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MELHORES

POEMAS

Fagundes
Varela

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CyberSebo

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(011) SMl·Z7'0

Direção
EDLA VAN STEEN
MELHORES
POEMAS

Fagundes
Varela

Seleção ·
ANTONIO CARLOS SECCHIN

São Paulo
2005
© Global Editora, 2005
Diretor Editorial
JEFFERSON L. ALVES
Gerente de Produção
FLÁVIO SAMUEL

Assistente Editorial
ANA CRISTINA TEIXEIRA

Revisão
CLÁUDIA ELIANA AGUENA

Projeto de Capa
VICTOR BURTON

Editoração Eletrônica
ANTONIO SILVIO LOPES

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Varela, Fagundes, 1841-1875.


Melhores poemas I Fagundes Varela ; seleção
Antonio Carlos Secchin. - São Paulo : Global , 2005. -
(Coleção melhores poemas/ direção Edla van Steen)

Bibliografia.
ISBN 85-260-1008-5

1. Poesia brasileira 1. Secchin, Antonio Carlos.


li. Van Steen, Edla. Ili. Título. IV. Série.

05-3705 CDD-869.91

Índice para catálogo sistemático:

1. Poesia : Literatura brasileira 869.91

Direitos Reservados
.
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~~ DIS1RIBUIDORA LIDA.
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CEP 01508-020 - São Pau lo - SP
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Colabore com a produção científica e cultural.
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra
sem a autorização do editor.
Nº DE CATÁLOGO: 2526
Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em
1952. É doutor em Letras e professor titular de Litera-
tura Brasileira da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, além de professor visitante de várias universi-
dades estrangeiras - na França, em Portugal, na Itália e
na Venezuela. Ensaísta, poeta e ficcionista, autor de
nove livros. Suas publicações mais recentes são: Poesia e
desordem (ensaios, 1996), João Cabral de Melo Neto: a poe-
sia do menos (segunda edição, 1999), Todos os ventos (poe-
mas reunidos, 2002) e Escritos sobre poesia & alguma ficção
(2003). Seu livro sobre João Cabral ganhou o concurso
nacional de ensaios do INL/Ministério da Educação e
Cultura em 1985 e o Prêmio Sílvio Romero da Academia
Brasileira de Letras em 1987, e foi considerado pelo
próprio poeta pernambucano como o mais importante
estudo consagrado à sua obra. Sobre a poesia e o ensaís-
mo de Antonio Carlos Secchin escreveram, entre outros,
Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo
Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo
Rouanet, José Paulo Paes, Ivo Barbieri, Ivan Junqueira e
Fábio Lucas. Em 2004, foi eleito para a cadeira 19 da
Academia Brasileira de Letras.
POEMAS DE OITO FACES

Dentre nossos maiores poetas românticos,


Fagundes Varela (1841-1875), certamente, é o menos
aquinhoado pelo julgamento positivo de críticos e
historiadores. Chegou tarde demais em relação a
Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e a Casimiro de
Abreu, e muito cedo frente a Castro Alves. Predomi-
nou, quase absoluto, na década de 1860, desdobran-
do temas e formas herdados do ultra-romantismo, e
injetando em seus versos uma dimensão libertária e
abolicionista que seria a tônica de alguns poetas que
lhe sucederiam no momento de entoar o canto do
cisne romântico.
Apesar disso, não haveria exagero em perceber
na sua poesia a mais complexa construção literária
de nosso romantismo. Na ânsia de lançar-se em to-
das as direções, Varela, mesmo em seus equívocos,
corporifica, em grau máximo, a tensão entre a vivên-
cia inexorável da precariedade e a sede inextinguível
do absoluto. Da consciência repugnada de si mesmo
à elevação quase beatífica da própria alma, é raro o
sentimento humano que n ão tenha sido, visceral ou
etereamente, experimentado e cantado pelo poeta.
Daí termos optado, nesta antologia, pela comparti-
mentação temática, apta a exibir a pluralidade de
interesses que (des)norteava o espírito do poeta.

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Preliminarmente, esclareçamos que a obra de
Varela, obviamente, abarca número bem superior de
temas; listamos, todavia, um total de oito, dentre os
que nos pareceram mais expressivos e recorrentes.
Por outro lado, a segmentação não elimina a eventual
convivência ou diálogo de dois ou mais temas num
único texto; assim, se um poema poderia estar elenca-
do no eixo temático a ou b, nossa escolha deu-se por
um critério de preponderância, não de exclusividade.
Os que tentam minimizar o valor de Fagundes
Varela insistem no fato de que sua obra seria excessi-
vamente tributária da produção de seus antecessores
imediatos no Brasil - como se a poesia desses ante-
cessores não fosse, ela também, tributária de outros
antecessores, dentro ou fora d e nossas fronteiras.
Como pensar em Álvares e Casimiro sem evocar de
pronto Byron e Musset? O ultra-romântico, inclusive,
parecia cultivar um secreto prazer de afirmar que só
conseguia se exprimir "a partir de" alguém. A enxur-
rada de epígrafes nos poemas do movimento remete
à constituição de uma confraria de chorosos, em que
um cita, retoma e expande a lágrima já vertida em
outro texto. A diferença é que, até Álvares, essas lágri-
mas eram quase todas importadas; a partir dele -
cujos versos passaram a servir de epígrafe a inú-
meros poetas - já pudemos chorar em vernáculo.
Vigoravam, assim, alguns arquitextos - por exemplo:
poeta, flébil, se lamuria frente à indiferença da vir-
gem - cujas sucessivas atualizações só têm interesse
nos casos em que, em meio ao coro do exército dos
tristonhos de plantão p ela ginástica mecânica do esti-
lo, nós conseguimos auscultar o timbre m ais persona-
lizado d e uma voz. É evidente que esses instantes de

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deslocamento perceptivo, de configuração do novo,
podem ser intermitentes, algo disseminados ao longo
de uma obra extensa como a de Varela. Mas existin-
do, como existem, são suficientes para que tais mo-
mentos se situem no nível do que de melhor se pro-
duziu nas letras brasileiras do século XIX.
Os núcleos temáticos desta antologia são: 1) "A
musa cívica"; 2) "Quem sou?"; 3) "Em busca de
Cristo"; 4) "Em nome do amor"; 5) "Cidade versus
campo"; 6) "Paisagens"; 7) ''A poesia no espelho"; 8)
''A morte e depois". Sumariamente embora, exami-
nemos algumas das inflexões de cada um dos grupos.
''A musa cívica" de Varela, sua poesia ostensiva-
mente política ou politizada, abrange três faixas de
referência: ora é baseada em acontecimentos históri-
cos específicos (a chamada "Questão Christie", que
nos opôs aos britânicos em inícios da década de 1860;
a campanha libertadora de Juarez, no México), ora se
debruça sobre determinada questão social (em parti-
cular, o regime escravista brasileiro), ora se alça a con-
siderações genéricas sobre o destino da humanidade.
Como ponto comum, no que tange à fabulação meta-
fórica de Varela, o apego a imagens de tormenta, de
violência eólica, como estágio necessário à "purifi-
cação" do homem, e à construção de uma nova e justa
ordem social. Lemos em "Versos soltos" (dedicados a
Juarez): "Trarás contigo os raios da tormenta!/ Da tor-
menta serás o sopro ardente!". Em "O escravo", o poeta,
lamurioso, indaga: "Por que/.. ./ não chamaste das terras
Africanas/ O vento assolador?". E, em"Aurora", refere-se
a uma "tormenta salutar e grande". Esse poema, de viés
marcadamente apocalíptico, sugere que o destino do
homem se subordina ao arbítrio divino, diversa-

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mente do que ocorre em "Aspirações", onde, após
queixar-se de certa letargia popular, cúmplice passiva
da opressão, Varela (outra vez apoiando-se em ima-
gens aéreas) lança o vigoroso brado: "Quero escutar
nas praças, ao vento das paixões,/ Erguer-se retumbante a
voz das multidões!". Já no combate à escravidão, o
poeta recorreu, em "O escravo", à estratégia da comi-
seração (de que também se valeriam, depois, Castro
Alves e Bernardo Guimarães, n'A escrava Isaura). A
morte como conquista da liberdade é o mote do
poema - "Se a terra devorou sedenta/ De teu rosto o suor,/
Mãe compassiva agora te agasalha/ Com zelo e com amor" -
numa concepção similar à que, quase um século
depois, João Cabral de Melo Neto desenvolveria no
funeral de um lavrador, em Morte e vida severina.
Também merece relevo "À Bahia", pela interessante
contraposição entre uma realidade "turística", estam-
pada, nas cinco primeiras estrofes do poema, no elo-
gio à exuberância tropical da paisagem, e a existência
do regime escravocrata, num registro cacofônico de
sons que ironicamente se "casam": "E pelas noites tran-
qüilas,/ Aos ecos das serenatas, / Casam-se as vozes
ingratas/ Da mais cruenta opressão!".
"Quem sou", segunda seção da antologia, resu-
me a matéria sobre a qual mais detidamente se debru-
çam os românticos: eles próprios. A tentativa de defi-
nir-se pela construção de uma subjetividade estável,
e a consciência da impossibilidade de tal construção,
é das tensões mais freqüentes da lírica ultra-romântica.
Volátil por natureza, o ideal está sempre além. Como
atingi-lo, se ele se desloca na mesma velocidade com
que supomos dele nos aproximar? Daí, no "eu", um
movimento simultaneamente lançado para o futuro

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(lá, onde o ideal está, mas não cheguei ainda) e para
o passado (cá, onde em algum momento o ideal
esteve - mas cheguei tarde demais ... ). Daí o apelo à
Natureza, cartilha primordial do mundo, onde,
excluída a História, vivencia-se o mito de uma
eternidade sempre idêntica a si mesma. Daí, também,
que o aparente desejo da morte seja, fundamental-
mente, um desejo de parar de morrer o tempo todo, em
vida, para renascer-se num Céu de onde a morte este-
ja perpetuamente banida. Sou o que, fora de mim,
aponta para o que nunca serei, e só me devolve ima-
gens de minha própria fragmentação e incomple-
tude: 'Minha casa é deserta; na frente/ Brotam plantas
bravias do chão/. ../ Minha casa é deserta. O que é feito/
Desses templos benditos d' outrora?" ("O foragido");
''Amo nas plantas, que na tumba crescem,/ De errante
brisa o funeral cicio" ("Tristeza"); "É este enojo perenal,
contínuo,/ Que em toda a parte me acompanha os pas-
sos/. ../ Quem de si mesmo desterrar-se pode?" ("Childe-
Harold"); "Nada a meu fado se prende,/ Nada enxergo
junto a mim;/ Só o deserto se estende/ A meus pés, fiel mas-
tim" ("Resignação"); "Brinco do fado, a dor é minha
essência,/ O acaso minha lei! ... " (''Ao Rio de Janeiro");
'Minh'alma é como um deserto/ Por onde o romeiro incer-
to/ Procura uma sombra em vão" ("Noturno"); "Eu amo
a noite quando deixa os montes,/ Bela, mas bela de um hor-
ror sublime" ("Eu amo a noite"). É esse "horror subli-
me", vislumbrado no espaço noturno, que o poeta
enxerga em seu próprio espírito. O estigma da anoma-
lia, da excentricidade, é, ao mesmo tempo, um dolo-
roso e glorioso brasão. Sua melhor imagem é a do ser
em eterna errância, na formulação lapidar de "O exi-
lado": "O exilado está só por toda a parte!".

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De um Deus disseminado na Natureza, e cujas
manifestações o poeta associa mais à esfera do senso-
rial do que à fé abstrata (como se verificará na seção
"Paisagens"), Varela transita, no fim da vida, para a
apologia cristã. O terceiro núcleo da antologia - "Em
busca de Cristo" - apresenta fragmentos e poemas
extraídos de três livros: Anchieta, Cantos religiosos e
Diário de Lázaro. Curiosamente, todos póstumos.
Sabe-se do empenho do poeta, já combalido, em pre-
parar o que supunha ser seu maior legado: uma obra
de teor edificante, que narrasse, mesclando fantasia e
realidade, o esforço do apóstolo Anchieta, na missão
de converter os índios à religião católica, por meio do
relato dos Evangelhos (daí o subtítulo O evangelho nas
selvas). Os mais de 8 mil decassílabos brancos reve-
lam um escritor com grande domínio técnico, embo-
ra o imperativo de obediência à narrativa do Novo
Testamento acabe freando maiores ímpetos de ima-
ginação, reduzindo o nível do texto a uma mediania
algo tediosa ao leitor não particularmente aficionado
do assunto. Os Cantos religiosos foram publicados pela
irmã de Fagundes, Ernestina, também autora de algu-
mas das peças do volume. O poema de abertura, sem
título, reproduz iconicamente uma cruz. Já o Diário é
fragmento que, possivelmente, o poeta não logrou
revisar, e vale sobretudo como ratificação do peso da
vertente religiosa na produção tardia de Varela.
Comparado ao divino, o amor humano, para o
poeta, é sujeito a muito mais sobressaltos e inconstân-
cias. A maioria dos textos consagrados ao tema irá
registrar sucessivos déficits na sua contabilidade
amorosa, caracterizada por grandes investimentos
afetivos e pequeno retorno. "Em nome do amor",

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algumas vezes o objeto se encontra fora de seu
alcance - 'a mulher que minh'alma idolatra/ É princesa
do império chinês", dirá em "Ideal", poema de lavor
miniaturista que antecipa traços parnasianos; outras
vezes, a mulher o abandonou ("Eu passava na vida
errante e vago"), sem que ele aceite reconciliação
("Deixa-me"). Eventualmente, o afastamento se dá
por iniciativa do poeta, como nos sóbrios versos de
'As letras", raros exemplos de eneassílabos numa
obra em que predominam os heptassílabos e os
decassílabos: "Na tênue casca de verde arbusto/ Gravei
teu nome, depois parti". A morte da amada, após curto
e intenso período de relacionamento, é dolorosa-
mente evocada em "Elegia". "Visões da noite" define
as amadas como "Pálidas sombras de ilusão perdida".
"Ilusão" é poema narrativo em que o poeta supera
um ambiente hostil e fantasmagórico, para, enfim,
aproximar-se da mulher, sem que, todavia, haja afir-
mação de um contato efetivo entre ambos. O lirismo
de Fagundes Varela, em geral, não escamoteia uma
dimensão explicitamente erótica, e a contenção do
desejo, tão evidente na produção de Álvares e de
Casimiro, nele encontra escassa acolhida. Seus poe-
mas são um canto de amor à mulher, e não à virgem.
Mas, curiosamente, opera-se uma contenção erótica
quando o canto do poeta se dirige à mulher que ama
na temporalidade do presente: é como se a luxúria
(de relações e de poemas passados) se transmudasse
em sublimação. Leia-se "Estâncias", em que Varela
afirma adorar "tu' alma/ Pura como o sorrir de uma
criança", e investe contra "o amor terrestre"; leiam-se
os belíssimos 'A flor do maracujá" e "Não te esqueças
de mim". No primeiro, monorrimado em "a" nos

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versos pares, a natureza brasileira compõe um deli-
cado cenário para avalizar a declaração de amor
("Pelo jasmim, pelo goivo,/ Pelo agreste manacá,/ Pelas
gotas de sereno/ Nas folhas do gravatá,/ Pela coroa de espi-
nhos/ Da flor do maracujá!"). No segundo, o poeta,
ainda sob o tépido agasalho do espaço tropical
("Quando a brisa estival roçar-te a fronte/ Não te esqueças
de mim, que te amo tanto"), pede à amada que reco-
nheça sua presença disseminada nos mais acolhedores
signos da natureza, na vida e para além dela. Uma
paisagem igualmente feita de aconchego, mas agora
perpassada nostalgicamente pelo sopro do ubi sunt,
desenha-se no primeiro dos dez poemas de "Juve-
m1ia": "Lembras-te, Iná, dessas noites/ Cheias de doce har-
monia,/ Quando a floresta gemia/ Do vento aos brandos
açoites?li Oh! primavera sem termos!/ Brancos luares dos
ermos!/ Auroras de amor sem fim!". "Juvenília" estampa
uma espécie de caleidoscópio afetivo do poeta, com
altos momentos líricos, mas algo desarticulado entre
seus segmentos. Aparentemente dilui-se entre várias
musas (das quais apenas Iná é nomeada), mesclando
espaços e temporalidades distintas. As duas primei-
ras partes vinculam-se ao passado; da terceira à séti-
ma, e na décima, predomina o presente; a oitava e a
nona retornam ao passado. No poema 8 encontram-
se nítidos vestígios casimirianos, por meio de um
quase-pastiche do célebre "Meus oito anos": "Oh!
minha infância querida!/ Oh! doce quartel da vida,/ Como
passaste depressa!// Eu era vivo e travesso, /Tinha seis anos
então// Junto do alpendre sentado/ Brincava com minha
irmã". Notas diversas serão executadas em 'Antonico
e Corá", exemplar da verve jocosa e humorística de
Fagundes Varela, que reduz o amor à atração física e

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satiriza os hipócritas arranjos de fachada, para que a
moral e os bons costumes se acomodem como lhes
for possível.
Uma visão claramente antitética permeia a maio-
ria dos poemas de "Cidade versus campo". Para nos
assegurarmos da pertinência dessa assertiva, bastaria
lermos uma estrofe de ''A cidade": "Eis a cidade! Ali a
guerra, as trevas,/ A lama, a podridão, a iniqüidade;/ Aqui
o céu azul, as selvas virgens,/ O ar, a luz, a vida, a liber-
dade!", ou os versos iniciais de "Em viagem": 'A vida
nas cidades me enfastia,/ Enoja-me o tropel das multi-
dões". Um desejo de retorno à simplicidade campe-
sina é o que se depreende de ''A roça": "O balanço da
rede, o bom fogo/ Sob um teto de humilde sapé;/ A palestra,
os lundus, a viola,/ O cigarro, a modinha, o café". No
mesmo poema, todavia, Varela alude à força inven-
cível de "um gênio impiedoso", que o arrasta e arre-
messa "do vulgo ao vaivém", do mesmo modo que, em
"No ermo", confessa: ''Ah! que eu não possa me afastar
das turbas,/ Curar a febre que meu ser consome". Estar
condenado ao que o aniquila parece constituir-se
numa das aporias do espírito romântico: saber onde
o bem reside, mas sentir-se impotente para atingi-lo
(e, discretamente, até julgar bem-vindo o impasse,
sem o qual não haveria motivação de lamuriar-se em
verso e prosa). Consoante tal perspectiva, Fagundes
Varela, em ''As selvas", indaga: "Que faço triste no
rumor das praças?/ Que busco pasmo nos salões doura-
dos?" . Há uma espécie de força conflituosa que cinde
a unidade do poeta; seu corpo sente-se atado ao vil
fascínio da urbe, enquanto seu espírito é imantado
pelo espaço da floresta: "Selvas do Novo Mundo, am-
plos zimbórios/ Mares de sombra e ondas de verdura//
Salve! minh'alma vos procura embalde".

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- - • ~'_.o_ l_ - ~

Escapando ao âmbito da polarização explícita


campo x cidade, citemos "Arquétipo", todo citadino,
que desenha a figura excêntrica do dândi cosmopoli-
ta, blasé, imerso no spleen, protótip o do ultra-roman-
tismo com seus ideais desencantados e imersos na
vacuidade da vida, e "O cavalo", única peça que re-
gistra aspectos também negativos da natureza, trans-
postos embora para o domínio do fantástico: "Que as
cobras no chão rastejem/ Que os fogos-fátuos doudejem,/
Que as feiticeiras praguejem,/ Que pulem demônios mil!".
As "Paisagens" de Varela apresentam-se em ínti-
ma conexão com o ânimo do poeta, e oscilam entre
representações micro e macroscópicas. Dentre as pri-
meiras, salientemos a leveza e a candura dos versos
de "O sabiá" e de "O vaga-lume" ("Onde vais, pobre
vivente,/ Onde vais, triste, mesquinho,/ Levando os raios
da estrela/ nas asas do passarinho?"). Em "Sextilhas",
destaca-se a afinidade com pequenos seres tidos
como repulsivos (aranhas, lagartas, rãs, moluscos),
objetos de amoroso olhar que os acolhe exatamente
por sabê-los vítimas da ditadura do belo e do har-
mônico: "Amo-os, porque todo o mundo/ Lhes vota um
ódio profundo,/ Despreza-os sem compaixão!". Varela cul-
tiva confraria dos excluídos. O desconforto frente ao
belo tradicional, e o conseqüente sentimento de soli-
dão e marginalidade, comparece também no soneto
''Desponta a estrela d' alva, a noite morre". Após pin-
tar um cenário paradisíaco, ocorre o conflito com a
realidade visível, em decorrência da eclosão dos
demônios da paisagem íntima do poeta, opostos à
serenidade e à ordem da paisagem externa: "Porém
minh'alma triste e sem um sonho/ Repete olhando o prado,
o rio, a espuma:/ Oh! mundo encantador, tu és medonho!" .

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Sob forma de adesões ou recusas, o espaço natural
não deixa de ser entrevisto como uma extensão do
corpo ou da alma do poeta. É o que percebemos na
macroscopia de "O mar", de Vozes d'América, cujas
idéias centrais - e numerosos versos - seriam reapro-
veitados em "O oceano", de Cantos e fantasias, sem que
a segunda versão, a nosso ver, suplante a primeira.
Trata-se de um hino à força indomável das águas,
capazes de destruírem ou se sobreporem à fatuidade
humana; eternamente imune à mudança, o mar foi
roteiro de civilizações extintas: "Quantos impérios cele-
brados, fortes/ Não floresceram de teu trono às bases,/
Sublime potestade! e onde estão eles?/ O que é feito de
Roma, Assíria e Grécia?". Submisso apenas - como o
próprio poeta - ao desígnio divino, do qual seria uma
espécie de representante terreno ("Santo espelho de
Deus, três vezes salve!"), o mar com que Varela se iden-
tifica traz as marcas da força indômita, da ousadia
hiperbólica, do orgulho feroz e desafiador na exibi-
ção de seus atributos: '~mo-te horrível/ Arrogante e
soberbo, repelindo/ Os furacões que roçam-te nas crinas".
Identificando-se ao campo metafórico atribuído ao
oceano, o poeta afirma: "SoU livre como as vagas que me
cercam/ E só à tempestade e a Deus respeito".
Nesse universo em convulsão, é de registrar-se a
placidez que emana dos versos de "Hino à aurora":
noite e dia em harmônica transição, sem o caráter
antitético predominante no imaginário romântico.
Varela, ao invés de apartar-se, mistura-se aos outros,
sente-se elo de uma interminável cadeia iniciada em
épocas imemoriais, formada por todos os homens
que, tempo afora, contemplaram o nascer do dia: "Há
muito que passaram/ Os que viram no céu luzir outrora/

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Teu fúlgido clarão.// Seus olhos se apagaram,/ E nós por
nossa vez também agora/ Vemos-te n 'amplidão". Para
contextualizarmos a suave inflexão do poema, con-
vém recordar que não se trata de peça original de
Varela, mas de tradução que fez de um fragmento do
Rig-Veda ...
Expandindo o conceito convencional de "tradu-
ção", chegaremos, talvez, a uma das definições de
"poeta" mais presentes na obra de Fagundes Varela:
a de um tradutor imperfeito de Deus. Tradutor na
medida em que é um ser assinalado, condenado ao
desvio e à solidão: afastado (ou estigmatizado) pela
diferença, cabe-lhe como consolo (ou, quem sabe,
como castigo maior) ser o porta-voz das verdades
invisíveis e buscar em vão a Unidade para sempre
rompida: do homem para com Deus, do homem para
com a natureza e do homem para consigo próprio.
Quando coloca a "Poesia no espelho", o poeta, além
de seu rosto, contempla ruínas e d estroços. Se a cons-
trução da obra una é apanágio divino, cabe ao es-
critor contentar-se em se mover entre escombros, e
acenar nostalgicamente para um paraíso onde tudo
se correspondesse com tudo, éden da absoluta indi-
ferenciação. É o que se lê no injustamente pouco
divulgado "Queixas do poeta". Em bem-elaborados
alexandrinos de rimas emparelhadas, Varela sente a
mão de Deus estabelecer liames e correspondências
entre os seres, à exclusão do poeta, único não-benefi-
ciário desse poder de consórcio divino. Enquanto à
flora, à fauna e à humanidade em geral acorrem ver-
bos como "ligar", "ter", "espelhar", "enlaçar" e "em-
balar", cabe ao vate "soluçar", "descarar" e "sucum-
bir". Tal impossibilidade de adesão ou inclusão na

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mecânica do mundo ganhará também superior fatura
estética no longo poema 'Acúsmata": nele, o artista
troca a antiga figuração de "vidente" pela de "ouvin-
te". Tentando adentrar no sentido 'Desse rumor confu-
so, imenso e vago/ Que se eleva da terra", o poeta se faz
receptáculo do que dizem as árvores, as flores, o rio,
a estrela Vésper e os espíritos na atmosfera. No to-
cante epílogo, indaga: 'Donde parte esta voz?". Trava-se,
então, um combate entre o medo pânico do nada, e a
hipótese consoladora de haver Deus (a fantasia "aban-
dona o pó, transpõe as nuvens,/. ../ E nada encontra além
do eterno abismo!''// "Perdão, perdão, meu Deus! Busco-te
embalde/ Na natureza inteira!"). Buscando Deus na
natureza, acaba por encontrá-lo, como sinônimo da
força que assegura uma origem, um sentido e um
destino ao mundo: 'Da natureza inteira que aviventas/
Todos os elos a teu ser se prendem, /Tudo parte de ti, e a ti
se volta". Sob o influxo do pensamento místico-poé-
tico, origem e destino se confundem ...
Em outros poemas, teremos Varela debruçado
não sobre o ato de pensar genericamente o poeta e a
poesia, mas preocupado com o gesto concreto de
escrever o poema. É o que sucede em 'A pena": com
certa ironia, observa que cabe à arte superar a dor
que eventualmente lhe tenha servido de mola ou
esteio ("De pé sobre a própria ruína/ Canta, oh! alma
miseranda!/ Pede ao inferno uma lira,/ Toma os guizos da
loucura,/ Dança, ri, folga e delira/ Mesmo sobre a sepul-
tura!"). A "Canção", igualmente irônica, critica os
artesãos da mediocridade: Máquina de escrever e fazer
11

versos,/ Já não sei mais cantar// O segredo perdi das melo-


dias,/ Agora é só rimar!". A consciência metalingüística
de Varela ainda se faz presente em algumas com-

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pos1çoes de teor brejeiro, a exemplo de "Lira"
("Encomendo minh'alma às nove musas/ Faço um sone-
to") e de "Canção lógica": "Teus olhos são duas sflabas/
Que me custam soletrar".
A morte. E depois? Num certo número de poe-
mas, Varela procura indagar o que pode advir do
espólio da vida. As respostas são variadas: num caso
("Sobre um túmulo"), a maldição eterna. Poucas
vezes as imprecações do poeta soaram tão forte, pela
sucessão de signos hostis a cercar, por cima e por
baixo, o corpo do inimigo: "Pese-te a terra qual um
fardo imenso,/ Infecta podridão cubra teus olhos,/ Seque o
salgueiro que sombreia a lousa". A morte, ao invés de
apaziguar, parece aviventar o ódio. Do ódio ao amor:
visão oposta comparece em "Oração fúnebre", mais
uma tradução do Rig-Veda. Como em "Aurora", pre-
domina uma atmosfera de suave harmonia, em que a
transição não se faz com ruptura, na medida em que
um dos termos (noite ou morte) já está presente no
outro (aurora ou vida): "Desce à terra materna, tão
fecunda,/ Tão meiga para os bons que a fronte encostam/
Em seu úmido seio.// Ela te acolherá terna e amorosa/
Como em seus braços uma mãe querida/ Acolhe o filho
amado". Um universo sem turbulência ecoa nos ver-
sos de "Desejo": o poeta imagina sua morte no mes-
mo campo semântico da placidez que lemos em
"Oração fúnebre" - a terra como um leito brando de
"suave dormir". Depois, diversamente da vertigem do
nada' que desejou ao desafeto de "Sobre um túmulo",
imagina um reencontro de almas com a pessoa ama-
da, o que, a rigor, implica o desejo de sua morte,
condição para que o pacto afetivo não se desfaça:
''Ah! e contudo se deixando o globo/ Ave ditosa eu não par-

20
tisse só,/ Se ao mesmo sopro conduzisse unidas/ Nossas
essências num estreito nó! ... ".
"Cântico do calvário", para muitos a obra-prima
de Varela, se constitui numa das mais pungentes ele-
gias do lirismo brasileiro. Por meio de admirável
orquestração de metáforas, o longo poema apresenta
simultaneamente a morte do filho do poeta, a dis-
sipação das esperanças que sua vida projetava para a
vida atormentada do pai, e a morte em vida de Varela,
pela perda do referencial afetivo que a presença do
filho representava: "Ouço o tanger monótono dos sinos,/
E cada vibração contar parece/ As ilusões que murcham-se
contigo". Em alta voltagem dramática, o poema se
encerra com a negação e a transfiguração da morte,
reelaborada em signos de luz e de solidariedade. De
algum modo, a morte do menino o transforma no pai
de seu pai, apontando-lhe o caminho da redenção:
''Brilha e fulgura! Quando a morte fria/ Sobre mim sacu-
dir o pó das asas,/ Escada de Jacó serão teus raios/ Por onde
asinha subirá minh 'alma".

Convidamos o leitor, agora, a percorrer "oito


faces" da poesia de Varela, contidas em nove livros,
desde o inaugural Noturnas (1861) ao póstumo Diário
de Lázaro (1880). Esclarecemos que, no interior de
cada seção, os poemas virão dispostos por ordem de
publicação original. A edição de que nos valemos (cf.
bibliografia, no fim do volume) foi o das Poesias com-
pletas, criteriosamente organizadas por Frederico José
da Silva Ramos. Não obstante, recorremos a edições
princeps toda vez que algum registro suscitou dúvi-
das. Os títulos dos livros serão registrados pelas
seguintes abreviaturas:

21
Noturnas-N
O estandarte auriverde - EA
Vozes d'América - VA
Cantos e fantasias - CF
Cantos meridionais - CM
Cantos do ermo e da cidade - CE
Anchieta ou O evangelho nas selvas - AE
Avulsas-A
Cantos religiosos - CR
Diário de Lázaro - D L
Antonio Carlos Secchin

22
POEMAS
A MUSA CÍVICA
AS. PAULO

Terra da liberdade!
Pátria de heróis e berço de guerreiros,
Tu és o louro mais brilhante e puro,
O mais belo florão dos Brasileiros!

Foi no teu solo, em borbotões de sangue,


Que a fronte ergueram destemidos bravos,
Gritando altivos ao quebrar dos ferros,
Antes a morte que um viver de escravos!

Foi nos teus campos de mimosas flores,


À voz das aves, ao soprar do norte,
Que um rei potente às multidões curvadas
Bradou soberbo - Independência ou morte!

Foi de teu seio que surgiu, sublime,


Trindade eterna de heroísmo e glória,
Cujas estátuas,:-- cada vez mais belas,
Dormem nos templos da Brasília história!

Eu te saúdo, oh! majestosa plaga,


Filha dileta, - estrela da nação,
Que em brios santos carregaste os cílios
À voz cruenta de feroz Bretão!

27
Pejaste os ares de sagrados cantos,
Ergueste os braços e sorriste à guerra,
Mostrando ousada ao murmurar das turbas
Bandeira imensa da Cabrália terra!

Eia! - Caminha, o Partenon da glória


Te guarda o louro que premia os bravos!
Voa ao combate repetindo a lenda,
- Morrer mil vezes que viver escravos!
EA

28
CANÇÃO

Nunca viste à madrugada,


De níveo manto através,
Uma linfa branca e pura
Saltando da serra escura
Qual um cabrito montês?

Em torno, tudo
São negras penhas,
Névoas ligeiras,
Grutas e brenhas.
E o sol despeja,
Rasgando as brumas,
Torrentes de oiro
No véu e espumas!

Eis uma garça alvejante


Que abandona as cordilheiras,
E vai molhada de orvalhos
Perder-se nos moles galhos
De uma selva de palmeiras!

29
Assim murmura
De manhãzinha
O viajante
Que além caminha,
Cravando os olhos
Na linfa pura
Que se despenha
Da selva escura.

- Nunca viste-a? ... Não importa,


Deixa os tristonhos palmares ...
Vês agora esse gigante
Que se espreguiça arrogante
No leito imenso dos mares?

Em torno, tudo
São vozes, cantos,
Virgens florestas
De eternos mantos.
Plagas, - savanas,
Montes sombrios,
Curvam-se humildes
Ao rei dos riosl

30
Salve! Amazonas soberbo!
Salve! das águas Titão!
Teu povo brada arrogante:
- Quem vive ao pé de um gigante
Não tem receio ao Bretão!
EA

31
AURORA

Antes de erguer-se de seu leito de ouro,


O rei dos astros o Oriente inunda
De sublime clarão;
Antes de as asas desprender no espaço,
A tempestade agita-se e fustiga
O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéias que se cruzam,


O pensamento eterno que se move
No levante da vida,
São auras santas, arrebóis esplêndidos,
Que precedem à vinda triunfante
De um sol imorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido,


Que do seio dos povos se levanta,
Anuncia a tormenta;
Essa tormenta salutar e grande
Que o manto roçará, prenhe de fogo,
Na face das nações.

32
Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos,
Rebatei vossos ferros e cadeias,
Algozes e tiranos!
A hora se aproxima pouco a pouco,
E o dedo do Senhor já volve a folha
Do livro do destino!

Grande há de ser o drama, a ação gigante,


Majestosa a lição! Luzes e trevas
Lutarão sobre os orbes!
O abismo soltará seus tredos roncos,
E o frêmito dos mares agitados
Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos tronos frágeis


Buscando embalde sustentar nas frontes
As úmidas coroas ...
Debalde!. .. o vendaval na fúria insana
Os levará com elas, envolvidos
Num turbilhão de pó!

33
Vis, abatidos, o fidalgo e o rico
Sairão de seus paços vacilantes
Nos podres alicerces;
E errantes sobre a terra irão chorando
Mendigar um farrapo ao vagabundo,
E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra


Terrível e feroz cobrindo os campos
De cruentos horrores!
O palácio e a prisão irão por terra,
E um segundo dilúvio, então de sangue,
O mundo lavará!

O sábio em seu retiro, estupefato,


Verá tombar a imagem da ciência,
Fria estátua de argila,
E um pálido clarão dirá que é perto
O estro divinal que às turbas míseras
Conduz a redenção!

34
Como aos dias primeiros do universo
O globo se erguerá banhado em luzes,
Reflexos de Deus;
E a raça humana sob um céu mais puro
Um hino insigne enviará, prostrada
Aos pés do Onipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes;


Iguais e belos, sem senhor nem peias,
Nem tiranos e ferros!
O amor os unirá num laço estreito,
E o trânsito da vida uma romagem
Se tornará, celeste!

A hora se aproxima pouco a pouco;


O dedo do Senhor já volve a folha
Do livro do destino!. ..
Ergue-se a tela do teatro imenso,
E o mistério infinito se desvenda
Do drama do Calvário!
VA

35
ASPIRAÇÕES

Meu Deus! já que não posso no meio das florestas


Ouvir da natureza as mais soberbas festas;
Já que não posso errante no esplêndido oceano
Sorver a longos tragos teu bafo soberano;
Quero escutar nas praças, ao vento das paixões,
Erguer-se retumbante a voz das multidões!
Quero sentir, Senhor, que o fogo de teu gênio
Abrasa-lhes as fibras do mundo no proscênio,
E sabem responder do déspota à vontade:
- Aqui finda teu mando e surge a liberdade!

Aos mares e aos desertos, aos povos e às feras


Deste uma lei somente nas primitivas eras.
O Gênesis dos orbes teve por letra prima
O emblema da igualdade que a independência
[arrima.
A luz sacode as sombras e abraça a intensidade.
Os escarcéus resistem ao horror da tempestade;
Mas ai! Senhor, os homens, na mais formosa plaga,
Parece que afeiçoam-se ao jugo que os esmaga!
Quando ouvirei nas praças ao vento das paixões
Erguer-se retumbante a voz das multidões?

36
Espanta-me a tormenta que as árvores derriba,
Mas o tufão que passa e a cerração fustiga
É útil e propício, porque descobre os montes
E deixa que eu contemple os vastos horizontes
Onde ao clarão suave de um sol brilhante e puro
Ostenta-se formosa a imagem do futuro!. ..
A raça entorpecida à sombra se acostuma
E nada enxerga além da condensada bruma! ...
Venha o tufão bendito, e ao vento das paixões
Quero escutar nas praças a voz das multidões!

A escravidão não cinge-se unicamente aos ferros!


Há uma inda mais negra, a escravidão dos erros!
Para privar-se ao pobre que seu caminho veja
Oh, não, não é preciso que ele atulhado seja,
Basta roubar-lhe a luz, e o mísero nas sombras
Se atirará da margem nas úmidas alfombras!
Oh! não, pior mil vezes!. .. trazei-lhe a claridade;
Se o trilho está coberto, abre outro a liberdade!
Quando ouvirei nas praças ao vento das paixões
Erguer-se retumbante a voz das multidões?
CF
VERSOS SOLTOS
Ao General Juarez

Juarez! Juarez! Quando as idades,


Fachos de luz que a tirania espancam,
Passarem desvendando sobre a terra
As verdades que a sombra escurecia;
Quando soar no firmamento esplêndido
O julgamento eterno;
Então banhado no prestígio santo
Das tradições que as epopéias criam,
Grande como um mistério do passado,
Será teu nome a mágica palavra
Que o mundo falará lembrando as glórias
Da raça Mexicana!
Quem se atreve a medir-te face a face?
Quem teu vôo acompanha nas alturas,
Condor soberbo que da luz nas ondas
Sacode o orvalho das possantes asas,
E lança um grito de desprezo infinito
Aos milhafres rasteiros?
Que destemido caçador dos ermos
Irá te cativar, ave sublime,
Nessas costas bravias e tremendas,
Onde o Grande Oceano atira as vagas,
E os vendavais sem peias atordoam

38
O espaço de rugidos?
Que sicário real, nas matas virgens
Amplas, sem marcos, sem batismo e data,
Te apanhará, jaguar das soledades? ...
Ah! tu espreitas os vulcões que dormem!
Quando a cratera encher-se, à luz vermelha
Rebentarás nas praças!. ..
Trarás contigo os raios da tormenta!
Da tormenta serás o sopro ardente!
Mas a tormenta passará de novo
E o golfo Mexicano iluminado
Refletirá teu vulto gigantesco,
Ó águia do porvir!
Teu nome está gravado nos desertos
Onde pés de mortal jamais pisaram!
Quando pudessem deslembrá-lo os homens,
As selvas despiriam-se de folhas,
Para arrojá-las do tufão nas asas
Às multidões ingratas!
Como as de um livro imenso elas compõem
Teu poema sublime; a pluma eterna
Do invisível destino, e não rasteira,
Mísera pena de mundano bardo,
Nelas traçou as indeléveis cifras

39
De teu nome imortal!
Os pastores de Puebla e de Jalisco,
As morenas donzelas de Bergara,
Cantam teus feitos junto ao lar tranqüilo
Nas noites perfumadas e risonhas
Da terra Americana. Os viajantes
Que os desertos percorrem, - pensativos,
Param no cimo das erguidas serras,
Medem co'a vista o descampado imenso,
E murmuram fitando os horizontes
Vastos, perdidos num lençol de névoas:
Juarez! Juarez! em toda a parte
, ºt o vaga ....
.teu esp1n
'T' '

Falam de ti as fontes e as montanhas,


As ervinhas do campo e os passarinhos
Que, abrindo as asas no azulado céu,
Como um bando de sonhos esvoaçam.
Mas esse nome que ameniza o canto
Do torvo montanhês, - e mais suave
Que um suspiro de amor, parte dos lábios
Da virgem sonhadora das campinas,
Faz tremer o tirano que repousa
Nos macios coxins do leito de ouro,

40
Como o brado do arcanjo no infinito
Ao fenecer dos mundos!

Deixa que as turbas do terror escravas


Junto de falso trono se ajoelhem!
Os brindes e os folguedos continuam,
Mas a mão invisível do destino
Na sala do banquete austera escreve
O aresto irrevogável!...
CF

41
O ESCRAVO
Ao sr. Tomaz de Aquino Borges

Dorme! - Bendito o arcanjo tenebroso


Cujo dedo imortal
Gravou-te sobre a testa bronzeada
O sigilo fatal!
Dorme! - Se a terra devorou sedenta
De teu rosto o suor,
Mãe compassiva agora te agasalha
Com zelo e com amor.

Ninguém te disse o adeus da despedida,


Ninguém por ti chorou!
Embora! A humanidade em teu sudário
Os olhos enxugou!
A verdade luziu por um momento
De teus irmãos à grei.
Se vivo foste escravo és morto - livre
Pela suprema lei!

Tu suspiraste como o hebreu cativo


Saudoso do Jordão,
Pesado achaste o ferro da revolta,
Não o quiseste, não!
Lançaste-o sobre a terra inconsciente
De teu próprio poder!
Contra o direito, contra a natureza
Preferiste morrer!

42
Do augusto condenado as leis são santas,
São leis porém de amor:
Por amor de ti mesmo e dos mais homens
Preciso era o valor,
Não o tiveste! Os ferros e os açoites
Mataram-te a razão!
Dobrado cativeiro! A teus algozes
Dobrada punição!

Por que nos teus momentos de suplício,


De agonia e de dor
Não chamaste das terras Africanas
O vento assolador?
Ele traria a força e a persistência
À tu' alma sem fé,
Nos rugidos dos tigres de Benguela,
Dos leões de Guiné!...

Ele traria o fogo dos desertos,


O sol dos areais,
A voz de teus irmãos viril e forte,
O brado de teus pais!
Ele te sopraria às moles fibras
A raiva do suão
Quando agitando as crinas inflamadas
Fustiga a solidão!

43
Então ergueras resoluto a fronte,
E grande em teu valor
Mostraras que em teu seio inda vibrava
A voz do Criador!
Mostraras que das sombras do martírio
Também rebenta a luz!
Oh! teus grilhões seriam tão sublimes,
Tão santos como a cruz!

Mas morreste sem lutas, sem protestos,


Sem um grito sequer!
Como a ovelha no altar, como a criança
No ventre da mulher!
Morreste sem mostrar que tinhas n' alma
Uma chispa do céu!
Como se um crime sobre ti pesasse!
Como se foras réu!

Sem defesa, sem preces, sem lamentos,


Sem círios, sem caixão,
Passaste da senzala ao cemitério!
Do lixo à podridão!
Tua essência imortal onde é que estava?
Onde as leis do Senhor?
Digam-no o tronco, o látego, as algemas
E as ordens do feitor!

44
Digam-no as ambições desenfreadas,
A cobiça fatal,
Que a eternidade arvoram nos limites
De um círculo mortal!
Digam-no o luxo, as pompas e grandezas,
Lacaios e brasões,
Tesouros sobre o sangue amontoados,
Paços sobre vulcões!

Digam-no as almas vis das prostitutas,


O lodo e o cetim,
O demônio do jogo, - a febre acesa
Em ondas de rubirn!. ..
E no entanto tinhas um destino,
Urna vida, um porvir,
Um quinhão de prazeres e venturas
Sobre a terra a fruir!

Eras o mesmo ser, a mesma essência


Que teu bárbaro algoz;
Foram seus dias de rosada seda,
Os teus - de atro retrós!. ..
Pátria, família, idéias, esperanças,
Crenças, religião,
Tudo matou-te, em flor no íntimo d' alma,
O dedo da opressão!

45
Tudo, tudo abateu sem dó nem pena!
Tudo, tudo, meu Deus!
E teu olhar à lama condenado
Esqueceu-se dos céus!. ..
Dorme! Bendito o arcanjo tenebroso -
Cuja cifra imortal,
Selando-te o sepulcro, abriu-te os olhos
À luz universal!
CM

46
À BAHIA

Sobre coxins de verdura


Aos fogos do meio-dia
Dorme a esplêndida Bahia
Reclinada à beira-mar;
E como servas humildes
Sustendo-lhe o régio arminho
As vagas falam baixinho
Medrosas de a despertar.

Os ventos que a furto beijam


De seus vergéis as mangueiras
Vão perfumar cem bandeiras
Que ondeiam no céu azul;
E relatam maravilhas
Dessa pérola do Norte,
Mais do que Cartago, forte,
Mais linda do que Istambul.

Estrangeiro que habitastes


Mil cidades de outros mares,
Ao mirar estes palmares,
O que sentistes, dizei?

47
- -~-- l ·- ~

O que sentistes pisando


Sobre o tapiz destas praias
Pomposas, corno as alfaias
Do leito de um grande rei?

Ao contemplar estes montes


Ardentes de mocidade
Por onde a dupla cidade
Se estende a seu bel-prazer;
E estas praças arrelvadas,
E estas árvores erguidas,
E estas rampas atrevidas
Que vão nas nuvens morrer,

Sentistes saudade acaso


Dos países que deixastes?
Dos povos que visitastes
Tivestes lembranças cá?
Oh! não, que a vossos olhares
Não mostraram tal beleza
Roma, Nápoles, Veneza,
Cantão, Pequim, Calcutá!

48
Mas ah! Vede, nesta pátria
De heróis, de gênios, de bravos,
Vestígios de pés escravos
Conspurcam tão nobre chão!
E pelas noites tranqüilas,
Aos ecos das serenatas,
Casam-se as vozes ingratas
Da mais cruenta opressão!

Estas praças e mercados,


Estes vastos edifícios
Não são por certo os indícios
De um povo calmo e feliz!
Não, que sobre essas riquezas
Fundadas sobre um delito
Geme o direito proscrito,
Chora uma raça infeliz!

E ela dorme descuidosa,


Sem medo a filha do Norte,
Entregue à mísera sorte
Das outras belas irmãs;
Dorme como as odaliscas
Nos palácios do Oriente
Sob a guarda inconsciente
De comprados iatagãs.

49
Bahia, terra das artes!
Terra do amor e da glória!
Quão grande foras na História,
Quão grande com teus brasões,
Se à fronte não te luzissem
Aos diamantes misturados
Os prantos cristalizados
De cativas multidões!
CM

50
QUEM SOU?
O FORAGIDO
(Canção)

Minha casa é deserta; na frente


Brotam plantas bravias no chão,
Nas paredes limosas - o cardo -
Ergue a fronte silente ao tufão.

Minha casa é deserta. O que é feito


Desses templos benditos d' outrora,
Quando em torno cresciam roseiras,
Onde as auras brincavam n'aurora?

Hoje a tribo das aves errantes


Dos telhados se acampa no vão,
A lagarta percorre as muralhas,
Canta o grilo pousado ao fogão.

Das janelas no canto, as aranhas


Leves tremem nos fios dourados,
As avencas pululam viçosas
Na umidade dos muros gretados.

Tudo é tredo, meu Deus! o que é feito


Dessas eras de paz que lá vão,
Quando junto do fogo eu ouvia
As legendas sem fim do serão?

53
No curral esbanjado, entre espinhos,
Já não bala ansioso o cordeiro,
- Nem desperta-se ao toque do sino -
- Nem ao canto do galo ao poleiro. -

Junto à cruz que se eleva na estrada


Seco e triste se embala o chorão,
Não há mais o esfumar das acácias,
Nem do crente a - sentida oração.

Não há mais urna voz nestes ermos,


Um gorjeio das aves no val,
Só a fúria do vento retroa
Alta noite agitando o ervaçal!

Ruge, oh vento gelado do norte,


Torce as plantas que brotam do chão,
Nunca mais eu terei as venturas
Desses tempos de paz que lá vão!

Nunca mais desses dias passados


Urna luz surgirá dentre as brumas!
As montanhas se ernbuçarn nas trevas,
As torrentes se vendam de espumas!

54
Corre pois vendaval das tormentas,
Hoje é tua esta morna soidão!
Nada tenho, que um céu lutulento
E uma cama de espinhos no chão!

Ruge, voa, que importa! sacode


Em lufadas as crinas da serra,
Alma nua de crença e esperanças
Nada tenho a perder sobre a terra!

Vem, meu pobre e fiel companheiro,


Vamos, vamos depressa, meu cão,
Quero ao longo perder-me das selvas
Onde passa rugindo o tufão!
Cantareira - 1861.
N

55
. -- - - i ~ - ·~

TRISTEZA

Eu amo a noite com seu manto escuro,


De tristes goivos coroada a fronte,
Amo a neblina, que pairando ondeia
Sobre o fastígio de elevado monte.

Amo nas plantas, que na tumba crescem,


De errante brisa o funeral cicio:
Porque ninh' alma, como a sombra, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo a desoras sob um céu de chumbo,


No cemitério de sombria serra,
O fogo-fátuo que a tremer doudeja
Das sepulturas na revolta terra.

Amo ao silêncio do ervaçal partido


De ave noturna o funerário pio,
Porque minh' alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo do templo, nas soberbas naves,


De tristes salmos o troar profundo;
Amo a torrente que na rocha espuma,
E vai do abismo repousar no fundo.

56
Amo a tormenta, o perpassar dos ventos,
A voz da morte no fatal parcel;
Porque minh' alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel.

Amo o corisco que deixando a nuvem


O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto soa,
O triste dobre n' amplidão perdido.

Amo na vida de miséria e lodo,


Das desventuras o maldito selo;
Porque minh' alma se manchou de escárnios,
Porque meu seio se cobriu de gelo.

Amo o furor do vendaval que ruge,


Das asas negras sacudindo o estrago;
Amo as metralhas, o bulcão de fumo,
De corvo as tribos em sangrento lago.

Amo do nauta o doloroso grito


Em frágil prancha sobre mar de horrores,
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minh' alma descorou de dores.

57
O céu de anil, a viração fagueira,
O lago azul que os passarinhos beijam;
A pobre choça do pastor no vale;
Chorosas flores no sertão vicejam;

A paz, o amor, a quietação e o riso


A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh' alma se despiu de crenças,
E do sarcasmo se embuçou no manto .

... 1861.
VA

58
O EXILADO
O exilado está só por toda a parte!

Passei tristonho dos salões no meio,


Atravessei as turbulentas praças
Curvado ao peso de uma sina escura;
As turbas contemplaram-me sorrindo,
Mas ninguém divisou a dor sem termos
Que as fibras de meu peito espedaçava.
O exilado está só por toda a parte!

Quando, à tardinha, dos floridos vales


Eu via o fumo se elevar tardio
Por entre o colmo de tranqüilo albergue,
Murmurava a chorar: - Feliz aquele
Que à luz amiga do fogão doméstico,
Rodeado dos seus, à noite senta-se.
O exilado está só por toda a parte!

Onde vão estes flocos de neblina


Que o euro arrasta nas geladas asas?
Onde vão essas tribos forasteiras
Que à tempestade se esquivar procuram?
Ah! que me importa? ... também eu doudejo,
E onde irei, Deus o sabe, Deus somente.
O exilado está só por toda a parte!

59
Desta campina as árvores são belas,
São belas estas flores que se vergam
Das auras estivais ao débil sopro;
Mas nem a sombra que no chão se alonga,
Nem o perfume que o ambiente inunda,
São dessa gleba divinal que adoro.
O exilado está só por toda a parte!

Mole e lascivo no tapiz da selva


Serpeia o arroio, e o deslizar queixoso
Peja de amor as solidões dormentes;
Mas nunca o rosto refletiu-me um dia,
Nem foi seu burburinho enlanguescido
Que embalou minha infância descuidosa.
O exilado está só por toda a parte!

- Por que chorais? - me perguntou o mundo -


Contai-nos vossa dor, talvez possamos
Saná-la às gotas de elixir suave;
Mas quando eu suspendi a lousa escura
Que o túmulo cobria-me da vida,
Riram-se pasmos sem sondar-lhe o fundo.
O exilado está só por toda a parte!

60
Vi o ancião da prole rodeado
Sorrir-se calmo e bendizer a Deus,
Vi junto à porta da nativa choça
As crianças beijaram-se abraçadas;
Mas de filho ou de irmão o santo nome
Ninguém me deu, e eu fui passando triste.
O exilado está só por toda a parte!

Quando verei essas montanhas altas


Que o sol dourava nas manhãs de agosto?
Quando, junto à lareira, as folhas lívidas
Deslembrarei de meu sombrio drama?
Douda esperança! as estações sucedem
E sem um gozo vou descendo à campa.
O exilado está só por toda a parte!

Brandas aragens que roçais fagueiras


Das maravilhas nas cheirosas frontes,
Aves sem pátria que cortais os ares,
Irmãs na sorte do infeliz romeiro,
Ah! levai um suspiro à pátria amada,
Último alento de cansado peito.
O exilado está só por toda a parte!

61
Quando nas folhas de lustrosos plátanos
Novos luares descansarem gratos,
Já sobre a estrada de meus pés os traços
O pegureiro não verá, que passa!
Mísero! ao leito de final descanso
Ninguém meu sono velará chorando.
O exilado está só por toda a parte!
VA

62
CHILDE-HAROLD
(Sobre uma página de Byron)

Não te rias assim, oh! não te rias,


Basta de sonhos, de ilusões fatais!
Minh' alma é nua, e do porvir às luzes
Meus roxos lábios sorrirão jamais!

Que pesar me consome! ah! não procures


Erguer a lousa de um pesar profundo,
Nem apalpares a matéria lívida
E a lama impura que pernoita ao fundo!

Não são as flores da ambição pisadas,


Não é a estrela de um porvir perdida
Que esta cabeça coroou de sombras
E a tumba inclina ao despontar da vida!

É este enojo perenal, contínuo,


Que em toda a parte me acompanha os passos,
E ao dia incende-me as artérias quentes,
Me aperta à noite nos mirrados braços!

São estas larvas de martírio e dores


Sócias constantes do judeu maldito,
Em cuja testa, dos tufões crestada,
Labéu de fogo cintilava escrito!

63
J _ l_......L •I

Quem de si mesmo desterrar-se pode?


Quem pode a idéia aniquilar que o mata?
Quem pode altivo esmigalhar o espelho
Que a torva imagem de Satã retrata?

Quantos encontram inefáveis gozos


Nesses prazeres, para mim tormentos!
Quantos nos mares onde a morte enxergo
Abrem as velas do baixel aos ventos!

O meu destino é vaguear e sempre!


Sempre fugindo, a funeral lembrança,
Férreo estilete que me rasga os músculos,
Voz dos abismos que me brada: - Avança!

Que pesar me consome! ai! não mais tentes,


Espera a lousa de um pesar profundo,
Somente a morte encontrarás nas bordas,
E o inferno inteiro a praguejar no fundo!
VA

64
RESIGNAÇÃO

Sozinho no descampado
Sozinho, sem companheiro,
Sou como o cedro altaneiro
Pela tormenta açoutado.

Rugi! tufão desabrido!


Passai! temporais de pó!
Deixai o cedro esquecido,
Deixai o cedro estar só!

Em meu orgulho embuçado,


Do tempo zombo da lei ...
Oh! venha o raio abrasado,
- Sem me vergar... tombarei!

Gigante da soledade,
Tenho na vida um consolo:
Se enterro as plantas no solo,
Chego a fronte à imensidade!

Nada a meu fado se prende,


Nada enxergo junto a mim;
Só o deserto se estende
A meus pés, fiel mastim.

65
À dor o orgulho sagrado
Deus ligou num grande nó ...
Quero viver isolado,
Quero viver sempre só!

E quando o raio incen dido


Roçar-me, então cairei
Em meu orgulho envolvido,
Como em um manto de rei.
CF

66
IRADESAUL
(Fragmento)

A noite desce. Os furacões de Assur


Passam dobrando os galhos à videira,
Todos os plainos de Salisa e Sur
Perdem-se ao longe em nuvens de poeira.

Minh' alma se exacerba. O fel d' Arábia


Coalha-se todo neste peito agora.
Oh! nenhum mago da Caldéia sábia
A dor abrandará que me devora!

Nenhum! - Não vem da terra, não tem nome,


Só eu conheço tão profundo mal,
Que lavra como a chama e que consome
A alma e o corpo no calor fatal!

Maldição! Maldição! Ei-lo que vem!


Oh! mais não posso! A ira me quebranta!. ..
Toma tu'harpa, filho de Belém,
Toma tu'harpa sonorosa e canta!

Canta, louro mancebo! O som que acordas


É doce como as auras do Cedron,
Lembra-me o arroio de florentes bordas
Junto à minha romeira de Magron.

67
Lembra-me a vista do Carmelo, - as tendas
Brancas sobre as encostas de Efraim,
E pouco a pouco apagam-se as tremendas
Fúrias do gênio que me oprime assim!
CF

68
AO RIO DE JANEIRO

Adeus! Adeus! Nas cerrações perdidas


Vejo-te apenas, Guanabara altiva,
Mole, indolente, à beira-mar sentada
Sorrindo às ondas em nudez lasciva.

Mimo das águas, flor do Novo Mundo,


Terra dos sonhos meus,
Recebe asinha no passar dos ventos
Meu derradeiro adeus!

A noite desce, os boqueirões de espuma


Rugem pejados de ferventes lumes,
E os loiros filhos do marinho império
Brotam do abismo em festivais cardumes.

Sinistra voz envia-me aos ouvidos


Um cântico fatal!
Permita o fado que a teu seio eu volte,
Oh! meu torrão natal!

Já no horizonte as plagas se confundem,


O céu e a terra abraçam-se discretos,
Leves os vultos das palmeiras tremem
Como as antenas de sutis insetos.

69
Agora o espaço, as sombras, a saudade,
O pranto e a reflexão ...
A alma entregue a si, Deus nas alturas ...
Nos lábios a oração!

Tristes idéias, pensamentos fundos,


Nublam-me a fronte descaída e fria,
Como esses flocos de neblina errante
Que os cerros vendam quando morre o dia.

Amanhã que verei? -Talvez o porto,


Talvez o sol... não sei!
Brinco do fado, a dor é minha essência,
O acaso minha lei!. ..

Que importa! A pátria do poeta o segue


Por toda a parte onde o conduz a sorte,
No mar, nos ermos, do ideal nos braços,
Respeita o selo imperial da morte!

Oceano profundo! Augusto emblema


Da vida universal!
Leva um adeus ainda às alvas praias
De meu torrão natal.
CM

70
NOTURNO

Minh' alma é como um deserto


Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!

Minh' alma é como a serpente


Que se torce ébria e demente
De vivas chamas no meio;
É como a douda que dança
Sem mesmo guardar lembrança
Do cancro que rói-lhe o seio!

Minh' alma é como o rochedo


Donde o abutre e o corvo tredo
Motejam dos vendavais;
Coberto de atros matizes,
Lavrado das cicatrizes
Do raio, nos temporais!

71
1 -- -- -

Nem uma luz de esperança,


Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram,
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Tombam as selvas frondosas,


Cantam as aves mimosas
As nênias da viuvez;
Tudo, tudo, vai finando,
Mas eu pergunto chorando:
Quando será minha vez?

No véu etéreo, os planetas;


No casulo as borboletas
Gozam da calma final;
Porém meus olhos cansados
São, a mirar, condenados
Dos seres o funeral!

72
Quero morrer! Este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel!
Minha esperança esvaiu-se,
Meu talento consumiu-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer! Não é crime


O fardo que me comprime,
Dos ombros, lançá-lo ao chão;
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Perder-me pela amplidão!

Vem, oh! Morte! A turba imunda


Em sua ilusão profunda
Te odeia, te calunia,
Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria!

73
Virgens, anjos e crianças
Coroadas de esperanças
Dobram a fronte a teus pés!
Os vivos vão repousando!
E tu me deixas chorando!
Quando virá minha vez?

Minh' alma é como um deserto


Por onde o romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita
Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!
CM

74
EU AMO A NOITE

Eu amo a noite quando deixa os montes,


Bela, mas bela de um horror sublime,
E sobre a face dos desertos quedas
Seu régio selo de mistério imprime.

Amo o sinistro ramalhar dos cedros


Ao rijo sopro da tormenta infrene,
Quando antevendo a inevitável queda
Mandam aos ermos um adeus solene.

Amo os penedos escarpados onde


Desprende o abutre o prolongado pio,
E a voz medonha do caimã disforme
Por entre os juncos de lodoso rio.

Amo os lampejos verde-azul, funéreos,


Que às horas mortas erguem-se da terra,
E enchem de susto o viajante incauto
No cemitério de sombria serra.

Amo o silêncio, os areais extensos,


Os vastos brejos e os sertões sem dia,
Porque meu seio como a sombra é triste,
Porque minh' alma é de ilusões vazia.

75
Amo o furor do vendaval que ruge
Das asas densas sacudindo o estrago,
Silvos de balas, turbilhões de fumo,
Tribos de corvos em sangrento lago.

Amo as torrentes que da chuva túmidas


Lançam aos ares um rumor profundo,
Depois raivosas carcomendo as margens
Vão dos abismos pernoitar no fundo.

Amo o pavor das soledades, quando


Rolam as rochas da montanha erguida,
E o fulvo raio que flameja e tomba
Lascando a cruz da solitária ermida.

Amo as perpétuas que os sepulcros ornam,


As rosas brancas desbrochando à lua,
Porque na vida não terei mais sonhos,
Porque minh' alma é de esperanças nua.

Tenho um desejo de descanso, infindo,


Negam-me os homens; onde irei achá-lo?
A única fibra que ao prazer ligava-me
Senti partir-se ao derradeiro abalo!. ..

76
Como a criança, do viver nas veigas,
Gastei meus dias namorando as flores,
Finos espinhos os meus pés rasgaram,
Pisei-os ébrio de ilusões e amores.

Sendal espesso me vendava os olhos,


Doce veneno lhe molhava o nó ...
Ai! minha estrela de passadas eras,
Por que tão cedo me deixaste só?

Sem ti procuro a solidão e as sombras


De um céu toldado de feral caligem,
E gasto as horas traduzindo as queixas
Que à noite partem da floresta virgem.

Amo a tristeza dos profundos mares,


As águas torvas de ignotos rios,
E as negras rochas que nos plainos zombam
Da insana fúria dos tufões bravios.

Tenho um deserto de amarguras n' alma,


Mas nunca a fronte curvarei por terra!. ..
Ah! tremo às vezes ao tocar nas chagas,
Nas vivas chagas que meu peito encerra!
CE

77
ARMAS

- Qual a mais forte das armas,


A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
- Qual a mais firme das armas? -
O terçado, a fisga, o chuço,
. O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote? ...
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: - a língua humana! -
A

78
VELHA CANÇÃO
(Voltas)

Não sou desses gênios duros


Inimigos do prazer
Que julgam que a humanidade
Só nasceu para gemer;

Gosto de queimar incenso


Sobre as aras da alegria,
Julgo que ser louco a tempo
Também é sabedoria.

Tudo no mundo é vaidade,


Disse o grande Salomão ...
Ele pensou talvez isto
Em noite de indigestão ...

Venham raivosos guerreiros


Abater espessos muros,
Briguem as leis, os legistas,
Não sou desses gênios duros.

Quero festins, onde as belas


Me façam enlouquecer;
Desprezo os ilustres mochos
Inimigos do prazer.

79
Prosperidade na terra
É sonho que pouco dura,
Tudo definha e fenece
Na lousa da sepultura.

Canto as mulheres e as musas,


As venturas, o prazer,
A vida é triste mentira,
Gozarei até morrer.

Que importa que as turbas loucas


Me cubram de maldições?
Pobres loucos! Não concebem
De um festim as seduções!

Meditem os estadistas
Sobre casos mal seguros,
Trato de cousas mais leves,
Não sou desses gênios duros.

Discurse o padre na igreja


Batendo uma seita esquiva,
E volte à casa alta noite
Tendo jantado a saliva!

80
Eu por mim penso que o mundo
Por pouco vai-se a perder,
Por causa de tantos grulhas
Inimigos do prazer.

Só me falam nos antigos


Abraão, Isaac, Jacó!. ..
Eles tinham cem mulheres!
E eu? ... Eu tenho uma só!

É verdade que essa mesmo


Me tem dado que fazer,
Mas nem por isso tomei-me
Inimigo do prazer.
A

81
EM BUSCA
DE CRISTO
CANTO I, XXVIII

Belém... Onde Belém? Quais os caminhos?


Quais os guias seguros? Quem pudera
Nessas horas caladas ensinar-lhes
Da romaria o norte? Quantos povos
Bárbaros de permeio, ou quanto tempo
De penosas jornadas e labores?
Depois, quais os sinais? Quais os indícios,
E o nome do que buscam? Como achá-lo?
Em vão tentavam, ponderando o caso,
Resolver estas dúvidas tremendas.
Nada explicara o mensageiro augusto,
Nenhum rumo apontara, - de que modo
Obedecer às ordens soberanas?
Porém, milagre!. .. nos sidéreos climas
Uma formosa estrela, nunca vista
Nas eras que passaram, fulgurante
Apareceu de súbito, inundando
O rio, os campos, os vergéis frondosos,
Os extensos jardins, e os elevados
Coruchéus dos palácios, da mais pura,
Da mais serena luz que haja caído
Das empíreas alturas! Tristes, pálidas,

85
As mil constelações se tresmalharam
Quais errantes lucíolas: a láctea
Banda, que o firmamento em dois divide,
Como um cinto de frágeis filigranas
Na vastidão perdeu-se! - Os grandes lagos,
Os tanques primorosos, as colinas
Coroadas de vinhas e oliveiras,
Transformaram-se em mares encantados,
Ilhas de nácar, mágicos pomares,
Grutas de fadas e amorosos gênios.
AE

86
CANTO IV

Lembra-te de teu Criador nos dias da tua mocidade,


antes que venha o tempo da aflição, e cheguem os anos
de que tu digas: Esta idade não me agrada:
Antes que se escureça o sol, e a luz, e a lua, e as estre-
las, e tornem a vir as nuvens depois da chuva:

Antes que se rompa o cordão de prata, e se retire a


fita de oiro, e se quebre o cântaro sobre a fonte, e se des-
faça a roda sobre a cisterna.
ECLESIASTES XII, V. 1, 2, 6.

Quão aprazíveis são teus frescos vales,


Terra de Santa Cruz! Quão majestosos
São os teus altos cerras e teus montes!
Quão belos os teus rios, e os alpestres,
Fragosos alcantis das ribanceiras!
Quais os painéis de um sonho fugitivo,
Os diviso entre pálidos vapores,
E revolvo a memória enfraquecida
Buscando, o quê ... não sei! - Alguma coisa
Que talvez existisse, ou ainda exista,
Aqui, além, na terra, ou no infinito,
No seio impenetrável do futuro!
Ai! sim, alguma coisa que me falta,
Alguma coisa que minh' alma espera
Como certa, infalível, necessária,

87
E debalde procura e não encontra,
E tenta dar um nome, e os frios lábios
Não sabem que dizer! Meu Deus, acaso
Serás tu? ... - Como a nau incendiada
Que, meia oculta em turbilhões de fumo,
De vermelho clarão as ondas tinge,
Tal das nuvens purpúreas do Ocidente
Dardeja o sol os raios derradeiros
Nas soledades dos sertões Brasílios.
As campinas e as selvas clareadas
Pela mágica luz do cíntio globo
Arreiam-se de galas, e parecem
Cobertas de oiro em pó, e finas pedras.
AE

88
"ESTRELAS"

Estrelas
Singelas,
Luzeiros
Fagueiros,
Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!
Desertos e mares, - florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topetais!
Abismos
Profundos!
Cavernas
Eternas!
Extensos,
Imensos
Espaços
Azuis!
Altares e tronos,
Humildes e sábios, soberbos e grandes!
Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!
Só ela nos mostra da glória o caminho,
Só ela nos fala das leis de - Jesus!
CR

89
"EI-NOS UNIDOS ... "
Margens do Tietê, 24 de julho

Eis-nos unidos. Só a morte agora


Pode a teia rasgar dos sonhos nossos.
Meu Deus! Senhor meu Deus! eu tenho medo,
Desta dita inefável, que derramas
Sobre minha existência, em almos dias,
Em noites sem iguais! Sim, quase sempre
No romance da vida e desventura,
Os desastres cruentos se anunciam
Por um sublime prólogo!. .. Perdoa-me,
Perdoa-me, Senhor, se, audaz, bafejo
Meu hálito de dúvida na face
Do liso espelho, que teus dons reflete!
Perdoa-me! A desgraça murcha e verga
Da essência humana as mais singelas flores,
E quando, entre a tormenta, um raio amigo
Do sol consolador vem aquecê-las,
Elas não têm perfumes, que ofertar-lhe!
Perdoa-me, Senhor! Creio em teu nome!
Creio em tua justiça! Tenho n' alma,
N'alma, que ressuscita ao grato sopro
Do amor e da ventura, um mundo inteiro
De perfumes, de cânticos, de flores,
Que depor a teus pés! Ah! tu ouviste
Minhas humildes preces, compassivo
Escutaste meus votos mais ardentes!

90
Duplicaste meu ser, minha existência
Na posse da mulher, que idolatrava!..
Ah! faze, grande Deus, que nossas vidas
Corram tranqüilas, como agora correm;
Que benditos por ti, por ti sagrados,
Nossos dias unidos para sempre
Sejam em teu louvor um canto eterno!
DL

91
EM NOME DO AMOR
ILUSÃO

Sinistro como um fúnebre segredo


Passa o vento do Norte murmurando
Nos densos pinheirais;
A noite é fria e triste; solitário
Atravesso a cavalo a selva escura
Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos


Borbulham-me no cérebro, ferventes,
Como as ondas do mar;
E me arrastam consigo, alucinado,
À casa da formosa criatura
De meu doudo cismar.

Latem os cães; as portas se franqueiam


Regendo sobre os quícios; os criados
Acodem pressurosos;
Subo ligeiro a longa escadaria,
Fazendo retinir minhas esporas
Sobre os degraus lustrosos.

95
No seu vasto salão iluminado,
Suavemente repousando o seio
Entre sedas e flores,
Toda de branco, engrinaldada a fronte,
Ela me espera, a linda soberana
De :i:neus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido


De febre e de paixão ... A noite é negra,
Ruge o vento no mato;
Os pinheiros se inclinam, murmurando:
- Onde vai este pobre cavaleiro
Com seu sonho insensato? ...
VA

96
IDEAL

Não és tu quem eu amo, não és!


Nem Teresa também, nem Ciprina;
Nem Mercedes a loura, nem mesmo
A travessa e gentil Valentina.

Quem eu amo, te digo, está longe;


Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.

Tem a cútis mais fina e brilhante


Que as bandejas de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoas, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.

Tem uns pés ... oh! que pés, Santo Deus!


Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.

Não és tu quem eu amo, nem Laura,


Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês;
A mulher que minh' alma idolatra
É princesa do império chinês.
VA

97
DEIXA-ME!*

Quando cansado da vigília insana


Declino a fronte num dormir profundo,
Por que teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?

Por que teu vulto se levanta airoso,


Tremente em ânsias de volúpia infinda?
E as formas nuas, e ofegante o seio,
No meu retiro vens tentar-me ainda?

Por que me falas de venturas longas,


Por que me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes à fogueira extinta,
Doces perfumes a polutas flores?

Não basta ainda essa existência escura,


Página treda que a teus pés compus?
Nem essas fundas, perenais angústias,
Dias sem crenças e serões sem luz?

Não basta o quadro de meus verdes anos


Manchado e roto, abandonado ao pó?
Nem este exílio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?

* Este poema foi incluído, com ligeiras modificações, nos Cantos


meridionais, sob o título de "Expiação".

98
Ah! não me lembres do passado as cenas,
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? a quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo?

A quantos outros, inda os lábios quentes


De ardentes beijos que eu te dera então,
Não apertaste no vazio seio
Entre promessas de eternal paixão?

Oh! fui um doudo que segui teus passos,


Que dei-te em versos da beleza a palma;
Mas tudo foi-se, e esse passado negro
Por que sem pena me despertas n' alma?

Deixa-me agora repousar tranqüilo,


Deixa-me agora dormitar em paz,
E com teus risos de infernal encanto,
Em meu retiro não me tentes mais!
VA

99
NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM!

Não te esqueças de mim, quando erradia


Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares


Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,


Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando à tardinha


Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,


A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, qu e te amo tanto.

100
Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,


E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.
VA

101
SONETO

Eu passava na vida errante e vago


Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago.

Beijava a onda num soluço mago


Das moles plumas a brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo


A teus pés afoguei a mocidade
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas ai! cedo fugiste!. .. da soidade,


Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!
VA

102
ELEGIA

A noite era bela, - dormente no espaço


A lua soltava seus pálidos lumes,
Das flores fugindo, corria lasciva,
A brisa embebida de moles perfumes.

Do ermo os insetos zumbiam na relva,


As plantas tremiam de orvalho banhadas,
E aos bandos voavam ligeiras falenas
Nas folhas batendo co'as asas douradas.

O túrbido manto das névoas errantes


Pairava indolente no topo da serra,
E aos astros, - e às nuvens - perfumes, -
[sussurros,
Suspiros e cantos partiam da terra.

Nós éramos jovens, - ardentes e sós,


Ao lado um do outro no vasto salão;
E as brisas e a noite nos vinham no ouvido
Cantar os mistérios de infinda paixão!

Nós éramos jovens, - e a luz de seus olhos


Brilhava incendida de eternos desejos,
E a sombra indiscreta do níveo corpinho
Sulcava-lhe os seios em brandos arquejas!

103
Nós éramos jovens, - e as balsas floridas
O espaço inundavam - de quentes perfumes,
E o vento chorava nas tílias do parque,
E a lua soltava seus tépidos lumes!. ..

Ah! mísero aquele que as sendas do mundo


Trilhou sem o aroma de pálida flor,
E à tumba declina, n' aurora dos sonhos,
O lábio inda virgem dos beijos de amor!

Não são dos invernos as frias geadas,


Nem longas jornadas que os anos apontam;
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por gozos se contam.

Assim nessa noite de mudas venturas,


De louros eternos minh' alma enastrei,
Que importa-me agora martírios e dores
Se outrora dos sonhos a taça esgotei?

Ah! lembra-me ainda! nem um candelabro


Lançava ao recinto seu brando clarão,
Apenas os raios da pálida lua
Transpondo as janelas batiam no chão.

104
Vestida de branco, - nas cismas perdida,
Seu mórbido rosto pousava em meu seio,
E o aroma celeste das negras madeixas
Minh' alma inundava de férvido anseio.

Nem uma palavra seus lábios queridos


Nos doces espasmos diziam-me então
Que valem palavras quando ouve-se o peito
E as vidas se fundem no ardor da paixão?

Oh! céus! eram mundos ... ai! mais do que mundos


Que a mente invadiam, de etéreo fulgor!
Poemas divinos, - por Deus inspirados
E a furto contados em beijos de amor!

No fim do seu giro, da noite a princesa


Deixou-nos unidos em brando sonhar;
Correram as horas, - e a luz d' alvorada
Em juras infindas nos veio encontrar!

Não são dos invernos as frias geadas,


Nem longas jornadas que os anos apontam,
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por dores se contam!

105
Ligeira, essa noite de infindas venturas
Somente em minh' alma lembranças deixou ...
Três meses passaram, e o sino do templo
À reza dos mortos os homens chamou!

Três meses passaram, - e um lívido corpo


Jazia dos círios à luz funeral,
E à sombra dos mirtos, o rude coveiro
Abria cantando seu leito final!. ..

Nós éramos jovens, e a senda terrestre


Trilhávamos juntos, de amor a sorrir,
E as flores, e os ventos nos vinham no ouvido
Contar os arcanos de um longo porvir!

Nós éramos jovens, e as vidas, e os seios,


O afeto prendera num cândido nó!
Foi ela a primeira que o laço quebrando
Caiu soluçando das campas no pó!

Não são dos invernos as frias geadas,


Nem longas jornadas que os anos apontam,
O tempo descara nos risos e prantos,
E os dias do homem por dores se contam!
... 1861.
VA

106
VISÕES DA NOITE

Passai, tristes fantasmas! O que é feito


Das mulheres que amei, gentis e puras,
Umas devoram negras amarguras,
Repousam outras em marmóreo leito!

Outras no encalço de fatal proveito


Buscam à noite as saturnais escuras,
Onde empenhando as murchas formosuras
Ao demônio do ouro rendem preito!

Todas sem mais amor! sem mais paixões!


Mais uma fibra trêmula e sentida!
Mais um leve calor nos corações!

Pálidas sombras de ilusão perdida,


Minh'alma está deserta de emoções,
Passai, passai, não me poupeis a vida!

107
JUVENÍLIA
(Excertos)

Poema

Lembras-te, Iná, dessas noites


Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?

Quando as estrelas sorriam,


Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao languor daquele céu?

Lembras-te, Iná? Belo e mago,


Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.

Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.

108
Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.

Teu seio era como a lira


Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.

Do mundo os negros horrores


Nem pressentias sequer;
Teus almos dias, mulher,
Passavam num chão de flores.

Oh! primavera sem termos!


Brancos luares dos ermos!
Auroras de amor sem fim!
Fugistes deixando apenas,
Por terra, esparsas as penas
Das asas de um serafim!

109
Ah! Iná! Quanta esperança
Eu não vi brilhar nos céus,
Ao luzir dos olhos teus,
A teu sorrir de criança!

Quanto te amei! Que futuros!


Que sonhos gratos e puros!
Que crenças na eternidade!
Quando a furto me falavas,
E meu ser embriagavas
Na febre da mocidade!

Como nas noites de estio,


Ao sopro do vento brando,
Rola o selvagem cantando
Na correnteza do rio;

Assim passava eu no mundo,


Nesse descuido profundo
Que etérea dita produz!
Tu eras, Iná, minh'alma,
De meu estro a glória e a palma,
De meus caminhos a luz!

110
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!

Onde foste, oh! pomba errante?


Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?

Ah! Iná! por toda parte


Que teu espírito esteja,
Minh' alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!

Irei às nuvens serenas,


Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!

111
Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;

Se depois de imensas dores,


No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!

IV

Teus olhos são negros, - negros


Como a noite nas florestas ...
Infeliz do viajante
Se de sombras tão funestas
Tanta luz não rebentasse!
A aurora desponta e nasce
Da noite escura e tardia:
Também da noite sombria
De teus olhos amorosos
Partem raios mais formosos
Que os raios da luz do dia.

112
Teu cabelo mais cheiroso
Que o perfume dos vergéis,
Na brancura imaculada
Da cútis acetinada
Rola em prófusos anéis:
Eu quisera ter mil almas,
Todas ardentes de anelos,
Para prendê-las, meu anjo,
À luz de teus olhos belos,
Nos grilhões de teus olhares,
Nos anéis de teus cabelos!

VIII

Saudades! Tenho saudades


Daqueles c_e rros azuis
Que à tarde o sol inundava
De louros toques de luz!
Tenho saudades dos prados,
Dos coqueiros debruçados
À margem do ribeirão,
E o dobre de Ave-Maria
Que o sino da freguesia
Lançava pela amplidão!

113
Oh! minha infância querida!
Oh! doce quartel da vida,
Como passaste depressa!
Se tinhas de abandonar-me,
Por que falsária enganar-me
Com tanta meiga promessa?
Ingrata, p or que te foste?
Por que te foste, infiel?
E a taça de etéreas ditas,
As ilusões tão bonitas
Cobriste de lama e fel?

Eu era vivo e travesso,


Tinha seis anos então,
Amava os contos de fadas
Contados junto ao fogão,
E as cantigas compassadas,
E as legendas encantadas
Das eras que lá se vão.
De minha mãe era o mimo,
De meu pai era a esperança;
Um tinha o céu, outro a glória
Em meu sorrir de criança;
Ambos das luzes viviam
Que de meus olhos partiam.

114
Junto do alpendre sentado
Brincava com minha irmã,
Chamando o grupo de anjinhos
Que tiritavam sozinhos
Na cerração da manhã;
Depois por ínvios caminhos,
Por campinas orvalhadas,
Ao som de ledas risadas
Nos lançávamos correndo.
O viandante parava
Tão descuidosos nos vendo,
O camponês nos saudava,
A serrana nos beijava
Ternas palavras dizendo.

A tarde eram brincos, festas,


Carreiras entre as giestas,
Folguedos sobre a verdura;
Nossos pais nos contemplavam,
E seus seios palpitavam
De uma indizível ventura.
Mas ai! os anos passaram,
E com eles se apagaram
Tão lindos sonhos sonhados!
E a primavera tardia,
Que tanta flor prometia,
Só trouxe acerbos cuidados!

115
Inda revejo esse dia,
Cheio de dores e prantos,
Em que tão puros encantos
Oh! sem saber os perdia!
Lembra-me ainda: era à tarde,
Morria o sol entre os montes,
Casava-se a voz das rolas
Ao burburinho das fontes;
O espaço era todo aromas,
Da mata virgem nas comas
Pairava um grato frescor;
As criancinhas brincavam,
E as violas ressoavam
Na cabana do pastor.

Parti, parti, mas minh' alma


Partida ficou também,
Metade ali, outra em penas
Que mais consolo não têm!
Oh! como é diverso o mundo
Daquelas serras azuis,
Daqueles vales que riem
Do sol à dourada luz!
Como diferem os homens
Daqueles rudes pastores
Que o rebanho apascentavam
Cantando idílios de amores!

116
Subi aos paços dos nobres,
Fui aos casebres dos pobres,
Riqueza e miséria vi,
Mas tudo é morno e cansado,
Tem um gesto refalsado
Nestes lugares daqui!
Oh! então chorei por ti,
Minha adorada mansão;
Chamei-te de meu desterro,
Os braços alcei-te em vão!
Não mais! Os anos passaram,
E com eles desbotaram
Tantas rosas de esperança!
Do tempo nas cinzas frias
Repousam p'ra sempre os dias
De meu sonhar de criança!
CF

117
A FLOR DO MARACUJÁ

Pelas rosas, pelos lírios,


Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,


Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d' água


Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.

Pelas azuis borboletas


Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

118
Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!
Pela lança ensangüentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela!


Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!!. ..
Guarda contigo este emblema .
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos


De tantas rimas em - a -
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
CM

119
ANTONICO E CORÁ
História Brasileira

Homenagem ao gênio desconhecido, - à primeira


inspiração brasileira, o Sr. Tenente-Coronel Antônio
Galdino dos Reis

Corá tinha vinte anos,


Antonico pouco mais;
Eram ambos dous pombinhos
Sem iguais.

Amavam-se; neste afeto


Ninguém dúbios laços veja,
Eles estavam ligados ...
Pela igreja.

Corá na voz, nos requebras,


Era mesmo uma espanhola,
Antonico um Alexandre
Na viola.

Quatro anos de venturas


Passaram os dous no ermo;
Mas as ditas deste mundo
Têm um termo.

120
O nosso herói obrigado,
Por uma questão urgente,
Teve de deixar a esposa
Da repente.

Corá chorou por três noites,


Por três noites lamentou-se;
Mas no fim dessas três noites ...
Consolou-se.

Aonde fora Antonico?


Bem não sei, nem bem me lembro,
Findava-se o mês, suponho,
De Setembro:

Passou Outubro, Novembro,


Dezembro e entrou Janeiro,
Antonico demorou-se
O ano inteiro!

Corá, cujos róseos sonhos


Mudavam-se em pó e fumo,
Tomou sem mais cerimônias
Outro rumo.

121
Mas onde estava Antonico?
Não sei, dessas longes plagas
Guardo apenas na carteira
Notas vagas.

O que sei é que, no cabo


De três ou de quatro meses,
Procurou quem lhe fizesse
Dela as vezes.

(Dela, previno-te, amigo,


Que me refiro a Corá,
Como ao correr desta história
Se verá.)

Ora bem, eis envolvido


Antonico um belo dia
No crime horrendo que chamam
Bigamia!

Mísero o gênio do homem!


A diversão não o cansa!
Tem por lei dos atos todos
A mudança!

122
Dous anos mais são passados,
E Antonico, quem diria!
De sua segunda esposa
Se enfastia!

Recorda-se dos encantos,


Da figura alta e faceira,
Dos requebros, dos olhares
Da primeira!

Maldiz o gênio versátil


Que o fez mudar de mulher;
Nem mais um beijo à segunda
Dá sequer!

Jura, jura como jura


Bom marido e bom cristão;
Sanar de antigos direitos
A lesão.

Uma tarde se prepara,


E a pé, qual romeiro monge,
Põe-se contrito a caminho
Para longe.

123
Chegando à mísera aldeia,
Cumprindo o triste fadário,
Vai logo bater à porta
Do vigário.

Era tarde, mas o padre,


Cheio de santo fervor,
Ouviu as queixas do aflito
Pecador.

Meu amigo, disse, é noite,


Vai dormir um poucachinho,
Volta amanhã, falaremos
Bem cedinho.

Passa revista em teus erros,


Em todos, em todos, filho,
Deus te lançará de novo
No bom trilho!

Assim falou, e Antonico,


Fazendo uma reverência,
Foi conversar com a pobre
Consciência.

124
No dia seguinte, humilde,
Nos largos peitos batendo,
Voltou à casa do gordo
Reverendo.

Estava deitado o padre


Sobre um mundo de lençóis,
Na cama em que repousaram
Seus avós;

Cama grande, forte, larga,


Fabricada para dois,
Cujo peso arrastaria
Trinta bois!

- Bom dia, senhor vigário.


- Bom dia, à confissão vem?
- Sim, senhor, pode atender-me?
-Muito bem:

- Não é mister levantar-me,


Daqui o ouço, não acha? -
Benzem-se e as rezas começam
Em voz baixa.

125
Findas as rezas: - acuse-se,
Murmura o bom reverendo,
Antonico enxuga os olhos
E tremendo

Principia: - Ah, padre, padre,


Cometi um tal delito
Que sou de Deus e dos homens
Maldito!

Dos homens ... ah! se souberem


Da ação tão negra e tão feia,
Por certo que apodrecera
Na cadeia!

- Não tenhas medo, prossegue,


Filho, em tua confissão,
Deus nunca nega aos culpados
O perdão.

Furtaste acaso? - Não, padre.


- Violaste algum penhor?
- Não. - Caluniaste, fala!
-Fiz pior! -

126
- Pior! Juraste então falso?
Feriste alguém? - Não, senhor.
- Mataste, filho, mataste?
- Fiz pior! -

- Pior! Pior! Então conta


O que hás feito se quiseres
Que te absolva! - Ah! meu padre!
Casei com duas mulheres!

- Casou com duas mulheres!


Com duas!! O padre exclama!
E treme, agita-se, pula
Sobre a cama.

E uma feminil cabeça,


Ao som desta rude voz,
Surge dentre as vastas ondas
De lençóis;

E ardendo por ver o monstro


Bicasado, a erguer-se vai,
Quando um grito de seus lábios
Rubros sai!

127
- Corá!.. Exclama Antonico!
- Compaixão!. .. Brada Corá.
- O que é isto? Indaga o padre,
-Que será?

E Corá logo mergulha,


Antes que a luta apareça,
No meio dos travesseiros
A cabeça.

- O que é isto? O caso é grave,


Novo, intrincado, eu o creio!
Explica-te, filho, fala
Sem receio.

- Quer que eu fale, que me explique,


Que esclareça o fato, quer?
Não, dê-me sem mais rodeios
A mulher!

A mulher que me pertence


Que aí repousa a seu lado!
É isto que eu chamo um feio,
Vil pecado!

128
O padre franze os sobrolhos,
Esfrega as orelhas bentas,
Passa a língua pelos lábios,
Coça as ventas.

E fala: - Sossega, filho,


Tudo, tudo arranjaremos,
Chega-te aqui para perto,
Conversemos:

- Que tal a tua segunda


Mulher? Faceira? Garbosa?
Clara ou morena? Morena?
Graciosa?

- Gorda? - Gorda, sim meu padre.


- Olhos negros? - Lindos olhos!
- São ciladas à virtude!
São escolhos!

- São ... quanto a braços, pescoço,


Cabelos ... - oh! lindos, belos!
Que lindo colo! Que braços!
Que cabelos!

129
- Bonitos, hein? Diz o padre
Contente esfregando as mãos,
- Pois obremos, filho, como
Bons cristãos:

-Traze-ma, pois, e contigo


Levarás esta, formosa,
Legítima, incontestável
Boa esposa:

- A carne de tua carne,


Mais o osso de teu osso;
E assim se expressando, a porta
Mostra ao moço.

Como as cousas se passaram,


Leitor, não guardo memória ...
Concluí como quiserdes
Esta história.
CM

130
ESTÂNCIAS

O que eu adoro em ti não são teus olhos,


Teus lindos olhos cheios de mistério,
Por cujo brilho os homens deixariam
Da terra inteira o mais soberbo império.

O que eu adoro em ti não são teus lábios


Onde perpétua juventude mora,
E encerram mais perfumes do que os vales
Por entre as pompas festivais d' aurora.

O que eu adoro em ti não é teu rosto


Perante o qual o mármor descarara,
E ao contemplar a esplêndida harmonia
Fídias o mestre seu cinzel quebrara.

O que eu adoro em ti não é teu colo


Mais belo que o da esposa israelita,
Torre de graças, encantado asilo
Aonde o gênio das paixões habita.

O que eu adoro em ti não são teus seios,


Alvas pombinhas que dormindo gemem,
E do indiscreto vôo duma abelha
Cheias de medo em seu abrigo tremem.

131
O que eu adoro em ti, ouve, é tu' alma
Pura como o sorrir de uma criança,
Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,
Rica de crenças, rica de esperança.

São as palavras de bondade infinda


Que sabes murmurar aos que padecem,
Os carinhos ingênuos de teus olhos
Onde celestes gozos transparecem! ...

Um não sei quê de grande, imaculado,


Que faz-me estremecer quando tu falas,
E eleva-me o pensar além dos mundos
Quando abaixando as pálpebras te calas.

E por isso em meus sonhos sempre vi-te


Entre nuvens de incenso em aras santas,
E das turbas solícitas no meio
Também contrito hei te beijado as plantas.

E como és linda assim! Chamas divinas


Cercam-te as faces plácidas e belas,
Um longo manto pende-te dos ombros
Salpicado de nítidas estrelas!

132
Na douda pira de um amor terrestre
Pensei sagrar-te o coração demente ...
Mas ao mirar-te deslumbrou-me o raio ...
Tinhas nos olhos o perdão somente!
CE

133
AS LETRAS

Na tênue casca de verde arbusto


Gravei teu nome, depois parti;
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.
Mas ai! o arbusto se fez tão alto,
Teu nome erguendo, que mais não vi!
E nessas letras que aos céus subiam
Meus belos sonhos de amor perdi.
CE

134
CIDADE VERSUS CAMPO
ARQUÉTIPO

Ele era belo; na espaçosa fronte


O dedo do Senhor gravado havia
O sigilo do gênio; em seu caminho
O hino da tnanhã soava ainda,
E os pássaros da selva gorjeando
Saudavam-lhe a passagem neste mundo.

Sim, era uma criança, e no entanto


Friez de morte lhe coava n' alma!
O seu riso era triste como o inverno,
E dos olhos cansados, nem um raio
Nem um clarão, nem pálido lampejo
Da mocidade o fogo revelavam!

Era-lhe a vida uma comédia insípida,


Estúpida e sem graça, - ele a passava
Com a fria indiferença do marujo
Que fuma o seu cachimbo reclinado
Na proa do navio olhando as vagas,
- Vivia por viver.... porque vivia.

137
Em nada acreditava; há muito tempo
Que a idéia de Deus soprara d' alma
Como das botas a poeira incômoda.
O Evangelho era um livro de anedotas,
Beethoven torturava-lhe os ouvidos,
A Poesia provocava o sono.

Muita donzela suspirou por ele,


Muita beleza lhe dormiu nos braços,
Mas frio como o gênio da descrença,
Após um'hora de gozar maldito,
Saciado as deixou, como o conviva
A mesa do festim, - farto e cansado. -

Era mais caprichoso, - mais bizarro


Do que um filho de Álbion, mais volúvel
Que um profundo político; uma tarde
Após haver jantado, recordou-se
Que ainda era solteiro; pelo Papa!
- É preciso tentar, disse consigo.

138
Quatro dias depois tinha casado.
Escolhera uma noiva descuidoso,
Como um brinco chinês - um livro in-fólio,
Ao altar conduziu-a, distraído,
E as juras divinais do casamento
Repetiu bocejando ao sacerdote.

Como tudo na vida, o matrimônio


Bem cedo o aborreceu; após três meses
Disse Adeus à mulher que pranteava,
E acendendo um cigarro, a passos lentos
Dirigiu-se ao teatro onde assistiu
A um drama de Feuillet, - quase dormindo. -

Por fim de contas, uma noite bela,


Depois de ter ceado entre dous padres,
Em casa de morena Cidalisa,
Pegou numa pistola e entre as fumaças
De saboroso - Havana - à eternidade
Foi ver se divertia-se um momento.

São Paulo -1861.

139
AS SELVAS

Selvas do Novo Mundo, amplos zimbórios,


Mares de sombra e ondas de verdura,
Povo de Atlantes soberano e mudo
Em cujos mantos o tufão murmura.

Salve! minh' alma vos procura embalde;


Embalde triste vos estendo os braços ...
Cercam-me o corpo rebatidos muros,
Prendem-me as plantas enredados laços!. ..

Pátria da liberdade! antros profundos;


Vastos palácios; eternais castelos,
Mandai-me os gênios das sombrias grutas
De meus grilhões espedaçar os elos!. ..

Ah! que eu não possa-me esquivar dos homens,


Matar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me arrojar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome!

Ah! que eu não possa desprender aos ermos


O fogo ardente que meu crânio encerra;
Gastar os dias entre o espaço e Deus
Nas matas virgens da colúmbia terra!

140
Eu não detesto nem maldigo a vida,
Nem do despeito me remorde a chaga,
Mas ah! sou pobre, pequenino e débil
E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Que faço triste no rumor das praças?


Que busco pasmo nos salões dourados?
Verme do lodo me desprezam todos,
O pobre, e os grandes de esplendor cercados!

Fere-me os olhos o clarão do mundo,


Rasgam-me o seio prematuras dores,
E à mágoa insana que me enluta as noites,
Declino à campa na estação das flores.

E há tanto encanto nas florestas virgens;


Tanta beleza do sertão na sombra;
Tanta harmonia no correr do rio;
Tanta delícia na campestre alfombra;

Que inda pudera reviver de novo,


E entre venturas flutuar minh' alma,
Fanada planta que mendiga apenas
A noite, o orvalho, a viração e a calma!
VA

141
NO ERMO

Salve! erguidas cordilheiras,


Brenhas, rochas altaneiras,
Donde as alvas cachoeiras
Se arrojam troando os ares!
Folhas que rangem caindo,
Feras que passam rugindo,
Gênios que dormem sorrindo
No fresco chão dos palmares!

Salve! florestas sombrias,


Onde as rijas ventanias
Acordam mil harmonias
Na doce quadra estival!
Rolas gentis que suspiram,
Louras abelhas que giram
Sobre as flores que transpiram
No seio do taquaral!

Salve! esplêndida espessura,


Mares de sombra e verdura
Donde a brisa etérea e pura
Faz brotar a inspiração,
Quando à luz dos vaga-lumes,
Da mariposa aos cardumes
Se casam moles queixumes
Dos filhos da solidão!

142
Ah! que eu não possa me afastar das turbas,
Curar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me atirar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome.

Ah! que eu não possa desprender aos ermos


O fogo ardente que meu crânio encerra,
Gastar os dias entre Deus e os gênios
Nas matas virgens da Cabrália terra!

Eu não detesto nem maldigo a vida;


Nem do despeito me remorde a chaga,
Mas ai! sou pobre, pequenino e débil,
E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Fere-me os olhos o clarão do mundo,


Rasgam-me o seio prematuras dores,
E a mágoa insana que me enluta as noites
Declino à campa na estação das flores!

E há tanto encanto nos desertos vastos,


Tanta beleza do sertão na sombra,
Tanta harmonia no correr do rio,
Tanta doçura na campestre alfombra,

143
Que inda pudera se alentar de novo
E entre delícias flutuar minh' alma,
Fanada planta que mendiga apenas
O orvalho, a noite, a viração e a calma!

Abre-me os braços, ó fada,


Fada do ermo profundo,
Onde o bulício do mundo
Não ousa sequer bater!
Oh! quero tudo esquecer,
Tudo o que aos homens seduz,
Beber uma nova vida
E a fronte elevar ungida
De santas crenças à luz!
Glória, futuro ... o que valem
Futuro e glórias de pó,
Sem gratos sonhos que embalem
O triste descrido e só?
De que serve o ouro, a fama,
Um nome, - pálida chama -
Quando à noite junto à cama

144
Só há martírios e dores?
Quando a aurora é sem belezas,
Cheias de espinho as devesas,
E a tarde só tem tristezas
Em vez de cantos e flores!
CF

145
A CIDADE
A meu predileto amigo o sr. dr. Betoldi

A cidade ali está com seus enganos,


Seu cortejo de vícios e traições,
Seus vastos templos, seu bazares amplos,
Seus ricos paços, seus bordéis - salões.

A cidade ali está, - sobre seus tetos


Paira dos arsenais o fumo espesso,
Rolam nas ruas da vaidade os coches
E ri-se o crime à sombra do progresso.

A cidade ali está, sob os alpendres


Dorme o mendigo ao sol do meio-dia,
Chora a viúva em úmido tugúrio,
Canta na catedral a hipocrisia.

A cidade ali está, - com ela o erro,


A perfídia, a mentira, a desventura ...
Como é suave o aroma das florestas!
Como é doce das serras a frescura!

A cidade ali está, - cada passante


Que se envolve das turbas no bulício
Tem a maldade sobre a fronte escrita,
Tem na língua o veneno e n' alma o vício.

146
Não, não é na cidade que se formam
Os fortes corações, as crenças grandes,
Como também nos charcos das planícies
Não é que gera-se o condor dos Andes!

Não, não é na cidade que as virtudes,


As vocações eleitas resplandecem,
Flores de ar livre, à sombra das muralhas
Pendem cedo a cabeça e amarelecem.

Quanta cena infernal sob essas telhas!


Quanto infantil vagido de agonia!
Quanto adultério! Quanto escuro incesto!
Quanta infâmia escondida à luz do dia!

Quanta atroz injustiça e quantos prantos!


Quanto drama fatal! Quantos pesares!
Quanta fronte celeste profanada!
Quanta virgem vendida aos lupanares!

Quanto talento desbotado e morto!


Quanto gênio atirado a quem mais der!
Quanta afeição cortada! Quanta dúvida
Num carinho de mãe ou de mulher!

147
Eis a cidade! Ali a guerra, as trevas,
A lama, a podridão, a iniqüidade;
Aqui o céu azul, as selvas virgens,
O ar, a luz, a vida, a liberdade!

Ali, medonhos, sórdidos alcouces,


Antros de perdição, covis escuros
Onde ao clarão de baços candieiros
Passam da noite os lêmures impuros;

E abalroam-se as múmias coroadas,


Corpos de lepra e de infecção cobertos;
Em cujos membros mordem-se raivosos
Os vermes pelas sedas encobertos!

Aqui verdes campinas, altos montes,


Regatos de cristal, matas viçosas,
Borboletas azuis, loiras abelhas,
Hinos de amor, canções melodiosas.

Ali a honra e o mérito esquecidos,


Mortas as crenças, mortos os afetos;
Os lares sem legenda, a musa exposta
Aos dentes vis de perros abjetos!

148
Presa a virtude ao cofre dos banqueiros,
A lei de Deus entregue aos histriões!
Em cada rosto o selo do egoísmo!
Em cada peito um mundo de traições!

Depois o jogo, - a embriaguez, o roubo, -


A febre nos ladrilhos do prostíbulo,
O hospital, a prisão ... por desenredo
A imagem pavorosa do pahbulo!

Eis a cidade! ... - Aqui a paz constante,


Serena a consciência, alegre a vida,
Formoso o dia, a noite sem remorsos,
Pródiga a terra, nossa mãe querida!

Salve, florestas virgens! Rudes serras!


Templos da imorredoura liberdade!
Salve! Três vezes salve! Em teus asilos
Sinto-me grande, vejo a divindade!
CM

149
O CAVALO

Corre, voa, transpõe os outeiros,


Corta os charcos de sombra cobertos,
Quebra as pedras, escarva as planícies,
Vinga os cerras, - devora os desertos!

Vamos, meu cavalo branco,


Minha neblina veloz,
Deixemos campos e prados,
Sarças, brejos e valados,
Ermos, vilas, povoados,
E - os homens, atrás de nós!

Vamos, vamos, busquemos as terras


Onde habitam meus doudos amores,
Onde espera por mim, ansiosa,
A mais lânguida flor, entre as flores.

Onde tudo é liberdade,


Vida, calor, gozo e luz;
Onde as plácidas campinas
Regurgitam de boninas
Às carícias peregrinas
De um sol que sempre reluz!

150
Bebe a plenos pulmões as bafagens
Desta noite sombria, mas pura;
Deixa as feras rugirem no mato,
Deixa o inseto chilrar na espessura!

Deixa que gema nas rochas


O mocho embusteiro e vil,
Que as cobras no chão rastejem,
Que os fogos-fátuos doudejem,
Que as feiticeiras praguejem,
Que pulem demônios mil!

Não és tu destemido e valente?


Não palpitas de seiva e de vida?
Tantas vezes por brenhas e gandras
Não venceste o tufão na corrida?

Bem poucos homens, bem poucos


Te igualam, nobre animal!
Raros na vivacidade ...
Talvez alguns na amizade,
Mas nenhum na lealdade!
Na intrepidez natural!

151
Como rasgas as trevas garboso!
Ah! como elas te lambem as ancas!
Como aos ventos sacodes ousado
Essas crinas espessas e brancas!

A teus pés saltam centelhas,


Rebentam rubros fuzis,
E os festões das amoreiras,
E as selvagens trepadeiras
Curvam-se humildes, rasteiras,
Beijam-te os cascos, servis.

Mil figuras estranhas te espreitam,


Convulsivas, na margem da estrada,
Depois fogem silvando, e se escondem
No remanso da mata cerrada.

Mil muralhas, mil colunas,


Mil orgulhosos frontais,
Mil capitéis trabalhosos,
Fustes, pilares pomposos
Se levantam portentosos
A cada salto que dás!

152
Novos mundos parece que vejo,
Novo solo parece que pisas,
Novos cantos escuto no espaço,
Novas queixas nas asas das brisas!

Corre, meu bom companheiro,


Voa, meu bravo corcel,
Somos livres como os ares
As serras com seus palmares,
O sertão com seus jaguares,
Os astros com seu dossel!

Corre, voa, transpõe os outeiros,


Corta os charcos de sombra cobertos,
Quebra as pedras, escarva as planícies,
Vinga os cerras, - domina os desertos!
CM

153
A ROÇA

O balanço da rede, o bom fogo


Sob um teto de humilde sapé;
A palestra, os lundus, a viola,
O cigarro, a modinha, o café;

Um robusto alazão, mais ligeiro


Do que o vento que vem do sertão,
Negras crinas, olhar de tormenta,
Pés que apenas rastejam no chão;

E depois um sorrir de roceira,


Meigos gestos, requebras de amor;
Seios nus, braços nus, tranças soltas,
Moles falas, idade de flor;

Beijos dados sem medo ao ar livre,


Risos francos, alegres serões,
Mil brinquedos no campo ao sol posto,
Ao surgir da manhã mil canções.

Eis a vida nas vastas planícies


Ou nos montes da terra da Cruz,
Sobre um solo só flores e glórias,
Sob um céu só magia e só luz.

154
Belos ermos, risonhos desertos,
Livres serras, extensos maméis,
Onde muge o novilho anafado,
Onde nitrem fogosos corcéis;

Onde a infância passei descuidoso,


Onde tantos idílios sonhei,
Onde ao som dos pandeiros ruidosos
Tantas danças da roça dancei!

Onde a viva e gentil mocidade


Num contínuo folgar consumi,
Como longe avultais no passado!
Como longe vos vejo daqui!

Se eu tivesse por livro as florestas,


Se eu tivesse por mestre a amplidão,
Por amigos as plantas e as aves,
Uma flecha e um cocar por brasão;

Não manchara minh' alma inspirada,


Não gastara meu próprio vigor,
Não cobrira de lama e de escárnios
Meus lauréis de poeta e cantor!

155
Voto horror às grandezas do mundo,
Mar coberto de horríveis parcéis,
Vejo as pompas e galas da vida
De um sendal de poeira através.

Ah! nem creio na humana ciência,


Triste acervo de enganos fatais,
O clarão do saber verdadeiro
Não fulgura aos olhares mortais!

Mas um gênio impiedoso me arrasta,


Me arremessa do vulgo ao vaivém,
E eu soluço nas sombras olhando
Minhas serras queridas além!
CM

156
EM VIAGEM

A vida nas cidades me enfastia,


Enoja-me o tropel das multidões,
O sopro do egoísmo e do interesse
Mata-me n' alma a flor das ilusões.

Mata-me n' alma a flor das ilusões


Tanta mentira, tão fingido rir,
E cheio e farto de tristeza e tédio
Rejeito as glórias de falaz porvir!

Rejeito as glórias de falaz porvir,


Galas e festas, o prazer talvez,
E busco altivo as solidões profundas
Que dormem quedas do Senhor aos pés.

Que dormem quedas do Senhor aos pés,


Ao doce brilho dos clarões astrais,
Ricas de gozos que não tem o mundo,
Pródigas sempre de beleza e paz!
CE

157
PAISAGENS
SONETO

Desponta a estrela d' alva, a noite morre,


Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores,
Lânguidas queixas murmurando, corre.

Volúvel tribo a solidão percorre


Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma


Às carícias d'aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh' alma triste e sem um sonho


Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!
VA

161
CANTIGA

Viajante que deixaste


As ondas do Panamá,
Vela ao entrares no porto
Aonde o gigante está.

Ele dorme, dorme, dorme,


Mas nem sempre dormirá,
Basta um bafejo, um sussurro
Que o gigante acordará!

Viste as montanhas e os vales


Daquelas terras de lá,
Talvez as veigas da Itália
E as rosas de Bagdá.

Mas uma plaga como esta


Nunca enxergaste quiçá,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Contempla os índios valentes


Das florestas do Pará,
Escuta os sons das cascatas
E os cantos do sabiá.

162
Curva-te ao guarda soberbo
Que junto da barra está,
Mede as vagas do Amazonas
E os campos de Paraná.

Colhe do rio nas margens


As brancas flores do ingá,
Dorme à sombra majestosa
Do excelso jequitibá.

Volta depois a teus lares,


Conta o que viste por cá,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Mas olha que junto ao porto


Soberbo gigante está,
Ele dorme, dorme, dorme,
Mas nem sempre dormirá!
VA

163
O SABIÁ
(Cançoneta)

Oh! meu sabiá formoso,


Sonoroso,
Já desponta a madrugada,
Desabrocha a linda rosa
Donairosa,
Sobre a campina orvalhada.

Manso o regato murmura


Na verdura
Descrevendo giros mil,
Some-se a estrela brilhante,
Vacilante
No horizonte cor de anil.

Ergue-te, oh meu p assarinho,


De teu ninho,
Vem gozar da madrugada,
Modula teu terno canto,
Doce encanto
De minh' alma amargurada.

164
Vem junto à minha janela,
Sobre a bela
Verdejante laranjeira,
Beber o eflúvio das flores,
Teus amores,
Nas asas de aura fagueira.

Desprende a voz adorada,


Namorada,
Poeta da solidão,
Ah! vem lançar com encanto
Mais um canto
No livro da criação!

Oh! meu sabiá formoso,


Sonoroso,
Já desponta a madrugada;
Deixa teu ninho altaneiro,
Vem ligeiro
Saudar a luz d' alvorada.
VA

165
OMAR

Sacode as vagas de teu dorso imenso,


Oh profundo oceano! Ergue-as altivas
Com seus frígios barretes! Em vão tentam
Lutar contigo temerárias frotas,
Traçar-te raias a vaidade humana!
Tu és eterno e vasto como o espaço,
Livre como a vontade onipotente.

Régio manto do globo! povo infindo


De soberbos Titãs! gênio d a força,
Salve três vezes!. .. Das espáduas amplas
Derribas todo o jugo que te oprime,
Tragas gigantes de carvalho e cedro,
E a fronte erguendo majestosa e bela
Diademas de pérolas atiras
Às estrelas do céu, e ao mundo cospes
A férvida saliva em desafio!

Quantos impérios celebrados, fortes,


Não floresceram de teu trono às bases,
Sublime potestade! e onde estão eles?
O que é feito de Roma, Assíria e Grécia,

166
Cartago, a valorosa? As vagas tuas
Lambiam-lhe os muros, quer nos tempos
De paz e de bonança, quer na quadra
Em que chuvas de setas se cruzavam
À face torva das hostis falanges!
Tudo esb'rou-se, se desfez em cinzas,
Sumiu-se corno os traços que o romeiro
Deixa da Núbia na revolta areia!
Só tu, oh mar, sem termos, imutável
Corno o quadrante lúgubre do tempo,
Ruges, palpitas sem grilhões nem peias!

Nunca na face desse azul sombrio,


Onde tranqüilas, ao chorar das brisas,
Poesias do céu, flores do éter,
As estrelas se miram namoradas,
Nunca o fogo e a lava, a guerra e a morte,
A armada dos tiranos há deixado
Um vestígio sequer de seus destroços!
Tal corno à tarde do primeiro dia
Que ao orbe clareou, hoje te ostentas
Na tua majestade horrenda e bela!

167
Espelho glorioso onde entre fogos
Se mostra onipotente, nas tormentas,
A face do Senhor! Monstro sublime
Cujas garras de ferro o globo abraçam
Até que um dia, quem o sabe? exausto
Lance o último alento! ah! no teu seio
Talvez tremendo espírito se agite,
Misto sombrio de paixões sem freios,
Cuja expressão vislumbra-te no rosto,
Ora hediondo de compressos músculos,
Ora suave como o louro infante
Sobre o seio materno, ora cruento
Gotejando suor, escuma e raiva!

Níobe eterna! de teu ventre túmido


Os monstros dos abismos rebentaram,
Em cujo dorso de argentadas conchas
Os raios das estrelas resvalavam;
De teu lodo fecundo, inextinguível,
Brotaram continentes cujas grimpas
Iam bater n' abóbada cerúlea;
Teus paços de coral e de esmeraldas
Encerravam princesas vaporosas,
Louras andinas, encantados gênios,
Soberbas divindades! Entretanto

168
Viste tudo cair! riscada a Atlântida
Da face do universo, os brônzeos deuses
Desterrados p'ra sempre, e só restou-te
Uma voz gemedora que chorava:
- Já não vive o deus Pan! oh! Pan é morto!
Oceano sem fundo! vagas túmidas,
Abismo de mistério, ah! desde a infância,
Preso na teia da atração divina,
Eu vos busquei sedento! sobre as praias,
Curvas como os alfanges dos eunucos,
Eu me perdia nos dourados dias
Da santa primavera, ouvindo os brados
Dos marinhos corcéis, molhando as plantas
Na gase salitrosa que envolvia

A areia cintilante! após mais tarde


Sentavam-me no cimo dos rochedos,
Suspirando de amor aos verdes olhos,
Aos moles braços que do salso leito
Erguiam-se tão meigos e adorados!. ..

Amo-te ainda, oh mar! amo-te muito,


Mas não tranqüilo umedecendo a proa
Da gôndola lasciva, nem chorando
Às carícias da lua! Amo-te horrível,

169
Arrogante e soberbo, repelindo
Os furacões que roçam-te nas crinas,
Quebrando a asa de fogo que das nuvens
Procura-te domar, batendo a terra
Com teus flancos robustos, levantando
Triunfante e feroz no tredo espaço
A cabeça vendada de ardentias!

Amo-te assim, oh mar, porque minh' alma


Vê-te imenso e potente, desdenhoso
Rindo às quimeras da cobiça humana!
Amo-te assim! ditoso no teu seio
Zombo do mundo que meu ser esmaga,
Sou livre como as vagas que me cercam
E só à tempestade e a Deus respeito.

Salve, oceano onipotente e eterno!


Santo espelho de Deus, três vezes salve!
VA

170
SEXTILHAS

Amo o cantor solitário


Que chora no campanário
Do mosteiro abandonado,
E a trepadeira espinhosa
Que se abraça caprichosa
À força do condenado.

Amo os noturnos lampírios


Que giram, errantes círios,
Sobre o chão dos cemitérios,
E ao clarão de tredas luzes
Fazem destacar as cruzes
De seu fundo de mistérios.

Amo as tímidas aranhas


Que lacerando as entranhas
Fabricam dourados fios,
E com seus leves tecidos,
Dos tugúrios esquecidos
Cobrem os muros sombrios.

171
Amo a lagarta que dorme,
Nojenta, lânguida, informe,
Por entre as ervas rasteiras,
E as rãs que os pauis habitam,
E os moluscos que palpitam
Sob as vagas altaneiras!

Amo-os, porque todo o mundo


Lhes vota um ódio profundo,
Despreza-os sem compaixão!
Porque todos desconhecem
As dores que eles padecem
No meio da criação!
CF

172
O OCEANO

Tu és a idéia mais soberba e vasta


Que do gênio de Deus há rebentado,
Oh! mar nunca vencido! A Eternidade
Revela-se em teus brados furibundos
Quando alta noite as vagas se abalroam
Coroados de elétricas centelhas;
A Inteligência soberana e excelsa
Ostenta-se em teu rosto à madrugada
Quando a essência da luz profliga as sombras
E o globo inunda de esplendor e glórias ...
Guarda o mistério de teu seio augusto!
Não serei eu - misérrimo! - quem busque
Solevantar-lhe o véu! - Dentro em minh'alma
Na dor que me consome te concebo,
Basta-me ver-te das espáduas amplas
Sacudir as armadas dos tiranos,
Basta-me à noite pressentir-te ao longe
Atirando garboso às nebulosas
Diademas de pérolas nevadas,
Basta-me apenas contemplar-te, altivo,
Cuspindo aos homens que a teus pés rastejam
A férvida saliva do desprezo!

Quantos impérios celebrados, fortes,


Não floresceram de teu trono às bases,

173
Sublime potestade! E onde estão eles?
O que é feito da Grécia, Tiro e Roma,
Cartago a valerosa? As vagas tuas
Lambiam-lhes os muros, quer nos tempos
De paz e de bonança, - quer na quadra
Em que chuvas de setas se cruzavam
À face torva d as hostis falanges!
Tudo aluiu-se, transformou-se em cinzas,
Sumiu-se como os traços que o romeiro
Deixa da Núbia na revolta areia!
Só tu, oh! mar sem termos, imutável
Como o quadrante lúgubre do tempo,
Ruges, palpitas sem grilhões nem peias!
Nunca na face desse azul sombrio,
Onde tranqüilas, ao soprar das brisas,
Poesias do céu, flores do éter,
As estrelas se miram namoradas,
Nunca o fogo e a lava, a guerra e a morte,
As frotas dos tiranos hão deixado
Um vestígio sequer de seus ultrajes!
Tal como à tard e do primeiro dia
Que o espaço desflorou, hoje te ostentas
Na tua majestade horrenda e bela!

Espelho glorioso onde entre fogos


Se mira onipotente, nas tormentas,

174
A face do senhor! Monstro atrevido
Cujas garras de bronze o globo abraçam,
Até que um dia - quem o sabe! - exausto
Lance o alento final! ... ai! no teu seio
Talvez tremendo espírito se agite,
Misto ignoto de paixões sem freios,
Cuja expressão deslumbra-te nas faces,
Ora hediondas de compressos músculos,
Ora doridas como a virgem morta
Na flor da juventude, ora risonhas
Como a loura criança que repousa
Sobre o colo matemo adormecida!

Níobe eterna! de teu ventre túmido


Os gigantes do abismo apareceram,
Em cujo dorso de argentadas conchas
Os raios das estrelas resvalavam.
De teu lodo fecundo, inextinguível,
Brotaram continentes, cujas grimpas
Iam bater na abóbada cerúlea;
Teus paços de coral e de esmeraldas
Encerravam princesas vaporosas,
Louras ondinas, encantados gênios,
Soberbas divindades! Entretanto
Viste tudo passar! Perdeu-se a Atlântida,

175
Sumiram-se na sombra os brônzeos deuses,
E nem restou-te aquela que nascida
De teus flocos de espuma deslumbrara
O Olimpo e a terra com seus olhos langues!

Oceano sem fundo! Antros sem nome!


Moradas da poesia e da tristeza!
Emblema do infinito ... ai! desde a infância
Preso na teia de atração divina,
Eu vos busquei sedento! Sobre as praias
Curvas como os alfanges dos Mouriscos
Eu me perdia nos dourados dias,
Na santa primavera, ouvindo os rinchos
Dos marinhos corcéis, molhando as plantas
Na gaza salitrosa que envolvia
A areia cintilante! Horas e horas
Passava no fastígio dos rochedos,
Fitos os olhos na planície imensa,
Como tentando compreender a história
Desse elemento indômito e terrível!. ..
Amo-te ainda, oh! mar! amo-te muito!
Mas não tranqüilo umedecendo a proa
Da gôndola lasciva, nem chorando
Aos olhares da lua! Amo-te ousado,
Violento, estrondoso, repelindo

176
Os vendavais que roçam-te nas crinas;
Quebrando a asa de fogo que das nuvens
Procura te domar; batendo a terra
Com teus flancos robustos; levantando
Triunfante e feroz no tredo espaço
A cabeça vendada de ardentias!
Amo-te assim, oh! mar! porque minh' alma
Vê-te imenso e potente, desdenhoso
As humanas cobiças derribando!
Amo-te assim; ditoso no teu seio,
Zombo do mundo que meu ser esmaga,
Sou livre como as ondas que me cercam,
E só à tempestade e a Deus me curvo!
CF

177
O VAGA-LUME

Quem és tu, pobre vivente,


Que passas triste, sozinho,
Trazendo os raios da estrela
E as asas do passarinho?

A noite é negra, raivosos ·


Os ventos sopram do sul,
Não temes, doudo, que apaguem
A tua lanterna azul?

Quando apareces, o lago


De estranhas luzes fulgura,
Os mochos voam medrosos
Buscando a floresta escura.

As folhas brilham, refletem,


Como espelhos de esmeralda,
Fulge o íris nas torrentes
Da serrania na fralda.

O grilo salta das sarças,


Pulam gênios nos palmares,
Começa o baile dos silfos
No seio dos nenufares.

178
A tribo das borboletas,
Das borboletas azuis,
Segue teus giros no espaço,
Mimosa gota de luz.

São elas flores sem hástea,


Tu és estrela sem céu,
Procuram elas as chamas,
Tu amas da noite o véu!. ..

Onde vais, pobre vivente,


Onde vais, triste, mesquinho,
Levando os raios da estrela
Nas asas do passarinho?
CE

179
HINO À AURORA
(Rig-Veda, I, 8)

Ela mostrou-se enfim!


Ela mostrou-se enfim a mais formosa,
A mais bela das luzes!

Por esse azul cetim


Caminhando tão linda e tão garbosa,
Aonde nos conduzes?

Aonde, branca Aurora?


Filha também do Sol, a Noite escura
Tua estrada marcou.

Com as lágrimas que chora,


A vasta senda da eternal planura
Ao passar orvalhou.

Unidas pelo berço,


Ambas iguais, eternas, sucessivas
Na marcha e na existência,

Percorreis o universo,
Aurora e Noite, sempre redivivas,
Opostas na aparência.

180
Rósea filha do Dia,
Brilhante a nossos olhos apareces,
Cheia de glória e amor;

E espalhas a harmonia,
A vida, o gozo, ao mundo que esclareces
Com teu sacro esplendor.

Segues a mesma senda


Das auroras passadas, e precedes
As que estão no futuro.

Rasgas da Sombra a venda,


E os negros planos previdente impedes
Do crime hórrido, escuro.

Há muito que passaram


Os que viram no céu luzir outrora
Teu fúlgido clarão.

Seus olhos se apagaram,


E nós por nossa vez também agora
Vemos-te n' amplidão.
CE

181
A POESIA
NO ESPELHO
QUEIXAS DO POETA

Ao cedro majestoso que o firmamento espana


Ligou a mão de Deus a úmida liana;
Às amplas soledades arroios amorosos;
Às selvas passarinhos de cantos sonorosos;
Neblinas às montanhas; aos mares virações;
Ao céu mundos e mundos de fúlgidos clarões;
Mas presa de uma dor tantálica e secreta
Sozinho fez brotar o gênio do poeta!. ..
A aurora tem cantigas e a mocidade rosas,
O sono do opulento visões deliciosas;
Nas ondas cristalinas espelham-se as estrelas,
E as noites desta terra têm seduções tão belas,
Que as plantas, os rochedos e os homens eletrizam,
E os mais dourados sonhos na vida realizam!
Mas triste, do martírio ferido pela seta,
Soluça no silêncio o mísero poeta!. ..
As auras do verão, nas regiões formosas
Do mundo Americano, as virações cheirosas
Parecem confundidas rolar por sobre as flores
Que exalam da corola balsâmicos odores;
As leves borboletas em bandos esvoaçam;
Os reptis na sombra às árvores se enlaçam;
Mas só, sem o consolo de um' alma predileta,
Descora no desterro a fronte do poeta!. ..
O viajor que à tarde sobre os outeiros passa

185
Divisa junto às selvas um fio de fumaça
Erguer-se preguiçoso da choça hospitaleira
Pousada alegremente de um ribeirão à beira;
Ali junto dos seus descansa o lavrador
Dos homens afastado e longe do rumor;
Mas no recinto escuro que o desalento infecta
Sucumbe lentamente o gênio do poeta!. ..
No rio caudaloso que a solidão retalha,
Da funda correnteza na límpida toalha,
Deslizam mansamente as garças alvejantes;
Nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes,
Embalam-se avezinhas de penas multicores
Pejando a mata virgem de cânticos de amores;
Mas presa de uma dor tantálica e secreta
De dia em dia murcha o louro do poeta!. ..
CF

186
ACÚSMATA
(Fragmento)

POETA

Como se arrasta lentamente o tempo!


Como tarda o repouso! Como pesa
Sobre a lívida fronte do poeta
Esta brônzea cadeia de agonias
Que chamamos a vida! Este motejo
Lancinante da sorte que resume,
Contraditória, atroz, inexorável,
Em dias contingentes de existência,
A eternidade de um sofrer sem nome!

Meia-noite! Hora fúnebre e tremenda!


Férreo vibrar de ríspido martelo
Que os demônios acorda, e as larvas ergue
Nos dormitórios úmidos da morte.
Lugar-comum dos bardos da descrença!
Momento de terror, risos, facécias,
Remorsos e pesar! Instante augusto
Em que Ela desce muita vez das nuvens
E vem sentar-se de meu leito à borda!. ..

187
Quero chorar. Mas não, não, que meus olhos
Têm pudor, não choram! E contudo
Sinto-os num mar de lágrimas perdidos!
Sinto que o pranto sobe-me do seio!
Sinto que o pranto desce-me do cérebro!
Sinto que o pranto escalda-me as retinas!
Sinto que fui feliz, e nessa quadra
Nem tristezas cantei, nem amarguras,
Mas Deus, a vida, a mocidade e a glória!

Detesto a escola fúnebre, e mentida,


De gordos desditosos que padecem
Os reveses da sorte em lauta mesa.
Detesto os cantos céticos, descrentes,
De rosados ateus, sábios efêmeros,
Ímpios provocadores da desgraça.
Detesto-os, porque sofro, e sofro muito,
Porque suporto um peso de misérias,
Tão grande que roxeia-me as espáduas!

Da natureza às múltiplas facetas


Tenho um plano pedido, onde, traçada,
Veja nova existência; ao belo, à arte,
Mesma súplica hei feito; ao movimento,
Aos labores mais duros, aos trabalhos

188
Mais ásperos da vida, hei mendigado
Uma nuvem de paz, um véu de olvido!
E tudo é mudo! O que me resta agora?
O sossego da morte, a cinza, o nada!. ..

Morrer... cair... mudar... deixar o asilo


De uma prisão de carne e de misérias
Por um mundo ignoto! Aos ventos soltos
Desprender os andrajos derradeiros
De uma sórdida veste, e desnudado
Tiritar nos desertos do invisível!
Arrancar da esperança o último broto!
Deixar a própria dor que obstinada
Há temido a razão milhões de vezes!. ..

E no entanto eu tenho a noite n' alma!


E o descampado horrendo, estéril, vasto,
Há sucedido ao gênio que acendia
As fibras de meu crânio! ... - Se contudo
Uma réstia de luz brilhasse ao menos!
Se uma voz me falasse! Se uma gota
Das lágrimas que vertes por meu fado,
Anjo de piedade e de candura,
Me tombasse no seio, então quem sabe! ...

189
Mentira! tudo é quedo, imóvel, frio!
O vento passa, os espinheiros gemem
Torcendo os galhos secos, dir-se-ia
Que ameaçam as nuvens! Bem, morramos,
Tem belezas o pó, sonhos a tumba,
E a morte que os estultos amedronta
Brota a meus olhos pensativa e meiga,
Coroada de flores mais formosas
Que as tristes rosas dos jardins dos homens!

Somos a idéia, o sentimento, a essência


Da criação inteira; a íntima nota
De quanto brilha, corre, canta e chora;
Somos o fluido eterno, que circula,
Envolve o globo, os seres, e penetra-os
De um infinito amor; somos a cítara
Onde o sopro de Deus roça inflamado,
E sacode no espaço a paz aos homens
Num turbilhão de notas amorosas.

190
POETA

Quem o sentido revelar pudera


Desse rumor confuso, imenso e vago,
Que se eleva da terra, semelhante
Ao ressonar dos gênios adormidos?
É o prazer que fala ou a tristeza?
Reflete, sente o globo, ou condenado
A cruento penar, delira e geme,
E se desfaz em pragas horrorosas?
Ah! mistério tremendo! Ah! fundo arcano!

As ÁRVORES

Por que te afliges, mísero poeta?


Não nos conheces mais? - Olha, contempla,
E nestes troncos ásperos, nodosos,
Verás feições amigas. Nesta queixa
Que de nossas folhagens se desprende,
Escutarás de novo o meigo timbre
De teus sócios de infância. Nesta sombra
Que alongamos do chão, verás o leito,
Onde, tantos momentos, repousaste.

191
Ah! eras belo nesse tempo! A aurora
Tinha-te posto toda a luz nos olhos!
Quando passavas, teu caminho ledo
De frescura e de folhas alfombrávamos!. ..
E tu partiste, ingrato, e tu partiste!
E trocaste o sossego do deserto
Pelo fulgor das salas dos palácios!
Pelos fingidos risos da mentira!
Pela voragem negra onde soluças!. ..

As FLORES

Somos dos astros amorosas noivas,


Cada noite uma estrela nos envolve
Na tela luminosa, e nos transporta
A seu fúlgido leito. À madrugada
Fugimos de seus braços, e medrosas
Caímos sobre os campos. Nossos seios
Trazem ainda o aroma dos cabelos
Dos celestes esposos; nossas faces
Estão rubras ainda de seus b eijos.

192
Andróginas do éter, a desgraça
Nos dividiu nos primitivos tempos:
Uma parte fulgura entre as estrelas,
Outra desceu à terra, e suspirosa
Cada noite meneia a débil fronte,
Mirando o firmamento. Um doce pranto,
Um pranto repassado de saudades,
Vem nos banhar o aveludado colo.
Que divina volúpia nessas lágrimas!

Poeta, a trepadeira solitária


Que se enrosca lasciva ao duro tronco
Do cedro secular; a flor guardada,
Entre os galhos do ipê, nas grossas folhas
De alpestre parasita; a mole acácia;
O manacá cheiroso que se ostenta
À beira d' água, pensativo e triste;
Os festões do ingazeiro e as açucenas,
Todas te amavam, te adoravam todas!

193
Nunca fomos ciosas! Muitas vezes,
Brutal, nos trucidaste sem piedade
Para adornar as frontes suarentas
De grosseiras amantes! Muitas vezes,
Distraído vagando, nos pisaste,
Como torpe animal! Porém que importa?
Se outras vezes choravas debruçado
Beijando-nos o seio? Se outras vezes
Tinhas tanta poesia a repetir-nos?

Ai! um dia esperamos-te debalde!


Tinhas partido, ingrato! Abandonaste
N assa beleza cândida e modesta
Por essas sombras doentias, pálidas,
Que entre os lustres do baile se evaporam!
Por essas múmias sensuais que pejam
As alcovas de sórdidas pocilgas!
Pela morte encoberta e mascarada!
Pela lepra insanável de tua alma!

Se tivesses ficado, oh! cada noite


Uma de nós se erguera embalsamada
Para as lendas contar de nosso reino!
Não o quiseste, doudo, agora é tarde;
E se ainda voltasses, a amargura
Nos faria murchar, cair sem vida,

194
A fim que o viandante nos tomasse
Para tecer a c'roa derradeira,
A c'roa derradeira que te resta!

O R:ro

Sobre dourada areia desenrolo,


Soberano no val, meu régio manto;
Os passarinhos namorados cantam
Nas figueiras bravias; chora o vento
Nos densos taquarais ... - Mas ah! poeta,
Não mais te vejo, nem te escuto ao menos
Da loura Grécia as náiades chamando!
Nem a meus flancos murmurando idílios!
Nem sobre as águas a guiar teu barco!

Que fizeste, infeliz! Gênio bendito,


Eu te devera encaminhar no mundo!
Quando à tépida luz de amenas tardes
Cantavas, sobre as rochas inclinado,
Quantas promessas te não fiz! Que planos
Desvendei a teus olhos cintilantes!
Eu que te vi nascer e que te amava
Como a rola ao deserto, à flor a abelha,
E os pintassilgos aos vergéis floridos!

195
E desprezaste a virgem que eu fadei-te,
Pura, mais pura que as estrelas todas!
Cortaste o fio do dourado drama
Que no silêncio místico das noites,
Pensando em ti, tracei, esmando o espaço
De um brilhante porvir! Lírios e rosas,
Tudo pisaste no delírio insólito
De uma febre insensata! Desditoso!
O que te resta agora? O que te resta?

A ESTRELA VÉSPER

Tudo repousa, as folhas da centáurea


Tremem de frio à beira do caminho,
Dobram-se os juncos nas lagoas negras,
E os vaga-lumes do deserto pasmam
À mansa luz que entorno sobre os campos.
Por que não vens inspirações pedir-me,
Sonhador de outras eras? Porventura
Meu suave clarão não é tão belo
Como ao começo de teus verdes anos?

196
NUMA CHOÇA DE PALHA

Escutai os harpejos da viola,


São mais sentidos que o soprar do vento
Beijando a medo os arrozais viçosos;
Prestai ouvido à voz do sertanejo,
Que ela fala de amor, e a patativa
Nunca nos matagais gemeu tão triste!
Filhas da serrania e das camp_inas,
Adornai-vos de rubras maravilhas,
Vinde, que a noite avança e o céu desmaia!

ESPÍRITOS NA ATMOSFERA

Sacudi o sudário, errantes sombras,


Róseos espectros, lêmures da infância,
Fantasmas louros de ilusões perdidas!
Dançai, cantai nos planos luminosos
Que o íris cerca de brilhantes cores!
Chamai as fadas, e as ondinas leves,
Despertai nos palácios encantados
As princesas que dormem por cem anos!
Vinde fazer a orgia da saudade!

197
POETA

Oh! se não fosse um sonho! Se das trevas


Do sombrio passado inda pudesse
As almas evocar de tantos seres!
Se esta prisão de argila e de misérias
Não vedasse-me o vôo! Se do livro
Onde flameja a lúgubre sentença
Eu pudesse rasgar uma só folha,
Uma só, grande Deus! Talvez lograsse
Todos os males apagar que hei feito!

NoEsrAço

Cumpre teu fado nesse mundo ingrato.


Eu também caminhei, hoje descanso
Dos eleitos de Deus no vasto império!
Não se afastam de ti meus olhos temos.
Manchou-me o pó da terra, a luz das luzes
Deu-me nova existência ao pé dos anjos.
Como te amei outrora, amo-te agora,
Furta ao lodo tu'alma, olha as alturas,
E do empíreo no azul verás meu rosto!

198
POETA

Donde parte esta voz? De que recinto


Misterioso, oculto, me dirige
Tão suaves concentos? Porventura
Além do firmamento, além dos astros
Uma plaga de paz.e amor existe?
Onde está ela? ... A mente se me abrasa!
Por toda a parte só matéria vejo,
Luzes, vapores, ar, globos, esferas,
Mundos e mundos, sempre cheio o espaço!

Onde repousa o sólio do invisível?


Onde se abriga o sopro imponderável
Que anima os corpos dos mortais na terra? ...
Se as rédeas solto à fantasia ardente,
Ela abandona o pó, transpõe as nuvens,
Vence as estrelas, deixa o sol e o éter,
Arroja-se atrevida no infinito,
E nada encontra além do eterno abismo!
Nada! e no lodo engolfa-se de novo!

199
Perdão, perdão, meu Deus! Busco-te embalde
Na natureza inteira! O dia, a noite,
O tempo, as estações, mudos sucedem-se,
E se falo de ti mudos se escoam!
Mas eu sinto-te o sopro dentro d'alma!
Da consciência ao fundo eu te contemplo!
E movo-me por ti, por ti respiro,
Ouço-te a voz que o cérebro me anima,
Em ti me alegro, e choro, e canto e penso!

Da natureza inteira que aviventas


Todos os elos a teu ser se prendem,
Tudo parte de ti, e a ti se volta;
Presente em toda parte, e em parte alguma,
Íntima fibra, espírito infinito,
Move, potente, a criação inteira!
Dás a vida e a morte, o olvido e a glória.
Se não posso adorar-te face a face,
Ah! basta-me sentir-te sempre, e sempre.

200
Eu creio em ti, eu sofro, e o sofrimento
Como ligeira nuvem se esvaece
. Quando repito teu sagrado nome!
Eu creio em ti, e vejo além dos mundos
Minha essência imortal brilhante e livre,
Longe dos erros, perto da verdade,
Branca dessa brancura imaculada
Que os gênios inspirados, nesta vida,
Em vão tentaram descobrir nos mármores.

CE

201
LIRA

Quando me volves teus formosos olhos,


Meigos, banhados de celeste encanto,
Rasgo urna folha da carteira, e a lápis
Escrevo um canto.

Quando nos lábios do rubirn mais puro


Mostras-me um riso sedutor, faceto,
Encomendo rninh' alma às nove musas,
Faço um soneto.

Quando ao passeio, no mover das roupas,


Deixas de leve ver teu pé divino,
Sinto as artérias palpitarem túmidas,
Componho um hino.

Quando no rnárrnor das espáduas belas


As negras tranças a tremer sacodes,
Ébrio de amor, sorvendo seus perfumes,
Rimo dez odes.

Quando à noitinha me falando a medo


Elevas-me do céu à luz suprema,
Esqueço-me do mundo e de mim mesmo,
Gero um poema.
CE

202
APENA
(Fragmento de um poema íntimo)

Poucos instantes de vida


Me restam, oh! bem o sei!
Fiquei vencido na lida,
Seja assim, cumpra-se a lei!
Fui forte, com firmes passos
Transpus desertos espaços,
Afrontei mil temporais,
Sorri no dorso das vagas
Da tormenta às surdas pragas,
Da morte aos brados fatais!
Bebi de todas as taças,
Provei todas as desgraças,
Todas as dores sofri;
Mortal, vergou-me o martírio,
Nem a luz tenho de um círio,
Sinto na fronte o delírio,
Não passo além, durmo aqui.

203
E no entanto que sonhos,
Que planos ledos, risonhos,
Minha mente não formou
À luz deste céu brilhante,
Sobre este solo gigante
Que o Senhor abençoou!
Quantas vezes reclinado,
Mansamente balouçado
Sobre o regaço materno,
Não senti por minhas faces
Roçarem gênios falaces
Que me apontavam mendaces
Um porvir de gozo eterno!

Meu Deus! Por que me lançaste,


A mim, levita da dor,
Na terra onde derramaste
Tanta vida e tanto amor?
Por que à mágoa sem nome
Que minhas fibras consome,
Tanta luz antepuseste?
E quando tudo folgava,

204
Quando tudo se alegrava,
Por que chorar me fizeste?
Por que me deste um destino?
Por que me deixas sem tino
No meio da criação,
Imagem de um mal acerbo,
No teu poema soberbo
Sangrento escuro borrão?

_Quantas flores hei plantado,


Quanto arbusto hei adorado,
O tempo tem derribado,
Tem o lodo consumido!
Hoje sobre o meu calvário,
Triste, mudo, solitário,
Rasgo as dobras do sudário,
Mordo a cruz enfebrecido!. ....
Humilhar-me ao sofrimento?
Nunca! Às rajadas do vento
O cedro jamais se dobra!
Tenho o orgulho da desgraça,
Quanto mais à dor se abraça
Mais força minh'alma cobra!

205
Oh! minha pena querida,
Não quero ensopar-te, não,
Na funda, negra ferida
Que tenho no coração!. ..
Não quero, não posso! Ainda
Eu a vejo airosa e linda
Vir-se sentar junto a mim!
E não é mais que uma idéia!
Folha de rota epopéia!
Fátua luz que bruxuleia
Sobre um deserto sem fim!
E não é mais que uma nota,
Triste, lânguida, remota,
Nas solidões do passado!
Um monte de brancos ossos!
Marco atirado entre os fossos
De medonho descampado!
Oh! minha pena mimosa,
Minha pena graciosa,
Companheira carinhosa
Dos festins da mocidade!
Meu orgulho de criança!

206
Mais tarde loura esperança!
Maga estrela de bonança
No meio da tempestade!
Vou deixar-te! Está quebrada
Essa trindade adorada
Que tantos sonhos gerou!
Ela partiu, nós ficamos!
Ingratos, não mais riamos,
Oh! de lágrimas enchamos
O espaço que ela ocupou!

Mas não! Se te ordena a sina,


Se o destino assim te manda,
De pé sobre a própria ruína
Canta, oh! alma miseranda!
Pede ao inferno uma lira,
Toma os guizos da loucura,
Dança, ri, folga e delira
Mesmo sobre a sepultura!
Solta rudes harmonias,
Brinda a morte e as agonias,
Canta as cóleras bravias

207
Dos precitos eternais;
Sobre túmulos e berços
Escreve ainda, e teus versos
Sejam banhados, imersos,
Nos prantos de Satanás!

CE

208
CANÇÃO LÓGICA
Eu amo, tu amas, ele ama ...

Teus olhos são duas sílabas


Que me custam soletrar,
Teus lábios são dous vocábulos
Que não posso,
Que não posso interpretar.

Teus seios são alvos símbolos


Que vejo sem traduzir;
São os teus braços capítulos
Que podem,
Que podem me confundir.

Teus cabelos são gramáticas


Das línguas todas de amor,
Teu coração - tabernáculo
Muito próprio,
Próprio de ilustre cantor.

O teu caprichoso espírito,


Inimigo do dever,
É um terrível enigma
Ai! que nunca,
Que nunca posso entender.

209
Teus pezinhos microscópicos,
Que nem rastejam no chão,
São leves traços estéticos
Que transtornam,
Que transtornam a razão!

Os preceitos de Aristóteles
Neste momento quebrei!
Tendo tratado dos píncaros,
Oh! nas bases,
Nas bases me demorei.
A

210
CANÇÃO
Santos. - S. Paulo. - 1870.

Máquina de escrever e fazer versos,


Já não sei mais cantar,
As florestas deixei, - voei das serras
E vim cair no mar.

Onde o corcel robusto, belo e forte


Sempre o freio a mascar?
Deixei-o nas montanhas solitário,
E vim cair no mar.

À sombra da graúna gigantesca


Sabia eu meditar,
A graúna ficou, - perdeu as folhas,
E vim cair no rhar.

As tradições tão doces, as lembranças


De meu velho solar,
Estão lá sob as mãos de indiferentes
E vim cair no mar.

O segredo perdi das melodias,


Agora é só rimar!
Saltei dos nobres cedros seculares
E vim cair no mar.

211
Onde olhavam meus bons antepassados
Sem dor e sem pesar,
Não posso eu mais olhar, perdi as asas
E vim cair no mar.

Não ouço mais a voz dos caçadores,


Nas brenhas a cantar;
Da choça do pastor fugi medroso
E vim cair no mar!

Nem as festas alegres dos roceiros


Posso mais partilhar!. ..
Trouxe minh' alma apenas por bagagem
E vim cair no mar!
A

212
A MORTE E DEPOIS
SOBRE UM TÚMULO

Torce-te aí na sepultura fria


Onde passa rugindo o furacão,
Seja-te o orvalho das manhãs negado,
Soe em teu leito a voz da maldição!
Teu castigo será gemer debalde
Buscando o sono que o sudário deixa,
Ouvir nas trevas de urna noite horrenda
De errantes larvas a funérea queixa!
Pese-te a terra qual um fardo imenso,
Infecta podridão cubra teus olhos,
Seque o salgueiro que sombreia a lousa
E em seu lugar estendam-se os abrolhos!
Roam-te o ódio, - a maldição, - o olvido,
E quando as turbas levantar-se um dia,
- Aparências de Deus, - para afundar-se
No seio d'Ele, ardentes de alegria,
Surdo sejas aos ecos da trombeta
Em teu leito de pedra enregelada;
Findem-se os mundos, e a existência tua
Fria se apague na soidão do nada!

São Paulo -1861.


N

215
CÂNTICO DO CALVÁRIO
À memória de meu filho
morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta


Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
O porvir de teu pai! -Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! - Crença, já não vives!

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,


Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus voz faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!

216
Estrelas do sofrer, - gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! Sede benditas!
Oh! filho de minh' alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr-do-sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonora e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!

Não mais! A areia tem corrido, e o livro


De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,

217
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!. ..

Oh! quantas horas não gastei, sentado


Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n' água o lenho do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte!
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene

218
Do selvagem corcel? .. . E tudo embalde!
A vida parecia ardente e douda
Agarrar-se a meu ser!. .. E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n' alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave;
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor.. . ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta!
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!

219
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!

O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,


A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícia mimosa rebentada à sombra!
Mas ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!

Que belos sonhos! Que ilusões benditas!


Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! Luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!

220
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonia! - O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!

Como eras lindo! Nas rosadas faces


Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, - nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!
Sobre o teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo: - teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, - mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!. .. Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!

221
Ai! doudo sonho!. .. Uma estação passou-se,
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O ·gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!. ..

Ouço o tanger monótono dos sinos,


E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, - sinto o aroma
Do incenso das igrejas, - ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!. .. E choro embalde.

222
Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh' alma.
CF

223
DESEJO

Quando eu morrer adornem-me de flores,


Descubram-me das vendas do mistério,
E ao som dos versos que compus carreguem
Meu dourado caixão ao cemitério.

Abram-me um fosso no lugar mais fresco,


Cantem ainda, e deixem-me cantando;
Talvez assim a terra se converta
De suave dormir num leito brando.

Em poucos meses far-me-ei poeira,


Porém que importa, se mais pura e bela
Minh' alma livre dormirá sorrindo
Talvez nos raios de encantada estrela.

E lá de cima velarei teu sono,


E lá de cima esperarei por ti,
Pálida imagem que do exílio escuro
Nas tristes horas de pesar sorri!

Ah! e contudo se deixando o globo


Ave ditosa eu não partisse só,
Se ao mesmo sopro conduzisse unidas
Nossas essências num estreito nó!. ..

224
Se junto ao leito das finais angústias,
Da morte fria ao bafejar gelado
Eu te sentisse junto a mim dizendo:
São horas de marchar, eis-me a teu lado.

Como eu me erguera resoluto e firme!


Como eu seguira teu voar bendito!
Como espancara co' as possantes asas
O torvo espaço em busca do infinito!
CF

225
ORAÇÃO FÚNEBRE
(Rig-Veda, VIII, 14)

Segue o caminho antigo onde passaram


Outrora nossos pais. Vai ver os deuses
Indra, Yama e Varuna.

Livre dos vícios, livre dos pecados,


Sobe à eterna morada, revestido
De formas luminosas.

Volte o olhar ao sol, o sopro aos ares,


A palavra à amplidão, e os membros todos
Às plantas se misturem.

Mas a essência imortal, aqueça-a, oh! Ágnis,


E leva-a docemente à clara estância
Onde os justos habitam,

Para que aí receba um novo corpo,


E banhada em teu hálito celeste
Outra vida comece ...

Desce à terra materna, tão fecunda,


Tão meiga para os bons que a fronte encostam
Em seu úmido seio.

226
Ela te acolherá terna e amorosa
Como em seus braços uma mãe querida
Acolhe o filho amado.
CE

227
BIOGRAFIA

Emiliano e Emília tiveram 17 filhos. No dia 17 de


agosto de 1841, no atual município de Rio Claro (RJ),
nascia o segundo rebento da prole (e o primeiro
varão), que recebeu o nome de Luís Nicolau Fagun-
des Varela.
Toda a vida do poeta foi marcada por desencon-
tros, projetos inconclusos, infortúnios. Na vida aca-
dêmica, não conseguiu concluir o curso de Direito,
sempre reprovado pelo número excessivo de faltas.
Na vida afetiva, foi infeliz nos dois casamentos - com
Alice Luande, filha de um dono de circo, e com Maria
Belisária (prima de Varela). Dois de seus filhos (um
com Alice, outro com Maria) morreram antes do
primeiro aniversário. Vida profissional, no sentido
estrito, Luís Nicolau nem chegou a ter: dependia
financeiramente do pai, e acumulou uma série de
inadimplências e calotes (sobretudo relativos a paga-
mentos de aluguel) que o transformaram num quase-
nômade. Dos grandes poetas do nosso romantismo -
e reconhecido como tal quando era vivo - é o único
que possui zonas nebulosas na biografia. Zanzou,
bêbado, por lugarejos e fazendas fluminenses, decla-
mando de improviso versos que passaram à tradição
oral. É famoso o episódio em que foi visto, trôpego, a
esmo, com um bando de papagaios amarrado à cin-

229
tura. Mas desses episódios, algo grotescos, surge a
imagem de um poeta que, mais do que qualquer
outro de nosso romantismo, levou às últimas conse-
qüências a vocação "maldita" de ser poeta. Não se
tratava de uma excentricidade livresca, mas de uma
vocação pàra o absoluto obstada pela demanda de
um cotidiano burguês ao qual Varela nunca logrou
adaptar-se.
Morreu em 18 de fevereiro de 1875. Alguns dias
antes, numa tarde chuvosa de Niterói, tombara na
rua, em decorrência do excesso de ingestão alcoólica.
Infeliz, desencontrado de si mesmo - como o seu per-
sonagem do poema" Arquétipo" - "à eternidade/ Foi
ver se divertia-se um momento".

230
BIBLIOGRAFIA

Noturnas. São Paulo: Tipografia Imparcial de J.R. de


Azevedo Marques, 1861.
O estandarte auriverde. São Paulo: Tipografia Impar-
cial de J.R. de Azevedo Marques, 1861.
Vozes d'América. São Paulo: Tip. do Correio Paulis-
tano, 1864. (A segunda edição, dita clandestina -
Porto, Tip. de Antônio José da Silva Teixeira, 1876
- traz um suplemento de 13 poemas, intitulado,
em edições posteriores, de Avulsas).
Cantos e fantasias. São Paulo: Garraux, 1865.
Cantos meridionais. Rio de Janeiro: Tip. Universal de
Laemmert, 1869.
Cantos do ermo e da cidade. Rio de Janeiro: B. L. Gamier,
1869.
Anchieta, ou O evangelho nas selvas. Rio de Janeiro:
Livraria Imperial de E.G. Possolo Editora, 1875.
Cantos religiosos (co-autoria: Ernestina Fagundes Varela).
Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert
Editores, 1878.
Diário de Lázaro. Rio de Janeiro: Tip. Nacional, 1880.
A partir da década de 1880 começam a surgir
edições de obras reunidas e de antologias:

231
Obras completas. Org. Visconti Coaracy. Rio de Janeiro:
H. Garnier, [s/ d]. 3 vol.
Obras completas. São Paulo: Cultura, 1943.
Obras completas. Rio de Janeiro: Zélia Valverde, 1943.
3 vol.
Poesias completas. Org. Frederico José da Silva Ramos.
São Paulo: Saraiva, 1956.
Poesias completas. Org. Miécio Táti e E. Carrera Guerra.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.
3 vol.
Poesia. Org. Edgard Cavalheiro. Rio de Janeiro: Agir,
1957.
Dispersos. Org. Vicente de Paulo Vicente de Azevedo.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1970.
Poemas. Org. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São
Paulo: Cultrix, 1982.

Obras Sobre Fagundes Varela

Todas as histórias da literatura brasileira se ocu-


pam da obra do poeta, cuja existência foi objeto de
duas excelentes biografias: Fagundes Varela, de
Edgard Cavalheiro (São Paulo: Martins, 1956, 3 ed.) e
Um outro. Varela, de Leonardo Fróes (Rio de Janeiro:
Rocco, 1990).

232
ÍNDICE

Poemas de oito faces ........................... ... ... .... ... ........ 7

A MUSA CÍVICA

A S. Paulo ... .... .. ...... ... .... ..... ........... ... ..... ... ... .... ........ .. 27
Canção ....................................................................... 29
Aurora ....................................................................... 32
Asp1raçoes ................................................................. 36
Versos soltos ... ... ... ... ............... ..... ..... ...... ... ............... 38
O escravo ....... ....... .. ... ... ... ... ... ...... ..... .. ... ...... .... .......... 42
À Bahia ...................................................................... 47

QUEM SOU?

O foragido .. ........ ...... ............ ..... .. ... .. ... .. ............ ....... . 53


Tristeza ..... ...... ........ ... ........ ........... ........ .. ....... ...... .. ..... 56
O exilado ........... ...... ... ................................ .... ..... ..... . 59
Childe-Harold ... ... ..... ...... .. ...... ..... ..... ..... .................. 63
Resignação ... ... ... ..... ... ................. .. ... ..... ... ......... .... .... 65
Ira d e Saul ................................................................. 67
Ao Rio de Janeiro ....... ......... ... ............... .... ..... ... ....... 69

233
Noturno ..................................................................... 71
Eu amo a noite .......................................................... 75
Armas ........................................................................ 78
Velha canção............................................................. 79

EM BUSCA DE CRISTO

Canto I, XXVIII .. ................... .. ..... .. .. .. .. .. ... ..... ...... ..... 85


Canto IV, I ..... .. .. ... .. ... ..... .. ..... .. .. .. ... .. ......... ... .. .. .. ..... .. 87
"Estrelas" ..... .. .. ..... .. .. ... .. ..... .. .. .. .. .. ........ .. .. ....... ..... .. .. 89
''Ei-nos unidos ... " ............... ........................................ 90

EM NOME DO AMOR

Ilusão......................................................................... 95
Ideal........................................................................... 97
Deixa-me ................................................................... 98
Não te esqueças de mim! ........................................ 100
Soneto ("Eu passava na vida ...") .............................. 102
Elegia ......................................................................... 103
Visões da noite ......................................................... 107
Juvenília .................................................................... 108
A flor do maracujá ................................................... 118
Antonico e Corá ....................................................... 120
Estâncias .................................................................... 131
As letras ..................................................................... 134

234
CIDADE VERSUS CAMPO

Arquétipo .................................................................. 137


As selvas .................................................................... 140
No ermo .................................................................... 142
A cidade ...... ...... .. ... .. ... ...... ... ..... ... ... ... .. ... ... ..... .... ...... 146
O cavalo ..................................................................... 150
A roça ......................................................................... 154
Em viagem ................................................................ 157

PAISAGENS

Soneto ("Desponta a estrela d'alva ...") ..................... 161


Cantiga ...................................................................... 162
O sabiá ....................................................................... 164
O mar ......................................................................... 166
Sextilhas .................................................................... 171
O oceano .. ... ........ .. ... ... .. ... ..... ... ..... ..... ............. ..... ... .. 173
O vaga-lume ............................................................. 178
Hino à aurora ........................................................... 180

A POESIA NO ESPELHO

Queixas do poeta ..................................................... 185


Acúsmata ................................................................... 187
Lira ............................................................................. 202
A pena (CE) ............................................................... 203

235
Canção lógica ............................. :............................. 209
Canção ....................................................................... 211

A MORTE E DEPOIS

Sobre um túmulo ..................................................... 215


Cântico do calvário ......... ......................................... 216
Desejo ......................................................................... 224
Oração fúnebre ......................................................... 226

Biografia .................................................................... 229


Bibliografia ................................................................ 231

236

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