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© 2000 by Antonio Teixeira de Matos, Demetrius David da Silva e Femando Falco


Pruski
1ª edição: 2000
2ª edição: 2003
Sumário
1ª reimpressão: 2004; 2ª reimpressão: 2006; 3' reimpressão: 2008;
4" reimpressão: 2009
Apresentação 7
1ª edição: 2012 - Série didática Introdução 9
Caracterização da Bacia Hidrográfica 10
Direitos de edição reservados à Editora UFV.
Levantamento planialtimétrico e localização da bacia 11
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida,
apropriada e estocada, por qualquer forma ou meio, sem autorização do detentor dos Forma 12
seus direitos de edição.
Relevo ; 13
Impresso no Brasil
Rede de drenagem , : 13
Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e
Classificação da Biblioteca Central da UFV Geologia e solos 14

Matos, Antonio Teixeira de, 1960- Cobertura vegetal, manejo e uso do solo 16
M433b Barragens de terra de pequeno porte / Antonio Teixeira de Matos, Estudos hidrológicos 16
2012 Demetrius David da Silva, Femando Falco Pruski. - Viçosa, MG :
Ed. UFV, 2012. Projeto de Barragens de Terra de Pequenas Dimensões 26
136p.: il. ; 22cm. (Didática)
Objetivos 26
Inclui anexo.
Estudos de localização da barragem 26
Bibliografia: p. 125-126.
ISBN: 978-85-7269-420-9 Levantamento planialtimétrico da área escolhida .46
l. Barragens de terra. I. Silva, Demetrius David da, 1966-.11. Pruski, Projeto estrutural 48
Femando Falco, 1961-. m. Título.
Ações Mitigadoras dos Impactos Ambientais da Formação do
CDD 22.ed. 627.83
Reservatório 120

Capa: Miro Saraiva Referências 125


Revisão linguística: Ângelo José de Carvalho Anexo 127
Editoração eletrônica: José Roberto da Silva Lana
Impressão e acabamento: Divisão Gráfica da Editora UFV

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Este livro foi impresso em papel offset 75 gJm' (miolo) e canão supremo 250 gJm2 (capa).
Apresentação
Esta obra visa, essencialmente, atender estudantes das
disciplinas Barragens de Terra (ENG 449) e Estruturas para
Construções Rurais (ENG 450), oferecidas no curso de Engenharia
Agrícola e Ambiental, e de Hidráulica, Irrigação e Drenagem (ENG
340), oferecida nos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal da
Universidade Federal de Viçosa.
No texto, abordaram-se apenas barragens de terra com menos
de 10 m de altura. Em situações diferentes, o assunto torna-se mais
complexo, exigindo maior aprofundamento do que os aqui
apresentados. Neste caso, obras mais completas deverão ser
consultadas.
Os autores agradecem a todos que, direta ou indiretamente,
contribuíram para a realização deste trabalho, em especial aos
professores Blanor Torres Loureiro e Wilson Denículi.


.,
10 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte II

facilidade construtiva, não é de se estranhar que as mais antigas


barragens conhecidas tenham sido feitas de terra.
A título de informação, algumas das maiores barragens de terra
dos EUA são as de Oroville (Califórnia), com 234,7 m; Navajo (Novo
México), com 124,4 m; e Fort Peck (Montana), com 82,3 m de altura.
A mais alta do mundo é a de Rongunsky (Rússia), com 352 m, e, do
Brasil, a de Itumbiara (GO), com 110 m.

Caracterização da Bacia Hidrográfica


Bacias de contribuição, de drenagem, hidrológica, hidrográfica
ou de recepção referem-se à área do terreno em que todo o escoamento
superficial decorrente da precipitação pluviométrica se direciona para a
seção de um único curso de água referência (Figura 1).
Para a escolha de locais propícios à construção de reservatórios
de água é necessário o levantamento de dados básicos, como: mapas
diversos (cartográficos, divisão territoiial, rodoviários, ferroviários
etc.); perfis dos rios; dados hidrométricos observados e estudos
hidrológicos já realizados, além de histórico e fichas descritivas de Figura 1 - Croqui de bacias: A) de contribuição e B) de acumulação.
estações fluviométricas e climatológicas; dados topográficos; e dados
geológico-geotécnicos. Recomenda-se uma consulta a órgãos ou
empresas como ANEEL, DNPM, INMET, CPRM, DNER, Ministério
da Agricultura, órgãos dos governos estaduais, prefeituras, Serviço Levantamento Planialtimétrico e Localização
Geográfico do Exército, dentre outros, a fim de se verificar a
disponibilidade de dados sobre a bacia em estudo. Como essas da Bacia
informações dificilmente estão disponibilizadas para pequenas bacias, A bacia hidrográfica é limitada pelo chamado divisor de águas,
coletas de dados feitas no campo são imprescindíveis. linha imaginária que acompanha as maiores altitudes locais, topo de
Na caracterização física da bacia hidrográfica estão incluídas as morros, e separa uma bacia de outra. De posse de mapas, pode-se
seguintes determinações: localização, área, forma, perímetro, relevo determinar a área por planimetria ou pela utilização de Sistemas de
2
(altitude e declividade), rede de drenagem, solo, cobertura vegetal, Informações Geográficas (SIGs), sendo a unidade usual o km ou o
formação geológica etc. Essa caracterização pode ser feita por hectare (ha).
fotogrametrialfotointerpretação, levantamento planialtimétrico e, ou, A caracterização fisiográfica da bacia é fundamental para a
expedição a campo. definição do regime hidrológico de uma bacia hidrográfica. Entre as
características físicas de maior importância no levantamento de. uma
bacia estão a determinação da área de drenagem e, no caso de
interesse de aproveitamento hidrelétrico, a declividade do curso
d'água.
12 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I.

A área de drenagem da bacia hidrográfica pode ser determinada integralmente, toda uma bacia longa e estreita, ao passo que, em
com auxílio de mapas, restituições aerofotogramétricas, fotografias bacias mais arredondadas, isso pode acontecer com maior frequência.
aéreas da região ou levantamentos topográficos. A delimitação da área Com base nessas considerações, pode-se afirmar que bacias com
será possível após serem traçadas as linhas de divisores de águas das forma mais circular têm maiores chances de sofrer inundações que
bacias hidrográficas, podendo ser, posteriormente, calculada a área de bacias longas e estreitas.
drenagem no local de aproveitamento em estudo, por planimetria ou
pelo uso de Sistemas de Informações Geográficas.
A declividade média do rio também pode ser determinada com Relevo
auxílio de mapas. Utilizando um curvímetro, determina-se o
A declividade de uma bacia hidrográfica tem relação importante
comprimento do curso d'água e, com base na diferença de cotas entre
com vários processos hidrológicos, como infiltração, escoamento
o ponto mais alto do rio e o ponto em estudo, calcula-se a sua
superficial, fluxo da água no solo e fluxo da água subterrânea, sendo
declividade média.
um dos fatores de maior importância na regulagem do tempo de
Por ser relativamente pouco comum a disponibilização de duração do escoamento superficial e de concentração da precipitação
levantamentos fotogramétricos ou mapas em escala compatível com as nos leitos do curso d'água. Além disso, bacias hidrográficas situadas
necessidades, o levantamento planialtimétrico, obtido com expedição em maiores altitudes estão sujeitas a ocorrência de precipitação média
a campo, tem sido mais comum no caso de pequenas bacias maior, temperaturas menores, menor evapotranspiração e,
hidrográficas. Na expedição a campo, além dos levantamentos consequentemente, maior deflúvio.
planialtimétricos necessários, pode-se fazer a identificação das
condiçõesgeomorfológicas da bacia; confirmar as condições dos
locais barráveis; estimar os perfis dos rios, alturas máximas de Rede de Drenagem
barragem e de queda dos locais; relacionar novas limitações; avaliar as
vazões empregando métodos expeditos; avaliar as condições A descrição dos sistemas de drenagem superficial de uma bacia
geológicas e de solos; e analisar a cobertura e o uso do solo nas reflete, de forma muitas vezes clara, a estrutura geológica local.
possíveis áreas de inundação. Dentre os padrões mais comumente encontrados, podem-se citar
o dendrítico, o treliça e o paralelo.
O padrão de drenagem dendrítico, que lembra a configuração de
Forma uma árvore, é típico de regiões de rocha de resistência uniforme. Ocorre,
As bacias hidrográficas, quando representadas em um plano, com frequência, por exemplo, em áreas dominadas por rochas graníticas.
são geralmente periformes (forma de pera ou leque); entretanto, O padrão treliça, no qual os rios principais correm paralelamente e seus
dependendo da interação do clima e da geologia, outras formas podem afluentes fluem transversalmente em sua direção, evidencia desigual
existir. / resistência das rochas locais. Essa situação é comum em locais onde
ocorrem rochas sedimentares estratificadas. O padrão paralelo, também
A forma da bacia pode influenciar alguns processos e o seu
denominado de "cauda equina", ocorre em regiões de vertentes muito
comportamento hidrológico. Mantendo-se as outras variáveis
declivosas ou onde existam controles estruturais que favoreçam as
constantes, o deflúvio resultante de determinada precipitação não se
correntes fluviais paralelas.
concentra tão rapidamente em uma bacia longa e estreita, tal como
ocorre em bacias hidrográficas de forma mais circular. Além disso, Além do material geológico e das condições da pedoforma, uma
dificilmente precipitações de grande intensidade podem atingir, análise da rede de drenagem da bacia pode dar indicativos importantes
a respeito das características físicas ou texturais do solo da bacia. A

14 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte J5

ocorrência de cursos d'água trançados, por exemplo, indicam que a Áreas cársticas (calcárias), em virtude da possível presença de
área drenada é, geralmente, constituída por material grosseiro (silte, cavernas, podem ser inadequadas para construção de reservatórios, em
areia e cascalho), enquanto cursos sinuosos, em vales extensos, estão vista dos riscos de não se conseguir acumular água devido às
associados com solos de textura fina (silte e argila). consideráveis perdas por escoamento subterrâneo.
Tem sido verificado um relacionamento estreito entre as
condições topográficas, ou pedoformas, e as características dos solos
Geologia e Solos superficiais, o que pode auxiliar na localização de "áreas de
empréstimo" e dar uma ideia das condições das fundações para
Na caracterização da bacia hidrográfica, uma análise das
sustentação do maciço da barragem. As classes de solos mais
condições geológicas, topográficas e de classes de solo predominantes
freqüentemente encontradas em baixadas próximas a cursos d'água
torna-se essencial para que se possam avaliar a viabilidade técnica da
são: Aluviais e Hidromórficos no leito menor e no maior· e
construção do reservatório e os impactos ambientais, em decorrência
Cambissolos e Argissolos, nos terraços. '
da inundação da área a ser coberta por suas águas.
Os solos aluviais apresentam propriedades físicas que são
Determinados materiais ou solos são, caracteristicamente,
afetadas, predominantemente, pela ação da água. Sua gênese reflete as
permeáveis, o que pode ser suficiente para tornar o local inadequado
condições climáticas em que foram formados. Em regiões áridas, onde
para construção da barragem, principalmente quando a vazão
o intemperismo físico é maior que o químico, o solo é constituído, de
alimentadora do reservatório for insuficiente para cobrir as perdas por
modo geral, por fragmentos de rocha, cascalho, areia e silte. Em
infiltração e evaporação na área. Torna-se importante lembrar que,
regiões úmidas, onde as pedoformas são menos íngremes, o material
com a construção da barragem, essas perdas tendem a aumentar e, se a
tem muito mais areia, silte e argila. Conforme a velocidade da água,
vazão de alimentação não as superar, o reservatório de água nunca
durante a deposição do material, o solo pode ter gênese de regime
ficará plenamente cheio.
torrencial, intermediário e lacustre.
A geologia e os solos têm influência sobre o armazenamento de
Na formação do tipo torrencial, a pedoforma típica é constituída
água subterrânea e, como consequência, sobre o regime das nascentes
pelos cones aluviais e vales dissecados. O material mais grosseiro é
dos cursos d'água, a redistribuição da água precipitada e a
depositado primeiramente, sendo encontrado nas inclinações mais
erodibilidade do material superficial.
íngremes do vale, enquanto o material mais fino é conduzido às
A rocha subjacente à área em estudo pode ser avaliada por sua bordas externas. Areia e cascalho desses depósitos são, geralmente,
condição estrutural (presença ou não de agentes cimentantes entre as subarredondados a subangulares na forma, refletindo movimento em
partículas primárias), porosidade e permeabilidade. curtas distâncias. Esses depósitos são permeáveis ou semipermeáveis,
Os materiais nos quais há a presença de agentes cimentantes não sendo, por isso, adequados para a formação do maciço, embora
entre partículas primárias, denominados consolidados, apresentam possam ser utilizados no fornecimento de areia e cascalho para
grande variação na sua permeabilidade e, com isso, na sua capacidade composição do maciço de barragens de terra.
de proporcionar fornecimento contínuo e sustentado de água para os O regime de formação intermediário, também chamado de
cursos d'água superficiais. Rochas sedimentares (arenitos, calcários) "vales cheios" ou "vales entupidos", são depósitos de materiais finos,
apresentam, via de regra, as condições mais favoráveis ao mais estratificados e mais bem separados que os encontrados na
armazenamento e fornecimento de água subterrânea para cursos formação torrencial. A superfície desses depósitos é quase plana.
d' água superficiais durante os períodos mais secos do ano. Rochas Depósitos de vales cheios são, geralmente, adequados para constituir
ígneas e mesmo graníticas, quando fraturadas e intemperizadas, fundação para pequenas barragens de terra.
podem, também, produzir fluxos permanentes durante esses períodos.

Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I/


16

As formações lacustres são o resultado da sedimentação de caracterização e a definição do regime fluviométrico d rio, '0111
partículas em águas tranquilas. Exceto próximo às bor~a~ dos determinação da vazão normal e, quando possível, da vazs ti '
depósitos, onde influências aluviais são importa?tes, os ma~enals q~e enchente ou de cheia.
os constituem são impermeáveis, compressíveis e de baixa tensao Os cursos d'água são classificados em perenes, intermitentes e
cisalhante e, por isso, pouco indicados para fundações para estruturas. efêmeros.
A principal utilidade desse material é a formação dos núcleos
Os cursos perenes são abastecidos, durante todo o ano, pelos
impermeáveis das barragens de terra.
lençóis d'água subterrâneos, por meio das fontes ou nascentes. Nos
rios ou nos riachos perenes, a tendência do nível do lençol freático é
manter-se sempre acima do nível do escoamento fluvial (Figura 2A).
Cobertura Vegetal, Manejo e Uso do Solo
Nos cursos intermitentes, as fontes, ou nascentes, são
A caracterização do tipo de cobertura vegetal e do uso do solo insuficientes para manter o curso d'água durante todo o ano. Neste
tem dois importantes aspectos: previsão de riscos de assor~am~?~o do caso, ocorrem, em geral, grandes vazões durante as estações chuvosas
reservatório e avaliação dos impactos da inundação ao meio biótico e e cessamento do escoamento fluvial nas estações secas. O nível do
da atividade econômica local. lençol freático permanece acima do nível do escoamento fluvial na
Áreas exploradas em solos de grande erodibilidade, sob cultivo estação chuvosa e, abaixo deste, nas estações secas (Figura 2B).
intensivo de culturas anuais e sem utilização de práticas de controle da Os cursos d'água efêmeros apresentam escoamento
erosão, são potencialmente problemáticas para a construção de superficial apenas durante ou imediatamente após as precipitações.
reservatórios de água. Os sedimentos trazidos com o escoamento Cessado o escoamento superficial, proporcionado pela
superficial de águas de chuva concorrerão. para rápida diminuição _dO precipitação, cessa-se também o escoamento no curso d'água. O
volume armazenável de água no reservatóno, podendo, por essa razao, lençol freático, quando existente, mantém-se sempre abaixo do
tornar o impacto ambiental ainda maior devido ao represamento da leito do rio (Figura 2C). A vazão de enchente, que ocorre durante
água. ou logo após as fortes chuvas, é de grande interesse no caso de
Uma avaliação da vegetação, sua diversidade e os danos construção de barragens, principalmente se tais obras são
ambientais que poderão ser causados pela inundação da área em. que executadas nas seções de drenagem de pequenas bacias. Como
se encontram são, também, importantes na execução de um projeto. chuvas de grande intensidade tendem a cair em pequenas áreas, a
Locais de construção de barragens cujo represamento das águas venha ocorrência de elevados picos de cheia nas seções de drenagem de
causar grandes impactos ambientais ou nos quais a mitiga?ão do dano pequenas bacias hidrográficas é maior.
ambi ntal seja muito difícil e cara devem ser desconsiderados. A Como a construção de barragens de terra é realizada em cursos
inundaçl de áreas de proteção à biota ou de refúgio da flora e fauna d'água de pequeno porte, a possibilidade de se dispor de séries de
pod oncorrcr, por exemplo, para causar um impacto negativo tão dados fluviométricos do curso d'água é muito pequena, daí tornar-se
zrand lU .onirapõe qualquer uso benéfico que o represamento possa necessário o uso de outros meios para levantamento desses dados.
trazer para u c munidade. Medições da vazão do curso d'água in loco são indispensáveis para a
determinação da vazão normal. Informações locais, como marcas de
níveis de cheias, valores extremos de descargas, frequência e época de
Estudos Hidrológicos inundações, dentre outras, são úteis para estimativa da vazão de
Os estudos hidrológicos a serem realizados na bacia onde se enchente.
deseja construir a barragem compreendem, basicamente, a

18 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

A chuvoso, e um mínimo, no fim do período seco, fornecendo nesses


períodos, respectivamente, as vazões normais máxima e mínima .

~------------------ • Para estimativa da vazão de enchente: por meio de informações e


observações locais, levantar marcas de níveis de maiores cheias
acontecidas na seção de medição.
NA má>.obse.tvado

B
NA medido

------------- ------------------- NA . b

--------------------------------------
Diagrama (a)

------------------------------------
Figura 2 - Croqui de seções de cursos de água: A) perene, B)
intermitente e C) efêmero.
NA 1'lA~l!!2..__
(m)

Medição da vazão
Quando não se dispõe de dados fluviométricos da bacia
hidrográfica, a determinação das vazões normal e de enchente torna-se
necessária para dimensionamento da altura da barragem e projeto do
extravaso r, respectivamente. Para que isso seja possível, recomendam-
se s scguint s procedimentos:
Diagrama (b)
• Para det rmi nação da vazão normal: realizar uma ou mais medições
da vazão durante o perfodo de estiagem, de forma a se determinar a Figura 3 - Curva-chave.
vazão mínima do cur o d'água. Caso haja disponibilidade de tempo,
equipamentos e recursos, realizar medições da vazão fora do Existem vários métodos para determinação da vazão de cursos
período de estiagem com o intuito de se obter uma curva-chave
d'água. A escolha de um desses processos de medição é decorrente da
(Figura 3). Numa análise de curvas-chave pode-se verificar que a vazão do rio. Assim, no caso de vazões menores, usualmente se
vazão normal atinge um máximo, geralmente no fim do período
empregam os métodos direto e do vertedor, enquanto, em maiores
vazões, é necessário o uso do método do flutuador ou do molinete.

20 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

Método da medição direta considerada "indesejável, tendo em vista a frequente ad r nclu du


lâmina vertente às paredes de jusante do vertedor, o que pr 'judi 'U us
O método de medição direta é o processo mais simples, porém
determinações.
só aplicável para a medição de vazões de pequenos cursos d'água,
entre 0,5 e 15 L s'. Com contração lateral: a largura da soleira (L) é menor que a
Para efetuar a medição, geralmente, torna-se necessária a largura do curso d'água. O vertedor pode possuir uma ou duas
contrações laterais.
construção de um dique, com o objetivo de proporcionar a afluência
de toda a água do córrego para dentro de um recipiente de volume No método de medição com vertedor (Figura 4), barra-se o curso
conhecido. A afluência da água ao recipiente é facilitada pelo uso de d'água com painel de tábuas ou chapa de aço com as aberturas chanfradas
calhas (telhas, tubos, bambus etc.). Após a estabilização da vazão, normais à direção do fluxo d'água, tomando-se o cuidado de instalá-lo de
determina-se, com o máximo de precisão, o tempo gasto para o forma que a soleira fique perfeitamente nivelada e que não haja
enchimento do recipiente. A vazão pode, então, ser determinada, vazamentos pelas laterais. A distância da soleira ao fundo deve ser
dividindo-se o volume do recipiente pelo tempo médio gasto para superior ou igual a 3 H e a altura H, superior ou igual a 5 em, devendo
enchê-lo. Devem-se fazer no mínimo três repetições da medição, haver livre circulação de ar abaixo da lâmina vertente.
tomando a média das determinações como valor da vazão. Depois de instalado o vertedor, crava-se, a montante deste, a
uma distância mínima de 1,50 m, uma estaca cuja parte superior
Método do vertedor tangencie o nível d'água a montante. Espera-se que o escoamento da
Vertedores são dispositi vos que apresentam aberturas, água se normalize e, então, apoia-se na estaca uma régua de pedreiro,
entalhadas em chapas metálicas ou de madeira, que permitem a nivelando-a e fazendo a medida da altura H, com o auxílio de uma
passagem livre do fluido, de forma que se possam medir vazões régua graduada apoiada na soleira do vertedor.
inferiores a 300 L S·l. As fórmulas práticas para quantificação da vazão em vertedores
As aberturas dos vertedores podem ser· retangulares, retangulares são:
trian ulare , trapezoidais, circulares etc. O vertedor recebe o nome da
forma om trica do entalhe. Vertedores de paredes delgadas
ItInto à spessura das paredes, os vertedores podem ser Q = 1,838 L H3/2 (Equação de Francis) (1)
I'i ' I 10/01 im: Q = 1,77 L H3/2 (Equação de Poncelet) (2)
I I d .lgaôa: aqueles cuja espessura da soleira (e) seja
111 1('«1(\
1111 11111 1111 1\ 11 I IItUI'l'l da lâmina vertente H, medida sobre a soleira Vertedores de parede espessa
111 II1 1111 li t 11po I vertedor é o mais utilizado na prática. Os Q = 1,71 L H3/2 (Equação de Bélanger) (3)
111 111111 I 1'11111 I 11) l li as e os de madeira cortados em biseI são
di I I 1'",
Q = 1,55 L H 32
/ (Equação de Lesbrós) (4)

I» 1111 I ,: I lU Ics em que a espessura da soleira é em que Q é a vazão (nr' S·l); L, a largura da soleira (m); e H, a altura
mulor ou UIII 1\ I \ ti I tlIIII'U da lâmina vertente H. Este vertedor é da lâmina vertente (m).
típic de burra IIN I ilvcnurla.
Quanto à lar zuru r Iutlv I du sol ira: As equações de Francis e Bélanger foram deduzidas para
Sem contração lateral: aqu '1 s rn que a largura da soleira é vertedores sem contrações laterais. Para usá-Ias nos vertedores com
igual à do curso d'água. A aus ncia de contração lateral tem sido contrações, deve-se corrigir a largura da soleira da seguinte forma:
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 23
22

A fórmula prática para quantificação da vazão em vertedores


- para vertedores de uma contração lateral:
triangulares é:
L' =L-O,1 H

Q = 1,40 tg aJ2 H5/2 (5)


- para vertedores de duas contrações laterais:
L'=L-O,2 H
em que a. é o ângulo do vértice do triângulo entalhado na chapa.
sendo L' = largura da soleira (m) para efeito de cálculo.
No caso de a = 90°, a equação passa a ser:

Q = 1,40 H 52
/ (Fórmula de Thompson) (6)

Método do flutuado r
Este método de medição da vazão é menos preciso que o
método direto e o do vertedor, sendo normalmente usado em cursos
d'água maiores, onde seja impraticável a medição direta e difícil a
instalação de vertedores.
Os flutuadores são dispositivos com características tais que Jhes
permitam adquirir a mesma velocidade da água em que flutuam. Eles
podem ser superficiais, subsuperficiais e submersos, sendo o
primeiros os de mais simples utilização, pois permitem a determinação
da velocidade da água corrente na superfície. O flutuador superficial
pode ser uma pequena bola, uma garrafa vazia ou outro objeto de
densidade menor que a da água. A inconveniência apresentada por
este tipo de flutuador é o seu deslocamento ser muito influenciado
pelo vento, pelas correntes secundárias e pelas ondas. Os flutuadores
subsuperficiais e submersos não sofrem significativa interferência
desses fenômenos, entretanto são de difícil visualização e podem
proporcionar erros de medição em razão da difração da luz.
Para determinação da vazão do curso d'água, tornam-se
necessárias a determinação da velocidade e a seção transversal do
curso d'água.
A velocidade deve ser determinada em um trecho do curso
d'água o mais reto e uniforme possível, num percurso de no mínimo
Figura 4 - Hidrometria expedita: medição com flutuador (a) e medição
com vertedor retangular (b e c), sendo H a altura da lâmina 10 m. O trecho do curso d'água deve ser limpo nas margen c no
fundo, sendo necessário colocar no início e final do percurso de
vertente e e a espessura da soleira do vertedor.
avaliação marcas (vara, bambu ou qualquer outro objeto, transversal
24 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 25

ao curso d'água), para permitir uma observação com maior clareza da em que Q é a vazão (nr' S-I); A, a área da seção transversal média de
passagem do flutuador. Este deve ser solto a mais ou menos 5 m a escoamento (m"); e, a distância percorrida pelo flutuador (m); t,
montante do início do trecho de avaliação, a fim de proporcionar o tempo gasto pelo flutuador para percorrer o percurso marcado (s); e
equilíbrio da velocidade do flutuador com a da água antes do início do f, o fator de correção da velocidade superficial (adimensional).
trecho de avaliação. O tempo médio gasto para deslocamento do
flutuador no trecho, obtido em pelo menos cinco repetições, deve ser Método do molinete
utilizado para cálculo da velocidade da água.
O molinete é um aparelho usado para determinação da
Como a velocidade superficial da água, onde o flutuador se velocidade da água, que pode ser feita em diferentes pontos de várias
desloca, é diferente da velocidade média do curso d'água, é necessário verticais tomadas na seção transversal do curso d'água. Na ocasião da
efetuar uma correção nos seus valores, em virtude da natureza das medição das velocidades, são determinadas simultaneamente as
paredes do canal (Tabela 1). subáreas correspondentes, tal como especificado para o método do
Para determinação da seção média do canal, deve-se dividir a flutuador, permitindo, dessa forma, com uso da equação da
seção transversal do curso d'água em subseções de larguras, continuidade, calcular a vazão na seção.
preferencialmente iguais, estabelecer as profundidades nas
extremidades de cada subseção e, com isso, calcular a área das Interpretação dos dados hidrológicos
subseções, baseando-se na figura geométrica mais próxima (triângulo, Usualmente, as medições de vazão do curso d'água servem para,
retângulo, trapézio etc.). A área da seção transversal do curso d'água conjuntamente com as correspondentes alturas alcançadas pela água,
será a soma das áreas das subseções consideradas. Para maior exatidão definir a curva-chave do posto fluviométrico. Plotando em um gráfico
nas determinações, essa operação deverá ser feita em duas ou três as vazões mensais no decorrer do ano e ligando os pontos, têm-se os
seções escolhidas ao longo do trecho, adotando-se a média dos valores chamados hidrogramas (ou hidrógrafas) de um rio.
obtidos como área da seção transversal.
Uma vez que o objetivo é definir a vazão normal para
dimensionamento da altura da barragem e a vazão de cheia para
Tabela 1 - Valores do fator de correção (f) da velocidade superficial dimensionamento do extravasor, recomenda-se o seguinte
da água procedimento para obtenção da curva-chave:

Condições das paredes f - realizar uma ou mais medições de vazão durante o período de
estiagem, de forma a se estimar a vazão mínima do curso d'água;
Canais com paredes lisas (alvenaria ou concreto etc.) 0,85-0,95
- realizar uma ou mais medições de vazão fora do período de
Canais com paredes pouco lisas (canais de terra para estiagem, visando à obtenção do maior número de pontos possíveis
0,75-0,85
irrigação) para a curva-chave; e
Canais com paredes irregulares e, ou, com vegetação - por meio de informações e observações locais, levantar marcas de
0,65-0,75
nas paredes níveis de maiores secas e cheias acontecidas na seção de medição.

A vazão do curso d'água pode, então, ser determinada por:


Q = A e flt (7)
26 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I

Projeto de Barragens de Terra de o local a ser escolhido para construção do maciço, ai 111 ti
possuir solo estável, deve estar em área não sujeita a deslizamentos
Pequenas Dimensões grandes acomodações provocadas pelo aterro. Caso existam
desbarrancamentos a montante do local de construção da barragem,
Apesar de ser a construção de barragens de terra uma obra estes devem ser, previamente, estabilizados. Locais que vêm sofrendo
relativamente simples, que se utiliza de materiais de baixo custo, desmatamento intenso ou onde a vegetação seja muito rala ou
torna-se imprescindível a observação das normas fundamentais de inexistente, associados a encostas íngremes, podem sofrer forte
segurança que tal construção exige, evitando, assim, riscos processo erosivo na época de chuvas intensas e, ou, prolongadas. O
desnecessários para a população e o meio ambiente. reservatório formado pela barragem pode ficar, portanto, sujeito a
grande deposição de material em pouco tempo, o que não é
conveniente.
Objetivos Locais que apresentem recentes desmoronamentos ou rochas
As barragens podem ser construídas para reter toda a água que muito fraturadas não oferecem boas condições de suporte de obras.
atravessa determinada seção (no caso de retenção de deflúvio Trata-se de material pouco consolidado, geralmente de baixa
proveniente de precipitações), com formação de açudes, sem retenção resistência, alta permeabilidade e deformabilidade.
de vazão ("a fio d'água"), ou para reter parte da vazão do curso Na escolha do local para implantação das obras, deve-se sempre
d'água (segundo legislação atual para concessão e uso de água, apenas procurar um apoio firme para as fundações da barragem. Sempre que
1/3 da vazão de um curso d'água pode ser desviado para uso possível, analisar muito bem zonas onde existam bancos de areia ou
particular), sendo formada, nestes casos, uma represa. cascalho, pois eles são muito permeáveis, podendo ocasionar fugas
excessivas de água pela fundação. No local da barragem, rochas que
mostrem fraturas abertas no sentido do rio podem também trazer
Estudos de Localização da Barragem problemas de fuga de água.
N a escolha do local para construção da barragem de terra,
devem-se ponderar as vantagens e desvantagens de cada situação, de Estudos geológicos
modo que o local selecionado satisfaça, da melhor maneira possível, a Na construção de pequenas barragens de terra, as investigações
barragem, a represa e o extravasor. Entre as avaliações que se fazem geológicas podem ser feitas de modo expedito, com uso de poucos
necessárias estão: estudos geológicos e geotécnicos, além de alguns instrumentos, baseando-se essencialmente em observações de campo,
aspectos topográficos da área de construção do maciço. informações eventualmente existentes na área e no bom senso. Esses
s estudos geológicos e geotécnicos tratam, basicamente, de estudos são fundamentais para que se tenha estabilidade e
dois aspectos: confiabilidade nas fundações sob a barragem.
a) o local da barragem e obras anexas, de modo a garantir uma escolha Prospecções geológicas expeditas são realizadas por
adequada e segura, sobretudo quanto às fundações, ombreiras e levantamento de características superficiais e subsuperficiais do
encostas naturais nas vizinhanças das obras; material.
b) os materiais naturais de construção, necessários à realização das Entre as avaliações superficiais podem-se citar a verificação do
obras da barragem. afloramento de rochas e ocorrência de locais sujeitos a potenciais
desmoronamentos, ou que tenham tido recentes quedas de barreiras,
ou, ainda, que apresentem rochas muito fraturadas.

28 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 29

Barragem de terra, preferivelmente, não deve ser assentada A pesquisa de solo para barragem deve procurar definir os
sobre lajeiros de pedra, aflorantes ou presentes em pequenas materiais em qualidade e quantidade. Com relação à qualidade, os solos
profundidades. A infiltração da água do reservatório proporciona a deverão ser identificados e classificados de acordo com suas
ocorrência de escoamento entre o aterro e o lajeiro de pedras, o que propriedades, por meio de análises expeditas, conforme características a
compromete, seriamente, a estabilidade da barragem. A tendência serem discutidas no próximo subitem. A coleta de material para avaliação
normal é ocorrer deslizamento do aterro, em razão de sua frágil da qualidade e a estimativa da quantidade no local podem ser feitas por
soldadura às pedras lisas dos lajeiros. tradagem, trincheiras ou sondagem.
Caso não seja encontrado local melhor para construção do Investigações com furos de trado constituem o processo mais
maciço de terra da barragem, deve-se avaliar, com o auxílio de uma simples, rápido e econômico para investigações preliminares das
picareta, a qualidade da rocha; a resistência ao impacto da ferramenta condições geológicas subsuperficiais, obtenção de amostras
fornece uma ideia aproximada da sua dureza. Fraturas na rocha deformadas em pesquisas de áreas de empréstimo, determinação do
permitem passagem de água, o que, no caso particular das barragens nível de água e indicação de mudanças nos tipos de materiais
de terra, pode ser problemático se ocorrerem aberturas na fundação. atravessados.
No caso de fraturas em pequena quantidade e com aberturas de A perfuração é feita com operadores, girando-se a barra
pequenas dimensões, pode-se tentar o selamento do material rochoso horizontal acoplada às hastes verticais, em cuja extremidade inferior
com uma pasta ou calda de cimento e água. Se houver fraturas em encontra-se a broca. A cada cinco ou seis rotações, forçando-se o trado
grande quantidade, o problema merece maior atenção, devendo ser para baixo, é necessário retirá-l o para remover o material acumulado
adotadas soluções de tamponamento das fraturas no local da obra e até na broca, depositando-o sobre uma lona (ou plástico) estendida ao
a montante desta. A ocorrência de rochas compactas ou fraturadas sob lado do furo. Os furos deverão ser identificados individualmente no
o maciço de terra da barragem justifica a construção de uma cortina de campo, sendo anotados em boletim específico todos os dados relativos
concreto armado, geralmente no centro da barragem, ligando a à perfuração, bem como as características da amostra, por meio da
fundação ao topo desta. identificação táctil-visual do material, por ocasião da coleta. O
material obtido na perfuração deve ser colocado em pequenos montes,
Estudos geotécnicos correspondentes à escavação de cada metro perfurado. Ocorrendo
Quanto ao aspecto geotécnico, devem ser avaliados aspectos da mudanças no tipo de material ao longo de 1 m de perfuração, os
qualidade do material no que se refere à sua capacidade de suporte da materiais distintos devem ser separados por montes, sendo anotada a
carga do maciço. Em princípio, toda obra deve ser construída com os espessura anterior à mudança de camada. Acondicionam-se as
mat riais naturais de suas vizinhanças. Isso quer dizer que o projeto amostras em sacos apropriados de 5 kg, convenientemente
d v rá ser adaptado aos materiais disponíveis, optando-se por um ou identificados por uma ou mais etiquetas onde constem nome da obra,
outro tipo d barragem, justamente em razão dessa disponibilidade. nome do local, número do furo, profundidade da amostra, cota da boca
I 01" isso, () mat rial superficial e o subsuperficial devem ser avaliados do furo, profundidade do nível de água em relação à boca do furo
com vistas ti sua qualificação físico-hídrica e de resistência mecânica. (quando ocorrer) e profundidade de camada impenetrável. Os furos
devem ser interrompidos quando se atingir o lençol freático, houver
A barragem d ve ser assentada sobre um leito de terra estável, o
desmoronamento do furo ou for atingida uma camada impenetrável.
que pode ser detectad p r meio de criteriosas sondagens, executadas
no sentido transversal do local escolhido para a instalação do As investigações com trincheiras têm por objetivo permitir urna
respectivo aterro, ao longo do eixo. exposição, vertical e longitudinal, contínua do subsolo, de 11 'osttls
naturais, áreas de empréstimo, capeamento de pedreiras e outros locais
de interesse. As trincheiras podem ser escavadas com pás, picaretas
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte .I
30

etc. ou, no caso de disponibilidade, por meio de equipamentos na fase de construção do maciço de terra) têm sido considerados
mecânicos (escavadeiras). A identificação e as avaliações das essenciais.
amostras devem seguir as mesmas recomendações feitas para o caso A cor pode, considerando-se suas limitações, dar importantes
de furos de trado. indicati vos da mineralogia e das condições hídricas reinantes no
As sondagens no local de construção da barragem devem ser solo. A caracterização do material inclui a pesquisa de solo para
feitas a cada quadrícula de 2 m x 2 m, sendo a determinação o construção das obras de terra; areia para constituição de filtros,
resultado da resistência oferecida pelo solo à penetração de uma haste além de agregados e rocha para constituição de enrocamentos,
metálica (de ferro ou liga de aço de 11/z" ou %", com extensões de 1 a transições e agregados de concreto, caso seja necessário.
3 m) até que seja encontrada a camada impermeável (material argiloso
ou rocha compacta). Baixas resistências à penetração indicam solos de Textura
alta plasticidade, com elevada capacidade de deformação, os quais
A parte sólida do solo é constituída de partículas de diferentes
devem, portanto, ser evitados. Elevada resistência à penetração indica tamanhos: argila, silte, areia, cascalho, calhaus e matacães. A textura
solos consistentes e, provavelmente, de baixa plasticidade (pouco
refere-se à proporção das frações argila, silte e areia. As frações maiores
deformáveis), sendo necessário ficar atento à facilidade de permitirem
que a areia são denominadas pedregosidade do solo.
a passagem de água.
Como a textura é a proporção relativa entre as frações areia, silte e
argila, são utilizados limites para sua classificação, separando-se as
Caracterização dos materiais disponíveis para constituírem
partículas em classes de tamanho. No fracionamento adotado pela
fundação ou para construção do corpo da barragem
Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS) e pela maioria dos
O projeto estrutural de uma barragem de terra pode ser laboratórios de análises de solo do Brasil, são estabelecidos os seguintes
problemático para muitos solos, dada a dificuldade em se conseguir diâmetros de partículas para cada fração:
estabilidade do aterro e do terreno no local onde o maciço será
2,0 a 0,05 mm -7 areia (minerais primários individuais)
implantado. Além disso, a percolação de água através ou abaixo do
maciço pode inviabilizar a construção de barragens de acumulação. 0,05 a 0,002 mm -7 silte (minerais primários individuais)
No caso de barragem cujo objetivo seja o controle de enchentes, a < 0,002 mm -7 argila (minerais secundários, principalmente)
percolação através do maciço ou abaixo dele pode não ser um
inconveniente sério se a estabilidade do maciço não for
Esta separação, apesar de arbitrária, procura se basear em critérios
prejudicada. racionais, principalmente no comportamento de cada grupo de
Avaliações da textura, consistência (plasticidade e partículas.
pegajosidade) e resistência do material são fundamentais para
A textura do solo pode ser avaliada por métodos de laboratório
caracterização do material a ser utilizado como base para as
ou métodos expeditos, baseados, principalmente, em percepção táctil e
fundações e constituir o maciço de terra da barragem. A
trabalho de amostras na mão.
caracterizacão dos solos em laboratório pode ser feita por análise
da distribuição das frações granulométricas, da porosidade, da Para determinação da textura do solo em laboratório, a amostra
permeabilidade, dos limites de Atterberg, da tensão cisalhante, da é submetida ao pré-tratamento, para eliminação dos agentes
compressibilidade e dos ensaios de Proctor. Entretanto, no caso da agregadores (por exemplo, matéria orgânica e carbonatos); t
construção de pequenas barragens de terra, que é de menor dispersão, para individualização das partículas; e, por último, l
complexidade, apenas a determinação das frações granulométricas separação. Nesta etapa é possível, por peneiramento, a separaçr () dus
e da permeabilidade do material e o ensaio de Proctor (necessário
Barragens de terra de pequeno porte 33
Matos, Silva e Pruski
32

Frações de pequeno diâmetro - A propriedade física típica de um


partículas de <1> ~ 0,05 mm (fração areia) das frações mais finas. Por material argiloso é a sua plasticidade, que vem a ser a capacidade de
sedimentação podem ser separadas as frações silte e argila. se deixar moldar quando submetido a esforços mecânicos. Por essa
O método de campo é prático e se baseia na sensibilidade táctil razão, materiais que apresentem alta plasticidade são ricos em argila,
para distinção das frações de predominância nas amostras de solo. As moldando-se com facilidade; entretanto, esse comportamento os torna
amostras devem ser totalmente destorroadas, umedecidas e amassadas de difícil trabalhabilidade, sendo de baixa capacidade de carga quando
intensivamente, para a realização do teste. As sensações e características umedecidos. Desse modo, os materiais mais indicados para finalidades
de comportamento típicas de cada fração textural estão apresentadas na construtivas são aqueles entre baixa e média plasticidade. Materiais
Tabela 2. argilosos, quando compactados, apresentam baixa permeabilidade. Os
materiais siltosos apresentam-se sedosos no contato com os dedos, e
os materiais de granulometria fina, como a argila, as argilas siltosas,
Tabela 2 - Principais sensações que as diferentes frações texturais
argilas silto-arenosas e os silte-argilosos, podem ser utilizados na
provocam ao tato construção de diques, do corpo das barragens de terra e do núcleo das
Fração Características barragens de terra/enrocamento, bem como em vedação de
ensecadeiras.
Areia Áspera, não plástica nem pegajosa
Silte Sedosa, ligeiramente plástica e não egajosa
Argila Lisa, plástica e pegajosa

No campo, a textura do solo pode também ser avaliada,


qualitativamente, por critérios visuais. As frações areia grossa e
cascalho são reconhecidas facilmente por inspeção visual, tendo em
vista que essas partículas podem ser identificadas a olho nu. As
frações menores que a areia fina não podem ser distinguidas
visualmente a olho nu. Assim, uma forma para verificar a presença de
material fino é submeter a amostra (pequena porção de material
destorroado) à agitação em recipiente transparente cheio de água.
Após a agitação da mistura por alguns segundos, mantendo-se a
suspensão em repouso, a areia fina rapidamente irá se sedimentar, a
fração silte deverá permanecer em suspensão durante pelo menos um
minuto, e a fração argila, por mais de uma hora.
Na natureza, as frações texturais raramente ocorrem de forma
isolada, mas geralmente na forma de misturas. A identificação e
classificação estão baseadas no reconhecimento dos tipos básicos e
nas características próprias das misturas. O triângulo textural (Figura 5)
tem sido usado para classificação textural do solo. Figura 5 - Triângulo textural.
34 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 35

Frações de maior diâmetro - Partículas mais grosseiras, como as Tabela 3 - Identificação, classificação e usos preponderantes de
areias, são empregadas na composição do concreto, além de serem materiais inorgânicos em construções civis
utilizadas como filtros de água percolante no maciço da barragem. No Classificação Identificação e Faixa Usos na construção de
caso de ser utilizada na composição de concreto ou constituinte de descrição geral granulo métrica barragens
filtros, a areia deve estar isenta de materiais orgânicos (raízes, restos (ABNT)
de folhas, galhos etc.) e frações mais finas ou agregados de argila. Argila Partículas de Menor que 0,005 • Construção de diques,
Caso seja constatada a presença dessas impurezas, a areia deve ser pequenas mm maciços de barragens
previamente lavada e peneirada antes do uso. dimensões não de terra, núcleos de
Solos com maior proporção de partículas grosseiras são pouco distinguíveis a barragens de terra e
plásticos, de baixa capacidade de retenção de água e baixa atividade olho nu enrocamento; e
química. Em contrapartida, são solos de mais fácil drenagem de água e Silte Partículas 0,005 a 0,05 mm vedações de maciços
de movimentação de ar. Areia 0,05 a4,8 mm • Composição de
Os cascalhos ou britas são destinados à composição das filtros para separação
camadas de transição entre os filtros e enrocamentos e composição de de material fino
concretos. Essas frações devem ter coerência suficiente para não se Cascalho ou 4,8 a 19 mm • Composição de
desagregarem pela ação da água, quando expostas ao tempo, e ter brita transições entre
19 a 38 mm
dureza suficiente para resistirem às ações de impacto mecânico. filtros de areia e
38 a 76mm enrocamentos para
Os enrocamentos (matacães) devem ser utilizados nos maciços retenção de
de barragens que levam seu nome e nas ensecadeiras, na proteção de partículas mais
taludes de barragens de terra e em concreto ciclópico. Deverão ter as grosseiras
mesmas propriedades dos cascalhos e britas e, quando compactados Enrocamento Maior que 100 • Abas de proteção do
em maciços, apresentar franca permeabilidade. Geralmente, avalia-se mm maciço de terra e
a resistência do material ao impacto mecânico (cascalhos, britas ou concreto
matacões), desferindo-se nele golpes de martelo. Adaptado do Ministério das Minas e Energia (s.d.).
A ABNT resumiu as características gerais dos materiais para
utilização em construção, conforme apresentado na Tabela 3.
Consistência
A curva de distribuição de diâmetro das partículas é usada para
obtenção da classificação granulométrica do solo. O solo pode ser de Outra avaliação de importância na caracterização dos materiais
textura fina, média ou grosseira e, quando composto de partículas de é o estudo de sua consistência, a qual é a característica física que
maior granulometria, é denominado "cascalho", utilizando-se sempre expressa a intensidade e natureza das forças de coesão e adesão e que
o critério da fração granulométrica dominante. é utilizada para descrever o comportamento mecânico da massa, em
condições variáveis de umidade. Este termo tem sido mais utilizado
O solo é considerado "grosseiro" quando mais de 50% da
para descrever as condições físicas de um solo com diferentes
massa do material não passa em peneira n° 200. Se mais de 50% da
conteúdos de água, quando ele é submetido a um esforço mecânico.
massa do material fica retida em peneira n'' 4, ele é denominado
"cascalho"; caso contrário, é denominado "areia grossa". No solo A coesão pode ser definida corno a força de atração entre
de textura fina, menos de 50% do material deve ficar retido em partículas de mesmo estado físico (por exemplo, sólido-sólido). Solos
peneira nº 200. arenosos apresentam baixa coesão, ocorrendo o contrário com solos
Matos, Silva e Pruski
36
Barragens de terra de pequeno porte 37

argilosos. A coesão do solo diminui com o aumento no seu conteúdo


de água. A avaliação da coesão entre as partículas da amostra de solo
indica a resistência oferecida pelo material a esforços que tendam a
A adesão é a força de atração entre partículas de estados físicos
esboroar o torrão. A resistência do torrão deve ser avaliada com material
diferentes (por exemplo, líquido-sólido). Proporciona comportamento
seco (Tabela 4) e umedecido (Tabela 5).
mecânico diferenciado do solo, em razão da existência de películas de
água envolvendo as partículas. Solos argilosos são mais aderentes que os A avaliação da plasticidade/pegajosidade do material torna-se
arenosos. Nos solos de mesmo teor de argila, a aderência depende do tipo importante na medida em que é o principal indicador da
de argila presente. adequabilidade do material para suporte da carga do maciço da
barragem. Materiais muito plásticos, sob a ação do peso da barragem,
A descrição da consistência do solo inclui três estados
poderão sofrer deformações consideráveis, tornando-se inadequados
padronizados de sua umidade:
para uso como fundação. Em caso de materiais puramente granulares,
• Amostra de solo seca ao ar: serve para avaliar a força de coesão na as deformações sob a ação do peso são significativamente menores;
amostra seca (Tabela 4). entretanto, o material pode permitir a passagem de água com muita
• Amostra de solo úmida: deve estar com umidade superior à do seco ao facilidade, o que requer soluções especiais na construção.
ar, porém abaixo da capacidade de campo. Serve para avaliar a força A avaliação da plasticidade/pegajosidade do material pode ser
de coesão na amostra úmida (Tabela 5). feita de forma expedita, por meio de ensaios manuais, ou em
• Amostra de solo molhada: deve ser devidamente amassada e laboratório, definidos por normas específicas da ABNT para ensaios
apresentar umidade acima da capacidade de campo. Serve para avaliar de mecânica dos solos.
as forças de adesão na amostra, sendo a prática subdividida em ensaio
de plasticidade e de pegajosidade. Tabela 5 - Comportamento do torrão de solo úmido quando comprimido
e classificação de sua consistência
Tabela 4 - Comportamento do torrão de solo seco ao ar quando Classificação Forma de compressãolResistência ao
comprimido e classificação de sua consistência
esboroamentolFriabilidade*
Classificação Forma de compressão/Resistência ao Solta Esboroa sem compressão/não coerente
esboroamento Muito friável Entre o polegar e o indicadorlbaixa
Solta Esboroa sem compressão resistência/agrega-se posteriormente
Macia Entre o polegar e o indicadorlbaixa resistência Friável Entreo polegar e o indicadorlbaixa
Ligeiramente Entre o polegar e o indicador/média resistência resistência/agrega-se moderadamente
dura Firme Entre o polegar e o indicador/média resistência
Dura Entre o polegar e o indicador/não esboroa; entre Muito firme Entre o polegar e o indicador/alta resistência
as mãos/baixa resistência Extremamen Entre o polegar e o indicador/não esboroa
Muito dura Entre as mãos/média resistência te firme
Extremamente Entre as mãos/não esboroa * Capacidade do solo destorroado de se agregar novamente, sob leve compressão.

dura
38 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 9

No ensaio da plasticidade, a amostra, após molhada, é amassada Resistência à compressão


intensivamente. Com a massa tenta-se fazer um cilindro de diâmetro A resistência do material à compressão pode ser avaliada in
próximo ao de um lápis. Deve-se torcer o cilindro sobre o próprio eixo loco, com análise da resistência à penetração de uma haste, já descrita
longitudinal, para avaliação de sua resistência ao esforço de torção no item referente a estudos geotécnicos, por ensaios de avaliação
(Tabela 6). manual do material ou utilizando-se equipamentos especiais de
No ensaio da pegajosidade, a amostra usada no ensaio de ensaios em laboratório. A compressibilidade é a percentagem de
plasticidade é molhada ainda mais, até expressar o máximo de sua "liga". redução no volume inicial sob uma tensão verticalmente aplicada. O
A amostra em forma esférica é comprimida entre o polegar e o fenômeno da compressibilidade está associado a variações no volume
indicador. Após a compressão, os dedos são forçados à separação, de vazios e apenas em pequena extensão a mudanças no volume das
avaliando-se a resistência oferecida pela massa de solo a esse esforço de partículas sólidas. Se os espaços vazios da amostra estiverem
tração (Tabela 7). ocupados apenas por ar, a carga sobre a amostra deverá proporcionar
sua compressão imediata. Se, por outro lado, os poros do material
estiverem cheios de água, pequena ou nenhuma redução deverá
Tabela 6 - Comportamento da massa de solo quando submetida à torção ocorrer, imediatamente, no volume da amostra após a aplicação da
e classificação de sua consistêncialplasticidade carga. Sensíveis reduções no volume da amostra ocorrerão apenas
quando a água intersticial drenar da massa de solo. Por essa razão, se
Plasticidade
o solo for muito impermeável e sua massa, muito grande, completa
Classificação ComportamentolResistência à torção consolidação do maciço poderá requerer muitos anos para ocorrer.
Não plástica Não forma cilindro Quando a umidade do solo é aumentada, os filmes de água que
Ligeiramente Forma cilindro/não resiste à torção passam a envolver as partículas enfraquecem as ligações entre elas
plástica (coesão) e, como consequência, haverá redução da fricção interna por
"lubrificação" das partículas, tornando o solo mais compactável.
Plástica Forma cilindro/resiste à torção menor que
meia-volta Uma aproximação empírica para essa determinação pode ser
obtida utilizando-se o teste de Proctor. Nesse teste, determina-se o
Muito plástica Forma cilindro/resiste à torção maior que
conteúdo ótimo de água em uma amostra, com o qual se obtém mais
meia-volta
efetiva compactação da amostra, a dado esforço de compressão. Existe,
para todo material, uma massa específica máxima de Proctor, e o conteú-
Tabela 7 - Comportamento da massa de solo quando submetida à tração do de água associado a essa condição é denominado "umidade ótima".
e classificação de sua consistêncialpegajosidade O ensaio de compactação de Proctor consiste em compactar
uma porção de solo em um cilindro de 1.000 cnr' utilizando um
Pegajosidade
soquete de 4,5 kg, liberado para queda livre de uma altura de 45 em.
Classificação Comportamento/Resistência à tração Aplicam-se sobre cada camada de solo colocada no cilindro 25 golpes
Não pegajosa Não adere a nenhum dos dedos/nula do soquete. DeterminaJse a massa do corpo de prova completo pelo
solo e retiram-se amostras para determinação do conteúdo de água
Ligeiramente pegajosa Adere a apenas um dedo/nula
pelo método-padrão de estufa (105 - 110°C, por 24 h). Obtem-H'
Pegajosa Adere aos dois dedos/média resistência à diferentes valores de massa específica na amostra dependcnd d
tração conteúdo de água que ela tem.
40 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 41

o
efeito da compactação resulta na melhoria das qualidades Tabela 8 - Cont.
mecânicas e hidráulicas do solo, entre elas aumento na resistência ao Classe Tipo de material Valores básicos
cisalhamento e redução na compressibilidade e permeabilidade. (kgf cm"2)

Na Tabela 8 estão apresentados valores básicos de resistência à 5 Pedregulhos e solos pedregulhosos, mal graduados, 5
compressão dos materiais mais comuns. fofos
6 Areias grossas e areias pedregulhosas, bem graduadas, 8
O comportamento mecânico da amostra sob compressão pode compactas
proporcionar os seguintes indicativos de sua qualidade:
7 Areias grossas e areias pedregulhosas, bem 4
• Baixa resistência: decorrente da presença de areia, silte ou areia graduadas, fofas
misturada com silte, ou seja, materiais de muito baixa ou 8 Areias finas e médias:
nenhuma plasticidade. A presença de areia é evidenciada quando • Muito compactas 6
a amostra é pulverizada, notando-se pelo tato a sensação de 4
• Compactas
"aspereza" ao ser pressionada e deslocada entre os dedos.
• Medianamente compactas 2
• Média resistência: decorrente da presença de argila, sem presença 9 Argilas e solos argilosos:
de matéria vegetal, apresentando o material plasticidade entre média
• Consistência dura 4
e baixa. Para se conseguir pulverizar a amostra, torna-se necessário
considerável pressão dos dedos. • Consistência rija 2
• Consistência média 1
• Alta resistência: decorrente da presença de argila altamente plástica
no material. Em decorrência de sua dureza, não se consegue a 10 Siltes e solos siltosos:

pulverização da amostra seca por simples pressão dos dedos. • Muito compactos 4

Locais onde haja a ocorrência de solos ricos em matéria • Compactos 2


orgânica, como as turfas, por serem pouco resistentes e muito • Medianamente compactos 1
compressíveis, devem ser evitados. Esses solos não servem para Notas:
suporte do maciço nem como material de construção. a) No caso de materiais intermediários, entre as classes 4 e 5, interpolar entre 8 e 5 kgf em".
b) Em materiais intermediários, entre as classes 6 e 7, interpolar entre 8 e 4 kgf em" .
c) No caso de ca1cário ou qualquer outra rocha cárstica (terrenos com sumidouros naturais),
Tabela 8 - Pressões admissíveis de diferentes tipos de materiais devem ser feitos estudos especiais.

Ias e Tipo de material Valores básicos d) Os valores constantes desta tabela têm origem na NB-51 de 1978, da ABNT.
(kgf cm') Fonte: Ministério das Minas e Energia (s.d.).

Rocha sã, maciça, sem laminações ou sinal de 50


decomposição
P ermeabilidade
2 Rocha laminadas, com pequenas fissuras, 35
estratificadas A permeabilidade ou condutividade hidráulica em meio
3 Solos concrecionados 15 saturado pode ser determinada utilizando-se amostras indeformadas
4 Pedregulhos e solos pedregulhosos, mal graduados, 8 do material, que são acondicionadas em permeâmetros, geralmente de
compactos carga constante. Solos com permeabilidade menor que 1 x 10.6 em S-I
Continua ... são considerados impermeáveis; entre 1 x 10-6 e 1 x 10-4 em s',
semipermeáveis; e, maior que 1 x 10-4em s', permeáveis.
42 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

Cor ("tabatinga"). A cor cinza, porém, pode ser dada tanto pela presença de
A cor pode ser uma ferramenta importante para auxiliar na Fe reduzido quanto pela sua ausência no solo.
caracterização do solo. A coloração escura dos solos está, na maioria das Por outro lado, se as condições de drenagem forem boas, as
vezes, associada à presença de matéria orgânica, embora se saiba que a reações de oxidação serão favorecidas e o ferro aparecerá oxidado. Os
presença de hernatita possa mascarar o efeito visual da presença de solos terão, neste caso, colorações amareladas ou avermelhadas,
matéria orgânica no solo (apenas 1% de hematita no solo já é suficiente dependendo da hidratação ou não dos óxidos. Podem-se associar as cores
para lhe dar tonalidade avermelhada). vermelhas à presença de hematita (Fe203) e as cores amarelas à presença
Em geral, a influência da matéria orgânica no escurecimento é de goethita (Fe203.H20), sem, contudo, fazer uma associação entre
limitada aos horizontes superficiais do solo, onde se localiza a maior intensidade da cor e quantidade desses óxidos, pois existe grande
parte das raízes, folhas e outros resíduos vegetais e animais e se dá a variação no poder de pigmentação desses compostos.
deposição e decomposição desse material. Em topossequências típicas de solos oxídicos, é comum observar
Além da matéria orgânica, outros componentes, embora menos uma distribuição de cores conforme apresentado na Figura 6.
comuns, podem favorecer a presença de tonalidades escuras: óxidos de
topo
manganês, compostos de ferro etc.
Tonalidades mais claras e até esbranquiçadas estão relacionadas à
terraço leito maior leito menor
presença de argilas silicatadas (por exemplo, caulinita), do quartzo, de
carbonatos etc. A coloração esbranquiçada é facilmente mascarada, em
caso de presença de outros componentes de maior poder pigmentante.
As colorações vermelha, amarela ou cinzenta estão associadas à
\
amarelo
\
presença de um tipo de componente muito importante na coloração de cinzento
solos tropicais: os óxidos de ferro, não só pelas suas quantidades, mas cinzento
também pela forma em que o ferro aparece combinado.
Figura 6 - Distribuição típica de cores em solos oxídicos conforme a
Na ausência de oxigênio deve ocorrer a seguinte reação:
posição na paisagem.
Fe3+ + e- ~ Fe2+

A cor vermelha do solo está associada à presença do ferro oxidado Em ambiente de redução não completa podem ser verificadas
( 3,,), na forma de hematita (Fe203); a cor amarela, ao ferro oxidado
< pontuações avermelhadas e, ou, amareladas no perfil do solo, indicativos
hi tratado (Fe3+.H20), na forma de goethita (FeOOH, ou, na forma da presença de ferro oxidado em meio ao material de cor cinza (ausência
didática, e203.H20); e a cor cinzenta, ao ferro reduzido (Fe2+). de ferro oxidado, podendo existir ou não ferro reduzido). A cor, neste
caso, é chamada de "mosqueada" ou "variegada", ocorrendo a presença
olos cinzentos ou azulados indicarão presença de ferro reduzido
de manchas de pequeno diâmetro no perfil. A oscilação do lençol freático
(Fe2+), que é favorecida por condições redutoras (locais de má drenagem
(mais elevado em época úmida e mais rebaixado em época seca) é a
ou de deficiente aeração, como baixadas úmidas ou alagadiços). O
principal causa desse fenômeno, permanecendo, no primeiro caso, alguns
processo de acinzentamento, devido à redução do ferro no perfil do solo,
agregados com oxigênio em quantidade suficiente para manter o Fe
é denominado "gleização", e os horizontes que apresentam
oxidado, ainda que o resto do ambiente esteja em condições de redução.
marcadamente esta característica são conhecidos como "gleizados"
Os vários ciclos de umedecimento e secagem proporcionam o
Barragens de terra de pequeno porte
44 Matos, Silva e Pruski

d) Na área de inundação do reservatório não devem existir


endurecimento dos mosqueados de cor vermelha e, ou, amarela, estratificações salinas, já que a presença de sais poderá
formando a "plintita". proporcionar a salinização da água.
e) Na área de inundação do reservatório não devem existir
Aspectos topográficos e outros formigueiros, uma vez que a água poderá pereolar pelos canais
Na escolha do local para construção da barragem, alguns formados pelas formigas. Este problema também poderá ser
aspectos topográficos deverão ser, necessariamente, considerados: resolvido com a construção de trincheiras nas fundações.
a) Locais onde o rio seja mais estreito (garganta do rio), com eixo f) Sempre que possível, escolher locais de posicionamento da
longitudinal perpendicular às ombreiras, contribuem para diminuir barragem que venham a possibilitar o uso da água por gravidade. O
o volume de material a ser gasto na construção da barragem e, bombeamento ou a elevação mecânica da água só devem ser
consequentemente, o custo da obra. A diminuição do comprimento empregados quando for impossível o uso da gravidade.
do eixo da barragem também concorre para que sejam g) O local deve estar próximo ao ponto de extração de material a ser
minimizados os problemas de infiltração de água no maciço. usado no aterro. Quanto maior a distância entre as áreas de
b) A área do reservatório não deverá ter declividade a montante nem empréstimo e o local do aterro, maior será o custo da obra.
muito pequena nem muito grande. No primeiro caso, apesar de h) As condições topográficas do local devem ser tais que possibilitem
haver incremento da capacidade de armazenamento de água, para o posicionamento do extravasor fora do corpo da barragem,
determinada altura de barragem, maior deverá ser a área a ser podendo, dessa forma, direcionar as águas, lateralmente, para
inundada pelo reservatório. Além disso, deverão existir locais de passarem por fora do maciço da barragem.
água muito rasos na represa, o que facilita o desenvolvimento de
i) O local não deverá proporcionar, por ocasião do enchimento do
plantas aquáticas helófitas, proporcionando a proliferação de
reservatório, inundação ou prejuízo a áreas cultivadas, benfeitorias
mosquitos e outros organismos, caso não haja um controle rigoroso
urbanas e rurais; estradas e pontes; linhas de transmissão,
do desenvolvimento delas. No segundo caso, encostas muito
subtransmissão, telegráficas e telefônicas; ou áreas de reserva ou
íngremes e constituídas de material pouco resistente, quando
de proteção ambiental,
sujeitas ao molhamento e ao impacto de ondas, podem apresentar
escorregamentos e queda de material no reservatório.
Quantificação do material da área de empréstimo
c) No local não deve haver nascentes, uma vez que, após o enchimento da
represa, elas tendem a aumentar suas vazões, chegando a afetar a A avaliação da quantidade de material disponível na área de
estabilidade do aterro. Caso o local escolhido apresente este problema, empréstimo pode ser obtida por meio do processo de cubagem
o olho-d'água deve ser tratado do modo seguinte: (cálculo de volume), que consiste na demarcação da área e na
estimativa média das profundidades exploráveis de solo. Para tanto, é
- colocar tubos de concreto ou cerâmica verticalmente sobre a efetuada, no interior da área delimitada, uma "malha" de furos a trado,
abertura, com diâmetro maior que o desta; com espaçamento, geralmente arbitrado em razão das dimensões e da
- verificar a altura que a água atinge no interior do tubo; topografia da área, variando de 20 a 50 m. Durante a tradagem, o
- preencher o tubo com brita até um metro acima do nível da água material recolhido em cada horizonte ou profundidade do solo deverá
estabilizado; e ser separado e espalhado sobre a superfície do solo, anotando-se a
profundidade em que foi amostrado, para posterior avaliação das
- colocar uma pasta de cimento (mistura de solo + cimento, na
características dos materiais encontrados.
proporção de 10 a 15% em massa) sobre a brita, até cobri-Ia
totalmente.
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 47

Determinada a área de exploração e a espessura média das Levantamentos topográficos expeditos


camadas, calculam-se os volumes disponíveis para utilização, Para a execução de levantamentos topográficos expeditos,
prevendo sempre que os volumes de exploração devam ser superiores podem-se utilizar um nível de pedreiro e duas réguas de madeira bem
aos volumes calculados para serem aplicados nas obras, em um aplainadas, sendo uma de 3 a 4 m e a outra de cerca de 2 m de
percentual não inferior a 25%. comprimento (Figura 7b). Para facilitar a medição, a régua menor
Obtendo-se a certeza da disponibilidade de solo em qualidade e deverá ser dotada de escala métrica. Coloca-se a ponta inferior da
quantidade adequadas para utilização, procede-se à definição da forma régua menor no nível da água (ponto A da Figura 7a), de modo que
mais conveniente de exploração, por métodos manuais ou com o ela fique em posição vertical. Coloca-se depois a régua maior no
emprego de equipamentos mecânicos, como tratores com lâmina, pás terreno e controla-se, pelo nível de pedreiro sobre ela, sua posição
carregadeiras, retroescavadeiras, dentre outros. horizontal. Mede-se a seguir a altura h, e marca-se o ponto onde
As investigações a trado para avaliação dos volumes disponíveis descansa a ponta da régua maior no terreno (ponto B). Repete-se essa
de materiais são, em geral, dificultadas pela presença da água, já que os operação entre os pontos B e C etc. e assim sucessivamente,
furos podem ficar alagados pela água freática. Nesse caso, recomenda-se determinando as diferenças de nível h., h2, h, etc., conforme
avaliar a espessura do depósito com a cravação, sem impacto, de uma apresentado na Figura 7a.
haste metálica lisa, por exemplo ferro de construção de Y2 a I", utilizando O segundo método de determinação utiliza duas réguas de cerca
apenas o esforço de uma pessoa e anotando a profundidade atingida em de 2 m de comprimento e um tubo plástico (mangueira) flexível e
cada ponto. A média das profundidades atingidas em cada sondagem, transparente, cheio de água corada (Figura 7c). Determinam-se, em
multiplicada pela superfície determinada da ocorrência, fornecerá o cada régua, pontos de igual nível, criando um plano horizontal de
volume disponível de material. referência. A diferença entre os pontos E e F é a diferença de nível h,
A pesquisa de áreas de empréstimo de areia deverá ser realizada entre esses pontos.
nos depósitos situados nas margens e no leito dos cursos d'água Desníveis
existentes.
Toma-se importante ressaltar que, sempre que possível, as áreas
de empréstimos devem estar situadas dentro da área a ser alagada, de
maneira a minimizar os impactos ambientais de sua retirada.

Levantamento Planialtimétrico da Área


Escolhida 15
1'1----"--__~ Plano de referência
Para a execução do projeto de uma barragem, serão necessários
os levantamentos de perfis de seções transversais e longitudinais nas
áreas de construção da barragem e de inundação do reservatório. Esses
serviços poderão ser executados por meio de "levantamentos (b)
E

(c)
E
]:}
topográficos expeditos" ou "levantamentos topográficos com
instrumentos", conforme descritos a seguir. Figura 7 - Topografia expedita (desníveis e perfis): a) levantamento ti
um perfil, b) uso do nível de pedreiro e c) uso do nfvcl ti \
mangueira.
48 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 49

Levantamentos topográficos com instrumentos a) Simples


Nos casos em que haja recursos financeiros e profissionais, - de corpo homogêneo; e
poder-se-á lançar mão dos serviços topográficos executados por um
- de corpo heterogêneo.
profissional habilitado, com instrumentos do tipo teodolito, nível de
precisão ou por meio de Sistema de Informação Geográfica. b) Com núcleo ou diafragma
Recomenda-se que o levantamento topográfico na garganta onde - central;
será construída a barragem seja feito de metro em metro. Na área de - externo; e
inundação do reservatório, o levantamento pode ser de 5 x 5 m em - misto.
pequenas áreas ou de 10 x 10 m em grandes áreas.

O tipo de barragem de terra é geralmente escolhido de acordo


Projeto Estrutural com o volume e a qualidade dos materiais existentes no local, com os
processos construtivos a serem utilizados e com os solos que
Embora a construção de pequenas barragens de terra seja
constituem as fundações no local da barragem. Se no local de
considerada por muitos uma obra simples e, por isso, o uso de
construção existirem quantidades suficientes de solo argiloso ou solo areno-
métodos empíricos seja suficiente para o desenvolvimento de projetos,
siltoso/argiloso e houver escassez de blocos de rocha, a barragem
muitos insucessos ocorridos indicam que essas obras exigem tanta
homogênea (Figura 8a) será a mais recomendada, por ser a mais simples e
competência da parte de engenheiros, em sua concepção e construção,
prática.
como qualquer outro tipo de barragem.
As barragens homogêneas devem ser construídas de material que
O projeto de barragem de terra consiste em dimensionar um
proporcione adequada barreira para a água, e os taludes de montante e
maciço com baixa permeábilidade que satisfaça à finalidade visada e
jusante ter inclinação relativamente baixa para proporcionarem sua
que possa ser construído com os materiais disponíveis, considerando-
estabilidade. Em barragens completamente homogêneas é inevitável a
se um custo mínimo para a obra.
percolação de água emergindo no talude de jusante, apesar da
impermeabilidade do material do aterro, se o nível de água no
Tipos de barragens de terra reservatório for mantido elevado por longo período de tempo. Por isso, no
As barragens de terra são apropriadas para construção em vales talude de jusante, tem sido substituído o material homogêneo por material
abertos, em locais onde haja grande disponibilidade de solo argiloso permeável para aumentar a declividade da linha de saturação. Outro
li areno-argiloso e espaço suficiente para situar o extravasor método de prover a drenagem é a instalação de tubos drenos, entretanto
sun radouro ou vertedouro) em uma das margens. não devem ser colocados apenas tubos de drenagem, haja vista o risco de
( !lI/lI rial escavado para a construção do canal de adução e do seu entupimento. A drenagem sempre deve ser prevista caso o
xtruv ISOI' nod ser utilizado para sua construção. reservatório venha a ser mantido cheio por muito tempo.
Bus xm to-s nas características do material utilizado, nos
!TI t dos d \ 'OIlHll'uçã e na natureza da fundação, as pequenas
barragens d \ t 1'1'11 I,j ura 8) podem ser classificadas em:
50 Matos, Silva e Pruski
Barragens de terra de pequeno porte 51

A barragem homogênea ou homogênea modificada (com drenos) é


aplicável em localidades onde os solos apresentem pequena variação na
sua permeabilidade.
As barragens de diafragma são construídas quando, no maciço
(a) permeável (aterros de areia, cascalho ou rocha), uma barreira de material
impermeável é instalada para minimizar a percolação de água. A posição
do diafragma vai variar do talude de montante até a posição de núcleo
central. O diafragma pode ser de terra, concreto, concreto betuminoso ou
outro material.
Em barragens de terra, um tipo de construção amplamente
empregado tem sido o de constituir uma zona central (diafragma ou
núcleo) feita com material argiloso selecionado, seguida de zonas de
transição ao longo das duas faces do núcleo, necessárias para impedir a
erosão tubular no caso do aparecimento de trincas no núcleo, e, a seguir,
zonas externas construídas com material que pode ser mais permeável,
capazes de conferir estabilidade ao conjunto.

Material impermeável Dimensionamento do corpo da barragem


(c) Volume de água a acumular
No projeto de uma barragem, a definição da altura necessária do
aterro dependerá das condições topográficas da área a ser inundada
pelo reservatório e, em última instância, do volume de água a ser
armazenado. A confiabilidade na definição do volume de água a ser
acumulado é dado fundamental no dimensionamento da barragem,
sendo importante lembrar que qualquer modificação posterior na
barragem visando aumentar o volume acumulado é muito difícil ou
mesmo impossível de ser executada.
O volume de água a armazenar depende das necessidades a
serem atendidas e da vazão disponível do curso d'água (considerar o
período mais crítico do ano). Para efetuar esse cálculo para um
Material impermeável reservatório de múltiplo uso, alguns aspectos deverão ser
(e) considerados:
Figura 8 - Barragens de terra material homogêneo (a), material a) Necessidades para abastecimento doméstico e de criatórios de
heterogêneo (b), com núcleo central (c), d) com núcleo animais: o volume de água a armazenar para fins de consum
externo (d) e com núcleo misto (e). humano e, ou, de animais domésticos, viventes em regiões áridas c
semiáridas, pode ser calculado, usando-se os dados apresentados nu
Tabela 9. O cálculo do consumo total é feito com a soma d todas
52 Matos, Silva e Pruski
Barragens de terra de pequeno porte
53

as vazões consumidas nos diferentes usos, Como segurança, o


valor encontrado deve ser acrescido de, no mínimo, 25 % para que, Em regiões áridas e semiáridas, a evaporação diária de água em
com o volume acumulado, possam ser supridas as deficiências de reservatórios pode chegar a 10 mm ou mais.
água que porventura venham a ocorrer nos meses mais secos,
No caso de cursos d'água intermitentes e efêrneros, deve-se
considerar que o volume de água a ser consumido deva estar
b) Necessidades médias de água para irrigação:
armazenado na sua totalidade no açude. Entretanto, no caso de cursos
- aspersão: 2 a 3 mm dia-I; d' água permanentes, como há contribuição contínua de água para a
- superfície: 3 a 4 mm dia-I; e represa, menor volume de água deverá ser armazenado para satisfação
. d açao:
- 2 a 3 L has.
-I -I das necessidades de uso. Dessa forma, da vazão a ser consumida deve-
- mun
se diminuir a vazão do curso d'água no período mais seco do ano. A
diferença de vazão, multiplicada pelo período de telJ1POde uso da
c) Necessidades para a piscicultura:
água, resulta no volume de água a ser armazenado.
- para a manutenção das condições mínimas de sobrevivência dos
Tanto no caso de açude como no de represas, é comum o
cardumes, deve-se reservar pelo menos 1/3 da altura da lâmina de
interesse em se conservar uma lâmina mínima de água no reservatório
água no reservatório.
a fim de manter a vida aquática, notadamente de peixes, e evitar o
aparecimento de trincas no maciço de terra e fundo do reservatório, o
d) Consideração das perdas inevitáveis: que concorreria para aumentar as perdas de água por percolação
- percolação; e vertical e horizontal. Para manutenção da vida aquática, recomenda-se
- evaporação, uma lâmina mínima de 1,5 m.
O volume da bacia de acumulação, capaz de armazenar a água,
deve ser determinado após a obtenção do levantamento planialtimétrico
Tabela 9 - Consumo médio de água em diferentes usos
da área a ser inundada pelo reservatório. No levantamento de bacias de
Forma de uso Consumo médio (m3 ano-1unid.-1) acumulação de pequena área, a diferença de altura entre as curvas de
nível pode ser de 1 m, enquanto no de grandes bacias esta diferença pode
Residencial (por morador) 75
ser de 5 m ou mais.
Equinos ou muares 20
Dentre os vários métodos de traçado de curvas de nível,
Bovinos 25
recomenda-se o dos perfis das seções transversais niveladas no
Suínos 4 terreno, por ser o método mais rigoroso para levantamentos de
vinos 3 pequenas áreas. Na Figura 9 está mostrado o croqui resultante do
aprinos 2 levantamento planialtimétrico de uma bacia de acumulação.
oelhos (por 100 animais) 54
Poedeiras ou [rungos (por 1.000 aves) 135
Perus (por 1.000 aves) 83
. Valores extraídos ele várias 1'0111 'S.
Barragens de terra de pequeno porte 55
Matos, Silva e Pruski
54

O volume de água represado abaixo da curva So não deve entrar


Só no cálculo do volume total da represa.
Somando os volumes parciais obtidos entre as curvas de nível
subsequentes, pode-se chegar ao volume de água que se deseja
armazenar, e o valor acumulado, resultante da soma dos volumes
parciais (equações 8, 9 etc.), pode ser apresentado graficamente,
conforme ilustrado na Figura 11. Com o uso do gráfico, pode-se, a
partir de diferentes alturas de lâmina de água no reservatório,
determinar o volume armazenado.

,
,\
Figura 9 - Croqui da bacia de acumulação. "
..
,,i"',,, A = Zero
..
;
,, B =A+V,
As áreas compreendidas entre curvas de igual nível podem ser ~~------"!I' :
,, C =B + V2
determinadas usando-se planímetro ou outro processo qualquer.
§ , D = C + V3
Os volumes parciais entre curvas de nível subsequentes, ~ ./ E = D + V4
apresentadas na Figura 9, são calculados aplicando-se a equação 8, ~6 ~ --------------!
/~ F=E+V5
que se transforma nas equações 9, 10 e assim por diante, com as quais
pode ser estimado o volume de água contido entre curvas de nível
g Q -----------/
4)
! .• I I
G=F+V6

e o --------/: :
sucessivas (Figura 10). Desse modo, --E ~ ------A/ I
:> < .... , :
,
I

v:
= (Sn-I + Sn) h/2 (8) So SI S2 S3 S4 S5 S6
Altura da lâmina de água (m)
VI = (So + SI) h/2 (9)

V2 = (SI + S2) h/2 (10)


Figura 11 - Volume acumulado, a partir da curva de nível So, versus
altura da lâmina de água.

Exemplo 1
Determinar o volume de água necessário para o abastecimento
de uma residência com cinco moradores, um estábulo com 20 vacas e
dois cavalos, um aviário com 7.000 frangos, uma pocilga com 300
\
suínos e 4 ha irrigados por aspersão.
I

Obs.: O volume de água necessário ao consumo (Vc) será cal uln lo,
Figura 10 - Croqui da garganta escolhida para assentamento de tomando-se os valores da Tabela 9.
barragem e respectivas lâminas de água.
56 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte /

Solução área variável de 50 a 500 ha, sendo a vazão máxima expressa pela
Ve = 5 X 75 + 20 X 25 + 2 X 20 + 300 X 4 + (7.000/l.000) X 135 + seguinte equação:
+ 40.000 X 3,0 X 10-3X 3.654 = 46.860 m3 ano-I Q ct, A (11)
max =360-
Com um acréscimo de 25%, tem-se: em que Qmax é a vazão máxima de escoamento superficial (m' 8-1); C,
Ve = 1,25 X 46.860 = 58.575 m' ano-I coeficiente de escoamento supercial, admensional; im, a intensidade
máxima média de precipitação para uma duração igual ao tempo de
Exemplo 2 concentração (mm h-I); e A, a área da bacia de drenagem (ha).

Calcular o volume de água útil (acumulado acima da tomada de


água) de um açude cujo levantamento planialtimétrico, representado o método racional foi originalmente desenvolvido para estimar
na Figura 9, proporcionou a determinação das seguintes áreas (em ha) vazões máximas de escoamento em pequenas bacias urbanas, cuja
delimitadas pelas curvas de igual nível: So = 0,052; SI = 0,115; S2 = proporção de área impermeável é grande (para as quais C se aproxima
0,643; S3 = 1,085; S4 = 2,034; S5 = 5,840; e S6 = 7,831. Além disso, de 1). A ampliação do uso do método racional em áreas agrícolas é mais
são dados: apropriada para bacias que não excedem 100-200 ha. No caso de grandes
a) a tomada de água está assentada na cota da curva de nível SI; bacias, com longos tempos de concentração, as condições permanentes e
a uniformidade da intensidade de precipitação assumida são irreais,
b) a diferença de nível entre duas curvas subsequentes é de 1,0 m; e devendo ocorrer consideráveis erros na estimativa da vazão.
c) o nível normal da represa atinge a curva S6. O método racional parte do princípio básico de que a vazão
máxima, provocada por uma chuva de intensidade uniforme e
Solução constante, ocorre quando todas as partes da bacia contribuem
Volume útil (Vu) = (SI + S2) h/2 + (S2 + S3) h/2 + (S3 + S4) h{2 + (S4 + simultaneamente com escoamento na seção de deságüe. O tempo
S5) h/2 + (S5 + S6) h/2 necessário para que isso aconteça, medido a partir do início da chuva,
é denominado tempo de concentração (te). Entretanto, essa
Vu = ((SI + S6)12 + S2 + S3 + S4 + S5) h consideração ignora a complexidade real do processo de escoamento
Vu = ((1.150 + 78.310)/2 + 6.430 + 10.850 + 20.340 + 58.400)*1,0 superficial, desprezando tanto o armazenamento de água na bacia
quanto as variações da intensidade de precipitação e do coeficiente de
Vu = 135.750 m3 escoamento superficial durante a precipitação. O método racional está,
portanto, fundamentado nos seguintes princípios:

A ãr U a s I' inundada pelo açude será a determinada pela última curva a) As precipitações deverão ter alta intensidade e curta duração, sendo
de nfv I, ou S [a, 7,831 ha. a vazão máxima de escoamento superficial aquela que ocorre
quando a duração da chuva for igual a te, situação em que toda a
área da bacia deverá contribuir com escoamento superficial na
Cálculo da vazão máxima prevista
seção de deságue. Ao considerar esta igualdade, admite-se que a
Método racional bacia é suficientemente pequena para que essa situação ocorra. Em
Permite a determinação da vazão maxima de escoamento pequenas bacias, a condição crítica ocorre devido a precipitações
superficial de pequenas bacias que, segundo a literatura, apresentam convectivas, que possuem pequena duração e grande intensidade.
Portanto, a chuva deve ter duração suficiente para que toda a bacia
58 Matos, Silva e Pruski
Barragens de terra de pequeno porte .()

contribua com escoamento superficial na seção de deságue. A


racional foi atribuído à equação na época de seu desenvolvimento,
consideração de precipitações com duração superior a te causaria,
para distingui-Ia das outras equações empíricas amplamente usadas.
também, a redução da vazão máxima, pois a tendência natural da
intensidade da chuva é decrescer com o aumento da duração da A seguir serão analisados, de forma individualizada, os fatores
precipitação considerada. O método não considera que, num tempo considerados no método racional, discutindo-se a sua importância e os
inferior a te, embora nem toda a área esteja contribuindo com cuidados a serem tomados na escolha adequada dos valores a fim de
escoamento superficial, a intensidade maior da precipitação possa garantir a confiabilidade do método.
sobrepujar esse fato e causar uma vazão de escoamento superficial
maior que aquela com duração igual a te. Área drenada (A)
b) A precipitação com duração igual a t, ocorre, uniformemente, ao A área drenada é o parâmetro determinado mais precisamente.
longo de toda a bacia. Em nível de bacia hidrográfica, a área de drenagem é representada
c) Dentro de curto período de tempo, a variação na velocidade de pela área plana (projeção horizontal) inclusa entre os divisores
infiltração não deverá ser grande. Geralmente assume-se que, topográficos da bacia. Normalmente, utilizam-se mapas ou fotografias
durante o evento extremo, o solo se encontra saturado e, portanto, aéreas para essa finalidade.
com taxa de infiltração de água igual à da taxa de infiltração
estável (TIE) , também denominada, em algumas literaturas, Intensidade máxima média da precipitação (im)
velocidade de infiltração básica (Vffi), o que corresponde à A intensidade a ser considerada para a aplicação do método é a
condição mais desfavorável. máxima média (im), observada para uma duração correspondente ao
d) Adota-se um coeficiente único de perdas, denominado coeficiente de tempo de concentração (tc) e para o período de retomo estabelecido
escoamento superficial, estimado com base nas características da pelo projetista. É obtida pela seguinte equação:
bacia. 3
. KT
e) Sua utilização não possibilita a caracterização do volume de 1m = (t+bt (12)
escoamento superficial produzido e a distribuição temporal das
vazões. em que:
T é O período de retomo (anos); t, a duração da precipitação
Embora a denominação "racional" dê a impressão de segurança, (min); e K, a, b, c, os parâmetros de ajuste, relativos à estação
o método deve ser aplicado cuidadosamente, pois envolve pluviográfica estudada.
simplificações e uso de coeficientes de grande subjetividade. A
imprecisão do emprego do método será tanto maior quanto maior for a
ãrca da bacia, uma vez que as hipóteses anteriores se tomam cada vez Nas Tabelas 10, 11 e 12 estão apresentados os parâmetros da
mais improváveis. Dessa forma, o método não deveria ser aplicado em equação de intensidade-duração-frequência de algumas localidades
áreas uperiores a 500 ha. No entanto, a simplicidade de sua aplicação dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais,
e a facilidade do conhecimento e controle dos fatores a serem respectivamente.
considerados tomam seu uso bastante difundido em estudos sobre as
cheias em pequenas bacias hidrográficas, até mesmo aquelas com área
superior a 500 ha. Smedema e Rycroft (1983) salientam que o termo
Barragens de terra de pequeno porte 6J
60 Matos, Silva e Pruski

Tabela 12 - Relação dos parâmetros da equação de intensidade-


Tabela 10 - Relação dos parâmetros da equação de intensidade- duração-frequência de algumas localidades do Estado
duração-freqüência de algumas localidades do Estado de Minas Gerais
do Rio de Janeiro
Parâmetros da equação de intensidade-duração-frequêncía
Localidades
Parâmetros da equação de intensidade-duração-frequência K a b c
Localidades
K a b c Aimorés 1248,576 0,227 12,268 0,814
Alto da Boa Vista 4378,l33 0,227 49,157 0,999 Araxá 2998,661 0,163 32,009 0,931
Angra dos Reis 721,802 0,211 10,566 0,720 Arinos 1909,102 0,188 20,499 0,895
Álcalis 3281,158 0,222 44,204 1,000 Bambuí l343,837 0,251 25,499 0,788
Campos 1133,836 0,183 20,667 0,807 Barbacena 2023,567 0,281 20,981 0,957
Cordeiro 612,197 0,185 5,000 0,695 Belo Horizonte 1175,295 0,255 l3,381 0,806
Ecologia Agrícola 3812,020 0,218 34,565 0,999 Capinópolis 1049,375 0,274 13,968 0,784
Ilha Guaíba 1045,123 0,244 49,945 0,679 Caratinga 3600,751 0,235 28,083 1,036
Itaperuna 4999,882 0,196 34,462 0,986 Caxambu 2346,221 0,298 25,567 0,987
Macaé 444,258 0,263 6,266 0,655 Diamantina 613,113 0,234 14,307 0,665
Nova Friburgo 2629,477 0,236 24,664 0,975 Espinosa 1480,084 0,273 23,845 0,892
Resende 1652,972 0,182 21,410 0,767 Formoso 4499,996 0,259 33,443 1,028
Santa Cruz 2474,810 0,21l3 37,4228 0,9491 Gov. Valadares 3195,594 0,292 43,520 0,9l3
Vassouras 3086,290 0,200 22,081 1,000 Januária 653,774 0,209 10,513 0,676
João Pinheiro 1508,326 0,284 21,129 0,820

Tabela 11 - Relação dos parâmetros da equação de intensidade- Lavras 3500,000 0,235 40,083 0,958
duração-frequência de algumas localidades do Estado Machado 3498,787 0,238 31,951 1,024
do Espírito Santo Montes Claros 3500,014 0,248 34,992 0,993
Patos de Minas 4316,449 0,250 41,890 1,014
Parâmetros da equação de intensidade-duração-frequência
Localidades Paracatu 2116,670 0,215 25,346 0,874
K a b c
Pedra Azul 4998,972 0,251 34,654 1,094
Alegre 1497,781 0,258 19,294 0,855
Pirapora 3346,946 0,208 38,457 0,949
Arncruz 1298,382 0,120 20,981 0,786
Salinas 6998,425 0,273 42,653 1,116
Boa llsp rança 596,380 0,230 8,534 0,670
Sete Lagoas 2520,616 0,204 30,392 0,937
Linhar s 3647,235 0,223 20,665 1,000
Teófilo Otôni 1683,425 0,261 22,166 0,858
São Gabriel da Palha 1309,205 0,230 15,375 0,821
Uberaba 3000,000 0,206 37,459 0,904
São Mateus 4999,205 0,191 49,999 0,983
Uberlândia 1167,284 0,233 17,245 0,747
Santa Teresa 632,265 0,247 13,543 0,714
Unaí 6000,000 0,313 41,248 1,053
Venda Nova 4147,062 0,205 33,842 1,000
Viçosa 1082,798 0,265 23,781 0,77
Vitória 4003,611 0,203 49,997 0,931
Matos, Silva e Pruski
62 Barragens de terra de pequeno porte 63

A duração da chuva, dada na equação 12, deve ser igual ao Para o projeto de pequenas barragens, Iryda (1985) considera
tempo de concentração, considerando-se a intensidade de precipitação que o uso de períodos de retorno de 50 ou 100 anos pode ser
constante ao longo dessa duração. suficiente. Entretanto, nos casos em que a ruptura da barragem coloca
A chuva crítica, para o projeto de obras hidráulicas, é escolhida em perigo vidas humanas ou grandes prejuízos econômicos podem
com base em critérios econômicos, sendo o período de retorno de 5 a ocorrer, o autor aconselha períodos de retorno maiores, ou seja, da
10 anos normalmente utilizado para sua seleção, com vistas à ordem de 500 anos. MME-ELETROBRÁS-DNAEE (1985)
eliminação do escoamento superficial, no caso de projeto de sistemas recomenda que, no dimensionamento de vertedores associados a
de drenagem agrícola de superfície. Schwab et alo (1966) recomendam microcentrais hidrelétricas, o período de retorno seja de 100 anos,
um período de retorno de 10 anos para projetos de conservação de quando não houver riscos potenciais a jusante, e de 200 anos, em caso
solos. Euc1ydes (1987) recomenda o período de retorno de 10 anos de riscos de danos expressivos a jusante.
somente para o dimensionamento de projetos de saneamento agrícola, Na aplicação do Método Racional, o período de retorno é
em que as enchentes não trazem prejuízos muito expressivos, como a escolhido, admitindo-se que o período associado à vazão máxima seja
recuperação de várzeas para pastagens. No caso de projetos em áreas igual ao da precipitação que a provoca. Isso não é exatamente
urbanas ou de maior importância econômica, recomenda-se o período verdadeiro, pois a ocorrência de uma grande cheia não depende apenas
de retorno de 50 ou 100 anos. da ocorrência de uma grande precipitação, mas também da situação da
Porto et al. (1993) salientam que as dificuldades em estabelecer bacia no que diz respeito às condições que interferem no escoamento
o período de retorno adequado, para cada situação, fazem com que sua superficial. Como, via de regra, o método racional é aplicado sem
escolha recaia, muitas vezes, em valores recomendados na literatura. levar em conta a influência do armazenamento superficial sobre a
Os autores apresentam, na Tabela 13, períodos de retorno vazão máxima, o período de retorno relativo à vazão máxima torna-se
recomendados por Daee-Cetesb, em 1980, de acordo com o tipo de igual ao da precipitação.
ocupação da área. Sendo q a vazão específica (vazão por unidade de área da
bacia), pode-se afirmar que q = C im, considerando a vazão total (Q)
igual a (q A). A vazão específica será tanto maior quanto maior for im,
Tabela 13 - Períodos de retorno (T) propostos por DAEE-CETESB
isto é, quanto menor for a duração da precipitação; porém, a vazão
(1980 citado por PORTO et al., 1993), de acordo com o
máxima será maior com o aumento da área da bacia de contribuição.
tipo de ocupação da área
Entretanto, com o aumento desta, também se elevará o valor da
Tipo de obra Tipo de ocupação da área T (anos) duração da precipitação a ser considerada. Para atender a essas duas
2 condições, que se opõem, fixa-se a duração da chuva em um valor
M icrodrenagem Residencial
igual ao tempo de concentração.
Comercial 5
Pela análise física do processo de escoamento superficial, os
Área com edifícios de serviços ao público 5
fatores que influenciam o valor da duração da precipitação, em que
Aeroportos 2-5 toda a área da bacia considerada passa a contribuir com escoamento na
Áreas comerciais e artérias de tráfego 5-10 seção de deságue, são: área da bacia, comprimento e declividade do
Macrodrenagem Áreas comerciais e residenciais 50-100 rio mais longo (principal), forma da bacia, dec1ividade média do
500 terreno, dec1ividade e comprimento dos afluentes, rugosidade do
Áreas de importância específica
canal, tipo de recobrimento vegetal e características da precipita . o,
Portanto, o tempo de concentração não é constante em dct 1'I11i1Wd,
área, variando com outros fatores, como o tipo e a condlçno I
64 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

cobertura da área e com a altura e distribuição da chuva sobre a bacia. escoamento sobre a superfície do solo. Quando o valor de L é superior
Entretanto, com o aumento no período de retomo considerado, a a 10 km, a fórmula parece subestimar o valor de te.
influência desses fatores diminui.
Smedema e Rycroft (1983) salientam que o tempo de • Fórmula do Califómia Culverts Practice, Califómia Highways and
concentração pode ser obtido, dividindo-se a distância percorrida pelo Public Works
escoamento superficial pela velocidade do escoamento. Quando a A fórmula sugerida é a mesma proposta por Kirpich,
velocidade de escoamento varia ao longo da distância percorrida, o representada pela equação 14.
tempo de concentração pode ser assim calculado:
L • Fórmula de Ven Te Chow
= L-i
n

te (13)
i=! Vi t = 52 64 (~) 0,64 (15)
em que Li e Vi se referem à distância percorrida e à velocidade de
c ' FI
escoamento em cada trecho individual, respectivamente. em que t e é O tempo de concentração (min); L, o comprimento do
talvegue (km); e I, a dec1ividade média do talvegue (m km").
Existem inúmeras equações empíricas e ábacos que permitem
obter o valor do tempo de concentração de acordo com algumas Essa fórmula foi obtida em pequenas bacias hidrográficas, com
características físicas da bacia. Freitas (1984) apresenta ampla áreas de até 24,28 krn", em lllinois-EUA.
abordagem a respeito dessas equações, algumas das quais são dadas a
seguir: • Fórmula de Picking

• Equação de Kirpich t =5179 (e)!/3 (16)


c , I
t = 57 (e )0,385 (14) em que t e é O tempo de concentração (min); L, o comprimento
e H
horizontal do talvegue até o ponto mais afastado da bacia (km); e I, a
em que te é O tempo de concentração (min); L, o comprimento do declividade média do talvegue (m km').
curso d'água principal da bacia, desde a saída desta ao ponto mais
remoto (km); e H, a diferença de nível entre o ponto mais remoto da • Equação de Izzard
bacia e a seção considerada (m).
Izzard (citado por FREITAS, 1984) pesquisou em laboratório o
escoamento sobre diversas superfícies descobertas e revestidas, com
Porto et aI. (1993), a equação de Kirpich foi
onforrne comprimentos de rampa variando entre 3,7 e 220 m e dec1ividades de 0,1
desenvolvida a partir de informações de sete pequenas bacias agrícolas a 4% para superfícies revestidas e de 1 a 4% para superfícies o
do Tennessec-El.íA, com dec1ividades variando entre 3 e 10% e áreas coeficiente de escoamento superficial, adimensional descobertas. Os
de 0,5 krn", no máximo. Embora as informações de que a fórmula escoamentos foram provocados por chuvas simuladas com intensidades
necessita (L e H) sejam uma indicação de que ela reflete o escoamento que chegaram a atingir 100 mm h-I.
em canais, o fato de ter sido desenvolvida para bacias tão pequenas é
uma indicação de que os parârnetros devem representar, também, o
66 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 67

A equação de Izzard é recomendada para pequenas bacias, nas t = 6,92 (L n)0,6 (19)
quais o escoamento é laminar, sem canais definitivos. É, portanto, c i 0,3 10,4
utilizada para o projeto de obras de urbanização, loteamentos etc. m

I3
52642bL
, /
(17)
(Cim)2/3 em que te é O tempo de concentração (min); L, o comprimento da
bacia (m); n, o coeficiente de rugosidade de Manning (s m-I/\ I , a
b= 0,0000276im + Cr declividade da superfície (m m'): e im, a precipitação efetiva (mm h·I).
(18)
11/3

em que t e é O tempo de concentração (min); L, o comprimento do A precipitação efetiva (im) é obtida da equação de
trecho em que ocorre o escoamento superficial, que vai da saída da intensidade-duração-frequência da precipitação (equação 12), o que
bacia ao ponto mais remoto da área considerada (m); im, a intensidade torna o processo de cálculo iterativo, pois, para determinar im, é
máxima média de precipitação (mm h"); C, o coeficiente de necessário conhecer sua duração, que é igual ao tempo de
escoamento superficial (adimensional); I, a declividade média da concentração.
superfície, desde o ponto mais afastado até a sua saída = HIL (m m"); A equação da onda cinemática é a solução teórica das equações
e C., o coeficiente de retardo. que regem o escoamento turbulento em um plano, logo é de se esperar
que sua utilização esteja mais adequada em pequenas bacias
hidrográficas, pois, neste caso, prevalece esse tipo de escoamento. A
Os valores de coeficiente de retardo, em razão do tipo de
tendência, entretanto, é de que o valor de te seja superestimado à medida
superfície, estão apresentados na Tabela 14.
que a bacia aumenta.

Tabela 14 - Coeficientes de retardo de diferentes superfícies de e Equação de Giandotti


escoamento
4.Jj\ + 1,5L
t =---=- (20)
Tipo de superfície c 0,8JH
Asfalto liso e bem acabado 0,007
em que te é O tempo de concentração (h); A, a área da bacia (km'); L,
Pavimento de concreto 0,012 o comprimento horizontal, desde a saída até o ponto mais afastado da
Macadame asfáltico (betuminoso) ou cascalho 0,017 bacia (km); e H, a diferença de cotas entre a saída da bacia e o ponto
mais afastado (m).
rama aparada ou terra firme 0,046
Turra d nsa ou grama densa 0,060 Porto et al. (1993) apresentam, também, as seguintes equações
para determinação do tempo de concentração:

A metodologia proposta por Izzard é aplicável somente a


e SCS Lag - fórmula
situações em que o produto i., L < 3871 mm h-I m.
e Equação derivada com base no método da onda cinemática t = 3,42 L O,8 (1000 _ 9)°,7 S-0,5
( I)
c CN
68
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 69

em que te é O tempo de concentração (min); L, o comprimento do Tabela 15 - Velocidades médias para cálculo de te, m S-1

talvegue (km); S, a declividade do talvegue (m m'); e CN, o número


Descrição do escoamento Declividade (%)
da curva (obtido pelo método do número da curva).
0-3 4-7 8-11 > 12
Sobre a superfície do terreno
A equação foi desenvolvida para bacias rurais com áreas de
Florestas 0-0,5 0,5 - 0,8 0,8 - 1,0 > 1,0
drenagem de até 8 km2 e reflete, fundamentalmente, o escoamento
sobre a superfície do terreno. Para a aplicação em bacias urbanas, o Pastos 0-0,8 0,8 - 1,1 1,1 - 1,3 > 1,3
Soil Conservation Service (1972) sugere procedimentos para ajuste, Áreas cultivadas 0-0,9 0,9 - 1,4 1,4 - 1,7 > 1,7
em virtude da área impermeabilizada e da parcela dos canais que Pavimentos 0-2,6 2,6 - 4,0 4,0 - 5,2 > 5,2
sofreram modificações. Com a utilização dessa equação, superestima-
Em canais
se o valor de te em comparação com as equações de Kirpich (equação
Mal definidos 0-0,6 0,6 - 1,2 1,2 - 2,1
14) e Dodge (equação 23).
Bem definidos Calcular pela equação de Manning
A utilização da equação do SCS aparentemente proporciona
superestimativa do valor de te quando forem baixos os valores de CN.
De fato, essa fórmula só apresenta resultados compatíveis com os das Com ~ase nos ábacos apresentados por Smedema e Rycroft
demais, no caso de CN próximos de 100 e de valores de L inferiores a (1983), relacionando a velocidade de escoamento com a declividade
10 km, o que geralmente corresponde a bacias com área de drenagem da superfície do solo de diferentes tipos de cobertura, ajustaram-se
inferior a 15 km". Como o tempo de concentração depende muito do eq~ações de regressão, tendo como variável dependente a velocidade
valor de CN e como este parâmetro é um indicador das condições da e, independente, a declividade da superfície do solo (Tabela 16).
superfície do solo, a equação do SCS aplica-se a situações em que o
escoamento sobre a superfície do terreno é predominante.
Tabela 16 - Determinação da velocidade de escoamento (V), em
• SCS - método cinemático
m S-I, de acordo com a declividade (S), em %, de
diversos tipos de cobertura
te = 1000t~ (22)
60 i=1 Vi Tipos de cobertura Equações
em que te é O tempo de concentração (min); L;, a distância percorrida Floresta com grande quantidade de resíduos v == 0,0729 S 0,5051
n trecho considerado (km); e V;, a velocidade média no trecho sobre a superfície
xinsiderado (m S-I). Solo com mínimo cultivo ou em pousio v == 0,1461 S°,492
Pastagem de gramínea, gramados V == 0,2193 SO,4942
A junção baseia-se no fato de que o tempo de concentração é o
SOIl\ ItOI 1\ dos I mpos de deslocamento nos diversos trechos que Solo semidescoberto (com pouca cobertura) V == 0,3073 S°,4985
c 111P '111 1\ '111111 rimento do talvegue. Na parte superior das bacias,
em que 1 r 1111\1 11\ ) • coamento superficial sobre o terreno, ou em Canais com vegetação V == 0,4528 S°,5011
canais mal ti fluido. u Y locidade pode ser determinada por meio dos
valores apresentado 111I Tnb Ia 15. Em canais com seção transversal Áreas pavimentadas, escoamento em calhas V == 0,6078 S°,4976
bem definida, dev '-fll' IItlliznr a equação de Manning. rasas
70 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 7t

• Equação de Dodge particulares. Dentre elas, entretanto, a de uso mais frequente é aquela
proposta por Kirpich.
t =2188A°,41S-0,17 (23)
c' . É válido ter sempre em mente que o erro na estimativa do
em que te é O tempo de concentração (min); A, a área da bacia (km"); tempo. de concentração será tanto maior quanto menor for a duração
e S, a declividade da bacia (m km'). considerada, uma vez que é maior a variação da intensidade de
precipitação com o tempo nesta condição. Já no caso de grandes
durações, as variações da intensidade com incrementos iguais de
A equação foi determinada utilizando-se dados provenientes de tempo são bem menores.
10 bacias rurais com área abrangendo de 140 a 930 knr', Seus
parâmetros refletem o comportamento de bacias com escoamento Coeficiente de escoamento (C)
predominante em canais. Como a equação de Dodge foi determinada a
Do volume precipitado sobre a bacia hidrográfica, apenas uma
partir de dados obtidos em bacias de maior porte que as demais,
parte atinge a seção de deságue sob a forma de escoamento superficial,
consequentemente supõe-se que seus parâmetros reflitam melhor as
uma vez que parte da água é interceptada, outra preenche as depressões e
condições de escoamento em canais.'
outra se infiltra no solo, umedecendo-o e abastecendo o lençol freático. O
Kimbler (citado por PORTO et aI., 1993) apresentou exemplo volume escoado representa, portanto, apenas uma parcela do volume
da dispersão dos resultados obtidos pelas diversas equações, para o precipitado, sendo a relação entre os dois denominada coeficiente de
cálculo do tempo de concentração, ressaltando-se que o valor deste, escoamento e obtida utilizando-se a equação 24. As quantidades
determinado pelas diversas equações, variou de 9 a 36 mino No interceptada, armazenada na superfície, infiltrada e escoada podem variar
período de retorno de 25 anos, as vazões de pico variaram de 3,3 a 1,8 consideravelmente de uma precipitação para outra; consequentemente, o
3 -1
m s . coeficiente de escoamento superficial também varia. A percentagem da
Segundo o referido autor, a análise das equações apresentadas chuva convertida em escoamento superficial aumenta com a intensidade e
para o cálculo do tempo de concentração possibilita as seguintes a duração da precipitação.
conclusões: c = volume escoado superficialmente (24)
- Em geral, as equações têm comportamentos similares até L = 10 km e, a volume precipitado
partir daí, passam a divergir. Esse comportamento é esperado, uma vez
No método racional, utiliza-se um coeficiente de escoamento
que os estudos que as originaram, geralmente, se referem a bacias superficial que, multiplicado pela intensidade máxima média de
hidrográficas desse porte. precipitação, correspondente ao tempo de concentração, permite obter a
- O método cinemático é o mais correto do ponto de vista conceitual, pois vazão máxima de escoamento superficial. O valor a ser utilizado no
p ermite considerar as características específicas do escoamento na bacia método, entretanto, não deveria ser o coeficiente de escoamento (relativo
rn studo. É também o mais trabalhoso, porque exige a divisão dos à relação entre os volumes escoado e precipitado) e sim o coeficiente de
canais rn trechos uniformes e a determinação de suas características deflúvio. Este representaria a relação entre a vazão máxima escoada e a
hidráulicas para a aplicação da equação de Manning. intensidade de precipitação que a produz. A vazão máxima escoada
De acordo com as equações apresentadas para o cálculo do tempo depende de diversos fatores, como a distribuição da precipitação na bacia,
de concentração, o comprimento e a declividade do curso d'água a direção do deslocamento da precipitação em relação ao sistema de
principal da bacia são as características mais frequentemente utilizadas. drenagem, a condição de umidade do solo quando da ocorrência du
precipitação, o tipo e uso do solo, a rede de drenagem existcnt • ti
É difícil dizer qual equação dará melhores resultados em
duração e intensidade da chu~a, entre outros.
determinada bacia hidrográfica, já que todas foram obtidas em condições I
72 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 7.\

Muitos são os procedimentos disponíveis para obtenção do Tabela 17 - Cont.


valor de C; no entanto, a utilização de tabelas que permitem obtê-lo a Superfície C
partir das condições típicas da área analisada é a forma mais comum.
Intervalo Valor esperado
Na Tabela 17 estão apresentados os valores do coeficiente de
Cobertura
escoamento superficial, recomendados pela American Society of Civil
Engineers - ASCE (1969 citada por GOLDENFUM e TUCCI, 1996). Grama, solo arenoso
Na tabela 18 constam os valores de C segundo adaptação do critério - plano(2%) 0,05 - 0,10 0,08
de Fruhling utilizados pela prefeitura de São Paulo (WILKEN, 1978). - médio (2 a 7%) 0,10 - 0,15 0,13
Na Tabela 19 são mostrados os valores de C recomendados pelo - declividade alta (7%) 0,15 - 0,20 0,18
Colorado Highway Department, enquanto na Tabela 20 estão
Grama, solo pesado
apresentados os valores de C recomendados pelo Soil Conservation
Sevice (1972). - plano (2%) 0,13 - 0,17 0,15

Quando há variação no coeficiente de escoamento superficial ao - médio (2 a 7%) 0,18 - 0,22 0,20
longo da área analisada, este poderá ser determinado utilizando-se a - declividade alta (7%) 0,25 - 0,35 0,30
seguinte equação:
n
Tabela 18 - Valores de C adotados pela prefeitura de São Paulo
LCiAi
C=--"i=O-'-I
__ (25) (WILKEN, 1978)
A
Zonas C
em que C é o coeficiente de escoamento superficial da área de Edificações muito densas
interesse, adimensional; C, o coeficiente de escoamento superficial da Partes centrais, densamente construídas de uma cidade com
subárea i, adimensional; Ai, a subárea considerada (ha); A, a área total ruas e calçadas pavimentadas 0,70 - 0,95
considerada (ha).
Edificações não muito densas
Partes adjacentes ao centro, de menos densidade de
Tabela 17 - Valores do coeficiente de escoamento superficial reco- habitações, mas com ruas e calçadas pavimentadas 0,60 - 0,70
mendados pela ASCE (1999, citada por GOLDENFUM e Edificações com poucas superficies livres
TUCCI, 1996) Partes residenciais com construções cerradas e ruas 0,50 - 0,60
pavimentadas
uperffcie C
Edificações com muitas superficies livres
Intervalo Valor esperado Partes residenciais com ruas macadamizadas ou pavimentadas 0,25 - 0,50
Pavimento Subúrbios com alguma edificação
Asfalto 0,70 - 0,95 0,83 Partes de arrabaldes e subúrbios com pequena densidade de 0,10 - 0,25
construção
Concreto 0,80 - 0,95 0,88
Matas, parques e campo de esportes
Calçadas 0,75 - 0,85 0,80
Partes rurais, áreas verdes, superfícies arborizadas, parques
Telhado 0,7;5 - 0,95 0,85 ajardinados, campos de esporte sem pavimentação 0,05 - 0,20
J Continua ...
I
74 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 75

Tabela 19 - Valores do coeficiente de escoamento propostos pelo Método Baseado no Racional-Método Racional Modificado
Colorado Highway Department Objetivando melhorar a estimativa da vazão máxima de
Características da bacia C (%) escoamento superficial em bacias hidrográficas estudadas no Sul de
Minas Gerais, Euclydes (1987) introduziu o coeficiente de
Superfícies impermeáveis 90 - 95
retardamento na equação relacionada ao Método Racional, passando a
Terreno estéril montanhoso 80 - 90 vazão máxima de escoamento superficial a ser obtida por:
Terreno estéril ondulado 60 - 80
50 -70
Q CimA th
(26)
Terreno estéril plano max = 360 't'
Prados, campinas, terreno ondulado 40 - 65
35 - 60 em que <l> é o coeficiente de retardamento, adimensional.
Matas decíduas, folhagem caduca
Matas coníferas, folhagem permanente 25 - 50
o coeficiente de retardamento procura corrigir o fato de o
Pomares 15 - 40 escoamento superficial sofrer retardamento em relação ao início da
Terrenos cultivados em zonas altas 15 - 40 precipitação. Se este fato fosse considerado no Método Racional, seria
Terrenos cultivados em vales 10 - 30 escolhida uma chuva mais longa e, consequentemente, com
intensidade mais baixa. Com a aplicação do coeficiente de
retardamento, que varia entre O el, procura-se uma compensação para
Tabela 20 - Valores de C recomendados pelo Soil Conservation este efeito, que não é considerado no Método Racional.
Service (1972)
Em trabalho realizado por Euclydes e Piccolo (citados por
Declividade (%) Solos arenosos Solos francos Solos argilosos EUCLYDES, 1987), no Sul de Minas Gerais, mais precisamente na
Florestas microrregião do circuito das águas, foi ajustada uma equação (com
-coeficiente de correlação igual a 0,70) que possibilita a estimativa do
0-5 0,10 0,30 0,40
valor de <l> em função da área da bacia
5 - 10 0,25 0,35 0,50
<l> = 0,278 - 0,00034 S (27)
10 - 30 0,30 0,50 0,60
em que S é a área da bacia (km").
Pastagens
0-5 0,10 0,30 0,40 Aplicando dados coletados em diversas bacias hidrográficas na
5 - 10 0,15 0,35 0,55 equação 27, Euclydes (1987) obteve os valores apresentados na
0,20 0,40 0,60 Tabela 21.
10 - 30
Terras cultivadas A aplicação do método -a outras regiões deve ser realizada, no
entanto, com cautela e, sempre que possível, seguida da avaliação de
0-5 0,30 0,50 0,60
seu desempenho. Euclydes (1987) recomenda, ainda, que o tempo de
5 - 10 0,40 0,60 0,70 concentração seja determinado pela equação de Giandotti (equação
10 - 30 0,50 0,70 0,80 11). Portanto, por não considerar a influência dos diversos fator s 'lu
influenciam o escoamento superficial, o Método Racional Modi fi 'ti 10
deve ser acompanhado de um ajuste às condições da bacia ant s d s 'r
aplicado.
76 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I

Tabela 21 - Valores do coeficiente de retardamento <1> em relação à Materiais utilizados em aterros ficam sujeitos à consolidação
área da bacia sob a ação do peso do material que lhe é sobreposto. Essa
, 2 consolidação é decorrente da redução da porosidade (índice de
Area da bacia (km )
vazios), que é acompanhada de compressão ou expulsão do ar e da
10 - 30 0,27 água dos poros. Tratando-se de pedregulhos grosseiros, os poros são
30 - 60 0,26 bastante grandes para permitir rápido escoamento da água e do ar
antes mesmo de terminar o aterro. Entretanto, em solos de
60 - 90 0,25
granulometria fina, a consolidação não se faz tão rapidamente e pode
90 - 120 0,24 ser necessário conferir maior altura ao aterro para que, após a
120 - 150 0,23 consolidação, ele fique com a altura desejada. A altura extra para
compensar a consolidação pode ser determinada por ensaios de
laboratório (ensaio de Proctor), por observação do assentamento do
Altura da barragem aterro durante a construção ou por uso de valores práticos, como os de
A altura de uma barragem é a distância vertical entre a superfície 2 a 5 % da altura total da barragem.
do terreno que recebe a barragem e a superfície da água no reservatório, A altura total da barragem, geralmente, atinge a mesma altura
por ocasião da ocorrência da vazão máxima de projeto no extravasor, das margens da garganta onde o aterro está assentado. Esta prática
acrescida de uma borda livre ou folga. A altura da barragem deve ser visa, via de regra, facilitar o trânsito sobre a barragem. A altura da
suficiente para proporcionar o acúmulo do volume de água necessário barragem pode, também, conforme discutido, ser limitada por obras
para os diversos usos a que se presta o reservatório. situadas a montante desta, como estradas, moinhos, pontes, divisas de
Altura total propriedades etc.

A altura total de uma barragem de terra (H) depende da altura


Altura normal
da lâmina de água represada junto à barragem, denominada altura
normal (Hn); da altura máxima da lâmina de água que atravessa o A altura normal de água em um reservatório (Hn) refere-se à
extravasor (He), por ocasião das cheias máximas; e da folga (f), que altura até onde a água alcança em condições normais de vazão do
representa a diferença de nível entre a lâmina máxima de enchente e a curso d'água. A altura normal deve ser tal que proporcione o
crista da barragem (c) (Figura 12). A determinação da altura total deve armazenamento suficiente de água para a satisfação das necessidades
ser obtida por: momentâneas de uso.
H = Hn + He + f (28)
Profundidade máxima da água no extravaso r
A altura da lâmina de água a ser extravasada em ocasiões de
Nfvel máximo máxima enchente (He) deve estar, preferencialmente, entre 1,0 e 1,5
<, F
He m. Valores menores concorrerão para aumento dos riscos em caso de
Extravasor /- - H ocorrência de vazões com valores acima dos esperados. Valores
Nfvel mfnlmo Hn
maiores estão associados a grandes lâminas de descarga, o que pode
Tomada de água trazer riscos de erosão no fundo do extravasor, caso não se tenham o
Desarenador fundo e as laterais protegidos.
Figura 12 - Perfil longitudinal de uma barragem.
78 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

Folga Nota
Sabe-se que grande parte dos insucessos de barragens de terra, - A diferença de nível entre o leito do riacho e a curva So será
cerca de 40%, resultou do extravasamento de vazões de enchente por desprezada neste cálculo.
sobre a crista da barragem, devido à insuficiência de borda livre ou à falta - A partir da curva So, são seis os intervalos até a curva S6.
de capacidade dos extravasores. Como a passagem da água por cima de
uma barragem de terra tem de ser evitada, a cota da crista deve situar-se Solução
acima do nível de água máximo previsto no reservatório. Esta folga de
altura (f), também chamada de "borda livre", deve ser de aproxima- H=Hn+He+f
damente 30% da altura máxima da barragem e sua dimensão mínima, de H =6x 1,0 + 1,5 + 1,0
0,5 a 1,00 m em pequenas barragens de terra. Alguns autores vinculam a
H = 8,50 m
folga à altura total da barragem, indicando folgas de 0,75 a 1,25 m em
barragens de até 6 m e de 0,85 ma 1,35 m no caso de barragens de 6 a 9
Perfil da barragem
m, dependendo do comprimento do espelho d'água na época das
enchentes (comprimento máximo para prevenir o efeito das ondas). Largura da crista
Nas condições brasileiras, tem-se adotado, na prática, uma folga de A largura do topo da barragem, mais conhecida como largura da
1,0 a 1,5 m. Essa tolerância é baseada no efeito de um vento de velo- crista, está condicionada à estabilidade e altura da barragem, à
cidade máxima soprando no sentido da maior dimensão do reservatório permeabilidade do aterro e ao tipo de trânsito a que se destina.
em direção à barragem. Em grandes barragens, adotam-se de 2,0 a 3,0 m
de folga. A largura da crista de uma barragem de terra deve ser suficiente
para fazer com que a linha freática, ou seja, a linha divisória entre o
No caso de grandes reservatórios, toma-se importante meio saturado e o não saturado se mantenha no interior do maciço da
considerar a altura das ondas formadas por ocasião de chuvas e ventos barragem quando o reservatório estiver cheio. A largura da crista
fortes. A altura estimada das ondas deve ser somada à da folga deve, também, ser suficiente para resistir aos choques decorrentes do
adotada. Para estimativa da altura das ondas tem sido comumente embate das ondas.
utilizada a seguinte equação:
Quanto maior a largura da crista, maior o volume do aterro,
h = 0,36 LU2
+ 0,76 - 0,27 L1/4 (29) maior a estabilidade da barragem e menor a possibilidade de
em que h é a altura da onda (m); e L, a maior dimensão da represa a infiltração de água. No caso de barragem de terra, a largura da crista
partir da barragem (km). não deve ser inferior a 3 m caso não seja prevista a sua utilização
como estrada. Caso esteja previsto o trânsito de veículos sobre a
Exemplo 3 crista, a dimensão deve ser de 4 a 6 m.
D t rrninar a altura total da barragem, considerando-se os Na inexistência de fatores como trânsito pesado e certas
seguint s dados: condições locais, que condicionam a largura da crista, podem ser
a) o nív I normal da represa atinge a curva S6; adotados os valores determinados por cálculo, utilizando-se a equação
de Preece:
b) a diferença de nível entre duas curvas sucessivas é de 1,0 m;
c) a altura da lâmina de água dentro do extravasor gramado é, no c = 1,1 H1
/2 + 0,9 (. ()
máximo, de 1,5 m; e em que c é a largura da crista (m); e H, a altura da barragem (m);
d) a folga é de 1,0 m.
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 81
80

ou a equação proposta pelo V.S. Bureau of Reclamation: consideram que a inclinação do talude deva estar condicionada à
(31) altura da barragem, conforme apresentado na Tabela 22.
c = RIS + 3
Inclinação dos taludes Tabela 22 - Inclinação dos taludes (z:l), de acordo com a altura e o
Antes do início da construção da barragem, é necessário que material utilizado no corpo da barragem '
seja estabelecido o grau de inclinação que será proporcionado aos Material do corpo da Talude Altura da barragem
taludes de montante e jusante do maciço de terra. A mínima inclinação barragem
dos taludes fica condicionada pelo ângulo de repouso do material. Até 5 fi De 5,1 até 10,0 m
Taludes muito íngremes poderão ficar instáveis, comprometendo a Solos argilosos Montante 2,00:1 2,75:1
segurança da obra ou até concorrendo para seu rompimento. Além Jusante 1,75:1 2,25:1
disso, deve-se considerar que o talude de montante deva ser menos Solos areno-siltosos/argilosos Montante 2,25:1 3,00:1
inclinado que o de jusante, para permitir maior estabilidade do aterro,
Jusante 2,00:1 2,25:1
devido ao decréscimo da componente horizontal da força da água, que
tende a empurrar a barragem. Além da maior segurança, um talude de Geral Montante 2,5:1
montante menos inclinado concorre para que haja menor infiltração da Jusante 2,0:1
água através do aterro.
A inclinação do talude da barragem pode ser expressa pelo
Pode-se, também, adotar mais de uma inclinação para o mesmo
ângulo que a linha deste faz com a horizontal ou pela relação entre a
talude, observando que as menores inclinações ficarão na sua parte
projeção horizontal e a vertical (z : 1), o que indica quantas vezes a inferior.
projeção horizontal do talude é maior que a sua projeção vertical
(Figura 13). Os taludes de uma barragem de terra requerem proteção contra
a ação das ondas, escoamento superficial e animais escavadores. O
_Crista_
efeito da ação das ondas pode ser eliminado ou reduzido, colocando-
se pedra ou enrocamento, lajes de blocos de concreto ou colchões de
fibra no talude de montante, devendo a proteção estender-se desde a
crista da barragem até 1,5 m abaixo do mais baixo nível de água
esperado pelo reservatório.

Largura da base da seção transversal da barragem (b)


__ -I~
••
~__ b, ~
I
I
A largura da base da seção transversal da barragem, em metros,
b ti
é calculada pela seguinte fórmula:
Figura I. - P rfil transversal da barragem. b = c + (z., + Zj) H (32)
em que c é a largura da crista da barragem (m); Zm, a projeção
A inclinaçí do tulud depende do tipo de material empregado horizontal no talude de montante; Zj, a projeção horizontal no talud d
no corpo da barragem c da altura desta. Alguns autores recomendam jusante; e H, a altura da barragem (m).
inclinações de 2,5:1 a 3: I c de 2:1 para os taludes de montante e
jusante, respectivamente, não importando a altura da barragem. Outros
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 83
82

Se a linha de saturação ultrapassa o talude de jusante, deve-


Exemplo 4
se aumentar a largura da base da barragem ou considerar a
Dimensionar uma barragem de terra, considerando-se os colocação de banquetas (camada filtrante no quarto final do
seguintes dados: maciço) no talude de jusante. O maior perigo em um talude é a
a) altura total da barragem = 8,50 m; percolação de água fora de controle do técnico. A percolação só
b) talude de montante = 2,5:1 e talude de jus ante = 2:1; e pode ser permitida quando ela não provoca o carreamento de
partículas. Quando ocorrer carreamento de material, deve ser
c) largura da crista, de acordo com equação de Preece. colocado, junto ao talude de jusante, um filtro ou dreno.

Solução Obras acessórias


b = c + (z., + Zj) H São três as principais finalidades das obras acessórias de uma
c = 1,IH + 0,9, portanto c = 1,1
1/2 X 8,51/2 + 0,9 = 4,1 m barragem: eliminação do excesso de água, utilizando-se o extravasor;
eliminação do material depositado e esvaziamento do reservatório,
Então, b = 4,1 + (2,5 + 2,0) x 8,5 = 42,35 m
utilizando-se o desarenador; e instalação hidráulica para tomada e
transporte de água.
Uma forma prática de verificar se o dimensionamento da base da
barragem está razoável é traçar a linha de saturação dentro do maciço. O
traçado simplificado da linha de saturação dentro do maciço da barragem, Extravasor
a partir da superfície da água no reservatório, deve ser fei~o ob~~rvando- A água que chega em excesso a açudes e represas pode ser
se a declividade da linha, de acordo com o tipo de matenal utílízado na oriunda de duas fontes: vazão normal, que ocorre após enchimento
construção do maciço de terra (Tabela 23). do reservatório, para dar passagem à água de rios ou riachos
perenes, e vazão de enchentes. O excesso de água devido às vazões
normal e de enchente deve ser eliminado pelo extravasor, também
Tabela 23 - Inclinação da linha de saturação de diferentes materiais
denominado sangradouro, vertedouro, vertedor, descarregador de
utilizados na construção de maciços de barragens
superfície, ladrão etc.
Tipo de material Inclinação (z: 1) As dimensões e as formas desse extravasor são as mais
Argiloso 4:1 diversas, podendo adaptar-se a tubulações e até a pequenos canais.
Todavia, em qualquer situação, esse extravasor deve estar
Franco 6:1
dimensionado para permitir a passagem da vazão máxima de
Arenoso 8 ou 10:1 enchente, sem transbordamento e sem permitir que a água verta
sobre a barragem, o que fatalmente comprometeria a sua segurança.
uunro mais compactado estiver o solo do aterro, menor será a A principal causa de rompimento de barragens tem sido o
proj 'Çl o I!ol'lzolllnl da linha. subdimensionamento de extravasores.
aso ti Ij nhn I saturação, dentro do maciço, "mergulhe" na
Tipos de extravasores
fundação pr ximo m tu I do terço posterior da base, tem-se uma
condição de segurança ionsid rada ótima; caso esse "mergulho" se dê Existem três soluções básicas para o extravasamento do xc 'sso
antes, deduz-se que a lar ura da base da barragem é maior que a de água afluente de açudes ou represas:
necessária.
84 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

• Extravasamento por canal lateral passagem de uma enchente, com tempo de recorrência estimado de
- canal extravasar com dec1ividade; e acordo com os riscos que representa para a população e o valor da
obra.
- canal extravasor plano, contendo vertedor e escada de dissipação.
- Características do material natural no local onde se pretende
• Extravasamento sobre o corpo da barragem
construir o canal extravasar.
• Extravasamento por dispositivos especiais
O dimensionamento do extravasor pode ser feito por canais de
dec1ividade moderada ou por canais sem declive, seguidos de vertedor
a) Extravasamento por canal lateral e escadas de dissipação.
Neste caso, o extravasor deve ser construído fora do aterro,
em terreno firme existente em suas laterais, com o fundo situado • Extravasamento em canal lateral com declividade
em cota mais elevada em relação ao leito natural do rio (Figura
O canal lateral com declividade moderada é instalado nas
14).
encostas laterais da "garganta", de modo a conduzir a água excedente
Deve-se cogitar, desde o início, a possibilidade de utilização de até o encontro com o curso d'água mais a jusante. Neste caso, o
um canal lateral extravasor sem revestimento; porém, caso isso não extravasor é dimensionado como um canal qualquer, podendo-se usar
seja possível, é necessário estudar a proteção do fundo e dos taludes equações para seu dimensionamento. Uma dessas equações é a de
das margens contra a erosão. Manning:
1 - Canal extravasor
R~/3. rl/2
2
2 - Soleira afogadora .
v = (33)
3 "Escada de pedra n
argamassada para
dissipação de energia em que v é a velocidade da água no canal (m s"\ Rb, o raio hidráulico
4- Barragem (m); I, a declividade do canal (m m"); e n, o coeficiente de
rugosidade de Manning (s mo1l3).

sendo R, = AIP
em que A é a área molhada (m'); e P, o perímetro molhado (m).

Como Q é igual ao produto da área (A) pela velocidade (v),


tem-se que Q = A v e, no caso de canais retangulares,
Fi lira 14 - Canal extravasador lateral com largura adequada: canal
A = L hmaxe R, = L hmaJ(2hmax+ L)
extravasor (1), soleira afogadora (2), escada de pedra
argamassada para dissipação de energia (3) e barragem (4). Logo,

(L5/3. hmax5/3. r1/2)


o dimensionamento do extravasar em canal lateral deverá ser Qmax = [n(2hmax + L)2/3]
(34)
desenvolvido, considerando-se dois parâmetros básicos:
- Descarga máxima prevista de extravasamento, ou vazão máxima de em que L é a largura do canal (m).
enchente (Qmax) - o extravaso r deverá ser dimensionado para a
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte
86
K'

o coeficiente de rugosidade de Manning é dependente da

-
1 - Soleira afogaqora
natureza das paredes do canal (Tabela 24). Fluxo I sol. 2 - Escada de pedra argamassaj1a
para disslpaçi'io de energia

h sol. ~~ 3 - Final do canal


Tabela 24 - Valores de n para emprego na fórmula de Manning ...xE
se:
Natureza da parede Condições das paredes
Muito boas Boas Regulares Más
Canais de terra, retilíneos e 0,017 0,ü20 0,0225 0,025
uniformes
Canais abertos em rocha, lisos e
Figura 15 - Soleira afogadora e escada de dissipação de energia a ser
uniformes 0,ü30
0,025 0,033 0,035 construídas junto ao canal extravasar lateral.
Canais curvilíneos e lamosos 0,0225 0,025 0,0275 0,030
Canais com leito pedregoso e
vegetação nos taludes A lâmina máxima de água a verter sobre a soleira pode ser
0,025 0,ü30 0,035 0,040
calculada com uso da seguinte equação:
Canais com fundo de terra e
taludes empedrados hsol = (Qmaxl1,71 b)2/3 (35)
0,028 0,ü30 0,033 0,035
em que hsol é a altura de água sobre a soleira (m); Qmax, o vazão
máxima (m3 S'I); e b, a largura do vertedor (rn).
De posse do valor de Qmax,fixando-se o valor de hmax,e com base
no coeficiente de rugosidade de Manning (Tabela 24) e nos valores de A altura da soleira (p), em metros, pode ser calculada por:
declividade mais adequados ao tipo de material que capeia o fundo e as
paredes do canal (Tabela 25), pode-se calcular L.
p = hmax - hsol (36)

Deve ser adotado para p um valor mínimo de 0,5 m .


• Extravasamento em canal lateral associado a vertedor e escada de
dissipação
O comprimento da soleira (Figura 15) pode ser estimado por
O outro método de dimensionamento do canal lateral segue
1501 = 2,5 hsol
recomendação do Manual da Eletrobras (1984). Neste caso, o canal
xtravasor deve ser construído sem declividade, sendo constituído de um em que Isol é a espessura da parede do vertedor (m).
vcrt dor e uma escada de dissipação da energia da água.
O vertedor e a escada de dissipação de energia são necessários A soleira afogadora deve ser construída com pedras soltas, para ser
para a prot ção do local de restituição das águas vertidas ao rio. Esta permeável à água. O material para a construção da soleira deve ser deter-
proteção d verá ser real izada por uma soleira afogadora ao final do minado, considerando-se a velocidade média do escoamento sobre ela.
canal, seguida de uma escada de dissipação de energia construída em Vsol= Qmax/hsol b (37)
alvenaria de pedra argamas ada (Figura 15). em que Vsol é a velocidade média de deslocamento da água (rn f(l)
sobre a parede da soleira, ~onsiderando-se os valores apresentad fi nos
Quadros 26, 27 e 28.
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 89
88

.Como a cota de fundo do canal extravasor corresponde ao nível de A escada deve ter, no rmrumo, a mesma largura do canal
água normal do reservatório, há a necessidade do dimensionamento de extravasar e servir como meio de proteção do talude da margem do
uma escada de dissipação de energia (Figura 16), para proteção do local curso d'água contra a erosão. Os degraus da escada devem ser
de restituição das águas vertidas para o rio. Recomenda-se que o construídos em alvenaria de pedra argamassada, podendo-se cogitar a
comprimento de cada degrau seja, no mínimo, o dobro de sua altura. Essa utilização de gabiões.
proteção deve acompanhar a topografia do terreno natural. O canal extravasor de seção trapezoidal deve ser dimensionado
com base no tipo e nas condições do material de que é feito ou com
o qual é capeado, na largura determinada para o verte dor e na
vazão que deve comportar. Dependendo do material e de suas
L L condições, pode-se ter diferentes recomendações de taludes a ser
utilizados (Tabela 24) e velocidades de escoamento de água
(Tabelas 26, 27 e 28), para que não ocorram problemas de
h desbarrancamento ou erosão do leito do canal.
A velocidade máxima de escoamento de água no canal
extravasor trapezoidal pode ser obtida por
Vmax = QmaJ(hmax b + z hma/) (38)
1 - Soleira afogadora As bocas de entrada e saída do canal deverão estar situadas a
2 - Escada de pedra argamassada uma distância igual a sua largura ou de, no mínimo, 5 m do maciço da
para dissipação de energia
barragem.

Tabela 25 - Inclinação dos taludes de acordo com estabilidade de


1 • Soleira afilgadora canais
2 • Esca<Ia de pedra argamassada
3·Barragem
4 • Canal extravasor Natureza dos taludes Inclinação (z: 1)
5· Calha natural do rio
Rocha dura, alvenaria comum, 0:1 a 0,5:1
concreto
Rocha fissurada, alvenaria de pedra 0,50:1
seca
Argila dura 0,75:1
Aluviões compactos 1,00:1
Cascalho grosso 1,50:1
Enrocamento, terra, areia grossa 2,00:1
Figura 16 - Escada de dissipação de energia. Terra mexida, areia normal 3,00:1
90 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I1I

Tabeia 26 - Velocidades máximas admissíveis em canais com lâmina Tabela 28 - Fator de correção (Fc) em lâminas de água dir'I"IlI', dll
de 1 m 1,Om

Material do leito do canal Diâmetro (mm) Velocidade (m s·l) Lâmina média (m) 0,3 0,5 0,75 1,0 1,5 2,0 2,5 • ,O
Lodo 0,005 a 0,05 0,15 a 0,20 Fc 0,8 0,9 0,95 1,0 1,1 1,1 1,2 1,2
Areia fina 0,05 a 0,25 0,20 a 0,30
Areia média 0,25 a 1,00 0,30 a 0,55
A seguinte sequência básica de cálculo poderá ser utilizada para
Areia grossa 1,00 a 2,50 0,55 a 0,65 o dimensionamento do extravasar de seção trapezoidal:
Pedrisco fino 2,50 a 5,00 0,65 a 0,80 • Fixar como quota de fundo do canal extravasar a do N.A. normal do
Pedrisco médio 5,00 a 10,00 0,80 a 1,00 reservatório.
Pedrisco grosso 10,00 a 15,00 1,00 a 1,20 • A partir das características do terreno natural no local onde se
Cascalho fino 15,00 a 25,00 1,20 a 1,40 pretende construir o canal extravasar, fixar uma inclinação dos
Cascalho médio 25,00 a 40,00 1,40 a 1,80 taludes que garanta a estabilidade das margens, atendendo aos
1,80 a 2,40
valores apresentados na Tabela 25.
Cascalho grosso 40,00 a 75,00
Pedra fina 75,00 a 100,00 2,40 a 2,70 • Fixar a lâmina de água máxima a ser vertida sobre a soleira do
vertedor (valores entre 1,0 e 1,5 m).
Pedra média 100,00 a 150,00 2,70 a 3,50
Pedra grossa 150,00 a 200,00 3,50 a 3,90 • Calcular a largura do vertedor que, por sua vez, é idêntica à do canal
extravasor.
Pedra grande (bloco) 200,00 a 300,00 3,90 a 4,50
Nota: Ao menor diâmetro da faixa que caracteriza o material corresponde o menor valor da faixa
• Calcular a altura máxima de água no canal extravasor, considerando-
de velocidades. _se que a soleira do vertedor deve estar a no mínimo 0,5 m do fundo
do canal.

Tabela 27 - Velocidades máximas admissíveis (m S·I) em materiais • Calcular a velocidade máxima admissível no canal extravasar e
coesivos verificar se o valor não supera os máximos admissíveis a partir das
características do material natural formador do leito (Tabelas 26, 27
Material Grau de compactação e 28).
Muito pouco Pouco Compactado Muito • Escolher o material que irá capear o vertedor (Tabela 26), com base
compactado compactado compactado
na velocidade de escoamento calculada, de forma a minimizar a
ÀI' iln arenosa 0,45 0,90 1,30 1,60 erosão do seu leito e das laterais.
(ur iu < 50%)
• Verificar a viabilidade da execução do canal extravasar com a
elos UI' iloso» 0,40 0,85 1,25 1,70
largura calculada. Caso esta seja muito grande ou as condições
Argilas 0,35 0,80 1,20 1,65 topo geológicas não sejam favoráveis à execução do canal com tal
Argilas muit 0,32 0,70 1,05 1,35 largura, deve-se procurar aumentar a lâmina máxima de água a
finas escoar no canal extravasar. Recomenda-se alterar hmax até 2 m.
Nota: Em canais com lâmina diferente de I m, deve-se fazer correção das velocidades máximas
admissíveis (Quadro 25).
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 9
92

b) Extravasamento sobre o próprio corpo da barragem c) Extravasamento por dispositivos especiais

Apesar de não ser o recomendável, caso seja necessário, pode- Pode-se fazer o extravasamento da vazão por dispositivos
se fazer o escoamento da vazão de enchente por vertedores de parede especificamente projetados para este fim. Dispositivos como tulipas
espessa, posicionados sobre o maciço de terra (Figura 17). Nesse caso, ou cachimbos, a ser posicionados no meio do tanque, podem
o leito e as paredes laterais do vertedor devem ser de alvenaria ou proporcionar a captação e a condução do excesso de água através do
concreto. maciço da barragem, por meio de tubulação própria ou por ligação à
O extravasor será dimensionado como um vertedor de parede tubulação do desarenador. Entretanto, apenas em obras de maior
espessa, cuja equação para cálculo de vertedores retangulares, sem complexidade e responsabilidade técnica, devem-se utilizar esses
contrações laterais, é dispositivos para dar escoamento às vazões de enchentes.

L = Qmaxl (1,71 hmax3/2) (39) O extravasor na forma de tulipa. (Figura 18) pode ser
dimensionado usando-se a seguinte equação:
em que L é a largura da soleira ou do vertedor (m); Qmax, a vazão
máxima (nr' S'I); e hmax, a altura máxima de lâmina d'água desejada
Q= 1,551 hll,42 (40)
no extravasor (m). em que I é o perímetro do círculo maior (nd); e h1, a diferença de nível
entre a lâmina d'água e a superfície de entrada da tulipa (m).
Na determinação da largura do extravasor, a vazão Q utilizada
nos cálculos será a de enchente. Como L e hmax são desconhecidos,
arbitra-se um valor de hmax, que, conforme apresentado, deve estar
entre 1,0 e 1,5 m.

Desarenador
/

Figura 18 - Esquema de uma tulipa extravasora.

Fluxo ExemploS
Calcular as dimensões de um extravasor lateral, constituído de
verte dor e escada de dissipação, considerando-se os seguintes dados:
- Qmax = 20 m3 S'I; e
- material do local: solo muito compactado, com grande quantidade de
argila.

Solução
Definição da geometria do canal: consultando a Tabela 2
Figura 17 - Alternativa de extravasamento sobre o corpo da barragem: pode-se fixar z = 0,75.
trechos insubmersíveis (1) e trecho do vertedouro (2).
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 95
94

Adotando uma altura de 1,0 m para a soleira do vertedor (hso1 b = 20/(1,71 X 1,53/2) = 6,4 m
deve estar entre 1,0 e 1,5 m), pode-se calcular a largura do vertedor:
a altura máxima de água no canal seria:
b = (Qmax/(1,71hso?12)= (20/1,71 X 1,0
3/2
)
hmax= 0,5 + 1,5 = 2,0 m
b = 1l,70m
e a velocidade máxima de escoamento seria:
Como a soleira do vertedor deve estar posicionada a, no Vmax = 20/(6,4 x 2 + 0,75 X 22) = 1,27 m S-1
mínimo, 0,5 m do fundo do canal extravasor, obtém-se o valor da valor este que também satisfaz.
altura máxima de água no canal (hmax):
hmax= P + hso1= 0,50 + 1,0 = 1,5 m Desarenador
Para eliminação dos depósitos do fundo e, ou, esvaziamento do
o comprimento da soleira pode, também, ser determinado:
reservatório, além de aliviar, quando necessário, a barragem por
lsol= 2,5 hso1= 2,5 x 1,0 = 2,5 m ocasião de cheias, usa-se o desarenador, o descarregador de fundo ou a
comporta de fundo etc., cujas dimensões vão depender, obviamente,
A velocidade máxima a ser atingida pela água no canal do tempo que se deseja gastar no esvaziamento ou na eliminação do
extravasor pode, então, ser determinada: material depositado no fundo.
Para possibilitar o esvaziamento dos reservatórios, devem ser
vmax= QmaJ[(b + z hmax)hmaxl construídas estruturas contendo válvulas que permitam a passagem da
Vmax = 20/(11,70 x 1,5 + 0,75 x 1,52) = 1,04 m S-1 água armazenada para dentro das tubulações que a conduzirão, por
gravidade, para o curso d' água a jusante da barragem. As estruturas
Comparando o valor encontrado com o da velocidade máxima para controle da vazão no desarenador são as torres e os monges.
admissível no canal extravasor, de acordo com o tipo de material de O monge é uma construção vertical, cuja seção horizontal tem a
que é constituído (Tabela 26), e corrigindo o valor encontrado devido forma de U aberto na direção de montante e de uma canalização que
à variação da lâmina máxima a escoar (Tabela 28), verifica-se que a atravessa a barragem até a jusante. Esse tipo de estrutura de controle
velocidade obtida está abaixo do máximo recomendável (1,7 x 1,1 = de nível de água tem sido muito utilizado para o esvaziamento de
1,87 m S-I), o que indica estar o dimensionamento do canal viveiros de peixes e, em pequenas barragens de terra, pode ser usado
tecnicamente correto. no lugar do desarenador tradicional.
e a velocidade da água no canal estivesse acima da máxima Para o dimensionamento dos monges, deve-se executar,
ndmissív J, poder-se-ia aumentar o valor da altura da soleira do previamente, o dimensionamento da tubulação de condução de água
v 1'1 dor (p), o que proporcionaria a redução da velocidade de por gravidade.
s '()1I111 nto no canal sem, contudo, alterar o restante do
A galeria para o desarenador pode ser, também, construída no
dirncnsionum »uo. próprio corpo da barragem, quando esta for de alvenaria, porém, no
Numa situação em que o valor encontrado da largura do canal caso de barragens de terra, devem-se usar tubos impermeáveis e que
extravasor e do vertcdor tiver de ser diminuído, deve-se aumentar a resistam à pressão do aterro.
altura da lâmina de água sobre a soleira do vertedor (hs~I).No exemplo
A vazão na tubulação deve ser calculada de acordo COI11 o
anterior, caso o valor de hsolpassasse a ser de 1,5 m, a largura do canal
tempo em que se deseja esgotar a água do reservatório. É detcrminudn,
extravasor passaria a ser:
dividindo-se o volume acumulado acima do desarenaclor p '10 t »upo
96 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

de esgotamento, em segundos, e adicionando a vazão normal do rio dois. Portanto, para determinar a perda de carga unitária na tubulução
que abastece o reservatório. do desarenador, divide-se a carga média pelo comprimento dessa
Q = VaJt + o, (41) tubulação. Geralmente, adota-se como comprimento do desarenador o
próprio comprimento da base da barragem (b), podendo, dessa forma,
em que Vac é o volume acumulado acima do desarenador (nr'); t, o a perda de carga unitária (1) ser obtida por J = Hn/(2 b).
tempo (s); e Qn, a vazão normal (nr' S-I).
O desarenador é a primeira estrutura a ser construída quando da
implantação do projeto, pois, após sua construção, o curso de água
o diâmetro do conduto de descarga, que trabalhará como será desviado para o seu interior, por onde a água se escoará,
conduto forçado, pode ser calculado por uma das fórmulas de perda de
facilitando os trabalhos de elevação da barragem.
carga, de acordo com o tempo em que se pretende esvaziar a represa.
A equação de Hazen- Willians tem sido bastante utilizada para este Quando a tubulação atravessar o corpo da barragem, deve ser
fim: provida de anéis ou colares salientes e impermeáveis, que dificultem o
escoamento da água entre a superfície externa dos tubos e o corpo do
DI = [10,641 QI,85/(CI,85J)]1I4,87 (42)
aterro. A espessura dos anéis pode ser calculada por:
em que D é o diâmetro do desarenador (m); Q, a vazão escoada (m" s x ~ 0,125 Llna (43)
I); C, o coeficiente de Hazen-Willians (Tabela 29); e j, a perda de
carga unitária (m m'). em que x é a espessura dos anéis (m); L, o comprimento da tubulação
(m); e na, O número de anéis, ou aros, na tubulação.

Tabela 29 - Valores de C de alguns materiais utilizados em


tubulações, para uso na equação de Hazen- Willians Uma recomendação usual é fazer com que o aumento do
comprimento do percurso da água provocado pela colocação dos anéis
Material Valor seja no mínimo de 25% de L.
Cimento-amianto 140 A comporta ou válvula de controle da entrada de água na
Concreto (bom acabamento) 130 tubulação deverá ser colocada a montante da barragem, evitando-se o
Concreto (acabamento comum) 120 entupimento da tubulação e o eventual golpe de aríete com o seu
fechamento, caso fosse colocado a jusante. O golpe de aríete poderia
Ferro fundido novo 130
provocar o aparecimento de trincas no aterro.
Ferro fundido usado 90
Manilhas 110 Exemplo 6
T'ij los com bom acabamento 100 Dimensionar um desarenador para esvaziar uma represa,
Plásli 'o 140 considerando-se os seguintes dados:
a) o desarenador está assentado na cota da curva de nível So, e a
Como o esvaziamento do reservatório é feito sob carga variável, lâmina de água normal atinge a curva S6 (diferença de nível entre
isto é, a altura (carga) de água dentro do reservatório vai diminuindo curvas sucessivas = 1,0 m) (Figura 9);
com o seu esvaziamento, o escoamento será do tipo não permanente. b) o tempo de esvaziamento é de seis dias;
A fim de simplificar os cálculos, usa-se uma carga média, que é igual c) a vazão normal do riacho é de 280 L S-I;
à altura da lâmina de água acima do desarenador (Hn) dividida por
d) o desarenador é de manilha de concreto comum; e
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte
98
99

e) a base da barragem é de 46,50 m. Para uso de sifão, toma-se necessária, entretanto, uma avaliação
prévia de duas condições para que haja escoamento:
Solução
- a boca de jusante (ou boca de saída) do sifão deve estar em cota mais
• Cálculo do diâmetro da tubulação do desarenador baixa que a cota do espelho d' água;
Q = Vac/t + Qn - a diferença de cotas entre a crista e o espelho d' água não poderá ser
superior, teoricamente, a 10,33 m (na prática 6 m).
V - «S +S6)12 + SI + S2 + S3 + S4 + S5) h
V:: -= «~20 + 78.310)12 + 1.150 + 6.430 + 10.850 + 20.340 +
+ 58.400) x 1,0
por:
o diâmetro da tubulação de tomada de água pode ser calculado
Vac = 136.585 m
3

t = 6 x 24 x 60 x 60 = 518.400 s
Dt = [10,641 QI,85/CI,85(H,IL)]/4,87 (44)

Q = 136.585/518.400 + 0,280 = 0,543 em que D, é o diâmetro da tubulação de tomada de água (m); Q, a


vazão necessária ao abastecimento (rrr' S·I); C, o coeficiente de Hazen-
Q = 0,543 m S·I 3
Willians; H), a diferença de altura entre as cotas do nível de água no
reservatório e do local de saída de água da tubulação (m); e L, o
• Cálculo da perda de carga unitária na tubulação comprimento da tubulação de condução da água (m).
J=Hdl2b
J =6x 1,0/(2 x 46,50) = 0,0645 m m' • No caso de uso de água para irrigação por aspersão, deve-se ressaltar
que a parte da energia de posição deverá ser preservada para que se
• Cálculo do diâmetro da tubulação do desarenador obtenha, ao final da tubulação de tomada de água, a pressão de
serviço dos aspersores.
= [10 641 Ql,85/CI,85J]I/4,87
~ ,
Dd -- [l,0641 x, 05431,85/(1201,85 x 0,0645)]
IM~
, = 0,3 67 m As tubulações de galeria, ou sifão, devem ser instaladas acima
do desarenador, em cota predeterminada, e apresentar diâmetro
D, = 0,367 m = 367 mm :::;15" inferior ao deste. Na tomada de água deve ser instalada uma proteção
com crivos ou tela, para impedir a entrada de corpos estranhos na
tubulação.
Tomada de água . _
Para captação da água
do reservat~ri.o, uma I~stalaçao A boca de montante da tubulação de tomada de água deve ser
f plclar o aproveitamento localizada, sempre que possível, junto à margem do reservatório
hidráuli a deverá ser projeta?~, d\O~:U~oa ::s~e texto, a construção da
formado pela barragem, ao longo de trechos retos ou do lado côncavo
da á YLIU armazenada. Como ja exp ICdIa ibilitar o aproveitamento
I .ada de mo o a pOSSI I I dos trechos em curvatura, pois os sedimentos transportados pelo
barragem ti v s r p anej _ as projetos de sistemas
de água por gravidade; por essa razao, apen . escoamento são, em sua maioria, carreados para a parte convexa, onde
se depositam.
hid ' áulicos de transport por graviid ad e serao
- cons
considerados . .
I r f . eio de
A captação da água nos reservatórios deve ser eI:a porbm _ A vazão de água na tubulação deve ser controlada por uma
galerias (tubulações), ou por meio . d e siroes,
.1'- que sao tu u 1açoes válvula de gaveta, a ser instalada a jusante da barragem. Os mesmos
dispostas sobre o maciço da barragem. cuidados mencionados para a instalação do desarenador dev rn s r
considerados também para a tomada de água.
100 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I()I
--------------------------------------------------

Exemplo 7 d) abertura de trincheiras;

Dimensionar a tomada de água, considerando-se os seguintes dados: e) núcleo central; e


f) lançamento, espalhamento e compactação do aterro (material
a) comprimento da tubulação = 100 m; aconselhável).
b) tubulação de PVC rígido (Tabela 29: C = 140);
Desvio do curso d'água
c) vazão desejada = 130 L S-I;e
O desvio do curso d'água para possibilitar a construção da
d) diferença de nível entre a superfície de água e o ponto de consumo =
barragem é, por vezes, uma das maiores dificuldades da obra, caso um
15 m.
planejamento prévio não tenha sido feito. Sem o desvio do curso
Notas: d'água de seu leito natural, torna-se impossível o aterramento.
- a tubulação da tomada de água está assentada na cota da curva SI; e Quando a topografia permite, o curso d'água pode ser desviado
- a lâmina de água normal atinge a curva S6 (Figura 9), e a diferença de seu curso natural e passar a correr por um canal alternativo,
de nível entre as curvas é de 1,0 m. liberando a área para a obra. Caso isso não seja possível, a estrutura
do desarenador pode ser utilizada para encapsulamento do curso
Solução d'água e, com isso, possibilitar a execução do aterro. Para que essa
estrutura possa ser aproveitada com esse intuito, ela deverá ser
• Cálculo do diâmetro da tubulação da tomada de água implantada logo após o enchimento das trincheiras com material do
J = H/L = 15/100 = 0,15 m m' núcleo central. Dessa forma, após a sua construção, o curso d'água
DI = [10,641 QI,85/CI,85J]1I4,87 poderá ser desviado para o seu interior, por onde a água escoará,
facilitando os trabalhos de elevação do maciço de terra da barragem.
DI = [10,641 X 0,1301,85/(1401,85x 0,15)]1/4,87= 0,169 m
a
Diâmetros comerciais: 150 (LI. J e 175 (Lz, J2) mm Limpeza do local
= =
JI 10,641 X 0,1301,85/(1401,85x 0,154,87) 0,2691 m m' A remoção de material e detritos orgamcos do local de
J2 = 10,641 X 0,1301,85/(1401,85x 0,1754,87) = 0,1270 m m' construção da barragem é tarefa fundamental para o sucesso da obra,
já que podem ser responsáveis por infiltrações e rupturas do aterro.
LI = (J - J2) L/(JI - h) = LI = (0,1500 - 0,1270) x 100/(0,2691 -
0,1270) = 16 m de tubo 150 mm A área a ser limpa deve ter uma largura igual à da base da seção
transversal da barragem, mais 5,0 m para montante e para jusante. O
L2 = 100 -16 = 84 m de tubo 175 mm
material removido da operação de limpeza deverá ser transportado
para locais fora da área das obras ou do futuro reservatório.
Aspectos a serem considerados na construção da barragem
A limpeza da área onde será feito o aterro deverá contemplar o
Para a construção da barragem, algumas etapas devem ser
desmatamento, o destocamento e a remoção da terra vegetal
obedecidas: (horizontes orgânicos) até a profundidade que for necessária em
a) desvio do curso d'água; relação à superfície do terreno natural. Essa tarefa, no caso d
b) limpeza do local; pequenas barragens de terra, é geralmente a operação mais penosa,
porque a remoção, via de regra, é efetuada em carrinhos de mã 111
c) preparo da fundação e das ombreiras; condições incômodas para se trabalhar. .
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 103
102

Uma limpeza superficial será também necessária no local a O assentamento de barragens de terra sobre rocha é sempre
ser inundado pelo reservatório, além da área de empréstimo. desaconselhável, a não ser que sejam planejadas e tomadas
precauções que venham a dar maior segurança ao aterro. Entre as
medidas necessárias está o exame cuidadoso da rocha, verificando
Preparo da fundação e das ombreiras
se esta apresenta fissuras ou pontos de fraqueza (as fissuras devem
O requisito para a fundação de uma barragem de terra é que o ser preenchidas com calda de cimento e os pontos de fraqueza,
material forneça suporte estável para o maciço sob todas as eliminados e substituídos por concreto), bem como a construção de
condições de saturação e carga e que detenha suficiente resistência uma cortina de concreto no meio do aterro.
à percolação para que não ocorra excessiva perda de água.
Fundações em material grosseiro, tal como areia e cascalho
A importância de uma adequada fundação para barragens de (Figura 19), não apresentam problemas de abatimento ou
terra pode ser evidenciada pelo fato de 40% de arrombamento dessas estabilidade e, sim, de excessiva permeabilidade à água. Em
obras ser atribuído às falhas na fundação. fundações constituídas por materiais finos ocorre o contrário.
A realização da sondagem, necessária na fase de seleção do Quanto à impermeabilização, solos com condutividade hidráulica
local de construção da barragem, possibilitará o desenho do perfil da igualou menor que 5 mm h-I são considerados bons para fundação,
seção transversal da área, que indicará a profundidade do núcleo uma vez que estão associados a pequenas perdas de água do
impermeável. Conforme discutido anteriormente, a sondagem do solo reservatório por fluxo abaixo do maciço de terra.
pode ser feita por tradagem, sondagem a percussão, abertura de
trincheiras ou por meio de ensaios de resistência do solo.
No teste de resistência do solo, deve-se tentar cravar nele uma
barra de ferro de 2 a 3 m de comprimento e diâmetro de W' (ferro de
construção). A maior ou menor dificuldade de penetração dá uma
ideia de grau de plasticidade do solo (maior ou menor teor de argila).
Dessa forma, podem-se identificar camadas de solo de baixa
resistência, que devem ser eliminadas por serem constituídas de
material que se pode deformar com o peso da barragem. As trincheiras
de fundação da barragem deverão alcançar material de maior
resistência, por serem solos mais consistentes (pouco deformáveis),
devendo, também, ser encaixadas nos encontros com os barrancos
Figura 19 - Trincheira em fundação muito permeável: superfície da
Inl ruis, visando à eliminação dos trajetos de formigas, buracos de
fundação até a limpeza (1), trincheira (2), colchão de
IIItus Litroscanais, bem como à maior estabilidade da barragem.
areia até o pé do talude de jusante (3), material do corpo
As fundações de barragens de terra podem ser classificadas em: da barragem (4), taludes de escavação da trincheira h:v
- d rochu; (5) e altura da trincheira (h).
- de material grosseir (areia e cascalho);
- de material fino (silte e argila); e Fundações de argila, que é um material plástico, podem sofr 'I'
deformações sob as barragens de terra, e, no caso de estar 'Ill
- de depósitos de aluvião (solos aluviais).
sobrepostas em material rochoso, o peso do maciço tende a xpuls
104 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 105

Ias da base do aterro. Em geral, a estabilidade aumenta com o tempo à


medida que o material mole do solo se consolida sob o peso do aterro.
Fundações de aluvião devem conter camadas de materiais de
diferentes granulometrias, como argila, silte, areia fina e cascalho. A
presença de camada mais grosseira, seguida de uma camada argilosa ®
em pequena profundidade, concorre para uma situação favorável ao
projeto.
\
No caso de fundação em materiais terrosos, após a limpeza, o
terreno deverá ser regularizado e compactado com trator de esteira,
trator de pneus ou caminhões, que deverão dar no mínimo 10 passadas
por toda a área de fundação e ombreiras. Após a limpeza e preparação
da fundação, caso se verifique a existência de algum olho-d'água, Figura 20 - Tratamento de olho-d'água na fundação: abertura do olho-
devido à passagem de água através da fundação, este deverá ser d'água (1), infiltração (2), fundação (3), areia (4), britas 1
convenientemente tratado da seguinte maneira (Figura 20): e 2 (5), camadas compactadas da barragem (6), tubo de
a) instalar tubo (manilha) de concreto ou cerâmica, colocado concreto ou cerâmica (manilha) (7), nível de água
verticalmente sobre a abertura por onde flui a água, com diâmetro estabilizado (8), nível de lançamento da brita (final) (9) e
superior ao desta; lançamento da pasta de cimento (10).
b) anotar até que altura o nível da água atinge no interior do tubo;
c) preencher o tubo com brita até pelo menos 1 m acima do nível da No caso de barragem homogênea, deve-se lançar na fundação
água assim estabilizado; do lado de jusante uma camada de areia (colchão) com 0,20 m de
d) após a colocação da brita, deverá ser lançada pasta fluida de espessura, até o pé do talude de jusante. A compactação do colchão
cimento e água até cobrir o nível superior da brita. Isto só será deve ser executada manualmente, por meio de apiloamento e,
executado após o aterro compactado ter atingido o nível mínimo de eventualmente, com auxílio de água.
cobertura da brita (1 m acima do nível de água estabilizado); e
Abertura de trincheiras
e) caso o olho-d'água não seja intenso e se localize próximo do local
do colchão de areia da barragem, pode-se colocar areia e brita Para minimizar a perda de água através de fundações
sobre ele e conduzir a água para o colchão de areia, devendo o constituídas de material grosseiro, é fundamental a construção de
ma 'i ser compactado cuidadosamente sobre a areia e a brita. trincheiras sob toda a base do maciço. Sempre que possível, a
trincheira de fundação deve ir até a rocha ou estrato impermeável. A
largura de fundo da trincheira deve aumentar com maior altura de
água no reservatório.
Caso a fundação seja constituída de um material mais
permeável que o do corpo da barragem, deverá ser escavada na
parede central da fundação uma trincheira transversal ao eix Ia
barragem, até que seja atingido terreno firme e impermeável. S/lU
trincheira deverá ser preenchida com material ele baixa
106 Matos, Silva e Pruski _B_a_rr._G_ge_n_s_d_e_te_r_ra_d_e_p_e_qu_e_n_o_p_o_rt_e -= I()/

permeabilidade, podendo ser o mesmo do corpo da barragem, o que Núcleo central


constituirá o núcleo ou a cortina de baixa permeabilidade. A
Quando a sondagem acusa a presença de camadas permeáveis
construção do núcleo de baixa permeabilidade tem por objetivo
próximas à superfície e que poderiam permitir a passagem de água,
evitar ou dificultar a passagem de água por baixo e através da
torna-se necessária a construção de um núcleo impermeável, ou
barragem. No caso de ter o material de fundação mais de 3 m de
diafragma, que intercepte a trajetória da água.
espessura, deve ser usado, em substituição à trincheira, um tapete
colocado a montante da barragem. As dimensões do tapete estão Após a abertura da trincheira, faz-se o seu enchimento para
apresentadas na Figura 21. As condições de compactação do formação do núcleo com material de boa qualidade, e isso se processa
material do tapete são as mesmas do corpo da barragem. Após em todo o corpo da barragem, sendo o núcleo elevado à medida que se
compactado, o tapete não deverá ficar exposto ao sol, devendo ser eleva o aterro.
protegido por material solto. Na construção da zona impermeável de uma barragem, é
Quando há a necessidade de construir núcleo central, torna- importante cuidar para que o material constitua massa homogênea,
se indispensável abrir uma trincheira central, a qual deve atravessar isenta de qualquer potencial de percolação, através da zona ou ao
todas as camadas permeáveis, que possivelmente permitiriam longo dos contatos com as fundações, que apresente pequena
futuros vazamentos, e aquelas formadas por barro podre, que consolidação sob o peso do aterro e que o material usado não
poderiam afetar a estabilidade do aterro. A largura da trincheira amoleça demasiadamente quando exposto à saturação. Por essa
deve ser superior a 1/3 da distância entre sua posição e a superfície razão, o material a ser usado para enchimento da trincheira e
de água no reservatório. Geralmente são abertas outras pequenas composição do núcleo central deve ser rigorosamente escolhido.
trincheiras ou sulcos, fazendo-se também uma aração profunda no O enchimento da trincheira deve ser feito, preferencialmente,
local do aterro, para evitar vazamentos e aumentar a segurança da com uma mistura de frações granulométricas do solo: argila, areia e
barragem. cascalho, sendo a mistura distribuída em finas camadas e compactada,
criteriosamente, de modo a constituir barreira impermeável no interior
do corpo da barragem ..
É necessário que o núcleo central seja preenchido à medida que
o resto do aterro vai sendo implantado e sua largura, em qualquer
ponto, sej a superior a 1/3 da distância entre o ponto de referência e a
superfície de água no reservatório. Em vista disso, a largura do núcleo
irá diminuindo até alcançar o valor nulo na cota da superfície de água.

Aterro
Após O enchimento da trincheira com material do núcleo
central, inicia-se o levantamento do maciço de terra, lembrando que,
caso o material do núcleo seja diferente do resto do corpo da
barragem, o enchimento por camadas deve respeitar os limites para
Figura 21 - Tapete m íund I' permeável. disposição de cada material.
Antes do lançamento da primeira camada de solo, tornamos
necessários o revolvimento (aração) e umedecimento da camada-base
Rm~~============================~====~~======---==----

108 Matos, Silva e Pruski Harragens de terra de pequeno porte I'

antes de sua compactação, com objetivo de proporcionar maior liga Durante a elevação do aterro, devem-se conferir pcriodl '1111111111 11
com a camada superior. inclinações dos taludes com um gabarito.
Nas cotas estabeleci das para posicionamento das tubulações de
descarga, devem-se assentar os tubos e construir anéis de vedação. Volume de aterro
Após a construção dos anéis que circundarão a tubulação, é necessário Ao se projetarem pequenas ou grandes barragens de terra, é
esperar o concreto secar antes da aplicação de novas camadas de solo necessário considerar todas as peculiaridades de suas construções. No
para formação do aterro. preparo dos projetos e das estimativas de custo de barragens, deve-se
O aterro, que se constituirá no corpo da barragem, é feito levar em consideração o volume de terra a ser usado na construção, o
colocando-se camadas finas de 15 a 20 em de solo, que deve ser movimento de terra, a distância em que a terra terá de ser transportada,
lançado por caminhão basculante e espalhado com trator de esteira ou além das condições da área de empréstimo, no que diz respeito a seu
motoniveladora, caso sejam disponíveis na região; se não, faz-se o volume de terra aproveitável.
serviço manualmente. Para os cálculos do volume de terra a ser gasto, usa-se o
A compactação do material do aterro é uma técnica para levantamento planialtimétrico já realizado no local da futura
aumento da massa específica aparente do material, sendo requerida construção. De posse dos valores da altura da barragem (H), da
para que se possa aumentar sua resistência ao cisalhamento e sua inclinação dos taludes e da largura da crista (c), traça-se o perfil da
estabilidade e fazer decrescer sua permeabilidade. barragem, como apresentado na Figura 22.
Deve-se aplicar água ao solo, por meio de caminhões-pipa ou outra
forma possível, até que seja alcançado o conteúdo de umidade adequado
(nem muito seco nem encharcado) para se atingir a compactação máxima
do aterro. A densidade de solo recomendada para grandes obras é de 2,0 g
em" e, para pequenas, de 1,5 a 1,7 g em".
Os processos de compactação do solo podem ser manuais ou
Figura 22 - Perfil da barragem e área da seção transversal do local de
mecânicos. Nos processos manuais, utilizam-se soquetes, em que a
seu assentamento.
energia é aplicada mediante golpes sobre a camada. Nos processos
mecânicos, empregam-se equipamentos, em que a energia aplicada
depende da tensão exercida e do número de passadas que se dá sobre a O volume de aterro é determinado multiplicando-se a largura
camada. média do maciço (obtida entre a largura da base e a largura da crista)
A compactação pode ser feita com soquetes, pés de animais, pela área da seção transversal ou área da "garganta" (A):
Ir nsito de máquinas, soquetes mecânicos, rolos estáticos (lisos ou Va = (b+c) N2 (45)
d ntados, como o de pé-de-carneiro) e vibratórios, dando-se cerca de seis em que Va é o volume do aterro (nr'); b, o comprimento da base (m);
passadas sobr o material do aterro. Não é conveniente utilizar tratores de c, a largura da crista (m); e A, a área da seção transversal (nr').
esteira, visto que a superfície de contato com o solo é muito grande,
sendo, consequenternente, baixa a pressão exercida pela esteira.
Exemplo 9
Para que sej a compensado o assentamento natural, após sua
Determinar o volume de aterro para construção de uma
consolidação, a altura do aterro deve ser aumentada de 2 a 5%. Este
barragem, considerando-se os seguintes dados:
acréscimo na altura deve ser determinado em laboratório e por
observações durante a construção. a) base da barragem = 46,50 m;
------=--=- ---_
..
_------------
-

110 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 111

b) crista = 4 m; e conteúdo de umidade são características de material argiloso. O


c) área da garganta = 85 m'. tamanho pequeno, a forma achatada e o tipo de composição mineral
das partículas de argila combinam para produzir um material que é
ao mesmo tempo compressível e plástico. O silte é pouco plástico e
Solução
pegajoso e apresenta outras características físicas, intermediárias
Va = (b + c) A/2 = (46,50 + 4,00) x 85/2 = 2.146,25 rrr' entre a areia e a argila.
Va = 2.146 m 3
Frações mais finas, mesmo quando em pequenas proporções no
solo, podem ter importante influência nas suas propriedades físicas.
Época de construção Pequenos percentuais, como 10% de partículas não retidas em
As pequenas barragens de terra, por serem obras de pequeno peneira de malha n" 200, misturados a areia e cascalho podem
vulto, podem ser construídas em curto período de tempo. Nesse caso, tornar o solo virtualmente impermeável, especialmente quando os
determina-se que a obra seja executada no período mais propício do grãos grosseiros são bem gradados.
ano, que é o seco. Para construir e trabalhar no seco, deve-se Considerando que cada fração granulométrica apresenta um
inicialmente instalar o tubo do desarenador e derivar a vazão normal aspecto físico vantajoso, para a construção de barragem de terra,
do curso d'água para ele. em relação a outra, pode-se obter uma mistura que proporcione
condições ótimas para a composição do núcleo e, ou, de todo o
Cuidados na construção corpo da barragem. O material grosseiro, embora estável e
resistente à compressão, é altamente permeável. Já o material mais
Material aconselhável
fino é impermeável e de boa liga, entretanto está sujeito a
Conforme citado no item de escolha do local para construção da deformações, trincas etc.
barragem, as frações granulométricas do solo apresentam as seguintes
A adição de pequena quantidade de argila, por exemplo, pode
características básicas: agir como aglomerante das partículas de areia e cascalho. A argila,
• Cascalho e areia - quando bem selecionados e compactados, são ainda que muito impermeável, pode não ser o melhor material para
materiais estáveis e pouco afetados pela umidade; porém, altamente o núcleo, caso este sofra grandes contrações e dilatações. O melhor
permeáveis. Embora a forma do grão e a gradação do material para o núcleo é uma mistura de argila, areia e pedregulho fino.
tenham influência, os cascalhos são geralmente mais permeáveis Quase todos os materiais de solo e, ou, suas combinações
que as areias, no caso de uma mesma quantidade de finos podem ser utilizados, ficando a critério do projetista a escolha do
misturada. Quando a areia é fina e uniforme, apresenta melhor material.
aracterísticas muito semelhantes às do silte, com correspondente
dccrésci mo na permeabilidade e redução na estabilidade, na Barragens de terra homogêneas só devem ser construídas com
presença de água, por ela não exibir nenhuma coesão (não se solos estáveis e pouco permeáveis. Os materiais de solo que
mantém agregada a outros grãos). satisfazem a ambas as condições podem ser divididos em três grupos:

• Silte e argila - as argilas são materiais finos, plásticos, pouco • solos de textura grosseira, que podem ser utilizados quando
resistentes à deformação quando úmidas, mas extremamente duras apresentarem quantidade suficiente de material fino que possibilite a
quando secas. São virtualmente impermeáveis, difíceis de redução na permeabilidade até valores aceitáveis;
compactar quando úmidas e impossíveis de drenar por meios • material siltoso; e
ordinários. Grande expansão e contração com mudanças no
• alguns tipos de argila.
112 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte III

Nenhum desses grupos inclui a areia limpa, a argila de baixa Os taludes de jusante devem receber proteção contra o efci to
coesão ou o pedregulho; entretanto, se próximo ao local de erosivo de enxurradas e, quando necessário, dispor de drenos. O tipo
construção não existirem outros materiais, pode-se usar a argila de proteção mais comum é a vegetação com plantas de baixo porte.
para a construção do núcleo impermeável e a areia limpa para ser Se a barragem tiver altura superior a 9 m, aconselha-se construir
colocada lateralmente, a fim de assegurar a estabilidade do maciço. banquetas (valetas revestidas) no talude de jusante, visando protegê-lo
Caso não seja possível a obtenção de solos relativamente contra o efeito erosivo das enxurradas.
impermeáveis, deve-se utilizar uma camada de concreto armado ou
algum outro material similar a fim de se evitar a percolação da Drenas
água.
Nenhuma barragem de terra pode ser considerada impermeável,
O material aconselhável para utilização na construção da devendo-se contar com percolação de água através do aterro, bem como
barragem de terra é aquele que apresenta a seguinte proporção: sob ele. Se a força de percolação em um ponto do aterro exceder a
• material fino (passa na peneira rio. 100) - 1 parte; resistência ao deslocamento de uma partícula do solo nesse ponto, essa
partícula entra em movimento. Ter-se-á, consequentemente, escoamento
• areia (retida na peneira n°. 100) - 2 partes; e
das menores partículas, em geral a partir da região imediatamente a
• cascalho (retida na peneira n°. 4) - 5 partes. jusante do pé do aterro, o que é conhecido como erosão tubular
("piping"). Por essa razão, o corpo da barragem deverá ser protegido
Proteção dos taludes contra o arraste de partículas finas do seu interior, principalmente quando
O talude de montante deverá se protegido contra o efeito o corpo da barragem for constituído por material de alta permeabilidade,
erosivo (solapamento) das águas de chuvas e pequenas ondulações uma vez que esse fenômeno pode vir a proporcionar a ruptura do maciço.
da água do reservatório. Para proteção do talude, têm sido Com o objetivo de se precaver quanto ao aparecimento de
aplicados na face destes materiais granulares graúdos (enrocamento "piping" no maciço, quando do uso de materiais muito permeáveis,
fino, cascalho ou mistura de britas), chapas de concreto, pré- tem sido recomendada a disposição de materiais grosseiros para
moldados, chapas de ferro etc., com espessura mínima de 30 em. A agirem como dreno da água percolante. Os drenos deverão estar
proteção deve estar posicionada na parte da barragem correspondente posicionados no talude de jusante, desde sua base até uma altura
à zona de alcance das ondas; no restante do talude deve-se plantar mínima de Hn/3. Caso haja previsão de que a linha de saturação
grama. possa atingir o talude de jusante em altura superior a Hn/3 (verificar
Caso o material do talude de montante apresente traçando a linha de saturação), esses drenos deverão ser
p rmeabilidade muito alta, pode-se fazer sua impermeabilização prolongados até a cota máxima prevista para o N.A.
c m a utilização de solução NaOH 3%, que deverá ser aplicada A percolação através das barragens de terra pode ser
para urned cer o solo até próximo à capacidade de campo, com reduzida por meio da construção de um aterro de base muito larga;
concomitante compactação do material. Podem ser utilizados, pela cobertura, com material impermeável (formação de um
ainda, Na2 03 4% ou Na4Si02 6%. "tapete"), da área imediatamente a montante da barragem; pela
Se sobre a crista houver estrada, esta deverá ser abaulada, construção de um núcleo de material argiloso; ou pela disposição
para escorrimento natural das águas de chuva, e protegida com de um diafragma de madeira, aço ou concreto no talude de
material cascalhento. Caso não exista estrada sobre a crista, ela montante.
deverá ser gramada. Os drenos, em geral, são filtros de pé ou enrocarnentos de
drenagem, feitos com brita ou pedregulho grosso (usados m
114 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 11

enrocamento), para os quais convergem as águas percoladas e que Cobertura vegetal


por eles são conduzi das, sem causar danos, para fora do aterro. Todas as partes da barragem expostas ao tempo, inclusive o
Para impedir o carreamento de partículas finas do aterro em direção extravasor, devem ser rigorosamente cobertas com vegetal, o que
ao dreno, o material deste deve ser graduado, partindo-se de uma oferece boa proteção contra a erosão.
camada de partículas mais finas na periferia do dreno até camadas Acima dos drenos, o talude, incluindo-se as áreas de
de material mais graúdo no seu interior. banquetas, deve ser protegido com o plantio de vegetação da
Geralmente, tem sido recomendado que os drenos sejam região, por exemplo grama e erva-cidreira, Porém, deve-se evitar
constituídos por uma cobertura de três camadas distintas, sendo a que árvores, arbustos e bambus etc. se desenvolvam sobre o aterro,
primeira de areia, com 15 a 20 em de espessura; a segunda, de uma pois, sob a ação de ventos fortes, podem as raízes abalar o aterro e
mistura de brita números 1, 2 e 3 ou cascalho, com distribuição de favorecer a infiltração de água no maciço.
tamanhos semelhantes; e a terceira, de pedra, com espessura Caso os solos do corpo da barragem não apresentem
aproximada de 40 em, devendo os espaços entre as pedras ser condições físicas e químicas adequadas para o plantio de
preenchidos com brita ou cascalho. gramíneas, deverá ser lançada sobre o talude uma camada de terra
A construção dos drenos deverá ser executada, vegetal com 20 em de espessura, na qual será feito o plantio.
acompanhando-se o alteamento do aterro, isto é, após a O plantio da vegetação deve ser feito, de preferência, no
compactação de cada camada de solo, será lançado no talude o período anterior ao do início das chuvas. Concluído o plantio, o
material, formando-se as camadas. talude deverá ser molhado regularmente até que a vegetação tenha-
No caso da construção de drenos após a formação do maciço de se enraizado definitivamente. Nas ombreiras, onde possam ocorrer
terra, o material drenante pode ser colocado sobre o talude de jusante, grandes contribuições de água de chuva, estas deverão ser
ampliando, localmente, a largura da base do maciço (Figura 23). desviadas por meio de canaletas.

Assoreamento
Quando possível, a represa deve ser protegida, lateralmente,
com curvas de nível, que desviem para a jusante o material de solo
que por ventura venha a ser arrastado com as enxurradas e que
fatalmente iria depositar-se no fundo do reservatório.
hI3 (mln. Além dos sedimentos que possam vir de áreas próximas, é
importante contabilizar a quantidade de sedimentos trazida pelo curso
d'água, o que é conhecido como vazão sólida, carga sólida ou
produção de sedimentos do curso d' água. Essa vazão sólida irá
11- O.40m depender de uma série de fatores ligados à bacia hidrográfica, como
b-O,20m declividade, tipo de solo, uso do solo, cobertura etc.
o-O.15110,20m

Figura 23 - Dreno em barragem de terra: fundação (1), corpo da


Manutenção
barragem (2), terra vegeta (3), areia (4), colchão de
areia (5), brita (6), pedra de mão (7) e vegetação A barragem deve ser visitada periodicamente para que s
rasteira (8). possam detectar problemas e agir, prontamente, de forma a solucioná-
Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 117
116

Ios, visando-se a segurança da obra. Dentre os problemas detectados • Capacidade operacional do trator de esteira
mais comumente, podem-se citar: C = 60 L f/t (46)
• ausência de cobertura vegetal nos taludes - pode ser resolvida com sendo t = t + tR+ tp
L
adubação orgânica e irrigação para facilitar a pega das mudas;
em que C é a capacidade de trabalho (rrr' h-I); L, o volume de terra
• aparecimento de rachaduras em barragens construídas com material transportado pela lâmina (rn'); f, o fator de campo (depende das
muito argiloso - proceder ao entupimento e à compactação das fendas condições locais de trabalho; em termos médios, considerar f = 0,7); t,
com material argiloso misturado a material mais grosseiro; o tempo do ciclo para trator de esteira (min); k, o tempo de laminação
• obstrução do extravasor por queda de árvores, desbarrancamento de (min); tR, o tempo de retomo (min); e tp, o tempo de posicionamento
solo e crescimento descontrolado de vegetação em seu leito - o até o início do carrega-mento (min).
extravasor deve estar sempre desobstruído para que não ocorra
represamento de água acima do estabelecido para a barragem; O tempo de laminação (tL) é igual a percurso de laminação (m)
0,06/velocidade da laminação (km h-I), e o tempo de retorno (tR) é igual a
• af1oramento de água (interceptação da linha de saturação) no talude percurso de retorno (m) 0,06/velocidade de laminação (km h-I).
de jusante da barragem - deve ser avaliado a fim de que se possa dar
a solução correta ao caso. A avaliação é feita pela observação da
Exemplo 10
água que está af1orando no talude. Coleta-se um copo de água cujo
líquido deve ser deixado para evaporar; caso no fundo do frasco se Determinar o custo da movimentação de terra para a construção
verifique a presença de material residual, é sinal de que esteja de uma barragem, considerando-se os seguintes dados:
havendo carreamento de material fino (argila) com a percolação de a) volume do aterro = 2.146 nr';
água através do aterro. Nesse caso, seguindo-se a mesma técnica
b) trator D4-D (Caterpillar) equipado com Bulldozer (lâmina reta);
recomendada para a construção de drenos de pé, o talude de jusante
deve receber camadas de material para minimizar o transporte de c) escavação e remoção do material, em primeira marcha, a 2,7 km h -I,
sedimentos. e retorno do trator, em terceira marcha, a 6,4 km h-I;
d) distância média de transporte = 30 m; e
Orçamento e) capacidade da lâmina = 1,7 m ' de material solto.
O orçamento de uma barragem é feito semelhantemente ao de
qualquer outra obra, isto é, determinam-se as quantidades utilizadas de Obs.: O fator de empolamento e o tempo de posicionamento (tp) serão
cada material, a mão de obra empregada e os demais gastos, desconsiderados neste problema.
multiplicando tudo pelos seus custos unitários. Tais custos podem ser
encontrados em revistas técnicas. Solução
O custo do aterro talvez seja o mais problemático, pois depende • Cálculo da capacidade do trator de esteira
da capacidade do trator ou de outra máquina usada para a
movimentação de terra, da distância do transporte dessa terra e, C = 60 L f/t
finalmente, do volume do aterro. Cálculo de t:
As capacidades operacionais do trator de esteira e do trator de t = + tR + t
ÍL p

pneu com raspadeira-carregadeira podem ser calculadas, usando-se as ÍL = P 0,06N = 30 x 0,06/2,7 = 0,67
L L min
equações a seguir:
r-------------------~--~---------------------=-~~----------------------

Barragens de terra de pequeno porte 119


Matos, Silva e Pruski
118

Exemplo 11
tR = PR 0,06N R= 30 X 0,06/6,4 = 0,28 min
Determinar o custo da movimentação de terra para a construção
tp =O de uma barragem, tendo-se os seguintes dados:
em que PL é o percurso de laminação; VL, a velocidade de laminação;
PR, o percurso de retorno; e V R, a velocidade de retorno. a) volume de aterro = 2.146 rrr';
Então, = 0,67 + 0,28 = 0,95 min
t b) trator de pneu de 80 cv, com "scraper modal", modelo 30-2R (3,5
Portanto, C = 60 x 1,7 x 0,7/0,95 = 75,16 nr');

= 75 m3 h" c) percurso do corte ao aterro = 100 m (velocidade de 5 km h-I);·


d) percurso do aterro ao corte = 150 m (velocidade de 8 km h-I);
• Cálculo do número de horas do trator de esteira e) tempo de carregamento = 50 s; e
HT = ValC = 2.146/75 = 28,6 f) tempo de descarregamento = 13 s.
HT '" 28 h 30 min
em que HT é o número de horas de serviço. Solução
• Cálculo da capacidade do trator de pneu com "scraper"
o
custo da movimentação de terra para a obra dependerá,
obviamente, do preço da hora de serviço do trator.
C = 60 V frr
Obs.: Os dados referentes às máquinas utilizadas na movimentação de Cálculo de T
terra podem ser obtidos nos catálogos das próprias máquinas. T=TF+Tv

• Cálculo da capacidade operacional do trator de pneu com raspadeira- TF = Te + TD = 50 + 13 = 63 s


carregadeira "Scraper" TF = 1,05 min
C = 60 V f/t (47)
Sendo Te O tempo de carregamento e TD o tempo de descarregamento.
Sendo t = tF + tv Tv=TT+TR
em que V é o volume de terra transportada pela(s) caçamba(s) por
TT = PT 0,06N T = 100 x 0,06/5 = 1,2 min
ciclo (nr'); t, o tempo do ciclo para trator de pneu com raspadeira-
'UI"!" gadeira (min); tF, o tempo fixo (tempo gasto para carregamento e TR = PR 0,06NR = 150 x 0,06/8 = 1,1 min
ti S '111"1" gamento) (min); e tv, o tempo variável (tempo gasto para / Tv = 1,2 + 1,1 = 2,3 min
rrunspor: retorno) (min).
em que TT é o tempo de transporte; TR, o tempo de retomo; PT, o
Tem-se qu ':
percurso de transporte; PR, o percurso de retomo; V T, a velocidade de
tv = Percurso ti' Irunsporte (m).0,06 +. Percurso de retomo (m).0,06 transporte; e V R, a velocidade de retorno.
Velocidade de trunsp rte (km h-I) Velocidade de retorno (km h-i)
Então, T = 1,05 + 2,3 = 3,35 min
Para cálculo ela escavação das valas ou trincheiras, pode-se tomar o
rendimento médio da retroescavadeira (70-80 HP) como de 25 m' h-I. Portanto, C = 60 x 3,5 x 0,7/3,35 = 43,88
C = 44m3 h-I
120 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 121

• Cálculo do número de horas do trator de pneu com "scraper" indispensável que se tenha uma compreensão nítida das implicações,
HT = ValC = 2.146/44= 48,77 proporcionadas com a implantação do empreendimento, sobre o meio
ambiente, bem como dos eventuais riscos de as alterações ambientais
HT "" 49 h
virem a causar prejuízos à qualidade da água do reservatório. As
medidas mitigadoras compreenderão, dentre outras, a definição de
o
custo da movimentação de terra para a obra dependerá, medidas de proteção do maciço, das instalações e do reservatório e de
obviamente, do preço da hora de serviço do trator. eliminação de riscos à saúde, especialmente no que se refere a doenças
• Para se determinar o custo total da construção da obra, devem ser endêmicas.
levados em consideração: os custos da sondagem, da limpeza, da Os estados brasileiros contam, atualmente, com legislação
aração (quando necessária), assim como os do desarenador, da específica e instituições especializadas na definição, implementação e
tubulação para a tomada de água, das comportas, da cobertura fiscalização de medidas de controle ambiental. No que se refere à
vegetal etc. legislação ambiental, os projetos de barragens de terra com fins
• Os dados referentes às máquinas utilizadas na movimentação de agrícolas estão condicionados às seguintes normas:
terra podem ser obtidos nos catálogos das próprias máquinas. • Projetos de barragens cujos espelhos d'água tenham área menor que
5 ha estão isentos de licenciamento dos órgãos de fiscalização
Na Tabela 30 estão apresentados valores práticos, úteis para o ambiental. No Estado de Minas Gerais, a Fundação Estadual do
cálculo do movimento de terra de acordo com potência do trator e da Meio Ambiente (FEAM) exige modelo simplificado do Relatório
distância a ser percorrida. de Controle Ambiental (RCA) e do Plano de Controle Ambiental
(PCA), com anotação de responsabilidade técnica .
Tabela 30 - Tabela prática para cálculo do movimento de terra (rrr' h-I) • Projetos de barragens cujos espelhos d'água sejam maiores que
1.000 ha necessitam de licenciamento ambiental, sendo exigida,
Potência do Distância do transporte (m) neste caso, a apresentação do Estudo de Impacto Ambienta]
trator (HP) (EIA)/Relatório de Impacto Ambiental (RIMA).
O 10 20 30 40 50 60
45 81 51 37 27 22 19 15 Conforme consta na legislação estadual, obras que
65 proporcionem espelhos d'água menores que 5 ha estão isentas de
99 61 47 31 27 23 19 licenciamento ambiental, embora fiquem a cargo da consciência de
80 144 90 70 51 39 31 27 cada um as medidas que devam ser tomadas para que ocorram
130 166 101 79 58 44 37 31 mínimos danos ao ambiente.
Obras que proporcionem a formação de espelhos d'água
maiores que 5 ha devem ser licenciadas nos órgãos ambientais, os
Ações Mitigadoras dos Impactos quais exigirão a apresentação de planos para minimização do impacto
ambiental da obra, enfatizando a definição de estratégias e medidas
Ambientais da Formação do de controle para impedir que a alteração provocada venha traz r
Reservatório maiores malefícios ao ambiente.
Obras de espelho d' água maiores que 1.000 ha não stão
Embora a construção de pequenas barragens de terra, na maioria
condizentes, em grandeza, com a construção de pequenas barra ns de
das vezes, possa representar pequeno impacto ambiental, é
122 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I •

terra, .estando associadas à construção de grandes barragens para • Risco de proliferação de endemias - o empoçamento de água em
aproveitamento hidrelétrico. níveis constantes cria um ambiente ideal para o desenvolvimento de
Os principais impactos causados pela construção de pequenas mosquitos, que podem causar desde pequeno desconforto aos
barragens de terra são: homens e animais até doenças graves, como malária, febre amarela
e encefalite. Além disso, águas paradas podem proporcionar
• Impactos da obra e da estrutura construída - decorrentes da
condições para ocorrência de doenças como a esquistossomose,
construção de estruturas componentes e eventuais consequências
leptospirose e filariose.
dessas obras, como o aspecto estético da paisagem, degradação das
"áreas de empréstimo" etc. • Geração de poeira na época de construção do maciço - o movimento de
máquinas e a movimentação de terra podem gerar poeira durante a
• Impedimento à descarga de sedimentos produzidos na bacia - a
construção do maciço de terra.
diminuição da velocidade da água e a sua concentração
transformam o reservatório em um imenso sedimentador para • Degradação de "áreas de empréstimo" - a área de empréstimo, por
partículas em suspensão, tornando menor a sua vida útil se ter sido desmatada e perdido material de solo, deverá estar em
medidas de controle da erosão em áreas a montante não forem condições de degradação após a realização da obra.
tomadas. O uso do solo na área da bacia hidrográfica, para • Alteração do habitat da flora e fauna local ~ com o enchimento do
agricultura, pastagens e florestas, tendo em vista, principalmente, reservatório, muitos dos seres de vida terrestre e plantas que não
a ocorrência de erosão, é a maior fonte de sedimentos num toleram ambientes alagados perderão seu habitat. Dessa forma,
reservatório de água, podendo provocar seu assoreamento. terão de procurar outros locais para viverem. Excessiva variação do
• Odor provocado pela decomposição da vegetação presente na área nível do reservatório pode ser prejudicial à sobrevivência de peixes
inundada - o material orgânico em decomposição em ambiente e da fauna aquática, pois inibe ou destrói o desenvolvimento da
anaeróbio (fundo do reservatório) poderá causar o desprendimento vegetação aquática utilizada como seu alimento.
de gases típicos da putrefação, o que deverá proporcionar odores Os fatores mais críticos para a sobrevivência de peixes são:
desagradáveis no local.
- qualidade da água: controle do lançamento de poluentes e erosão;
• Alteração da qualidade da água no reservatório - a utilização mais
- temperatura da água: reservatórios muito rasos tomam o ambiente
intensiva de fertilizantes e defensivos agrícolas em áreas agrícolas
inadequado para a sobrevivência das espécies de água mais fria,
na bacia hidrográfica, em decorrência da implantação do projeto,
como as trutas; e
pode vir a prejudicar a qualidade da água. Além disso, caso passe a
se fazer descarga de efluentes orgânicos (águas residuárias de - mobilidade dos animais: muitas espécies de peixes são migradoras e,
residências, criatórios de animais ou agroindústrias) nas águas do por isso, necessitariam transpor o maciço para percorrerem suas
r servatório, podem ocorrer sérios prejuízos à qualidade da água, rotas naturais. Deve-se, por isso, construir uma ladeira para peixes.
notadarnente no que se refere à sua eutrofização. Entretanto, no Os canais devem ter fundo triangular para facilitar o translado de
caso em que os lançamentos já ocorriam antes da implantação do peixes em períodos mais secos.
empreendimento, a formação do reservatório de água traz efeitos Os fatores mais críticos para a sobrevivência da vida selvagem são:
benéficos à qualidade da água. Isso é decorrente do fato de que o
- remoção de áreas de alimentação;
reservatório passa a funcionar como se fosse uma lagoa de
estabilização, onde ocorre maior sedimentação de material - perda de habitat; e
particulado e oxidação do material orgânico em suspensão (redução - limitação da mobilidade.
na demanda bioquímica de oxigênio).
124 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte

As medidas mitigadoras que podem ser implantadas devem após o enchimento. Certas árvores deixadas no reservatório podem s srvlr
perseguir três diferentes metas: de morada para várias espécies de peixes.
• Manter a beleza natural do local: recuperar áreas de empréstimo Embora certas plantas aquáticas sejam desejáveis para a criação
degradadas por revegetação com espécies nativas. Para isso, a re- de aves aquáticas, são desvantajosas para a criação de peixes e, por
moção do horizonte superficial (mais rico em matéria orgânica), isso, devem ser controladas, pois podem causar o abaixamento da
antes do início da exploração da área, é fundamental, pois será concentração de oxigênio dissolvido na água.
de terminante para o fomecimento de nutrientes à vegetação Para minimizar impactos das áreas de alimentação inundadas,
replantada. novas áreas devem ser plantadas, se possível com os tipos de
• Criar estruturas e terraplanagens esteticamente aceitáveis: embora capineiras disponíveis no local que sejam de elevada produtividade.
muitas vezes isso seja impraticável, sob o aspecto estético, a Se não houver urgência para elevação de água até a altura normal, o
construção da barragem apresentando um eixo curvo faz o reservatório deverá ser mantido com nível de água abaixo do normal
reservatório parecer um lago natural, minimizando o impacto visual por tempo suficiente para que as áreas de alimentação a serem
da obra. inundadas sejam substituídas por outras.
• Causar mínimo impacto ecológico à área: no que se refere ao controle
do odor, toma-se, muitas vezes, necessário proceder ao desmatamento
e à limpeza, totais ou parciais, da área a ser inundada, para a Referências
preservação da qualidade da água do reservatório.
BONTA, l.V., RAO, AR. Estimating peak flows from small agricultural watersheds,
Análises físicas, químicas e bacteriológicas da água represada Journal ofIrrigation and Drainage Engineering, v.1I8, n.1, p.122-l37, 1992.
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qualidade e indicar seu uso, se possível, para diversos fins (irrigação, 131p.
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contaminação da água com fertilizantes e pesticidas, principalmente dois métodos de determinação do volume do aterro de barragens de terra. In: XXV
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r servatório, mesmo durante estações secas, deve ter FREITAS, Al. Tempo de concentração. Belo Horizonte: Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, Superintendência de Desenvolvimento da Capital, 1984. 67p.
profundidade suficiente para manter condições de preservação da vida
selvagem (peixes e vida animal dos arredores do represamento), além GOLDENFUM, l.A, TUCCI, C.E.M. Hidrologia de águas superficiais. Brasítia,
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Matos, Silva e Pruski
126 Barragens de terra de pequeno porte I I

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v. 6 n. 67, p. 3-10,1980. do art. 4º da Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000.
RAMOS, M.M. Hidráulica agrícola e suas aplicações. Brasília: ABEAS, 1990. 119 O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso
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SCHW AB, G.O., FREVERT, R.K., EDMINSTER, T.W. et alo Soil and water
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agricultura. Brasília: N,{MA-SRH-ABEAS-UFV, 1997. 252p.
Art. 1º. Esta lei estabelece a política nacional de segurança de
SMEDEMA, L.K., RYCROFT, D.W. Land drainage: planning and design of
barragens (PNSB) e cria o sistema nacional de informações sobre segurança
.agricultural drainage systems. New York: Cornell University Press, 1983. 376p.
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acumulação de água para quaisquer usos, à disposição final ou temporária de
TUCCI, C.E.M. Escoamento superficial. In: TUCCI, C. E. M. et alo Hidrologia:
ciência e aplicação. Porto Alegre: ABRH-EDUSP, 1983. 943p.
rejeitos e à acumulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos
uma das seguintes características:
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Washington: United States Government Printing Office, 1977. 816p. I - altura do maciço, contada do ponto mais baixo da fundação à
WILKEN, P.S. Engenharia de drenagem superficial. São Paulo: CETESB, 1978.
crista, maior ou igual a 15 m (quinze metros);
477p. 11 - capacidade total do reservatório maior ou igual a 3.000.000 rrr'
(três milhões de metros cúbicos);
111- reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas
técnicas aplicáveis;
IV - categoria de dano potencial associado, médio ou alto, em I 'finOS
econômicos, sociais, ambientais ou de perda de vidas humanas, onform \
definido no art. 6º.
128 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte I I)

. Art, 2º. Para os efeitos desta lei, são estabelecidas as seguintes V - coligir informações que subsidiem o gerenciarnento da segurança
definições: de barragens pelos governos;
I - barragem: qualquer estrutura em um curso permanente ou VI - estabelecer conformidades de natureza técnica que permitam a
temporário de água para fins de contenção ou acumulação de substâncias avaliação da adequação aos parâmetros estabelecidos pelo poder público;
líquidas ou de misturas de líquidos e sólidos, compreendendo o barramento e VII - fomentar a cultura de segurança de barragens e gestão de riscos.
as estruturas associadas;
II - reservatório: acumulação não natural de água, de substâncias CAPÍTULO III
líquidas ou de mistura de líquidos e sólidos;
DOS FUNDAMENTOS E DA FISCALIZAÇÃO
III - segurança de barragem: condição que vise a manter a sua Art. 4º . São fundamentos da política nacional de segurança de
integridade estrutural e operacional e a preservação da vida, da saúde, da
barragens (PNSB):
propriedade e do meio ambiente;
I - a segurança de uma barragem deve ser considerada nas suas fases
IV - empreendedor: agente privado ou governamental com direito real de planejamento, projeto, construção, primeiro enchimento e primeiro
sobre as terras onde se localizam a barragem e o reservatório ou que explore a
vertimento, operação, desativação e de usos futuros;
barragem para benefício próprio ou da coletividade;
II - a população deve ser informada e estimulada a participar, direta
_ V - ór~ão ~scalizador: autoridade do poder público responsável pelas ou indiretamente, das ações preventivas e emergenciais;
açoes de fiscahzaçao da segurança da barragem de sua competência;
III - o empreendedor é o responsável legal pela segurança da
yl - gestãode risco: ações de caráter normativo, bem como aplicação
barragem, cabendo-lhe o desenvolvimento de ações para garanti-Ia;
de medidas para prevenção, controle e mitigação de riscos;
IV - a promoção de mecanismos de participação e controle social;
. VII - ~ano potencial associado a barragem: dano que pode ocorrer
devido a rompimento, vazamento, infiltração no solo ou mau funcionamento V - a segurança de uma barragem influi diretamente na sua
de uma barragem. sustentabilidade e no alcance de seus potenciais efeitos sociais e arnbientais.
Art, 5º. A fiscalização da segurança de barragens caberá, sem prejuízo
CAPÍTULO 11 das ações fiscalizatórias dos órgãos ambientais integrantes do sistema
nacional do meio ambiente (SISNAMA):
DOS OBJETIVOS
I - à entidade que outorgou o direito de uso dos recursos hídricos,
Art. 3º . São objetivos da POLÍTICA Nacional de segurança de
observado o domínio do corpo hídrico, quando o objeto for de acumulação de
barragens (PNSB):
água, exceto para fins de aproveitamento hidrelétrico;
I - garantir a observância de padrões de segurança de barragens de
II - à entidade que concedeu ou autorizou o uso do potencial hidráulico,
maneira a reduzir a possibilidade de acidente e suas consequências;
quando se tratar de uso preponderante para fins de geração hidrelétrica;
11 - regulamentar as ações de segurança a serem adotadas nas fases de
Ill - à entidade outorgante de direitos minerários para fins de
plan.ejamento, projeto, construção, primeiro enchimento e primeiro
disposição final ou temporária de rejeitos;
verurnento, operação, desativação e de usos futuros de barragens em todo o
território nacional; IV - à entidade que forneceu a licença ambiental de instalação e
operação para fins de disposição de resíduos industriais.
Ill - promover o monitoramento e o acompanhamento das ações de
segurança empregadas pelos responsáveis por barragens;
CAPÍTULO IV
IV - criar condições para que se amplie o universo de controle de
DOS INSTRUMENTOS
barragens pelo poder público, com base na fiscalização, orientação e correção
das ações de segurança; Art. 6º. São instrumentos da Política Nacional de 'gurUIlC(1Itil'
Barragens (PNSB):
II----=------=:::::::-::-;;:;::::;:;::::::;:::;~~;;;;;;;;;;;;~~=~=~=·~~-----------
----------

130 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 1\1

I - O sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por III - ESTRUTURA ORGANIZACIONAL E QUALWI W' ()
dano potencial associado; TÉCNICA DOS PROFISSIONAIS DA EQUIPE DE SEGUI !\N( 'À dI!
II - o plano de segurança de barragem; barragem;

III - o sistema nacional de informações sobre segurança de barragens IV - manuais de procedimentos dos roteiros de inspeções d
(SNISB); segurança e de monitoramento e relatórios de segurança da barragem;
IV - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente V - regra operacional dos dispositivos de descarga da barragem;
(SINIMA); VI - indicação da área do entorno das instalações e seus respectivos
V - o cadastro técnico federal de atividades e instrumentos de defesa acessos, a serem resguardados de quaisquer usos ou ocupações permanentes,
ambiental; exceto aqueles indispensáveis à manutenção e à operação da barragem;
VI - o cadastro técnico federal de atividades potencialmente VII - Plano de AÇÃO de Emergência (PAE), quando exigido;
poluidoras ou utilizadoras de recursos ambientais; VIII - relatórios das INSPEÇÕES DE SEGURANÇA;
VII - o relatório de segurança de barragens. IX - revisões periódicas de segurança.
§ 1Q A periodicidade de atualização, a qualificação do responsável
Seção I técnico, o conteúdo mínimo e o nível de detalhamento dos planos de
Da Classificação segurança deverão ser estabelecidos pelo órgão fiscalizador.
Q
Art. 7 • As barragens serão classificadas pelos agentes fiscalizadores, §. 2Q As exigências indicadas nas inspeções periódicas de segurança
por categoria de risco, por dano potencial associado e pelo seu volume, com da barragem deverão ser contempladas nas atualizações do plano de
base em critérios gerais estabelecidos pelo Conselho Nacional de Recursos segurança.
Hídricos (CNRH). Art. 9Q• As inspeções de segurança regular e especial terão a sua
§ 1Q. A classificação por categoria de risco em alto, médio ou baixo periodicidade, a qualificação da equipe responsável, o conteúdo mínimo e o
será feita em função das características técnicas, do estado de conservação do nível de detalhamento definidos pelo nível fiscalizador em função da
empreendimento e do atendimento ao Plano de Segurança da Barragem. categoria de risco e do dano potencial associado à barragem.
§ 2Q• A classificação por categoria de dano potencial associado à § 1Q A inspeção de segurança regular será efetuada peja própria
barragem em alto, médio ou baixo será feita em função do potencial de equipe de segurança da barragem, devendo o relatório resultante estar
perdas de vidas humanas e dos impactos econômicos, sociais e ambientais disponível ao órgão fiscalizador e à sociedade civil.
decorrentes da ruptura da barragem. § 2Q A inspeção de segurança especial será elaborada, conforme
orientação do órgão fiscalizador, por equipe multidisciplinar de especialistas,
Seção II em função da categoria de risco e do dano potencial associado à barragem,
Do Plano de Segurança da Barragem nas fases de construção, operação e desativação, devendo considerar as
alterações das condições a montante e a jusante da barragem.
Art, 82.O Plano de Segurança da Barragem deve compreender, no
mínimo, as seguintes informações: § 3Q OS relatórios resultantes das inspeções de segurança devem
indicar as ações a serem adotadas pelo empreendedor para a manutenção da
I - identificação do empreendedor; segurança da barragem.
11 - dados técnicos referentes à implantação do empreendimento, Art. 10. Deverá ser realizada revisão periódica de segurança de
inclusive, no caso de empreendimentos construídos após a promulgação desta barragem com o objetivo de verificar o estado geral de segurança du
lei, do projeto como construído, bem como aqueles necessários para a barragem, considerando o atual estado da arte para os critérios de proj (0, l\
operação e manutenção da barragem; atualização dos dados hidrológicos e as alterações das condições a montante •
a jusante da barragem.
Barragens de terra de pequeno porte 1\\
Matos, Silva e Pruski
132

Parágrafo único. O SNISB compreenderá um sistema de col 'lu,


§ 1Q A periodicidade, a qualificação técnica da equipe responsável, o tratamento, armazenamento e recuperação de suas informações, devendo
conteúdo mínimo e o nível de detalhamento da revisão periódica de contemplar barragens em construção, em operação e desativadas.
segurança serão estabelecidos pelo órgão fiscalizador em função da categoria
Art. 14. São princípios básicos para o funcionamento do SNISB:
de risco e do dano potencial associado à barragem.
i - descentralização da obtenção e produção de dados e informações;
§ 2Q A revisão periódica de segurança de barragem deve indicar as
ações a serem adotadas pelo empreendedor para a manutenção da segurança ii - coordenação unificada do sistema;
da barragem, compreendendo, para tanto: iii - acesso a dados e informações garantido a toda a sociedade.
I - o exame de toda a documentação da barragem, em particular dos
relatórios de inspeção; Seção IV
11 - o exame dos procedimentos de manutenção e operação adotados Da Educação e da Comunicação
pelo empreendedor; Art. 15. A PNSB deverá estabelecer programa de educação e de
Ill - a análise comparativa do desempenho da barragem em relação às comunicação sobre segurança de barragem, com o objetivo de conscientizar a
revisões efetuadas anteriormente. sociedade da importância da segurança de barragens, o qual contemplará as
Art. 11. O órgão fiscalizador poderá determinar a elaboração de PAE seguintes medidas:
em função da categoria de risco e do dano potencial associado à barragem, I - apoio e promoção de ações descentralizadas para conscientização e
devendo exigi-lo sempre para a barragem classificada como de dano desenvolvimento de conhecimento sobre segurança de barragens;
potencial associado alto. 11- elaboração de material didático;
Art. 12. O PAE estabelecerá as ações a serem executadas pelo
111 - manutenção de sistema de divulgação sobre a segurança das
empreendedor da barragem em caso de situação de emergência, bem como
barragens sob sua jurisdição;
identificará os agentes a serem notificados dessa ocorrência, devendo
contemplar, pelo menos: IV - promoção de parcerias com instituições de ensino, pesquisa e
associações técnicas relacionadas à engenharia de barragens e áreas afins;
I - identificação e análise das possíveis situações de emergência;
V - disponibilização anual do Relatório de Segurança de Barragens.
11 - procedimentos para identificação e notificação de mau
funcionamento ou de condições potenciais de ruptura da barragem;
CAPÍTULO V
111- procedimentos preventivos e corretivos a serem adotados em
situações de emergência, com indicação do responsável pela ação; DAS COMPETÊNCIAS

IV - estratégia e meio de divulgação e alerta para as comunidades Art. 16. O órgão fiscalizador, no âmbito de suas atribuições legais, é
pot ncialmente afetadas em situação de emergência. obrigado a:
Parágrafo único. O PAE deve estar disponível no empreendimento e I - manter cadastro das barragens sob sua jurisdição, com
1111 111 I'l'hlll'US envolvidas, bem como ser encaminhado às autoridades identificação dos empreendedores, para fins de incorporação ao SNISB;
1.:\11111' Il'lIli N i' aos 01' anismos de defesa civil. 11 - exigir do empreendedor a anotação de responsabilidade técnica,
por profissional habilitado pelo sistema Conselho Federal de Engenharia,
Seção III Arquitetura e Agronomia (CONFEA) / Conselho Regional de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia (CREA), dos estudos, planos, projetos, construç. 0,
Do Sistema Nacional ti' I11formações sobre Segurança de Barragens (SNISB)
fiscalização e demais relatórios citados nesta Lei;
Art. 13. É instituído o Sistema Nacional de Informações sobre
111 - exigir do empreendedor o cumprimento das rccom 'ndll~n'
Segurança de Barragens (SNlSB), para registro informatizado das condições
contidas nos relatórios de inspeção e revisão periódica de segurança;
de segurança de barragens em todo o território nacional.
134 Matos, Silva e Pruski Barragens de terra de pequeno porte 135

IV - articular-se com outros órgãos envolvidos com a implantação e a XII - manter registros dos níveis de contaminação do solo e do lençol
operação de barragens no âmbito da bacia hidrográfica; freático na área de influência do reservatório, conforme estabelecido pelo
V - exigir do empreendedor o cadastramento e a atualização das órgão fiscalizador;
informações relativas à barragem no SNISB. XIII - cadastrar e manter atualizadas as informações relativas à
§ 1Q O órgão fiscalizador deverá informar imediatamente à Agência barragem no SNISB.
Nacional de Águas (ANA) e ao Sistema Nacional de Defesa Civil (SINDEC) Parágrafo único. Para reservatórios de aproveitamento hidrelétrico, a
qualquer não conformidade que implique risco imediato à segurança ou alteração de que trata o inciso IV também deverá ser informada ao Operador
qualquer acidente ocorrido nas barragens sob sua jurisdição. Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
§ 2Q O órgão fiscalizador deverá implantar o cadastro das barragens a
que alude o inciso i no prazo máximo de 2 (dois) anos, a partir da data de CAPÍTULO VI
publicação desta Lei. DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS
Art. 17. O empreendedor da barragem obriga-se a: Art. 18. A barragem que não atender aos requisitos de segurança nos
I - prover os recursos necessários à garantia da segurança da termos da legislação pertinente deverá ser recuperada ou desativada pelo seu
barragem; empreendedor, que deverá comunicar ao órgão fiscalizador as providências
adotadas.
II - providenciar, para novos empreendimentos, a elaboração do
projeto final como construído; § 12 A recuperação ou a desativação da barragem deverá ser objeto de
projeto específico.
111 - organizar e manter em bom estado de conservação as
informações e a documentação referentes ao projeto, à construção, à § 22 Na eventualidade de omissa ou inação do empreendedor, o órgão
operação, à manutenção, à segurança e, quando couber, à desativação da fiscalizador poderá tomar medidas com vistas à minimização de riscos e de
barragem; danos potenciais associados à segurança da barragem, devendo os custos
dessa ação ser ressarcidos pelo empreendedor.
IV - informar ao respectivo órgão fiscalizador qualquer alteração que
possa acarretar redução da capacidade de descarga da barragem ou que possa Art. 19. Os empreendedores de barragens enquadradas no parágrafo
comprometer a sua segurança; único do art. 12 terão prazo de 2 (dois) anos, contado a partir da publicação
desta lei, para submeter à aprovação dos órgãos fiscalizadores o relatório
V - manter serviço especializado em segurança de barragem,
especificando 'as ações e o cronograma: para a implantação do plano de
conforme estabelecido no plano de segurança da barragem;
segurança da Barragem.
VI - permitir o acesso irrestrito do órgão fiscalizador e dos órgãos \

Parágrafo único'l Após o recebimento do relatório de que trata o


integrantes do SINDEC ao local da barragem e à sua documentação de
caput, os órgãos fiscalizadores terão prazo de até 1 (um) ano para se
segurança;
pronunciarem. I

VII - providenciar a elaboração e a atualização do plano de segurança


Art. 20. O art. 35 \ia Lei n° 9.433, de 8 de janeiro de 1997, passa a
da barragem, observadas as recomendações das inspeções e as revisões
vigorar acrescido dos seguintes incisos XI, XII e XIII:
periódicas de segurança;
"Art, 35 : .
Vir! • realizar as inspeções de segurança previstas no art. 92 desta Lei;
IX - elaborar as revisões periódicas de segurança;
XI - zelar pela implementação da Política Nacional de Segurança d
X - elaborar o PAE, quando exigido; Barragens (PNSB); \
XI - manter registros dos níveis dos reservatórios, com a respectiva XII - estabelecer diretrizes para implementação da PNSB, upl] 'U • ()
correspondência em volume armazenado, bem como das qaracterísticas químicas de seus instrumentosl e atuação do Sistema Nacional de Informaçí s soh,.
e físicas do fluido armazenado, conforme estabelecido pelo' órgão fiscalizador; Segurança de Barragens; (SNISB);
136 Matos, Silva e Pruski

XIII - apreciar o relatório de segurança de barragens, fazendo, se ::> fi)


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necessário, recomendações para melhoria da segurança das obras, bem como
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Art. 2I. a caput do art. 4º da Lei n" 9.984, de 17 de julho de 2000,


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Art. 2.3. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.


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