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toda tendência humana não é o resultado de um desaparecimento da substân-

cia, já que pode ser apenas resultado de teimosia; uma teimosia curiosa que
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tem dominado na Alemanha desde o final da inflação e que tem determinado
também muitas expressões públicas. É como se durante o período de suble-
vação social e racionalização dos serviços, a vida alemã tivesse se paralisado 1

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sensivelmente. Pode-se falar até mesmo de enfermidade. A posição da produ-


ção cinematográfica - como foi observado no início - é decerto um sinal da
condição geral de um não-espírito estabelecido. Numa metrópole provinciana,
Culto da distração
1hérese Raquin teve que ser retirado de cartaz em poucos dias, enquanto Die
Heilige und ihr Narr [Os santos e seus loucos 1 teve casa lotada por três semanas
seguidas. Algo não está em ordem, de qualquer modo, nem mesmo no pior
industrialismo, não se pode considerar plenamente a massa de confusão emo-
cional existente e a irrealidade. Até onde vai esta confusão, pode-se constatar
por meio daqueles filmes que pretendem fazer uso do sucesso dos documentá-
rios russos, cujo significado toca apenas a parte mais ínfima de suas intenções Sobre os cineteatros de Berlim
propagandistas. Mais importante é que Eisenstein e Pudovkin, diferentemente
de um mero caricaturista como Georg Groz, sabem de antemão sobre as coi- Os grandes cineteatros [Lichtspielhauser] em Berlim sãopalácios da distração:
sas humanas; ambos os diretores e seus atores realmente experimentaram a defini-los simplesmente como cinemas seria depreciativo.Os cinemas ainda

pobreza, a fome, a injustiça e a felicidade e estão em condições de assimilar podem ser encontrados apenas na velha Berlim e nas cidadesperiféricas onde

a extensão das consequências destas experiências. Por esta e apenas por esta atendem o pequeno público; seu número todavia decresce.O rosto de Berlim,

razão encontram recortes e perspectivas, cujas ruas, cortes, praças e colunas além disto, é caracterizado menos pela existência destescinemas ou pelos tea-

arquitetônicas contêm o poder do discurso. Alguns diretores alemães, que tros comuns-do que por aqueles locais de magia ótica.Os UFA-Palaste [Palá-

aprenderam com os russos, foram maus alunos. Apropriaram-se do empreen- cios UFA] - sobretudo aquele junto ao zoológico - o Capitol-, construído por
dimento sem atentar para seu sentido. No filme Zuflucht [Abrigo], mencionado Põlzig', o Marmorhaus, ou quaisquer que possam seros seus nomes, todos

anteriormente, imagens dos bairros proletários de Berlim são incorporadas os dias têm lotação máxima. Que o desenvolvimento sepropague na direção

à maneira russa, imagens primorosas, mas que carecem, no entanto, daquela assinalada por eles, comprova-o a construção recente do Gloria-Palast.

relação interna do enredo. A maneira como o cinema russo apresenta o am- O cuidadoso esplendor da superfície é a característica destes~ros de

biente desvela o núcleo da história. Aqui, no cinema alemão, os ambientes não massa, Como os saguões dos hotéis, são locais de cultodo prazer, o seu brilho

passam de decorações artificiais de um enredo pequeno-burguês. Esta é a visão visa à edíficação. E ainda que a arquitetura assalte osespectadores com um

limitada com a qual os teimosos estão conscientes do mundo.


Dever-se-ia indicar caminhos? Espera-se por receitas? Não há nenhuma Hans Põlzig (1869-1936), um dos fundadores do movimentomoderno na arquitetura
receita. Sinceridade, talento de observação, humanidade - estas coisas não se alemã. Além disso, foi responsável pelo cenário expressionistado filme Golem (1920), de
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342 aprendem. Basta que a situação seja apresentada abertamente. Paul Wegener.
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bombardeio de impressões, não recai jamais na pompa bárbara das igrejas em excesso e não podem realizar sua própria forma de vida. A elas são oferei
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profanas do período guilhermino, como por exemplo, no Ouro do Rena, que cidos o lixo e as antiquadas diversões [Unterhaltungen] da classe superior qu~" '(

quer dar impressão de que oculta o tesouro wagneriano dos Nibelungos. Ao por mais que estejam interessadas em ressaltar a sua alta posição social, têm ..
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<-J' I contrário, a arquitetura aqui alcançou uma forma que evita excessos estilísticos. modestas exigências culturais. Nas cidades provincianas maiores, não domina- •
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O bom gosto soube dominar as dimensões e, juntamente com uma fantasia ar- 'ó
das de maneira predominante pela indústria, as relações tradicionais são muito
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tesanal refinada, criou a preciosa decoração interior. O Gloria-Palast apresen- poderosas para que as massas estejam em condições de impor, sozinhas, uma .•.
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ta-se como teatro barroco. A comunidade dos aficionados, que se contam aos marca na sua estrutura intelectual. As camadas médias burguesas continuam ...
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L milhares, pode ficar satisfeita; seus locais de reunião são uma estância digna. separadas delas e a se iludirem de que são guardiãs de uma cultura superior,
Também os espetáculos são de uma grandiosidade
tempo em que se projetava um filme após outro com o correspondente
bem-acabada. Passou o
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como se o preenchimento deste reservatório humano nada significasse. Sua
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panhamento musical. Pelo menos os principais teatros adotaram o princípio
arrogância, que cria um oásis aparente para si própria, pressiona a massa para
baixo, estragar;do sua distração.
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americano dos espetáculos completos, nos quais o filme se insere como parte Não se deve esquecer que Berlim possui 4 milhões de habitantes. A sua ne- 1 t ~
de um todo maior. Assim como as folhas dos programas alcançaram agora a cessidade de circulação, por si só, transforma a vida da rua em uma inescapável I
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dimensão de revistas ilustradas, da mesma forma os espetáculos tornaram-se rua da vida e produz figuras acessórias que penetram até mesmo no ambiente
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uma bem-articulada profusão de produções. Do cinema surgiu uma esplêndida doméstico. Mas, quanto mais os homens se sentem como uma massa, tanto
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imagem do gênero revista: a obra de arte total [Gesamtkunstwerk] dos efeitos. antes a massa atinge, também no campo intelectual, energias criativas que vale ..
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Esta obra de arte total dos efeitos se desencadeia com todos os meios diante a pena financiar. Ela não permanece mais abandonada a si mesma; não suporta
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de todos os sentidos. Refletores irradiam suas luzes pelo ambiente, salpicando que lhe sejam servidos restos, mas quer ser servida em uma mesa coberta.
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\ os alegres penduricalhos ou chuviscando
A orquestra se afirma como poder autônomo,
através de cachos de vidro colorido.
sua música é apoiada pelos res-
Pouco espaço há para as chamadas camadas cultas. Elas devem sentar-se
mesa ou manter-se à parte em uma posição esnobe; em todo caso esta posição
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ponsórios da iluminação. Toda sensação recebe a sua expressão sonora e o provinciana acabou. Com a sua imersão na massa surge o homogêneo público
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seu correspondente valor cromático dentro do espectro. É um caleidoscópio cosmopolita que - do diretor de banco aos auxiliares do comércio, da diva à
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" .•. ótico e acústico, ao qual se une o jogo cênico dos corpos: pantomima, balé. Até ~ <
; datilógrafa - sente do mesmo modo. Lamentos lacrimosos sobre esta guinada
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.. que, ao final, baixa a superfície branca da tela e os acontecimentos do palco para o gosto de massa vêm agora tarde demais. O patrimônio cultural, que ~\
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.,.. Espetáculos como estes são hoje, juntamente com as verdadeiras revistas, porque se transformou a realidade econômico-social ligada a ele. -l'
o a grande atração de Berlim. A distração alcança neles a sua cultura. Eles são
feitos para as massas.
--- Reprova-se os berlinenses por serem viciados em distração; mas esta é uma-
reprovação pequeno-burguesa. É certo que em Berlim o desejo de distração
ITambém na província, as massas se reúnem; mas elas são mantidas sob uma é maior do que na província, porém maior e mais perceptível é também o es- $

tal pressão, que não podem se realizar espiritualmente na medida apropriada forço das massas trabalhadoras, um esforço essencialmente formal, que ocupa
à sua quantidade e à sua real significação social. Nos centros industriais, onde a jornada sem preenchê-Ia de sentido. É necessário recuperar aquilo que se
344 aparecem compactas, essas massas, constituídas por operários, são solicitadas perdeu, mas pode-se pretender recuperá-lo apenas na mesma esfera superficial 345

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fà qual se está submetido. A forma empresarial da ocupação do tempo livre é o público não poderia atacá-Ia e transformá-Ia; a sua revelação na distração II , ",
a forma da empresa, do negócio [Betrieb]. possui um significado moral. ..l .
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Um justo instinto provê para que a necessidade seja por ele satisfeita. Os Entretanto, este é o caso apenas quando a distração não é fim em si mesmã. .•
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O fato de que os espetáculos que entram na esfera da distração sejam uma mis-
aparatos dos grandes cineteatros têm um único fim: manter o público amar-
tura semelhante ao mundo da multidão das grandes cidades, o fato de que eles
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rado ao que é periférico para que não se precipite no vazio. Nestes espetá- ... (

culos a excitação dos sentidos se sucede sem interrupção, de modo que não possam prescindir de todo autêntico nexo objetivo, e mesmo do cimento da "
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o sentimentalidade, o qual oculta a carência só para torná-Ia mais visível, o fato
haja espaço para a mínima reflexão. Como os salva-vidas, as luzes difundi-
das pelos refletores e os acompanhamentos musicais servem para se manter enfim de que estes espetáculos pressagiem a milhares de olhos e de ouvidos, i~
à superfície. A tendência à distração, que exige uma resposta, encontra-se na de modo exato e claro, a desordem da sociedade, precisamente isto faz com '"" ..
exibição da pura exterioridade. Daí, precisamente em Berlim, a incontestável que eles provoquem e mantenham acordada aquela tensão que deve preceder ,<ri ,'l~
intenção de transformar emJ.revistãltodos os espetáculos; daí, como fenômeno a necessária m!ldança. Frequentemente pelas ruas de Berlim se é surpreen- ~
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paralelo, o acúmulo de material ilustrativo na imprensa diária e nas publica- dido pela ideia de que tudo venha um dia, improvisadamente, rachar no meio. ;;. ~
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_ ções periódicas. Também as distrações, para as quais o público é compelido, deveriam operar "\

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00- I Estas exteriorizações têm a sinceridade como vantagem. Não é através dela do mesmo modo. "..

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I que a verdade é posta em perigo. Mas através da ingênua afirmação de valo- ~..•.
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::.. res culturais que se tornaram irreais, através do duvidoso abuso de conceitos Geralmente elas não conseguem alcançar este efeito; as apresentações dos ~ .!
• grandes cineteatros comprovam-no exemplarmente. Ao mesmo tempo em
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<;- como personalidade, interioridade, tragicidade etc., que certamente, por si ... ....
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': sós, indicam conteúdos objetivos de alto valor, mas que em razão das trans- que chamam à distração, tornam repentinamente a roubá-Ia do seu significado, ~
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agregando em uma unidade "artística" a multiplicidade dos efeitos - efeitos <:
, formações sociais perderam em grande parte a sustentação da qual se nutriam.
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.,. Valores, que na maioria dos casos, assumem hoje um sabor equívoco, uma vez que pela sua natureza requerem ser isolados um do outro - e comprimindo .•..
na forma de um todo a sequência colorida de elementos exteriores. Já os âm-
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que desviam a atenção dos males objetivos da sociedade além do conveniente,
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- orientando-os para a pessoa privada. Nos âmbitos da literatura, da música, do bitos arquitetônicos tendem a enfatizar uma dignidade que seria própria das •...~
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'~.:atr~ são bastante frequentes tais recalcamentos [Verdriingungserscheinun- instituições artísticas superiores. Favorecem o que é elevado e o que é sacro,
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gen]. Apresentam-se como manifestações da arte superior e na realidade são como se neles estivessem guardadas criações de duração eterna; mais um passo ~ '"
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~ produtos ultrapassados que se evadem das necessidades atuais da época - um adiante e vemos as incandescentes velas de uma cerimônia solene. O espetá- <
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~ ::. fato que é indiretamente confirmado pela produção respectiva, que é também culo também aspira alcançar o mesmo alto nível, ser um organismo bem acor- •• ~ ..
~ intrinsecamente uma arte epigonal. O público berlinense comporta-se de uma dado, uma totalidade estética, como só a obra de arte pode ser. O filme teria .•.~ .•. .•.
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,, maneira adequada à verdade no seu sentido mais profundo, recusando cada muito pouco para oferecer, não tanto porque gostaria de acumular ainda mais .'
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~ distrações, mas para alcançar um acabamento artístico. O cinema conquistou \ !
•..• vez mais estes acontecimentos artísticos que, por motivos óbvios, não vão ...'t u

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" além da mera pretensão, atribuindo a sua preferência ao brilho superficial das o seu reconhecimento independentemente do@ro:\mas as direções dos mais ••
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., importantes cineteatros aspiram novamente o retorno ao teatro.
stars, dos filmes, dasfrevlStãs e das decorações. Aqui, na pura exterioridade, o o 't
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\ público encontra a si mesmo; a sequência fragmentada das esplêndidas im- Tendências reacionárias são inerentes a estes objetivos que podem ser con- <IQ

346 pressões sensoriais traz à luz a sua própria realidade. Se esta lhe fosse ocultada siderados o sintoma da vida social berlinense. As leis e as formas daquela 347
cultura idealista, que sobrevive hoje apenas como espectro, perderam todo
seu direito, mas gostariam de preparar uma nova cultura, alegremente evo-
cada, dos elementos da exterioridade. A distração, que tem sentido apenas
como improvisação, como cópia da confusão incontrolada do nosso mundo,
é recoberta de véus e reconduzida forçosamente a uma unidade que já não
há mais. Ao contrário de confessar o declínio que lhe caberia representar, elas
colam os pedaços e os oferecem como uma criação adulta.
É um procedimento que se vinga no plano puramente artístico. O filme de
fato perde a sua possível eficácia se é inserido em um programa já completo.
Não possui nenhum valor em si, a não ser como coroamento de alguma coisa
semelhante à revista, na qual não são levadas em conta as suas condições de
existência. A sua bimensionalidade produz a aparência do mundo corpóreo,
que não tem nenhuma necessidade de complementação. Se, todavia, cenas de
real corporeidade forem associadas àquele jogo de luzes que é o cinema, este
retoma à superfície da tela e o engano é revelado. A proximidade de aconteci-
mentos que se desenvolvem em uma profundidade espacial destrói a espacíalí-
dade daquilo que é mostrado na tela. O filme, pela sua própria natureza, requer
que o mundo nele refletido seja único; necessita subtraí-lo a todo ambiente
tridimensional, pois de outra forma apaga-se como ilusão. Também a pintura
perde a sua força quando aparece entre imagens vivas. Para não falar do fato
de as ambições artísticas que, através da incorporação do filme em uma apa-
rente totalidade, estão fora do lugar e por isso permanecem necessariamente
sem solução. Em todo caso aquilo que surge é artesanato.
Mas os cineteatros têm tarefas bem mais urgentes a cumprir do que se
preocupar com obras artesanais. Somente poderão realizar sua tarefa - que é
uma tarefa estética se e quando ela coincide com a tarefa social - se não mais
flertarem com o~eatrole não procurarem mais reproduzir reverentemente uma
cultura ultrapassada, mas liberar os seus espetáculos de todos aqueles ingre-
dientes que privam o filme de seus direitos, colocando radicalmente como fim
uma distração que revele o declínio [Zerfall] ao contrário de escondê-lo, Tudo
isto seria possível em Berlim, onde vivem as massas que se deixam entorpecer
com tanta facilidade, apenas porque estão próximas da verdade.
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