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Entrevista

a Manuel
Graça Dias
Paulo Tormenta Pinto e Alexandra Areia.
Registo fílimico de Inês de Castro Monteiro.

Paulo Tormenta Pinto (PTP): Estamos a fazer um número


da Passagens dedicado à agua e aos rios, em conjunto com o
Grupo da Metrópole Fluvial, de São Paulo, coordenado pelo
Alexandre Delijaicov. Nesse sentido interessava-nos abordar
o tema da Manhattan de Cacilhas porque foi um projecto que
apresentava uma ideia de grande pujança para a transformação
da área metropolitana de Lisboa e em concreto para o estuário
do Tejo. Sabemos que este trabalho foi um “ensaio de ocupa-
ção” para um fundo de investimento e gostaríamos sobretudo
de perceber a forma como a proposta se apresenta enquanto
extensão da cidade para a sua periferia. Sendo a cidade tradicio-
nal o sítio de eleição do discurso do Manuel Graça Dias, per-
guntamos se estas áreas metropolitanas, estas áreas periféricas,
podem ter a esperança de se transformarem numa cidade como
a Lisboa que nós conhecemos, enquanto resultado de sobrepo-
sição de capas e várias camadas temporais. Será que esta cidade
nova pode desejar ser tão espetacular como aquela outra que
encontramos em Lisboa?

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Manuel Graça Dias (MGD): É um tema nhattan de Cacilhas” foi muito a de acrescentando mais situações e reven-
interessante, essa questão de conse- tentar cruzar várias situações, vários do outras. Uma das coisa pela qual nos
guirmos fazer o novo, mantendo a pos- layers, várias camadas, de modo a que batíamos muito era que aquele todo
sibilidade de que envelheça, tal como ficasse já preparada uma certa história, pudesse vir a ser executado por 30, 40
a cidade tradicional vai envelhecendo; ainda que criada de um dia para o ou- arquitectos diferentes, a partir de um
mas não num tempo longo, para não tro. Mas nem foi bem assim, as coisas plano que garantisse essa complexida-
estarmos durante anos à espera que foram ganhando complexidade com de e que fosse depois sendo “poluído”,
as coisas ganhem densidade. A nossa o tempo, até porque tivemos duas ou alterado, acrescentado, pelas diversas
ideia, quando nos propuseram a “Ma- três fases durante as quais pudemos ir vontades chamadas a actuar.

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Pensámos muito em como é que o con- recortando —, “este faz sombra deste
junto poderia vir a ser visto de Lisboa. lado, aquele faz sombra no outro, o
Fotografámos uma série de enfiamen- primeiro não pode ser, tenta esse mais
tos visuais a partir da cidade: na Aveni- à frente”. Não era uma atitude escul-
da D. Carlos, na Rua do Alecrim, no Cas- tórica, ainda que, com certeza, tudo
telo. O nosso ponto de referência era chegue sempre informado pela nossa
o pórtico da “Lisnave”, desde que se própria sensibilidade; o facto de estar-
visse o pórtico da “Lisnave” estaríamos mos preocupados com a questão do
a ver aquele futuro conjunto. Desenhá- Sol conduziu-nos a um “princípio de es-
mos essas linhas nos nossos mapas e quema” que, depois, a intuição compo-
começámos a cruzar toda aquela infor- sitiva confirmava ou corrigia. Criámos,
mação, conjugada com o movimento também, uma série de aberturas, ras-
do Sol. Interessava-nos que as torres gos, torções e enfiamentos — “o que é
não se sombreassem umas às outras, que se vê da Rua do Alecrim?”, “vê-se
nem sombreassem a cidade que já este”, “então, corta-lhe uma fatia para
existia (apesar de demagogicamente, que se veja também o outro, atrás, o
depois, se dizer que estávamos a “tirar mais alto”— e os blocos ficavam sepa-
o Sol aos almadenses”...). Na realidade, rados por uma nesga com a largura da
fizemos muitas simulações com o mo- Rua do Alecrim, ou com metade. Estas
vimento do Sol, o que nos levou a “em- orientações e posicionamentos das
purrar” as construções mais altas para torres eram, entretanto, conjugados
sudeste. Fizemos muitas experiências com o que já estava definido em baixo,
com a luz e com as sombras: de ma- mais ligado à história recente do sítio.
nhã a sombra caía sobre os morros não Havia também a questão dos trans-
construídos da antiga costa, a meio do portes. Era preciso que os cacilheiros
dia, o Sol alto fazia pouca sombra sobre ou outros barcos mais ou menos sofis-
a nova zona, à tarde, a sombra come- ticados, entrassem dentro do conjun-
Dito assim, poderá parecer um pouco A partir daí, desenhámos quarteirões
çava a espalhar-se na água. Ao empur- to. O novo cais não seria em Cacilhas
anedótico, mas a tentativa de criarmos e, como seria difícil escavar para criar
rarmos as torres mais para sul e ao cui- mas agora na Margueira. Também a
alguma “história”, à partida, pode ler- caves de estacionamento, definimos
darmos do sombreamento entre elas, ideia do metro ligeiro de superfície, de
se no facto de pegarmos na implanta- que esses “quarteirões” seriam pla-
estávamos também já a criar um skyli- que já se falava — “onde é que o metro
ção que já existia, relacionando as do- taformas com dois pisos, envolvidas
ne variado, com algumas irregularida- de superfície deverá parar para servir
cas, as várias unidades industriais e os perifericamente por uma faixa comer-
des e excepções, mas não arbitrário, este novo território?”. Os automóveis
grandes armazéns entre si. Fez-se um cial, sendo, no miolo, destinados a es-
não aleatoriamente “inventado” por privados, também: há uma curva deli-
levantamento correcto de toda aquela tacionamento. Só depois começámos
nós. Procurámos sempre tirar o máxi- cada que remata a Avenida 25 de Abril
complexidade e usámo-lo como base, a introduzir as torres, partindo dessa
mo de aleatório possível à operação. de 1974, a avenida que conclui um
como ponto de partida. Algumas ruas base, dessa espécie de “bolo” baixo e
O Egas [José Vieira] introduziu um exer- atravessamento que espinha toda a ci-
ficaram no mesmo sítio onde já esta- recortado que também definia uma sé-
cício divertido mas rigoroso: começou dade, mais ou menos no sentido poen-
vam, dentro daquele pedaço indus- rie terraços frente às vistas de Lisboa.
por colocar sobre a base da maqueta, te-nascente; essa curva sugeriu-nos
trial; as docas, claro, ficaram também. Começámos a pensar nas torres, até
uma enorme quantidade de volumes continuarmos a Avenida, pelo rio fora,
As direcções das docas, que não são porque a encomenda tinha sido essa:
torre, com as mesmas dimensões. Fi- envolvendo toda a nova zona e criando
todas paralelas entre si - há uma que pediam-nos um número muito volu-
cámos com uma série de pedaços de uma elipse que, simbolicamente, segu-
faz um ângulo diferente -, foram cruza- moso de construção, cerca de um mi-
roofmate com a altura que definíramos rava o conjunto, e lhe dava um limite
das e criámos uma malha que registava lhão de metros quadrados, o que teria
máxima, e depois usámos um foco po- visual forte, ajudando alguma fluidez
esses dois jogos de ortogonalidades. que ser sempre resolvido com torres,
tente a fazer de Sol — “agora de ma- do próprio trânsito.
caso contrário ficávamos para ali com
nhã, agora ao meio-dia” — e íamos
uma série de “pudins” insuportável.
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Reconversão urbana
do estaleiro da Margueira,
Almada, 1999
Autores: Manuel Graça Dias e Egas José Vieira
Promotor: Fundo Margueira Capital
Coordenação: Luís Torgal (I fase);
Paulo André Rodrigues (II fase)
Colaboradores: Gonçalo Afonso Dias; José Silvestre,
Duarte Correia, Luís Pereira Miguel

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A meio, haveria uns nós e umas laçadas E foi assim, com histórias sobrepostas, res; vemos grandes peças brancas ho- Finalmente, tudo isto fazia parte de
que conduziriam para dentro, para o in- e com a tal ideia de que outros arqui- rizontais, à borda de água e mais aci- uma ideia mais vasta de recentrar o
terior da Margueira e a norte, voltaria tectos pudessem também vir a ocupar- ma; percebe-se muito bem, a partir da crescimento de Lisboa e o das autar-
a desfazer-se e a integrar-se no sistema se de novos sentidos para as coisas, que Margueira. Fizemos, então, o contrário. quias vizinhas em volta do rio; deve-
viário já existente. Propositadamente, fomos construindo esta aproximação A Margueira é uma zona completamen- ríamos saber criar condições para que
sublinhávamos o facto de não se tra- de cidade. Completamente esquemáti- te plana, ao nível da água; como tal, estes vários municípios não se conti-
tar de nenhuma “auto-estrada” nem ca, é certo, mas que, penso, ficou a de- funcionaria como uma base a partir da nuassem a espalhar indefinidamente
“viaduto”; teria algumas dessas carac- ver parte do seu sucesso — para quem qual surgiriam os elementos fortemen- para norte e para sul, para territórios
terísticas porque passariam por ali au- aderiu, claro, porque houve muitos te verticais. Esse contraponto entre menos agradáveis e muito longínquos,
tomóveis mas teria passeios, uma zona detractores —, não tanto aos edifícios uma acentuada verticalidade sobre o e mantê-los mais próximos das mar-
rebaixada para as pessoas se sentarem altos, mas por parecer haver ali uma plano liso do Tejo e a franca horizonta- gens do Tejo. Acreditávamos bastante
a ver a água, a pescar, a namorar; seria, substância qualquer que indiciava que lidade da Lisboa mais antiga a galgar as em transportes do género dos cacilhei-
sobretudo, um percurso ao longo da pudesse vir ser uma cidade verdadeira, colinas, estabeleceria um diálogo que ros que ligassem permanentemente
água, mais do que uma via muito agita- e uma cidade divertida. Por outro lado, nos pareceu curioso e com hipóteses as margens — Cacilhas Lisboa, Lisboa
da, apesar de também funcionar como existe uma contraposição volumétrica de criar aderência histórica. Alcochete, Alcochete Montijo, Montijo
distribuidor de tráfego. imediata: Lisboa é uma cidade deitada Belém —, e que todo o Estuário fosse
por sobre as colinas, com poucas tor- permanentemente cruzado por barcos,
o que permitiria às pessoas dispensar
bastante o automóvel. Previa-se que
ali vivesse e trabalhasse muita gente:

haveria edifícios de escritórios, edi-


fícios de habitação, muito comércio,
escolas, divertimentos, cinemas, cafés,
bares, restaurantes. Toda aquela popu-
lação, que se imaginava pudesse vir a
viver ali, acabaria por chamar e justifi-
car esse tipo de acontecimentos.
Uma das ideias fortes do Estudo era
chamar a atenção de todos nós para o
facto de Lisboa não poder continuar a
fugir para norte, de Lisboa ter que pa-
rar, ter que acordar com outras autar-
quias, a criação, à volta do Tejo, à volta
desta bacia tão grande, de um grande
centro de distribuição.

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PTP: Koolhaas lançou Delirious New informes, com alturas variadas, cheias mente na zona do Saldanha: há ali bas-
York, na década de 70, mais tarde, na de “prateleiras” e mezzaninos, com uns tante gente a circular a pé, de centro co-
década de 90 saiu a primeira El Croquis a almoçar em cima, outros a jantar em mercial em centro comercial, à hora de
conjunta com os OMA e pouco tempo baixo, outros a consumir ao lado, e os almoço, para ir aos restaurantes, para ir
antes da elaboração deste seu projec- carros a entrar por trás — enfim, o sho- aos cafés à volta. Há uma vida qualquer,
to para a Margueira, saiu o SMLXL, em pping center… O que não é, de todo, muito por causa daquela concentração
95-96. Poderá estabelecer-se alguma a minha ideia de cidade; é uma ideia de escritórios. O Saldanha era um bom
relação entre pesquisa realizada para pouco amável e pouco solidária, como, sítio para se construírem umas torres
os antigos estaleiros da Lisnave e as aliás, se tem visto. O SMLXL de Koo- “valentes”, muito grandes, que fizesse
propostas que Koolhaas apresentava, lhaas nunca me entusiasmou muito; daquele lugar uma mini-city. Isso gera-
PTP: Esta questão de se chamar para a “Manhatanização” e verticaliza- enfim, é um livro interessante, não es- ria muito mais movimento à volta, mui-
“Manhattan de Cacilhas”… ção das cidades? tou a desfazer, mas não foi lá, de modo to mais cinemas, muito mais cafés, mais
MGD: Isso foi um nome jornalístico. MGD: Não! Eu, por sinal, acho um pou- algum, que fomos beber. Aliás, não be- bares, mais lojas disto e daquilo, taba-
“Manhattan de Cacilhas” foi uma desig- co antipática a figura de Rem Koolhaas bemos em lado nenhum. Teve graça: o carias, quiosques de jornais, o que se
nação que apareceu logo na primeira e acho sempre os seus livros panfle- nosso cliente, quando nos contactou, queira. Surgiu agora uma nova polémi-
notícia no Expresso. Nós chamávamos- tários demais —percebo que seja ne- começou por nos perguntar se conhe- ca, porque foi aprovada, para a zona do
lhe “A elipse”, por razões óbvias, por- cessário ser panfletário, Le Corbusier cíamos as grandes cidades do Oriente, Saldanha, uma torre dos Barbas Lopes
que havia uma elipse que “continha” também o foi, é sempre necessário Singapura, Tóquio, Hong-Kong. Nós Arquitectos; mas é uma torre só com
aquele território. O nosso cliente cha- exagerar-se para que as novas ideias conhecíamos, tanto eu como o Egas já 17 andares! — era bom era que tives-
mava-lhe Margueira, porque era por acabem por criar algum peso e haja tínhamos estado nessas cidades. “Ah, se 40 ou 50, mas, se já assim, começa
esse nome que era conhecida a zona uma certa adesão. Mas vi muito esses ainda bem! e gostaram?”. “Gostámos, tudo aos gritos... -, A demagogia maior é
antes da Lisnave se ter instalado. “Ma- livros, sobretudo o SMLXL, como uma gostámos”. “Queríamos que vocês tentar passar-se a ideia de que, quando
nhattan de Cacilhas” foi um soundbite espécie de legitimação de uma arqui- pensassem numa solução que tivesse há uma torre, aumenta logo o número
jornalístico que depois mais ninguém tectura comercial pouco interessante, esse espírito, essa verticalidade, essa de automóveis, o que é absurdo! É o
largou, porque era fácil e era elucida- uma espécie de legitimação dos gran- diferenciação, mas não queremos gas- contrário: como aumenta a densidade,
tivo, digamos assim. A nossa ideia não des shoppings centers, ou das grandes tar mais dinheiro em viagens porque a variedade também aparece, natural-
era fazer nenhum Manhattan, mas per- torres especulativas de arquitectura já levámos um arquitecto a visitar es- mente; não é preciso andar de automó-
cebemos a alusão, por analogia com “tanto faz”. Rem Koolhaas gosta mui- sas cidades todas e, no fim, disse-nos vel, as coisas ficam mais perto umas das
o skyline. Havia, contudo, uma ligeira terminantemente que não concordava outras, e ao fim do dia metemo-nos no
to da cidade indistinta, genérica, mas
tentativa de desqualificação, nesse nada com a ideia de torres!” metro e vamos para casa (enfim, quem
quando lhe colocaram um edifício por
nome; Cacilhas está associada a uma Há muito esta noção, um pouco pere- viver em zonas servidas pelo metro,
trás da Casa da Música, ficou muito
grina e parola, de que as torres são um pelo menos). Com milhares de casi-
zona fora de Lisboa, onde se vai aos aflito. Eu acho que a cidade genérica
símbolo da cultura americana. E é preci- nhas espalhadas pelo território ficamos
domingos comer umas coisas e beber é uma realidade, não podemos fugir
samente o contrário: não haverá maior dependentes do automóvel; para ir da
uns copos. Não digo que fosse consi- dela, não podemos ter uma cidade só
símbolo da cultura americana que os minha casinha à casinha do meu amigo,
derada uma zona saloia, mas tinha um feita por arquitectos — e ainda bem,
milhares de casotinhas com quintal cinco quilómetros à frente, lá vou eu de
pouco essa conotação. “Manhattan de prefiro uma cidade feita por toda a
que se espalham por aí, pelo País fora. automóvel, ou para ir ao café, ou para ir
Cacilhas” correspondia a um somatório gente; no fundo, como sempre foi, com
Penso que não fazia mal nenhum à mar- ao cinema... Se eu viver verticalmente,
subtilmente achincalhante; mas achá- os arquitectos a darem o seu contribu-
gem sul ter ali uma zona com alguma tenho elevadores que sobem e descem
mos graça. to, a tentarem introduzir sentido em concentração. Sou um grande adepto rapidamente e, em baixo, uma zona
coisas que já existem ou em coisas que da concentração porque acho que em relativamente pequena onde me mo-
venham a existir. Em todo o caso, a cul- concentrado acontecem mais coisas, vimento facilmente e onde muita vida
tura do shopping center irrita-me bas- mais situações, mais oportunidades do pode acontecer — era o que queríamos
tante. Vejo-a muito com a sua origem que em situações de sprawl, de constru- que viesse a suceder, dentro daquele
naqueles heróis dos anos de 1960, que ção espalhada e de “urbanismo difuso”, território definido pela “Elipse”.
agora estão na moda, os “Team X”, que onde é mais difícil, o que quer que seja,
defendiam muito grandes estruturas, acontecer. Percebe-se muito timida-
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via do Castelo, o que se via a partir do Até aconteceu uma coincidência ainda
topo da Rua do Alecrim, do fim da D. mais engraçada. O canal de cabo que é
Carlos, etc. que, no fundo, constituiam hoje a “Sic Notícias” começou por ser
a comprovação da “tese” que tínha- o “Canal Lisboa”, e teria arrancado por
mos elaborado durante o estudo inicial essa altura. José Couto Nogueira, que
e que queríamos testar se estaria mais era um dos responsáveis editoriais do
ou menos certa. Essas imagens gera- canal, fez-nos uma entrevista, relativa-
ram uma avalanche com proporções mente longa, ilustrada com as maque-
que não imaginávamos. Tiveram um tes e com pedaços de um vídeo de ani-
sucesso bastante grande, muitos jor- mação que também tinha sido feito no
nalistas queriam falar connosco sobre âmbito do Estudo. Pouco tempo de-
o assunto e solicitavam-nos imagens pois, o “Canal Lisboa” acabou e ficou,
para ilustrar as reportagens. Nós ía- para aí, três ou quatro meses a “pisar
mos-lhes fornecendo fotomontagens, ovos” e a repetir conteúdos. Uma das
fotos das maquetas e aquilo ia apare- coisas que repetiam era essa nossa en-
cendo em vários jornais. Imagens dife- trevista. Mas repetiam-na imenso; a
rentes e variadas que tinham que ver entrevista fartou-se de ir para o ar! De
com o trabalho e não, necessariamen- tal maneira que, em várias ocasiões,
te, com estratégias; não se tratou de, amigos ou alunos vinham ter comigo
“criar aqui 30 imagens para alimentar a dizer-me que me tinham visto na tele-
imprensa”. O que aconteceu foi muito visão no dia anterior. Estava sempre a
natural, muito espontâneo, muito fru- passar em loop, o que, mais uma vez,
to da curiosidade que os media enten- também não foi pensado nem propo-
deram dispensar à proposta. sitado. Entretanto, os jornais sempre a
pressionar e a pedir imagens. Depois,
Maria Emília de Sousa, a Presidente da
Câmara de Almada, como estava con-
tra o processo, convocava escandaliza-
das conferências de imprensa, o que
Alexandra Areia (AA): Em relação à ima- ainda dava mais publicidade ao tema.
gem, à imagem do projecto, à comuni- Foi tudo crescendo por si só.
cação que quiseram fazer do projecto. Acabou, foi um pouco ingloriamen-
Por exemplo, Paulo Varela Gomes fala AA: Gostaríamos de perceber um pou- te, passado um ano ou dois, quando o
que as fotomontagens deste projecto co essa estratégia de comunicação e Engenheiro Sócrates, à época Ministro
constituem “um dos grandes momen- do impacto que teve posteriormente do Ambiente, andava por todo o lado
tos da história multissecular de Lisboa.” nos media. a querer implodir torres e, em Viana
MGD: Isso é muito exagerado... MGD: A palavra “estratégia” não se do Castelo, aos gritos contra o “Pré-
adequa; quem tinha uma estratégia era dio Coutinho”, dizendo que iria acabar
o nosso cliente. O nosso cliente preten- com os “erros urbanísticos”. Foi então
dia, realmente, um Estudo com impac- que um jornalista lhe perguntou o que
to, porque necessitava de dialogar com pensava da “Manhattan de Cacilhas” —
a tutela (o Ministério das Finanças), a “Enquanto eu for Ministro do Ambiente
partir dessa oportunidade de discussão nunca, jamais, se construirão edifícios
pública que acabou por acontecer. No em altura, em Portugal. Jamais!”. E o
final do trabalho fizemos maquetas de Expresso, no dia seguinte, logo na pri-
apresentação, bem como uma série de meira página: “‘Manhattan de Cacilhas’
fotomontagens para explicitar o que se chumbada pelo Ministro do Ambiente”.
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PTP: Este projecto feito nos anos 90
representa o optimismo que estava
presente naquele período, contudo,
olhando agora para trás, passados 15
anos, podemos adivinhar que, de certo PTP: E hoje em dia como vê as possibili-
modo, estava já presente um certo pre- dade de desenvolvimento do estuário do
núncio da crise que veio a acontecer Tejo. Fala-se muito no porto de Lisboa,
depois. Estas torres altas, a desmesura mas quase sempre no sentido de tentar PTP: Olhando hoje em dia para este
presente numa escala a que não esta- encontrar um novo local para oimplan- território, quais poderiam ser as gran-
mos habituados, pode ser vista como tar. Como é que vê esta relação da cidade des orientações para o futuro da área
indício daquilo que viria a ocorrer? com o porto e sobretudo com o rio? metropolitana de Lisboa?
O nosso cliente, o Dr. Ricardo Nunes, MGD: Creio que não. Eram anos de MGD: Eu gosto da ideia do porto estar MGD: Continuo a achar que é um des-
Presidente do Fundo Margueira Capi- uma certa euforia, eram anos em que onde está; sou completamente contra perdício esta superfície de água não
tal, um Fundo criado pelo Ministério se imaginava que este tipo de desen- aquela ideia de retirar os contentores ser vivida mais intensamente, no sen-
das Finanças para gerir o problema das volvimento era possível. Se formos para fazer esplanadinhas à volta da tido do trabalho e do dia-a-dia. Faz-me
dívidas da Lisnave, que tinham ido pa- contabilizar os metros cúbicos de cons- água. Quanto mais situações de traba- imensa impressão a questão do aero-
rar às mãos do Estado no tempo dos trução que foram feitos desde essa lho envolvidas, quanto mais vivências, porto. A base área do Montijo tem ou
Governos de Cavaco Silva, precisava de época, até hoje, mesmo com crises, quanto mais vida real neste Estuário — não tem condições para a aterragem
dialogar com o Ministro que o tutelava nessas tais periferias anónimas, à volta que é fabuloso, que é extensíssimo e, de voos? Estaria ainda bem perto do
mas o Ministro não o recebia, não que- de Lisboa, provavelmente chegaríamos ao mesmo tempo, tão abrigado, com centro da Lisboa, qualquer shuttle
ria saber; interessava-lhe, como tal, um a valores mais altos que o tal milhão de condições tão óptimas para uma sé- poderia ligar-nos às principais redes
pouco de barulho à volta do projecto, metros quadrados que nos era pedi- rie de actividades aquáticas —, mais de transporte metropolitano; não sei
mas mesmo Ricardo Nunes nunca terá do. Acho que se construiu na mesma, cidade teremos à volta dele. Sou com- se não seria uma ideia a desenvolver.
pensado que a sua “estratégia” (ele não se construiu foi num determina- pletamente contra a hipótese de tirar Também seria muito bonito, os aviões
sim, tinha uma “estratégia”), chegasse do sítio, com uma determinada ideia o porto de Lisboa daqui; o que vale é a baixarem e a aterrarem em cima des-
tão longe... O Dr. António Costa, que e com uma determinada filosofia de que essas coisas também nunca pas- ta enorme massa de água; é pena é
era Ministro da Administração Interna, desenho ou de cidade. É verdade que sam de “ameaças”. Eu adoro o porto, que já não haja hidroaviões (no princí-
telefonou-me porque tinha curiosi- chegámos, de há dois ou três anos para adoro a variedade que propõe. Gosto pio da aviação, amaravam hidroaviões
dade em conhecer o Projecto. Fomos cá, a uma situação em que parece ter dos navios de cruzeiro a entrar e a sair, ao largo dos Olivais; lembro-me de
também, noutra ocasião, mostrá-lo ao parado a construção. Mas durante 12 dos navios de carga ao largo, à espera ser miúdo e ir ver um hidroavião que
Ministro das Obras Públicas, Dr. Jorge anos, até a crise bater forte, foi-se sem- de vez, dos guindastes, da linha férrea apodrecia no meio da doca). Esta vi-
Coelho No entanto, o Ministro que de- pre construindo. Em vez de ser naquela ao longo dos cais repletos de contento- vência aqui à volta talvez pudesse ga-
veria ter tomado as decisões, acabou zona, foi, foi noutros sítios. res que vão viajar, que vão para outros rantir que a grande cidade deixasse de
por não tomar nenhuma. sítios. A maior parte das pessoas não crescer noutras direcções. Temos que
valoriza a civilização que a ideia de con- criar condições para que a cidade não
tentor contém, passe a redundância. cresça tanto em extensão. Para mim,
É uma ideia que me interessa muito, o crescer em extensão é o que estraga
defendo-a muito perante os alunos de tudo, é o que espalha mais, o que traz
Arquitectura. mais automóveis, o que impede mui-
to a possibilidade de uma distribuição
concentrada dos serviços. Tudo isso
poderia ser revertido, com uma espé-
cie de paragem do crescimento desor-
denado da Grande Lisboa e com uma
reestruturação das possibilidades de
construção nestas áreas tão bonitas à
volta do Estuário do Tejo.
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Manuel Graça Dias Alexandra Areia
Professor da Faculdade de Doutoranda no Programa Ar-
Arquitectura da Universidade quitectura dos Territórios Me-
do Porto, Contemporânea, Lda; tropolitanos Contemporâneos.
Autor com Egas José Vieira Investigadora Dinâmia-CET.
do Projecto de Reconversão ur- Inês de Castro Monteiro
bana do estaleiro da Margueira Doutoranda no Programa Ar-
em Almada. quitectura dos Territórios Me-
Paulo Tormenta Pinto tropolitanos Contemporâneos.
Director da Revista PASSAGENS Investigadora Dinâmia-CET.
e do Programa de Doutoramen-
to Arquitectura dos Territórios
Metropolitanos Contemporâ-
neos. Investigador, Dinâmia-CET
e CIAAM.

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