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APOSTILA DE MÁQUINAS E MECANIZAÇÃO AGRÍCOLA

SUMÁRIO

Página
CAPÍTULO 1 – Introdução ao estudo das fontes de potência.............................4
1.1 Consumo de energia pelo homem...............................................................4
1.2 Métodos de conversão de energia...............................................................5
1.2.1 Conversores eólicos e hidráulicos.............................................................6
1.2.2 Conversores térmicos de combustão externa e interna............................7
1.2.3 Conversores termonucleares.....................................................................9
1.2.4 Pilha de combustível, conversores termossolares,
magnetodinâmico e reator termonuclear..................................................9
1.3 Fontes de potência para a agricultura.......................................................10
1.3.1 Constituição geral das máquinas motoras...............................................10
1.3.2 Rendimento na conversão de energia.....................................................11
1.3.3 Tipos de fontes de potência para uso na agricultura...............................12
1.4 Noções elementares de mecânica.............................................................13
1.4.1 Objetivos e subdivisões...........................................................................13
1.4.2 Força, trabalho, energia e potência.........................................................15
CAPÍTULO 2 – Formas de Mecanização...........................................................26
CAPÍTULO 3 – Animais domésticos como fontes de potência..........................28
3.1 Formas de utilização..................................................................................28
3.2 Capacidade de trabalho em tração............................................................30
3.3 Escolha de animais em função da espécie................................................30
3.4 Escolha em função da raça........................................................................32
3.5 Jornada dos animais e número de cabeças da tropa de serviço..............34
3.6 Rendimento termomecânico......................................................................34
3.7 Formas de atrelamentos e arreios.............................................................36
3.8 Implementos para tração animal................................................................36
CAPÍTULO 4 – Tratores Agrícolas......................................................................38
4.1 Constituição geral dos tratores..................................................................38
4.2 Classificação dos tratores..........................................................................40
4.2.1 De acordo com o tipo de rodado..............................................................40
4.2.2 De acordo com a conformação do chassi...............................................42
3

4.3 Funções das principais partes constituintes do trator................................44


CAPÍTULO 5 – Órgão de acoplamento..............................................................47
5.1 Categorias de máquinas e implementos de acordo com o tipo de
acoplamento ao trator................................................................................47
5.2 Acoplamento por barra de tração...............................................................48
5.3 Características do acoplamento com levantamento..................................48
5.4 Acoplamento com braços convergentes. Engate de três pontos..............49
CAPÍTULO 6 – As máquinas agrícolas..............................................................51
6.1 Preparo primário ou inicial do solo.............................................................51
6.2 Procedimentos preliminares.......................................................................52
6.2.1 Avaliação global do terreno......................................................................52
6.2.2 Levantamento detalhado das condições do local....................................53
6.2.3 Classificação dos tipos de vegetação......................................................53
6.2.4 Esquema de operações mecanizadas no desbravamento......................55
6.2.5 Esquema de operações mecanizadas no preparo convencional do
solo...........................................................................................................56
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Capítulo 1

Introdução ao estudo das fontes de potência

A engenhosidade do homem na manipulação das diversas fontes de energia


disponíveis na Terra influi fortemente na sua capacidade de sobrevivência e no seu
desenvolvimento social. O primeiro passo nesse sentido verificou-se quando aprendeu a
usar o fogo, para seu próprio aquecimento. Enquanto os demais seres vivos continuam a
condicionar seu comportamento ás restrições impostas pelas variações do meio, a
habilidade inversa de alterar substancialmente o meio ambiente pertencente unicamente
ao homem. Ele mesmo se introduz no ciclo natural da energia, convertendo formas menos
desejáveis em uma mais desejável, ou seja, capim em carne, carvão em calor, queda-
d’água em eletricidade, etc. E, à medida que as sociedades se desenvolvem, cria
crescentes dependências energéticas.

1.1 Consumo de energia pelo homem

O suprimento de alimentos, o conforto físico e a elevação dos padrões de vida, além


das atividades elementares à sobrevivência, estão diretamente associados à capacidade
de conversão da energia disponível na natureza em trabalho útil. A Fig. 1.1 ilustra,
graficamente, o aumento exponencial do consumo diário de energia, para seis estágios
evolutivos do desenvolvimento social humano.

Figura 1.1. Consumo diário de energia, per capita, para sociedades em seis estágios de
desenvolvimento humano. A área com hachura do Estágio VI corresponde ao consumo
sob a forma de energia elétrica. Adaptado de: Cook., “The Flow of Energy in a Industrial
Society”. Sc. Am., 224 (3), 1971.
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O homem primitivo (no leste da África, há 1 milhão de anos) do Estágio I consumia


apenas a energia dos alimentos ingeridos crus, representando cerca de 2 mil kcal/dia. O
homem das palafitas e choupanas (na Europa, há 100 mil anos) do Estágio II, se
alimentado mais e utilizando o fogo para cocção de alimentos e aquecimento ambiental,
para consumir 5 mil kcal/dia. No Estágio III, das sociedades agrícolas primitivas, o uso de
animais domésticos para alimentação e no trabalho de cultivo aumenta o consumo diário
para 12 mil kcal.
As sociedades agrícolas mais avançadas (no noroeste da Europa, no século XV) do
Estágio IV, já se utilizando do carvão, de energia hidráulica, eólica e de animais
domésticos para transporte, alcançam níveis de consumo da ordem de 26 mil kcal/dia per
capita. No estágio V, por ocasião da revolução industrial de baixa tecnologia (Inglaterra,
em 1875), o consumo do homem industrial passou a 77 mil kcal/dia. Finalmente, a atual
revolução industrial de alta tecnologia levou o homem tecnológico do Estágio VI a
consumir cerca de 230 mil kcal/dia (E.U.A. e, 1970).
A utilização da energia depende de dois fatores: disponibilidade de potencial
energético e capacidade tecnológica para convertê-lo em calor e trabalho. Todavia, a
crescente expansão da necessidade humana de energia tem gerado difíceis problemas
econômicos, sociais e ambientais, cujas soluções exigem consciente seleção de
alternativas, através de processos políticos e mercadológicos. A projeção de nossas
exigências energéticas para o novo milênio indica a necessidade de uma completa
avaliação das opções disponíveis e cuidadoso planejamento de nossas futuras atividades.

1.2 Métodos de conversão de energia

A energia interna dos combustíveis disponíveis na Terra pode ser aproveitada quase
que diretamente pelo homem, para aquecimento. Todavia, a obtenção de trabalho útil
exige a presença de conversores de energia.
Conforme ilustra a Fig. 1.2, a partir de uma forma qualquer de energia disponível, os
conversores primários podem fornecer diretamente energia mecânica e elétrica. Também,
a energia mecânica assim obtida poderá ser transformada em elétrica e vice-versa,
através de um conversor secundário.

Figura 1.2. Fases da conversão da energia disponível nas fontes naturais em trabalho útil.
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Foram desenvolvidos cerca de 12 diferentes tipos de conversores de energia, a


saber:

 eólicos: os moinhos e rodas de vento;


 hidráulicos: os monjolos, as rodas-d’água e as turbinas hidráulicas;
 de combustão externa: os motores e as turbinas a vapor;
 de combustão interna de êmbolos: os motores convencionais a gasolina, álcool e
óleo diesel;
 turbinas de combustão interna: as turbinas a gás;
 de reação: motores dos foguetes;
 termonucleares: os reatores atômicos;
 pilhas de combustível: que convertem diretamente a energia química de gases
em eletricidade;
 termossolar: que utiliza a radiação solar na obtenção de vapor para acionamento
de turbinas;
 turbinas magnetodinâmicas: que convertem a energia contida em gases
condutores superaquecidos diretamente em eletricidade;
 reator termonuclear: nos quais a eletricidade é obtida diretamento de uma reação
termonuclear;
 pilhas solares: que convertem a radiação solar incidente, diretamente em energia
elétrica.

1.2.1 Conversores eólicos e hidráulicos

A Fig. 1.3 mostra, esquematicamente, alguns dos mais antigos conversores de


energia construídos pelo homem. A energia do vento, isto é, o ar em movimento como
fonte de energia potencial, foi descoberta provavelmente por acaso. A movimentação de
embarcações, obtida pela conversão da energia potencial dos ventos em força de
impulsão nos mastros das velas, constituiu a primeira utilização prática dessa forma
natural de energia. Dispondo as velas em torno de uma roda, criou-se o moinho de vento.
Os motores eólicos convertem a energia dos ventos diretamento em trabalho útil
(bombeamento de água, moagem de grãos) ou, através de geradores, em energia
elétrica. Os monjolos e rodas-d’água, precursores das atuais turbinas hidráulicas,
convertem a energia potencial em cinétrica das quedas-d’água diretamento em trabalho
útil. A conversão da energia hidráulica em energia elétrica é da mais alta importância para
as regiões que contam com vasto potencial hidroenergético, como é o caso do Brasil e
outros países da América do Sul.
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Figura 1.3. Conversores de energia eólica e hidráulica. (I) Vela de embarcação. (II)
Moinho de vento. (III) Roda-d’água.

1.2.2 Conversores térmicos de combustão externa e interna

Os conversores térmicos de combustão externa ou interna são máquinas nas quais


ocorrem a transformação da energia interna dos combustíveis em energia mecânica,
através da conversão de parte do calor de combustão em trabalho útil. A queima dos
combustíveis, sob determinadas condições especiais, resulta em calor e uma expansão
gasosa, que gera pressão. Esta pressão, aplicada em certas partes móveis, gera
movimento e, dessa forma, potência mecânica. Dependendo do local onde ocorre a
combustão, fora ou dentro do próprio conversor, distinguem-se duas grandes categorias:

 de combustão externa;
 de combustão interna.

Conversores de combustão externa. Nos conversores de combustão externa, a


queima do combustível, que pode ser lenha, carvão ou óleo pesado, é feita visando a
aquecer a água contida em recipientes, denominado caldeiras. O aquecimento da água se
faz até convertê-la em vapor, e este, por estar contido num recipiente hermético,
desenvolve pressão. O vapor sob pressão é conduzido por uma tubulação para um motor
de êmbolo ou uma turbina, mostrados esquematicamente na Fig. 1.4, através dos quais
se obtém potência mecânica.

Conversores de combustão interna. Nos conversores de combustão interna, cujos


tipos principais são mostrados esquematicamente na Fig. 1.5, a queima do combustível é
feita no interior do motor. O combustível, geralmente um derivado do petróleo – gasolina,
querosene ou óleo diesel – é introduzido numa câmara juntamente com ar, onde a mistura
é comprimida e entra em ignição. A combustão explosiva dessa mistura, gerando uma
elevação brusca de temperatura, resulta no desenvolvimento de altas pressões que,
aplicadas sobre as partes móveis do motor, produzem movimento e liberação de potência
mecânica. As partes móveis, que recebem diretamente a pressão dos gases resultantes
da combustão, são denominados órgãos receptores. Quando esses órgãos são
constituídos por cilindro e êmbolo, apresentando entre si movimento retilíneo alternativo,
trata-se de uma máquina motora de combustão interna de êmbolos. Quando os
receptores são rodas providas de palhetas, a máquina motora recebe o nome de turbina
de combustão interna. Existem, todavia, certas máquinas motoras de combustão interna
desprovidas de órgãos receptores, sendo a potência mecânica fornecida diretamente pela
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reação dos gases, expelidos a altas velocidades da câmara de combustão – são os


denominados motores a jato ou a reação.

Figura 1.4. Os motores de combustão externa são acionados por vapor d’água sob
pressão, produzido em caldeiras. (I) Motor de êmbolo a vapor. (II) Rotor de
turbina a vapor. (III) Esquema dos componentes de uma instalação para
geração de eletricidade utilizando conversor de combustão externa.
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Figura 1.5. Diagrama esquemático dos principais componentes dos conversores de


energia de combustão interna e de reação.

No motor de êmbolos, uma mistura de ar + combustível entra em ignição; os gases


em expansão agem sobre o êmbolo que, através do sistema biela-árvore de manivelas
(ADM), desenvolve trabalho mecânico útil. Nos motores do ciclo Otto (a gasolina e a
álcool), a ignição é feita através de uma vela (centelha elétrica), enquanto nos motores do
ciclo Diesel a ignição se verifica pelo calor de compressão da mistura ar + combustível.
As máquinas motoras de combustão interna de êmbolos, ou, simplesmente, motores
de explosão, atualmente representam a principal fonte de potência para uso agrícola não
estacionário. Em nosso país, por orientação do Governo Federal, todos os tratores
agrícolas são obrigatoriamente equipados com motores diesel. Como uma das partes
fundamentais dos tratores agrícolas é o motor, será dada ênfase especial às máquinas
motoras de combustão interna de êmbolos, que utilizam como combustível o óleo diesel.
Nas turbinas a gás, empregadas comumente em aviões a jato, a contínua expansão
dos gases aquecidos, provenientes da câmara de combustão, agem sobre uma turbina
que aciona um compressor de ar. A energia cinética do jato de gases expelidos da turbina
fornece o empuxo necessário à propulsão do avião. Nos motores a reação, o jato de
gases propulsores é gerado na câmara de reação, onde se verifica a mistura do
combustível com um oxidante. Dessa forma, os motores a reação, ao contrário das
turbinas a gás, para seu funcionamento independem da presença de um suprimento de
ar, razão pela qual são empregados nos foguetes portadores de naves espaciais.

1.2.3 Conversores termonucleares

A Fig. 1.6 mostra, esquematicamente, a constituição de conversores de energia


nuclear em energia elétrica. Nos reatores usuais, a fissão do U-235 libera diretamente
energia para produção de vapor; este, tal como nos conversores de combustão externa,
aciona a turbina motora do gerador de eletricidade.
Nos reatores de tipo especial (breeder reactor) os nêutrons excedentes são
captados numa manta de U-238 ou Th-232 não físseis, que se transformam em Pu-239 e
U-233, físseis; portanto, à medida que o reator trabalha, gera novas quantidades de
combustível. O calor do reator, neste caso, é removido por meio de sódio líquido e,
através de um permutador de calor, é transferido à caldeira.
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Figura 1.6. Conversores de energia nuclear. A esquerda, esquema de um reator


convencional e, à direita, um reator de tipo especial (breeder reactor), onde o
calor é removido por sódio líquido e transferido à caldeira geradora de vapor.
Fonte: Summers, C. M. “The Conversion of Energy”, Sc. Am., 224 (3), 1971.

1.2.4 Pilha de combustível, conversores termossolares, magnetodinâmico e reator


termonuclear

Alguns dos mais recentes conversores de energia são mostrados esquematicamente


na Fig. 7. A pilha de combustível converte diretamente energia dos gases em eletricidade
e sua aplicação em trator, feita experimentalmente, resultou na obtenção de cerca de 20
HP. A reação dos gases combustíveis tem lugar em eletrodos porosos, originando um
fluxo de elétrons (corrente contínua) no circuito externo, com produção de água e dióxido
de carbono. Os conversores termossolares captam a radiação solar em painéis,
aquecendo sódio líquido. Um trocador de calor permite a obtenção de vapor para acionar
a turbina de um gerador de eletricidade. No conversor magnetodinâmico, a energia de
gases superaquecidos é convertida em eletricidade quando suas partículas, carregadas
eletricamente, cortam o campo magnético de um ímã. Nos reatores termonucleares, os
núcleos de elementos leves fundem-se com núcleos de elementos pesados liberando
energia; as partículas de alta velocidade e carregadas eletricamente, produzidas pelo
reator, podem ser coletadas de forma que geram diretamente energia elétrica.
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Figura 1.7. Esquema de conversores de energia, recentemente desenvolvidos. Fonte:


Summers, C. M. “The Conversion of Energy”, Sc. Am., 224 (3), 1971.

1.3 Fontes de potência para a agricultura

Fontes de potência é uma designação genérica dada aos recursos energéticos e aos
meios pelos quais é captada e transformada uma forma qualquer de energia em energia
mecânica, visando a uma utilização específica. O estudo das várias formas de energia e
das diversas máquinas motoras, utilizadas na sua conversão em energia mecânica, para
acionamento de máquinas agrícolas, constitui o tema central deste trabalho.

1.3.1 Constituição geral das máquinas motoras

Define-se máquina motora como sendo um conjunto de órgãos, constrangidos em


seus movimentos por obstáculos fixos e de resistência suficiente para transmitir o efeito
de forças e transformar energia. Elas são constituídas de órgãos receptores,
transformadores, operadores, e reguladores.

Receptores: são órgãos que recebem diretamente a energia, na forma original, e a


transferem aos órgãos transformadores, sob a forma de movimento (exemplos: êmbolo,
nos motores de combustão; rodas de palhetas, nos motores eólicos e nas turbinas).
Transformadores: são órgãos que recebem a energia captada pelos órgãos
receptores, na forma de movimento e transformam-na em energia mecânica, geralmente
caracterizada por um binário e movimento rotativo (exemplos: mecanismo biela-manivela,
nos motores de combustão, conversores e torque, nos tratores, etc.).
Operadores: são órgãos que, recebendo energia mecânica dos transformadores,
colocam-na em ação, para realizar trabalho mecânico (exemplo: tomada-de-potência e
rodado, nos tratores; árvore motriz, nos motores).
Reguladores: são órgãos que se destinam a regularizar o funcionamento das
máquinas motoras, estabelecendo um equilíbrio entre o momento motor e o momento
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resistente, para cada condição de sobrecarga; são representados pelo volante e pelo
regulador centrífugo (também a vácuo, hidráulico, etc.).

1.3.2 Rendimento na conversão de energia

Em qualquer processo de conversão de energia, sempre ocorrem perdas. Estas são


expressas através da relação entre a quantidade de energia colocada à disposição do
processo e aquela liberada pelo processo após a conversão, conforme ilustra o esquema
abaixo:

Eo fonte de potência Em
(τm) (τu)

perdas  E 
1  m 
 Eo 

onde E o é a energia original, colocada à disposição do processo e E m a energia


mecânica liberada pelo processo.
A energia original é também denominada trabalho motor-  m e a energia mecânica
liberada, trabalho útil-  u , logo:

u
 100
m

o rendimento  pode ser subdividido em 3, a saber:

 r  rendimento do receptor;
t  rendimento do transformador;
 o  rendimento do operador;

logo, o esquema acima toma o seguinte aspecto:

receptor transformador operador


Eo m u m u m u Em
r t o

energia energia energia


perdida perdida perdida

E, assim, o trabalho motor realizado em cada órgão responsável pelo processo de


conversão, ao ser relacionado com o trabalho útil fornecido ao órgão seguinte, determina
diferentes rendimentos.
O rendimento global do processo é obtido pelo produto dos rendimentos parciais.
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Exemplos ilustrativos:

a) Seja o caso de um motor de combustão interna

êmbolo Árvore de manivelas


Eo t m Em

energia
interna do combustível
calor atrito

t = 30% m = 90% tm = (0,3 x 0,9) = 27%


(rendimento térmico) (rendimento mecânico) (rendimento termomecânico)

b) Seja o caso de um motor eólico

roda de palhetas Árvore motriz


Eo e m Em

energia
do vento
perdas aerodinâmicas atrito

e = 42% m = 96% g = (0,42 x 0,96) = 40,3%


(rendimento eólico) (rendimento mecânico) (rendimento global)

1.3.3 Tipos de fontes de potência para uso na agricultura

As atividades de produção agrícola são também executadas às expensas da


conversão de várias formas de energia em trabalho motor, através de diversos tipos de
fontes de potência. Nos trabalhos agrícolas exigem-se dois tipos dessas fontes: móveis e
estacionárias. As fontes de potência móveis caracterizam-se por desenvolver trabalho
através de esforço tratório, como é o caso das operações de aradura, gradagem,
semeadura, cultivo, transporte, etc. As fontes de potência estacionárias são utilizadas,
principalmente, no bombeamento da água, na trilha, na moagem de grãos, no preparo de
silagem, etc.
A utilização de máquinas que convertem a energia disponível na natureza, seja do
vento, da água, do sol, dos combustíveis fósseis e outros, possibilitaram que o homem
ampliasse sua capacidade de trabalho. Para a agricultura essa revolução ocasionada
pelos conversores de energia permitiu que houvesse um aumento na produção de
alimentos, suprindo assim necessidades crescentes de uma população em expansão e
aliviando o homem de trabalho mais pesados. Atualmente a mecanização das atividades
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agropecuárias avança a cada instante e, praticamente todas as operações agrícolas são


passíveis de se mecanizar. Há inúmeras possibilidades de aproveitamento da energia
disponível na natureza, sendo que, para a agricultura as mais importantes são os
conversores de energia eólica, hidráulica e elétrica, e os motores de combustão interna de
êmbolos, permitindo ao agricultor a escolha dos equipamentos mais adequados às suas
condições e necessidades.
As máquinas caracterizadas como fontes de potência na agricultura são:
 os animais domésticos;
 conversores de energia eólica;
 conversores de energia hidráulica;
 conversores de energia elétrica;
 motores de combustão interna de êmbolos;
 tratores agrícolas;
 aeronave agrícola.

Destas, somente os animais domésticos, motores de combustão interna de êmbolos


(quando aplicados nos tratores) e as aeronaves agrícolas são empregados em trabalho
de campo como fontes móveis de energia. A energia dos ventos, das quedas-d’água e
elétrica, é utilizada em trabalhos estacionários.

1.4 Noções elementares de mecânica

Nos estudos das máquinas, motoras ou não, é de fundamental importância


conhecimentos adequados de Mecânica. Essa palavra provém do grego mekhané que
significa máquina, lembrando a etimologia do termo as origens e os primórdios dessa
ciência. A Mecânica constitui um dos grandes ramos da Física, vocábulo também
proveniente do grego physis e que significa natureza. Desde Aristóteles até o fim da Idade
Média, a Física era a ciência da natureza e seu objeto eram as causas tanto “remotas”
como “próximas” de todos os seres corpóreos. Com o passar do tempo, as causas
remotas passaram ao domínio da Filosofia (Cosmologia, Antropologia, etc.) e as noções
que advêm da observação do mundo material, ao domínio de dois grupos distintos: as
Ciências Biológicas, que estudam os seres vivos, e as Ciências Físico-Químicas, que
tratam das propriedades dos corpos inanimados. No início do século IX ocorreu a
separação entre a Química e a Física, preocupando-se a primeira com as propriedades
ligadas à constituição íntima dos corpos e a última com as propriedades gerais e as
mudanças de estado. Além da Mecânica, outros ramos da Física são a Termologia (calor
e suas aplicações), Acústica (teoria do som), Ótica (luz e fenômenos da visão),
Eletricidade, Magnetismo, Física Quântica, etc.

1.4.1 Objetivos e subdivisões

Mecânica é a parte da Física que estuda os movimentos, suas causas e seus


efeitos. Os objetivos fundamentais da Mecânica são:

a) caracterizar o movimento de um corpo ou sistema de corpos, sob a ação de


forças dadas;
b) caracterizar as forças capazes de imprimir a um corpo ou sistema de corpos um
dado movimento.
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Face a esses objetivos, pode-se verificar que no estudo da Mecânica deve-se


recorrer a dois importantes ramos da Matemática: o Cálculo e a Geometria. O Cálculo,
apoiado na noção de número, constitui o meio através do qual se consegue resolver duas
categorias de problemas de Mecânica: a) o da taxa de variação de uma quantidade, por
meio do Cálculo Diferencial, e b) o da determinação de uma função, quando se conhece a
taxa de variação – através do Cálculo Integral. A Geometria, por outro lado, faz intervir a
noção de espaço; através dela consideram-se pontos que descrevem linhas, linhas que
descrevem superfícies, etc.
De acordo com o enfoque dado ao estudo da Mecânica, ela recebe diferentes
denominações: a) mecânica teórica: ciência puramente abstrata, que pode ser
desenvolvida como um ramo da matemática aplicada; b) mecânica clássica ou
newtoniana: teoria analítica da mecânica idealizada por Isaac Newton (1642-1727) e
baseada em três suposições fundamentais, usualmente referidas como “leis de Newton”;
c) mecânica racional: preocupa-se com os movimentos e causas sem considerar as
propriedades da matéria, constituindo uma aplicação direta das análises algébricas e
vetoriais; d) mecânica aplicada: quando focaliza as aplicações práticas, tais como a
Resistência dos Materiais, a Balística, a Mecânica dos Fluídos, etc. e, inclusive, a
Mecânica Agrícola. Por outro lado, o estudo de diferentes tipos de corpos conduz ao
desenvolvimento de certos ramos especializados da Mecânica Aplicada que passam a
receber designações particulares, tais como Mecânica dos Sólidos, Mecânica dos Corpos
Plásticos, Mecânica dos Fluídos, etc.
A base de todas essas matérias, entretanto, é a Mecânica Analítica, fundada na
teoria desenvolvida por Newton e que, para fins didáticos, se subdivide em: a) Estática, b)
Cinemática, e c) Dinâmica.
Estática: o termo estática provém do grego statos que significa parado. A etimologia
do termo bem caracteriza seu objetivo: o estudo das forças paradas, independentemente
dos movimentos. A Estática Elementar estuda as leis de composição de forças e as
condições de equilíbrio de corpos materiais sob a ação de forças. As reações de contato
entre corpos, sejam eles sólidos ou líquidos, apresentam normalmente componentes
tangentes as superfícies de contato, genericamente denominadas forças de atrito. A
caracterização dessas forças é um dos problemas mais complexos da Mecânica Aplicada,
em virtude do grande número de fatores que nelas intervêm. Os problemas de atrito entre
um sólido e um líquido ou entre partes de um fluído, levam ao estudo das Resistências
Passivas, da Lubrificação, da Mecânica dos Fluídos e da Hidráulica.
Cinemática: é o ramo da Mecânica que estuda as leis do movimento, com o único
objetivo de descrevê-las, sem cogitar de suas causas ou de seus efeitos.
Etimologicamente se origina da palavra grega que significa movimento. Nela se estudam
as propriedades geométricas dos movimentos, em suas relações com o tempo. Assim, a
Cinemática advém da Geometria, com a introdução da noção de tempo, daí alguns
autores denominarem-na Geometria do Movimento. Nela se estudam as variações das
distâncias dos pontos móveis a um sistema de referência, em função do tempo, e os
conceitos básicos de trajetória, velocidade, e aceleração do ponto material e os de
movimentos dos sólidos.
Dinâmica: estuda as forças e os movimentos, isto é, estuda o estado de um corpo,
ou sistema de corpos, que se movimenta sob a ação de forças. É através da Dinâmica
que se desenvolvem os conceitos de massa, de energia, de trabalho e de potência.
De acordo com a conceituação de Mecânica e seus objetivos, a Mecânica se
confunde com a Dinâmica, sendo a Cinemática um ramo auxiliar e a Estática, um caso
particular. No estudo da Mecânica, o Cálculo e a Geometria são empregados como
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linguagem para exprimir as leis que regem os fenômenos mecânicos, em termos


matemáticos precisos, e como instrumento para estudar as conseqüências de tais leis.
Dessas considerações conclui-se que conhecimentos elementares de Física e
Matemática constituem importantes pré-requisitos ao bom aproveitamento do conteúdo
desta apostila.

1.4.2 Força, trabalho, energia e potência

A compreensão de certos conceitos e grandezas físicas constitui importante pré-


requisito ao estudo das fontes de potência utilizadas na Agricultura. A seguir será feita
uma revisão dos conceitos elementares de força, trabalho, energia e de potência.
Força. É geralmente definida como a ação que um corpo exerce sobre outro,
tendendo a mudar ou modificar seus movimentos, posições, tamanho ou forma.
Quando um corpo se movimenta, pára ou se deforma, a causa é uma força. Assim, o
conceito de força é compreendido pela manifestação de seus efeitos. Dada à
impossibilidade de se descobrir a verdadeira causa dos fenômenos físicos, esta é
substituída por outra casa fictícia, chamada “força” e capaz de produzir os mesmos
efeitos.
Força é uma grandeza vetorial, isto é, grandeza cujo valor se caracteriza não apenas
por um número, mas também por uma direção e um sentido. Assim, para representar as
forças adotou-se um ente geométrico denominado vetor e que é representado por uma
seta e simbolizado por uma letra com uma pequena seta acima:
 F
Vetor F = F 

Como no estudo da Mecânica necessita-se continuamente de certas noções sobre


vetores, sugerimos aos estudantes leitura complementar sobre essa matéria.
Como relatado anteriormente, o estudo das leis de composição de forças e das
condições de equilíbrio é objeto da Estática. A grandeza das forças, ou seja, o poder de
produzir maior ou menor efeito denomina-se intensidade. A medida dinâmica das forças é
expressa por:

F  m

onde m = massa do corpo;  = aceleração comunicada ao corpo.

Assim, a equação que define força é a equação fundamental da dinâmica:

força = massa x aceleração

A medida da intensidade das forças é feita por meio de dinamômetros e aos estudos de
mensuração de forças dá-se o nome de dinamometria. Em dinamometria, são
empregadas as seguintes unidades:

Sistema de unidades Nome e símbolo Descrição


CGS Dina ou dine (dyn) é a força que, atuando sobre
a massa de um grama,
comunica-lhe a aceleração
de um centímetro por
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segundo ao quadrado:
1 d = 1 g x 1 cm/s2
MKS absoluto Newton (N) é a força que, atuando sobre
a massa de um quilograma,
comunica-lhe a aceleração
de um metro por segundo ao
quadrado:
1 N = 1 kg x 1 m/s2
MKS técnico ou gravitacional quilograma-força (kg ou kgf) é a força que, atuando sobre
a massa de um quilograma,
comunica-lhe a aceleração
de 9,81 metros por segundo
ao quadrado:
1 kgf = 1 kg x 9,81 m/s2

Conversão de unidades

1 N = 105 dinas Sistema britânico:


1 kgf = 9,81 N 1 lbf = 32,2 poundal
1 kgf = 2,2 lbf

Trabalho. O conceito de trabalho, do ponto de vista físico, sob certos aspectos,


coincide com aquele das atividades cotidianas do homem. Em muitos casos a idéia de
trabalho está associada a um movimento e a força. Em Física, toda vez que uma força
atua sobre um corpo, produzindo movimento, dizemos que foi realizado um trabalho. Uma
pessoa, sustentando um objeto pesado a certa altura não realiza trabalho – apenas
desenvolve uma força contrária àquela da gravidade para sustentar o objeto. É nesse
ponto, portanto, que existe uma nítida diferença entre o significado comumente dado ao
trabalho e o conceito físico do termo.
Em Mecânica, toda vez que uma força atua sobre um corpo, produzindo movimento,
diz-se que um trabalho foi realizado. A equação que define trabalho é a seguinte:

trabalho = força x deslocamento x cos 

sendo  o ângulo formado pela força com a direção do deslocamento. Quando  = 0, cos
 = 1, logo, a expressão acima toma a forma:

trabalho = força x deslocamento

As unidades utilizadas para expressar trabalho são as seguintes:

Sistema de unidades Nome e símbolo Descrição


CGS Erg (-) trabalho realizado pela força de
um dina deslocando seu ponto
de aplicação de um centímetro,
ao longo de sua própria direção
e sentido:
1 erg = 1 dyn x 1 cm
18

MKS absoluto joule (J) trabalho realizado pela força de


um newton deslocando seu
ponto de aplicação de um
metro, ao longo de sua própria
direção:
1J=1Nx1m
MKS técnico ou gravitacional quilogrâmetro (kgm ou kgf.m) trabalho realizado pela força de
1 kgf deslocando seu ponto de
aplicação de 1 metro, na
própria direção e sentido:
1 kgf.m = 1 kgf x 1 m
Conversão de unidades

1 J = 107 erg
1 J = 102 x 10-3 kgf.m
1 kgf = 9,81 J

Torque. É um momento, conjugado ou binário, que tende a produzir ou que produz


rotação; é o produto de uma força por um raio comumente denominado braço de torque.
Desta maneira, não se pode falar em unidade de torque, uma vez que não constitui uma
grandeza física isolada, mas um produto de duas grandezas, cada uma com sua
respectiva unidade.
O sentido físico do conceito de torque é mostrado, sob diversas aplicações práticas,
na Fig. 1.10. Por exemplo, considerando-se a Fig. 1.10 I, a força tangencial de 150 N
desenvolvida pelo esforço muscular aplicado no cabo da chave a 400 mm de sua boca,
equivalente ao torque M de:

M = 150 (N) x 40 (cm) = 6.000 cm . N

Sabendo-se que a porca apresenta um diâmetro externo médio de 30 mm, a força


tangencial F, aplicada pela chave nas faces da porca, será:

6.000 cm.N
F   4.000 N
1,5 cm

Assim, uma força tangencial de 150 N, desenvolvida por esforço muscular, é


convertida em 4.000 N, devido à diferença de comprimento do braço de torque, de 400
mm para 15 mm.
Igualmente, na Fig. 1.10 III, a força tangencial de 2.000 N aplicada pela biela ao
moente da manivela, determina um torque na árvore de manivelas da ordem de:

M = 2.000 (N) x 0,1 (m)


M = 200 m . N

As relações que definem a multiplicação ou redução de torque, devidas às diferenças


nos comprimentos dos raios r1 e r2 de engrenagens, são mostradas na Fig. 1.10 IV.
A mensuração do torque consiste, basicamente, em determinar-se a intensidade de
uma força que, atuando na extremidade de um braço, tende a produzir ou produz
movimento de rotação. Quando o movimento de rotação é limitado, como no caso de
porcas e parafusos, essa mensuração é feita através da chave torquimétrica mostrada na
19

Fig. 1.10 II. No caso de movimento rotativo contínuo, como acontece nos motores, o
torque é medido através de dinamômetros de absorção ou freios dinamométricos.
O torque dos motores é expresso, comumente, em termos de metro x quilograma-
força ou m.kgf. É importante observar-se a ordem de apresentação das unidades:
primeiro m (metro) e depois kfg, ou seja, m.kgf. Isto, para não haver possibilidade de
confusão com a unidade de trabalho kgm – quilogrâmetro.
Energia. Mesmo sem conhecer sua definição ou conceito, sempre se tem alguma
idéia do que seja a energia. A idéia está intimamente ligada à de trabalho: uma mola
comprida possui energia porque, ao voltar a posição natural, executa trabalho; a pólvora
possui energia por ser capaz de produzir trabalho, ao ser deflagrada; a água em
movimento possui energia, também por ser capaz de realizar trabalho; e assim por diante.
Como se observa, a primeira idéia que se faz da energia é a de trabalho armazenado.
O conceito de energia tem passado por metamorfoses à medida que se desenvolvem
novos ramos do saber. Na mecânica newtoniana, o conceito de energia vincula-se apenas
à capacidade de movimentar os corpos; no século XIX tornou-se o princípio edificador de
três novas ciências: Termodinâmica, Química Quantitativa e Eletromagnetismo; no século
XX, voltou novamente a ocupar importante papel nas teorias da relatividade de Einstein e
do quantum de Plank. A equação de Einstein E = m . c 2, identificando energia com massa
e velocidade da luz, imprimiu notável impulso ao conhecimento do universo astronômico.
Idêntico papel desempenhou, sobre o conhecimento do universo subatômico, a equação
de Plank E = h . , restringindo a energia portada por uma radiação ao produto de uma
constante h, constante de Plank, por sua freqüência .
20

Figura 1.10. Sentido físico do conceito de torque. (I) Torque aplicado por uma chave
manual numa porca. (II) Chave torquimétrica para aperto dos parafusos do
cabeçote de motores. (III) Torque desenvolvido na árvore de manivelas
devido à força aplicada pela biela no moente da manivela. Multiplicação ou
redução de torque através de engrenagens com tamanhos diferentes.
(Fonte: Sussmann, Winfried et al., Fachkunde fur Landmaschinenmechanik;
5a ed., Stuttgart: Klett, 1975.)

A energia é comumente definida como a “capacidade de produzir trabalho”. Como


nem sempre é possível obter-se trabalho a partir de uma forma qualquer de energia, o
termo “capacidade” torna-se um tanto confuso. Assim, energia deve ser considerada
como aquilo que se reduz em proporção e à medida que o trabalho estiver sendo
realizado. Logo, a unidade pela qual se mede a energia deverá ser a mesma adotada
para o trabalho, isto é, joule – J, quilogrâmetro – kgm, foot-pound – ft – lb, e outras 2.
A energia pode se manifestar de várias maneiras, ou, em outras palavras, existem
muitas formas de energia. De fácil percepção, evidentemente, são aquelas que podem ser
transformadas diretamente em trabalho mecânico. Comumente são consideradas duas
formas de energia: a) energia potencial, de posição ou estado, e (b) energia cinética
ou de movimento. O exemplo mais simples de energia potencial é aquele de um corpo
localizado numa certa altura da superfície do solo. Por exemplo, um peso (massa) de 20
kg suspenso através de uma corda e roldana a 5 metros do solo, como ilustra a Fig. 1.11
I, será capaz de elevar na mesma altura um outro peso de quase 20 kgf (vetor-força),
realizando um trabalho útil de aproximadamente 100 kgm. Não levando-se em conta o
trabalho realizado para vencer o atrito na roldana, pode-se afirmar que o trabalho
realizado pelo peso em movimento descendente é de 100 kgm. Portanto, quando o peso
se acha na posição mais elevada, têm-se disponíveis 100 kgm de energia a mais do que
quando ele ocupa a posição mais baixa, calculada de acordo com a seguinte equação:

Ep = P . h (2)

O termo “potencial”, designativo dessa forma de energia, não implica que ela não seja
real; ela existe em potencialidade apenas no sentido de que se encontra armazenada, em
alguma forma latente. Um pedaço de carvão tem energia potencial – se for queimado
liberará energia para realização de trabalho; quando se dá corda a um relógio, ele adquire
energia potencial – sua mola, ao desenrolar-se lentamente, fornece energia para seu
funcionamento; a água represada tem energia potencial – deixando-a escoar, a força da
correnteza pode movimentar uma turbina.

2
Em Física Nuclear utiliza-se uma unidade relativamente bem menor, o elétron-volt – EV. Posteriormente, verificar-se-
á que as unidades comumente usadas para expressar energia – kw-h, cv-h, etc., derivam de unidades de potência e
foram consagradas pelo uso.
21

Figura 1.11. Energia potencial e energia cinética

Com relação à energia cinética, seu exemplo mais simples é a do martelo de


carpinteiro. Quando repousa sobre um prego, não tem energia suficiente para realizar o
trabalho útil de fazê-lo penetrar na madeira, como ilustra a Fig. 1.11 II. Movimentando-o
com certa velocidade, ele adquire a energia necessária para isso (Fig. 1.11 III). Se for
bastante pesado – de maior massa – basta movimenta-lo com pequena velocidade, mas
se for leve – de pouca massa – é necessário imprimir-lhe maior velocidade. A essa
energia adquirida por um corpo em movimento, que depende de sua massa e velocidade,
dá-se o nome de energia cinética ou de movimento. É expressa pela equação:

m.v 2
Ec  (3)
2
onde Ec = energia cinética, em J; m = massa do corpo, em kg; e v = velocidade, em m/s.
Considerando-se o peso P do corpo, a equação (3) fica:
P.v 2 P.v 2
Ec   (4)
2  9,8 1,96
sendo a Ec expressa em kgm, P em kgf e v em m/s.
Todo trabalho é realizado por meio de transformações da energia, de uma forma para
outra. Por exemplo, quando se dá partida num trator, a energia potencial da bateria –
química – se transforma em energia elétrica; esta, no motor de arranque, transforma-se
em energia cinética, movimentando o motor diesel. O óleo diesel, ao ser injetado na
câmara de combustão, transforma sua energia potencial – química – em energia cinética,
pela movimentação dos êmbolos, árvore de manivelas e demais partes componentes do
motor, fazendo-o entrar em funcionamento. Parte dessa energia se aplica na
movimentação do gerador, onde se transforma em energia elétrica que vai ter à bateria e,
assim, esta se carrega novamente com energia potencial-química. No caso dos
combustíveis, todavia, designa-se sua energia potencial como energia interna.
O calor como uma forma de energia. Foi Joule3 quem demonstrou conclusivamente,
através de trabalhos experimentais, que calor e energia são de mesma natureza e que
todas as outras formas de energia podem ser transformadas numa quantidade
equivalente de calor. A quantidade de energia que, se completamente convertida em calor,
é capaz de elevar a temperatura de uma unidade de massa de água, de 0 o C para 1o C, é
denominada equivalente mecânico do calor. Os métodos mais recentes e precisos de
determinação do equivalente mecânico do calor revelam que para se elevar de 1 o C a

3
James Prescott Joule, físico inglês, nascido em 1818, que em 1843 anunciou ter encontrado experimentalmente pela
primeira vez o valor do equivalente mecânico do calor.
22

temperatura de 1 kg de água, é necessário converter completamente em calor uma


quantidade de energia equivalente a 427 kgm.
O calor como uma forma de energia é coisa intangível, de maneira que não pode ser
medida por uma unidade conservada em depósito, num laboratório de padrões. Assim, a
quantidade de calor em jogo num dado fenômeno é medida por alguma variação que o
acompanha – a elevação da temperatura de uma massa de água. Atualmente existem
três unidades comumente usadas: a) a caloria – cal, b) a quilocia – kcal, e c) o BTU,
abreviatura de “British Thermal Unit”. A caloria é definida como a quantidade de calor que
deve ser fornecida a um grama de água para elevar sua temperatura de 1 o C,
convencionalmente de 14,5 a 15,5o C. A quilocaloria equivale a 1.000 cal. O BTU é a
quantidade de calor que precisa ser fornecida a uma libra – 0,454 kg – de água, para
elevar sua temperatura de 1 grau Fahrenheit (1 oF = 5/9oC). A correspondência entre essas
unidades é:

1 kcal = 1.000,00 cal


1 BTU = 252,00 cal
1 cal = 0,3968 BTU

Assim sendo, o equivalente mecânico do calor pode ser expresso como 427 kgm/kcal ou,
em unidades inglesas, 778 foot-pound/BTU.
As máquinas motoras térmicas, isto é, os motores a vapor, os motores a gasolina e
diesel, álcool, etc., caracterizam-se por converterem a energia interna dos combustíveis
em trabalho mecânico. Nesse processo ocorre uma transmissão de energia, por meios
não mecânicos, denominada escoamento de calor, e o desenvolvimento de uma força que
efetua um deslocamento, produzindo trabalho. O estudo desses fenômenos que envolvem
escoamento de calor associados à execução de trabalho mecânico constitui objeto de
análise da Termodinâmica. Assim, para considerações pormenorizadas e em nível mais
avançado sobre o funcionamento dos motores térmicos, torna-se necessário conhecer os
conceitos, leis, princípios e fundamentos da Termodinâmica.
Num motor ideal, a quantidade total de calor fornecida pelo combustível seria
convertida integralmente em trabalho útil, cujo valor numérico se obtém através do
equivalente mecânico do calor, já definido anteriormente. A quantidade total de calor Q t
colocada à disposição de um motor é obtida a partir da quantidade total de combustível
gasto e de seu respectivo calor de combustão. Define-se calor de combustão, também
denominado poder calorífico, de uma substância como a quantidade de calor liberada por
unidade de massa, ou por unidade de volume, quando se queima completamente a
substância.
A caracterização das várias fases do processo de conversão da energia interna do
combustível em trabalho útil resulta no balanço energético do motor, isto é, na
comparação das energias colocadas à sua disposição, transformadas em trabalho útil e
perdidas sob a forma de trabalho ou não. Dessa comparação resulta o que se denomina
rendimento do motor, representado comumente pela letra grega . O rendimento térmico
(t) de um motor é expresso por:

Qu
t  100
Qt
onde Qu representa a quantidade de calor correspondente ao trabalho útil desenvolvido
pelo motor e obtida através do equivalente mecânico do calor; Qt é a quantidade total de
calor fornecida pelo combustível.
23

Potência. Em nenhuma das considerações feitas até aqui se mencionou o fator tempo.
Isso porque o elemento tempo não entra, do ponto de vista da Física, na conceituação de
trabalho; realiza-se o mesmo trabalho mecânico ao elevar-se um corpo a uma dada altura
em um segundo, em uma hora ou em um ano. Igualmente, o trabalho mecânico requerido
para arar, gradear, semear, cultivar, etc. um dado terreno agrícola será o mesmo,
independentemente do tempo que se demore em executá-lo. Todavia, dada a
periodicidade das condições climáticas e das fases de desenvolvimento das plantas
cultivadas, o tempo é um fator importantíssimo nos trabalhos agrícolas. Não apenas a
quantidade total de trabalho mecânico requerido, mas também a rapidez com que for
realizado é da mais alta significância na execução das operações agrícolas.
A quantidade de trabalho realizada por uma máquina motora na unidade de tempo
denomina-se potência do motor. Embora a potência seja comumente designada por força,
como na expressão vulgar: “a força do motor”, na realidade a força é apenas um de seus
componentes. Para se determinar a potência desenvolvida na barra de tração do trator ou
aquela requerida para tracionar uma plantadora, três elementos devem ser conhecidos: a
força de tração, a distância percorrida e o tempo durante o qual a força agiu em seu
percurso. Assim, a potência é definida pela seguinte relação:

Trabalho
Potência 
Tempo

Como trabalho é o produto da força pelo espaço, a relação acima poderá tomar a
seguinte forma:

Força  Espaço
Potência 
Tempo

e, ainda, sabendo-se que a relação entre o espaço e o tempo é denominada velocidade, a


potência poderá também ser expressa:

Potência  Força  Velocidade

Como a potência é uma relação entre trabalho e tempo, as unidades de potência


relacionam-se diretamente com as unidades adotadas para exprimir essas grandezas. As
unidades de potência são:

Sistema de unidades Nome e símbolo Descrição


CGS Erg/segundo (erg/s) potência de uma máquina que
produz o trabalho de um erg por
segundo:
1e
1e / s 
1s
MKS absoluto ou SI watt (W) potência de uma máquina que
produz o trabalho de um joule por
segundo:
1J
1W 
1s
MKS técnico ou gravitacional quilogrâmetro por segundo (kgm/s) potência de uma máquina que
produz trabalho de 1 kgm por
24

segundo:
1kgm
1kgm / s 
1s
Unidade prática (métrica) cavalo-vapor (cv) potência de uma máquina que
produz trabalho de 75 kgm por
segundo:
75kgm
1cv 
1s
Unidade prática (britânica) horse-power (hp) potência de uma máquina que
produz trabalho de 33.000 ft-lb por
minuto ou 550 ft-lb por segundo:
ft  lb
1hp  33.000
1 min
550 ft  lb
1hp 
1s

Na prática as unidades de potência do sistema CGS são pouco conhecidas;


usualmente a potência é expressa em termos de hp – horse power, cv – cavalo-vapor e W
– watt. Geralmente as duas primeiras unidades são empregadas no âmbito da Mecânica
Técnica, enquanto as duas últimas em Eletrotécnica. Porém, é um engano supor que o
watt tenha algo de essencialmente elétrico; na realidade, a potência elétrica é comumente
expressa em W, mas nada impede que se exprima em potência requerida por uma
lâmpada em hp e aquela desenvolvida por um trator em W.
No sistema internacional de unidades, e considerado legal no Brasil através do
Decreto no 63.233 de 12/9/1968, a unidade de potência é o watt:

1 joule
1watt   0,102kgm / s
1s
Um múltipo dessa unidade, frequentemente usado, é o quilowatt:

1kW  1.000W  102kgm / s

Comparando-se essa unidade de potência com o hp e cv, obtemos as seguintes relações:

1 cv = 735,7 W 1 hp = 745,5 W
1 W = 0,00136 cv 1 W = 0,00134 hp
1 kW = 1,36 cv 1 kW = 1,34 hp

Rendimento. Relação entre energia fornecida e energia consumida. Para homens ou


animais de tração é a relação entre a energia consumida nos alimentos e a energia
fornecida nos trabalhos. Para os motores de explosão, é a razão entre a energia calorífica
química disponível no combustível consumido e a energia mecânica fornecida. Nos
motores elétricos é a razão entre a energia elétrica consumida e a energia mecânica
fornecida. A diferença entre esses dois valores caracteriza a eficiência da transformação
de uma forma para outra. A seguir, os rendimentos aproximados de alguns
transformadores de energia.
25

Energia dos Alimentos


Homens   0,12 de energia fornecida no trabalho
Energia nos trabalhos

Energia dos Alimentos


Equinos   0,10 a 0,12 de energia fornecida no trabalho
Energia nos trabalhos

Energia dos Alimentos


Bovinos   0,09 a 0,10 de energia fornecida no trabalho
Energia nos trabalhos

Motores a gasolina = 0,25 de energia mecânica

Motores a diesel = 0,35 de energia mecânica

Motores elétricos = 0,60 de energia mecânica

Energia Humana. O homem produz um trabalho de 7 a 10 kgm/s, variando desde 5 kg


a 1,1 m/s, com uma alavanca de mão, até 64 kg (peso de um homem leve) a 0,15 m/s.
Trabalhando de modo contínuo desenvolve quase 0,1 cv.
A potência média desenvolvida por um homem é mais ou menos a décima parte do
seu próprio peso. A associação de vários homens num mesmo trabalho diminui a
eficiência de cada um. Exemplo de diminuição da eficiência: 20 homens têm potência de 1
HP e não 2 HP.
26

Capítulo 2

2.1 Mecanização Agrícola

Uso de máquinas, implementos e ferramentas com a finalidade de executar as


operações agropecuárias. Inclui todos os trabalhos de agricultura e pecuária, como o
manejo de solo e culturas, a colheita, o processamento da colheita e as operações de
pecuária (tais como a ordenha mecânica e o preparo de forragens).

- Máquinas: Conjunto de peças organicamente articuladas para transmitir e/ou


transformar energia (usa TDP).

- Implementos: Conjunto de peças que transmite o efeito das forças (não usa TDP).

- Ferramentas: Implemento em sua forma mais simples, constituindo a parte ativa


do implemento ou máquina.

2.2 Formas de Mecanização

O fornecimento de enxadas, enxadões e foices ao homem da Amazônia, que só


conhece o facão como ferramenta, não deixaria de ser um tipo de mecanização, já que
aumentaria sua capacidade de trabalho. O desenvolvimento de tecnologias adaptadas,
por meio da construção de pequenas máquinas, visa atender às necessidades do
pequeno e do micro produtor, sendo perfeitamente válido para nossas condições.
O emprego de animais para realizar serviços agrícolas é menos eficiente se
comparado com o resultado obtido com máquinas agrícolas acopladas a tratores, quando
as condições do terreno e o tamanho da propriedade forem favoráveis a seu uso.
Os tratores apresentam rendimento bem superior ao dos animais, podendo ser
empregados em serviços de maior duração sem necessidade de intervalos periódicos
para descanso. Para a exploração de grandes áreas é recomendável o uso de tratores,
porque eles, podendo realizar trabalho equivalente ao de muitos animais, poupam a terra,
que pode ser utilizada para alimentação e pasto, e também mão-de-obra, necessária para
o manejo de animais.
A mecanização da propriedade agrícola pode processar-se em diversos níveis:

Nível de mecanização inicial ou nível zero: M0


Denominado grau da forma original de trabalho, consiste em operações que o
homem executa sem auxílio de qualquer máquina, ferramenta ou implemento. Exemplo:
arranquio manual da mandioca, transporte de fardos de feno etc. Nesses casos, o
esforço do homem em relação ao rendimento do trabalho é grande e a produtividade,
pequena.

Primeiro nível de mecanização: M1


Denominado primário, caracteriza os trabalhos que o homem executa com a ajuda
de ferramentas ou máquinas de acionamento manual: abrir buracos com enxadão, cortar
arroz com foice, transportar fardos com carrinho manual etc. O esforço do homem é
grande e a produção, baixa.
27

Segundo nível de mecanização: M2


Denominado animal, são os trabalhos executados com a ajuda de implementos,
máquinas ou ferramentas, cuja força motriz provém de um animal. Exemplo: transporte
com carroça, arado de tração animal etc. Nesse caso, mesmo que o esforço do animal
seja grande, a produtividade continuará baixa.

Terceiro nível de mecanização: M3


Denominado mecanização preliminar, caracteriza os trabalhos executados com a
ajuda de equipamentos ou máquinas, cuja força motriz é feita por motores, mas que são
tracionados pela força animal. Exemplo: pulverizador a motor deslocado no lombo de um
animal. Nesse caso, o homem só direciona o animal, sendo o esforço inferior ao dos
casos anteriores. O rendimento do trabalho também é maior do que os anteriores, graças
ao emprego parcial de motor de combustão interna.

Quarto nível de mecanização: M4


Denominado motorização, inclui os trabalhos em que se utiliza o trator, ao qual
podem ser acoplados diversos implementos, sendo que o homem apenas conduz o
conjunto. A produtividade é superior a todos os casos anteriores.

Quinto nível de mecanização: M5


Denominado automatização, compreende os trabalhos realizados por máquinas, cujo
acionamento é feito por motor combinado com dispositivos automáticos. Não exigem
constantemente intervenção do homem.
Como exemplo, temos os secadores automáticos de grãos, ordenhadeiras
automáticas para tirar leite de vacas e conjuntos que fazem abastecimento automático de
água. O homem apenas supervisiona o trabalho, pondo as instalações em
funcionamento, fazendo as regulagens necessárias etc.
28

Capítulo 3

Animais domésticos como fontes de potência

Nos dias atuais, quando já ultrapassamos a Era Industrial e adentramos a chamada


Era Tecnológica, os animais domésticos podem parecer, a muitos, simples reminiscências
de um passado pioneiro. Algumas das principais razões para que esse conceito se
generaliza são a acelerada evolução por que tem passado a agricultura de várias regiões
de nosso país, a crescente expansão da indústria nacional de motores, tratores e
máquinas, o constante declínio na oferta de mão-de-obra na zona rural e a tendência de
adotar a tratorização como índice de desenvolvimento.
No Brasil, dadas suas dimensões continentais, existem regiões com os mais variados
níveis tecnológicos e situações sócio-econômicas típicas, para as quais a tração animal e
a tratorização representam, respectivamente, fases primária e avançada de um processo
de mecanização agrícola em evolução. Em nosso país, os animais domésticos, como
fonte exclusiva de potência, são mais utilizados em regiões onde os agricultores
apresentam pequeno poder aquisitivo, devido às reduzidas dimensões de suas
propriedades ou à baixa renda de suas culturas. Os animais são também recomendados
para zonas de topografia acidentada ou aquelas em que, por falta de estradas, apenas a
tração animal pode ser utilizada como meio de transporte.
É notório o fato histórico de que os países onde a etapa de tratorização se efetivou
com absoluto sucesso são exatamente aqueles onde, anteriormente, o emprego da força
animal havia se consolidado em bases técnicas racionais.

3.1 Formas de utilização

São duas as formas básicas de utilização dos animais domésticos como fontes de
potência:

 para desenvolver esforço tratório: tracionando máquinas e implementos


 para transporte de cargas no dorso.

Os animais domésticos não se adaptam bem ao fornecimento de potência para fins


estacionários. Antes da introdução dos motores de combustão, os equinos e muares e,
em menor grau, bovinos e outros animais, foram bastante usados para acionar certas
máquinas estacionárias através de atafonas e esteiras rolantes, acionar moinhos,
máquinas de bombeamento, etc. Atualmente, usam-se animais para acionar moendas
de cana e máquinas de olarias.
A atafona, constitui-se de um varal, tendo uma das extremidades fixa um mecanismo
de coroa-pinhão e, na outra, são atrelados os animais. O varal descreve um movimento
circular, convertendo a força de tração dos animais, aplicada na sua extremidade em
torque numa árvore motriz.
Tração de máquinas e implementos. A mais usual, entre todas as formas de
utilização dos animais na agricultura. A aptidão dos animais domésticos para tração
depende da espécie, da raça, do peso vivo e conformação geral de seus corpos, bem
como da velocidade e tempo de trabalho contínuo. De forma geral, os bovinos
desenvolvem maior esforço tratório a baixas velocidades, enquanto os equinos e muares
trabalham a velocidades médias maiores, porém desenvolvendo menor força de tração.
29

Para uma mesma espécie, raça, peso vivo, etc. a capacidade em desenvolver
esforço tratório é afetada pela alimentação e pela forma de atrelamento.
Transporte de cargas no dorso. A capacidade de transporte de cargas no dorso varia
com o peso vivo, segundo a espécie, da seguinte forma:

Espécie Capacidade de carga em % Distância percorrida em


do peso vivo km/dia
Eqüinos 45 – 50 25 – 30
Muares 55 – 60 30 – 35
Asininos 60 – 65 35 – 40

Para distâncias relativamente curtas, todavia, a capacidade de transporte no dorso


pode exceder, em muito, aqueles valores. Em estudos de transporte de cana-de-açúcar,
realizados em região declivosa do Nordeste Brasileiro foram levantados os dados
constantes da Tabela a seguir.

Capacidade de transporte de cana-de-açúcar no dorso de muares, em cangalhas 1, nas


regiões declivosas do Estado de Pernambuco (Relatório Técnico CONOR –
PLANALSUCAR/IAA, 1978).
Faixa de variação dos dados observados (7 determinações)
Local dos Declividade Carga Distância Tempo Fluxo de
Ensaios do terreno (kg) (m) (s) transporte (t.km/h)
Usina
Aliança 30% 317 - 390 122-335 604-778 0,23 - 0,56
Usina
Cucaú 36% 26 - 322 67-486 479-1263 0,12 - 0,43
Usina
Trapiche 44% 251 - 348 56 – 180 358 – 853 0,11 – 0,26
Usina
Pedrosa 46% 220 – 329 249 – 632 841 – 1565 0,25 – 0,55

O fluxo de transporte Ft é obtido através da seguinte relação:

cd
Ft 
t
onde:

c = carga transportada em cada ciclo, em toneladas;


d = distância total percorrida no ciclo (ida e volta), em quilômetros;
t = tempo total do ciclo (carregamento, ida, descarregamento, volta), em horas.

Por exemplo, um fluxo de transporte de 0,25 t.km/h indica que o sistema (animal +
cangalha + homem), operando sob determinadas condições, é capaz de transportar 250
kg, na distância de 1 km, no tempo de 1 hora.

1
Armação de madeira ou de ferro em que se sustenta e equilibra a carga dos animais, metade para um lado
delas, metade para o outro; cangalha.
30

3.2 Capacidade de trabalho em tração

A capacidade para desenvolver esforço tratório relaciona-se com o peso vivo, com a
velocidade de caminhamento e com a espécie dos animais. Na velocidade de 0,8 a 1,0
m/s (2,9 – 3,6 km/h), eqüinos e muares desenvolvem a máxima capacidade de trabalho
(kgm/dia) na jornada. Nessa velocidade, o esforço tratório desenvolvido varia de 1/8 a
1/10 do peso vivo. Todavia, essas características de desempenho poderão atingir níveis
de até 50% mais elevados, sob condições especiais. Assim, em ensaios realizados pela
Divisão de Mecanização Agrícola, da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo,
com parelhas de animais em pista de terra compactada de 100 metros de comprimento,
obtiveram os seguintes resultados:

Raça Peso vivo Força de Relação peso Velocidade Potência


da parelha tração vivo/força média (km/h) média (cv)
(kg) média (kgf) de tração
Eqüinos
 mestiç
o
bretão 1080 208 1:0,19 5,4 4,2
pesado
 mestiç
o
bretão 860 166 1:0,19 5,4 3,3
leve
Muares
 mestiç
o 830 195 1:0,23 4,1 3,0
bretão
 nacio 700 188 1:0,27 5,0 3,5
nal
Boi
Caracu 1130 215 1:0,19 5,1 4,0
Fonte: Boletim da Divisão de Mecanização Agrícola, DEMA, Secr. Agr. Est. São Paulo.
1957-58.

Conforme se verifica, o máximo esforço tratório observado nesses ensaios variou,


aproximadamente, entre1/4 e 1/5 do peso vivo da parelha.
A escolha dos animais muitas vezes é limitada pela disponibilidade dos mesmos na
região. A aptidão dos animais domésticos para tração depende da espécie, da raça e do
próprio animal. Descrevemos, a seguir, as vantagens e desvantagens de cada um destes
critérios de escolha:

3.3 Escolha de animais em função da espécie

Equinos (cavalos)

 Vantagens
o Animal manso, fiel ao seu dono;
o Adestramento fácil para diversos tipos de trabalhos;
o Animal “inteligente”, apto para trabalhos de precisão;
o Trabalha a velocidades maiores de 1 m/s a 1,5 m/se (3,6 km/h a 5,4 km/h).
31

 Desvantagens
o muitas vezes fora das raças próprias para tração, o cavalo é leve demais
para fornecer um trabalho pesado;
o requer alimentação e cuidados mais especiais;
o cansa mais rápido;
o o preço de compra é alto e não se vende para carne depois da vida útil para
o trabalho.

Muares (mulas)

 Vantagens
o animal rústico, frugal, resistente;
o preço de compra relativamente baixo;
o velocidade de trabalho quase equivalente à do cavalo.

 Desvantagens
o mais difícil de adestrar;
o menor peso;
o preço de venda é baixo depois da vida útil para o trabalho

Asininos (jumento)

 Vantagens
o animal manso, fiel, rústico e frugal;
o preço de compra baixo, alimentação e cuidados simples;
o adestramento fácil, inteligente;
o resistente ao trabalho;
o adequado para transporte de cargas de até 2/3 de seu peso.

 Desvantagens
o muito leve, esforço limitado de tração disponível;
o cansa depressa se a velocidade de trabalho for rápida demais;
o sem valor de venda no fim do período útil para o trabalho.

Bovinos

 Vantagens
o trabalho lento – 0,6 a 0,8 m/s (2,16 km/h a 2,9 km/h) mas contínuo;
o animal rústico e resistente, alimentação simples;
o arreiamento muito simples
o preço de compra relativamente baixo em comparação com o do cavalo
o seu peso permite esforços maiores
o bom valor de venda depois da vida útil, principalmente em época de
engorda;

 Desvantagens
32

o animal mais difícil de adestrar- no início precisa de mais uma pessoa para
ser conduzido;
o lento demais para alguns trabalhos;
o pouco adaptado a trabalhos de precisão

3.4 Escolha em função da raça

No quadro a seguir apresentam-se alguns dados referentes as raças bovinas mais


comuns no país.

Índice de Baron ou índice anamorfósico. Para se avaliar a aptidão de trabalho de


equinos e muares, poderá ser utilizado o denominado índice anamorfósico. Conforme
ilustra a Fig. 3.1, sendo A altura da cernelha e C o perímetro torácico. O índice
anamorfósico I é fornecido pela seguinte relação

C2
I
A

Figura 3.1. Dimensões do animal para determinação do índice anamorfósico. (Fonte:


Conti, M., tratado de Mecânica Agrícola, Buenos Aires, 1942.)

Quando I for maior que 2,116, o animal revela aptidão para tração; se for menor que
2,116, o animal revela aptidão para desenvolver velocidade.

O trabalho mecânico (  ) desenvolvido pelo animal por dia de serviço pode ser
estimado por:

  PRODUTO DO PESO VIVO  PESO(kg )

Ao se medir o comprimento do passo de um animal, verifica-se que ele é cerca de 3/4


da altura da cernelha, quando desenvolve um esforço tratório médio da ordem de 30
vezes o índice anamorfósico. Assim, o trabalho mecânico (  ) desenvolvido pelo animal,
em cada passo, poderá ser estimado por:

3
  30  I  A  22,5  I  A (kilogrâmetro - kgm)
4
33

Exemplo ilustrativo
Um cavalo da raça Percheron apresentou as seguintes características ponderais e
dimensionais: peso = 720 kg; altura = 1,7 m; perímetro torácico = 2,1 m. Calcular a
distância percorrida por dia de serviço, desenvolvendo uma quantidade de trabalho diário
equivalente a 3600 vezes o peso vivo.

Solução:

a) Cálculo do índice anamorfósico

2,12
I  2,5941
1,7
b) Cálculo do trabalho mecânico por dia de serviço:

  PRODUTO DO PESO VIVO  PESO(kg )


  3600  720  2.592.000 kgm / dia

c) Cálculo do trabalho desenvolvido em um passo:

  22,5  I  A
  22,5  2,59411,7  99,22 kgm / passo

Se dividirmos o trabalho diário realizado pelo animal pelo trabalho desenvolvido num
passo, teremos o número de passos dados num dia.

2.592.000 kgm/dia
 26.124 passos/dia
99,22 kgm/passo

Se multiplicarmos este valor pela metragem de cada passo, teremos a distância (D)
percorrida num dia.

d) Cálculo da distância percorrida:

3
D  26.124   1,7  33.307,8 metros
4

Admitindo como valor médio que cada passo do cavalo se efetue num segundo, sua
velocidade (V) de deslocamento será:

3
V   1,7  3.600  4.590 m/hora
4
34

O tempo (t) para percorrer a distância (D) será:

33.307,8 m
t  7,3 horas ou 7 horas e 18 minutos
4.590 m/hora

Distribuição do peso do animal. Outro ponto importante é a forma como se distribui o


peso do animal entre as patas traseiras e dianteiras. Demonstrou-se que animais ideais
para tração são aqueles em que 42 – 43% do peso estão apoiados sobre as patas
traseiras e os restantes 57 – 58% sobre o trem anterior.
Conforme ilustram as silhuetas da Figura 3.2, essa distribuição pode ser alterada
durante o caminhamento do animal e, principalmente, devido à inclinação da linha de
tração. O peso P do animal, aplicado em seu centro de gravidade G, se divide entre as
patas posteriores e anteriores, de acordo com sua conformação geral característica da
raça. A componente “p” da força de tração T é somada ao peso do animal, alterando a
posição do centro de gravidade e, consequentemente, a distribuição de cargas. O uso de
uma lombeira, conforme indicado na silhueta II da Figura 3.2, pode constituir um recurso
para que a componente vertical da tração se distribua de maneira mais uniforme.

Figura 3.2. Ação da inclinação da linha de tração sobre a distribuição de peso entre as
patas traseiras e dianteiras do animal (Fonte: Conti, M., Tratado de Mecânica Agrícola,
Buenos Aires, 1942.)

3.5 Jornada dos animais e número de cabeças da tropa de serviço

A jornada dos animais, ou seja, o tempo de duração do trabalho diário, é um fator


muito importante quando se compara o desempenho operacional de implementos de
tração animal com aqueles tratorizados. A jornada e os dias anuais de trabalho constituem
também importante informação, quando se pretende apropriar custos do trabalho animal.
A jornada dos animais varia de 6 a 8 horas, para serviços que exigem esforço
compatível com o peso vivo e com a alimentação fornecida. Sob condições de trabalho
severo, essa jornada reduz-se para cerca de 3 a 4 horas. Sob regime normal de trabalho,
os bovinos apresentam uma vida útil média de 10 anos e os muares de 12 a 15 anos.
Com relação aos dias anuais de trabalho, a Tabela a seguir mostra os resultados de
observações feitas com um lote de 32 muares e 14 bovinos, utilizados sob regime normal
de trabalho agrícola. Por essa Tabela, observa-se que a eficiência de tempo varia de
35

acordo com os meses do ano (em função da época de realização das operações
agrícolas) e com a espécie (muar ou bovino). A máxima eficiência de tempo, ao longo dos
12 meses do ano, para muares, foi de 80,8% e, para bovinos, de 89,2%. Isso indica que,
por vários motivos (doenças, acidentes, etc.), os animais podem deixar de estar
disponíveis para o trabalho; daí a necessidade de dimensionar a tropa de animais de
serviço com um excesso de no mínimo 10 a 20% sobre o número total de cabeças
requeridas.

Tempo efetivo de trabalho dos animais durante os meses do ano. (Boletim nº 9, IAC, Campinas, SP,
1937)
Dias de trabalho de 1 animal no mês* Eficiência de tempo (%)
Meses do Dias Muar Bovino Muar Bovino
Ano úteis
Jan 25 13,7 16,5 54,8 66,0
Fev 24 11,3 20,5 47,1 85,4
Mar 27 12,8 22,2 47,4 82,2
Abr 24 12,3 19,9 51,3 82,9
Mai 26 9,5 15,7 36,5 60,4
Jun 26 8,0 19,8 30,8 76,2
Jul 25 9,0 22,3 36,0 89,2
Ago 26 10,1 17,5 38,8 67,3
Set 25 14,5 21,3 58,0 85,2
Out 26 21,0 19,8 80,8 76,2
Nov 24 17,2 11,0 71,7 45,8
Dez 26 16,4 17,4 63,1 66,9
ANO 304 155,8 223,9 51,3 73,7
* Média da tropa de animais de serviço

3.6 Rendimento termomecânico -  tm


Os animais proporcionam trabalho de acordo com os alimentos que recebem em sua
ração diária, dentro de certos limites, tal como ocorre com os motores térmicos que
convertem a energia dos combustíveis em trabalho útil.
Os alimentos representam o que poderia denominar-se de energia potencial, expressa
em termos de kcal/kg de alimento. Como 1 kcal corresponde ao trabalho mecânico de
427 kgm, é possível estabelecer-se uma relação entre o trabalho teórico ou motor -  m ,
representado pela conversão total das colorias contidas nos alimentos consumidos, e o
trabalho útil -  u , proporcionado pelo animal, na tração ou no acionamento de máquinas e
implementos. A essa relação dá-se o nome de rendimento termomecânico do animal:

u
 tm 
m

Exemplo ilustrativo

Seja uma ração constituída por 12 kg de alfafa e 4 kg de milho, totalizando 16 kg de


alimentos, consumidos diariamente por um cavalo de tiro de 500 kg de peso vivo. A
capacidade diária de trabalho desse animal, em termos de kgm é numericamente igual a
3400 vezes o seu peso vivo.
36

A análise dos componentes da ração forneceu os seguintes resultados:

Componentes Teor (g/kg) nos componentes da ração


Alfafa Milho
• hidrato de carbono 320 460
• proteínas 160 80
• matérias graxas 27 32

Calcular o rendimento termomecânico do animal.

Solução:

1) Cálculo da quantidade de hidrato de carbono, de proteínas e de matéria graxa:

a) hidrato de carbono
- alfafa (12 x 320 g)... ... ... ... 3840 g
- milho (4 x 460 g)... ... ... ... 1840 g
Total de hidrato de carbono 5680 g
b) proteínas
- alfafa (12 x 160 g)... ... ... ... 1920 g
- milho (4 x 80 g)... ... ... ... 320 g
Total de proteínas 2240 g
c) matéria graxa
- alfafa (12 x 27 g)... ... ... ... 324 g
- milho (4 x 32 g)... ... ... ... 128 g
Total de matéria graxa 452 g

2) Cálculo do valor da ração em kcal:

Componentes Kcal/kg* Quantidade (kg) Total de Kcal


hidrato de carbono 3800 5,680 21584
Proteína 4500 2,240 10080
matéria graxa 900 0,452 407
Total geral 32071
* Fornecido por tabelas de valor calórico de alimentos.

3) Cálculo do rendimento -  tm

a)  m  427  32071 kcal  13.694.317 kgm


b)  u  500 kg  3400  1.700.000 kgm
1.700.000
c)  tm   0,1241 12,41% 
13.694.317

3.7 Formas de atrelamento e arreios


37

O atrelamento dos animais pode ser classificado de duas maneiras:

a) de acordo com o tipo de equipamento a ser tracionado:


 atrelamento em veículos de transporte:
 com 2 varais;
 com 1 varal.
 atrelamento em máquinas e implementos:
 com cabeçalho;
 sem cabeçalho.

b) de acordo com a posição relativa dos animais:


 atrelamento singelo (um a um):
 em parelha ou junta;
 em tandem (um atrás do outro).
 atrelamento por parelhas (dois a dois) em tandem;
 atrelamento em linha (um ao lado do outro).

De acordo com esses tipos de atrelamento, os arreios apresentam maior ou menor


complexidade a fim de atender a cada condição.

Atrelamento em veículos de transporte. Os veículos de transporte à tração animal


são direcionados por meio de varais. Quando é provido de 2 varais, atrela-se o animal no
meio destes, conforme mostra a Figura 3.4.

Figura 3.4. Atrelamento em veículo de transporte de 2 varais e respectivo arreamento. (A)


Tapa, (B) bridão, (C) coalheira, (D) selote, (E) barrigueira, (F) tirante, (G) porta-varal, (H)
rédeas, (I) retranca, (J) rabicheira.

Quando o veículo de transporte é provido de um só varal, há necessidade de atrelar


uma parelha de animais. O varal é colocado entre os animais e sujeitado não por um
selote, mas pelas coalheiras, como ilustra a Figura 3.5.
38

Figura 3.5. Atrelamento de 1 parelha de animais em veículo de transporte de 1 só varal.

Atrelamento em máquinas e implementos. O direcionamento das máquinas e


implementos, em relação aos veículos de transporte, é função secundária. Quando
necessário, como é o caso de alguns tipos de semeadoras, adubadoras, etc. essas
máquinas apresentam um cabeçalho semelhante ao varal único dos veículos de
transporte. Por essa razão, o arreamento é bastante simplificado.
Para eqüinos e muares o arreamento padrão de atrelamento a implementos sem
cabeçalho é mostrado na Figura 3.6. Consta, basicamente, das seguintes partes: (I) tapa,
(II) coalheira, (III) lombeira e (IV) corrente de tiro. O tapa é o conjunto de peças que ocupa
a cabeça do animal. Tem por função permitir sua condução, sendo constituído das
seguintes partes: A) antolhos; B) faceiras; C) testeira; D) afogador; E) focinheira; F) freio
ou bridão; G) cabeção e H) rédeas ou guia.

Figura 3.6. Arreamento para atrelamento de eqüinos e muares a máquinas e implementos


agrícolas sem cabeçalho.
39

A coalheira é a peça que cinge a base do pescoço do animal. É constituída das


seguintes partes: A) almofada; B) canzis; (1 par), metálicos ou de madeira; C) francalete,
unindo os canzis na parte inferior. Os canzis apresentam, lateralmente, ganchos (E) que
constituem os dois pontos onde se exerce a força de tração do animal. Nestes ganchos
prendem-se as extremidades das correntes de tiro (IV).
A lombeira é uma faixa de tecido resistente, cuja função é sustentar as correntes de
tiro que partem da coalheira e vão ter ao balancim, evitando que se embaracem nas
pernas traseiras do animal. Outra função da lombeira é a de melhorar a distribuição da
componente vertical da força de tração, conforme foi mostrado na Figura 3.2.
Os balancins, mostrados na Figura 3.7, são órgãos que fazem o acoplamento das
correntes de tiro à alça de atrelamento da máquina ou implemento. A função do balancim
individual para cada animal é igualar os esforços nas correntes de tiro, permitindo que o
animal possa desenvolver sua força de tração plenamente, sem perder o equilíbrio. É
constituído de um travessão, tendo em cada extremidade um gancho e, na parte média
outro gancho, denominado “gancho do balancim”.

Figura 3.7. Jogo de balancins. (I) Para 2 animais. (II) Para 3 animais. (III) Para 4 animais.

Quando se faz o atrelamento de um número maior de animais (2, 3, 4, 5 etc.), é


necessário que haja um balancim maior e mais resistente, entre os balancins individuais,
denominado balancim principal, como ilustrado na Figura 3.7.

Atrelamento de bovinos. O arreamento utilizado para bovinos recebe a denominação


de canga ou jugo, e pode ser de dois tipos: a) de tiro pela cernelha e b) de tiro pela
cabeça, conforme ilustra a Figura 3.8.
40

Figura 3.8. Canga ou jugo para juntas de bovinos. (I) De tiro pela cernelha. (II) De tiro pela
cabeça.

A canga utilizada em nosso país é do tipo de tiro pela cernelha, conforme ilustra a
Figura 3.9, e pode ser dupla ou simples.

Figura 3.9. Canga de tiro pela cernelha. (I) Canga dupla (A – cangalho, B – canzis, C –
brocha). (II) Canga simples. (III) Canga simples sem canzins.

No caso específico da canga dupla, o órgão de tiro simplifica-se em uma única peça,
de madeira, denominada cambão, que une a alça de atrelamento da máquina ou
implemento ao centro do cangalho.
Na Europa e Ásia são comuns os jugos de tiro pela cabeça, apesar de ser um
sistema primitivo e deficiente. Como se observa na Figura 3.10, o jugo de tiro pela cabeça
pode atuar na testa ou na nuca do animal.
41

Figura 3.10. Jugo de tiro pela cabeça. (I) Jugo duplo frontal. (II) Jugo simples de nunca.

Tipos de atrelamento de acordo com a posição relativa dos animais. A posição


relativa entre os animais determina diversos tipos de atrelamento. O mais simples é o
atrelamento singelo de 2 animais. Quando estão um do lado do outro, denomina-se
parelha ou junta (caso de bovinos); quando atrelados um na frente do outro, recebe a
denominação de atrelamento singelo em tandem.
Diz-se que o atrelamento é por parelhas em tandem quando os animais são
dispostos aos pares, uns na frente dos outros, conforme mostra a Figura 3.11.

Figura 3.11. Atrelamento por parelhas em tandem de 6 cavalos em arado de 3 aivecas. A


– balancim do arado. B – balancim principal da parelha. C – corrente de tiro da parelha.
Os números referem-se ao comprimento dos braços dos balancins em polegadas. (Fonte:
Agr. Eng. 3(2): 23-27, 1922.).
*
No atrelamento em linha, os animais são dispostos uns ao lado dos outros, conforme
mostra a Figura 3.12.
42

Figura 3.12. Atrelamento em linha de 7 cavalos em arado de 3 aivecas. Os números


indicam o comprimento dos braços dos balancins em polegadas. (Fonte: Agr. Eng. 3(2):
23-27, 1922.)

3.8 Fatores que influem na capacidade de trabalho

Entre os fatores que influem na capacidade de trabalho dos animais domésticos


incluem-se:

- condições ambientais;
- alimentação;
- compleição física;
- velocidade de trabalho;
- forma de atrelamento.

Condições ambientais. As condições ambientais tais como altitude, pressão


atmosférica, temperatura, podem influir na capacidade de trabalho dos animais.
Alimentação. De acordo com o exemplo ilustrativo de cálculo do rendimento
termomecânico, pode-se observar que a alimentação influi diretamente na capacidade de
trabalho. O regime alimentar que inclui apenas pasto não poderá resultar em
aproveitamento integral da capacidade de trabalho; há necessidade de essa alimentação
ser complementada com rações balanceadas.
43

Compleição física. As características ponderais e dimensionais dependem do fator


raças, influem significativamente na capacidade de trabalho, como já foi discutido
anteriormente.
Velocidade de trabalho. A velocidade de trabalho influi preponderantemente na
capacidade de trabalho dos animais, conforme se observa pelos dados da Tabela a
seguir.

Variação do rendimento termomecânico de eqüinos em função da velocidade média de


trabalho. (Fonte: Conti, M., Tratado de Mecânica Agrícola, Buenos Aires, 1942.).
Velocidade de trabalho
(km/h) (m/s)  tm
2,0 0,56 0,69
3,2 0,89 1,00
4,0 1,11 0,99
6,0 1,67 0,94
8,0 2,22 0,83
10,0 2,78 0,68
12,0 3,33 0,51
14,0 3,89 0,33
16,0 4,44 0,18

Forma de atrelamento. A forma de atrelamento também afeta sensivelmente a


capacidade de trabalho dos animais, como mostrado na Tabela a seguir.

Perdas que se verificam na capacidade de trabalho de eqüinos, em função da forma de


atrelamento. (Fonte: Conti, M., Tratado de Mecânica Agrícola, Buenos Aires, 1942.).
Forma de atrelamento Eficiência relativa*
1 só animal atrelado 100%
2 animais em linha 98%
3 animais em linha 85%
4 animais em linha 78%
4 animais atrelados por parelhas em tandem 82%
6 animais em linha 60%
6 animais atrelados 3 a 3 em tandem 72%
* Eficiência por animal em relação ao trabalho mecânico desenvolvido por um só animal
atrelado.

Além da posição e do número de animais, outro fator que pode concorrer para a
melhoria da eficiência de utilização da capacidade de trabalho é o emprego de
dispositivos especiais de atrelamento, como é o caso dos amortecedores de tração e dos
balancins equalizadores, como mostra a Figura 3.13.
44

Figura 3.13. Amortecedores de tração. (Fonte: Conti, M., Tratado de Mecânica Agrícola,
Buenos Aires, 1942.).

Os amortecedores de tração, mostrados na Figura 3.13, são utilizados na extremidade


das correntes de tiro e tem por função, como indica o próprio nome, amortecer as
sobrecargas repentinas e permitir que o animal desenvolva de forma progressiva e
contínua seu esforço tratório. Os balancins equalizadores, ilustrados na Figura 3.14, são
aplicados junto aos ganchos de tração das coalheiras. O uso destes balancins se faz
quando o atrelamento é em tandem, a fim de propiciar uma equalização entre os esforços
individuais desenvolvidos pelos animais.

Figura 3.14. Balancins equalizadores. (I) Posição do balancim na coalheira. (II)


Dimensões das peças metálicas do balancim. (III) Forças atuantes no balancim em
operação. (Fonte: Conti, M., Tratado de Mecânica Agrícola, Buenos Aires, 1942.).
45

3.8 Implementos para tração animal

Arado de Aiveca Fixo Cultivador de Enxadas

Grade de Discos Semeadora-Adubadora

Cultivador de Dentes
46

Capítulo 4

Conversores de energia eólica

A energia dos ventos é utilizada pelo homem há séculos. Inicialmente através de


simples velas de embarcações e, depois, por meio de mecanismos mais complexos
denominados aeromotores, cuja utilização é até hoje muito comum, principalmente em
países da região da Escandinávia. O aproveitamento da energia eólica não afeta o meio
ambiente, não produz poluição, nem resíduos químicos, térmicos ou radioativos, como
corre com outros tipos de conversores de energia. Sua viabilidade, como fonte de
potência nas propriedades agrícolas, depende do grau de adequação do aeromotor ao
regime de ventos do local onde será instalado. A variabilidade do regime de ventos e o
armazenamento de energia para suprir as necessidades durante os períodos de calmaria
são os principais fatores limitantes da utilização da energia eólica.
No Brasil o potencial energético eólico é estimado em aproximadamente 3 bilhões de
kW h/ano, valor que supera em várias vezes o potencial hidroelétrico do país. Os
melhores locais para o aproveitamento desse potencial seriam o litoral do Nordeste, a
partir do Estado do Espírito Santo para o Norte, e o litoral Sul a partir do Estado do
Paraná para o Sul. A avaliação do potencial energético eólico de uma localidade é feita
através dos registros de velocidade horária dos ventos obtida através do registro de
dados dos anemógrafos. Esses dados são de grande importância pelo fato dos
conversores eólicos necessitarem de uma velocidade mínima para seu acionamento,
chamada velocidade de abertura e estarem limitados, em função das características de
resistência mecânica de sua estrutura, a uma velocidade máxima chamada velocidade de
fechamento. Nessa velocidade as superfícies de captação do rotor são reduzidas ao
mínimo, geralmente por alteração da posição ativa perpendicular a direção do vento para
uma posição paralela ao vento de alta velocidade.
A conversão da energia eólica nas propriedades agrícolas pode se verificar em dois
tipos básicos de instalação. Uma que converte energia eólica em energia mecânica,
destinada ao acionamento de bombas de recalque de água e outra que converte energia
eólica em energia elétrica, por meio de máquinas denominadas aerogeradores. Nesta
última, a instalação inclui um circuito elétrico controlador de carga e conjunto de baterias,
geralmente para suprimento na forma de corrente contínua.
A principal máquina utilizada nesse trabalho é o motor eólico.

4.1 Motor eólico

O motor eólico é uma máquina que converte energia eólica em mecânica. É destinada
a propriedades agrícolas, por seu baixo custo de aquisição e manutenção, facilidade de
manejo e por se constituir numa interessante fonte alternativa de potência para os
produtores rurais. A energia convertida é normalmente utilizada no Brasil para o recalque
de água ou em pequenas instalações para produção de energia elétrica.
47

A Figura a seguir mostra em detalhes a constituição de um motor eólico com rotor de


árvore horizontal.
48

4.2 Conversores de energia hidráulica

O aproveitamento das quedas de água para obter força motriz, através dos
conversores ou receptores hidráulicos é um método conhecido e utilizado há vários
séculos. Os conversores hidráulicos instalados em propriedades agrícolas são utilizados,
principalmente, para acionamento de máquinas estacionárias, recalque de água e
produção de energia elétrica.
Apesar de ser uma fonte de energia que não causa poluição, necessitar de pouca
manutenção e apresentar uma eficiência na conversão de energia em torno de 60 a 90%,
a utilização de turbinas hidráulicas nas propriedades agrícolas é limitada, pelo alto
investimento inicial representado na sua instalação. Assim, além da necessidade de se
realizar um estudo prévio do local para a determinação do seu potencial hidráulico, é
importante o estudo de viabilidade econômica da instalação. Por essa razão, os
conversores hidráulicos mais comuns no meio rural são:

 Roda hidráulica;
 Aríete hidráulico.

4.2.1 Roda hidráulica

A roda hidráulica é uma máquina que transforma a energia potencial de uma queda de
água em potência mecânica. Pode ser utilizada como uma opção à utilização de motores
de combustão interna ou elétricos, considerando-se o mesmo nível de potência solicitada
pela instalação estacionária, que pode ser um moinho, serraria, bomba de recalque de
água, gerador de energia elétrica e outros.
A Figura a seguir mostra em detalhes a constituição de uma roda hidráulica de pás e
uma de alcatruzes.
49

4.2.2 Ariete hidráulico

O aríete hidráulico é uma máquina utilizada para recalque de água, aproveitando a


energia liberada através do fenômeno conhecido como golpe de aríete, resultante da
brusca interrupção do escoamento da água que flui de determinada altura, para a
elevação de uma parte dessa mesma água. Essa elevação deve ser maior que três e
menor que doze vezes a altura da queda.
Existe aríete hidráulico de simples e de dupla ação. No caso do de dupla ação, o
acionamento é realizado por uma fonte de água não potável, que eleva a água de uma
outra fonte potável sem que ocorra a mistura e desperdício da segunda.
A Figura a seguir mostra em detalhes a constituição de um aríete hidráulico de
simples ação.

4.3 Conversores de energia elétrica

Uma fonte de potência muito utilizada no meio rural é a energia elétrica. Sua utilização
em instalações agrícolas estacionárias se faz por conversão em energia mecânica,
através de motores elétricos. Esses são aplicados no acionamento de bombas de água,
moinhos, picadores, correias transportadoras, ferramentas rotativas, ventiladores,
equipamento de solda, comedouros automáticos para animais, ordenhadoras e outros.
Além disso a energia elétrica ao ser utilizada na iluminação e no acionamento dos mais
diversos eletrodomésticos, concorre de forma altamente significativa para a melhoria da
qualidade de vida no meio rural.
A energia elétrica, para uso nas propriedades, pode ser obtida de diversas formas,
como por meio de motores eólicos, grupos geradores, conversores hidráulicos ou, ainda,
pela forma mais tradicional, como rede de eletrificação rural, a partir das estações e
subestações das empresas concessionárias regionais.
A principal máquina utilizada na conversão da energia elétrica no meio rural é o motor
elétrico.
50

4.3.1 Motor elétrico

O motor elétrico é uma máquina que tem como principal função a conversão da
energia elétrica em energia mecânica, servindo como fonte de potência, normalmente
para acionamento de máquinas estacionárias.
O acoplamento às máquinas, na maioria das vezes é realizado por meio de polias,
correias e luvas elásticas.
As principais vantagens da utilização de motores elétricos consistem em custo inicial
relativamente baixo, pouca manutenção, baixo nível de ruído, peso e volume. Os motores
elétricos encontrados no mercado podem ser de corrente contínua ou de corrente
alternada, sendo os últimos de maior utilização e designados também como motores de
indução.
A Figura a seguir mostra a constituição básica de um motor elétrico.
51

Tratores agrícolas

O trator agrícola é uma máquina autopropelida provida de meios que, além de lhe
conferirem apoio estável sobre uma superfície horizontal e impenetrável, capacitam-no a
tracionar, transportar e fornecer potência mecânica, para movimentar os órgãos ativos de
máquinas e implementos agrícolas. Os tratores, hoje em dia, tornaram-se um dos mais
importantes insumos agrícolas modernos e devem cumprir as seguintes funções básicas:

a) Tracionar máquinas e implementos de arrasto, tais como arados, grades,


adubadoras, carretas, etc., através de sua barra de tração.
b) Acionar máquinas estacionárias, tais como trilhadoras, batedoras de cereais,
bombas para recalque d’água, etc., através de polia e correia ou da árvore de
tomada-de-potência.
c) Tracionar máquinas, simultaneamente com o acionamento de seus mecanismos,
tais como segadoras, colhedoras, pulverizadores, etc., através da barra de tração
ou do engate de três pontos e da árvore de tomada-de-potência.
d) Tracionar e carregar máquinas e implementos montados, tais como arados,
grades, semeadoras, cultivadores, plantadores, etc., através do engate de três
pontos com levantamento hidráulico.

A evolução dos tratores e a propagação de seu uso, tornando-o acessível à maioria


dos agricultores, tiveram como causas principais:

 a necessidade do aumento da capacidade de trabalho do homem do campo,


face à crescente escassez de mão-de-obra rural;
 a migração das populações rurais para as zonas urbanas, devido ao processo
de desenvolvimento econômico por que tem passado o nosso país.

Como consequência, o trator tem provocado modificações profundas nos métodos


de trabalho agrícola, notadamente nos seguintes aspectos:

 redução sensível da necessidade de tração animal e de trabalho manual e, por


consequência, diminuição do mercado de trabalho rural, para mão-de-obra não
qualificada;
 crescente exigência do emprego de tecnologia avançada, notadamente das
técnicas de descompactação e conservação dos solos, de aplicação de
fertilizantes e defensivos, da utilização de sementes selecionadas e de
conservação e armazenamento dos produtos colhidos.
 organização e racionalização do trabalho, através de planejamento agrícola e
controle econômico-financeiro, dando às atividades de produção rural um caráter
tipicamente empresarial.

4.1 Constituição geral dos tratores

Os tratores agrícolas são constituídos, conforme ilustra o esquema da Fig. 4.1, pelos
seguintes órgãos básicos:
a) motor: responsável pela transformação da energia potencial do combustível em
energia mecânica, na forma de potência disponível no volante da árvore de
manivelas;
52

b) embreagem: órgão receptor da potência do motor e responsável por sua


transmissão à caixa de mudança de marchas, sob o comando de um pedal ou
alavanca acionados pelo tratorista;
c) caixa de mudança de marcha: órgão transformador e transmissor de movimentos,
responsável pela transformação do torque e velocidade angular do motor, no
torque, e velocidade requeridos pelos rodados, para cada condição de trabalho,
comandado por meio de uma alavanca externa controlada pelo tratorista.
d) coroa, pinhão e diferencial: órgãos transformadores e transmissores de movimento,
responsáveis pela transmissão do movimento da caixa de mudança de marchas a
cada uma das rodas motrizes, envolvendo uma redução proporcional de velocidade
e uma mudança na direção do movimento de um ângulo de 90 graus;
e) redução final: órgão transformador e transmissor de movimentos, responsável pela
transmissão do movimento do diferencial às rodas motrizes, com redução da
velocidade angular e aumento de torque;
f) rodados: órgãos operadores, responsáveis pela sustentação e direcionamento do
trator, bem como pela sua propulsão, desenvolvimento de força de tração na barra
e, consequentemente, transformação da potência do motor em potência na barra-
de-tração;
g) tomada-de-potência: órgão transformador e transmissor de movimento,
responsável pela transmissão do movimento do motor ou da caixa de mudança de
marchas, para uma árvore cuja extremidade é disposta externamente, na parte
posterior do trator, acima da barra-de-tração;
h) sistema hidráulico: conjunto de órgãos receptores, transformadores e
transmissores da potência do motor, através de um fluido sob pressão, a órgãos
operadores representados, principalmente, por cilindros hidráulicos;
i) reguladores: conjuntos de órgão que têm por função regular a velocidade angular
do motor, em função das variações da carga a que é submetido.
53

Figura 4.1. Constituição geral de um trator agrícola. O diagrama mostra os principais


órgãos envolvidos na transmissão da potência do motor ao rodado e tomada-
de-potência.

4.2 Classificação dos tratores

Os tratores podem ser classificados segundo vários parâmetros como: tipo de rodado,
conformação de chassi e tratores para aplicações especiais.
De acordo com o tipo de rodado, os tratores dividem-se em dois grandes grupos
constituídos pelos tratores de rodas e tratores de esteiras. Existe ainda um terceiro,
porém inexpressivo no Brasil, designado de tratores de semi-esteiras.
Na agricultura brasileira predominam quase que exclusivamente os tratores de rodas.
Caracterizam-se por possuírem, como meio de propulsão, rodas pneumáticas cujo
número e disposição determinam os tipos com duas, três ou quatro rodas.
Os tratores de duas rodas são representados basicamente pelos tratores de rabiças.
Possuem duas rodas motrizes e um par de rabiças, conforme ilustra a Fig. 4.3, para
comando pelo tratorista que, geralmente, caminha atrás do trator. Recebe também a
denominação errônea de cultivadores motorizados ou “mula-mecânica”.
Os triciclos não são fabricados no Brasil, sendo a grande maioria representada pelos
tratores de quatro rodas.
Os tratores de quatro rodas são tratores cuja sustentação pelos rodados é
proporcionada através de quatro pontos, o que lhes confere maior estabilidade. Existem
ainda tratores de quatro rodas motrizes, cujo direcionamento pode ser feito tanto pelas
rodas dianteiras como por uma articulação do chassi.
54

Quanto ao tipo de tração os tratores de quatro rodas podem se apresentar de três


formas distintas:

 Trator 4x2: É também conhecido como standard. Apresenta tração apenas no


rodado traseiro, e, portanto, os pneus do rodado dianteiro são desprovidos de
garras e menores que os do rodado traseiro, servindo apenas para sustentação e
direcionamento;
 Trator 4x2(TDA): Apresenta tração no rodado traseiro, podendo ter o auxílio da
tração dianteira quando necessário. O acionamento da mesma se dá por meio de
alavanca manual. Nesse caso, o rodado dianteiro ainda é menor que o traseiro,
porém, provido de garras;
 Trator 4x4: A tração se dá permanentemente no rodado dianteiro e traseiro, sendo
que nesse caso todos os pneus são providos de garra e apresentam as mesmas
dimensões.

Distribuição do peso e do tamanho das rodas dos tratores agrícolas 4 x 2, 4 x 2 TDA e


4 x 4.

Os tratores de esteiras possuem rodados, como se observa na Fig. 4.2, constituídos,


basicamente, por duas rodas motoras denteadas, duas rodas guias movidas e duas
correntes sem fim, formadas de elos providos de pintos e buchas dispostos
transversalmente, denominados esteiras. As rodas denteadas transmitem movimento às
esteiras que se deslocam sobre o solo, apoiadas em chapas de aço denominadas
sapatas. Uma estrutura de apoio e um conjunto de roletes completam esse tipo de
rodado. O direcionamento do trator é feito através de uma diferença de velocidade relativa
entre as esteiras. O emprego desses tratores na agricultura é limitado às operações que
exigem grande esforço tratório, como é o caso da aração, gradagem pesada,
subsolagem, etc., ou em operações de desmatamento e movimentação de terras.
Todavia, os tratores de esteiras suplantam os tratores de rodas no que tange à
estabilidade, compactação do solo e derrapagem dos rodados.
55

Figura 4.2. Tipos de tratores com rodados de esteiras.

Algumas marcas de tratores nacionais com rodados pneumáticos estão representadas


a seguir:

Massey Ferguson New Holland Yanmar – Agritech Agrale


56

Valtra/Valmet John Deere Case

Os tratores florestais constituem uma categoria especial, cuja aplicação se restringe


ao abate e retirada de madeira das florestas artificiais. Podem ser definidos três tipos de
operações básicas nesse tipo de atividade:

a) operação de corte e derrubada das árvores, na qual é empregado o trator


florestal do tipo cortador-abatedor;

Fig 4.3. Trator Florestal do Tipo Cortador-Abatedor

b) operação de carregamento e transporte para as vias de acesso dos troncos


abatidos na operação anterior, na qual podem ser utilizados tipos de tratores
florestais: o carregador-transportador e o transportador de arrasto. Para ambos
os tipos existem várias versões que, embora se diferenciem pela forma como
executam essa operação ou por detalhes construtivos, são destinadas à mesma
aplicação;

Fig. 4.4. Trator Florestal do Tipo Carregador-transportador


57

c) operação de processamento, visando a retirada das partes indesejáveis do


tronco, tais como galhos, cascas, ponteiro, etc., e cortá-los em pedaços de
dimensões preestabelecidas; nessa operação é empregado um tipo especial de
trator florestal denominado processador de troncos.

Fig 4.3. Trator Florestal do Tipo Processador de Troncos

Os microtratores, como o próprio nome indica, são tratores de peso e dimensões


reduzidos, mas que conservam a mesma conformação geral dos convencionais. Possuem
quatro rodas ou duas esteiras, assento para o operador, volante ou alavancas de
direcionamento, pedais de freio e embreagem.
Os tratores de rabiças, ao contrário dos microtratores, além de terem peso e
dimensões reduzidas, apresentam uma conformação e forma de direcionamento
totalmente diversa dos tratores convencionais. Como ilustra a Fig. 4.3, são equipados
com duas rodas motrizes e um par de rabiças para direcionamento e comando do motor,
das transmissões, etc.
Os termos cultivador motorizado e “mula-mecânica” têm sido utilizados,
frequentemente, para designar os microtratores e tratores de rabiças. Todavia,
cultivadores motorizados são pequenas máquinas empregadas no controle de ervas
daninhas, acionadas por um motor a gasolina ou diesel. Por conseguinte, essa
designação deverá ser reservada para máquinas motorizadas de cultivo, tal como se faz,
por exemplo, com os pulverizadores motorizados, as roçadoras motorizadas, etc.
58

Figura 4.3. Os tratores de rabiças apresentam conformação especial. São dirigidos


através de um par de rabiças, empunhadas por um operador que caminha a
pé, atrás da máquina.

4.3 Funções das principais partes constituintes do trator

Motor do trator

O motor é a fonte de potência mecânica do trator. O combustível líquido é queimado


no interior do cilindro e o calor liberado provoca expansão dos gases. A pressão originada
dessa expansão é recebida pela cabeça de um êmbolo, contido no interior de um cilindro
e conectado, através de uma biela, à árvore de manivelas. O deslocamento do êmbolo ao
longo do cilindro, sob a pressão dos gases da explosão, transforma-se em movimento de
rotação por meio do mecanismo biela-manivela.
Nos motores diesel, que equipam a totalidade dos nossos tratores agrícolas, o ar é
succionado, através de um filtro ou purificador, cuja parte superior denomina-se câmara
de combustão. Essa câmara é o espaço vazio do cilindro que resta após o êmbolo ter
atingido o final de seu curso ascendente. Aí se localiza a extremidade do bico injetor,
responsável pela introdução do combustível, finalmente pulverizado, na câmara de
combustão. O ar admitido no cilindro, ao ser comprimido na câmara de combustão,
rapidamente atinge altas temperaturas. Ao ser pulverizado no ar comprimido e aquecido,
o óleo diesel entra em combustão desenvolvendo altas pressões. Sob a ação dessas
pressões, o êmbolo movimenta-se em seu curso descendente, imprimindo movimento à
árvore de manivelas e ao volante do motor. O volante é uma massa metálica, cilíndrica,
montada numa das extremidades da árvore de manivelas e que permite a continuidade do
movimento rotativo, até que uma nova condição de combustão venha a ocorrer na câmara
de combustão.

A embreagem

A embreagem tem por função efetuar a conexão entre o volante do motor e a árvore
primária da caixa de mudança de marchas. Nos tratores agrícolas, assim como em
qualquer outro veículo equipado com motores de combustão interna, não é possível dar
partida no motor juntamente com a partida do trator. Há necessidade de se colocar
primeiramente o motor em funcionamento fazendo-o adquirir certa velocidade angular,
para depois se transmitir gradualmente o movimento do volante à caixa de mudança de
marcha. Essa transmissão gradativa do movimento do motor à caixa de mudança de
marchas e, também, à árvore de tomada-de-potência (TDP) é feita pela embreagem.
É geralmente constituída por um disco de material com alto coeficiente de atrito que,
através de molas e um sistema de alavancas comandadas por pedal, é acoplado ou
desacoplado, progressivamente, contra a superfície plana da alma do volante.
Comumente é denominada embreagem de volante, para distingui-la de outros tipos de
embreagem como, por exemplo, aquelas utilizadas para direcionamento dos tratores de
esteiras.

A caixa de mudança de marchas

A caixa de mudança de marchas cumpre duas funções básicas, a saber:


59

a) determinar a velocidade de deslocamento do trator que seja a mais adequada para


cada tipo de trabalho;
b) aumentar o conjugado de força desenvolvido pelo motor, a fim de atender às
exigências de torque nas rodas motrizes, para cada condição de solicitação de
força de tração na barra.

Nos tratores agrícolas, ao contrário dos automóveis e caminhões, a velocidade de


deslocamento é controlada, principalmente pela caixa de mudança de marchas e,
secundariamente, pelo acelerador do motor. No automóvel, por exemplo, quando se
deseja maior velocidade de deslocamento, basta pressionar o pedal do acelerador,
fazendo o motor girar numa rotação mais elevada. Nos tratores mantém-se o acelerador
numa determinada posição, correspondente a uma rotação ideal de funcionamento do
motor e obtém-se maior velocidade de deslocamento pelo uso de uma marcha mais veloz.
Por essa razão, os tratores apresentam alavanca manual de aceleração, enquanto os
automóveis e caminhões apenas o pedal do acelerador. Por outro lado, o número de
marchas requeridas pelos tratores é bem maior que aquele necessário aos veículos de
transporte.
A força de tração desenvolvida pelos tratores agrícolas é gerada devido à ação das
rodas motrizes contra o solo. A força de torque ou “poder de torção”, aplicadas no aro das
rodas motrizes, é proveniente do motor. Todavia, deve ser considerado, em termos
relativos, o seguinte fato: o motor gira numa velocidade bem maior que aquela da roda
motriz e, esta, exige um poder de torção bem maior que aquele fornecido pelo motor.
Entra aqui em jogo, então, o conceito de potência:

FE
P
T

onde: P = potência
F = força
E = espaço
T = tempo

Mas, se a velocidade V pode ser expressa por V = E/T, então a potência será:

P=F.V

Para uma dada potência máxima que o motor é capaz de fornecer, podemos ter
infinitas combinações de força e velocidade, de maneira que seja satisfeita a seguinte lei
da Mecânica: “o que se ganha em velocidade, perde-se em força, e o que se ganha em
força, perde-se em velocidade”.
Na caixa de mudança de marcha, a relativamente alta velocidade angular do motor
sofre uma redução, específica para cada marcha, enquanto o torque é aumentado
proporcionalmente. Esse aumento de torque, proporcionado pela redução na velocidade
angular, transmite-se à árvore motriz das rodas, resultando em maior força de tração na
barra, a velocidades de deslocamento mais baixas. Passando-se para uma marcha mais
alta, a velocidade angular é maior e o torque, transmitido menor, o que resulta em maior
velocidade de deslocamento do trator, porém com menor força de tração na barra. Assim,
através da caixa de mudança de marchas, pode-se obter maior força de tração com baixa
60

velocidade ou menor força com maior velocidade ou, ainda, um esforço tratório moderado
para uma velocidade moderada de deslocamento.

Diferencial e transmissão final

São os órgãos que transmitem o movimento do motor, modificado pela caixa de


mudança de marchas, para as rodas motrizes do trator. O diferencial consta de um
pinhão e de uma coroa que, além de produzirem uma redução de velocidade, permitem
uma mudança de direção de 90 graus na árvore de transmissão de movimento. No
interior da coroa localiza-se o diferencial, através do qual é equilibrado o torque aplicado
em ambas as rodas e permite que, quando o trator percorre uma curva, a roda exterior
gire mais rapidamente que a interior à curva.
A transmissão final, localizada entre o diferencial e o cubo da roda, além de prover
uma redução na velocidade angular e consequente aumento do torque transmitido, pode
ser um meio para proporcionar maior vão livre vertical ao trator. Nos tratores de esteira a
transmissão de direcionar o trator. Por isso, existem duas embreagens de direção, entre
a redução final e o diferencial, uma para cada roda denteada motriz.
Capítulo 5

Órgãos de acoplamento

O trator agrícola, para desempenhar bem sua função, deve contar com dispositivos
que permitam o acoplamento de máquinas e implementos, fornecidos juntamente com o
trator e não como acessórios opcionais. É necessário que esses órgãos de acoplamento,
designados simplesmente como engates, sejam dispostos de maneira a não gerar
reações desfavoráveis sobre o trator ou sobre as máquinas e implementos a ele
acoplados. Engates colocados muito altos, muito baixos ou deslocados da linha de centro
do trator afetam a qualidade da operação, o desempenho e a vida útil do trator e da
maquinaria. Atualmente a tendência é no sentido de equipar os tratores com engates que
possam melhorar a tração, reduzir o tempo e trabalho de acoplamento e desacoplamento,
facilitar as regulagens e o manejo dos controles.

5.1 Categorias de máquinas e implementos de acordo com o tipo de acoplamento


ao trator

As formas como as máquinas e implementos se acoplam ao trator determina as


seguintes categorias:

 máquinas de arrasto;
 máquinas semimontadas;
 máquinas montadas.

Máquinas de arrasto é aquela que apresenta órgãos de sustentação própria e


acopla-se ao trator através de um ponto, representado pelo pino de engate da barra de
tração. Quando a máquina exige, além do esforço tratório, movimento de rotação, este
lhe é transmitido por meio de uma árvore cardan telescópica.
Máquina semimontada, denominada impropriamente semi-hidráulica, é aquela em
parte apoiada sobre o trator e em parte sobre rodas de sustentação. O acoplamento ao
61

trator verifica-se através de um eixo, que pode estar situado horizontal, vertical ou
longitudinalmente em relação ao plano médio do trator.
Máquina montada é aquela desprovida de órgãos de sustentação própria, apoiando-
se integralmente sobre o trator. Há casos de máquinas montadas que apresentam
elementos de sustentação; todavia, eles são empregados apenas quando a máquina se
acha estacionada (desacoplada do trator) ou então como limitadores de profundidade de
trabalho.
As máquinas de arrasto, que possuem seus próprios recursos para levantar e baixar
os órgãos ativos são acopladas à barra de tração, localizada na parte posterior dos
tratores. As máquinas semimontadas e a maioria das máquinas e implementos montados
são acoplados através dos denominados acoplamentos com levantamento, dentre os
quais o mais comum é o engate de três pontos, localizado também na parte posterior do
trator.
Existem ainda máquinas e implementos montados que são acoplados à parte média
do trator, entre as rodas dianteira e traseira, através dos denominados engates
intermediáriso de dois pontos. Finalmente, há as máquinas e implementos montados cujo
acoplamento ao trator se verifica através de um sobrechassi, parafusado ao longo da
estrutura dos elementos componentes do chassi do trator.
Portanto, distinguem-se os seguintes tipos de acoplamento:
 acoplamento por barra de tração;
 acoplamento com levantamento:
- acoplamento traseiro de eixo simples;
- acoplamento traseiro de dois eixos com vínculos convergentes ou
engate de três pontos;
- acoplamento intermediário de dois eixos, com vínculos paralelos ou
engate de dois pontos.

5.2 Acoplamento por barra de tração

A barra de tração é a mais antiga forma de acoplamento entre trator e máquinas ou


implementos, distinguindo-se dois tipos básicos:

a) barra de tração fixa, aplicada geralmente a tratores industriais;


b) barra de tração oscilante, quando apresenta movimento limitado horizontal; é o
tipo fundamenta de barra de tração para tratores agrícolas.

5.3 Características do acoplamento com levantamento

Nos acoplamentos com levantamento, além da transmissão do esforço tratório


segundo a direção da LT, o engate deve aplicar uma força vertical nos elementos de
acoplamento da máquina ou implemento. Quando a força vertical é aplicada de baixo
para cima, diz-se que o sistema de levantamento é de simples efeito; neste, a descida da
máquina ou implemento se faz devido ao seu próprio peso. O sistema se diz de duplo
efeito quando a força vertical se exerce em ambos os sentidos, tanto para levantar como
para baixar os órgãos ativos; assim, neste tipo de acoplamento é possível forçar os
órgãos ativos contra o solo, por meio do sistema de levantamento.
Outra característica importante do acoplamento com levantamento diz respeito ao
tipo e número de pontos de engate, distinguindo-se:
62

Engate de três pontos: neste tipo, a máquina ou implemento acopla-se ao trator por
um plano (três pontos determinam um plano); logo, o levantamento se efetua através da
movimentação desse plano de acoplamento.

Engate de dois pontos: quando o acoplamento da máquina ou implemento do trator


verifica-se através de uma linha (dois pontos estabelecem uma linha) ou eixo de
acoplamento; neste caso o levantamento se efetua através da movimentação desse eixo
de acoplamento, com a atuação conjunta de um terceiro vínculo, a fim de limitar o
movimento em torno do eixo de acoplamento.
Tanto no engate de três pontos como no de dois pontos, a ligação entre os pinos de
acoplamento do trator e aqueles das máquinas ou implementos se faz através de barras
de aço providas de olhais articulados. Estes elementos recebem a designação geral de
braços de acoplamento.
De acordo com a disposição desses vínculos, distinguem-se:
 acoplamento com braços convergentes (engate de três pontos);
 acoplamento com braços paralelos (engate de dois pontos, engate
pantográfico).

5.4 Acoplamento com braços convergentes. Engate de três pontos

Após a introdução do sistema de levantamento hidráulico, por volta de 1930, foram


desenvolvidos inúmeros sistemas de acoplamento de máquinas e implementos na parte
traseira dos tratores. A partir destes, evoluiu o sistema padronizado de engate de três
pontos, utilizado pela quase totalidade dos fabricantes de tratores.
As partes constituintes do engate de três pontos são mostradas na Fig. 5.1.

Figura 5.1. Partes constituintes e respectivas designações padronizadas (ABNT) do


engate de três pontos.
63

Os dois braços inferiores de acoplamento não se alinham paralelamente; convergem


num ponto, ponto virtual de engate, situado na parte frontal do trator, e são livres para
oscilarem lateralmente, entre determinados limites. Eles podem ser bloqueados (através
de barras ou correntes estabilizadoras) de forma a não apresentarem movimentos
laterais, condição desejável em algumas aplicações, como no trabalho com
pulverizadores, polvilhadores, plataformas de transporte, etc. O braço superior de
acoplamento e os braços inferiores também convergem verticalmente ao ponto virtual de
engate.
As dimensões dos pontos de engate diferenciam-se em quatro categorias, conforme
a faixa de potência ou tração máxima na barra, a saber:

 Categoria I:
- de 20 a 45 c.v. (trator com até 1.150 kgf de força de tração máxima na
barra, segundo a P-PB-84/ABNT);
- de 20 a 35 hp (segundo a ASAE S 217.10).
-
 Categoria II:
- de 40 a 100 c.v. (trator com mais de 1.150 kgf de força de tração
máxima na barra, segundo a P-PB-84/ABNT);
- de 40 a 100 hp (segundo a ASAE S 217.10).

 Categoria III:
- de 80 a 168 hp (incluindo a “Categoria III-Normal” e a “Categoria III-
Estreita”, segundo a ASAE S 217.10).

 Categoria IV:
- de 180 a 400 hp (incluindo as subcategorias “normal” e “estreita”,
segundo a ASAE S 217.10).
64

Capítulo 6

As máquinas agrícolas

Atualmente, contamos com inúmeras máquinas capazes de realizar as mais difíceis


operações agrícolas, rapidamente e com muito pouco esforço humano. Elas se
encontram à disposição do agricultor para que ele possa mecanizar racionalmente as
operações de sua propriedade, desde o preparo inicial até a colheita e o transporte dos
produtos agrícolas.
Mecanizar racionalmente as operações agrícolas de uma propriedade significa
utilizar de forma eficiente as máquinas capazes de provocar acréscimo do bem-estar
social pelo abaixamento dos preços, pelo aumento da quantidade e pela melhoria da
qualidade dos produtos agropecuários.
Devido ao elevado número de máquinas e implementos utilizados nas operações
agrícolas, para estudá-las é imprescindível dividi-las em diversos grupos. Esse
agrupamento se baseará na seqüência de práticas exigidas para a instalação e condução
das culturas, desde o preparo do solo até a colheita e o transporte.
Nessas condições, teríamos:
 máquinas e implementos para preparo inicial do solo, englobando dois
subgrupos: máquinas e implementos para corte, arrancamento e derrubada
de árvores (empurrador de árvores, cisalha hidráulica, correntão, etc.) e
máquinas e implementos para a limpeza do solo (destocador, desbastador
rotativo de tocos e ancinho frontal);
 máquinas e implementos para preparo periódico do solo, englobando dois
subgrupos: máquinas e implementos para corte e inversão do solo (arados) e
máquinas e implementos para desagregação e revolvimento do solo (enxadas
rotativas, grades, etc.);
 máquinas e implementos para implantação de culturas por métodos
convencionais e não convencionais, englobando os seguintes subgrupos:
máquinas para semeadura convencional; máquinas e implementos para
abertura e fechamento do solo; máquinas para plantio; máquinas para
transplante; máquinas para implantação de culturas por método não
convencional
 máquinas para movimentação e aplicação de fertilizantes e corretivos,
englobando os seguintes subgrupos: as máquinas para aplicação de
fertilizantes orgânicos e máquinas para aplicação de fertilizantes e corretivos
sólidos;
 máquinas e implementos para cultivo mecânico e poda;
 máquinas para aplicação de defensivos agrícolas, englobando os seguintes
subgrupos: máquinas aplicadoras de defensivos agrícolas granulado;
máquinas aplicadoras de defensivos agrícolas em pó; máquinas injetoras de
defensivos agrícolas no solo; máquinas pulverizadoras de defensivos
agrícolas e máquinas para aplicação de defensivos agrícolas por nebulização;
 máquinas e implementos para colheita de produtos agrícolas, englobando os
seguintes subgrupos: máquinas para colheita de forragem para fenação;
máquinas colhedoras de forragem para silagem; máquinas para colheita de
cereais; máquinas para colheita de café; máquinas para colheita de cana-de-
açúcar e máquinas e implementos para arrancamento de produtos agrícolas;
65

 máquinas e implementos para transporte e movimentação de produto


agrícola.

6.1 Preparo primário ou inicial do solo

Se uma área vai ser mobilizada pela primeira vez com máquinas, deve estar
preparada para que o conjunto de trator e implementos possa trabalhar com facilidade,
sem empecilhos a seu deslocamento. O agricultor deve providenciar a remoção de
árvores, tocos e raízes bem como de outros objetos, como pedras, que possam danificar
a maquinaria. Em uma gleba limpa, o preparo do solo é melhor, permitindo bom
desenvolvimento das sementes e das plantas, o que influi no rendimento da cultura.
Antes de iniciar o desbravamento e limpeza de novas glebas, o agricultor deve
definir muito bem a finalidade dos serviços a executar: eles podem se destinar à formação
de pastagens, culturas anuais, culturas permanentes ou ao reflorestamento. Entretanto,
qualquer que seja a finalidade, o preparo do solo compreende duas etapas bem
diferenciadas: o desmatamento e o preparo do solo propriamente dito.
Elaborado o plano geral e, quando for o caso, de posse da autorização oficial para a
derrubada, o interessado deve atentar para algumas questões específicas, de modo a
conseguir o máximo rendimento das máquinas nas condições mais econômicas possíveis.
Para isso será necessário:
 conhecer as condições topográficas, climáticas e geológicas da região e do
local de trabalho e as características da vegetação a ser eliminada;
 preparar metodicamente a seqüência do trabalho das máquinas, estudando
ainda as possibilidades de acesso ao terreno, por meio da adequada
disposição de estradas e carreadores;
 selecionar tratores e implementos adequados e dispor de operadores
habilitados.
As características da área em questão e os objetivos do empreendimento agrícola
que se tem em vista determinarão os procedimentos a serem seguidos. Porém, o
processo normal de aproveitamento de áreas cobertas de vegetação indesejável e
improdutiva pode ser entravado pelo pesado ônus do investimento de capital: o custo do
desbravamento e limpeza da terra em algumas regiões é pouco inferior ao próprio valor
da gleba.
Além disso, o agricultor deve tomar muito cuidado com o fenômeno da erosão do
solo agrícola. Por isso, não deve desmatar a cabeceira dos morros nem as encostas com
grande inclinação, margens de rios e terrenos ao redor de nascentes, pois somente a
floresta é capas de controlar a ação das enxurradas nessas áreas.
Cada projeto de adaptação de terras à agricultura deve ser bem estudado pelo
técnico encarregado de executa-lo. Acompanhado pelo agricultor, cabe-lhe fazer uma
vistoria da gleba, para avaliar seus pontos favoráveis e desfavoráveis.

6.2 Procedimentos preliminares

6.2.1 Avaliação global do terreno

Antes de iniciar o trabalho é recomendável empreender uma pesquisa no local, para


obtenção dos dados necessários sobre o terreno a ser desbravado.
A pesquisa deve ser completa, não deixando de incluir um estudo da topografia geral
e das condições do solo. Precisamos identificar, em especial, os fatores negativos que
66

afetariam a produção ou implicariam a adoção de medidas especiais. De modo geral, eles


são os seguintes:

Topografia e tipo de solo e seu rendimento

Terrenos íngremes, de pendente – declividade ou inclinação – muito irregular e


sujeito à erosão, poderão exigir uma reformulação dos planos iniciais que indicavam sua
completa limpeza, visando-se a conservação da camada cultivável. O mesmo se aplicaria
em terrenos de solo pedregoso e pouco profundo.

Existência de mananciais e pequenos córregos

Uma medida razoável para protege-los seria respeitar uma faixa regular da mata ou
capoeira que circunda a água, que poderia servir como obstáculo ao carreamento do solo.
Reservas florestais

Todo reserva florestal de boa qualidade deve ser respeitada.


Devemos lembrar, porém, que muitas vezes áreas cobertas de vegetação têm valor
econômico relativamente baixo, pois as espécies vegetais indesejáveis nelas existentes
constituem verdadeiros empecilhos até mesmo para os serviços de reflorestamento
porventura necessários. A medida que se impõe, nesses casos, é a completa erradicação
dessa vegetação.

6.2.2 Levantamento detalhado das condições do local

Deve-se percorrer o terreno a ser desbravado e determinar a área de cada tipo de


solo e vegetação (terrenos elevados, florestas baixas, locais alagados etc.).
Depois, é preciso fazer no mínimo três contagens para cada tipo de vegetação. Para
isso, localiza-se, ao acaso, dois pontos separados por 100m. Trace duas paralelas à reta
que os une, a uma distância de aproximadamente 5m de cada lado. Conte a meça as
árvores existentes nessa área. Obtém-se assim a quantidade de árvores para cada 1 ha.
Procure anotar os seguintes dados:
 quantidade média de árvores por hectare em cada um dos seguintes
diâmetros ao nível do solo: menos de 30 cm; de 31 a 60 cm; de 61 a 90 cm;
de 91 a 120 cm; e de 121 a 180 cm;
 densidade de vegetação com menos de 30 cm de diâmetro por hectare
(densa: acima de 1.480 árvores/ha; média: entre 990 a 1.480 árvores/ha;
leve: menos de 990 árvores/ha);
 total dos diâmetros, em metros, de todas as árvores com mais de 180 cm de
diâmetro ao nível do solo existentes em cada hectare;
 presença de madeira dura, expressa em porcentagem;
 presença de cipós;
 existência de sistemas de raízes bifurcadas ou superficiais;
 densidade da vegetação rasteira da área em questão.

6.2.3 Classificação dos tipos de vegetação

Numa caracterização bem ampla, teríamos:


67

Mata virgem

Aglomerações de vegetais constituídas por três andares, conforme a altura: primeiro


andar, subvegetação rasteira ou arbustiva, facilmente eliminável; segundo andar, árvores
de tamanho médio, o mais freqüente; e terceiro andar, árvores de grande altura e
diâmetro variado.

Mata secundária

Inteiramente dominada por árvores de estrutura complexa, estágio avançado de


regeneração natural da mata primitiva.

Cerradão

Formação vegetal constituída de três andares: primeiro andar – espécies rasteiras


ou de pequeno porte, umbrófilas; segundo – arbustos e pequenas formas arbóreas,
constituindo um sub-bosque; e terceiro – o principal, formado por árvores geralmente com
5 a t m de altura, mas podendo chegar a 20 m, com troncos pouco tortuosos e
predominância de madeiras duras.

Cerrado

Formação vegetal constituída de dois andares: primeiro – vegetação rasteira; e


segundo – arbustos e formas arbóreas que raramente ultrapassam 6 m de altura, com
caules tortuosos e recobertos de espessas cascas.
Quanto ao cerrado e cerradão, pode-se encontrar uma variação muito importante:
áreas com as mesmas características, já exploradas ou semi-exploradas, com grande
concentração de tocos em regeneração ou mortos, bem fixados no solo.

Campo limpo ou campo propriamente dito

É a formação com um só andar de cobertura vegetal em que raramente aparecem


formas arbustivas ou arbóreas.

Carrasco

Formação vegetal constituída praticamente por dois andares, um deles de formas


arbóreas, que atingem altura média de 10 m e outro inferior, de vegetação arbustiva. O
que caracteriza basicamente esse tipo de vegetação é o elevado número de indivíduos,
em geral retilíneos, com grande concentração de cipós. Em sua forma original é
impenetrável.

Florestas plantadas

Geralmente são florestas de eucaliptos que chegaram ao terceiro corte ou aquelas


que, por sua produção, não justificam o terceiro corte. Nesse caso encontram-se florestas
que, segundo estudos técnicos, deveriam ser extirpadas para dar lugar a um novo plantio,
onde técnicas avançadas poderiam proporcionar um incremento médio anual tão elevado
que justificasse a renovação.
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Capítulo 7

Preparo inicial do solo

7.1 Introdução

O preparo inicial do solo compreende as operações necessárias para criar


condições de implantação de culturas em áreas não utilizadas anteriormente com essa
finalidade. Desta Maneira, as áreas referidas podem ainda estar cobertas de vegetação
natural ou de alguma forma de regeneração desta, a qual deverá ser eliminada, e ainda
necessitar alguma movimentação de terra para tornar a superfície regular e facilmente
trabalhável.
As operações de desmatamento se iniciam com a eliminação da vegetação,
comumente conhecida como derrubada. Dependendo do tipo de vegetação encontrada, a
derrubada resulta em troncos cortados sobre o solo. No primeiro caso, o arrancamento
dos tocos terá de ser realizado em uma operação separada.
O material resultante da derrubada será então amontoado em leiras, na operação
chamada enleiramento, a qual visa deixar uma área mínima de terreno coberto com a
vegetação eliminada, que será posteriormente queimada.
Finalmente, se fará a limpeza do solo visando à eliminação de pequenas raízes ou
ramos que não puderam ser levados até às leiras.

7.3 Derrubada de Mata Virgem ou Capoeirão

Na derrubada das matas virgens ou de capoeirões são utilizados as lâminas


cortadoras de árvores, acopladas em tratores de esteiras para o corte das árvores e o
enleiramento do material cortado.

ESCOLHA DOS EQUIPAMENTOS PARA O DESMATAMENTO DE ACORDO COM O


TAMANHO DA ÁREA E O TIPO DE VEGETAÇÃO A SER REMOVIDA

Equipamentos adequados a serviços leves de desmatamento


Corte ao nível ou Incorporação ao
Área Remoção Total acima do solo Derrubada solo
Pequena (4 ha) Lâmina lisa, Machados, facões de Lâmina lisa Arado de discos,
machados, mato, foices, grade de discos
enxadas, enxadões enxadas, motoserras
Média (40 ha) Lâmina lisa Roçadora, motoserras Lâmina lisa, moto- Arado de discos,
serras, roçadora grade de discos

Grande (400 ha) Lâmina lisa, Rolos-facas, Arado de discos,


ancinho e roçadora, grade de discos
arrancador para correntão com dois
raízes, correntão tratores de esteira
com dois tratores
de esteira
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Equipamentos adequados a serviços médios de desmatamento


Corte ao nível ou Incorporação ao
Área Remoção Total acima do solo Derrubada solo
Pequena (4 ha) Lâmina lisa Machados, serras Lâmina lisa Arado de discos
manuais, motoserras para serviços
pesados, grade de
discos

Média (40 ha) Lâmina lisa Motoserras Lâmina lisa, rolos- Arado de discos
facas para serviços
pesados, grade de
discos
Grande (400 ha)
Lâmina KG, Lâmina KG Lâmina lisa, Lâmina lisa, grade
ancinhos, correntão motoserras, de discos para
com dois tratores de correntão com dois serviços pesados
esteira tratores de esteira

Equipamentos adequados a serviços pesados de desmatamento


Corte ao nível ou
Área Remoção Total acima do solo Derrubada
Pequena (4 ha) Lâmina lisa Machados, serras Lâmina lisa
manuais, motoserras

Média (40 ha) Lâmina KG, braço Lâmina KG Lâmina lisa


empurrador,
ancinhos

Grande (400 ha) Lâmina KG, braço Lâmina KG Correntão de


empurrador, arrasto com dois
ancinnhos, tratores de esteira
correntão com dois
tratores de esteira
70

6.2.4 Esquema de operações mecanizadas no desbravamento

Desbravamento

Operações Fase Máquinas, Implementos e Ferramentas


- Retirada do Material
Desbravamento

- Enxadão, enxada, machado → manuais


- Trator de esteira com cabo de aço,
- Arrancamento correntão e lâmina bulldozer;
- Tree-pusher (empurrador de árvore)
- Machado, enxada, enxadão
- Motoserras → manuais motorizadas
- Corte e destoca - Trator de esteira com cabo de aço, lâmina
bulldozer, lâmina KG;
- Stumper, destocadores, traçadores
- Enxadão, machado;
- Desenraizamento - Tratores com lâminas dentadas, lâminas
bulldozer ou lâminas KG;
- Pás mecânicas
- Enleiramento e - Tratores com lâminas bulldozer, lâminas KG
reenleiramento ou ancinhos;
- Pás mecânicas
- Foice, machado;
- Incorporação
do Mateiral

- Roçadoras manuais motorizadas ou


roçadoras tratorizadas;
- Grade pesada,
- Arado;
- Rolo faca
GradagemAração e

- Grade pesada;
- Arado e grade
71

6.2.5 Esquema de operações mecanizadas no preparo convencional do solo

Esquema 1
Recomendado para Atividade Finalidade Período
 Assentar material
orgânico;
 Gradeação  Picar material orgânico. Logo depois da colheita
Glebas com grande quantidade de ou 2 a 3 semanas antes
restos de cultura, sobretudo  Revirar o solo; do plantio.
material alto.  Aração  Incorporar material
orgânico
 Destorroamento;
 Gradeação  Nivelamento; Vésperas do plantio

 Completar incorporação
de matéria orgânica

Esquema 2
Recomendado para Atividade Finalidade Período
 Revirar o solo; Logo depois
 Aração  Incorporar material da colheita.
- Glebas que vêm normalmente sendo
orgânico.
cultivadas, com poucos restos de cultura e
material baixo;  Destorroar;
 Nivelar;
- Com pouco mato e mato baixo.  Gradeação Vésperas do
 Carpir; plantio.
 Quebrar superfície;
 Completar
incorporação do
material orgânico

Esquema 3
Recomendado para Atividade Finalidade Período
 Gradeação (grade  Picar e incorporar o material; Logo depois da
colheita ou 2 a 3
- Glebas com grande
pesada, de discos  Revirar o solo. semans antes do
recortados)
quantidade de restos de plantio.
cultura e material alto;  Destorroar;
- Glebas com muita
 Completar a gradeação anterior Vésperas do
 Gradeação realizando trabalho de
vegetação e vegetação plantio.
alta. picagem, incorporação,
destorroamento e nivelamento

Esquema 4
Recomendado para Atividade Finalidade Período
 Picar mateiral da
superfície;
- Glebas intensamente cultivadas, com solos soltos,  Gradeação  Revirar o solo;
com bastante matéria orgânica no perfil. Vésperas do
 Incorporar matéria plantio.
orgânica;
 Destorroar;
 Nivelar.

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