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Figueiredo, Luís Cláudio Mendonça – A invenção do psicológico: quatro séculos de

subjetivação (1500 – 1900) / Luís Cláudio Mendonça Figueiredo - São Paulo: Educ.:
Escuta, 1992. 184 p. 21 cm – (Coleção Linhas de fuga)

A invenção do psicológico

Quatro séculos de subjetivação

(1500 – 1900)

RESENHA¹

Maria Natacha Espínola dos Santos

De forma objetiva Figueiredo no capítulo “Identidade e esquecimento: aspecto da


vida civilizada” destaca modelos no qual a coletividade atribui para a constituição da
identidade, caracterizando-os como um ingrediente. No entanto, ele ressalva que há
uma identificação exacerbada de um modelo sumamente idealizado. Analisando que
os procedimentos de construção e de manutenção de uma identidade é constituída
pela coincidência com uma imagem e está ligada a uma pretensão.

Nesse sentido o autor traz Dom Quixote como exemplo de imagem pretenciosa.
Levava consigo uma imagem absolutamente nítida e completa de quem era e de
como devia se portar; em todos os momentos suas reflexões, decisões e ações
eram pautadas por essa imagem. Essa imagem deveria ser exibida
exageradamente, para que ganhasse o máximo de reconhecimento daqueles que
sentem falta desse modelo “exemplar”, mesmo que estejam incluídos os dissabores,
as desgraças, a fúria e desespero. Esta decisão precisa e absoluta é sem dúvida a
principal tática de Dom Quixote para construir e manter a sua identidade em meio
aos interesses e embates.

Para Figueiredo, a lógica da pretensão, imitar o modelo fora do momento adequado


é ainda melhor do que fazer quando há boas razões para um dado comportamento,
pois assim, leva a um reconhecimento ainda mais indiscutível, sendo possível
conquistar fama e deixar um nome na história.
Dom Quixote, mesmo em situações extremas, mantém a pose. A pose é o
congelamento da ação. Falas, gestos e movimentos, ainda que pareçam em alguns
momentos fluentes e até excessivamente ensaiados, estão a serviço da fixação de
uma imagem, são ingredientes de uma representação e, nesta medida, são formas
congeladas e congelantes de relação com o mundo e consigo mesmo.

Como os comportamentos e as falas de dom Quixote visam exclusivamente à


construção e à manutenção de sua identidade, sob a dominância das imagens
idealizadas e sob o controle doa espelhos humanos em que busca a confirmação,
perdem todo o contato com a dimensão experimental e funcional de existência.

Dom Quixote sustenta essa identidade na garantia da defesa contra a aparente


fragilidade e injustiça de toda construção, que necessita de cavaleiros andantes no
mundo confuso e degradado no qual vive. Entretanto, argumenta-se por que logo ele
seria a resposta às demandas de ordem, caráter, nobreza e coragem? Nesse
momento, intervêm as ideias de inclinação para manejo de armas (já demonstrada
no gosto pela caça) e de predestinação.

Dom Quixote se apresenta como um messias: “eu sou o que é preciso que seja”

Outra garantia no qual ele apoia-se são um conjunto de defesas contra a


experiência. Todos os cavaleiros andantes, sabe que Dom Quixote, possuem alguns
privilégios que não podem ser facilmente feridos, outros não podem ser
deslumbrados. Na verdade, o privilegio de dom Quixote é também uma forma de
imaturidade. Ele é imune as experiências, em muitas ocasiões parece evitar
deliberadamente os testes funcionais que poderiam destruir as imagens, uma
questão que ele preserva permanentemente e incansavelmente sem resistir.

Ele não dá trégua à imaginação, ele trabalha metodicamente e vai longe,


principalmente quando se alia a uma atividade de auto-exibição e convencimento.
Além de evitar os resultados adversos e imaginar os favoráveis, a mais eficaz das
defesas contra a experiência é a desqualificação de resultados experimentais
mediante as interpretações racionalizantes. Nestas interpretações, a figura do
encantador ocupa uma posição estratégica: são os encantadores que,
supostamente, estariam por detrás de todas as decepções, são eles que
deliberadamente, contrariam as expectativas de dom Quixote. Nesta medida,
confirmam-se as crenças deste, já que as práticas dirigidas contra a ele reforçam
sua identidade justiceira dignos de inimigos. A crença na ação dos encantadores
não apenas torna a experiência compatível com a identidade imaginaria, mas faz da
experiência negativa uma instância positiva e ultraconfirmatória: “tudo que me dá
errado, prova que estou certo”.

De todas as garantias, a que mais apresenta eficácia é a produção de Dulcinéia del


Toboso (uma amada). A ideia de um amor puro e perfeito impõe-se a dom Quixote,
segundo o modelo cavaleiresco como uma evidência indiscutível. Contudo, como
condição de possibilidade de experiência cavaleiresca de mundo em uma
necessidade coletiva, Dulcinéia nunca fará, ela mesma, parte da experiência de dom
Quixote, dela ele pode formar apenas uma ideia. Quando essa ideia começa a
perder força diante de algumas experiências suspeitas, dom Quixote adoece e
morre. Assim, dom Quixote não é apenas um personagem que faz do romance uma
história engraçada de um louco simpático, ele não é somente cuidadoso e metódico
na construção e na manutenção de sua identidade. Ele é capaz de revelar uma
extrema lucidez, trazendo à luz os processos envolvidos. Pois fica claro que a
amada nunca passou de idealização de dom Quixote, no qual ele a pintou com as
perfeições que ele nela desejava.

A revelação destes procedimentos constitutivos de Dulcinéia e a exposição do seu


status de ideia reguladora são em outras palavras a representação satisfatória da
raiz excessiva da humanidade, dessa coletividade espantosa de expressões de si e
do mundo em que dom Quixote vive.

Nesse contexto, faz-se aí uma crítica antecipada de todas a superioridade da vida


civilizada e das suas representações e já denuncia a origem e a dinâmica
psicológicas de todas as supostas superioridades mobilizadas para garantir e
defender o reino das representações.

Portanto, esses procedimentos constitutivos de identidades imaginárias em grande


medida perduram. Ficando presente o radical esquecimento daquilo que gera e
conserva as representações na sua aparente autonomia.

Figueiredo apresenta as imagens da civilização fazendo alusão a dois personagens:


os sujeitos purificados do conhecimento e da paixão e tanto os sujeitos epistêmicos,
como o ético-passional se constituíram em processo de ascese gerando cisão e
expurgo.
O sujeito epistêmico é uma criação do método cientifico que pesam as diferenças
entre o empirismo e o racionalismo, em ambos o objetivo é a cura da mente,
implicando cisão da subjetividade. De um lado a subjetividade confiável, regular, de
outro a subjetividade suspeita, volúvel, inconstante. O que deveria ser excluído era o
sujeito enquanto fonte de variação, fonte de opiniões, tendências, vieses, desejos,
movimentos passionais e instintivos.

Toda confiança nas crenças científicas, a falta de vinculo com as tradições e de uma
obediência as autoridades, viria afetar a autonomia do sujeito epistêmico e a
eficiência dos procedimentos constitutivos. A medida que esses procedimentos se
estabilizam e tece-se com eles uma rotina metodológica, eles tendem a perder a
dimensão útil e fica em destaque a natureza padronizada e de privação, colocando
de lado seus limites e possibilidades, tendendo ao formalismo e, muitas vezes, vai
importar menos o conhecimento supostamente objetivo que possibilita do que o
sacrifício imposto a subjetividade particular, privada e variável.

Assim, fica clara a dupla face da exclusão: o reino do de identidades ficcional- o


sujeito do conhecimento purificado, e reino desqualificado- sujeitos das experiências
subjetivas, idiossincráticas, variáveis e ilusórias. Estes na fazem parte da
homogenia, não se encaixando na ordem e regularidade pressuposta pelas ciências
exatas e naturais.

Na verdade, os procedimentos de exclusão sejam nos campos da ciência como o


das artes, constituem as identidades imaginarias do conhecedor ou do homem ético
–apaixonado, na medida que forçam o esquecimento de tudo que possa denunciar a
natureza artificial dessas subjetividades, ficando de fora, o corpo humano nos seus
usos e funções, nos seus automatismos e na sua impulsividades. na subjetividade
suas ambiguidades, suas caraminholas e invencionices. Enfim ficava de lado o
natural.

Dessa maneira, a natureza humana fica mercê das representatividades, causando


essa separação e exclusão dos sujeitos. A vida, porém, tende a misturar o que
separaram, mistura a razão às paixões e ambas aos poderes do corpo e às
fraquezas do espírito. Isto é o que ocorre ao menos que fortes, penetrantes e
abrangentes dispositivos socioculturais ordenem a vida segundo os mesmo modelos
já identificados no pensamento epistemiológico e estético.
Norbert Elias (1985) descreveu o processo histórico que levou à formação das
grandes cortes europeias ao mesmo tempo em que limitava a autonomia das casas
senhorais e cortes de províncias. Resultando no império da etiqueta a que o próprio
rei devia se curvar. A vida cortês transformou-se numa exibição e confrontads
identidades claras e distintas.

Consequentemente pode influir sobre as construções sociopsicológicas, controlando


impulsos, condutas, autodomínio, auto-observação e observação dos outros.
Segundo a lógica da etiqueta, os maiores pecados sociais seriam a perda do
autocontrole e a revelação do corpo. Era como perder o domínio dos recursos
expressivos civilizados.

O esquecimento eficaz do que se dava para além e para aquém da representação


era a primeira obrigação social do individuo bem-sucedido, cuja principal virtude era
a capacidade de sentir vergonha. Nisso reside a função conservadora, tornavam a
vergonha de alguns incentivo a representatividade bem-sucedida. Convinha ainda
ajuda dos oradores sacros, que em alguns casos se tornavam a estrela da época.
As pregações propiciaram duas modalidades de produção da subjetividade. O
sermão dirigia o olhar de cada um para dentro a partir do mundo das
representações. O objetivo era um espelhamento fazendo com que os homens
caíssem em si a partir do reflexo que encontram nos outros, manifestando
arrependimento, não como culpa mas como vergonha. O pregador ensina a cada um
envergonha-se de si para consigo para que não se vá envergonhar depois diante
dos outros. A pregação, muito mais que a confissão, parece a forma adequada de
auxiliar na produção de identidades que se constituem e procuram se esgotar na
coincidência com uma imagem. O manejo das representações é o recurso básico do
bom pregador. O pregador talentoso tem como tarefa ensinar, emocionar e fascinar
sua plateia de forma a conduzi-la ao arrependimento pela vergonha.

Para Figueiredo esses sermões podem ser ainda hoje lidos e apreciados como
exemplo magistrais de arte da representação sem que nos sintamos movidos na
direção de qualquer arrependimento.

O caráter fictício, artificial, e ao mesmo tempo necessário da vida civilizada esteve


no foco da filosofia política de Thomas Hobbes (1588-1679), ele ao defender o
mundo das representações e das identidades ficcionais, aponta para o que existe
por detrás da civilização: uma natureza tão intolerável quanto indispensável e
preciosa.

Hobbes faz uma defesa da civilidade em que com argumentos convincentes, se


torna antipático e indiscreto. Indiscreto porque expõe sem disfarces a selvageria
natural do homem, seu egoísmo, sua destrutividade, a vontade de poder e seus
excessos. Antipático, porque ele não é do tipo que gosta de ser bajulado,
incomodando os contemporâneos.

Por uma questão de sobrevivência, a selvageria impõe a todos, o estabelecimento


de regras no qual são renunciado impulsos e poderes, transferência de direitos aos
representantes dos interesses, o soberano. É ele que legisla, executa e se defende
a contestações sobre sua soberania, como forma de manter coesão social. No
entanto permanece a selvageria e impulsos gerando duplicidade intima: o soberano
e seus súditos agindo estritamente no campo da civilização e segundo a logica da
representação, mas continuam abrigando em si suas pessoas naturais prontas para
agir enquanto forças da natureza, que justifica e dá caráter de necessidade ao
mundo das identidades fictícias do soberano e dos súditos.

Sem medos, sem impulsos, sem apetites, sem aversões, sem esperança os homens
seriam ingovernáveis, as ferramentas de controle social dependem disso para serem
eficazes.

Desse modo a civilidade existe tanto como instrumento repressivo quanto como
defesa do homem natural. Hobbes incomoda por que ele faz lembrar o homem
pretensamente civilizado o monstro que ele carrega consigo, a sua divisão interna,
a sua natureza intolerável e querida, motor e justificativa do mundo das
representações, mas que também é uma ameaça constante e seu maior valor.

Cornélio Jansen (1585-1638) desenvolveu, desenvolveu em oposição ao catolicismo


ideias condenadas e protestantes, acentuava ao contrario, a fragilidade e a
dependência, a submissão e a entrega absoluta diante de Deus.

Pascal (1623- 1662) é um homem dividido, ele não se diferencia, no entanto faz da
divisão uma reflexão: o da guerra entre espirito e corpo, ou entre intinto e
experiência, ou ainda entre razão e paixões. O resultado é uma ideia de homem
como monstro, como feixe de contradições, resulta do mesmo modo a
impossibilidade de representar o homem em uma imagem única que o identifique. É
possível suspeitar de todas as identidades que o homem toma para si e mostra para
para os outros. Por trás dessas imagens Pascal encontra apenas o amor-próprio,
interesses e uma profunda aversão a verdade.

Figueiredo termina o capítulo trazendo que vamos encontrar na tradição civilizada e


civilizatória psicologias que se levam a serio como conhecimento objetivo das
identidades substantivadas nos diversos tipos psicológicos, psicologias que voltam-
se para o analítico-funcional dos processos cognitivos ou das paixões e demais
estados subjetivos.

As psicologias resultarão em projetos que desvelarão ilusões, genealogias de


identidades civilizadas, como desconstrução de identidades fictícias, Estas
psicologias promovem certa dissolução do psicológico e nos remetem as dimensões
biológicas, politicas, religiosa e ética da experiência.

Figueiredo enfatiza que processos de cisão e exclusão enquadram e engessam a


subjetividade da civilização, apresentando como a construção metódica de
identidades, separa e exclui, mostrando também as articulações das
representações. Não podemos ser escravos de promessas esmagadoras da maioria
que dita o que devemos fazer e como. Precisamos nos conscientizar e nos libertar
da busca constante pelas representações, É necessário nos afastar da ideia de
querer ser visto, da preocupação do olhar do outro, de querer ser adorado e
estimado, nos padronizando, para não corrermos o risco de nos tornarmos
prisioneiros, comparando e competindo com as demais pessoas. O máximo que
poderemos conseguir será a insatisfação e frustação de não ter suprido as nossas
expectativas e nem as expectativas alheias.

O assunto a que se refere o texto sobre “Identidade e esquecimento: aspecto da


vida civilizada” é interessante porque através dele teremos alguns exemplos que nos
fazem refletir sobre a busca intensa de nos encaixar nas representações.
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*Graduanda do curso de Psicologia, Centro Universitário Maurício de Nassau


(UNINASSAU) Salvador-Ba.
Trabalho solicitado como forma de avaliação parcial da disciplina Fenomenologia e
Existencialismo I, ministrada pelo professor Marcello Ladeia.