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FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO

Prof. Guilherme Nery Atem

“ Dorme o futuro das coisas que doerão em mim,


desprevenido ”
( Carlos Drummond de Andrade )
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Apresentação da disciplina:
avaliações e conteúdos (conceitos iniciais)
Do mythos ao logos
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA :

O que é “filosofia” ?

Para que serve a filosofia ?

Pensamento = Filosofia ?

O filósofo (segundo Émile Bréhier)


APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA :

Qual a importância para a Comunicação ?

Programa da disciplina

E as avaliações ?
APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA :

Avaliações: AV1 + AV2


( 2ª Chamada e/ou VS apenas para os “espíritos sem luz” )
----------------------------------------------------
AV1: trabalho (Filosofia) → 30/05
+
AV2: trabalho (Filosofia + Comunicação) → 08/07
----------------------------------------------------
2ª Chamada : Prova individual e sem consulta → 15/07
VS : Prova individual e sem consulta → 18/07
GRÉCIA ARCAICA ( Até o séc. XII a. C. )

Descoberta do Linear B

Período obscuro: XII-VIII a.C.

Comércio com outras culturas, especialmente os fenícios

Séc. VIII a.C.: Homero (Ilíada e Odisséia)

Séc. VII-VI a.C.: Pólis + Logos


Conceitos Gerais :

Logos: razão; ciência; discurso

Ágora: praça pública

Pólis: cidade

Oikos: casa

Erística: rivalidade
Conceitos Gerais :

Philia: amor; amizade

Homoiói: semelhantes

Isói: iguais

Eunomia: divisão equitativa de poder

Isonomia: igualdade de regras para todos


Conceitos Gerais :

Isegoria: igual direito de falar, ser ouvido e ouvir

Dike / Adikía: justiça / injustiça

Gerousía: conselho de cidadãos mais velhos

Metecos: estrangeiros

Ostrakon: urna
Conceitos Gerais :

Hestia koiné: “lar público”; ocupar e ceder espaço


simetricamente

Hybris: excesso

Nêmesis: punição divina

Areté: virtude

Sophrosyne: moderação; temperança; justa medida


Conceitos Gerais :

Ta Chrémata (riqueza) → Aphrosyne (loucura)

Cosmo
ordem; ordenação racional; ordem hierárquica; harmonia;
beleza; versus o Caos

Caráter Crítico
debates; discussões; dúvidas; divergências; reformulações;
versus dogmas
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

A Grécia Antiga
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Tales de Mileto (fl.585a.C.) :


“A água é a origem de todas as coisas”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Anaximandro de Mileto (c.610-547a.C.) :


o apeiron (indeterminado; indefinido; ilimitado)

Anaxímenes de Mileto (c.585-528a.C.) :


o ar (pneuma)
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Xenófanes de Colofão (c.580-480a.C.) :


a terra; ataca o antropomorfismo; propõe um deus único
que seria a própria natureza

Heráclito de Éfeso (fl.c.500a.C.) :


o fogo / pluralismo e mobilismo; a realidade natural é
plural e se caracteriza pelo movimento/mudança/fluxo;
“Tudo passa”; o Logos é um princípio unificador do real
(racional); a realidade é marcada pelo conflito equilibrado
de opostos (pólemos); “Ninguém pode se banhar duas
vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Pitágoras de Samos (fl.c.530a.C.) :


Elementos místicos/religiosos na filosofia; imortalidade e
transmigração da alma (metempsicose); o número

Parmênides de Eléia (fl.c.500a.C.) :


Monismo e imobilismo; a realidade natural é una, fixa,
eterna, imutável, contínua, indivisível, imóvel; realidade X
aparência; só se pode reconhecer a mudança se se tiver
algo de essencial que permanece; “O ser é, o não-ser não
é”; o Ser é permanente e imutável
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Zenão de Eléia (fl.c.464a.C.) :


Defesa do monismo/imobilismo; os paradoxos

Aporia da divisibilidade :
“ Aquiles e a tartaruga ”

Aporia do movimento :
“ Flecha imóvel ”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

OS PRÉ-SOCRÁTICOS :

Anaxágoras de Clazômena (c.500-428a.C.) :


A realidade seria composta de uma multiplicidade infinita de
elementos equilibrados em partes iguais (homeomerias)

Leucipo de Abdera + Demócrito de Abdera (c.460-370a.C.) :


Primeiro atomismo (simples): átomos + vazio

Empédocles de Agrigento (c.450a.C.) :


Água, ar, terra e fogo (doutrina dos 4 elementos/rizómata)
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sofistas (V a.C.) :

No plano político, os debates na ágora substituíram o uso da


força física pelo uso da palavra, da argumentação, da razão
discursiva (logos)

Na ágora da pólis, em situação de assembléia, os cidadãos


tinham isegoría (além da isonomia)
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sofistas (V a.C.) :

A palavra como instrumento político: oratória, retórica,


eloquência; dialética; peithó

Do dissenso (erística) ao consenso (philia):


argumentação + demonstração

Os sofistas viajam pela Grécia ensinando (paideia) essas


técnicas da linguagem oral: são “sábios”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sofistas (V a.C.) :

Protágoras de Abdera (490-421 a.C.) :


“O homem é a medida de todas as coisas”; no tratado
Antilogia, cria a técnica de argumentações pró e contra
determinada ideia, ambas igualmente verdadeiras e
defensáveis; antecipar futuras críticas

A realidade está diretamente ligada ao modo pelo qual o


homem a percebe. Não haveria a “realidade absoluta”, e sim
diferentes “verdades relativas”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sofistas (V a.C.) :

Górgias de Leontinos (487-380 a.C.) :


“Nada existe. Se existisse, não poderia ser conhecido/pensado.
Se pudesse ser conhecido/pensado, não poderia ser
comunicado/dito”; sobre a impossibilidade de um
conhecimento estável e definitivo

A ideia de “verdade” fica relativizada e perde a força. A


realidade e a verdade são diferentes.
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sofistas (V a.C.) :

A filosofia se perguntava: o que é a verdade? Quais os


princípios da razão? Com base em que critérios se pode
justificar aquilo que se diz?

A sofística, diferentemente, não buscava a verdade, e sim


a produção de “efeitos de verdade” discursivos
(aparências)

Sócrates, Platão e Aristóteles os criticaram duramente


GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sócrates (V-IV a.C.) :

Foi discípulo de Anaxágoras de Clazômena (c.500-428a.C.),


para quem a realidade seria composta de uma multiplicidade
infinita de elementos equilibrados em partes iguais

Parece que colaborava com a escrita das peças de teatro de


Eurípedes (“Alceste”; Medéia”; etc)

Rompe com a filosofia da natureza e inaugura a Filosofia


Clássica, que investiga principalmente a realidade ético-política
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sócrates (V-IV a.C.) :

Inaugura, com isso, o chamado Período Clássico grego

Ele chamava a atenção das pessoas para a decadência ético-


política de Atenas e as desigualdades econômico-políticas, que
fragilizavam a democracia

Os cidadãos mais ricos e influentes estavam cada vez mais


longe da “verdade”, do conhecimento do “verdadeiro”
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )

Sócrates (V-IV a.C.) :

Criticava e denunciava a corrupção na política de sua época;


defendia a liberdade de pensamento; foi condenado à morte
em 399a.C. por “desrespeito às tradições religiosas e
corrupção da juventude”; ironizou seus detratores no
julgamento; bebeu cicuta e morreu

Método: maiêutica (parto), questionando a doxa (senso


comum + bom senso), expondo as contradições do
interlocutor; “Só sei que nada sei”
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

A Grécia Antiga
Platão (+-428-347a.C.):
CONTEXTO

Filosofia platônica: dualismo de mundos

“Racionalismo e idealismo”

Desconfiança sobre artistas e poetas

Inteligível > sensível: Teoria das Formas (Eidos)


(mimese externa)

O arcaico seria autêntico X o inovador seria falseador

Deve-se alcançar o Ser mesmo (alétheia)


Platão (+-428-347a.C.):
CONTEXTO

Fundou sua escola: a Academia

Seu método era dialético e dedutivo

Obras iniciais: Apologia; Críton; Protágoras; Górgias

Obras intermediárias: República; Fédon; Fedro; Banquete;


Parmênides; Teeteto

Obras tardias: Sofista; Político; Filebo; Timeu; Crítias; Leis


Platão (+-428-347a.C.):
POLÍTICA

A morte de Sócrates, seu mestre, o levou a criticar


duramente a política de sua época, tal como ela se dava:
corrompida → A República

A “boa política” é condizente com a natureza humana, mas


costuma ser corrompida

A finalidade do Estado seria mais do que prover o básico:


seria direcionar seu povo para o bem e o melhor

Cidadãos despreparados degeneram a política X


governante-filósofo
Platão (+-428-347a.C.):
ESTÉTICA

Beleza ideal X objetos belos: inteligível > sensível.

Ascensão ao belo em si, via Amor.

Beleza Absoluta > beleza física.

Belo Absoluto e Bem Absoluto confundem-se.

A visão seria o sentido mais sutil e elaborado.


Platão (+-428-347 a.C.):
LINGUAGEM

Crátilo: o verbal seria apenas uma representação


incompleta da verdadeira natureza das coisas; então, o
estudo das palavras jamais daria acesso à verdadeira
natureza das coisas; as palavras seriam instrumentos
corruptíveis; significar (semaínen) como sinônimo de
revelar.

Origem das palavras: “os primeiros legisladores”

Tese analogista: a relação entre as coisas e as palavras é


natural, originária, essencial – ou seja, “análoga”
Aristóteles (384-322 a.C.):
CONTEXTO
Filosofia aristotélica: crítica a Platão
Aristóteles (384-322 a.C.):
CONTEXTO
Filosofia aristotélica: crítica a Platão
Aristóteles (384-322 a.C.):
CONTEXTO

Filosofia aristotélica: crítica a Platão


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

A Grécia Antiga
Aristóteles (384-322 a.C.):
CONTEXTO

Objetivismo e realismo x idealismo


Método empirista e indutivo

Simetria, unidade, medida, ordenação, proporção


(mímese interna)

Essência X acidente (ou necessidade X contingência; contra


mobilistas e imobilistas); Potência X ato (sobre o “movimento”)
Aristóteles (384-322 a.C.):
CONTEXTO

Fundou sua escola: o Liceu (os “peripatéticos”)

Real: matéria (hylé) + forma (eidos)

As 4 causas: eficiente; material; formal; final

Sua ciência da Física e o “motor imóvel”

Obras:
Órganon; Física; De ânima; Investigação sobre os animais;
Metafísica; A Eudemo; Ética a Nicômaco; A Política; Arte
Retórica; Arte Poética
Aristóteles (384-322 a.C.):
POLÍTICA

Escreveu análises de 158 Constituições de Cidades-Estado


gregas. Sobrou apenas a de Atenas. Do estudo da realidade
política para a prescrição sobre como a Política pode
melhorar

A Pólis seria um tipo de comunidade/família expandida


(Zoon Politikon; ver Sergio Buarque de Holanda: “Raízes do
Brasil”)

Bem maior > Bem menor


Bem ao maior número > Bem ao menor número
Aristóteles (384-322 a.C.):
ESTÉTICA

A arte teria caráter socialmente “purificador das emoções


violentas e antissociais”.

O Belo está no conjunto, e não nas suas partes isoladas.


Harmonia das partes com o todo. A beleza é encontrada nas
coisas reais. O Belo em si seria imanente ao espírito
humano: o ideal está no homem. O Belo e a razão humana
seriam a mesma coisa.

A arte é uma produção criativa (poiésis).


Aristóteles (384-322 a.C.):
LINGUAGEM

Aparências das coisas reais (constantes) → Impressões na


alma (constantes) → fala (variável) → escrita (variável)

Os 2 tipos de discurso: os suscetíveis de verdade ou


falsidade (asserções) e os não-suscetíveis (perguntas;
ordens; súplicas)

Tese anomalista: a relação entre as coisas e as palavras é


convencional, arbitrária, cultural – ou seja, “anômala”

A Retórica
As 4 etapas gerais da Retórica :

1) INVENTIO: encontrar o que se vai dizer.

2) DISPOSITIO: ordenar o que se vai dizer.

3) ELOCUTIO: ornamentar o que se vai dizer.

4) ACTIO: dizer, ou representar oralmente o discurso.

5) MEMORIA: retornar ou retomar o que se disse, para


enfatizar o mais importante.
As 4 etapas específicas da DISPOSITIO :

1) EXÓRDIO: introduz o discurso apresentando o tema;

2) NARRAÇÃO: traz conceitos abstratos e argumentações;

3) PROVAS: traz os exemplos concretos e comprovações;

4) PERORAÇÃO: conclui o discurso retomando os pontos


principais.
Conceitos Gerais :

Semelhança:

Igualdade:

Identidade:

Lógica Formal
Princípio da Identidade ( “ é ” )
Princípio da Não-Contradição ( “ e ” )
Princípio do Terceiro Excluído ( “ ou ” )

Silogismos
PM → pm → C
Conceitos Gerais :

As 4 verdades
Alétheia; Veritas; Emunah; Pragmática

Os 4 modos do Tempo
Aiôn; Kronos; Cronos; Kairós

Lógica Modal
Possível; Impossível; Necessário; Contingente
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

O Período Helênico
Ceticismo ; Epicurismo ; Estoicismo
Período Helênico (séc. VI a.C. – séc. VI d.C.) :

Hélade (Grécia) → Helenos

Decadência da Grécia
Ascensão de Roma
Decadência de Roma
Início da (Alta) Idade Média

“Período Ético”: ação prática virtuosa, equilibrada, feliz


(modus vivendi)

Reuniam-se em locais mais afastados dos centros


Ceticismo (séc. IV a.C. – séc. II d.C.) :

Pirro de Élis (c.365 a.C. – c.270 a.C.) e Sexto Empírico (II d.C.)

O conflito interior é resultado do ato de julgar

Todo juízo se apóia sobre critérios, e não existem critérios


neutros, imparciais → qual o juízo verdadeiro?

Defendiam a prática da suspensão do juízo (epoché), por meio


da imperturbabilidade (ataraxia): CHAUÍ, 2010, p.57-58; 59

Aphasia (ausência de fala) + Apathia (ausência de sensações) +


Apraxia (ausência de ações) = Ataraxia (ausência de
conflito/perturbação interior)
GRÉCIA ANTIGA ( VI a.C. – IV d.C. )
“Atitude pirrônica”: não seguir mestres nem doutrinas
Interrogação incessante e sobre tudo
Epicurismo (séc. IV a.C. – séc. I a.C.) :

Epicuro de Samos (341 a.C. – 270 a.C.) e Lucrécio (98-55 a.C.)

O jardim de Epicuro (em Atenas)

Ação virtuosa → hábitos éticos

Empirismo

Buscar moderadamente o prazer, em detrimento da dor → o


riso (hedonismo para estabilizar/tranquilizar a alma)
versus “As lágrimas de Heráclito”: CHAUÍ, 2010, p.87

Atomismo complexo: o clinâmen


Epicurismo (séc. IV a.C. – séc. I a.C.) :

Atomismo complexo: o clinâmen


Epicurismo (séc. IV a.C. – séc. I a.C.) :

Infinitos átomos minúsculos, eternos, imutáveis e de formas


variadas, que se movem no vazio em queda livre: cáem em
linha reta, mas se desviam “aleatoriamente”
(potência + desejo → liberdade da alma humana)
CHAUÍ, 2010, p.101; 103

Coisas são agregados específicos de átomos, que um dia se


desagregam.

Os deuses existem, mas não se interessam pelos homens...:


CHAUÍ, 2010, p.78.
Estoicismo (séc. III a.C. – séc. II d.C.) :

Stoa Poikilé (pórtico pintado)

Grécia: Zenão (paradoxos); Cleantes; Crisipo (a carroça e a


boca)

Roma: Sêneca; Plutarco; Epiteto; Marco Aurélio

Razão > afetos (apathia; anti-hedonismo): “Domina-te e


suporta”

As 3 partes da Filosofia: Física (raiz), Ética (frutos) e Lógica


(tronco)– unidas pelo Logos (Deus), o qual forma, com a Hylé
(matéria) o Cosmos (universo; ordem; harmonia; beleza)

Lógica: 2 partes – a Retórica e a Dialética


Estoicismo (séc. IV a.C. – séc. II d.C.) :
Dialética: 2 partes – a Phoné (Ste) e o Lekton ou Semainómenon
(Sdo); segundo Crisipo, a Dialética é a ciência das coisas
significadas e significantes

Impressão → Lekton → Fala

Lekton: aquilo que pode ser dito; o “linguajável”; o exprimível

0s 4 “incorporais”: tempo; lugar; vazio; exprimível (lekton)

Lekton, ou “exprimível incorporal”: ontologicamente, é um


incorporal; epistemologicamente, é o conteúdo de um
pensamento; linguisticamente, é a significação de uma frase
acabada

A questão estóica: como o sentido novo eclode?


Estoicismo (séc. IV a.C. – séc. II d.C.) :

Resposta: importa mais “o que acontece a um corpo”, e que


pode ser expresso verbalmente → transformações incorporais

O que o lekton faz? Ele insere um espaço (de ligação ou


passagem) entre palavras e coisas

Agenciamento entre o Sentido e o Acontecimento (este, um


“efeito de Sentido”)

Sentido e Diferença (ver Deleuze, 1994)

Não são representadas as “coisas em si”, mas “situações”,


movimentos, estados transitórios dos corpos: “A árvore verdeja”;
“O ferro esquenta-se”; “Sócrates sabifica-se”
Estoicismo (séc. IV a.C. – séc. II d.C.) :

O mundo seria um “ser vivo”, uma “unidade sempre móvel”: “Os


estóicos se esforçaram para definir a ‘propriedade’ (ou
‘característica’) de modo a fazê-la nascer da qualidade fundamental
de ‘estado’, sem a intervenção exterior de uma ‘forma’.” (Bréhier,
1989, p. 9)

Nunca conhecemos os corpos em si, mas corpos em situação


(tempo presente); os corpos são causas e efeitos das ações e
paixões de outros corpos

Os atributos (verbos que indicam atos) não são seres, mas “modos
de ser” (transitórios): Tinologia (tì) → “algo”

A realidade física é corpórea, mas seus “modos de ser” são


incorporais (e não afetam a realidade física)
Estoicismo (séc. IV a.C. – séc. II d.C.) :

Os estóicos colocavam os incorporais nos efeitos dos seres, e não


nas suas causas

O objeto físico possui um atributo, que é o de ser expresso,


significado por uma palavra

Um caso + um verbo (sem cópula lógica)

Exprimíveis completos: sujeito + verbo

Exprimíveis incompletos: verbo sem sujeito

Amantes dos paradoxos (jogos na superfície da linguagem):


“Aquiles e a tartaruga”
“Eu sempre minto”
REFERÊNCIAS :

BRÉHIER, Émile. La théorie des incorporels dans l’ancien stoïcisme. Paris: J.


Vrin, 1989.

CAUQUELIN, Anne. Freqüentar os incorporais: contribuição a uma teoria da


arte contemporânea. São Paulo: Martins, 2008.

CITELLI, Adilson. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 2004 (8ª ed.).

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. 3. ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1994.

FRANCHETTO, Bruna; LEITE, Yonne. Origens da linguagem. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Editor, 2004.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. 6.ed. Rio de Janeiro:


Jorge Zahar Editor, 2001.
REFERÊNCIAS :

NEF, Frédéric. A linguagem: uma abordagem filosófica. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar Editor, 1995.

NÖTH, Winfried. Panorama da semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo:


Annablume, 1995.

PLATÃO. Crátilo. In: Diálogos (vol IX) – Teeteto e Crátilo. Pará: Universidade
Federal do Pará, 1973.

TOURINHO, Carlos Diógenes. Da Antiguidade à Idade Média. Aparecida:


Ideias & Letras, 2010.

WEEDWOOD, Bárbara. História concisa da Lingüística. São Paulo: Parábola, 2ª


edição, 2003.
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Idade Média e Renascimento


IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Obscurantismo? Atraso econômico? Crise da política?

Feudalismo; Teocracia católica; guerras religiosas; Peste Negra.

Arte gótica; poesia lírica dos trovadores; diversas filosofias;


universidades.

Os hebreus concebiam que o poder, em sua plenitude e verdade,


pertence exclusivamente a Deus, e que este, por meio de anjos e
profetas, elege o governante humano.

Sendo Roma a “senhora do universo”, seu imperador seria o “senhor do


universo”. A pax romana era garantida pelas armas.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Vocabulário político → Vocabulário religioso:


“povo de Deus”; “Lei de Deus”; “assembleia” (ecclesia); “Reino de Deus”.

O poder da Igreja Católica cresce à medida que o Império Romano decái.

O triplo poder teocêntrico:


1- Religioso (conexão dos homens com Deus);
2- Econômico (grandes propriedades fundiárias); e
3- Intelectual (intérprete única dos textos sagrados).

Filosofias Políticas e suas 3 fontes principais:


1- Bíblia latina;
2- Códigos do Direito Romano; e
3- Ideias clássicas (Platão, Aristóteles e Cícero).
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

De Platão, a ideia de comunidade justa, organizada hierarquicamente e


governada por filósofos.

De Aristóteles, que a finalidade do poder é a justiça e o bem comum.

De Cícero, que o bom governo serve de espelho para a sociedade.

Auctoritas: legislar + julgar.

Potestas: executar.

O governante representa Deus diante de seus governados, e sua


vontade tem força de lei.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Querela das Investiduras, ou Teoria das Duas Espadas:


Papa → Imperador
O Papa investe o Imperador de seu poder temporal, e o Imperador
investe o Papa de seu poder espiritual
(“Os dois corpos do rei”, de Ernst Kantorowitz)

Marsílio de Pádua (1324) afirmava a superioridade do TODO SOCIAL


sobre suas PARTES/INDIVÍDUOS.

Dante Alighieri (1265-1321), no “De monarchia”, defende a autoridade


monárquica una, indivisível; a origem religiosa do poder temporal; a
separação entre a Igreja e a Monarquia; a unidade necessária à
política; que Deus está para o universo assim como o Príncipe está
para a cidade (Cosmogonia → Política).
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Idade Média (Medium Aevum): nome dado pelo poeta Francesco


Petrarca (XIV). Teocracia católica. Feudalismo. Especialistas: Étienne
Gilson; Alain de Libera; Maurice de Gandillac; Umberto Eco.

Alta Idade Média: IV a X.


Baixa Idade Média: XI a XIV.

Santo Agostinho (354-430) e seu platonismo. Santo Anselmo (1033-


1109) e os fundamentos racionais da fé cristã. São Tomás de Aquino
(1224-1274) e seu aristotelismo. Guilherme de Ockham (1285-1349) e
seu nominalismo.

Explicitamente, repetições. Implicitamente, inovações. Se os antigos


olhavam para a natureza (physis), os medievais olhavam para os
antigos.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Santo Agostinho (354-430): De Magistro (Sobre o Mestre)

Platonismo cristão

Influenciou modernos, como Descartes, Pascal e os teóricos de Port-


Royal

As palavras são sinais arbitrários das coisas, portanto não nos ensinam
nada sobre a realidade – é preciso haver algo prévio: a “luz interior”

Conhecer as coisas reais é mais importante do que conhecer os sinais


verbais que nos apontam para as coisas reais; é conhecendo a coisa
que entendemos o sinal, e não o contrário

O signo seria algo que serve para indicar outra coisa; assim, algo é um
signo não por seu valor intrínseco, e sim por sua função
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

As 3 Ontologias :

Ontologia Equivocista: ser e entes têm naturezas ou essências


diferentes, mas SEM medida comum.

Ontologia Analogista: ser e entes têm naturezas ou essências


diferentes, mas COM uma medida comum.

Ontologia Univocista: ser e entes têm a mesma natureza ou essência.


IDADE MÉDIA (IV-XIV)

EQUIVOCIDADE DO SER :
“O ser se diz de muitas maneiras, ou em muitos sentidos , mas SEM
medida em comum”

“Supomos que uma mesa não é da mesma maneira que um animal e


que um animal não é da mesma maneira que um homem; que um
homem não é da mesma maneira que Deus. Há então muitos sentidos
do ser” (DELEUZE, Aula de 14/01/1974, p.1).

Estas diferenças são de essências, ou de naturezas, e portanto não têm


medida em comum. Em resumo, Deus não pode ser da mesma maneira
que tudo o que Ele teria criado.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

ANALOGIA DO SER :
“O ser se diz de muitas maneiras, ou em muitos sentidos, mas COM
medida em comum”

1- de Proporção (termos):
A–B–C–D
Há 1 única medida interior aos termos, do ideal ao real. O sentido do ser é
primeiro e dele derivam todos os outros. “Deus é bom, e portanto o
homem é bom”.

2- de Proporcionalidade (relações):
A – B assim como C – D
De tipo matemático, comparativo. “A bondade infinita está para Deus,
assim como a bondade finita está para o homem”.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

UNIVOCIDADE DO SER :
“O ser se diz de uma única maneira, ou em um único sentido, para tudo o
que é”

Ser e entes têm a mesma natureza ou essência – seja uma mesa, um


animal, o homem ou Deus –, apenas se diferenciando pelos graus de
potência nas atualizações dessa natureza ou essência (“neutra”), pelos
graus de intensidade de existir (John Duns Scot, o “Doutor Sutil”).
Bizarrice: gêneros, categorias, formas, filos, espécies... são secundários.

Cavalo de Tração X Cavalo de Corrida


Cavalo de Tração = Boi

Essência ou Natureza do ser :


Substâncias (matéria e pensamento) → Modos (suas expressões).
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Retorno da controvérsia antiga: analogistas X anomalistas →


Naturalistas (Realistas) X Convencionalistas (Nominalistas)

Naturalistas (Realistas): palavras como reflexo das coisas/natureza;


palavras como manifestações concretas das ideias (reais)

Convencionalistas (Nominalistas): ideias/universais não têm existência


concreta (flatus vocis); as palavras não têm qualquer conexão
intrínseca com a realidade; haveria uma diferença essencial entre a
“linguagem mental” e a “língua falada” (ver o “primeiro
Wittgenstein”); a língua não espelha a realidade (seria melhor estudar
“o pensamento” ou “a realidade”, rejeitando “a mediação traiçoeira da
linguagem”); Navalha de Ockham.
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

Guilherme de Ockham (1285-1349):

“Língua falada” (ou escrita, verbal) tem uma relação convencional com
a realidade; “Linguagem mental” (lógica do pensamento) tem uma
relação natural com a realidade (pathémata aristotélica)

Realidade → Mente → Palavras

Os modistae (modus significandi): haveria uma estrutura gramatical


una e universal, inerente a todas as línguas, cujas regras seriam
perfeitas e independentes de suas aplicações variáveis. É assim que
podemos apreender, como conceitos, as coisas do mundo, tornando-
as res significata (significativas)
IDADE MÉDIA (IV-XIV)

A importância não era da littera (unidade da fala), e sim a da sua


possível importância na iluminação dos aspectos “superiores” da
ordem do mundo. A natureza refletindo a transcendência: signatura
rerum. A natureza se decalcaria na linguagem, assim como o divino se
decalcaria no humano

Paradigma Pan-semiótico:
1) Modelo dos 4 sentidos (interpretações da Bíblia):
a) literal; b) alegórico; c) moral; d) anagógico (quanto aos mistérios do
mundo)
2) Modelo da assinatura das coisas: indicialidade/iconicidade entre
Deus e o mundo

Distinção entre Denotação e Conotação.


RENASCIMENTO (XV-XVI)

Giorgio Vasari (XVI) cunhou o termo.


Retorno do “humanismo” clássico.
Laicização do pensamento e da arte.
Ciências, artes e filosofia.
O homem como “centro” das
investigações humanas:
Leonardo da Vinci e seu
“homem vitruviano” (1490;
hoje, em Veneza)
RENASCIMENTO (XV-XVI)

Mikhail Bakhtin :
Paródias, degradações, profanações. Mundo extra-ordinário, ao revés. O
cômico, a ironia, o riso festivo. Rebaixamento do transcendente (a Lei) ao
imanente (agenciamentos múltiplos).

Vocabulário grotesco: xingamentos, palavrões (sexo), ofensas.

Grotesco é uma palavra que veio de Grotta (gruta), e se referia às imagens


ornamentais encontradas, no final do século XV, nas paredes das ruínas das
termas de Tito Livio, em Roma. Aquelas imagens eram bem diferentes do que
se conhecia até então, pois mostravam seres estranhos, misturados,
hibridados, sem uma identidade clara: um pouco humanos, um pouco
vegetais, um pouco animais, um pouco minerais; um pouco masculinos e um
pouco femininos; um pouco velhos e um pouco novos; etc. Dali em diante,
grotesco passou a significar o insólito, o fantástico, o inesperado, o estranho,
o esquisito – tudo o que remetesse às partes baixas do corpo, bem como às
suas relações eróticas e de excreção. O corpo deformado nega o modelo. Daí
a Estética oficial ignorar ou excluir o grotesco – pois, politicamente, ele é mais
democrático do que o modelo. No século XIX, Victor Hugo despolitizou o
grotesco, tornando-o motivo de infelicidade dos indivíduos românticos. Ver
BAKHTIN, 1992; ver SODRÉ e PAIVA, 2002.
RENASCIMENTO (XV-XVI)

Mikhail Bakhtin :

Por que tal Estética (visual, musical, literária) seria, a priori, menor ou
pior do que a Estética oficial? Tal diferenciação, ou hierarquização, não
seria mais política do que propriamente estética?

Levar esta questão para os juízos de gosto, hoje: funk; MPB; Bossa
Nova; etc.

Questão: como a beleza e a arte fazem o “humano” voltar ao centro


das investigações?
REFERÊNCIAS :

ATEM, Guilherme Nery. Por uma ontologia do consumo: entre a filosofia e a publicidade.
Comunicação, Mídia e Consumo (São Paulo. Impresso), v. 9, p. 209-225, 2012.

DELEUZE, Gilles. Anti Oedipe et Mille plateaux (14/01/1974): Analogie, equivocité, univocité. In:
Web Deleuze. Endereço:
http://www.webdeleuze.com/php/texte.php?cle=175&groupe=Anti+Oedipe+et+Mille+Plateaux&
langue=1 . Último acesso em 27/07/2012.

ECO, Umberto. Arte e beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Globo, 1989.

LISBOA, Ivair Coelho. Imagem sutil do pensamento: da essência neutra e da individuação em


Avicena e Duns Scot. In: Revista de Estudos Transdisciplinares. Ano 1. Número 1. Rio de Janeiro:
Departamento de Filosofia da UERJ / NAPE, 2002.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de linguagem: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Zahar,
2010.

NEF, Frédéric. A linguagem: uma abordagem filosófica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

NÖTH, Winfried. Panorama da semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume, 1995.

PLATÃO. Crátilo. In: Diálogos (vol IX) – Teeteto e Crátilo. Pará: Universidade Federal do Pará, 1973.

WEEDWOOD, Bárbara. História concisa da Lingüística. São Paulo: Parábola, 2ª edição, 2003.
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Modernidade
MODERNIDADE (XVII-XX)

Do latim “modus”: novo; novidade; que rompe com a tradição.

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um


anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.
Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O
anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o
passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma
catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as
dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos
e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e
prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-
las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual
ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu.
Essa tempestade é o que chamamos progresso.”
(WALTER BENJAMIN: Sobre o conceito de História. In: Obras completas,
v.1: magia e técnica, arte e política, 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987,
p.226, aforisma 9).
“Angelus Novus”, de Paul Klee
MODERNIDADE (XVII-XX)

Laicização mais radical.


Uso das “línguas vulgares” (que aos poucos iam substituindo o Latim).
Do feudalismo ao Capitalismo.
Poder dos Estados laicos.
Valorização do indivíduo e ideia de progresso.
Pilares de sustentação:
1- Fundamentos (metafísica e ontologia);
2- Referências (ciências e História);
3- Representações (artes e linguagem).
Busca das certezas e garantias para ancorar o conhecimento (e a
verdade).
MODERNIDADE (XVII-XX)

Fatores históricos de sua instauração:


Humanismo renascentista;
prensa gráfica de Gutenberg;
Reforma Protestante;
Revoluções: Científica, Industrial e Francesa.

Se Deus não era mais “a fonte de todos os valores”, estes passaram a


ser formulados pela própria sociedade.
A Modernidade estava entranhada de Historicidade.
A Modernidade era governada por “leis naturais”, às quais a própria
Razão estava submetida.
A Modernidade trazia promessas (de desenvolvimento) e ameaças (de
destruição).
O conhecimento (escrito) era visto como cumulativo, enriquecedor e
emancipador do Homem.
MODERNIDADE (XVII-XX)

Para produzir sentido, a Modernidade devia destruir a tradição


(“Angelus Novus”; “Mas o início da era acaba matando”).
Max Weber e o Estado administrativo: desencantamento do mundo e
lógica do Capitalismo – a dominação ultrarracionalizada

Fatores filosóficos:
Racionalismo de René Descartes (1596-1650)
Método dedutivo
Privilégio das ideias sobre a experiência sensível

Empirismo inglês (Bacon; Locke; Berkeley; Hume)


Método indutivo
Privilégio da experiência sensível sobre as ideias
MODERNIDADE (XVII-XX)

Racionalismo cartesiano:

Metáforas platônicas – “luz”; “clareza”; “esclarecimento”; “iluminação”


O racionalista quer esclarecer, iluminar as vidas daqueles que,
coitados, não sabem de nada (inocentes!)
Bom senso: saber comum
Senso comum: sentir comum
Bom senso + Senso comum = Doxa (crença; opinião)
Se o bom senso (racional) é natural no homem e compartilhado por
todos, como pode então haver erro, engano ou falsidade no juízo?
O erro seria um mau uso da razão, ou sua aplicação incorreta
Descartes buscará no “método” um caminho, um procedimento
seguro para garantir o sucesso do conhecimento.
MODERNIDADE (XVII-XX)

Racionalismo cartesiano:

Descartes, então, parte de 4 regras ou princípios gerais:


1- Regra da evidência (jamais aceitar como verdadeiro algo não-
evidente);
2- Regra da análise (dividir cada problema em tantas partes quanto
possível, para poder examiná-las melhor);
3- Regra da síntese (começar examinando as partes mais simples e,
pouco a pouco, ir chegando ao exame das mais complexas); e
4- Regra da totalidade (fazer por toda parte enumerações tão
completas e revisões tão gerais que se pudesse, enfim, ter a certeza de
que nada foi omitido).
Afinal, se durante os últimos 20 séculos teorias científicas foram
tomadas como verdadeiras, mas hoje se mostram falsas, o que me
garante que hoje estamos adotando teorias verdadeiras?
MODERNIDADE (XVII-XX)

Racionalismo cartesiano:

Foi partindo desse ceticismo radical que Descartes iria atrás de algo
que pudesse ser imune às dúvidas dos céticos. Para isto, desenvolveu o
seu método: a dúvida.
A Reforma havia desautorizado a Igreja; a Revolução Científica havia
desautorizado a ciência antiga; o Humanismo renascentista havia
desautorizado a Deus (transcendência).
Se as autoridades tradicionais perderam sua credibilidade, só nos
restaria a interioridade: a própria razão humana, a racionalidade, a luz
natural. Aceita a noção de “inatismo das ideias”.
Descartes instaura a sua “dúvida metódica”:
1- a Ilusão dos sentidos;
2- o Sonho ou a vigília; e
3- o Gênio maligno.
MODERNIDADE (XVII-XX)

Racionalismo cartesiano:

A saída: o Argumento do cogito (“Cogito ergo sum”)

Críticas:
Esse argumento seria “circular” (Leibniz; Russell)
Solipsismo
Dualismo corpo-mente
Como as ideias chegaram à mente? (inatismo?)

Uma das consequências mais importantes do Racionalismo cartesiano


foi o abandono do conceito tradicional de “conhecimento científico
como certeza definitiva”, e a introdução da concepção moderna de
“limites do conhecimento e da razão humana” (dúvida metódica e
atitude crítica do questionamento radical), mais tarde desenvolvida
por Kant.
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Modernidade
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

Constituiu-se como a crítica filosófica aos pressupostos


racionalistas (principalmente o inatismo das ideias).

Para os empiristas, todo conhecimento começa com a


experiência sensível: dados colhidos pela percepção → modos
de organização desses dados pela mente

Francis Bacon (1561-1626): objetos técnicos como extensões do


corpo → McLuhan
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

John Locke (1632-1704): a “tábula rasa”

David Hume (1711-1776): empirismo radical

Contexto científico empirista:


William Gilbert (magnetismo);
William Harvey (circulação do sangue);
Robert Boyle (mecânica dos gases);
Robert Hooke (bomba a vácuo);
Isaac Newton (leis da Física);
Pierre Gassendi (atomismo e empirismo).
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

A palavra “empirismo” deriva do grego empeiría: experiência


sensível.

Temas centrais:

1- Conhecimento e origem das ideias (ciência experimental;


observação; aplicação prática; sentidos → mente);

2- Problema da causalidade (a relação causa-e-efeito se dá na


percepção e no hábito, e não nos objetos concretos);
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

Temas centrais:

3- Problema da identidade (a consciência como um “feixe de


representações”, mutável, mutante, reconfigurável); e

4- Filosofia Política (a soberania deve ser dos indivíduos que


compõem o povo, e não de um monarca absolutista; os direitos
são convencionais, e não “naturais”).
John Locke (1632-1704) pensou os signos como instrumentos
para o conhecimento empírico e distinguiu duas classes de
signos:

1) as ideias (signos que representam as coisas na mente do


homem); e

2) as palavras (signos que expressam as ideias na mente do


homem).

Ou seja: as palavras são signos das ideias, e as ideias são signos


das coisas. Então, as palavras são “signos de (outros) signos”.
Em Locke, as palavras tanto expressam ideias (função de
significação) como se referem a coisas (função de referenciação).

Mas como as palavras conseguem significar ideias gerais?

Abstraindo de cada homem concreto (empiricamente) o que há


de comum a eles, chegamos à ideia de “homem” (humano).

Nietzsche criticará a filosofia: a razão é centrada em conceitos,


mas os conceitos perdem a espessura do real (suas
singularidades e suas multiplicidades).
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

David Hume:

A percepção pode, sim, ser critério de validação das ideias que


temos.

As associações mentais são modos de organizarmos as ideias.

As percepções são como “átomos” e as associações mentais são


como “forças” que os unem e os separam.
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

David Hume:

Tudo o que se dá a conhecer se apresenta sob 2 modos:

1- Impressões (dados fornecidos pelos sentidos, através da


experiência sensível; podem ser Internas [a percepção de um estado
de alegria ou tristeza] ou Externas [a visão de um objeto]); e

2- Ideias (representações mentais da memória e da imaginação, que


resultam das Impressões como suas “cópias modificadas”; podem se
associar por Semelhança, por Causalidade ou por Contigüidade).
MODERNIDADE (XVII-XX)

Empirismo inglês:

As relações – entre Impressão e Ideia, ou entre uma Ideia e outra


Ideia – são sempre exteriores aos seus termos.

Ou seja: são convencionais, frutos do hábito e do costume.

A probabilidade como crença.


(“A primeira aparição de um evento não nos permite inferir nada
sobre o efeito que resultará dele”)
Empirismo inglês:

A crença e a imaginação estão na base mesma do conhecimento.

Percepção → Afecção/Intervalo → Ação.

Impressões > Ideias. A Ideia mais viva é sempre inferior à Impressão


mais pobre.

O exemplo do beijo: nenhuma ideia do beijo dado é superior ou tão


viva quanto a impressão do próprio beijo, enquanto ele é dado.

Não é porque algo é bom/belo que eu digo que me agrada. É


porque algo me agrada que então eu digo que é bom/belo.
MODERNIDADE (XVII-XX)

Immanuel Kant :

Kant (1724-1804) falava de uma submissão necessária do Objeto


(cognoscível) ao Sujeito (cognoscente). Haveria algo de “legislador”
nas faculdades de conhecer e de desejar. A de julgar é só judiciária.

Diferentemente do cogito cartesiano, o cogito kantiano afirma que


os conceitos têm historicidade (então, dependem da empiria).
Immanuel Kant buscaria uma síntese do Racionalismo com o
Empirismo: Crítica da Razão Pura; Crítica da Razão Prática;
Crítica do Juízo.

Crítica da Razão Pura :


condições apriorísticas do conhecimento (espaço-tempo; 4
causas [quantidade; qualidade; modo; relação]; categorias)

Crítica da Razão Prática + Metafísica dos Costumes :


condutas morais cotidianas (“dever”; “Eu não minto”) →
universalidade

Crítica do Juízo :
juízos estéticos; crítica do gosto → Teoria da Recepção
Síntese a priori: “todo triângulo tem 3 lados”.
Racionalismo. Independeria da experiência sensível. Apela para
o universal e necessário.

Síntese a posteriori: “este triângulo é vermelho”.


Empirismo. Depende da experiência sensível.

Conhecimento: fenômenos X coisa-em-si.

Fenômeno: apresentação; aparição; está no eixo espaço-


temporal.
Razão Prática : Causa: racional → Efeito: sensível.

“Aja de modo que sua ação possa se tornar universal”.

“Eu não minto”.


Até Kant, a beleza era considerada “uma propriedade do objeto”.
Ele transformou a Estética numa crítica dos juízos de gosto.

A imaginação faz o papel de síntese mediadora entre a


sensibilidade (receptiva) e o entendimento (ativo), e os
esquematiza.

“Supomos que o nosso prazer é de direito comunicável ou válido


para todos, presumimos que cada qual deve experimentá-lo”
(DELEUZE, 1994, p.55) → compartilhamentos em redes sociais !

O juízo estético seria um “universal sem conceito”.


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Modernidade
Bento de Espinosa (1632-1677) :

Nasceu em Amsterdã, numa família judaica portuguesa, e trabalhava


como polidor de lentes para lunetas

Sua filosofia o levou a ser excomungado, pela comunidade judaica de


Amsterdã, em 27 de julho de 1656 :

“Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos,


expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa... Maldito
seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e
maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja
quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele
comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste favor algum,
que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de
quatro jardas [3,66m], que ninguém leia algo escrito ou transcrito por
ele.”
(CHAUÍ: Os Pensadores, p.5)
Deus sive Natura (ontologia univocista)

Essência (neutra) → atributos (pensamento e extensão)


atributos (pensamento e extensão) → modos (ou modificações)

Natura Naturante → Natura Naturada

1) o ato pelo qual Deus produz tudo o que existe é o mesmo ato
pelo qual Deus se produz a si mesmo;
2) Deus é a causa das coisas e de si mesmo como causa imanente, e
não transcendente;
3) a produção divina não tem qualquer finalidade fora de si, ou seja,
a produção e o produto são uma coisa só.
Sintetiza racionalismo e empirismo (como Kant).

Uma única essência para todos os atributos e modos.

Uma única natureza para todos os corpos e indivíduos.

Cada modo (corpo ou alma) tem, num dado momento, sua


potência de ser afetado e sua potência de afetar.

O cavalo de tração tem afetos mais parecidos com os afetos de um


boi, do que com os afetos de um cavalo de corrida.
Deleuze disse: “Dize-me de quais afetos tu és capaz, e eu te direi
quem és”.

No homem, diferentemente, não se sabe de quais afetos ele será


capaz (bons e/ou maus).

Bom/mau X Bem/Mal

Um plano de imanência e uma filosofia do devir.


Afecções designam o que acontece a um corpo ou alma.
Espinosa (séc. XVII) falava de 3 tipos básicos de afecções (ou
modos/modificações):
Alegria; Tristeza; Desejo.

Alegria:
Encontros que nos compõem e, assim, aumentam nossa potência
de agir. Se dá nos bons encontros. Ex.: eu e o vinho.

Tristeza:
Encontros que nos decompõem e, assim, diminuem nossa potência
de agir. Se dá nos maus encontros. Ex.: eu e a tia escrota.

Desejo:
Sinônimo de conatus. Potência constante, que se dá entre a afecção
e a ação. Permite evitar uma “reação mecanicista”.
Ao ser afetado, o sujeito é modificado. É o conatus (desejo de
autoconservação) que garante a coesão do corpo e da alma. É o
conatus que garante o esforço de um corpo em se manter coeso, ou
seja, apto a ser afetado de múltiplos modos (ver DELEUZE, 1968,
p.210).
X
A “vontade de potência”, de Nietzsche (séc.XIX).

“É este poder de afetar e de ser afetado que também define um


corpo na sua individualidade” (DELEUZE, 2002, p.128). “Não se sabe
do que um corpo é capaz”...

Tese do “paralelismo entre corpo e mente”.


Neurociências hoje (ver Antonio Damásio: “O erro de Descartes”;
“Em busca de Espinosa”; “O mistério da consciência”; etc).
Aristóteles e o “movimento”:
Potência → Ato
X
Espinosa:
Potência em ato

Potência (potentia) X Poder (potestas)


Ver NEGRI: A anomalia selvagem: poder e potência em Espinosa
Ver NEGRI: O poder constituinte

Poder: aquilo que separa uma potência daquilo que ela pode.
Exemplo do cego.

Liberdade: aptidão para o múltiplo simultâneo.


G.W. Leibniz (1646-1716) :

Jurista, linguista, diplomata, filósofo e matemático (cálculo


infinitesimal, como Newton: “uma reta é uma curva de raio
infinito”; “um ponto é um círculo de raio infinitamente pequeno”)

Criticando a dúvida cartesiana, sustenta que, ao invés de duvidar


de tudo o que parecer incerto, é preciso considerar os diferentes
graus de aceitação ou discordância que cada afirmação possa
produzir, ou seja, examinar suas razões.

O “princípio de razão suficiente”: tudo o que existe encerra em si


a razão de sua existência. “Verdades de razão” (necessárias e
racionais: “todo triângulo tem 3 lados”) e “verdades de fato”
(contingentes e empíricas: “Este triângulo é vermelho”).
Ele participou da descoberta da multiplicidade e da diversidade das
línguas vernaculares.

A partir disso, ele começaria a procurar as regras lógicas comuns a


elas, e promoveria uma pesquisa etimológica que visava a um
projeto de “língua universal” (fala-se de um “cratilismo”, ou
naturalismo, de Leibniz).

“Para Leibniz, a construção de uma língua universal supõe a


descoberta das noções simples que estão no fundamento de todas
as nossas ideias derivadas...” (NEF, 1995: 115-116).

Criticando o empirismo inglês (“nada está no intelecto sem ter


passado antes pelos sentidos”), ele diz: “exceto o próprio intelecto”.
“Tudo já é conhecido previamente” (lembrando a teoria da
reminiscência de Platão e o inatismo das ideias de Descartes).

Ou seja, a percepção e o pensamento se diferenciam apenas quanto


aos graus de clareza e distinção.

Diferentemente do monismo de Espinosa, para Leibniz a realidade é


constituída por uma infinidade de mônadas (unidades dinâmicas e
autocontidas), as quais são ordenadas de modo ótimo por Deus em
uma “harmonia preestabelecida”, hierarquizada (desde a matéria
inanimada, o grau mais inferior, até Deus, a mônada suprema.

Esta ordem, fruto dos cálculos de Deus, instituiria “o melhor dos


mundos possíveis”.
(crítica de Voltaire, no “Cândido”): possíveis → compossíveis ou
incompossíveis
As “pequenas percepções”: “o que é relevante deve ser
composto de partes que não o são” (DELEUZE, 1991, p.150).

“O que nos precipita num devir pode ser qualquer coisa, a mais
inesperada, a mais insignificante” (Deleuze).

“Todos os dias perdemos a cabeça por causa dum pouco de


temperatura, duma dor de dentes, duma vertigem passageira.
Encolerizamo-nos. Gozamos. Embriagamo-nos. Nada disso dura
muito tempo, mas é suficiente. A nossa pele, os olhos, os
ouvidos, o nariz, a língua, armazenam diariamente milhões de
sensações das quais nem uma só é esquecida. Eis o perigo.
Somos autênticos vulcões”.

(J. M. G. LE CLÉZIO, em “A febre”, s/d, p.8)


REFERÊNCIAS :

DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o barroco. 2.ed. Campinas: Papirus,


2001.

DELEUZE, Gilles. Spinoza: philosophie practique. Paris: Les Éditions de


Minuit, 1981.

DELEUZE, Gilles. Chapitre XIV: Qu’est-ce que peut um corps? In: Spinoza
et le problème de l’expression. Paris: Les Éditions de Minuit, 1968.

ESPINOSA, Bento de. Ética. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Ed. Nova
Cultural, 1997.

LE CLÉZIO, J. M. G. A febre. Lisboa: Ulisseia, s/d.


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Modernidade
Thomas Hobbes (1588-1679) :

Contexto histórico

A natureza humana

O estado de natureza

O estado civil e político

A Soberania
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Contexto histórico

Westport, Inglaterra. Contexto de guerra civil entre parlamentaristas


(Cromwell) e monarquistas (Hobbes).

Tudor → Stuart

Hugo Grócio: De iure belli ac pacis (1625)


( Jusnaturalismo → Contratualismo )

Jean Bodin (1530-1596): monarquia absolutista como reflexo da


monarquia divina
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Contexto histórico

Para Hobbes, só o poder soberano permite a vida em sociedade, com


paz e segurança. Naquela sociedade de Soberania, o poder era algo
que funcionava verticalmente, de cima para baixo, e de maneiras
ostensiva, manifesta e cerimoniosa. Hobbes é o defensor maior de
um modelo monárquico-absolutista. Todo o seu pensamento político
foi construído sobre o medo que ele sentia da guerra civil .

Hesíodo já havia observado que toda rivalidade, toda eris supõe


relações de igualdade: “a concorrência jamais pode existir senão
entre iguais” (As origens do pensamento grego, p. 32).
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Contexto histórico

Gérard Lebrun: “Para Hobbes, o erro fundamental da filosofia política


tradicional foi haver postulado que o homem é um animal político e
social... Rejeitando tal postulado, Hobbes admite que o homem é,
naturalmente, um animal apolítico, e até mesmo a-social...” (O que é
poder, p. 45-46).

Leo Strauss (Droit naturel et histoire): afirma que a “necessidade” da


existência do Estado pode ser deduzida, em última instância, de um
direito de cada homem: o de conservar a própria vida.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Contexto histórico

A finalidade humana não seria a produção de riquezas, mas sim a


posse dos “sinais de honra”, entre os quais se inclui a própria riqueza.
Renato Janine Ribeiro resume: “Quer dizer que o homem vive
basicamente de imaginação” (Os clássicos da política – 1, p. 59). Ele
imagina ter poder; imagina aquilo que o outro poderá lhe fazer... e da
imaginação decorrem todos os perigos. “O ‘estado de natureza’ é
uma condição de guerra, porque cada um se imagina (com razão ou
sem) poderoso, perseguido, traído” (Os clássicos da política – 1, p.
59).

Um Estado seria condição para a existência da própria sociedade (a


qual só nasceria com o Estado).
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Contexto histórico

Thomas Hobbes: Do cidadão


(1642) → Leviatã (1651)
Da natureza humana para a
fundação da política

Em sua autobiografia, Hobbes


escreveu que, ao nascer, sua mãe
deu à luz gêmeos: Hobbes e o
medo. “A única paixão da minha
vida foi o medo”.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
A natureza humana

Direito Natural: à vida; à autoconservação.

Lei de Natureza: é proibido não se defender, não buscar sobreviver


a todo custo. 1º: “procurar a paz e seguí-la”; 2º: “defendermo-nos
por todos os meios que pudermos”.

A natureza humana é egoísta, individualista (ver MacPherson: “A


teoria política do individualismo possessivo: de Hobbes a Locke”,
1962).

Crítica a Aristóteles (zoon politikon).


O homem é naturalmente mau. A sociedade serve para contê-lo.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
A natureza humana

Os homens, para Hobbes, apresentam naturalmente três


causas principais de discórdia:

a) COMPETIÇÃO: que os leva ao lucro e à posse de bens e de


pessoas.

b) DESCONFIANÇA: que os leva à segurança e à defesa de seus


bens.

c) GLÓRIA: que os leva à reputação e às ninharias morais.


Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado de natureza

Situação natural e originária; igualdade natural; anarquia;


competição; incertezas; insegurança; escassez; homens guiados por
apetites pessoais.

Para Hobbes, a natureza da guerra não está na luta em si mesma,


mas sim naquela disposição para a luta, durante todo o tempo em
que não há garantia para o contrário.

Guerra de todos contra todos: bellum omnium contra omnes.

O homem é o lobo do homem: homo homini lupus. Todos com


medo de todos. Medo generalizado.

Ausência de “sociedade/Estado”. Ausência de conceitos de


“propriedade”; “justiça/injustiça”.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado de natureza

Liberdade total X Paz e felicidade (!)

Igualdade natural → guerra generalizada.

Eu sei que eu posso atacar o outro a qualquer momento, se


isto me fizer garantir melhor a minha sobrevivência.
Se eu sei que posso atacar o outro a qualquer momento,
igualmente sei que o outro pode me atacar a qualquer
momento.
Se eu sei que a qualquer momento o outro pode me atacar,
melhor eu atacar antes.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado de natureza

“Escutemos o jurista [Samuel] Pufendorf, em 1672: ‘É essencial que


o medo tome tão bem as suas medidas, que todos se coloquem em
condição de não ter mais nenhum motivo aparente de temor.
Quando vamos nos deitar, fechamos cuidadosamente a porta do
quarto, de medo dos ladrões: afinal [assim], não temos mais
medo...’” (O que é poder, p. 48).

Por causa do medo de todos contra todos, os homens renunciariam


às suas autonomias e liberdades, concedendo poderes ilimitados ao
detentor do poder soberano.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado de natureza

Ele diz que as Leis de Natureza (Justiça, Eqüidade, Modéstia,


Piedade etc.), por si mesmas, na ausência do medo causado pelo
poder soberano e sua espada, são incapazes de garantir a paz
coletiva por serem contrárias às nossas paixões naturais (as quais
seriam as mesmas em todos os homens).

“Em todos os lugares onde os homens viviam em pequenas famílias,


roubar-se e espoliar-se uns aos outros sempre foi uma ocupação
legítima, e tão longe de ser considerada contrária à ‘lei de natureza’
que quanto maior era a espoliação conseguida maior era a honra
adquirida .... Legitimamente, procuram o mais possível subjugar ou
enfraquecer seus vizinhos, por meio da força ostensiva e de artifícios
secretos, por falta de qualquer outra segurança; ...” (Leviatã, p.
107).
Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado civil e político

Em determinado momento, os homens – dotados de razão e de


agressividade (“centauros”) – decidem que precisam sair do estado
de natureza e fundar o estado civil/político.

Do estado de natureza para o estado civil/político: esta passagem


deve se dar de uma vez só. Ruptura entre o primeiro momento e o
segundo.

ESTADO DE NATUREZA → ESTADO CIVIL/POLÍTICO

Contrato Social
Thomas Hobbes (1588-1679) :
O estado civil e político

“Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo para


este homem, ou para esta assembléia de homens, com a condição
de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante
todas as suas ações”.

Contrato Social :

Pactum Societatis + Pactum Subjectionis

(Pacto de Associação) + (Pacto de Sujeição)

(Multitudo → Populus) + (Populus → Civitas)


Thomas Hobbes (1588-1679) :
A Soberania

O Contrato Social de Rousseau (1712-1778) é entre o povo e o


governante → a soberania é da Vontade Geral.

Em Hobbes, o povo cedeu sua autonomia ao soberano, por Pacto


mútuo (dos indivíduos entre si), de modo que tudo aquilo que o
soberano fizer no futuro estará de acordo com a permissão
antecipada do povo; ou seja, o soberano nunca comete injustiça,
pois nessa teoria o povo é o AUTOR de todas as decisões e ações do
soberano, ao passo que este último torna-se apenas o ATOR destes
atos. Isto quer dizer que, se um súdito acusar o soberano de
injustiça, estará na verdade acusando-se a si mesmo, como AUTOR
que é de tudo o que o soberano fizer.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
A Soberania

O Contrato Social de Hobbes é entre o povo e o povo → as 3 razões


pelas quais a Soberania do monarca deve ser “absoluta”:

1- a soberania é inquestionável: o povo é “autor”, e o soberano é


“ator”.

2- a soberania é irrevogável: o soberano está fora do Contrato


Social. O soberano foi criado pelo Contrato.

3- a soberania é indivisível: “lógica do jogo de empurra”. Contra a


democracia, só a monarquia absolutista.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
A Soberania

A instauração do estado civil/político se dá por uma decisão racional


e arbitrária dos indivíduos, os quais elegem artificialmente seu
soberano. Os indivíduos preferem se submeter ao poder de 1 só
soberano, e temê-lo, do que continuar com o medo de todos os
outros e sem regras.

Não há diferença de natureza entre o soberano eleito e o povo.

Em Maquiavel (1469-1527), temos um “Estado por aquisição”


(força).
Em Hobbes, temos um “Estado por instituição/político” (consenso).

Temos um Estado civil/político que é soberano, mas que precisa


impor-se com a “espada sobre as cabeças”.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
A Soberania

A unidade do Estado deve se sobrepor às liberdades individuais


(BOBBIO, 1992).

Transferência (quase) total dos direitos individuais ao soberano.


“Teoria do poder de soma zero”.

O soberano se mostra, de tempos em tempos, para seus súditos.


Isto lhe renova seu poder simbólico. Tornar-se visível lhe faz
poderoso.

Rei X Tirano/Déspota; etc. (preocupação de Benjamin Constant).


Thomas Hobbes (1588-1679) :
A Soberania

O Estado hobbesiano não só detém o monopólio da violência, como


também trabalha com a esperança que os súditos têm de obter uma
vida melhor, mais confortável. O Estado soberano distribui até
mesmo as propriedades entre seus súditos.

Hobbes diz que, caso seja necessário (durante guerras externas, por
exemplo), o Estado soberano poderá dispor dos bens e
propriedades de seus súditos, a fim de repor seus cofres. Esta idéia
seria, mais tarde, refutada por John Locke: para ele, o Estado não
pode tomar de nenhum homem qualquer parte do que lhe
pertence, sem o seu consentimento.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Referências
ANGOULVENT, Anne-Laure. Hobbes e a moral política. Papirus Editora, 1996.

BARRET-KRIEGEL, Blandine. Cours de philosophie politique. Libraire Générale


Française, 1996. Paris.

BARBOSA FILHO, Balthazar. Condições da Autoridade e Autorização em Hobbes. In: O


Poder. Coleção Filosofia Política, vol. 6. L & PM, 1991.

BERNHARDT, Jean. Hobbes. In: A filosofia do mundo novo - Séc. XVI e XVII, vol. 3
(Org.: François Châtelet). Zahar Editores, 1974.

BOBBIO, Norberto. Thomas Hobbes. Sección de Obras de Política Y Derecho. Fondo


de Cultura Económica, 1992. México.

BOBBIO, Norberto & BOVERO, Michelangelo. Sociedade e Estado na filosofia política


moderna. Brasiliense, 1996 (4ª edição, 1ª reimpressão).
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Referências
HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico
e civil. Coleção Os Pensadores. Abril Cultural, 1979 (2ª edição).

____ . Do cidadão. Martins Fontes, 1992.

JAUME, Lucien. Hobbes - ou l’État représentatif. In: Les philosophes de Platon à


Sartre (Org.: Léon-Louis Grateloup). Classiques Hachette, 1985. Paris.

LEBRUN, Gérard. O que é poder. Coleção Primeiros Passos. Brasiliense, 1983 (5ª
edição).

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Cultrix, 1995.

MIDGLEY, E. B. F. . A soberania absoluta e a obrigação política do pensamento de


Hobbes. In: Hobbes: Leviathan - uma vião teológica. Editora Nerman, 1988.
Thomas Hobbes (1588-1679) :
Referências

MOURA, Carlos Alberto de. Hobbes, Locke e a medida do Direito. In: O Poder.
Coleção Filosofia Política, vol. 6. L&PM, 1991.

RIBEIRO, Renato Janine. Hobbes, Jaime I e o Direito Inglês. In: O Poder. Coleção
Filosofia Política, vol. 6. L&PM, 1991.

STRAUSS, Leo. Le droit naturel moderne – a) Hobbes. In: Droit naturel et histoire.
Flammarion, 1986. Paris.

WEFFORT, Francisco (Org.). Os clássicos da política 1 (Maquiavel, Hobbes, Locke,


Montesquieu, Rousseau e “O Federalista”). Ática, 1995 (5ª edição).
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Do Moderno ao Contemporâneo
MARX E OS MARXISMOS

Metodologia : a totalidade

A produção capitalista

História → Homem

Infraestrutura → Superestrutura

Bakhtin : ideologia → signo linguístico


MARX E OS MARXISMOS
SAUSSURE E OS ESTRUTURALISMOS

Da Linguística Histórica à Linguística Estrutural

As 4 dicotomias saussureanas (diacronia/sincronia;


paradigma/sintagma; língua/fala; Ste/Sdo)

A Semiologia de Barthes (a 5ª dicotomia)

A Antropologia Estrutural de Lévi-Strauss

A Psicanálise de Lacan
FREUD , LACAN E A PSICANÁLISE

A descoberta do inconsciente

A mulher e a sexualidade desde a infância

Id , Ego e Superego

Significantes (Ste’s) → Significados (Sdo’s)

O “ nome do pai ” e o “ tempo lógico ”


FRIEDRICH W. NIETZSCHE (1844-1900)

Dionisíaco X Apolíneo

Reestetização do pensamento filosófico

Marteladas nos “ ídolos ”

Uma filosofia da vida e da imanência

Exaltação do “ amor fati ”


FRIEDRICH W. NIETZSCHE (1844-1900)

O perspectivismo

Bom / Mau → Bem / Mal

Transvaloração de todos os valores

O “ super-homem ”

Crepúsculo dos ídolos (1888): p. 19; 22; 26; 36; 45; 46; 48; 51;
62; 70; 72; 108; 115; 118-119; 122; ...
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

A Escola de Frankfurt
A ESCOLA DE FRANKFURT : CONTEXTO

Instituto de Pesquisa Social ( 1923 )

Nietzsche + Marx + Freud

Teoria Crítica X Teorias Administrativas

Contraposição a Hegel : a “ dialética negativa ”

Razão Científica → Razão Instrumental


A ESCOLA DE FRANKFURT : CONTEXTO

Walter Benjamin
Max Horkheimer
Theodor Adorno
Siegfried Kracauer
Erick Fromm
Herbert Marcuse
Jürgen Habermas
A ESCOLA DE FRANKFURT : BENJAMIN

“ A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica ”


( 1936 )

Transformações objetivas → Transformações subjetivas

Transformações: na arte e na percepção

Técnicas de reprodução: da mão para o olho


A ESCOLA DE FRANKFURT : BENJAMIN

OBRA-DE-ARTE REPRODUÇÃO TÉCNICA


( original ) ( cópia )

AURA PERDA DA AURA

VALOR DE CULTO VALOR DE EXIBIÇÃO

AUTENTICIDADE FIDEDIGNIDADE
A ESCOLA DE FRANKFURT : HORKHEIMER E ADORNO

“ Dialética do esclarecimento ” (1947)

A “ indústria cultural ” ( versus “ cultura de massa ” )

Empobrecimento estético + Padronização do gosto →


alienação

Integração das massas a partir de cima → totalitarismo


A ESCOLA DE FRANKFURT : HABERMAS

“ A mudança estrutural da esfera pública ” ( 1962 )

Esfera pública burguesa e a mídia

+
“ Teoria do agir comunicativo ” ( 1981 )

Razão Científica → Razão Instrumental → Razão


Comunicativa
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Pós-Moderno e/ou Hipermoderno (?)


PÓS - MODERNO ( ? )

Crises dos pilares de sustentação da Modernidade :

1- Fundamentos (metafísica e ontologia);

2- Referências (ciência e História);

3- Representações (arte, linguagem e política);

4- Sentido (linguagem e conhecimento).


PÓS - MODERNO ( ? )

Perry Anderson: “As origens da pós-modernidade” (1998)

Anos 1930 (Espanha): Federico de Onís


Pós-moderno = “ultramodernismo” (conservadorismo)

Anos 1950: Charles Olson


Pós-moderno = “pós-humanista” e “pós-histórico”

Anos 1950: Charles Wright Mills e Irwing Howe


Separação entre razão e liberdade(época de impulsos
cegos e conformidades vazias)
PÓS - MODERNO ( ? )

Perry Anderson: “As origens da pós-modernidade” (1998)

Anos 1960: Harry Levin


“síntese” entre cultura e comércio

Anos 1960: Leslie Fiedler


“nova sensibilidade da juventude”
(emancipação do vulgar e liberação dos instintos)
PÓS - MODERNO ( ? )

David Harvey: “A condição pós-moderna” (1989)

1972: Charles Jencks


Crise do paradigma estético tradicional (elitizado)
Humanizar/popularizar as cidades
Colagens e misturas (sensações > racionalidades)

Exaltação do efêmero, descontínuo, fragmantário, híbrido,


nômade, fugidio, deslizante

Heráclito > Parmênides


PÓS - MODERNO ( ? )

David Harvey: “A condição pós-moderna” (1989)

Mergulho na imanência X abandono da transcendência


Para não ter que passar pela dor de escolher, quero tudo-
ao-mesmo-tempo-agora

Jean-François Lyotard: “O pós-moderno” (1979)

Crise das grandes narrativas (de interesse coletivo)


Ascensão das micronarrativas (de interesse pessoal)
Cultura teria se tornado colagem/interseção de textos
distintos
PÓS - MODERNO ( ? )

Questão:
Numa cultura fragmentária e anômica, como agir
coerentemente?

A resposta pós-moderna:
Representações e ações “coerentes” seriam ilusórias ou
repressivas
Sem acesso ao sentido, contento-me com a enxurrada de
sinais/significantes sem significados
A torrente audiovisual causa prazer por si só (Todd Gitlin):
Simmel; Kracauer; Benjamin; McLuhan
PÓS - MODERNO ( ? )

A fragmentação da subjetividade pode ser vista como uma


“liberdade” ou como uma “alienação”

A experiência dá lugar à vivência de uma série de


presentes não correlacionados entre si, sem retirar uma
lição disso

Niilismo: da vontade de nada ao nada de vontade

Descontextualização e rejeição da História


PÓS - MODERNO ( ? )

Fredric Jameson: “Pós-modernismo: a lógica cultural do


capitalismo tardio” (1991)

O conceito de “pós-moderno” se mostra uma tentativa de


pensar historicamente o presente, mas numa época que
esqueceu como se pensa deste modo

Busca novidades: novos eventos, acontecimentos,


mundos, etc

É a reconfiguração cultural do Capitalismo


PÓS - MODERNO ( ? )

É continuidade ou ruptura, com relação à Modernidade?

Continuidades: Capitalismo; aceleração; excesso;


hiperestímulos; individualismo; etc

Rupturas: experiência do tempo; economia financeirizada;


crises (fundamentos; referências; representações;
sentido; instituições tradicionais; etc)

Pós-Moderno ou Hipermoderno ?
PÓS - MODERNO ( ? )

Posturas diante do Pós-Moderno (Jameson) :

1- Antimoderno e Pró-Pós-Moderno (Wolfe; Jencks)


R

2- Pró-Moderno e Anti-Pós-Moderno (Kramer;


Habermas) R

3- Pró-Alto/Pós-Modernismo (Lyotard) C

4- Anti-Alto/Pós-Modernismo (Tafuri) C
PÓS - MODERNO ( ? )

Novas: sociabilidades; cognições; afetividades; etc

Sujeitos ( HALL, 2011) :

1- do Iluminismo

2- sociológico ou relacional

3- pós-moderno
PÓS - MODERNO ( ? )

Ellen Wood e John Foster: “Em defesa da História” (1999)

O pós-modernismo é mais um discurso sobre o real do


que uma constatação histórica. Ele rejeita concepções
totalizantes, universalizantes, racionalizantes. Prefere os
fragmentos, os particulares, os sentidos, os estilos de
vida.

Não haver o Capitalismo como sistema totalizante, no


discurso pós-moderno, impossibilitaria qualquer crítica
a ele.

A grande política dá lugar às micropolíticas: identidades;


raças; gêneros; etc
PÓS - MODERNO ( ? )

Ellen Wood e John Foster: “Em defesa da História” (1999)

Mas o Capitalismo, como uma grande narrativa, costurou


as rupturas históricas

Os pós-modernos pensam o nosso presente como


“condição humana natural”, e não como um momento
histórico. Derrotismo e fatalismo.

Se aceitarmos que o Capitalismo é universal e necessário,


naturalizando-o, ele de fato se tornará invencível.
PÓS - MODERNO ( ? )

Ellen Wood e John Foster: “Em defesa da História” (1999)

“A realidade social do Capitalismo é ‘totalizante’ em


formas e graus sem precedentes. Sua lógica de
transformação de tudo em mercadoria, de acumulação,
maximização do lucro e competição satura toda a
ordem social. E entender esse sistema ‘totalizante’
requer exatamente o tipo de ‘conhecimento totalizante’
que o marxismo oferece e os pós-modernistas
rejeitam.” (p.19)
REFERÊNCIAS :

ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

____ . O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 2011.

HARVEY, D. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

JAMESON, F. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática,


2000.

LIPOVETSKY, G.; CHARLES, S. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.

LYOTARD, J.-F. O pós-moderno. 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.

SANTOS, J. F. dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004.

WOOD, E. M.; FOSTER, J. B. (Orgs.). Em defesa da História: marxismo e pós-modernismo.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Foucault
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)

Primeira fase:

Doença mental e psicologia (1954);


História da loucura na idade clássica (1961);
O nascimento da clínica (1963);
Raymond Roussel (1963);
As palavras e as coisas (1966);
A arqueologia do saber (1969).
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)

Segunda fase:
A ordem do discurso (1970);
Eu, Pierre Rivière, tendo degolado minha mãe, minha irmã, meu
irmão... (1973);
A verdade e as formas jurídicas (1973);
Vigiar e punir (1975);
Os anormais (1975);
Microfísica do poder (1979).

Terceira fase:
História da sexualidade (1976: a vontade de saber; 1984: o uso
dos prazeres; 1984: o cuidado de si).
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
As palavras e as coisas (1966)

Quando o conceito de “homem” aparece em nossa cultura ocidental


é que se passou a entender a co-determinação, a co-dependência
deste com as práticas cotidianas das instituições sociais.

Foucault situa essa mudança de paradigma na virada do século XVIII


para o século XIX, a partir de três eixos temáticos mais ou menos
simultâneos: 1) passagem da Gramática Geral para a Filologia
Lingüística (com Franz Bopp); 2) passagem da História Natural para a
Biologia (com Georges Cuvier); e 3) passagem da História das
Riquezas para a Economia Política (com David Ricardo).
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
As palavras e as coisas (1966)

Como diz Michel Foucault, nos subcapítulos A analítica da


finitude e O empírico e o transcendental (capítulo IX), o
fundamento das limitações empíricas – pela linguagem limitada-
limitante; pelo trabalho limitado-limitante; pelo organismo
limitado-limitante – comunica ao homem, a cada instante, a sua
finitude essencial.

E seria dentro e a partir dessa experiência de finitude que o


homem buscaria sentido para o que vê e diz. Busca sentido para
a vida.
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
As palavras e as coisas (1966)
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
As palavras e as coisas (1966)
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
A ordem do discurso (1970)

Tese: as palavras nos dizem tanto quanto as dizemos. Os


discursos expressam lutas, cristalizações de verdades, relações
de força, de dominação, de sujeição, de subjetivação. Não se
pode pensar em processos de subjetivação independentes de
formas de sujeição.

Há procedimentos institucionais de exclusão, repressão e


interdição (produção do não-dito sob o já-dito) através do
discurso.

Sistemas de restrições semânticas: não se pode falar de tudo, o


tempo todo, em qualquer circunstância. Luta-se para se tomar
para si o discurso e, assim, produzir uma verdade, a qual terá
efeitos específicos de poder e de subjetivação.
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
A verdade e as formas jurídicas (1973) e Microfísica do poder
(1979)

Relação saber–poder.
O sujeito não é “o outro” do poder, mas um de seus primeiros
“efeitos”. O poder não destrói o sujeito, mas o fabrica. O sujeito
é, ao mesmo tempo, um “objeto do saber” e um “produto do
poder”. O poder não fala nem vê – ele faz falar e faz ver.
Em Foucault, o poder (potestas) se confunde com a potência
(potentia).

Não esta ou aquela verdade, mas a “vontade de verdade”. Teria 5


características:
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
A verdade e as formas jurídicas (1973) e Microfísica do poder
(1979)

1- ela é centrada na forma do “discurso científico” e nas


instituições que o produzem;
2- ela é submetida a uma permanente incitação econômica e
política;
3- ela é objeto de uma imensa difusão e de um imenso consumo
(porque circula nas instituições, e a partir delas);
4- ela é produzida e transmitida sob a regulação dessas
instituições;
5- ela é objeto de debate político e de confronto social. É um
“conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro
do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”.
Produzimos verdades para produzirmos riquezas.
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
Vigiar e punir (1975)

1- OS CORPOS DÓCEIS

2- RECURSOS PARA O BOM ADESTRAMENTO


2.1- Vigilância hierárquica
2.2- Sanção normalizadora
2.3- Exame

3- PANOPTISMO
MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
História da sexualidade: a vontade de saber (1976)

Crítica ao discurso da “repressão sexual”. O poder é repressivo?


Reprime o sujeito, ou o fabrica?
A vontade de saber coloca sujeitos em discurso: saber–poder.
Explosão discursiva: “confissões libertárias”; discursos sobre o
sexo (scientia sexualis) – indivíduo + coletividade; regras de
decência vocabular.
Biopolítica: gerência da vida coletiva (população). Diagnósticos,
relatórios, estatísticas, tabelas, terapêuticas, regulações
institucionais das “perversões” dos “anormais-desviantes”.
O sexo, capturado, não pára de responder.
Potências biológicas < exigências econômicas.
THOMAS MATHIESEN (1933- )
A sociedade espectadora. O "Panóptico" de Michel
Foucault revisitado (1998)

Em contraste com o panoptismo de Foucault, o outro processo é


chamado sinoptismo. Juntos, os processos nos situam em uma
sociedade de espectador numa via de mão dupla.

Panoptismo: poucos vigiam muitos; sociedade disciplinar

Sinoptismo: muitos vigiam poucos (TV); sociedade espectadora

Características em comum:
rapidez; estrutura de vigilância; complementam-se (“1984”)
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Gilles Deleuze
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

• Empirisme et subjectivité: essai sur la nature humaine selon


Hume (1953)
• Nietzsche e a Filosofia (1962)
• A Filosofia Crítica de Kant (1963)
• Proust e os Signos (1964)
• Nietzsche (1965)
• O Bergsonismo (1966)
• Apresentação de Sacher-Masoch (1967)
• Spinoza e o problema da Expressão (1968)
• Diferença e Repetição (1968)
• Lógica do Sentido (1969)
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

• Spinoza: Filosofia Prática (1970) (reedição aumentada, (1981))


• Francis Bacon: Lógica da Sensação (1981)
• Foucault (1986)
• A dobra: Leibniz e o barroco (1988)
• Cinema-1: A Imagem-movimento (1983)
• Cinema-2: A Imagem-tempo (1985)
• Pericles e Verdi: la philosophie de François Châtelet (1988)
• Conversações (1990)
• L'Epuisé (Posfácio a Samuel Becket) (1992)
• Crítica e Clínica (1993)
• A ilha deserta e outros textos – 1953-1974 (2002)
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

Com Félix Guattari:


• O Anti-Édipo (1972)
• Kafka. Por uma literatura menor (1975)
• Mil platôs (1980)
• O que é a filosofia? (1991)

Com Claire Parnet:


• Dialogues (1977)

Com Carmelo Bene:


• Superpositions (1979)
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

Revisão da História da Filosofia → Filosofia própria

Ontologia Univocista ( com Duns Scot e Espinosa ) : imanência

Filosofia da Diferença :
Aristóteles e Hegel X Deleuze

A política : a Sociedade de Controle


DELEUZE ( 1925 – 1995 )

Deleuze e Guattari (Mil platôs, v.2). Crítica à função


comunicacional (representacional) da linguagem.

Professora e palavra-de-ordem. Coordenadas duais da


gramática. Enunciado e palavra-de-ordem: ameaça. Performativo
e ilocutório: da fala (prática cotidiana) à língua (teorização
erudita). Enunciados–ações. Enunciação sem sujeito: social.
Transformações incorporais: velhice; careca. Linhas de
segmentaridade dura. Atribuição de “valores” pelo discurso.
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

A professora ensi(g)na, dá ordens, comandos, enquanto trabalha


conteúdos.
Uma nova ordem se apóia em ordens anteriores: redundância e
polifonia.
“A linguagem não é mesmo feita para que se acredite nela, mas
para obedecer e fazer obedecer” (p.12).
A linguagem define o que se deve perceber e reter do mundo.
A expressão atípica desterritorializa a língua. Ver Guimarães Rosa
e Manoel de Barros.
Poetas, loucos, crianças, analfabetos?
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

Das variáveis às constantes. Homogeneização, padronização,


centralização, territorialização, majoração. “Língua maior”:
dominante; língua do poder; palavra-de-ordem (não do primeiro
que viu para o segundo que não viu, mas do segundo que não
viu para o terceiro que também não viu). Menos “duas
essências”, e mais dois tratamentos dados às línguas (distinção
social; hierarquização; linhas de segmentaridade dura); tomada
de poder (inglês). Centro X periferias. Língua X dialetos. Religião
X seitas. Normal X anormais.
DELEUZE ( 1925 – 1995 )

“Não existe língua-mãe, e sim tomada de poder por uma língua


dominante” (p.46). Do francês para o inglês.
Equívoco metodológico: tratar como se as constantes estivessem
“lado a lado” com as variáveis. Ao contrário disso, as constantes
é que são retiradas das variáveis.
A constante parece ocupar o “centro simbólico”. Mas ela apenas
aparece 2 vezes: a primeira, junto das variáveis todas; a segunda,
quando se torna constante.
“ ‘Maior’ e ‘menor’ não qualificam duas línguas, mas dois usos
ou funções da língua” (p.50)
“Maioria implica uma constante, de expressão ou de conteúdo,
como um metro padrão em relação ao qual ela é avaliada”
(p.52).
SOCIEDADE DISCIPLINAR (Foucault) : SOCIEDADE DE CONTROLE (Deleuze) :
Instituições tradicionais: família; escola; Crise das instituições tradicionais e “necessidade
fábrica; exército; hospital; hospício; asilo; reforma-las”
prisão
Espaços fechados Espaços abertos
Dominação por exclusões Dominação por inclusões
Moldes fixos (normas) Modulações constantes
Setor secundário (fábricas) Setor terciário (empresas)
Produção e produtos Sobreprodução e serviços/consumo
Papel-moeda (dinheiro) Créditos (trocas flutuantes)
Quitação aparente Moratória ilimitada
Massa/indivíduos Divíduos
Assinatura/identidade Senhas/códigos
Era mecânica Era eletrônica/digital
Máquinas energéticas Máquinas informáticas
Termodinâmica Informatização/semiotização
Entropia/sabotagem Interferências/vírus
As 3 “personagens do mal” : As 3 “personagens do mal” :
- delinquente - endividado
- louco - viciado
- doente - portador de riscos
REFERÊNCIAS BÁSICAS :

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e


esquizofrenia (vol.2). Rio de Janeiro: Ed.34, 1995.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed.34, 1992.


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Epistemologia da Comunicação :
teorias
Epistemologia da Comunicação : teorias

Epistemologia da Comunicação

Mass Communication Research: Hipodérmica; Empírico-


Experimental; Empírica em Campo ou Dos Efeitos Limitados

Teorias do Jornalismo: do Espelho; Agenda Setting; Espiral


do Silêncio; Gatekeeper; Newsmaking

Teoria Matemática da Comunicação ou Teoria da Informação

Semióticas; Semiologia; Análises do Discurso


Epistemologia da Comunicação : teorias

Escola de Palo Alto

Escola de Chicago

Teoria Estrutural-Funcionalista

Teoria dos Usos e Gratificações

Teoria Crítica ou Escola de Frankfurt: Benjamin; Adorno e


Horkheimer; Habermas

Escola de Toronto: McLuhan


Epistemologia da Comunicação : teorias

Teorias Culturológicas: Debord; Baudrillard; Morin; Eco

Estudos Culturais: Hoggart; Thompson; Williams; Hall

Teoria da Recepção

Perspectiva Latinoamericana

Cibercultura
Epistemologia da Comunicação : teorias

DE FLEUR, Melvin; BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da comunicação de massa.

HOHLFELDT, Antonio; FRANÇA, Vera Veiga; MARTINO, Luiz C. Teorias da


Comunicação: conceitos, escolas e tendências.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Teoria da Comunicação: ideias, conceitos e métodos.

MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História das Teorias da


Comunicação.

POLISTCHUK, Ilana; TRINTA, Aluizio Ramos. Teorias da Comunicação: o


pensamento e a prática da Comunicação Social.

WOLF, Mauro. Teorias das comunicações de massa.


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Filosofia da Comunicação :
a Semiótica
Princípios gerais da Semiótica:

O signo tem autonomia relativa com relação ao intérprete – em


Peirce (objeto dinâmico / interpretante imediato), em Greimas
(estrutura do texto), na Semiótica Russa (semiosfera / código /
memória), em Eco (intentio operis).

“O primeiro passo a ser dado é o fenomenológico: contemplar,


então discriminar e, por fim, generalizar em correspondência
com as categorias da primeiridade, secundidade e terceiridade”
(SANTAELLA, 2005, p.29).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
“Semiótica” é uma “ciência dos signos”, cujo nome deriva da antiga
palavra grega semeion. Lida com a linguagem (verbal e não-verbal).
Santaella, 1983, p.10:
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
É uma teoria que observa diretamente os fenômenos, discrimina
diferenças em seus estágios ou funcionamento e generaliza essas
observações.
3 classes universais de inferências ou raciocínios:
Abdução → Dedução → Indução
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Segundo Peirce, a Abdução (hipótese) é um instinto racional. Uma


espécie de “adivinhação” das leis da natureza, por uma espécie de
“luz natural” da razão.

O insight abdutivo é instantâneo, mas o processo de seleção e


construção da hipótese é consciente e raciocinado. Uma lógica geral
do pensamento vivo.

“Assim sendo, a abdução segue alguns passos: 1) a observação


criativa de um fato; (2) uma inferência que tem a natureza de uma
adivinhação; (3) a avaliação da inferência reconstruída.” (Santaella,
2002, p.121).

A abdução é frágil, por conter as possibilidades da verdade e do erro.


A dedução é um argumento forte, apesar de não ter
responsabilidade em relação ao mundo. A indução é o argumento
que confronta a realidade, mas suas conclusões são apenas
provisórias.
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

A “metodêutica” de Peirce é sua metodologia específica, que integra


os 3 argumentos que acabamos de ver. “(...) abdução, ou descoberta
de uma hipótese; dedução, ou extração das consequências da
hipótese; indução ou teste da hipótese” (Santaella, 1994, p.166).

Assim que uma hipótese (abdução, que é preparatória) é formulada,


passa-se a testar suas consequências experimentais prováveis e
necessárias – isto se faz pela dedução (da hipótese teórica à sua
verificação empírica). Daí, passa-se à indução (pela recorrência
empírica percebida, chega-se à possibilidade de generalização).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

A indução (inferência forte) vai do particular para o geral. Ela infere


de um conjunto de fatos para outro conjunto de fatos semelhantes.
Se dá por hábito (ver o signo simbólico).

A abdução (inferência fraca) vai do efeito para a causa. Ela infere de


fatos de um tipo para fatos de outro tipo (ver o signo indicial).

“A Ideoscopia consiste em descrever e classificar as ideias que estão


na experiência ordinária, ou que naturalmente brotam em conexão
com a vida comum, independentemente de serem válidas ou não-
válidas e independentemente de sua feição psicológica” (Peirce,
1972, p.135).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Pragmaticismo:
o sentido de algo está no entendimento do conjunto de seus efeitos
práticos.

Não sabemos o que afeta nossa mente, a cada instante, e nem como
o faz. Estamos o tempo todo “lendo” e interpretando signos (e sendo
afetados por eles).

O pensamento é uma ação, e consiste numa relação (Peirce, 1972,


p.57).

“(...) a função total do pensamento se resume em gerar hábitos de


agir (...)” (Peirce, 1972, p.57).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

“Uma coisa significa apenas os hábitos que ela envolve. Ora, a


caracterização de um hábito depende de como ele possa nos levar a
agir (...)” (Peirce, 1972, p.58). Todo estímulo a agir deriva da
percepção.

“Nossa ideia a respeito de algo é nossa ideia acerca de seus efeitos


sensíveis (...) A concepção desses efeitos corresponderá ao todo da
concepção que tenhamos do objeto” (Peirce, 1972, p.59).

“O pragmatismo é fundamentalmente uma teoria do conhecimento


que visa a dar uma resposta à pergunta: ‘Como se dá o
conhecimento?’.” (Shook, 2002, p.11). Os pragmatistas concordam
que a realidade é bem mais ampla e rica do que a totalidade dos
objetos do conhecimento. Ver o jogo dos Interpretantes.
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

“Todo pensamento é um processo de interações entre signos e deve


estar relacionado à ação humana no mundo” (Shook, 2002, p.50).

“A única maneira de um organismo interagir com o ambiente é ser


sensível a processos que nele ocorrem” (Shook, 2002, p.52).

Peirce concordou com Hume: a crença se forma pelo hábito. Ver o


funcionamento do signo simbólico.

A concepção mental que temos de um signo é a compreensão da


totalidade de seus efeitos práticos.

Nossas ideias têm relações de inferência porque são signos, e porque


um signo pode ter como seu Objeto/Referente outro signo. Ver a
questão peirceana da semiose ilimitada (infinita).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
Fundamentação metafísica / fenomenológica:
a) Primeiridade: característica daquilo que se dá em primeiro;
todas as possibilidades estão em aberto. EX1: agente do C.S.I.
chegando na cena do crime. EX2: bater o olho numa imagem,
ou num anúncio. Primeiro impacto estético. Perceptos. EX3:
Vermelhidão.

b) Secundidade: característica daquilo que se dá em segundo;


confronto com o real e suas reações. EX1: agente do C.S.I.
recolhendo indícios e traçando uma linha de raciocínio. EX2:
percurso da leitura da imagem, ou do anúncio. Afecções e
Afetos. EX3: Objeto vermelho.

c) Terceiridade: característica daquilo que se dá em terceiro;


estabelecimento do simbólico / inteligível. EX1: agente do
C.S.I. desvendou o crime e encontrou a sua solução. EX2:
compreensão do nível profundo da imagem, ou do anúncio.
Conteúdos conscientizados; signos completos. Sentido
compreendido. Conceitos. EX3: compreensão do sentido e da
função do objeto vermelho (camiseta; mochila; etc).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
Tríade básica (Charles Morris, 1976):
1) Relação do Signo com o Objeto/Referente (Semântica)
2) Relação do Signo com outros Signos (Sintaxe)
3) Relação do Signo com seus Interpretantes (Pragmática)

Peirce, In: Santaella, 1983, p.58:


CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

- Objeto ou Referente: aquilo que está no mundo,


“anteriormente” ao processo semiótico (semiose), e antes de
chegar à mente.
Objeto dinâmico: é o “objeto no mundo concreto, real”.
Objeto imediato: é o “objeto na (que vai pra) mente”;
“objeto” que o signo carrega dentro de si.

- Signo ou Representâmen: aquilo que substitui ou representa


algo (Objeto ou Referente) para alguém (Intérprete), em
determinada situação ou contexto, e com determinado efeito
pragmático (Interpretante).

- Interpretante: efeito da semiose (ilimitada); signo (mental) do


signo (emitido pelo Objeto ou Referente). Imediato; Dinâmico;
Final.
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Relação do signo consigo mesmo (Sintaxe) :

a) Quali-signo: qualidade fisicalizada de um signo.


Um signo que é uma qualidade (em si mesmo).

b) Sin-signo: evento dado uma única vez; ele mesmo


único, singular (“áura”, em Benjamin). Um signo que
é um evento. Contingência.

c) Legi-signo: tipo geral, generalizado, que rege ou dá


o parâmetro para os outros eventos. Um signo que é
uma lei, ou regra, ou convenção social.
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Relação do signo com seu Objeto ou Referente (Semântica) :

a) Ícone: por semelhança; fotografia (+ ou -); assobio;


imagem (publicitária) com função identificatória
(humanizada); foto jornalística.

b) Índice: por causalidade; fumaça-fogo; cicatriz-


ferimento; valores e afetos indicados no anúncio; o
que a notícia indica, sugere, aponta; o que um filme
deixa pensar; quais afetos são sugeridos na
ambientação digital.

c) Símbolo: por contigüidade lógica; Carlos Moreno e


Bombril; construção da marca por fidelização; já-
sabido (matéria, nota, opinião, editorial...).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Relação do signo com seu Interpretante (Pragmática) :


CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Os três tipos de Interpretante:


a) Interpretante Imediato: tudo aquilo que um signo está
apto a produzir na mente de um intérprete (antes de fazê-
lo). Abertura máxima.
b) Interpretante Dinâmico: aquilo que um signo de fato
produziu ou produz na mente de um determinado
intérprete. Interpretação individual.
c) Interpretante Final: aquilo que um signo produziria
numa mente intérprete (ou em várias mentes de vários
intérpretes), caso a semiose pudesse ser levada ao infinito,
esgotando todas as possibilidades de interpretação desse
signo (neste sentido, abarcando a totalidade das
interpretações e coincidindo com o Interpretante
Imediato). Incompleto sempre.
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN

Referências:
BENSE, Max. Pequena Estética. São Paulo: Perspectiva, 1971.
COELHO NETTO, J. Teixeira. Semiótica, informação e comunicação: diagrama
da teoria do signo. São Paulo: Perspectiva, 2001 (5ª ed.).
DEELY, John. Semiótica básica. São Paulo: Ática, 1990.
DELEDALLE, Gerard. Théorie et pratique du signe. Paris: Payot, 1979.
MORRIS, Charles. Fundamentos da teoria dos signos. São Paulo: EDUSP, 1976.
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2000 (3ª ed.).
. Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix, 1972.
PIGNATARI, Décio. Semiótica e literatura. São Paulo: Côrtes & Moraes, 1979 (2ª
ed.).
. Informação, linguagem, comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1970
(4ª ed.).
CHARLES SANDERS PEIRCE E O REPRESENTÂMEN
Referências:
SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SANTAELLA, Lúcia. Semiótica aplicada. São Paulo: Pioneira Thomson Learning,
2002.
. A assinatura das coisas: Peirce e a literatura. Rio de Janeiro: Imago,
1992.
. Comunicação e pesquisa. São Paulo: Hacker, 2001.
. A teoria geral dos signos: como as linguagens significam as coisas.
São Paulo: Pioneira, 2000.
. Estética: de Platão a Peirce. São Paulo: Experimento, 1994.
SANTAELLA, Lúcia; NÖTH, Winfried. Comunicação e semiótica. São Paulo:
Hacker, 2004.
SHOOK, John R. Os pioneiros do pragmatismo americano. Rio de Janeiro:
DP&A, 2002.
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Filosofia da Comunicação :
Herbert Marshall McLuhan (1911-1980)
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Escola de Toronto (Canadá)

Ex-aluno de Eric Havelock e de Harold Innis

As tecnologias dos meios de comunicação (os media) estão na base


dos processos socioculturais

As tecnologias (inclusive dos media) configuram/determinam as


formas de organização social, cognitiva, afetiva e subjetiva

Teoria da Mídia: forma > conteúdos; materialidade → cognição


Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Harold Innis (1894-1952) :


As mídias de cada época e lugar moldam as sociedades política,
econômica e culturalmente
Mídias moldam a percepção de espaço e tempo
Excesso e aceleração de informações

Eric Havelock (1903-1988) :


“Prefácio a Platão” (1963)
1º: Cultura, pensamento e literatura orais
2º: Cultura, pensamento e literatura escritos (a partir de Platão)
Letramento → cognição nova
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

“McLuhan sugere que a história da humanidade pode ser pensada,


de maneira alternativa, como a história da interação entre o
indivíduo e a sociedade a partir da mediação da técnica” (Martino,
2014, p.193).

Tanto as novas mídias como as alterações nas mídias existentes


transformam as maneiras de perceber, sentir, conhecer e se
relacionar.

“As características intrínsecas de cada meio implicam alterações na


produção e na recepção da mensagem” (Martino, 2014, p.197).
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

FASE 1 : CULTURA ORAL ( tribalização )

1ª Revolução : Prensa de Gutenberg (1450 [1962])

FASE 2 : CULTURA TIPOGRÁFICA ( destribalização )

2ª Revolução : mídias audiovisuais (séc. XIX e XX [1964])

FASE 3 : CULTURA AUDIOVISUAL ( retribalização )


Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Qualquer (nova) tecnologia de comunicação cria seu


respectivo ambiente humano (cultural; cognitivo; etc)

A cultura da tecnologia tipográfica estancou o lugar do saber


em formas escritas/impressas

A cultura audiovisual acelerou a produção de conhecimento


e a vida em geral

Pensamento → Fala → escrita → impressos → etc


Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Aldeia Global ( 1964 )

Meios de comunicação como extensões do homem ( 1964 )

“ O meio é a mensagem ” ( 1967 )

Expansões: perceptiva, afetiva, cognitiva (ver a Semiótica)

Meio Anterior → Meio Novo (re-mediation)

Meios Quentes e Meios Frios ( 1964 )


Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

MEIOS QUENTES : MEIOS FRIOS :


Prolonga 1 único sentido do Prolonga mais de 1 sentido do
corpo corpo
Alta saturação de informações Baixa saturação de informações
Receptor não precisa completar a Receptor precisa completar a
informação informação
Permite menor participação do Permite maior participação do
receptor receptor
Livro Diálogo
Fotografia Desenho; caricatura
Cinema Telefone
Rádio Televisão
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Jay Bolter e Richard Grusin ( 2000 )

“ Remediação ” :
Processo que ocorre quando um meio passa a incorporar elementos
de outros meios, a fim de melhorar a si próprio, criando assim um
dinamismo entre diferentes instrumentos de comunicação. Quando
elementos característicos de uma mídia se articulam em outra
mídia.

A dupla lógica da “ Remediação ” :


“ Hipermediação ” e “ Imediação ”
Remediation: a “representação de mídias anteriores como
forma de incrementar ou mesmo para constituir as suas próprias
linguagens, em busca da immediacy, realizando para isto a
hipermediacy” (Pereira, s/d., p.5).

Refere-se à crescente tendência de um meio desaparecer em


relação aos seus conteúdos. Ao promover a comunicação, as
mídias articulam cada vez mais facilmente voz, imagens, fotos,
vídeo... Ao ponto de não chamarem tanta atenção quanto seus
conteúdos comunicados.

Na pintura: “E, em geral, quanto mais fiel a representação, maior


a chance de o observador esquecer que, no fundo, está olhando
para pigmentos coloridos espalhados sobre um tecido” (Martino,
2014, p.222).
As mídias se multiplicam e são cada vez mais usadas em conjunto.

Mona Lisa: mediada 2 vezes (quadro → internet).

Aproximação: de qualquer pessoa (“valor de exibição”).

Distanciamento: do suporte/mídia original (tela de Da Vinci).

“No caso específico da mídia digital, a dupla mediação está na


possibilidade de aglutinar imagens, fotos, filmes, textos, sons e
outras linguagens em uma outra mídia. É uma representação da
representação, de onde o conceito de ‘re-mediação’” (Martino,
2014, p.224).
Regis Débray (“Vie et mort des images”) → Francis Wolff (2005):

“O maior poder da imagem é o de não aparecer. Não vemos a


imagem [representação], só vemos a própria coisa representada...”
(WOLFF, 2005, p.38).

“O mais perigoso poder da imagem é fazer crer que ela não é uma
imagem” (WOLFF, 2005, p.43).

Cremos ver o “real em si”.


O que explica o poder da imagem sobre o homem não são suas
virtudes (forças), mas sim seus “defeitos” (fraquezas), a partir
daquilo que uma imagem não pode fazer:

1) o Conceito;

2) a Negação;

3) o Possível;

4) o Passado e o Futuro.
1) o Conceito:

a imagem ignora o conceito; ela é irracional.


Pode-se representar um animal específico, mas não “a
animalidade”;
pode-se representar um homem, mas não “a humanidade”; um
existente, mas não “a existência”.
“Não dispondo de conceito, a imagem não pode então raciocinar,
comparar, induzir, deduzir; ela não pode sobretudo explicar nada”.
Quem explica é a linguagem verbal.
Por outro lado, a imagem demonstra melhor o particular, por uma
simples visada.
Sua força seria a sua irracionalidade.
2) a Negação:

a imagem desconhece a negação, pois toda imagem afirma:


“vejam”; “aí está”.
“Tudo o que está na imagem está apresentado”.
A imagem não mostra o que não é, mas sim o que é.
Ignorando a negação, ela ignora o debate, a dialética, a oposição.
Se eu quiser afirmar o oposto, terei que recorrer a outra imagem, a
qual apresentará outro “é assim”.
Se ela não pode mostrar o nada, o não, o ninguém, ela mostra
melhor o “é”.
É por isso que regimes totalitários se apóiam em imagens
abundantes.
3) o Possível:

a imagem só conhece um modo gramatical: o indicativo.


Ela desconhece as nuances do subjuntivo/condicional.
“É”, e ponto final.
Ela não consegue mostrar um “se”, um “talvez”.
“Pretendendo representar o real sem nuances, sem julgamentos,
pondo o possível e o real no mesmo plano, ela dá esse sentimento
de realidade que a linguagem não dá”.
Discursos verbais podem ser contraditos, porque não provam tão
irrefutavelmente quanto as imagens.
4) o Passado e o Futuro:

a imagem só conhece o tempo presente, ignorando o passado e


o futuro – equalizando mortos e vivos.
Ela não “diz” o “foi” ou o “será”, mas apenas o “é”.
Por outro lado, é isto que lhe dá o seu caráter místico, religioso,
eterno.
Richard Grusin : “ Premediação ” ( 2001 )

Acontecimentos vão costurando as possibilidades de “mediação”


– no futuro. Pesquisa sobre as condições de possibilidade do
surgimento de certas “(Re)mediações”.

O 11 de setembro de 2001 midiatizado → filmes de catástrofes


no cinema...
“Não é só o conteúdo a ser premediado, mas o evento em si a
assumir a mesma forma em termos de media” (Grusin, 2010).

“A vida afetiva das mídias”...

Acontecimentos midiaticamente significativos não ficam


confinados a uma única mídia, mas são distribuídos por inúmeras
mídias.
Richard Grusin : “ Premediação ” ( 2001 )
“A vida afetiva das mídias”

Hoje nós interagimos, cognitiva e afetivamente, com pessoas


ausentes, por meio de aparatos tecnomidiáticos.

A revolução digital criou radicalmente novas formas de interação


entre os aparatos tecnomidiáticos e seus usuários.

“Andy Clark, por exemplo, afirma que o que diferencia os humanos


de outras espécies é menos a sua aptidão cognitiva e analítica inata
do que a sua capacidade de distribuir cognição através de um
grande número de práticas e artefatos técnicos” (p.92).
Richard Grusin : “ Premediação ” ( 2001 )
“A vida afetiva das mídias”

Pelo uso cultural das tecnologias, o homem treinou seu cérebro para usar
e distribuir cognição por meio dessas tecnologias. Eis o que se chama de
“cognição distribuída”.

E se o corpo é indispensável nessas experiências do homem em interação


com outros homens e com as próprias tecnologias, podemos falar de
“afetos distribuídos” também.

“Quando você move seu avatar em um jogo, por exemplo, ou usa o mouse
para mover o cursor na tela do seu PC ou manipula o toque na tela do seu
iPhone, você está adicionando padrões de toque transversais ao
acoplamento da visão e do som. (...) Nesse caminho nossa interatividade
de mídia fornece um tipo de intensificação ou reduplicação de relações
interpessoais afetivas” (p.96).
Richard Grusin : “ Premediação ” ( 2001 )
“A vida afetiva das mídias”

“Nós interagimos afetivamente com outras pessoas, e por extensão


com nossas ferramentas externas e mídias. Seguindo Stern, eu
argumento que aprendemos a modular nossos estados afetivos
interagindo com coisas, pessoas, mídia ou tecnologias em nosso
ambiente” (p.96).

“Se cérebros e processamento neural co-evoluirem como polegares


e controladores de videogame, então parece provável que os nossos
estados afetivos também co-evoluirão com a nossa mídia e outras
novas tecnologias” (p.96).
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Vinícius Andrade Pereira ( UERJ ) :

Da ideia de Aldeia Global para a de Teia Global: rede que


reúne, como seus conteúdos, todos os outros meios: fala,
escrita, pintura, fotografia, rádio, TV, música, games, etc –
hipermeio, ou seja, hipermídia → novas subjetivações

“As mídias de hoje realizariam, pois, o que [Bolter e Grusin]


chamam de remediation, a representação de mídias anteriores
como forma de incrementar ou mesmo para constituir as suas
próprias linguagens, em busca da immediacy, realizando para
isto a hipermediacy. Para Bolter e Grusin a característica
fundamental das mídias digitais contemporâneas seria, pois, a
prática da remediation.”
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Vinícius Andrade Pereira ( UERJ ) :

1 - Tendência à promoção da redução da energia corporal


investida no ato da comunicação. Princípio da economia
energética na comunicação;
2 - Tendência à complexidade crescente quanto à capacidade
de estocar informações. Princípio da excelência mnêmica;
3 - Tendência à invisibilidade da tecnologia comunicacional.
Princípio da excelência interfacial;
4 - Tendência para absorver e reatualizar a tecnologia
comunicacional anterior. Princípio da hibridação midiática;
5 - Tendência ao aumento da independência quanto às
determinações impostas pelas variáveis espacial e temporal
para a comunicação. Princípio da relatividade espaçotemporal;
6 - Tendência à multidirecionalidade da comunicação.
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan

Críticas :

• Raymond Williams: formalismo exagerado e determinismo


tecnológico.

• Hans Magnus Enzensberger: caráter despolitizado e reacionário.

• Asa Briggs e Peter Burke: desconsideração de diferenças


regionais e culturais, e generalização superficial.
Filosofia da Comunicação : Marshall McLuhan
BOLTER, Jay D.; GRUSIN, Richard. Remediation: understanding New Media.

GRUSIN, Richard. Premediation: affect and mediality after 9/11.

MARTINO, Luís Mauro Sá. Teoria das mídias digitais: linguagens, ambientes e redes.

MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg.

____ . Os meios de comunicação como extensões do homem (Understanding Media).

____ . The medium is the mass-age.

PEREIRA, Vinícius Andrade. Estendendo McLuhan: da Aldeia à Teia Global –


comunicação, memória e tecnologia.

MACHADO, Irene. Escola de Semiótica: a experiência de Tártu-Moscou para o estudo


da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

SCHNEIDERMAN, Boris. Semiótica russa. São Paulo: Perspectiva, 1979.


FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Filosofia da Comunicação :
Teoria Alemã da Mídia
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Surge dentro do campo das Teorias Literárias


potencializando questionamentos sobre: texto; mídia;
percepção; tecnologia

Em comum com McLuhan, a Teoria Alemã da Mídia pensa a


Comunicação (regimes de signos imateriais) a partir de sua
realidade material (suportes físicos)

Mídia = materialidade → imaterialidade

Exemplos: W. Benjamin; S. Schmidt; V. Flusser


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Da Estética da Recepção Literária à Teoria da Mídia

W. Iser; H. Jauss; K. Stierle (Escola de Konstanz, anos 1970):


os contextos das recepções das obras literárias (processos
histórico-culturais) > “gênio”; “obra-prima”
(essencializações)

Somou-se a esta concepção a visão dos Estudos Culturais (a


partir dos anos 1980)

Trabalhos de J. Habermas e de N. Luhmann


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Media Turn: paradigma da “medialidade” – com F. Kittler; N. Bolz;


H. U. Gumbrecht; J. Müller

“Para Kittler [Friedrich Kittler, 1986], a invenção de novos


aparelhos e dispositivos (alguns derivados de tecnologia militar)
como a máquina de escrever, o gramofone e o cinema, criaram
novos “sistemas discursivos”, nos quais o fato tecnológico
constitui o fator decisivo para a compreensão de uma época em
que a emergência do sentido (e a falta de sentido) deve(m) ser
compreendida(s) à luz das transformações midiáticas do mundo
moderno.” (MULLER, 2009, p.108)
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Para Kittler, diferentemente de McLuhan, “é a subjetividade


humana que está desaparecendo na maquinaria da
comunicação” (Felinto; Santaella, 2012, p.161).

Segundo Kittler, a materialidade da comunicação é anterior a


qualquer questão sobre os significados. A “medialidade” é a
“condição geral dentro da qual, sob circunstâncias específicas,
algo como a literatura ou o cinema, por exemplo, tomam forma”
(Felinto; Santaella, 2012, p.162).

“A operação de armazenamento e as funções de recuperação são


mais importantes do que os conteúdos arquivados” (Felinto;
Santaella, 2012, p.163).
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Norbert Bolz (1993) pesquisa as consequências da superação


da “era de Gutenberg” e do surgimento de novas tecnologias
e da Internet

“Hans Ulrich GUMBRECHT (1998; 1993), saído do grupo de


Konstanz, estuda a passagem da performance oral à escrita
na Idade Média, demonstrando que a separação do corpo e
da escrita faz emergir um novo processo de constituição de
sentido, que tem incidências sobre o moderno conceito de
subjetividade.” (MULLER, 2009, p.109)
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Jürgen Müller analisa a incidência de uma mídia sobre outra


e de várias mídias entre si: da intertextualidade à re-
mediação e à “intermidialidade”

Pensa a centralidade das mídias (meios de comunicação) na


cultura contemporânea

O conceito de “mídia” surge a partir dos mass media – ou


seja, falar de “mídia” antes disso requer esta ressalva – e isto
mostra uma crítica a McLuhan e seu alargamento do
conceito de mídia a todas as tecnologias: telefone, língua
falada, escrita, luz, trem, máquina de escrever,
eletricidade, cinema, publicidade, etc
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Os alemães diferenciam Mídia (medium; medien: meio de


comunicação; mídia) e Meio (mittel: veículo; uma tábua de
madeira pode servir como meio de transporte de algo) – ou
seja, nem todo Meio é necessariamente uma Mídia

“Siegfried J. SCHMIDT (1996) entende que o conceito de


mídia não pode ser entendido fora de um contexto sistêmico
que envolve a cognição, a comunicação, a cultura e as
mídias.” (MULLER, 2009, p.117)

“Schmidt procura demonstrar como a conjunção dos fatores


comunicação, cognição, cultura e mídia, constrói o que
chamamos de realidade.” (MULLER, 2009, p.118)
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

“Siegfried J. Schmidt chama nosso mundo de


Medienkulturgesellschaft, sociedade midiático-cultural,
uma sociedade que não se define apenas pelas relações
de produção, mas também – ou sobretudo – pelas
transformações midiáticas.” (MULLER, 2009, p.120)

Mas a ideia de que a sociedade (o capitalismo) cria não só


objetos para sujeitos, mas também sujeitos para objetos já
era defendida por Marx...

Vilém Flusser pensa a cultura como marcada por


transformações comunicacionais/midiáticas na cognição, o
que é possível pela codificação das relações sociais
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Em Vilém Flusser, a comunicação é concebida de um ponto de


vista existencial, como um movimento humano para se esquecer
a morte. Neguentropia X entropia.

“Nós nos comunicamos não tanto para trocar informações entre


um receptor e um emissor ligados por um canal, mas antes para
criar com os outros uma razão para viver. A comunicação é um
ato coletivo, dialógico, intencional e artificial de liberdade,
visando criar códigos que nos ajudem a esquecer a morte
inevitável e a falta de sentido de nossa existência absurda”
(Guldin, 2008, p.79).
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Em Flusser, formula-se a questão: como conseguimos criar,


armazenar e distribuir informações, com o objetivo de tornar
aceitável a nossa condição de seres humanos?

“Nós criamos uma rede de informações para entender e


interpretar o mundo à nossa volta e nós mesmos em conexão
com os demais” (Guldin, 2008, p.80). Ver a Semiótica Russa.

Flusser chama a atenção para a profunda artificialidade de todos


os códigos e estruturas comunicacionais, de todas as mídias e da
cultura em geral. São construções históricas. “O homem cria
cultura para liberar a si mesmo do medo da morte, mas através
dessa cultura ele cria tão somente uma nova forma de
dependência” (Guldin, 2008, p.80-81).
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

A comunicação tem natureza fundamentalmente dialógica e


intersubjetiva.

Há 2 princípios intersubjetivos, contrários mas complementares:

1- o Diálogo: coletivo; uma série de Discursos; é necessário para


criar informação nova por meio da recombinação da informação
já existente (dinâmico); produção e criatividade; seu material são
os Discursos. EX: diferentes livros de Filosofia.

2- o Discurso: individual; é necessário para armazenar, conservar


e transmitir informação (estático); conservação e distribuição;
nasce do Diálogo. EX: um livro de Filosofia.
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Flusser fala da atual dificuldade de criarmos Diálogos novos e


verdadeiros. Haveria um desequilíbrio entre Diálogo e Discurso,
em benefício deste último.

O excesso de Discursos impediria os verdadeiros Diálogos. Da


“hiperdiscursividade” ao “não-diálogo”. “Em outras palavras: a
conservação e a distribuição prevalecem sobre a produção e a
criatividade” (Guldin, 2008, p.89).

Seria desejável um equilíbrio entre a “fidelidade à informação”


(da fonte que a criou) e a “progressão da informação” (que
transforma destinatários em futuras fontes de criação).
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

“Para Flusser, entender as transformações que nos levaram ao


mundo “pós-histórico” é a tarefa de quem é capaz de observar as
transformações nas tecnologias de informação e comunicação,
isto é, as transformações midiáticas.” (MULLER, 2009, p.123)

Flusser diferencia: mídias discursivas (uma mensagem codificada


é transmitida da memória de um emissor à memória de um
receptor; EX: cinema; cartaz) e mídias dialógicas (uma
mensagem codificada circula entre diferentes memórias; EX:
bolsa de valores; praça pública) – mas uma mídia discursiva pode
transformar-se em dialógica e vice-versa (dependendo de como
são usadas)
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

(Guldin, 2008, p.).


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

Contra McLuhan, Flusser diz que importam mais os modos


sociais como as mídias são usadas do que suas características
próprias.

Pergunta: o que é o gesto de fotografar ou filmar?; quais são suas


implicações filosóficas?; de que maneira isso altera nossas
relações com o mundo e com os outros? Ver (Guldin, 2008):
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

“(...) na imagem fotográfica, não é a “realidade” que eu deveria


estar vendo, mas os conceitos químico-óticos que permitem a
fixação da imagem no celulóide através de um princípio de
camera obscura. Isso constitui a “caixa preta” da tecnologia, que
pressupõe programas e programadores. Para o fotógrafo de
família, o ato fotográfico não é mais do que acionar um
programa. Para o “artista”, no entanto, resta a possibilidade de
abrir a caixa preta, e entender o funcionamento do aparelho.
Nesse caso, “o trabalho fotográfico será feito para forçar o
aparelho a servir para aquilo que ele não foi programado”
(FLUSSER 2005 apud MULLER, 2009, p.122-123)
Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

(Felinto; Santaella, 2012, p.169) :


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

(Felinto; Santaella, 2012, p.171) :


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

(Felinto; Santaella, 2012, p.172) :


Filosofia da Comunicação : a Teoria Alemã da Mídia

BERNARDO, Gustavo; Anke Finger; Rainer Guldin. Vilém Flusser: uma introdução. São
Paulo: Annablume, 2008.

FELINTO, Erick; SANTAELLA, Lucia. O explorador de abismos: Vilém Flusser e o pós-


humanismo. São Paulo: Paulus, 2012.

FLUSSER, Vilém. Comunicologia: reflexões sobre o futuro. São Paulo: Martins Fontes,
2014.

____ . O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo:
Cosac Naify, 2007.

____ . A filosofia da caixa preta: ensaios para uma filosofia da fotografia. São Paulo:
Hucitec, 1985.

MÜLLER, Adalberto. As contribuições da teoria da mídia alemã para o pensamento


contemporâneo. Pandaemonium germanicum 13, 2009, 107-126. –
www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum .
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Filosofia da Técnica
Filosofia da Técnica

A Modernidade havia separado “sujeito” e “objeto” ;


“natureza” e “cultura/artifício” ; “homem” e “máquina” .

A Contemporaneidade ( Pós ou Hipermoderna ) traz


agenciamentos , hibridismos , misturas .

Enquanto o homem se mistura aos artefatos , as


máquinas se tornam sensíveis ( com sensores ) .

Inteligência Artificial .
Filosofia da Técnica

Bruno Latour ( “ Jamais fomos modernos ” ) fala da


“proliferação de híbridos” entre natureza e cultura .

Uma catástrofe tem o que de “ natural ” e o que de


produzida culturalmente pelo homem ?

A natureza entra na história e a história entra na


natureza .

“ O homem é mais um turbilhão em uma natureza


turbilhonante ” ( Michel Serres ) .
Filosofia da Técnica

Qual a fronteira entre o que há de fisiológico e o que há


de psíquico em uma doença ? A quem cabe a mente ?

Le Roy e Bachelard : os fatos são feitos ( constructos ) .


Nem puramente real , nem social , nem narrativa .

Tudo é , ao mesmo tempo , real , social e narrado .

E se até mesmo a cultura for um produto “ da natureza


do homem ” ? O homem sempre criou objetos técnicos .
Filosofia da Técnica

Entre o sujeito e o objeto , há uma multiplicidade de


mediações , de mediadores .

Bruno Latour e a “ Teoria do Ator – Rede ” .

“ A técnica como desnaturação , como desumanização ,


como perda da origem , perda do autêntico e perda do
sentido parece-me provir de um discurso religioso ou ,
no mínimo , de um esquema de queda , de perda de
uma pureza original ” ( Regis Debray ) .
Filosofia da Técnica

Alain Finkielkraut : a essência da técnica estaria nos


objetos , mas também na nossa “ maneira de ver ” .

Lévi-Strauss : a técnica é , ao mesmo tempo , parte ,


produto e condição da cultura .

Dominique Janicaud : a técnica é totalitária , já que não


podemos escapar dela . Ela é , ao mesmo tempo ,
NEUTRA e NÃO-NEUTRA . A culpa do assassinato é da
faca ?

Pierre Lévy : uma técnica é produzida dentro de uma


cultura , e uma sociedade encontra-se condicionada por
suas técnicas→ McLuhan (Francis Bacon, 1561-1626).
Filosofia da Técnica

Podemos definir o corpo de hoje como “ mutante ” ou


“ ciborgue ” ( ver Donna Haraway ) .

A tecnociência inventou múltiplas maneiras de ( re- )


construção e ( re- ) modelação do corpo por meio de
dietéticas , modas , body building , interveções cirúrgicas , body
modification , body art , intrusão de chips sob a pele , etc .

Tais novas tecnologias afetam as experiências do nosso corpo


e como lidamos com ele. São produzidas novas percepções ,
sensações , sensorialidades , sensibilidades , racionalidades ,
sentidos de urgência , ritmos , sociabilidades , mercados , etc .
Filosofia da Técnica

Liliana da Escóssia ( Concepções sobre a técnica ) :

1 - Instrumentalista (Descartes; Galileu; Marx)

2 - Anti – instrumentalista (Heidegger; Ellul)

3 - Dromológica (Virilio)

4 - Ontogenética (Simondon; Deleuze; Latour)


Filosofia da Técnica

Hermínio Martins ( Hegel, Texas ) :

1 - Postura Prometêica
(moderna: a tecnologia como extensão e potencialização do corpo,
respeitando limites )

2 - Postura Fáustica
(pós-moderna: a tecnologia como uma ultrapassagem da condição
humana e seus limites )

“ A marca fáustica : o agenciamento consumidor – marca na


ciberpublicidade ” ( AZEVEDO; ATEM; OLIVEIRA; TAVARES, 2015 ) .
FILOSOFIA E COMUNICAÇÃO
Prof. Guilherme Nery Atem

Filosofia da Comunicação :
Algoritmos e Produção de
Subjetividade
ANTECEDENTES :

Década de 1910:
Andrei Markov (matemático russo) e sua “cadeia de símbolos” na
literatura. EX: “no caso”... (“de” X “elefante”).

Década de 1920:
Ralph Hartley (norte-americano) propõe a primeira medida precisa da
informação, associada à emissão de símbolos e ancestral do BIT (binary
digit).

Década de 1930:
Alan Turing e John von Neumann concebem, em 1936, uma “máquina
de calcular eletrônica”, capaz de calcular e tratar essa informação
quantificável.
ANTECEDENTES :

Década de 1940:
Norbert Wiener ministra cursos sobre cibernética (arte ou ciência do
controle de informações, nome que ele criou a partir do grego antigo
kubernetes, arte do governo, controle ou pilotagem de barcos).

Claude Shannon:
um dos criadores da Teoria Matemática da Comunicação, ou Teoria da
Informação - trabalhou para a Bell Systems, laboratório de pesquisas da
AT&T, com criptografia; assiste aos cursos de Wiener; publica a primeira
versão em 1948.

Warren Weaver:
se junta a Shannon e republica o estudo deste, em 1949, acrescido de
suas contribuições; coordenou uma pesquisa sobre as grandes
“máquinas de calcular eletrônicas”, durante a Segunda Guerra Mundial.
Década de 1950:
A empresa Ferranti começa a vender os primeiros computadores
comerciais. O físico Gordon Teal substituiu o germânio pelo silício (ou sílex,
matéria da areia), material do chip. Idéia de acentramento: numa possível
“guerra termodinâmica”, o inimigo não deve poder destruir nem tomar o
controle das informações nos computadores norte-americanos.

Década de 1960:
Gordon Moore (fundador da Intel) e sua “Lei de Moore” (1964 - a cada 18
meses, dobra-se a capacidade de processamento dos computadores
fabricados). É a década da “compressão digital”: o chip de silício e a
miniaturização dos computadores (das válvulas aos transistores). Em 1963,
surge o conceito de hiperlink (por Ted Nelson).
Década de 1970:
Surge o Personal Computer (PC). Um laboratório de pesquisas da Xerox
(em Palo Alto, na Califórnia) desenvolve o “indicador de posição X-Y para
um sistema de exibição” (mouse). As coisas se tornavam tão “inteligentes”
quanto as pessoas. Surgem os protocolos TCP/IP (Transfer Control Protocol
e Internet Protocol), para a troca de informações na rede (e-mails).

Década de 1980:
O Japão entra na convergência digital, através de serviços
computadorizados de entretenimento. A globalização, já em curso, traz a
convergência de negócios, no ramo da informação. Informação vale
dinheiro. A Internet já é usada nos meios acadêmicos. Surgem os
provedores comerciais na Internet. A IBM contrata uma então pequena
empresa para desenvolver seu sistema operacional: Microsoft (que em
1983 já tinha 40% do mercado mundial). Em 1984, surge o conceito de
ciberespaço (por William Gibson, em “Neuromancer”). Em 1989, surge a
World Wide Web (ou WWW, por Tim Berners-Lee).
Década de 1990:
A Internet se torna civil e “popular”. Steven Johnson fala de uma “cultura
da interface”. Fala-se de “net-economia”, “e-commerce” e “cibercultura”
(nome que vem de “cibernética”, de Wiener).

Anos 2000:
Em 2004, surge a Web 2.0 (por Tim O’Reilly, da O’Reilly Media). As
tecnologias digitais (Internet; TV Digital) prometem nos livrar da tirania
dos horários e exige de nós uma postura ativa (TV X Internet).

--------------------------------------------------

Em resumo :
Em termos de fluxo comunicacional: MCM (um-muitos) x NTIC (um-um;
muitos-muitos). Do centrado ao acentrado.
Sociabilidade, esfera pública, afetividades, subjetividades, arte, ciência,
filosofia, linguagens, etc.
Big Data
Big Data
O QUE É BIG DATA ?
“Big Data é uma nova geração de tecnologias e arquiteturas,
desenhadas de maneira econômica para extrair valor de grandes
volumes de dados, provenientes de uma variedade de fontes,
permitindo alta velocidade na captura, exploração e análise dos
dados” (IDC, 2011 – International Data Corporation:
https://www.idc.com/home.jsp).

Processamentos paralelos, clusterizados por máquinas comuns e


mais baratas.
Alguns dizem que informações são “dados em contextos”.

Ferramentas :
GFS (2003); MapReduce (2004); Big Table (2006); Hadoop (2006);
Hbase; Spark.
Big Data

O QUE É BIG DATA ?


“Processamento e análise de conjuntos de dados extremamente
grandes, que não podem ser processados utilizando-se
ferramentas convencionais de processamento de dados. Os dados
do Big Data podem provir de diversas fontes, estruturadas,
semiestruturadas e não-estruturadas” (Fábio dos Reis, Bóson
Treinamentos em Tecnologia).

Dados Estruturados: armazenados em bancos de dados relacionais


tradicionais, organizados em tabelas.

Dados Não-estruturados: podem seguir diversos padrões, de forma


heterogênea; mescla de dados oriundos de várias fontes, como
vídeos, textos, áudios, imagens, etc.
Big Data

Todo vídeo do Youtube faz parte de um gigantesco banco de dados.

Algumas das tecnologias envolvidas em Big Data:

Sistemas de arquivos distribuídos


Processamento paralelo massivo
Computação em nuvem
Grids de mineração de dados
Redes de alta velocidade
Sistemas de armazenamento escaláveis
Algoritmos específicos
Inteligência artificial
Big Data

Algumas características do Big Data (os 5 V’s):


Volume, Velocidade, Variedade, Veracidade e Valor.

Volume: refere-se à enorme quantidade de dados. Estima-se que


até 2020 existam cerca de 35 ZB (zettabytes) de dados
armazenados no mundo. 1 ZB equivale a 1 bilhão de terabytes.

Velocidade: taxa de geração de dados em grande velocidade e


ininterrupta. Armazenamento, recuperação e tratamento.

Variedade: páginas web; mídias sociais; e-mails; áudio e vídeo;


fóruns; índices de pesquisa; etc. Apenas 20% dos dados são
estruturados.
Big Data

Algumas características do Big Data (os 5 V’s):


Volume, Velocidade, Variedade, Veracidade e Valor.

Veracidade: refere-se à confiabilidade dos dados (qualidade,


consistência, fonte, dados não-opinativos, etc).

Valor: os dados agregam valor à empresa? Permite aumentar a


receita, identificar novas oportunidades, economizar custos,
melhorar a qualidade do produto e a satisfação do cliente, etc.

Você não altera um dado do Big Data. Ele fica registrado.


Você acrescenta mais dados: cumulatividade e iteratividade.
Big Data
Alguns exemplos de aplicações do Big Data :

- monitoramento de redes sociais;


- recomendação de conteúdos (Netflix; Youtube; Facebook);
- Web Analytics (sites de e-commerce);
- dados provenientes de múltiplos sensores em sistemas de
transporte (aviação; navios);
- análises de dados financeiros (para evitar fraudes);
- análises de dados médicos;
- análises de dados trafegados em redes;
- uso de celulares;
- informações sobre o tempo;
- informações sobre o trânsito e modelos de tráfego;
- Marketing, Publicidade e Propaganda.
Big Data

monitorar a percepção do consumidor

Do monólogo ao diálogo :
monitorar a voz do consumidor.

Coleta de dados → extração das informações pertinentes para uma


marca → definição de como abordar o consumidor de modo
otimizado.

A subjetividade e a criatividade do homem sendo alimentadas


pelos dados.
Algoritmos
Algoritmos

“Fórmula matemática ou estatística executada por um software


para realizar análises de dados. É uma sequência lógica, finita e
definida de instruções que devem ser seguidas para resolver um
problema ou executar uma tarefa. Ele geralmente consiste de
vários cálculos”
(Big Data Business Hekima: http://www.bigdatabusiness.com.br/o-
dicionario-do-big-data-3/ ).

Quando fazemos qualquer coisa que possa ser registrada


digitalmente, estamos produzindo uma quantidade gigantesca e
detalhada de dados, que ficam registrados (Big Data) para servirem
de base para cálculos automáticos clusterizados de estratégias
mercadológicas e/ou políticas (Algoritmos).
Algoritmos
A comunicação digital colocou o Big Data e os Algoritmos como
elementos centrais da publicidade atual.

Os sistemas de informação em rede gerenciam muito da nossa


forma atual de nos relacionarmos, de nos informarmos, de
consumirmos.

“Graças ao URL [Uniform Resource Locator], os algoritmos podem


interagir e ligar-se uns com os outros” (Domingues, 2016, p.213).

“Quando você compra um livro na Amazon, você altera as


definições de sugestões para as pessoas que têm gosto parecido
com você (...) Não percebemos, mas a cada hora que fazemos algo
on-line, acionamos algoritmos. Estamos programando a memória
digital, mesmo não sabendo” (Lévy, 2014 apud Domingues, 2016,
p.218).
Algoritmos
O algoritmo do Facebook, EdgeRank, analisa dados recolhidos
sobre cada um de nós: cada “curtida”, cada “postagem”, cada tudo.
Deixamos rastros a cada pequeno passo que damos. Todas as
informações serão usadas para nos oferecer produtos, serviços,
marcas...

Chamamos de “publicidade algorítmica”.

Talvez os dados sejam “o petróleo do século XXI” (segundo Lévy,


2014).

Hoje, temos a “mídia programática”: a compra automática de


mídia, baseada nos algoritmos. Entretanto, não se deve comprar
100% de mídia automaticamente, porque isso não dá conta de
integrações mais profundas de ações das marcas.
Algoritmos
Algoritmos
Algoritmos
Algoritmos
Algoritmos
Algoritmos
Algoritmos

A publicidade algorítmica traz uma retórica da “liberdade” e de


que tornar-se mais visível é tornar-se mais poderoso e privilegiado.
Big Data e Algoritmos

Com cada vez mais coisas sendo digitalizadas e conectadas à


internet, o que antes acontecia off line hoje acontece on line:
passar numa catraca de ônibus; pagar uma conta; pagar uma
compra com cartão; entrar num site de previsão do tempo; acessar
sua rede social; clicar em uma notícia; assistir a uma série na
Netflix; assistir a um vídeo no Youtube; etc.

Isto é inseparável da vigilância (por rastros na internet e por


geolocalização, p.ex.).

E isto permite mudar as ações publicitárias em tempo real.

A publicidade hoje é menos invasiva?


Big Data e Algoritmos

Matéria jornalística :

“Se está na cozinha, é uma mulher: como os algoritmos


reforçam preconceitos
As máquinas inteligentes consolidam os vieses sexistas,
racistas e classistas que prometiam resolver”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/19/ciencia/1505818015_
847097.html
Big Data e Algoritmos

Matéria jornalística :

“ Facebook confirma que rastreia até os movimentos do


seu mouse ”

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/14/tecnologia/152897096
8_169921.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM
Big Data & Algoritmos
REFERÊNCIAS :

DOMINGUES, Izabela. Publicidade de controle: consumo, cibernética,


vigilância e poder. Porto Alegre: Sulina, 2016.

HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga (Orgs.). Teorias da
Comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Editora Vozes, 2002 (2ª
edição).

MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.

MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História das teorias da comunicação. São


Paulo: Editora Loyola, 1999.

WEAVER, Warren. A teoria matemática da comunicação. In: COHN, Gabriel.


Comunicação e indústria cultural. São Paulo: Editora T. A. Queiroz, 1977.
Glossário da Big Data Business :
http://www.bigdatabusiness.com.br/o-dicionario-do-big-data-3/

• Algoritmo
• Fórmula matemática ou estatística executada por um software para realizar
análises de dados. É uma sequência lógica, finita e definida de instruções que
devem ser seguidas para resolver um problema ou executar uma tarefa. Ele
geralmente consiste de vários cálculos.

• Análise de sentimento
• São técnicas e tecnologias utilizadas para identificar e extrair informações
sobre o sentimento (positivo, negativo ou neutro) de um indivíduo ou grupo
de indivíduos sobre determinado tema.

• Análise preditiva
• Análise preditiva é a utilização dos dados para prever tendências ou eventos
futuros. Ao coletar, organizar e analisar esses dados, torna-se
possível antecipar comportamentos do seu público-alvo, adequando as
estratégias de negócios.
Glossário

• Analytics
• É o conjunto que envolve a coleta de dados, seu processamento
e a análise para gerar insights, ajudando nas tomadas de
decisão data-driven, ou seja, baseadas em informações. No
geral, é uma forma de possuir e analisar dados.

• Cientista de dados
• Analista de dados, especialista em extrair insights de grandes
volumes de informação. Processa, analisa, percebe. O cientista
de dados pode ser matemático, estatístico, sociólogo, cientista
da computação ou até mesmo jornalista. Ele faz parte de uma
equipe multidisciplinar de visão ampla, que tem os olhos
voltados para os negócios e a estratégia.
Glossário
• Clusterização
• Clusterização é o agrupamento de um conjunto de objetos, de forma que os
objetos no mesmo grupo (chamado de cluster) sejam mais similares entre si
do que os objetos reunidos em outros grupos ou clusters.
• A clusterização é uma técnica muito utilizada tanto para mineração quanto
para análise de dados. Seu uso é comum em machine learning,
reconhecimento de padrões, análise de imagens, recuperação de informação
e compressão de dados.
Glossário
• Dados estruturados X dados não estruturados
• Esses termos referem-se à forma como um conjunto de dados
está armazenado, influenciando diretamente na complexidade
de extração de informações dali.
• Dados estruturados têm uma organização lógica (muitas vezes
em linhas e colunas) e favorecem bastante o trabalho de
inteligência. Contêm uma pequena parcela dos dados
disponíveis para extração via Big Data, mas por outro lado
tornam essa tarefa muito mais simples.
• Os dados não estruturados referem-se a informações sem
nenhuma estruturação lógica, como postagens e comentários
em redes sociais, vídeos e e-mails, por exemplo. A interpretação
desses dados é um grande desafio, pois trata-se de um volume
gigantesco de informações. Porém, justamente pelo alto
volume, o potencial para extração de insights comercialmente
relevantes é muito alto.
Glossário
• Data mining
• Data mining, ou mineração de dados, é o processo de descobrir informações
relevantes em grandes quantidades de dados armazenados, estruturados ou
disponíveis em qualquer outro tipo de “depósito”. É um passo essencial para
se adquirir conhecimento sobre a concorrência ou o seu próprio produto.
• Depois de uma mineração bem realizada, entra em cena o Analytics que já
falamos acima. A junção deles é decisiva para empreendedores que
desejam garimpar negócios.

• Escalabilidade
• Característica de um sistema, serviço ou processo de lidar com volumes
crescentes de trabalho, mantendo performances satisfatórias mesmo diante
de aumentos significativos de demanda.
• Um sistema escalável deve estar preparado para suportar aumentos de carga
significativos quando os recursos de hardware e software são requeridos.
Glossário
• Gamificação
• É a transformação em jogo de algo que, bem, normalmente não seria um
jogo. No final das contas, a gamificação é uma estratégia de interação entre
pessoas e empresas, com base no oferecimento de incentivos que
estimulem o engajamento do público com as marcas de maneira lúdica.

• Inteligência Artificial
• Inteligência Artificial (AI) é um subcampo da Ciência da Computação. Seu
objetivo é permitir o desenvolvimento de máquinas inteligentes, que
pensam, trabalham e reagem como seres humanos.
• Algumas das atividades relacionadas às máquinas e computadores “dotados”
de IA são reconhecimento de fala, aprendizado, planejamento e resolução de
problemas.
Glossário
• Internet das Coisas (IoT)
• É a capacidade de recolher, analisar e transmitir dados para as coisas,
aumentando a utilidade delas. E estamos falando de qualquer tipo de coisa,
desde carros que se autodirigem a geladeiras que fazem listas de compras de
supermercado.
• A internet das coisas também contribui, e muito, para o relacionamento das
empresas com os seus clientes.

• Metadata
• Termos em inglês para metadados. Basicamente, são campos de dados que
trazem informações sobre outros dados. Os metadados contêm informações
que explicam um determinado arquivo ou conjunto de arquivos, geralmente
de forma compreensível por sistemas informacionais.
Glossário
• Nuvem (cloud)
• São dados ou softwares rodando em servidores remotos que não tomam
espaço “físico” na sua máquina – seja ela um celular, notebook ou desktop,
por exemplo. As informações sãoarmazenadas em nuvem e se tornam
acessíveis pela internet, de qualquer lugar onde o dono dos dados esteja.

• Processamento de linguagem natural (PLN)


• Processamento de linguagem natural (PLN) é um componente da inteligência
artificial que refere-se à habilidade de um software analisar, entender e
derivar sentido à linguagem humana (esteja ela como fala, texto ou outros
formatos) de maneira inteligente e útil.
• Por meio do PLN, desenvolvedores conseguem executar tarefas como
resumo automático, tradução, reconhecimento de entidades nomeadas,
extração de relacionamento, análise de sentimento, reconhecimento de fala
e segmentação tópica.
Glossário
• Sistemas de recomendação
• Sistemas de recomendação são métodos baseados em machine learning que
ajudam usuários (clientes, visitantes, leitores) a descobrir itens e conteúdos
(produtos, filmes, eventos, artigos). Tais sistemas trabalham prevendo a
classificação que os usuários dariam a cada item e exibindo para eles aqueles
itens que (provavelmente) classificariam bem.
• Sistemas de recomendação têm sido utilizados nos mais variados serviços,
como streaming de vídeos e músicas, assim como no varejo online Não à
toa, Netflix, Spotify e Amazon, líderes de seus respectivos mercados, são
referência no uso de sistemas de recomendação.
Glossário
• Spark
• É um framework de código fonte aberto para computação distribuída. O
Spark provê uma interface para programação de clusters com paralelismo e
tolerância a falhas, e é uma ferramenta extremamente útil para analisar e
processar grandes volumes de dados.

• SQL X NoSQL X NewSQL


• SQL é a sigla para “Structured Query Language”. Atualmente, é a
linguagem padrão para gerenciamento de dados, com a melhor interação
com databases no modelo relacional. Uma de suas principais características
é o armazenamento de dados em linhas e colunas.
• Um banco de dados NoSQL segue a mesma lógica do SQL, mas em vez de
conter dados em linhas e colunas, permite a inclusão em qualquer ponto e a
qualquer tempo.
• Já o NewSQL utiliza o mesmo modelo de dados relacionais do SQL, porém
com melhor performance para aplicar o modelo relacional à arquitetura
distribuída. Essa diferença possibilita a superação de velhos problemas de
escalabilidade.