizam as economias peri-
de dependência está sendo permanentemente ~eforçada, féricas. Assim, a cooperação das grandes empresas de
mediante a introducão de novos produtos (CUJa produ- atuação internacional passou a se~ s?li~itada pelos
ção requer o uso de, técnicas. cada vez mais s?fisticadas países periféricos como a forma mais facll de contar·
e dotacões crescentes de capital), torna-se evidente que nar os obstáculos' que se apresentam a uma industriali-
o avanço do processo de industrialização depende de zação retardada que pretende colocar-se em nível ~éc­
aumento da taxa de exploração, isto é, de uma crescente nico similar ao que prevalece atualmente nos paises
concentração da renda. Em tais condições, ? crescim~~­ cêntricos.
to econômico tende a depender mais e mais da habili- o dito no parágrafo anterior evidencia que, a me-
dade das classes aue se apropriam do excedente para dida em que avança o processo de industrialização na
forçar a maioria cia população a aceitar crescentes de· periferia, mais estreito tende a ser o controle do ap.are-
sigualdades sociais. _ A . lho produtivo, aí localizado, por grup?s .esti:_angeHos.
A industrialização, nas condiçoes de depend~ncia, Em conseqüência, a dependência, antes n:;iitaçao <:!_e pa-
de uma economia periférica, requer intensa absorçao de drões externos de consumo mediante a importaçao de
progresso técnico sob a forma d~ novos produto~ e das bens, agora se enraiza no sistema produtivo e assume
técnicas requeridas para produzi-los. E na medida em a forma de programação pelas subsidiárias das grandes
que avança essa industrialização, o progresso técnico empresas dos padrões de consumo a serem a~otados.
deixa de ser o problema de adquirir no estrangeiro este Contudo esse controle direto por grupos estrangeiros, do
ou aquele equipamento e passa a ser uma questão de sistema 'produtivo dos países perifé_:icos, não conAsti~ui
ter ou não acesso au fluxo de inovação que está brotan- um resultado necessário na evoluçao da dependencia.
do nas economias do centro. Quanto mais se avança É perfeitamente possível que uma bur~uesia local de
nesse processo maiores são as facilidades que encontram relativa inportância e/ou uma burocracia estatal forte
88 89
participem do controle do aparelho produtivo e mesmo de escala, que, se ao nivel da empresa podem encon-
mantenham uma posição dominante nesse controle. Em trar solução parcial na proteção e nos subsídios, ao ní-
alguns casos essa predominância de grupos locais pode vel social se traduzem em elevados custos. Já fizemos
ser essencial afim de assegurar o rígido controle social referência ao fato de que essa situação favorece a pe-
requerido para fazer face a ·tensões originadas pela cres- netração das grandes empresas com sede nos países
cente desigualdade social. Contudo, o controle local, ao centricos, o que por seu lado contribui para elevar os
nível da produção, não significa necessariamente menos custos de operação do sistema industrial em termos de
dependência, se o sistema pretende continuar a repro- divisas estrangeiras. Esse quadro, que em alguns paises
duzir os padrões de consumo que estão sendo ·perma- latino-americanos se apresentou sob a forma de redução
nentemente criados no centro. Ora, a experiência tem nas taxas de crescimento, de fortes crises de balança de
demonstrado que os grupos locais (privados ou públicos) pagamentos e/ou rápido endividamente externo, tem
que participam da apropriação do excedente, no quadro sido descrito, particularmente em publicações das Na-
de dependência dificilmente se afastam da visão do ções Unidas, como o resultado da "exaustão" do proces-
desenvolvimento como processo mimético de padrões so de "substituição de importações". Mas, por detrás
culturais importados. desses sintomas, não é difícil perceber uma causa mais
Os processos históricos são, evidentemente, muito profunda: a incompatibilidade entre o projeto de desen-
mais complexos do que podem sugerir os esquemas teó- volvimento dos grupos dirigentes, visando a reproduzir
ricos. Sem lugar a dúvida, as primeiras indústrias a de- dinamicamente os padrões de consumo dos países cen·
senvolver-se nos países subdesenvolvidos foram as que tricos, e o grau de acumulação de capital alcançado pelo
produzem artil{os de amplo consumo (alimentos, teci- país. Contornar esse obstáculo tem sido a grande preo-
dos, confecções, objetos de couro), tanto em razão de cupação no correr do último decênio, dos países subde-
sua relativa simplicidade técnica como pela pré existên· senvolvidos em mais avançado estágio de industrializa-
eia de um mercado relativamente amplo abastecido par- ção. Posto que a pequenez relativa dos mercados locais
cialmente pelo artesanato. Ocorre, entretanto, que, se surgia como o fator negativo mais visível, conceberam-
a taxa de salário permanece próxima às condições de -se esquemas de ingração sub-regional sob a forma de
vida prevalescentes na agricultura de subsistência, a zonas de livre comércio, uniões aduaneiras, etc. Tais
implantação desse tipo da indústria não chega a modi- esquemas permitiram, em alguns casos, dar maior al-
ficar de forma significativa a estrutura de uma econo- cance ao processo de "substituição de importações", mas
mia subdesenvolvida. Porque competem com o artesa- em nada modificaram os dados fundamentais do pro-
nato e pagam salários não muito superiores à renda dos blema, que têm as suas raízes na situação de dependên-
artesãos, essas indústrias contribuem para ampliar o
mercado interno; e porque têm poucos vínculos com ou- cia anteriormente descrita. 1
tras atividades industriais, quase não criam economias
1. O problema de como industrializar, beneficiando-se da
externas. Essa situação particular se traduz na curva técnica moderna, um país em que a acumulação de capital se
típica de crescimento desse tipo de indústria: rápido encontra em nível relativamente baixo, pode ter várias soluções,
crescimento inicial e tendência ao nivelamento. todas elas ligadas a um certo sistema de valores. Três soluções
É durante a fase de "substituição de inportações'', principais (puras) têm sido tentadas no correr dos últimos anos.
A primeira consiste em aumentar a taxa de exploração (impedir
a qual se liga às tensões da balança de pagamentos, que que a massa salarial cresça paralelamente ao produto líquido
tem início a formação de um sistema industrial. Mas, de forma conjugada com uma intensificação do consumo que
pelo fato de que o consumo da minoria modernizada é se financia com parte do excedente; a posibilidade de maiores
economias de escala (particularmente nas indústrias produtoras
altamente diversificado, as indústrias que formam esse de bens duráveis de consumo) engendra uma maior taxa de
sistema tendem a enfrentar problemas de deseconomias lucro, o que por seu lado estimula a entrada de recursos exter-

90 91
O crescente controle externo dos sistemas de produ- deraram a revolução industrial, deu origem a um exce-
ção dos países periféricos, abre para estes últimos nova dente, o qual permitiu às classes dirigentes de outros
fase evolutiva. Assim, o aumento dos custos em divisas países (periféricos ao sistema) - nos quais não havia
estrangeiras da produção ligada ao próprio mercado in- industrialização - ter acesso a padrões diversificados
terno cria tensões adicionais nas balanças de pagamen- de consumo engendrados pelo intenso progresso técnico
tos dos respectivos países, as quais levam, em alguns e acumulação de capital concentrados no centro do sis-
casos.' ~o bloqueio do processo de industrialização, criam tema. Em conseqüência, os países periféricos puderam
cond1çoes que favorecem a busca de soluções alternati- elevar a taxa de exploração sem que houvesse redução
vas através de "correções" compensatórias. A extraordi- na taxa de salário real e independentemente da assimi-
nária flexibilidade das grandes empresas de atuação in- lação de novas técnicas produtivas. Desta forma, sur-
ternacional deve-se que tais problemas venham encon- giu nos países periféricos um perfil de demanda caracte-
trando solução com um mínimo de modificações nas rizado por marcada descontinuidade. A partir do mo-
estruturas sociais tradicionais. Com efeito: graças às mento em que o setor exportador entrou na fase de ren-
transações internas que realizam as grandes empresas dimentos decrescentes, a industrialização orientou-se
no plano internacional, os países periféricos se vão ca- para a "substituição de importação". Devendo minia-
pacitando para pagar com mão de obra barata os seus turizar sistemas industriais em um processo muito mais
crescentes custos de produção em moeda estrangeira. avançado de acumulação e devendo acompanhar a rá-
As novas formas de economia subdesenvolvida, que cres- pida diversificação da panóplia de bens de consumo dos
cem à base de exportações de trabalho barato incorpo- países de mais alto nível de renda, os países periféricos
rado a produtos industriais manufaturados por empresas fora~ levados a ter que aumentar a taxa de exploração,
estrangeiras e destinados a mercados externos, apenas ou seJa, a concentrar cada vez mais a renda. Por outro
começam a definir o seu perfil. Mas, se se tem em conta lado, o custo crescente da tecnologia conjuntamente
que a proporção do excedente apropriado do exterior é com a aceleração do progresso técnico facilitou a pene-
considerável, nada indica que a taxa de exploração ten- tração das grandes empresas de ação internacional, o
da a declinar. Em outras palavras: se as condições gerais que intensificou ainda mais a difusão dos novos padrões
ligadas à situação de dependência persistem, nada su- de consumo surgidos no centro do sistema e levou a
gere que a industrialização orientada para o exterior maior estreitamente dos vínculos de dependência.
contribua para reduzir a taxa de exploração, tanto mais Os pontos essenciais do processo são os seguintes:
que a própria razão de ser desse tipo de industrializa- a matriz institucional pré-existente, orientada para a ,
ção na periferia é a existência de trabalho barato. concentração da riqueza e da renda; as condições histó-
Podemos agora tentar destacar o que dá permanên- ricas ligadas à emergência do sistema de divisão inter-
cia ao subdesenvolvimento, ou seja, como a estrutura que nacional do trabalho, as quais estimularam o comer-
permite identifica-lo reproduziu-se no tempo. A divisão cio em função dos interesses das economias que lidera-
internacional do trabalho, impostos pelos países que li- vam a revolução industrial; o aumento da taxa de ex-
ploração nos países periféricos e o uso do excedente adi-
nos. A segunda solução consiste em orientar o sistema industrial cional pelos grupos dirigentes locais, do que resultou a
para os mercados internos, no quadro de novo sistema de divi- ruptura cultural que se manifesta através do processo
são internacional do trabalho sob a égide das grandes empre-
sas transnacionais. A terceira consiste em recondicionar pre- de modernização; a orientação do processo de industria-
gressivamente os padrões de consumo de forma a torná-!os lização em função dos interesses da minoria moderniza-
c?mpatíveis com o esforço de acumulação desejado. A primeira da, que criou condições para que a taxa de salário real
formula corresponde ao chamado modelo brasileiro, a segunda permanecesse presa ao nível de subsistência; o custo
ao chamado modelo Hong-Kong e a terceira ao chamado modelo
chinês. crescente da tecnologia requerida para acompanhar, me-
92 93
diante produção local, os padrões de consumo dos países
cêntricos, o que por seu lado facilitou a penetração das
grandes empresas de ação internacional; a necessidade
de fazer face aos custos crescentes em moeda estrangeira
da produção destinada ao mercado interno, abrindo o
caminho a exportação de mão de obra barata sob o dis- CAPtTULO III
farce de produtos manufaturados.
O subdesenvolvimento tem suas raizes numa cone-
xão precisa, surgida em certas condições históricas, en- O MODELO BRASILEIRO
tre o precesso interno de exploração e o processo exter- DE SUBDESENVOLVIMENTO
no de dependência. Quanto mais intenso o influxo de
novos padrões de consumo, mais concentrada terá que
ser a renda. Portanto, se aumenta a dependência ex-
terna, também terá que aumentar a taxa interna de
· exploração. Mais ainda: a elevação da taxa de cresci-
mento tende a acarretar agravação tanto da dependên-
cia externa como da exploração interna. Assim, taxas
mais altas de crescimento, longe de reduzir o subdesen-
volvimento, tendem a agrava-lo, no sentido de que ten- Desenvolvimento e Modernização
dem a aumentar as desigualdades sociais.
Em conclusão: o subdesenvolvimento deve ser en- A economia brasileira constitui exemplo interes-
tendido como um processo, vale dizer, como um conjun- sante de quanto um país pode avançar ~o _Pr~cesso de
to de forças em interação e capazes de reproduzir-se no industrialização sem abandonar suas principais carac-
tempo. Por seu intermédio, o capitalismo tem consegui- terísticas de subdesenvolvimento: grande disparidade na
do difundir-se em amplas áreas do mundo sem compro- produtividade entre as áreas rurais e urbanas, uma
meter as estruturas sociais pré-existentes nessas áreas. grande maioria da população vivendo em um nível de
O seu papel na construção do presente sistema capita- subsistência fisiológica, massas crescentes de pessoas sub-
lista mundial tem sido fundamental e seu dinamismo empregadas nas zonas urbanas, etc. Foi. assim refut~­
continua considerável: novas formas de economias sub- da a tese implícita nos modelos de crescimen.to ~o ge-
desenvolvidas plenamente industrializadas e/_ou orien- nero introduzido por Lewis - de que canahzaçao do
tadas para a exportação ~e manufatura~ e~tao apenas excedente de uma economia subdesenvolvida para o ~e­
emergindo. É mesmo possivel que ele seJa merente ao tor industrial (as atividades qu~ absorvem J!ro~resso tec-
sistema capitalista; isto é, que não possa haver. capita- nico) criaria finalmente um sistema economico de ho-
lismo sem as relacões assimétricas entre sub-sistemas
0 mogeneidade crescente (onde o nível salarial tende a
econômicos e as fo rmas de exploração social que estão crescer em todas as atividades econômicas pari passu
na base do subdesenvolvimento. Mas não temos a pre- com a produtividade média do sistema).
tensão de poder demonstrar esta última hipótese. Os objetivos deste ensaio são: a) investigar por que
a difusão mundial do progresso técnico e os deco!re~tes
incrementas da produtividade não tenderam a liqu,i~ar
o subdesenvolvimento"; e b) demonstrar que na pohtica
de "desenvolvimento" orientada para satisfazer os al-
tos níveis de consumo de uma pequena minoria da po-

94
95
pulação, tal como a executada no Brasil, tende a agra- vinha sendo produzido. Há um outro modo de enfocar
var as desigualdades sociais e a elevar o custo social de este problema: quanto mais diversificada a cesta de
um sistema econômico. bens de consumo, maior terá de ser a renda das pessoas
Partimos da hipótese de que o subdesenvolvimento que consomem esses bens e maior a soma de capital
é uma aspecto do modo pelo qual o capitalismo indus- exigida para satisfazer as necessidades dessa pessoa. O
trial vem crescendo e se difundindo desde o seu surgi- cidadão americano médio recebia em 1970, uma renda
mento. Assim sendo, é totalmente enganoso construir de aproximadamente 4 mil dólares por ano, e a esse
um modelo de uma economia subdesenvolvida como nível de renda correspondia determinada cesta de bens
um sistema fechado. Isolar uma economia subdesenvol- de consumo. Esse conjunto de bens tornou-se possível
vida do contexto geral do sistema capitalista em expan- graças a um processo de acumulação de capital que ho-
são é por de lado, desde o início, o problema fundamen- je se elevava a cerca de 12 mil dólares por habitante do
tal da natureza das relações externas de tal economia. país. O cidadão brasileiro recebia em média uma ren-
Vamos definir o progresso técnico como a introdu- da de aproximadamente 400 dólares por ano e o capital
ção de novos processos produtivos capazes de aumentar acumulado no Brasil atingia a soma de cerca de mil
a eficiência na utilização de recursos escassos e/ou a dólares por habitante. Desse modo, o conjunto de bens
introdução de novos produtos capazes de serem incorpo- de consumo ao qual o brasileiro médio tem acesso ti·
rados à cesta de bens e serviços de consumo. E vamos nha que ser muito menos diversificado do que o que
supor que desenvolvimento econômico implica na difu- prevalecia nos Estados Unidos.
são do uso de produtos já conhecidos e/ou na introdu- O aumento da renda de uma comunidade pode re-
ção de novos produtos à cesta dos bens de consumo. sultar de pelo menos três processos diferentes: a) o de-
Pelo fato de o acesso a novos produtos ser, com ra- senvolvimento econômico: isto é, acumulação do capital
ras exceções, limitado, pelo menos durante uma fase ini- e adoção de processos produtivos mais eficientes; b) a
cial, a uma minoria formada por pessoas de altas ren- exploração de recursos naturais não renováveis; e c) a
das, o desenvolvimento baseado principalmente na in- realocação de recursos visando a uma especialização
trodução de novos produtos corresponde a um processo num sistema de divisão internacional do trabalho. O au-
de concentração de renda. E pelo fato de a difusão sig- mento da renda implica em diversificação do consumo,
nificar acesso de um maior número de pessoas ao uso introdução de novos produtos, etc. Assim, esse aumento
de produtos conhecidos, o desenvolvimento baseado pode ocorrer numa comunidade sem desenvolvimento
principalmente na difusão corresponde a um padrão econômico, isto é, sem acumulação de capital e intro-
de distribuição mais igualitária da renda. dução de processos produtivos mais eficientes. Ele pode
Além disso, uma condição necessária em qualquer representar simplesmente um incremento devido aos
processo de desenvolvimento econômico é a acumulação itens b) e/ou c), acima mencionados. Chamemos moder-
de capital, tão importante para a diftlsão de produtos nização a este processo de adoção de novos padrões de
conhecidos quanto para a introdução de outros novos. consumo, correspondente a níveis mais elevados de ren-
Mas há razões para se acreditar que a introdução de da, na ausência de desenvolvimento econômico.
novos produtos, no conjunto de bens de consumo, re- Os países hoje conhecidos como subdesenvolvidos
quer uma acumulação relativamente maior de capital são aqueles onde ocorreu uma processo de modernização:
do que a difusão de produtos conhecidos. Por exemplo: novos padrões de consumo (introdução de novos produ-
a introdução de um novo modelo de automóvel de uma tos) foram adotados como resultado de uma elevação da
certa categoria requer mais investimentos (inclusive renda gerada pelo tipo de mudanças mencionadas nos
pesquisa e desenvolvimento) por unidade do que o au- itens b) e c) acima. No Brasil, durante um longo pe-
mento da produção do modelo correspondente que já ríodo, os aumentos da renda (produtividade econômica)
96 97
foram basicamente o resultado de uma simples realoca- de consumo, a primeira em expansão lenta e sem a in-
ção de recursos visando à maximização de vantagens trodução de novos bens, e a segunda çrescendo rapida-
comparativas estáticas no comércio exterior. A passagem mente principalmente através da inclusão de novos pro-
da agricultura de subsistência para a agricultura co- dutos, os dois setores industriais somente em grau mui-
mercial não pressupõe necessariamente uma mudança to pequeno competem pelos mesmos mercados e podem
da agricultura tradicional para a moderna. Quando ge- manter padrões diferentes de organização e mercadolo-
rada pelo comércio exterior, porém, tal passagem acar- gia (marketing). Mas, uma vez que o setor que produ2
reta um crescimento significativo da produtividade eco- para a minoria rica se adianta em relação ao outro, as
nômica, e pode iniciar um processo de modernização. A necessidades em capital e tecnologia moderna tendem
importância deste processo dependerá da matriz institu- a crescer rapidamente. Em conseqüência, a criação de
cional pré-existente. No Brasil, devido à concentração novos empregos por unidade de investimento declina.
da propriedade territorial e à abundância da força de Ademais, as indústrias, cujo mercado é a massa da po-
trabalho na agricultura de subsistência, os aumentos da pulação, estão destinadas a sofrer transformações im-
produtividade beneficiaram principalmente uma peque- portantes em decorrência do processo de industrializa-
na minoria. Entretanto, em razão do tamanho da popu- ção baseado no segundo tipo de bens de consumo (os
lação, essa minoria modernizada foi suficientemente destinado à minoria privilegiada). Economias de escala
grande para permitir um amplo desenvolvimento urba- e externas podem também beneficiar a massa da popu-
no e um começo de industrialização. lação, e produtos como plásticos e fibras podem ser in-
Nos países onde a modernização ocorreu sem o de- corporados ao consumo popular. Em conseqüência da in-
senvolvimento econômico, o processo de industrializa-· tegração progressiva do sistema industrial, tende a au-
ção apresenta características muito particulares. Assim, mentar a adoção de processos de utilização intensiva do
o mercado para produtos manufaturados é formado por capital nas indústrias que inicialmente se desevolveram
dois grupos completamente diferentes: o primeiro, con- em competição com atividades artesanais locais. O pro-
sumidores de renda muito baixa (a maioria da popula- gresso técnico deixa de ser uma questão de compra de
ção), e o segundo, uma minoria de renda elevada. A um certo tipo de equipamento, e passa a depender do
cesta de bens de consumo correspondente ao primeiro acesso às inovações que surgem em grande quantidade
grupo é bem pouco diversificada e tende a permane- nos países ricos. Nesta fase, as filiais de corporações
cer sem modificações, já que a taxa de salário real é multinacionais facilmente superam as firmas locais,
bastante estável. As indústrias que produzem estes bens particularmente nas indústrias voltadas para o mercado
têm fracos efeitos de encadeamento (linkages): elas diversificado. Mais precisamente, esta cesta, diversifi-
usam matérias-primas da agricultura (indústrias têx- cada de bens de consumo nunca seria produzida local-
teis e alimentícias) e produzem diretamente para o con- mente se o fluxo de inovações técnicas tivesse que ser
sumidor final. Além disto estas indústrias se beneficiam pago a preços de mercado. Apesar do fato de, para uma
pouco das economias de escala e externas. A cesta de grande empresa de atuação internacional, operando
bens de consumo corresponde ao segundo grupo, sendo num pais subdesenvolvido, o custo de oportunidade de
totalmente diversificada, requer um processo de indus- tal afluxo de inovações ser praticamente zero, tal empre-
trialização complexo para ser produzida no país. O prin- sa nunca abriria mão delas em favor das firmas locais
cipal obstáculo a isso origina-se da dimensão do merca- independentes, a não ser por um preço muito elevado.
do local. Entretanto, este é o setor do mercado que está A industrialização das economias onde se inicia um
realmente em expansão, e a verdadeira industrializa- processo de modernização tende a enfrentar uma dupla
ção somente será possível se orientada para ele. Dados dificuldade: se as indústrias locais continuam produ-
os diferentes comportamentos das duas cestas de bens zindo a primeira cesta de bens (indústrias com efeitos
98 99
fracos de encadeamento) e a segunda tem que ser im- "normais" de produção agrícola, dos termos do inter-
portada, o país nunca alcançará o ponto necessário para câmbio externo e dos gastos públicos, poder-se-ia espe-
formar um sistema industrial; e se as indústrias locais rar uma taxa de crescimento de cerca de 6 % ao ano.
voltam-se para a produção da segunda cesta de bens, A abundância de recursos naturais, o tamanho da po-
podem ocorrer rendimentos decrescentes, em razão do pulação e o nível médio de renda obtido no passado
tamanho reduzido do mercado local. Alguns países com através da maximização das vantagens comparativas
grandes dimensões demográficas e um setor exportador estáticas no comércio exterior convergem para produzir
altamente rentável conseguiram superar estes obstá- esse potencial de crescimento. Além disso, as flutuações
culos: este foi o caso do Brasil. Isto não significa que na taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB)
o capitalismo industrial pode operar no Brasil segundo tiveram efeitos pouco significativos no processo de for-
as regras que prevalecem numa economia desenvolvida. mação de capital. As taxas de poupança e investimento
Nesta, a expansão da produção significa aumento pa- têm sido bastante estáveis. As mudanças na taxa de
ralelo do custo da força de trabalho, isto é, do valor crescimento do PIB refletem basicamente modificações
acrescentado pelo trabalho o processo de produção. E no grau de utilização da capacidade produtiva já ins-
porquanto a procura é gerada principalmente por pa- talada. Na linguagem elementar de modelos de cresci-
gamentos ao trabalho, a expansão da procura tende a mento, diríamos que as mudanças nessa taxa são prin-
seguir o crescimento da produção. Nas economias sub- cipalmente causadas por modificações no parâmetro que
desenvolvidas, o valor acrescentado pelo trabalho tende representa a relação entre a produção e o estoque de
a declinar em termos relativos, durante as fases de ex- capital reprodutível, e que o outro parâmetro, que re-
pansão. Os aumentos da produtividade criados por eco- presenta a relação entre investimento e renda, tende a
nomias internas ou externas tendem a beneficiar ex- ser estável.
clusivamente os proprietários de capital e, dada a estru- De fato, o primeiro parâmetro (relação produto-
tura dos mercados, nada os pressionará a transferir os -capital) dobrou entre 1964/67 e 1968/69, enquanto o
frutos do aumento da produtividade aos consumidores, segundo (taxa de investimento) cresceu apenas ligeira-
a minoria, modernizada. Por outro lado aumentar a mente. Assim, o processo de acumulação tem sido muito
taxa salarial levaria a um crescimento dos custos sem mais reguiar que o desempenho da economia em geral.
alargar o mercado, uma vez que os trabalhadores estão Quando esse desempenho é fraco, a margem de capaci- ·
vinculados a uma cesta de bens diferente. O fato é que dade produtiva ociosa aumenta, mas apesar disso a ca-
o sistema opera espontaneamente, beneficiando uma pacidade global de produção cresce normalmente. Po-
minoria pequena demais, os proprietários de capital. de-se inferir dai que a taxa de lucro tende a ser bas-
Como deveria o processo de concentração de renda, ine- tante elevada mesmo quando a economia subutiliza sua
rente ao sistema, ser dirigido a fim de criar um elo entre capacidade produtiva; por outro lado, há razões para
o incremento da produtividade nas indústrias produ- acreditar que a economia tem sido incapaz de gerar o
toras dos bens do segundo grupo (diversificano) e os tipo de procura requerido para obter a utilização ade-
consumidores que têm acesso a esses bens? Na terceira quada da· capacidade produtiva.
parte deste ensaio examinaremos o tipo particular de Não me referi ao nível da demanda efetiva, mas ao
solução adotado pelo Brasil. tipo de demanda. Na realidade, estamos muito longe da
O Desempenho da Economia Brasileira hipótese keynesiana de insuficiência da demanda efe-
tiva. Durante o período considerado, a economia brasi-
Nos últimos 25 anos a economia brasileira vem leira operou sob forte pressão do excesso de demanda
crescendo a uma taxa relativamente alta. Dados níveis monetária, com uma alta taxa de inflação, tanto em
100 101
períodos de rápido crescimento como nos de relativa do mercado para bens de consumo durável, a produção
estagnação. local destes foi acompanhada de tendência ao aumento
Minha hipótese básica é que o sistema não tem de seus preços relativos, com efeitos negativos sobre a
sido capaz de produzir espontaneamente o perfil de de- procura. Este efeito negativo foi combatido até meados
manda capaz de assegurar uma taxa estável de cresci- dos anos 50 por ações do governo visando a reduzir os
mento, e que o crescimento a longo prazo depende de preços dos equipamentos importados, por meio de taxas
ações exógenas do governo. Deve-se levar em conta tam- diferenciais de câmbio, e objetivando também subsidiar
bém o fato de que durante o período em discussão as investimentos industriais (particularmente em indús-
indústrias que produzem para a minoria moderniza- trias que produziam sucedâneos de bens importados),
da tornaram-se cada vez mais controladas por empre- principalmente através de empréstimos com taxas de
sas controladas do centro do sistema capitalista. juros negativos. Parte dos recursos utilizados para exe-
Um rápido crescimento industrial, nas condições cutar esta política originava-se de uma melhoria nos
particulares hoje vigentes no Brasil, implica numa in- termos do intercâmbio que ocorreu nesse período. A re-
tensa absorção de progresso técnico sob a forma de dução pela metade do custo real do capital fixo ajudou
novos produtos e de novos processos requeridos para as indústrias produtoras de bens de consumo durável a
produzi-los. Para o custo de oportunidade de tal pro- conseguir lucros, mesmo tendo de operar com uma lar-
gresso técnico está num nível mínimo quando podem ga margem de capacidade ociosa. Na segunda metade
reproduzir o que elas criam e amortizam nos países dos anos 50, quando os termos do intercâmbio se dete-
responsáveis pelo financiamento de pesquisa e desen- rioraram, o governo se lançou numa política de endi-
volvimento, e está num nível máximo quando elas têm vidamento externo aue tornou possível o prosseguimen-
que introduzir nova pesquisa e desenvolvimento. Conse- to dos subsídios. Ao mesmo tempo, o governo engajou-se
qüentemente, a expansão industrial se desenvolve atra- numa política de grandes obras públicas: a construção
vés de uma entrosamento das indústrias locais com os de Brasília e de uma rede nacional de rodovias, inclusi-
sistemas industriais dominantes, dos quais emerge o
fluxo de nova tecnologia. Por um lado, as referidas gran- ve estradas pioneiras, como a Belém-Brasília. Mais re-
des empresas apegam aos seus projetos já comparadas centemente, como veremos, tomaram-se medidas com
nas matrizes, como o melhor caminho para maximizar efeitos diretos sobre a distribuição da renda, a fim de
crescimento e lucros; por outro lado, minorias moderni- produzir a qualidade ou perfil de demanda que me-
zadas procuram manter-se atualizadas em relação à lhor se ajusta aos planos de expansão das grandes em-
última palavra em padrões de consumo, ao dernier cri presas de atuação internacional e às expectativas da
lançado na metrópole. Contudo, se bem que esses dois minoria modernizada.
grupos têm interesses convergentes, o sistema não es-
tá estruturalmente capacitado para gerar o tipo de A Nova Estratégia
demanda requerido para assegurar sua expansão.
As ondas sucessivas de expansão industrial no Bra- A alta taxa de crescimento da produção industrial
sil durante o período de pós-guerra não podem ser ex- brasileira, alcançada a partir de 1968, depois de um
plicadas se não se tem em mente o papel autônomo período de sete anos de relativa estagnação (1961-67),
desempenhado pelo governo, tanto subsidiando inves- foi obtida através de uma política governamental muito
timento como ampliando a demanda. O quadro geral foi bem sucedida que visa a atrair as grandes empresas
o processo de substituição de importações. Criando novos transnacionais e fomentar a expansão das subsidiárias
empregos, este processo ampliou o mercado para bens de destas já instaladas no país. Por vários meios o g~ver­
consumo popular, mas, dadas as pequenas proporções no tem orientado o processo de distribuição de renda
102 103
para produzir o perfil de demanda mais atraente para f1 Considerando o sistema industrial como um todo,
as referidas empresas. Conseqüentemente, a cesta de percebemos que as grandes empresas controlam as ati-
bens de consumo que tenta reproduzir os padrões de vidades que se baseiam principalmente no progresso
consumo dos países cêntricos expandiu-se rapidamente técnico (as atividades nas quais o fluxo de novos pro-
tanto em termos absolutos como relativos.
O Estado também vem desempenhando importan-
~
,1
dutos é mais intenso), a saber, a produção de bens de
consumo duráveis e equipamentos em geral. O Estado
)i
tes papéis complementares, investindo na infraestrutu- tem uma importante participação nas indústrias pro-
ra fisíca, em capital humano (numa tentativa de am- dutoras de bens intermediários, e os capitalistas locais
pliar a oferta de quadros e pessoal profissional) e nas controlam uma boa parte das indústrias produtoras de
indústrias com uma baixa rotação de capital. As indús- bens de consumo não-duráveis. Outrossim, as firmas lo-
trias produtoras de bens homogêneos, tais como aço, cais operam, sob contratos, como linha auxiliar de pro-
metais não-ferrosos e outros insumos de utilização ge- dução para as grandes empresas de atuação internacio-
neralizada pelo sistema industrial, não se baseiam na nal e para as empresas estatais, acrescentando flexibili·
inovação de produtos para competir ou criar poder de dade ao sistema. Certo, as referidas grandes empresas es-
mercado. Elas se baseiam na inovação dos processos pro- tão passando por um porcesso de integração vertical, em
dutivos e, sendo baixo o nível de rotação da capital fixo, certos setores, absorvendo firmas nacionais, e também
o fluxo de inovação tende a ser muito mais lento. Além estão se expandindo em importantes setores de bens
disso uma política de preços baixos, executada por essas de consumo não-duráveis. A indústria de gêneros ali-
indústrias, através de subsídios dissimulados, pode ser mentícios sob o controle dessas grandes empresas está
defendida como essecial para fomentar o processo de produzindo para os grupos de renda superior, introdu-
industrialização. Desse modo, o controle total ou par- zindo a miríade de produtos que lotam os supermerca-
cial do Estado sobre esse bloco de indústrias pode ser dos dos países ricos. Todavia, as linhas básicas do sis-
o melhor caminho para que as grandes empresas con- tema são aquelas apresentadas acima, e podemos dizer
troladas do centro obtenham uma rápida rotação de que os três sub-setores desempenham papéis até certo
seus investimentos, podendo assim maximizar lucros e ponto complementares. Entretanto, é importante enfa-
expansão. tizar que o dinamismo do sistema repousa sobre a in-
As firmas controladas por capitalistas locais tam- tensidade de transmissão do progresso técnico, na for-
bem têm um papel nesse sistema. As indústrias que ma em que este é visualizado pelas grandes empresas
produzem para a massa da população enfrentam o pro- controladas do centro. Em outras palavras, quando o
blema do crescimento lento da procura, porque a taxa custo de oportunidade do progresso técnico é pratica-
de salário real do trabalhador não qualificado está em mente zero para as subsidiárias dessas empresas a taxa
declínio ou estagnada. Entretanto, os mercados para de crescimento do sistema industrial tende ao máximo.
estas indústrias se ampliam horizontalmente, graças Dadas as características da economia brasileira,
ao crescimento demográfico e à transferência de pessoas formada por um mercado altamente diversificado mas
anteriormente ocupadas em atividades ligadas à subsis- de proporções reduzidas, e outro mercado relativamen-
tência para o setor que paga o salário-mínimo, garan- te grande mas com baixo grau de diversificação, as in-
tido pela legislação social. Como esta cesta de bens de dústrias de bens de consumo durável se beneficiam
consumo não inclui a introdução de novos produtos, o muito mais das economias de escala do que as indús-
controle de progresso técnico não é importante como trias de bens de consumo ànteriormente existentes. Con-
fonte de poder de mercado. Em conseqüência, neste se- seqüentemente, quanto mais concentrada é a distribui-
tor as grandes empresas não têm as mesmas vantagens ção da renda, maior é o efeito positivo para a taxa de
ao competir com os capitalistas locais. crescimento do PIB. Desse modo, a mesma quantidade
104 105
de dinheiro, quando consumida por pessoas ricas, con- de recursos estrangeiros. Assim, a politica que vlsa pro-
tribui mais para uma aceleração da taxa de crescimen- duzir aquele perfíl de demanda tenderá também a ma·
to do PIB, do que quando. consumida por pessoas po- ximizar a expansão do PIB.
bres. Suponhamos que os bens de consumo cuja deman- Dentro deste quadro geral, o governo brasileiro tem
da está em rápida expansão sejam os automóveis; é procurado atingir quatro objetivos básicos: a) fomen-
bem provável que a construção da infraestrutura não tar a dirigir o processo de concentração de renda (pro-
acompanhe o crescimento da frota de automóveis e a cesso este inerente às economias capitalistas subdesen-
eficiência no uso dos veículos tenda a declinar. Isto sig- volvidas em geral) para beneficiar os consumidores de
nifica mais consumo de combustível e maior número de bens duráveis, isto é, a minoria da população com pa-
reparos por quilômetro, como uma conseqüência dos drões de consumo semelhantes aos dos países cêntricos;
engarrafamentos de tráfego, etc. Tudo isso também b) assegurar um certo nível de transferência de pes-
contribuirá para um aumento da taxa de expansão do soas do setor de subsistência para os setores beneficia-
PIB. Podemos levar este reciocínio mais longe. A con- dos pelo salário-mínimo legalmente garantido; c) con-
centração de renda cria a possibilidade de maior dis- trolar o diferencial entre o salário-mínimo garantido
criminação de preços. De fato, alguns detalhes acres- por lei e o nível de renda no setor de subsistência;
centados a certos carros (novos modelos) permitem a durante seis anos consecutivos, o governo logrou redu-
ocorrência do sobrepreço e a quase-renda assim criada zir o nível do salário-mínimo real e compatibilizar a
para o produtor também contribuirá para o incremen· transferência de pessoas do setor de subsistência com
to do PIB. Em resumo: o desperdício de recursos, me- um processo intenso de concentração de renda; e d)
diante o consumo supérfluo de uma minoria rica, con- subsidiar a exportação de bens manufaturados a fim
tribui para a inflação da taxa de crescimento do PIB - de reduzir a pressão sobre os setores produtores de bens
e também pode "inflar" o prestígio dos governantes. de consumo não-duráveis, cuja procura cresce lenta-
Outro fator que precisa ser levado em consideração mente, em razão da concentração de renda, e também
é a taxa de afluxo de capital estrangeiro. Se o perfíl para melhorar a posição da balança de pagamentos. _
da demanda se ajusta às necessidades das grandes em- Os objetivos mencionados nos itens b) e c) sao
presas, as possibilidades de mobilizar recursos financei- variáveis sociais instrumentais requeridas para mane·
ros no exterior serão obviamente maiores. Na realidade, jar as tensões sociais, originadas do processo de concen-
as coisas não são tão simples, porque as perspectivas tração de renda, particularmente quando o salário real
da balança de pagamentos dependem de outros fatores médio esteve declinando. A criação de novos empregos
ligados à capacidade de exportação prevista. Entretan-
to, não se alterando os demais fatores, se a taxa prevista é um meio de reduzir a carga da população já ocupada;
de lucro das grandes empresas é mais alta, a entrada sendo grande o número de dependentes por familia o nú-
de capital estrangeiro será maior, somando-se às pou- mero de pessoas remuneradas em cada familia pode au-
panças locais e dando flexibilidade à economia, ao me- mentar, o que torna a redução da taxa salarial mais
nos a curto prazo. fácil de ser aceita. Ademais, esta politica permite redu-
Resumindo: determinado perfíl de demanda, que zir o custo do trabalho para as grandes empresas, sem
corresponde a uma crescente concentração na distri- diminuir seus mercados respectivos.
buição da renda e a um crescente distanciamento entre A parte mais complexa desta politica se refere ao
os níveis de consumo da maioria rica e da massa da processo de estímulo e orientação da concentração de
população, gera uma composição de investimentos que renda. Para obter o resultado desejado, o governo bra-
tende a maximizar a transferência de progresso técnico sileiro tem usado vários instrumentos, especialmente
através das grandes empresas, e a fazer crescer o afluxo as políticas creditícia, fiscal e de renda.
106 107
O primeiro surto de procura de bens de consumo engendrando um novo tipo de capitalismo, extremamen-
duráv~is originou-se de uma rápida expansão do cré- te dependente da apropriação e utilização dos lucros
dito aos consumidores, beneficiando a classe média para gerar certo tipo de gastos de consumo. Isto so-
alta. A inflação resultante reduziu a renda real da mas- mente pode ser obtido através de uma ação decisiva
sa ~a po:pulação, li~e~ando recursos para uma política por parte do Estado para forçar as empresas a abrirem
de mvestun:entos publlcos e, ao mesmo tempo, ajudan- seu capital (o que é particularmente difícil no caso das
do a reduzir os custos de, produção das empresas pri- empresas controladas no centro) e a adotarem uma po-
vadas. O aumento da taxa de lucro das empresas produ- lítica adequada de distribuição de dividendos. Outra al-
to:as de be~s de consumo duráveis foi muito rápido, ternativa seria a acumulação de uma divida pública
criando um impulso para a expansão dos investimentos crescente nas mãos da alta classe média, cujo fluxo
privados. Se considerarmos o fato de que as empresas pro- de juros teria que ser alimentado com recursos prove-
dutoras de bens de consumo duráveis vinham operando nientes de um imposto sobre os lucros daquelas empre-
com uma larga margem de capacidade produtiva ocio- sas. Nunca uma economia capitalista foi tão dependen-
sa, e de que essas empresas obtêm substanciais econo- te do Estado para articular a demanda com a oferta.
mias de escala durante a expansão, podemos facilmente A característica mais significativa do modelo bra-
entender o surto de crescimento ocorrido. sileiro é a sua tendência estrutural para excluir a mas-
O nível de lucro extremamente elevado e o boom sa da população dos benefícios da acumulação e do pro-
dos investimentos, particularmente no setor industrial, gresso técnico. Assim, a durabilidade do sistema baseia-
que produz para a minoria privilegiada, abriram as por- se grandemente na capacidade dos grupos dirigentes
tas para uma política de distribuição de renda favore- em suprimir todas as formas de oposição que seu cará-
cendo grupos superiores da escala salarial, uma vez que ter anti-social tende a estimular.
a oferta de quadros profissionais era relativamente ine-
lástica. Esta situação, coincidindo com um declínio do
salário-mínimo, engendrou uma extrema concentração
da renda não derivada da propriedade. Uma tendência
similar pode ser observada dentro do setor público.
No entanto, foi através da política fiscal que o
governo perseguiu o objetivo mais ambicioso de tor-
nar permanentes as novas estruturas. Variados e ge-
nerosos "incentivos fiscais" foram concedidos visando à
criação de um grupo considerável de pessoas benefi-
ciárias de rendas mobiliárias dentro da classe média. 1
Na realidade, cada contribuinte do imposto de renda
(aproximadamente 5% das famílias) foi induzido a for-
mar uma carteira de investimentos, como alternativa
para a pagamento de parte do imposto devido. Os po-
bres, com uma pesada carga de impostos indiretos,
estão excluídos desses privilégios. O objetivo aparente
do governo ao adotar essas medidas é ligar o poder aqui-
sitivo da alta classe média ao fluxo mais dinâmico de
renda: o fluxo de lucros. Sob este ponto de vista par-
ticular mas importante pode-se dizer que o Brasil está
108 109
CAPÍTULO IV

OBJETIVIDADE E ILUSIONISMO EM ECONOMIA

A ciência econom1ca exerce indisfarcável seducão


nos espíritos graças à aparente exatidão· dos métodos
que utiliza. O economista, via de regra, trata de fenô-
menos que têm uma expressão quantitativa e que, pelo
menos em aparência, podem ser isolados de seu contex-
to, isto é, podem ser analisados. Ora, a análise, ao iden-
tificar relações estáveis entre fenômenos, abre o cami-
nho à verificação e à previsão que são as características
fundamentais do conhecimento científico em sua mais
prestigiosa linhagem. Particularmente no mundo anglo-
-saxônico, entende-se como sendo ciência (science) o
uso êio método científico, e este último é concebido no
sentido estrito da aplicação da análise matemática e,
mais recentemente, da mecânica estatística. Compren-
de-se, portanto, que homens de valor, como Hicks e
Sanuelson se hajam tanto empenhado em traduzir tu-.
do que sabemos da realidade econômica em linguagem
de análise matemática. Não tanto por pedantismo, como
a alguns pode parecer, mas porque estão convencidos se-
guindo Stuart Mil!, da unidade metodológica de todas
as ciências; portanto o progresso da economia se faz
no sentido de uma aplicação crescente do método cien-
tífico, e este tem o seu paradigma na ciência física.
Ocorre, entretanto, que o objeto de estudo da eco-
nomia não é uma natureza que permanece idêntica a
si mesma e é totalmente exterior ao homem, como o
111
1

l
são os objetos estudados nas c1encias naturais. Para conjunto dotado de sentido, que é o projeto do agente,
que o preço do feijão fosse algo rigorosamente objetivo considerá-la fora do tempo e em seguida adicioná-la a
deveria ser, como se ensina nos livros de texto, a resul- decisões pertencentes a outros projetos, corno se se tra-
tante da interação de duas forças, a procura e a ofer- tasse de elementos homogêneos, é algo fundamental-
ta, dotadas de existência objetiva. Seria o caso, por mente distinto do que em ciência natural se considera
exemplo, se a oferta de feijão dependesse apenas da como legítima aplicação do método analítico.
precipitação pluviométrica e a sua procura das necessi- Quando se percebe essa diferença epistemológica,
dades fisiológicas de um grupo definido de pessoas. compreende-se sem dificuldade que em economia o co-
Mas, a verdade é que a oferta de feijão está condicio- nhecimento científico, isto é, a possibilidade de verifi-
nada por uma série de fatores sociais com uma dimen- car o que se sabe e de utilizar o conhecimento para pre-
são histórica, os quais vão desde a manipulação do cré- ver (e, portanto, para agir com maior eficácia), não
dito para financiar estoques até o uso de pressões para pode ser alcançado dentro do quadro metodológico em
importar ou exportar o produto, sem falar no controle que vem atuando a chamada "economia positiva".
Essa conclusão se impõe de forma ainda mais clara
dos meios de transporte, no grau de monopólio dos mer- com respeito à análise macroeconômica, a qual pretende
cados, etc. Da mesma maneira, a demanda resultou de explicar o comportamento de um sistema econômico na-
uma interação de um série de forças sociais, que vão da cional. Neste caso, as definições dos conceitos e catego-
distribuição da renda até a possibilidade que tenham as rias básicas da análise estão diretamente influenciadas
pessoas de subreviver produzindo para a própria subsis- ._ pela visão inicial que tem o economista do projeto im-
tência. Quando aplica o método analítico a esse fenô- plici to na vida social. Esta se apresenta como um pro-
meno (o preço do feijão), o economista diz: constantes 1

cesso, ou seja, como um conjunto de fenômenos em in-


todos os demais fatores, se aumenta a oferta do feijão, o teração que adquirem sentido (são inteligíveis global-
preço deste tende a diminuir. Ora, o aumento da ofer- mente) quando observados diariamente. Essa percepção
ta também modifica outros fatores, como o grau de en- global do processo social é principalmente obtida me-
dividamente para estocagem, a pressão para exportar, diante observação dos agentes que controlam os princi-
etc. A idéia de que tudo o mais permanece constante, pais centros de decisão, ou seja, que exercem poder. A
que é essencial para o uso do aparelho analítico mate- existência de um Estado facilita a identificação das es-
mático (graças a esse recurso metodológico, múltiplas truturas centrais de poder. Da mesma forma a concen-
relações entre pares de variáveis podem ser tratadas si- tração do poder econômico (grandes empresas) e da
multaneamente na forma de um sistema de equações manipulação da informação (grandes cadeias de jornais
diferenciais parciais) , essa idéia leva a modificar em e estações de rádio) facilitam a identificação de estru-
sua própria natureza o fenômeno econômico. Se a ofer- turas colaterais de poder. E em torno das decisões ema-
ta começa a aumentar, os compradores podem anteci- nadas dos centros principais de poder que se ordena o
par aumentos maiores, baixando os preços muito mais amplo processo da vida social. Nem o mais ingênuo
do que seria de prever inicialmente. Assim, a própria jovem economista doutrinado em Chicago acredita hoje
estrutura do sistema pode modificar-se, como decorrên- em dia no mito da "soberania" do consumidor como
cia da ação de um fator. É que toda decisão econômica princípio ordenador da vida econômica. Demais admi-
é parte de um conjunto de decisões com importantes tida a hipótese da "soberania" do consumidor, em que
projeções no tempo. Essas decisões encontram sua coe- base introduz o postulado da homegeneidade, isto é,
rência última num projeto que introduz um sentido como somar as preferências de um milionário com as
unificador na ação do agente. Isolar uma decisão do de um pobre que passa fome?
112 113
As hipóteses globais, que emprestam um sentido a vi- to custo social. Suponhamos que o objetivo seja pro-
da social, são o ponto de partida de todo economista que duzir mais bem estar social e que na definição de bem
define categoria de análise macroeconômica. E essas hi- estar se concorde em dar a mais alta prioridade à me-
póteses globais são formuladas a partir da observação do lhoria da dieta infantil, a fim de obter melhores con-
comportamento dos agentes que controlam os centros dições eugênicas para o conjunto da população. Esse
pin-cipais do poder: se aqueles que o exercem derivam objetivo pode ser muito mais rapidamente alcançado
sua autoridade do consenso das maiorias ou da simples reduzindo o consumo superfluo das minorias privile-
repressão; se o consenso das maiorias resulta da mani- giadas (modificando a distribuição do bem estar) do
pulação da informação ou da interação de forças sociais que aumentando o investimento. Para o economista,
que se controlam mutuamente. No caso, apenas inte- existe algo comum a todo ato de investimento: a sub-
ressa assinalar que, os que mandam falam em nome da tração de recursos ao ·consumo, ou a transferência do
coletividade. Quaisquer que sejam as motivações do ato de consumo de hoje para o futuro. "Sobre este pon-
que legisla sobre impostos, do que decide onde localizar to estamos todos de acordo", diria o professor de eco-
uma estrada e do que arbitra entre a construção de um nomia. Ora, essa afirmação se baseia numa falácia
hospital e a de um quartel, as decisões tomadas sobre gritante: a idéia de que o consumo é uma massa ho-
esses assuntos condicionam a vida coletiva. É certo que mogênea. Quando me privo de uma segunda garrafa
o estudioso da vida social poderá considerar muitas des- de vinho, subtraio cincoenta cruzeiros ao consumo, os
sas decisões equivocadas, isto é, incapazes de produzir quais podem ser utilizados para investimento; quando
os resultados esperados pelos agentes que as tomaram; um trabalhador manual é obrigado a reduzir a sua ra-
ou inadequadas, vale dizer, em desacordo com os autên- ção de pão pode estar comprimindo o nível de calorias
ticos interesses sociais. Em um e outro caso, o estudio- que absorve abaixo do que necessita para cobrir o des-
so estará comparando meios com fins, o que põe a claro gaste do dia de trabalho, o que a longo prazo pode re-
o fato de que ele é consciente da existência de um con- duzir o número total de dias que trabalhará em sua
junto coerente de valores, sem o que não lhe seria pos- vida. O economista mede o valor do pão economizado,
sível entender (emprestar sentido) à vida social. Que digamos 2,5 cruzeiros, e dirá: a poupança extraída de
o estudioso· prefira os seus próprios valores aos dos agen- 20 trabalhadores, equivale à segunda garrafa de vinho
tes que controlam o poder, não altera o fundo da ques- de que se privou o sr. Furtado. Se o consumo não é uma
tão: é abservando o comportamento dos agentes que massa homogênea, tampouco poderá sê-lo a poupança,
controlam os centros de decisão e dos que estão em con- que se define como "recursos subtraídos ao consumo pre-
dições de contrapor-se e modificar os resultados busca- sente". E se a poupança não é homogênea, como pode-
dos por aqueles que ele parte para captar o sentido do rá sê-lo a inversão? Como medir com a mesma régua
conjunto do processo social. a inversão financiada com a redução do pão dos traba-
Coloquemos esse problema num plano mais con- lhadores e a outra financiada com a minha privação de
creto. Os economistas falam correntemente de inversão uma garrafa de vinho?
ou investimentos como de algo que não comporta maio- Passamos à outra vaca sagrada dos economistas:
res ambiguidades. "Em toda política de desenvolvimen- o Produto Interno Bruto (PIB). Esse conceito ambíguo,
to, qualquer que seja o ·sistema, um alto nível de inv:s- amalgama considerável de definições mais · ou menos
timento sempre será essencial". É essa uma afirmaçao arbitrárias, transformou-se em algo tão real para o ho-
totalmente equivocada. Investimento é o processo pelo mem da rua como o foi o mistério da Santíssima Trin-
qual se aumenta a capacidade produtiva mediante cer- dade para os camponeses da Idade Média no Europa.
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Mais ambiguo ainda é o conceito de taxa de crescimen- trabalho pelos valores implícitos na escolha dos pro-
to do PIB. blemas é responsabilidade direta do cientista social, po-
Por que ignorar na medição do PIB, o custo para de-se afirmar que o avanço das ciências sociais tam-
a coletividade da destruição dos recursos naturais não bém dependem do papel que na sociedade se atribuem
renováveis, e o dos solos e florestas (dificilmente reno- e exercem os que estudam os problemas sociais. O pro-
váveis)? Por que ignorar a poluição das águas e a des- gresso dessas ciências não é independente do avanço do
truição total dos peixes nos rios em que as usinas des- homem em sua capacidade de autocrítica e auto-afir-
pejam os seus resíduos? Se o aumento da taxa de cres- mação. Não é de surpreender portanto que essas ciên-
cimento do PIB é acompanhado de baixa do salário real cias se degradem quando declina o exercício da auto-
e esse salário está no nível de subsistência fisiológica, crítica e a consciência de responsabilidade social.
é de admitir que estará havendo um desgaste humano.
As estatísticas de mortalidade infantil e expectativa de
vida podem ou não traduzir o fenômeno, pois sendo
médias nacionais e sociais anulam os sofrimentos de uns
com os privilégios de outros.
Em um país como o Brasil basta concentrar a
renda (aumentar o consumo supérfluo em termos rela-
tivos) para elevar a taxa de crescimento do PIB. Isto
porque, dado o baixo nível médio de renda, somente
uma minoria tem acesso aos bens duráveis de consumo
e são as indústrias de bens duráveis as que mais se
beneficiam de economias de escala. Assim, dada uma
certa taxa de investimento, se a procura de automóveis
cresce mais que a de tecidos (supondo-se que os gastos
iniciais nos dois tipos de bens sejam idênticos) a taxa
de crescimento será maior. Em síntese: quanto mais
se concentra a renda, mais privilégios se criam, maior
é o consumo supérfluo, maior será a taxa de crescimen-
to do PIB. Desta forma a contabilidade nacional pode
transformar-se num labirinto de espelhos, no qual um
hábil ilusionista pode obter os efeitos mais deslumbran-
tes.
·Não se trata, evidentemente, de negar todo valor
a esses conceitos, nem de abandoná-los se não podemos
substitui-los por outros melhores. Trata-se de conhe-
cer-lhes a exata significação. A objetividade em ciências
sociais vai sendo obtida na medida em que se explici-
tam os fins e se identificam nos meios (nos métodos e
instrumento de trabalho) o que nestes é decorrência
necessária dos referidos fins.
Como esse esforço no sentido de explicação de fins
e de identificação do condicionamento dos métodos de
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