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O Ensino da Língua Portuguesa

Comunicar-se bem, pela fala e pela escrita, é fundamental. Saber expressar-se corretamente, de forma clara e
objetiva, é meio caminho andado para o sucesso na vida profissional ou privada. Se o carisma e a lábia são
primos que têm em comum a boa comunicação, a linguagem e o pensamento são irmãos gêmeos, daí a
importância do aprendizado da língua e das suas linguagens. O trabalho em equipe, a apresentação de propostas,
o bom relacionamento entre os indivíduos, competências tão valorizadas nos dias de hoje, passam,
obrigatoriamente, pela capacidade de bem falar e escrever, da mesma forma que saber posicionar-se,
argumentar, criticar, analisar, sintetizar etc... são habilidades que também exigem essa capacidade. Além de tudo,
o conhecimento da língua é um direito do cidadão e um signo da cidadania, assim como o seu desconhecimento é
uma forma de exclusão social e perda de referenciais. Saber comunicar-se bem é saber transformar ideias e
sentimentos em palavras, na forma e no momento adequado, compreendendo e fazendo-se compreender, pois a
comunicação é uma via de duas mãos e exige intelecção e expressão. A intelecção tem duas percepções – o ouvir
e o ler – e a expressão tem duas manifestações – o falar e o escrever – por isso o aprendizado da língua deve
desenvolver essas quatro habilidades – sem perder de vista que este aprendizado é uma ferramenta
imprescindível para qualquer outra área do conhecimento. A língua e suas linguagens não são fins em si mesmas,
mas o meio pelo qual o indivíduo entende e se relaciona com o mundo. Claro que a palavra não é a única forma
de comunicação, todas as artes, os gestos, os sons e as imagens também o são, mas o verbo é criador. É bem
verdade que a televisão calou a família e a escassez do convívio, pelas exigências da vida moderna, nos encurtou
as conversas. Até no lazer dos jovens, as músicas são tocadas em tal volume que os impedem de dialogar, o que,
para alguns, chega a ser uma benção redentora. De qualquer forma, a escola precisa rever o seu compromisso
com a fala, com essa oralidade cidadã que permite a participação social e profissional do indivíduo, a expressão
das suas ideias e sentimentos, dos seus questionamentos e emoções, tornando-o parte ativa da comunidade. A
fala é a principal forma de expressão do ser humano e precisa ter uma ação contínua, intencional e planejada do
educador. O ensino da língua portuguesa e suas linguagens não deveria ser apenas tarefa do professor de
Português, mas de todos os professores, pois ela é fundamental em todas as áreas do conhecimento.

Prof. Adriano Prado

O Ato de Ler

O ato de ler é geralmente interpretado como a decodificação daquilo que está escrito. Dessa forma, saber ler
consiste em um conhecimento baseado principalmente na habilidade de memorizar determinados sinais gráficos
(as letras). Uma vez adquirido tal conhecimento, a leitura passa a ser um processo mecânico, prejudicado apenas
por limitações materiais (falta de luz ou mau estado do impresso, por exemplo) ou por questões linguísticas
(palavras de significado ignorado ou frases muito complexas). No início do texto você encontrou um conceito de
leitura muito mais amplo do que essa mera habilidade mecânica. Relacionando o conteúdo do texto com o título
“O ato de ler”, você percebeu (“leu”) que a intenção é a de apresentar a leitura justamente como um processo
amplo, que inclui o relacionamento do sujeito com a realidade e a forma como se pensa essa realidade e esse
relacionamento. Ler é, portanto, um processo contínuo que se confunde com o próprio fato de estar no mundo –
biológica e socialmente falando. A sociedade produz e mantém uma cultura. Essa cultura é um conjunto
complexo e dinâmico que abrange desde rituais mínimos de convivência até aprofundados conhecimentos
científicos e técnicos. Desse conjunto fazem parte valores que o sujeito aprende a associar às coisas e às ações.
Fazem parte também ideias sobre a realidade, que muitas vezes levam à vê-la de uma forma pouco “real”.
Aprender a ler o mundo (adquirir a “inteligência do mundo”, nas palavras de Paulo Freire) significa conhecer
esses valores e essas ideias. Significa, também, pensar, sobre eles, desenvolvendo uma posição crítica e própria.
Aprende-se a ler a realidade no dia-a-dia social. A convivência social ensina a perceber quais lugares devem-se
frequentar, quais comportamentos devem-se adotar ou evitarem situações determinadas. Adquirindo uma
cultura, aprende-se a ler o grupo social, interiorizando os pequenos rituais estabelecidos para as relações sociais.
Aprende-se também que somos permanentemente “lidos”, o que leva a utilizar nosso comportamento como uma
forma de linguagem, capaz de agradar, despertar simpatia, agredir, demonstrar indiferença. Esse aprendizado
social inclui também formas de pensar a realidade. Aprende-se a pensar, por exemplo, que é necessário adquirir
conhecimentos técnicos e científicos que permitam ingressar no mercado de trabalho de forma vantajosa.
Aprende-se a ver na infância e na adolescência períodos da vida destinados principalmente à preparação da vida
adulta. Aprendem-se muitos outros valores sociais, que criam hábitos de consumo e posições perante a vida. A
vida social, dessa forma, não se limita à nos ensinar a ler a realidade, mas chega ao ponto de orientar essa leitura
em um sentido mais ou menos permanente, levando à adoção de determinadas expectativas, cuja satisfação é
vista como forma de felicidade. O mundo social é permanentemente leitor e leitura dos seus indivíduos. Acultura
transfere aos sujeitos conhecimentos sobre a realidade de formas de pensar essa mesma realidade. Aprender a
ler o mundo é apropriar-se desses valores da cultura. É também, submetê-los a um processo permanente de
questionamento, do qual participa a capacidade de duvidar. Afinal, será essa a única maneira de organizar a vida?
Será esse o único mundo que somos capazes de fazer? Não será possível pensar a humanidade em outros
termos? Esse exercício da dúvida é sempre benéfico, pois oferece condições de superar as leituras mais
imediatas da realidade, atingindo releituras importantes para quem se preocupa com a saúde social e física do
ser humano.

(Texto de Ulisses Infante. Do texto ao texto. São Paulo. Ed. Scipione.)

“Ler é estimulante. Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, melancólicos,
assustadores, por vezes, complicados. Os livros partilham sentimentos, pensamentos, interesses.
Os livros colocam-nos em outros tempos, outros lugares, outras culturas. Os livros colocam-nos
em situações e dilemas jamais por nós imaginados. Ajudam-nos a sonhar, a pensar, a refletir,
muitas vezes até mudarmos para resto de nossas vidas”.

As Leituras

A primeira leitura que se faz de qualquer texto é sensorial. O leitor, ao tomarem suas mãos uma publicação, trata-
a como um objeto em si, observando-a, apalpando-a, avaliando seu aspecto físico e a sensação tátil que desperta.
Essa atitude é um elemento importante do relacionamento com a realidade escrita. Observe o cuidado gráfico
com que são apresentadas as revistas nas bancas: cores, formas e até mesmo embalagens procuram atrair o
interesse do comprador. Com os livros acontece a mesma coisa: basta entrar numa livraria e perceber que todos
aqueles volumes expostos e dispostos constituem uma mensagem apelativa aos sentidos do leitor. Além disso, há
quem sinta muito prazer em possuir livros, acariciando-os e exibindo-os como objetos artísticos: são os
bibliófilos. A leitura sensorial do texto escrito é uma primeira etapa do processo de decodificação. À ela, costuma-
se seguir a chamada leitura emocional que é quando se passa ao conhecimento do texto propriamente dito,
percorrendo as páginas e travando contato com o “conteúdo”. Dessa forma, considera-se que a leitura produz
emoções: a história pode ser emocionante ou tediosa, o artigo ou matéria pode fazer rir ou irritar, os poemas
podem ser fáceis de ler e agradáveis ou complicados e aborrecidos. Normalmente, a leitura emocional conduz a
apreciações do tipo “gostei”/“não gostei”, sem maiores pretensões analíticas: é uma experiência
descompromissada, da qual participa o gosto e a formação do leitor. A leitura emocional costuma ser criticada,
sendo muitas vezes chamada de superficial e alienante. Essa avaliação tem muito de racionalismo e nem sempre
é verdadeira. Por exemplo, quando um sujeito opta por ler um romance de ficção científica, por “pura distração”,
pode entrar em um universo cujas relações apresentam uma realidade diferente, capaz de conduzi-lo, sem
grandes floreios intelectuais, a pensar sobre o mundo. O mesmo pode acontecer com revistas em quadrinhos e
outros textos considerados “menos nobres”. Isso não significa, no entanto, que não existam publicações que
realmente invistam na vontade de “descansar a cabeça”, oferecendo assim um elenco de informações e ideias que
reforçam os valores sociais dominantes. Isso também é relativo, pois há quem defenda esses valores. A leitura
sensorial e a emocional fornecem subsídios importantes para a realização de um terceiro tipo de leitura: a
intelectual. Essa leitura não deve ser vista como uma forma esterilizante de abordar os textos, reduzindo-os à
feixes de conceitos incapazes de despertar qualquer prazer. Ela começa por um processo de análise que procura
detectar a organização do texto, percebendo como ele constitui uma unidade e como as partes se relacionam
para formar essa unidade. A leitura intelectual não se limita a analisar estruturalmente os textos. Na realidade, o
que a fundamenta é a consciência permanente de que todo texto é um ato de comunicação, respondendo,
portanto, à um projeto de quem o produz. Em outras palavras: a leitura é intelectual quando o leitor nunca perde
de vista o fato de que aquilo que está lendo foi escrito por alguém que tinha propósitos determinados ao fazê-lo.
Procurar detectar esses propósitos juntamente com a informação transmitida e com a estruturação do texto, é
fazer uma leitura intelectual satisfatória. Essa proposta de leitura intelectual se refere principalmente à textos
informativos, como os de jornais, revistas, livros técnicos e livros didáticos. São textos que se oferecem como
fontes de informações, mas que requerem uma abordagem crítica permanente, pois apresentam sempre traços
que indicam as intenções de quem escreve e publica. Também os textos publicitários devem ser incluídos nesse
grupo, bem como aqueles escritos para apresentação oral (rádio) ou audiovisual (televisão). Portanto, lembre-se:
a leitura intelectual implica uma atitude crítica, voltada não só para a compreensão do “conteúdo” do texto, mas
principalmente ligada à investigação dos procedimentos de quem o produziu. Por isso, ao ler, levante sempre a
questão: “Mas, oque pretendia quem escreveu isto?”.

(Texto de Ulisses Infante. Do texto ao texto. São Paulo. Ed. Scipione.)


“O livro sendo o mesmo para todos, uns percebem dele muito; outros pouco; outros nada. Cada um
conforme a sua capacidade. Pois, o livro é um surdo que responde, um cego que guia, um morto que
vive, e não tendo ação em si mesmo, move os ânimos e causa grandes efeitos”

(OS SERMÕES – Padre Antônio Vieira)

ATIVIDADE DE APRENDIZAGEM

Defina, em uma frase cada uma das seguintes leituras: leitura sensorial; leitura emocional e leitura intelectual.
Boa sorte!

6. Apostando na Leitura

Se a chamada leitura do mundo se aprende por aí, na tal escola da vida, a leitura de livros necessita de
aprendizado mais regular, que geralmente acontece na escola. Mas leitura, seja de mundo ou de livros, só se
aprende e se vivencia de forma plena coletivamente, em troca contínua de experiências com os outros. É nesse
intercâmbio de leituras que se refinam, reajustam e redimensionam hipóteses de significado, ampliando
constantemente a compreensão dos outros, do mundo e de si mesmo. Da proibição de certos livros (cuja posse
poderia ser punida com a fogueira) ao prestígio da Bíblia, sobre a qual juram as testemunhas em júris de filmes
norte-americanos, o livro, símbolo da leitura, ocupa lugar importante na sociedade. Foi o texto escrito que o
mundo ocidental elegeu como linguagem que representa a cidadania, a sensibilidade e o imaginário. É ao texto
escrito que se confiam as produções de ponta da ciência e da filosofia; é ele que regula os direitos de um cidadão
para com os outros, de todos para com o Estado e vice-versa .Pois a cidadania plena, em sociedade como a nossa,
só é possível – se e quando ela é possível – para leitores. Por isso, a escola é direito de todos e dever do Estado:
uma escola competente, como precisam ser os leitores que ela precisa formar. Daí, talvez, o susto com que se
observa qualquer declínio na prática de leitura, principalmente dos jovens, observação imediatamente
transformada em diagnóstico de uma crise da leitura, geralmente encarada como anúncio do apocalipse, da
derrocada da cultura e da civilização. (texto de Marisa Lajolo)

“São os livros uns mestres mudos que ensinam sem fastio, falam a verdade sem despeito, repreendem
sem pejo; amigos verdadeiros, conselheiros singelos; e assim como a força de tratar com pessoas
honestas e virtuosas se adquirem insensivelmente os seus hábitos e costumes, também à força de ler
os livros se aprende a doutrina que eles ensinam. Forma-se o espírito nutre-se a alma com os bons
pensamentos; e o coração vem por fim experimentar um prazer tão agradável, que não há nada que
se compare; e só o sabe avaliar quem chegou a ter a fortuna de o possuir.”

Padre Antônio Vieira

7. Por que estudar a Língua Portuguesa?

Antes de estudar qualquer outra disciplina, o indivíduo deve conhecer a própria língua, pois é basicamente
através dela que entrará em contato com o mundo. Dessa forma, quanto melhor o sujeito dominar os códigos e
convenções da língua portuguesa, mais fácil será entender as pessoas e fazer-se entender, em qualquer atividade.
A condição humana provém do fato do indivíduo possuir um sistema de articulação verbal com poder de
simbolização. Isso quer dizer que somos todos humanos, devido à capacidade, através da língua, de fazer
referências a acontecimentos que possam estar situados em tempos diferentes ou até mesmo a fatos hipotéticos.
A comunicação, portanto, se dá por meio da língua, cujas palavras se enquadram em um sistema no qual a
pronúncia e o entendimento se fazem de maneira semelhante pelos membros de uma determinada comunidade
linguística. Vale ressaltar que uma língua, quando escrita, alarga a comunicação, porque permite o entendimento
entre pessoas não presentes simultaneamente. Essas breves anotações quanto ao uso da língua permitem dizer
que falar uma língua não exige, aparentemente, nada além de um esforço no sentido de aproximação como outro
na busca de compreensão, já que falar é um ato natural. Entretanto, vale considerar que toda língua está
estruturada de tal forma que, sem o conhecimento de alguns princípios linguísticos, o falante não é capaz de
dominá-la adequadamente. O seu domínio, portanto, passa pelo aprendizado, na medida em que o idioma
português, enquanto língua materna, é o veículo por onde circulam todas as experiências que a vida possibilita.
O aprendizado da língua

Diz o professor Rodolfo Ilari que o ensino do português é uma espécie de educação permanente. Para ele, essa
educação consiste, ao mesmo tempo, em uma reflexão e em uma análise da situação linguística em que todo o
indivíduo está envolvido. Dessa forma, considera-se que o sujeito recorre à língua sempre que busca o
estabelecimento de um equilíbrio entre o meio social e sua atividade: a leitura do jornal, a rádio, o cartaz, a
televisão, o diálogo com os amigos e etc... A prática maior da linguagem se assenta na relação que se dá entre a
fala, a escrita e a leitura. Enquanto a fala corresponde a uma realização concreta da língua, a escrita e a leitura é
que permitem a prospecção do universo, dando ao leitor um espaço privilegiado, porque é do convívio com a
palavra escrita que se retira não só uma forma de compreensão do mundo, mas também a possibilidade de
cooperação para o seu desenvolvimento. A leitura, portanto, é um modo de aprendizado permanente, não só
porque possibilita a reconstrução e integração de certas mensagens, mas, sobretudo, porque é através dela que
se exercita o conhecimento. Mas não é só aí que reside a importância da língua: é ela que possibilita, no seu mais
expressivo sentido, a identidade que se assume ante atos e a fala. Nesse rol de aspectos positivos envolvendo a
língua, acrescenta-se que o conhecimento linguístico está associado ao poder. Em uma sociedade em que a vida
se regula pela escrita, pelo livro, pelo cheque, pelo documento, o domínio linguístico passa a ser não só um
objetivo, mas uma necessidade. É através da língua que se alcançam os objetivos pessoais e sociais, em um
caminho que começa na escola e se expande para a vida.

“Ensinar a aprender é não apenas mostrar os caminhos, mas também orientar o aluno para
que desenvolva um olhar crítico que lhe permita desviar-se das “bombas” e reconhecer, em
meio ao labirinto, as trilhas que conduzem às verdadeiras fontes de informação e
conhecimento.” Emanoel Sousa

A língua: uma leitura do mundo

Pensando a língua como uma forma de conhecimento que vai além da linguagem, isto é, que não serve apenas
para a comunicação, pode-se dizer que ela permite ler a sociedade através de seus costumes e instituições. Um
exemplo: uma estátua, uma catedral, são formas de linguagem, um modo de ler de forma particular um tempo e
uma circunstância que liga o homem à uma certa realidade. E essa leitura revela-se capaz de determinar a
importância de uma obra e ao mesmo tempo, estabelecer relações com uma consciência viva.

Por que estudar a língua?

Se a língua, no caso, o idioma português, permite essa abrangência do mundo, por que é tão difícil o seu estudo?
Talvez se possa dizer que, na realidade, o que dificulta o aprendizado é a circunstância de que na fase escolar, a
matéria de Língua Portuguesa é vista como uma simples disciplina do programa, quando, de fato, é muito mais
do que isso. O estudo da língua materna é um processo que acompanha o sujeito de forma permanente, fazendo
com que, quanto maior o domínio de sua própria língua, maior também a possibilidade de conhecer o mundo.

As outras “línguas”

Ocorre que a vida moderna está marcada por um desenvolvimento como certamente não se conheceu antes, mas
também por uma dinâmica que faz com que o mundo se abra à novas linguagens, representadas pela cultura que
traz as mais recentes tecnologias, bem como por uma necessidade de acompanhar essa nova realidade. Desse
modo, pode-se dizer que, além do estudo e conhecimento da nossa própria língua, estamos todos comprometidos
com outras realidades culturais que obrigam à essa educação permanente. Vale ressaltar que como vivemos em
um país em desenvolvimento, ficamos à mercê de uma nova linguagem, representada pelos estrangeirismos, isto
é, palavras que usamos na comunicação corrente mas que no entanto, provém de outras línguas, especialmente o
idioma inglês. Embora seja um fenômeno linguístico comum à todas as línguas, é necessário saber que a inclusão
de termos novos significa não somente a apreensão de uma nova palavra, mas também a assimilação de uma
nova cultura. Não é demais lembrar que é através da própria língua que nos tornamos brasileiros e, portanto, é
pela língua portuguesa que isso é possível. Muitas vezes, por desconhecimento de certas realidades, acabamos
preterindo a língua materna em favor de uma outra. Isso é natural. O estudo sistemático na escola possibilita ver,
compreender e rever isso. Torna-se discutível, o uso de termos e expressões estrangeiros sem que isso
represente uma necessidade, ou o que é pior: quando isso é feito por mera imitação. O real conhecimento da
própria língua se situa como um dos aspectos mais importantes não só do estudo escolar, mas, principalmente,
da vida prática, na medida em que é por esse conhecimento que o indivíduo se reconhece como pessoa e como
cidadão.

(Texto de Volnyr Santos, doutor em Letras, professor de Língua Portuguesa e Literatura na PUCRS).

2. Linguagem, língua, signo e fala

Na origem de toda atividade comunicativa do ser humano está a linguagem, que é a capacidade de se comunicar
por meio de uma língua. Língua é um sistema de signos convencionais usados pelos membros de uma mesma
comunidade. Em outras palavras: um grupo social convenciona e utiliza um conjunto organizado de elementos
representativos.

2.1 Signos Verbais e Signos Não-Verbais

Considera-se que os sinais ou signos classificam-se em dois tipos: os signos verbais e os signos não-verbais. O
signos verbais são as palavras que constituem uma língua. Por exemplo:

QUANDO REDIGIMOS UM TEXTO, NÃO DEVEMOS MUDAR O REGISTRO, A NÃO SER QUE O ESTILO O PERMITA.
ASSIM, SE ESTAMOS DISSERTANDO - E NESSE TIPO DE REDAÇÃO, USA-SE, GERALMENTE, A LÍNGUA PADRÃO-
NÃO PODEMOS PASSAR DESSE NÍVEL PARA UM OUTRO, COMO A GÍRIA,POR EXEMPLO.

Os signos não-verbais referem-se à qualquer outro signo que não seja a palavra falada ou escrita. Esses signos
são criados com desenhos, sons, cores etc. Considera-se que uma linguagem não é um simples amontoado de
signos, mas um conjunto de signos que se relacionam entre si, de forma organizada, formando um sistema.
Quando os signos se organizam, afirma-se que eles constituem uma linguagem. Por isso, é possível falar em
linguagem do trânsito, linguagem da matemática, linguagem dos gestos, linguagem da música e outras.

Linguagem é todo sistema organizado de signos que serve como meio de comunicação entre os indivíduos.

2.2. Língua

A língua é um tipo de linguagem; é a única modalidade de linguagem que utiliza palavras. Observe um fragmento
do romance “Gabriela, cravo e canela” em quatro versões. O romance escrito em português por Jorge Amado foi
traduzido para inglês, italiano e espanhol, entre outras línguas.

- Trecho do romance “Gabriela, cravo e canela” em português

Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do árabe Nacib, a estação das chuvas tanto
se prolonga além do normal, e necessário, que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se nas ruas a
perguntar uns aos outros, o medo nos olhos e na voz:- Será que não vai parar?

- Trecho do romance “Gabriela, cravo e canela” em inglês

In that year of 1925, when the idyll of the mulatto girl Gabriela and Nacíb theArab began, the rains continued
long beyond the proper and necessary season. Whenevertwo planters met in the street, they would ask each
other, with fear in their eyes and voices:“How long can this keep up?”

- Trecho do romance “Gabriela, cravo e canela” em italiano

In quell’anno 1925, quando sbocciò L’idillio della mulatta Gabriella edell’arabo Nacib, il periodo delle piogge
s’era tanto prolungato oltre il naturale e ilnecessario che i proprietari sostavano sugli angoli delle strade, come
gregge smarrito, perchiedersi l’un l’altro, la paura negli occhi e nella voce:- Finirà?

- Trecho do romance “Gabriela, cravo e canela” em espanhol

En aquel año de 1925, cuando floreció el idilio de la mulata Gabriela y del árabe Nacib, la estación de las lluvias
habíase prolongado más allá de lo normal y necessario, a tal punto que los plantadores, como un rebaño
asustado, al entrecruzarse enlas calles se perguntaban unos a otros, con miedo en los ojos y en la voz:- ¿No
parará nunca?O português, o inglês, o italiano e o espanhol são línguas diferentes. Cada povoutiliza determinada
língua para se comunicar.
Língua é a linguagem verbal utilizada por um grupo de indivíduos que constituem numa comunidade.

2.3 Elementos Estáveis e Instáveis da Língua

A língua é um fenômeno dinâmico e apresenta os seguintes elementos:

• ELEMENTOS ESTÁVEIS

São estáveis as características básicas de cada língua. Graças a essa estabilidade no tempo, consegue-se entender
hoje, ainda que com alguma dificuldade, um texto escrito há muito tempo em uma língua conhecida. O fato de um
brasileiro de Porto Alegre comunicar-se com um brasileiro de Manaus sem dificuldades, por exemplo, demonstra
a estabilidade da língua no espaço geográfico.

• ELEMENTOS INSTÁVEIS

São os elementos da língua que se modificam no tempo e no espaço.

Em relação à modificação no tempo considera-se que há termos que deixam de ser empregados ou passam a ser
empregados em um só sentido, sem contar as palavras novas que se incorporam à língua, enriquecendo-a.
Televisor, por exemplo, é uma palavra que só passou a fazer parte do vocabulário no início de 1931, quando esse
aparelho foi inventado. O mesmo observa-se com o celular. Destaca-se que também ocorrem mudanças no
espaço, no local em que se emprega a língua. Dessas mudanças surgem diferenças que no entanto, não chegam a
impossibilitar a comunicação entre falantes da mesma língua que vivam em locais diversos. Vale ressaltar que a
gíria consiste no exemplo mais evidente da instabilidade da língua. Leia o fragmento:

Me olhando assim, cara? Eu relaxei numa boa e fechei os olhos, ela começou a levar um som em inglês que num
sacava, cara, era um lance da gente se falar sem se falar que durou até o céu ficar pretão.

No texto acima identifica-se a presença de várias gírias. Observa-se que as gírias variam de acordo com o
período, pois as gírias de uma época não servem para outra, pela rápida modificação que sofre. Há também gírias
que são empregadas apenas em determinadas regiões, principalmente em Estados e países mais desenvolvidos.

Fala

A seleção brasileira feminina de vôlei conquistou importante título em um torneio internacional. Veja como três
jornais noticiaram o fato:

Seleção derrota EEUU e fica com título

Brasil bate EEUU e ganha torneio de vôlei

Brasil mata EEUU e ganha título histórico