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Frederico Mattos

mães que

amam
demais
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Frederico Mattos

mães que
amam
demais

2ª edição - Rio de Janeiro - 2012

Com2B
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Mães que amam demais / Frederico Mattos. 2ª edição. – Rio de Janeiro, 2012

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1. Mães que amam demais. I. Frederico Mattos.

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AGRADECIMENTOS
Agradeço a minha mãe Suely que aguçou minha curiosidade pela vida e me deixou livre
para ser quem eu sou.

“Se toda mulher gostaria de encontrar o homem perfeito agora que se tornou mãe ela vai
tentar o impossível. Para a criança isso pode custar caro demais.”
Frederico Mattos

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ÍNDICE

Prefácio
9
Apresentação
11
Introdução
13
Capítulo 1 – O que é o amor de mãe
15
Capítulo 2 – Mitos sobre o amor de mãe
17
Capítulo 3 – O que é demais?
25
Capítulo 4 – Quando a mãe percebe que tem o problema
29
Capítulo 5 – Características das mães que amam demais
33
Capítulo 6 – Características dos filhos amados demais
57
Capítulo 7 – Origens dos problemas
67

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Capítulo 8 – Quando o pai ama demais
73

Capítulo 9 – O papel do marido no conflito


79

Capítulo 10 – Quando as mães amam de menos


83

Capítulo 11 – A sombra da mãe: a madrasta


87

Capítulo 12 – o amor saudável e espiritual


93

Conclusão
99

Indicação de filmes
105

Indicação de livros
103

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PREFÁCIO
“Ave Maria cheia de Graça!”
Prece Cristã

“Tudo o que fizerdes, faças com amor!”


Nascemos para amar e aprendemos rapidamente o quanto esse sentimento tem poder.
Acredito que é exatamente nesse ponto que começa o nosso problema com o amor. Achar a
medida certa para amar não é uma tarefa muito fácil, principalmente para nós mães.
Me lembro da emoção que tive ao ver meu primeiro filho nascer. No momento em
que o vi, senti um amor único e extremamente poderoso invadir o meu coração, como se
fosse um feixe de luz muito forte. Algo novo na minha vida e uma emoção sem igual.
Foi mesmo muito amor.
Daquele momento em diante estava decidida a fazer o que estivesse ao meu al-
cance para vê-lo feliz.
O Gabriel saiu do meu útero e esse amor maior tomou conta do meu corpo. E foi
também assim com o nascimento da Carolina. A sensação de ser uma leoa que estaria
disposta a lutar até a morte pela minha cria, era real. Não queria vê-los chorar, não queria
que sentissem dor e não suportaria viver sem eles. Qualquer ameaça me tiraria do sério.
Sou uma Mãe que ama demais....
Sim, amo demais e acho que todas nós amamos mesmo. Amamos em excesso
e sem medida.
A proposta inteligente desse livro, com o qual Frederico Mattos nos presenteia é
achar a maturidade nesse amor e viver um amor maduro para transformar nossos pe-
quenos em grandes e felizes homens e mulheres.
Precisamos amadurecer, e lutar para viver um amor de mãe, amor de gente grande,
com sabedoria e discernimento. Amor maduro, sem egoísmo. Amor altruísta, amor que
constrói. Amor verdadeiro que conhece regras e limites.
Frederico Mattos nos propõe um amor maduro para com nossos filhos e esse amor
realmente vale a pena. Precisamos apresentar para os nossos filhos a lei das causas e conse-
qüências, precisamos dizer não, quando necessário, e sermos firmes diante das decisões.

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Filhos felizes precisam de mães com amor maduro. E para isso, nós mães, precisa-
mos amadurecer. Precisamos ser maduras, termos pés no chão, serenidade e equilíbrio.
Assim como amamos demais, os filhos vão nos amar como realmente somos. Não pre-
cisamos ser assombradas pelo medo do abandono por parte dos nossos filhos. Precisa-
mos agir hoje com determinação em fazer o nosso melhor sem medo da desaprovação.
Os filhos precisam dos nossos limites.
A boa notícia é que Mães que amam demais é um livro leve, inteligente e liberta-
dor. Frederico Matos mostra o quanto as mães são humanas e os erros que cometem
são em sua maioria na tentativa de acertar. Talvez você não perceba que ama demais
ou talvez vá perceber que é uma mãe que ama com maturidade. Tenho certeza que essa
leitura será um presente para você e uma aliada na difícil arte de ser mãe. Aqui você vai
descobrir novos caminhos para educar e amar seus filhos.
Estamos juntas nessa caminhada.
Cláudia Tenório
Comunicadora, apresentadora de Televisão e autora do livro “Dicas para uma vida melhor”

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APRESENTAÇÃO
“Ave Maria cheia de Graça!”
Prece Cristã

“Mãe! Por que você me trata como se eu fosse uma criança?” – esbraveja o filho revoltado.
“Você sempre será o meu menino!” – responde a mãe desconsolada.
“Eu já tenho trinta e quatro anos mãe!” – replica indignado enquanto cutuca sua barba.
“Mas eu te amo tanto, querido!” – balbucia baixando o olhar.
“Se esse é seu jeito de amar, então não me ame!”
De agora em diante você terá acesso a uma informação de utilidade pública.
Mãe é sempre um assunto de utilidade pública.
Todas as pessoas do mundo, sem exceção, tem mãe.
A primeira relação humana que todo ser humano tem é com a mãe, portanto, essa
será a base de qualquer experiência amorosa experimentamos ao longo da vida.
Por essa razão resolvi falar um pouco sobre o amor de mãe (ou de pai) e seus exageros.
Esse livro fala de mães ou pais que por excesso de amor (ou apego, carência) aca-
bam sufocando e retardando o desenvolvimento espontâneo, saudável e criativo de seus
filhos (mesmo que não admitam isso...).
É um guia prático para que você que é mãe possa compreender até onde vai o amor
saudável e onde começa o aprisionamento emocional.
Para você que é filho, essa leitura servirá para que identifique se sua mãe é aquela
que AMA DEMAIS e com isso estabelecer uma relação mais saudável com ela.
Em essência não é um manual, mas um guia de reflexão sobre a vida e como deixá-
la mais livre de fórmulas prontas.
Seja você mãe, pai, filho, profissional da área da saúde ou da educação, enfim, você
precisa ler e recomendar essa leitura.
É por amor a todas as mães e em nome delas que escrevo.
Esse é um alerta sobre os riscos de um amor excessivo que pode se transformar
rapidamente numa relação tóxica e prejudicial para o crescimento do seu filho.
Amém!

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INTRODUÇÃO
“Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu re-
guei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento.
Foi nela que eu matei as larvas. Foi ela que escutei queixar-se ou gabar-se, ou
mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.”
O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês

Medite sobre sua mãe por alguns minutos e deixe que todos os pensamentos, sen-
timentos e sensações ligados a ela tomem conta de você.
Seja honesto e deixe que as boas e más lembranças cheguem até sua mente.
Se quiser anote as imagens e sensações que lhe vieram a cabeça...
Se conseguir, faça essa meditação rápida antes de começar cada capítulo.
Em nossa cultura ocidental, especialmente a latina, a mãe é muito idealizada pelos
filhos, pelas próprias mães e pela sociedade de forma geral.
A mãe continua sendo uma imagem santificada e idolatrada em todas as épocas.
Muitos livros, poemas, canções e homenagens são realizadas paras as mães.
O dia das mães é uma das datas mais prósperas comercialmente. Todos se sentem
em dívida emocional e procuram retribuir um pouco do muito que receberam. Em
virtude de tanta idealização, muitas mulheres realmente acabam acreditando que a
maternidade as transforma em seres de grande sapiência e virtude.
Esquecem que são mulheres com medos, inseguranças, frustrações, sonhos não-
realizados e desejos comuns.
Numa certa época da história da psicologia, a mãe foi colocada no centro dos dra-
mas humanos. Qualquer conflito, trauma ou lembrança ruim da infância era atribuída
ao mau desempenho da mãe.

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Não pretendo cometer esse engano.
As mães são essenciais à vida. Unindo seu amor ao de um homem, a mulher oferece
condições para que a vida se manifeste e se desenvolva com sucesso.
Após o nascimento todos os esforços são colocados em prática para que aquele
bebê se fortaleça, se eduque e se crie como uma pessoa com princípios, boa educação,
sucesso e felicidade.
No entanto, esse percurso normalmente é recheado de percalços e obstáculos, afi-
nal o ciclo da vida não está livre de perdas, sofrimento e insucessos.
Portanto, atribuir as desgraças do mundo a um tipo de amor de mãe insuficiente,
degenerado ou doente seria um descuido.
As mulheres se cobram um desempenho excelente como se fossem um misto de
executivas, pedagogas, psicólogas, médicas e etc. No fundo querem provar para si mes-
mas que são capazes de encaminhar os filhos de forma adequada. E na maioria das vezes
não querem repetir os erros que seus pais cometeram.
A cultura pressiona as mães, a sociedade exige um desempenho excelente, a família
constrange a mulher a esse papel e o resultado é que resta às mulheres serem fiéis às
expectativas impossíveis.
Aí tem início o AMOR QUE AMA DEMAIS.
E uma última recomendação antes de prosseguir a leitura: se você se leva excessiva-
mente à sério, não gosta de mudanças na vida e acredita que tudo o que faz está certo,
talvez esse livro não cairá no seu agrado.
E se você for assim (mas quiser mudar) abra o seu coração e deixe que essas idéias
atinjam sua alma e não apenas seus pensamentos.
Tenho certeza que seu amor de mãe só precisa de uma ajudazinha para voltar aos
eixos e tornar todos felizes!

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CAPÍTULO 1

O QUE É O AMOR DE MÃE


“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante.”
O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês

A experiência da maternidade é algo único na vida de muitas mulheres. É como se


um sentido de grandeza e de amor profundo nascesse daquela relação mãe-filho que a
mãe não consegue explicar em palavras.
Por vezes é experimentada como uma vivência superior ao amor entre homem e
mulher como se fosse a consagração de um ideal de vida ou uma missão que se comple-
tasse no momento de dar à luz.
É um amor incondicional – diriam algumas mães – completamente desprovido de
interesse, egoísmo e maldade.
Essa visão do paraíso, no entanto, é contraditória à maioria de relatos de filhos
sobre suas mães e de mães com suas próprias mães.
As pessoas sempre se referem às suas mães (há excessões) com alguma dose de triste-
za e insatisfação. Há casos em que isso é escancarado pelo absurdo de algumas histórias
que beiram a bizarrice, já em outros casos esse desagrado é menos evidente porque os
filhos nutrem um sentimento de culpa que chamam de gratidão.
Tanto eu como você gostaríamos que as experiências com a mãe tivessem sido pre-
enchidas de amor intenso, muito carinho, atenção exclusiva e permanente.
No entanto, o mesmo caldo emocional presente nas relações humanas em geral
surge na maternidade. Ser mãe não cria um mundo à parte no qual só o bem existe; é
o mesmo universo.

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Do amor de mãe se espera uma dose grande de generosidade, sacrifício, exclusivida-
de e devoção. Mas todos sabemos que seria ilusório imaginar que uma mulher receberia
todos esses dons de forma imediata e automática pelo simples fato de se tornar mãe.
Essa visão de maternidade tem poucas centenas de anos.
O amor de cada ser humano é a descrição de uma receita única que muda de pessoa
para pessoa. E em cada receita de cada amor vivido estão contidos todos os ingredientes
das personalidades das pessoas.
Mãe e filho, portanto, se amam com toda a dose de turbulência, dificuldade e
perturbação que uma relação humana pode expressar.
O amor de mãe não está imune a problemas sérios.
Mulheres e homens com todo tipo de bloqueio, limitações, problemas emocionais
e dificuldades são capazes de conceber um filho. A natureza biológica não exige ne-
nhum tipo de inscrição no “clube da sanidade” para permitir a capacidade de procriar.
Mulheres com carências e problemas de todos os tipos geram seus filhos e podem
repetir na relação com estes os mesmos tipos de conflitos e fantasmas que as perturbam
pessoalmente.
A mãe é uma mulher comum que teve um filho. É desse nível de realidade que trato
o amor EXAGERADO de mãe.
Acho prudente questionar alguns mitos que alimentamos sobre as mães antes de
aprofundar o assunto.

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CAPÍTULO 2

MITOS SOBRE O AMOR DE MÃE


“Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até
uma cretina, quando tem um filho, melhora.”
Nelson Rodrigues, dramaturgo e contista brasileiro

Se o amor de mãe foi idealizado como símbolo de renúncia, sacrifício e devoção é


natural que isso tenha surgido em algum momento da história.
Segundo as psicólogas Kátia Rosa Azevedo e Alessandra da Rocha Arrais no artigo
intitulado O mito da mãe exclusiva e seu impacto na depressão pós-parto:
“Ao contrário disso, Forna (Mãe de todos os mitos: Como a sociedade modela e reprime
as mães. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1999) nos conta que esse estilo de maternagem teve
seu início em 1762, a partir da publicação de Émile, por Rousseau, quando este criticou as
mães que enviavam os filhos para as amas-de-leite, o que era bastante comum até esta época.
Ele recomendava, enfaticamente, que as próprias mães amamentassem e criassem seus filhos
e as recriminava por darem preferência a outros interesses. Segundo Badinter (1985) dá-se
aí, o início à injunção obrigatória do amor materno. Serrurier (1993) também afirma que é
deste Émile, que estamos condenadas a ser mães e a ser boas mães. Não há alternativa para
a mulher: a vocação materna é natural, instintiva e obrigatória!”
Espero que com essas informações você já possa entender que essa idéia da mãe amo-
rosa e devota não corresponde à verdade absoluta em todas as épocas da humanidade.
No seu livro “Meio século de Psicoterapia verbal e corporal” o querido psiquiatra
José Ângelo Gaiarsa disse:
“Para inúmeras pessoas – repito, no mundo todo – o poder familiar é o único de que
qualquer pessoa pode gozar. O pai sobre todos os da família e a mãe sobre os filhos. Ser pai

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de família é o poder mais fácil de conseguir, em qualquer lugar do mundo – e o de efeito
mais duradouro. E, pior de tudo, não exige capacitação alguma para... conquistá-lo.”
Para trazer novas reflexões sobre a maternidade eu me apóio nessa afirmativa acima,
e de que devemos questionar o tabu de que os pais têm toda a sabedoria do mundo.
Agora vou falar de algumas (entre inúmeras) ideias fantasiosas que alimentam os
maus hábitos familiares, que costumamos repetir sem pensar e que espalhamos como
se fossem “grandes verdades”.

Amor de mãe é incondicional

A crença de que as mães amam seus filhos incondicionalmente é parcialmente verdadeira.


Pense um pouco, o que é amor incondicional? É um amor que não impõe condi-
ções para amar. Nesse sentido o amor de mãe é incondicional.
O amor materno pelo filho acontece naquele encantamento natural e necessário da
criança ser amada simplesmente por existir. Nesse sentido é um amor passivo. A criança
não precisa fazer nada para merecer isso, apenas existir.
No entanto, esse amor mais simbiótico se sustenta nos primeiros anos de vida em
que a criança recebe tudo gratuita e constantemente.
Com o passar do tempo ela desenvolve suas próprias qualidades e, como é natural,
eventualmente surgem as frustrações e divergências.
Será que a qualidade de relação de um amor perdura sem condições durante anos?
Claro que não.
As mães são pessoas comuns e como todo ser humano, o seu amor é contagiado
pelas suas virtudes e contaminado pelas suas sombras e limitações.
Mulheres possessivas amarão possessivamente.
Mulheres agressivas amarão com terror.
Mulheres inseguras amarão com fragilidade.
Mulheres deprimidas amarão com apatia e desleixo.
Mulheres raivosas amarão com insegurança ou culpa.
Mulheres com medos amarão com muitas regras e limites.
Além disso, toda relação humana é uma via de mão dupla, é preciso uma troca. A
idéia de que não é preciso nenhum reconhecimento para que o amor permaneça é en-
ganoso. Mesmo os mestres espirituais se nutrem do amor das pessoas, que podem não

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ser dependentes dele, mas necessitam desse retorno. Afinal, existe uma grandeza e hu-
mildade em receber, quem só quer dar é tão orgulhoso quanto quem só quer receber.
Na prática todos querem algo em troca e isso não é ser interesseiro ou egoísta, mas
realista, pois a troca é necessária sem diminuir a intensidade, grandeza e nobreza do amor.
Amar sem um mínimo de correspondência não é uma relação real, apenas imaginária.
O amor em sua mais refinada manifestação é nobre porque alcança todas as demais
emoções e as acolhe sem excluir nenhuma.
Se sinto raiva da pessoa amada não me penitencio por isso. O amor seria o navio
que abarca todo tipo de passageiro e não se deixa destruir por nenhum deles. Neste
caso, a raiva pode estar presente, e ainda assim eu amar aquela pessoa.
Quanto maior o amor e mais clareza do que ele é capaz mais a mãe consegue permi-
tir que algumas emoções difíceis façam parte da relação sem que elas se instalem. Negar
a raiva, o medo ou a culpa cria condições para que elas se prendam a você, e permitir
que elas fluam faz com que sigam seu caminho.
Cada mãe terá suas condições com os filhos. Que se dediquem, estudem, dêem
carinho, sejam inteligentes para reforçar (não criar) o amor e admiração de mãe.
O amor de mãe é incondicional, mas a qualidade da relação humana entre a mãe
e o filho é alimentada pelas condições do momento. A boa qualidade mantém uma
relação saudável, a má qualidade enfraquece o vínculo, como qualquer relação.
Portanto, o amor é incondicional, mas a qualidade da relação é condicional.

Mãe é pra vida inteira

Realmente essa é uma crença que não mente.


Mãe é para a vida inteira, querendo ou não.
Você pode se separar de quantos maridos ou esposas quiser. Pode sair de todos os
empregos que quiser. Tudo na vida pode ser “ex-alguma coisa”. Mas mãe nunca vira ex.
Não importa o quanto você brigue, se debata, se magoe, seja maltratado, humilha-
do e abandonado. Sua mãe sempre será sua mãe.
Por uma condição biológica inquestionável você só está aqui por causa de sua mãe
biológica. O amor de todas as pessoas do mundo não chegariam até você se a sua mãe
não tivesse guardado sua vida durante nove meses.
Portanto, seu DNA estará carimbado com todas as tendências genéticas favoráveis
e desfavoráveis que sua mãe carrega, goste ou não.

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A culpa de tudo é da mãe

Houve uma época que a Psicologia foi acusada de atribuir todos os males do mun-
do à mãe. E esse é um engano.
É verdade que a mãe é a pessoa com a qual todo ser humano cria o primeiro vín-
culo. Toda a gestação se dá no ventre da mãe e o psiquismo infantil vai se moldando
nesse contato primitivo.
Após o parto normalmente a pessoa que mantém o contato mais íntimo costuma
ser a mãe. A mente infantil vai ganhando consistência e atingindo níveis cada vez maio-
res de complexidade sob os encantos da relação com a mãe.
Os primeiros problemas no comportamento infantil costumam ser um reflexo di-
reto do temperamento, do humor, das reações externas dela. A criança capta instintiva-
mente seus medos, alegrias, tristezas e desejos.
Com o passar do tempo pouco a pouco a criança é influenciada por outros estímu-
los que interferem no seu amadurecimento.
É com ela que aprendemos a amar e odiar. Seu olhos condicionam nosso olhar, seus
desejos e sonhos inspiram os nossos. Os medos e sofrimentos mais primitivos que carre-
gamos costumam estar associados ao sentimento de aceitação ou rejeição de nossa mãe.
No entanto, os problemas de uma pessoa não estão reduzidos à influência única e
exclusiva da mãe. Seria uma ingenuidade acreditar que um problema tem uma única
causa. Portanto, melhor ter cuidado com afirmações definitivas para não correr o risco
de ser simplista e reducionista.

Ama todos os filhos do mesmo jeito

Pergunte para qualquer mãe diante de seus filhos qual é mais amado. A resposta
será unânime “todos do mesmo jeito”. Agora pergunte em particular com qual deles
tem mais afinidade e ela elegerá um deles.
Um filho chega a ter calafrios ao pensar que não é o predileto, mas ele também não
consegue entender a diferença entre amor e afinidade.
O amor pode ser reforçado e alimentado pela afinidade ou minguado por diferenças.
A base do amor permanece, no entanto, a intimidade é influenciada pelo convívio.
Cada filho tem um temperamento diferente, e cada gestação carrega uma história
única, que pode ser mais ou menos especial ou complicada. Ainda que a mãe não quei-
ra, muitos fatores interferem inconscientemente no afeto por cada filho.

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Ninguém controla a força dos sentimentos. Muitas vezes a mulher carrega culpas e
raivas com relação ao filho que tem relação com seus próprios conflitos ou que envol-
vem o pai da criança.
Cada filho, portanto, vem com um tempero psicológico que pode cair mais
no paladar da mãe em comparação com os outros filhos. A questão muda de
cenário, pois não importa o amor, mas o entendimento que cada filho tem um
“sabor diferente.”
Existem outros aspectos que permeiam o inconsciente familiar e que podem afetar,
sem que se saiba, a qualidade da relação. Falarei mais sobre isso no capítulo que trata
as origens do amor exagerado.

Mãe é tudo igual. Só muda de endereço

Seriam todas iguais às mães de todo o mundo? Claro que não, se pensamos que
cada pessoa é única com seu corpo, psiquismo, contexto social e cultural.
No, entanto alguns traços biológicos, psicológicos e culturais trazem algumas se-
melhanças e coisas em comum entre elas.
O cuidado materno inclui o senso de proteção, cuidado, carinho e encaminhamen-
to (e seus exageros).
É comum que toda pessoa sinta, ainda que secreta ou inconscientemente que não
foi suficientemente atendida por sua mãe e isso cria aquele sentimento coletivo de que
todos somos irmanados pela mesma carência essencial.
Isso leva a pensar que todas as mães são iguais até porque existe uma cultura que
pressiona as mães a adotarem um certo tipo de comportamento típico e padrão.

A mãe tem uma missão divina

A crença de que a mãe estaria encarregada de completar a criação de Deus pode


levar a enganos e exageros incríveis. A imagem que cada um faz de Deus já é suficiente-
mente confusa e cheia de preconceitos, fanatismos e instabilidades.
Partindo dessa idéia cheia de particularidades imagine que uma mulher, até então
humana, se ache após o nascimento do filho, uma pessoa dotada de poderes divinos.
Toda imagem de onipotência, onisciência e onipresença que se atribui a Deus passa
a ser emprestada e exigida daquela mulher com recursos bem limitados e falíveis.

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Se ela se acredita realmente co-responsável numa saga espiritual, pode sucumbir a
grandes frustrações e distorções.
Pode se colocar como uma autoridade inquestionável e sem erros. Acreditar-se ins-
pirada por Deus quando só está inebriada por suas carências e fantasias pessoais.
Aliás, existe algo mais divino do que ver uma pessoa se transformar num ser humano com
todas “virtudes” e “defeitos” e por isso mesmo digna de todo respeito e amor do mundo?

Mãe é uma mulher santa e nunca quer o mal do filho

Se você acredita que a mulher quando se torna mãe é beatificada, então vai discor-
dar da idéia de que uma mãe possa querer e fazer o mal para seu filho.
No meu livro “Por que fazemos o mal?” tratei sobre o tema do mal e de como
podemos sem perceber sucumbir ao desejo de prejudicar uma pessoa. Normalmente a
pessoa que agride, maltrata e destrói está imbuída de uma causa ou desejo que consi-
dera nobre e justo.
Dificilmente alguém vai se admitir prejudicando alguém sem nenhuma razão.
Mas a tarefa de educar um filho põe a mulher numa linha tênue entre conduzir e
estimular o crescimento pessoal de seu filho ou sufocar seu desenvolvimento.
Seria estranho imaginar que mulheres com limitações, conflitos, desejos tempestu-
osos estariam imunes de praticar ações destrutivas contra seus filhos.
Como primeiras educadoras na vida de uma pessoa podem acreditar que são donas
da verdade absoluta. Uma pessoa possuída por essa crença pode se tornar absoluta-
mente inplacável. Uma palavra aparente de carinho se transforma facilmente numa or-
dem impositiva e castradora. Uma reprimenda física pode se tornar uma tortura física.
Pedidos podem se tornar chantagens, preocupações viram ameaças e acontecimentos
comuns revelarem-se grandes dramas.
As mães, portanto, podem fazer mal a seus filhos sem que o saibam quando acre-
ditam desejar o bem. Conscientemente nenhuma mãe irá admitir um desejo ou ação
danosa, mas o que vemos na prática é que muitos danos são causados em nome de um
amor distorcido. O fato é que seja mãe ou não, toda pessoa guarda desejos e sentimen-
tos inconfessáveis.
Como conseqüência dessa ideia de que a mãe é incapaz de fazer algum mal surge
outra de que SOMENTE ELA é capaz de amar o filho e mais ninguém.
Mas será que mais ninguém tem capacidade de nos amar além da mãe? Privar uma
pessoa de amar e confiar nos outros não seria em si mesmo um mal?

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Com a mãe existe dívida de gratidão eterna

Dívida de gratidão... O que vem a ser isso?


Parece que o filho fica com uma pendência com a mãe que o torna refém para o
resto da vida...
Será que pelo fato de ter dado a vida ao filho a mãe tem poderes vitalícios sobre o
destino e a vontade de seus filhos?
Claro que não. Se uma mãe deu a vida a seu filho, qual seria a melhor forma dele
retribuir? Devolvendo a vida? Para pagar essa “dívida” teria que morrer em nome da
mãe. Mas como não podem fazer isso, muitos filhos sentem que precisam ficar perpe-
tuamente devendo obrigações e retribuindo favores à ela.
Nem que tentasse pagar todo o dinheiro investido nele o filho conseguiria retribuir
o valor gasto em sua educação. Essas retribuições exageradas, portanto, são criações
ilusórias de nossa mente e reforçadas pela cultura.
Quando você ganha um presente de alguém é natural que você cuide, preserve e aumente
o valor daquilo que recebeu. É uma forma de homenagear a pessoa que o presenteou.
Se um filho valoriza, honra e respeita a própria vida essa é a maior gratidão que
pode expressar.
Nenhuma dívida é necessária ser paga aos pais, pois as águas do riacho seguem mar
adentro e não retornam à fonte. A fonte é próspera.
Os pais dão e os filhos recebem. Essa observação feita por Bert Hellinger, terapeuta
alemão, retrata a beleza da relação entre pais e filhos. Esses filhos, por sua vez oferecerão
aos seus próprios filhos ou a gerações seguintes os presentes que receberam de seus pais.
Infelizmente algumas mães se utilizam e reforçam a cultura da gratidão distorcida
de forma a manter o domínio que exercem sobre seus filhos por toda a vida. Quem
paga o preço? Todos!

Eu quero poupar você dos erros que eu cometi

Será que a mãe tem o poder de impedir que os filhos sofram aquilo que ela sofreu?
A maior parte das mães acredita que sim.
Isso é puro delírio.
Se você acredita que o sofrimento é algo necessariamente ruim deve estar levando
um tipo de vida frágil e sem vigor. Provavelmente deve estar fazendo escolhas tão caute-

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losas que não produzem nenhum resultado. Deve sofrer muito por antecipação e sequer
permite que mudanças reais e necessárias aconteçam na sua vida.
É provável que você veja cada transformação (normalmente acompanhada de per-
das e ganhos, erros e acertos) como um dano e não uma dádiva.
Se você é assim, provavelmente deve criar seus filhos de maneira superprotetora. Esse
falso cuidado na maior parte das vezes está recheado de medo, insatisfação e amargura.
O sofrimento que você interpreta que viveu foi fruto de uma mistura vasta de
circunstâncias internas e externas. Portanto, nenhum sofrimento que vivemos pode ser
reproduzido no laboratório da experiência humana. Ainda que as circunstâncias exter-
nas sejam parecidas as reações internas podem ser completamente diferentes.
Isso quer dizer que aquilo que você experimentou como sofrimento jamais poderá
ser vivido pelo seu filho da mesma forma.
Cada trajetória é única. Aquilo que seus filhos se queixarão como sofrimento pode
ser fruto de algo que você nunca consideraria como tal. E aquilo que seria altamente
doloroso para você pode ser visto com muita leveza e bom humor pelo seu filho.
Querer controlar o futuro dos filhos com recomendações, precauções, ameaças an-
tecipatórias pode se transformar na maioria das vezes em tortura psicológica.
Você provavelmente vai criar condições para filhos frágeis, ingênuos e desprepara-
dos para a vida. Não tente poupar seus filhos de nada, deixe que eles aprendam isso por
conta própria. Dê suporte, mas não queira ser profeta.
Se você respeita as suas escolhas certamente suportará as escolhas de seus filhos,
principalmente aquelas que sejam muito diferentes das suas.

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CAPÍTULO 3

O QUE É DEMAIS?
“O exagero é uma verdade que perdeu a calma.”
Khalil Gibran, poeta árabe

O que é amar demais na educação de um filho?


Pense em sua relação com seus filhos, ou com sua mãe. Tente trazer a sensação mais
próxima que puder da realidade.
Agora imagine que seu filho (ou você) tivesse que fazer uma longa e demorada via-
gem para um país distante e até inacessível e que precisasse permanecer lá por dois anos.
Essa viagem significaria muito para a vida dele, traria muito crescimento, felicidade e
bem-estar para sempre.
Observe atentamente: qual é a sua sensação interna? Como você se sente emocio-
nalmente com essa distância? Quais pensamentos lhe vem a mente? Como você acha
que seria sua vida?
Seja honesta consigo mesma, você se sentiria feliz pelo seu filho a ponto de deixá-lo
partir tranqüilamente?
As respostas que você chegou são variadas. Você pode ter sentido um aperto no
peito, um sufocamento na garganta, um sentimento de angústia ou até tristeza. Pensa-
mentos como “que mãe não se sentiria mal?”, ou “seria quase impossível para mim!”,
“acho que meu mundo viria à baixo!”, “toda minha base ruiria”, “não teria mais tanto
gosto na vida!”, “como eu preencheria meus dias?”, “esse livro não está me ajudando,
está me deixando mais aflita!”.
Se você é uma mãe que ama demais deve ter sentido uma verdadeira sensação de
pânico. Primeiro indício do exagero.

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Talvez seja importante oferecer uma ideia geral sobre o desenvolvimento das crian-
ças, antes de falar o que é exagerado.
Crianças pequenas certamente precisam de cuidados, como ter sua temperatura re-
gulada, serem alimentadas, lavadas, transportadas, enfim, precisam de referências para
que seus impulsos naturais sejam orientados. É um cuidado básico e até certo ponto
previsível, pois são poucos botões que precisam ser apertados para que ela sobreviva
adequadamente.
Na medida que crescem elas vão desenvolver pouco a pouco o seu senso de sobrevi-
vência por si mesmas. Começam a desabrochar emoções básicas como alegria, tristeza,
medo, raiva e afetuosidade. O nível de complexidade aumenta e exige da mãe que esteja
sintonizada consigo mesma para que possa perceber e oferecer estrutura a essa criança
que ganha autonomia.
Donald Winnicott que trabalhou como pediatra e tornou-se um grande psicanalis-
ta britânico diz em seu livro “Conversando com os Pais” na pagina 105 que “Sobrevém
então uma luta contra a segurança que é fornecida pelo meio ambiente (...) os pais con-
tinuam a postos com uma estrutura disciplinar, com as muralhas de pedra e as barras
de ferro, mas na medida em que sabem como cada criança é e na medida em que estão
interessados na evolução de seus filhos como pessoas vêem com bons olhos o desafio.”
Isso quer dizer que os pais precisam ter uma estrutura emocional básica para dar
conta de sentimentos e ações contraditórias das crianças. Elas oscilam entre busca de
proteção e cuidado e ao mesmo tempo tentam ser independentes dos pais. Ele prosse-
gue dizendo:
“As crianças saudáveis necessitam de pessoas que continuem exercendo o controle,
mas as disciplinas devem ser proporcionadas por pessoas que possam ser amadas e
odiadas, desafiadas ou de que se dependa; os controles mecânicos são inúteis e tam-
pouco o medo pode ser um bom motivo para a obediência. É sempre uma relação
viva e estimulante entre pessoas que fornece a necessária liberdade de que o verdadeiro
crescimento precisa.”
Em outras palavras a mãe precisa se colocar num papel inicial indispensável, depois
parcialmente dispensável, até ser dispensável. Uma qualidade fundamental do amor
maduro é a liberdade.
O amor exagerado desconhece essas etapas no processo de evolução dos filhos.
Ela tem o filho para si mesma e, portanto, desconsidera o surgimento de uma per-
sonalidade independente da sua própria.
A superproteção é como um vício que se torna compulsório com o tempo. Stanton
Peele autor de “Amor e vício” diz que a: “experiência viciadora é aquela que absorve a
consciência da pessoa e, como acontece com analgésicos, alivia a sensação de ansiedade
e dor. (..) O relacionamento viciador é caracterizado pelo desejo da presença animadora

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de uma outra pessoa... O segundo critério é que o relacionamento diminui a habilidade
da pessoa em prestar atenção a outros aspectos da vida e em lidar com eles.”
O exagero no amor se torna um vício e uma dependência como uma necessidade
cega e imposta ao filho.
Ambos vivem uma relação simbiótica em que as necessidades da mãe são exclusiva-
mente concretizadas no cuidado com o filho.
Uma mãe apressada vai querer se defender dizendo: mas cuidar dos filhos não é
recomendado para que ela tenha um sentimento de segurança e amor?
Winnicott responderá com mais propriedade quando diz que “Boas condições nos
estágios iniciais da vida levam ao surgimento de um sentimento de segurança, e o sen-
timento de segurança leva ao autocontrole, e quando o autocontrole é um fato, então a
segurança que é imposta é um insulto”.
O que numa época é importante em outra é uma agressão ao desenvolvimento de
uma criança. Não seria muito adequado manter uma criança com fraldas aos 3 anos; ou
com mamadeira aos 5; limpar a boca suja do filho aos 10 anos ou andar de mãos dadas
na rua ao 15 anos do lado da namoradinha dele.
Se a mãe não é capaz de compreender qual é a necessidade crescente e evolutiva
do filho é porque está presa no seu desejo único de ser mãe e cuidadora e não no seu
crescimento real.
O amor maduro sente e sabe que existem duas pessoas na relação, o amor exagera-
do acha que existe apenas uma.
Esse é o exagero da mãe que ama demais.

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CAPÍTULO 4

QUANDO A MÃE PERCEBE QUE


TEM O PROBLEMA

“Ei, mãe, não sou mais menino


Não é justo que também queira parir meu destino
Você já fez a sua parte me pondo no mundo
Que agora é meu dono, mãe
e nos seus planos não estão você
Proteção desprotege
e carinho demais faz arrepender
Ei, mãe
Já sei de antemão
que você fez tudo por mim e jamais quer que eu sofra
Pois sou seu único filho
Mas contudo não posso fazer nada
A barra tá pesada, mãe
E quem tá na chuva tem que se molhar
No início vai ser difícil
Mas depois você vai se acostumar.”

Erasmo Carlos, Música “Filho Único”

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Mas afinal, quando a mãe percebe que tem um problema que ama demais?
Quando os filhos começam a crescer!
Nessa fase já não é possível mais fingir que tudo está bem.
Os conflitos e problemas de relacionamento ficam evidentes. Começa a haver uma
rachadura na relação mãe-filho. Os filhos se sentem presos, angustiados e começam
a parecer crianças em corpos de adulto. Quando adultos, esses filhos não têm inde-
pendência financeira, moram com os pais, não se casam e ficam dedicados quase que
exclusivamente a adorar e servir à mãe.
Conheço um rapaz que tentou fazer terapia com uma psicóloga mulher. Ele teve
bons insights sobre a relação problemática com a mãe, mas depois de seis meses de
tratamento a mãe quis conversar com a terapeuta.
Final da história, a mãe tentou agredir a psicóloga porque, na opinião dela, a psicó-
loga estava tentando roubar o “seu menino”. Detalhe: ele tinha vinte e cinco anos.
Enquanto os filhos são crianças a mãe que ama demais passa despercebida aos olhos
sociais.
A vizinhança a chama de “exagerada”, “superprotetora”, “zelosa”, “coruja”, “muito
amorosa” e até exemplar.
Com o passar do tempo os exageros aparecem, pois independente do tempo que
passa com os filhos sua ação é onipresente. Cada passo é monitorado e vigiado.
Na adolescência começa o ponto crítico do problema. Nesse momento os filhos
fazem a travessia definitiva do berço materno em direção ao mundo.
Os jovens começam a comparar o que acontece na sua casa e na dos amigos. Os
pais deixam de ser perfeitos para os filhos e aquelas verdades inquestionáveis vão sendo
quebradas pouco a pouco.
Essa busca pessoal de independência, criatividade, questionamento e liberdade é
vista como um desastre ou traição pelas mães que amam demais.
IMPORTANTE: Os relacionamentos saudáveis suportam questionamentos, crises
e tempestades, mas as relações rígidas, autoritárias e exageradas não suportam contra-
riedades.
A mãe que ama demais não tolera ver o seu bebê “caindo nas garras dos outros”.
Compartilhar seu menininho com a namoradinha ou vê-lo trocar seu lar pela casa do
amigo ameaça sua segurança.
Até então o filho imaginava que sua mãe era a única pessoa em quem podia confiar,
mas começa a perceber que outras pessoas são confiáveis.
Todos os fantasmas que a mãe que ama demais tentava deixar afastados vem à tona.

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Aquela sensação de rejeição, humilhação e raiva – que estava adormecida no amor exa-
gerado pelo filho se rompe e aquela mãe, até então, zelosa, carinhosa e compreensiva
começa a mostrar sua faceta mais obscura.
O discurso manipulador que ficava escondido sob aparência de cuidado e amor se
revela num drama de vitimosidade e ameaças.
Karen tinha vinte e três anos e sempre esteve ao lado de sua mãe. As pessoas diziam
que eram tão parecidas que até a fisionomia se confundia.
Era uma filha obediente e prestativa. No entanto, seus namoros nunca eram dura-
douros já que a mãe sempre tinha uma recomendação negativa a respeito dos garotos.
Cada um tinha detalhe que nunca parecia adequado aos olhos da mãe e a filha, mesmo
que contrariada, acabava cedendo às opiniões da mãe.
“Ela quer o meu bem” – Karen pensava ingenuamente. Até que conheceu um rapaz
que tirou seus pés do chão e os da mãe também.
Aquela mãe amiga, que sabia de todos os segredos tornou-se um demônio, nas
palavras da filha.
“Você não conversa mais comigo”, “agora que você não precisa mais de mim me ex-
clui de tudo”, “só vem me procurar com problemas”, “não conta mais nada para mim”,
“não sei mais o que se passa em sua vida”, “fiz alguma coisa de errado?”, “você vai ver
quando precisar de mim de novo”, “quando ele deixar você, você vai perceber que eu
queria abrir seus olhos!”, “o dia que precisar de minha ajuda não conte comigo!”, “ele
vai fazer tão mal a você que você vai se arrepender de ter me enfrentado!”.
Isso parece amor saudável para você?
As mães que amam demais não vêem mal nenhum nessas manifestações explícitas
de descontrole e insanidade.
Quanto mais problemática ou apática é a adolescência é mais provável que um dos
pais seja do tipo que ama demais.
Numa adolescência apática o jovem não encontra forças dentro de si para romper
as imposições da mãe que ama demais, mas na vida adulta esse conflito aparece de um
jeito ou de outro. Pode ser camuflado ou negado, mas está lá. É visível para todos, pois
ver uma mulher sempre com o filho “marmanjo” à tira colo soa estranho.
No momento das escolhas determinantes como carreira, relacionamento amoroso
e estilo de vida surgem as diferenças decisivas.
Muitos filhos escolhem cursos na faculdade por pressão dos pais e depois desistem
para optar pelo seu próprio desejo.
Os relacionamentos amorosos só sobrevivem às escondidas ou quando a(o) preten-
dente passa pelo crivo da mãe que ama demais.

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Essa fase de transformação e crescimento que seria normal, saudável e até uma
celebração da educação bem-sucedida se torna um quadro de terror emocional.
A crise que se estabelece entre mãe e filho pode ser o caminho para libertação de
ambos. Quanto maior a resistência pior para ambos os lados. No momento que mãe e
filho se conscientizam do problema, conseguem lidar com a dor da separação inevitável
de um jeito maduro.
Essa separação temporária é necessária para que mãe e filho descubram quem são,
o que sentem e o que esperam da vida.
Mas é uma jornada que poucas famílias estão prontas para trilhar.
Convido você agora a conhecer melhor as mães que amam demais.

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CAPÍTULO 5

CARACTERÍSTICAS DAS MÃES


QUE AMAM DEMAIS
“As mães, se realizam sua tarefa de modo apropriado, são as represen-
tantes do mundo duro, exigente, e são elas que introduzem gradual-
mente a realidade, a qual é tão freqüentemente a inimiga do impulso.”
Donald Winnicott, Pediatra e psicanalista britânico

Quando falo sobre as mães que amam demais não pense que isso constitui um qua-
dro psiquiátrico e que deve ser diagnosticado por um médico. A Mãe que Ama Demais
(MAD) é um tipo de mulher comum que perdeu a referência de si mesma e sofre com
um problema silencioso.
Mas como muitas mulheres devem estar se perguntando se amam seus filhos exa-
geradamente vou descrever e explicar algumas características das Mães que Amam De-
mais. Em contraponto falarei sobre a vivência da Mãe que ama com Amor Maduro
(MAM) para que as mães superprotetoras possam ter um outro parâmetro.
A mãe madura é aquela que se tornou uma pessoa madura. Portanto, nenhuma
dessas características descritas é definitiva, há uma infinidade de variações da mesma
questão e as idéias que se seguem são apenas sugestões.
Há outra questão importante, pois alguns podem se perguntar de que mulher esta-
mos falando. Talvez você pense que as mães que amam demais sejam aquelas do século
passado que se dedicavam inteiramente ao lar.
Na realidade estamos falando de todas as mulheres que se tornam mães. Tanto
aquelas mães tradicionais quanto as modernas, pois todas estão potencialmente vul-
neráveis a isso.

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A idéia do fracasso maternal arrasaria qualquer uma dessas mulheres. Portanto, se
você é mãe, ainda corre o risco de descobrir que ama demais
É preciso lembrar que em muitos momentos uso o gênero masculino filho, mas
entenda que incluo as meninas. Quando estiver falando de um universo mais ligado às
filhas mulheres eu deixarei claro.

Princípio básico

O princípio básico que está por trás do amor que ama demais é que essa mulher
estará sempre alternando em três papéis distintos: vítima, algoz e salvador.
Vítima quando se mostra carente, frágil e necessitada de atenção do filho. Quando
se lamenta da vida, dramatiza seus problemas e cria o sentimento de culpa nos outros.
Algoz quando se vê contrariada em suas necessidades e frustradas em suas expecta-
tivas. Quando sente que não está sendo reconhecida o suficiente na sua “nobre tarefa
de mãe”.
Salvadora como é própria da imagem que tem de si mesma. A mãe que ama de-
mais se acredita tomada de uma missão especial que vai exercer por toda a vida com
exclusividade.
A Mãe com Amor Maduro, ao contrário, é uma pessoa que assume a responsabili-
dade de sua própria vida e atitudes. Não faz jogos psicológicos para empurrar a culpa
para os outros e se sentir coitada. Por isso não se mostra como vilã e decepcionada com
os filhos, pois assume suas expectativas e a chance de frustrações. Também não quer
salvar ninguém, porque percebe que ninguém está correndo perigos estrondosos.

Princípio 1
__________________________________________
Mães que amam demais tomam decisões pelo filho.
Mães com amor maduro confiam e acolhem as decisões.
__________________________________________

A MAD é muito temerosa pelos acontecimentos da vida e para compensar esse

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medo cria uma casca de coragem e determinação. Assume suas decisões com pulso
firme, mas no fundo está amedrontada com a imprevisibilidade da vida.
Toda a insegurança que carrega é projetada no filho e ele passa a ser visto como
dependente e incapaz de tomar decisões por conta própria.
“Eu sei o que é melhor para meu filho, eu o conheço mais do que ninguém!”.
Baseada nessa crença passa a ter amplos poderes de decidir sobre os rumos da vida do
filho.
Enquanto o filho é pequeno a superproteção é acobertada pelos cuidados naturais
que ele demanda. O tempo vai revelando que aquela mãe interfere exageradamente em
cada tomada de decisão do filho, o que vai comer, vestir, com quem conversar e quais
seus hobbies favoritos.
A criança se mostra dependente e frágil e só encontra um lugar seguro ao lado da
mãe. Longe dela fica hipersensível e irritado e as outras pessoas tem dificuldade de
lidar com ele. Quando cresce ele aprende a tomar decisões com os parâmetros da mãe,
mas naquelas que envolvem maior complexidade ainda busca a mãe como referência
absoluta.
A MAM vai educando seu filho de tal forma que ele adquire uma independência
gradual. Ela não se satisfaz que seu filho apenas siga suas instruções, mas cria um espaço
seguro para que ele tome decisões em situações parecidas.
Ela suporta a angústia daquele espaço de tensão entre a inexperiência do filho e o
aprendizado futuro adquirido por meio de múltiplas tentativas.

Princípio 2
__________________________________________
Mães que amam demais tem o filho como exclusividade
Mães com amor maduro compartilham o cuidado
__________________________________________

A exclusividade é uma marca da MAD. Mesmo quando existem outros cuidadores


como o pai, a avó ou uma babá ela é a referência imperial que observa como os outros
cuidam de sua “cria”.
Sempre tem uma observação a fazer, até mesmo inibe que a criança possa ter satis-
fação e prazer na companhia de outras pessoas e nunca vai admitir que sente ciúme.
Ao não admitir o ciúme ela encontra sempre boas justificativas para que o filho não

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permaneça muito tempo com outra pessoa “estranha”.
A MAM reconhece seu sentimento de possessividade natural e se dispõe a lidar
com ele.
Sabe que quanto maior for a diversidade de interações do filho mais preparado ele
estará para se relacionar com o mundo real.
Como resultado, seu filho será mais autônomo e empático com os outros. Ao passo
que se passasse a maior parte do tempo com a mãe teria apenas uma única visão de
mundo como critério.

Princípio 3
__________________________________________
Mães que amam demais falam no lugar do filho
Mães com amor maduro permitem que o filho fale
__________________________________________

A MAD precisa do filho para se sentir segura. Na medida que exerce esse poder de
decisão e cuidado básico também sente que o filho é incapaz de se comunicar com as
outras pessoas.
Ela nem se dá conta que a dificuldade do filho se relacionar e comunicar é porque
ela encobre qualquer tentativa espontânea da criança trocar palavras e carinho com os
damais.

A cada coisa que Diogo dizia, outra frase era acompanhada como “nossa, minha
mãe sempre diz isso para mim!”, “minha mãe sempre fala que eu...”, “minha mãe nunca
iria me deixar fazer algo assim” ou “já pensou se minha mãe visse isso?”

A MAM acredita na capacidade do filho de se socializar adequadamente e confia

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que maus resultados se convertem em aprendizado.
Não fica apreensiva interrompendo a fala do filho no temor de que as pessoas façam
mau juízo dele. A opinião dos outros será mais um dos referenciais que o filho terá no
meio do caminho e como qualquer pessoa terá que lidar com cada crítica positiva ou
negativa que ouvir.

Princípio 4
__________________________________________
Mães que amam demais são hiper...
Mães com amor maduro estão na medida certa.
__________________________________ ________
A MAD é hipertudo, hiperpreocupada, hiperalerta, hipervigilante e hiperativa.
Sua preocupação exagerada com o filho se manifesta em forma de recomendações
e sugestões exaustivas. Se pudesse colocar no filho um manual de instruções, ela o
faria. Como vê a vida como uma selva cheia de perigos fatais, enche o filho com pre-
cauções.
“Sai com o guarda-chuva” (está ameaçando o filho com a chuva), “não vá se envol-
ver com estranhos” (todo mundo é estranho até ficar conhecido), “ninguém te entende
como eu” (quem teria chance?).
A pergunta que deixo é, quem realmente tem medo?
A MAM tem cuidado e precauções, mas nenhuma das suas afirmativas leva o tom
de ameaça ou chantagem. Claro que se preocupa com os perigos urbanos e faz o que
é possível para se precaver de problemas, mas ao mesmo tempo exercita a confiança e
entrega.
A MAD é hiperalerta e ansiosa, mal espera que uma necessidade surja e já está
pronta para atendê-la. Isso revela um sentimento de onipotência, como se pudessem
evitar situações que vão além do controle
A MAM sabe que há um limite entre necessidade e a prontidão em atender. O
mundo não é um berçário que atende cada um de nossos desejos e nossos mimos não
são supridos porque queremos.
A mãe madura sabe frustrar o filho com amor e o educa a ter controle sobre seus
impulsos sem compensar sua ausência com excesso de presentinhos.

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A MAD é hipervigilante e está criando problemas onde não existem. Vê inimigos
nos desconhecidos, perigos no inesperado, ameaças no surpreendente e desgraça nas
dádivas espontâneas da vida.
O pior é que contamina seu filho com essa paranóia.
A MAM acolhe os perigos que fazem parte da existência humana e não exige que
seu filho esteja sempre alerta, pois isso seria impossível e inviável. Educa o filho a se
surpreender com cada novo acontecimento da vida e a ter curiosidade pelas novas
situações.
A MAD é hiperativa e agitada. A capacidade que ela tem para arrumar atividades
é incrível. Domingo de manhã cedo é hora de todo mundo estar em atividade. Ela
precisa dar conta de tudo na casa e gosta de ver todas as pessoas engajadas na mesma
tarefa.
Seu sentimento de insatisfação é tão grande que é capaz de perturbar a pessoa
mais calma com suas exigências. Aliás, considera todos à sua volta como incapazes e
preguiçosos.
Internamente seu filho começa a criar necessidades para si mesmo que perturbam
sua paz. Torna-se uma pessoa agitada e mecanicamente assume para si tarefas e desejos
que não são verdadeiramente seus, mas da mãe agitada.
A MAM aprende a lidar com sua agitação interna. Sabe que a vida a requisita em
múltiplas funções. No entanto, sabe também que nem tudo pode ser resolvido a um
só tempo.
Aprendem a arte da temperança e conseguem decidir o que é urgente e não ur-
gente, importante e não importante, essencial ou acessório. Não se deixa iludir pelas
demandas que a vida moderna cria para todos nós.

Princípio 5
__________________________________________
Mães que amam demais sabem o que é melhor.
Mães com amor maduro descobrem o melhor caminho.
__________________________________________

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A MAD considera o seu saber pessoal inquestionável. Baseada na sua experiência
como filha acredita que sabe tudo na arte de educar um filho. Segue as tradições de
família, pondera um conselho médico aqui, ouve um opinião psicológica ali, mas usa
de seu desejo pessoal como principal guia para conduzir o filho.
“Eu sei o que é melhor para meu filho” ela alega. Talvez nunca tenha parado seria-
mente para perguntar pelos motivos de como age com seu filho. Age impulsivamente
numa tentativa alucinada de não perder o controle e as rédeas da educação da criança.
Eu brinco que são as mães “videntes”, pois chegam a acreditar que têm intuições
certeiras sobre o futuro do filho, querem evitar que o filho passe pelo mesmo sofrimen-
to que passaram.
Sua sensação de onisciência é tão devastadora que causa uma intimidação divina
nos filhos. Eles se sentem paralisados pelas opiniões inquestionáveis e contundentes
da mãe. O resultado é que acabam fazendo sempre o que lhe é recomendado. “Praga
de mãe pega”, é o que dizem, e na dúvida esses filhos amados em exagero seguem o
conselho da mamãe. Acabam nunca confiando em suas próprias deduções, percepções
e vontades.
O princípio do verdadeiro educador é estar aberto para o conhecimento constan-
temente. Não há educação sem que o educador esteja sempre em processo de apren-
dizagem. Ele é fundamentalmente o primeiro a ser tocado pelo conhecimento que
transmite.
A MAM reconhece que não sabe tudo. Sabe que já experimentou muita coisa ou
longo do caminho, mas se percebe como uma aprendiz constante da vida.
Sabe que a vida não é um projeto fechado em si mesmo. Sabe que ninguém está
isento de exagero e humildemente reconhece que cada novo passo da jornada lança
você a algo inevitavelmente novo. Para educar um filho as mães maduras abrem-se para
a vida.

Princípio 6
__________________________________________
Mães que amam demais supervalorizam a relação de mãe.
Mães com amor maduro tem vida própria.
__________________________________________

Já viu aquela mulher que a cada dez palavras que fala, cinco são sobre o filho? Essa
é a Mãe que Ama Demais. Não importa o contexto, se é conveniente ou não e lá está

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ela falando do filho.
Colocam o filho no centro de todas as conversas. Parece que o filho é o único troféu
que ela ganhou na vida.
A MAD ao longo da concepção, gestação e primeiros anos de vida do filho entra
num processo natural de reservar-se às tarefas prioritárias de mãe. Afinal, é uma reali-
dade urgente e inquestionável.
Os eventos sociais, festas e amizades passam lentamente à um plano secundário.
Isso é até natural.
Mas o Amor Exagerado se fecha em si mesmo e na criança, pois oferece uma re-
compensa imediata que nenhuma outra relação adulta pode proporcionar.
Um amigo, colega de trabalho ou marido sempre oferecem frustrações e decepções
cotidianas. Na relação mãe-filho ela nega para si mesma que isso aconteça e fica mergu-
lhada num mar de “boas sensações”.
Aquele afastamento natural se cristaliza numa reclusão psicológica e até social em
torno do filho.
Quando as crianças crescem, se tornam pequenos acompanhantes para todos os
lugares. Supermercado, festas, encontros sociais e casa de amigos sempre têm a com-
panhia do filho. Até as desculpas que dá para eventos indesejados giram em torno do
filho.
A MAM entende que a maternidade é um dos papéis que desempenha na vida.
Além de profissional, esposa, mulher, filha, irmã, voluntária e cidadã.
Valoriza a relação com o filho dentro das necessidades de cada fase do desenvolvi-
mento, mas jamais abdica de outros papéis.
Entende que se alimenta de cada faceta de sua vida e compreende que essa riqueza
e diversidade interna enriquece a qualidade de sua maternidade. A interação social com
outras pessoas e ambientes areja sua mente para diferentes realidades.
Sabe que se restringir sua vida ao filho, vai se empobrecer enquanto ser humano.
Vai assistir filmes, peças de teatro e ter entretenimentos de adultos.
Reserva tempo para si mesma e para os cuidados enquanto mulher e jamais abre
mão do seu desenvolvimento pessoal.
Tem sua vida própria e seus próprios assuntos. Ela não perde o próprio vigor e
procura entusiasmo nas suas descobertas pessoais ao invés de sempre fazer referências
sobre seu filho.

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Princípio 7
__________________________________________
Mães que amam demais são amigas íntimas do filho.
Mães com amor maduro estimulam uma vida social.
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Como abdica de sua vida social, quer ser amiga do filho. Cada evento social que o
filho participa é um evento da Mãe que Ama Demais.
Todas as insatisfações, alegrias e aventuras da criança ou adolescentes devem ser
compartilhados com a mãe. Cada lance é vibrado como se fosse uma pequena novela.

Clara tem uma Mãe que ama demais e que a procura quando ela chega da facul-
dade para se atualizar dos últimos acontecimentos. É ótima conselheira, está ligada
nas coisas mais modernas como , Twitter, Facebook, MSN e se puder até vasculha um
pouco a vida íntima da filha.
Considera-se uma mãe moderna que lida com todo o tipo de conflito da atualida-
de. Se coloca disponível para conversas como sexo, drogas e rock´n roll. Clara acreditou
nisso até o dia em que contou para a mãe sobre sua primeira relação sexual.
Sua mãe a estapeou e levou até o médico ginecologista para que ele “desse uma
lavada nela”. Sua decepção foi tão profunda que não conseguiu mais olhar para a mãe
como antes.

É estranho esse comportamento da MAD, pois em muitos casos o filho se torna


o confessor da mãe. Ela desabafa com ele todas as suas tristezas, impotências e frustra-
ções, imaginando que isso cria um clima de liberdade e transparência com seu filho.
Na realidade os filhos se sentem sobrecarregados emocionalmente por mães que os
têm como conselheiros. Muitos filhos se queixam do sentimento de impotência que
sentiam ao ver sua mãe se lamentando do seu pai. E na realidade muitos ficavam abor-
recidos por terem que ouvir a mãe falando mal do próprio pai. Isso cria um conflito na
cabeça dos filhos.
A MAM sabe dos limites da relação com os filhos e não restringe seu círculo de

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amizades e vida social ao filho ou aos pais dos amigos do filho.
Consegue conversar de vários assuntos que não envolvam diretamente o que o filho
faz. Mantém-se ligada na vida do filho para conduzi-lo nos momentos mais críticos,
mas dificilmente se perderá de si mesma.
Ela jamais terá o filho como um conselheiro ou confessor, pois sabe que o filho tem
uma pseudomaturidade. Respeita cada época da vida da criança e deixa que cresça no
tempo certo e lide com os seus conflitos de acordo com cada idade. Não irá expor seu
filho à situações mais complexas do que ele poderia suportar.

Princípio 8
__________________________________________
Mães que amam demais vivem as conquistas do filho.
Mães com amor maduro vivem as próprias conquistas.
__________________________________________

A satisfação de ser mãe , ver seu filho crescer à cada dia e mostrar-se capaz de reali-
zar muitas coisas boas é incrível.
Mas imagine quão catastrófico seria se uma mãe vivesse como num reality show
curtindo apenas as conquistas que o filho tem e esquecendo de si mesma.
A MAD vive sempre na expectativa de grandes acontecimentos na vida do filho.
Parece que valoriza excessivamente o desempenho dele e se vê realizada em cada con-
quista. Esse é o engano.
A MAM sabe que há um limite para a admiração pelo filho. Fica muito feliz com
cada conquista, mas não condiciona a sua felicidade às medalhas que o filho carrega
no pescoço.
Ela continua aberta para suas próprias conquistas pessoais e não se deixa abandonar
seus sonhos e desejos.
Sabe que os cursos e progressos dos filhos pertencem a eles e que ela só poderá
usufruir das próprias conquistas e não das que eles conquistaram.

Princípio 9
__________________________________________
Mães que amam demais boicotam o crescimento.

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Mães com amor maduro estimulam a independência.
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Esse princípio é delicado, pois está implícito nele que a mãe pode retardar o cresci-
mento do filho. E assumir que uma mãe pode atrapalhar o filho é realmente difícil.
Você já viu aquelas crianças intelectualmente brilhantes mas completamente per-
didas em relações sociais? A MAD tem a capacidade de antecipar fases posteriores da
vida do filho (como lidar com conflitos do relacionamento dos pais) e retardar outras
necessárias (impedir que aja por conta própria).
No momento que o filho começa a fazer questionamentos saudáveis em busca de
emancipação física, emocional, intelectual e social ele pode sofrer retaliações, principal-
mente no caso de fazerem escolhas que contrariem os desejos dos pais.

Renato era um jovem promissor. Bonito, inteligente, profissionalmente precoce e


simpático. O protótipo do homem perfeito. Se não fosse um pequeno grande detalhe,
sua mãe.
Era a sogra que nenhuma nora gostaria para si. Logo que descobria um potencial
namoro fazia questão de convidar a candidata para jantar em sua luxuosa casa. Cada
detalhe era reparado, como se sentava, se apresentava, vestimentas, modos e assuntos
discutidos.
O olhar após o encontro era fatal: sempre uma desaprovação.

A forma que descrevi acima é um caso extremo, mas existem outras maneiras mais
sutis e refinadas.
De maneira geral a MAD critica sutilmente os amigos e pretendentes do filho.
É uma forma de demonstrar sua insegurança pessoal, pois acredita que está perdendo
território.
A cada nova etapa da vida do filho a MAD cria obstáculos invisíveis no caminho
do filho. Pois quanto mais problemático ele se torna, mais ela pode exercer o papel de
mãe.

Cria necessidades, hábitos e rotinas dispensáveis para o filho só para ela poder aju-
dar. “Meu filho não pode andar de transporte público, por isso dirijo para ele quando

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precisar (sempre)!”, “Sei que ele tem uma dificuldade de aprendizado, por isso estudo
com ele todos os dias, mesmo agora na faculdade”, “já falei para ela que não posso dar
minha opinião sobre os namorados, mas ela tem feito escolhas tão ruins ultimamente!”.
Se comporta como um médico que dá um remédio para a dor de cabeça que prejudica
o estômago, então medica novamente, mas prejudica os rins, medica novamente e afeta
o fígado e o paciente nunca abandona o tratamento.
A MAM reconhece seus medos, lida com eles. Percebe que a tarefa da maternidade
lhe exigiu muito e teve grandes custos emocionais. Mas entende também que os filhos
não lhe pertencem e que são o legado para o mundo. Percebe que sua própria vida tem
um curso e um destino a ser seguido.
Retardar ou atrapalhar o crescimento do filho não vai fazê-lo mais feliz ou mais
grato, pelo contrário, mais triste.
Por esse amor desprendido deixa que ele siga em paz rumo à independência.

Princípio 10
__________________________________________
Mães que amam demais se deitam na cama com o filho.
Mães com amor maduro estabelecem limites.
__________________________________________

Esse tema polêmico não tem nada de sexual.


Mas é comum ver a MAD deixar que o filho assuma um lugar tão íntimo na vida
dela que vai além do papel de filho.

Núbia era uma mãe divorciada e muito jovem e para lidar com a solidão da separa-
ção deixou que seu filho deitasse na cama nas primeiras noites pós-divórcio.
Com o tempo o menino passou a dormir oficialmente com sua mãe. Na adolescên-
cia isso prosseguiu e mesmo no início de vida adulta eles dormiam juntos. Era notório
o constrangimento do filho ao relatar isso. A mãe ainda se queixava que não conseguia
arranjar outro namorado. Por que será?

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A MAM sabe exatamente qual é o papel do filho e onde ele pode se colocar na vida
dela. Reconhece a tentação de fazê-lo(a) ser o dono da casa, mas recua nos seus ímpetos
de liberalismo.
Sabe que quando o filho é colocado no seu lugar de filho isso o tranqüiliza por
dentro, pois pode continuar seguindo passo-a-passo sua trajetória.

Princípio 11
__________________________________________
Mães que amam demais mimam o filho.
Mães com amor maduro dão senso de realidade.
__________________________________________

A MAD vê o filho como uma eterna criança, por essa razão adota, muitas vezes,
mania de diminutivos. Mesmo quando ele já passou da fase.
Lentamente ela vai permitindo que o filho domine o território da casa e quando
percebe já não tem mais autonomia. As exigências do filho tomam todo o seu tempo.
No final, a própria mulher que “em nome do amor” fez tanto pelos filhos, acaba sendo
vítima do Frankenstein que criou.

Caíque era o terror da escola. Aos nove anos já era conhecido como o “anjinho do
inferno”. Seus olhos azuis e cabelos cacheados enganavam à primeira vista. Entre os
colegas era temido e odiado, os professores toleravam suas pirraças.
A mãe já não tinha força para conter aquela fera solta. Como sempre manteve o
pai do menino distante, ele já não respeitava ninguém. Gritava, batia e chorava cada
vez que recebia um não.

A MAM sabe estabelecer bem os limites, compreendendo que esse é um ato de


amor bem maior do que a permissividade.
Permitir tudo é uma atitude extremamente agressiva da mãe, pois estabelece limites
pouco realistas com o filho. Um amor que permite tudo é perigoso e incentiva a criação
de um filho com dificuldade de ter empatia pelos outros.

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A mãe madura ensina o filho a reconhecer o espaço e os limites dos outros para se
conviver em sociedade. Ela é o primeiro exemplo daquilo que fala, pois impõe espaços
bem delineados na educação.
Cria um ser humano e sabe ter empatia pelas necessidades do filho. Isso também
inclui perceber quando ele precisa de limites e de senso de realidade.
Sabe que cada fase da vida tem suas delícias e amarguras. Sente saudades dos pri-
meiros anos que aquele bebê lindo estava à sua disposição. Mas agora vê beleza naquele
menino e menina que cresce cheio de vigor e vontade de descobrir o mundo.

Princípio 12
__________________________________________
Mães que amam demais sufocam de carinho.
Mães com amor maduro dão e recebem.
__________________________________________

Você já deve ter presenciado aquelas mães que parecem um polvo. Elas deixam você
na dúvida se os filhos pedem carinho ou elas que estão precisando de contato.
A MAD costuma ter uma relação narcisista com o filho, como se ele fosse parte
integrante de seu corpo. Ela tem uma séria dificuldade de perceber que já deu a luz há
alguns anos.
Confesso que as crianças são hipnoticamente graciosas e cativam você a apertar
a bochecha, fazer cócegas, dar abraços e beijos mil. Isso é realmente delicioso. Mas
existem crianças que não têm espaço para demonstrarem suas necessidades, pois estão
sempre à tira colo com a mãe.
Seu ciúme e possessividade é tão doentio que inibe as pessoas de fazerem carinhos
e agrados ao filho. Assumem a posse pelos gestos de afeto da criança em relação aos
outros, pois quer exclusividade.
Essa demonstração exagerada até faz perder o sentido do carinho. O carinho surge
de uma intenção espontânea e voluntária de dar algo de si mesmo.
Os beijos na boca também passam por esse critério. Algumas mães se perguntam
se é normal. Depende da idade, pois até os primeiros anos de vida todo corpo da crian-
ça é receptivo para dar e receber carinho. A manifestação de sexualidade sempre está
presente na vida de uma pessoa, mas por volta dos três a quatro anos ela ganha novos
significados em que sua libido ganha significados sociais.

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Sabe que certas partes do corpo são mais sensíveis que outras. E que há um lugar
e um momento para que possa sentir prazer genital. Sabe que quem beija a mamãe na
boca é o papai e que isso tem um significado diferente do beijo que ela recebe.
Esses limites vão sendo naturalmente introduzidos, pois seria embaraçoso ver um
menino de oito anos beijando sua mãe na boca. Apesar de comum, ele já entende há
muito tempo a diferença dos tipos de beijo.
A MAM deixa que a criança aprenda a oferecer carinho na medida que recebe. Essa
troca é absolutamente saudável na relação. Sabe que um ato automático de carinho
perde o sentido profundo do amor.
Ela também não se fecha quando o filho recusa um ato carinhoso. Sente ciúme e
tentada a se fechar, mas sabe que está diante de uma criança e que a adulta é ela. Seria
estranho ver uma mulher crescida disputando o amor do filho com os coleguinhas e
pretendentes. São relacionamentos completamente diferentes.

Princípio 13
__________________________________________
Mães que amam demais dramatizam.
Mães com amor maduro se emocionam.
__________________________________________

É curioso ver até onde uma MAD pode chegar. Mas a dramaticidade é um traço
comum nessas mulheres.

É uma demonstração excêntrica de carinho. Quando quer a atenção dos filhos não
importa o que aconteça, mas eles precisam estar à disposição.
Quando o filho cresce e se vê dispensável suas chantagens começam a fervilhar.

Aline era uma frágil moça quando começou a terapia. Sua mãe sempre cuidou de
cada detalhe do seu desenvolvimento até que ela começou a namorar um rapaz que foi
considerado inadequado.
Ele era músico e tinha hábitos noturnos bem à contra-gosto da mãe. O resultado
foi desastroso.

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Cada vez que saíam, passeavam ou viajavam era uma guerra de nervos na casa. A
mãe chegou a desmaiar, passar mal, ir para o hospital, gritar, chorar e até fazer ameaças
à própria vida.
Aline era acusada por todo o tormento da casa. Até seus irmãos foram colocados
como cães-de-guarda dela e vigiavam cada passo para reportar à mãe os últimos acon-
tecimentos. Era desesperador de ver.

O Dr. José Ângelo Gaiarsa em um vídeo na Internet fala algo interessante sobre a
dramatização da mãe: “Se a mamãe olha para o filho com cara de mãe que olha para
filho ela não está olhando para ele e ele não sente que ela está olhando para ele. (...) Se
a pessoa da mamãe despida do traje de mãe olhar para a criança a criança vai adorar.
Mas se ela põe a pose da mamãe, ela está dando coação a ele, impondo uma autoridade
e dando uma ordem.”
A MAM sabe que o ciclo de sua intimidade com os filhos tem um fechamento. Se
lamenta, precisa enfrentar seus demônios, o medo da separação e do abandono, mas
sabe que mãe (cuidadora física e emocional) tem prazo de validade.
Quando os filhos crescem sabe das muitas emoções conflitantes que percorrem suas
veias, encara cada uma delas e se dispõe a ser dia-a-dia mais dispensável até se tornar um
suporte de outro tipo para os filhos.
Sabe comunicar o que está sentindo sem acusações, melindres ou chantagens e não
culpa os outros pelos seus sentimentos, mas expressa o pesar no momento e contexto
adequado.

Princípio 14
_____________________________________
Mães que amam demais exigem muito do filho.
Mães com amor maduro respeitam os caminhos.
__________________________________________

Exatamente por condicionar seu bem-estar ao desempenho dos filhos a MAD é


muito exigente com eles, por isso são muito críticas em situações comuns do cotidiano
de forma desproporcional.
Uma nota ruim na escola pode significar horas extras e exaustivas de estudo, castigo

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e constrangimentos do filho. Ela alega que está fazendo o melhor e preparando os filhos
para a vida, pensando que se preocupa com o futuro deles.
Essa crítica pode criar filhos muito exigentes consigo mesmo ou até crianças indo-
lentes e preguiçosas que já não acreditam na força do próprio desempenho.
A MAM sabe que seus desejos são diferentes dos filhos. Propõe, sugere e em certas
ocasiões obriga, mas sabe ponderar onde, como e quando fazer cada coisa.
Procura ter um senso coerente de ordem, de regras e de expectativa quanto a eles e
sabe que cada um tem seu caminho pessoal.

Princípio 15
__________________________________________
Mães que amam demais defendem o filho quando estão errados.
Mães com amor maduro educam para a vida.
__________________________________________

Você já ter presenciado algumas mães se desculparem em nome dos filhos em casos
de briga escolar e além disso subestimar a ação danosa que o filho cometeu chegando
até a insinuar ou alegar que a culpa não foi do filho, mesmo quando foi incontestável.
Essa é uma mãe que ama demais.
Ela defende o filho mesmo quando ele está errado e tira a possibilidade de fazê-lo
aprender que toda ação tem uma conseqüência.
A MAM não subestima o caráter do filho, pois sabe que qualquer ser humano é
capaz das piores ações, nem ela ou o filho estão livres disso.
Ensina o valor do respeito aos direitos dos outros como gostaria que o seu fosse
respeitado.
É capaz de olhar bem de perto para as sombras dos filhos assim como olha para suas
sombras. No meu livro “Por que fazemos o mal?” trato muito desse assunto.

Princípio 16
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Mães que amam demais menosprezam o pai do filho.
Mães com amor maduro honram o pai do filho.

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No capítulo 8 falarei com mais detalhe sobre o papel do pai, mas adianto que de
maneira geral a MAD substitui o papel dele pelos filhos.
É como se internamente não confiasse na energia masculina do companheiro e
agissem como viúvas de marido vivo.
O distanciamente afetivo do marido é muito freqüente nesses casos (até sepepara-
ções), pois para o homem é quase insuportável ser colocado em décimo plano sem que
isso afete a qualidade de sua relação com a esposa.
A MAD costuma falar o “meu filho” e se esquece que ele é filho de mais alguém. É
como se não respeitasse o papel do pai ao assumir todas as responsabilidades.
A figura do pai só serve para colocar medo nos filhos e parecer que é o chato da
família. Não é de estranhar que depois de um tempo os filhos se afastem e recriminem
o pai.

Fabiano presenciou uma separação precoce, traumatizante e brusca dos pais. A mãe
foi traída pelo marido e depois agredida por este.
Os anos seguintes foram recheados de muita mágoa dessa mãe que passou a dedicar
tempo integral para seu filho. Mesmo tentando controlar suas atitudes e palavras, era
nítido seu desconforto quando o filho passava os fins-de-semana com o pai.

Com o tempo o filho praticamente repetia o comportamento da mãe e se afastava


do pai. A seqüela em seu jeito de ser era evidente, pois se tornou um menino frágil e
com dificuldade de se posicionar frente os outros.

A MAM sabe dar o devido valor para o pai de seus filhos exatamente por que res-
peita a própria história com ele. Independente do que tenha havido entre o casal, essa
mulher madura vai preservar intacta a imagem do pai para os filhos.
Sabe que a imagem do pai não deve ser manchada pelas suas questões ligadas ao
casamento, ela sabe que uma forma de expressar amor pelos filhos é honrar a imagem
desse pai na vida da família.

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Princípio 17
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Mães que amam demais mascaram suas dificuldades.
Mães com amor maduro transcendem suas dificuldades.
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A MAD é uma supermulher, ou pelo menos é o que tenta passar para os outros.
Esconde-se de suas dificuldades pessoais e dos problemas afetivos que carrega consigo
mesma.
Tenta compensar suas fragilidades mostrando-se forte, capaz e inquebrável, mesmo
que por dentro esteja cheia de cicatrizes e marcas de uma vida cheia de desamores,
perdas, desilusões e medos.
Como se refugiou no papel de mãe já não tem uma identidade própria e não sabe
por onde recomeçar quando os filhos saem de casa.
A MAM se reconhece necessitada de ajuda, percebe suas forças e fraquezas, não
superestima ou subestima nada.
Se deixou pendências procura saná-las com a ajuda de pessoas que realmente pos-
sam fazer algo por elas e não sobrecarrega os filhos com queixas e reclamações.
Procura ser transparente consigo mesma para chegar a um estado de lucidez maior,
dessa forma os problemas se tornam desafios e as cicatrizes viram aprendizados.

Princípio 18
__________________________________________
Mães que amam demais criam servos.
Mães com amor maduro criam seres humanos.
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Há uma frase notável que foi a vencedora em um Congresso sobre Vida Sustentável
que diz “Todo mundo “pensando em deixar um planeta melhor para nossos filhos...
Quando é que “pensarão” em deixar filhos melhores para o nosso planeta?”.

A MAD cria filhos de tal forma que o mundo os sirva como se fossem imperadores

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supremos. São grandes monarcas sem reino que andam pelas ruas, parques, escolas e
festas sentindo-se donos do mundo.
É assim que seus filhos são ensinados, a serem reis. No entanto, há um efeito cola-
teral nessa forma de educar os filhos, eles sempre obedeceram as mães.
Não foram educados a questionar algumas regras centrais e evitou esse discurso“não
acredite cegamente em tudo que lhe falam, inclusive o que eu falo”. A MAD cria um
filho pronto para viver, quando adulto, numa ditadura (ou sob as garras de uma mulher
dominadora).
Sua mente foi moldada a aceitar como verdade inquestionável um único comando
de uma só fonte, a MÃE.
A mãe pode até educar o filho para questionar as outras pessoas, afinal ela quer ter
o controle da vida dos filhos. Com orgulho ela se vê incentivando uma mente revolu-
cionária, mas no inconsciente o comando central é: adote uma única fonte de sabedoria
e siga ela cegamente.
Esses homens e mulheres no futuro serão ótimos candidatos a submissão em situa-
ções terríveis ou serão grandes dominadores (sensíveis ou machistas, veja o capítulo 6).
Seja mandando ou obedecendo, acreditam que a verdade vêm de uma única fonte.
Os subordinados serão “vítimas” de chefes autoritários, maridos e esposas domi-
nadores e abusivos; gangues de ruas, vícios de todos os tipos, de posturas religiosas
fanáticas em que servem a um líder ou dogma cegamente; de governos autoritários e
totalitaristas e até de ideologias fechadas.
Os dominadores serão aqueles que vitimizam os subordinados como se eles pró-
prios fossem a fonte de todo poder, verdade e sabedoria. Tentarão parecer autossufi-
cientes e seguros de si para os outros, mas prestarão contas à sua mãe interna autoritária
e crítica. Podem se tornam amargos e insatisfeitos crônicos exigindo dos demais tanto
quanto foram exigidos pela MAD.
Acredito que esse cenário não é animador para você que é mãe e que esteja se ques-
tionando sobre que tipo de filho você quer educar.
A dúvida é parte essencial do desenvolvimento psicológico de um ser humano e
na medida em que você se coloca como uma figura inquestionável esse é o legado que
deixará.
A MAM sabe que existem múltiplas fontes de sabedoria no Universo e que a ver-
dade se apresenta de diversas formas, até as menos convencionais.
Ela percebe-se com uma das muitas fontes de sabedoria, mas reconhece que seu sa-
ber é limitado, parcial e tendencioso. Por isso sempre abre uma possibilidade de dúvida
para os filhos a respeito daquilo que diz.

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Essa mãe madura reconhece que existe uma inteligência coletiva que está dispo-
nível para todos e que quanto maior a diversidade de estímulos mais seu filho será
beneficiado.
Ela própria já percebeu que não existe uma única cartilha a seguir e que o processo
de evolução humana não é tão harmonioso ou óbvio.
A MAM reconhece que muitos são os mestres que passam pela vida de uma pessoa
e que ela é só a primeira nessa busca de crescimento pessoal e espiritual, mas não a
única.
Por esse motivo seus filhos não necessitam acreditar cegamente em nenhuma ideia,
crença, pessoa e autoridade. Eles podem transitar e se beneficiar de todas as oportuni-
dades sem se fecharem em apenas em apenas uma única verdade.
Isso quer dizer que seus filhos podem se especializar em algum assunto específico
e dedicarem tempo a um relacionamento por vez, mas sem acreditar que aquele lugar,
pessoa ou posição virou a razão de sua vida. Essa postura previne muitos desgostos
futuros porque o amor maduro cria seres humanos conscientes de seu papel no mundo
sem exagero ou fanatismo.
Os filhos amados com maturidade se tornam os líderes do futuro, mas aquele que
reconhece todo ser humano como parte fundamental de uma mudança planetária. Ele
será um líder que não apenas questiona (o rebelde sem causa), mas constrói uma reali-
dade solidamente baseada em valores humanos que incentivam as pessoas a explorarem
uma vida plena de luz e sombra.

Princípio 19
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Mães que amam demais tem problemas afetivos.
Mães com amor maduro vivem o amor.
_________________________________________

É muito comum (não é regra absoluta) perceber que a MAD tem sérios problemas
na sua vida afetiva.
Essa característica é quase comum a todas elas, pelo simples fato de que uma mu-
lher que tivesse a vida amorosa bem resolvida não precisaria dedicar um amor desespe-
rado e apegado ao filho.
A MAD tem uma dificuldade acentuada ao se entregar de corpo e alma numa rela-
ção afetiva genuína. Ela pode até viver um relacionamento, ser casada há anos, e mesmo

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assim nunca ter conhecido a verdadeira expressão do amor.
E como forma de compensar muitas frustrações amorosas elas elegem os filhos
como esse amor idealizado e nunca concretizado já que educa o filho para ser o homem
que ela nunca conseguiu encontrar.
Por esse motivo é muito comum a MAD se tornar uma sogra monstruosa.
Nenhum(a) pretendente está à altura dos filhos idealizados. Essa mãe é capaz de ações
aparentemente protetoras, mas muito cruéis só para garantir a “felicidade” do seu fi-
lho.
O amor se torna o álibi perfeito para fazer chantagens, ameaças, criar constran-
gimentos e dramas intermináveis. No limite, consegue afastar todas as pessoas que
genuinamente poderiam fazer seus filhos felizes.
Um homem maduro talvez mostrasse a essa mulher o quanto ela é infantil, mimada
e emocionalmente limitada. Por esse motivo a MAD evita relacionamentos amorosos
maduros e saudáveis e canaliza seus esforços ao lado de uma criança, afinal, essa mãe
nunca será confrontada em suas vulnerabilidades femininas pelos filhos.
A MAM procura a sua realização afetiva numa pessoa adulta e compatível com
suas possibilidades de vida. Sabe que entrar num relacionamento real a obriga a lidar
de perto com seus desejos, sonhos e medos.
Sabe também que sua vulnerabilidade de mulher será testada, e, no entanto, ela é
capaz de sustentar esse risco mesmo que no processo passe por algum sofrimento.
Reconhece seus desejos adultos e busca um amor com outra pessoa adulta para
compartilhar sua história.
Essa postura reassegura a vida amorosa dos filhos, tendo a mãe como exemplo de
uma mulher que também é feliz no amor, ou está em busca da felicidade.
Como sogra procura respeitar o tempo dos filhos para fazer as escolhas. Se tem
desacordos com a pretendente, ela guarda para si o dilema e apoia o que o filho esco-
lheu.
Princípio 20
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Mães que amam demais tem medo da vida.
Mães com amor maduro vivem plenamente a vida.
__________________________________________

A MAD tem uma grande desconfiança das pessoas. Não se deixa entregar ao fluxo

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criativo da existência humana e acredita apenas em si mesma e no amor que tem pelos
filhos. Está fechada nessa saga de salvação familiar.
Tem dificuldade com a própria vida e por isso deposita seus receios nos filhos.
Devido os problemas que viveu na sua infância, adolescência e juventude ficaram
paralisadas diante das dificuldades. Seu senso interno de risco é muito pequeno e como
procura evitar a dor a qualquer custo acaba impondo a si mesma muitas restrições.
Sem o filho não sabe rir, sobre o que conversar, como se comportar e perde seu
sentimento de importância pessoal. Desaprendeu como exercer o poder sobre si mesma
de forma positiva e por isso dedica-se à tarefa materna como uma grande fuga de si
mesma.
A MAM está aberta para os acontecimentos e já entendeu que não tem controle,
poder e nem ação sobre os imprevistos da natureza humana e mesmo assim age com
amor, dedicação, fé e desapego.

Resumo:
Sei que muitas mulheres se identificarão com essas características relatadas ante-
riormente.
Cada uma vai se perceber num nível de exagero e intensidade já que de alguma
forma todas as mães tem um pouco de exagero e maturidade convivendo simultanea-
mente em seu coração.
E para que a maturidade chegue até você, precisará dar mais ouvidos ao bom senso
e reservar um tempo para si mesma.
A chave para o amadurecimento é estar aberta à uma vida plena, afinal uma pessoa
não se torna inteiramente livre e madura para fazer reais escolhas enquanto não se
despede dos seus pais.

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CAPÍTULO 6

CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS


AMADOS DEMAIS
“Quando um filho insiste em sua exigência aos pais, não pode se tornar
independente, pois sua cobrança o prende a eles.”
Bert Hellinger, Terapeuta alemão e Criador das Constelações Familiares

Depois de falar sobre as características da Mãe que Ama Demais é preciso ressaltar
que nenhum relacionamento se sustenta apenas na mãe. O filho também participa
dessa dinâmica doentia e realimenta as dependências e carências da mãe.
O amor do filho pela mãe também atravessa etapas. No princípio ele recebe passiva-
mente todo tipo de amparo, carinho, acolhimento, alimento e calor que a mãe lhe oferece.
Quando está com a mãe, se sente em casa e esse sentimento de segurança básico é
fundamental para o seu desenvolvimento posterior. Uma criança que apresenta falhas
nessas fases iniciais pode carregar seqüelas por muito tempo.
Mas o tempo passa e a criança vai se dando conta lentamente da realidade tal como ela é, a
criança sai de seu egocentrismo e percebe que a qualidade de uma relação precisa de troca.
Nessa fase a criança quer agradar as pessoas de todo o modo, escreve recadinhos
carinhosos, oferece desenhos e mostra seus méritos.
Nesse momento experimenta o sentimento de dar algo de si mesma e isso a alegra
tanto quanto receber. A cada dia, sua independência é maior e começa a explorar as
possibilidades no mundo.
No entanto, se sua mãe o ama demais ele permanece numa fase primitiva e in-
fantil do amor.

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De maneira geral essas crianças permanecem presas na infância mesmo quando
crescem e normalmente acabam reprimindo ou exacerbando o comportamento mas-
culino. Existem dois tipos principais de filhos amados demais: os sensíveis e os ma-
chistas.

Sensíveis

Nesse caso o filho ou a filha ficam hipersensíveis. O princípio masculino (no in-
consciente coletivo) que representa a lei, a ordem, o pensamento, o trabalho, as aven-
turas e a busca da consciência profunda fica reprimido.
A repressão dessa energia provoca uma espécie de identificação com a mãe e as
características negativas da energia feminina.

Henrique era um menino excelente, prestativo, carinhoso e querido por todos. Pelo
seu jeito meigo e delicado sempre tinha alguém por perto.
No entanto, era um rapaz que se via incapaz de estabelecer relacionamentos dura-
douros. Algumas pessoas até desconfiavam de sua orientação sexual e diziam (segundo
uma conversa que ouviu de alguns amigos): “ele fala como uma menina, tem gostos de
uma menina, está sempre rodeado de meninas, mas nunca namora nenhuma delas”.
O problema é que ele era tão criterioso com todas as mulheres que nenhuma pas-
sava no crivo de comparação com a mãe.

Fisicamente podem se tornar passivos, frágeis, desengonçados, apáticos e até so-


nolentos.
Os meninos podem manifestar excesso de instabilidade assim como as meninas e
serem dramáticos em excesso.
Psicologicamente são:
- Passivos, inseguros, tem vontade fraca e dificuldades de tomar decisões.
- Excessivamente responsáveis e até parecem mais maduros do que a idade crono-
lógica.
- Em alguns momentos podem até ser frios e calculistas.

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- Com freqüência se comportam como pequenos adultos ao lado da mãe que adora
dizer que ele já é um homenzinho. No fundo esses filhos querem satisfazer as necessi-
dades da mãe e procuram instintivamente adotar uma máscara de maduros para suprir
as carências dela.

Socialmente são:
- Pouco amigáveis, tímidos, pouco competitivos e ambiciosos (a dose necessária) e
alcançam seus objetivos com dificuldade, se é que os têm.
- São melindrosos e temperamentais, mas reagem às contrariedades de maneira
passiva. Ficam emburrados, se fecham e deixam os outros culpados.
- Geralmente tem opiniões muito duras sobre o comportamento masculino e cri-
ticam os homens baseados em esteriótipos. Colocam-se como grandes defensores das
mulheres e da mãe.
- Tem dificuldades amorosas, pois no caso dos meninos tentam não parecer com os
homens machões e acabam sempre sendo vistos pelas meninas como o bom menino.
Sempre acabam se tornando amigos das pretendentes que dizem: “ele é ótimo, mas
apenas como amigo” ou “falta algo nele, uma coisa mais masculina!”.
Com as mulheres têm essa dificuldade pois assumem o papel de companheiro in-
separável da mãe. E como não pode deixar a mãe por muito tempo, acaba sempre
cedendo às opiniões dela contra as pretendentes.

Machistas

No outro pólo temos os machistas que na versão masculina são os cafajestes típicos
e no caso das mulheres são aquelas que querem ser autossuficientes em exagero, a ponto
de ficarem isoladas e endurecidas.
- São mimados e voluntariosos.
- Imaginam que a vida é uma aventura que deve ser regada de muitas mulheres,
diversão, dinheiro e pouco esforço.
- Podem ser até interesseiros, folgados e preguiçosos, buscando atingir seus objeti-
vos por meio de barganhas e até corrupção.
- Enxergam o mundo como a mãe mostrou a eles, um grande banquete no qual
podem se deleitar à vontade.

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- São inconseqüentes e até dissimulados quando se percebem errando abertamen-
te.
- Tratam as pessoas em geral da mesma forma que agiam com a mãe, de maneira
grosseira, servil e ameaçadora.
- São sedutores e até carismáticos, mas sua fina película não se mantém no convívio
íntimo onde se mostram mau humorados, oscilantes, geniosos e briguentos.
- Se não encontram uma mulher maternal, raramente permanecem longos perío-
dos num relacionamento. Como não estão acostumados a seguir regras podem ser mal
adaptados socialmente e no trabalho.

Paulo era um jovem problemático. Encrenqueiro, consumista e inconseqüente já


havia, aos vinte e três, destruído os carros dado pela mãe por três vezes. Ao comentar
esses fatos brincava dizendo que estava só um pouco alterado.

Bebia em todas as festas que ia, com o detalhe de que sempre arrumava uma nova
festa ou balada por dia. Sua mãe aflita não sabia mais o que fazer para “endireitar” a
cabeça do filho.
A opinião de Paulo é que sua mãe era um anjo em sua vida e que sem ela ele estaria
perdido. Sabia que aprontava um pouco e dava alguns desgostos para a mãe, mas que
estava determinado em mudar.
Já dizia isso desde os treze anos...

As mulheres podem se mostrar:


- Frias, insensíveis e racionais. Pois as mães ou pais (na maioria desses casos) que
amam demais normalmente se mostram exigentes com as filhas mulheres. É uma re-
lação de muita competitividade e de inveja velada que essa mulher vai reproduzir na
vida adulta.
- Nenhum homem presta e as outras mulheres são no máximo colegas, apesar de
haver casos onde tem uma amiga íntima predileta.
- Como são muito duras, exigentes e autossuficientes, têm dificuldades em estabe-
lecer vínculos afetivos de longa duração (apesar de sempre se queixarem que a culpa é
dos homens).

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Como não podemos enquadrar o ser humano em apenas duas categorias, apresen-
tei dois modelos gerais que podem ser contestados e ampliados na prática. Outros tipos
de pessoas que não se pareçam com o que descrevi podem ser filhos amados demais.
De forma geral, uma marca muito característica aos filhos amados demais é se sen-
tirem culpados na medida em que assumem fases mais maduras da vida. Ao precisarem
tomar decisões significativas que só cabem a eles, sentem um mal-estar e angústia. Esse
incômodo se deve ao conflito entre dependência e carência da mãe versus independên-
cia e autonomia.
A sensação de insatisfação crônica e de que nunca estão de acordo ou à altura de
seus sonhos também é comum. Isso se deve àquela imagem da mãe que internalizaram
e que os escraviza por toda a vida, mesmo após a morte da mãe. Vivem sob a pressão
emocional dos sonhos e desejos maternos que muitas vezes se chocam com os seus
próprios.
O mais importante é que esses filhos, na medida em que crescem, possam assumir
sua co-responsabilidade nessa dependência.
A maioria dos filhos dessas mães e pais que amam demais sequer percebem que
estão numa prisão psicológica. No momento em que estiverem lendo esse trecho do
livro talvez se identifiquem, mas é provável que não se percebam assim.
Só o tempo, autoanálise, ajuda profissional e até fracassos pessoais irão sinalizar a
existência desse problema.
Existe outro risco importante na educação da MAD que falei brevemente no capí-
tulo 4. Toda a influência da mãe que sufoca, impõe e determina caminhos, em algum
momento irá se voltar contra ela.
É muito comum que os filhos amados demais – inspirados pelo espírito criativo
que habita a todos – em algum momento quebrem a casca do ovo. Quando esse limite
é quebrado, ele percebe que ficou cego e dominado por tanto tempo, e então surge o
drama.
Esse ressentimento ficou reprimido em seu coração nas inúmeras vezes em que seus
desejos foram abafados, suas idéias desconsideradas, suas sugestões subestimadas e sua
vida eclipsada pela mãe.
O resultado é imprevisível, mas de maneira geral, a rebeldia será de uma natureza
desproporcional àquilo que consideramos adequada e saudável.
É provável que se distanciem completamente da mãe, passem a repudiar qualquer
forma de sugestão, comando, ordem e manifestação de carinho.
Aquela criança dócil, meiga e companheira se torna de um momento para outro o

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seu oposto infernal.
Os pais preferem acreditar que essa mudança repentina é resultado de um proble-
ma único e exclusivo do filho, mas agora nós sabemos que isso não aconteceu do dia
para a noite

Michele era uma menina muito carinhosa, calada e de hábitos conservadores. Era
uma excelente companhia para a mãe onde quer que ela estivesse. O casamento da mãe
parecia já não existir há muitos anos. Os pais dormiam em quartos diferentes e para
que “a filha não ficasse sozinha” resolveu trazê-la para dormir na cama uma vez. Nunca
mais saiu de lá.
O problema surgiu quando a filha se envolveu com um rapaz que era surfista e
tatuador. Na cabeça da mãe isso resumia um cara que não queria saber de nada da vida
e era envolvido com drogas pesadas.
A mãe passou a atribuir ao rapaz os ataques de nervos da filha. Num desses ataques,
ela quebrou todos os objetos do quarto da mãe, em outro ameaçou jogar-se do prédio
em que moravam e até mesmo matar a mãe.
Procuraram um psiquiatra e medicaram a menina que ficou alguns meses dopada
em casa até que o rapaz pudesse se afastar dela.
Infelizmente acharam que o problema estava resolvido, pois agora que o rapaz
estava longe o problema tinha sido resolvido.

Essa situação é mais comum do que se imagina.


É também um quadro freqüente em filhos adotivos ou filhos com algum tipo de
limitação ou deficiência física ou mental.

Lembro-me de uma moça que veio para atendimento que tinha limitações visu-
ais graves. Enxergava apenas alguns vultos e tinha um comprometimento de 95% da
visão.
Sua mãe mostrou-se inicialmente colaboradora da terapia da filha e certa de que o
tratamento iria ajudá-la a ser mais “calma”.
Se queixava que a filha estava tendo comportamentos “estranhos na escola”. Estava
no primeiro colegial e se queixava da mãe tentando conduzi-la até à sala de aula, “onde

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já se viu uma menina de quinze anos com as dificuldades que ela tem me mandar ir
para casa” (sic – segundo informações colhidas.).
A jovem insistia que a mãe comprasse audiobooks para ela, pois já não queria que
a mãe lesse todos os livros para ela durante a noite antes de dormir.
Aliás, a mãe se queixava que agora o quarto ficava de porta trancada, “não sei o que
ela fica fazendo sozinha lá no quarto, e se ela cai e se machuca?” sic. Era difícil para a
mãe aceitar que a sexualidade da filha nunca tinha ficado adormecida como gostaria.
Incentivei que a menina aprendesse braile e a usar aquelas bengalas especiais para
que pudesse se locomover de forma independente.
Isso foi o suficiente para que a mãe tirasse a menina da terapia alegando que eu
estava incentivando a filha a se voltar contra ela.

Esses casos em que o filho tem uma limitação ou dificuldade real retratam com
fidelidade o Amor que Ama Demais. E se são alertadas sobre isso, elas se voltam contra
você com acusações terríveis. “Você não tem filhos nessas condições para falar o que eu
tenho que fazer”, “faz anos que cuido dele e sei muito bem do que ele precisa”. A limi-
tação do filho é agravada pelos cuidados excessivos da mãe superprotetora e este passa a
ter limitações sociais que não teria se não fossem os cuidados excessivos da mãe.
A limitação do filho é um excelente álibi para que essa mãe justifique sua vocação
de mãe superprotetora.
Essas mães na medida em que vão envelhecendo e se deparando com a idéia da
morte entram em pânico, porque percebem que todos os esforços de uma vida inteira
não vão evitar que um dia seu filho tenha que ser mais independente.
A idéia de que o filho fique internado em alguma instituição, seja abandonado na
rua ou maltratado por outras pessoas congela sua alma de mãe.
Em alguma escala, toda MAD se sente do mesmo jeito com seus filhos, com ou
sem limitações.

A questão central é: se seu filho está se mostrando problemático pode ser que o
problema tenha a ver com você e ele, e não só com ele.
Seria muito mais fácil culpar o seu filho de rebelde, ingrato, problemático e tratá-lo
como bode expiatório. Mas com todas as informações que você tem agora já pode en-
tender que ele está exercitando, de uma maneira radical, o processo de independência
com relação a uma mãe que ama demais.

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Para que esse processo seja menos doloroso e radical você, mãe, precisa abrir mão
do controle que vem exercendo sobre seu filho desde o dia em que ele nasceu. Depende
fundamentalmente de você que já tem mais experiência de vida e tem (supostamente)
o controle das coisas em suas mãos...

Agora falarei com os filhos amados demais!

É muito difícil deixar de ser um filho amado demais para ter uma relação madura
com a sua mãe, pois as vantagens de permanecer como um grande bebê são enormes.
Você tem uma casa que inclui serviço de cozinha, lavagem de roupa, enfermagem,
locomoção com motorista, massagista e banco 24h.
De sua parte depende uma etapa importante nessa jornada: você precisa deixar de
lado o paraíso que acredita estar vivendo.
Mas se o paraíso é bom porque deixá-lo?
Porque mais hora menos hora você será afetado gravemente pelo tempo que deixou
para trás acreditando que o mundo se resumia ao universo confortável que sua mãe
criou para você.
Já adianto que será um caminho trabalhoso, afinal voar com as próprias asas não é
um caminho simples. Você ficará tentado a voltar a se comportar como antigamente e
ceder às facilidades que sua mãe lhe proporciona.
Bert Hellinger faz um pensamento belíssimo que diz:“Quando um filho se torna
adulto, diz aos pais: “Recebi muito, e isso basta. Eu o levo comigo em minha vida”
Então ele se sente rico e satisfeito. E acrescenta: “O resto eu mesmo faço”. (...) Ela
nos torna independentes. A seguir, o filho diz ainda aos pais: “E agora eu os deixo em
paz”. Então se solta deles. Não obstante, ele os conserva como pais, e eles também o
conservam como filho.”
Se você já se percebe um filho amado demais o que fazer?

Passo 1 - Observe como acontece sua relação com sua mãe e seu pai.
Passo 2 – Faça anotações sobre suas percepções.
Passo 3 – Analise o comportamento isolado deles e escreva.
Passo 4 – Analise quais são suas reações a esses comportamentos.
Passo 5 – Escreva quais são as limitações que essa relação tem provocado em sua
vida.

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Passo 6 – Pense e decida se quer sair dessa relação exagerada. Você não é obrigado
a sair dela.
Passo 7 – Tente conversar e até estimular sua mãe (ou pai) para uma conversa aberta
sobre suas dificuldades. Se quiser tente escrever, talvez facilite caso você tenha dificulda-
de em se expressar verbalmente.
Passo 8 – Se houver resistência da parte dela tente perceber se corresponde às suas
dificuldades de mudança.
Passo 9 – Estabeleça pequenos objetivos com relação ao espaço físico. Por exemplo,
cuidar do seu quarto e personalizar ele com a sua cara e decidir o que fazer com ele
(desde que assuma a responsabilidade pelos cuidados). Escolha suas roupas e penteie
seus cabelos conforme seus gostos pessoais.
Passo 10 – Tenha pequenos atos saudáveis de rebeldia. Aprenda a se questionar
sobre as ordens e conselhos que recebe de sua mãe. Mesmo que eles sejam coerentes,
sensatos e justos, faça seus questionamentos para tirar suas próprias conclusões e até
acrescentar suas reflexões.
Passo 11 – Vá conhecer outros estilos de educação na família de amigos e observe.
Passo 12 – Procure tomar decisões sozinho
Passo 13 – Procure formas de ser mais independente. Peça favores com menos
freqüência até poder realizar o máximo de tarefas sozinho. Esse passo será o mais desa-
fiador, pois você talvez esteja acostumo(a) a ter sua vida completamente facilitada pelos
esforços incessantes de sua mãe.
Passo 14 – Crie sua independência financeira. Isso não é a garantia de independên-
cia emocional, mas é o princípio para uma maior autonomia pessoal.
Passo 15 – Tenha uma agenda que possa lentamente criar um espaço saudável eao
mesmo tempo de distância emocional de sua mãe.
Passo 16 – Perceba que o tempo passará para todos e que sua mãe um dia morrerá.
E a melhor forma de honrar sua mãe é ser um exemplo de amor para o mundo.

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CAPÍTULO 7

ORIGENS DO PROBLEMA
“Tudo no domínio dessa primeira ligação com a mãe parece-me difícil de
ser compreendido analiticamente, ou ser tão cinzento de velho, tão cheio
de sombras, por tão dificilmente poder ser vivenciado de novo, como se
tivesse sido submetido a um recalque particularmente inexorável.”
Sigmund Freud, Criador da Psicanálise

O amor superprotetor tem origens remotas que antecedem o nascimento dos fi-
lhos. É preciso não confundir origem com causa, pois em suas origens encontramos
muitas das causas, mas as causas são multifacetadas.

O problema da mãe que ama demais se inicia na relação com os próprios pais.
Essa mulher pode ter sido filha de uma mãe que ama demais ou de menos. (Veja
o capítulo 10).

Se sua mãe a amou demais ela terá na sua memória emocional um tipo de relação
simbiótica e sufocante como padrão de amor. Inconscientemente, essa mulher se vê
compulsivamente presa a uma relação de doação completa, incondicional e devotada
com os filhos.
Percebo que é muito comum uma mãe que teve amor insuficiente de sua mãe de-
senvolver o amor exagerado com os filhos. É como se quisesse compensar o pouco amor
que recebeu da sua mãe idealizando o cuidado com seus filhos.

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Muitas vezes pode querer assumir o papel de mãe da própria mãe. Com o tempo
isso vai se estendendo para as bonequinhas, os ursinhos de brinquedo ou animais de
estimação. Depois cuida dos irmãos mais novos ou amiguinhos de escola. “Parece uma
mulherzinha”, comentam todos, e ela sente orgulho de ser cuidadora dos outros.

Seu maior desejo é ser mãe e não tem muita clareza do porquê, mas sabe que nasceu
com esse instinto.
Existem casos mais raros em que a mulher recusava abertamente a ideia de ser mãe
oferecendo mil argumentações sobre as vantagens de ser solteira ou de ficar bem casada
e sem filhos. Alega o desejo de independência, falta de habilidade com crianças ou prio-
ridade na carreira profissional. No entanto, quando engravida é engolida pelo mesmo
encanto das outras mulheres. Sua recusa se transforma no amor exagerado como uma
tentativa inconsciente de reverter toda a repulsa anterior.

A escolha do pai

Ela cresce e escolhe um parceiro que lhe oferece os melhores genes para ter um filho
saudável ou escolhe um homem que é candidato a fugir quando descobrir a gravidez.
De preferência um homem que não seja apegado enquanto pai.

A concepção

Algumas circunstâncias da concepção podem agravar o quadro. Uma gravidez in-


desejada pode ser o gérmen de um sentimento de raiva que se converte em supercuida-
do. Já a gravidez desejada e imprevista pode provocar o sentimento de intromissão que
também será convertida em atenção exagerada.
Quando maior a rejeição que tiveram da gravidez maior vira seu grau de apego no
nascimento do filho. Esse mecanismo se chama formação reativa, quando se age de
modo oposto aos impulsos inconscientes.

A família

A pressão da família do casal pode criar um impacto negativo na notícia da gravi-

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dez. Se for uma gestação imprevista isso aumenta, pois ela acaba ocorrendo debaixo de
muita culpa e julgamento.
A mãe da gestante que outrora condenou o ato impensado da filha se converte
numa superavó após o nascimento.

Grazia era uma mulher que tinha um grave problema com sua mãe superprotetora.
Nada lhe era permitido na altura de seus trinta anos. Sua concepção foi envolvida num
drama entre as famílias da mãe e do pai que eram muito severos.
Descobriram a gravidez com dois meses e para tentar dissimular casaram o quanto
antes. Mas para maquiar a gestação retardaram em 20 dias o nascimento de Grazia para
que ela nascesse “precoce de oito meses”. Nasceu com quase dez meses de gestação.
Depois de um ano de nascida todos souberam da história real e se penitenciaram.

A culpa transforma todos em cordeirinhos.

A escolha do nome

A escolha do nome é o pontapé de uma jornada do filho. Existem muitos motivos


inconscientes para essas escolhas.
Os desejos secretos dos pais sobre os filhos estão contidos no nome. É inevitável
que aquela escolha já traga expectativas sobre o destino da criança que vai modelando
o comportamento desde o nascimento. É interessante notar.
Homenagens a parentes falecidos podem esconder dinâmicas inconscientes com
aquela pessoa. Normalmente é uma tentativa de emprestar as características daquele
parente ao filho. Homenagens a figuras religiosas e pessoas eminentes carregam desejos
de santidade e perfeição. Os Juniors e Netos carregam um desejo declarado do pai de
se ver espelhado no filho.
Quem escolhe o nome também imprime força e revela o direito secreto de proprie-
dade antecipada.

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A gestação

Todas as fantasias infantis à respeito do que é felicidade, amor e cuidado vão ga-
nhando novo corpo junto com a gestação. Todas os sentimentos não vividos, as ideias
não materializadas e os sonhos não concretizados já tem o seu herdeiro natural.
Os problemas de gestação podem causar uma aflição extra e uma preocupação
precoce. Crianças que tiveram uma gestação problemática tendem a ser filhos “amados
demais”.
Os abortos anteriores à gestação bem sucedida propiciam o amor exagerado. Os
abortos espontâneos provocam na mulher um sentimento de incapacidade e impotên-
cia que criam um clima para que a mulher descarregue todo o sentimento de fracasso
sobre o filho. “Demorou tanto que agora não vou deixar que nada falte para esta crian-
ça!”
Abortos provocados criam um clima pior, pois a culpa incide sobre a nova criança
como uma flecha. Normalmente recebem o mesmo nome que a criança que teria vindo
à luz.

O nascimento

Quando a criança nasce, finalmente aquela mulher (que muitas vezes já não tinha
muito sentido na vida) ganha feições de heroína.
Toda a sabedoria e amor tomam os braços e a consciência daquela mulher humana
que agora se tornou divina.
Mas aquela “mulher-divina” passa a acreditar na própria fábula “eu sei o que é
melhor para meu filho”. Começa a saga de ilusões em cima de ilusões.
A mãe se vê refletida no filho, “é a minha cara!”.
A simbiose inicial é necessária para que a criança alcance suas próprias feições à
partir do molde psíquico da mãe. O problema é quando essa simbiose se estende para
além do primeiro ano, o segundo e o terceiro, sem parada.
É notório que aquela criança frágil e sem expressão está se escondendo sob os olhos
da “mãe coruja”.
Alguns problemas do parto criam um susto extra.

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Davi foi uma gestação tensa, pois era uma terceira tentativa de gravidez após dois
abortos espontâneos anteriores. Sua mãe estava apreensiva e passou a gravidez deitada
e guardando suas forças. No momento do parto ocorre o inesperado, ele nasce com o
cordão umbilical enforcando o pescoço. Seu rosto roxo desfalece após o corpo sair do
ventre materno. Pânico geral!
Os médicos habilidosamente ressuscitam a criança e ela sobrevive com aparente
saúde. Teve início uma relação com sua mãe que o amou demais.

Nessa fase inicial o pai se vê excluído da relação com o filho e com a esposa pela
mãe que ama demais. Aquela mulher que estava um pouco desencantada com um casa-
mento cheio de rotina, um marido desinteressado e desinteressante, volta todas as suas
energias no dever “sagrado” de encaminhar e educar aquele bebê.
Ela agora encontrando uma fuga do casamento que seja socialmente aceita e não
condenada. Essa traição inconsciente pode se perpetuar por muitos anos à frente. Na
medida que a criança se desenvolve esse sentimento de que precisa salvá-la de todo o
mal e desgosto assume um ar messiânico.
É uma tarefa que essa mulher se impõe e dificilmente irá abrir mão, pois acredita
que é a única forma de salvar a si mesma.

Exercício
Passo 1 – Como foi o relacionamento com sua mãe?
Passo 2 – Você costumava brincar de bonecas e ser a supermãe de suas filhinhas de
pano ou irmãos e amigos?
Passo 3 – Você tem consciência dos motivos que a fizeram escolher seu parceiro e
pai dos seus filhos ?
Passo 4 – As circunstâncias da concepção foram dolorosas?
Passo 5 – Houve pressão da família?
Passo 6 – Qual foi o motivo da escolha do nome de seus filhos?
Passo 7 – Como foi a gestação? Quais eram as fantasias de felicidade para o seu
filho?
Passo 8 – Teve abortos ou pensou-desejou fazer?
Passo 9 – Como foi o parto e nascimento da criança?
Passo 10 – Teve problemas com o parceiro?

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Passo 11 – Você consegue admitir expectativas de salvação por meio da materni-
dade?
Passo 12 – Você é feliz em seu relacionamento amoroso?

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CAPÍTULO 8

QUANDO OS PAIS AMAM DEMAIS


“O amor do pai deve ser guiado por princípios e expectativas (...) Deve dar à
criança que se desenvolve um sentimento crescente de competência e aca-
bar por permitir-lhe que se torne sua própria autoridade e dispense a do pai.”
Erich Fromm, Psicanalista alemão

Até agora dei mais ênfase na relação mãe e filho(a), no entanto, o pai pode amar tão
EXAGERADAMENTE quanto a mãe.
As estratégias são diferentes daquelas utilizadas pela mãe.
O amor de pai diferente do amor de mãe é condicional. Você precisa merecê-lo e,
portanto, fazer algo para que tenha alguma recompensa dele.
É um amor ativo como o próprio princípio masculino.
Esse princípio permite com que a criança perceba as condições pelas quais o mun-
do funciona. O mundo não é incondicional, não é um berçário onde você é pronta-
mente atendido a cada dor e desespero.
O amor e a consideração do mundo precisam ser conquistados e mantidos a cada
novo dia como uma flor que precisa ser regada.
A influência do pai na vida da criança surge na emancipação do universo natural e
caloroso criado pela mãe.
O pai apresenta e introduz o filho no mundo social.
O homem normalmente é menos passional e dramático nas demonstrações de
amor exagerado. Isso não quer dizer que não possa ser tão bombástico e destrutivo
quanto a mãe.

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A mãe ameaça a perda da consideração afetiva, mas com o pai é diferente. Para um
filho(a) a maior alegria é sentir que o pai tem orgulho e admiração por ele e a maior
tristeza é sentir que seu pai não o apóia. É como se precisasse de um reconhecimento
de mérito e valor pessoal.
O homem usa uma persuasão mais intelectual e prática na manipulação dos fi-
lhos.
Existe uma diferença bem significativa na relação do pai com a filha e do pai com
o filho.

Com a filha:

O pai com a “filha mulher” tem uma relação especial que envolve um compo-
nente erótico. Isso pode chocar à primeira vista, pois a palavra erótico traz uma idéia
de perversidade ou desejo sexual. Não é isso que quero dizer, erótico quer dizer Eros,
homem-mulher.
Da mesma forma que o menino aprende a amar as mulheres na relação com a mãe,
a menina aprende a amar os homens na relação com o pai.
Quando a filha nasce, o homem a vê como sua princesinha, a mulher ideal, aquela
a quem ele vai educar e instruir da maneira mais correta possível.
Entre os homens se diz que existe aquela mulher para casar e outra para aprontar.
Aquela que ele escolhe para casar deve ser uma mulher respeitosa, frágil, fiel, confiável e
uma futura boa mãe para seus filhos. A mulher para aprontar deve ser forte, sexy, livre
e pronta para o sexo.
Quando o homem se torna pai de uma menina ele será confrontado com essa visão
sombria e limitada das mulheres.
Como poderá um homem que vê as mulheres como produto de consumo criar
uma mulher? Sabe que as mulheres que ele considera vulgar também são filhas de al-
gum pai. Esse homem se torturará por muitos anos na criação da filha.
Esse pai tentará de todas as formas proteger a filha de todos os homens, pois sabe
que os outros homens podem ver a sua filha como ele mesmo vê as outras mulheres.

O pai de Beatriz sofreu imensamente esse conflito. Seu casamento já estava desgas-
tado com a mãe dela. Quase não conversavam, portanto, Beatriz passou a ser a confi-
dente do pai e seus problemas na empresa. Toda a insatisfação que ele tinha falava para

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a filha, que se vendo sem opção, acabava aconselhando o pai nos rumos da empresa.

Ela era uma filha precoce e muito inteligente. O pai chegava a dizer “você é a esposa
que eu nunca vou ter”. A filha tinha arrepios quando ouvia esse tipo de comentário.

Na fase de adolescência será o período mais difícil, pois a “menininha do papai”


começará lentamente se transformar em uma mulher. O corpo de criança dará lugar
para as curvas femininas e as roupas decotadas e apertadas dominarão o armário. Aque-
la menina que antes tomava banho em sua presença ou que se atirava no seu colo sem
pudor terá novos hábitos.

O pai entrará num conflito que nem ele compreende e começará a transbordar
de seu coração. Como não sabe lidar com a idéia da menina que virou mulher ele vai
adotar comportamentos como:

– Tratar a filha com indiferença.


– Vai falar menos “eu te amo!”, “que saudade!”
– Será mais frio no contato físico.
– Vai começar a implicar com o jeito de falar, se comportar e se vestir.
– Vai sentir dificuldade de chamar a filha com apelidos carinhosos da infância.
– Vai controlar exageradamente os horários de saída.
– Vai implicar agressivamente com os possíveis namorados da filha. Parece um lobo
afastando os outros lobos do próprio território.
– Vai fazer chantagens com o dinheiro.

– Não vai permitir que a filha viaje com o namorado ou fique até tarde com ele
na rua (como se as pessoas só tivessem relações sexuais em viagens de fim-de-semana
ou à noite.)
– De tempos em tempos, esse pai vai ter um surto de carência e vai pedir um
abraço, as vezes com lágrimas nos olhos e vai alegar que no fundo só quer ver o bem da
filha. Vai querer passar uma época perto dela com mais freqüência, como se ela fosse
uma pequena esposa.

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Para melhorar a relação com a filha esse pai precisa encarar (procure não resistir a
essas idéias, leve à sério a reflexão) algumas sombras:

– Talvez a filha relembre a própria mãe dela na época da juventude.


– Ela agora é uma mulher e talvez isso cause conflitos com seus desejos (se você
não olhar seus desejos de frente eles vão bloquear o caminho de uma relação saudável
com sua filha).
– Aumentar sua visão das mulheres, pois ele tem apenas três imagens, a da santa, da
prostituta e da criança inofensiva. Com essas imagens ele só pode respeitar ou seduzir.
– Você pode estar projetando na sua filha características de uma mulher ideal a que
nunca terá acesso.
– Você pode estar tentando fugir das frustrações e dos fracassos no seus relaciona-
mento e exigindo que sua filha se torne sua pequena acompanhante, colocando-a no
lugar da mãe.

Com o filho:

Quando o problema é com o filho homem a situação tem outras complicações.


O papel do pai na vida do filho é extremamente importante e saudável na construção
de sua identidade masculina. A capacidade do menino de se movimentar na vida com
força, ambição, determinação e propósito é aprendida com o pai.
Por esses motivos o filho homem vai levar o pai a ver nele todas as possibilidades
não realizadas da sua vida. Esse é o exagero do amor de pai com o filho.
Durante a infância do filho o pai incentivará (muitas vezes à contragosto do meni-
no) a todos os esportes e lutas marciais possíveis. Campeonatos, competições e situa-
ções de disputa serão incentivadas à exaustão. O menino terá que ser campeão em pelo
menos alguma coisa, mesmo que seja campeonato de xadrez ou matemática.
O papel do pai é realmente preparar o filho para as situações conflituosas da vida.
No entanto, existe um limite para tanto amor em forma de perfeccionismo. O mais
importante é que o filho aprenda a brincar muito mais que se profissionalizar num
esporte. Se o incentivo for saudável e adequado, o menino vai naturalmente buscar
desenvolver esses talentos.

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Muitas vezes vemos nos campeonatos infantis os pais muito mais frustrados com
a derrota do filho do que ele próprio. Isso já vai denunciando a relação exagerada e a
pressão do pai sobre o filho.
O início da adolescência sempre exarceba a dificuldade, pois aquele pai herói vai
sendo lentamente “desmascarado” e os defeitos naturais se revelam.
Para o pai que queria se manter na posição de herói inquestionável fica difícil ver o
filho – seu antigo companheiro inseparável de aventuras – dizer “quem disse que você
é o dono da verdade?”
Isso é uma bomba para o pai desalentado. A tristeza inicial se transforma numa
disputa tão grande que as brigas e bate-bocas aumentam até o limite de ameaças físicas
de ambos os lados.
Aquele menino franzino começa a crescer e ganhar corpo e já não recua diante das
ameaças do pai que não admite temer a força física do filho. Como é difícil ver que está
ficando mais fraco e mais velho adota uma estratégia de guerra fria.
– Consegue ficar dias e até meses sem falar com o filho.
– Quando consegue ainda bate no filho.
– Começa a pressionar exageradamente o filho nos estudos (as vezes faz questão de
discordar qualquer escolha do filho).
– Faz ameaças quanto ao corte de dinheiro (e tira o dinheiro quando quer torturar
radicalmente).
– Ridiculariza as realizações do filho.
– Faz pouco caso do que o filho fala.
– Zomba os insucessos e fracassos.
– Fica mais frio e distante.
– É capaz de expulsar o filho de casa.

O resultado disso pode ser desastroso, pois ao invés do filho se aproximar do pai
como um exemplo saudável é mais provável que ele busque o oposto.

O filho irá passar muito mais tempo na rua do que o normal. Poderá adotar um
comportamento destrutivo (rebelde todos serão) e amigos ará os amigos como único
modelo de autoafirmação. Poderá ter comportamentos autodestrutivos como forma de
provar que tem força e sabe lidar com problemas (como uso de álcool e drogas, dirigir
arriscadamente, abandono dos estudos, recusa a trabalhar).

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Para que o pai consiga superar essa fase gradual em que o filho se torna mais inde-
pendente é preciso olhar para dentro de si mesmo e relembrar do próprio processo de
crescimento e perceber quanto foi difícil ficar independente dos pais.
Saber o quanto é importante para o filho ter o pai por perto como um apoio seguro
mesmo quando discordam nos pontos-de-vista.

Quando Diogo Junior conseguiu dizer para seu pai advogado que queria sair da
faculdade de direito para fazer arquitetura a relação deles passou por uma fase intensa
de brigas. Mas quando o Diogo Pai percebeu que a decisão do filho era real, sólida e
cheia de vida, acabou cedendo. Agora o Guinho poderia ser só Diogo, não advogado
frustrado, mas o arquiteto de sucesso.

É um grande desafio para o pai deixar de ser o único rei leão da casa e compartilhar
o espaço com o leão mais jovem.
Mas só isso trará uma vida saudável para a relação de pai e filho.

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CAPÍTULO 9

O PAPEL DO MARIDO
“...é que a mulher somente pode ser mãe em verdade amorosa se puder amar; se
for capaz de amar seu marido, outras crianças, estranhos, todos os seres humanos.”
Erich Fromm, Psicanalista alemão

As prioridades da mãe que ama demais são em primeiro lugar o filho, em segundo
lugar o filho, em terceiro lugar o filho, em quarto lugar o filho, em quinto lugar o filho,
em sexto lugar a casa (para o filho), em sétimo lugar ela mesma (para estar bem para o
filho) e se houver algum tempinho em oitavo lugar o marido (para deixar ela em paz e
para que trate bem o filho).
É comum perceber que o marido da mãe que ama demais é colocado em décimo
plano.
O pior é que esse marido nem percebeu que entrou na vida daquela mulher apenas
como um grande fecundador do seu futuro filho. Os homens não percebem o golpe
inconsciente daquela mulher, pois nem ela sabe que está aplicando.
Há dois perfis de mulher que tem esse comportamento.
O primeiro perfil é a mulher que ama demais o seu homem. Vive desesperada atrás
dele, enciumada, possessiva e que fica doente atrás de cada passo que ele dá. Como
normalmente ela se frustra nessa relação doentia, acaba transferindo para o filho todo o
sentido da sua vida que antes pertencia ao marido, “você não me valorizou e agora fica
cobrando que eu não largo do pé do meu filho!”. Essa acaba sendo uma forma de fazer
ciúme para o marido que era sua paixão inicial.
O segundo é daquela mulher que já é relativamente fria com o marido desde a épo-
ca do namoro. De tempos em tempos se mostra sexualmente ativa e anima no homem

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a promessa de uma vida sexual mais quente, mas esses ciclos se encerram quando ela
engravida e tem o filho. Normalmente era aquele tipo de mulher que falava em ter filho
desde pequena com um ardor religioso, mas socialmente ninguém percebe que já é o
núcleo de um problema futuro. Afinal que mulher que não tem o desejo de ser mãe?
Seja um perfil ou o outro, esse marido passa a ser um mero figurante na família. Ele
se torna apenas o provedor do sustento material da casa, pois afinal de contas “ele não
entende nada sobre crianças e filhos”.
O homem vai lentamente ao longo da gestação se sentindo despeitado. A priorida-
de que antes aparentava ser dele passa a ser daquela barriga.
Ele não pode admitir que se ressente do próprio filho, e mesmo quando tenta co-
brar atenção da mulher, se sente envergonhado. Ela também faz questão de constranger
o homem. Naturalmente ele via se distanciando e tratando a mulher com certa frieza e
grosseria. Mal sabe ele que a mulher só estava esperando esse gancho para empurrá-lo
mais ainda para fora daquela nova relação amorosa.
Na cultura americana existe o hábito de falar “nós estamos grávidos”, ou seja, o ca-
sal está grávido. Esse hábito vêm se incorporando à nossa cultura, mas tradicionalmente
a mulher fala sozinha e com gosto “EU estou grávida”.
O marido vai sendo posto de lado a cada dia, inclusive sexualmente e precisa per-
manecer casto, calado e cansado de tanto trabalhar.
Se ele já estava esperando a deixa para pular a cerca, encontrou uma boa justifica-
tiva racional, a traição é certa. Se ela descobre, então, esse homem será condenado à
prisão emocional perpétua. Sua estratégia inconsciente está armada, pois a descoberta
dispara o fechamento dos portões do seu coração para que ele nunca mais entre e inter-
fira na relação sagrada entre ela e o filho.
E como ele está com a consciência moral pesada, não tentará romper esse pacto
mãe-filho por muito tempo.
O pai de Helena já é um senhor e há dez anos é mantido no exílio da casa de campo
que a família tem no interior.
Quando a mãe de Helena descobriu a traição do marido quando ela tinha oito
anos, esse homem passou dois anos debaixo de uma intensa chuva de acusações, humi-
lhações e xingamentos. E quando não agüentou mais se desculpar resolveu se aposentar
e passar o fim-de-semana na casa de campo para pescar. Esse fim-de-semana aumentou
para três dias, quatro dias até que passava mais tempo lá do que cá.
Problema para todos, a mãe que se sentia sozinha e alegando estar sem opções
financeiras, o pai que se sentiu um fracasso como homem, pai e ser humano e Helena
que foi envolvida numa trama de novela.
A história de Helena é muito comum. O marido vira o vilão da casa contra o qual

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os filhos precisam manter distância.
O mais agravante é quando a mulher não percebe que esse comportamento só
afasta prejudicialmente o pais dos filhos.
O pai se torna excessivamente severo ou ausente, afinal ele não é respeitado por
ninguém na casa. A mulher (de posse de alguma informação secreta) afasta o marido
como homem e indiretamente induz os filhos ao afastamento (ainda que nunca admita
isso).
A agressividade desse pai, normalmente é uma reação inconsciente à exclusão emo-
cional que sofreu. Ela se manifesta em forma de cobrança excessiva, brigas constantes e
reações dramáticas e desproporcionais. O distanciamento também é uma forma passiva
de manifestar a agressão.
A mãe vai passar o resto da vida reclamando do marido enquanto um pai incom-
petente, indiferente aos filhos e ausente.
Ela ocupará um lugar central na família e a ausência do marido se justificará por
meio de trabalho intenso e incansável. Vai quase dormir no trabalho, se afastar de reu-
niões, tarefas e compromissos de escola ou apresentações dos filhos e se aproveitar de
relacionamentos extraconjugais.
O casamento será mantido como uma história de aparência. Na sociedade posarão
como casal modelo de criação dos filhos. O único momento que o homem fingirá que
é pai dos filhos será nas festas familiares.
Basta olhar um pouco e perceber, os filhos estarão sempre em torno da mãe, e
mesmo quando distantes estarão checando onde a mãe está. Já o pai ficará ali por perto
caçando assunto com os outros amigos e conhecidos e fingindo que está gostando de
tudo. Estará sempre de mãos dadas com sua nova esposa, a cervejinha.
Nessas ocasiões de aniversário ou festas comemorativas os filhos são constrangidos
pela mãe a demonstrar afeto pelo pai “afinal de contas é seu pai”. Ainda bem que ela
lembra os filhos no dia do aniversário do pai, no Natal e no Ano Novo.
Eu sempre digo que o Dia dos Pais não é tão lucrativo quanto o Dia das Mães. O
dia dos pais é uma data ressentida, pois normalmente as pessoas não se sentem suficien-
temente queridas e admiradas pelo pai.
Como esse amor é mais condicional e cheio de expectativas também é mais vul-
nerável que o amor materno. O mundo da mãe é mais acolhedor e adocicado que o
mundo do pai.
Qualquer problema no relacionamento do casal é o marido que deixa a casa. Nor-
malmente é o pai que faz o papel do abandono do lar para que a mãe assuma o reinado
definitivo.

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Não é estranho ver que a maioria das pessoas idolatra a mãe e condena o pai ao
inferno da rejeição e do esquecimento.
Como os homens são pouco habilidosos e treinados na arte de expressar amor e ca-
rinho acabam vestindo a carapuça de pais ruins e distantes. Inconscientemente sentem
“já que ela acha que é dona do filho, então que cuide dele sozinha!”
Se ele queria um pouco de liberdade (para se sentir solteiro e evitar uma intimidade
real) encontrou a mulher ideal, uma MÃE QUE AMA DEMAIS.
Erich Fromm discorre sobre a diferença da consciência materna, da consciência
paterna e da importância dessa última:
“Não há ação má nem crime que possa privar-te de meu amor [materno], do que
desejo para tua vida e felicidade. (...) Agiste mal [para a consciência paterna], não podes
deixar de aceitar certas conseqüências de teus erros, e, antes de tudo, deves mudar de
conduta se quiseres que eu goste de ti. (...) Nesse desenvolvimento do afeto centraliza-
do na mãe para o afeto centralizado no pai e em sua síntese ulterior e reside a base da
saúde mental e da completação da maturidade.”

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CAPÍTULO 10

QUANDO AS MÃES AMAM


DE MENOS
“Mas há um lado negativo, também, na qualidade incondicional do amor
de mãe. (...) Se existe, é como uma benção; se não existe, é como se
desaparecesse da vida toda a beleza – e nada posso fazer para criá-lo.”
Erich Fromm, psicanalista alemão

Toda moeda tem dois lados e a realidade também pode ser vista em pólos. No meu
livro “Por que fazemos o mal?” falei que em vários aspectos da vida podemos caminhar
por extremos sombrios.
Na maternidade acontece o mesmo. O amor exagerado é um extremo, o amor
escasso é o outro.
Muitos filhos que receberam pouco amor, atenção e cuidados aprendem que o
amor é um sentimento frio, distante e pouco expressivo.
Enquanto criança foi pouco abraçada, beijada, acariciada e elogiada. Sua auto-
estima sobreviveu pobremente e aprendeu a amar à partir de migalhas emocionais e
com isso desenvolveu uma recusa fundamental em repassar a alguém o amor que não
recebeu.
“Se eu não tive por que vou passar para os outros?”.
Isadora é uma mãe apática. É separada e tem duas filhas com treze e onze anos. O
casamento com o pai das crianças foi problemático e cheio de crises. A primeira filha
nasceu sem planejamento enquanto eles ainda namoravam. Mesmo não sendo forçada
ela resolveu se casar.

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Ela era a filha mais velha com sua irmã caçula. Sua mãe era uma mulher ríspida
e amargurada pelo tempo. Havia perdido a própria mãe muito cedo num acidente de
carro e foi criada pelo pai, um homem que desenvolveu problema com álcool.
A dureza da mãe de Isadora criou em seu coração uma redoma. Prometeu que
nunca precisaria de ninguém para nada. Cumpriu a promessa e mesmo durante o ca-
samento não se entregava na relação. Seu marido foi lentamente se cansando das su-
cessivas recusas de carinho e afeto por parte de Isadora. Parte do motivo da separação
vinha daí.
Ela tinha dificuldade em cuidar plenamente das filhas. As duas se queixavam que
a mãe não se importava direito com seus estudos. Ela pouco perguntava sobre como
correu o dia das meninas e cumpria as tarefas básicas de alimentar, vestir e levar even-
tualmente no médico, quando necessário.
As meninas se tornaram agressivas e problemáticas na escola, reivindicavam aten-
ção de maneira explosiva. Tudo era em vão, pois Isadora nem percebia que esse com-
portamento das crianças era uma forma de chamar sua atenção.
Ela sabia que era pouco carinhosa com as filhas, mas simplesmente alegava que não
conseguia dar mais do que o sustento material.
Esse cenário é muito comum, pois muitas mulheres se vêem indisponíveis emocio-
nalmente para seus filhos por muitos motivos.
Numa lista interminável, essa mãe pode sofrer de algum quadro psiquiátrico como
depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia, transtorno bipolar ou mesmo abuso de
álcool e drogas.
Pode guardar uma série de mágoas com a própria mãe que a torna bloqueada na
capacidade de dar algo de si mesma.
Pode ter sofrido alguma violência física, sexual ou emocional que a traumatizou
psicologicamente. Pode estar passando por crises no casamento e completamente cega
para educação dos filhos. Pode ser uma mulher que AMA DEMAIS o pai ou padrasto
dos filhos e não tem olhos para as crianças. Pode ser uma mãe que ainda está presa na
relação com uma mãe que a AMA DEMAIS e acaba deixando que a própria mãe e avó
das crianças faça seu papel de mãe.
Penélope era uma moça adoravelmente meiga no seu jeito de lidar com as pessoas.
No entanto, todos os seus relacionamentos careciam de força e vivacidade. Sempre se
envolvia com homens problemáticos e inconstantes.
Morava com a mãe e se lamentava de nunca ter recebido uma atenção adequada
na infância. Sofreu privações severas de carinho e chegou a ser muitas vezes humilhada.
Seu sentimento sobre a vida era “nada vale a pena, eu não mereço viver”.
A ausência do carinho e cuidados maternos criou um bloqueio emocional dentro

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dela que vinha tentando superar com ajuda da busca espiritual e terapêutica.
Muitos podem ser os motivos e todos merecem o cuidado fundamental para que
essa mãe não continue alimentando o ciclo de pouco amor que a está consumindo.
Se você é uma mãe que acha que ama de menos ou que ama demais e teve uma mãe
que amou de menos recomendo esse exercício.
Exercício
Passo 1 – Escreva um pouco sobre a sua história com sua mãe.
Passo 2 – Identifique quais falhas percebeu na relação com sua mãe. Feche os olhos
e comece a mergulhar nessa experiência.
Passo 3 – Quais comportamentos você gostaria que sua mãe tivesse com você. Dei-
xe a raiva surgir dentro de você e tolere por alguns minutos esse sentimento.
Passo 4 – Mergulhe um pouco mais na raiva e perceba o sentimento de tristeza que
você vivenciou.
Passo 5 – Diga a ela mentalmente como foi triste essa distância e como gostaria que
ela tivesse sido mais carinhosa (isso pode ser incrivelmente difícil, mas libertador). Peça
a ela o carinho e se deixe receber esse carinho e amor.
Passo 7 – Deixe o seu corpo ser tocado por essa energia de amor, se precisar você
mesmo toque seus pés, suas pernas,
Passo 6 – Agora imagine seus filhos e sinta como eles se sentem com o seu com-
portamento distante e frio
Passo 7 – Comece a estabelecer pequenos contatos carinhosos com seus filhos.
Inicie pelos verbais (com incentivos, elogios, expressões de amor), depois para os físicos
(toque nas mãos, beije, abrace, pegue no colo) e, então, crie uma rotina onde participe
mais da vida de seus filhos (acompanhe os estudos, tenha momentos de lazer, saiba ficar
apenas por perto)
Passo 8 – Não queira compensar os anos de amor de menos por um quantidade de
amor demais. Você fez o que foi possível. Comemore a nova conquista...

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CAPÍTULO 11

A SOMBRA DA MÃE: A MADRASTA


“Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta,
desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as
fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado
bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por
que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie.”
Sigmund Freud, criador da Psicanálise

O que irei falar agora não é gostoso e nem fácil falar, e imagino que não será tão
prazeroso de se ler. Mas imagino que muitas pessoas sofram desse problema completa-
mente inconscientes do que lhes passa.
Freud no livro “Luto e a Melancolia” revela algo curioso: será que precisamos che-
gar no “fundo do poço” para nos dar conta do pior de nós?
No meu livro “Por que fazemos o mal?” trato da natureza sombria de nossa perso-
nalidade. A sombra é aquela parte obscura, secreta, proibida, vergonhosa, traumática e
que consideramos antimoral da personalidade.
Normalmente temos acesso às nossas sombras de maneira indireta quando olhamos
aquilo que nos afeta, incomoda e perturba na personalidade do outro.
Herman Hesse, escritor alemão, explica bem isso quando diz que: “Se você odeia
alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte
de nós não nos perturba.”
Portanto, qual seria a maior sombra da maternidade?
O ideal da maternidade é feito por amor incondicional, a doadora de vida, santida-
de, sacrifício, dedicação, carinho, entrega, renúncia, perdão, desprendimento e de um

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profundo desejo de que o filho seja feliz.
Por esse motivo temos constrangimento em falar sobre o lado obscuro das mães.
Nesse sentido, a sociedade elege figuras femininas que assumam esse papel sem que a
mãe o vejam em si mesmas: a MADRASTA.
Má-drasta, brincam, mas revelam o que se quer dizer, é uma mulher má.
Talvez, as madrastas mais conhecidas sejam as das histórias da Cinderela ou da
Branca de Neve.
No Livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas” o autor Bruno Bettelheim fala na
página 250 que “As relações entre Branca de Neve e a rainha simbolizam algumas difi-
culdades graves que ocorrem entre mãe e filha. Mas são também projeções, em figuras
separadas, das tendências incompatíveis dentro de uma pessoa.”
Grande parte das pessoas, senão a maioria, tem grande dificuldade de sustentar
paradoxos difíceis na vida cotidiana.
Como posso ao mesmo tempo amar e odiar uma pessoa? Admirar e invejar? Querer
o bem e fazer o mal? Pensar uma coisa e sentir outra? Tratar de forma maldosa alguém
que amo?
Nossa mente acaba separando essas imagens conflituosas de tal forma que amenize
as angústias que seriam decorrentes de conviver com essa realidade.
O sentimento da mãe não foge a essas descrições, ao contrário do que se pensa a
mãe não está invulnerável a nenhuma sombra. Pelo contrário, onde há mais exagero e
intensidade há mais sombra.
A madrasta se tornou a figura mitológica da modernidade que antes era assumida
pela imagem da natureza que destrói, ou o destino que traz a tragédia, ou os dragões e
as bruxas. A madrasta é a bruxa pós-moderna.
A sombra da maternidade é feita, portanto de narcisismo, raiva, destruição da vida,
manipulação, exigência, egoísmo, maus tratos, ressentimento, competição e necessida-
de de controle.
É muito curioso perceber quando um caso de assassinato ou de maus tratos ganha
repercussão na mídia de uma mãe ou madrasta contra o filho ou enteado.
A comoção causada é resultado do profundo medo (inconsciente) de serem toma-
das por forças destrutivas ou de terem sido vítimas de suas mães. Pois se nem as mães
estiverem garantidas e preservadas da maldade o que seria de nós?
Se uma mãe mata, agride ou abandona um filho as pessoas ficam perplexas e to-
madas por uma sensação de absurdo. Mas se a mesma coisa é feita entre uma madrasta
e um enteado as pessoas tem um sentimento de indignação mesclado com “também o
que se pode esperar de uma madrasta!?”

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A mãe, enquanto símbolo de pureza humana carrega o fardo de não poder ter
nenhum sentimento confuso, ambivalente e até destrutivo.
E como não pode assumir para si nenhum desses sentimentos, ela assume uma
máscara de AMOR PROFUNDO, que descrevemos nesse livro como AMOR QUE
AMA DEMAIS.
Você deve estar se perguntando que o amor que ama demais é uma máscara?
Agora segue a revelação bombástica: SIM, é uma máscara na qual o próprio mas-
carado se perdeu. Fernando Pessoa, poeta português fala algo brilhante nesse sentido:
“Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi no espelho,
já tinha envelhecido ”
O amor que ama demais é uma defesa contra esses impulsos terríveis e destrutivos
que carregamos (e as mães também) e tentamos negar e esconder.
Todo sentimento genuíno se manifesta numa intensidade que causa agrado, felici-
dade e bem-estar.
Se o amor é exagerado, e portanto, sufocante, destrutivo e inibidor de crescimento
ele se revela exatamente naquilo que deveria ficar escondido.
A MAD quer tanto esconder seus sentimentos antimaternos que acaba chegando
em resultados desastrosos quando os filhos crescem e querem sair de casa.
Isso quer dizer que toda mãe carrega essas sombras? Em alguma medida e inten-
sidade sim.
Mas todas sucumbem a elas? Não, na medida que conseguem manter consciência
de que acima de mães são humanas e cheias de limitações. E que além disso, estão
crescendo na medida em que são mães.
Todas as pessoas estão em busca de algum sentido na vida e a maternidade vêm
preencher parte desse sentido. O problema é quando essa parte vira o todo e nesse
momento que as sombras da maternidade se manifestam com mais intensidade. Pois
como acabam depositando todas as expectativas na maternidade os filhos se tornam os
maiores depositários de sombras das mães.
O narcisismo é uma das sombras que se manifesta no Amor que Ama Demais, pois
aquilo que parece dedicação e entrega está permeado de uma grande exigência nascísica
da mãe. Ela quer se ver como num espelho através do filho.
Quando esse filho toma rumos diferentes isso causa uma grande e dramática dor
nessa mãe que deseja (inconscientemente) para o filho a realização das suas próprias
tarefas inacabadas.
Como resultados de múltiplas expectativas não atendidas, a raiva é uma reação na-
tural frente às frustrações. No entanto, como a raiva é “proibida” nessa relação sagrada,

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ela se converte em ameaças em forma de recomendações e até reprimendas físicas.
Os maus tratos têm variações de forma e intensidade. Entre o olhar fulminante, o
grito, passando pela humilhação até a agressão física e o assassinato. Talvez, se a mãe
conseguisse admitir para si mesma como está brava por ser contrariada em suas expec-
tativas egoístas seria menos raivosa no trato com os filhos.
Outra sombra é a da manipulação que muitas mães chamam de educação. A ver-
dadeira educação é uma desafiadora tarefa de oferecer condições, estrutura e estímulo
para que o melhor e o pior da pessoa venham à tona no tempo certo para que ela se
desenvolva da maneira mais completa, feliz e plena possível.
Será que conseguimos realmente educar ou na verdade tentamos fazer que os filhos
sejam o que desejamos?
Lembre-se que seus conflitos não resolvidos com seus pais são aflorados no proces-
so de educar seus filhos. Provavelmente, sem perceber, você está educando seus filhos
do mesmo modo que criticou seus pais na sua educação.
Nesse ciclo vicioso a mãe aumenta sua dependência a cada momento e já não per-
cebe os limites de si mesma.
Quando uma pessoa adoece gravemente nunca se aconselha que apenas um único
cuidador fique de plantão por tempo integral. Pesquisas revelam que esses cuidadores
adoecem também e são tomados por sentimentos terríveis de raiva, mágoa e depressão
no contato com a pessoa doente.
Isso se deve à intensidade de emoções que são mobilizadas no cuidado de uma pes-
soa em quadro grave ou terminal. O sentimento de onipotência briga com a sensação
de impotência, a vontade de ajudar o outro com o desejo da própria felicidade, tudo
isso se confunde.
Na educação de um filho também. A mãe é assaltada por sentimentos sombrios que
ela procura não se dar conta.
A dedicação exclusiva ao filho impõe severos sacrifícios e desgostos que nenhum ser
humano poderia suportar por muito tempo sem pagar um alto preço.
O resultado desses sacrifícios autoimpostos se retrata em cobranças e exigências que
conduzem os filhos a fazerem grandes sacrifícios. O maior deles é que abandonem suas
vidas para completar os gostos da mãe.
Nesse quadro é como se o filho estivesse dizendo “eu me sacrifico no seu lugar”. O
resultado é o de muitas pessoas abrindo mão de seu propósito de vida e seguindo com
vidas desanimadas, automáticas e sem sentido.
A inveja e a competição também fazem parte do cenário sombrio materno. A ma-
drasta de Branca de Neve começa a manifestar sua destrutividade quando o espelho já

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não afirma que ela é a mulher mais bonita do reino.
Nesse momento ela se torna a bruxa que a envenena e tenta tirá-la do “páreo”.
Assim também acontece com a mãe, a inveja assalta seu coração. Quando ela vê
a filha arranjar um namorado bonito, inteligente e gentil, começa a questionar o seu
próprio casamento.
Percebe que já não é tão jovem, bonita e disposta como gostaria. E sua filha é jo-
vem, cheia de vida e hormônios, seu filho está pronto para oferecer à outras mulheres
tudo o que a mãe esperava (inconscientemente) receber de volta.
Como não consegue admitir esses sentimentos, mostra-se preocupada e temerosa
com os filhos. A inveja se converte num bálsamo de superpreocupação.
A necessidade de controle vai se exacerbando e aquela mulher que deixou a si
mesma de lado, procura sentir sua autoestima crescendo nas recompensas parciais que
tem com o filho.
A madrasta da Gata Borralheira de Cinderela também exerce controle sobre a jo-
vem e bela moça. Ela usa de múltiplas tarefas para que a filha não possa ir ao baile.
Muitas mães agem do mesmo jeito com os filhos arranjando tarefas de limpeza, lições
de casa para impedir que os filhos não façam algo que as está incomodando do ponto
de vista pessoal.
Se dar conta disso não é fácil, pois essa mãe realmente acredita que está preocupada
puramente nos estudos e bem-estar dos filhos.
O sentimento de posse ganha força e a sensação de que tem poderes ilimitados
sobre o destino do filho torna essa mãe quase insana.
Há filhos que não saem de perto da mãe fisicamente e quando o fazem carregam
um sentimento de culpa como se estivessem fazendo algo grave ou inadequado.
Inconscientemente a mãe pune os filhos pelos prazeres de que abriu mão.
Não seria de estranhar que o resultado final é um grande ressentimento. Esse res-
sentimento aparece em forma de “o que adianta educar os filhos para depois eles faze-
rem o oposto do que ensinei?”, “vocês são ingratos!”, “depois de tantos anos de dedi-
cação é isso que eu recebo?”. No fundo está ressentida consigo mesma pela negligência
que se impôs por anos.
Enfim, vários sentimentos que pairam nas sombras do coração materno.
No momento que pode admiti-los com coragem e maturidade para si mesma
abrem-se as portas para a solução de um mal-estar que poderia trazer sofrimentos des-
necessários por anos.
Exercício

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Passo 1 – Assuma que você tem algumas sombras ligadas com a maternidade. Sem
esse passo não é possível nenhum outro.
Passo 2 – Você sente algum vazio a respeito de coisas que gostaria de ser, ter ou
realizar e que não se concretiza na sua vida? Anote.
Passo 3 – O que você gostaria que seu filho fosse como pessoa? Anote.
Passo 4 – Procure comparar aquelas expectativas com aquilo que você escreveu no
passo 2.
Passo 5 – O que mais lhe causa raiva no cuidado com seus filhos? Com que freqü-
ência você se deixa tomar por ímpetos de fúria no momento que pretende corrigir seu
filho sobre um comportamento que julga inadequado?
Passo 6 – Perceba se você está sendo uma educadora ou se está, sem perceber,
conduzindo seu filho para aquilo que só você acha melhor, excluindo a vontade dele e
de outras pessoas.
Passo 7 – Você sente que não consegue fazer as suas tarefas por si mesma sem que
o seu filho participe ou tome parte indiretamente? Você acha que ele parece um bebê
indefeso quando você não está por perto?
Passo 8 – Você sente que seu filho tem estado mais triste, pois está confuso por
que caminho seguir na vida dele? Você correlaciona essa dúvida por conta de sua in-
fluência?
Passo 9 – Você consegue se perceber competindo e até invejando seus filhos nas
realizações deles? Faça uma reflexão honesta e anote quais são as coisas que você inveja
eles.
Passo 10 – Você estabelece regras de conduta razoáveis para seu filho na idade que
ele está? Veja o quanto você está exercendo sua necessidade de controle.
Passo 11 – Você deixa que se filho se relacione com facilidade com outras pessoas
que não você? Ou sente que só você é apta a entender e ajudar seu filho da melhor
maneira?
Passo 12 – Você se dá conta de quais prazeres na sua vida abriu mão em função
desse amor exagerado?
Passo 13 – Quais os ressentimentos que carrega a respeito de expectativas não cum-
pridas na educação de seus filhos?

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CAPÍTULO 12

O AMOR SAUDÁVEL E ESPIRITUAL


“No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres
sejam um e, contudo, permaneçam dois.”
Erich Fromm, Psicanalista alemão

Eu jamais poderia me tornar um pregador da boa qualidade de amor que uma mãe
pode desenvolver por um filho, nunca serei mãe. E cada experiência é única.
Winnicott diz que: “A mãe que é verdadeiramente, pode ser excelente professora
para todos os psicólogos.”
A cura da “doença” está na própria mãe e certamente nenhum psicólogo pode fazer
as vezes da mãe, pois ela tem dentro dela as sementes do amor que cura.
Winnicott percebeu que uma mãe suficiente boa é aquela que é capaz de possi-
bilitar ao filho pequeno a ilusão de que o mundo é sua criação, o que possibilitaria a
experiência de onipotência primária que, segundo ele, é a base da criatividade.
E na medida que essa criança vai se desenvolvendo a mãe percebe seus avanços graduais
e passo-a-passo permite que lide com as pequenas frustrações próprias da vida infantil.
Essa sensibilidade da mãe seria atribuída a um amadurecimento de suas capacida-
des como ser humano de suportar as frustrações e insucessos da vida.
A falecida médica tanatologista (Tanatologia é a parte da medicina legal que se
ocupa da morte e dos problemas médico-legais com ela relacionados.) Elizabeth Ku-
bler-Ross, famosa mundialmente por tratar de pacientes terminais ao oferecer espaço
para falar sobre a morte e o morrer, fala de cinco fases que o paciente pode enfrentar
diante da morte. A negação, a raiva, a barganha, a tristeza e a aceitação.
De alguma forma esse livro é um manual de ressurreição materna. Morre uma mãe
dentro de você para dar lugar a uma outra mais feliz e plena.

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É muito difícil fazer essa transição entre as várias mães que surgem ao longo do
ciclo da vida, mas é importante aceitar que a vida é essencialmente mudança.
Ao ler o livro você passou por algumas dessas fases.
Em muitos momentos deve ter se perguntado por que continuava a ler sobre esse
assunto já que é uma mãe tão ponderada. Negação!
Também deve ter pensado em desistir da leitura ou tenha pensado que eu estava
sendo exagerado, dramático e até incapaz de opinar sobre a maternidade. Em seus pen-
samentos você deve ter me atacado, criticado e se perguntado “quem é esse psicólogo
para dizer o que eu devo ou não fazer com meus filhos?”. Raiva!
Depois de questionar o que falei, pode ter começado a querer se informar mais, até
discutir com outras pessoas para ver se achavam que você era uma mãe que ama demais. Per-
cebeu que nem era tanto assim, ou que era, mas que tudo na vida tem um jeito. Barganha!
Deve ter se visto como uma mãe detestável, inútil, destrutiva e até tenha pensado
em deixar tudo nas mãos de outra pessoa: “Já que eu estou atrapalhando vou deixar nas
mãos de quem pode fazer melhor!”. Tristeza!
Essa reação é absolutamente normal e compreensível. Quando eu leio livros que
falam sobre os problemas típicos dos homens ou de questões ligadas à psicologia eu
costumo terminá-los um pouco derrubado e até acreditando que sou o pior homem e
psicólogo que existe na Terra.
Mas não precisamos entrar nessas lamentações, pois são verdades parciais.
Quero ajudá-la a seguir para a última das fases, a aceitação e transcendência.
Há também uma dimensão transcendente e espiritual na maternidade.
O psicanalista Erich Fromm que nos brindou ao longo do livro com suas citações
fará isso mais uma vez com seu livro A arte de amar em que resume a questão transcen-
dente da mãe em relação ao seu filho:
“A mãe não só deve tolerar como deve desejar e ajudar a separação do filho. Só nessa
etapa é que o amor materno representa uma tarefa tão difícil que requer abnegação,
a capacidade de dar tudo e nada querer senão a felicidade do ente amado. É também
nessa etapa que muitas mães falham em sua tarefa de amor materno. A mulher nar-
cisista, dominadora, possessiva pode conseguir ser mãe “amorosa” enquanto o filho é
pequenino. Só a mulher realmente amorosa, a que é mais feliz em dar do que em rece-
ber, firmemente alicerçada em sua própria existência, só esta consegue ser mãe amorosa
quando o filho se acha no processo de separação.”
Acredito que a mãe é como aquelas estrelas cadentes que surgem no céu em momentos
especiais da vida dos filhos: lindas, brilhantes e trazendo esperanças de uma vida melhor.

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O que as estrelas cadentes fazem, como as mães, não é permanecer estáticas no céu ou
na vida dos filhos, mas oferecerem a si mesmas como sinalizadoras de um mundo novo.

O maior sacrifício que uma mãe precisa fazer, nesse sentido, é saber o momento de
aparecer e desaparecer. É oferecer estrutura e depois retirá-la pouco a pouco.

Nessa dimensão transcendente ou espiritual a mãe funciona baseada em outros


princípios completamente diferentes daquelas idéias tradicionais sobre educação.

Mas não confunda espiritual com impossível, pois o espiritual nada mais é que uma
dimensão humana em sintonia com a grandeza da vida que se manifesta.

As principais idéias de espiritualidade como as entendo aqui se mostram da se-


guinte forma:

A vida é uma experiência que traz uma inesgotável dose de aprendizado, surpresa,
mistério e plenitude.

A vida é uma experiência em aberto que está sendo construída a todo instante e que
só pode ser saboreada e mergulhada aqui-e-agora.

A vida é uma experiência constante de imersão no Todo que nos habita e no


qual habitamos.

A vida proporciona a felicidade que só pode ser experimentada na profunda satisfa-


ção de estar consigo mesmo e de que não há um lá fora ou um futuro no qual eu possa
me saciar senão dentro de mim.

A vida é um paradoxo de caminho e meta que me permite a cada momento nascer


e morrer para muitos níveis de consciência.

A vida é um constante processo de apego e desapego no qual você é livre e ao mes-


mo tempo escravo de desejos, e quanto mais consciente mais livre.

A vida é simples e tudo aquilo que queremos ser já somos, pelo menos em potência,
e no momento que nos permitimos apenas Ser, já somos, sem máscaras.

A vida as vezes se mostra como uma parede que nos separa, um espelho que nos
reflete ou um ímã que nos conecta.

A vida é o presente que é sempre eterno no hoje, sem amanhã e sem ontem, sempre agora.

A vida é uma clareza sobre a aceitação incondicional da vida como ela é, que dife-
rente do conformismo que diz tudo está bem é vigorosa na arte de mudar a realidade
no momento que aceita o que é como é.

A vida é sempre verdade na medida que é real naquilo que acontece em si, e por isso
sempre relativa por que vemos limitadamente pelos nossos olhos.

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A vida é um movimento criativo que nunca cessa e por esse motivo, de alguma
forma nunca acaba, sempre se reconstrói concreta ou simbolicamente.
Entendo com essa declaração do que é espiritual de que o amor transcendente da
mãe está em sintonia com esse tipo de espiritualidade.
Nessa dimensão a mãe está em profunda sintonia de amor com sua própria mãe
tal como ela foi.
O primeiro passo para uma mãe amar de forma madura é tomar em seu coração a
sua própria mãe.
Esse passo é para muitos o mais difícil, mas é definitivo. Pois momento que você se
sintoniza com sua mãe você deixa que seu filho seja apenas seu filho.
Você o começará a buscá-lo de forma diferente.

Visualização

Agora tome um tempo para você, feche os olhos e se visualize nessas imagens.
Procure uma respiração confortável para o seu corpo. Deixe o ar – que deu o pri-
meiro sinal de vida ao lado de sua mãe – entre e saia tranqüilamente.
Agora se transporte para um lugar que você considere seguro e confortável. Pode
ser um lugar que você já tenha ido ou imaginário.
Agora, imagine sua mãe à sua frente.
Olhe e se deixe olhar por ela e permaneça algum tempo experimentando essa sensação.
Talvez você sinta vontade de interromper, ou os julgamentos invadam sua cabeça,
ou lembranças dolorosas lhe perturbem. Mas mesmo assim deixe que o olhar dela caia
docemente sobre os seus. Ela é sua mãe, lhe deu a vida...
Nessa dimensão espiritual você se deixa sintonizar com ela e todas as mulheres que
fizeram parte de sua ancestralidade.
Quantas mulheres nasceram, viveram e morreram para você estivesse aqui hoje.
Quanta dignidade, força e ao mesmo tempo leveza e brilho foram necessárias para
que você chegasse aonde chegou.
Nem tudo foi fácil, você enfrentou desafios, e elas também. Isso conecta você a
todas elas, pela dor e pelo amor que viveram.
Agora você se conecta da mesma forma ao seu pai e a todos os homens da sua
ancestralidade.

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Da mesma forma que fez com as mulheres, mas procure neles a consciência do Ser,
a sabedoria e o vigor da profundidade do Universo.
Internamente, faça uma reverência de agradecimento ao seu pai e sua mãe. Talvez
você sinta seu pai e sua mãe em alguma região específica do seu corpo.
Agora deixe que essa impressão fique no corpo sobre você.
Se quiser encerrar por aqui é possível, mas se quiser e conseguir, prossiga.

Segunda parte

Agora imagine seu filho(as) diante de você e imagine seus pais e ancestrais às suas costas.
Olhe para o lado e perceba a presença do pai de seu filho. Vocês estão conectados
por meio da maternidade. Seu filho se materializou pelo amor que vocês tiveram, mes-
mo que por um minuto.
Talvez os julgamentos, lembranças embaraçosas e sentimentos difíceis venham até
você. Respeite eles, deixe que eles tenham um lugar no seu coração, mas busque no pai de
seu filho o profundo respeito e reverência pela oportunidade que ele lhe deu de ser mãe.
Agora que está conectada com o pai de seu filho olhe para ele e permita que ele seja
acolhido por essa dimensão transcendente que falamos.
Deixe que o destino o acolha com confiança, o respeito e a leveza de ser.
Sinta a força que nasce desse movimento interno.
Permaneça por alguns minutos com essa sensação e não comente com outros para
que ela ao perca a energia que você experimentou.
Em sintonia com esse amor transcendente você perceberá algo diferente nascer
interiormente.
Agora você poderá se relacionar com seu filho como ele é, sem sobrecargas do
passado familiar.
Existem casos mais complexos que não dispensam ajuda profissional e psicológica,
mas esse é um bom começo.
Esse tipo de amor contempla uma dose de desgosto, fracasso e impotência na relação.
Permita que seu filho lhe contrarie e seja diferente de você e observe que aprendiza-
dos que ele tem para lhe apresentar. Não tente superar possíveis frustrações, deixe que
elas cheguem, se expressem e sigam o seu curso natural.
Com essa perspectiva mais saudável você dá algo de si e se permite sentir os efeitos
positivos da doação e por isso recebe.

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Não se obrigue a dar o tempo todo. Deixe-se receber gentilezas, presentes, de seu
filho e do pai dele, sendo seu marido ou não.
Esse amor sabe dos limites da realidade e suporta os inúmeros reveses da
vida contemporânea.
Procure exercitar a confiança quando seus filhos estiverem em situações que você
considera arriscadas. E mesmo nas piores situações lembre-se que a vida revela novas
dimensões da nossa personalidade inclusive nos momentos críticos.
O amor saudável permite a liberdade de transitar para muito além dos seus
domínios pessoais.
Permita que seu filho se expanda para além do seu círculo de interesses. Estimule
que ele saia com os amigos e deixe que passe por inquietações, duvidas, indecisões sem
que você intervenha.
O amor saudável viabiliza a distância que promove a independência e o senso de
amor próprio do filho.
Parabenize cada ação que seu filho tomou por conta própria. Isso reforçará o senti-
mento de orgulho pessoal tão fundamental para a autoestima dele.
O amor saudável pensa em si mesmo como forma de autonutrição, pois sabe que
não pode dar se não tiver algo de si mesmo para oferecer.
Cuide de você mesma, não se deixe de lado e procure cuidar de seu relacionamento
amoroso que é a fonte de nutrição de amor humano homem- mulher que você pode ter.
O amor saudável possibilita a aceitação de toda experiência humana, desde os nos-
sos aspectos demoníacos até os divinos, dos mais bizarros até os mais plenos.
Conviva com sua sombra e sua luz em paz.
O exercício desse amor é diário e precisa de suporte de pessoas queridas. Se puder
escolha uma pessoa, que não seja o seu filho, para reportar suas dificuldades e conquis-
tas e lhe ajudar a reforçar o ânimo no momento de dificuldade.
Não deixe de procurar ajuda profissional.

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CONCLUSÃO
“O Amor só começa a desenvolver-se quando amamos aqueles
de quem não necessitamos para os nossos fins pessoais”
Erich Fromm, psicanalista alemão

Mães que amam demais não se desesperem! Tudo tem solução.


Se você se permitir tocar pela mensagem do livro eu sinto que já cumpri meu papel,
pois todo mundo tem mãe.
Se você constatou que ama demais seu filho observe se não tem sido exagerada
em outras áreas de sua vida. Perceba se você não é uma pessoa exagerada em outras
aspectos.
Talvez você exagere no trabalho, nas relações amorosas, no convívio familiar, nas
relações sociais, mas se você busca uma conscientização definitiva lembre-se que sua
vida precisa estar ancorada em você.
Essa mudança de postura pode trazer um sentimento de desconforto a você e seus
filhos. É natural que ninguém queira mudanças radicais. Não exagere na mudança
senão você incorre no mesmo engano.
Mas é essa vulnerabilidade existencial que permite você se entregar para essa expe-
riência indescritível da vida.
Faça a sua parte, mas renda-se a essa força maior que está presente no mundo.
Sustente e alimente os paradoxo da vida, como a potência e impotência, da verdade
e da parcialidade, do absoluto e do relativo, do amor e da finitude.

Você se sentirá forte e fraca ao mesmo tempo, terá lucidez e sabedoria para agir e
ao mesmo tempo verá que sempre é uma aprendiz.

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Que o amor pode muitas coisas, mas ele não impede o fim dos ciclos naturais da
vida.
Essa sabedoria que alcança o seu coração lentamente ao longo dos anos reluzirá
em seus filhos e eles guardarão em seus corações a imagem de uma mulher feliz, livre
e realizada.
E é dessa qualidade de amor que você sempre será lembrada por toda a vida.
O amor que até hoje você manifestou também será parte da jornada.
A mãe, acima de tudo, tem uma função transpessoal na vida de seu filho.

Você foi canal da vida que chegou até ele.

Sob seus cuidados a vida se manifestou cuidadosa e delicadamente desabrochando


a cada dia num verdadeiro milagre.
Cada sorriso, passo, gesto, palavra que você ofereceu estabeleceu as bases para o
futuro não só de seu filho, mas de toda humanidade.
Todos nós fazemos parte dessa imensidão. Se você, mãe, tiver esse olhar que vai
além do seu próprio amor pessoal irá sintonizar com a grandeza que ronda a existência
humana e sob essa perspectiva seu filho não lhe pertence absolutamente. Ele pertence à
vida que cria conosco as teias do universo.
Eduque seu filho de uma forma que ele se torne cidadão do mundo. Que seu corpo
seja uma ferramenta da vida que passa por ele, seu coração seja ecumênico, sua visão de
mundo pluralista, sua mente funcione com uma complexidade expansiva e seu espírito
seja livre e pronto para servir às causas humanitárias. Para que ele seja assim, comece
por você!
Você também é uma co-criadora, uma semi-deusa, que dá a luz ao tipo de mundo
que viveremos.
Parabéns mães por tudo que viveram até agora e sigam em frente, pois o mundo é
grande e há muito o que fazer.
Para finalizar deixo o belíssimo texto do poeta árabe Gibran Khalil Gibran que nos
brinda com sua sabedoria em O Profeta:

“Vossos filhos não são vossos filhos,


são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

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Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.”

Frederico Mattos | 101

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FILMES INDICADOS

Terapia do amor
Titulo original: (Prime)
Lançamento: 2005 (EUA)
Direção: Ben Younger
Atores: Uma Thurman, Meryl Streep, Bryan Greenberg , Jon Abrahams , Zak
Orth
Duração: 105 min
Gênero: Comédia Romântica
Uma psicanalista muito competente se vê paralisada quando descobre que sua pa-
ciente de trinta e poucos anos está namorando seu jovem filho.
É uma comédia que mostra um drama comum de uma mãe superprotetora que se
justifica num preconceito de idade para boicotar o novo relacionamento do filho.

Sogra
Título original: (Monster-in-Law)
Lançamento: 2005 (EUA)
Direção: Robert Luketic
Atores: Jennifer Lopez, Jane Fonda, Michael Vartan, Wanda Sykes , Adam Scott
Duração: 95 min
Gênero: Comédia

Frederico mattos | 103

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Esse filme segue a linha do anterior, pois trata de uma jornalista que tenta boicotar
o relacionamento do filho com uma mulher.

Joguem a mamãe do trem


Título original: (Throw Momma From the Train)
Lançamento: 1987 (EUA)
Direção: Danny DeVito
Atores: Danny DeVito, Billy Crystal
Duração: 88 min
Gênero: Comédia

Esse filme é um clássico que mostra dois escritores frustrados, um frustrado com
sua mãe e outro com sua ex-esposa, ambas dominadoras. Encontram uma maneira
engenhosa de se livrarem delas, trocando os crimes entre si.

Minha mãe quer que eu case


Título original: (Because I Said So)
Lançamento: 2007 (EUA)
Direção: Michael Lehmann
Atores: Diane Keaton, Mandy Moore, Gabriel Macht, Tom Everett Scott, Lauren
Graham
Duração: 102 min
Gênero: Comédia Romântica

Nessa comédia uma mãe que criou suas filhas com sucesso tenta escolher o novo
pretendente. Esta situação cria um grande conflito entre as duas e revela os conflitos
que até então estavam debaixo do tapete.

Vídeo Gaiarsa
http://www.youtube.com/watch?v=WlE-IA38cYM&feature=related

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LIVROS INDICADOS

Tudo começa em casa – Donald Winnicott – Ed. Martins Fontes, 1999.


Conversando com os pais – Donald Winnicott – Ed. Martins Fontes, 1999.
O amor do espírito – Bert Hellinger – Ed. Atman, 2009.
Minha querida mamãe – José Ângelo Gaiarsa –Ed. Summus, 1994.
A arte de amar – Erich Fromm – Ed. Martins Fontes, 2000.
Em busca de sentido – Viktor Frankl – Ed. Vozes, 1991.
Mulheres que amam demais – Robin Norwood – Ed. Siciliano – 5ª edição, 1995.
A psicanálise dos contos de fadas – Bruno Bettelhem – Ed. Paz e Terra – 13ª edição,
1999.

Frederico mattos | 105

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108 | mães que amam demais

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