Você está na página 1de 18

o Conselho Federal de Cultura,

1971-1974

Lia

Calabre

o Conselho Federal de Cultura (CFC) foi criado pelo do Decreto-Lei n° 74, de 21 de novembro de 1966, e instalado a partir do Decreto n° 60.237, de 27 de fevereiro de 1967. Permaneceu em funcionamento por mais de 20 anos e teve sua dissolução decretada em 1990. Este artigo traz um recorte das ações do CFC en­ tre os anos de 1971 e 1974. No Brasil, o campo da cultura - das ações e da produção cultural - tem vivenciado uma relaçao dual com o dos estudos acadêmicos. Apesar da perma­ nente valorização do conjunto das manifestações culturais, vistas como elemen­ to fundamental nos estudos sobre a sociedade brasileira, temos uma lacuna nas pesquisas relativas às ações do Estado sobre a cultura. Essa lacuna se torna mais grave se levarmos em consideração que, no Brasil, o Estado tem sido, historica­ mente falando, um dos grandes tinanciadores das atividades culturais. Os objeri-

Nora:

Lia Calabre é pesquisadora e chefe do setor de esmdos em política cultural da Fundação Casa de Rui

Barbosa.

82

e tudos

históricos e

2006 - 37

vos deste estudo podem assim ser resumidos em: recuperação da memória, ma­ peamento das açoes do Estado e valorização do campo da política cultural. O período que vai do final dos anos de 1960 até a década de 1970 deve ser analisado como um momento privilegiado no campo da ação do governo federal so­ bre a cultura. Gabriel Cohn (1984: 87), ao buscar uma periodização das ações do Estado na área da cultura na década de 1970, caracteriza a primeira metade da déca­ da como um período de elaboração de "propostas programáticas mais abrangentes mas com efeitos escassos", e a segunda, como a de um processo de "diversificação e de redefinição dos temas relevantes numa ótica mais operacional e cada vez mais propriamente política". A segunda metade da década de 1970 foi um momento de lterações no quadro institucional que teve como marco a criação da Funarte. Entre os atos governamentais que podem ser d6stacados nesse contexto, temos a criação do CFC em 1966. O trabalho aqui apresentado é parte de uma pesquisa maior sobre o CFC, abrangendo mais especificamente o período de 1971 a 1984, e tendo como principal fonte de pesquisa oBoletim do Conselho Fede­ ral de Cultura, uma publicação trimestral. O recorte cronológico de 1971 a março de 1974 para este artigo deveu-se, por um lado, ao início da publicação do Bole­ tim, em janeiro de 1971, e, por outro, às mudanças internas do Ministério da Educação e Cultura, com o término da gestão do ministro Jarbas Passarinho, em fevereiro de 1974. Passados 30 anos, verifica-se que as demandas setoriais atuais ainda es­ tão mui{() próximas daquelas encontradas na década de 1970. Permaneceram problemas como o da má conservação do patrimônio cultural, o da falta de aten­ ção da administração pública em geral para os problemas da área da cultura, o do isolamento das ações nos diversos níveis do Estado, o da escassez de recursos para a implementação de projetos de longo prazo, entre outros. Tudo isso de­ monstra a existência de uma fragilidade estrutural da área que não se alterou com a criação do Ministério da Cultura em 1985. A análise dos documentos, da legislação, das proposições produzidos na década de 1970 revela elementos fun­ damentais, indispensáveis para a compreensão da situação vivenciada na atuali­ dade.

O CFC foi instalado em 1967. O Decreto n° 60.237, de fevereiro, definia as disposições sobre sua instalação e funcionamento. Criado nos moldes do Con­ selho Federal de Educação, o CFC era inicialmente constituído por 24 membros, diretamente nomeados pelo presidente da República. ! Internamente, o CFC era dividido em quatro câmaras: artes, letras, ciências humanas, patrimônio históri­ co e artístico nacional, possuindo também uma comissão de legislação e normas que funcionava como uma quinta câmara. O número de conselheiros por câmara ,ariava de cinco a seis. E interessante destacar que a comissão de legislação e nor- mas não possuía conselheiros exclusivos, sendo formada por membros oriundos nas outras câmaras. Para as câmaras eram enviadas as solicitações mais diversas.

formada por membros oriundos nas outras câmaras. Para as câmaras eram enviadas as solicitações mais diversas.

o COIIselllOFederal de Cultura, 1971-1974

o maior número de pedidos era de auxílio financeiro para pesquisa, aquisição de equipamentos, de acervos, de passagens, de imóveis; realização de congressos, espetáculos, festivais, homenagens e muitos outros. Também eram solicitados pareceres e estudos sobre diversas questões, tais como a da destruição de samba­ quis ou de jazigos com valor histórico, por exemplo. Cabia também ao conselho o reconhecimento das instituições culturais. Projetos de lei e normas jurídicas, do campo da cultura, também eram objeto de análise do órgão. As solicitações eram transformadas em processos e distribuídas para análise pelas respectivas áreas. Nas câmaras um conselheiro analisava o processo e emitia um parecer, que era relatado e votado em reunião plenária. O presidente e o vice-presidente do órgão eram eleitos pelos conselhei­ ros para mandatos de dois anos, podendo ser reconduzidos por igual período. O CFC contava também com um secretário-geral fixo, que no período aqui estuda­ do foi Manoel Caetano Bandeira de Mello. Cada câmara tinha um secretário: na de artes estavaJosé Mozart de Araújo, na de letras Eunice Bittencourt Coelho, na de ciências humanas Oku Martins Pereira, na de patrimônio Amália Lucy Gei­ sel, e na de legislação e normas Roberto Parreira. Entre as atribuições do CFC, previstas na legislação, estavam a de for­ mular a política cultural nacional; articular-se com os órgãos estaduais e munici­ pais; estimular a criação de Conselhos Estaduais de Cultura; reconhecer insti­ tuições culturais; manter atualizado o registro das instituições culturais; conce­ der auxílios e subvenções; promover campanhas nacionais e intercâmbios inter­ nacionais. Mesmo com essas múltiplas atribuições, o órgão tinha caráter norma­ tivo e de assessoramento do ministro de Estado. Os pareceres votados pelo CFC serviam como recomendações a serem executadas pelo ministério. Apesar do ca­ ráter normativo e de assessoramento, o conselho recebia uma pequena dotação orçamentária que lhe permitia tanto executar ações e projetos próprios quanto conceder apoio financeiro, atendendo a parte significativa das solicitações que recebia. Os conselheiros eram remunerados através de jelons pagos pelas reu­ niões, sendo que as atividades do conselho tinham prioridade sobre os outros cargos públicos que os mesmos exercessem.

o CFCemação

Em 1971 o CFC era composto por Adonias Filho, Afonso Arinos, Aria­ no Suassuna, Arthur Reis, Cassiano Ricardo, Deolindo Couto, Djacir Lima Me­ nezes, Dom Marcos Barbosa, Gilberto Freire, Gladstone Chaves de Mello, Gus­ tavo Corção, Hélio Viana, Irmão José Otão, José Cândido de Andrade Muricy, Josué Montello, Manuel Diegues Junior, Pedro Calmon, Peregrino Junior, Ra-

83

Otão, José Cândido de Andrade Muricy, Josué Montello, Manuel Diegues Junior, Pedro Calmon, Peregrino Junior, Ra-

84

estudos históricos e

2006 - 37

chel de Queiroz, Raymundo Faoro, Renato Soeiro, Roberto Burle Marx, Silvio Meira e Vianna Moog. Todos intelectuais de reconhecida importância e projeção nacional. No decreto de criação do CFC estava prevista a publicação de um bole­ tim informativo de natureza cultural, papel que foi destinado à Revista Brasileira de Cultura, que publicava ensaios, em grande parte de autoria dos membros do conselho. A partir de janeiro de 1971, as atividades do conselho passaram a ser di­ vulgadas através de um boletim trimestral chamado Boletim do Conselho Federal de Cultura. A publicação possuía três seções fixas - "Estudo e Proposições", "Pa­ receres" e "Atas" (das sessões plenárias e extraordinárias) -, contando ainda com uma parte dedicada a notícias variadas. A publicação costumava divulgar tam­ bém a legislação ligada a questões culturais, muitas vezes reproduzida na ínte­ gra. Freqüentemente, a maior parte dos escritos veiculados na seção "Estudo e Proposições" eram reproduções de artigos que haviam circulado na imprensa; tais reproduções continham sempre as referências de origem e serviam como uma forma complementar de divulgação dos escritos dos conselheiros, o restan­ te da seção era constituída por manifestos lidos nas reuniões plenárias do conse­ lho.

Segundo o Decreto n° 74, as duas principais ações do CFC deveriam ser a elaboração do Plano Nacional de Cultura e o estímulo à criação de conselhos de cultura nos estados e municípios. O escritor e conselheiro Adonias Filho, em uma publicação de 1978, apresentava um balanço das açoes do órgão no qual afir­ mava que, no momento em que o CFC iniciou os trabalhos, somente dois estados - Guanabara e São Paulo - tinham conselhos estaduais de cultura. Em setembro de 1971, o país já contava com conselhos estaduais de cultura instalados e funcio­ nando em 22 estados. A política utilizada pelo CFC para estimular a criação de conselhos regionais era a de implementar o máximo de medidas e de projetos através de parcerias e convênios que tinham como precondição a existência de órgãos de cultura locais, em especial de conselhos. Tal procedimento terminou por promover também a criação de uma série de conselhos municipais de cul­ tura.

Arthur Reis, ao deixar a presidência do CFC, em dezembro de 1973, fez

um balanço das atividades desenvolvidas e contabilizou em 273 o número dos convênios firmados com os governos estaduais e municipais no período entre

com os governos estaduais e municipais no período entre 1 9 6 9 e 1972. 2

1969 e 1972. 2

Desde os primeiros anos de existência o CFC possuía uma dotação orça­ mentária que lhe permitia implementar, apoiar e financiar uma série de projetos, como já foi dito anteriormente. Na maioria dos casos de financiamento, o conse-

já foi dito anteriormente. Na maioria dos casos de f i n a n c i

o COllselllOPederal de Cultura, 1971-1974

lho adotou a política de exigir contrapartida dos órgãos de cultura locais de no mínimo 50% do valor total solicitado ou de igual ou superior valor ao por ele alo­ cado. Havia ainda a exigência de que o próprio demandante também entrasse com parte dos recursos. Por exemplo, em um festival universitário de arte, deve­ ria haver alocação de recursos da própria universidade e do governo local para então o CFC liberar algum tipo de auxílio.

O Boletim número 5, de janeiro/março de 1972, contém a reprodução de

um artigo publicado no Correio do Povo, em 31/03/72, com um balanço dos atos do ano de 1971, que nos proporciona uma idéia da dimensão das ações imple­ mentadas pelo CFC no período. Em 1971, passaram pelo conselho 210 processos, dos quais 64 foram aprovados para convênio, 30 aprovados simplesmente, 50 di­ ligenciados e os demais negados ou arquivados. Passavam pelo conselho projetos de diversas naturezas, e alguns deles eram encaminhados a outras possíveis áreas e órgãos públicos de interesse. Era comum, por exemplo, projetos específicos da educação, como aulas de música para crianças, serem encaminhados para a cul­ tura. Entre os aprovados simplesmente estão também os de solicitação de regis­ tro, de apoio a alterações de legislação, de análise de planos de cultura estaduais e municipais. Quanto aos projetos diligenciados, um dos motivos mais freqüentes era a ausência de pareceres de órgãos de cultura locais, que poderiam ser os con­ selhos (municipal ou estadual) ou as secretarias de cultura. Lembrando que um dos principais objetivos do CFC era o de articular-se com os órgãos municipais e estaduais de cultura.

com os órgãos municipais e estaduais de cultura. A verba anual de que dispunha o CFC

A verba anual de que dispunha o CFC era inferior à demanda por recur­

sos, fazendo com que muitos projetos recebessem considerações, mas tivessem o pedido de auxílio negado. Entre os critérios das negativas estavam a ausência de natureza cultural do projeto e a concentração de recursos para um mesmo solici­ tante. Muitas instituições enviavam várias solicitações de auxílio ao longo do ano e obtinham aprovação para uma ou duas, não mais do que isso. Os seis estados mais contemplados com verbas em 19 71, segundo o arti­ go, foram: Guanabara - 41 ,78%; Pará - 10,96 %; Minas - 9,52%, São Paulo - 7,58%, Pernambuco - 6,83% e Rio Grande do Sul - 5,87%. Tais números de- monstram uma concentração no estado da Guanabara, antiga capital federal, que ainda era a sede de muitos dos órgãos federais de cultura, inclusive do próprio CFC. Dos 58,22 % restantes, 34,89% foram gastos de maneira bem descentraliza­ da, beneficiando diversas regiões do país. Para uma análise mais aprofundada desse quadro de distribuição de verbas, seria importante mapear cuidadosamen­ te os locais e as entidades que obtiveram apoio do CFC; entretanto, esse não é o objetivo deste artigo.

A verba total gasta em 1971 foi de Cr$ 2.618.200,00, com a seguinte dis­ tribuição por área:

,

85

estudos históricos e

2006 - 37

Quadro I

Câmara Anes
Câmara
Anes

Fonte: Boletim do Conselho Federal de Cultura, n. 5, janJmar.1972.

Para um melhor entendimento das informações contidas no Quadro I é necessário analisarmos o tipo de demanda que era apresentada ao CFC e como era feita a distribuição para análise entre as câmaras. No caso da câmara de letras, encontramos a maior parte das demandas oriundas de academias de letras, centros culturais, bibliotecas. Para a área de le­ tras também eram direcionados pedidos como os de construção de casas de cul­ tura, exposições, publicações de periódicos de instituisões diversas, seminários, aquisição de livros e equipamentos para bibliotecas. E interessante notar que o conceito de centro cultural e de casa de cultura aplicado pelo CFC era o de lugar de letras, e não lugar de artes, já que os conselheiros que formavam a câmara de letras eram escritores e literatos, que não exerciam atividades na área artística. Para a câmara de ciências humanas iam as demandas de instituições tais como os institutos históricos e geográficos de todo o país, arquivos públicos, mu­ seus de ciências e institutos de estudos brasileiros. A maioria dos pedidos con­ centrava-se nas publicações de estudos e reedições de obras clássicas, seminários nacionais e internacionais, compra de equipamentos e auxílios para preservação de acervos. No caso da câmara de patrimônio, as demandas foram por conservação e restauração de obras de arte, de edificações tombadas e de museus. O que muitas vezes fazia com que pedidos de centros culturais e casas de cultura transitassem entre as câmaras de letras e de patrimônio era a questão do valor artístico e histó­ rico do prédio onde seriam instaladas. A edificação de museus era uma atribui­ ção da área de patrimônio, mas muitas vezes a compra de equipamento ou a aqui­ sição e proteção do acervo ficava a cargo de outras áreas. Para a câmara de arte foram direcionadas as demandas das orquestras, conservatórios, grupos musicais e teatrais diversos, escolas da área arústica. Tam­ bém iam para a área de artes obras e reformas de teatros e sedes de grupos artísticos não tombados pelo patrimônio. Outra demanda muito freqüente era por verbas para a manutenção de orquestras e grupos teatrais. Foram localizados também pe­ didos para turnês de balé, ópera, orquestras sinfônicas, aquisição de instrumentos

86

o COllselhoFederal de Cultura, 1971-1974

musicais, partituras, publicações sobre obras de arte. Existiam, ainda, solicitações para radiodifusão educativa e para a aquisição de filmes documentários. A comissão de legislação e normas analisava projetos e propostas de leis ligados à normalizaçao da área cultural. Cabia à comissão a análise de pedidos de registros de instituições apresentadas como culturais, o que as habilitava a solici­ tar auxílio ao conselho. Quando ocorria alguma dúvida de ordem legal, em qual­ quer área, a comissão também era consultada. Abaixo é apresentado um quadro com uma espécie de tipologia das ins­ tituições que buscavam auxílio do CFC, montado com base nas informações pu­ blicadas nos primeiros oito números do Boletim, de janeiro de 1971 a dezembro de 1972. Logo de início pode ser verificado que grande parte das solicitações es­ tava ligada a questões do campo da institucionalização da cultura e a áreas mais tradicionais da produção cultural.

Quadro 11

Academias de 25 Nacional 04 03 05 culturais de caráter mais 07 09 02 Centros
Academias de
25
Nacional
04
03
05
culturais de caráter mais
07
09
02
Centros culturais
Centros
em áreas diversas 4
07
Conselhos de cultura - estaduais e
22
de música
21
07
04
08
Faculdades
06
19
Governos de estado
09
culturais S
02
Grupos teattais e escolas de teatro
08

87

21 07 04 08 Faculdades 06 19 Governos de estado 09 culturais S 02 Grupos teattais

estudos Izistólicos _

2006 - 37

07
07
07
07
07
07
07
07
07
07
07

07

07
07
07
 

03

10

Pessoas físicas

 

26

Pinacotecas

O!

Radiodifusão educativa

   

Secretarias de

 

06

 

01

 

diversos 7

02

Sociedades artísticas e culturais

 

12

Universidades

 

08

Universidades

01

Fonte: Boletim do Conselho Federal de Culcura - D. 1 ao D. 8

Para compor o quadro acima foram selecionados somente os pedidos de auxílio que envolviam desembolso financeiro por parte do CFC. Foram excluí­ das apreciações de legislações, pedidos de registro, pareceres sobre estudos etc., que no período somaram 109 projetos. Como se trata dê um estudo de demanda, não houve aqui a preocupação de classificar as solicitações entre aprovadas ou não. A análise das informações acima mostra que 68 solicitações, ou seja, 20,86 % do total dos pedidos, tiveram origem em órgãos de governo, sejam federais, esta­ duais ou municipais, e em conselhos de cultura. Muitos órgãos públicos federais, como o Arquivo Nacional, o Serviço Nacional de Teatro, universidades públicas, a Biblioteca Nacional e a Casa de Rui Barbosa, buscaram apoio do CFC, na gran­ de maioria das vezes para publicações e estudos, o que demonstra uma escassez de recursos para essas ações em diversas instituições. Os museus 8 e os institutos históricos e geográficos espalhados por todo o país também estão na lista dos que fizeram constantes solicitaçóes de aUXI1io ao ór­ gão, com 35 pedidos que correspondem a 10,74 %. No campo das artes encontramos uma grande demanda dos conservatórios, das orquestras e das escolas de música (to­ dos ligados à música erudita), que somam 31 pedidos correspondendo a 9,51 %.

88

o COIIscllro Federal de Cultura, 1971-1974

o quadro apresentado reflete uma realidade de grande carência de in­ vestimentos no campo da administração pública da cultura. Observa-se a falta de manutenção e preservação de prédios, acervos e equipamentos - que parece ser um problema crônico no Brasil. A partir dos dados apresentados também pode­ mos constatar que há uma predominância de solicitações originárias dos setores públicos, em diferentes esferas de governo, e das atividades ligadas à arte erudita - como balés, óperas, orquestras de câmara e sinfônicas. Solicitações para reali­ zação de atividades ligadas à cultura popular são praticamente inexistentes. Par­ te dessa concentração pode ser entendida considerando-se os próprios critérios de concessao de auxílios. Uma das exigências para a solicitação de recursos era que a instituição tivesse obtido previamente registro no CFC. Tal requisito ter­ minava por inibir a aproximação de grupos ligados às manifestações populares. Existem ainda algumas solicitações individuais, mas sempre de artistas reconhe­ cidos, de preferência de projeção nacional, que haviam tido relevante contribuição para a cultura. Em termos do que se poderia chamar de democratização da cultura, as ações do conselho se concentravam na conservação, criaçao e aparelhamento de espaços de visitação pública e gratuita. Não era comum que o CFC aprovasse apoios na íntegra do valor solicita­ do. Algumas vezes os projetos eram desmembrados, e o apoio era direcionado para itens específicos. Já na segunda metade do ano de 1972, o órgão estava pas­ sando por sérias dificuldades financeiras, o que fez com que fosse negado auxílio para a maioria dos projetos. Alguns processos passaram a receber pareceres favo­ ráveis com a observação de que a decisão somente se cumpriria se ocorresse uma suplementação do orçamento. As observações quanto à diminuição das verbas do conselho e uma pos­ sível paralisação começaram a surgir em 1971. No Boletim número 4 - out.-dez. 1971, em parecer sobre um pedido de verbas para o ano de 1972 da Fundação Bie­ nal de São Paulo, o conselheiro Silvio Meira expõe a difícil situação financeira em que se encontrava O órgão e apresenta o seguinte quadro:

que se encontrava O órgão e apresenta o seguinte quadro: Verbas do Conselho Federal d e

Verbas do Conselho Federal de Cultura9

Au ílio de 1967 (programa de emergência) Cr$ 893.346,92 Auxílio de 1968 Cr$ 4. 000.000,00
Au ílio
de 1967 (programa de emergência)
Cr$ 893.346,92
Auxílio de 1968
Cr$ 4. 000.000,00
Auxilio de 1969
Cr$ 3.902.100,00
Auxflio de 1970
Cr$ 3.372.006,00
Auxílio de 1971
Cr$ 2.552.900,00
Auxilio de 1972 (em votação no Congresso)
Cr$ 1.717.000,00

89

estudos históricos e

2006 - 37

A partir das informações apresentadas por Silvio Meira, percebe-se uma diminuição contínua e significativa das verbas destinadas ao CFC. No primeiro ano de efetivo funcionamento, em 1968,0 conselho recebeu mais que o dobro da verba prevista para o ano de 1972. No mesmo período �correu o crescimento do número de instituições registradas pelo órgão e, conseqüentemente, habilitadas para solicitar auxílio. Era muito freqüente que os pedidos de registro já viessem acompanhados de solicitações de auxílio. Esse quadro nos permite compreender as possibilidades iniciais do CFC de implementar projetos próprios e a dificul­ dade de mantê-los nos anos subseqüentes.

Projetos e políticas

Desde o período da sua criação, o CFC possuía um projeto próprio: o das casas de cultura. O projeto foi elaborado por Josué Montello (primeiro presiden­ te do conselho) e implementado na gestão de Arthur Reis (1969-1972). de, projetos de casas de cultura já vinham sendo experimentados em alguns paí­ ses da Europa, em especial na França e na Espanha. Em 1956, na Espanha, foi sancionado um decreto criando e regulando o funcionamento das casas de cultura. No decreto estava previsto que as casas de cultura seriam lugares onde se reuniriam atividades de arquivos, bibliotecas e museus, funcionando através de um acordo prévio entre os órgãos provinciais, municipais e o ministério da educação nacional. Nas casas de cultura também se­ riam desenvolvidos trabalhos de formação cultural através de conferências, ex­ posições, recitais, concertos, oficinas de teatro, projeções cinematográficas, en­ tre outras atividades (Pérez-Rioja, 1971). O projeto de casas de cultura mais famoso e mais bem-sucedido é o fran­ cês, que serviu de fonte de inspiração para diversos países. A iniciativa francesa foi de André Malraux, que foi ministro da Cultura da França de 1959 a 1969. Em 1961, ao lançar o primeiro plano qüinqüenal para a cultura, Malraux anunciou o projeto de criação de casas de cultura por toda a França. A idéia era criar espaços onde estivessem presentes formas culturais nos seus mais diversos aspectos, e, em especial a cultura popular. A primeira Maison de la culture foi inaugurada em Bourges em 1964. No projeto brasileiro, as casas de cultura poderiam servir para diversos tipos de atividades culturais. Para sua implantação era necessário o estabeleci­ mento de um convênio entre o CFC e o município, pelo qual ambos contribui­ riam financeiramente para a execução do projeto. A administração da casa de cultura ficava a cargo do município, devendo também contar com a presença de um membro do Conselho Municipal de Cultura - no caso de o município ter um conselho. Essa era uma estratégia eficaz de incentivo à estruturação da ação

90

o COllselllOFedera/ de Cultura, 1971-1974

municipal no campo da cultura. A casa de cultura deveria possuir biblioteca, au­ ditório e teatro, funcionando como centro de atividades culturais, para que pu­ desse servir à população local. A primeira casa de cultura foi inaugurada em 17/1 2/1970, na cidade de Lençóis, na Bahia. Em janeiro de 1 973, o CFC havia im­ plantado 17 casas de cultura distribuídas pelos seguintes estados: Pará, Acre, Amazonas, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo. Entre as atribuições do CFC estava também a de promover intercâm­ bios internacionais. No número 3 do Eo/erim, jul-set de 1971, encontra-se publi­ cada uma conferência de Arthur Reis realizada na Academia Catarinense de Le­ tras, na qual ele relata seis proposições apresentadas pela delegação brasileira na convenção da Unesco, da qual o CFC também fazia parte. As proposições apre­ sentadas foram as seguintes:

I - Realização de inventários das instituições culturais mundiais.

2 - Elaboração de estudos sobre as repercussões que a urbanização está promovendo sobre as atividades culturais das populações rurais.

- Encorajamento aos Estados-membros na defesa nao só dos monu­ mentos arquitetônicos, mas também dos conjuntos urbanos.

4 - Realização de csmdos das culturas em perigo de extinção e estabele­

cimento de um centro internacional de documentação relacionado com a pre­ servação das culturas. 5 - Fomento ou apoio da Unesco aos estudos de medidas que criem re­ cursos financeiros. 6 - Patrocínio da Unesco na realização de estudos sobre sistemas de isen­ ção ou redução fiscal para pessoas físicas ou jurídicas que prestem auxílio às ati­ vidades culturais. !O

Na publicação do Eo/erim número 3, de janeiro de 1973, Arthur Reis re­ toma a discussão das duas últimas proposições afirmando que os países partici­ pantes da convenção foram contra qualquer proposta que pudesse ter como re­ sultado aumento ou alterações na carga tributária.

3

re­ sultado aumento ou alterações na carga tributária. 3 o plano e as diretrizes nacionais de

o plano e as diretrizes nacionais de cultura

o Decreto n° 60.448, de 13/3/67, no artigo terceiro, parágrafo décimo, determinava que, entre as �')mpetências do CFC, encontrava-se a de "elaborar o Plano Nacional de Cultura, com os recursos oriundos do Fundo Nacional de Educação (Fundo Nacional de Ensino Primário, de Ensino Médio e Ensino Superior) ou de outras fontes orçamentárias, ou não, postas ao seu alcance". Se­ gundo Adonias Filho, esse procedimento orçamentário foi logo desaconselhado

91

estudos históricos e

2006 - 37

estudos históricos e 2006 - 37 pela procuradoria federal, e O governo procurou pensar outras formas

pela procuradoria federal, e O governo procurou pensar outras formas de obter os recursos financeiros necessários. 1 1 Em 1969, foi entregue ao ministro Jarbas Passarinho um primeiro Plano Nacional de Cultura que deveria ser encaminhado para a aprovação no Congres­ so. O plano circulou entre os parlamentares, mas nunca chegou a ser votado. Um dos problemas enfrentados pelo documento foi O parecer da consultoria da Pre­ sidência da República, que concluía que tal ação não era da competência do CFC. O argumento estava baseado na reforma administrativa implementada a partir do Decreto-Lei n° 200, de 25/02/1967, e de outros dispositivos legais que deter­ minavam que não era da alçada de conselhos elaborar planos que estivessem condicionados à existência de verbas. Arthur Reis, em um texto de 1971, ao ressaltar a necessidade de valoriza­ ção das instituições culturais no Brasil e de realização de reformas administrati­ vas, fez um relato, que na verdade era uma queixa, lembrando que o Plano Nacio­ nai de Cultura já havia sido entregue ao ministro e que:

Um grupo de trabalho, sob a presidência deJosué Mon­ tello, ouvidos todos aqueles serviços, elaborou um trabalho pioneiro, posteriormente revisto por outro grupo do Conselho Federal de Cultu­ ra, e submetido à consideração do ministro Jarbas Passarinho. Entre as inovações propostas estava a da criação do Serviço Nacional de Música, Serviço Nacional de Artes Plásticas, da Secretaria para os Assuntos Cul­ turais, embrião de um futuro Ministério da Cultura. A Secretaria, na re­ forma adotada, ficou reduzida a um Departamento de Assuntos Cultu­ rais, com uma competência estranha, em matéria técnica de administra­ ção, de supervisionar e ter sob sua coordenação os demais departamen­ tos e os institutos.

Tendo permanecido na presidência do CFC de 1968 a 1973, Arthur Reis, em seu discurso de despedida, retomava a problemática do Plano Nacional de Cultura que havia sido elaborado. Afirmava que, sem orçamento, o CFC não ti­ nha como dar continuidade aos trabalhos. orçamento havia terminado antes do fim do ano, e de que fora necessário receber uma verba extra para concluir os trabalhos que estavam em curso. Dizia ainda que a previsao para 1973 era pior, pois o orçamento fora reduzido e estava quase limitado às despesas com pessoal e com osjetons dos conselheiros. 1 4 Reafirmava que, sem o Plano Nacional de Cultura, ficava dificil dar início à execução de pro­ gramas, pois faltavam efetivamente diretrizes que orientassem as ações políticas do Estado no campo da cultura. Em janeiro de 1973, O ministro Jarbas Passarinho pediu ao CFC que ela­ borasse diretrizes para uma política nacional de cultura. Nacional de Cultura anteriormente preparado tornara-se inviável. Em lugar de

92

o COllselho Federal de Cultura, 1971-1974

planos, deveriam ser concebidas diretrizes para as políticas públicas de cultura que, após serem submetidas à apreciação do presidente da República, deveriam ser desdobradas em planos, programas e projetos l5 A solicitação do ministro dava ao CFC um prazo curto para a elaboração de um esboço das diretrizes que seriam postas em prática posteriormente, através de planos a serem formulados pelo Departamento de Assuntos Culturais (DAC). O CFC entregou ao ministro Passarinho, em março de 1973, um documento denominado Dir etrizes para uma

política nacional de cultura.

A entrega do documento ocorreu no fim dos mandatos de Arthur Reis e Andrade Muricy na presidência e vice-presidência do CFC e início da gestão de Raymundo Muniz de Aragão e Manuel Diegues Junior. A apresentação do nono número do Boletim traz algumas considerações sobre os quatro anos da gestao que findava e afirma que o documento Dirernzespara uma polírica nacional de cul­ tura havia sido elaborado conforme as recomendações do ministro Jarbas Passa­ rinho. Estariam traçadas ali as linhas gerais e as normas de ação do governo na área da cultura com base no tripé defesa do patrimônio, incentivo à criatividade e a difusão da cultura. As atas das reuniões do CFC, ao longo dos meses de janeiro e fevereiro de 1973, registram as discussões sobre o plano anteriormente elaborado. Para mui­ tos conselheiros o trabalho já havia sido feito. Insistiam no fato de que o esforço da realização havia sido desperdiçado. Afonso Arinos de Melo Franco, que presi­ dia a comissão de legislação e normas do conselho, foi o escolhido para a coorde­ nação dos trabalhos e para a sistematização do texto final. A maneira por ele en­ contrada para diminuir a insatisfação de parte do conselho foi aproveitar parte dos estudos já realizados para a construção das novas diretrizes. O documento entregue ao ministro Jarbas Passarinho divide-se em duas partes. Na primeira, encontram-se as consideraçôes preliminares, os fundamen­ tos legais e os conceitos fundamentais. Na segunda parte é apresentado o que se­ ria a "Política Nacional de Cultura", com definição, objetivos, normas de ação e previsao de recursos financeiros. O documento define como política o "conjunto de diretrizes que orientam e condicionam a ação governamental". Ainda na par­ te dos conceitos fundamentais, considera-se a cultura como o somatório das cria­ ções do homem e afirma-se que a "justiça social reclama que os seus benefícios sejam acessíveis ao cidadão comum, e este adequadamente educado para usu­ fruí-los". 16 O que inicialmente parecia ser uma visão democrática e ampla da cul­ tura, na qual estaria incluído o conjunto de saberes e fazeres, logo é desconstru­ ído pela observação de que, para usufruir dessa cultura, o homem comum tem que estar adequadamente educado, ou seja, deve ter seu gosto cultural apurado pelo saber escolarizado. No parágrafo final da primeira parte essa visão reforça-

93

estudos históricos e

2006 - 37

da com a afirmativa de que: "No contexto da política nacional que visa a edificar uma sociedade aberta e progressista, a difusão da cultura tornando-a acessível a todos, e a educação, preparando cada um para usufruí-la, formam o binário de forças que promoverão a valorização do homem brasileiro". '7 No documento, a cultura brasileira é definida como aquela criada aqui ou resultante de aculturação. A utilização do conceito de aculturação pressupõe que no processo de contato entre grupos e culturas ocorre um processo de subor- dinação e hierarquização entre eles. E diferente do conceito de miscigenação, de cruzamento inter-racial, que mistura os diferentes, que gera um processo de mestiçagem e de caldeamento cultural.

,

O documento expressa também uma preocupação com o processo contí­

nuo de valorização de elementos culturais estrangeiros que estariam contribuin­ do para o desaparecimento e a desvalorização do acervo cultural brasileiro acu­ mulado. Esse processo estaria colocando em risco a preservação da "personalida­ de brasileira" e a segurança nacional. Alerta-se para o fato de que em um país de dimensão continental, que vive processos de crescimento populacional acelera­

do e de miscigenação étnica contínua e permanente, é fundamental a manuten­ ção dos elementos variados formadores da personalidade nacional. As questões da manutenção, do registro e do resgate dos elementos culturais formadores da

nação brasileira estão presentes em diversas passagens do documento. A política cultural é colocada como um dos elementos importantes na construção e manu­ tenção das políticas de segurança e de desenvolvimento.

A segunda parte é dedicada a definir uma política nacional de cultura. O

primeiro item é o que define política cultural como o conjunto de diretrizes do governo que visa a conservar o patrimônio cultural, definido como:

Constituído das tradições históricas e dos hábitos e cos­ tumes estratificados; das criaçoes artísticas e literárias mais representa­

tivas do espírito criador brasileiro; das realizações técnicas e científicas de especial significação para a humanidade; das cidades, conjuntos ar­ quitetônicos e monumentos de significação histórica, artística, cívica ou religiosa; das jazidas arqueológicas; das paisagens mais belas ou típicas

do

ros 18

território pátrio; das idéias e dos ideais partilhados pelos brasilei­

das idéias e dos ideais partilhados pelos brasilei­ A conservação desse patrimônio tem como objetivo o

A conservação desse patrimônio tem como objetivo o "incentivo da atu­ alização do nosso potencial criativo em todos os setores da cultura" e a "adequa­ da divulgação das manifestações e dos resultados dessa criatividade". Existe uma clara hierarquização dos saberes e dos fazeres culturais no conceito de patrimô­ nio elaborado pelo CFC, que é representada pelas expressões: "mais representa­ tivas", "mais belas" e "de significação".

94

o COllsclhoFcdcral de Cultura, 1971-1974

As diretrizes nunca foram colocadas em prática como uma política. Po­ rém, observando o processo de alterações do quadro institucional, comentado na primeira parte do texto, verifica-se que as propostas presentes no documento di­ alogam com experiências que estavam sendo postas em prática naquele momen­ to. Ainda na continuação da definição de política, o documento apontava como uma das ações necessárias a promoção de "estudos e pesquisas sobre o homem e a sociedade brasileiros". Essa recomendação é somada a outras passagens do docu­ mento que reafirmam a necessidade do levantamento e do conhecimento do conjunto de elementos que compõem a cultura brasileira. Podemos ver o Centro Nacional de Referência Cultural, que foi concebido por Aloísio Magalhães e ini­ ciou suas atividades em 1975, como um dos lugares criados para suprir essa ne- cessidade de conhecimento e de preservação dos elementos nacionais. E claro que não se deve perder de vista o caráter inovador da proposta de Aloísio e o cará­ ter conservador sempre presente nas propostas do CFC. A comparação tem o in­ tuito de apontar como as questões da necessidade de elaboração de políticas cul­ turais estavam presentes no período e vinham sendo pensadas e postas em práti­ ca em diversas esferas do governo e por intelectuais de diferentes matrizes de pensamento. A política nacional de cultura, segundo o documento Diretrizes, deveria estar pautada sobre três objetivos básicos: a preservação do patrimônio cultural, o incentivo à criatividade e a difusão das criações e manifestações culturais. A di­ fusão seria a responsável pela democratização da produção cultural, através da qual o governo faz retornar à nação o que foi produzido. O documento enumera as medidas básicas que deveriam ser implemen­ tadas para viabilizar a execução de uma política nacional de cultura. São dez itens: 1- Criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Cultura; 2- Cria­ ção do Serviço Nacional de Música; 3- Criação do Serviço Nacional de Artes Plásticas; 4- Criação do Serviço Nacional de Folclore; 5- Levantamento e ca­ dastramento dos bens culturais, cuja defesa seja obrigação do poder público; 6- Estímulo ao funcionamento e à criação dos conselhos de cultura; 7- Criação das casas de cultura; 8- Implantação de um sistema de colaboração entre as uni­ versidades federais, estaduais e privadas, em seus diversos institutos, como es­ tímulo aos estudantes para o estudo e conhecimento da vida cultural do país; 9- Recuperação e restauração de bens privados tombados, desde que comprovada a incapacidade financeira dos proprietários; 10- Financiamentos de projetos de natureza cultural. Grande parte das medidas previstas já estava sendo executada pelo CFC. Entretanto, a existência de um plano aprovado significaria a destinação dos re­ cursos necessários para a manutenção do trabalho. Por isso, a primeira medida

,

95

significaria a destinação dos re­ cursos necessários para a manutenção do trabalho. Por isso, a primeira

estudos históricos e

2006 - 37

da lista é a da criação de um fundo, como o da educação, com destinação certa e li­ vre das restrições orçamentárias. Existe uma preocupação fundamental de in­ ventariar, de incentivar a realização de levantamentos que permitiriam a construção de um diagnóstico da situação da cultura no país. Para a execução dos projetos e dos programas básicos a serem postos em prática pela nova política, o documento indica a necessidade de criação de "um novo organismo ou de adaptação de órgão já existente, aumentando-lhe a hierar­ quia e a área de competência". 19 O novo órgão teria funções de planejamento, execução, coordenação e avaliação das políticas e atividades implementadas no campo da política pública de cultura. O documento reforça a necessidade da ins­ titucionalização administrativa da área da cultura, propondo, inclusive, o aper­ feiçoamento e a atualização da legislação cultural.

A última parte do Diretrizespara umapolítica nacional de cultura apresenta

algumas considerações sobre as dificuldades administrativas de um ministério que abrange duas áreas distintas, ainda que se completem, como é o caso da edu­ cação e da cultura. Aponta para o fato de que a educação é uma área que absorve muito a atenção do Estado e, como resultado desse processo, a cultura fica sem­ pre em segundo plano. Depois dessas argumentaçoes, o documento propõe a cri­ ação do Ministério da Cultura, argumentando que só assim poderá ser montada a estrutura administrativa necessária para a implementação de umaPolica Nacio­

nal de Cultura.

96

Reflexõesfinais

A ação do CFC, através do estímulo contínuo à formação de órgãos cul­ turais nos níveis estaduais e municipais, contribuiu para o início do processo de institucionalização do campo da cultura. O CFC mantinha suas decisões alicer­ çadas em bases fortemente conservadoras. Este fato não impediu que muitas das propostas por ele elaboradas fossem adaptadas e colocadas em prática por grupos mUlto mais progressistas. Os membros do conselho, ainda que diretamente escolhidos pelo presi-

. dente da República, eram intelectuais de renome em suas respectivas áreas e se mostravam comprometidos com o projeto de colocar a área da cultura em iguais condições de tratamento de outras, como as da educação e da saúde, pela admi­ nistração pública. O CFC iniciou suas atividades no final da década de 1960 com autono­ mia e recursos financeiros consideráveis. Ao longo da década de 1970, o poder e o papel do conselho foram sendo diminuídos, principalmente frente ao surgimen­ to de novos programas e à criação de instituições mais modernas.

••

o Conselllo Federal de Cultura, 1971-1974

Notas

1. Em 1974, o conselho passou a contar com mais dois membros: o diretor-geral do Departamemo de Assumos Culturais (DAC) e o diretor do Instituto Nacional do Livro (INL).

2. Boletim do Conselho Federal de Cultura,

ano 3, n.9, jan. /

3. Nessa categoria se encontram associações do tipo: Associação Brasileira dos Críticos de Arte, Sociedade Cultural e Artística Uirapuru, Associação Brasileira de Imprensa, entre outras.

4. Foram enquadradas nessa categoria

instituições como o Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais ou o Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.

S. Existem alguns grêmios como o Grêmio Cultural do Ginásio Assunção de Itapaci.

6. Estão nessa categoria institutos como o IEB da Universidade de São Paulo, o Instituto Nacional do Livro (INL), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ou o Instituto Brasileiro de História da Medicina.

7. Nesse caso os pedidos de auxílio

destinavam-se diretamente aos eventos.

8. Na categoria museus foi dificil fazer a

distinção entre os públicos e os pertencentes a grupos ou instituições

Referências biblio g rá f icas
Referências biblio g rá f icas

ADONIAS FILHO. 1978. O Conselho Federal de Culrura. Brasília, MEC.

Boletim do Conselho Federal de Culrura. Brasília, MEC.

privadas.O critério adotado foi concentrar todos em um só item.

9. Boletim do Conselho Federal de Cultura, ano I, n. 4, jan./

10. Boletim do Conselho Federal de Cultura,

ano 1, n. 3, jul. /

11. Boletim do Conselho Federal de Cultura, ano 3, n. 9, jan./

12. Boletim do Conselho Federal de Cultura,

ano 3, n.9, jan. /

13. Boletim do Conselho Federal de Cultura,

ano 1, n. 3,

14. Boletim do Conselho Federal de Culrura,

ano 3, n. 9, jan./

15. Boletim do Conselho Federal de Culrura,

jul./

ano 3, n. 9, jan. /

16. "Diretrizes para uma política nacional de cultura", Boletim do ConselJw Federal de Cul!ura, ano 3, n. 9, ian. /

17. "Diretrizes para uma política nacional

de cultura", Boletim do Conselho Federal de

Cultura, ano 3, n. 9, ian. /

18. "Diretrizes para uma política nacional de cultura", Boletim do Conselho Federal de Cultura, ano 3, n.9, jan./

19. "Diretrizes para uma política nacional

de cultura", Boletim do Conselho Federal de

Culrura, ano 3, n.9, jan. /

BOTELHO, Isaura. 2000. Romance de jomração: FU1larte e política cuúura� /976-/990. Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa.

97

estudos histólicos e

2006 - 37

COHN, Gabriel. 1984. "A concepção oficial da po1íüca cultural nos anos 70", em MICELI, Sérgio (org.). Estado e cultura ,w Brasil. São Paulo, Difel.

MICELI, Sérgio (org.). 1984. Estado e cultura no Brasil. São Paulo, Difel.

ORTIZ, Renato. 1985. Cultura brasileira e uumridade ,racional. São Paulo, Brasiliense.

PÉREZ-RIOJA, José Antonio. 1971. Las casas de cultura. Madri, Asociacion Nacional de Bibliotecários, Archiveros y Arqueólogos.

(Recebido para publicação em outubro e aprovado em dezemhro de 2005)

Resumo

O Conselho Federal de Cultura foi criado em novembro de 1966 e permaneceu em funcionamento por mais de 20 anos. O período que vai do final dos anos de 1960 até o final da década de 1970 deve ser analisado como um momento privilegiado no campo da ação do governo federal brasileiro sobre a cultura. Este artigo traz um recorte das ações do Conselho Federal de Cultura entre os anos de 1971 e 1974, tendo como objetivo a recuperação da memória e o mapeamento das ações do Estado no campo da política cultural. Palavras-chave: política cultural, Conselho Federal de Cultura, cultura e política, ditadura militar.

Abstract

The Conselho Federal de Cultura was created in November 1966, and was aclive for more than 20 years. The period between the end of the 60s and the end of the 70s should be ana1yzed as a special moment as far as the Brazilian federal government acrion upon culture is concerned. T his arricle approaches the acrions of the Conselho Federal de Cultura between 1971 and 1974, in order to recover the map and the memory of state aclions in terms of cultural policies. Key words: cultural policy, Conselho Federal de Cultura, culture and politics, military role.

Résumé

Le Conselho Federal de Cultura a été créé en novembre 1966 et s'est maintenu actif pendant plus de 20 ans. La période entre la fin des années

1960 et la fin des années 1970 doit être analysée comme un moment privilégié

de l'action du gouvernement brésilien dans le champs de la culture. Cet

article presente les actions du Conselho Federal de Cultura entre les années

1971 et 1974, dans le but de récupérer le bilan et la mémoire des actions de

,

politique culturelle de l'Etat brésilien. MOIS-c/és: politique culturelle, Conselho Federal de Cultura, culture et politique, dictature militaire.

98