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ESCOAMENTO DE FLUIDO DE PERFURAÇÃO ATRAVÉS DE UM CANAL

PARCIALMENTE POROSO HETEROGÊNEO UTILIZANDO A TÉCNICA LBM

1
Rodrigo E. da C. P. de Meira, 1 Fernando C. De Lai, 1 Cézar O. R. Negrão, 1 Silvio L. de M. Junqueira
1Centro de Pesquisas em Reologia e Fluidos Não Newtonianos – CERNN, Universidade Tecnológica Federal do
Paraná – UTFPR, Curitiba-PR 80230-901, Brasil, e-mail: ro_meira@hotmail.com, fernandodelai@utfpr.edu.br,
negrao@utfpr.edu.br, silvio@utfpr.edu.br

RESUMO - Durante a perfuração de poços de petróleo o fluido utilizado no processo,


caracterizado por uma reologia complexa, percorre o espaço anular interagindo
constantemente com a formação rochosa, podendo percolar a formação através da interface
fluido-porosa presente entre o espaço anular e a formação. Neste trabalho, propõe-se o estudo
numérico do escoamento de fluido não newtoniano para os modelos de lei de potência e de
Bingham, considerando um canal parcialmente preenchido por meio poroso no qual se faz
presente uma região de interface entre os domínios fluido e poroso. Para o presente estudo, o
domínio poroso é representado de forma simplificada através de obstáculos sólidos
distribuídos de forma uniforme na parte inferior do canal. Este modelo é denominado na
literatura como contínuo ou heterogêneo e consiste basicamente em duas fases contínuas,
uma sólida e outra fluida, representando uma escala microscópica da ordem de grandeza dos
poros. A modelagem numérica das equações associadas ao problema é feita através do
método lattice Boltzmann (LBM), no qual o fluido é considerado em uma escala mesoscópica
como um conjunto de partículas em constante movimentação que interagem entre si através de
colisões. A percolação do fluido no meio poroso é caracterizada através da razão entre as
vazões nos domínios poroso e livre do canal e dos perfis de velocidade na região da interface
fluido-porosa.

Palavras-Chave: LBM, fluido não newtoniano, interface fluido-porosa.

INTRODUÇÃO formação. A caracterização deste fenômeno


depende da modelagem adequada da interface
O fluido de perfuração se caracteriza por fluido-porosa que delimita a separação entre a
uma reologia complexa, associada aos diversos formação e o espaço anular, a qual, de acordo
papéis que desempenha durante o processo de com a literatura, pode ser analisada em três
perfuração, podendo-se destacar o aumento da escalas distintas: micro, meso ou macroscópica
viscosidade a baixas taxas de cisalhamento, (Chandesris e Jamet, 2007).
tornando a remoção dos cascalhos do fundo do Em um nível de resolução microscópico, o
poço para a superfície mais eficiente, e a redução qual é utilizado neste trabalho, as fases sólida e
da viscosidade a altas taxa de cisalhamento, fluida do meio poroso são distinguíveis (modelo
reduzindo as pressões de bombeio. Em geral, o contínuo ou heterogêneo) e o escoamento tanto
comportamento dos fluidos de perfuração é no domínio fluido quanto no poroso é resolvido
representado matematicamente através de pelo mesmo conjunto de equações. Já para as
modelos de fluido pseudoplástico ou viscoplástico escalas meso e macroscópicas, o meio poroso é
(Darley e Gray, 1988). representado por um meio equivalente obtido
Durante o processo de perfuração de através da técnica da média volumétrica
poços de petróleo, o fluido de perfuração percorre (Whitaker, 1999), de modo que os detalhes
o espaço anular interagindo com a formação geométricos do meio poroso são ignorados
rochosa exposta pela ação da broca e em função (modelo poro-contínuo ou homogêneo). No caso
das características da formação (e.g., mesoscópico, considera-se uma região de
permeabilidade, porosidade) e das condições de transição entre os meios fluido e poroso na qual
circulação do poço (e.g., pressão, vazão) pode as propriedades (e.g., porosidade e
haver a percolação do fluido de perfuração na permeabilidade) variam de forma contínua de um
meio poroso para um meio fluido. Já na escala porosa do canal em função das características do
macroscópica, as propriedades são descontínuas meio poroso.
na interface fluido-porosa, a qual é definida
através de uma ou mais condições de contorno
que acoplam os conjuntos de equações FORMULAÇÃO DO PROBLEMA
modelando os escoamentos nos domínios fluido e
poroso. A Figura 1 apresenta a geometria e as
O estudo do escoamento junto à interface condições de contorno utilizadas para a
fluido-porosa tem sido bastante explorado na modelagem numérica da percolação do fluido de
literatura para fluidos newtonianos, sendo a perfuração na formação.
investigação e análise da modelagem da interface
fluido-porosa a principal questão analisada
(Beavers e Joseph, 1967; Ochoa-Tapia e
Whitaker, 1995; Meira et al., 2014). p ref  p   
pref
Já a investigação do escoamento de fluidos u1  u2  0
não newtonianos em meios parcialmente porosos
Interface fluido-porosa
ainda é escassa na literatura. Chen et al. (2009)
utilizam o método lattice Boltzmann para simular hrl Matriz N×N
o escoamento de um fluido de lei de potência em h
um canal parcialmente preenchido por um meio
poroso homogêneo. Os autores verificam que a hrp d
velocidade de deslizamento na interface fluido- d
porosa e a penetração dos efeitos viscosos no  
x2 , u 2  
meio poroso são tanto maiores quanto maior o u1  u2  0
índice de lei de potência do fluido.
Corroborando os resultados de Chen et al.   L
x1 , u1 D
(2009), Martins-Costa et al. (2013), verificam,
através da teoria de misturas, que o crescimento D
do índice de lei de potência induz um aumento da
vazão volumétrica através da região porosa. Figura 1 – Geometria e condições de contorno
Avinash et al. (2013) estudaram de forma do escoamento em canal parcialmente
analítica o escoamento de fluido de Bingham em poroso.
um tubo cônico de paredes porosas,
representadas pelo modelo de Beavers e Joseph
(1967), verificando que o crescimento da tensão O canal possui comprimento L e altura h =
limite de escoamento do fluido provoca o hrp + hrl, sendo hrp e hrl, respectivamente, as
aumento da velocidade de deslizamento nas alturas da região porosa e livre. Em x2 = hrp
paredes permeáveis, bem como da espessura da considera-se a interface entre as regiões porosa
região não cisalhada formada na parte central do e livre. Os blocos, quadrados de lado D
tubo, a qual tem sua velocidade reduzida. uniformemente espaçados por uma distância d,
Neste trabalho, propõe-se complementar são dispostos em forma de matrizes N×N
estes estudos, através da análise do escoamento repetidas ao longo de todo o comprimento canal.
de fluido não newtoniano (modelos de lei de O escoamento é promovido por um gradiente de
potência e de Bingham) junto à interface entre um pressão uniforme Δp/L ao longo da direção x1.
domínio fluido e outro poroso utilizando o método Sobre as paredes do canal e a superfície dos
lattice Boltzmann. A principal diferença consiste blocos a velocidade do escoamento é nula
na abordagem microscópica da interface fluido- (condição de não deslizamento).
porosa. Para tanto, investiga-se o escoamento
em um canal parcialmente poroso, no qual o meio
poroso é caracterizado de forma heterogênea Hipóteses e equações de balanço
através de obstáculos sólidos distribuídos
uniformemente na parte inferior do canal. O escoamento é representado pelas
Os resultados obtidos mostram as equações de conservação da massa e da
verificações do modelo numérico para o quantidade de movimento, sendo consideradas
escoamento de fluido não newtoniano em canal as hipóteses de escoamento em regime
livre e do escoamento em canal parcialmente permanente e bidimensional, fluido
poroso de fluido newtoniano, avaliando-se a incompressível e desprezada a ação da força
distribuição de vazão entre as regiões livre e gravitacional, obtendo-se, respectivamente:
u e a viscosidade aparente ηa,Pa expressa como:
0 (1)
x
0
 u
u

p  
 (2)
 a , Pa   P 


1 e
n p 
 (9)
x x x
sendo np o parâmetro responsável pelo aumento
sendo ρ a massa específica do fluido, uα a da viscosidade aparente do fluido à medida que a
velocidade do escoamento, p a pressão e ταβ o taxa de cisalhamento é reduzida. Em função do
tensor tensão, o qual é expresso pela equação ajuste de np, o modelo de Papanastasiou (1987)
constitutiva do fluido. No caso do modelo de lei se torna uma representação do modelo de
de potência tem-se (Bird et al., 2002): Bingham.
n 1
   c   (3)
MODELAGEM NUMÉRICA
sendo ηc o índice de consistência, n o índice de lei
de potência e  a magnitude do tensor taxa de A solução do escoamento é obtida através
cisalhamento  , calculado por: do LBM (Guo e Shu, 2013), um método numérico
baseado em uma análise mesoscópica do fluido
para a simulação de escoamentos e outros
1 fenômenos físicos. Nesta escala, o fluido é
    
2  
(4) considerado em uma escala intermediária entre
um meio contínuo e um conjunto de partículas
individuais, sendo tratado de forma estatística
A viscosidade aparente de um fluido de através de funções distribuição de velocidade
lei de potência ηa,lp, definida como a razão ταβ  
f( x , c , t), que representam o número provável de
/  , é: partículas localizadas espacialmente entre
    x e
x  dx , com velocidade entre c e c  dc no
 a ,lp  c 
n 1
(5) instante de tempo t. As partículas estão em
constante movimentação e interagem entre si
através de colisões.
A equação constitutiva para o fluido de Neste trabalho, utiliza-se o modelo
Bingham é dada pela seguinte expressão (Bird et incompressível de He e Luo (1997) aplicado ao
al., 2002): modelo de discretização bidimensional D2Q9
(Qian et al., 1992), no qual o domínio de solução
  é representado por uma rede regular de nós
    0   p   p/   0 interligados na qual as partículas se deslocam ao
   (6)
longo de direções pré-definidas i com velocidade
  0 p/   0    
ci , a saber: c0 = (0,0), c1 = (cref,0), c2 = (0,cref),
  
c3 = (-cref,0), c4 = (0,-cref), c5 = (cref,cref),
  
sendo τ0 a tensão limite de escoamento e ηp a c6 = (-cref,cref), c7 = (-cref,-cref), c8 = (cref,-cref), com
viscosidade plástica do fluido. A viscosidade cref = Δx/Δt, sendo Δx a distância
aparente do fluido de Bingham ηa,Bi é dada por: horizontal/vertical entre dois nós e Δt o intervalo
de tempo entre duas colisões consecutivas.
0 Os processos de deslocamento e colisão
 a , Bi   p (7) das partículas são realizados de acordo com a

equação de transporte de Boltzmann, a qual é
discretizada através do esquema upwind
Devido à singularidade apresentada pelas (Patankar, 1980), sendo desprezadas as ações
Equações 6 e 7 para  tendendo a zero, torna-se de forças externas e considerando a aproximação
conveniente utilizar o modelo de regularização BGK (Bhatnagar et al., 1954) para a
proposto por Papanastasiou (1987) para a representação das colisões:
representação do modelo de Bingham, no qual a
equação constitutiva do fluido é dada por:  
f i  x  ci t , t  t  
 t   (10)
    f i  x , t    fi eq  x , t   f i  x , t  
 
 

 n 
  P  0 1  e p   

(8) 
sendo fi a parcela de f associada à direção de suficientemente baixo, Ma = uref /cs, sendo uref uma
deslocamento i e T o fator de relaxação de fi até o velocidade de referência do escoamento), os
seu valor de equilíbrio fieq, dado por: problemas simulados são adimensionalizados em
relação a Δx, Δt e ρ0, cujos valores são
   c  u   c  u 2  u  u    convenientemente escolhidos (Succi, 2001).
f i eq  wi    0  i 2  i 4   (11)
  cs 2cs 2cs2  
 RESULTADOS E DISCUSSÕES

sendo ρ0 a massa específica inicial do fluido, wi a Os modelos do LBM para os fluidos de lei
fração de partículas que se desloca na direção i, de potência e Bingham foram verificados através
com w0 = 4/9, w1,2,3,4 = 1/9 e w5,6,7,8 = 1/36 e da análise do escoamento plenamente
cs = cref / 3 a velocidade do som, definidos de desenvolvido entre placas planas e paralelas,
acordo com o modelo D2Q9. cujas soluções analíticas para o perfil de
A massa específica do fluido e a velocidades são apresentadas por (Bird et al.,
velocidade do escoamento são calculadas em 2002). Para um fluido de lei de potência o perfil
função das funções distribuição, respectivamente, adimensional de velocidades é:
por:
   2n  1 n  1   n 1 
  
  x, t    fi  x, t  (12) U1  2 1  X 2 n 
 (16)
n  
i
   
u  x , t    fi  x , t  ci (13)
i sendo U1 = u1/umed a velocidade adimensional, X2
= x2/h a posição adimensional na direção x2, com
He e Luo (1997) mostram, através da -1 < X2 < 1, umed a velocidade média do
análise de Chapman-Enskog (Chapman e escoamento e 2h a altura do canal.
Cowling, 1980), que o conjunto de Equações 10 – O escoamento do fluido de Bingham é
13 aplicadas com o modelo D2Q9 representam caracterizado pela presença de um núcleo não
as Equações de Navier-Stokes (Bird et al., 2002) cisalhado na região central do canal, -Xp < X2 < Xp,
para um fluido incompressível desde que sejam com Xp = τ0 / (-dp/dx1). O perfil adimensional de
satisfeitas as seguintes relações: velocidade é dado por:

 1 U1  C 1  X 22   2 Bi 1  X 2   p/ X2  X p
  (14)
c 0 2
2
s (17)
U1  U p  C  Bi  1
2
p  c 2
(15) p/ X2  X p
s

sendo μ a viscosidade dinâmica de um fluido sendo C = 3/(Bi3-3Bi+2) uma constante, Up a


newtoniano. velocidade adimensional do núcleo não cisalhado
Para que o LBM simule as Equações 1 e 2 e Bi o número de Bingham definido como:
considerando as equações constitutivas dos
modelos de lei de potência, Equação 3, e de 0 (18)
Bi  
Papanastasiou (1987), Equação 8, basta p
h
substituir μ na Equação 14 pelas respectivas x1
viscosidades aparentes, ηa,lp e ηa,Pa, definidas,
respectivamente, pelas Equações 5 e 9, de modo Os resultados numéricos foram obtidos a
que o fator de relaxação se torna uma função da partir de uma malha com 160 nós na direção x2 e
taxa de cisalhamento (Rakotomalala et al., 1996; Δt = Δx/k, com k = 16 para o fluido de lei de
Tang et al., 2010). potência e k = 2048 para o fluido de Bingham,
As condições de contorno utilizadas para a para o qual se utiliza np = 10s no modelo de
simulação do escoamento em canal parcialmente Papanastasiou (1987). Em ambos os casos o
poroso, bem como dos problemas de verificação, número de Reynolds do escoamento, Relp e ReBi,
são a condição de contorno periódica proposta é 100, sendo Relp e ReBi, respectivamente, o
por Liao e Jen (2008), na entrada e saída do número de Reynolds para os fluidos de lei de
canal, e de bounce-back entre nós (Guo e Shu, potência e Bingham, definidos, respectivamente,
2013), para a representação das paredes do por:
canal e superfície dos blocos.
Para atender aos critérios de estabilidade e
 uref
2n n
lref
precisão do LBM (T* = T/Δt suficientemente maior Relp  (19)
do que 0,5 e número de Mach do escoamento c
 uref lref Considerando o escoamento em canal
Re Bi  (20) parcialmente poroso, as análises são realizadas
p
para matrizes de obstáculos 1×1, 2×2 e 3×3 e
porosidades ϕ = 0,36; 0,64; e 0,84, sendo ϕ = Vf /Vt
com uref = umed e lref = 2h, sendo lref o comprimento com Vf e Vt representando, respectivamente, os
de referência do escoamento. volumes de fluido e total do meio poroso. Nos
No caso do fluido de lei de potência, foram casos simulados, a altura da região fluida é igual
simulados escoamentos de fluidos com n = 0,2; à da região porosa, hrf = hrp, e o gradiente de
0,6; 0,8; 0,9 e 1,0. A Figura 2 apresenta a pressão Δp/L ajustado de modo que,
comparação entre os perfis de velocidade obtidos considerando um canal livre de altura hrf, tenha-
numericamente e através da Equação 16. se Re = 100, sendo Re o número de Reynolds
O modelo numérico para fluido de lei de para o escoamento de um fluido newtoniano,
potência mostrou boa concordância com a definido por:
solução analítica, sendo o maior erro percentual ε
entre os perfis de velocidade da ordem de 1%,  uref lref
com ε calculado por: Re  (22)

 U 
  1  1,lbm   100% (21) com uref = umed e lref = hrf.
 U 1,ana 
1.0
sendo U1,ana e U1,lbm, respectivamente, as
velocidades analítica e numérica.

1.0 0.5
Bi = 0,0 - Analítico
Bi = 0,0 - LBM
Bi = 0,1 - Analítico
Bi = 0,1 - LBM
0.0 Bi = 0,2 - Analítico
X2

0.5
Bi = 0,2 - LBM
n = 1,0 - Analítico Bi = 0,4 - Analítico
n = 1,0 - LBM Bi = 0,4 - LBM
n = 0,9 - Analítico Bi = 0,8 - Analítico
n = 0,9 - LBM Bi = 0,8 - LBM
0.0 n = 0,8 - Analítico -0.5
X2

n = 0,8 - LBM
n = 0,6 - Analítico
n = 0,6 - LBM
n = 0,2 - Analítico
n = 0,2 - LBM
-0.5 -1.0
0.0 0.5 1.0 1.5
U1

Figura 3 – Perfis de velocidade para o fluido


-1.0
de Bingham para Bi = 0,0; 0,1; 0,2; 0,4 e 0,8
0.0 0.5 1.0 1.5 com ReBi = 100. Comparação entre as
U1 soluções analítica e numérica.
Figura 2 – Perfis de velocidade para o fluido
de lei de potência para n = 1,0; 0,9; 0,8; 0,6 e A realização de testes preliminares
0,2 com Relp = 100. Comparação entre as determinou a configuração mais sensível à
soluções analítica e numérica. malha: ϕ = 0,36 e matriz de obstáculos 3×3. Para
este caso, a realização do teste de sensibilidade
Para o fluido de Bingham foram à malha determinou a utilização de uma malha
simulados escoamentos para Bi = 0,1; 0,2; 0,4 e com 240 nós na direção x2, sendo a vazão
0,8. Neste caso, também se observa boa através do meio poroso a variável de análise, a
concordância entre os resultados numéricos e qual apresentou uma diferença percentual inferior
analíticos, sendo o maior valor de ε também da a 1% com relação à malha com 480 nós.
ordem de 1%. Os perfis de velocidade analítico, Os resultados apresentados a seguir
calculado conforme a Equação 17, e numérico mostram a influência das características do meio
para o escoamento do fluido de Bingham são poroso heterogêneo (número de blocos e
comparados na Figura 3. porosidade) sobre a distribuição de vazão
volumétrica entre os domínios livre e poroso do
canal, avaliada em termos de Qrl = qrl /qt e Desta forma, no caso limite em que o
Qrp = qrl /qt, sendo qrl e qrp, respectivamente, as número de obstáculos é muito alto
vazões volumétricas nas regiões livre e porosa do (independentemente da porosidade) ou a
canal e qt = qrl + qrp a vazão volumétrica total no porosidade é muito baixa (independentemente do
canal. número de obstáculos) o escoamento ocorre
A Figura 4 apresenta os valores Qrf e Qrp predominantemente pela região livre do canal, ou
em função da porosidade para diferentes padrões seja, Qrp → 0 e Qrf → 1.
de obstáculos. Constata-se que a variação da
porosidade e do número de obstáculos altera a
proporção entre as vazões Qrp e Qrf. O aumento CONSIDERAÇÕES FINAIS
da porosidade (para uma matriz de obstáculos
fixa) ou a redução do número de obstáculos (para Neste trabalho, o escoamento de fluido de
uma porosidade fixa) diminuem a resistência do perfuração no anular é modelado como o
meio poroso ao escoamento, implicando num escoamento de fluido não newtoniano (modelos
aumento de Qrp e, consequentemente, na de lei de potência e Bingham) em canal
redução de Qrf. Em função da diferença de parcialmente poroso heterogêneo, no qual o meio
inclinação entre as curvas Qrp × ϕ, verifica-se que poroso é representado de forma simplificada
a influência da porosidade sobre as vazões Qrp e através de obstáculos sólidos dispostos na
Qrf é mais pronunciada à medida que o número metade inferior do canal.
de obstáculos é reduzido. Este comportamento é O escoamento de fluido de lei de potência
justificado pelo fato de que, para um grande e Bingham em canal livre são estudados como
número de obstáculos, a complexidade verificação do modelo numérico, apresentando
geométrica do meio poroso é grande o suficiente boa concordância com a solução analítica do
para que a resistência ao escoamento seja pouco problema. Em seguida, o escoamento de fluido
influenciada pela variação da porosidade. De newtoniano em canal parcialmente poroso
modo semelhante, o efeito da variação do heterogêneo também é investigado, sendo
número de obstáculos é mais acentuado para verificada a distribuição da vazão entre os
maiores valores de porosidade, pois, para um domínios livre e poroso do canal em função da
baixo valor de porosidade, a fração volumétrica modificação da permeabilidade do meio poroso,
de sólido no meio poroso é tamanha, que a devido à variação da porosidade e do número de
resistência ao escoamento proporcionada pelo obstáculos do meio poroso.
aumento do número de obstáculos é pouco A próxima etapa do trabalho é realizar as
significativa. simulações no canal parcialmente poroso para os
fluidos de lei de potência e Bingham, analisando
a influência do índice de lei de potência, da
1.0
tensão limite de escoamento e da permeabilidade
do meio poroso sobre a distribuição de vazão
0.8
entre as regiões livre e porosa do canal e o perfil
de velocidade do escoamento.
Qrf
0.6
Qrp
Qrf , Qrp

AGRADECIMENTOS
Matriz 1x1
0.4 Matriz 2x2 Os autores agradecem ao apoio do
Matriz 3x3 IRF/CENPES/PETROBRAS, ao programa PRH-
0.2
ANP/MCT (PRH10-UTFPR), ao Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) e à Fundação de Apoio à
0.0 Educação, Pesquisa e Desenvolvimento
Científico e Tecno-lógico da UTFPR (FUNTEF-
0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 PR).

Figura 4 – Vazões adimensionais Qrf (linhas
cheias) e Qrp (linhas tracejadas), NOMENCLATURA
respectivamente, nas regiões livre e porosa,
em função da porosidade para diferentes Bi Número de Bingham [-]

matrizes de obstáculos (1×1, 2×2 e 3×3) com c Velocidade das partículas [m/s]
hrf = hrp. 
ci Velocidade de fi [m/s]
cref Velocidade de referência de ci [m/s] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
cs Velocidade do som [m/s]
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ρ Massa específica do fluido [kg/m3]
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ηc Índice de consistência [Pa.sn] escoamento em canal parcialmente
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