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Universidade do Minho

Veloso, Susana Maria Mariano dos Santos


Determinantes da actividade física dos
adolescentes : estudo de uma população escolar
do concelho de Oeiras
http://hdl.handle.net/1822/4800

Metadados
Data de Publicação 2005
Tipo masterThesis

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Capítulo 3
MODELOS PREDITIVOS DA ACTIVIDADE FÍSICA

Introdução

A multiplicidade de factores susceptíveis de influenciar a actividade física como


um comportamento de saúde motivado, desde a infância à terceira idade, tem suscitado o
desenvolvimento de diversas teorias e modelos para auxiliar os investigadores a identificar
as variáveis que se crê estarem mais fortemente relacionadas com a actividade física.
Culos-Reed, Gyurcsik e Brawley (2001) fizeram uma selecção cujos critérios foram previa
e rigorosamente estabelecidos, e elegeram quatro teorias como sendo as mais validadas em
termos científicos: a teoria do comportamento planeado (Ajzen, 1985); a teoria da auto-
eficácia (Bandura, 1997); a teoria socio-cognitiva (Bandura, 1986) e o modelo transteórico
(Prochaska, DiClemente & Norcross, 1992). Embora as duas primeiras tenham uma base
de investigação substancial, permitindo efectuar revisões, as duas últimas, alvo de menos
estudos, são o fundamento para numerosas investigações sobre intervenções na actividade
física (Culos-Reed et al., 2001).
Estas teorias postulam que o Ser Humano é orientado para objectivos, e é capaz de
tomar decisões racionais, prevenir e planear, ou seja, de auto-regular as suas acções
(ibidem). Apresentamos, a título ilustrativo, um exemplo da aplicação destes modelos na
adesão ao exercício físico (Brawley & Culos-Reed, 2000; Maddux & Lexis, 1995 cit. in
Culos-Reed et al., 2001):
Os participantes em actividade física, estruturada ou não estruturada,
experimentam sucesso e fracasso à medida que tentam aderir ao longo do tempo.
Com base nessas experiências, tentam geralmente adaptar os seus
objectivos/intenções e regular os seus esforços de adesão. Dado o processo de
adaptação cognitiva e comportamental que se faz através da aprendizagem social,
não constitui surpresa que os indivíduos variem a frequência, esforço, duração e
tipo de comportamento de exercício, assim como a sua adesão (p. 697).
Modelos preditivos da actividade física

A revisão efectuada para o nosso estudo incide, essencialmente, em dois destes


modelos, a teoria do comportamento planeado (Ajzen, 1985) e o modelo transteórico
(Prochaska et al., 1992). Apresentamos, em seguida, estes dois modelos, e posteriormente
uma tentativa de integração de ambos, proposta por Courneya e Bobick (2000).

1. Teoria do Comportamento Planeado

A teoria do comportamento planeado (Ajzen, 1985) desenvolveu-se a partir da


teoria da acção reflectida (Ajzen & Fishbein, 1975, 1980), à qual foi adicionado o conceito
de percepção de controlo do comportamento.
A teoria da acção reflectida foi desenvolvida para explicar comportamentos
motivados, que dependem da vontade do indivíduo. No que concerne ao exercício físico, o
comportamento é determinado pelas próprias intenções de desempenhar ou não o
exercício. Assim, as intenções são o preditor imediato e único do comportamento nesta
teoria. Por sua vez, os determinantes das intenções são as atitudes acerca do exercício e a
influência das forças normativas sociais (i.e., normas subjectivas) (Culos-Reed et al.,
2001).
O reconhecimento de que as intenções não levam ao comportamento quando existe
incapacidade de desempenho, barreiras situacionais ou incerteza das próprias intenções
(Dishman, 1993), permitiu o desenvolvimento da teoria do comportamento planeado. De
facto, a percepção de controlo do comportamento, para além das intenções, como mais um
factor preditivo do comportamento, permite incluir no modelo os comportamentos não
motivados, ou seja, aqueles que não dependem da vontade própria.
Este facto é importante porque estende a aplicabilidade da teoria para além do
comportamento facilmente executável (comportamento motivado), aplicando-se, também,
a comportamentos e objectivos complexos que dependem do desempenho de uma série
complexa de outros comportamentos, mas que são consideravelmente importantes em
termos de resultados para a saúde (e.g. deixar de fumar, aderir a uma alimentação saudável
e aderir a uma vida mais activa, abandonando hábitos sedentários) (Conner & Spark,
1996). Estabelece-se, assim, a hipótese de que existe uma ligação directa entre a percepção
de controlo do comportamento e os comportamentos não motivados, tal como o exercício

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Modelos preditivos da actividade física

onde o indivíduo, independentemente da sua intenção, pode enfrentar limitações reais ou


percebidas para aderir à actividade física (Culos-Reed et al., 2001).
A teoria do comportamento planeado propõe que a intenção de uma pessoa para
executar um comportamento é o determinante fundamental desse comportamento, porque
reflecte o nível de motivação da pessoa e a prontidão para implementar esforços no
desempenho do comportamento (Courneya et al., 2000; Conner & Spark, 1996).
A intenção, por sua vez, é determinada pela atitude, pela norma subjectiva e pela
percepção de controlo do comportamento. Vejamos na Figura 4.1:
- A atitude reflecte-se numa avaliação positiva ou negativa do comportamento
executado (e.g. bom/mau; favorável/desfavorável);
- A norma subjectiva reflecte a percepção da pressão social que os indivíduos
podem sentir para executar ou não o comportamento;
- A percepção de controlo do comportamento é definida como a percepção da
facilidade ou dificuldade em executar o comportamento, e que, também, pode
influenciar directamente o comportamento se isso for a reflexão exacta do
actual controlo da pessoa sobre o comportamento (Courneya et al., 2000). Este
conceito é semelhante ao conceito de percepção de auto-eficácia de Bandura
(1982) que consiste na crença pessoal nas capacidades para desempenhar um
determinado comportamento, e atingir determinado resultado (Schwarzer &
Fuch, 1996).

Figura 4.1 Teoria do Comportamento Planeado

Crenças Comportam.
Atitude
x
Avaliação Resultados

Crenças Normativas Norma Comportamento


Intenção
x Subjectiva
Motivação para Agir

Crenças de Controlo Percepção de


x Controlo do
Poder de Controlo Comportamento

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Modelos preditivos da actividade física

Como se pode ver na Figura 4.1 este modelo propõe ainda, que na base de cada um
destes três determinantes está subjacente um grupo de crenças que constitui o elemento
chave para a intervenção, para além de outros factores determinantes específicos dos três
mediadores da intenção.
A atitude é a percepção que o indivíduo tem sobre as vantagens e desvantagens, as
consequências e importância das consequências em relação ao comportamento em causa
(Matos & Sardinha, 1999). É, assim, determinada por crenças salientes em relação ao
comportamento - crenças comportamentais -, e pela avaliação pessoal das consequências
desse comportamento – avaliação das consequências - (Calmeiro & Matos, 2004). De
outra forma, podemos dizer que as atitudes são função de crenças sobre a percepção das
consequências em desempenhar um comportamento e a avaliação pessoal dessas
consequências (Culos-Reed et al., 2001). Por exemplo, um indivíduo que pratica
actividade física regularmente pode acreditar que o exercício é importante para se manter
saudável (crença no comportamento) e, por outro lado, valorizar muito esse estilo de vida
(avaliação das consequências). Estas crenças podem ser adquiridas, directamente, através
da experiência pessoal ou, indirectamente, através da interacção com os outros (família,
pares, escola, comunidade, meios de comunicação, etc.).
A norma subjectiva consiste na percepção do indivíduo acerca das influências
sociais. É determinada pelas crenças normativas do indivíduo, isto é, a percepção do que
os outros significativos pensam acerca do que o indivíduo deve ou não deve fazer e, por
outro lado, pela motivação que o indivíduo tem para corresponder às expectativas desses
significativos (Calmeiro & Matos, 2004). Representa, no fundo, a pressão para a adesão ao
comportamento por parte dos outros significativos, sendo função da percepção das
expectativas dos outros significativos (crenças normativas) e da motivação para cumprir
essas expectativas (motivação para agir) (Maddux et al., 1995 cit. in Culos-Reed et al.,
2001). Por exemplo, se o indivíduo acredita que a sua mulher quer que ele se mantenha
activo e valoriza a opinião dela, as suas normas subjectivas para o exercício serão
elevadas, o que irá influenciar positivamente as suas intenções.
A percepção de controlo do comportamento é determinada por dois factores: as
crenças de controlo, que constituem as percepções dos recursos e oportunidades de
realização do comportamento e as percepções acerca das barreiras previstas, por um lado;
e o poder de controlo, que consiste na percepção de domínio que o indivíduo exerce sobre

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Modelos preditivos da actividade física

as crenças de controlo (Calmeiro & Matos, 2004). Deste modo, “cada crença de controlo é
atenuada por uma correspondente medida de percepção de poder” (Godin, 1994 cit. in
Calmeiro & Matos, 2004, p.142).
Deste modo, pode-se afirmar que quanto mais favoráveis forem as atitudes e as
normas subjectivas em relação a um comportamento, e quanto maior for a percepção de
controlo desse comportamento, mais forte será a intenção da pessoa para realizar esse
comportamento Ajzen (1991). Por outro lado, as pessoas que acreditam não ter recursos ou
oportunidades para realizar um determinado comportamento têm menor probabilidade de
formar intenções comportamentais para a sua realização, independentemente de manterem
atitudes favoráveis em relação ao comportamento e acreditarem que os outros
significativos aprovariam a realização desse comportamento. Para além deste efeito
indirecto da percepção de controlo do comportamento sobre o comportamento (via
intenção), a teoria do comportamento planeado sugere também a possibilidade de um
efeito directo. No entanto, Ajzen (1991) salvaguarda que este efeito só ocorre quando a
percepção de controlo do comportamento reflecte com precisão o controlo real sobre a
realização do comportamento (razão do efeito directo apresentado em tracejado – ver
Figura 4.1).
Um exemplo prático aplicado ao comportamento de actividade física pode ser um
adolescente que considera que a prática de actividade física é efectivamente benéfica, não
só como forma de perder algum peso, mas também como forma de obter a condição física
suficiente (atitude). Os pais e os amigos são unânimes na opinião de que a prática de
alguma actividade física, para além das aulas de educação física, será benéfica e profícua
(norma subjectiva). Contudo, o adolescente apresenta uma baixa percepção da sua
competência para praticar actividade física no ginásio mais próximo, pois os tipos de
actividade existentes não são aqueles para que se sente mais capacitado (percepção de
controlo do comportamento). Por este motivo, o adolescente tem uma baixa intenção para
praticar actividade física, apesar de apresentar atitudes e normas subjectivas favoráveis.
De acordo com Conner e Spark (1996) a percepção de controlo do comportamento
é ainda influenciada por factores de controlo interno (inerentes ao próprio indivíduo), e
factores de controlo externo (dependentes da situação).
Os factores internos envolvem, por um lado, informação sobre o comportamento e
competências para a sua realização, e por outro, as emoções, o stress e compulsões. Para

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Modelos preditivos da actividade física

modificar o primeiro grupo de factores, podemo-nos servir da experiência, da aquisição de


informação e da aprendizagem das competências necessárias, aumentando, assim, o grau
de controlo. Modificar o segundo grupo de factores revela-se mais difícil, pois um
indivíduo que está sobre pressão emocional não tem qualquer controlo sobre o seu
comportamento, não sendo, por isso, responsável por este (Simões, 1999).
Os factores externos podem também ser agrupados em dois grupos: oportunidades
e dependência de outros. No primeiro caso, se a oportunidade é decisiva para a realização
de um comportamento, a falta de oportunidades indica a existência de um obstáculo
envolvimental à sua execução, e que poderá alterar a intenção de o executar. A
dependência dos outros influencia na medida em que o indivíduo necessita que o outro
esteja disposto a colaborar para a realização do comportamento (Simões, 1999).
É neste sentido que Ajzen (1987) salienta que a maioria dos comportamentos se
situa entre dois extremos opostos do continuum que representa a percepção de controlo do
comportamento, ou seja, entre a facilidade e dificuldade em realizar o comportamento
(Simões, 1999). Num extremo situam-se os comportamentos “fáceis” de realizar e, por
isso, com escassos problemas de controlo. No outro extremo estão os comportamentos
“difíceis” de realizar, e sobre os quais se tem pouco controlo, porque exigem recursos e
capacidades especiais. Passear pela rua ou ver montras é, por exemplo, uma acção sem
problema de controlo, mas adoptar um regime de actividade física regular quando se é
sedentário, deixar de fumar ou de beber, são acções que colocam muitos problemas de
controlo (ibidem). É por esta razão que as pessoas provavelmente aderem mais a
comportamentos agradáveis e desejáveis, sobre os quais têm controlo, e tendem a
abandonar comportamentos sobre os quais o controlo é mais difícil (Conner & Spark,
1996).

Críticas à teoria do comportamento planeado


Os estudos sobre a aplicação da teoria do comportamento planeado no domínio do
exercício e actividade física têm sido objecto de várias revisões teóricas, desde os anos 80
(Culos-Reed et al., 2001). As revisões, principalmente estatísticas e conceptuais, reforçam
substancialmente a teoria do comportamento planeado como uma abordagem útil no
estudo do comportamento de actividade física e de exercício. Em média, as variáveis
atitude, norma subjectiva e percepção do controlo do comportamento explicam 40 a 60%

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Modelos preditivos da actividade física

da variância das intenções comportamentais, e 20 a 40% da variância do comportamento.


Por outro lado, os componentes do modelo que receberam maior suporte no domínio da
actividade física foram a atitude e a percepção de controlo do comportamento. Todavia,
não é claro se isso se deve ao contexto, aos participantes, ao tipo de comportamento
estudado ou à natureza das medidas dessas variáveis (Culos-Reed et al., 2001).
Segundo Courneya e McAuley (1993), muitos estudos sobre a teoria do
comportamento planeado violaram pressupostos relativos à operacionalização e medição
dos constructos teóricos, pondo em causa a validade e fiabilidade das descobertas sobre a
actividade física (cit. in Culos-Reed et al., 2001). Com base no exemplo das normas
subjectivas, verifica-se que estas são, frequentemente, o preditor mais fraco das intenções,
o que poderá ser devido a diversos factores: o tipo de comportamento que estamos a
estudar (no caso da actividade física e exercício não é visto como importante o papel dos
outros significativos no encorajamento da participação dos indivíduos já envolvidos, em
determinado grau, na actividade física); a inadequada operacionalização deste constructo,
frequentemente confundido com o apoio social (pois será que são as crenças e desejo dos
outros significativos em ver-nos activos – i.e., normas subjectivas - que nos motivam, ou é
o apoio e elogio que recebemos deles que nos dá segurança e confiança para experimentar
a actividade física – i.e., apoio social).
Outra perspectiva interessante destas revisões ao modelo é a sugestão de adicionar
outros componentes aos estudos existentes sobre a teoria do comportamento planeado para
aumentar a sua capacidade preditora (Culos-Reed et al., 2001). Por exemplo, o hábito
(operacionalizado como o comportamento de exercício ou actividade física anterior) tem
sido sugerido em muitos estudos como um preditor independente das intenções e do
comportamento (ibidem). Num estudo de Norman e Smith (1995, cit. in Rosen, 2000),
sobre a prática de exercício, e que foi dividido em duas fases, a primeira envolvendo a
medição das variáveis da teoria do comportamento planeado, e a frequência da prática de
exercício e a segunda (seis meses depois) envolvendo a medição da frequência do
exercício, os resultados demonstraram que o melhor preditor do comportamento de
exercício futuro foi o comportamento anterior. Em suma, segundo os autores, a intenção
não prediz a actividade física quando o comportamento anterior é considerado preditor.
Ainda nesta perspectiva, Madldux e DuCharme (1997) propõem uma revisão da teoria do
comportamento planeado considerando que o efeito da intenção e do hábito no

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Modelos preditivos da actividade física

comportamento de exercício varia com o tempo: a intenção prediz a adesão inicial,


enquanto o hábito e a sugestão predizem a manutenção (Rosen, 2000). Ou seja, se o
indivíduo é sedentário, a intenção pode determinar de uma forma pouco evidente a
adopção de exercício regular; se o indivíduo já se exercita ocasionalmente, a intenção pode
determinar de forma evidente a adopção do exercício regular; mas, e uma vez que o
exercício regular se torna uma rotina este pode ser determinado pelo hábito, ou pelas
sugestões que o activam mais do que pela intenção (ibidem). Modelos baseados nas
intenções têm sido expandidos, de forma a considerar o papel directo do comportamento
anterior na previsão das acções posteriores (Aarts, Verplanken & Knippenberg, 1998 cit.
in Rosen, 2000).
No caso particular dos adolescentes, a teoria do comportamento planeado
contribuiu apenas em 6% da variância da actividade física moderada a vigorosa quando
esta é medida de forma objectiva (Trost, Saunders & Ward, 2002). Uma variedade de
modificações e extensões à teoria do comportamento planeado têm sido propostas,
nomeadamente, procedimentos para melhorar a avaliação das crenças salientes,
comportamento anterior (ou hábito), normas morais, auto-identidade, afecto, e outros
(Conner & Armitage, 1998 cit. in Baranowski, 2003).

A selecção do modelo transteórico e a sua inclusão neste estudo deve-se à opinião


expressa por alguns investigadores de que a sobreposição conceptual entre a teoria do
comportamento planeado e o modelo transteórico, assim como o uso de conceitos dos dois
modelos, permite uma melhor compreensão da adesão ao exercício físico (Courneya,
1995; Rosen, 2000).

2. Modelo Transteórico das fases de mudança

O modelo transteórico de mudança comportamental, também designado por


modelo das fases de mudança ou simplesmente modelo transteórico (Prochaska &
DiClemente, 1992), desenvolveu-se com base nas intervenções relacionadas com os
comportamentos aditivos (dependência de tabaco, álcool e substâncias psicoactivas), tendo

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Modelos preditivos da actividade física

sido posteriormente aplicado a outros comportamentos de risco para a saúde, tais como a
inactividade física ou sedentarismo (Glanz, 1999).
O modelo representa um avanço teórico fundamental na compreensão de quando,
como e porquê as pessoas mudam os seus comportamentos relacionados com a saúde. O
pressuposto básico deste sucesso reside no facto de considerar a mudança comportamental
um processo e não um acontecimento, e de que os indivíduos têm diferentes níveis de
motivação ou disposição para a mudança. Assim, pessoas em diferentes fases do processo
de mudança podem e devem beneficiar de intervenções distintas e diferenciadas, mais
adequadas à fase em que se encontram no momento (Glanz, 1999).
Deste modo, o conceito central do modelo transteórico (Prochaska e DiClemente &
Norcross, 1992) é a dimensão temporal representada pelas cinco fases de mudança, que as
pessoas atravessam quando decidem mudar o comportamento de saúde. As cinco fases
identificadas vão desde o nem pensar em qualquer mudança de comportamento (fase pré-
contemplativa), até à fase em que mantêm com sucesso essa mudança (fase de
manutenção). Cada etapa é progressiva, ou seja, o indivíduo passa de uma total ausência
de atenção à necessidade de mudança, para o pensar activamente na mudança.
Posteriormente, passa aos preparativos para a mudança, ao inicio da mudança em si e,
eventualmente, à sua manutenção. Apresenta-se como um modelo circular e não linear,
uma vez que as pessoas podem evoluir ao longo das fases, assim como sair em qualquer
ponto do processo, e por diversas vezes (Glanz, 1999; Culos-Reed et al., 2001). Por outro
lado, estudos comprovaram que mesmo as pessoas que não recorrem a ajuda profissional
para a mudança comportamental, se recorrerem a métodos de auto-ajuda ou de auto-
gestão, passam pelas mesmas fases que os indivíduos que procuram ajuda profissional, ou
que se inscrevem em programas de intervenção organizados e estruturados (Glanz, 1999).
Relativamente à aplicação deste modelo ao exercício e actividade física, a
descrição geral das cinco fases de mudança comportamental varia muito de acordo com o
programa de exercício e com a forma como é executado (se é auto-administrado ou
supervisionado) (Culos-Reed et al., 2001):
1. Fase de pré-contemplação – nesta fase, os indivíduos não têm intenção de
mudar o comportamento, simplesmente, porque não estão preparados para o fazer.
Não têm percepção da necessidade de mudança. Um critério (relacionado com o

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Modelos preditivos da actividade física

exercício) para identificar esta fase é “a inactividade corrente e a ausência de


intenção em tornar-se activo nos próximos seis meses”;
2. Fase de contemplação – nesta fase, os indivíduos pensam na necessidade
de mudar porque estão atentos a isso. Por exemplo, ao nível de inactividade física e
aos factores de risco associados. Todavia, não existe ainda compromisso com a
mudança que se está a repensar. As pessoas podem fazer considerações importantes
acerca das estratégias que permitiriam a mudança (e.g. inscrever-se num ginásio), e
acerca dos resultados que poderiam obter (i.e., expectativas de resultado). Um
critério para esta fase é “pensar frequentemente em iniciar um programa de
exercício, possivelmente dentro de seis meses”;
3. Fase de preparação – nesta fase, os indivíduos fazem tentativas para
mudar e têm uma forte intenção de fazer mais tentativas no futuro. São
desenvolvidos alguns esforços para a mudança, particularmente, utilizando as
estratégias que se revelaram mais eficazes no desencadear dessa mudança. Estes
indivíduos podem ter fortes incentivos (para mudar) baseados em visões optimistas
sobre os resultados com os quais poderão beneficiar. São avaliados recursos e
efectuados planos de acção de acordo com isso. Um critério para esta fase é “a
preparação corrente para iniciar o exercício ou adoptar níveis recomendados de
actividade física no próximo mês”.
4. Fase de acção – nesta fase, os indivíduos fazem tentativas deliberadas de
vencer a sua percepção ou os problemas reais, mudando o seu comportamento, as
circunstâncias ambientais e as suas experiências. O seu compromisso com a
mudança é grande e monitorizam os seus esforços de mudança, muitas vezes,
percepcionados como tentativas muito empenhadas. Um critério para esta fase é
“aderir a programas de actividade correntemente, mas durante menos de seis
meses”.
5. Fase de manutenção – nesta fase, os indivíduos focam-se no seu sucesso,
tentando evitar a recaída (e.g., parar de fazer exercício ou tornar a sua prática
irregular). O exercício é regular e as pessoas estão confiantes na sua capacidade
para manter esse comportamento. Tentam ultrapassar os obstáculos que surgem à
sua actividade física regular. Um critério desta fase é “a actividade física regular
por mais de seis meses” (p. 711).

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Modelos preditivos da actividade física

Para além deste conceito básico, o modelo transteórico propõe a medição de mais
três conceitos chave (Reed, 1999): a decisão balanceada (Janis & Mann’s, 1977), a auto-
eficácia (Bandura, 1997) e os processos de mudança (Prochaska et al., 1992).
A decisão balanceada é um constructo operacionalizado na medição da importância
relativa que o indivíduo coloca nas vantagens (prós) e desvantagens (contras) em fazer
exercício. Este conceito inclui quatro dimensões subjacentes aos benefícios da mudança
comportamental (prós): 1) benefícios utilitários para o próprio; 2) benefícios utilitários
para outros; 3) auto-aprovação; 4) aprovação dos outros. E quatro dimensões subjacentes
aos prejuízos da mudança comportamental (contras): 1) prejuízos utilitários para o próprio;
2) prejuízos utilitários para os outros; 3) auto-desaprovação; 4) desaprovação dos outros
(Reed, 1999). Quando os contras ganham mais importância que os prós, a motivação para
a mudança de comportamento (i.é., deixar de ser sedentário para iniciar exercício físico) é
baixa. Se, pelo contrário, os prós se sobrepõem aos contras, então a motivação para a
mudança é alta. Obviamente, que o balanço entre prós e contras varia em cada uma das
fases de mudança, sendo particularmente importante nas fases de mudança iniciais (pré-
contemplação, contemplação e preparação) (Culos-Reed et al. 2001; Reed, 1999).
A auto-eficácia1 é um constructo baseado nos trabalhos de Bandura (1997), e
reflecte o grau de confiança do indivíduo na sua capacidade para mudar o comportamento.
Ou seja, é o grau de confiança que o indivíduo tem para não adoptar um comportamento
problema numa situação tentadora ou conveniente, e o grau de confiança para adoptar o
comportamento positivo em situações desafiadoras (Reed, 1999). Deste modo, esta
confiança deve mediar as tentativas de mudança, tendo em conta as competências de auto-
regulação aprendidas para um comportamento alvo como o exercício. A auto-eficácia varia
de acordo com a fase de mudança, aumentando à medida que o indivíduo ganha confiança,
por exemplo, nas tentativas bem sucedidas de mudança do comportamento de exercício
(i.e., a experiência de mestria). Pelo contrário, a auto-eficácia deve diminuir se o indivíduo
desiste ou regride para um comportamento anterior (Culos-Reed et al., 2001).
Tal como a decisão balanceada, a auto-eficácia tem também dimensões subjacentes,
muitas delas ainda por clarificar. Na área do exercício, os afectos negativos podem
provocar situações que desafiam a adesão ao exercício regular, pois sentirmo-nos

1
A percepção de auto-eficácia pode determinar o facto de um indivíduo empreender um determinado comportamento, o
grau de persistência nesse comportamento perante as dificuldades e o sucesso do seu desempenho (Godin, 1994 cit. in
Calmeiro & Matos, 2004).

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Modelos preditivos da actividade física

cansados, deprimidos, ou zangados pode retirar-nos da nossa rotina, alterando-a.


Paradoxalmente, o exercício é uma excelente intervenção para aliviar o cansaço e stress.
Portanto, esses estados de afecto negativo deveriam ser pistas reforçadoras para a prática
de exercício (Reed, 1999). Por outro lado, as situações sociais positivas são menos um
desafio e mais um incentivo para o exercício regular, pois quanto mais as experiências de
exercício proporcionarem prazer e diversão maior é a adesão. Os grupos de reabilitação de
cardíacos mantêm-se nas classes de exercício originais vários anos devido à camaradagem
e experiências sociais positivas daí resultantes (Reed, 1999).
Finalmente, os processos de mudança propostos pelo modelo transteórico2 surgem
com o intuito de explicar como é que a mudança do comportamento ocorre. Estes
representam os comportamentos, as cognições e emoções que os indivíduos adquirem ao
longo do processo de mudança comportamental (Reed, 1999). São estratégias e técnicas
que as pessoas usam para mudar o seu comportamento à medida que evoluem pelas
diversas fases de mudança. Incluem actividades cobertas e abertas que os indivíduos usam
para modificar as suas experiências e ambientes, de forma a modificar o seu
comportamento (Prochaska & Velicer, 1997). Neste sentido, os dez processos de mudança
identificados dividem-se em cinco processos cognitivos ou experienciais e cinco processos
comportamentais ou ambientais. No Quadro 4.1 são apresentados cada um dos processos
de mudança, tendo por base os trabalhos de Marcus, Rossi, Selby, Niaura e Abrams (1992
cit. in Courneya & Bobick, 2000), e uma tradução e adaptação de Palmeira, Gomes e
Teixeira (2004) validada e apresentada recentemente no V Congresso de Psicologia da
Saúde.

2
O modelo Transteórico baseia-se no modelo de tomada de decisão. Procura explicar como as pessoas decidem
envolver-se num determinado comportamento. Por sua vez, esta decisão tem em conta a análise dos custos e benefícios
percebidos da adesão a um comportamento (Calmeiro & Matos, 2004).

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Modelos preditivos da actividade física

Quadro 4.1. Processos de mudança (Adaptado de Palmeira, Gomes & Teixeira, 2004; Marcus, Rossi,
Selby, Niaura & Abrams, 1992 cit. in Courneya, & Bobick, 2000)

Processo Definição
Cognitivo/Experiencial
Elevação da Consciência Esforços feitos pelo indivíduo na procura de novas
informações e na procura de perceber e receber feedback
acerca do comportamento problemático.
Alivio Dramático Aspectos afectivos da mudança envolvendo, muitas vezes,
experiências emocionais intensas relacionadas com o
comportamento problemático.
Reavaliação do Envolvimento Considerações e avaliação por parte do indivíduo sobre como
o comportamento afecta o envolvimento físico e social
Auto-Reavaliação Reavaliação cognitiva e emocional dos valores por parte do
indivíduo em relação ao comportamento problemático
Libertação Social Tomada de Consciência, disponibilidade e aceitação do
indivíduo de formas alternativas, sem problemas de estilos de
vida em sociedade.
Comportamentais/Envolvimento
Contra-condicionamento Substituição de comportamentos alternativos para o
comportamento problemático.
Relações de Ajuda Aceitação, confiança e utilização do suporte de outros
significativos durante as tentativas de mudança
Gestão do Reforço Alteração das contingências que controlam ou mantêm o
comportamento problemático
Auto-Libertação A escolha do indivíduo e o seu comprometimento para mudar
o comportamento problemático, incluindo a crença de que
pode mudar
Controlo de Estímulos Controlo das situações, outros sujeitos ou causas que pode
desencadear o comportamento problemático

Os processos de mudança, a auto-eficácia e os “prós e contras” receberam um


enorme suporte empírico no domínio do exercício em termos da discriminação das fases
de mudança (Marcus & Owen, 1992; Marcus, Selby, Niaura & Rossi, 1992 cit. in
Courneya & Bobick, 2000). No entanto, segundo Culos-Reed et al. (2001), as evidências
dos processos do modelo transteórico reveladas em estudos no domínio do exercício são
muito limitadas. Revela-se, portanto, difícil comprovar o papel que esta variável exerce na
adesão ao exercício físico.
Algumas das críticas ao modelo transteórico podem observar-se num estudo de
Rosen (2000) no qual o autor procurou integrar conceitos do modelo transteórico, da teoria
do comportamento planeado e do modelo da elaboração de probabilidade3 (Petty &

3
Tradução da Elaboration Likelihood Model (EML). O modelo da elaboração de probabilidade da mudança de atitude é
uma teoria com valor para a comunicação na saúde, aplicada nas intervenções através de aconselhamento. Mas, só
recentemente é que foi aplicada à promoção da saúde. Estabelece que as pessoas que ainda não vêm o exercício como

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Modelos preditivos da actividade física

Cacioppo, 1986) para compreender a forma como a prontidão para o exercício se


relacionava com o processamento de mensagens e a iniciação ao exercício entre estudantes
sedentários do liceu. Concluiu-se que a atitude prediz o processamento de mensagens, mas
as fases de mudança não. Assim, os jovens que têm uma atitude positiva face ao exercício
processam mais mensagens de promoção do exercício do que os que têm uma atitude
negativa ou neutra. Pôde-se ainda constatar que não foram encontradas diferenças no
processamento de mensagens entre pré-contemplativos, contemplativos e em fase de
preparação4.
Ainda no mesmo estudo, conclui-se que as fases de mudança e a intenção predizem
a adesão ao exercício até um a três meses de follow-up (n=134), com a actividade física de
linha de base ou exercício anterior, moderando o efeito da intenção. Ou seja, a intenção é
mais provável de conduzir ao exercício regular quando o estudante já praticou exercício
ocasionalmente na linha de base. Isto é consistente com o modelo transteórico que
presume que mudanças ligeiras na actividade física (preparação) intervêm entre a intenção
(contemplação) e a adopção de exercício regular (acção) (Rosen, 2000).
Estas conclusões sugerem direcções futuras para a integração da teoria do
comportamento planeado com o modelo transteórico. Foi, de facto, isso que Courneya e
Bobick (2000) tentaram fazer num estudo que será apresentado, em seguida.

3. Integração da Teoria do Comportamento Planeado com o Modelo


Transteórico

Com o objectivo de compreender como e porquê as pessoas mudam eficazmente o


seu comportamento de exercício Courneya e Bobick (2000) desenvolveram um estudo
cujo propósito era testar um modelo para a mudança do comportamento de exercício que
integrasse a teoria do comportamento planeado e os processos e as fases de mudança do
modelo transteórico. A hipótese inicial deste estudo de investigação era de que a relação
entre os processos de mudança e as fases de mudança seria mediada pelos construtos

uma preocupação pessoal dificilmente processam completamente a informação relacionada com o exercício (cit. in
Rosen, 2000).
4
Apesar de o mesmo autor ao ter colocado a hipótese de os pré-contemplativos se dividirem em crentes (valorizam o
exercício, mas assumem que não têm tempo) e os não-crentes (não valorizam o exercício), assumir que é menos provável
que os não crentes elaborem informação sobre o exercício (Rosen, 2000).

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Modelos preditivos da actividade física

sócio-cognitivos, incluídos na teoria do comportamento planeado (i.e., atitude, norma


subjectiva, percepção do controlo do comportamento e intenção).
Apesar da teoria do comportamento planeado e do modelo transteórico possuírem
muitas semelhanças conceptuais, os referidos autores consideram que a teoria do
comportamento planeado parece ser um modelo mais compreensivo e sofisticado para
explicar porque é que as pessoas mudam os seus comportamentos relacionados com a
saúde. Assim, consideraram que (cti. in Courneya & Bobick, 2000):
1. Os prós/contras do modelo transteórico são comparáveis às crenças
comportamentais da teoria do comportamento planeado (embora os
prós/contras não sejam importantes na fórmula de expectativa de valor, mas
apenas operacionalizados em termos de valor). Para, além disso, a teoria do
comportamento planeado inclui uma avaliação global das atitudes que é
teorizada para englobar todas as crenças individuais (i.e. prós e contras)
subjacentes a um comportamento. Ora segundo Ajzen (1991) a atitude é o
determinante mais forte do comportamento, incluindo o comportamento de
exercício (Godin & Kok, 1996);
2. A influência social, como um determinante importante e consistente do
comportamento de exercício (Chogara, Cousins & Wankel, 1998), é
avaliada na teoria do comportamento planeado (i.e. crenças normativas e
normas subjectivas) e negligenciada pelo modelo transteórico. Apesar das
normas subjectivas serem criticadas no domínio do exercício (Courneya &
McAuley, 1995; Courneya, Plotnikoff, Hotz & Birkertt, 2000) é pelo menos
uma tentativa para explicar a influência social na mudança do
comportamento de exercício;
3. A auto-eficácia do modelo transteórico assemelha-se às crenças de controlo
da teoria do comportamento planeado, no entanto, existem argumentos a
favor (Ajzen, 1991) e contra (Armitage & Conner, 1999). A auto-eficácia
parece ser mais semelhante às crenças de controlo do que à avaliação global
das mesmas sendo, por isso, necessários mais estudos que o confirmem;
4. A força da intenção (i.e. compromisso) como um determinante imediato da
mudança de comportamento é, talvez, a melhor medida sumária da

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Modelos preditivos da actividade física

motivação e, provavelmente, um importante percursor de todas as fases de


mudança (Courneya, 1995; Courneya et al., 2000);
5. Para concluir, a maior vantagem da teoria do comportamento planeado sobre
o modelo transteórico é que a primeira permite uma previsão teórica
explícita considerando as relações entre construtos independentes, em vez de
simplesmente entre o construto independente e o dependente (Courneya,
1995). E numa perspectiva prática, compreender como a mudança num certo
construto pode estar relacionada com a mudança noutro construto, pode
facilitar a selecção e desenvolvimento de intervenções apropriadas. De facto,
até à data, Prochaska não articulou a relação entre os processos de mudança,
auto-eficácia e prós e contras. A consequência desta falha de
desenvolvimento teórico é que entre 40 estudos que testaram o modelo
transteórico no domínio do exercício, apenas dois examinaram todos os
constructos ao mesmo tempo (Gorely & Gordon, 1995; Nigg & Courneya,
1998). Ora a análise do modelo transteórico em partes é perfeitamente aceite
na literatura, porque não há uma base teórica que torne necessário incluir
todos os construtos, na medida em que cada um pode ser examinado em
análises univariadas com o construto dos estádios de mudança. Mais ainda,
os dois estudos que incluíram todos os construtos do modelo transteórico,
nem discutiram as relações entre os construtos, nem aplicaram análises
multivariadas para examinar as redundâncias em prever os estádios de
mudança (Gorely & Gordon, 1995).
É neste contexto que Courneya e Bobick (2000) desenvolvem o seu estudo,
propondo a hipótese genérica de que os processos de mudança (i.e. como é que as pessoas
mudam) terão a sua influência na mudança de comportamento, através dos construtos da
teoria do comportamento planeado (i.e. porquê é que as pessoas mudam). Esta hipótese é
consistente com as teorias sócio-cognitivas, incluindo a teoria do comportamento planeado,
e conceptualiza os construtos sócio-cognitivos como mediadores da mudança do
comportamento (e.g. Ajzen, 1991; Bandura, 1986 cit. in Courneya & Bobick, 2000). Esta
integração teórica também descreve, tal como a teoria do comportamento planeado, as
relações entre construtos independentes, em vez de simplesmente entre os construtos
independentes e dependentes (ver Figura 4.2).

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Modelos preditivos da actividade física

Figura 4.2. Representação esquemática das relações entre os processos de mudança, a teoria do
comportamento planeado e as fases de mudança (Courneya & Bobick, 2000).

Atitude

Processos Norma Fases de


de mudança subjectiva Intenção mudança

Percepção de
controlo do
comportamento

A outra hipótese avançada foi que a atitude, a norma subjectiva e a percepção de


controlo do comportamento seriam mediadores da relação entre os processos de mudança e
a intenção para o exercício. Quanto às hipóteses específicas em geral, espera-se que os
processos cognitivos da mudança sejam mais fortemente relacionados com a atitude
relativa ao exercício (a qual é especialmente relevante para os estádios de mudança
iniciais), e o processo comportamental de mudança ser mais fortemente relacionado com a
percepção de controlo sobre o exercício (a qual é especialmente relevante para os últimos
estádios de mudança). Ao olharmos para as normas subjectivas, esperamos que as relações
de ajuda sejam o processo chave da mudança. Finalmente, como um exercício
exploratório, também examinámos os determinantes de cada par de estádios adjacente.
Assim, considerámos a possibilidade de cada par de estádios adjacente ter uma regra de
decisão diferente e, que é um dos racionais subjacentes ao estádio de mudança para a
mudança comportamental (Weinstein, Rothman & Sutton, 1998 cit. in Courneya &
Bobick, 2000).
Todos os resultados deste estudo parecem suportar a integração entre os dois
modelos. O referido estudo era constituído por uma amostra de 427 estudantes
universitários com 19.7 de média de idade (SD =4.0) em que 73% são mulheres. Os

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Modelos preditivos da actividade física

resultados revelaram que a teoria do comportamento planeado é mediadora entre oito das
dez relações entre processos de mudança e fases de mudança. Para, além disso, a
percepção de controlo do comportamento é influenciada, exclusivamente, por processos
de mudança comportamentais. A atitude, por sua vez, é influenciada por processos quer
cognitivos quer comportamentais. Por último, análises multivariadas exploratórias
revelaram que cada par de fases adjacente era discriminado por construtos sócio-
cognitivos diferentes, e diferentes processos de mudança (Courneya & Bobick, 2000).
A conclusão deste estudo é que a integração destes dois modelos (Teoria do
Comportamento Planeado e Modelo Transteórico) produz importantes insights teóricos na
compreensão de como e porquê as pessoas mudam com eficácia o seu comportamento de
exercício. As limitações verificadas neste estudo: dados transversais, uma amostra
constituída, exclusivamente, por estudantes universitários e um número reduzido de
sujeitos pré-contemplativos (n=10), levaram os autores a reconhecer que futuras
investigações serão necessárias, ou seja, estudos longitudinais e experimentais antes de se
formular uma conclusão definitiva (Courneya & Bobick, 2000).
Finalmente, e para concluir este capítulo, podemos dizer que nenhuma teoria e
modelo actual é, por si só, suficiente para compreender e mudar a actividade física que
promova a saúde (Dubbert, 2002). Com base numa revisão de 45 estudos sobre
intervenção baseados nas teorias comportamentais, Baranowski, Anderson e Carmack
(1998) concluíram que a capacidade da teoria para predizer os resultados dos estudos na
actividade física era muito limitada. Estes autores sugerem a necessidade de se realizarem
mais estudos sobre as variáveis mediadoras, e estudos focados em grupos de actividade
física específicos que pratiquem exercício em circunstâncias ou situações concretas, tal
como, andar durante o intervalo do trabalho para almoço ou subir escadas em vez de
elevadores num shopping (Dubbert, 2002).
Por outro lado, segundo outras revisões teóricas (Sallis & Owen, 1999; U.S.
DHHS, 1996 cit. in Dubbert, 2002), para compreender o comportamento de actividade
física e desenvolver intervenções mais efectivas é necessário ter em atenção,
simultaneamente, três tipos de variáveis, as intrapessoais, as interpessoais e as ambientais.
De facto, Winett (1995) argumenta que os psicólogos tradicionalmente focam apenas as
variáveis intrapessoais e interpessoais, negligenciando as variáveis ambientais e aspectos
da implementação dos programas. Neste sentido, as abordagens através do marketing

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Modelos preditivos da actividade física

social5 têm recebido crescente relevância, dados os resultados bem sucedidos obtidos no
âmbito comercial. Vários autores e organizações têm encorajado a elaboração de estudos
focados nos factores ambientais, quer ao nível institucional e organizacional, quer
comunitário (Sallis & Owen, 1999; The Surgeon General’s Report - U.S. DHHS, 1996 cit.
in Dubbert, 2002).
Esta ideia é reforçada por Baranowski et al. (2003) que, no âmbito da prevenção da
obesidade, argumenta que apesar de cada modelo de mudança de comportamentos de
saúde ter algo a oferecer, os melhores resultados serão alcançados se os referidos modelos
forem aplicados à dieta e à actividade física. Com efeito, os modelos mais promissores são
a teoria do comportamento planeado e o modelo ecológico social que integrados e usados
em populações específicas podem conduzir a resultados mais eficazes (Baranowski et al.,
2003).

5
Marketing social, segundo Kotler e Andreasen (1991) é a adaptação das tecnologias do marketing comercial para a
análise, planeamento, execução e avaliação de programas criados para influenciar o comportamento de audiências
seleccionadas, tendo em vista melhorar o bem-estar físico e mental do indivíduo e/ou sociedade da qual ele faz parte (cit.
in Glanz, 1999).

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