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Eugénio Ceria

Dom Bosco com Deus


Índice
Capítulo I
NA FAMÍLIA
A sua precoce ideia sobre a piedade
No lar
Seu zelo infantil
Primeiras penitências
Primeira Comunhão
Duras provas
Piedade vivida
Devoção a Maria
A oração contínua
Capítulo II
NA ESCOLA
Num mundo novo
Tem por guia a piedade
Um confessor fixo
Sociedade da Alegria
Apostolado precoce
Amizade com Comollo
Crise vocacional?
Franciscano?
Recebe a batina
Seu regulamento de vida
A piedade salesiana
Capítulo III
NO SEMINÁRIO
A comunhão
Sua devoção a Nossa Senhora
No púlpito
Sempre pregando
Os dois amigos
Sua vida de intimidade

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Seu tipo de piedade
Nas férias
Espírito eclesiástico
Subdiaconado
Presbiterado
Seu plano de vida sacerdotal
Capítulo IV
NOS PRINCÍPIOS DA SUA MISSÃO
Ordinário no extraordinário
O Oratório festivo
Fecunda Ave-Maria
A residência sacerdotal
Ao estilo de um codicilo
Capítulo V
NA SEGUNDA FASE
DA SUA MISSÃO
O teólogo Borel
Primeiros contrastes
Serenidade de Dom Bosco
Bastava vê-lo
Durante a semana
Fontes de inspiração
Sílvio Pellico
Capítulo VI
NA SEDE ESTÁVEL
DA SUA MISSÃO
Porque se chama Oratório
Havia algo estranho nele
Um espírito sereno
Uma simplicidade evangélica
A paz no seu rosto
Os exercícios espirituais
Seus propósitos
Dom Bosco chorava
Amor eucarístico de Dom Bosco
Como celebrava a santa Missa
Apóstolo da Eucaristia

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No confessionário
Capítulo VII
NO PERÍODO DAS GRANDES FUNDAÇÕES
Dom Bosco, um mistério
Dom Bosco, um santo
O espírito de oração na sua escola
Seu breviário, praticar o bem
Sua tranquilidade de espírito
Como falava de Deus
Como falava do Céu
Sempre uma boa palavra
«Parecia Nosso Senhor»
Dom Bosco, instrumento de Deus
A mente fixa em Deus
Sempre sacerdote
Inexorável em relação ao pecado
Sabia impedi-lo
Dom Bosco ardia de amor a Deus
Uma síntese da sua devoção
Devoção a Maria
Poesia da sua piedade
Seu coração e sua mente, com Maria
Capítulo VIII
NAS TRIBULAÇÕES DA VIDA
Espinhos e cruzes
A arte de sofrer
Chorando
Na tribulação
Atentados e mais atentados
Dom Bosco não cede
Mas os credores…
… e o inesperado
Grande tribulação
Na doença
Sua grande oração
Capítulo IX
NOS CONTRATEMPOS

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DE VÁRIO GÉNERO
Construções que desmoronam
Um raio
Cai uma abóbada
Um incêndio
As contrariedades das viagens
Os contratempos com pessoas simples
E com os grandes
Com os jornais
Com as autoridades escolares
Com as autoridades eclesiásticas
E um dia…
Capítulo X
CONFESSOR
Dom Bosco e a confissão
Na infância
Como estudante
Como sacerdote
Durante as viagens
Nos seus escritos
Nas suas conferências
Nas suas aulas e nas suas pregações
Como confessava
Sempre disposto a confessar
Nunca se cansava
Capítulo XI
PREGADOR
Sua preparação
Sua eficácia
Inspirado em Deus
Sua ideia predominante
Direto ao essencial
Uma ocasião para dar nas vistas
Capítulo XII
ESCRITOR
Por sua condição sacerdotal
Sempre boa imprensa

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Sacerdote da palavra
E da palavra escrita
… e simples
Angelical sacerdote
O candor na sua História Sagrada
Seu amor à Igreja
Espírito das suas cartas
Capítulo XIII
EDUCADOR
Educador da juventude
Seu futuro
Um sonho
O sonho repete-se
Sessenta e dois anos mais tarde
Como entendeu a educação
Uma educação integral
E desde o primeiro instante
A escola, como meio
Como fazer
Não há educação sem religião
Seu segredo educativo
Como o fazia Dom Bosco
Com bondade sacerdotal
As “boas-noites”
No escritório
Ao encontrá-los
Com os doentes
A suavidade do azeite
Seu sistema
Cagliero
Um anglicano
A piedade
Seu tipo de piedade
E alegria
Capítulo XIV
HOMEM DE FÉ
Fé vivida

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Fé desde criança
Fé nos superiores
Seus desejos de fé
E da glória de Deus
Fé que o unia a Deus
Olhando para trás
Sua fé e as almas
Sua consciência sacerdotal
Sua defesa da fé
As vocações eclesiásticas
Os Filhos de Maria
O culto divino
O Pequeno Clero
Dom Bosco, homem de fé
Capítulo XV
APÓSTOLO DA CARIDADE
Missão específica de Dom Bosco
Humilde
Mestra, Maria
Caridade universal
Vida de trabalho
Trabalho pelas almas
O trabalho, na Congregação Salesiana
Perigo do trabalho
Trabalho espiritualizado
Um trabalho alegre
A comunhão, fonte de alegria
Cordialidade alegre
Caridade independente
Caridade, sem aceção de pessoas
Sem preocupações
Firme perante a contradição
Fundador contra todo o obstáculo
E obstáculos políticos
Vence dificuldades com a caridade
Capítulo XVI
O DOM DO CONSELHO

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Luz no ocaso
Dom Bosco, superdotado
Dom do conselho
As gentes recorrem a ele
As audiências
Carisma pessoal
Carisma da sua palavra
Como fazia
Seus efeitos
Recordação do autor
Dom de conselho no confessionário
Descobria pecados ocultos
Lia no rosto
Sabia coisas de longe
Uma noite de 1886…
Capítulo XVII
SONHOS, VISÕES, ÊXTASES
Os sonhos de Dom Bosco
Que pensava ele desses sonhos
Contava-os com simplicidade
E com humildade
Porém não dizia tudo
Efeitos dos sonhos
Caráter psicofísico dos mesmos
Atividade da fantasia
Seu caráter profético
Guerra do demónio
Falemos um pouco de coisas extraordinárias
Visões corpóreas
Visões intelectuais
Taumaturgo
Capítulo XVIII
O DOM DA ORAÇÃO
Dom Bosco místico?
Em que grau?
Efeitos da união simples em Dom Bosco
Dizem seus sucessores

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E dizem dois prelados
… e Pio XI
Em conclusão
A liquefação
Teve momentos desses?
Três factos dizem que sim
Confirmação
O dom de lágrimas
A presença de Deus
O sofrer por Deus
O honrar a Deus
O amor ao próximo
A prática das virtudes
Provas de amor
Dom Bosco, um místico?
Capítulo XIX
O PLÁCIDO OCASO
Morte de desprendimento
Sem exterioridades
Com paciência
Sem lamentações
Abandonado nas mãos de médicos e enfermeiros
Sua resignação
Suas palavras
O trabalho
Suas Congregações
Seu amor ao Papa
Sua piedade
Melhoria
Almas… Maria!
A Eucaristia
Sua serenidade até ao fim
Capítulo XX
GEMMA SACERDOTUM
Genial descrição de Joergensen
Sacerdote sempre
Sempre sacerdote

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O sacerdote, um anjo
Seu melhor título, sacerdote
Era sal e luz
Sacerdote dos jovens
Sacerdote em todo o lado
Com os pobres
Com os grandes
Com os ricos
Perante os sábios
Perante as autoridades
Sacerdote com seus superiores e irmãos
Com os bispos
Com os sacerdotes
Sua delicadeza sacerdotal
Dom Bosco, sempre unido a Cristo
Quando deixava de rezar Dom Bosco?
Gema sacerdotal
Ficha Técnica
© Eugénio Ceria
© Edições Salesianas. 2014
Rua Dr. Alves da Veiga, 124
Apartado 5281
4022-001 Porto
Tel: 225 365 750 Fax: 225 365 800
www.edisal.salesianos.pt
edisal@edisal.salesianos.pt
Capa: Paulo Santos
Paginação: João Cerqueira
Impressão: Edições Salesianas
ISBN: 978-972-690-887-6
D.L.: 378986/14

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Eugénio Ceria

Dom Bosco com Deus


Edições Salesianas

PREFÁCIO
A ideia deste trabalho tive-a em Frascati em 1929, ano da Beatificação de D. Bosco.
Veio-me ao ler a relação anual, que o Rev. Padre Filipe Rinaldi, terceiro sucessor de D.
Bosco, tinha enviado, em Janeiro, aos Cooperadores e Cooperadoras Salesianos.
Fechava esta sua carta, o venerável Padre, recordando como, cem anos antes, o nosso
bom Pai, não tendo ainda catorze anos, trabalhando como humilde e laborioso moço de
lavoura numa família de abastados agricultores, não descuidava, jovem como era, o
apostolado entre os seus contemporâneos, mas sobretudo se entregava à oração, e como,
trabalhando e orando desta maneira, tinha passado um biénio.
Recordei então, na boa altura, que o beneditino D. Chautard, no seu conhecidíssimo
trabalho «A alma de todo o apostolado» conta D. Bosco entre aqueles sacerdotes e
religiosos modernos, que, entregues a uma vida intensamente ativa, mais promoveram o
bem das almas, simplesmente porque foram, ao mesmo tempo, homens de profunda vida
interior. Recordava igualmente como Mons. Virili, postulador da causa de S. J. Cafasso,
ao depor na causa de D. Bosco, tinha declarado considerar D. Bosco um Santo, não só
pelas obras realizadas, mas, sobretudo, pelo seu espírito de oração e de recolhimento no
Senhor. Ora, disse eu para comigo, aqui está um aspeto da vida de D. Bosco, que, não
tendo sido até agora suficientemente analisado, mereceria ser ilustrado com cuidado, no
ano da sua probabilíssima beatificação.
Impressionados pela visão da sua extraordinária e multiforme atividade, os
contemporâneos admiram os seus triunfos, sem quase se lembrarem de que «omnis
gloria ejus ab intus». Mesmo a geração que veio já depois da sua morte, fixou de
preferência as suas obras, estudando-lhes as formas e desenvolvimentos sem quase se
preocupar em perscrutar, a fundo, o princípio animador, aquilo que constitui sempre o
grande segredo dos Santos: o espírito de oração e união com Deus. Não, ninguém se
iluda de que compreendeu D. Bosco, se não souber até que ponto ele foi homem de
oração; pouco fruto tiraria da sua admirável vida aquele que corresse demasiado atrás
dos dados biográficos, sem penetrar, quanto possível, os seus movimentos íntimos e
habituais. Pareceu-me, por consequência, que levantar uma ponta deste véu, além de
coisa de suma edificação, seria também o melhor contributo para a glorificação do novo
Beato; o véu, quero dizer, de uma vida que, aparentemente, decorria como a dos seus
companheiros, mas que na realidade escondia tesouros de graça e de dons sobrenaturais
extraordinários. Pode repetir-se a respeito de D. Bosco o que já foi dito de outros, que
ele se assemelhava à Hóstia consagrada: exteriormente, na aparência pão, e dentro, Jesus

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Cristo1.
A estas reflexões, poderia esquivar-me atrás do cómodo, embora real pretexto, da
minha insuficiência; mas quis experimentar, tanto mais que sabia obedecer, fazendo-o, à
vontade do Reitor-Mor, Padre Filipe Rinaldi. Nos poucos momentos livres das minhas
ocupações, procurei estudar com afeto de filho os exemplos e ensinos do Pai, fixando-me
sobre todos os pormenores que me parecessem dignos de menção sobre a sua vida de
união com Deus. De tal forma, fui juntando pouco a pouco material suficiente e seguro
para compilar esta obrazinha, que com humildade e alegria depus aos pés do nosso caro
Beato, não sem fazer votos para que outros, com maior frescura de alma, com melhor
competência e perícia, voltassem ao assunto, oferecendo-nos uma obra-prima. O tema
merece-o, sem a menor dúvida.
O livro encontrou certo favor, pois foram impressas duas edições e algumas traduções.
Agora, para obedecer a outro sucessor de D. Bosco, voltei ao assunto, introduzindo na
obra, aqui e além, aditamentos e modificações, sem que chegassem a alterar a forma
primitiva.
As fontes de que me servi são geralmente as «Memórias Biográficas» bem
conhecidas, a Vida escrita por Lemoyne, em dois volumes: as atas dos processos
canónicos, e documentos de arquivo. Interessa-me declarar isto, para que os leitores
fiquem seguros sobre a validade das fontes e das coisas expostas, sem necessidade de
constantes citações. Sempre que recorri a outras fontes, declaro-o em nota.
Quanto ao título, pareceu-me conveniente conservar o anterior, que nada tira à
grandeza daquele que sob o simples apelativo de «D. Bosco» realizou tantas maravilhas,
que se prolongam ainda pelo futuro. Isto pensava Pio XI, quando na audiência concedida
em S. Pedro, a 3 de abril, a todas as peregrinações organizadas pelos Salesianos por
ocasião da ​canonização, depois de ter aludido às variadíssimas categorias de que se
compõe a família de D. Bosco, emendou dizendo «de S. João Bosco», mas para logo
declarar que o mundo continuaria a chamar-lhe D. Bosco. «Está certo, continuou, pois é
como repetir o seu nome de guerra, daquela guerra benéfica, uma daquelas guerras que
se diria que a divina Providência quer conceder de vez em quando à pobre humanidade,
como para a compensar de outras guerras de modo nenhum benéficas, mas dolorosas e
semeadoras de dores».
Numa manhã de agosto de 1887, no colégio de Lanzo de Turim, o autor, ao subir a
grande escadaria, quando chegava ao patamar do primeiro lanço, encontrou-se, como por
encanto, a um passo de D. Bosco, parado como quem esperava alguém. Contentíssimo
por aquele encontro, beijou-lhe a mão, com afetuoso transporte. D. Bosco perguntou-lhe
o nome. Ao ouvi-lo, soltou um Oh! — de grata surpresa; depois, continuou: — Estou
contente... — Os meus ouvidos ficaram atentos numa ansiosa expetativa; mas ele não
acabou a frase, porque alguém o veio roubar. No fim desta humilde canseira, quanto me
sentiria feliz, se voltasse a ouvir dos lábios do Pai tão amado aquelas simples palavrinhas,
mas com o sentido completo! Seja como for, Ele sabe o motivo que me levou a escrever

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este trabalho. Oxalá que abençoe este esforço e o faça, de algum modo, frutuoso.
Turim, 31 de janeiro de 1946.

INTRODUÇÃO
Para as almas simples, o Santo é o homem das visões, das profecias e dos milagres;
estes, porém, são carismas que não são essenciais à santidade, mas que Deus fomenta na
sua Igreja, desde as suas origens, como perene testemunho das divinas virtudes da
mesma, e meios extraordinários para provocar, acordar e manter nas mentes dos
homens, bem vivo, o pensamento das coisas celestes. O Santo é um homem todo de
Deus; um homem que, segundo a expressão de S. Paulo2, vive inteiramente em Deus;
um homem, pois, que procura em Deus o princípio e repõe n’Ele o fim de todos os seus
pensamentos, de todos os seus afetos, de todas as suas ações. Todos os regenerados pelo
batismo receberam em si os elementos desta vida superior à natural, na graça que lhes foi
concedida pela bondade infinita de Deus; mas na prática, poucos são os cristãos que
correspondendo perfeitamente às luzes e impulsos divinos, alcançam tal grau de vida
espiritual que possam aplicar a si toda a extensão das palavras do mesmo Apóstolo3: Não
sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim. Ora o Santo apresenta-se
precisamente como aquele que vive plenamente a vida sobrenatural, na medida,
compreende-se, concedida à criatura humana: de modo que, habitualmente, a sua
conversatio in coelis est4: ele vive na terra mas como cidadão do céu, tendo sempre fixo
o coração onde sabe estar para ele toda a razão de ser dos verdadeiros bens. Nisto
consiste o espírito de oração, compreendida principalmente no sentido de ascensão,
elevação, impulso afetuoso da alma para Deus5, sem que nada no mundo consiga desviá-
la do objeto supremo do seu amor: tirocínio na terra da vida celeste, que será a visão
direta, amorosa e eterna.
Posto isto, é preciso ter a coragem de confessar que nem sempre as Histórias dos
Santos, tais como hoje aparecem um pouco por toda a parte, contêm realmente as Vidas
dos Santos. Sem nenhuma dúvida, os Santos desenvolvem também ação, que se situa no
cimo dos acontecimentos do seu tempo; na parte que tiveram em certa ordem de factos
ou em certas correntes de ideias, o homem de fé descobrirá, se quiser, a mão da
Providência, que envia, no tempo e lugar precisos, os heróis capazes de realizar, na
humanidade, missões de alta importância religiosa e civil. A este respeito, a hagiografia
moderna, não queremos negar, limpou o terreno de preconceitos inveterados, que faziam
considerar os Santos como seres caídos das estrelas, estranhos à vida, até dominados por
certas monomanias, gostando sempre de se envolver em misticismo, nome inventado
pela ignorância da mística e atribuído, com intenção trocista, até a fenómenos de
natureza sublime. É justo que prestemos homenagem aos seguidores do método
histórico, por terem conseguido que as figuras dos Santos possam hoje aparecer em
certos ambientes sem levantar, como outrora, antipatias e desgosto. Mas é também

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inegável que, deste modo, a verdadeira individualidade do Santo se arrisca a ser
diminuída, porque privada da auréola que os fez Santos e que os deve mostrar tais quais
são. Convém saber distinguir os dois aspetos, sem os isolar. No estudo dos Santos, como
será possível prescindir da santidade? Quem diz santidade, diz uma realidade, sobre a
qual pode sobrevoar ligeiramente a ciência positiva, quer histórica quer psicológica, mas
nunca quem tenha olhos habituados à investigação dos factos pertencentes a uma ordem
superior, onde o humano se encontra com o divino e a ele se une intimamente. Por isso,
é falso o conceito que fazem dos Santos aqueles escritores que julgam que não vale a
pena ou que é indiferente considerá-los como os homens da união com Deus. Deste
modo, temos tido Vidas de Santos, diremos, laicizadas ou quase.
Aqui, vem muito a propósito fazer outra observação. Temos ouvido muitas vezes e
temos lido que D. Bosco é um Santo moderno. Parece-nos que esta observação deve ser
feita com prudência e entendida cum grano salis; de contrário, generaliza-se a dúvida,
que, como tantas coisas humanas, a santidade, com o progredir do tempo, tem
necessidade de modernizar-se. Longe de nós a ideia de que existem duas espécies de
santidade, a primeira boa para os tempos passados, a outra própria para os tempos
presentes. A ação da divina graça, que faz os Santos, não muda com o volver dos
séculos, como as múltiplas atividades humanas, sempre em vias de modificação, para se
adaptarem à variabilidade dos tempos e das circunstâncias. Nem a cooperação do
homem na ação santificadora da graça se diversifica hoje de outros tempos, mudando de
estilo, segundo os gostos. O perfeito amor de Deus, elemento essencial da santidade,
assemelha-se, por isso, ao sol, que desde o primeiro instante da criação vivifica a terra,
inundando-a sempre, do mesmo modo, de luz e calor. Não se quer com isto dizer que tal
frase não possa admitir uma interpretação razoável, com a condição, porém, de lhe fazer
significar isto unicamente: que o Santo é homem do seu tempo e que, portanto, atuando
uma missão de bem-fazer, num dado período histórico, toma atitudes acidentais que
noutras épocas seriam anacrónicas. Não obstante isto, estabelecida a identidade do
princípio inspirador, da energia informadora, e do fim supremo de todos os
empreendimentos santos, o seu próprio método de proceder nunca reveste carateres de
tal novidade que justifiquem quase um axioma deste género: «tantas as épocas, tantas as
santidades».
Trata-se particularmente de um grosseiro mal-entendido proclamar D. Bosco um
Santo moderno. Nestes tempos de operosidade febril, quem assim fala tem todo o ar de
o querer elogiar como o Santo da ação, como se a Igreja, de S. Paulo até hoje, não tenha
tido sempre Santos ativíssimos e como se, nos nossos dias, um Santo de ação possa
deixar de ser, ao mesmo tempo, um homem de oração. Não há santidade sem vida
interior, nem haverá nunca vida interior sem espírito de oração. Esta é a genuína
espiritualidade de ontem, de hoje e de sempre: ação e oração, fundidas, compenetradas,
indivisíveis, como no dia do Pentecostes.
Um profundo conhecedor de S. Paulo6, retratando-o quase pelo exercício do
apostolado, deixou-nos este esboço, de que D. Bosco nos parece uma cópia fiel: «Com

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uma facilidade ​incomparável, o Apóstolo associa a mística mais sublime ao ascetismo
mais prático; enquanto os seus olhos penetram os Céus, os seus pés nunca perdem o
contacto com a terra. Nada está acima, nem abaixo dele. No momento em que se declara
crucificado e vivendo a própria vida de Cristo, sabe encontrar para os seus filhos
palavras que arrebatam pela jucundidade e pela graça, e desce às prescrições mais
minuciosas sobre o véu das mulheres, sobre a boa ordem das assembleias, sobre o dever
do trabalho manual, sobre os cuidados com um estômago fraco. Por isso, a sua
espiritualidade oferece aos corações mais humildes o alimento sempre saboroso, e às
almas mais eleitas a mina inesgotável de profundas meditações». Deste modo, desde as
origens do Cristianismo, dando um salto à plena Idade Média, encontramo-nos na
presença de um S. Boaventura, de quem um autorizado biógrafo7 nos faz esta
observação, que parece igualmente escrita a respeito de D. Bosco: «As épocas de luta
pedem homens de grande bondade, que, acima de todas as divergências de partido,
consigam pacificar os ânimos: homens de visão clara, que saibam o que querem e vão
direitos ao próprio escopo: homens de oração, para assegurarem a paz do próprio interior
e obter luz e força do alto». Portanto, a espiritualidade dos Santos, sempre antiga e
sempre nova, não sofre metamorfoses no decurso dos séculos, nem pela mudança de
costumes8.
Pode acontecer que homens apostólicos e cristãos versados nas ciências sagradas,
impelidos frequentemente a falar de coisas espirituais, se iludam com facilidade de que é
isto que dizem; mas uma coisa é dizer, outra fazer: pode discorrer-se perfeitamente sobre
a vida espiritual, sem viver espiritualmente. Nas páginas que vão seguir-se, os sacerdotes,
consagrados de modo especial aos sagrados ministérios, encontrarão, se Deus o permitir,
e pelos méritos de D. Bosco, luz e estímulo para pôr de harmonia o facere e o docere9
de modo que a prática preceda, acompanhe e siga o ensino. S. Bernardo quer que
sejamos reservatórios e não simples canais10. Os leigos também, que entre os negócios
materiais não perdem de vista as coisas do espírito, hão de ler, com não pequeno
proveito, os exemplos de um corajoso trabalhador, que no mare magnum das
preocupações, possuía a arte de transformar em oração as obras das suas mãos atuando
com uma naturalidade incomparável o semper orare et non deficere11. Não dizemos
nada das pessoas religiosas, porque estas, tendo inteligência das coisas espirituais,
intuirão do pouquíssimo que conseguiremos pôr diante dos seus olhos, o muito mais que
não soubemos descobrir.
O espírito de oração é a atmosfera do cristão. Espalharei, diz o Senhor12, sobre a
casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito de graça e de oração, e
voltarão os seus olhos para Mim. A difusão deste espírito, começada no grande
Pentecostes, durou, dura ainda e durará perenemente no seio da Igreja, formando como
que o ar que os fiéis devem respirar. Os Santos respiram-no puro, sem interrupção, a
plenos haustos. Os Santos vivificados por este fluxo e virtute corroborati in interiorem

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hominem13 têm vindo eliminando de si as obras da carne, enumeradas pelo Apóstolo na
Epístola aos Gálatas, e acolhendo, pelo contrário, os frutos do Espírito Santo, isto é, no
dizer do mesmo Apóstolo14, a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a
bondade, a longanimidade e a castidade. Eis o que ele chama viver do Espírito e
caminhar no Espírito; isto entende, quando diz estarem cheios de toda a plenitude de
Deus. Belíssimas coisas! Oxalá nós pudéssemos também compreender cum omnibus
sanctis, mas, neste caso, com D. Bosco e na sua escola.
Quanto à ordem do tratado, aqui está: O caminho dos justos é comparado pelo
Espírito Santo à luz que começa a resplandecer, depois avança e cresce até ao dia
perfeito. Verdadeiros filhos da luz15, os Santos são luminares do mundo16, progredindo
de virtude em virtude até à perfeição17, e chegando com as suas elevações18 onde
fulgebunt sicut sol in conspectu Dei 19. Sigamos, pois, com toda a simplicidade, após os
exemplos da vida de D. Bosco, desde a aurora ao meio dia e até ao declinar do dia, ou
melhor até à passagem do firmamento da Igreja militante aos coeli coelorum20, aos
altíssimos céus da Igreja triunfante. Referir-nos-emos, por fim, aos dons sobrenaturais
gratuitos, que refulgiram nele e que, se não são meios necessários para chegar à união
com Deus, servem, pelo menos, quando são verdadeiros, para a revelar sempre em
maior grau.
O nosso coração, entretanto, transborda de alegria, pensando que, da glória dos Bem-
aventurados, o nosso caro Pai não nos iluminará somente os caminhos do exílio com a
luz dos seus ensinamentos e exemplos, mas nos servirá de válido intercessor junto de
Deus, para que a nós também seja dado alcançar, felizmente, a pátria celeste.

Capítulo I
NA FAMÍLIA
Na vida espiritual perpassam por vezes momentos de graça, em que a alma tem
intuições repentinas, rápidas e salutares. Dizemos repentinas, quanto ao ato da faculdade
cognoscitiva em si próprio; embora o Espírito sopre onde quer21, contudo,
ordinariamente falando, em coisas deste género, este perceber imediato e seguro costuma
pressupor preparações interiores, mais ou menos longas, mais ou menos advertidas,
consistindo, sobretudo, na fiel correspondência aos dons sobrenaturais.
A sua precoce ideia sobre a piedade
Rapazinho de onze anos, João Bosco teve um destes relâmpagos reveladores. Tendo-
se afeiçoado, por arcanas inclinações do coração, a um digno sacerdote e colocando-se
com confiança filial nas suas mãos, aproveitou daquela escola de curta duração um
ensino duradoiro: compreendeu que era «bom para a alma» fazer todos os dias uma

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breve meditação. Recolheu dois frutos desta clara visão: «saborear o que é a vida
espiritual» e não agir como antes, isto é, «sobretudo materialmente e como máquina, que
faz as coisas sem saber porquê».
Assim anotou ele próprio em certas suas «Memórias» escritas por ordem de Pio IX,
para proveito dos seus filhos22.
Mas, no lugar aqui citado, não devemos passar por alto duas palavrinhas bastante
significativas, que lhe escaparam da pena. Uma está onde diz que começou não só a
conhecer e experimentar mas «a apreciar o que é a vida espiritual». Eis aqui um
requintado dom de sabedoria, a que S. Bernardo chama «saboroso conhecimento» das
coisas divinas. Este dom do Espírito Santo é um verdadeiro gosto espiritual que faz
saborear as coisas divinas «por uma espécie de arcana e natural simpatia» 23. Outra
palavrinha reveladora está naquele agir, antes, «sobretudo materialmente». É notável
aquele «sobretudo», que atenua o advérbio próximo. Quer dizer que já havia nele, antes,
a ideia da espiritualidade, vaga e indeterminada talvez, mas distinta daquilo que é
materialidade, no agir. A coisa que impressiona mais é ver, em tão tenra idade, a noção
precoce da forma de piedade que deverá ser a sua e dos seus: harmónico acordo entre o
ora et labora, quer dizer, a oração alma da ação.
No lar
Tinha aprendido já de sua mãe o amor à oração.
Numa família rural piemontesa do bom tempo antigo, o costume cristão, conservando-
se inviolado através das infiltrações estrangeiras, perpetuava-se pacificamente de geração
em geração, em redor do velho lar, testemunha tanto de alegrias íntimas, simples e
fecundas, como também das comuns orações quotidianas, com que aquela gente
trabalhadora e honesta encerrava o dia, recitando o rosário diante da imagem da Virgem
Consoladora. A casa merecia bem, nesse tempo, o título de santuário doméstico.
Num ambiente assim são, uma mulher de altos espíritos, como sabemos que foi a mãe
de João, era mestra insuperável de religiosidade vivida, sobretudo quando, como no
nosso caso, à força educativa do exemplo, podia unir a comunicativa eficácia da palavra.
Sabemos, com efeito, que com a espontaneidade própria da linguagem materna, ela
lhe vinha instilando desde pequenino um vivo sentimento da presença de Deus, a cândida
admiração pelas obras da criação, a gratidão pelos seus benefícios, a conformidade com
a vontade de Deus, o temor de O ofender. Talvez nunca uma escola materna encontrasse
natureza mais dócil de filho, em receber estes ensinamentos.
Deste modo, quando do nativo e humilde lar o menino começou a frequentar a Casa
santa do Senhor, também as ascensões infantis daquele coração tomaram novo impulso
para as coisas celestes. A sequência da sua vida admirável leva-nos a ousar aplicar-lhe as
palavras do Eclesiástico24: Jovem ainda, antes de tropeçar no erro, procurei a
sabedoria com a oração; pedi-a no Templo e ela floriu em mim cedo, como uvas de

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primícias.
Nos dias festivos, os divinos ofícios, a que sempre assistia com alegria e devoção,
afervoravam-no de tal modo que a impressão suave recebida vibrava na sua alma
durante toda a semana. Não nos faltam testemunhos de pessoas que o conheceram
menino e que depuseram declarando como ele, durante as suas ocupações do campo, a
que cedo se entregou, irrompia em orações ou a sua voz argentina fazia ecoar as colinas
solitárias com cânticos de louvores sagrados. Construía altarzinhos, como costumam
fazer as crianças e adornava de flores e ramos a imagem da Virgem, mas, diferentemente
das outras crianças da sua idade, convocava quantos companheiros podia, para rezar e
cantar com ele, imitando devotamente as cerimónias que via na Igreja.
Seu zelo infantil
A palavra de Deus atraía-o. Na catequese e nas prédicas, não perdia uma palavra.
Depois, todas as ocasiões eram boas para reunir gente, subir a um banco e, com as suas
humildes roupas de camponês, repetir, com plena segurança e fidelidade de memória, os
sermões dominicais, ou os factos edificantes fixados e conservados de reserva para a
devida altura.
Nunca deixava de acrescentar alguma oração e, se era a hora, não se esquecia de
recitar, com os seus ouvintes, as orações da noite. Tão grande zelo era suscitado na alma
do menino e avivado pelo seu amor filial ao Senhor. Este amor, já em tenra idade,
enchia-lhe o coração, levando-o não só a amar a Deus, mas conservando-o unido com
doce e cada vez mais estreito vínculo ao Senhor, que desejava ver amado por todos.
Primeiras penitências
Meio eficacíssimo para promover esta união é, na opinião dos mestres da vida
espiritual, a mortificação cristã, que consiste em morrer para si próprio, para viver a vida
de Jesus Cristo, em Deus. Ora, as almas que se sentem mais fortemente transportadas
para Deus, entregam-se à mortificação quase levadas por irresistível instinto de amor.
Ao ver os Santos gozar, entre as voluntárias privações e sofrimentos, o mundo
ignorante pergunta confundido: — Ut quid perditio haec? Para quê tanto desprezo dos
confortos materiais? — A resposta é tão antiga como a pergunta; deu-a, há muito tempo,
S. Paulo25. Aqueles que são de Cristo crucificaram a própria carne. Os ressurgidos
com Cristo para a vida do espírito sacrificam de boa vontade a carne, para viver segundo
o Espírito. A experiência ensina que este sacrifício desenvolve o espírito de oração e dele
procede a fecundidade de ação.
O pequeno João cedo compreendeu espontaneamente este segredo da perfeição cristã,
mesmo antes de encontrar o sacerdote que o ensinou a meditar: com efeito, escreve nas
já citadas «Memórias»: «Entre outras coisas, proibiu-me logo uma penitência que
costumava fazer, mas não era adaptada à minha idade e condição». Encorajou-o, porém,
a frequentar os sacramentos da Penitência e da Eucaristia.

18
Primeira Comunhão
No ano anterior a este feliz encontro, tinha o nosso jovem feito a sua Primeira
Comunhão. Quer dizer que a fez aos dez anos. Foi preciso uma certa violência à
disciplina rígida que não admitia ninguém à Comunhão antes dos doze ou catorze anos;
mas, desta vez, o comungante apresentava-se à Sagrada Mesa tão bem preparado, que o
pároco fechou os olhos. O jovem preparou-se confessando-se três vezes e depois,
naquele dia bendito, não se ocupou de nenhum trabalho material, mas unicamente na
leitura de livros devotos.
Escreverá mais tarde nas citadas «Memórias»: «Parece-me que daquele dia em diante,
houve qualquer melhoria na minha vida».
Duras provas
Infelizmente, a santa e frutuosa familiaridade com o digno ministro do Senhor que o
encaminhava tão bem nos caminhos da piedade e do saber, foi subitamente interrompida
pela morte. Duras provas esperavam o filho de Margarida.
Até então, todo casa e igreja, teve de abandonar o teto materno, para ir servir um
patrão como moço de lavoura. Rico de engenho e com uma memória poderosa, viu-se
constrangido a despender as suas promissoras energias nos duros trabalhos do campo.
Deus assim o quis, para que o edifício das suas sólidas virtudes se levantasse sobre as
sólidas bases da humildade. Confessará, mais tarde, que sentia necessidade desta virtude.
A oração servia-lhe de alimento e conforto. A oração e alguma coisa mais. Todos os
sábados pedia respeitosamente licença aos seus patrões para ir, na manhã seguinte, a uma
aldeia distante uma hora de caminho, para ouvir a primeira Missa que se celebrava muito
cedo. Qual o motivo de tanta pressa, se mais tarde assistia sempre à Missa paroquial e às
outras funções religiosas?
Ia lá assim cedo, para poder confessar-se e comungar. Continuou assim em todos os
domingos e festas, durante dois anos. É inútil salientar o que isto representa num
rapazinho, longe da mãe e em duras condições de vida e não certamente animado a tais
práticas por exemplos ou sugestões alheias.
Piedade vivida
Tão grande amor por Jesus Sacramentado é sinal de grande progresso no espírito de
oração. As disposições internas induzidas na alma por este espírito revelavam-se depois
naturalmente na conduta, nas atitudes e nas palavras do jovem. As provas fornecidas nos
processos pelos membros vivos da família, em casa de quem o rapazinho prestara
serviço, não deixam a menor dúvida a este respeito. Nunca tinham tido nem imaginado
sequer um servo tão obediente, laborioso e exemplar. Em casa, cumpriam-se os deveres
de bons cristãos com a regularidade dos inveterados costumes domésticos, tenazes nas
famílias do campo, e tenacíssimos naqueles tempos de vida sãmente camponesa: o
rapazinho, porém, rezava de ordinário de joelhos, mais vezes e mais tempo. Fora de

19
casa, enquanto guardava o gado na pastagem, foi encontrado muitas vezes, quer
recolhido na oração, quer concentrado na leitura do Catecismo, o seu livro de meditação.
Uma vez, foi visto de joelhos, de cabeça descoberta sob o calor do sol, tão absorto
que, chamado repetidas vezes, não deu sinais de ouvir; e, quando foi sacudido e avisado
de que não devia dormir ao sol, respondeu simplesmente que não estava a dormir. Um
dia, o velho dono da casa, tendo entrado cansado e descobrindo o rapazinho a um canto,
ajoelhado e recitando o Angelus, zangou-se e censurou-o, como se ele esquecesse o
trabalho para só pensar no Paraíso. João, depois de acabar devotamente a oração,
respondeu com respeito, aproximando-se: «O senhor sabe bem que me não poupo.
Certamente ganha-se mais rezando do que trabalhando. Rezando, semeiam-se dois grãos
e nascem quatro espigas; não rezando, semeiam-se quatro grãos mas colhem-se só duas
espigas».
Penetrado de semelhantes sentimentos, que admira, como nos dizem as testemunhas
oculares, que se observasse sempre nele calma de modos, igualdade de humor, sensatez
nas palavras, reserva no trato, aborrecimento por tudo que pudesse empanar o candor da
sua alma, ou parecesse só menos conveniente a um jovem francamente cristão? Nem
neste período se esqueceu de se devotar ao bem das crianças, divertindo-as,
catequizando-as e ensinando-as a rezar. Aquele pároco, aonde ia confessar-se aos
domingos, chorava de consolação ao ver como, graças ao esforço do jovem, refloria a
piedade na parte eleita do seu rebanho. Facto é que, depois da partida do pequeno
apóstolo, o ótimo pastor só teve que continuar ele próprio aquelas reuniões, para criar
um verdadeiro e próprio oratório festivo.
Sobre S. Domingos Sávio, aos doze anos, escreverá S. João Bosco «ter ficado muito
admirado vendo o trabalho que a graça divina tinha operado em tão tenra idade» 26. O
mesmo sentimento surge em nós, ao ler os testemunhos jurados dos contemporâneos
sobre toda a conduta do jovem Bosco.
Devoção a Maria
João partiu, porque dia e noite o solicitava o pensamento dos estudos; mas a sua via
crucis foi ainda longa e dolorosa. No desencorajante alternar de esperanças e desilusões,
experimentou, como nunca, a eficácia da exortação de S. Bernardo: ​Respice stellam,
voca Mariam. Tinha bebido, com o leite, a devoção a Nossa Senhora. Em circunstâncias
solenes, em momentos críticos, sua mãe recomendava: Sê devoto de Maria!
À medida que ia aprofundando o conhecimento das coisas divinas, apreciava cada vez
mais a doçura desta devoção, feita de absoluta confiança e amor filial, tão pregada e
praticada pelos Santos, tão querida das almas piedosas. Uma solitária igrejinha,
consagrada à Virgem sobre a alta colina que domina Castelnuovo, tornou-se então a meta
das suas frequentes visitas. Ia lá muitas vezes sozinho, outras acompanhado por jovens
amigos. Conservou a recordação daquelas peregrinações, feitas na sua juventude ao
Santuário mariano, tão gravada no coração, que no declinar dos anos, ainda se enternecia
ao lembrá-las.

20
A oração contínua
Antes de entrar no nosso estudo, parece oportuno abrir um breve parêntese para fixar
claramente o conceito fundamental da oração. Ninguém pode pôr em dúvida que na vida
cristã a oração é de suprema necessidade; por isso S. Paulo27, escrevendo a Timóteo, a
recomenda como primum omnium, mais que tudo.
A oração, porém, é estado e é ato. Como estado, consiste na oração contínua desejada
pelo mesmo Apóstolo28, quando diz: Sine intermissione orate. Não podemos estar
certamente sempre, atualmente, fixos em Deus, mas podemos estar sempre na disposição
de orar, mercê do hábito da caridade: a alma do justo, possuindo a graça santificante, e
por isso apresentando em si a condição exigida para que se verifiquem as palavras de
Jesus29: Viremos a ele e habitaremos nele, recebe das três divinas Pessoas da
Santíssima Trindade, pela sua presença, a comunicação da vida divina de modo que
então reza verdadeiramente sem interrupção30.
Além dos estados ordinários e comuns da oração assim entendida, há os estados
elevadíssimos, concedidos a poucos, estados místicos e estados de puro privilégio. Como
ato, a oração toma quatro formas, como insinua o mesmo S. Paulo31, quando inculca a
Timóteo que faça obsecrationes, orationes, postulationes, gratiarum actiones; isto é,
súplicas ou orações de pedido para nós, orações propriamente ditas de adoração, votos
ou orações de pedido pelos outros, agradecimento ou ações de graças pelos benefícios
recebidos.
A teologia da oração está substancialmente condensada aqui. Ver de que modo
souberam vivê-la os Santos é espetáculo que edifica e arrebata.

Capítulo II
NA ESCOLA
A vida de João Bosco sofreu uma inesperada mudança, quando ele, desprendendo-se
dos lugares onde nascera, se deslocou para Chieri e se tornou, de camponês, em
habitante de uma cidade e estudante.
Chieri, evidentemente, não era Turim, mas tudo é relativo neste mundo.
Não faltavam, porém, as traiçoeiras novidades de um ambiente refinado: a
independência e a idade.
Num mundo novo
Um jovem aldeão, que crescera sob os olhos dos seus, mais ou menos perto do ninho
doméstico, inexperiente de tudo que não fossem ocupações e satisfações rurais,
habituado a lidar com as gentes simples do campo, cai de repente num centro, dito civil,

21
entre costumes e hábitos de um mundo diferente, desconhecido, no meio de
desconhecidos; estabeleçamos que este jovem está no momento crítico da adolescência,
que tem um engenho vivo, que sente espírito no corpo: imaginemos que este adolescente
chegue do campo à cidade para mergulhar numa multidão leviana de estudantes dos
cursos secundários e diga-se, depois, se não há que chegue para que se renove o caso de
Hércules, no cruzamento de caminhos?
Felizmente João, perante estes riscos, apresenta-se defendido, tendo além de um
escopo santo, a sua humilde pobreza e aquela piedade iluminada que cobre a juventude
com um escudo, contra o qual se quebram os dardos inimigos.
Tem por guia a piedade
Esta piedade, que é boa para tudo32, porque mostra todas as coisas na sua verdadeira
luz33, que é a luz divina, guiou-lhe logo os primeiros passos, naturalmente os mais
perigosos, levando-o a travar o seu primeiro conhecimento e defendendo-o nos seus
primeiros contactos com os companheiros.
Ouçamos dos lábios do nosso herói como a coisa se passou. «A primeira pessoa que
conheci foi um sacerdote de cara e santa memória. Deu-me muitos e bons conselhos
sobre o melhor modo de me conservar longe dos perigos; convidava-me a ajudar-lhe à
Missa e isto dava-lhe ocasião de me fazer sempre qualquer boa sugestão. Ele próprio me
acompanhou ao prefeito da escola... e me apresentou a outros professores... No meu
espírito, tinha dividido os companheiros em três categorias: bons, indiferentes e maus.
Procurava evitar sempre e absolutamente estes últimos, mal os conhecia; com os
indiferentes, tratava com cortesia, em caso de necessidade; com os bons procurava
manter amizade, mas familiaridade somente com os ótimos, se os houvesse e fossem
verdadeiramente tais. Esta foi a minha firme resolução... Todavia, tive de lutar muito
com aqueles que ainda não conhecia bem... Livrei-me desta caterva de infelizes, evitando
rigorosamente a sua companhia, segundo os ia conhecendo».

Um confessor fixo
Tendo-se orientado suficientemente nas relações indispensáveis, a própria piedade o
encaminhou perfeitamente na busca daquilo que mais lhe interessava.
«A minha mais feliz aventura, escreve, foi a escolha de um confessor certo, na pessoa
de um cónego da Colegiada. Sempre me acolheu com extrema bondade, quando o
procurava. Encorajava-me até a confessar-me e a comungar com maior frequência. Era
coisa muito rara, naqueles tempos, encontrar quem encorajasse a frequentar os
sacramentos... Aquele que se confessava e comungava mais do que uma vez por mês era
considerado muito virtuoso e muitos confessores não permitiam. Considero-me devedor
a este confessor de não ter sido arrastado pelos companheiros para certas desordens, que
os inexperientes jovens têm a lamentar, nos grandes colégios».
Compreenda-se aqui, por colégios, as escolas públicas e não os internatos particulares,

22
pois aquela era a designação da época.
Sociedade da Alegria
Não somente os companheiros não conseguiram arrastá-lo para o mal, mas ele atraiu e
conservou no reto caminho muitos deles. Um jovem piedoso, que seja dos primeiros nos
estudos e sem sombra de ostentação, desde que seja um pouco desenvolto, ganha o
coração dos companheiros com incrível facilidade. Deste modo, João, em pouco tempo,
tinha conseguido tanta estima e geral benevolência entre o elemento juvenil de Chieri,
que conseguiu fundar uma associação denominada «Sociedade da Alegria», cujo
regulamento se compunha de dois artigos: evitar toda a conversa e toda a ação que não
conviesse a um bom cristão, e cumprir exatamente os deveres escolares e religiosos.
Cada sócio tinha a obrigação de procurar livros e introduzir brincadeiras para
conservar alegres os companheiros; proibido, tudo o que causasse melancolia ou
ofendesse a Deus. Em todos os dias festivos, os membros da Sociedade iam à catequese
à igreja dos Jesuítas. Durante a semana, reuniam-se ora em casa de um, ora em casa de
outro, com a livre intervenção de quantos quisessem participar nas reuniões onde se
conservavam brincando, ou em piedosas conferências, em leituras religiosas, orações,
bons conselhos e em que notavam mutuamente os defeitos pessoais que qualquer dos
membros observasse diretamente ou de que tivesse ouvido falar.
Além destes cordiais entretenimentos, «iam, escreve D. Bosco, ouvir as prédicas,
confessar-se amiúde e comungar». A alegria servia-lhes como um bom meio para servir
ao Senhor34.
Está fora do nosso escopo escrever com ênfase, já que o que pretendemos é a
edificação; mas a admiração surge dos próprios factos. Jovens piedosos encontram-se
facilmente, graças a Deus; mas jovens de uma piedade tão operosa que, não satisfeitos
de ambulare cum Deo35, sintam em si o impulso habitual, quase a necessidade
imperiosa, de conduzir almas para Deus, isto acontece raríssimas vezes.
João Bosco alimentava dentro de si uma piedade que, como o bem, era por natureza,
diffusivum sui. Ver uma pessoa e pensar logo em fazê-la boa ou melhor, no sentido
cristão da palavra, devia ser um dia o programa da sua vida sacerdotal; mas era já a
tendência dos seus verdes anos. Vimo-lo ao trabalho entre os seus contemporâneos e
condiscípulos; para tudo querer expor, teríamos de nos repetir demasiadamente e não
pretendemos escrever uma biografia: pretendemos apenas pôr em evidência o distante
anúncio da nota caraterística da sua espiritualidade.
Apostolado precoce
Nesta altura, quem sabe? certos leitores desconfiados, lembrando-se da inata
propensão do jovem Bosco para se exibir em público e recordando as suas clamorosas
proezas de malabarista e acrobata, serão levados a pôr certa reserva no móbil secreto
destas manifestações. Não seria tudo isto motivado por pequenas ambições de

23
popularidade e gosto do teatral, não muito conciliáveis com as exigências da vida interior
e com o rumores fuge e o ama nesciri da ascética tradicional?
Para dissipar semelhantes dúvidas, bastaria ponderar os fins, os modos, as
circunstâncias, os efeitos. Deixemos isto de parte. Nas relações com pessoas de diferente
género, é idêntico sempre nele o espírito animador: o ardor de uma alma piedosa,
preocupada com o bem espiritual dos seus semelhantes.
O filho da dona de casa turbulento número um é o desespero de todos: João consegue
que ele se lhe afeiçoe e pouco a pouco atrai-o às práticas religiosas, até que o torna um
jovem como deve ser. Frequentando a Catedral, travou conhecimento com o sacristão-
mor, adulto, sem estudos, falto de meios e de engenho, assoberbado pelas suas
ocupações, mas muito desejoso de se fazer padre; João, sem nenhum interesse, com o
heroísmo da caridade, prestou-se a ensiná-lo um pouco todos os dias e a coisa durou dois
anos até que conseguiu levá-lo ao exame de admissão ao Seminário. Trava amizade com
um Judeu, jovem de dezoito anos e faz nascer nele o desejo de se batizar; instruindo-o às
escondidas, consegue vencer a oposição dos pais e correligionários, até que o apadrinha
na sagrada Fonte.
É bem precoce toda esta fecundidade de apostolado que vimos admirando. Fornece-
nos uma boa prova de uma não menos precoce união com Deus. É sabido como de
pouco serve o saber agir e falar, se falta o recolhimento na oração, que é, com o
exemplo, o meio indispensável de todas as obras de zelo.
Amizade com Comollo
O expressivo provérbio «diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és» é boa
confirmação de argumento, se o aplicamos à amizade de João com um estudante santo.
Era esta a fama que tinha precedido a chegada de Luís Comollo, a Chieri. Logo que teve
conhecimento disto, João ardia em desejo de o conhecer; depois de realizado este desejo,
ansiava por entrar em relação mais íntima com ele; tendo-o conseguido, verificou que a
realidade excedia muito a expetativa.
Recorramos, mais uma vez, às «Memórias».
«Tive-o sempre como íntimo amigo... Tinha plena confiança nele e ele em mim...
Deixava-me guiar como e aonde ele queria... íamos os dois confessar-nos e comungar,
fazíamos juntos a meditação e a leitura espiritual, a visita ao Santíssimo Sacramento e
íamos ambos ajudar às Missas».
A alusão à meditação garante-nos que ele não deixava quotidianamente de renovar e
enriquecer a sua vida interior com este precioso exercício. E quais seriam as conversas
deles? A boca fala do que está cheio o coração36. Juntos trocavam impressões sobre
coisas espirituais. «Tratar e discorrer destes assuntos com ele, escreve D. Bosco, era de
grande consolação. Falava com transporte, do grande amor de Jesus ao dar-se a nós
como alimento, na Comunhão. Quando falava da Santíssima Virgem, era invadido por
imensa ternura e depois de ter contado algumas graças concedidas em favor do corpo, ao

24
acabar, com o rosto afogueado e por vezes inundado de lágrimas, exclamava: Se Maria
ajuda tanto este miserável corpo, que favores não concederá às almas que A invocam?
Oh, se todos os homens fossem verdadeiramente devotos de Maria, que felicidade
reinaria no mundo!».
A si próprio, então, D. Bosco atribui a parte de ouvinte; mas não deve ter sido um
ouvinte perpetuamente mudo. Em todo o caso, efusões desta natureza não são
verosímeis, muito menos durante bastante tempo e muitas vezes repetidas, se as duas
partes não têm corações capazes de as compreender e apreciar.
Os quatro anos de «ginásio» acabaram com êxito triunfal. Ótimos resultados nos
exames, afetuosa estima dos professores, entusiástica admiração dos companheiros,
gerais simpatias entre a gente da cidade que o conhecia; não faltou nenhum dos sinais
pelos quais a aurora anuncia o dia ensolarado. Mas quantas angústias, quantas
dificuldades, quantos perigos, quantas privações! A sua constância só não quebrou,
porque na oração encontrava refúgio no Deus de toda a consolação. A Providência assim
dispunha, para que ele um dia pudesse consolar aqueles que se encontrassem em
dificuldades37.
Crise vocacional?
...Se bem que a calma, — nunca perturbada, «pelo vento seco que se evapora da
dolorosa pobreza», para empregar uma pitoresca frase de Dante38, — lhe fosse
ofuscada no segundo biénio, por uma nuvem. Na idade das crises juvenis, podemos
chamar-lhe crise de vocação.
Que desde a meninice desejasse o sacerdócio é coisa incontestada; sentia-se de tal
modo atraído para ele, que lhe parecia não ter nascido para outra coisa. Mas, no
penúltimo ano do ginásio, sentiu-se assaltado por dois temores, que, quanto mais se
aproxima do momento decisivo, tanto mais o mergulham num mar de perplexidades e
ansiedades.
Por um lado, agora que compreende melhor a sublimidade do estado sacerdotal, julga-
se indigno de tal estado por falta das virtudes próprias; por outro, não ignorando as
ciladas do mundo, tem medo de naufragar nele, se se torna clérigo secular.
O esforço espiritual desta luta transparece no acento angustiado com que tantos anos
depois exclamava nas suas «​Memórias»:
«Oh! se então tivesse tido um guia, que tivesse tomado a seu cuidado a minha
vocação, que grande tesouro isso não teria sido para mim; mas este tesouro faltou-me».
Com efeito, o seu ótimo confessor, que desejava fazer dele um bom cristão, nunca quis
meter-se em assuntos de vocação.
Reduzido a resolver por si, recorreu a livros que tratassem de escolha de estado.
Parecia-lhe que um raio de luz luzira no seu espírito.
«Se fico clérigo secular, disse para consigo, a minha vocação corre grande perigo.

25
Abraçarei o estado eclesiástico religioso, renunciarei ao mundo, refugiando-me num
claustro; entregar-me-ei ao estudo, à meditação, e deste modo, na solidão poderei
combater as paixões, especialmente o orgulho que no meu coração tem tão profundas
raízes».

Franciscano?
Pediu para ser admitido nos Franciscanos; estes, ​julgando-o inteligente e piedoso,
aceitaram-no de bom grado. Mas não sentia o coração tranquilo. Acrescente-se que
pessoas benévolas e sérias, a quem tinha aberto o coração, se empregavam, quanto
podiam, para o dissuadir de se fazer religioso, exortando-o vivamente a entrar no
Seminário. Deste modo, as suas ansiedades cresceram.
A Providência dispôs que fosse induzido a interrogar o santo sacerdote José Cafasso,
jovem ainda, mas gozando de grande e merecida reputação de possuir o dom do
conselho. O P. Cafasso, ouvindo-o atentamente, disse-lhe que continuasse os seus
estudos, para poder entrar no seminário.
Durante estas lutas e tormentos interiores, a sua vida externa desenvolvia-se como se
nada houvesse de anormal, entre o estudo, os exercícios de piedade, as obras de zelo e
os trabalhos manuais para ganhar a vida, de modo que ninguém se apercebesse do que
sofria. O pensamento de Deus, quando domina uma alma, torna-a senhora de si e,
portanto, habitualmente calma nas suas manifestações exteriores, embora no seu íntimo
esteja perturbada.
A autoridade do P. Cafasso acabou por impor silêncio às suas dúvidas; mas depois,
tendo feito novas leituras sobre a vocação, voltou ao mesmo. Teria batido de novo à
porta dos Franciscanos, se um caso que lhe ocorreu e que não sabemos qual, não tivesse
acelerado o epílogo da luta; ele apenas nos diz que, atendendo à multiplicação de
obstáculos duradoiros, resolveu expor tudo ao Comollo.
Não deixa realmente de admirar que levasse tanto tempo para pôr ao corrente o amigo
do seu drama interior e que precisasse para isso de tão ponderada deliberação. Mas uma
boa intimidade não constitui, só por isso, título de competência em matéria tão delicada:
por outro lado, João, com toda a sua riqueza de ideias e facilidade de as comunicar, não
se podia dizer bem, pelo contrário, um jovem loquaz. Resolveram afinal rezar e receber
os sacramentos e, de comum acordo, consultaram por escrito um exímio sacerdote, tio
do Comollo. Este, precisamente no último dia de uma novena que os dois faziam a
Nossa Senhora, respondia deste modo ao sobrinho:
«Considerando atentamente as coisas expostas, aconselharia ao teu amigo, a que não
entrasse por enquanto num convento. Vista os hábitos clericais e faça os seus estudos e,
entretanto, Deus manifestará mais claramente a sua vontade. Que não tenha medo de
perder a vocação, pois pelo recolhimento e práticas de piedade pode vencer todos os
obstáculos».
Estudo, recolhimento e piedade: não tinha sido, afinal, sempre esta a sua vida, em

26
Chieri? Do mesmo modo que o P. Cafasso e o tio de Comollo, o seu pároco era de
opinião de que devia entrar no seminário, deixando para mais tarde a decisão sobre a
vida religiosa. Tudo isto bastou para serenar o horizonte: depois disto, «procurei aplicar-
me seriamente, escreve, em coisas que pudessem ajudar a preparar-me para a entrada no
seminário».
Recebe a batina
Vestir o hábito talar não foi para João Bosco uma mera cerimónia. Do recolhimento e
da oração, em que sabia concentrar-se sem se isolar — assistia, com efeito, a uns
cinquenta jovens que tinha a seu cargo, e que o amavam e lhe obedeciam, como ele
próprio nos diz, como se fosse seu pai — saiu espiritualmente preparado e todo
penetrado da importância daquele rito sagrado.
Os piedosos sentimentos que tivera durante a cerimónia palpitam vivos na página das
«Memórias» que, por feliz sorte, nos conservou esta recordação.
«Quando o pároco me ordenou que tirasse os hábitos seculares com as palavras:
Exuat te Dominus veterem hominem cum actibus suis, disse dentro do meu coração: —
Oh! quanta coisa velha a despir! Meu Deus, destrói todos os meus maus hábitos. —
Quando depois, ao entregar-me a volta eclesiástica acrescentou: «Induat te Dominus
novum hominem, qui secundum Deum creatus est in iustitia et sanctitate veritatis,
senti-me profundamente comovido e disse comigo: — Sim, meu Deus, fazei que neste
momento comece uma vida nova, toda segundo a vossa divina vontade, e que a justiça e
a santidade sejam o objeto constante dos meus pensamentos, das minhas palavras e das
minhas obras. Assim seja. Ó Maria, sede a minha salvação».
Seu regulamento de vida
Para coroa de tudo escreveu e prescreveu a si próprio um regulamento de vida clerical
em sete artigos, assim concebido: «Além das práticas ordinárias de piedade, nunca
deixarei de fazer todos os dias uma pequena meditação e um pouco de leitura espiritual».
Para que os bons propósitos não ficassem letra morta, quis ligar-se a eles com vínculo
solene; por isso, ajoelhando diante de uma imagem da Virgem Santíssima, leu os sete
artigos e depois de uma oração fez «formal promessa àquela celeste Benfeitora de os
observar à custa de qualquer sacrifício».
A piedade salesiana
Sobre isto, podemos observar que a piedade e o espírito de oração se alternam
indiferentemente, como se fossem coisa idêntica. Para bem esclarecer as ideias, convém
notar como o espírito de oração se traduz ordinariamente naquele conjunto de atos com
que se procura honrar a Deus e que, no uso corrente, recebem o nome geral de piedade:
deste modo, ou aquele se resolve nesta, ou, se se pretende encontrar diferença, diremos
que o espírito de oração é uma piedade profunda habitual e sentida.
Já que entrámos neste assunto, acrescentaremos ainda uma observação, oportuna para

27
nós. Segundo na piedade se atribua a um elemento a prevalência sobre os outros, a
mesma piedade pode ser marcada com qualificativos específicos. Sob este aspeto,
julgou-se poder fazer classificações para as ordens religiosas, chamando, por exemplo,
litúrgica a piedade beneditina; piedade das máximas eternas, a piedade dos religiosos de
S. Afonso de Ligório39.
Conformando-nos com este critério, diremos delinear-se, desde já, na prática de João
Bosco a futura piedade salesiana. Não parece já descobrir de longe as primeiras linhas de
uma piedade destinada a merecer o título de sacramental, pela parte preponderante que
nela terá a Confissão e a Comunhão? Mercê precisamente destes sacramentos, recebidos
com frequência nunca usada até então, o fundador dos Salesianos abrirá às suas
Instituições cataratas de graça.

Capítulo III
NO SEMINÁRIO
O seminário da arquidiocese de Turim era então em Chieri; João Bosco lá entrou, em
30 de outubro de 1835, com vinte anos de idade.
Observador pronto e sagaz, o jovem clérigo, num instante, teve uma ideia exata do
lugar, das pessoas e das coisas. Informou-se, com todo o cuidado, dos exercícios de
piedade. Tudo certo quanto à Missa, meditação e terço quotidianos; bem quanto à
Confissão semanal; não tão bem quanto à Comunhão que só podia receber-se aos
domingos e solenidades especiais.
A comunhão
Para a fazer qualquer outra vez, durante a semana, era preciso cometer uma pequena
desobediência: aproveitar a hora do pequeno-almoço e meter-se, às escondidas, numa
igreja contígua. Mas acabada a ação de graças, era preciso correr para alcançar os
companheiros, que voltavam para o estudo ou para as aulas.
Assim, em tal caso, até ao almoço ficava-se em jejum. Esta infração do regulamento
deveria ser, em bom direito, punida; mas os superiores davam ao caso um tácito
consentimento, pois sabiam perfeitamente o que se fazia e, muitas vezes, mesmo vendo,
nada diziam. Deste modo, foi-lhe possível frequentar, a seu gosto, a sagrada Eucaristia,
que, segundo ele nos declara, foi o mais eficaz alimento da sua vocação.
Sua devoção a Nossa Senhora
Alimentado assim com o pão dos anjos, o espírito eclesiástico do bom seminarista ia-
se formando sob o suave influxo da devoção à Santíssima Virgem. Conservava
profundamente esculpidas na memória e no coração as últimas palavras que lhe dissera a
mãe, antes de ele partir para o seminário.

28
Mulher iletrada do povo, possuía, no entanto, em grau eminente, aquele sensus
Christi 40, que é sabedoria infusa do Alto e aptidão natural para julgar com verdade as
coisas divinas, mas sem sombra de surpresa para quem saiba o que são os dons do
Espírito Santo.
João, pois, como nos conta nas suas «Memórias», tinha recebido da sua querida mãe
este grande conselho: «Quando vieste ao mundo, consagrei-te à Virgem Maria; quando
começaste os estudos, recomendei-te a devoção a esta nossa Mãe; agora recomendo-te
que sejas todo d’Ela: prefere como teus companheiros os mais devotos da Virgem; e, se
chegares a sacerdote, recomenda e propaga sempre a devoção a Maria».
Recordando sempre o prudente conselho materno, teve o cuidado de procurar sempre
«os companheiros mais devotos da Virgem Maria, amigos do estudo e piedosos».
Alguns destes companheiros sobreviveram-lhe e depuseram uns sobre os seus
irresistíveis convites para o acompanharem à igreja, para recitar as vésperas da Virgem
ou outras orações em honra da Mãe de Deus, outros sobre o seu fervor em traduzir e
ilustrar familiarmente hinos litúrgicos dedicados a Maria, outros ainda sobre a amável
forma por que lhe celebrava as glórias, contando durante as horas de recreio exemplos
edificantes.
Sendo ainda estudante de filosofia, sentiu-se felicíssimo por ter de subir, pela primeira
vez, a um púlpito e pregar sobre a Virgem do Rosário, primícias daquela multiforme
pregação mariana que constituiria as suas delícias até à velhice.
No púlpito
Muitas vezes depois, João Bosco, simples clérigo, subiu ao púlpito; porque por causa
da sua afabilidade em aceitar sempre, todos recorriam a ele em casos desesperados ou
durante as férias do verão; ele não se atrapalhava nem fazia rogar. Este facto merece a
nossa atenção. Todos, diz o provérbio, são bastante bons faladores nas coisas que sabem
bem; pectus disertos facit, diz outro aforismo como querendo completar o primeiro: a
verdadeira facúndia vem do coração. No clérigo Bosco, estes dois elementos concorriam
para fazer dele, desde então, o orador sagrado.
Entre os seus propósitos ao vestir os hábitos talares, tinha incluído este: «Já que no
passado servi o mundo com leituras profanas, procurarei, para o futuro, servir a Deus
entregando-me a leituras sobre assuntos religiosos».
Assuntos religiosos, notemos bem, não de coisas ascéticas ou espirituais, pois, essas
nunca as abandonava.
Durante o ginásio, tinha lido avidamente os clássicos italianos e latinos, para
enriquecer a sua cultura profana, ou literária como se queira dizer, levado por aquele alto
sentimento que impele uma inteligência como a sua para tudo o que é idealmente belo e
grande; no seminário, pelo contrário, poupava o tempo para devorar volumosas obras de
História Eclesiástica, Catequética e Apologia. Ora, é de todos sabido que, dada a sua
memória tenacíssima, para ele «ler era reter»; ele próprio o atesta.

29
Tantas leituras, além disso, não lhe serviam apenas para conseguir uma árida e estéril
erudição, mas sobretudo para «servir a Deus», por quanto ao contacto da sua alma
ardente de amor divino, as coisas lidas se lhe convertiam em calor vital de fé e de zelo.
Por isso nele, a ciência da religião e a ciência dos Santos tiravam recíproca vantagem
destes subsídios, procedendo normalmente de harmonia: eis por que, apresentando-se
ocasiões de pregar, mesmo de improviso, nunca lhe faltava matéria nem calor, e poucos
momentos de recolhimento e oração lhe bastavam como preparação.
Sempre pregando
Afinal, João Bosco não pregava continuamente? Se, prescindindo da ideia solene que
nos traz ao espírito o verbo pregar, abstraímos de um público reunido numa igreja, à
roda da cátedra da verdade, e nos restringimos ao elemento essencial do seu significado,
que é anunciar a palavra de Deus, não será pregador todo o semeador zeloso da Boa
Nova? Em tal sentido, que hábil, que incansável pregador não foi o clérigo Bosco, no
seminário de Chieri? Observemo-lo.
Muitos jovens da cidade vêm à quinta-feira visitá-lo: ele desce e entretém-se
alegremente com eles, como antes, discorre sobre as aulas e sobre os estudos, mas
também sobre os sacramentos e não os deixa partir sem os ter conduzido à igreja para
uma rápida oração. Aos condiscípulos que veem e que um dia o recordarão, costuma
repetir: — Temos sempre de introduzir nas nossas conversas alguns pensamentos
sobrenaturais; são sementes que a seu tempo darão fruto. — De permeio com
semelhantes sementes, mistura também pensamentos sobre a vocação para o estado
eclesiástico, sempre que o seu olhar perscrutador descobre que são oportunas. Além
disso, ensina a doutrina cristã aos meninos que se diria constituem a sua paixão; nunca
deixa perder a oportunidade de dar catequese! Procura até fazer surgir todas as ocasiões
que pode.
É semeador da boa palavra também dentro do recinto sagrado. Nos recreios maiores,
os clérigos de melhor comportamento organizam círculos escolásticos; este costume
agrada-lhe muito, pois, além do estudo, parece-lhe fomentar muito a piedade. Reúne,
deste modo, à sua roda um grupo de íntimos, uma espécie de santa liga para a
observância das regras e para a aplicação ao estudo, mas, ao mesmo tempo, para se
afervorarem na vida espiritual.
Contudo, mesmo fora destas reuniões, as suas conversas acabam de ordinário sempre
no seu tema predileto, como sal de que, com graça, asperge toda a conversa41. «Falava
sempre com gosto de coisas espirituais», atestará mais tarde um dos assíduos a estas
reuniões. «Tem, além de tudo, a veia inexorável de contar histórias com que prende e
encanta». «Nunca faltou, nos cinco anos em que fui seu condiscípulo, — dirá ainda um
seu velho amigo, — à resolução tomada de contar todos os dias um exemplo, tirado da
história eclesiástica, da vida dos Santos e das glórias de Maria». A resolução aqui referida
entrava no programa de vida clerical de que já falámos. Numa palavra, é preciso ter o
coração cheio de Deus, para falar de Deus assim, quase sempre que se abre a boca.

30
Os dois amigos
O mais constante dos externos nas visitas ao clérigo e o mais esperado, naturalmente,
era, no primeiro ano do seminário, Luís Comollo, que frequentava então a última classe
ginasial. Sempre dignos um do outro, não tinham segredos que se não comunicassem:
ambos fervorosos afervoravam-se mutuamente no propósito de uma vida toda
consagrada à salvação das almas. É fácil imaginar que boa companhia se faziam depois
de se encontrarem juntos no seminário.
Aqui felizmente as fontes abundam; podemos, por isso, acompanhar os dois amigos e
deste modo conhecer melhor a vida de seminarista de João Bosco, naquilo que nos
interessa. A uniformidade dos regulamentos faz que os dias do seminarista se
assemelhem mais ou menos, nem, geralmente falando, encontram ambiente favorável as
marcadas manifestações de tendências individuais. Para mais, o clérigo Bosco, no dizer
de um seu velho professor, progredia notavelmente no estudo e na piedade, «mas sem
ter as aparências, por causa daquela sua bonomia, que foi sempre a caraterística da sua
vida».
Por isso, no seminário, aos olhos de muitos, ele passou incompreendido, de modo que
foram precisos os desenvolvimentos posteriores, para que aqueles de então recordassem
coisas passadas, e compreendessem o que não tinham compreendido antes e dissessem
como disse outro professor seu: «Recordo-me dele, quando foi meu aluno: era piedoso,
diligente, exemplaríssimo. Certamente naquele tempo ninguém teria prognosticado o que
é agora. Mas devo dizer que a sua digna atitude, a exatidão com que cumpria os seus
deveres escolares e de piedade era exemplar».
Só é pena que testemunhas tão preciosas tenham sido eliminadas pelo tempo e tenha
diminuído a memória das poucas que ficaram! Aproveitamos, por isso, tudo o que
chegou até nós acerca das suas relações de amizade com o clérigo Comollo.
Sua vida de intimidade
Estudo e piedade, escola e religião: eis onde sobretudo os dois diligentes clérigos se
encontravam plenamente de acordo. Nos jovens de engenho, o amor ao estudo ameaça
por três lados a piedade. Em primeiro lugar, a atividade mental, dominando o espírito,
povoa-o de ideias, cuja associação distrai muito durante os exercícios de piedade.
Depois, os êxitos lisonjeiam a vaidade juvenil, que pouco a pouco, em quem lhe cede,
faz desvanecer a suave unção da graça. Finalmente, os estudiosos apaixonados caem
facilmente na tentação de encurtar a duração das orações, procurando pretextos para se
eximir delas, o mais possível, inclinados como são a considerar perda de tempo tudo o
que não é estar sobre a banca de estudo.
Nas Congregações religiosas, os clérigos passam aos estudos depois de uma
conveniente preparação espiritual, que lhes ensina a colocar a piedade acima de tudo;
mas os seminaristas vestem o hábito talar e começam, no dia seguinte, a vida de estudo,
de modo que se se afeiçoam a sério aos livros e aos mestres, quase não têm cabeça para
a igreja e para as práticas de piedade, ou pelo menos têm grande dificuldade em lhes

31
tomar gosto.
O clérigo Bosco batia o amigo em inteligência; mas, no ardor pelo estudo e na piedade
entendiam-se à maravilha. Considerando o estudo um dever e sabendo perfeitamente que
até nos deveres há precedência, davam o primeiro lugar aos deveres para com Deus.
Estavam convencidos, além disso, de que para os eclesiásticos o estudo é um meio, não
um fim em si, e meio de segunda ordem para o bem das almas, devendo considerar-se,
acima de tudo, a santidade da vida; estavam, porém, muito longe de subordinarem o
amor da oração ao desejo de saber; daqui o procurarem ajudar-se mutuamente nos
progressos na vida interior.
«Enquanto Deus conservou em vida este admirável companheiro, escreve D. Bosco,
fomos sempre amigos íntimos. Via nele um santo jovem; amava-o pelas suas raras
virtudes; quando estava com ele, esforçava-me por imitá-lo de qualquer modo, e ele
gostava de mim porque o ajudava nos estudos».
Seu tipo de piedade
Numa coisa só, coisa acidentalíssima, mas reveladora, João Bosco mantinha o seu
modo de ver. Luís Comollo, devoto como era de Jesus Sacramentado, abeirando-se com
o máximo recolhimento da sagrada Mesa, não podia dominar a comoção; por isso,
quando voltava ao lugar, parecia fora de si, rezando entre soluços e lágrimas e gemidos,
só conseguindo dominar-se destes transportes de piedade, no fim da Missa.
João queria que ele se dominasse, para não dar nas vistas; o companheiro dizia,
porém, que, se não desse desafogo à enchente dos afetos, sufocaria. Respeitava a
ardente devoção do amigo, mas, pela sua parte, sentia-se avesso a tudo que tivesse ar de
singularidade ou provocasse admiração.
A sua piedade não menos ardente tinha um aspeto diferente. Ao ir e ao voltar da
Comunhão, nada de excecional; depois, durante a ação de graças, ficava imóvel, direito
com a cabeça ligeiramente inclinada, os olhos fechados e as mãos juntas sobre o peito.
Nenhum sinal de emoção, nenhum suspiro: só, de vez em quando, um leve tremor de
lábios, que proferiam qualquer jaculatória muda. A fé, porém, iluminava-lhe toda a face.
Nas férias
Fora do seminário, nos meses de férias, os dois amigos escreviam-se frequentemente e
trocavam visitas, em que as coisas espirituais representavam o assunto favorito.
Um dos documentos mais notáveis acerca das santas relações é a biografia de
Comollo, falecido muito jovem, durante o segundo ano de teologia; ao escrevê-la, D.
Bosco ocultou-se sob a designação de um «íntimo amigo». A história naturalmente faz as
suas reservas sobre o hábito de o autor conservar sempre este íntimo amigo na meia
sombra e Comollo em plena luz: não faltam, entretanto, notícias para apurar toda a
verdade: uma conclusão, porém, salta certíssima, e é a seguinte: eram duas almas
gémeas, sinal evidente que as irmanava íntima conformidade de espírito. Pares cum
paribus.

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Falámos já em férias. «Grande perigo são para os clérigos, escreve D. Bosco, as férias
e, tanto maior, quanto é certo que duram quatro meses e meio».
Ele propunha-se sempre santificá-las, conservando íntegro o fervor do seminário. A
não ser no primeiro ano, em que as passou no Colégio dos Jesuítas em Montaldo,
ocupando-se como explicador de grego de uma classe de alunos e assistente de uma
camarata, o seu teor de vida nas férias dos anos seguintes, segundo podemos apurar por
testemunhas e documentos autorizados, pode resumir-se em duas palavras: evitar o ócio
e entregar-se a práticas devotas.
Para não viver no ócio, dividia o tempo entre o estudo e os trabalhos manuais,
aconselhados por necessidade de saúde, e explicações escolares.
Das aldeias vizinhas procuravam-no em grupos ou individualmente, nas diversas horas
do dia, estudantes que desejavam exercitar-se um pouco mais nas matérias estudadas ou
preparar bem os seus novos cursos. Ele prestava-se, de bom grado, a este trabalho; eis o
testemunho de um professor que pertencera a estes explicandos: «A primeira lição era a
do amor de Deus e da obediência aos seus mandamentos e não acabava nunca a aula
sem os exortar à oração, ao temor de Deus, a evitar o pecado e as ocasiões de pecar».
Quanto às práticas devotas, nada de extraordinário, segundo o seu costume, mas fiel
observância das próprias da vida de um seminarista: meditação, leituras espirituais,
rosário, visita ao SS. Sacramento, assistência quotidiana à Santa Missa, frequentíssima
Comunhão. Prestava-se, da melhor vontade, a servir em qualquer função sacra.
Todos os domingos dava com zelo e eficácia catequese aos rapazinhos da paróquia.
Sempre que ouvia o sino tocar a «Senhor fora», dirigia-se prontamente à igreja, distante
três quilómetros, punha a sobrepeliz, pegava na umbela e acompanhava o Santíssimo.
Nunca se dispensava de assistir à pregação paroquial.
Cônscio da importância do bom exemplo, observava sempre, e fosse com quem fosse,
uma atitude composta, perfeita, de modo que os seus conterrâneos o tinham na maior
consideração.

Espírito eclesiástico
O consolidar-se nele do espírito eclesiástico, que é santidade de vida interior e
exterior42, afirma-se em caraterísticos episódios que adornam a sua biografia, mas que
seria fora de propósito referir aqui, mesmo resumidamente. Vem, pelo contrário, ao
encontro do nosso propósito tomar conhecimento das disposições espirituais com que se
apresentou a receber as sagradas Ordens.
Subdiaconado
Quase no termo da sua carreira mortal, falando daquele momento decisivo que, na
vida de um eclesiástico, representa o subdiaconado, ele abriu o seu ânimo com
expressões em que não sabemos o que devemos admirar mais, se a extrema delicadeza
da sua consciência ou a opinião altíssima em que tinha o estado sacerdotal, fruto uma e

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outra de tudo ver constantemente em Deus.
«Agora que conheço as virtudes que se requerem para este importantíssimo passo,
escreve ele, estou convencido de que não estava suficientemente preparado; não tendo
quem tomasse cuidado direto da minha vocação, recorri ao Pe. Cafasso que me disse
para prosseguir e repousar na sua palavra. Nos dez dias de exercícios espirituais, feitos
na Casa das Missões em Turim, fiz uma Confissão geral, para que o confessor pudesse
ter uma ideia clara da minha consciência e me desse um conselho oportuno. Desejava
terminar os meus estudos, mas tremia com o pensamento de me ligar por toda a vida;
por isso, não quis tomar uma resolução definitiva, senão depois de ter pleno assentimento
do confessor. Desde então, tenho procurado pôr em prática o conselho do teólogo Borel:
— Com o recolhimento e a Comunhão frequente conserva-se e aperfeiçoa-se a
vocação». O bom sacerdote de Turim tinha respondido deste modo a uma pergunta do
nosso seminarista, durante um curso de exercícios espirituais, pregados por ele no
seminário.
Presbiterado
Concordam também com estas expressões as notícias que ficamos devendo ao seu
caríssimo condiscípulo e amigo íntimo, que se tornou mais tarde seu confessor, até à
hora da morte.
Depondo sobre os exercícios espirituais, feitos pelo diácono Bosco, como preparação
para o presbiterado, fala nestes termos:
«Fê-los de modo edificante. Estava compenetrado de modo extraordinário das
palavras do Senhor, que ouvia nas prédicas, e especialmente daquelas em que se falava
da grande dignidade que iria receber dentro em pouco». Como recordação perene deste
sagrado retiro, fixou no papel nove propósitos, o penúltimo dos quais rezava assim:
«Empregarei todos os dias algum tempo na meditação e leitura espiritual. Durante o dia,
farei uma visita, ou, pelo menos, uma oração ao Santíssimo Sacramento. Gastarei pelo
menos um quarto de hora na preparação e outro de ação de graças para a santa Missa».
Seu plano de vida sacerdotal
Este programa de vida nada traz de substancialmente novo depois do já conhecido,
mas apenas lhe introduz as acidentais modificações exigidas pelas circunstâncias. D.
Bosco nunca andou às cegas, mesmo desde os primeiros alvores da razão. Se nos fosse
permitida uma pequena facécia daquelas que tanto agradavam a D. Bosco, diremos que
nele não demorou, como em tantos outros, a despontar o dente do siso.
Com efeito, desde que se acenderam nele as primeiras luzes da razão, logo descobriu
qual era o caminho certo e por ele entrou decididamente, com passo largo, nos modos e
meios, que sucessivamente o seu discernimento natural, ajudado pela divina graça, lhe
indicava como melhores. Ambos os programas se fundam, digamos assim, sobre quatro
bases sólidas em que a santidade de D. Bosco se irá erguendo: trabalho e oração,
mortificação interna e externa, e depois, como ele dirá pudicamente: a bela virtude.

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No novo programa, definia-se melhor a parte da ação. Já sacerdote, D. Bosco, para
obedecer a estas resoluções, não dará passeios senão por grave necessidade, para visitas
a doentes ou coisas parecidas: ocupará rigorosamente bem o seu tempo: «sofrer, agir,
humilhar-se em tudo e sempre, desde que se trate de salvar almas»; não concederá ao
corpo mais do que cinco horas de sono cada noite; durante o dia e especialmente depois
do almoço, nunca se concederá o menor repouso, senão em caso de doença. Mas a ação
será sempre acompanhada da oração; como no passado, sempre a meditação terá lugar
entre a atividade do seu dia.
Sim, na meditação quotidiana, encontro diário consigo próprio, o sacerdote, assediado
de ocupações, atingirá o espírito de recolhimento e de oração, de que tem a maior
necessidade, para manter em si viva a fé, para se conservar habitualmente unido ao
Sacerdote Supremo Jesus Cristo, de quem é ministro e para d’Ele receber copiosas
graças no exercício do santo ministério.
Nunca Marta sem Maria, na vida sacerdotal de D. Bosco. Ele será ora Maria orante,
ora Marta operante: Marta em oração, enquanto durar o período de atividade mais
intensa, Maria em ação no fim dos seus dias, quando aquela atividade for reduzida; mas
nem num caso nem no outro ele nunca esqueceu o sine intermissione orate.

Capítulo IV
NOS PRINCÍPIOS DA SUA MISSÃO
Para estabelecer qual é a constituição substancial de um astro, os físicos usam um
processo admirável. Fazem passar através de um prisma a luz desse astro; o feixe de
raios luminosos que ele irradia, atravessando o prisma, decompõe-se e produz a tira
alongada e diversamente colorida que se projeta no ecrã branco e se chama espetro. A
análise desse espetro permite ao cientista determinar a composição do astro: a tanta
imensidade de distância, não se descobriu até hoje outro meio de conseguir essa
finalidade.
Ordinário no extraordinário
Em D. Bosco, alma cheia de Deus, o espírito de oração não tinha tais manifestações,
que dessem a perceção imediata da sua natureza e intensidade; para lhe conhecer o
caráter e medir-lhe o grau, é necessário submeter a diligente exame os atos da sua vida
ordinária.
Poucos homens foram tão extraordinários, sob tão ordinárias aparências. Nas coisas
grandes como nas pequenas, sempre a mesma naturalidade, que, à primeira vista, nada
revela nele senão um bom sacerdote. Nos primeiros tempos, só quem por comunidade de
vida tinha oportunidade de observar o habitual domínio próprio que ele possuía em todos
os momentos, encontros, acidentes ou empreendimentos e tinha ao mesmo tempo olhos
suficientemente observadores para distinguir a eficácia do seu agir, ou então tinha a difícil

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intuição de distinguir prontamente os homens, como foi o caso de Pio XI, concebia por
D. Bosco toda a consideração que merecia.
Que admiração que alguns o não compreendessem logo, que outros não o
compreendessem ou até o compreendessem mal? Poucos, na verdade, foram estes
últimos e sempre cada vez mais raros, com o andar do tempo; mas alguns houve.
Para nos cingirmos ao nosso assunto, diremos que nos anos da sua maior atividade,
nem todos compreenderam até que ponto D. Bosco era homem de oração; até ousamos
afirmar que nem todos que escreveram sobre ele penetraram a fundo o seu íntimo
espírito de oração, mais preocupados com contar as suas grandiosas realizações. Ora o
material biográfico, de que ​dispomos, presta-se magnificamente a perscrutar a sua vida
interior. É esta a tentativa em que perseveraremos nestas modestas páginas.

O Oratório festivo
A espontânea expansão sobrenatural da alma de D. Bosco, logo que se viu sacerdote,
foi o Oratório festivo. Não criou de raiz a instituição, nem inventou o vocábulo. Havia as
catequeses dominicais para jovens, nas diferentes paróquias; existiam os oratórios de S.
Filipe de Néri e de S. Carlos Borromeu.
D. Bosco, quando pelas condições dos tempos tantos jovens não conheciam as suas
paróquias, organizou oratórios interparoquiais, onde recolhia as ovelhas vadias; além da
catequese, coordenou uma série de práticas, que enchessem todo o dia do Senhor. Do
seu grande amor a Deus derivava em D. Bosco um vivíssimo sentimento do evangélico
sinite parvulos43, tanto mais que via então prepararem-se à juventude insídias de muitos
lados e por muitos modos.
«A minha delícia, — dizia ele, nos primórdios do seu sacerdócio, — é ensinar
catecismo aos meninos, entreter-me com eles, falar-lhes».
Dir-se-ia que os jovens sentiam também instintivamente o fascínio daquela afeição
salvadora; deste modo, logo que se estabeleceu em Turim, «imediatamente, escreve,
encontrei um grupo de rapazinhos que me seguiam pelas ruas e pelas praças». Mas
reunir grande número de rapazinhos representava muito menos dificuldade do que
encontrar onde os recolher.
O seu zelo tinha um único fim em vista: uni-los a Deus pela obediência aos
mandamentos divinos e às leis da Igreja. Procurava, antes de mais nada, conseguir que
observassem o preceito de ouvir Missa nos dias festivos; que aprendessem para se
confessar e comungar bem. Entretanto, ia-lhes ensinando o catecismo e fazendo
pregações ao nível da capacidade dos seus pequenos ouvintes.
Simultaneamente, inventava toda uma quantidade de brincadeiras e diversões que
servissem de chamariz, para assegurar e aumentar a frequência; mas o íman mais
poderoso era ele, com a sua inexaurível bondade. Deste modo, o dia festivo podia dizer-
se, com toda a propriedade, dies santificatus44. Bem se aplicava a estes dias festivos o

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nome de oratórios, escolhido, entre diversos outros, por D. Bosco, porque
correspondendo inteiramente ao seu ideal.
Fecunda Ave-Maria
O termo que se tornou popularíssimo na Itália, espera ainda nos dicionários o novo
significado ao lado do velho: «pequeno edifício»! O oratório de D. Bosco é a domus
spiritualis45, construída de viventibus saxis46, que são centenas de meninos, de
adolescentes, reunidos onde quer que haja alguém que os chame, nos dias do Senhor,
para adorar a Deus, aprendendo a servi-l’O toda a vida.
Como a piedade de D. Bosco se difundia fazendo o seu Oratório! Começou em 8 de
dezembro de 1841, com um rapazinho só. Pois, antes de começar a ensinar-lhe o
catecismo, ajoelhou e recitou uma Ave-Maria, pedindo à Virgem que o ajudasse a salvar
aquela alma.
Comovente e fecunda oração! A 8 de dezembro de 1885, fazendo uma conferência
aos Cooperadores e comparando o que já estava feito com o estado de coisas quarenta
anos atrás, declarará que tudo era obra de Maria Auxiliadora, graças àquela Ave-Maria,
«recitada com fervor e reta intenção».
Realmente os primeiros resultados não se fizeram esperar muito. No domingo
seguinte, aquele rapazinho não voltou só, mas trouxe um grupito de companheiros,
pobres garotos da rua como ele, que, naturalmente, foram acolhidos por D. Bosco e
entretidos com a sua amabilidade cheia de encanto.
De semana em semana, o número dos catequizandos crescia e, com o número, a
docilidade e alegria não faltavam. Na solenidade do Natal, já alguns puderam fazer a
sagrada ​Comunhão; depois, em duas festas de Maria Santíssima, a Purificação e a
Anunciação, belos coros de vozes juvenis, por ele habilmente ensaiados, executaram
cânticos em louvor da Augusta Mãe de Deus, e numeroso grupo dos mais instruídos se
aproximaram dos sacramentos. D. Bosco tocava o Céu com o dedo, quer dizer, sentia-se
extraordinariamente pago e feliz.
A residência sacerdotal
Estas primeiras e rumorosas reuniões realizaram-se em lugar de silêncio, se não
claustral, pelo menos só quebrado no tempo devido e com moderação: no Colégio
Eclesiástico de Turim, onde se dava a última demão à formação eclesiástica dos novos
sacerdotes turineses, mediante o estudo profundo da teologia moral e pastoral e o
exercício do santo ministério, sob a vigilância de competentes guias, entre eles, S. José
Cafasso.
O nosso zeloso apóstolo da juventude não podia encontrar melhor lugar para se treinar
para a sua missão. Os três anos que ali passou contribuíram poderosamente para formar
o seu espírito de modo definitivo. A graça que a Providência lhe fez, pondo-o perto
daquele santo plasmador de almas sacerdotais, não ficou infrutífera. Na escola deste

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Santo, ele hauriu avidamente aquela piedade, que por sobrenatural intuição já saboreara a
despeito dos costumes dos tempos, piedade feita de «confiança ilimitada na bondade e
ternura de Deus para conosco»; nas conferências teológicas e na sua direção espiritual
aprendeu D. Bosco o modo de ouvir confissões «com piedade, ciência e prudência»; nas
suas lições sobre eloquência sagrada, compreendeu que não se sobe ao púlpito para fazer
exibição de talentos, mas que «o paraíso é a observância dos mandamentos de Deus, a
oração, a devoção à Virgem Santíssima, a frequência dos sacramentos, a fuga do ócio,
das más companhias, das ocasiões perigosas, a caridade para com o próximo, a paciência
nas aflições, e o não acabar nenhuma prédica sem uma alusão às máximas eternas» 47.
Ao lado do P. Cafasso prestou assistência aos encarcerados e participou com ele em
cursos de exercícios espirituais, afervorando-se pela vista da piedade de tão eminente
guia, no exercício de todas estas obras de zelo. Até nas conversas quotidianas lhe bebia
os sábios ensinamentos sobre «a maneira de viver em sociedade, de tratar com o mundo
sem ser escravo dele, e de ser verdadeiro sacerdote ornado das indispensáveis virtudes,
ministro capaz de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».
Ao estilo de um codicilo
Mas Deus não é unicamente roubado pelo que se dá a César e Lhe pertence. O estar
continuamente em movimento para fazer o próprio bem, com o andar do tempo, pode
infelizmente iludir, deixando supor que o dar-se em proveito do próximo dispensa da
obrigação de tratar assídua e interiormente com Deus. É deste tempo um codicilo,
chamemos-lhe assim, acrescentado por D. Bosco ao seu habitual programa de vida
sacerdotal e ditado por aquela mestra de sabedoria que é, para quem a sabe ouvir, a
experiência. Citemos precisamente o que se encontra no livrinho:
«Breviário e confissão. Procurarei recitar devotamente o Breviário, recitando-o, de
preferência, na igreja, para que me sirva como de visita ao Santíssimo Sacramento. ​-
Confessar-me-ei todos os oito dias e procurarei pôr em prática o propósito que hei de
fazer em cada confissão. Quando me pedirem para ouvir alguém de confissão, se os fiéis
estiverem com pressa, interromperei o Breviário e abreviarei a preparação ou ação de
graças da santa Missa, para exercer este santo ministério».
O espírito de oração, quando se torna hábito, dá à pessoa uma marca de serena
compostura e um sentido vigilante da justa medida, que salta facilmente aos olhos de um
observador atento. Era o caso de D. Bosco. No Colégio, procuravam periodicamente o
Pe. Cafasso, para direção espiritual, homens de negócios, políticos e membros da
nobreza da cidade, personagens da alta sociedade, numa palavra.
Pois aos olhos experientes de toda esta gente, não ​escapou a ação do jovem sacerdote
e consideraram desde então D. Bosco como «um homem todo de Deus, tendo-o em
grande consideração e veneração», segundo um biógrafo pôde recolher, diretamente, dos
lábios de alguns deles48.

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Capítulo V
NA SEGUNDA FASE
DA SUA MISSÃO
No seminário, D. Bosco tinha travado um conhecimento que lhe seria precioso: o
teólogo Borel de Turim, que lá fora dar um curso de exercícios espirituais.
O teólogo Borel
«Ele apareceu na sacristia, com ar alegre, gracejando, mas sempre com qualquer
intenção moral». Diz-se que a primeira impressão é verdadeira; pode acontecer que não
seja sempre assim, tanto de subjetivo costuma entrar numa impressão; mas aquela foi
ótima e verdadeira. Com efeito, fez-se a prova. O sacerdote revela-se sacerdote in his
quae sunt ad Deum49; nisto se distingue se o sacerdote é homem de piedade ou um
pobre funcionário.
O então clérigo Bosco, tendo observado «a preparação para a Missa e a ação de
graças, o fervor da celebração», compreendeu imediatamente que se tratava de «um
digno ministro do Senhor». Digno de nota aquele «imediatamente» que nos faz pensar
que para intelligenti pauca. Em coisas de piedade, o seminarista Bosco era bom
entendedor e apanhava as coisas no ar.
Quando depois o ouviu pregar, julgou-o sem mais, «santo»; quis, por consequência,
«tratar com ele de coisas da alma». Quis, foi induzido por espontânea vontade: e que
quis ele? Quis não só confessar-se, como é de uso, mas tratar, ter colóquios íntimos e
importantes e estes sobre assuntos da alma, quer dizer, a respeito das necessidades da
vida espiritual.
A recordação daqueles exercícios ficou profundamente gravada na alma de D. Bosco;
por isso, durante os três anos de Colégio se julgava feliz sempre que tinha ocasião de
trocar algumas palavras com o exemplar sacerdote, que, pelo seu lado, conhecendo-o
bem, gostava de o convidar a servir nas sagradas funções e para confessar e pregar,
juntamente consigo: convites bem frequentes, dada a proverbial atividade do seu zelo,
que lhe punha fogo nas veias e levava os colegas a chamar-lhe o «bersagliere (soldado
das primeiras linhas) da santa Igreja». Eram, precisamente, dois espíritos feitos para se
compreenderem.
D. Bosco, portanto, tinha já intimidade com a pessoa do teólogo e familiaridade na sua
casa, quando se ventilou a proposta de que ele passasse a viver com o teólogo. Isto deu-
se ao terminar o terceiro ano de estágio no Colégio Eclesiástico. A ideia, ou melhor, a
inspiração veio daquela santa alma do P. Cafasso, resolvido a conseguir que D. Bosco
não saísse de Turim.

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O teólogo vivia no chamado Refúgio, sob cujo nome os habitantes de Turim
designavam sumariamente o complexo de institutos de beneficência fundados pela régia
generosidade duma munificente senhora, a marquesa de Barolo50: o teólogo era ali reitor
e diretor espiritual. Com piedosa docilidade de filho para com o pai da sua alma, D.
Bosco, vendo no conselho do P. Cafasso uma pura e simples manifestação da vontade de
Deus, lançando para trás das costas quaisquer outras considerações, transferiu para o
Refúgio o quartel general do Oratório, que ia a caminho de se tornar uma Instituição.
Quartel-general deve parecer uma palavra muito importante aplicada ao pequeno
espaço que lhe foi designado para habitação; mas não pensaremos do mesmo modo se
considerarmos que lá esteve instalado, durante três anos, o comando de um exército
juvenil. Para completar a imagem marcial, diremos ainda que o seu estado-maior era
constituído pela caridade, coroa das virtudes que S. Paulo pôs no seu séquito no célebre
capítulo treze da primeira Epístola aos Coríntios.
Primeiros contrastes
As ocasiões não lhe faltavam sobretudo para lhe lembrar que caritas patiens est. Os
seus trezentos ou quatrocentos rapazes irritaram os nervos à Matrona do Refúgio, que
um belo dia, cansada de os suportar, lhe impôs a obrigação de os mandar embora e
vendo-o continuar firme na sua resolução de o não fazer, teve, com desgosto, de se ver
privada da sua utilíssima obra e presença.
Irritaram também o amor do sossego e as pretensões exorbitantes de certos habitantes
das vizinhanças dos locais, onde sucessivamente ele reunia a sua turba dominical: feriram
as delicadas suscetibilidades das autoridades civis e políticas, que, afinando pelo diapasão
dos particulares, o corriam ora de um lado ora do outro ou o vigiavam como se
representasse um perigo social.
Feriram costumes seculares das paróquias, fazendo nascer preocupações sobre as
consequências que viriam de tais novidades nunca vistas até então; feriram, finalmente, a
má vontade de pessoas que tinham interesses mais ou menos confessáveis em lhe lançar
pedras no caminho, sobretudo quando, corrido de todos os lados, se viu obrigado a ter as
suas reuniões no campo.
Preocupado mas não desanimado, aflito mas irremovível, opunha sempre às
renovadas hostilidades aquela heroica fortaleza de alma que é um dom do Espírito Santo.
Fortaleza de tão excelsa origem faz com que o homem esteja pronto para tudo, intrépido
contra todos, mas sem ostentação, como acontecia precisamente com D. Bosco.
Não era certamente uma delícia, humanamente falando, passar todos os domingos
entre tantos rapazes rudes, barulhentos, sempre prontos a envolverem-se em rixas, por
vezes mal-agradecidos e maus; não era prazer instruir rapazes tantas vezes estúpidos,
teimosos e sem vontade.
Hoje até os rapazes mais pobres nos aparecem aos domingos limpos e vestidos como
meninos ricos; então, que escumalha analfabeta e piolhosa corria pelas ruas e praças,

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abandonada a si própria, na capital do Piemonte!
Todos, parece, deviam admirar e ajudar D. Bosco, ou pelo menos deixá-lo em paz,
entregue aos seus traquinas para empregar uma palavra suave, de quem gostava de
proclamar-se chefe; mas as obras de Deus surgem e crescem combatidas pelos inimigos e
pelos amigos. D. Bosco sofria calmo, de olhos no céu, de onde esperava auxílio e
conforto; já então tudo o que fosse árduo e repugnasse à natureza lhe parecia fácil e
suave.
A fortaleza dos Santos é de outra têmpera do que a dos estoicos, dura e inflexível: os
Santos, confiados no concurso sobrenatural da graça, rezam, são pacientes e vencem. A
fortaleza filosófica esgota-se na satisfação egoísta do amor-próprio, de onde tira
inspiração e norma; a cristã aguça o engenho para excogitar sempre novos caminhos,
humildes muitas vezes e humilhantes, desde que alcance a meta sonhada, sem outra
ambição que não seja promover os interesses da divina glória e o bem do próximo.
Serenidade de Dom Bosco
Oratorianos da primeira hora, que nunca abandonaram D. Bosco, mas sempre
viveram com ele ou não muito longe dele, tendo presente a recordação destes anos
heroicos, conservaram viva no seu coração a imagem verdadeiramente paterna de D.
Bosco, imagem querida e boa, querida porque boa, mas boa daquela bondade que o
jovem do Evangelho leu na face de Jesus, quando lhe perguntou51: bom Mestre, que hei
de eu fazer para alcançar a vida eterna?
Num homem tão complexo e completo como D. Bosco, a bondade nada tinha de certa
sensibilidade que degenera facilmente em fraqueza; a bondade de D. Bosco, iluminada
pela inteligência e pela fé, inflamada pelo habitual contacto com Deus, traduzia-se em
benevolência sobrenatural, igual para todos e a todos elevando. Por isso, no meio dos
incertos acontecimentos cuja repercussão dolorosa sobre a alma de D. Bosco primeiro
entreviram e só mais tarde compreenderam, sempre o viam constantemente tranquilo e
sereno fazer-se tudo para todos, na expansão de um afeto operativo e espiritualíssimo.
Assim conquistava os corações dos jovens que, onde quer que fossem confessar-se,
não queriam saber de mais ninguém, rodeando-o alegres e confiantes.
Por isso, quando lhe disputavam um palmo de solo a dentro de paredes e foi obrigado
a transferir o Oratório para campo aberto, via os seus jovens, mesmo nos duros invernos
de Turim, segui-lo com tanta fidelidade, que, levando com eles comida, estavam na sua
companhia até ao pôr-do-sol. Aqueles primeiros, uma vez adultos, recordando-o no
pensamento tal como o tinham visto na realidade, exclamavam: — Assim no meio de
nós, parecia um anjo!
Bastava vê-lo
Este juízo recorda-nos o protomártir santo Estêvão, de quem os Atos dizem52 que,
carregado de acusações perante o tribunal, os presentes viam a sua face que se diria a

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face dum anjo, tanta era a calma cheia de dignidade que dela transparecia, estando o seu
espírito cheio de graça e fortaleza.
A prodigiosa conduta de D. Bosco, no meio de tantas dificuldades, não tinha outra
origem.
Sabem-no os santuários suburbanos consagrados à Virgem aonde conduzia, em
peregrinação, os grupos nómadas dos seus rapazes a pedir pela oração e os sacramentos
as bênçãos celestes; sabe-o o santuário da Consolata, cuja imagem taumaturga o ouviu
tantas vezes e aos seus filhos, enchendo-o de encorajamentos do alto; sabiam-no o
teólogo Borel e outros dignos eclesiásticos, testemunhas do religioso fervor que o zeloso
apóstolo sabia infundir nas almas juvenis; souberam-no também alguns jovens mais
inclinados à piedade e, por isso, tratados por ele à parte e unidos ao nosso Santo na
oração e guiados no caminho de uma maior perfeição.
São factos que convinha evocar, se queremos compreender plenamente as palavras
das suas «Memórias»: «Era maravilhoso ver como se deixava guiar uma multidão que
pouco antes eu nem sequer conhecia, da qual em grande parte se podia dizer com
verdade que era sicut equus et mullus, quibus non est intellectus. Devemos acrescentar
que, no meio desta grande ignorância, admirei sempre um grande respeito pelas coisas da
Igreja, pelos ministros sagrados, e um grande transporte e desejo de aprender os dogmas
e preceitos da religião». Para cavalinhos doidos e burrinhos teimosos, não se podia dizer
que estava mal! Mas o domador que os dominava possuía por todos, em abundância, o
dom da inteligência, que primeiro lhes faltava a eles, mas em seguida os ia penetrando.
Ora, compreendemos facilmente como o P. José Cafasso, refutando as recriminações
que faziam diante dele contra D. Bosco, rematasse invariavelmente com o estribilho:
«Deixai-o fazer! Deixai-o!»
Durante a semana
Mas o domingo era apenas um dia na semana e os outros dias? seis longos dias. Não
se imagine que o verdadeiro Oratório festivo tem ocupações apenas dominicais. O
Oratório, como D. Bosco o concebia, é sede de uma autoridade paterna, que cativando a
alma dos rapazes, os segue por toda a parte e intervém diretamente junto dos pais,
patrões, mestres, por toda a parte onde seja possível exercer um salutar influxo sobre a
conduta deles.
Depois, para D. Bosco, havia institutos religiosos, escolas públicas e particulares,
cárceres, hospitais, escolas noturnas, prédicas, estudos, publicações, além do Refúgio:
campo de trabalho quotidiano que não tinha limites.
Tanta atividade punha-o naturalmente em contacto com pessoas de todas as
condições, muitas das quais precisadas também da sua assistência e da sua palavra, que
quase lhe davam caça, onde quer que aparecesse a celebrar a santa Missa. A prova está
num propósito que ele escreveu, precisamente em 1845; vamos referi-lo aqui, não para
usurpar a tarefa dos seus biógrafos, mas porque vem a talho de foice para o nosso
escopo. Reza assim: «Como, quando chego à sacristia, quase sempre sou abordado por

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pessoas que querem falar-me, para pedir conselho ou para serem ouvidas de confissão,
procurarei, antes de sair do quarto, fazer uma breve preparação para a santa Missa».
Notícia preciosa e significativa que, enquanto com aquele «breve» exclui certo
escrúpulo de consciência, por outro lado, nos revela como D. Bosco, em lugar de se
refugiar detrás da cómoda desculpa: deixar o Senhor pelo Senhor, preferia antecipar a
devida preparação.
Fontes de inspiração
Pertencem também a este tempo certos cartõezinhos que ele utilizou durante quarenta
anos, para marcar o breviário, autógrafos eloquentes dos pensamentos que queria lhe
fossem familiares.
Onze sentenças bíblicas recordavam-lhe a Providência divina, a confiança em Deus, a
fuga das ocasiões, o desprendimento dos bens da terra, a alegria da boa consciência, a
liberalidade do Senhor para com os generosos, a conveniência de refletir antes de falar, o
tribunal divino, o amor dos pobres, o respeito devido aos superiores, o esquecimento das
ofensas.
Cinco máximas patrísticas recordavam-lhe a frequência do exame de consciência, a
adesão humilde e completa aos ensinamentos da Igreja, a ciosa guarda dos segredos, a
eficácia do bom exemplo, o zelo pelas almas dos outros e pela própria.
Três citações de Dante, tiradas do fim de cada um dos Cantos o elevavam às
«estrelas», quer dizer, à consideração do Paraíso.
Vinham depois quatro versos de Sílvio Pellico, que merecem ser referidos, não porque
sejam excecionais, mas porque nos parecem postos ali para avisar qual deva ser a política
do homem de Deus, num período de ardentes paixões políticas: a política da Itália una na
fé, na esperança e na caridade: Que o Italiano acredite em todas as altas virtudes, / Que
o Estado espere todas as graças de Deus, / E crendo e esperando ame e corra / À
conquista das eternas verdades.

Sílvio Pellico
Pellico e D. Bosco conheciam-se muito bem. Para D. Bosco, o poeta compusera a
conhecidíssima loa: «Angioletto del mio Dio», e tinha grande estima por ele. Sendo
secretário da marquesa Barolo, teve certamente de minutar a carta em que a nobre
senhora comunicava ao reitor do Refúgio as suas decisões relativas a D. Bosco repetindo
em termos diplomáticos o brusco aut, aut que já lhe fora intimado, sem meios-termos e
oralmente: ou deixar o Oratório ou deixar o Refúgio. A longa carta assinada pela nobre
senhora, mas redigida no amável estilo do secretário, é caríssima ao nosso coração por
causa de um pequeno período que é o seu ponto mais luminoso:
«(D. Bosco) também me agradou desde o primeiro momento em que lhe encontrei
aquele ar de recolhimento e de simplicidade própria das almas santas». O escritor
revestiu de bela forma o juízo alheio, que correspondia certamente, ao seu próprio juízo.

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Capítulo VI
NA SEDE ESTÁVEL
DA SUA MISSÃO
Falar hoje de Oratórios é mencionar uma instituição tão comum em Itália que parece
ter sido sempre assim, sem que pareça necessário saber a quem se deve tal instituição;
não foi sem misterioso desígnio providencial que aconteceu que o centro propulsor das
obras de D. Bosco tivesse um nome consagrado pelo uso para indicar o lugar da oração.

Porque se chama Oratório


Um lugar toma o nome daquilo que principalmente nele se faz. Se pois um lugar de
tanta ação se chama lugar de oração, isto quer dizer que nas obras de D. Bosco, antes se
deve pensar na oração depois na ação. Isto é perentoriamente confirmado pelas próprias
palavras de D. Bosco. Não faltaram com efeito, no princípio, pessoas bem-
intencionadas, que acharam estranho e pouco oportuno como se tinham introduzido
tantas práticas devotas; mas D. Bosco fechava a boca a todos respondendo sempre do
mesmo modo: — Chamei Oratório a esta casa para indicar, claramente, que a oração é a
única força com que deve contar.
A piedade do Oratório respirava-se com o ar; lia-se na face dos rapazes; a piedade
pulsava em todos os peitos, em todos e em tudo. Isto, porém, não faz parte do nosso
desígnio; apenas aludimos ao facto, para mostrar que este era o reflexo da alma
sacerdotal de D. Bosco. Um sacerdote que tenha grande espírito de iniciativa, mas não
possua no mesmo grau espírito de oração, poderá com certeza organizar na Igreja de
limo terrae, mas não conseguirá, certamente, infundir spiraculum vitae53. Se outros não
remediarem o defeito, organizações destas não durarão, porque não terão vida.
Para D. Bosco, Deus era o princípio e o fim de tudo. O acumular-se das ocupações
não lhe deixava livres longas horas para se consagrar à oração; a mãe, porém, que
dormia num quarto contíguo ao seu, sabia por bons sinais que ele ​empregava boa parte
da noite na oração.
Sobre a porta do seu quarto, um grande cartão impresso convidava-o a dizer: Seja
louvado Jesus Cristo; dentro do quarto, outro semelhante lembrava: Uma só coisa é
necessária, salvar a alma; um terceiro recordava-lhe aquele mote tão caro a S.
Francisco de Sales e que tomou para si no princípio do seu sacerdócio: Da mihi animas,
caetera tolle. Aspirações exprimindo o desejo da própria salvação eterna e o augúrio para
a salvação de todos eram-lhe habituais.
Que dizer daquelas frequentes manifestações de íntima piedade religiosa, que eram o
respeito, o amor e a estima por todos os atos do culto, por todas as práticas de devoção,
aprovadas, promovidas ou recomendadas pela Igreja? Como, por exemplo, o uso dos

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sacramentais, a assistência às celebrações religiosas, a recitação do terço em comum, a
agregação às Pias Associações, o Angelus, a bênção da mesa, a Via Crucis.
Que grande devoção não nutria pelos mistérios da Paixão e Morte de Jesus! Meditava
com vivo afeto as dores de Jesus, e quando discorria sobre elas enternecia-se a ponto de
lhe morrerem as palavras na boca e mover ao pranto o auditório.
Relativamente às Pias Associações, não devemos esquecer que pouco depois de se
estabelecer em Valdocco, se inscreveu na Ordem Terceira Franciscana, vestindo-lhe o
hábito e fazendo noviciado e profissão. Que fosse um sacerdote exemplarmente piedoso,
saltava aos olhos de quem quer que o observasse, quando rezava em voz alta,
pronunciando as palavras com uma espécie de vibração harmoniosa, que revelava o
fervor da sua caridade.
Por isso, o humilde poeta que em 1846 compôs para música algumas estrofes em sua
honra, para celebrar o seu regresso após uma longa convalescença, tornou-se intérprete
do sentimento unânime, cantando o dia que tinha reconduzido ao Oratório «o homem
prudente, piedoso, adornado de todas as virtudes».
Havia algo estranho nele
Deposições bastante posteriores fazem eco a este coro de vozes contemporâneas, de
testemunhas oculares, merecedoras de toda a fé.
Decorriam então para D. Bosco tempos de grandes dores de cabeça: pôr a funcionar
um Oratório festivo de setecentos rapazes; erigir e dirigir mais dois novos em Turim;
criar e pôr a funcionar o Hospício; abrir as portas a pobres clérigos dispersos pelo
violento encerramento dos seminários, enchendo até ao incrível a modesta casa; resolver
o problema do pão quotidiano; lançar as bases da futura Congregação; entre as
convulsões públicas que tanto preocupavam as autoridades eclesiásticas, condividir por
alto espírito evangélico as ansiedades do seu Pastor, tornado objeto de ferozes
contradições...: tudo isto induziria a supor que de manhã até à noite D. Bosco estivesse
como uma pilha, que a sua cabeça parecesse uma caldeira sob pressão. Nada mais longe
da verdade.
Um venerando sacerdote, que o via de perto, diz-nos que na sua fisionomia
transparecia tão evidente o pensamento da presença de Deus, que ocorriam ao espírito,
ao vê-lo, aquelas palavras do Apóstolo54: Nostra conversatio in coelis est. Em toda a
parte, à mesa como no quarto, sempre aparecia composto nas ações, recolhido nos
olhares, de cabeça inclinada, como quem está na presença de uma grande personagem ou
diante do Santíssimo Sacramento. Na rua sempre o via concentrado, mas de modo a
mostrar claramente que estava absorto no pensamento de Deus. A mesma pessoa nos diz
que se alguém lhe pedia um conselho espiritual, em momentos em que parecia distraído
por negócios de todo o género, ele respondia sempre como homem que vive imerso na
meditação das verdades eternas.
Outra testemunha, que viveu sob a direção de D. Bosco nos primeiros tempos do

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Oratório, quando o observava durante a recitação das orações em comum, notava com
que gosto ele proferia as palavras Pai Nosso que estais no Céu, e ​distinguia-lhe a voz no
concerto geral, por um som indefinível que movia à ternura quem o ouvia.
Embora nada se exteriorizasse na sua atitude, a este observador não escapou que na
sacristia ou na igreja não tinha o costume de apoiar os cotovelos, mas apoiava apenas o
antebraço sobre a borda do banco ou genuflexório, conservando as mãos juntas ou
segurando com elas o livro.
Nem sequer aquele célebre moralista, Mons. Bertagna, pôde esquecer jamais a sua
atitude durante a oração, de maneira que querendo dar-nos uma ideia justa em poucas
palavras, costumava dizer que D. Bosco, quando rezava, tinha qualquer coisa de
«angélico».

Um espírito sereno
Não poremos ponto sobre o tema do aspeto exterior de D. Bosco, sem acrescentar,
como confirmação do que aqui ficou dito, algumas outras observações, úteis à
compreensão ​completa do seu espírito de oração. Escritores e desenhadores brincam, por
vezes, demasiado sobre o aspeto de bonomia exterior do Servo de Deus; há a quem
agrade um D. Bosco, como diremos, açucarado. Nós que o vimos, nunca consentiremos
nesta deformação; não encontraremos o verdadeiro D. Bosco sob tal aspeto.
Um homem superior, que é ao mesmo tempo um grande santo, sabe sorrir, não porém
com aquele perene e insignificante sorriso meramente instintivo, mas um sorriso
consciente, intencional: um sorriso com uma finalidade, acabando logo que esta tenha
sido atingida. No Santo, a benignidade suave e amável anda de mãos dadas com a
tranquila e serena dignidade, que constitui um visível selo da presença do Criador na
criatura. E assim, a vista de um Santo no ato que inspira confiança, eleva e faz pensar55.
Uma simplicidade evangélica
Relativamente a D. Bosco, pode falar-se de bonomia, mas nunca de fraqueza; e como
esta costuma ser irmã gémea daquela, temos de concluir que a bonomia de D. Bosco
deve ser compreendida sem recorrer ao dicionário; chamemos-lhe a simplicidade
evangélica do sim sim e não não: sim de bondade, mas respirando firmeza e teremos
acertado. O homem que comunica interiormente com Deus, terá sempre uma gravidade
calma de atitudes e lineamentos. Assim se apresenta D. Bosco a quem quer que o estude
através das genuínas manifestações da sua personalidade.
Análogo à atitude era o falar. Conversava com calma, devagar, aborrecendo discursos
profanos, modos muito vivos, expressões ressentidas e excitadas e pesando todas as
palavras.
Escreve isto quem viveu longos anos na familiaridade do homem de Deus56:
«Muitas vezes, dizíamos entre nós: — Como é bom estar perto de D. Bosco! Se fala
um instante, todos nos sentimos cheios de fervor».

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Mas temos outro testemunho de maior valor. Trata-se do Beato Pe. Rua, que assim
depôs no processo:
«Vivi ao lado de D. Bosco trinta e seis anos... Fazia-me impressão observar D. Bosco
nas suas ações, mesmo as mais insignificantes, como ler e meditar qualquer livro
piedoso».
A paz no seu rosto
A quem tem paciência de ler, não deve desagradar que divaguemos um poucochinho,
mas não sem motivo. Quero incluir uma importante citação pela qual se veja como é
seguro e legítimo o método de procurar deduzir de um certo exterior de D. Bosco o seu
interior. Afinal, se houvesse outro caminho mais direto para chegar a D. Bosco, quem
não seguiria por ele?
Deixemos falar S. Vicente de Paulo. Num daqueles admiráveis sermõezinhos, que
costumava dirigir aos seus missionários, observa57:
«Mesmo que não dissésseis uma palavra, se estiverdes todos imersos em Deus,
tocareis os corações só com a vossa presença... Os Servos de Deus têm uma aparência
que os distingue dos homens carnais. Certa atitude exterior humilde, ​recolhida e devota,
que age sobre as almas que os contemplam. Há aqui pessoas tão cheias de Deus, que
sempre que as vejo fico impressionado. Os pintores de Santos pintam-nos cingidos de
raios: está certo que os justos, que vivem santamente na terra, irradiem uma luz toda
sua».
Também o insigne biógrafo de S. Boaventura58, depois de ter dito que nos faltam
notícias para conhecer «os seus progressos na oração e o dom sublime da
contemplação», passa a considerar os «frutos da sua vida interior e da sua contínua
união com Deus», e entre outras coisas observa que «ela imprimia no seu semblante
aquela paz inefável, aquela graça bendita que arrebatava todos os que o viam»; como
confirmação do que diz, alega o testemunho de um contemporâneo, que a propósito do
concílio de Lyon, onde o Santo espalhou os últimos raios da sua seráfica luz, escreveu:
«O Senhor deu-lhe a graça de que todos aqueles que o viam lhe ficavam cordialmente
afeiçoados».
Basta mudar o nome e temos o retrato de D. Bosco.
Os exercícios espirituais
O Santo dos exercícios para ordinandos e ordenados veio em boa altura para nos
recordar como D. Bosco apreciava a grande prática inaciana. D. Bosco amou os
exercícios espirituais: amou-os para si e para os outros. Precursor também neste campo,
inaugurou em 1847 os retiros fechados para jovens operários; na devida altura,
introduziu nos colégios salesianos o costume de fazer um turno de exercícios pela
Páscoa, bem preparados, bem pregados e acabados em santa alegria; na sua
Congregação, nem seria preciso dizê-lo, não ficou atrás dos outros fundadores. Era um

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ardente promotor, fazendo-os sempre que podia. Enquanto as circunstâncias não lho
impediram, subia todos os anos como romeiro ao santuário alpino de S. Inácio acima de
Lanzo de Turim, onde na solidão e na paz dos montes confortava o espírito na oração e
na meditação das verdades eternas.

Seus propósitos
Num livrinho, diligentemente conservado, podemos ler, com emoção, «os propósitos
feitos nos exercícios espirituais em 1847».
Todos os dias: Visita ao Santíssimo Sacramento.
Todas as semanas: Uma mortificação e confissão.
Todos os meses: Recitar as orações da Boa Morte. Domine, da quod iubes, et iube
quod vis.
O sacerdote é o turíbulo da divindade (Teódoto).
É o soldado de Cristo (S. J. Crisóstomo).
A oração é para o sacerdote como a água para o peixe, o ar para as aves, a fonte para
o veado.
Aquele que ora é como aquele que vai ao Rei.
É a terceira vez que vemos os propósitos de D. Bosco, referindo-se à vida de oração,
embora não ignorando que do dizer ao fazer, está de permeio o mar.
Há, porém, que ter na devida conta o caráter de D. Bosco que não era um cerebral,
nem um emotivo: era um volitivo, de ideias claras e de afetos puros. Temperamentos
destes, firmes e tenazes, quando querem, querem mesmo. Não são assim os
especulativos, cujas resoluções ficam facilmente assentes no ar: não assim os passionais,
que resolvem, resolvem e nunca acabam de resolver, porque as impressões são móveis
como penas ao vento. D. Bosco foi dotado de uma vontade férrea.

Dom Bosco chorava


Aqui surge outro problema, um problema de outro género. Admitindo este domínio
próprio caraterístico nos volitivos, como explicar o facto de D. Bosco chorar tantas
vezes?
Umas vezes chorava ao celebrar, outras quando distribuía a Comunhão, ou
simplesmente quando abençoava o povo, no fim do Santo Sacrifício; chorava ao falar
aos jovens depois da oração da noite, quando fazia conferências aos seus colaboradores,
quando lhes fazia as recomendações depois dos exercícios espirituais; chorava aludindo
ao pecado, ao escândalo, à modéstia, ou impressionado pelas ingratidões humanas para
com o amor de Jesus Cristo ou exprimindo receios acerca da salvação de alguém.
Diz uma testemunha, a respeito das loucuras carnavalescas: «Em compensação de
tantas desordens, exortava-nos a receber a Eucaristia e a fazer horas de adoração diante
do Tabernáculo; enquanto falava pensando nos insultos que Jesus Sacramentado recebia,

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especialmente nesses dias, chorava e fazia-nos chorar também».
Diz outra testemunha de primeira ordem, o cardeal Cagliero: «Quando D. Bosco
pregava sobre o amor de Deus, sobre a perda das almas, sobre a Paixão de Jesus, na
Sexta-feira Santa, sobre a sagrada Eucaristia, sobre a boa morte, sobre a esperança do
Paraíso, vi-o muitas vezes chorar, como o viram os meus companheiros derramar
lágrimas de amor, de alegria ou de dor; lágrimas de santo entusiasmo, quando falava da
Virgem, da sua bondade e da sua pureza imaculada».
O mesmo lhe acontecia nas igrejas públicas. Uma testemunha viu-o prorromper em
pranto na igreja da Consolata, quando falava do Juízo Universal, ao descrever a
separação dos réprobos dos eleitos; outra testemunha observou-o a chorar, várias vezes,
quando falava da vida eterna, de modo que movia ao arrependimento os pecadores mais
obstinados, que depois do sermão o iam procurar para se confessarem. O seu
consciencioso biógrafo escreve59:
«Nós próprios que escrevemos estas páginas fomos testemunhas com mil outros deste
dom divino das lágrimas que foi concedido a D. Bosco, desde que fundou o Oratório e
mesmo antes; este dom durou até à sua morte».
Trata-se, pois, de saber se estamos em presença realmente de um dom místico e, em
caso afirmativo, se ele nos permite concluir que D. Bosco gozava da graça de uma
oração passiva. Havemos de voltar em melhor oportunidade e mais desenvolvidamente a
este assunto: por agora, limitemo-nos a observar que, nas circunstâncias enumeradas, as
lágrimas de D. Bosco eram prova da sua grande união com Deus; como união com Deus
é oração, compreende-se que alto espírito de oração o devia animar no meio da crescente
atividade que o vemos desenvolver.
Amor eucarístico de Dom Bosco
Na ascética de D. Bosco uma parte preponderante diz respeito à Eucaristia, amor de
toda a sua vida e objeto perene do seu zelo sacerdotal.
Foi dia de grande alegria para ele, quando o Rei do Céu se instalou no seu Oratório.
Recebeu graça tão insigne em 1852, depois da ereção da igreja dedicada a S. Francisco
de Sales. Desde então, aquele edifício sagrado tornou-se o centro dos seus afetos. É
impossível descrever o júbilo com que deu aos alunos esta alegre notícia.
Daí em diante, sempre que lhe deixavam um momento livre, corria a adorar o divino
Salvador, estando diante do Tabernáculo em atitude mais de serafim do que de homem.
Dava sempre a maior importância a todas as coisas que dissessem respeito ao culto
divino na sua igreja: sempre cuidadoso exigindo limpeza e ordem nos vasos sagrados, nos
paramentos; sempre atento a que de noite nunca se apagasse a lâmpada, recomendando
constantemente a todos para que refletissem bem em quem era Aquele que se dignava
habitar naquele Tabernáculo; gostava até de limpar pelas próprias mãos o pó do altar,
varrer o pavimento, lavar o supedâneo.

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Nada lhe escapava de tudo o que dissesse respeito ao decoro das sagradas funções;
nas grandes solenidades, não queria músicos profanos porque, não estando habituados a
estar na casa de Deus como se deve, não tinham o respeito devido pela presença real de
Jesus. O seu biógrafo, ótima testemunha, escreve que na igreja a fé e a caridade para
com a presença do Salvador divino lhe transpareciam na face.
Como celebrava a santa Missa
Se era assim o que orava, o que não terá sido o celebrante! Celebrava composto,
concentrado, devoto, exato: proferia as palavras com clareza e unção; gostava
visivelmente de distribuir a sagrada Comunhão, mas conseguindo ocultar o fervor do
espírito. Nada, porém, de afetado ou que pudesse dar nas vistas; nem vagaroso nem
apressado, fazia todos os movimentos do princípio ao fim, com calma e naturalidade.
Os fiéis, que o não conheciam, ficavam logo edificados; muitos, quando sabiam onde
celebrava, acorriam a ouvir a sua Missa; as famílias, que tinham o privilégio do oratório
doméstico, disputavam a honra de o acolherem para celebrar. Quantas vezes ia ajoelhar
diante do altar da sua primeira Missa, na igreja de S. Francisco de Assis, perto do
Colégio Eclesiástico, para renovar os propósitos daquele memorável dia!
Conserva-se ainda um exemplar das Rubricae missalis, que trazia habitualmente
consigo, gasto pelo longo uso; de quando em quando, pedia aos seus íntimos que o
observassem ao celebrar, e vissem bem se caía em defeitos, violando qualquer rubrica.
De manhã, quando do quarto se dirigia para a igreja, se encontrava alguém que o
saudasse ou lhe beijasse a mão, respondia com um sorriso, mas sem dizer uma palavra,
todo absorto no pensamento da próxima celebração.
Tendo de viajar, para não deixar de celebrar, abreviava o sono, celebrando mesmo
muito cedo ou sujeitava-se a todos os incómodos, celebrando muito tarde.
Assim o viram no altar os Salesianos da primeira geração e assim o vimos nós, os
últimos chegados.

Apóstolo da Eucaristia
O coração de D. Bosco, tendo-se formado para a vida espiritual no precoce e
constante amor da Sagrada Eucaristia, era naturalmente levado ou melhor
providencialmente preparado, para nos dar em si o modelo do sacerdote apóstolo da
Comunhão frequente. Como resplandece luminoso nesta santa missão o seu zelo!
As sombras do jansenismo eram ainda fortes no Piemonte. No Colégio Eclesiástico,
eram ensinadas as sãs doutrinas morais, que procuravam dissipar tais sombras dos
espíritos dos homens da Igreja; mas o campo do Senhor do Evangelho teria continuado
triste, sabe Deus até quando, sem o poderoso sopro do exemplo de D. Bosco. Ele agia,
não discutia. Pessoalmente tinha resolvido, há muito, o problema da frequência, de modo
que chegava ao sagrado ministério com ideias bem claras sobre a matéria.
Faz-nos hoje certa impressão ler este assunto nas suas «Memórias»: «No princípio do

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segundo ano de filosofia, tendo ido um dia fazer a visita ao Santíssimo Sacramento e não
tendo o livro das orações, comecei a ler o livro De imitatione Christi; li alguns capítulos
sobre o Santíssimo Sacramento». Impressionado pela «sublimidade dos pensamentos» e
pelo «modo claro e ao mesmo tempo ordenado e eloquente como eram expostas aquelas
grandes verdades», apaixonou-se de tal modo pelo áureo livro que fez dele uma das suas
leituras prediletas.
Ora, lendo e tornando a ler precisamente a parte em que se trata do Sacramento do
Altar, fixou a sua atenção sobre o segundo período do capítulo X, onde o pio autor
observa como o inimigo, sabendo perfeitamente quais e quantos frutos se conseguem na
sagrada Comunhão, procura todos os meios para retirar dela todos os fideles et devotos,
não já os simples fiéis, mas também as almas piedosas ou consagradas a Deus.
«Velho flagelo, pois, na Igreja, — exclamava o reflexivo leitor de si para consigo, —
velha peste esta maldita infiltração diabólica!». Tanto mais avidamente deve ter
absorvido e convertido em suco e sangue o suavíssimo néctar deste livro sublime,
anelando pela chegada do dia em que se pudesse fazer arauto da pia exhortatio ad
sacram Communionem no meio da juventude de todo o mundo. Sim, no meio da
juventude; porque se não se queria edificar sobre areia, era preciso começar pela
juventude e conduzi-la depressa ao banquete divino, conduzi-la em grande número,
reconduzi-la com frequência e habituar os olhos do público a este espetáculo. Foi isso
que ele fez.
Choviam observações daqui e dali; D. Bosco não perdia tempo a discutir: preparava
numerosos grupos de rapazinhos da primeira Comunhão, multiplicava as Comunhões
gerais, instituía sociedades e associações para habituar os seus membros à Comunhão
frequente e até quotidiana, ouvia de confissão comungantes durante horas sem fim.
Só Deus sabe os sacrifícios que se impôs, para promover eficazmente a frequência
dos jovens à sagrada Mesa; todos podiam observar a alegria sincera que lhe inundava o
peito ao contemplar as filas intermináveis de jovens que se aproximavam da Sagrada
Mesa. Que poderia, de facto, imaginar de melhor quem vivia com o espírito fixamente
voltado para Jesus Sacramentado?
No confessionário
Faltaria a este capítulo um elemento importante, se não disséssemos de que modo se
servia D. Bosco da Confissão, durante estes anos. Na vida espiritual, a escolha de um
confessor é condição ordinária para progredir. A isto já alude S. Bernardo com aquela
sua célebre frase60: Qui se sibi magistrum constituit, stulto se discipulum facit; tomar-
se por guia de si próprio é fazer-se discípulo de um louco. O santo Doutor escreve, deste
modo, não a qualquer principiante, mas a um provecto eclesiástico; até na mesma carta
confirma esta doutrina, alegando o próprio exemplo:
«Não sei o que os outros pensam de si próprios sobre este assunto; falo por
experiência e, quanto a mim, declaro que me é mais fácil e mais seguro dirigir muitos do

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que guiar-me a mim sozinho».
Scaramelli, mestre insigne de direção espiritual, recorrendo à autoridade de S. Basílio,
afirma que «depois dos primeiros desejos de perfeição e depois das primeiras resoluções
de a conseguir, o meio mais necessário para fazer grandes progressos neste caminho
espiritual é, sem sombra de dúvida, a escolha de um bom guia» 61.
D. Bosco, que tinha já mostrado há muito tempo que compreendia esta necessidade,
logo que se transferiu para Turim, colocou-se sob a direção do Pe. Cafasso, procurando-
o todas as semanas para lhe abrir a sua consciência. Encontrava-o na igreja de S.
Francisco de Assis, com o confessionário assediado por uma multidão de penitentes que
esperavam a sua vez. Ajoelhado junto de um pilar, ia fazendo a preparação e esperava
que o confessor o visse. Este, para o não obrigar a perder tempo, acenava-lhe levantando
a cortina; ele então, de cabeça baixa e atitude devota, aproximava-se ajoelhando diante
do confessionário e com edificação dos presentes fazia a sua confissão. Discípulo santo
de um mestre santo.

Capítulo VII
NO PERÍODO DAS GRANDES
FUNDAÇÕES
Durante este período da sua vida, D. Bosco foi gradualmente enchendo o mundo com
a fama do seu nome. Jornais de várias cores, opúsculos ilustrados, fotografias espalhadas
a mãos largas (porque muito procuradas), conferências, todas as trombetas da fama
competiam em divulgar notícias sobre as suas obras. Nenhum apóstolo tivera, para o seu
apostolado, tantos meios de publicidade.
Dom Bosco, um mistério
Os felizes êxitos que coroavam os seus empreendimentos, contribuíam para confirmar
nos espíritos a opinião de que ele era um grande Santo, diziam uns, um grande homem,
diziam outros. Diga-se ainda que ele próprio, ao fazer apelo à beneficência universal,
espalhava aos quatro ventos a própria missão, dirigindo a homens de toda a qualidade e
nação circulares escritas em várias línguas. Uma taciturna modéstia se desprendia dos
seus métodos. Não faltou até quem se escandalizasse: era escândalo pusillorum: tantas
vezes, os próprios censores se viram obrigados a imitá-lo.
Temos um juízo pronunciado pelo padre José Cafasso, em 1853, para pôr as coisas
nos devidos termos, diante de doutos eclesiásticos que tinham as suas prevenções contra
D. Bosco, juízo cujo valor transcende as pequenas contingências em que foi proferido.
Disse então o diretor espiritual de D. Bosco:
«Sabem os senhores quem é D. Bosco? Quanto a mim, quanto mais o estudo, menos
o compreendo! — Vejo-o simples, extraordinário, humilde e grande, pobre e ocupado em

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planos vastíssimos, aparentemente irrealizáveis; e ele, apesar de contraditado, direi até
incapaz, acaba sempre por conseguir realizá-los esplendidamente. Para mim, D. Bosco é
um mistério! De uma coisa tenho a certeza: é de que trabalha para a glória de Deus, que
só Deus o guia, que só Ele é o escopo de todas as suas ações».

Dom Bosco, um santo


A reserva providencial de S. José Cafasso compreendia-se então perfeitamente; mas,
quando a fama de que D. Bosco era um Santo entrou no domínio do público, não houve
diques que valessem. A fama, porém, ao passo que ressoa aos ouvidos dos que estão
longe, nem sempre tem da sua parte a realidade do dia a dia da vida, tal como se
desenvolve aos olhos dos que estão perto.
Precisamente por isto, um provérbio da nossa gente diz que a familiaridade faz perder
a reverência; com uma expressão mais viva, os franceses dizem que «ninguém é grande
para o seu criado de quarto».
Mas eis a singularidade do caso de D. Bosco: todos aqueles que gozaram da sua
familiaridade atestam unanimemente que quanto mais de perto o conheciam, tanto mais
se confirmavam na ideia de que fosse realmente um Santo; aqueles mesmos que
estiveram muito tempo ao serviço da sua pessoa e tiveram toda a oportunidade de
investigar diretamente o teor de vida íntima quotidiana, sentiam-se presos por ele de uma
veneração tal, que parecia culto. A familiaridade, longe de quebrar o encanto do
desconhecido, reduzindo a mais modestas proporções a voz do povo, que celebrava as
virtudes excecionais de D. Bosco, servia até para a confirmar, dando-lhe maior
consistência.
Ora, quem quer que não seja de todo profano em matéria de vida espiritual sabe duas
coisas: que nenhuma opinião de santidade se pode formar e durar, se o suposto santo não
é homem de oração, e que para o desacreditar neste campo, não é preciso muito, mas
bastaria vê-lo fazer descuidadamente um sinal da Cruz. D. Bosco vivia sob os olhos de
muitos, de modo que as suas ações podiam ser vigiadas por observadores discretos e
indiscretos: além disso, dentro dos muros do Oratório, a verdadeira piedade era
egregiamente conhecida. Em D. Bosco, o espírito de oração era o que num bom capitão
é o espírito marcial, no bom artista ou cientista o espírito de observação: uma disposição
habitual da alma que atuava com facilidade, constância e visível prazer.
O espírito de oração na sua escola
Entre os que cresceram na escola de D. Bosco merecem especial menção aqueles que
primeiramente foram plasmados por ele e depois foram seus colaboradores, tornando-se
as pedras fundamentais da Sociedade Salesiana.
Nós conhecemos estes homens tão diferentes de engenho e de cultura, tão diferentes
nas suas atitudes; em todos, porém, brilhavam traços caraterísticos, que lhes marcavam
quase os traços fisionómicos de origem. Calma serena no agir e no falar; paternidade de
modos e de expressões; mas particularmente, para permanecermos no nosso âmbito,

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uma piedade, que bem se compreendia ser, no conceito de todos, o ubi consistam, o
fulcro da vida salesiana. Rezavam muito, rezavam devotissimamente; faziam questão de
que se rezasse e se rezasse bem; parecia que não sabiam dizer duas palavras em público
ou em particular, sem que nelas entrasse a oração.
Entretanto, nem sequer excetuado o Pe. Rua, cuja figura ascética e em certos
momentos quase mística, chamava a atenção reverente dos que o viam, aqueles homens
não mostravam ter graças especiais ou extraordinárias de oração; com efeito, não os
víamos senão cumprir com ingénua simplicidade as práticas exigidas pela Regra e
contidas nos nossos costumes.
Mas quanta diligência no modo de eles tratarem com Deus! Com que naturalidade,
falando das coisas mais diversas, insinuavam na conversa pensamentos de fé! Tinham
vivido muito tempo com D. Bosco; tal convivência tinha deixado neles vivos vestígios,
marcas indeléveis.
Podia aplicar-se perfeitamente ao caso o que o Apóstolo escrevia aos cristãos de
Corinto62; quem tivesse desejado conhecer o espírito de oração de D. Bosco, podia
quase ler nos seus discípulos uma carta autêntica em que ele falava de si próprio.
Seu breviário, praticar o bem
A ausência de grandes exterioridades, que geralmente se observam na oração dos
grandes Santos, não chegou para fazer passar despercebido em D. Bosco o espírito de
oração, nem sequer no período mais ativo da sua vida, quando trabalhos de toda a ordem
disputavam o seu tempo e pensamentos, pondo-nos de preferência à vista a sua
incansável atividade.
Tinha muito radicada na alma a ideia da presença de Deus, para que os prementes
cuidados e negócios lhe impedissem a íntima e perpétua união com Ele; ora, o sentir
Deus sempre presente, ao passo que o tinha sempre vigilante e atento ao único fim de
unicamente O servir, era também para ele fonte de perene alegria no mar de ocupações
que o solicitavam; tanto mais que em todo o seu agir apenas procurava fazer
perfeitamente a vontade divina.
Por isso, escrevendo a um virtuoso sacerdote, para pedir-lhe que viesse ajudá-lo na
administração e disciplina do Hospício, já a transbordar de internos, empregava um
modo de dizer engraçado, mas conforme ao estilo dos Santos: «Venha ajudar-me a
recitar o Breviário».
Passar, sem transição, do trabalho à oração, era para D. Bosco quase um contínuo
salmodiar; pois em tudo o que fazia D. Bosco louvava a Deus, executando
amorosamente as divinas vontades. Na realidade, o livro que percorre na oração ritual
diz-lhe que deve desenvolver, dia a dia, a sua atividade perante Deus em espírito de
oração.
Uma imagem semelhante é apresentada por S. Agostinho63. O grande doutor,

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querendo que o cristão converta toda a sua vida num hino de louvor e glória a Deus,
pensa no instrumento musical de David e diz: Non tantum lingua canta, sed etiam
assumpto honorum operum psalterio; não cantes a Deus só com a língua, mas tomando
nas mãos o saltério das boas obras. Eis o Breviário de D. Bosco.

Sua tranquilidade de espírito


Tinha esboçado até aqui este capítulo, quando li o discurso pronunciado pelo Papa Pio
XI, em 19 de março de 1929, por ocasião do Decreto sobre os milagres de D. Bosco e
no discurso encontro uma recordação pessoal que chegava precisamente na devida
altura.
Dizia o Santo Padre que, tendo passado alguns dias com D. Bosco, sob o mesmo teto,
à mesma mesa, e saboreando várias vezes a alegria de poder conversar longamente com
o Servo de Deus, sempre ocupadíssimo, tinha notado uma das suas caraterísticas mais
impressionantes: «uma calma extraordinária, um domínio do tempo, que o levava a ouvir
todos aqueles que o procuravam, com tanta tranquilidade como se nada mais tivesse que
fazer». Seria impossível narrar todos os factos e referir todos os testemunhos que
confirmam a precisão desta observação, que pode aplicar-se não só ao domínio do
tempo, mas também dos contratempos, já que conservava inalterada a mesma calma e
tranquilidade perante os obstáculos, tropeços, desgraças, que por mais graves que fossem
não conseguiam perturbá-lo.
Está ainda viva entre nós a memória de um dito que nos repetia o primeiro sucessor
de D. Bosco, referindo que, sempre que o caro Pai aparecia mais alegre e contente do
que habitualmente, os seus colaboradores, que já sabiam por experiência, murmuravam
com pena, uns para os outros:
«Hoje, D. Bosco deve ter qualquer aborrecimento ou embaraço sério, já que se
mostra tão alegre». «Nestas circunstâncias, depôs o P. Rua nos processos canónicos, a
sua força era a oração».
Com efeito, mesmo prescindindo de tão autorizado testemunho, não se poderia
encontrar outra explicação do facto. O piedoso autor da Imitação64 faz precisamente
derivar a paz e serenidade perfeitas de espírito de uma só coisa, o abandono nas mãos de
Deus, próprio de quem vive estreitamente unido com o Senhor: Tu, são palavras da alma
ao seu Amado, tu facis cor tranquillum et pacem magnam laetitiamque festivam65.
Como falava de Deus
Bela prova de habitual união com Deus é a facilidade de falar d’Ele, com verdadeiro
sentimento. Sabiam-no perfeitamente os seus filhos, conversando com os quais
costumava desenvolver estes pontos, seus temas favoritos:
«Como o Senhor é bom e quanto cuidado tem conosco! — Deus é bom Pai e não
permite que sejamos tentados para além das nossas forças. — Deus é bom Patrão, não
deixa sem recompensa nem sequer um copo de água dado por seu amor. — Amemos o

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Senhor! Amemo-l’O! Vede como tem sido bom conosco! Tudo criou para nós; instituiu a
Sagrada Eucaristia, para estar conosco; a cada momento enche-nos de benefícios. —
Quando se trata de servir a Deus que é tão bom Pai, devemos estar prontos para
qualquer sacrifício. — Lembrai-vos de que a fé sem obras é morta. — Façamos tudo o
que pudermos para a maior glória de Deus. — Tudo pelo Senhor, tudo pela sua maior
glória!».
As ocupações mais materiais não lhe tiravam ou diminuíam esta facilidade. Diz o
Venerável Pe. Rua:
«Algumas vezes, quando o acompanhávamos, a hora tardia, ao repouso, parava a
contemplar o céu estrelado e discorria esquecido do seu cansaço, sobre a imensidade da
omnipotência e sabedoria divinas. Outras vezes, no campo, fazia-nos observar as belezas
da natureza e dos prados, a abundância e a riqueza dos frutos, de modo a conduzir a
conversa sobre a bondade divina e a sua providência e muitas vezes exclamávamos como
os discípulos de Emaús: Nonne cor nostrum ardens erat in nobis, dum loqueretur in
via?».
Uma facilidade semelhante mostrava com estranhos, em casa ou fora de casa, fossem
pessoas humildes ou altamente colocadas, eclesiásticos ou leigos. Em Marselha, em casa
de uma insigne benfeitora, colheu um amor-perfeito (em italiano pensiero) e, dirigindo-se
à senhora disse, oferecendo-lhe a flor:
«Ofereço-lhe esta flor, este «pensiero», o pensamento (pensiero) da eternidade».
Com ou sem flores, nunca deixava de semear destes pensamentos na alma daqueles
de quem se aproximava. Uma das suas máximas era esta: «O sacerdote nunca devia
tratar com ninguém sem lhe deixar um bom pensamento».
Como falava do Céu
Prova ainda mais luminosa da sua habitual união com Deus é a facilidade que tinha de
falar com unção do Paraíso.
D. Bosco, afirma o Cardeal Cagliero, «falava do Paraíso com tanta vivacidade, gosto
e efusão, que enamorava quem o ouvia. Falava dele como o filho fala da casa do Pai; o
desejo de possuir a Deus inflamava-o mais ainda do que o prémio esperado».
Ao ouvir os seus lamentarem-se de tribulações, fadigas, ocupações, encorajava-os
dizendo:
«Lembra-te de que sofres e trabalhas por um bom Patrão como Deus. Trabalha e
sofre por amor de Jesus Cristo que trabalhou e sofreu tanto por ti. Um bocado de
Paraíso acerta tudo».
A quem lhe anunciava dificuldades e atos hostis, respondia:
«Nada disso há no Paraíso! São momentâneos os sofrimentos desta vida, mas duram
eternamente os gáudios do Paraíso!»
A um ricaço descrente mas encantado de o ouvir e que o procurava por pura

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curiosidade, disse ao despedir-se dele estas palavras:
«Esperemos que um dia o senhor com o seu dinheiro e eu com a minha pobreza
possamos encontrar-nos no Paraíso».
Ao ouvir falar das férias do Outono, era certo sair-se com esta:
«Férias havemos de tê-las no Paraíso».
Ao voltar cansado, da cidade, depois de bater a muitas portas para obter auxílio, como
lhe diziam para repousar um pouco, antes de se sentar à secretária ou no confessionário,
respondia amavelmente:
«Repousarei no Paraíso».
No fim de longas discussões, rematava:
«Pelo menos, no Paraíso, não haverá mais controvérsias; todos seremos do mesmo
parecer».
Eram frequentes nele estas exclamações:
«Que felicidade, quando todos estivermos no Paraíso! Sede bons e não tenhais medo!
Pensais então que o Senhor preparou o Paraíso para o deixar vazio? Mas lembrai-vos de
que o Paraíso custa sacrifícios».
A um teólogo rico e com fama de avaro, falou com tanta unção do Céu, que ele
correu à secretária e tomou quantas moedas de ouro cabiam nas mãos e lhas entregou,
com os melhores modos do mundo.
Um dia, estando à mesa, fora de casa com vários sacerdotes, servindo-se do tema da
beleza e bondade de certos frutos que estavam sobre a mesa, acabou por falar do
Paraíso com tanto calor, que os comensais, pararam de comer, presos dos seus lábios.
«Se alguém, — diz uma testemunha bem ao corrente, — lhe tivesse perguntado à
queima-roupa: D. Bosco, para onde vamos?, ele teria respondido: Vamos para o
Paraíso».
O contínuo desejo do Paraíso é, no dizer de S. Agostinho, uma oração contínua66.
Sempre uma boa palavra
Prova sem réplica da sua habitual união com Deus é a sua permanente facilidade de
dizer sempre uma boa palavra edificante. Mesmo apanhado de surpresa, no meio da
maior ​ocupação, D. Bosco, diz o seu segundo sucessor, «parecia sempre interromper um
colóquio com Deus, para dar audiência, e pareciam inspirados por Deus os pensamentos
e encorajamentos que dava».
Da sua extraordinária facilidade de falar de Deus nas circunstâncias menos propícias
não faltam exemplos; mas remetemos o leitor aos biógrafos para notícias mais
pormenorizadas e limitar-nos-emos a um pormenor só, que se repetia frequentemente.
Muitas vezes, sacerdotes e sobretudo superiores do Oratório procuravam-no para se
confessarem em horas de aperto, quando procurava despachar a volumosa e complicada

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correspondência ou quando dava despacho aos múltiplos negócios temporais que as suas
obras implicavam. Pois bem, ouvida a confissão, falava sempre ao penitente com tanta
unção e tais pensamentos, que parecia ter acabado de descer do altar.

«Parecia Nosso Senhor»


Assim como falava, assim agia. Nas suas palavras sentia-se o homem habituado a
estar unido a Deus; no seu agir, saltava aos olhos a intensidade sacerdotal do zelo.
Zelo, quer dizer, fervor de alma; na linguagem cristã, é traduzido por S. Ambrósio
como fidei vapor e por devotionis fervor. O zelo é, por consequência, emanação exterior
da fé interna; é veemência de piedade para com Deus que, não podendo conter-se, como
que ferve, desprendendo calor e força viva.
Zelo não é entusiasmo, quer dizer, exaltação extraordinária que depressa se apaga; o
zelo, dirigido por vistas superiores, tem procedimentos contínuos e progressivos, sejam
quais forem as resistências de homens e de coisas. O zelo de D. Bosco modelava-se pelo
de Jesus, todo ardor pela glória de Deus, conseguida pela salvação das almas e pela
guerra ao pecado, todo bondade de modos, de forma a ganhar pequenos e grandes.
Os jovens do Oratório sentiam-se encantados e traduziam a sua impressão numa frase
que refletia a fé e a piedade do lugar, dizendo:
«D. Bosco parece Nosso Senhor».
Nestas palavras vemos D. Bosco ir, vir, operar com os pés na terra, com as mãos no
trabalho, mas com os olhos resplandecentes daquela luz que vem do alto, ilumina o
interior do homem, enchendo-lhe de luz a vida67. Aqui devemos procurar D. Bosco
ainda mais do que nas suas Fundações.
Dom Bosco, instrumento de Deus
S. Boaventura68 distingue três espécies de oração: a comum, a privada e a contínua,
recomendando esta última especialmente aos superiores que estão muito ocupados69. Ela
exige três coisas: que se tenha o pensamento dirigido para Deus em todas as ocupações,
que se procure constantemente a honra de Deus, e que de tempo a tempo, quase
furtivamente, o espírito se recolha em oração.
Neste sentido, desde o sinal da cruz na santa Missa, desde o tema familiar na prédica,
desde as minúcias aos grandes negócios, todas as ações de D. Bosco eram penetradas de
oração; nos maiores empreendimentos, este espírito de oração torna-se propulsor forte,
empenhado em procurar promover sempre a maior glória de Deus.
Antes de se empenhar a fundo em qualquer atividade, antes de fazer as contas para
saber se haveria ou não meios materiais suficientes, olhava sempre o problema por um
ângulo visual desconhecido da prudência puramente humana. Dizia:
«Tenho sempre esta norma em todos os meus empreendimentos. Procuro, antes de
mais nada, saber se tal obra redunda em glória de Deus e vantagem das almas; se assim

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for, vou para a frente tranquilo, seguro de que o Senhor me não faltará com a sua
assistência; se depois vejo que não é o que imaginava ou julgava, mesmo que tudo se
perca, fico igualmente contente».
Logo que um desígnio se transformava em realidade, se queremos saber como
pensava no caso, podemos sabê-lo por uma resposta dada ao padre Félix Jordão dos
Oblatos de Maria, que se tinha mostrado interessado em saber como progrediam tão bem
as suas obras colossais.
«Fique a saber, disse ele, que eu nada tenho com o caso. O Senhor é quem faz tudo;
quando Ele quer mostrar que uma obra é Sua, serve-se sempre do instrumento menos
apto. É o meu caso. Se Ele tivesse encontrado um sacerdote mais pobre, mais
insignificante do que eu, teria sido este e não eu o instrumento da sua obra, e deixaria de
lado o pobre D. Bosco seguir a sua natural vocação de padre de aldeia».

A mente fixa em Deus


O mundo falava das suas coisas; ele próprio falava das suas coisas ao mundo. Deixava
que a gente falasse:
«Trata-se, — costumava repetir, — de glorificar a obra de Deus, não a do homem.
Quantas mais maravilhas teria operado o Senhor, se D. Bosco tivesse tido mais fé!».
Atribuindo o merecimento das obras a Deus, era natural que lhe tributasse ele próprio
louvores, mesmo mediante as novas formas de publicidade; nisto vejamos o critério
prático que ele seguia: «É justo que aqueles que nos ajudam com a sua caridade, saibam
onde vai parar o dinheiro. Vivemos em tempos em que o mundo, que se tornou material,
quer ver e tocar com a mão; portanto, é mais do que necessário que as nossas boas obras
sejam conhecidas, para que Deus seja glorificado».
No processo apostólico, numerosas e conscienciosas testemunhas, que com os
próprios ouvidos o tinham ouvido contar os seus empreendimentos, exprimem todos o
mesmo pensamento, dizendo que, ao falar assim, D. Bosco olhava bem mais alto do que
para a sua pessoa. A íntima persuasão de ser humilde instrumento da Providência
aguentou-o em momentos extremamente delicados: pois Deus permitiu que os homens
nem sempre julgassem imediatamente, de modo favorável, o seu agir.
A própria suprema autoridade diocesana, que levou tempo a compreender D. Bosco,
estava convencida de prestar serviço a Deus contrariando-o, durante muito tempo. Que
amargo cálice para o pobre D. Bosco! Mas o único lamento que lhe saiu dos lábios e da
pena foi que estas dificuldades o obrigassem a perder tanto tempo, havendo tanto que
fazer para a glória de Deus.
Este, sempre este, foi o seu objetivo supremo. Um dia, o seu longo e volumoso
epistolário documentará à saciedade a sua imensa sede de promover a glória de Deus,
acendendo no clero secular e regular que teve com ele troca de correspondência epistolar
o mesmo desejo, de modo especial com os seus filhos.
Estes, entre tantos avisos paternos que se vão transmitindo com religiosa piedade,

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concedem um lugar de honra a esta sua imposição:
«Se se tratar de coisas espirituais, que os assuntos se resolvam sempre do modo que
possa dar maior glória a Deus. Compromissos, caprichos, espírito de vingança, amor-
próprio, razões, pretensões e até a honra, tudo deve ser sacrificado neste caso».
Eis a linguagem do homem habituado a passar entre os homens com a mente fixa em
Deus.
Sempre sacerdote
A todos os Cristãos indistintamente o Apóstolo70 impõe o dever de procurar dar glória
a Deus, cada um segundo a sua vocação, o sacerdote como sacerdote. Ora, a missão do
sacerdote, ministro de Cristo, não pode ser diversa da missão do Senhor, isto é, salvar as
almas da perdição: venit enim Filius hominis quaerere et salvare quod perierat71. D.
Bosco, que desde o dia da sua ordenação sacerdotal nada mais quis ser senão sacerdote,
e por isso nada mais desejou do que exercer funções estritamente sacerdotais, nem
outras insígnias tolerou na sua pessoa, senão os distintivos do sacerdócio, não pensou
também noutro modo de glorificar o Senhor senão como sacerdote e precisamente
naquilo em que, graduando as obras com o fim de dar glória a Deus, o Pseudo-
Dionísio72 colocou no primeiro lugar, como omnium divinorum divinissimum, isto é,
cooperans Deo in salutem animarum.
Sobre isto, deu D. Bosco aos Salesianos um ensino magistral, que pertence ao
património vivo das tradições domésticas. D. Bosco dizia assim:
«Um sacerdote é sempre sacerdote, e tal deve manifestar-se em todas as suas
palavras. Ora, ser sacerdote quer dizer ser obrigado a ter sempre em mira o maior
interesse de Deus, isto é, a salvação das almas. Um sacerdote nunca deve permitir que
ninguém se aproxime dele e parta sem ter ouvido uma palavra que manifeste o desejo da
salvação eterna da sua alma».
Por isso, em todas as suas grandes fundações teve sempre em vista este fim
eminentemente sacerdotal, a começar por aquela que destinou a ser mãe de todas as
outras.
«Lembrai-vos, pregava aos seus filhos, que o Oratório foi fundado pela Virgem Maria,
para um fim apenas: salvar almas».
Por isso, no escudo salesiano, está inscrita esta divisa: Da mihi animas, que foi a sua
palavra de ordem durante a vida inteira. Seguir D. Bosco, a par e passo por esta estrada,
não é possível; para instrução e edificação dos seus irmãos no sacerdócio, respigando
neste campo vastíssimo, narrem outros as habilidades por ele imaginadas, descrevam as
fadigas suportadas, enumerem os seus heroicos sacrifícios, contem os seus gemidos,
suspiros e orações. Sim, sobretudo as orações, sem as quais não teria tido força de
semear entre tantas lágrimas, nem o conforto de colher com tanta abundância73.

60
Escreve, com efeito, um dos mais modernos teólogos74: «onde falta a vida interior, a
ação externa só consegue magros resultados, porque a graça de Deus não desce a
fecundar um ministério em que a oração quase não tem lugar; daqui procede a
necessidade de dar vida às obras externas com o espírito de oração...».

Inexorável em relação ao pecado


Grande inimigo de Deus porque O expulsa das almas, e grande inimigo das almas
porque as empurra para o inferno, é o pecado; contra o pecado D. Bosco travou durante
toda a sua vida uma guerra sem quartel.
Uma noite não conseguiu adormecer porque soube que um seu aluno tinha cometido
um pecado; na noite seguinte, falando do pequeno púlpito da «Boa Noite», parecia a
tristeza em pessoa...
Só de pensar num pecado mortal dos seus alunos, incitabitur spiritus in ipso75,
enchia-se-lhe a alma de profunda aflição, como ao Apóstolo das Gentes ao ver os
Atenienses adorarem os ídolos.
Quando pregava sobre a gravidade do pecado mortal, o pranto ordinariamente
sufocava-lhe a voz, obrigando-o a interromper o discurso; mesmo nas conversas
familiares em que se falasse da ofensa de Deus, o seu rosto contraía-se e o acento ou o
silêncio traduzia a sua dor. Sofria até fisicamente ao ter conhecimento de atos
pecaminosos, ou ao ouvir a acusação de certas culpas graves; ao ouvir blasfémias, sentia-
se desfalecer e ouvindo aos jovens a confissão de coisas impuras, sentia impulsos de
vómito, experimentava sensações insuportáveis de olfato e sofria princípios de asfixia.
Um dia, o Pe. Francesia, vendo-o sofrer improvisamente dos olhos, perguntou-lhe
com filial confiança se tinha trabalhado até muito tarde naquela noite; o bom Pai
respondeu-lhe que, tendo ido confessar às prisões, onde se não podem dar grandes
penitências, se tinha oferecido para as fazer em lugar dos penitentes.
Quando via o pecado em ação, este causava-lhe um verdadeiro martírio, o maior que
se possa imaginar; mas ao mesmo tempo centuplicava-lhe a ousadia, de modo que,
mesmo que tivesse de enfrentar um exército, não recuaria, nem se renderia nunca.
O pecado, cometido, sobretudo com escândalo, dava-lhe arrepios, fazendo-o exclamar
angustiosamente: «Que desastre! Que desastre!».
O pecado temido impressionava-o tanto, que preferiria ver aniquilado o Oratório, em
ruínas todas as suas casas, desde que não correspondessem ao seu fim de impedir o
pecado. Uma das suas raras declarações pessoais era assim concebida:
«D. Bosco é o melhor homem do mundo. Parti, gritai, fazei travessuras, saberá
compreender porque sois rapazes: mas não deis escândalo, não arruineis as almas, as
vossas e as dos outros pelo pecado, porque então ele torna-se inexorável».
Sabia impedi-lo

61
O homem de oração sabe recorrer de imediato a modos tão seus, para impedir a
ofensa de Deus, que a outros nem sequer viriam à ideia.
Na casa de uns senhores, um menino de cinco anos brincava com um carrinho e como
este não andava conforme ele queria, encolerizou-se de tal forma que pronunciou com
despeito o nome do Senhor. D. Bosco perguntou-lhe com bondade amorosa:
– Porque disseste uma coisa tão feia do Senhor?
– Porque o carro não anda bem.
– Não sabes que se não deve pronunciar o nome de Deus sem respeito e devoção?
Ora, diz-me cá, sabes os mandamentos?
– Sei.
– Então diz lá.
O rapazinho começou. Quando chegou ao segundo, fê-lo parar e perguntou:
– Sabes o que quer dizer não pronunciar o nome de Deus em vão? Quer dizer, meu
caro, que não devemos pronunciar nunca o nome de Deus, que nos quer tanto bem, sem
uma razão justa e sem devoção: de contrário, fazemos um pecado, quer dizer, damos um
desgosto a Deus e isto especialmente quando o nomeamos com cólera, como tu fizeste
há bocado.
– Mas o papá também diz! – continuou o rapazinho.
Mas daqui em diante não voltará a fazê-lo! – interrompeu o pai que estava presente e
naturalmente envergonhadíssimo.
Outra vez, enquanto estava à espera de um comboio, ouviu um garotinho, filho de um
empregado ferroviário que, de vez em quando, balbuciava:
– Quisto, Quisto!
Chamou-o num jeito familiar, dizendo:
«Ora, vem cá, meu menino: queres que te ensine a dizer bem a palavra: tira o boné e
está bem atento. Diz-se Cristo e não Quisto. Vamos lá: em nome do Padre, do Filho e do
Espírito Santo. Amen. Seja louvado Jesus Cristo. Mas tem cuidado e diz Cristo, Cristo».
Em maio de 1860, teve a desagradável surpresa de uma busca feita por três
investigadores. Um dos três, quando D. Bosco abria a porta do quarto, leu em tom
trocista, as palavras que, como já dissemos, encimavam a entrada:
– Seja louvado sempre o nome de Jesus e de Maria.
D. Bosco pára, volta-se e diz:
– Sempre seja louvado o nome...
E com voz severa diz aos três:
– Tirem os chapéus!
Como nenhum deles se decidia, continuou:

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– Os senhores começaram; têm de terminar agora, com o devido respeito; e de novo,
com maior energia, intimou que se descobrissem.
A superioridade do Santo impôs-se e, com vontade ou sem ela, descobriram-se. O
Santo então concluiu:
– …o nome de Jesus, Verbo Encarnado.
São estas coisas que explicam muitas outras; por exemplo, as horas intermináveis
gastas a perdoar pecados; as imagens de Domingos Sávio com a inscrição: Antes morrer
do que pecar; o método educativo com o fim de evitar o pecado.
Explicam também por que motivo no Oratório existia um horror sagrado não só pelo
pecado mortal, mas também pelo venial; explica e faz compreender porque se encontrava
nele um espírito geral de reparação, que movia tantos jovens a expiar os pecados alheios,
não somente pela oração, mas pelas mortificações; como por toda a parte e sempre, uma
cuidadosa solicitude espicaçava os melhores a vigiar, para impedir que o pecado se
insinuasse ou acomodasse entre os companheiros.
Coisa comovente! Nos processos canónicos verifica-se a unanimidade com que as
testemunhas, eclesiásticas ou leigas, que um dia viveram naquele ambiente, põem em
evidência este aspeto do zelo de D. Bosco, não com a linguagem apagada de quem traz à
memória velhas recordações, mas com o tom vivo de quem sente acordar dentro da alma
impressões profundas e amadas.
Dom Bosco ardia de amor a Deus
Um belo passo de S. Tomás76 projete aqui a sua luz esclarecedora. Argumenta o
Anjo das Escolas desta maneira:
«O amor de amizade tem isto de próprio: procura o bem da pessoa amada. Por
consequência, este amor, quando é ardente, move aquele que está inflamado por este
amor a reagir contra tudo o que se opõe ao bem do amigo; neste sentido, diz-se que tem
zelo pelo bem do amigo todo aquele que procura impedir, tanto quanto pode, por
palavras e ação, que o amigo seja prejudicado. De igual modo, se proclama zeloso para
com Deus aquele que se emprega, com todas as suas forças, em se opor a tudo que é
contra a honra e a vontade de Deus, e dizemos devorado de santo zelo aquele que se
esforça do melhor modo que pode, para remediar o mal que se comete, e no caso de
impossibilidade, o suporta gemendo».
Aqui temos o motivo por que os pecados feriam tão dolorosamente o coração de D.
Bosco. Como ardia em amor divino, em todo o pecado sentia a ofensa feita a Deus.
Muitas vezes se lhe ouviu desafogar a irreprimível maré dos seus afetos, com expressões
como estas.
«Como é possível tratar tão mal o Senhor! Como se compreende que uma pessoa de
juízo, que acredita em Deus, se deixe levar a ofendê-l’O gravemente?... Vede como Deus
é bom! Enche-nos todos os dias dos seus benefícios. Como temos coragem de O

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ofender? Temos de concordar que quem ofende o Senhor, prova com isto que não está
em si».
Estas e outras eram as suas expressões; mas quem será capaz de compreender as
impressões da sua alma, tão seraficamente enamorada de Deus?

Uma síntese da sua devoção


Ao lado da sua casa paterna, foi aberta uma capelinha que é um símbolo. Foi
preparada, em 1848, para sua comodidade e dos rapazinhos que muitas vezes levava à
sua terra a passar alguns dias. Tudo felizmente se conservou tal como estava no tempo
do Santo.
Do lado direito de quem entra, o venerando cadeirão, onde se sentava quando
confessava; em frente, no centro do altar, o tabernáculo, não decorativo mas sólido para
conter o Augustíssimo Sacramento; por cima, o quadro da Santíssima Virgem.
Eis, eloquentes, os três fatores da santificação usados por D. Bosco para si e para os
outros: confissão frequente, devoção a Nossa Senhora, Comunhão frequente: Maria
Santíssima chama-nos e chama Jesus, servindo-se dos sacramentos da reconciliação e do
amor.
Numa carta de 13 de fevereiro de 1863, D. Bosco dizia a Pio IX:
«Siga Vossa Santidade o alto pensamento que Deus lhe inspira ao coração,
proclamando, tanto quanto possa, a veneração ao Santíssimo Sacramento e a devoção à
Santíssima Virgem, as duas âncoras de salvação para a pobre humanidade».
O muito que fez durante os anos das suas maiores fundações para instilar nos que
viviam perto dele e para propagar até aos confins da terra o culto amoroso da Santíssima
Virgem, não teria tido causa eficiente, se não tivesse ele próprio uma ardente devoção
por esta querida Mãe; esta devoção, com efeito, contribuiu grandemente para a sua
formação espiritual e para o desenvolvimento da sua vida interior.

Devoção a Maria
Mariam cogita, Mariam invoca, assim nos exorta aquele77 que a Igreja consagrou
como mestre dos mestres, na devoção a Maria.
O pensamento de Maria, a sua invocação, nunca se calaram no coração e nos lábios
de D. Bosco; nisto a sua piedade entroncava na mais genuína fonte da ininterrupta
tradição católica.
A sua voz celebrava constantemente as glórias antigas e recentes da Virgem,
procurando infundir nos outros a confiança filial que nutria no seu coração por esta doce
Mãe; da sua língua saíam contínuas invocações à celeste Padroeira; nos seus lábios
estavam sempre públicas ações de graças pelos inúmeros benefícios que reconhecia
dever à potência auxiliadora da Virgem!
«Como é boa Maria!» – exclamava com ternura, em muitas ocasiões.

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Quando o louvavam pelas suas obras, sofria e retificava: «Esta boa gente não sabe
quem é D. Bosco; quem faz tudo é Maria Auxiliadora». Quando pregava as grandezas de
Maria, acontecia-lhe comover-se até às lágrimas. Muitas vezes o ouviram repetir que
nunca tinha dado um passo sem recorrer à Santíssima Virgem. Para conseguir luzes nos
momentos decisivos, foi em peregrinação, pelo menos três vezes, ao célebre santuário de
Oropa sobre Biella.
Na sua correspondência epistolar encontram-se, muitas vezes, frases como esta: «A
Virgem Santa nos conserve sempre seus».
No fim de uma bela história sobre a Virgem, escreveu pelo próprio punho nas provas
tipográficas que se conservam, esta calorosa exortação, que lhe saiu espontânea do
coração: «Leitor, onde quer que estejas, seja o que for que faças, podes sempre recorrer
com uma oração à Virgem Maria. Mas recorre com fé, porque ela é Mãe piedosa, que só
deseja o bem dos seus filhos. Reza-lhe com confiança, com coração, com perseverança e
fica certo de que será para ti também uma verdadeira providência, um socorro pronto
nas tuas necessidades espirituais e temporais» 78.
Noutro lugar do mesmo livrinho, descreve-se a aparição de Maria a S. Estanislau
Kostka, quando este angélico jovem recebeu ordem de entrar na Companhia de Jesus;
ora, igualmente nas provas, D. Bosco acrescentou:
«Cristãos, que quereis ser filhos prediletos de Maria, rezai-lhe de todo o coração, para
que vos consiga de Deus esta bela graça de vos consagrardes totalmente ao Senhor.
Dizei-lhe que vos livre dos grandes perigos do mundo; que vos dê, já que pode tudo,
ordem como a que deu a Estanislau e obedecei-lhe prontamente. Esta graça de ser
chamado ao estado religioso pedia sempre a Maria, desde menino, o venerável Pe.
Carlos Jacinto; pediu-a e conseguiu-a».
O que acabamos de referir são verdadeiros desafogos de uma vivíssima piedade para
com a Virgem Maria.

Poesia da sua piedade


Sobre um argumento tão caro ao coração não devemos ter escrúpulo de ser longos.
Do mesmo modo que o coração de D. Bosco se dilatava só de pensar na Virgem, de
igual modo, a nossa alma se alegra recolhendo estas expansões e tanto mais avidamente,
quanto menor era o gosto do nosso santo Pai de exteriorizar os seus movimentos
interiores. Há, entretanto, circunstâncias em que até os temperamentos mais reservados
são vencidos pela emotividade.
Temos uma carta de D. Bosco, datada de Oropa, em 6 de agosto, e dirigida «aos seus
caríssimos filhos estudantes» que transborda de puro lirismo piedoso. O bom Pai
convida-os todos a condividir, em espírito, os suaves transportes a que se abandonava
naquela atmosfera mariana, naquela morada real da Mãe de Deus.
A alta atmosfera religiosa daquele lugar apossou-se de tal modo do seu espírito
meditativo, o júbilo causado nele pelo espetáculo de tanta piedade para com a celeste

65
Rainha inundou-o a tal ponto, que, tendo pegado na pena, sentiu necessidade de fazer
vibrar nos seus filhos a mesma emoção.
«Se vós, meus caros filhos, vos encontrásseis neste monte ficaríeis certamente
comovidos. Um grande edifício, tendo ao centro uma devota igreja, constitui aquilo a que
comummente se chama o santuário de Oropa. É um contínuo movimento de gente. Uns
agradecem à Virgem graças já obtidas, outros pedem para ser livres de qualquer mal
espiritual ou temporal, alguns pedem à Virgem que os ajude a perseverar no bem, ainda
outros a graça de uma boa morte. Jovens e velhos, ricos e pobres, camponeses e
senhores, gente humilde e da alta sociedade: cavaleiros, condes, marqueses, operários e
comerciantes, homens, mulheres, pastores e estudantes de todas as condições vêm
continuamente em grande número comungar ou confessar-se, dirigindo-se depois para
junto de uma maravilhosa estátua da Santíssima Virgem a implorar o seu celeste auxílio».
Mas a sua alegria depressa se vela de tristeza, porque não tem, como no Oratório,
junto de si os seus filhos para os conduzir a prestar com ele devota homenagem a esta
bendita Mãe.
«No meio de tanta gente o meu coração sente uma viva tristeza. E porquê? Não vê os
seus caros jovens estudantes. Porque não poderei ter aqui os meus filhos para a todos
conduzir aos pés da querida Mãe, para lhos oferecer, para os colocar todos sob a sua
poderosa proteção, fazer de todos eles, como Domingos Sávio, outros tantos Luíses»?
D. Bosco encontra conforto para este vivo desgosto de não poder honrar a Virgem de
uma forma mais solene, mediante a apresentação de todos os seus filhos, numa promessa
e numa oração.
«Para dar conforto ao meu coração, fui junto do seu altar e prometi que, depois de
chegar a Turim, faria tudo o que estivesse ao meu alcance para insinuar nos vossos
corações a devoção a Maria. Recomendando-me a Ela, pedi graças especiais para vós.
— Maria, disse, abençoai a nossa casa, afastai do coração dos nossos rapazes até a
sombra do pecado; guiai os nossos estudantes, sede para eles a Sede da verdadeira
Sabedoria. Que sejam todos vossos, sempre vossos, tende-os sempre como vossos
filhos, conservai-os entre os vossos devotos. — Parece-me que a Santíssima Virgem me
ouviu e espero que me ajudareis, para que possamos corresponder à voz de Maria e à
graça do Senhor».
Seu coração e sua mente, com Maria
Finalmente, o coração de D. Bosco repousa num sentimento de firme confiança,
como se visse que a Virgem, ouvindo as suas orações, do alto dos belos montes de
Oropa, levantasse a sua mão direita a abençoar o querido Oratório de Valdocco,
estendendo o manto da sua maternal proteção sobre todos aqueles que nele vivem.
Digne-se «a Santíssima Virgem abençoar-me, abençoar todos os sacerdotes e clérigos
e todos aqueles que despendem as forças e se afadigam na nossa casa; que vos abençoe
a todos vós também. Que, lá do Céu, nos ajude e nós façamos todos os esforços para

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merecer a sua santa proteção, durante a vida e na hora da nossa morte. Assim seja».
Ao partir daquele lugar sagrado, D. Bosco devia, com os olhos do seu espírito fixos no
futuro, murmurar entre os lábios, enternecido e confiante: Levavi oculos meos in
montes, unde veniet Auxilium mihi 79, precisamente então que estava para erigir a Maria
Auxiliadora o seu Templo.
D. Bosco tinha imaginado para o seu Santuário um quadro maravilhoso. No centro e
ao alto, Maria Santíssima entre coros angélicos; em redor e perto dela, os apóstolos,
depois os mártires, profetas, virgens, confessores; em baixo, os emblemas das vitórias de
Maria e os povos da terra suplicando a sua maternal proteção. Coloria este desenho com
tanta abundância de palavras e riqueza de pormenores, que parecia descrever um
espetáculo já visto.
O pintor fazia-lhe notar a impossibilidade de juntar dentro de um espaço limitado um
número tão excecional de figuras; mas a grandiosa conceção de D. Bosco reproduzia ao
vivo um tema de contemplação, que devia ser familiaríssimo a tão fervoroso devoto de
Maria e tão incansável apóstolo das suas glórias.

Capítulo VIII
NAS TRIBULAÇÕES DA VIDA
Todos aqueles que agradaram ao Senhor, passaram por muitas tribulações,
conservando-se fiéis80. Vendo de longe, quem não teria imaginado que D. Bosco
caminhava por uma estrada de rosas?
Espinhos e cruzes
Ora a sua vida foi continuamente semeada de pungentes espinhos. Espinhos na
família; a pobreza e as oposições que primeiro lhe vedaram e depois lhe tornaram dura a
via do sacerdócio, obrigando-o a rudes e humilhantes fadigas.
Espinhos para fundar o Oratório: todos lhe criaram dificuldades: pessoas particulares,
párocos, autoridades municipais, políticas e escolares.
Espinhos e coisas piores ainda, semeados pelos protestantes: com as suas Leituras
Católicas, ele punha todos os meses o dedo sobre qualquer ferida, inde irae.
Espinhos aos montes por falta de meios: ter a seu cargo tantos jovens e tantas obras,
sem meios certos de subsistência. Espinhos acumulados pelos seus: dificuldade em
formá-los e dolorosas deserções.
Espinhos criados pelas autoridades diocesanas: má compreensão, oposições,
dificuldades sem número.
Foi um calvário a fundação da Sociedade Salesiana, a ponto de, no fim, D. Bosco ter
dito: «A obra está feita. Quantas lutas! Quantas dores de cabeça! Se tivesse de

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recomeçar, não sei se teria coragem de meter ombros à empresa».
Martírio prolongado de sofrimentos físicos. Aguentar em tantas dificuldades e
sofrimentos e chegar à meta, com serena segurança, só é possível a quem, segundo a
Escritura81, tenha os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé. Ele,
renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia.
Por aqui se vê que estes são os triunfos reservados às almas interiores.
A arte de sofrer
Aproximemo-nos de D. Bosco, para observar de perto alguns dos momentos críticos
da sua vida. S. Agostinho82 depois de ter dito que o Salmista, no meio das penas que lhe
causaram homens maus, se refugia na oração, orat multa patiens, exorta-nos também a
nós, quando estivermos em tribulações, a orar como ele: ut, communicata tribulatione,
conjungamus orationem. Eis a grande lição que os Santos nos dão, eles que depois de
Jesus Cristo, são os únicos mestres na arte de bem sofrer.
A Huysmans que, no seu sucinto mas genial esboço de D. Bosco, teve necessidade de
omitir muitas coisas, não pareceu demais gastar uma página inteira com o Domingo de
Ramos de 184683. Dia realmente de Paixão para D. Bosco!
Corrido e expulso de todos os cantos da cidade, mas acompanhado fielmente por um
rebanho cada vez mais numeroso de rapazes, viu-se obrigado a fazer num campo aberto
aquilo que, normalmente, se faz numa igreja.
Mas também ali chegou a hora da expulsão. Nenhum prazo lhe era concedido;
nenhum luzir de esperança; todas as procuras eram baldadas. O muro das desconfianças
que se tinham erguido contra ele, fazia com que todas as portas se lhe fechassem na
cara, onde quer que se apresentasse. Partia-se-lhe o coração. Depois de ter confessado
os seus traquinas em pleno campo, levou-os em peregrinação ao Santuário de Nossa
Senhora do Campo, distante alguns quilómetros. Que fervor de cânticos, de preces, de
comunhões! A Missa confirmou-os; mas D. Bosco sentia uma tristeza infinita, vendo tão
franca piedade daqueles seus filhos em perigo de perder-se, se os tivesse de abandonar
depois de tantos sacrifícios, por não ter onde os reunir, nem os poder conservar unidos.
Na prática, comparou-os a avezinhas a quem tinham destruído o ninho; recomendou-
lhes que rezassem muito à Virgem, para que lhes preparasse outro melhor e mais seguro
ninho. Durante a tarde, o recreio fez-se num prado; mas D. Bosco tinha o pranto na
alma.
Ao fim do dia, mais uma vez, nada. Uma extrema tentativa para resolver a dificuldade
não tinha tido êxito.
Chorando
Então a natureza reclamou, impôs os seus direitos e D. Bosco sentiu a imperiosa
necessidade de chorar.

68
Oprimido, viram-no afastar-se, recolher-se sozinho, recitando entre lágrimas a sua
oração. Os maiorzinhos que, ​vendo-o assim tão oprimido e, conhecendo-o bem, se não
resignavam a vê-lo triste, tinham-no seguido e ouviram aquela oração de dor e esperança:
– Meu Deus, meu Deus, seja feita a vossa vontade; mas não permitais que a estes
pobres filhinhos falte um refúgio.
Esta oração não foi feita em vão; o efeito surgiu quase imediato. No domingo
seguinte, foi possível festejar com alegria a Páscoa.
Na tribulação
Um dos jovens que estiveram naquela ocasião ao lado do Pai e que deixou na história
do Oratório um nome simpático chamava-se José Brosio, braço direito de D. Bosco em
muitas circunstâncias. Devemos à sua pena a ingénua descrição que vamos inserir.
Num domingo, depois de acabadas as funções, D. Bosco não estava no pátio no meio
dos rapazes. Esta desacostumada ausência não podia passar despercebida.
O afeiçoadíssimo Brosio não descansou e foi procurá-lo, acabando por encontrá-lo
num quarto, muito triste, quase a chorar. Apertado por perguntas, D. Bosco, que muito
lhe queria, acabou por confessar que um Oratoriano o tinha ofendido de maneira a
causar-lhe viva dor.
«Quanto a mim, não tem importância; só me pesa ver que o ingrato corre para a
perdição».
Brosio, ferido no coração, não aguentou, mas com a fúria do homem do campo, que
perde a cabeça, saiu a correr e aplicou ao insolente uma violenta lição. D. Bosco,
completamente mudado, correu a livrar o culpado e disse calmamente a Brosio:
– Queres castigar o ofensor de D. Bosco? Estás contente?
– Sim, – respondeu o rapaz ainda cego de cólera.
D. Bosco toma-o ternamente pela mão, dizendo: «vamos juntos vingar-nos», e leva-o
à igreja, fazendo-o ajoelhar junto de si. Ficou bastante tempo em oração e deve ter
rezado também pelo seu amigo que, entretanto, passara da cólera à benignidade. Logo
que saíram, D. Bosco disse-lhe paternalmente:
– Vês, meu caro amigo, a vingança do cristão é rezar e perdoar ao ofensor.
Atentados e mais atentados
Quantas ocasiões, até trágicas, se não apresentaram ao homem de Deus, para pôr em
prática esta santa lição! Desde 1848 a 1854, houve uma série de atentados contra a sua
existência.
Uma bala de espingarda, que fora disparada contra ele, atravessou-lhe a manga entre o
braço esquerdo e o peito. Dois sicários esperaram-no num canto da Praça do Castelo,
para o apunhalarem, e tê-lo-iam feito, se não acorresse gente. Por duas vezes, tendo sido
chamado ao leito de dois moribundos, escapou pela sua presença de espírito a tentativas

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diabólicas de o suprimirem, envenenando-o e assassinando-o. Por três vezes, escapou à
terrível ferocidade de um apunhalador profissional, que fora comprado para o suprimir.
Ameaçado no seu quarto, com uma arma de fogo, escapou pela irrupção de alguém que
esperava a sua vez de ser atendido e dera pela manobra. Na estrada de Moncalieri, um
formidável golpe de foice ter-lhe-ia fraturado a cabeça, se o agressor no momento em
que ia vibrar o golpe, não tivesse ido parar, impelido por um providencial empurrão, ao
fundo de um fosso vizinho.
De quatro perigos mortais foi livre pela intervenção do cão misterioso. Mandantes e
malfeitores de alto coturno armavam na sombra braços homicidas e multiplicavam os
assaltos, por D. Bosco não desarmar na luta implacável mas leal, que travava pro
Ecclesia et Pontifice, sobretudo servindo-se das Leituras Católicas.

Dom Bosco não cede


Tantos e tão graves riscos teriam feito desanimar e desistir homens que não tivessem a
sua coragem nem a sua têmpera, mas a ele nem sequer tiravam a calma para as mais
ordinárias ocupações, de modo que, em casa, poucos eram os que chegavam a ter
conhecimento destas falhadas tentativas. Qual era o espírito que o animava nesta
ardorosa campanha, que lhe suscitava tantos e tais inimigos, é ele próprio quem o diz.
Em 1853, a dois senhores que recebera com toda a cortesia e que tinham depois
passado a truculentas ameaças, para que suspendesse a publicação das Leituras, disse
claro e franco:
«Quando me fiz sacerdote, consagrei-me ao bem da Igreja e à salvação das almas, de
modo particular da juventude... Os senhores não conhecem os sacerdotes católicos; de
contrário, não desceriam a semelhantes ameaças. Fiquem a saber que os padres
católicos, enquanto vivem, trabalham de bom grado pela glória de Deus; se no
cumprimento do próprio dever tivessem de sucumbir, olhariam a morte como a maior
fortuna e a máxima glória».
Podemos, porém, declarar que nunca teria oposto violência a violência, porque «a
força do sacerdote está na paciência e no perdão».
Com efeito, quem tivesse visto D. Bosco, depois de semelhantes e tão perigosos
encontros, encontrá-lo-ia a agradecer ao Senhor e à Virgem, a rezar pelos seus infelizes
perseguidores, a pensar, diante de Deus como poderia pagar o mal com bem e a
retemperar a alma na comunhão com o Senhor.
Mas os credores…
As agressões à mão armada intercalavam-se com assaltos mais prosaicos, mas
bastante mais frequentes: o dos credores e fornecedores. Para levar por diante tantas
obras de religião e de caridade, D. Bosco via-se muitas vezes reduzido a grandes apertos:
mas estes não o impediam de retirar da sua profunda fé perene alimento de uma santa
alegria e paz.

70
«Deus é um bom Pai, dizia; providencia que nada falte às aves do céu, não deixará de
fazer o mesmo conosco».
A seu respeito e da sua missão, pensava assim: «Destas obras sou apenas humilde
instrumento; o artífice é Deus. Quem tem de pensar nos meios de prosseguir e levar a
bom termo as obras é o artífice, não o instrumento. Deus não deixará de o fazer, quando
e como julgar melhor; nada mais tenho a fazer do que ser dócil e dúctil nas suas mãos».
Este hábito de considerar as coisas do teto para cima, fazia-lhe dizer nos sermõezinhos
da noite: «Rezai e aqueles que podem que façam a santa Comunhão segundo as minhas
intenções. Posso garantir-vos que rezo também. Rezo por vós. Agora sou eu quem está
em grandes dificuldades! Tenho necessidade de uma grande graça. Depois vos direi qual
é».
Algumas noites depois, mantinha a palavra, contando, por exemplo, que um rico
senhor viera trazer-lhe a quantia de que precisava, acrescentando: «A Virgem Santíssima,
como vedes, hoje mesmo, nos conseguiu tão grande benefício. Agradeçamos-lhe de todo
o coração. Continuai, por isso, a rezar: o Senhor nunca nos abandonará. Mas, se na
nossa casa entrasse o pecado, então, ai de nós! O Senhor não mais nos socorreria.
Cuidado, pois; repeli as tentações do demónio e frequentai os sacramentos».
Estes e outros excertos são tirados das palavras que à noite dirigia aos internos e que
muitos tiveram o cuidado de escrever todos os dias e que são guardadas nos nossos
arquivos ciosamente, pois representam o eco fiel da voz paterna e documento precioso
do que afirmava publicamente em 1876:
«Não temos meios humanos; mas temos o costume de olhar para cima».
Nenhuma prova melhor de que um homem tem continuamente o coração em Deus e
Deus no coração do que aquele mutare fortitudinem84, naquele encontrar sempre novas
forças, quando tudo parece conspirar para as aniquilar; estabilidade que é uma íntima
participação da imutabilidade divina.
«Durante trinta e cinco anos, atesta Cagliero, nunca me recordo de o ter visto um só
instante aborrecido, desencorajado e inquieto por causa do sustento dos seus rapazes».
… e o inesperado
À ferocidade das violências passageiras, ao assalto das angústias quotidianas,
juntavam-se sempre factos dolorosos que o feriam nos sentimentos mais caros.
Seja citado entre todos o feio caso que lhe ocorreu no centenário de S. Pedro. Um dos
grandes amores de D. Bosco foi sempre o Papa. Em tempos hostilíssimos ao Papado, ele
manifestou pelo Pontificado Romano um zelo operosíssimo, que foi muitas vezes
submetido a rudes provas, mas reconhecido plenamente de um e do outro lado da
barricada. Tocar em D. Bosco no seu amor pelo Vigário de Jesus Cristo era atingi-lo nas
pupilas dos olhos. Ora, Deus permitiu que nem esta prova lhe fosse poupada.
Para comemorar a solene ocorrência, publicara ele nas «Leituras Católicas» um seu

71
trabalho sobre o Príncipe dos Apóstolos, obrazinha que foi muito bem recebida; quando
menos se esperava, veio a saber-se que o seu livro tinha sido denunciado à Sagrada
Congregação do Index.
Um raio caído sob um céu sereno! Recebeu depois oficialmente a relação de um
Consultor: uma requisitória grave, severa, rude para com a pessoa do autor, como se ele
tivesse querido atacar a autoridade do Pontífice com falsas doutrinas. D. Bosco muito
rezou, muito consultou e depois deu por escrito a sua resposta.
Na noite anterior ao dia em que devia enviá-la para Roma, chamou um dos seus para
a transcrição caligráfica; foi esta circunstância que nos permitiu conhecer o facto que, de
outro modo, teria ficado sepultado nas trevas daquelas tristes horas.
No silêncio noturno, o calígrafo ouvia comovido no quarto contíguo os suspiros e as
palavras truncadas de D. Bosco; acentos de ardentes orações. À meia-noite, abriu
suavemente a porta para ver o trabalho:
– Vês? – perguntou.
– Sim, vi como trataram D. Bosco.
Então o querido Pai, olhando o Crucifixo, exclamou:
– «Vós sabeis bem, Senhor, que escrevi aquele livro com boa intenção! Ah! A minha
alma está triste até à morte! Fiat voluntas tua!... Não sei como hei de passar esta noite.
Meu Jesus, ajudai-me!».
Só Deus sabe como passou o resto da noite; sabemos que às cinco o secretário,
voltando à mesa para ultimar o trabalho, viu D. Bosco, sereno como de costume, a
confessar e a celebrar; depois disto, pareceu-lhe completamente diferente, tanta era a
felicidade que lhe brilhava nos olhos.
A defesa foi enviada. O próprio Pio IX mandou parar o processo. Sanado o caso, tudo
se reduziu a dois pequenos retoques na nova edição.
Grande tempestade num copo de água; mas para D. Bosco foi um golpe tremendo. A
oração humilde, que o tinha aliviado nos dias de tristeza, tornou-se ação de graças à
Virgem, logo que o céu serenou.
Grande tribulação
Mas que é uma mágoa de quatro meses em comparação com uma opressão imutável
que durou nada menos de dez anos?
Que se perca no ar qualquer palavra amarga; as polémicas não estão na índole deste
trabalho; a história fará o seu dever, está já a fazê-lo. O heroísmo da santidade de D.
Bosco agiganta-se nestes dois lustros. Para nós, seria uma grave lacuna, quando
discorremos precisamente sobre a união de D. Bosco com Deus nas tribulações, omitir
sobretudo a tribulação que foi para ele a mais sensível e a mais sentida.
Temos de um lado D. Bosco que procura todos os modos para aplanar as dissensões e
de outro lado pessoas que só procuram multiplicar os incidentes e agravar as coisas. Dez

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anos destas dolorosas lutas é muito, é coisa para esgotar a paciência de um Job.
Todavia, o nosso Pai, sempre humilde, sempre que era constrangido a falar da
angustiosa perseguição, só tinha uma tristeza a exprimir, precisamente a que repetia numa
carta ao cardeal Nina:
«Nada pedi, nada pedirei nunca senão que me deixem em paz e tranquilidade, para
trabalhar no sagrado ministério, em favor das almas expostas a tantos perigos».
Para D. Bosco uma só coisa interessava, as almas; o resto, bom nome, reputação,
interesses contingentes, nada disso contava. Assim amargurado, que fazia? O que diz o
salmo: o conforto do justo perseguido está na oração85; unir à paciência na tribulação a
assiduidade na oração é, segundo o Apóstolo86, a prática dos Santos.
Nas Atas do processo, encontramos três linhas que definem «aquele desgraçado
período, como o crisol que purificou o ouro da sua virtude de toda a escória mundana,
tornando-o eminente, sobretudo no espírito de fé e na união com Deus».
Relativamente aos autores das suas tribulações, «eu sei» depôs D. Rua, «que se não
contentava com perdoar-lhes, mas rezava e fazia rezar por eles».
Na doença
Só por uma coisa D. Bosco nunca rezou, para ser curado das doenças que o afligiram,
embora deixasse que os outros o fizessem como exercício de caridade.
Os sofrimentos físicos, aceites em perfeita conformidade com a vontade de Deus, são
atos de grande amor divino e penitências voluntárias; mas devemos ver até que ponto D.
Bosco sofreu! Não foram poucas nem leves as doenças que D. Bosco teve durante o
tempo que viveu.
Não é hipérbole dizer que a sua carne não teve paz87. Escarros de sangue, que tendo
começado no princípio do seu sacerdócio, se repetiam periodicamente. Desde 1843,
doença de olhos com ardor e finalmente perda de toda a visão do olho direito. Desde
1846, incharam-lhe as pernas e os pés, doença que foi progredindo de ano para ano,
obrigando-o ao uso de meias elásticas, porque a carne caía-lhe sobre o pé, como viu
quem lhe prestava o caritativo serviço de o ajudar a descalçar-se!
Só Deus sabe como conseguia resistir para estar de pé, horas e horas! Chamava a este
inchaço a sua cruz quotidiana.
Fortes dores de cabeça, a ponto de lhe parecer que o crânio se lhe dilatava; terríveis
nevralgias, que lhe torturavam durante semanas inteiras as gengivas; insónias tenazes;
digestões muito laboriosas; palpitações de coração, tão violentas até dar a impressão de
que uma das costelas tinha cedido ao impulso. Nos últimos quinze anos, febres
intermitentes com erupções cutâneas; uma excrescência de carne viva sobre o osso sacro
que nos pode dar ideia do que devia sofrer, sentado ou deitado.
Por motivos fáceis de compreender, nunca revelou esta sua doença a ninguém, nem

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sequer ao médico que teria remediado o caso com um corte, como se fez na sua última
doença. Aos seus familiares, que viam quanto sofria, sentado, contentava-se com dizer:
— «Estou melhor de pé ou passeando. Não gosto de estar sentado».
Uma outra tremenda cruz, de que se tinha vago conhecimento e foi revelada depois da
sua morte, carregava-a desde 1845. Tendo naquele ano surgido uma epidemia petequial,
D. Bosco, que assistiu muitos doentes, contraiu a doença, ​conservando-lhe os vestígios
até à morte.
O embalsamador do corpo viu coisas de estarrecer: uma herpes espalhada sobre quase
todo o corpo, sobretudo nas costas. É difícil conceber mais horrível e doloroso cilício!
Nos últimos cinco anos da sua vida, o enfraquecimento da espinha dorsal obrigava-o a
caminhar penosamente curvo sob o peso de tantas cruzes, embora sustentado com filial
piedade por braços vigorosos.
Um célebre médico francês, em 1880, tendo visitado o enfermo em Marselha, disse
que o corpo de D. Bosco era um vestido gasto que não podia já receber remendos, em
que era preciso não mexer e conservar como estava.
O seu médico assistente deixou escrito que, «depois de 1880, o organismo de D.
Bosco estava reduzido a um laboratório patológico ambulante» 88. Pois bem, com todo
este cortejo de males, nunca se lamentava nem mostrava o menor sinal de impaciência;
pelo contrário, trabalhava à secretária, confessava durante horas e horas, pregava,
viajava como qualquer pessoa de perfeita saúde; mais ainda, sempre de bom humor,
sempre de aspeto alegre e sempre encorajante nas palavras. Tendo sido convidado a
pedir ao Senhor que o libertasse de um incómodo respondeu:
– Mesmo que soubesse que uma só jaculatória bastava para me curar, não a diria.
D. Bosco, vendo os seus males n’Aquele que lhos mandava, achava-os tão amáveis
quanto mais numerosos e aflitivos.

Sua grande oração


Basta este facto para nos revelar um abismo de interioridade quase inconcebível, se
não soubéssemos como Deus é admirável nos seus Santos89. Dá-nos ocasião de
recordar a bem fundada doutrina de Taulero90. Diz o Doctor sublimis:
«A mais excelente de todas as orações que Jesus fez durante a sua vida mortal, a mais
alta e excelente, foi aquela em que disse: Meu Pai, não se faça a minha, mas a tua
vontade91. Esta foi a oração mais glorificadora do Pai e a mais aceite; a oração mais
proveitosa para os homens e a mais terrível para os demónios. Mercê desta resignação da
vontade humana de Jesus, todos nós, querendo, podemos salvar-nos. É esta a razão pela
qual a maior e mais perfeita alegria dos verdadeiros humildes consiste em fazer
exatissimamente a vontade de Deus».
Foi esta a oração que D. Bosco soube fazer com perfeição durante o curso da sua

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atribulada existência.

Capítulo IX
NOS CONTRATEMPOS
DE VÁRIO GÉNERO
Dois perigos ameaçam seriamente os homens de ação: eles são indicados por Jesus no
sollicita es e no turbaris, que Ele censurou a Marta92, quer dizer: preocupação dos
pensamentos e inquietação dos sentimentos: duas coisas tão fáceis de encontrar nas
pessoas obrigadas a dividir a sua atividade erga plurima. Para não tropeçar nestes
perigos, é indispensável o unum necessarium escolhido por Maria, quer dizer, não perder
de vista a união com Deus.
O navio com toda a sua carga sulca seguro as ondas, enquanto o metacentro está no
seu lugar; possui, deste modo, não só estabilidade e equilíbrio, mas energia, digamos
assim, para retomar o equilíbrio, sempre que momentaneamente seja inclinado pelas
ondas. O metacentro da vida ativa é precisamente esta união com Deus, que impede a
deslocação e restabelece o equilíbrio. Quantas ondas não batem o nosso pobre barco!
Não sofrer os efeitos destes desequilíbrios, nem sequer o menor desvio viável, é o
privilégio raríssimo dos homens de tal modo unidos ao Senhor, que formam literalmente
um só espírito com Ele, segundo a expressão de S. Paulo93.
Que D. Bosco foi um destes homens privilegiados tudo o leva a crer, sobretudo o seu
modo de agir e de falar na presença de acidentes fortuitos, repentinos, aborrecidos, que
embora contrariando-o bruscamente e de surpresa, não alteravam, nem muito nem
pouco, a sua habitual e costumada calma; prova de que, sempre e em todas as
circunstâncias, estava no seu centro.

Construções que desmoronam


D. Bosco teve grandes contratempos por desastres sofridos nas construções que
empreendeu. Em 1852, durante a noite, desabou grande parte de uma construção que
vinha sendo levantada só Deus saberia dizer com quantos sacrifícios.
Os jovens, acordados em sobressalto, fugiram dos dormitórios, mas embateram em D.
Bosco que, reunindo-os ao seu redor, os levou à igreja a agradecer ao Senhor e à Virgem
o terem escapado a maior perigo.
Poucas horas depois, durante o recreio, o que restava da construção, que já ia à altura
do telhado, tendo os pilares cedido, desabou completamente num monte de ruínas.
Perante a nova desgraça que aniquilava, num momento, esforços e esperanças de grande
monta, D. Bosco, atónito mas sereno, disse brincando:
– Temos andado a brincar com os tijolos!

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Depois, com a maior calma e com acento paterno, acrescentou:
– «Sicut Domino placuit; sit nomen Domini benedictum. Recebamos tudo da mão do
Senhor; Ele levará em conta a nossa resignação. Agradeçamos até a Deus e à Santíssima
Virgem, pois, nas dolorosas circunstâncias que hoje afligem a humanidade, intervém
sempre a mão benéfica que mitiga as nossas desventuras».
Numa carta, que escreveu dali a três dias, revela ao mesmo tempo o que sofreu e a
santa paz que reinava na sua alma:
«Sofri um grande contratempo: a casa, que andava em construção, ruiu quase
inteiramente, quando estava já quase toda coberta. Houve só três feridos graves, mas
ninguém morreu; mas que medo! uma consternação capaz de mandar o pobre D. Bosco
para o outro mundo. Sic Domino placuit».

Um raio
Em 1861, à meia-noite, um formidável ruído sacudiu os fundamentos do Oratório.
Um raio, penetrando no quarto de D. Bosco, pôs tudo em desordem, deixando-o a ele
quase sem sentidos.
O seu primeiro pensamento foi para os jovens que dormiam no andar superior que
recomendou fervorosamente à Santíssima Virgem. Bem preciso era! A descarga elétrica,
ao atravessar a abóbada, tinha enchido de terror os espíritos, de tal modo que o pânico
ameaçava fazer o que o raio não fizera.
Numa confusão babélica de gritos, ruínas e trevas, por cima dos tijolos calcinados, D.
Bosco surgiu avançando com uma luz na mão, doce e sorridente, como sempre.
– Não tenhais medo, diz com voz tranquilizadora; temos no céu um bom Pai e uma
boa Mãe, que velam por nós.
Como Deus quis, a confusão serenou; D. Bosco, tendo verificado que nenhuma vida
se perdera, proferiu o seu Deo Gratias, que lhe saía do coração e depois continuou:
– Agradeçamos ao Senhor e à Santíssima Virgem! Que desgraça teria sido, se à casa
se pegasse fogo! Quem se teria salvo?
Sem se preocupar com mais nada, naqueles primeiros momentos, fazendo-os ajoelhar
ali mesmo diante da imagem da Mãe de Deus, recitou com eles as ladainhas lauretanas.
Mais tarde, os clérigos subiram a fazer-lhe visita, querendo certificar-se de que o bom
Pai nada sofrera. Era esta a terceira vez que o raio lhe dava que fazer, mas desta vez
com efeitos muito mais sensíveis e duradouros do que nas outras vezes. Limitou-se,
porém, a dizer:
– Esta hoje é uma das maiores graças que a Virgem nos obteve. Agradeçamos-lhe de
todo o coração!
Com efeito, ulteriores investigações provaram que pouco faltara para haver uma
hecatombe. Alguém fez a proposta de se colocar no edifício um para-raios.

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– Sim, vamos colocar lá em cima uma estátua da Virgem Santíssima. Maria defendeu-
nos tão bem do raio, que seria ingratidão confiar noutro para-raios.
Uma imagem da Virgem, verdadeiro paládio do Oratório primitivo, ainda ali está a
atestar a filial piedade de D. Bosco para com a poderosa Rainha do Céu.

Cai uma abóbada


Antes de acabar aquele ano, o abater de uma abóbada subterrânea, numa recente
construção, lançou os espíritos em grande sobressalto. D. Bosco, conseguida calma entre
os seus, observou sem se perturbar:
– O demónio quis de novo intervir, mas vamos para a frente sem medo!
Um incêndio
Idêntico abandono nas mãos de Deus encontramos nele, quando já velho, enfrentou
contratempo análogo aos precedentes.
Vinte e quatro anos depois, precisamente durante o solene jantar de despedida a uma
leva de missionários, deflagrou na oficina dos encadernadores um grande incêndio.
Não muito longe do fogo, estavam amontoadas as bagagens dos que deviam partir.
Houve a agitação do costume em idênticas circunstâncias: não é difícil pôr uma casa em
confusão.
D. Bosco, evidentemente, não foi indiferente ao triste caso, mas não se deslocou do
refeitório, onde ficou silencioso e absorto. De vez em quando, perguntava se alguém se
tinha ferido e como lhe repetiam que não, voltava ao seu recolhimento. Quando vieram
dizer-lhe que os prejuízos montavam a cem mil liras:
– É muito, é grave! – exclamou –. Mas o Senhor o dá, o Senhor o tira. É Ele o dono.
As contrariedades das viagens
O «nada te perturbe» de santa Teresa, com que D. Bosco, ao confiar aos seus
ocupações de responsabilidade, os premunia dos efeitos imediatos das más surpresas,
nunca deixava de o aplicar ele próprio não só nos maiores contratempos, mas mesmo nos
outros que por si não trazem graves inconvenientes, mas que perturbam quem não tem o
hábito de pensar que nem sequer uma folha cai, sem o consentimento de Deus. A
imperturbabilidade é tanto mais rara em semelhantes casos, quanto mais natural parece
em tais circunstâncias haver motivo para certa perturbação nervosa; por isso,
conservarem-se sempre invariável e amavelmente serenos é uma prerrogativa dos
homens com toda a sua alma imersos em Deus.
Quem, para dar um exemplo, tendo de partir de viagem, não teve por vezes a
aborrecida contrariedade de perder o transporte? É um facto banal; mas pode servir para
revelar o verdadeiro interior de uma pessoa.
Um dia, D. Bosco, tendo descido na estação de Asti demorou-se um pouco a tratar de
um assunto e perdeu a carreira que devia levá-lo a Montemagno, de modo que teve de

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esperar ali várias horas. Não se descompôs: começou a conversar com um grupo de
rapazes, a quem convenceu a confessarem-se e, a fazê-lo logo, no hotel próximo.
Outra vez, tendo perdido o comboio de Trofarello para Villastellone, sem se alterar,
tirou do bolso uma mão-cheia de provas tipográficas e fez o caminho a pé, corrigindo-as.
Ao chegar ao destino, erguendo os olhos da última, disse ao companheiro:
– É bem verdade que até as desgraças servem sempre para qualquer coisa. Nem em
casa teria feito tanto trabalho como consegui fazer devido a este incidente.
Uma manhã, tendo de se dirigir de comboio a uma terra não muito distante de Turim,
tinha estabelecido celebrar lá o santo Sacrifício. Ao sair do quarto, surgiu um clérigo que
precisava de lhe falar; D. Bosco parou e ouviu-o. Ao descer a escada, surge um outro.
D. Bosco parou e ouviu-o. No último degrau, estava outro ainda. D. Bosco atendeu-o
igualmente. Ao atravessar o pórtico, mais clérigos e sacerdotes o circundaram: D. Bosco
a todos atendeu. Finalmente, ao transpor a porta, ouve a voz de um rapazinho que o
chama, correndo atrás dele; D. Bosco pára, volta-se, respondendo às suas perguntas.
O comboio naturalmente não esperou: quando chegou à estação, a locomotiva
acabava de arrancar, soltando um silvo.
D. Bosco voltou para trás, foi celebrar Missa à cidade e partiu depois.
Para tornar um superior assim compreensivo e amável, como D. Bosco foi neste caso,
é preciso uma união habitual com Deus, diz S. Boaventura94; só Aquele que é bonitatis
oceanus pode infundir, na oração, aquela suavidade que faz dele tudo para todos.
Os contratempos com pessoas simples
Mas os piores contratempos teve-os D. Bosco dos homens: de homens humildes, de
homens importantes e da parte de autoridades.
Pessoa humilde, um coadjutor que tinha obtido autorização de ir para a América e que
era destinado a Santa Cruz na Argentina: cedendo ao desconforto, abandonou a casa e
instalou-se na quinta de um colono. A inesperada notícia afligiu muito o Servo de Deus,
que ordenou que o fizessem voltar para Itália imediatamente. Quando lhe falaram na
despesa que tal regresso representava, respondeu calmo e resoluto:
– Nunca se olha a despesas, quando se trata de salvar uma alma.
O bom cozinheiro do Oratório era também pessoa modesta e humilde. Uma noite, D.
Bosco, que tinha estado a confessar até muito tarde, chegou depois de ter acabado a
refeição comum. O cozinheiro mandou-lhe uma sopa fria e de má aparência. O servente,
sabendo por experiência que D. Bosco nada diria e não tendo coragem de lhe apresentar
aqueles restos, censurou o nosso homem, dizendo-lhe, zangado:
– É isto que manda para D. Bosco?
Mas o outro, que estava num mau dia, retorquiu:
– Mas quem é D. Bosco? É um como os outros.

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O servente, pela zanga que sentiu e para se desculpar, referiu literalmente o que ouvira
ao cozinheiro.
D. Bosco, levando com indiferença a colher à boca, disse com bonomia:
– O cozinheiro tem toda a razão.
O servente do refeitório, pessoa modesta e rude, foi uma vez avisado pelo próprio D.
Bosco, porque não tinha mudado, como devia, uma toalha suja; em lugar de receber com
humildade a censura paternal, escreveu-lhe uma carta insolente em que chegava a dizer-
lhe que fora a primeira vez que vira D. Bosco com o rosto sério. O Servo de Deus, longe
de se zangar, logo que o encontrou, chamou-o paternalmente e, aludindo à frase que
circulara por todo o Oratório, disse-lhe com bondade:
– Mas tu não sabias que D. Bosco é um homem como os outros?
Desde S. Paulo até nós, todo o homem verdadeiramente de Deus, se tem considerado
sempre devedor a todos, tanto aos estultos como aos sábios95. Para voltar a S.
Boaventura96, é o tratar com Deus que torna humilde o coração dos superiores: devotio
cor humiliat.
E com os grandes
O Pe. Amadeu Peyron, personagem importante, era filólogo e orientalista de fama e
professor na régia Universidade de Turim. Presidia ele a uma reunião de sacerdotes, que
tinha por escopo tratar de assuntos do sagrado ministério. Falou-se na necessidade de
multiplicar as publicações educativas adaptadas ao povo. D. Bosco, aproveitando a
oportunidade, citou e recomendou as suas Leituras Católicas.
Nunca o tivesse feito! O presidente, como se só estivesse à espera disto, atacou a
fundo a publicação; esvaziou o saco, dizendo que estava inquinada de defeitos de
linguagem, de gramática e de estilo. A autoridade da pessoa, a violência das expressões e
a causticidade de certas palavras fizeram com que todos ficassem de boca aberta.
O servo de Deus Leonardo Murialdo, que estava entre os ouvintes, mortificado pela
má figura que o seu amigo estava a fazer, sabendo, além disso, que muitos dos presentes
tinham pouca simpatia por D. Bosco, esperava, ansioso, para ver como ele reagiria e
como responderia. Sabia perfeitamente quanto costumam ser suscetíveis os autores,
quando se sentem criticar e sobretudo pôr na berlinda em público.
D. Bosco deixou findar a catilinária e falou assim:
— Mas eu estou aqui precisamente para receber ajuda e conselho. Peço a todos que
me digam o que devo corrigir e fá-lo-ei de boa vontade. Ficaria até imensamente grato a
alguém, que escrevesse melhor do que eu, se me fizesse o favor de rever cada um dos
fascículos.
O teólogo Murialdo respirou. Recordando depois, em 1896, este dramático episódio,
dizia ter pensado consigo desde então: «D. Bosco é um santo!»

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D. Bosco teve também com outros eclesiásticos notáveis, não por maldade deles, mas
por espírito preconcebido, encontros aborrecidos, onde se revelou aquele total
desprendimento de si próprio, que é fruto do contacto ininterrupto com Deus, cuja paz
soberana domina os pensamentos e sentimentos humanos. Onde está o Senhor, não há
comoção97.
Numa importante cidade, fora de Itália, onde recentemente tinha aberto um colégio,
tendo ido visitar um importantíssimo Instituto religioso, nele recebeu, depois de longa
espera, acolhimento mais do que glacial. Logo que saíram, naturalmente aquele que
acompanhava D. Bosco desabafou.
– Não te preocupes nem percas a alegria, disse D. Bosco; eles devem estar mais
confusos do que nós por nos terem tratado desta maneira.
Depois, sem sombra de ressentimento, passou a falar de coisas mais importantes.
Na mesma cidade, durante a visita de D. Bosco a um colégio, o bom pároco do lugar,
por um daqueles acessos de impulsividade, não muito raros até entre pessoas bem-
intencionadas, atacou o servo de Deus com linguagem violenta e durante muito tempo.
D. Bosco deixou passar a borrasca, ergueu um pouco a cabeça na atitude de quem pede
humildemente para falar e disse isto:
– Senhor pároco, tem razão de se queixar; lamento que não tenhamos sabido
corresponder plenamente aos seus ​desejos. V. Rev.a é nosso benfeitor, nunca esquecerei
tudo o que fez por nós; faremos sempre o possível por servi-lo. Eu vou morrer dentro
em pouco; mas vou deixar no meu testamento a recomendação ao meu sucessor para
que se reze por V. Rev.a.
Todas as palavras de D. Bosco desciam como suave orvalho sobre o ânimo
exacerbado do irado censor que, no fim, pediu perdão e continuou mais amigo do que
antes.
Com os jornais
Abramos aqui um parêntese a propósito dos jornais. Poder-se-ia levantar um bom
monumento, se fossem colocadas umas sobre as outras as telhas que repentinamente
caíam sobre o Oratório e sobre D. Bosco, arremessadas pelas redações de jornais de
todas as cores e de todos os géneros.
Quem isto escreve conserva uma recordação pessoal e indelével, embora bastante
penosa. A primeira vez que, sendo menino, ouviu o nome de D. Bosco foi na vinheta de
um jornaleco, onde uma figura monstruosa e vil inscrição deformavam, de modo
incrível, a sua caridade pela pobre juventude abandonada. Deixo que os mortos sepultem
os seus mortos, tanto mais que, enquanto vivos, D. Bosco os deixava ladrar à lua; pelo
contrário, não tolerava vinganças, rancores ou respostas, contra os caluniadores,
deixando que as suas obras falassem a seu favor. Ao receber os golpes traiçoeiros da
imprensa, levantando os olhos para o céu, costumava repetir, com fé firme, expressões
como esta:

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– Paciência, tudo isto há de passar! Boa gente, metem-se com D. Bosco que só
procura fazer-lhes bem! Havemos de deixar que se percam as almas? Combatem, sem
saber, a obra de Deus. Ele desfará os seus planos!

Com as autoridades escolares


Mas, muito mais do que a loquacidade dos jornalistas, o ofendiam as sábias e santas
atitudes desfavoráveis dos depositários da autoridade. D. Bosco que, como ele próprio
confessava, recebera da natureza uma índole fogosa e altiva e não podia sentir
resistências, que maus momentos não deve ter passado sempre que, desejoso apenas da
glória de Deus, via impedido o seu caminho, ou pelo menos dificultado, por autorizados
representantes de um e do outro lado! A natureza, valorizada pelas energias sobrenaturais
da graça, fazia então de D. Bosco o homem mais conciliador e pacífico do mundo.
Em tempos de agitações públicas, quantas vezes as autoridades do Estado, instigadas
pelas seitas, fizeram pesar duramente a mão sobre D. Bosco! Quantas vezes, ele,
apresentando-se até aos mais mal dispostos, lhes submeteu os ânimos, conduzindo-os a
melhores disposições! Mas antes de descer à liça, dirigia-se a Deus pela oração,
experimentando quanta força esta tem para mover o coração dos poderosos.
– Com este meio, dizia aos seus, quando se procura o bem, consegue-se tudo o que se
deseja; mesmo que tenhamos de recorrer a quem não tem por nós nenhuma estima.
Deus tocará nessa ocasião o coração do homem, para que acolha favoravelmente a nossa
proposta.
Esta era a fonte do seu magnânimo ousar em contingências duras e desconcertantes.
Em 1862, pretenderam a todo o custo fechar-lhe o Oratório. O Provedor régio para o
ensino ​concedeu-lhe, após duas horas de espera, uma audiência; ​recebeu-o depois,
pomposamente sentado num cadeirão, deixando D. Bosco de pé na sua frente.
Antes que o Servo de Deus abrisse a boca, o enfatuado funcionário inundou-o com
um dilúvio de más palavras, batendo, sem contemplações, em padres e frades, no Papa e
em D. Bosco, nas suas escolas e nos seus livros; mas vendo-o sempre calmo e imóvel,
sem procurar defender-se, acabou por tratá-lo por imbecil, nem mais nem menos.
D. Bosco tomou então a palavra. Em tom grave e suave, pediu-lhe, antes de mais
nada, que considerasse tudo o que dissera até então sem nada a ver com a sua visita.
O Provedor, que nunca tivera oportunidade de tratar com homens daquela têmpera,
não acreditava no que via e ouvia; depois sentiu crescer no seu ânimo tanta estima e
benevolência por aquele que ainda há pouco insultara, que o cumulou de gentilezas e
ficou para sempre seu amigo e protetor. D. Bosco pôde, não esta vez apenas, fazer suas,
modificando-as, as palavras de Neemias98: Orei ao Senhor do céu e depois disse ao
rei... o rei concedeu-me tudo, porque a mão auxiliadora do meu Deus estava comigo.
Com as autoridades eclesiásticas
O espírito de oração, a que o servo de Deus Contardo Ferrini chama «festa dos santos

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pensamentos», tem na verdade isto de próprio: suscita na alma pensamentos alegremente
santos e santamente alegres, mesmo em circunstâncias naturalmente embaraçosas e
desconcertantes.
Que aborrecimento para D. Bosco, «fiel e sensato servo da Igreja», (como o
proclamou Pio XI no seu discurso sobre os milagres), ver surgir contratempos e
dificuldades da parte das autoridades eclesiásticas! Mas com que agilidade sabia conciliar
os direitos da submissão com os da justiça! Procurava em Deus a solução de nós,
humanamente impossíveis de desatar.
Um documento de arquivo tem à margem esta notícia escrita por mão estranha:
«Pobre D. Bosco! Se Deus não estivesse com ele, nada teria conseguido».
Tratava-se de uma exposição oficial escrita e transmitida à Sagrada Congregação dos
Bispos e Regulares por um excelente Monsenhor, encarregado oficioso da Santa Sé,
junto do Governo subalpino. Nela é pintada a vida dos clérigos de D. Bosco com tintas
tão carregadas que seria, a acreditar-se na exposição, caso para reenviar às calendas
gregas a tão suspirada aprovação da Sociedade Salesiana. O bom Prelado julgava como
quem, sem nada compreender de D. Bosco e do seu espírito, aplicasse critérios velhos a
métodos que, na sua simplicidade, invertiam as tradicionais conceções pedagógicas.
Tomando conhecimento disto, D. Bosco teve a intuição das desastrosas consequências
da exposição; ao informar o Capítulo da Sociedade, empregou termos do mais cuidadoso
respeito pela autoridade do autor; até o recebeu muitas vezes no Oratório, com sinceras
demonstrações de respeito, e tendo-se apresentado ocasião de lhe fazer bem, fê-lo corde
magno et animo volenti.
As diligências para a aprovação da Sociedade obrigaram o Servo de Deus a engolir
pílulas muito amargas! Tinha recomendações individuais, muito amáveis, de muitos
Bispos; mas muito lhe ajudaria conseguir uma coletiva dos ordinários da Província
Eclesiástica de Turim.
Chegou o momento oportuno, quando o Arcebispo Riccardi convocou os sufragâneos
na perspetiva do Concílio Vaticano. D. Bosco apresentou a sua humilíssima súplica, para
que fosse lida na assembleia onde tinha altos protetores. O êxito parecia assegurado. Mas
as ideias preconcebidas turbavam as águas; teve de sofrer a humilhação de receber uma
resposta tanto mais cortês na forma quanto mais evasiva na substância. Amargamente
desiludido, exclamou:
– Paciência! Seja tudo por amor de Deus e da Virgem Santíssima.
Durante uma estadia em Roma, por causa deste assunto da aprovação, uma
desagradabilíssima surpresa o colheu precisamente na véspera da partida. Em Roma, fora
objeto de simpatias da parte de indivíduos de todos os géneros e setores. Enquanto
estava em visita de despedida à excelentíssima família Vitelleschi, foi anunciada a
chegada do cardeal Altieri, a quem não tivera tempo de visitar.
Parece que o aristocrático Purpurado ligava certa importância a este ato; o caso é que,
tendo-se D. Bosco aproximado respeitosamente obsequioso, ele lhe disse apenas um frio

82
bom dia; depois, durante toda a conversa que seguiu, naquela casa onde D. Bosco era
muito venerado, nem uma palavra mais, nem um simples olhar. Aqueles nobres senhores
estavam sobre espinhos, aflitíssimos, pois conheciam o caráter inflexível da personagem
que se julgava ofendida. De todos, o mais tranquilo era ainda D. Bosco.
– Coisa sem importância, disse ele. Amanhã tudo será ​ajustado.
Com efeito, no dia seguinte, tendo-se recomendado ao Senhor, pediu uma audiência e
nela conseguiu dissipar todas as nuvens, de modo que pôde provar aos seus amigos ter
reconquistado o Cardeal.
E um dia…
Procedendo deste modo, por ordem hierárquica na ordem dos contratempos, porque
não iremos até ao vértice?
D. Bosco teve também um contratempo com Pio IX. Um dia, servindo-se da
influência que tinha no Vaticano, consentiu em recomendar, para uma audiência privada,
o advogado piemontês, mais tarde senador, Tancredo Canonico.
Pertencia ao grupo dos partidários do fanático visionário polaco Towianski, precursor
dos modernistas, tudo circunstâncias que D. Bosco ignorava completamente. Tendo
chegado à presença do Santo Padre, o advogado começou a largar as suas
extravagâncias, esquecendo totalmente com quem tinha a honra de estar a falar, de tal
modo que o angélico Pontífice se viu obrigado a mandá-lo calar e lhe deu ordem de se
retirar.
Este assim fez, mas, antes, deixou sobre a mesa aquilo que já tinha previsto não ter
possibilidade de dizer de própria voz. D. Bosco, chamado imediatamente à audiência,
ouviu o Papa dizer:
– Ou aquele é um espertalhão ou D. Bosco é um anjinho.
D. Bosco, ouvindo isto, sorriu. Pio IX, vendo D. Bosco sorrir, diz-lhe:
– Por que me fez receber semelhante homem? Depois disso, ainda por cima, está a rir
da minha indignação?
D. Bosco, humilde e tranquilo, respondeu:
– Estou a sorrir, porque a indignação de Vossa Santidade é sempre a indignação de um
Pai amoroso.
Contou então como tudo se tinha passado, contente por ver sorrir, por sua vez, o
Papa.
Certo dia, D. Bosco escreveu a um dos seus para o consolar em certas dificuldades:
«Alegria e coragem, mas sobretudo oremus ad invicem».
A oração foi para D. Bosco o segredo da tranquilidade e da paz nas aflições, segundo
o ensinamento inspirado de S. Tiago99.

83
Capítulo X
CONFESSOR
O tratar mutuamente com Deus faz com que um sacerdote não somente saiba, mas
sinta que é uma pessoa sagrada, sem que nunca se lhe apague da consciência a ideia
luminosa de semelhante caráter, seja o que for que diga ou faça, em particular ou em
público, direta ou indiretamente, tratando com o próximo de qualquer grau ou condição.
Então o espírito sacerdotal desprende-se e irradia de toda a vida, espalhando influxos
sobrenaturais que curam e purificam as almas, as fortificam no bem, as elevam para as
coisas celestes.
Assim como em Jesus a natureza humana, unida hipostaticamente à divindade, era
instrumento de admiráveis operações, do mesmo modo, o sacerdote de vida interior não
pratica nenhum ato nem diz uma só palavra que não traga a marca sacerdotal e não sirva
para agir salutarmente nas almas, até merecer que se afirme que dele se desprende
virtude salvadora para todas as espécies de doenças espirituais: virtus exibat de illo et
sanabat omnes100. Irradiava d’Ele uma força... Veremos agora isto, examinando a
atividade desenvolvida por D. Bosco no confessionário, no púlpito, na imprensa e como
educador.
Dom Bosco e a confissão
Relativamente à confissão, a maneira de administrar este sacramento não se
compreende plenamente, sem ter em conta a sua prática pessoal e os seus ordinários
ensinamentos.
Na infância
D. Bosco afeiçoou-se à confissão desde a mais tenra idade, e nenhuma circunstância
da sua vida conseguiu impedir que se confessasse com frequência. Com efeito,
confessava-se de boa vontade, mesmo quando a mãe já não estava junto dele para o
persuadir; fazia-o tão amiúde como não seria de pensar num rapaz na sua idade, ainda
rude e ignorante e naqueles tempos.
Como estudante
Embora livre como estudante de Chieri, logo pensou em procurar um confessor certo
e sempre o procurou com regularidade, todas as semanas.
Como sacerdote
Sacerdote, em Turim, confessava-se todos os oito dias ao padre J. Cafasso. Falecido
este, recorreu ao ministério de um piedoso sacerdote, em tempos seu condiscípulo, a
quem procurava todas as segundas-feiras de manhã, na sacristia da igreja de Maria
Auxiliadora; este, por sua vez, confessava-se a D. Bosco.

84
Durante as viagens
Durante as viagens e nas ausências do seu confessor, conservava-se fiel à mesma
prática, dirigindo-se a qualquer Salesiano ou a outro sacerdote, segundo os casos.
Por exemplo, durante a sua estadia de dois meses em Roma, em 1867, confessava-se
semanalmente ao padre Vasco, Jesuíta que conhecera em Turim. Os seus filhos, a
princípio, hesitavam, mas ele dizia:
– Vamos, faz esta caridade a D. Bosco; deixa que se confesse.
Era também notável o modo como o fazia; já aludimos noutro lugar, mas
completaremos aqui. Para se confessar, nem escolhia lugares escondidos, nem horas
solitárias, quasi male operans, mas fazia-o exposto à vista de quem quer que fosse; deste
modo, tanto os fiéis como os jovens tiveram oportunidade de observar como, tanto na
preparação como na ação de graças, se mostrava altamente compenetrado da santidade e
grandeza do ato.
Praticar com tão vivo e perseverante afeto a confissão frequente constitui, já por si,
uma vigilante e ininterrupta guarda do coração, que remove de contínuo o mais pequeno
impedimento à ação do Espírito Santo, de modo que chove na alma, sempre maior, a
abundância dos dons celestes.
Nos seus escritos
A prática pessoal de D. Bosco relativamente à Confissão refletia-se no seu ensino
escrito e oral sobre esta matéria, imprimindo-lhe uma nota toda sua, que é a tendência
concreta não só para atrair, mas para afeiçoar os fiéis, sobretudo os jovens, objeto
principal da sua missão providencial.
A originalidade de D. Bosco, quando escreve sobre a Confissão, não está na novidade
das coisas, mas no seu calor apostólico para fazer amar um sacramento que ele tanto
amou. Na sua vida de Miguel Magone inseriu uma digressão, com a qual, em termos de
vibrante caridade sacerdotal, se dirige aos jovens para os incitar a uma confiança filial
para com o pai das suas almas, e depois aos confessores dos jovens, para os exortar a
exercer, com paternal bondade, o seu ministério.
Numa memória destinada aos Salesianos quer que os sacerdotes, a quem se pede para
ouvir de confissão, se apresentem com «ânimo alegre» e que nenhum seja «indelicado
ou mostre impaciência», e recomenda que «os rapazes sejam atendidos com bons modos
e grande afabilidade», sem nunca os aterrar nem mostrar admiração pela sua ignorância,
ou pelas coisas confessadas. No mesmo escrito insere esta grande norma: «É coisa muito
importante e útil para a juventude que nunca um jovem saia descontente de ao pé de
nós».
No Jovem Instruído apresenta-nos um guia tão amável que quem quer que o siga, se
confessa com verdadeira satisfação espiritual. Lendo, com efeito, aquelas páginas simples
e suaves, mesmo quem já não seja jovem, mesmo aqueles que têm a fronte sulcada pelas
rugas dos cuidados, experimentam um sentimento de confiante abandono, que os leva a

85
dirigirem-se ao confessor com fervor de espírito e com a simplicidade serena dos
primeiros anos. Igualmente nos regulamentos dos Oratórios, Institutos e Companhias, a
Confissão tem lugar de honra, mas é apresentada numa luz serena e intencionalmente
simpática.

Nas suas conferências


O que fazia por escrito, fazia-o de viva voz. O maior biógrafo do Servo de Deus
afirma que «cada frase de D. Bosco era um incitamento à Confissão».
Passemos sobre quanto a expressão possa ter de hiperbólico, relativamente à
universalidade, embora seja de augurar que todas as hipérboles tenham tanto fundamento
na realidade; quanto, porém, à positiva eficácia de todo o seu incitamento à Confissão, o
assunto não oferece discussão, pois contra factos não valem argumentos.
Ora, estes são do nosso conhecimento em tal quantidade e variedade de
circunstâncias, que lendo a sua narrativa ficamos admirados e edificados pelos prodígios
da graça divina na obra da salvação.
O pensamento do regresso a Deus apoderava-se com força irresistível da mente
daqueles a quem D. Bosco convidava, de modo que eles acabavam por lhe cair aos pés e
lhe abrir as próprias consciências, fossem jovens seus ou estranhos, operários ou
trabalhadores liberais, simples particulares ou altas personalidades, gente de bem ou
malfeitores. As vitórias de D. Bosco neste campo não têm conta.
Ora, a facilidade de encontrar o caminho dos corações para os induzir a um ato tão
duro em si, e mais duro ainda para certos indivíduos, não é possível senão quando, além
de uma grande fé no sacramento e uma grande franqueza apostólica se possua uma outra
qualidade que é a alma de tudo o mais. Qual? Foi D. Bosco quem deixou escapar a
revelação desta qualidade. Em 1862, foi-lhe pedido por um sacerdote de Osimo que lhe
revelasse o seu segredo para ganhar os corações e respondeu:
– Não sei de qualquer segredo. Se um bom sacerdote ama o Senhor, conseguirá isto
ainda melhor do que eu.
Encontramos no livro de Chautard101 um belo comentário a estas palavras, que
merece ser referido. «Entre a bondade natural, fruto do temperamento, e a bondade
sobrenatural de um apóstolo está toda a distância que há entre o humano e o divino. A
primeira pode fazer nascer o respeito e até a simpatia, pelo operário evangélico, fazendo
desviar então para a criatura um afeto que devia ser só para Deus; mas nunca poderá
determinar as almas a fazer verdadeiramente por Deus o sacrifício necessário para
voltarem ao seu Criador. Somente a bondade que nasce da união com Jesus pode obter
este efeito».
Nas suas aulas e nas suas pregações
Se D. Bosco procedia assim em encontros isolados, podemos imaginar como
aproveitaria a ocasião, quando dava instrução religiosa e distribuía a divina palavra. Nas

86
catequeses insistia constantemente sobre as disposições necessárias para receber com
fruto o sacramento da Penitência, representando ao vivo a bondade do Senhor
instituindo-o, e o bem que ele trazia às almas. Fazia depender do amor à Confissão e
portanto à Comunhão, a possibilidade de passar imaculado o tempo das paixões e o
poder levantar-se depois das primeiras quedas.
Eram raríssimas as vezes que falava aos jovens, as suas conferências ao pessoal, as
suas prédicas a toda a espécie de ouvintes, em que não tocasse, opportune et importune,
o tema da Confissão sacramental.
Não aborrecia fazendo-o, não corria o risco de indispor o auditório, forçando o
assunto para o fazer? Não. Quem fala com fé e amor, fala inspiradamente, arrastando
quem o ouve. Com efeito, o Cardeal Cagliero, que o ouviu centenas de vezes, depôs
dizendo que «sobre este seu tema predileto, ele falava sempre com modos novos e
atraentes». Quanto a desafinar ou forçar, muito menos ainda, porque, tivesse ele quem
tivesse diante de si, nunca via as pessoas, via as almas. Ao vê-las, dois sentimentos
despertavam dentro do Santo, um de desejo, outro de temor: desejo de a todos conduzir
para o paraíso e temor de que qualquer delas andasse pelo caminho do inferno.
Ora, estes dois sentimentos, harmonizados no amor divino que constituía toda a sua
razão de ser como do seu operar, davam o devido tom, a entoação fundamental aos seus
discursos, embora passando por múltiplas variações, uma das quais e a mais comum, a
mais habilmente intercalada, era o chamamento para o sacramento da misericórdia.
Como confessava
Quanta e qual fosse a caridade que habitualmente inflamava o coração de D. Bosco
para com Deus, além de excitar assim pela pena e pela palavra à Confissão, revela-se de
modo especial no modo por que administrava este sacramento.
Huysmans102, como grande convertido que era, acha que para os seus pares que
«têm de uma só vez de lançar toda a sua vida aos pés de um sacerdote», seria
«verdadeiramente belo e bom» serem confortados e ajudados como D. Bosco
confortava e ajudava os seus penitentes, tanto «o seu modo de confessar recordava a
insuperável misericórdia de Jesus».
Só vê-lo exercendo tão santo ofício fazia nascer nos presentes amor e reverência para
com o augusto sacramento. Com aquele sentido das coisas divinas, que lhe era próprio,
chegava ao local das confissões não com o barrete na cabeça, mas entre os dedos e
diante do peito, nunca se sentando sem ter rezado e feito um belo sinal da cruz.
Normalmente, confessava num cadeirão de braços, colocado entre dois genuflexórios.
A sua atitude era a que é própria de um representante de Deus, digna e inspirando
confiança. Joelhos unidos, pés sobre o escabelo, busto ereto, cabeça ligeiramente
inclinada, face de homem absorvido em obra diviníssima e todo penetrado do espírito de
Deus.
Voltava-se alternadamente à direita e à esquerda com movimento grave e modesto. Ao

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receber os penitentes, não os olhava na face, nem dava mostras de os conhecer; mas,
apoiando o cotovelo sobre o genuflexório, aproximava o seu ouvido fazendo resguardo
com a concha da mão. Ouvia atento, não alterando nunca o seu aspeto e usando uma
doçura inalterável. Que se passaria entre ele e os penitentes só o podem saber aqueles
que tiveram a sorte de o ter por confessor.
Um deles, o Cardeal Cagliero, testemunha autorizada por todos os títulos, confessou-
se a D. Bosco durante mais de trinta anos. Declarou, nos processos e em outros
lugares103:
«Era admirável a sua bondade com os jovens e com os adultos. Quase todos se
confessavam a ele conquistados pela sua doçura e bondade, pela sua caridade sempre
paciente. Breve sem ter pressa, sempre benigno e nunca severo, impunha-nos uma breve
penitência sacramental, adaptada à idade de cada um e sempre salutar. Sabia fazer-se
pequenino com os pequenos, dar-nos avisos oportunos e temperar as próprias
repreensões com tal sabor, que nos infundia sempre o amor à virtude e o horror pelo
pecado. Um ambiente angélico parecia adejar sobre a sua pessoa e as suas exortações».
Era voz corrente que muitas pessoas que chegavam sem confiança, desesperadas,
voltavam radiantes de consolação, cheias de confiança na infinita misericórdia divina.
Este seu modo de confessar inspirava tanta confiança, que, quem o experimentava,
nunca mais o esquecia. De modo que, aqueles que tinham sido seus penitentes, se o
encontravam, mesmo depois de muitos anos, ou se manifestavam espontaneamente,
revelando-lhe o estado da sua alma e há quanto tempo se não tinham confessado, ou
respondiam se ele os interrogava, com afetuosa sinceridade; muitos sabendo da sua
presença em determinado lugar, iam procurá-lo mesmo de longe, para poderem voltar a
confessar-se a ele.
Sempre disposto a confessar
Não se diria bastante sobre o seu modo de confessar, se não se acrescentassem ainda
duas observações, que ajudam a desvendar sempre melhor a grandeza da sua vida
interior. Em primeiro lugar, quando confessava era um homem desligado de todas as
coisas deste mundo.
E embora tivesse a tratar e a resolver coisas suficientes para assoberbar não um, mas
vários homens não preguiçosos, se fosse solicitado para confessar no meio de qualquer
assunto, nunca se mostrava importunado nem dizia para voltarem mais tarde, ou
mandava o penitente a outro sacerdote mas, abandonando os negócios temporais,
colocava-se humildemente à disposição daquela alma. Habitualmente, quando tocava
para confissões, largava tudo e todos: nada, desde aquele instante, tinha aos seus olhos
importância maior.
Isto repetia-se todos os sábados à noite, nas vigílias de todos os dias de festa e todas
as manhãs antes da Missa da comunidade e durante ela. Conservava-se no
confessionário várias horas, seguidas, inteiramente concentrado no seu ministério, sem ar

88
aborrecido, sem nunca parar por motivos humanos. Nem sequer suspendia, quando
circunstâncias excecionais pareciam aconselhá-lo. É inútil discutir: para os Santos não
existem negócios terrenos que se possam comparar com os interesses celestes.
Um domingo de manhã, chegou ao Oratório o marquês Patrizi, romano, hóspede
gratíssimo. Receberam-no, o melhor que puderam e souberam, alguns superiores, porque
D. Bosco estava a confessar os rapazes externos. O Servo de Deus, avisado da chegada,
respondeu com calma:
– Muito bem, muito bem! Digam-lhe que estou muito contente por ele ter chegado e
que espere um momento que eu termine de ouvir estes pobrezinhos, que desejam fazer a
santa Comunhão.
Aquele momento durou hora e meia.

Nunca se cansava
A segunda observação refere-se à impassibilidade com que, uma vez sentado no
confessionário, suportava qualquer incómodo, moléstia ou sofrimento.
Inacessível ao cansaço: depois de dias trabalhosos, como se não tivesse necessidade
de descansar, permanecia pregado ali, enquanto houvesse penitentes. Impassível às
asperezas da temperatura: antes de haver aquecimento, sofria sem se lamentar os rigores
do inverno de Turim até às dez e onze da noite. Impassível em certos lugares aos
assaltos dos mosquitos: deixava-se picar, levantando-se, no fim, todo crivado de picadas
na fronte e nas mãos. Impassível perante coisas piores: os pobres oratorianos daqueles
tempos não levavam ao confessor somente pecados; depois das confissões, era um caso
sério D. Bosco libertar-se de tantos minúsculos agressores de várias espécies: tinha dado
bem pelo seu avançar ameaçador e sempre em número crescente, mas não se dera por
achado, apenas atento àquelas pobres almas.
E as confissões dos presos? Os cárceres de então eram bem piores do que as prisões
dos nossos dias, sobretudo no que diz respeito à limpeza e higiene. D. Bosco, dotado de
fina sensibilidade, parecia não ter já naquele ambiente mal cheiroso, nem olhos nem
nariz: todo aplicado a curar as feridas espirituais daqueles desgraçados, não tinha tempo
de atender as repugnâncias dos sentidos.
Numa palavra, por tudo o que temos dito, como não recordaremos as palavras de Pio
X, que na Encíclica de 11 de junho de 1905 afirmava categoricamente aos Bispos de
Itália, que suportar com perseverança os incómodos inseparáveis de qualquer apostolado
é impossível ao homem quando lhe falte o auxílio da vida interior?

Capítulo XI
PREGADOR
A intimidade com Deus, alma do seu ministério de confessor, animou-o, de igual

89
modo, como pregador. Nada de pessoal empolava a sua palavra no púlpito; é sempre o
sopro divino que a penetra e inspira.
Infelizmente, o desejo de se evidenciar é fonte de grandes tentações para aqueles que
ministram a palavra divina. Insinua-se, na subtileza e engenho dos conceitos, na novidade
das imagens, nas exibições de erudição, na elegância da forma, no próprio tom da voz e
na maneira de expor.
A adulação dos outros, sob a capa de cortesia, faz o resto, desde que o pregador tenha
a ingenuidade de acreditar. Grande desgraça que, logo que lisonjeia o amor-próprio do
pregador, ele inutilmente e em vão procurará ocultar, por mais cuidadoso que seja, pois
transpirará por todos os poros, desviando os sacerdotes superficiais dos pensamentos
graves que a palavra de Deus deve infundir e tirando-lhes o gosto das coisas sérias.
Ora isto é nada menos do que adulterar a palavra de Deus, segundo a enérgica
expressão de S. Paulo104 e, como consequência, torná-la mais ou menos estéril.
Nem sequer D. Bosco escapou à tentação no início da sua pregação; é ele próprio que
no-lo revela. Nada lhe faltava para poder brilhar: engenho, estudos profundos, memória
excecionalmente tenaz e até o ambiente geral parecia levá-lo para esse caminho; mas o
amor de Deus não levou muito tempo a tomar o comando.
Sua preparação
Para as suas prédicas, D. Bosco apenas contribuía com a sua humilde preparação; por
isso, advertia os principiantes: «a pregação que produz melhores frutos é a que for mais
bem preparada».
Na preparação não se esquecia nunca de introduzir a oração humilde: mesmo se em
Turim se confessava regular e normalmente todos os oito dias, durante as suas fadigas
apostólicas humilhava-se mais amiúde no tribunal da penitência — e não certamente por
escrúpulos, coisa que nunca conheceu por experiência — mas com o único escopo de se
tornar instrumento menos indigno da graça divina a favor das almas.
Deste modo, sempre e em toda a parte que se apresentava a anunciar a divina palavra
— e pregava muitíssimo por toda a parte, até fora de Itália — fazia-o como autêntico
ministro do Senhor, enviado, ad dandam scientiam salutis plebi eius105.
Sua eficácia
D. Bosco, na sua primeira Missa, pedira ardentemente ao Senhor a eficácia da
palavra, quer dizer, a força de persuasão para fazer bem às almas; pedido que foi
atendido do modo melhor que se pudesse desejar, de forma que, no fim da sua vida,
pôde escrever com modéstia igual à verdade: «Parece-me que o Senhor ouviu a minha
humilde oração».
Quanto à sua pregação sob a forma mais solene, feita do púlpito, ela fluía do exórdio
até à peroração, sem relâmpagos, sem voos, quase sem gestos, de modo lento, num
estilo monótono, em linguagem popular, e muitas vezes em puro dialeto piemontês: as

90
suas prédicas, por vezes, arrastavam-se durante muito tempo, sendo até
inverosimilmente longas; isso, porém, não impedia que agradassem, fossem ouvidas com
gosto, tanta era a piedade e a naturalidade com que falava.
Em Saliceto de Mendovi, por exemplo, uma vez os camponeses obrigaram-no a
pregar, com breves intervalos, durante seis horas seguidas.
Pense-se, além disso, que todos os seus temas eram sobre coisas pisadas e repisadas:
a importância de salvar a alma, a incerteza da morte, a enormidade do pecado, a
impenitência final, o perdão das injúrias, a reparação do mal feito, a falsa vergonha na
confissão, a intemperança, a blasfémia, o bom uso da pobreza e das aflições da vida, a
santificação das festas, a necessidade e o modo de rezar, a frequência dos sacramentos, a
santa Missa, a imitação de Jesus Cristo, a devoção a Nossa Senhora, a facilidade da
perseverança…
Era ouvido, no mais profundo silêncio, não só pelo povo simples, mas por pessoas
instruídas, eclesiásticos, prelados, não diremos fascinados, palavra que viria aqui pouco a
propósito, pois quase levaria a crer em sugestão humana, mas suavemente presos pelo
amor divino, pelo ardor suave que tocou o coração dos discípulos de Emaús durante a
caminhada com o Mestre ressuscitado, que só depois conheceram no partir do pão106.
Inspirado em Deus
Oh! com que verdade se pode aplicar a D. Bosco, pregador, aquele belo responsório
que os Trapistas repetem na festa de S. João Evangelista107: «Reclinado no peito do
Senhor bebeu ​diretamente daquela fonte divina as águas salvíficas do Evangelho e
difundiu por toda a terra a graça da palavra de Deus». Todos os evangelistas são
inspirados, mas não se pode negar a S. João um poder todo especial de palavra, que
saindo-lhe do coração vai diretamente aos corações. Onde bebeu ele este poder senão
naquele Coração sobre que repousou na última Ceia e que é a verdadeira fonte da
eloquência sacerdotal? Este é o pectus que disertos facit os sacerdotes católicos.
Não foi sem razão que D. Bosco recebeu o nome do discípulo predileto de Jesus. Esta
particularidade, que em si própria nada diz, leva-nos ao pensamento dos motivos da
predileção de Jesus pelo seu discípulo, segundo o pensamento de S. Jerónimo108 e leva-
nos a referir, sobre o modo de pregar de D. Bosco, um testemunho conservado por um
jovem cronista do Oratório, que relativamente ao dia 29 de maio de 1861, escreveu: «Ao
sair da Igreja, muitos vinham maravilhados, exclamando uns para os outros: – Que lindas
coisas não nos disse hoje D. Bosco! Eu era capaz de passar todo o dia e toda a noite a
ouvi-lo! Como eu desejaria um dia, quando for sacerdote, poder ​enamorar assim o
coração dos jovens e de todos no amor de tão bela virtude!». D. Bosco falara, naquele
dia, da pureza.
Sua ideia predominante
Uma ideia predominante se evidenciava em todas as suas prédicas: a necessidade de

91
salvar a alma.
Precisamente nisto, nós os sacerdotes pro Christo legatione fungimur tanquam Deo
exhortante per nos109: somos porta-vozes de Deus relativamente às almas, nas coisas
que dizem respeito à salvação. Isto considerou sempre o nosso Santo como seu
imperioso dever. Basta dizer que nem sequer nos panegíricos se julgava dispensado desta
obrigação, forma esta de eloquência sagrada em que os pregadores costumam deixar-se
arrastar facilmente pela moda: já se espera, quase se pretende qualquer coisa de novo e
naturalmente florida.
Por este motivo, o padre José Cafasso não tinha muita simpatia pelos panegíricos; mas
nos panegíricos de D. Bosco o Mestre certamente não teria encontrado motivo para
censurar o discípulo.
Ouçamos um, apenas para fazer ideia: o panegírico de S. Filipe, pronunciado em Alba
em 1868. Passando por cima de tudo, foi procurar o assunto naquilo que, segundo diz, é
o ​fundamento sobre que o Santo estabeleceu todas as suas ​virtudes: «o zelo pela
salvação das almas».
Pintou, com vivas cores, o seu apostolado; sabendo que entre os seus ouvintes estava
grande número de sacerdotes, passou naturalmente a tocar os sinos bem dobrados para
eles.
«É fácil dizer que S. Filipe operou tantas maravilhas entre a juventude porque era
santo. Mas eu digo outra coisa. Filipe realizou todas estas maravilhas por ser um
sacerdote que correspondia ao espírito da sua vocação».
Daqui foi fácil insistir sobre a necessidade que têm os sacerdotes de reunir as crianças
para as catequizar e para as levar à Confissão e à Comunhão. Depois de ter ameaçado os
pais, os professores, os patrões, continuou com ardor apostólico:
«Que terrível posição para um sacerdote, quando comparecer no tribunal do Juiz
divino e este lhe disser: – Vê o mundo, quantas almas seguem pelos caminhos da
iniquidade e pelas estradas da perdição! A culpa é tua; não ouviram a tua voz, não as
procuraste, não as quiseste salvar. Quantas de ignorância em ignorância, de pecado em
pecado, se precipitam no inferno. Vê como é grande o número destes infelizes. Aquelas
almas gritam vingança contra ti. Ora, servo infiel, serve nequam, dá-me ​contas. Dá-me
contas do precioso tesouro que te confiei, tesouro que custou a minha Paixão, o meu
sangue, a minha morte. A tua alma pagará pela alma daqueles que por tua culpa se
perderam. Erit anima tua pro anima illius –». Fecha finalmente o seu discurso,
encorajando todos a confiar na graça e na misericórdia de Deus.
Direto ao essencial
Como se vê, D. Bosco como pregador fazia bom uso da popularidade que rodeava o
seu nome e pessoa: mesmo nos mais afamados sermões de panegírico, pouco se
importava com a opinião alheia e seguia o seu caminho que era ser dispensador da
palavra.

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Foi o caso de certas religiosas de um insigne mosteiro de Roma que muito desejavam
ouvi-lo, esperando dele coisas peregrinas. D. Bosco teve conhecimento disso e soube
igualmente que estariam presentes conspícuos cavalheiros e nobres damas, mais curiosos
do que devotos.
Começou por dizer que havia mais de cem anos que naquele lugar se repetia o elogio
da Santa e que, portanto, pouco aproveitaria repetir aquilo que todos sabiam; parecia-lhe
melhor, mesmo até para variar, mudar de tema e demonstrar a necessidade e obrigação
de procurar a perfeição e salvar a alma por confissões bem-feitas.
Deste modo, sem respeito humano e esquecendo-se completamente, apanhou muitos
pombos com um só grão; pois às religiosas falou da perfeição, aos seculares da
necessidade de salvar a alma, a todos deu ocasião para um bom exame de consciência
sobre as confissões passadas. A desilusão não teria impedido o fruto? Parece que não foi
o caso, se julgamos pela atenção com que foi ouvido.
É evidente que isto são coisas que terá dificuldade em compreender quem não souber
ou esquecer que a primeira regra da oratória sagrada é o pregador esquecer-se de si
próprio. Exibir no púlpito as próprias artes como um ator é ser, afinal, o aes sonans e o
cymbalum tinniens110: da boca daquele que prega Cristo deve sair a palavra de Deus
que é viva e ativa e mais afiada do que qualquer espada de dois gumes e que é capaz de
penetrar até ao mais profundo do ser humano111.
Uma ocasião para dar nas vistas
Houve uma ocasião para D. Bosco, talvez única na sua vida, em que pareceria
justificada, até de aconselhar, uma divagação literária de matéria religiosa, para o que lhe
não faltava fundo, nem preparação. Os clássicos tinham-lhe dado abundante matéria,
pois, como dissemos, fizera deles um estudo profundo, durante dezenas de anos em que
nas aulas e fora delas os manuseara, com mão diurna e noturna.
Em 1874, os seus amigos de Roma tinham-no feito entrar para a Arcádia. Dois anos
depois, esta célebre Academia escolheu-o para a Conferência da Paixão que era costume
ler na solene sessão de Sexta-feira Santa.
O caráter literário da Arcádia, a tradição mais que secular de encarregar escritores e
oradores de nomeada – como por exemplo Monti e Leopardi – dessa peça oratória, além
do resto da sessão tudo de caráter literário, a qualidade dos assistentes, homens de letras,
Académicos e Árcades e outras circunstâncias que D. Bosco conhecia perfeitamente e
nem sequer fez menção de ignorar, pois declarou «ter sido encarregado de ler uma
prosa», confessando que a eloquência dos trabalhos, a elegância do estilo, que era
costume brilharem naquela Sala científica e literária, o tinham enchido de apreensão; mas
consolava-se pela certeza de que as aparadas penas dos outros colegas supririam a sua
insuficiência. Ele, ali como em toda a parte, quis ser apenas o sacerdote.
Com efeito, depois de se apresentar simplesmente como sacerdote, como simples
sacerdote começou a falar. Não fez ascética nem oratória, pois não se tratava de um

93
sermão; não exibiu erudição nem exegese pura, porque não estava numa aula. Mas quem
poderia ter imaginado que ele iria escolher para tema as Sete Palavras? Ao espírito
sacerdotal de D. Bosco pareceu absurdo que naquele dia e naquela hora, em vez de
tratar sacerdotalmente do sacrifício cruento oferecido no Calvário pelo Sacerdote Eterno,
se dispusesse simplesmente a fazer literatura.
O pensamento de que fazendo assim remava contra a corrente não o abandonava; por
isso, logo que enunciou o tema, repetiu que deixava à competência dos outros a
sublimidade dos conceitos, os «lances poéticos», ficando, pelo seu lado, satisfeito se
embora a insignificância do seu trabalho não merecesse aplausos, lhes desse motivo de
exercitarem a bondade, ouvindo-o e tendo compaixão dele.
Deste modo, acabou o exórdio! As conveniências pareceram-lhe suficientemente
salvas; começou então com calma simplicidade a falar desta maneira:
«Depois dos mil tormentos da cruel flagelação, coroado de espinhos, condenado à
ignominiosa morte de Cruz, o amabilíssimo Salvador carregou com grande dor o
instrumento do seu suplício até ao alto do Gólgota».
E continuou, numa exposição cerrada e objetiva, cujo suco foi extraído dos Santos
Padres e da Escritura, de S. Tomás, dos intérpretes sagrados citados com bom critério e
método.
D. Bosco não descobre os seus próprios sentimentos: é um santo dominado por um
pudor que podemos classificar de espiritual, que lhe não permite desvendar os secretos
movimentos da graça: secretum meum mihi!112. Ficaram, porém, bem claras as suas
intenções: intenções, como sempre sacerdotais, de iluminar as almas para as desprender
do pecado e uni-las a Deus.

Capítulo XII
ESCRITOR
Por sua condição sacerdotal
Mais ainda ou pelo menos tanto como na palavra falada, o coração de D. Bosco
palpita na palavra escrita. Tomou a pena para escrever para o público em 1844 e nunca
mais a largou; muito do que escreveu saiu em letra de forma chegando até nós. Três
circunstâncias lhe facilitaram este trabalho de escrever no meio da mole ingente das suas
ocupações: o velho hábito de não perder nenhuma migalha de tempo; o vigor do seu
engenho e a força da sua memória, tudo ajudado por uma vontade de ferro; a facilidade
rara de resolver, ao mesmo tempo, assuntos mais diversos e de ditar simultaneamente
sobre coisas diferentes.
Mas estes três coeficientes não chegam, sós, para explicar o grande número de
publicações, se esquecermos o motor comum que o fez agir constantemente, durante

94
perto de quarenta anos; quero referir-me ao seu ardente zelo pela glória de Deus e pelo
bem das almas.
Enganar-nos-íamos redondamente, se julgássemos possível avaliar os livros de D.
Bosco aplicando-lhes critérios literários. O bom Pai, sorrindo com bonomia, certamente
nos avisaria e preveniria do nosso erro, com palavras muito semelhantes às de S.
Francisco de Sales113: «Quanto a belezas de estilo, nem sequer nisso pensei, pois tinha
muitas outras coisas em que pensar».
Como o mesmo Santo diz de si114, D. Bosco também escreve naturalmente, sem
esforço ou preocupação de arte, porque os assuntos de que trata não precisam de ser
embelezados, basta-lhes aquela simplicidade tão cara ao Senhor, autor desses temas. O
que para o poeta é a inspiração, o que para o homem de pensamento é a prepotente
inclinação do espírito para tudo dizer, o que a vaidade e a leviandade são para o
escrevinhador, que se julga homem de letras, foi para D. Bosco o espírito apostólico sob
o contínuo e forte amor de Deus. Era este amor que o mantinha atento às vozes do dia,
que o levava a encerrar-se numa biblioteca, que o fazia permanecer horas a uma
escrevaninha.
Não se pode dizer dele que se sentisse muito inclinado a fazer gemer os prelos, como
se dizia antes das modernas máquinas. O ter de imprimir qualquer coisa, pelo contrário,
causava-lhe sempre grande apreensão.
Sempre boa imprensa
Mas concebia-o como estrita obra do seu ministério, empregando os talentos recebidos
de Deus para pôr um dique à má imprensa, com a boa, disputando palmo a palmo o
terreno ao erro com folhas, opúsculos e volumes de toda a espécie, séries periódicas,
fornecendo à juventude e ao povo manuais de sólida piedade e de oportuna instrução
religiosa e outras publicações, impregnadas de máximas salutares.
Numa palavra, D. Bosco, que escreve e publica, é sempre o mesmo D. Bosco que
confessa e prega; em qualquer forma de atividade é sempre invariavelmente o homem de
Deus para quem, como diz o doutor Seráfico115, «tudo o que é espiritual deve sempre e
em toda a parte ser preferido». Deste modo, entrar em considerações de ordem literária
seria, para nós, sair do nosso campo.
Em tão exuberante produção religiosa, pareceria óbvio que pudéssemos encontrar
passos onde o autor se nos revelasse, desvendasse o seu mundo interior, precisamente os
lugares que gostaríamos de examinar e recolher. Mas nem por sombra!
Um Bispo, escrevendo sobre D. Bosco116, refere como este numa conversa começou
a dizer no «seu lento modo de fazer e falar». Aqui temos um retrato do homem que está
atento a si próprio, conversando; idêntica vigilância se nota, quando escreve. Deste
modo, acontece que a pessoa do escritor nunca se exibe em cena: quem quer encontrá-la
tem de a procurar entre os bastidores.

95
Mas este silêncio tem também a sua eloquência, que tanto mais exalta o autor, quanto
mais ele se cala a seu respeito. Podemos dizer que a sua íntima vida espiritual penetra
todos os seus livros, uns mais, outros menos. Assim se explica a influência que os seus
escritos tiveram no ânimo de leitores, isentos de preconceitos. O Cardeal Vives
manifestou, em 1908, o desejo de ter qualquer obrazinha espiritual de D. Bosco, onde se
revelasse o seu espírito de piedade117. Não sei qual foi escolhida; mas pode dizer-se que
mais ou menos explicitamente este espírito transparece em todas.
Sacerdote da palavra
Um moderno poeta cristão118 exprimia a sua modéstia de sentir unida à consciência
assinando «Um operário da palavra»: D. Bosco, mesmo sem o dizer, revela-se-nos o
sacerdote da palavra.
Operário da palavra é quem faz com ela obra sua, a seu gosto e por sua vontade;
sacerdote da palavra dizemos que é aquele que exercita o ministerium verbi 119, pela
palavra, expressão nova com que se pretende significar o uso sagrado da palavra, feito
em nome de Deus e serviço espiritual do próximo, por dever de vocação: uso, portanto,
em que o homem não tem de exibir o seu eu, mas de apresentar o seu Deus.
E da palavra escrita
Este ministério, por via ordinária, exerce-se oralmente na Igreja, pela pregação; mas
prolonga-se e alarga-se para maior benefício das almas pela palavra escrita. Neste caso, o
escritor que distribui a palavra da salvação, ocultando o seu modo de ser, como sempre
fez D. Bosco, mostra que tem o coração liberto de mesquinhas vaidades e que molha a
pena no puro amor de Deus.
Mas as íntimas disposições de D. Bosco, como escritor, ainda se compreendem
melhor se considerarmos esta humildade como filha da sua caridade.
Em tempos de quotidianos ataques à religião da juventude e do povo, ele, levado pela
caridade de Jesus Cristo, para poder contrapor ao veneno do erro o antídoto da verdade,
pensou ter entre os jovens e o povo uma grande clientela de leitores. Mas a juventude e
o povo não entendiam a linguagem dos livros: e ele condenou-se a um renegamento
próprio, cuja medida nos foi dada pelo discurso do Papa sobre a heroicidade das
virtudes, quando disse que «dada a sua vigorosa inteligência e engenho pouco comum,
muito superior ao normal e próprio daqueles que se podem dizer engenhos no verdadeiro
sentido da palavra», D. Bosco «poderia ter tido êxito como escritor e pensador douto».
Ele que poderia, por isso, empregar as suas melhores faculdades em criar, aplicou-se a
divulgar, e foi esta uma primeira renúncia. A esta, seguiu-se uma segunda. Mesmo no
campo da divulgação, com o seu temperamento poderia ter produzido coisas belas; mas
libertou-se de todas as influências literárias, empregando a linguagem da gente humilde.
Neste ponto, chegou ao limite do possível.

96
… e simples
Com efeito, lia o que escrevia a gente analfabeta e simplificava até ficar ao nível da
sua compreensão, dando até às vezes as provas a ler a porteiros de pouca inteligência,
fazendo-lhes repetir o conteúdo e servindo-se disto como orientação para chegar a
adequatio rei et intelectus na categoria das pessoas que queria atingir.
Pensando agora nos prodígios ignorados desta humilde caridade e na alma
heroicamente sacerdotal que os operava, vemos, não sem emoção, hoje como em 1853,
o príncipe dos periódicos católicos italianos120, apontar aos seus leitores «um modesto
eclesiástico... que se chama D. Bosco», a propósito de certos livrinhos de pequeno porte,
cheios de sólida doutrina, adaptados à capacidade do povo mais rude e coisa oportuna a
mais não poder ser «para aqueles tempos agitados e difíceis».
«O modesto eclesiástico» do periódico romano tornou-se, poucos decénios depois, no
«angélico sacerdote» do livro de um literato florentino121. Foi, de facto, angélico e por
várias razões, mas sobretudo por uma, a que queremos aludir.
Angelical sacerdote
Ressalta de todos os seus escritos um cioso amor à virtude angélica, amor que lhe
ditou o artigo trinta e cinco das Regras: «Quem não tem fundada esperança de poder
conservar, com a ajuda divina, a virtude da castidade, não professe nesta Sociedade».
A sexta bem-aventurança evangélica, revelando-nos as íntimas comunicações de Deus
com os puros do coração122, justifica suficientemente o abordarmos esta matéria, agora
que pretendemos, através dos seus escritos, penetrar na alma de D. Bosco escritor. Por
vezes, um pequenino episódio retrata melhor do que uma longa dissertação a face moral
de um homem.
D. Bosco, ainda jovem sacerdote, preparava para imprimir os mistérios do rosário. Ao
rever as provas do terceiro mistério gozoso, dizia de si para consigo, na presença de um
teólogo:
«Contempla-se como a Virgem Santíssima deu à luz... Não, não gosto. Comtempla-se
como o nosso Redentor nasceu de Maria... Também não. Antes assim: contempla-se
como Jesus nasceu na cidade de Belém».
O candor na sua História Sagrada
O candor da sua alma ilumina, do princípio ao fim, a sua História Sagrada, que ele
compilou com cuidados sem precedentes. Nada ofusca tanta luminosidade de pureza: o
rapazinho não tropeça num pormenor, embora bíblico, nem num termo, embora usual,
que possa produzir-lhe uma impressão menos casta. Nada como consultar esta história
para livrar de embaraços os professores que procuram maneira de se exprimir, sem
inconveniente, nos pontos escabrosos.
É uma obra-prima de prudência e reserva cristã e um monumento da angélica beleza

97
interior de quem o concebeu e realizou.
O biógrafo clássico de D. Bosco escreveu um período que parece feito para pôr o
remate àquilo que dissemos até agora e a que tantas coisas se poderiam juntar.
Ouçamos123: «Estamos intimamente convencidos de que nisto precisamente está o
segredo da sua grandeza, quer dizer que Deus o encheu de dons extraordinários e que
dele se serviu para obras maravilhosas, porque se conservou sempre puro e casto».
Seu amor à Igreja
Ao folhear as páginas desta História, uma novidade nos surpreende: D. Bosco,
servindo-se dos factos do Antigo e do Novo Testamento, dissimula, com a destreza do
antigo prestidigitador que foi, uma admirável apologia do Catolicismo, tanto mais eficaz,
quanto menos tem o aspeto de ser intencional. Quem antes dele teria pensado tirar
partido das narrativas bíblicas, para atingir, do melhor modo, o protestantismo? Foi
precisa a sensibilidade requintada de D. Bosco por tudo que tocasse de perto ou de longe
a Igreja.
Desta viva sensibilidade no sentire cum Ecclesia, na expressão de S. Inácio, ficarão
como testemunhos imperecedouros todos os livros de D. Bosco, desde as suas
edificantes biografias até à série dos seus almanaques. A autoridade doutrinal e a
hierarquia da Igreja católica deviam dominar todos os pensamentos de um escritor sobre
quem tudo o que a tocasse produzia o efeito de o fazer sofrer ou alegrar, agir ou reagir,
como se vê por uma quantidade de publicações que se sucederam a breves intervalos,
durante oito lustros.
O estudioso que tenha percorrido a obra de D. Bosco e queira recolher numa frase
lapidar a ideia que faz do autor, pode, sem hesitação, adotar o lacónico epitáfio que está
gravado no túmulo do cardeal Mermillod: Dilexit Ecclesiam.
E isto tanto mais quanto é certo que ele, como o glorioso prelado suíço, sofreu pouco
comuns perseguições por uma causa que lhe estava tanto no coração. A perseguição e a
influência atrevida dos inimigos da Igreja era tal no Piemonte, que D. Bosco nem sequer
conseguia os revisores exigidos pela lei canónica para os seus livros; por isso, as Leituras
Católicas, que foram o pesadelo das seitas, trouxeram a princípio a aprovação, sem
assinatura, daqueles que, por dever de ofício, deviam conceder a aprovação e acabou por
ninguém querer assumir a arriscada responsabilidade da revisão. Inundado de cartas com
ameaças, atacado à mão-armada, ele, confiando em Deus e desafiando os Filisteus, não
desistiu do combate.
Nunca a sua sensibilidade degenerou em animosidade, coisa tão fácil na polémica,
mesmo religiosa. O espírito do Senhor, que lhe inflamava o zelo, governava-lhe a pena;
passe-se a pente fino tantos escritos que se não encontrará um passo, um inciso, uma
vírgula, que traia, não diremos já a secreta vontade, mas até a despreocupação de que o
adversário possa sair humilhado da luta.
As expressões por ele constantemente usadas, ao nomear a Igreja «nossa santa mãe,

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nossa boa mãe», revelam bem o cuidado de fazer amar a Igreja por todas as almas, sua
paixão dominante; mostram-nos, igualmente, o seu amor filial pela Igreja, amor que é
grande parte da sua piedade e dom do Espírito Santo.

Espírito das suas cartas


As cartas também são palavra escrita. D. Bosco escreveu um número astronómico de
cartas para todos os cantos do mundo, sobre um número incalculável de assuntos, a
prelados, a príncipes e a nobres, a pessoas e a comunidades religiosas, a operários, a
jovens, a mulheres e crianças.
Mas o que mais importa para nós é que estas cartas refletem o espírito daquele que as
escreveu. Não procuremos lá, porém, mais do que ele quis dizer.
O amontoar da correspondência que o obrigava a responder, sem muito refletir e o
fazia cair em erros de forma e estilo, nunca subtraiu a pena ao governo do espírito, nem
ao hábito de pensar santamente, de modo que lhe escapassem revelações sobre a sua
vida interior.
Estas introspeções, tão comuns através do epistolário de almas piedosas, é inútil
procurá-las no epistolário de D. Bosco. Percebe-se perfeitamente o fundo; mas sobre
casos íntimos, não há exemplo de que lhe tenha escapado uma só palavra. Chegam-nos,
porém, as repercussões inevitáveis que fluem dos movimentos do coração, sempre em
perfeita união com Deus: submissão plena à divina vontade, glória do Senhor, salvação
das almas, sacramentos, oração, ofensa de Deus, confiança na Providência, alusões a
solenidades, citações da Escritura, jaculatórias, etc.
Juntava muitas vezes santinhos com uma nota escrita pela sua mão, para levantar os
espíritos para as coisas celestes. Além disso, o tom geral. Depois de ter lido algumas
destas cartas, experimenta-se uma sensação de calma serena que é disposição próxima de
bondade de pensamentos, de palavras e de ações.
Quem não teve ocasião de receber cartas ofensivas e furiosas? Ele costumava dizer
que o responder a estas cartas imediatamente, com doçura e mostras de estima, dá a
vitória de mudar os inimigos em amigos. Quantas vezes ele teve a prova disto!
Finalmente, é notável a naturalidade, com que consegue introduzir nas suas cartas os
nomes de Jesus e de Maria. Estes nomes, diz o biógrafo124, «até escrevendo-os, os
pronunciava com o coração, mas de modo que ninguém ouvisse, pois toda a
singularidade lhe repugnava e parecia até que era a sua respiração que os imprimia no
papel».
Semelhante consciência do próprio caráter só atinge no sacerdote tão grande
profundidade, quando este é realmente alter Christus, viva personificação de Jesus
Cristo.

Capítulo XIII

99
EDUCADOR
Discutem alguns se D. Bosco foi ou não um grande pedagogo; mas o que ninguém
pode certamente pôr em dúvida é que ele foi um grande educador. É o que vem ao nosso
caso. Porque se consagrou D. Bosco à educação da juventude? Como concebia ele a
educação? De que modo educava? Como queria que se educasse? Vamos dar resposta a
estas interrogações, de modo a não sair do nosso campo: D. Bosco com Deus.
Educador da juventude
D. Bosco consagrou-se à educação da juventude com o entusiasmo de quem sabia
que essa era a sua missão, missão recebida especialmente do Alto. Tinha boas razões
para assim pensar.
Quem, senão Deus, lhe tinha posto no coração a tendência inata, que, quase germe e
pressentimento de vocação, o levava precocemente, quando mal despontavam os
primeiros vislumbres de razão, a procurar as crianças, não para brincar com elas, mas
para lhes repetir as lindas coisas que aprendia com a mãe, para as desviar do mal e
encaminhar para o bem?
Recordando esta precocidade de manifestações, ele próprio escrevia, em idade
avançada:
«Reunir os meninos para lhes ensinar catecismo fora uma ideia dos cinco anos; isto
representava o meu mais ardente desejo; parecia-me até a única coisa que devia fazer
sobre a terra».
Depois, quando ainda menino, começou a sentir o desejo de se fazer sacerdote, e
sonhou sempre com abraçar o estado eclesiástico. «Se fosse sacerdote, ouviram-no dizer,
procuraria os meninos, chamava-os para roda de mim, queria amá-los, ser amado por
eles, dizer-lhes boas palavras, dar-lhes bons conselhos e consagrar-me inteiramente à sua
salvação eterna».

Seu futuro
Mas uma verdadeira e direta, embora misteriosa, vocação sentiu-a vinda do céu na
idade de nove anos. O véu do seu futuro rasgou-se-lhe num sonho. O que foram os
sonhos de D. Bosco havemos de vê-lo adiante: detenhamo-nos agora somente na
consideração deste primeiro sonho, que podemos definir como o sonho da sua vocação.
Vamos lê-lo, tal como no-lo conservou a sua áurea pena, nas suas «Memórias», tão
repetidamente mencionadas.
Um sonho
«Pareceu-me, durante o sono, estar perto de casa num pátio bastante espaçoso, onde
estava reunida uma grande multidão de meninos, brincando. Alguns riam e gritavam,
outros brincavam e muitos até blasfemavam. Quando ouvi aquelas blasfémias, corri para

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o meio deles, procurando, com murros e palavras, fazê-los calar. Naquele instante,
apareceu um homem venerando, ainda novo, e nobremente vestido. Todo o seu corpo
estava envolvido por um manto branco; mas o seu rosto era tão luminoso, que não pude
fixá-lo. Chamou-me pelo meu nome e deu-me ordem de me pôr à frente daqueles
meninos, acrescentando estas palavras:
– Não será com pancadas mas pela doçura e caridade que deverás conquistar estes
teus amigos. Começa imediatamente a explicar-lhes a fealdade do pecado e a excelência
da virtude.
Confuso e atemorizado, acrescentei que era um pobre e ignorante menino, que não
sabia falar de religião àqueles rapazinhos. Naquele momento, todos aqueles rapazes
cessaram todas as rixas, os gritos e as blasfémias e reuniram-se à roda d’Aquele que
falava. Quase sem saber o que dizia, perguntei:
– Quem sois vós que me ordenais coisas impossíveis?
– Precisamente porque te parecem impossíveis, deves torná-las possíveis, pela
obediência e pelo estudo.
– Como e com que meios posso estudar?
– Dar-te-ei a Mestra; com Ela podes tornar-te sábio e sem Ela toda a sabedoria é
estultícia.
– Quem é que me fala deste modo?
– Sou o Filho d’Aquela que tua mãe te ensinou a saudar, três vezes ao dia.
– Minha mãe diz-me que não me junte a quem não conheço, sem licença dela; diga-
me então o seu nome.
– Pergunta o meu nome a minha Mãe.
Naquele momento, vi junto d’Ele uma Senhora de aspeto majestoso, vestindo um
manto resplandecente, como se cada ponto fosse uma estrela brilhante. Vendo-me cada
vez mais confuso nas minhas perguntas e respostas, fez sinal para me aproximar e
tomou-me bondosamente pela mão.
– Olha, disse-me Ela.
Quando olhei, vi uma multidão de cabritos, cães e gatos, ursos e vários outros
animais, pois os rapazes tinham fugido todos.
– Aqui tens o campo, onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte, robusto, e aquilo
que neste momento vês acontecer a estes animais deves fazê-lo pelos meus filhos.
Tornei a olhar e, em lugar dos animais ferozes, vi uma multidão de mansos cordeiros,
que, saltando e balindo, corriam em redor daquele Homem e Mulher como querendo a
seu modo, homenageá-los.
Naquele instante, sempre a dormir, comecei a chorar e pedi àquela Senhora que
falasse de modo que eu pudesse compreender, pois não sabia o que tudo aquilo queria
dizer. Então, Ela colocou-me a mão na cabeça, dizendo-me: A seu tempo

101
compreenderás.
– Ao ouvir isto, acordei e tudo se desvanecera.
Fiquei desconcertado. Parecia-me sentir as mãos doridas dos murros dados e sentir na
face as bofetadas que tinha recebido daqueles turbulentos garotos; depois, só pensei
naquele Personagem, naquela Senhora, em tudo o que ouvira e não consegui adormecer
novamente naquela noite.
Tendo contado este sonho, no dia seguinte, à família, não voltou a falar nele durante
trinta e quatro anos; mas diz-nos que nunca mais o pudera esquecer; até no desenrolar
dos acontecimentos lhe parecia que se realizava o que vira e ouvira.
Hoje, podemos ver neste sonho o anúncio de uma missão, tendo-lhe sido anunciados,
nele, o objeto, os métodos e o êxito finais. O próprio Pio IX, quando ouviu contá-lo,
tomou-o a sério. A este propósito, D. Bosco conclui deste modo a narrativa: «Não voltei
a falar do caso a que os meus não tinham ligado a mínima importância. Mas, quando em
1858 fui a Roma, para falar ao Papa da Congregação Salesiana, ele mandou-me contar
tudo o que pudesse ter, mesmo somente a aparência de sobrenatural. Contei então, pela
primeira vez, o sonho que tivera aos nove anos. O Papa ordenou-me que o escrevesse
minuciosamente no sentido literal, para o deixar como encorajamento aos filhos da
Congregação, cujo estabelecimento definitivo era o escopo que me levara a Roma».
O sonho repete-se
Devemos acrescentar que contribuiu para lhe tornar mais viva a impressão recebida o
facto de este mesmo sonho se ter repetido mais seis vezes, sempre com novos
pormenores que serviam de desenvolvimento e esclarecimento do primeiro.
Aos 16 anos, teve a promessa dos meios materiais indispensáveis; aos 19, a ordem
imperiosa de se ocupar da juventude; aos 21, foi-lhe indicada a categoria de jovens a
quem devia consagrar especialmente os seus cuidados; aos 22, foi-lhe indicado como
primeiro campo de ação Turim. Nas duas últimas vezes, viu distintamente surgir a grande
obra de Valdocco e ficou a saber como devia proceder para se rodear de válidos
cooperadores; era o anúncio do Oratório e da Sociedade Salesiana.
A renovação destes fenómenos acabou por vencer todas as suas perplexidades sobre a
natureza dos mesmos, convencendo-o de que em tudo isto havia qualquer coisa de
sobrenatural. Por isso, em 8 de maio de 1864, contou-o aos seus e rematou deste modo:
«Poderá talvez alguém pensar que estas coisas redundam em glória para D. Bosco.
Está enganado: a mim toca apenas dar estreitas contas da maneira como realizei a
vontade divina. Por causa desta vontade manifestada pelo Senhor, eu tenho sempre
persistido e este tem sido o único escopo de tudo o que tenho feito até aqui. É este o
motivo por que nas adversidades, nas perseguições, no meio dos maiores obstáculos,
nunca me deixei aterrar e o Senhor esteve sempre conosco». A crónica do Oratório, que
nos fornece esta notícia, remata observando: «Não se pode descrever a profunda
impressão produzida nem o grande entusiasmo que esta revelação provocou».

102
Sessenta e dois anos mais tarde
A recordação deste sonho profético voltou-lhe à memória, quase o assaltou em Roma
em maio de 1887, quando celebrava na igreja do Sagrado Coração. Foi tão grande a sua
emoção, que as lágrimas lhe inundaram a face. Tinham decorrido sessenta e dois anos
desde o dia em que lhe fora dito: — A seu tempo hás de compreender.
Sentia que esse tempo tinha, finalmente, chegado; a ​ereção daquele santuário dedicado
ao Sagrado Coração de Jesus na Cidade Eterna, santuário que tinha sido consagrado no
dia anterior, parecia-lhe o remate da obra e da missão que vira esboçada, quando
menino.
Mas melhor ainda o compreenderam os seus filhos, testemunhas de bem maiores
desenvolvimentos ulteriores daquela obra de que o nosso Pai, pequeno vidente, tinha tido
uma pálida ideia e que agora, velho, aureolado de santidade, contemplava já como uma
grande e promissora realidade.
Com boas razões o seu terceiro Sucessor, o Pe. Rinaldi, compreendendo toda a
importância da mensagem celeste, chamou para ela a atenção dos Salesianos no
centenário da sua ocorrência, estimulando-os a meditar o acontecimento, para dele
tirarem úteis ensinamentos125. Com efeito, se bem refletimos sobre o caso hoje,
sentimos como que palpitar no sonho, em embrião, o programa de ação confiado pela
Providência a D. Bosco e aos seus filhos.
Como entendeu a educação
Se do alto viera a missão, é evidente que o fim último da obra educativa de D. Bosco
não podia consistir apenas em dar bons cidadãos à pátria terrena, mas em preparar bons
cristãos para a pátria celeste. Aqui está o motivo por que ele em 1868, ao tomar a
palavra depois da academia, para celebrar o seu onomástico, afirmou categoricamente:
– O único escopo do Oratório é salvar almas.
É certo que bom cidadão e bom cristão não foram para D. Bosco termos
incompatíveis, e que este anda necessariamente ligado àquele, e que D. Bosco não
descuidou nada que uma sã pedagogia e a sua intuição psicológica lhe ditassem, para
preparar no menino o futuro operário, ou empregado que soubessem honrar os lugares
que ocupariam na sociedade; explica-se também sem dificuldade como perante as
autoridades procurasse pôr em evidência o lado civil da educação, que era dada nas suas
Casas: mas ele nunca concebeu a educação de um jovem batizado sem a obrigação de
fazer convergir toda a atividade pedagógica para o desenvolvimento da vida sobrenatural.
Aqui está o ponto que interessa estudar, para conhecer as atitudes particulares de D.
Bosco perante este problema.
Diz egregiamente Mons. Cavigioli126: «A vida ética do homem, depois de Jesus
Cristo, tem de se desenvolver na esfera sobrenatural; a educação, que pretendesse parar
na atmosfera natural, representaria um abaixamento de nível. Quem desce do plano da

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graça verifica imediatamente o erro, porque não pára no patamar da natureza, mas cai
infalivelmente muito mais abaixo».
Uma educação integral
Era indispensável alguém que erguesse resolutamente o estandarte da educação cristã
integral, sobretudo entre as classes mais numerosas da sociedade. Quando o nosso Santo
desceu a terreiro, o naturalismo invasor apoderava-se cada vez mais das almas juvenis
nas escolas públicas.
As teorias pedagógicas em voga prescindiam de qualquer elemento de elevação de
ordem superior ou eram-lhe até hostis. Muitas vezes, mesmo os bons, arrastados pela
corrente, faziam mais ou menos concessões às teorias do tempo.
D. Bosco, sem desprezar nada do que de bom as tendências modernas podiam
porventura ter, colocava muito mais alto o seu ideal.
E desde o primeiro instante
O modo como ele concebia a educação era revelado, logo que os jovens chegavam:
recebia-os como vindos das mãos de Deus.
– Deus mandou-nos, dizia, Deus manda-nos e Deus há de mandar-nos muitos jovens.
Sabia perfeitamente que os pais, os parentes, os benfeitores, lhos confiavam para que
os instruísse nas letras, nas ciências, nas artes e ofícios e procurava não desiludir as
esperanças deles; mas nas instruções aos seus auxiliares repetia constantemente:
– O Senhor manda-os para que pensemos nas suas almas, e aqui encontrem o
caminho da eterna salvação. Portanto, devemos considerar tudo o resto como meio; o
nosso fim supremo é fazê-los bons e salvá-los eternamente.
Por isso, logo no primeiro encontro lhes falava da alma: até sobre este ponto tinha
uma opinião que talvez não deixe de causar surpresa. Considerava que se na entrada de
um jovem o superior não demonstrava interesse pela sua salvação eterna e tinha medo de
lhe falar prudentemente das coisas de consciência, e se ao falar-lhe empregava termos
vagos, falando ambiguamente de fazer-se bom, de fazer boa figura, estudar, trabalhar,
etc. não conseguiria efeitos duradoiros, deixando as coisas no pé em que estavam, sem
conseguir a afeição do jovem. E um passo em falso e como é o primeiro torna-se difícil
corrigi-lo depois; isto fora-lhe ensinado pela sua longa experiência.
– O jovem, costumava ele dizer, gosta muito mais do que se imagina de ouvir falar
dos seus interesses eternos e compreende instintivamente que se lhe quer ou não quer
verdadeiramente bem.
Nem só o Superior da casa devia fazer isto; recomendava que, principalmente no
princípio do ano, todos os outros professores, ensinando, assistindo, corrigindo ou
premiando, dessem a entender aos jovens que o móbil de tudo isto era o bem das suas
almas.

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A escola, como meio
Queria que os mestres considerassem a escola como um meio para fazer bem.
– Vós sois como párocos na sua paróquia, missionários no campo do seu apostolado.
Por isso, de vez em quando, ponde em evidência as verdades cristãs, falai dos deveres
para com Deus, dos sacramentos, da devoção a Maria Santíssima.
Queria, numa palavra, que as lições dos mestres fossem cristãs e, quando exortavam
os seus alunos a ser bons cristãos, fossem francos e amigos.
– Aqui tendes o grande segredo – dizia – para conquistar a afeição da juventude e para
lhe ganhar toda a confiança. Aquele que tem vergonha de exortar à piedade é
indigno de ser mestre; os jovens desprezam-no e só conseguirá corromper o coração
daqueles que a divina Providência lhe confiou127.

Como fazer
Todos os Superiores, todos os mestres devem recorrer constantemente a Deus
pedindo auxílio e tudo referir a Deus quanto ao bem conseguido. Quando alguém se
queixava da sua classe, ele geralmente começava por lhe perguntar:
– Tens rezado pelos teus alunos?
Nas suas «Recordações confidenciais» aos diretores recomendava-lhes:
«Nas coisas de maior importância fazei sempre uma breve elevação do espírito a Deus
antes de resolver».
No Regulamento das Casas, como conclusão dos artigos preliminares e gerais, declara
que é indispensável para todos, além da paciência e diligência, muita oração, sem a qual
lhe parece inútil qualquer Regulamento. Quando, porém, se estivesse contente com os
resultados conseguidos, o seu pensamento era o seguinte:
– Devemos humilhar-nos diante de Deus e reconhecer que tudo vem d’Ele, rezar
especialmente durante a santa Missa, na elevação da Hóstia, recomendar-nos a nós, as
nossas canseiras e os nossos alunos.
Pela sua parte, depois do recomeço regular das aulas, começava a ilustrar de modo
variado e insistentemente os três artigos fundamentais do seu programa: fuga do pecado,
confissão frequente, comunhão frequente. A sua máxima solicitude consistia em
introduzir e conservar Deus na alma dos seus jovens.
Não há educação sem religião
O tema poderia levar-nos ainda muito longe. De tudo o que até aqui dissemos é já
evidente quanto para D. Bosco prevalecia e era essencial na educação o elemento
religioso; sem ele, na sua opinião, a educação não só era ineficaz, mas não tinha sequer
significado.
Num Aviso Sacro, que imprimiu e difundiu em 1849, pode ler-se: «Só a religião é

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capaz de começar e realizar a grande obra de uma verdadeira educação». Ao escrever
isto, não se referia com certeza a uma religiosidade vaporosa, abstrata, sem práticas.
Na sua Vida do jovem Francisco Besucco, publicada em 1864, exprime-se bem
claramente, sem se preocupar com o que podiam pensar os pedagogos:
«Diga-se o que se disser relativamente aos vários sistemas de educação que, quanto a
mim, só encontro para ela uma base segura: a frequência da Confissão e da Comunhão:
parece-me que não exagero, afirmando que, eliminados estes elementos, a moralidade
fica posta de parte».
Esta convicção acompanhou-o toda a vida. Em 1878, declarou-o sem reservas a um
alto funcionário do Governo:
– Diz-se por aí que D. Bosco quer muita religião. Ora, eu estou convencido de que
sem religião nada se consegue de bom com os jovens.
Em 1885, com uma expressão de desconforto, soltava esta queixa:
– Velho e decadente, morro com a dor de não ter sido compreendido128.
Não explicou por quem; mas não era difícil adivinhar.
Seu segredo educativo
Compreendeu-o perfeitamente o Papa Pio XI. Depois de o ter proclamado o «grande
paladino da educação cristã», indicou, na homilia da canonização, qual era o segredo
pelo qual o sistema educativo de D. Bosco conseguia frutos tão espetaculares e
admiráveis.
«Ele atuava, diz o Pontífice, aqueles princípios que se inspiram no Evangelho e que a
Igreja tem constantemente recomendado» 129.
Em síntese feliz, o já citado Gavigioli traçou, em poucas linhas, o verdadeiro e único
ideal pedagógico de D. Bosco: «Deus revelado em Jesus Cristo Salvador, vivo na sua
Igreja e operante pelos seus carismas em toda a obra educadora» 130.
Como o fazia Dom Bosco
O propósito dos educadores cristãos tem sido sempre e em todos os tempos plasmar
cristãmente as consciências juvenis; D. Bosco tomou isto a peito num momento histórico
em que a necessidade de o fazer era premente. Dizer como o conseguiu seria matéria,
não para algumas páginas mas para um grosso volume. Resumirei tudo à roda de dois
pontos: no campo da educação, ele realizou prodígios mediante a sua bondade sacerdotal
e piedade cristã, uma e outra sob formas sem precedentes.
Com bondade sacerdotal
Para falar da primeira, tomo como ponto de partida uma frase que ele proferiu em
Paris, em 1883, numa reunião de pessoas ilustres.

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Disse então131: «As almas juvenis, no período da sua formação, têm necessidade de
experimentar os benéficos efeitos da doçura sacerdotal». A doçura e carinho sacerdotais
são emanações da bondade sacerdotal: de uma bondade que, nascida e alimentada pelo
amor de Deus, se revela paterna e confiante para o bem das almas; e deixa uma
recordação duradoira e salutar em quem viveu sob o seu influxo desde tenra idade. Esta
bondade, sábia e suavemente adaptada à idade juvenil, foi escolhida por D. Bosco como
seu método educativo e com boas razões o Pe. Rua o definiu como o homem em que
Deus elevou a paternidade espiritual ao mais alto grau.
A bondade de D. Bosco irradiava por toda a parte no Oratório. Era como o sol que
difunde luz e calor, mesmo quando se não vê. Mantinha no ambiente a serenidade e
levava os jovens ao desejo de o quererem contentar; mal aparecia no pátio, todos
corriam a rodeá-lo, a beijar-lhe a mão, querendo estar perto dele, ouvindo-o falar,
gracejar, sorrir, atender inclinando-se e aproximando o ouvido dos lábios de qualquer
deles que acenava ou mostrava vontade de lhe falar, avisando, exortando, encorajando.
Nunca esquecia três máximas que o seu coração sacerdotal lhe inspirava, e recordadas
constantemente, para cativar o afeto e a confiança dos jovens: amar aquilo que eles
amam, para conseguir que eles amem aquilo que nós amamos para o seu bem; amá-los
de modo que compreendam que são amados; fazer todo o possível para que nenhum,
quando nos deixe, vá descontente. É fácil e rápido enunciar estas regras, mais fácil ainda
concordar com elas; mas atuá-las, vivê-las, eis o difícil, o que se não consegue sem
contínuos esforços e grandes sacrifícios.
D. Bosco ensinava também que o educador é um indivíduo consagrado ao bem dos
seus alunos e que, por isso, deve estar disposto a enfrentar todos os incómodos, todas as
fadigas para o conseguir. Para tanto, só terão a força e a constância bastante aqueles que,
na educação, procuram apenas a glória de Deus e o proveito das almas, como ele
pregava pela palavra e pelo exemplo. Chegou o tempo em que as múltiplas preocupações
lhe cercearam o tempo para estar assiduamente com os seus jovens; mas criou então um
estado-maior que, como sua longa manus, chegava aonde ele não podia já chegar, agia
em seu nome e com o seu espírito.
Dito isto, quase de modo geral, desçamos a algumas particularidades, omitindo tantas
outras que nos levariam muito longe.
A bondade sacerdotal de D. Bosco revelava-se aos alunos mal punham os pés no
Oratório. Os seus modos paternais, a serenidade do seu rosto, a amabilidade do seu
sorriso, despertavam logo nos jovens respeito e confiança.
Seria preciso poder referir as variadas e hábeis perguntas que fazia aos recém-
chegados, segundo a intuição que tinha da sua índole e humor. No momento ideal, surgia
infalivelmente a pergunta: – Queres ser amigo de D. Bosco? – Esta pergunta abria o
caminho para falar da alma e para insinuar o pensamento da Confissão.
A quem não conheceu D. Bosco poderá parecer estranho o que acabo de dizer;
contudo, ele sabia fazer as coisas com tanta naturalidade que os novatinhos, ao sair, já

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lhe tinham deixado a chave do coração.
As “boas-noites”
D. Bosco falava todas as noites aos seus rapazes, reunidos depois das orações, na tão
conhecida “boa-noite”.
Eram alguns breves minutos de íntima familiaridade e de paternal efusão, que servia
para deixar a todos a última impressão do dia. Os seus ouvintes conservaram-nos grande
número destes pequeninos discursos. Como amostra, referiremos uma “boa-noite”, que
vem precisamente ao nosso escopo. No 31 de dezembro, costumava sempre dar àquela
hora o “Lema”, ou seja, qualquer pensamento espiritual para o novo ano. Em 1859,
começou desta maneira:
«Meus caros filhos, bem sabeis quanto vos amo no Senhor e como me tenho
consagrado a fazer-vos todo o bem que posso. Aquela pouca ciência, aquela experiência,
tudo o que sou e possuo, orações, fadigas, a saúde, a minha própria vida, tudo quero
empregar no vosso serviço. Sempre e em tudo podeis contar comigo, sobretudo nas
coisas da alma. Pela minha parte, e como “Lema”, dou-me todo inteiramente a vós; será
coisa insignificante, mas dando-vos tudo, quer dizer que nada reservo para mim».
Depois de entregar as recordações, continuou: «Quero que o ano acabe com perfeito
amor e santa alegria. Por isso, perdoo-vos qualquer falta que possais ter cometido e
perdoai ​também todas as ofensas que porventura tenhais recebido. Quero começar o ano
de 1860 sem mau humor e sem tristezas». E neste tom de terno amor paternal acabou o
sermãozinho.
No escritório
Os rapazes sabiam que podiam procurá-lo sempre que quisessem e que eram sempre
bem acolhidos! Mandava-os sentar no velho sofá e ficava sentado à sua mesa, ouvindo-
os atentamente, como quem ouve uma pessoa que tem coisas importantes a dizer,
procurando satisfazê-los no limite do possível.
Depois do colóquio, acompanhava-os sempre até à porta que abria, despedindo-se
com o seu habitual: – Sempre amigos, não é verdade? – Escusado será dizer que os
rapazes saíam serenos e satisfeitos como páscoas.
Ao encontrá-los
Como eles se sentiam felizes, quando o encontravam pelos corredores! O seu ânimo
paterno tinha sempre nos seus lábios qualquer palavra afetuosa, que era recebida como o
melhor presente; isto tanto mais quanto ele quase sempre se referia a qualquer coisa que
interessasse aquele que encontrava.
Com os doentes
Os doentes, então, recebiam a sua visita na enfermaria, não uma vez por acaso, mas
com frequência e à vontade. Informava-se do que sentiam, animava-os e, quando lhe

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parecia, dava ordens e intervinha pessoalmente.
A suavidade do azeite
A todos os educadores, sejam eles quem forem, não faltam ocasiões em que é preciso
corrigir, censurar e até castigar.
A bondade sacerdotal de D. Bosco tinha formulado, desde 1846, a seguinte norma que
se devia observar nesses casos. Durante uma das suas ausências de Valdocco, soubera
que um sacerdote, seu amigo e auxiliar no Oratório, tratava os rapazes «com muita
severidade», de modo que tinha já desgostado alguns.
D. Bosco, em 31 de agosto, prevenia o teólogo Borel que o substituía na direção,
escrevendo: «Procure V. Rev.a que o azeite tempere todos os pratos do nosso Oratório».
Recorria ao mesmo tom metafórico, depois, apresentando casos semelhantes.
Por exemplo, em 1866, disse um dia ao Pe. Rua que presidia à disciplina: «Parece-me
ter ouvido certas portas ranger; um pouco de azeite nas dobradiças resolve tudo». Até
chegou a recomendar-lhe simplesmente que se fizesse negociante de azeite. Escusado
será dizer que D. Bosco não fazia economia deste azeite.
Seu sistema
Não é possível segui-lo em todas as manifestações desta bondade, com que alegrava o
Oratório, nem expor quanto com ela conseguia ganhar a confiança dos alunos. Basta ler
as páginas admiráveis e tão apreciadas do Sistema Preventivo, ditadas pelo seu coração
de sacerdote educador. Este foi um código vivido pelo seu autor durante quase quarenta
anos, antes de ser escrito: nele podemos conhecer, juntamente com o seu genuíno
pensamento pedagógico, as mais pequeninas expressões do seu pensamento animador da
sua longa e trabalhosa obra educativa com que conseguiu triunfos que nenhum pedagogo
se atreveria a sonhar.
Cagliero
Um destes triunfos (quem poderia imaginar?) foi precisamente o Cardeal Cagliero.
Rapaz cheio de vida e de inteligência, tinha azougue nas veias. Embora o regime do
Oratório tivesse muito mais ambiente de família do que de colégio, nem por isso este
rebento de Castelnuovo se mostrava menos insofrido de qualquer jugo, sendo o
desespero de todos os superiores, a quem dava, como se costuma dizer, água pela barba.
Houve quem pensasse remetê-lo à procedência e se não fosse D. Bosco, talvez o
Cagliero não chegasse a ser o que foi. D. Bosco, porém, soube levá-lo tão bem pelo lado
fraco, que dentro em pouco o transformou num aluno exemplar; o resto é bem
conhecido.
Um bispo argentino, num discurso por ocasião das festas da beatificação, teve a feliz
ideia de provar que D. Bosco educador tinha de educador o puramente necessário, nada
de polícia e tudo de sacerdote.

109
Um anglicano
Em Londres, um anglicano que dirigia um colégio de jovens e que lera o Sistema
Preventivo de D. Bosco, quis observar a sua aplicação no Oratório de Turim e noutros
colégios de Itália; ficou tão impressionado, que procurava aplicá-lo quanto possível.
Tinha o retrato de D. Bosco, na sala de visitas, até com a sua divisa: Da mihi animas,
caetera tolle. Dois dos seus artigos publicados em 1900 e em 1903 terminavam por fazer
votos para que o Senhor suscitasse na Inglaterra homens com o espírito de D. Bosco
porque havia urgente necessidade deles. Sendo ritualista, falava também da Confissão
frequente e da Comunhão na missa quotidiana; simplesmente lhe não chamava Mass,
palavra odiosa para os seus correligionários, mas Eucharist132.

A piedade
Apesar de protestante, tinha compreendido bem isto, que o sistema educativo de D.
Bosco se funda na piedade cristã. Eis a segunda caraterística, a que aludimos acima.
Muito já vimos a este respeito nos capítulos precedentes, sobretudo, nos últimos; por
isso nos vamos restringir a poucas observações e testemunhos.
A piedade era cultivada no Oratório, não era imposta; florescia, por isso, com
simpática espontaneidade. Era alimentada pela oração em comum, pela Missa quotidiana,
pela frequente Confissão e Comunhão e pelo sermãozinho da noite. Outras práticas
periódicas a estimulavam como a pregação nos dias festivos, o exercício mensal da Boa
Morte e os exercícios espirituais a meio do ano escolar, etc. Contribuíram também para
essa piedade as festas religiosas, preparadas com cuidado e celebradas com solenidade.
Sustentavam ainda esta piedade quatro Companhias ou Associações internas, cada
uma com o seu regulamento. Elas reuniam em cada secção os melhores, que,
afervorando-se mutuamente, arrastavam os outros; eram o bom fermento que
influenciava a massa.
Mas mais do que tudo, esta piedade era influenciada por D. Bosco e pelo seu
exemplo, pela sua palavra e pelo exercício do seu ministério de confessor, como já atrás
dissemos. A sua piedade e o seu zelo pela piedade alheia comunicava-se aos seus
colaboradores que levavam o seu espírito para os outros colégios.
«Quem visita o Oratório, escrevia o Bispo de Vigevano De Gaudenzi133, e os vários
estabelecimentos erigidos e governados pelo senhor D. Bosco, coadjuvado pelos seus
sacerdotes, sente logo um não sei quê de pio que não é fácil sentir noutros Institutos;
parece que nos Institutos de D. Bosco se respira precisamente o próprio bom odor de
Jesus Cristo».
Ainda outro Bispo, Mons. Ferré, de Casale, ficou profundamente impressionado pela
piedade que se respirava nas casas de D. Bosco. O douto prelado disse um dia, na
presença de notáveis pessoas, que o grande segredo de D. Bosco, na sua obra educativa,
consistia em impregnar os jovens das práticas de piedade.

110
«A própria atmosfera que os rodeia, continuou, o ar que respiram, estão impregnados
de práticas religiosas. Os jovens assim criados nesta atmosfera não ousam praticar o mal;
não têm ocasião de o praticar; teriam de ir contra a corrente, para serem maus; se
descuidassem as práticas de piedade, sentir-se-iam como peixes fora da água. É isto que
os torna dóceis e os faz agir por convicção e por consciência, de modo que a revolta nem
sequer é concebível».
D. Bosco, um dia, referindo esta observação, disse que era, de facto, uma grande
verdade, e juntou-lhe este comentário:
«Pelas práticas de piedade não se procura oprimir os jovens, nem cansá-los; procura-
se que elas sejam como o ar que não oprime, não cansa, embora tenhamos sobre os
ombros uma coluna esmagadora; a razão é esta: como nos circunda inteiramente por
dentro e por fora não damos pelo seu peso» 134.
Seu tipo de piedade
Duas coisas se podem observar na piedade, tal como a recomendava D. Bosco: não
era uma piedade de sentimento e era uma piedade alegre. Uma piedade à base de
sentimento é superficial e, portanto, efémera. D. Bosco não conheceu a moderna doença
do sentimentalismo.
No seu conceito, a verdadeira piedade consiste numa disposição de alma para evitar a
ofensa de Deus, mesmo a mais leve, e em cumprir por amor de Deus todos os próprios
deveres. As práticas, que não levam a isto, são coisas estabelecidas no ar. Por isso, por
ocasião dos tríduos, novenas e meses, ou festas comemorativas, recomendava, é
verdade, a Comunhão ou orações especiais, mas ao mesmo tempo indicava, dia a dia,
com o nome de «fioretti», certos deveres, certos atos de virtude, certas boas obras, que
deviam ser feitas como homenagens ao Senhor, à Virgem e aos Santos, sobretudo, o
estudo, o trabalho, a obediência, a observância de qualquer regra e in primis a fuga do
pecado, sobretudo do pecado impuro.
A piedade que D. Bosco inculcava inspirava-se no primeiro versículo do Salmo 111:
Beatus vir, qui timet Dominum; in mandatis ejus cupit nimis. Em geral, os
sermõezinhos à noite, mais volta menos volta, acabavam sempre como os salmos pelo
Glória, por um pensamento sobre qualquer coisa que dissesse respeito à piedade,
associado com qualquer outro referente às obrigações do próprio estado ou a alguma
verdade de fé.
Era princípio seu que a fé é o olho da piedade; por isso, não faltava no Oratório a
instrução religiosa. Deste modo os jovens recebiam uma piedade iluminada, habituando-
os a agir por motivos sobrenaturais e por consciência; nisto está a diferença entre o
pedagogo e o sacerdote educador: o primeiro desenvolve um trabalho psicológico, o
segundo preocupa-se sobretudo com o estudo e formação da consciência.
E alegria

111
Em segundo lugar, a alegria. Diz um conhecido escritor de ascética135: «A tristeza é
um sopro do inferno; a alegria, o eco da vida de Deus em nós». Em D. Bosco, da sua
alma cheia de Deus, a alegria brilhava no seu aspeto, no seu sorriso, no seu habitual
otimismo, e dele passava para todos os que o rodeavam. O servite Domino in laetitia
era um artigo essencialíssimo da sua pedagogia.
Não tinha até na sua juventude chamado «da Alegria» a uma sociedade que fundara
com os seus condiscípulos, para os encaminhar para o bem? O piedoso Domingos Sávio,
todo embebido do espírito de D. Bosco, interpretava-lhe fielmente o sentimento, quando
dizia em dado momento136: «Fica a saber que nós aqui fazemos consistir a santidade em
estar muito alegres». Isto não eram apenas palavras.
Em 1857, um jovem, pouco depois da sua entrada no Oratório, escrevia a um
amigo137: «Parece-me estar num paraíso terrestre. Todos são muito alegres, mas de
uma alegria verdadeiramente celeste, sobretudo quando D. Bosco está no meio de nós».
A vida do Oratório era toda feita de piedade, estudo e trabalho, mas tudo temperado
com santa alegria.
«Quem o não viu, dificilmente pode fazer uma ideia», escreve o historiador que
viu138. Os sobreviventes daqueles tempos pareciam rejuvenescer, quando recordavam a
alegria que tinham gozado na casa de D. Bosco. Entretanto, nem de longe se conheciam
as comodidades que foram introduzidas depois. Quem tem o coração em paz, está
sempre em festa, diz a Sagrada Escritura: secura mens quasi iuge convivium139.
D. Bosco, no tratadinho Sistema Preventivo, prometia compor uma obra sobre o
tema; não pôde, porém, cumprir a promessa. Mas em vez de um livro, em que
amplamente fosse exposta a sua doutrina, deixou atrás de si aos seus filhos um espírito,
que os guiasse no apostolado da educação, melhor do que todos os livros do mundo.
Este espírito tinha nele uma única fonte: a íntima e habitual união com Deus, alimentada
pela sua fé vivíssima.

Capítulo XIV
HOMEM DE FÉ
Todo o cristão é tal pela fé, cuja porta é o Batismo, e a fé é o fundamento da vida
espiritual e o vínculo que une a alma a Deus; fé que é integrada pela esperança e pela
caridade.
Uma coisa é acreditar, outra é ser homem de fé. O crente pratica mais ou menos a sua
fé, ao passo que o homem de fé vive da fé e vive-a ao ponto de conseguir uma profunda
e contínua união com Deus.
Fé vivida

112
Assim era D. Bosco. Afinal, tudo o que temos visto até agora, como o que veremos
ainda, não passa de fé vivida; pensamentos, afetos, empreendimentos, ousadias, dores,
sacrifícios, práticas piedosas, espírito de oração, tudo são chamas que se desprendem da
fé que lhe ardia no peito; parece que se devia repetir o que já foi dito ou renunciar a
escrever um capítulo sobre a fé. Entretanto, na vastidão do campo que temos diante de
nós, ainda podemos respigar alguma coisa.
Uma vida tão perene e intensamente animada pelo sopro da fé não dará matéria para
nos determos sobre a primeira das virtudes teologais? Não podem deixar de abundar
notas caraterísticas, merecedoras de ser postas em relevo.
Entre as testemunhas chamadas a depor nos processos, aqueles que viveram mais
tempo junto de D. Bosco parecem apostadas a exaltar a sua fé. Os depoimentos podem
todos condensar-se nesta fórmula: o nosso Santo foi ávido de conhecer as verdades da
fé, firme em acreditar nelas, fervoroso em professá-las, zeloso em inculcá-las, corajoso
em defendê-las.
Digno de atenção especial é o testemunho do Pe. Rua, que assim começou o seu
depoimento.
Fé desde criança
«Foi um homem de fé. Instruído, desde menino, nas verdades da religião, tornou-se
faminto delas». A última expressão não é menos verdadeira do que bela.Não só na sua
infância a mãe alimentou pela fé a alma do seu filho, mas mesmo depois em
circunstâncias solenes da vida, derramou sobre o coração dele a abundância de fé de que
trasbordava o seu coração.
Talvez, por isso, D. Bosco conservasse quase um culto pela memória da sua virtuosa
mãe. Até aos últimos dias da sua vida, falou dela com ternura comovente. Nas suas
palavras, vibrava um sentimento de viva gratidão, por Deus lhe ter dado uma mãe
piedosa; sempre considerou isto como um singularíssimo favor do céu.
Temos, todavia, de acrescentar que se a mãe intervinha nas ocasiões mais importantes
da vida do filho, estas intervenções eram antecedidas por importantes momentos e
trabalho da graça, que do fundo da sua fé lhe fazia realizar atos e propósitos generosos.
A mãe Margarida preparou João para a Primeira Comunhão, levando-o ela própria junto
do confessor; mas ele quis ainda confessar-se mais duas vezes, tão santo era o conceito
que a fé lhe inspirava pelo Grande Sacramento140.
No caso da vocação, a mãe declarou-lhe claramente:
– Nestas coisas, não entro eu, porque Deus está acima de tudo. Não penses em mim.
Sou pobre. Mas, se depois de padre te fizeres rico, nunca mais irei a tua casa.
Mas o filho estava tão convencido de que em tal matéria não devia ouvir a voz do
sangue nem da carne, que nos seus pensamentos havia uma só preocupação, a de
conhecer bem e seguir fielmente o chamamento do Senhor; com efeito, mesmo antes de

113
falar com sua mãe, tratava de ver como poderia conseguir obedecer à voz interior que o
chamava.
Tendo entrado no Seminário, era tão alta a sua ideia do sacerdócio a que aspirava que,
a fim de se preparar para ele, se entregou a uma vida de perfeição, não só praticando os
conselhos evangélicos, mas consagrando-se até por voto perpétuo141.
Depois de ordenado sacerdote, a mãe tem com ele uma conversa sublime: – És padre,
celebras Missa; daqui para o futuro estarás mais perto de Jesus. Lembra-te, porém, de
que começar a dizer Missa quer dizer começar a sofrer. Daqui para o futuro, só deves
pensar na salvação das almas e não te preocupar comigo.
Também a este respeito o filho tinha formulado as suas resoluções; entre outras, a de
«sofrer, trabalhar, humilhar-se em tudo e sempre, quando se tratasse de salvar almas». O
seu espírito movia-se dentro de uma perfeita atmosfera de fé.
Fé nos superiores
Chegou o dia em que teve de escolher qual o melhor caminho para conseguir salvar
almas. Nenhuma preocupação tinha quanto a esta escolha.
A fé ensinava-lhe que a vontade de Deus se manifesta por intermédio dos superiores;
a sua única preocupação era que nada da sua vontade entrasse no caso. O seu superior
era o padre José Cafasso. Este deu-lhe um dia ordem de ir dirigir um hospitalzinho de
meninas, aberto pela marquesa Barolo, e a dirigir espiritualmente uma casa de educação
da mesma Senhora.
Que poderia haver de mais contrário à sua vocação? Não fora sempre o seu desejo
mais ardente ocupar-se dos rapazes? Mais tarde, escreveu sobre os seus primeiros quatro
meses de sacerdócio, passados junto do pároco de Castelnuovo: «A minha felicidade
consistia em ensinar o catecismo aos ​rapazinhos, conversar com eles». Estava sempre
rodeado por eles.
Tudo isto devia agora perder-se? Não ouviu a prudência humana, mas unicamente a
voz da fé, que lhe mostrava o valor e o mérito da obediência.
Obedeceu sem pestanejar. Não podia imaginar então que precisamente por aquele
caminho, tão impensado e oposto aos seus desígnios, a Providência o encaminhasse para
a meta suspirada.
Seus desejos de fé
«É a fé que tudo consegue», escreverá ele um dia142. Com esta convicção no
espírito, nunca lhe parecia que tinha fé suficiente. Uma vez chegou a pedir aos seus
rapazes que rezassem para que o Senhor lhe concedesse uma fé viva, como aquela que
transporta montanhas para os vales e vales para as montanhas» 143.
Mesmo no meio dos seus empreendimentos e próximo do seu fim, se acusava da falta
de fé, exclamando de lágrimas nos olhos: «Quanto mais coisas o Senhor não teria feito,

114
se D. Bosco tivesse mais fé!» 144.
Na verdade, sem grande fé não poderia ter feito todo o bem que fez. Quanto se não
poderia escrever sobre este tema. Contentemo-nos com deter a nossa atenção sobre
alguns ​pontos, mas bem determinados e explícitos. Acrescentemos alguns poucos aspetos
sobre um tema já abordado no capítulo VII. A glória de Deus e a salvação das almas são
duas expressões que encontramos com frequência na literatura salesiana.
O costume entrou, à força de ouvir D. Bosco repeti-lo e o mesmo fazendo o seu
sucessor imediato, o Pe. Rua. O nosso Santo, quer quando falava aos Salesianos, quer
nas suas comunicações aos Cooperadores, nos seus escritos, na correspondência,
empregava continuamente estas expressões. Elevado sobre as asas da fé, nada mais
procurava na vida. Uma lição salutar devia acabar de o desprender de si e de todas as
miras terrenas.
Ia fazer o panegírico de S. Benigno numa povoação qualquer. Tinha preparado um
lindo sermão para honrar o santo e também, um pouco, para fazer boa figura. No
caminho, a cavalgadura espantada lançou-se numa corrida doida sem controlo, até que o
arremessou sobre um monte de pedras. Conduzido sem sentidos a uma casa próxima,
refez-se, mas serviu-lhe de emenda.
«Depois deste aviso, escreveu nas Memórias, tomei a firme resolução de, para o
futuro, não me preocupar com a assistência e fazer os meus sermões para a maior glória
de Deus e não para que me julgassem douto».
A glória de Deus, e o que dá no mesmo, o bem das almas tinha-os a peito. Mas, desde
aquele dia, entregou-se-lhes sem reserva, nada lhe parecendo mais nobre nem mais justo
da parte de um ministro do Senhor.
E da glória de Deus
Antes de começar qualquer empreendimento, era seu constante hábito estudar se
redundaria em maior glória de Deus e vantagem das almas e, depois de ter disso a
certeza, ficava convencido de que a ideia lhe vinha do alto e nada no mundo era capaz
de o fazer parar.
Muitos à sua volta podiam aterrar-se pela falta de meios.
– Homens materialistas! – dizia em tais casos. Não será mais dar a ideia do que os
meios para a realizar?
Muitos se admiraram de o ver empreender a construção da igreja de Maria
Auxiliadora, todos sabendo que não dispunha de meios e que não havia muito a esperar
naqueles tempos para semelhantes obras. – Não será isto desafiar a Providência? –
repetiam-lhe constantemente. A sua resposta era sempre a mesma.
Fé que o unia a Deus
O motor de uma fé viva, iluminada e constante, produzia nele três efeitos. Dava-lhe

115
força para tolerar fadigas, dificuldades, incómodos e perseguições que teriam, como se
exprimiu Cagliero nos Processos, esmagado quem quer que se tivesse deixado influenciar
por motivos humanos. Além disso, a fé mantinha-o numa habitual calma e serenidade.
– Se Deus permite estas provas, é sinal de que disso quer tirar grande bem. Para a
frente com paciência, coragem e confiança, esperando no Senhor.
Alguns dos seus quereriam, por vezes, como os filhos de Zebedeu, invocar o fogo do
céu; mas ele, sorrindo, amansava-lhes a cólera, dizendo:
– Ainda sois rapazes. Temos de deixar tudo nas mãos de Deus. Ele saberá, a seu
tempo, confundir os maus desígnios. O melhor que temos a fazer é orar e não temer.
Outras vezes, observava:
– Quanto mais faltam os apoios humanos, tanto mais Deus se emprega a fundo.
Tenho-o experimentado muitas vezes.
Ou então:
– No meio das provas mais graves, é que é preciso ter fé no Senhor.
Noutras circunstâncias soltava exclamações:
– A obra é vossa, Senhor, vós a sustentareis! Se a obra é minha, fico contente, se cair!
Finalmente, com esta disposição, as ocupações materiais e as preocupações
financeiras pareciam-lhe suaves e não conseguiam resfriar o exercício da sua união com
Deus.
Este abandono nas mãos de Deus não excluía o seu esforço pessoal. Era máxima sua
que a própria Providência quer ser ajudada pelo nosso esforço; por isso, quando
começava as suas obras, não se poupava a esforços.
– Não devemos esperar o auxílio da divina Providência de braços cruzados,
costumava ele dizer. O Senhor corre em nosso auxílio, quando vê os nossos esforços
generosos por seu amor.

Olhando para trás


Relativamente às coisas já feitas, que lhe sugeria a fé? Temos a este respeito uma bela
lição que deu durante a grave doença de 1872 ao coadjutor que lhe assistia. A lição não
era bem para ele, pelo menos só para ele. Mas vale a pena referi-la.
Quando principiava a restabelecer-se, o recuperar da saúde tornava-o mais expansivo
do que o costume, como acontece geralmente aos convalescentes. Depois de ter brincado
sobre a mudança de pele, dizia:
– Vamos ver se esta nova pele será mais forte e melhor do que a outra, para resistir às
tempestades. Tenho pelo menos esperança de que Deus a torne suficientemente
resistente para a sua obra e para a sua maior glória. Convence-te, meu caro, que todas as
nossas faculdades, o nosso talento, os nossos trabalhos, as nossas penas, as nossas
humilhações, devem ser postos ao serviço da glória de Deus. Se trabalhamos por nossa

116
causa, de nada servirão os nossos pensamentos, as nossas descobertas, as nossas
invenções, as nossas obras. Ai daqueles que trabalham pela glória do mundo! O mundo é
mau pagador, paga sempre com ingratidão... Quem é D. Bosco? Um pobre filho de gente
do campo, que a misericórdia de Deus elevou ao sacerdócio, sem merecimento algum da
sua parte. Depois, quis servir-se de um simples padre para fazer coisas admiráveis neste
mundo; e tudo fez e fará no futuro para maior glória de Deus e da sua santa Igreja. Vê
como é grande a bondade do Senhor!
Sua fé e as almas
A sua fé revelava-se ao máximo no zelo pela salvação das almas. Fosse quem fosse
que lhe aparecesse, a sua mente levava-o logo a pensar na alma daquele que dele se
aproximava e no modo de o ajudar, no sentido da eternidade.
Duas considerações sobrenaturais lhe inspiravam este zelo: o perigo da condenação
eterna de alguém e tudo o que tinha feito e sofrido o divino Redentor pela salvação das
almas. Tremia pela sorte que podia tocar a quem se não preocupasse com o próprio
destino depois da morte, e sentia-se devorado pelo desejo de a todos ganhar para Jesus
Cristo.
Nisto dava mostras de uma coragem e de uma força sem limites: coragem em vencer
todo o respeito humano, fortaleza em suportar incómodos, sacrifícios e humilhações por
tão caritativo e nobre fim.
Compenetrado do seu poder sacerdotal de poder perdoar os pecados, a todos
convidava para a salutar lavagem da confissão. Enquanto lhe foi possível, girava por
Turim à procura de almas, entrando em lugares públicos, como casas de comércio,
restaurantes, hospedarias, cafés, barbeiros e com o pretexto de uma compra, de um
serviço, travava habilmente conversa, acabando sempre por chegar aonde queria.
Mais tarde, não perdia ocasião de tocar a mesma tecla nos encontros, nas viagens ou
audiências, sem fazer distinção de pessoas.
O Senhor, na verdade, tinha-lhe concedido uma eficácia de palavra não diremos rara
mas única; ora isto não impedia que, em muitas circunstâncias, a sua linguagem soasse, a
princípio, fora de propósito e se exigisse da sua parte ousadia para entrar em semelhantes
assuntos com pessoas de alta posição social, com homens cultos ou descrentes. A sua fé,
porém, comunicava-lhe uma segurança e desenvoltura a que era difícil resistir. Não foi
sem motivo que lhe chamavam grande pescador de almas145.
Sua consciência sacerdotal
Isto queria ele significar com uma sua frase que muito gostava de repetir, quando
falava a eclesiásticos: «Todo aquele que se aproxime de um sacerdote deve sempre partir
com alguma coisa que aproveite à sua alma» 146. Ainda quero deixar aqui um facto que
se soube durante o Processo Apostólico147. Pio IX tinha dispensado D. Bosco da
recitação do Breviário; mas ele recitava sempre alguma parte. Pois bem, em

117
compensação, prometeu nada fazer nem dizer que não tivesse em mira a glória de Deus.
Tinham este fim os frequentes avisos que dava a quem dele se aproximava para pôr em
ordem as coisas da consciência.
Sobre a sua fortaleza para suportar todos os incómodos e sofrimentos que o exercício
do ministério do perdão podia acarretar-lhe já falámos o suficiente para o nosso intento.
Pessoas que lhe eram muito afeiçoadas, vendo que a idade e a sua saúde exigiam
cuidados, pretenderam que moderasse o seu trabalho de confessor, concedendo-se um
pouco mais de repouso. Todos conhecem a sua resposta:
– Temos então de dizer ao demónio que deixe de enganar tantos pobres jovens e de os
atrair para o inferno; então deixarei também de me sacrificar por eles.
Após ter falado destes dois pontos fundamentais, convém referir-me ainda a três
pontos que ajudarão a medir a grandeza da fé de D. Bosco.
Sua defesa da fé
O primeiro diz respeito a quanto fez e sofreu para defender a fé contra os ataques da
heresia. Em 1851, depois de promulgadas as leis sobre a liberdade de cultos e de
imprensa, os protestantes lançaram-se numa propaganda intensa nas terras do Piemonte,
levantando até um templo em Turim. Os católicos, habituados ao regime precedente, não
estavam preparados para enfrentar a luta. D. Bosco ergueu-se como sentinela vigilante ao
serviço da fé.
Para preservar das insídias os incautos, lançava entre o público folhas volantes e
fundava um periódico intitulado o Amigo da juventude, escrevia e mandava escrever
opúsculos que divulgava nas Leituras Católicas, inseriu até no Jovem Instruído um
capítulo sobre os Fundamentos da Fé. Hoje este tratado parece um pouco fora de
propósito; mas tinha grande razão de ser naquele tempo.
Reunia, entretanto, no Oratório, todos os rapazes que podia, arrancando-os aos laços
e à influência dos protestantes. Fazia conferências e sustentava polémicas com os chefes
protestantes, com os ministros e deixava-os muitas vezes tão perplexos e encantados com
a sua admirável calma, como impressionados pela luminosa clareza das suas exposições e
argumentação. A caridade, que sempre acompanhava as suas palavras, conquistou alguns
que acabaram por abjurar os seus erros. A quantos não socorreu pecuniariamente, para
que, vencidos pela miséria, se não deixassem comprar pelos inimigos da fé. Punha de
sobreaviso párocos e prelados, denunciando as súbitas táticas dos hereges.
O seu zelo pessoal não se circunscrevia a Turim. Ia pregar missões a terras
contaminadas pelo contágio da heresia. Deu brado uma sua prática em Viarigi, no ano de
1856, onde se tinha instalado um apóstata fanático, que arrastava atrás de si uma
multidão de enganados: Deus ajudou-o com prodígios. Entretanto, nem todos mesmo
entre os bem pensantes compreendiam a sua ação providencial e procuravam infligir-lhe
dolorosas humilhações, enquanto o adversário enraivecido passava a vias de facto, tendo
atentado várias vezes contra a sua vida, como já fizemos referência, noutro lugar. Nada,

118
porém, intimidava o atleta da fé.
Estendeu a sua solicitude e atividades até ao Ticino, onde o radicalismo imperante
tinha privado de párocos muitas paróquias.
Ascendem a nada menos de trinta as povoações para as quais conseguiu ótimos
sacerdotes, submetendo-se a despesas e sacrifícios e afrontando, como é natural, fortes
oposições; mas continuou sem se preocupar, merecendo a gratidão dos católicos, que se
viam confirmados na fé pela sua caridade.
Quanto teve de lutar para construir em Turim a igreja de S. João Evangelista, que a
pouca distância do templo Valdense, devia neutralizar a sua maléfica influência!
Todos sabemos que as casas salesianas de Spezia, Vallecrosia e Florença foram
abertas com o fim principal de erguer um dique contra o protestantismo. Aqui também
Deus abençoou o seu zelo. Em Spezia, por exemplo, onde em 1880 os protestantes
tinham 500 rapazes nas suas escolas, em 1884 tinham apenas 17. Muito haveria ainda a
dizer; não o permitem os limites deste trabalho.
Um dia, D. Bosco discorrendo no seu quarto com alguns Salesianos, de repente ficou
sério, empalideceu, tremendo da cabeça aos pés, e ficou de olhos fixos e imóveis. Os
presentes olhavam-no aterrados, quando ele, voltando a si, disse:
– Vi uma chamazinha que se apagou. Um jovem do Oratório festivo fez-se
protestante.
Não será isto um índice da sensibilidade de D. Bosco, perante os perigos da fé?
As vocações eclesiásticas
A fé de D. Bosco fazia-o sofrer perante o diminuir do número dos aspirantes ao
sacerdócio.
Os tempos corriam tristíssimos para as vocações eclesiásticas; não é aqui lugar para
enumerar as causas. Se fides ex auditu148, que aconteceria ao povo cristão, se lhe
faltasse a palavra de Deus e a instrução religiosa? O servo fiel da Igreja não perdia tempo
em vãos lamentos. Os homens do Governo podiam censurá-lo por fazer padres demais!
Ele não se poupava a sacrifícios, para multiplicar os alunos do santuário. Pregava e
escrevia que quem desse à Igreja uma boa vocação lhe dava um grande tesouro.
Recomendava aos Salesianos que por falta de meios nunca deixassem de receber um
jovem que desse boas esperanças de poder ser encaminhado para o sacerdócio. Que para
tanto gastassem tudo o que tinham e fossem, em caso de necessidade, pedir; se por
causa disso se encontrassem em dificuldades, não se afligissem, pois a Virgem, de
qualquer maneira, mesmo prodigiosamente, os ajudaria. Pouco lhe importava que depois
o sacerdote fosse para a diocese, para as missões ou entrasse noutra casa religiosa; era
sempre um presente maravilhoso que se fazia à Igreja de Jesus Cristo.
Pelo seu lado, abria as portas do Oratório aos jovens que mostrassem inclinação para
o estado eclesiástico; parecia-lhe que se não podiam empregar melhor os meios

119
fornecidos pela caridade, do que em preparar lugares convenientes para acolher o maior
número possível destes jovens, gastando sem preocupações, em seu favor, tudo o que
fosse preciso para estudo, alimentação, vestuário, e título eclesiástico e isenção do
serviço militar.
Centenas de alunos, esperanças da Igreja, passaram, saídos do Oratório, para
seminários, embora houvesse quem murmurasse, dizendo que D. Bosco procurava
recrutar vocações só para si. Nas Memórias Biográficas podemos encontrar dados
positivos donde se verifica precisamente o contrário.
Que dizer dos enormes sacrifícios de um decénio, para dar hospitalidade e facilidade
de estudos e formação no Oratório aos clérigos de Turim e de outras dioceses subalpinas
e lígures, quando o Governo ordenou o encerramento de vários ​seminários?

Os Filhos de Maria
Mas há mais ainda. Para fazer filhos de Abraão das próprias pedras, ideou e instituiu,
em 1875, a Obra de Maria Auxiliadora para as vocações tardias, que proporcionou um
contingente apreciável de bons sacerdotes. Estas solicitudes acompanharam-no, enquanto
viveu. Em 1883, diante de notáveis Salesianos, disse com viva complacência:
– Estou contente! Mandei fazer uma cuidadosa estatística e verifica-se que mais de
2000 sacerdotes saíram das nossas Casas e foram trabalhar nas dioceses.
E dava graças a Deus e a Maria Auxiliadora, por lhe terem proporcionado os meios de
fazer tanto bem.
O culto divino
Outra nota característica do seu espírito de fé foi o seu amor a tudo o que se referia
ao culto divino. É certo que o culto pertence à virtude da religião; mas pressupõe a
virtude da fé, que ilumina o espírito sobre os direitos de Deus. Prescindindo do culto
interno, objeto de tão grande parte do que temos exposto até agora, afloraremos apenas o
culto externo. Já tivemos ocasião de falar dos seus atos de culto. Só falta expor quanto o
seu zelo fez pelos lugares e pelas cerimónias do culto.
Apesar de pobre, despendeu tesouros na construção das igrejas de Maria Auxiliadora e
de S. João Evangelista em Turim e do Sagrado Coração em Roma. Quis que fossem
esplêndidas de riqueza e de arte.
«Que homem extraordinário! – escrevia o arquiteto da segunda149. Ao dar-me a ideia
da quantia que se poderia gastar, acrescentava com uma paz e confiança invejáveis: –
Mas o que é preciso é fazer as coisas bem e, mesmo que o orçamento exceda o dobro da
quantia estabelecida, não se preocupe, pois arranjarei maneira de satisfazer».
Dando muita importância à música, nelas instalou órgãos de primeira qualidade. As
execuções eram acontecimentos que serviam para atrair muito povo às solenidades e com
a dignidade e grandiosidade das mesmas se entusiasmavam os fiéis, mas sobretudo se
imprimia uma alta ideia da honra devida a Deus.

120
O Pequeno Clero
Relativamente às funções sagradas, aludirei simplesmente a uma genial singularidade.
Brilhava nestas cerimónias o Pequeno Clero, criação de D. Bosco na forma introduzida
por ele. Os Salesianos difundiram a instituição por toda a parte.
Em Paris, esta visão impressionou profundamente Huysmans150. Aqueles numerosos
meninos de coro e clérigos executavam as sagradas cerimónias com um rigor, gravidade e
graça que não podia deixar de provocar a admiração dos fiéis.
D. Bosco sabia enamorar os jovens de tudo o que dissesse respeito ao serviço do altar,
tanto nas grandes solenidades, como nas funções quotidianas. Isto muito contribuía para
fazer do Oratório um ambiente de fé ardente, reflexo da fé do próprio D. Bosco, que
sempre se mostrava desejoso de ver Deus bem servido.
Aqueles que vinham de fora, depôs uma testemunha, sentiam-se empolgados de
admiração pelo espetáculo de tantos jovens tão piedosos e alegres. Famílias patrícias e
das altas camadas sociais, acrescenta a mesma testemunha, levavam os filhos à igreja de
S. Francisco e depois de Maria Auxiliadora, para que contemplassem, sem darem pelas
intenções dos pais, como eram serenos e bons aqueles filhos do povo.
Dom Bosco, homem de fé
O tema da fé de D. Bosco é um filão inexaurível; mas não podemos desenvolvê-lo
aqui mais amplamente. Guardamos, no entanto, para encerrar o capítulo, algumas
palavras do quarto sucessor de D. Bosco, escritas, em Roma, a todos os Salesianos no
próprio dia triunfal da canonização151:
«A fé que é o fundamento de toda a Santidade foi, sem dúvida, o luzeiro dos seus
passos, segundo a expressão do Salmista. A sua mente inebriava-se na luz da fé,
contemplando as verdades reveladas e a sua vontade movia-se nas direções conformes
ao divino beneplácito. Por isso, quer falasse, escrevesse ou agisse, o seu espírito nunca
oscilava entre Deus e o seu eu, entre o céu e a terra, entre o eterno e o temporal, entre o
dever e o prazer, mas lançava-se, sem hesitação, para Deus, Pai e Senhor absoluto,
donde tirava a norma segura para se regular em tudo que fosse relativo e terreno. Quero
dizer que ele em nada se procurou: nem as suas comodidades, nem a sua satisfação, nem
o seu proveito; mas gastou tempo, energias e esforços só para servir o melhor possível o
Senhor, trabalhando no campo que a divina Providência lhe confiara».

Capítulo XV
APÓSTOLO DA CARIDADE
Procuremos ainda recolher alguns traços próprios para integrar a figura de D. Bosco,
tal como a esboçámos nas páginas precedentes. Seguindo-o a par e passo, no decurso da
sua existência, pudemos sublinhar o espírito que o animou nas várias idades e nas

121
diferentes contingências da vida.
Observámos o menino, o adolescente, o clérigo, o jovem sacerdote, o fundador de
obras e ministro do Senhor, sempre devorado pelo zelo da glória de Deus e salvação das
almas, sempre experimentado por tribulações de todo o género, mas sem nunca perder a
sua imperturbável calma, a sua tranquilidade e paz, filhas da perfeita, íntima, contínua
união com Deus.
Ora, como toda a vida de D. Bosco foi um apostolado de caridade, vamos estudá-la
sob este aspeto e ver o que teve de próprio, neste âmbito. Trata-se de um assunto vasto
em si, mas que não deve levar-nos a ultrapassar os limites impostos pela índole do livro.
Missão específica de Dom Bosco
D. Bosco foi essencialmente apóstolo. O apóstolo é um enviado. Foi enviado, como já
vimos, com uma missão específica de caridade em favor da juventude, missão
providencial mas não exclusiva.
No convite para semelhante apostolado foram indicados os meios a fim de se preparar
para ele: devia começar por se fazer humilde, forte e robusto, e depois passar à aquisição
da ciência. Preparação antes de mais nada física, moral e ascética, mas também
científica. O futuro devia esclarecê-lo sobre o que então não conseguiu compreender. A
execução do mandato implicava um fatigante trabalho, através de um sem número de
dificuldades e contradições numa larga obra de instrução e educação; requeria-se, por
isso, boa saúde, bom temperamento, boa cultura.
Estaria, deste modo, provido das aptidões naturais que Deus quer sempre nas criaturas
destinadas a missões extraordinárias, como indispensáveis à execução das mesmas. Não
lhe bastaria confiar nos seus esforços humanos ou nas suas virtudes naturais: deste modo
teria somente conseguido resultados naturais, que não correspondiam aos desígnios do
céu.

Humilde
Ao mesmo tempo, era preciso também um forte auxílio da graça, que só é concedido
aos humildes de coração. «A humildade, ensina S. Tomás, é uma disposição que facilita
à alma a aquisição dos bens espirituais e divinos» 152.
Com a humildade de toda a sua vida, Jesus triunfou do mundo; nem de outro modo
teria D. Bosco triunfado dos obstáculos sem número que contra ele levantaram os
inimigos do bem, levando a feliz termo as grandes missões que a Providência divina lhe
confiara.
Temos de concordar que a Providência lhe proporcionou boas ocasiões de se
humilhar: nascimento humilde, dois anos de serviço como criado de lavoura, condição
servil dos dezasseis aos vinte anos. Deste modo, o seu espírito que se sentia feito para
coisas grandes e levado a uma alta ideia de si, se foi longamente robustecendo e
habituando-se a não recusar nada por humilhante que fosse, sempre que a glória de Deus

122
ou o bem do próximo o exigisse, sem nunca se considerar senão um humilde instrumento
nas mãos do Senhor. A humildade tornou-se o segredo da sua íntima união com Deus,
fonte de onde brotou toda a sua ação exterior. Assim acontece com todos os verdadeiros
apóstolos.

Mestra, Maria
Não é pormenor sem importância o facto de ter recebido esta lição da Mãe de Deus.
O apostolado de D. Bosco apresenta uma nítida marca mariana que podemos dizer lhe
dá o caráter distintivo. Maria Auxiliadora e D. Bosco poderia ser o título de um
magnífico poema.
– D. Bosco não é nada, repetirá até ao seu último suspiro. Foi Maria quem tudo fez.

Caridade universal
Todo o apostolado tem um objetivo próprio e preciso. D. Bosco, como todos os
Santos, praticou a caridade universal, segundo as circunstâncias. «Fazer bem a todos e
não fazer nenhum mal», foi uma das suas máximas que repetiu ainda pouco antes de
morrer. No campo da caridade, tão vasto como grandes são as misérias humanas, uma
porção especial lhe tocou em sorte, a educação cristã dos filhos do povo. Entregando-se
a esta obra, criou duas famílias religiosas às quais instilou o seu espírito. Mas que
espírito?
Deixando de lado os elementos comuns, vou deter-me exclusivamente nos três a que
acima aludi e que podem dizer-se os particulares e caraterísticos: espírito de caridade
operosa, alegre, independente.
Vida de trabalho
O primeiro elemento é a operosidade, ou se quisermos, a laboriosidade. Seria difícil
encontrar outro santo que, na medida de D. Bosco, tenha conjugado e feito conjugar o
verbo trabalhar.
Para Pio XI, a sua vida foi «uma vida de trabalho colossal» 153. Este aspeto da vida
de D. Bosco foi delineado de modo inexcedível pelo Servo de Deus Pe. Leonardo
Murialdo, que nos deixou o seguinte testemunho154:
«Não chegaram ao meu conhecimento sobre D. Bosco nem a notícia de
extraordinárias penitências, nem de longas orações. Mas sei do seu trabalho incansável,
incessante durante um longo período de anos em obras de glória de Deus, com fadigas
constantes, cruzes e contradições de todo o género, com calma e tranquilidade de todo
única e com um resultado absolutamente extraordinário, para a glória de Deus e bem das
almas».
Trabalho pelas almas
A respeito de trabalho, D. Bosco tinha também a sua doutrina própria tanto sobre o

123
trabalho em si, como sobre o modo de o executar. Pela sua parte, como escreveu entre
os propósitos por ocasião do presbiterado, considerava o trabalho como arma contra os
inimigos da alma. Não se referia evidentemente a qualquer trabalho. Segundo ele, o
sacerdote tem obrigação de trabalhar e de trabalhar tanto, que mesmo que isso lhe custe
a vida, nada mais faz do que o seu dever. Este é o objetivo, esta a glória dos sacerdotes:
nunca se cansarem de trabalhar pela salvação das almas.
Sentindo-se chamado a obras de largo alcance, estava convencido de que sem grandes
fadigas não era possível conseguir grandes coisas. Persuadido, além disso, de que o
mundo moderno quer ver os padres trabalhar e sabendo por experiência quanto os
próprios inimigos da Igreja apreciam os padres que trabalham, pensava que no nosso
tempo não chega apenas rezar, mas é preciso agir e trabalhar intensamente.
Partindo destes princípios, não admira que gastasse todas as suas forças a trabalhar
pela glória de Deus e salvação das almas e que, quando o aconselhavam a tomar um
pouco de repouso, respondesse alegremente:
«Hei de descansar quando estiver alguns quilómetros acima da Lua».
A sua sólida constituição física poderia ter-lhe permitido viver talvez até além dos
noventa anos; mas consumiu-se, literalmente, gastou-se num trabalho constante e
ímprobo, dia e noite.
Por isso, pode absolutamente acreditar-se como aos setenta anos sofresse, segundo
nos dizem testemunhas, pensando no grande trabalho que antes podia realizar e vendo
que agora lhe não bastavam as forças nem o ajudava a vista a realizar uma centésima
parte.
O trabalho, na Congregação Salesiana
O mesmo espírito de atividade operosa quis que florescesse na sua Congregação
Salesiana. Logo o dizia àqueles que pretendiam entrar:
– O espírito da Congregação é este: que ninguém entre pensando que pode conservar-
se de mãos nos bolsos.
A experiência que adquirira nos princípios da Congregação encorajava-o a fazer
trabalhar os seus membros sem tréguas. Então, não podendo ainda falar livremente de
vida religiosa, porque ideias hostis dominavam por toda a parte o povo, e tendo
necessidade de preparar aqueles que entre os jovens clérigos do Oratório julgava em
condições de fazer parte da Sociedade, não exigia muito em matéria de práticas
religiosas, mas fazia-os trabalhar até aos limites das suas possibilidades.
O que aconteceu? Alguns clérigos um pouco fantasistas que, submetidos a regras
muito restritivas teriam deixado a Casa, trabalhavam de boa vontade e sob a vigilante
direção do Santo e depois, mudadas as circunstâncias, acabavam por se fazer sacerdotes
salesianos de ótimo espírito.
Depois, estabelecidas as coisas com mais solidez, teve oportunidade de fazer outra
experiência, que uma das causas que afasta da vida religiosa é a pouca vontade de

124
trabalhar, ao passo que o trabalho contínuo, além de despertar múltiplas formas de
atividade que sem isso não despertariam e ficariam latentes, serve para conservar as
vocações.
Este seu modo de ver foi confirmado pela palavra de Pio IX. O grande Pontífice
manifestou-lhe duas vezes que sobre o assunto o seu pensamento coincidia com o de D.
Bosco. Em 1869, ​disse-lhe julgar em melhores condições uma Congregação onde se reze
pouco e se trabalhe muito, do que outra onde se façam longas orações, mas se trabalhe
pouco.
Por isso, em 1874, o autorizou a confiar aos noviços as ocupações estabelecidas na
Regra, só depois da profissão.
– Ocupai-os a trabalhar, a trabalhar! – disse o Papa.
Dito isto, é fácil compreender que não poupava os seus ao trabalho. Recomendava
todo o cuidado com a saúde, mas para poder trabalhar muito. O seu exemplo e a sua
palavra eram estímulos poderosos e eficacíssimos. Com evidente satisfação, verificava
como todos aqueles que cresciam na Sociedade adquiriam um tal amor ao trabalho, até
um ardor, que lhe parecia não ser possível superar.
– Enquanto durar esta vontade de trabalhar, andaremos a velas pandas, de vento em
popa!155
Perante semelhantes disposições de espírito, pôde muitas vezes fazer afirmações
como esta156:
– Quando acontecer que um Salesiano sucumba e morra trabalhando pelas almas,
então podereis dizer que a nossa Congregação alcançou um grande triunfo, e que sobre
ela cairão as bênçãos do céu.
Semelhantes casos verificam-se sobretudo nas Missões. Por isso, o Santo na sua
primeira relação trienal, em 1879, sobre o estado da Sociedade que devia enviar para a
Santa Sé, não se coibia de escrever:
«O trabalho supera as forças e o número dos indivíduos, mas ninguém se lamenta e
parece até que a fadiga seja outro alimento, além do material».
Perigo do trabalho
Mas uma coisa é trabalhar muito, outra trabalhar bem. Quem não sabe que o
apostolado, que pode e deve ser um meio de santificação, pode tornar-se, para quem se
deixa dominar pela atividade exterior, causa de enfraquecimento espiritual?
D. Bosco não tinha necessidade de que lhe apontassem um perigo tão evidente.
Para começar por ele, podemos apoiar-nos no juízo de Pio XI, bom conhecedor de
homens, que conhecera D. Bosco. No discurso de 19 de novembro de 1933, para a
aprovação dos milagres, disse:
«Sente-se tentação de perguntar qual o segredo de todo este milagre de trabalho? O

125
próprio Beato nos dá a explicação, a verdadeira chave deste mistério: a chave está
naquela perene aspiração, melhor, contínua oração que o mantinha ligado a Deus; pois
foi incessante a sua conversação íntima com Deus! Raramente, como nele, se terá
verificado a máxima: quem trabalha, ora, qui laborat, orat, pois identificava
precisamente o trabalho com a oração».
Trabalho espiritualizado
Quanto aos outros não se contentava que trabalhassem muito, mas ensinava-os a
trabalhar espiritualmente, quer dizer, com fé, esperança e caridade. Com fé, procurando
em tudo e sempre fazer a vontade de Deus, sem nunca procurar o louvor dos homens;
com esperança, aspirando às recompensas celestes pelas fadigas suportadas e não
pensando nas míseras satisfações terrenas; com caridade para com Deus, oferecendo-
Lhe todas as fadigas porque só Ele é digno de ser amado e servido, e com caridade para
com o próximo, procurando exclusivamente, mediante a doçura de S. Francisco de Sales
e a paciência de Job, o bem das almas.
Temia, temia muito que a eficácia e mérito do trabalho se perdessem pela infiltração
da própria vontade, que é preciso vencer e renegar, considerando como trabalho de
cristão e religioso, antes de mais nada, o cumprimento dos deveres do próprio estado,
quer agrade ao amor-próprio quer não. Depois de uma voz ouvida do céu, em 1876,
repetia com muita frequência:
– O trabalho e a temperança farão florescer a Congregação Salesiana. São duas armas
com que conseguiremos vencer tudo e todos.
Com a temperança julgava indispensável, no trabalho, uma segunda virtude. Para
levantar os espíritos, gostava, em certas ocasiões, de representar o bem extraordinário,
que a Congregação era chamada a realizar no mundo, e fazia-o com cores tão vivas
como se as coisas já existissem; mas, no fim prevenia contra toda a presunção,
recomendando que se devia unir ao trabalho e à temperança a humildade.
Finalmente, devemos concordar que foi bem inspirado aquele Capítulo Geral da
Sociedade que, no Regulamento para as Casas de Noviciado, impôs aos Mestres de
Noviços a obrigação de instilar nos seus pupilos «aquela operosidade incansável,
santificada pela oração e pela união com Deus, que deve ser a caraterística dos Filhos de
D. Bosco» 157.
Não nos detemos a medir o campo da operosa caridade de D. Bosco para com o
próximo, de modo especial, em favor dos filhos do povo. Para tanto, remetemos o leitor
para os quatro capítulos, onde se trata de D. Bosco confessor, pregador, escritor e
educador. Neles se vê como a sua operosidade sem igual andava sempre ligada a uma
vida interior perfeita, fazendo dele um Santo singular.
Um trabalho alegre
Operoso, operosíssimo, foi o seu apostolado de caridade, mas de uma caridade alegre.

126
A Epístola da Missa de S. João Bosco, tirada de S. Paulo158, começa com estas
palavras:
«Alegrai-vos sempre no Senhor; digo-o pela segunda vez, alegrai-vos». Perfeito! A
alegria vivia nele e emanava dele.
Quantos motivos não teve de se entristecer, desde a meninice à velhice! Mas os
testemunhos daqueles que melhor puderam conhecê-lo estão de acordo em afirmar que a
jovialidade foi o caráter de toda a sua vida. Quem poderia adivinhar que era assaltado
por mil preocupações, quando dava aos jovens aquelas «Boas Noites», cintilantes do
mais amável bom humor, e quando descia ao pátio, calmo e sorridente, proferia ditos de
espírito que suscitavam a hilaridade e tanto bem faziam àqueles que o ouviam?
Existem cartas suas, escritas sob o íncubo de duras canseiras e de gravíssimos
aborrecimentos, e que, apesar disso, estão cheias de alegres argúcias, que tinham o
escopo de chegar ao coração dos outros, deixando-lhes o germe de qualquer bom
sentimento. O seu exemplo influía de tal modo sobre todos quantos tiveram a felicidade
de conviver com ele, que eles próprios, sem dar por isso, se sentiam inclinados por
constante hábito a receber as coisas desagradáveis com invejável serenidade de espírito e
até com desenvolto sorriso.
Do seu coração, cheio de amor divino, provinha para D. Bosco a perene alegria
espiritual que, unida a um perfeito domínio próprio, o tornava sereno em todas as
circunstâncias da vida e portador de serenidade para os seus filhos, pequenos e grandes.
A comunhão, fonte de alegria
Não posso aqui deixar no esquecimento duas coisas, sobre as quais influiu o seu fundo
de jucunda caridade. A primeira diz respeito à piedade dos jovens e, mais precisamente,
à Comunhão frequente.
Nada repugnava tanto à sua maneira de pensar sobre a bondade do Senhor quanto os
incómodos resíduos de severidade jansenista que sobreviviam ainda, aqui e além, no
Piemonte, retendo as almas longe dos Sacramentos. D. Bosco tomou a peito, com
coragem, diluir estes vestígios promovendo entre os jovens a cordial participação na
Mesa Eucarística.
Sentindo-se forte pelo genuíno ensino da Igreja, foi mais longe do que o próprio S.
Francisco de Sales, generalizando o uso da Comunhão frequente, não apenas semanal,
mas quotidiana. Nunca se vira nada de semelhante.
Explicam-se, por isso, facilmente, as reações contrárias e até as duras censuras.
Muitos caíam das nuvens, vendo no Oratório, na Missa da Comunidade, as procissões de
rapazes que diariamente se aproximavam do altar. Mas D. Bosco deixava falar e o seu
exemplo pouco a pouco foi-se impondo e a prática abriu caminho, até que o santo
Pontífice, Pio X, truncou para sempre a questão, promulgando o célebre Decreto, que
marcou o triunfo da ascética sacramental de S. João Bosco, servindo-se até das suas
palavras.

127
Cordialidade alegre
Outro benéfico efeito da sua alegre caridade foi a forma que imprimiu ao seu Sistema
Preventivo, na educação da juventude. As sóbrias mas prudentes normas que ditou são a
consagração da alegre cordialidade na obra mais delicada que se possa empreender, para
vantagem da tenra idade.
Ele que, quando menino, se sentia já estimulado ao apostolado no meio dos seus
companheiros e contemporâneos, servindo-se da sua habilidade de malabarista, que para
tal fim aprendera; ele, que na adolescência, exercitou o apostolado entre os seus
condiscípulos, organizando uma associação intitulada Sociedade da Alegria; ele, que
jovem sacerdote, no começo da sua missão, atraía os rapazinhos de Turim, fazendo-se
alegremente pequeno com os pequeninos e que nos primórdios do Oratório procurava e
inventava os meios mais geniais para encher de alegria a casa, quando pegou na pena,
para pôr em termos precisos as normas que deviam regular a educação dos jovens, como
a concebia, fez da caridade alegre uma conditio sine qua non de todo o seu método
educativo, que se reduz em última análise, ao belo servite Domino in laetitia.
Caridade independente
Dissemos acima que era o apóstolo de uma caridade independente, quer dizer,
superior a juízos e preconceitos: juízos sobre aqueles que recebiam a caridade e juízos
daqueles outros que ou o mordiam com as suas críticas ou o cumulavam de louvores;
preconceitos daqueles que, por mal entendidos, punham obstáculos ao seu zelo, e
daqueles que por maldade combatiam as suas instituições e pretendiam até destruí-las.
Caridade, sem aceção de pessoas
A caridade que lhe ardia no peito fazia sobretudo que se mostrasse ministro de Deus
com todo o género de pessoas. Fosse com quem fosse que tivesse de lidar, logo que
compreendia os seus sentimentos em matéria religiosa, achava modo de o convidar a
pensar na alma. A caridade que o movia comunicava-lhe uma singular franqueza
apostólica, que aliada à mais franca simplicidade não deixava de abrir brecha.
Nestes casos, não conhecia respeitos humanos, que impedem os sacerdotes, tantas
vezes, de tocar em certas teclas. Cônscio de que este era o melhor serviço que um
sacerdote pode prestar, não se preocupava com as primeiras impressões produzidas ou
que podiam produzir as suas palavras, naqueles que estavam presentes.
Fossem, como eram tantas vezes, nobres, homens de letras, cientistas, políticos,
autoridades, poderosos, homens conhecidos pelas suas ideias contrárias à Igreja, que nos
primeiros momentos se irritariam, ele pouco se preocupava e condimentava a sua
liberdade e ousadia com tal amabilidade de maneiras, reverência e afeto e, se era o caso,
até com delicados ditos de espírito e facécias, que não consta de um só caso, em que
alguém se tivesse sentido ou mostrado ofendido. Quantos curiosos casos se contam a
este respeito!

128
Sem preocupações
Censuras e louvores não lhe faltaram de todos os lados e em todos os tempos;
centenas de vezes esteve na ribalta da imprensa, pró e contra. A sua caridade não se
entibiava com as primeiras e nos segundos só via o valor de propaganda para as suas
obras de bem-fazer.
Qual era relativamente a isto o seu íntimo sentimento, revelou-o ele num artigo que se
lia já no antigo Regulamento das Casas Salesianas e que foi conservado na primeira
edição de 1877 e nas sucessivas. Naquele artigo, D. Bosco diz aos jovens que se
habituem a receber com indiferença censuras e louvores159. Não se pode dizer que seja
pedir pouco naquela idade!
Pela sua parte, quando lhe falavam de louvores ou censuras à sua pessoa, costumava
dizer que quem o louvava dizia aquilo que ele deveria ser e aqueles que o censuravam
aquilo que era.
Ordinariamente, duas coisas lhe censuravam os seus críticos: que permitisse tanta
publicidade à roda da sua pessoa e obras e que se familiarizasse demasiado com inimigos
da Igreja. Mas na publicidade ele via apenas um meio para tornar conhecidas e para
sustentar as suas instituições, e até nisso teve o mérito de conhecer o seu tempo: pouco a
pouco, a coisa entrou nos hábitos e até os seus censores o imitaram, sempre que
quiseram levar a bom termo qualquer boa obra.
Da segunda acusação bem podia defender-se: não lhe parecia haver o mínimo mal em
aproximar-se de todos, para a todos fazer bem e, tratando-se de autoridades constituídas,
respeitá-las, dando a César o que é de César, para conseguir que não negassem a Deus o
que é de Deus.
Afinal, nunca lisonjeou ninguém: fossem deputados, senadores ou ministros..., com
todos tratava cortês e francamente como sacerdote, sem deixar de dizer verdades que
mais ninguém teria ousado dizer-lhes. A sua caridade conservou-se independente de
outros preconceitos, desenvolveu-se excluindo toda a ação deletéria, que poderia por este
lado cortar-lhe o curso providencial. Os preconceitos que lhe foram desfavoráveis
tiveram um tríplice caráter: eclesiástico, religioso e político.
Firme perante a contradição
A Obra de D. Bosco surgia no mundo com elementos novos, que não pareciam
acomodar-se a certas tradições. Hoje muitas novidades introduzidas por ele entraram já
na vida da Igreja; mas os precursores não encontram bom ambiente em todos os lugares,
sobretudo junto dos homens do passado: daqui nascem reservas, desconfianças,
oposições.
Neste campo, as dificuldades surgiram, por vezes, tão graves e prolongadas, que
teriam desencorajado quem quer que não tivesse consciência de uma missão superior.
Ele não se deixou perturbar nem inverteu a sua rota: teve paciência, humilhou-se, falou,
escreveu, até que finalmente, no termo dos seus dias, teve o conforto de se ver

129
universalmente compreendido, aprovado e abençoado.
Fundador contra todo o obstáculo
Por preconceitos da segunda espécie, compreendo as falsas ideias daquele tempo
acerca do estado religioso. O Governo suprimia os conventos e dispersava os seus
habitantes. Continuamente na imprensa, em livros, no teatro, se escarneciam e
difamavam e caluniavam os religiosos. As próprias famílias cristãs sofriam a influência
destes ventos, olhando com pouca simpatia os religiosos. Nem sempre o clero secular os
apreciava também. Religioso queria dizer frade, e frade queria dizer, naquele tempo,
homem sem valor, dado à boa mesa e boa vida. Os rapazes escarneciam dos hábitos,
quando estes raramente apareciam.
Apesar disso, D. Bosco queria precisamente fundar uma Congregação religiosa. Bem
podia dizer que a sua era diferente: nem os próprios jovens do Oratório teriam
acreditado, tendo-lhe respondido que padres, sim, quantos quisesse, mas frades, não; os
próprios candidatos ao sacerdócio dificilmente queriam ser religiosos.
É fácil imaginar como ele, tendo de os preparar, precisava de ser cauteloso, para não
ferir os preconceitos comuns e não partir, como sói dizer-se, os ovos no cesto! A sua
paciência, bondade e perspicácia conseguiram-lhe a vitória final. Mas foi preciso uma
caridade de largas vistas para o sustentar em tão árdua empresa.
E obstáculos políticos
Teve também de enfrentar os preconceitos políticos. O nascer da sua Sociedade
coincidiu com o período das lutas para a independência e unidade da Itália.
Ideias pouco ortodoxas de reforma, de progresso e de liberdade, que já fermentavam
desde o pontificado de Gregório XVI, explodiram no advento do Pontificado de Pio IX.
Delirantes manifestações populares suscitavam anseios de coisas novas, até nos membros
do clero regular e secular que, por insuficiência de disciplina e exaltação de leituras de
livros giobertianos, ou iludidos pela própria ingenuidade aderiam à corrente geral.
Se tudo fosse puro patriotismo, menos mal; mas havia muito quem procurasse pescar
nas águas turvas, procurando levar a água ao próprio moinho: eram os sectários, os
inimigos de Deus e da Igreja. Muitos de entre os bons, por miopia, não queriam ver, ou,
alucinados, tomavam os pirilampos por lanternas.
Tudo foi feito para arrastar também D. Bosco para o mare magnum da política; mas a
sua alma, profundamente sacerdotal, sempre lhe indicou a verdadeira linha de conduta:
nada de política que divide, sempre caridade que une.
Teve muito que sofrer então e, como consequência, depois também. Prudente, calmo,
respeitoso, tratava de recolher rapazes abandonados, fazendo deles bons cidadãos e bons
cristãos, e procurava preservar das aberrações correntes o crescente rebanho dos seus
jovens, que destinava a pedras fundamentais do edifício que pensava erguer.

130
Vence dificuldades com a caridade
A experiência deste período tão agitado de muito lhe serviu no período seguinte,
enquanto procurava consolidar a Sociedade Salesiana. Perante o novo Estado, ele
declarou e estabeleceu, e por isso foi louvado por Pio IX, que respeitando as leis da
caridade, se pode dar a César o que é de César, sem que nunca isso comprometa nada
ou ninguém, e sem ser levado a negar a Deus o que é de Deus. Considerava este como o
máximo dever dos católicos do seu tempo.
Na prática, não lhe faltaram problemas e deparou com sérias dificuldades que sempre
procurou resolver à luz da caridade evangélica. A arte dos inimigos da Igreja era refinada
e os seus meios imensos; D. Bosco, todavia, mantendo-se dentro da legalidade e
conquistando pela caridade o favor pessoal dos homens que ocupavam o poder, embora
através de sacrifícios de toda a espécie, ergueu o seu edifício sobre bases tão sólidas que
outros, que quiseram dar vida a antigas instituições, tiveram de lhe seguir o exemplo.
O Papa da canonização aludia ao conjunto de tantas contrariedades, que se
acumularam no caminho do Santo e que ele soube vencer com o divino auxílio, quando
na homilia do grande dia dizia:
«Todo entregue à glória de Deus e à salvação das almas, não se deteve diante das
desconfianças que o rodearam; mas com ousadia de conceitos e modernidade de meios,
tratou de pôr em prática aqueles novíssimos propósitos que, embora parecessem
temerários, ele, por superior iluminação, sabia serem conformes à vontade de Deus».
E adiante: «Perante as dificuldades de toda a ordem, perante as irrisões e o escárnio
de muitos, ele, erguendo os seus luminosos olhos ao céu, costumava exclamar: — Meus
irmãos, esta é obra de Deus, é vontade do Senhor: o Senhor terá, portanto, obrigação de
dar os auxílios necessários. — Os acontecimentos mostraram a verdade destas palavras,
de modo que o escárnio se transformou em admiração universal».
Assim se verificou com ele o que diz o Apóstolo da caridade: Perfecta caritas foras
mittit timorem160. O seu extraordinário amor de Deus e do próximo tornou-o invencível
e, deste modo, alcançou realizar a sua missão.
Nesta altura, o nosso pensamento volta-se espontaneamente para a bela Missa
aprovada pela Igreja para o nosso Santo. Abre pelas palavras da Escritura, aplicadas a
Salomão e que Pio XI fez suas, várias vezes, falando de D. Bosco: «Juntamente com a
sabedoria e prudência extraordinárias, deu-lhe o Senhor grandeza de coração tão
incomensurável como a areia do mar». Não se aplica isto perfeitamente a quem, como
sugere a mesma Missa, devia tornar-se pater multarum gentium161?

Capítulo XVI
O DOM DO CONSELHO
131
Luz no ocaso
A luz espiritual de D. Bosco teve o seu máximo fulgor no ocaso dos seus anos,
quando, consolidadas as suas obras e tendo chegado à maturidade, os discípulos
formados na sua escola ou o debilitar-se da sua rija fibra já não permitiam que ele se
juntasse ao ritmo da vida quotidiana.
Então os carismas extraordinários, que desde os seus nove anos não tinham deixado
de brilhar, tornaram-se mais vivos e refulgentes, manifestando-se com mais frequência,
de modo que, no fim, quase pode dizer-se que o sobrenatural envolvia toda a sua
existência.
Só Deus sabe com quanta apreensão me aproximei da alma de D. Bosco, nos
capítulos precedentes deste estudo; agora, ao querer falar dos seus dons carismáticos, o
temor converte-se numa espécie de terror sagrado, como de quem se aproximasse da
Arca da Aliança.
A teologia mística é conhecida pelo «andar nobre» da ciência sagrada. Que dizer então
das experiências místicas não expostas em tratado, mas vividas em ato?
O célebre apologista francês Auguste Nicolas, homem venerando pelas cãs, pela
ciência e santidade de vida, tendo visitado D. Bosco, poucos anos antes de deixar este
mundo, ajoelhou diante dele e quis ficar assim com as mãos postas durante todo o
colóquio, recolhendo religiosamente dos lábios do Santo as suas palavras, como eco
mortal do imortal Verbo divino.
Eis a melhor atitude diante de tanta grandeza.
Dom Bosco, superdotado
Deus concedeu a D. Bosco, com desmedida grandeza, as suas graças, para o fazer
instrumento dos seus desígnios providenciais. Com efeito, na ordem da Providência,
quando Deus escolhe uma criatura para uma missão determinada, tudo dispõe antes,
preparando-a para bem cumprir a missão recebida162. Ora, entre as graças especiais, de
que o Senhor quis enriquecer D. Bosco, temos de citar o dom do conselho que o
iluminou toda a vida, associado como por concomitância a outros insignes privilégios que
não podem desprezar-se, nem aflorar superficialmente.
Dom do conselho
Pelo dom do conselho, o Espírito Santo aperfeiçoa na alma fiel a natural virtude da
prudência, dando-lhe uma intuição sobrenatural, pela qual ela, pronta e seguramente,
forma um juízo do que deve fazer, sobretudo nos casos difíceis. Este carisma tem por
objeto a boa direção das ações particulares nossas ou alheias, segundo o variar dos
tempos, lugares e circunstâncias individuais.
Aplicando em concreto a D. Bosco aquilo que doutrinalmente ensina um grande
Bispo163, diremos que, por causa deste dom, o nosso bom Pai possuía sempre o

132
discernimento dos seus meios, vendo sempre claramente o seu caminho e percorrendo-o
sem hesitações, por mais árido, árduo e repugnante que fosse, sabendo, em todas as
circunstâncias, esperar o momento propício.
Quem nos tiver lido até aqui, não precisará de ulteriores provas desta afirmação; quase
não haverá página em que se não note como ele viu claro, claríssimo, em todas as coisas
respeitantes ao seu próprio governo. Seria, portanto, um bis in idem insistir ainda;
estudemos, sobretudo agora, a clarividência a respeito dos outros.
As gentes recorrem a ele
Que D. Bosco era um homem de bom conselho, não por inata virtude de engenho e
por mera, natural e humana prudência, mas por virtude de luzes superiores, era
convicção tão universalmente difundida e radicada, que de todos os lados lhe escreviam
ou o procuravam para ter ou ouvir a sua palavra iluminada.
Pessoas sem conta, mesmo de altas esferas, recorriam a D. Bosco por carta, sobre
casos de consciência e de vida espiritual e sobre assuntos de toda a espécie.
De tantos documentos desta natureza poucos ou nenhuns restam, pois, dado o seu
conteúdo, eram destruídos pelo Santo; mas abundam nos arquivos pedidos de conselhos
sobre coisas de família, mudança de emprego ou situação, empréstimos, questões, sobre
o modo de governar a própria casa, educar os filhos, escolha de estado, numa palavra,
sobre dúvidas e necessidades sem número, tanta era a confiança geralmente posta na sua
sobre-humana sabedoria e nas suas sugestões.
O próprio Papa Pio IX recorreu a D. Bosco e às suas luzes superiores, numa hora
angustiosa e difícil, quando, depois da tomada de Roma, hesitava entre ficar ou partir
como muitos lhe aconselhavam, com insistência: O Papa, prudentemente, dispôs tudo
para a viagem; mas, quando instavam com ele para que partisse imediatamente,
respondia que tinha pedido o conselho de D. Bosco e que o seguiria fosse ele qual fosse.
O Servo de Deus, depois de ter orado longamente, mandou por mão de confiança a sua
resposta, nestes precisos termos: «Que a Sentinela, o Anjo de Israel, fique no seu posto e
continue de guarda ao Rochedo de Deus e da Arca Santa». Na palavra de D. Bosco, o
Papa reconheceu a voz de Deus e confirmou-se no pensamento de não partir. Hoje,
compreendemos que foi um grande bem.
As audiências
Quem podia procurava D. Bosco pessoalmente. Por esta razão, a fadiga das
audiências foi coisa acima de toda a imaginação.
O Pe. José Oreglia, jesuíta, afirmava que mesmo sem outra penitência, só esta
chegaria para provar o caráter heroico da sua virtude. Era assaltado em casa, na rua, na
cidade e fora, sem discrição nem medida. Pessoas de todas as classes sociais e de todas
as condições sucediam-se para o consultar; eclesiásticos e leigos, príncipes e gente do
povo, amigos e estranhos, ricos e pobres, doutos e ignorantes, bons e maus, enchiam as
salas de espera; muitas vezes, pediam para lhe falar superiores de Ordens religiosas e

133
comunidades, superiores de mosteiros, religiosas de todas as cores.
D. Bosco, como quem desempenha um cargo, que o obriga a atender indistintamente
a todos, a todos recebia e a todos tratava como se lhos enviasse Deus e tendo sempre
para todos modos doces e amáveis. Ouvia sem interromper, interessando-se pelo que lhe
era exposto, mesmo tratando-se de lengalengas inconcludentes de pobres escrupulosos;
se, quando falava, o interlocutor lhe cortava a palavra, calava-se imediatamente; depois,
como se nada mais tivesse que fazer, nunca era o primeiro a cortar a palavra, nem dava
mostra de querer que abreviassem, embora tivesse de dizer e repetir as mesmas coisas,
porque o consulente continuava, impertérrito, a repetir o que já tinha dito.
Em Marselha, enquanto estava ouvindo uma mãe que não mostrava disposição de
partir, avisado pela terceira vez de que muitos esperavam para serem recebidos, disse ao
ouvido de quem o avisava:
«Mas as coisas têm de ser feitas como deve ser ou então não se fazem. Aqui não se
perde tempo, logo que seja possível entram os outros».
No Oratório, no seu quartinho, escreve uma testemunha, respirava-se uma paz de
paraíso164.
Carisma pessoal
Mas, como aquela aura celestial emanava de D. Bosco e não das paredes do quarto,
do mesmo modo fora, nas visitas e nas viagens, era sempre procurado. Onde quer que se
demorasse, formava-se logo em seu redor uma atmosfera serena de confiante espetativa,
de modo que as suas palavras eram recolhidas como oráculos, como panaceias, místicas
centelhas, segundo os casos.
O espírito do Senhor, que falava pela sua boca, manifestava-se também na admirável
liberdade, com que, pedidos ou não, ele dava conselhos salutares a pessoas de toda a
casta, pobres ou ricos, ignorantes ou doutos, humildes ou altamente colocados.
Inspirando-se sempre no Seminator casti consilii, lançava sem respeitos humanos nas
almas os germes fecundos e sãos de santos pensamentos.
Carisma da sua palavra
Que o espírito do Senhor estava nos lábios de D. Bosco, quando aconselhava, prova-o
a facilidade que tinha em dar conselhos ajustadíssimos de uma eficácia irresistível,
embora, por vezes, amargos. De tudo isto, tiveram larga e quotidiana experiência no
Oratório os sacerdotes, clérigos e alunos que o procuravam no pátio, no quarto ou no
confessionário.
Os conselhos do pátio eram conhecidos por «palavras ao ouvido». D. Bosco,
enquanto pôde, participou no recreio dos jovens e, quando não pôde já demorar-se tanto
tempo, aparecia de vez em quando, oferecendo-lhe isto oportunidade de conhecer os
seus filhos e segredar-lhes, ao ouvido, uma palavrinha oportuna. Por este motivo, inseriu
no Regulamento das suas casas este artigo165:

134
«Lembrai-vos dos pintainhos. Aqueles que se aproximam mais da galinha recebem
mais frequentemente bocadinhos especiais. Do mesmo modo, aqueles que se aproximam
dos superiores, recebem sempre qualquer conselho ou aviso especial».
Nos últimos anos, não podendo fazer doutra maneira quando, depois de ter percorrido
o corredor, chegava à porta do seu quarto, não entrava logo mas, voltando-se para os
jovens que do pátio lhe tinham seguido com atenção ávida e filial os passos lentos e
arrastados, dizia-lhes, lá do alto, uma palavrinha boa que era recebida com alegria e
aplausos.
Noutros tempos, quantas destas palavras tinha murmurado ao ouvido de cada um! O
educador sempre pronto a censurar depressa acaba por ser suspeito aos olhos dos
educandos, que o aborrecem e evitam, quando aparece. Mas os jovens do Oratório
gostavam de ouvir as palavrinhas ao ouvido e até as pediam a D. Bosco. A Sagrada
Escritura diz166: A repreensão dada ao ouvido dócil é brinco de ouro com pedra
reluzente.
Como fazia
As coisas passavam-se desta forma: pousando a mão sobre a cabeça do jovem,
curvava-se até ao seu ouvido e pondo a outra mão junto da boca, para não poder ser
ouvido senão pelo interessado, D. Bosco dizia a tal palavrinha. Tudo se passava em
poucos segundos; mas que efeitos maravilhosos, quase mágicos, não conseguia! Bastava
seguir os movimentos das fisionomias: um sorriso repentino, um ficar sério, um corar,
um lacrimejar, um sim ou um não, um repetir o gesto de D. Bosco falando ao seu ouvido
e voltando a ouvi-lo, um grito de obrigado e correr de novo a brincar ou dirigir-se para a
igreja. Por vezes, acontecia que um jovem depois de ter ouvido D. Bosco se não
separava dele, como absorto por ideia luminosa.
Seus efeitos
Outros efeitos se descobriam mais tarde: maior frequência nos sacramentos, maior
recolhimento na oração, mais diligência no estudo, maior caridade e delicadeza para com
os companheiros.
Conta o seu biógrafo167 que muitos, cujos nomes não pode citar, foram levados por
estes simples meios a tal fervor de piedade, que se abandonaram a penitências
extraordinárias, de modo que D. Bosco tinha de dominar estes entusiasmos; outros
ficavam de noite à sua porta, batendo ligeiramente de tanto em tanto, até que lha abrisse
pois não queriam dormir com o pecado na alma.
Destas palavras ao ouvido, o biógrafo apresenta-nos um belo florilégio168; mas são
plantas de herbário. Falta-lhes a vivacidade da expressão, que lhes era comunicada pelo
acento, pelo olhar, pelo sorriso, pela gravidade daquele que as dizia; falta-lhes a frescura
da atualidade, que derivava das condições psicológicas de quem as ouvia.
A figura de D. Bosco no meio dos jovens salta das linhas escultóricas de uma

135
testemunha169: «Parece-me vê-lo ainda a sorrir-me, ouvir as suas doces palavras,
admirando aquele seu amável rosto, onde se estampava claramente a beleza da sua
alma».
Os conselhos que D. Bosco dava in camera caritatis, se fossem recolhidos na sua
genuína simplicidade, tal como se entrevê nos poucos exemplos chegados até nós e se
deduz de apreciações genéricas de testemunhas, formariam o código da prudência cristã.
Aqueles que os recebiam celebravam-lhe o valor, mas conservavam-nos ciosamente.
Recordação do autor
Vive ainda na nossa memória a recordação do nosso primeiro encontro com D. Bosco,
dentro daquelas santas paredes.
O ponto culminante foi quando ouvimos um conselho de vida espiritual que nos
oferecia D. Bosco em palavras muito simples, mas precisas e ditas sem ser esperadas,
proferidas num tom que não se sabia se paterno se autorizado, cujo acento ainda hoje
ressoa na nossa alma.
Naquela grande Arca de Noé, que era o Oratório, a ninguém, fosse ele o mais humilde
moço de cozinha, estava vedado o acesso ao quarto de D. Bosco e ninguém se sentia
apreensivo dirigindo-se para lá; todos indistintamente eram recebidos com o mesmo
cerimonial, a que precedentemente já aludimos.
D. Bosco estava sentado junto de uma modesta escrivaninha, sobre a qual se
amontoavam cartas e papéis, que muitas vezes cresciam durante o colóquio pela chegada
de mais correspondência. Ele, sem dar atenção, repunha tudo, tratando só de atender
aquele que mandara sentar perto de si, como se nada mais houvesse que fazer ou
atender, como se toda a sua ocupação fosse aquela.
Naturalmente saía-se dali iluminado, encorajado, alegre. O sucessor do teólogo
Murialdo, na direção dos Aprendizes, foi muito feliz ao descrever a sorte daqueles que
viviam perto daquele sacrário, que irradiava luz e conselho. Ouçamos:
«Vós tendes uma grande sorte na Vossa Casa, como mais ninguém tem em Turim, e
que não tem nenhuma outra comunidade religiosa. Tendes um quarto de onde quem quer
que entre, cheio de aflição, sai radiante de alegria».
Esta verdade é comentada pelo biógrafo por estas palavras170: «Milhares de nós
tivemos a prova disto».
Dom de conselho no confessionário
Os conselhos do confessor levam-nos de novo a um tema já tratado. Um dos
discípulos da primeira hora do Santo171, falando dele como confessor, emprega três
adjetivos que condensam tudo: «caridoso, oportuno, sabedor».
Pequenos episódios reveladores ilustram magnificamente esta tríplice afirmação duma
testemunha que falava de ciência certa.

136
A caridade: Um dia, nos últimos anos da sua vida, num pequeno círculo de Salesianos
que o rodeavam, D. Bosco saiu-se com esta:
– Esta noite sonhei que queria confessar-me. Na sacristia estava somente F. Olhei-o de
longe e quase senti repugnância. É muito rigoroso, dizia comigo.
Os presentes riam com gosto, vendo o efeito daquelas palavras sobre o visado que
acompanhava os outros no riso e dizia com graça:
– Quem tal diria; eu meter medo a D. Bosco!
A cena foi uma lição para todos; quem a não teria compreendido? A oportunidade,
mesmo importuna. Todos declaram que D. Bosco, quando confessava, não dizia muitas
palavras, mas que as dizia sempre a propósito, segundo eram exigidas pelas
circunstâncias, de modo a deixar nos espíritos uma grande ideia do sacramento, e a firme
resolução do propósito.
Um jovem, que frequentava o Oratório como externo, tinha aceitado cantar uma parte
religiosa no Real Teatro de Turim. Isto pareceu, naqueles tempos, uma grande honra
para a Casa! Mas D. Bosco não era da mesma opinião, pelo medo do perigo em que
poderia incorrer a alma dos seus, não lhe agradava que um filho do Oratório fosse cantar
ao teatro. Mas que teria acontecido se proibisse? Os superiores estavam aflitos.
No domingo de manhã, D. Bosco confessou-o e aconselhou-o; o penitente concordou,
sem dizer palavra; para cortar cerce a conversa, o penitente disse àqueles que o
interrogaram:
– Em questões de consciência, quem manda é o confessor.
Ciência: Um dos ideais mais ardentemente desejados por D. Bosco era multiplicar os
alunos do santuário. O pensamento de que ele falava por inspiração de Deus levava junto
dele muitas almas que precisavam de conselho sobre a própria vocação: um sim ou um
não de D. Bosco, neste assunto, dissipava qualquer dúvida.
No decorrer dos processos apostólicos, tantas testemunhas, ao tocar este ponto do
zelo sacerdotal de D. Bosco, depuseram em uníssono que nunca tinham ouvido dizer que
alguém se tivesse arrependido por ter dado ouvidos, fosse qual fosse, ao conselho de D.
Bosco, e terem conhecido alguns que, não seguindo este conselho e querendo agir por
própria conta, se tinham arrependido.
Uma cronicazita inédita conservou-nos a recordação de um pequeno facto que quase
dramatiza o efeito extraordinário produzido por tanta oportunidade, ciência e caridade
nos espíritos dos adolescentes, que se confessavam a D. Bosco.
Um jovem, depois de finda a confissão, pediu um favor a D. Bosco, antes de partir:
pediu licença para lhe beijar os pés. O Servo de Deus, sem se perturbar, respondeu-lhe:
– Não é preciso, beija-me antes a mão como sacerdote. – O jovem então, beijando-lha
com efusão, exclamou:
– Que sorte teria sido a minha, se antes me tivessem aberto os olhos como esta noite

137
V. Rev.a mos abriu!
Descobria pecados ocultos
O Espírito do Senhor, que concedia a D. Bosco tão tangível assistência na obra
contínua de bem aconselhar, concedia-lhe também um dom especial para descobrir os
pecados ocultos e os pensamentos recônditos, tanto perto como longe.
Um facto nos impressiona relativamente a este favor especial e sobrenatural, é que D.
Bosco falasse dele, sem reticências.
Num documento172 de 1861, podemos ler: «Estou há dez anos no Oratório e ouvi D.
Bosco dizer: Trazei-me um jovem que eu nunca tenha conhecido de qualquer modo, que
eu, olhando para ele posso revelar-lhe todos os seus pecados a começar da sua infância».
Uma cronicazita manuscrita, com a data de 23 de abril de 1863, refere textualmente
um sermãozinho da noite anterior, em que D. Bosco, entre outras coisas, diz o seguinte:
«Eu, durante todos estes dias dos exercícios, via nos corações dos jovens como quem
lê um livro: via, bem claros e distintos, todos os seus pecados e disfarces».
O autor do documento escreve: «Interroguei D. Bosco sobre se esta possibilidade de
ler no coração dos jovens acontecia apenas durante a confissão ou mesmo noutras
ocasiões. Respondeu:
– A qualquer hora e mesmo fora da confissão –». Isto deve entender-se não no
sentido de que esta leitura fosse contínua, mas que era concedida sempre que o exigisse
o bem das almas.
Quem poderá saber porque D. Bosco, que sempre mantinha a sete chaves tudo o que
se passava entre ele e Deus, falasse tão livremente sobre estas arcanas comunicações?
Grande razão havia, com certeza; talvez fossem duas.
Em primeiro lugar, a notoriedade de uma coisa tão fora do habitual não podia ser
conservada em segredo e podia dar ocasião a comentários no pequeno mundo do
Oratório; a prudência exigia que o caso fosse esclarecido de modo a dar a conhecer, com
a mais franca simplicidade, a natureza do fenómeno.
Mas uma segunda razão tem muito maior peso para nós. D. Bosco, zeloso caçador de
almas por meio da confissão, sabia que tinha contra si um adversário formidável no
demónio mudo que tantos apanha no sacramento da Penitência pela falta de sinceridade.
Este era o seu permanente íncubo.
Um excelente pároco francês, que pregava frequentes missões e exercícios espirituais,
aterrado à vista de tantas almas que vivem no sacrilégio, por causa de confissões mal
feitas, temendo que fosse sua ilusão, escreveu ao nosso Santo submetendo ao seu juízo
as suas inquietações.
D. Bosco respondeu173: «E V. Rev.a diz-me isso a mim, que tenho pregado por toda a
Itália e tanto tenho encontrado disso?».

138
Em certa altura, nas primícias do seu sacerdócio, estava convencido de que os seus
filhos tinham nele uma ilimitada confiança; mas não tardou a verificar que o demónio era
mais esperto ainda174.
Respiguemos ainda na habitual cronicazita de 12 de abril de 1861. A um clérigo que se
espantava por ouvir dizer que muitos, apesar da abundância de confessores, calam
pecados na confissão, D. Bosco disse que «nem todos os confessores têm habilidade e
experiência para perscrutar as consciências e descobrir as raposas que roem os
corações», e concluiu dolorosamente:
«São duas grandes desgraças a vergonha e o medo de ficar diminuído na estima do
confessor».
É talvez nisto que devemos procurar o móbil que o fez sair da sua habitual reserva.
Era bom que D. Bosco, lendo nos corações, pudesse impedir o consumar do sacrilégio;
mas, quando descobrisse os pecados ao penitente, não tinha já o tentador conseguido
induzir o penitente ao culposo silêncio? Era, portanto, útil, que todos, com antecedência,
soubessem que as diabólicas insídias seriam desmascaradas no seu confessionário; que
não se deixassem enganar, mas antes aproveitassem aquele dom de Deus para terem a
certeza do bom estado da própria alma.
E assim o entendiam todos os da Casa. Muitas vezes, os alunos, ao ajoelharem,
começavam a acusação, pedindo-lhe que dissesse os seus pecados e D. Bosco fazia-o
com uma exatidão de os deixar estarrecidos.
Tanto isto entrou nos hábitos que o Pe. Lemoyne leu nos Processos um sermãozinho
da «Boa Noite» de D. Bosco em que este diz: «Até agora, quando vínheis confessar-vos,
sempre me dizíeis: Diga V. Rev.a – e eu dizia. Mas a verdade é que toca ao penitente
acusar-se, não ao confessor. Eu não aguento mais falar durante horas e horas por causa
do meu pobre peito. Daqui para o futuro, falareis vós e se eu vos vir atrapalhados,
ajudo».

Lia no rosto
Mesmo fora da confissão, D. Bosco via distintamente pecados e pensamentos.
No seio das comunidades, circulam modos de falar que ​formam um repertório local,
que tem um sentido convencional que não está de acordo com os dicionários. Desta
ordem, era no Oratório a frase «ler na fronte» que, quando se referia a D. Bosco,
significava adivinhar os pecados.
A convicção de que ele, olhando a fronte, podia ler todos os segredos, era tão
corrente, que os jovens, «quando não tinham a consciência em ordem, não se atreviam a
aproximar-se com medo que lesse nas suas frontes».
E se eram chamados ou se por qualquer motivo se tinham de apresentar, calcavam o
barrete sobre a testa ou puxavam os cabelos.
Evidentemente, que D. Bosco deixava correr aquela impressão que lhe permitia

139
ocultar o caráter prodigioso do facto; contam-se, porém, vários casos de
desavergonhados que, não acreditando naquilo, desafiavam D. Bosco a dizer-lhes os
pecados, mesmo em público.
Nestes casos, a sua tática era sempre a mesma: chamar o atrevido à parte, pôr-lhe a
pulga no ouvido, fazer com que ficasse primeiro admirado, depois envergonhado e
acabasse por chorar.
Quase o mesmo acontecia com os pensamentos; embora fosse muito limitada. O Pe.
Rua testemunha que sempre que se tentasse esconder assuntos secretos, que ele tivesse
direito de conhecer, por se julgar oportuno, era inútil todo o subterfúgio, pois, na primeira
oportunidade, falando, mostrava estar ao corrente de tudo com a maior precisão. Um
clérigo, dominado por escrúpulos, enquanto fazia exame de consciência para a confissão,
pensou desta maneira:
Se D. Bosco, voltando-se para mim, me dissesse para ir amanhã à comunhão, sem me
confessar, ficava certo de que tudo isto não passa de uma tentação do demónio.
Então, na penumbra da tarde, uma mão lhe bateu no ombro e ouviu a voz paterna de
D. Bosco dizer-lhe:
— Amanhã vais à sagrada Comunhão; não é preciso que te confesses175.
Sempre a propósito de pensamentos, queremos referir uma anedota – dada a conhecer
em 1929 – que é útil para conhecer o espírito de D. Bosco.
Outro clérigo, depois cofundador dos Josefinos, o Pe. Eugénio Reffo, tendo
acompanhado até ao quarto de D. Bosco, o seu superior, o teólogo Murialdo, estava
afastado a um canto do lado oposto àquele em que os dois Servos de Deus conversavam
um com o outro.
Do pátio vinha o ruído do recreio e das brincadeiras de tantos jovens, reforçado pelo
ensurdecedor barulho da banda que estava a ensaiar. O jovem clérigo pensou consigo: —
Se fosse eu, nunca consentiria este pandemónio!... Non in commotione Dominus.
D. Bosco interrompeu o colóquio e veio junto dele, dizendo: — Não, meu caro, D.
Bosco tem razão.
Depois, imitando com o gesto o bater dos pratos e do bombo repetia: Chin-chin, bum,
bum. Nosso Senhor quer assim. Ruído, alegria... chin, chin, bum, bum... a seu tempo,
claro176.
Sabia coisas de longe
Mesmo de longe chegavam-lhe misteriosas notícias de coisas ocultas. Quando escrevia
do Oratório para os Colégios ou de outros lugares para o Oratório informava os
Superiores do que nos seus domínios acontecia, muitas vezes sem que fizessem a menor
ideia, de coisas de que não podia ter tido a menor ideia ou informação por vias naturais.
Dizia os nomes, as circunstâncias com tão perfeita correspondência com a verdade que,
quando se tratava de faltas, que os que eram chamados ad audiendum verbum ficavam

140
de pedra e cal e nem sequer se atreviam a pedir desculpas.
Uma noite, durante o habitual sermãozinho da «Boa Noite», como a familiaridade da
hora permitia fazer perguntas em público, o Pe. Rua, que no Oratório fazia as vezes de
D. Bosco, apresentando-se a ocasião, perguntou-lhe como ​conseguia ver as coisas a
distância. Respondeu a brincar:
«Por meio do meu fio telegráfico, eu, mesmo distante, estabeleço a minha
comunicação e vejo e conheço tudo o que pode redundar em honra e glória de Deus e
salvação das almas».
Uma noite de 1886…
Em Barcelona, em 1886, aconteceu qualquer coisa de bem mais extraordinário, mas
cuja historicidade não pode ser posta em dúvida e de que temos descrição
pormenorizada.
D. Bosco em pessoa, estando no Oratório em Turim, foi visto em Barcelona pelo
diretor, durante a noite aproximar-se do seu leito, fazendo-o levantar e precedendo-o à
luz do dia num giro de inspeção pela casa, apontando algumas desordens; depois,
acompanhou-o ao quarto, deu-lhe ordens para providenciar imediatamente sobre aquilo
que lhe fizera notar, deixando-o assim, em pé e fora de si.

Capítulo XVII
SONHOS, VISÕES, ÊXTASES
O título deste capítulo foi sugerido por uma citação de Isidoro, feita por S. Tomás. O
Angélico assim escreve177: «Isidoro distingue o dom de profecia segundo a maneira do
profetizar... Relativamente ao modo de imprimir as imagens fantásticas, faz três
distinções: sonho, visões, êxtases». São graças gratis datae que, por si, nem trazem nem
exigem santidade, mas que costumam acompanhá-la; por eles Deus manifesta às almas,
de modo sobrenatural, as coisas escondidas. Na vida de D. Bosco estes favores têm uma
parte tão importante, que se não pode prescindir de os tratar, sem renunciarmos a um
elemento de suma importância para penetrar no pleno conhecimento da sua íntima
comunicação com Deus.
Os sonhos de Dom Bosco
Todos os que passaram pelos ambientes salesianos ouviram falar dos sonhos de D.
Bosco, e esta denominação que se deve a ele próprio, subsiste nas suas Casas, onde
ainda se compreende, sem necessidade de comentários. Não vamos demonstrar que
existem sonhos sobrenaturais, pois isso seria como arrombar uma porta aberta. Quem
ignora o somnia somniabunt178 enumerado por Joel entre os dons com que, por uma
larga efusão do Espírito Santo, serão alegrados os últimos dias, quer dizer, como explica

141
S. Pedro, os tempos messiânicos? Passemos, portanto, sem mais a falar dos sonhos de
D. Bosco.
Estes sonhos foram em grande número, porque se sucederam com intervalos
relativamente curtos, desde a meninice até à mais provecta velhice. De alguns deles,
poucos, temos a narração escrita pessoalmente ou revista por ele; de outros, chegaram
até nós narrações de testemunhas auriculares fidedignas; de outros ainda, correm aqui e
além tradições orais; de muitos, restam apenas vagas reminiscências e delas se deduz a
existência de vagos indícios.
Nos dezoito volumes das Memórias, entre os contados por extenso e aqueles a que se
alude brevemente, podemos enumerar uma boa centena.
Geralmente, as cenas neles descritas desenvolvem-se, mais ou menos dramaticamente
sobre estes três fundos: Igreja Católica, Sociedade Salesiana, Oratório de Valdocco.
Sobre a Igreja, contempla os acontecimentos futuros, quer na sua vida geral, quer em
nações particulares. Relativamente à Congregação, vê claramente as obras que tem de
realizar, os caminhos a seguir, os escolhos a evitar: relativamente aos jovens, vê estados
de consciência, vocações, mortes próximas.
Em que condições se encontrava quando sonhava, podemos concluí-lo de certos seus
modos de se exprimir. Assim diz de um sonho que teve de noite entre os anos 1867-
1868: «Era um sono em que o homem pode conhecer o que faz, ouvir o que se diz,
responder e ser interrogado» 179.
Costumava pôr-se a seu lado, como guia e intérprete, um personagem, nem sempre o
mesmo; por indícios prováveis, parece que seria umas vezes qualquer aluno falecido, S.
Francisco de Sales, S. José ou outro Santo, outras vezes um anjo do Senhor, algumas
vezes, a própria Virgem; juntavam-se-lhe em certas circunstâncias, como companhia,
personagens secundários.
Que pensava ele desses sonhos
Que pensava D. Bosco dos seus sonhos? A princípio, teve certa dificuldade em lhes
dar crédito, atribuindo-os a partidas da sua fantasia; por isso, ao contá-los, se neles
entravam previsões do futuro, tinha sempre medo de se ter enganado e de dizer coisas
que se não podiam tomar a sério.
Não há dúvida, porém, que ele distinguia entre sonhos e sonhos e se alguns, como
acontece normalmente, se apagavam sem que lhe deixassem a menor impressão, outros
permaneciam gravados no seu espírito, deixando-lhe uma impressão duradoira.
Discorrendo familiarmente com os íntimos, disse que muitas vezes, depois de ter
contado os sonhos a estes últimos, se tinha confessado ao Pe. Cafasso por ter sido
precipitado em falar, e que o santo sacerdote, tendo ouvido e refletido no caso
maduramente acabara por lhe dizer um dia:
— Como aquilo que me contas se realiza, podes ficar tranquilo e continuar.

142
Contudo, não lhe pareceu oportuno abandonar logo todas as cautelas. Uma das já
citadas cronicazinhas, com a data de 13 de janeiro de 1861, contém estas palavras do
Santo, relativas a um sonho que se repetiu durante três noites seguidas:
«No primeiro dia, não quis dar importância, pois o Senhor o proíbe na Sagrada
Escritura. Mas nos dias seguintes, depois de ter feito várias experiências, depois de ter
verificado que as coisas se tinham passado precisamente assim, não pude então duvidar
da graça extraordinária que o Senhor me concedia, para proveito de todos os filhos do
Oratório. Sinto-me, por isso, na obrigação de vos dizer que o Senhor vos chama e vos
faz ouvir a sua voz e ai daqueles que lhe resistem!»
Apesar disto, humildemente, desconfiando de si, quis tomar todas as precauções; por
isso, no dia 15, tornamos a ler:
«Digo-vos aquilo que já vos disse; tive aquele sonho, mas por um lado não lhe queria
ligar importância, por outro, sendo o assunto muito importante, tive de examinar bem o
caso».
O exame consistiu em novo interrogatório dos jovens, cujo mísero estado vira no
sonho e que verificou estarem precisamente nas condições que lhe tinham sido reveladas.
Sete anos depois, em 30 de abril de 1868, voltou a falar disto da maneira seguinte:
«Meus caros jovens! Ontem à noite disse-vos que tinha qualquer coisa de feio para vos
contar. Tive um sonho e estava resolvido a nada vos dizer, seja porque podia ser um
sonho como todos os outros, que a fantasia nos apresenta durante o sono, seja porque
todas as vezes que o tenho contado a alguém, houve sempre qualquer observação. Mas
outro sonho veio obrigar-me a falar-vos do primeiro».
Neste outro sonho, como contou depois, a voz do personagem dissera-lhe: — Porque
não falas? — Não se pode acreditar que nisto como em muitas outras coisas D. Bosco
não tivesse sido prudente!
No entanto, o que dissemos até agora ajuda-nos a compreender uma confidência que
fez com ar grave e dando mostras de grande preocupação, em 1876, ao Pe. Júlio
Barberis:
«Quando penso na minha responsabilidade pela posição em que me encontro, tremo
dos pés à cabeça. As coisas que vejo acontecer são tais que colocam sobre mim uma
responsabilidade imensa. Que tremendas contas terei de dar a Deus de todas as graças
que nos concede para o bom andamento da nossa Pia Sociedade!»
Pode dizer-se que D. Bosco vê tudo e é conduzido pela mão da Virgem... A cada
passo e em todas as circunstâncias, eis a Virgem Santíssima!
Contava-os com simplicidade
Como contava D. Bosco os seus sonhos? Transparece bastante das citações acima, o
ânimo com que os contava; há, todavia, qualquer coisa a acrescentar.
«Relatava tudo com simplicidade, gravidade e afeto», como nos informa uma

143
testemunha180. Começava a narrativa quase a brincar, evitando tudo o que pudesse dar
a impressão de merecimento ou privilégio. Ao contar, intercalava frases de espírito, ou
brincava, para desviar a atenção dos ouvintes dos pontos de maior singularidade: não
faltavam ouvintes suficientemente perspicazes para notar e compreender.
Sempre com o fim de atenuar a impressão do extraordinário, dava nomes
insignificantes ao personagem que costumava acompanhá-lo, chamando-lhe: guia,
intérprete, ou, mais vagamente ainda, desconhecido; só quando discorria, tu a tu com os
íntimos, dava indicações menos imprecisas. Tinha uma grande habilidade em realçar tudo
o que podia redundar em sua humilhação.
Deste modo, contando um sonho que teve em 1861, depois de ter dito o grande
desgosto que sentia por os jovens do Oratório não ouvirem os seus conselhos,
correspondendo mal a tantos benefícios, continuava:
«Então o meu guia começou a censurar-me: Ora vê tu como és orgulhoso! Quem és
tu que pretendes converter, quando trabalhas? Lá porque amas os teus jovens, queres
que todos correspondam às tuas intenções! Parece que pensas que és mais do que o
divino Salvador, no amor das almas, em trabalhar e sofrer por elas! Como podes pensar
que a tua palavra seja mais eficaz do que a de Jesus? Como podes ter imaginado ter mais
caridade, mais cuidados com os jovens, do que aqueles que Jesus teve com os seus
apóstolos? Bem sabes que eles viviam continuamente com Ele, que eram cheios a todo o
instante de benefícios, que ouviam, dia e noite, os seus ensinamentos e os preceitos da
sua doutrina, que viam nos seus milagres, que deviam representar um vivo estímulo para
a santificação das suas vidas! Quanto fez e disse Jesus a Judas e este traiu-O e morreu
impenitente. Serás tu, porventura, mais do que os Apóstolos? Pois bem, os apóstolos
elegeram sete diáconos; eram apenas sete, escolhidos com todo o cuidado: apesar disso,
um prevaricou. E tu entre quinhentos, admiras-te do pequeno número que não
corresponde aos teus cuidados? Como és soberbo!»
E com humildade
Reduzir ao mínimo possível tudo o que pudesse suscitar a opinião de que se tratava de
casos sobrenaturais, humilhar-se, referindo-se à sua pessoa com tão fortes censuras, está
certo, mas a verdade tinha os seus direitos. Por isso, ele prevenia que se não
escarnecesse das coisas ouvidas e que cada qual fizesse para si as devidas aplicações.
Mas até estas exortações eram temperadas com humildade evangélica.
Queremos acreditar que não desagradará ao leitor que façamos outra citação um tanto
longa, mas prometemos que será a última. O sonho de 1861, que fez trazer à ribalta o
precedente, foi contado em três noites seguidas; ouçamos a última: «Agora que vos
contei todas estas coisas, podereis pensar:
– Quem sabe? D. Bosco é um homem extraordinário, alguma coisa de grande, um
santo, com certeza! Meus caros rapazes! Para evitar juízos loucos a meu respeito, deixo-
vos a todos plena liberdade de acreditar ou não nestas coisas, de lhes dar mais ou menos

144
importância; só vos peço que não escarneçais delas, quer falando uns com os outros,
quer falando com estranhos.
Quero, porém, dizer-vos que o Senhor tem muitos modos de manifestar aos homens a
sua vontade. Muitas vezes, serve-se dos instrumentos mais ineptos e indignos, como
quando se serviu da burra de Balaão e a fez falar e até de Balaão, falso profeta, que
predisse muitas coisas a respeito do Messias. Por isso, o mesmo pode acontecer comigo.
Digo-vos, portanto, que não olheis para as minhas obras para regular as vossas. Aquilo
que deveis fazer unicamente é olhar para o que eu vos digo, porque isto, pelo menos,
como espero, será sempre a vontade de Deus e redundará no bem das almas.
Relativamente ao que faço, nunca digais: – D. Bosco fez assim, portanto é bem. – Não.
Observai antes o que fiz e se for bem, imitai-o; se me virdes fazer alguma coisa mal, não
me imiteis».

Porém não dizia tudo


Não revelava em público tudo o que ouvia e via nos sonhos; algumas coisas referia-as,
em particular, a quem elas interessavam exclusivamente; outras, revelava-as àqueles que
gozando da sua intimidade, o interrogavam em segredo; outras guardava-as para si, por
lhe serem pessoalmente destinadas.
Com efeito, um dos cronistas informa-nos que sobre certos sonhos, pouco a pouco, se
ia ouvindo tanta coisa nova, que podia «duplicar ou triplicar a matéria», e que, para
quem quisesse sobre outros ainda recolher tudo, seriam precisos outros tantos volumes.
Para fazer uma ideia, voltando ao sonho de 1861, D. Bosco disse que naquelas três
noites tinha adquirido mais conhecimentos de teologia do que em todos os anos de
seminário, e que tinha intenção de escrever sobre essas questões teológicas, deixando «os
factos específicos» da terceira noite e dando só as teorias das duas primeiras.
De onde se deduz que, tendo as suas narrativas como escopo a edificação, o conforto,
o ensino dos outros ou sendo algumas um grito de alarme, ele fazia, para as contar em
público, uma prudente seleção de partes, para que o conjunto fosse de real proveito para
os ouvintes.
Efeitos dos sonhos
Os efeitos que derivam destas narrativas poderiam ser vistos por um cego. Sobretudo,
crescia progressivamente o horror ao pecado; como consequência, mais frequência de
confissões gerais, mais arrependimento, maior frequência na sagrada Comunhão: era,
numa palavra, para empregar a frase usada por D. Bosco em tais circunstâncias, a
bancarrota do demónio.
Há matéria mais que suficiente para subscrever o seguinte juízo do cónego que já
citámos:
«Para nós, que já não éramos crianças, nenhuma outra explicação se apresentava
razoável e plausível, senão a existência de dons extraordinários concedidos a D. Bosco

145
pelo Senhor».
Isto tanto mais quanto é certo que D. Bosco não provocava de qualquer modo, nem
desejava sonhos deste género; tinha-lhes até medo, porque sofria, como consequência,
graves perturbações físicas.
Muitas vezes até, mal tinha acabado a narrativa, nada recordava do que acabara de
dizer, coisas que costumam acontecer a pessoas que falam movidas por inspirações
sobrenaturais. Mas, além do muito que já temos exposto, apresentam-se-nos ainda dois
carateres notabilíssimos, que nunca permitirão ao psicólogo julgar os sonhos de D. Bosco
na categoria dos sonhos puramente naturais.
Caráter psicofísico dos mesmos
Um primeiro caráter está no elemento psicofísico. Nos sonhos naturais, impera e
domina a fantasia, não sujeita à razão. A condição normal para produzir o sono é o
cansaço.
O cansaço produz substâncias tóxicas para o cérebro, sem porém chegar à intoxicação
completa: a natureza providenciou para que tal não aconteça, fazendo que elas, chegando
a certo limite, se comportem como um mecanismo de interrupção e parem o aparelho
motor que consome a maior energia. Esta interrupção tira aos centros superiores do
sistema nervoso a energia psicofísica necessária para a atividade normal, tanto mais
quanto maior necessidade o indivíduo tem de sono. O pequeno resto de energia
psicofísica, que fica nos centros superiores, chega para a vitalidade do sonho; mas
ordinariamente é muito escassa para excitar eficazmente os centros motores, irradiando
dos centros sensoriais.
Ora, se se considera que D. Bosco, quando ia dormir, tinha sempre extrema
necessidade de sono, já temos uma razão para concluir que nele tanta vitalidade de
sonhos é humanamente inexplicável.

Atividade da fantasia
Mas há mais e melhor. O mecanismo interruptor que isola o aparelho motor, e a
diminuição de energia psicopática do sistema nervoso central influi sobre a atividade da
fantasia, causando dois fenómenos de irregularidade e de mudança repentina que,
durante o sono, todos temos ocasião de experimentar; como a insuficiência de energia
psicofísica torna impossível seguir durante muito tempo um motivo, basta qualquer
estímulo externo para dirigir para outra direção este resíduo de energia, de modo que
então toda a imagem do sonho se dissolve.
Por isso, geralmente, no sonho a atividade da fantasia não é dirigida por nenhuma
intenção positiva: deste modo, nos sonhos naturais não se costuma verificar nem ordem
racional de representação nem concatenação lógica de pensamento, mas salta-se de um
assunto para outro com repentinas mudanças, para bizarrias caindo no ridículo e no
extravagante181.

146
Ora é precisamente o contrário disto tudo que se passa com os sonhos de D. Bosco.
São representações simbólicas, semelhantes àquela que se apresentou a S. Pedro182 na
visão extática do lençol, cheio de animais puros e impuros.
A tessitura é mais ou menos complicada, prolongando-se o desenvolvimento bastante
tempo e por vezes com distinção de atos, como nos verdadeiros dramas; além de que, e
nisto está a singularidade, se pode verificar nas imagens vistas uma sequência com razão
de ser e nas palavras ouvidas um valor significativo que forma, com as imagens, um
todo.
Cada sonho gira à roda de uma ideia central e é dirigida a um escopo bem
determinado; a ação inteira desenvolve-se progressiva e ordenadamente como nas
melhores composições dramáticas.
Não será preciso dizer que, embora as formas sensíveis se revistam de um simbolismo
adaptado à mentalidade comum, nunca nelas se introduzem elementos extravagantes,
vulgares ou frívolos ou de qualquer modo pouco de acordo com um fim santo. Seria
agradável exemplificar; mas a estrutura do nosso trabalho não permite.
Seu caráter profético
Um segundo caráter dos sonhos de D. Bosco é o elemento profético.
Porventura a nossa fantasia, quando no sono livre do freio da razão combina e mistura
elementos e imagens, poderá prever o futuro? Nem sequer o consegue, ajudada pela
inteligência! Multiplicando observações sobre factos e fenómenos próximos podem
pressagiar-se efeitos mais ou menos remotos, mas, se falta um real ponto de apoio, é vão
todo o esforço para sondar o futuro: quanto mais na inconsciência do sono!
Entretanto, os sonhos de D. Bosco não continham apenas vagos e sibilinos presságios,
mas revelações claras e nítidas de acontecimentos ocultos na profundidade do futuro.
Para dizer a verdade, o espírito profético habitava em D. Bosco, tantas são as
predições que realizou de coisas livres e contingentes, que se verificaram antes e depois
da sua morte, no termo e no modo por ele anunciados. O já várias vezes citado cónego
Ballesio escreve:
«Isto em D. Bosco não era um repentino relâmpago como uma rápida chispa da sua
inteligência, mas uma condição ordinária da sua mente, de modo que profetizava
rezando, conversando, brincando e profetizava quase sem dar por isso, nem ele nem os
que o ouviam». Profetizava também sonhando.
Nos seus sonhos, o conteúdo profético, quando não era tudo, era a parte relevante.
Deste modo, quantos anúncios de morte não deu com antecedência, por ter sido avisado
em sonho! Nunca pronunciava nomes mas precisava as datas; do nome, por vezes,
revelava a inicial, e outras comunicava a alguém sob segredo.
Pelo cumprimento depois ficavam contentes os bons, quase todos, habituados como
estavam, a acolher com veneração tudo o que dizia e ficavam confundidos os

147
desconfiados que, embora rari nantes in gurgite vasto, todavia com a sua dificuldade
em acreditar garantiam então e agora a historicidade dos vaticínios.
Sobre estas coisas não iremos recolher episódios roubando assunto aos biógrafos; mas
vamos recolher das páginas envelhecidas algumas palavras de D. Bosco, sobre o caso.
Um dos compiladores de pequenas crónicas domésticas, em 17 de fevereiro de 1861,
deixou-nos esta observação alusiva a profecias de sonhos: «Se estas coisas, que se fazem
e se dizem na nossa Casa, que evidentemente são singulares e devem ficar entre nós, se
os do mundo as soubessem haviam de pensar que eram fábulas. Mas nós temos por
máxima que, quando uma coisa resulta em bem para as almas, certamente vem de Deus,
pois não pode de modo algum vir do demónio» 183.
Guerra do demónio
Por outro lado, o inimigo de Deus e das almas tinha-se reservado um campo diferente
de onde desferia os seus assaltos contra D. Bosco.
Poulain184, que é autoridade em matéria de mística, tem esta observação
oportuníssima e que vem precisamente ao nosso caso: «Da vida dos Santos parece
resultar que, se sofrem graves obsessões, isto acontece quase sempre quando chegaram
ao período de êxtase e apenas no período das revelações e visões divinas, quer essas
graças permaneçam, quer sejam temporariamente suspensas. À ação extraordinária de
Deus, faz então contraste a ação extraordinária dos demónios». Também para os Santos
da Igreja militante a terra é campo de batalha.
Possuímos boletins oficiais da guerra travada pelo demónio contra D. Bosco, redigidos
durante uma primeira fase; isto nos basta para fazer ideia de toda a campanha que durou
três anos.
O demónio exercia as suas hostilidades contra o Servo de Deus especialmente não o
deixando dormir de noite. Algumas vezes, um vozeirão aos ouvidos deixava-o atordoado;
ora um como vento de temporal o investia; ao mesmo tempo, um remexer em todos os
cantos, uma confusão de papéis, um desordenar de livros. Algumas noites, depois de ter
corrigido as provas do seu opúsculo O Poder das trevas, colocava-as sobre a
escrivaninha; mas, quando se levantava de manhã, ou as encontrava espalhadas pelo
chão ou até não as encontrava. Da salamandra apagada soltavam-se chamas.
Mal se tinha deitado, uma mão misteriosa repuxava-lhe os cobertores até aos pés;
colocando-os de novo no seu lugar, outra vez os sentia deslizar. Acendia a luz e tudo
parava, para logo recomeçar no escuro; uma vez, o lume foi apagado por um poderoso
sopro de desconhecida procedência. Quando estava para pegar no sono, começava a
dança da cabeceira sob a cabeça. O sinal da cruz e algumas orações e tudo voltava ao
sossego; mas, logo que adormecia, começava a dança do leito. A porta gemia como sob a
ação de um vento impetuoso. Rumores espantosos sobre o quarto faziam pensar em
muitas rodas de carros a correr; lá também se faziam ouvir altíssimos gritos.

148
Uma noite, a porta abre-se e penetra no quarto um horrível monstro de fauces
abertas, que se precipita sobre ele, mas que é posto em fuga pelo sinal da cruz.
Um sacerdote muito corajoso quis ficar de vela durante a noite, mas, à meia-noite,
fugiu aterrorizado por ruídos infernais.
Dois clérigos ofereceram-se para juntos repetirem a prova, ficando na biblioteca
contígua, mas também eles tiveram de bater em retirada, tremendo como varas verdes.
O pobre D. Bosco, para ter paz, foi ter com o Bispo de Ivreia; mas, depois de uma
noite de paz, o inimigo voltou à carga e as coisas foram ainda piores.
Isto basta para amostra da terrível luta que teve de sustentar com o espírito do mal;
falando dela, em 1865, D. Bosco aludiu ao facto de ter finalmente encontrado remédio
de grande eficácia, mas não disse mais nada. Talvez fosse qualquer penitência
extraordinária.
Falemos um pouco de coisas extraordinárias
Os sonhos sobrenaturais pertencem às espécies de visões a que os místicos chamam
imaginativas, porque se desenvolvem em imagens impressas na fantasia por uma causa
superior; mas visões destas podem produzir-se também durante a vigília.
Tomou-se o costume de qualificar sob o nome de sonhos de D. Bosco visões das duas
espécies, embora, apesar da sua estreita analogia, difiram muito umas das outras. Deste
modo, a visão por imagens no estado de vigília parece que nunca pode ser acompanhada
de qualquer grau de êxtase, daquele êxtase em que há maior ou menor grau de abstração
dos sentidos.
Em 1870, o Servo de Deus viu, deste modo, uma série complexa de acontecimentos
públicos, cujo curso parece já completamente desenvolvido. O exórdio do texto, que
escreveu e enviou a Pio IX, parece confirmar esta opinião; com efeito, é assim que se
exprime:
«Na vigília da Epifania do corrente ano de 1870, desapareceram (dos meus olhos)
todos os objetos e encontrei-me ocupado pela consideração de coisas sobrenaturais. Foi
coisa de breves instantes, mas vi muito. Embora de forma, de aparências sensíveis, só
com grande dificuldade se pode comunicar aos outros com os sinais externos e sensíveis.
Procuro dar uma ideia no que vai seguir-se, em que a palavra de Deus é acomodada à
palavra do homem».
Viu do mesmo modo, diante de si e em numerosas circunstâncias, o jovem Luís Colle
de Toulon, que conhecera pouco antes de voar para o céu, com escassos dezassete anos.
Entre 1881 e 85, o jovem apareceu-lhe enquanto confessava e enquanto estava a
celebrar, quando distribuía a Comunhão e uma vez, até, na estação de Orte, enquanto
esperou quatro horas pelo comboio. Estas aparições eram sempre luminosas e alegres,
umas vezes acompanhadas de colóquios, outras não. Teve uma visão da mesma
natureza, talvez em agosto de 1887, em Lanzo Torinese.
Uma Filha de Maria Auxiliadora, desejosa de receber a bênção do Santo, mas cansada

149
de esperar na antecâmara, abriu levemente a porta entreaberta do gabinete de D. Bosco e
viu o bom Pai numa atitude de quem estava fora de si e a escutar. A face estava
transfigurada de viva e branca luz; a expressão suave e tranquila; os braços abertos e
elevados para o alto e a cabeça acenando, de vez em quando, em concordância.
– Viva Jesus! Padre, posso entrar? – disse ela repetidas vezes.
Ele nada respondeu. Finalmente, a cena que durara mais de dez minutos, terminou por
um sinal da cruz e com uma inclinação reverencial indescritível. É de notar que naquele
ano D. Bosco não conseguia estar de pé sem a ajuda do braço de alguém, andando
sempre curvo, mas durante todo aquele tempo esteve com o corpo ereto.
Além destas visões por imagens, conhecem-se ainda duas outras espécies de visões,
uma inferior à precedente, outra superior.

Visões corpóreas
A inferior é a chamada sensível, corporal, ocular; nelas os sentidos aprendem coisas
sensíveis externas, que não poderiam ver nem compreender, sem auxílio sobrenatural.
D. Bosco teve uma visão deste género, quando lhe foi revelado o futuro do jovem
Cagliero, gravemente doente.
Ao entrar no quarto, para o visitar e preparar para bem morrer, teve duas aparições
sucessivas, que duraram apenas um instante.
Na primeira, uma pomba luminosíssima, com um raminho de oliveira no bico que,
depois de vários giros no quarto, pousou sobre o moribundo, tocando-lhe com o ramo
nos lábios e deixando-lho cair sobre a cabeça: presságio do apostolado missionário e da
plenitude do sacerdócio. Depois uma multidão de selvagens, de formas novas, curvos e
ansiosos sobre o rapazinho, e sobressaindo entre eles dois belos tipos caraterísticos e de
raça diversa, que os acontecimentos deram depois a saber serem representantes dos
habitantes da Patagónia e dos habitantes da ilha do Fogo.

Visões intelectuais
As visões da outra espécie, que é a mais elevada de todas, são conhecidas sob a
designação de intelectuais; nelas a mente tem a intuição de verdades espirituais, sem o
concurso de imagens sensíveis.
Terá D. Bosco tido visões destas? Não podemos afirmar com segurança. Mas quem
poderá adivinhar toda a riqueza de carismas espirituais que enriqueceram a alma de D.
Bosco? A sua espontânea naturalidade em tudo e a sua habitual simplicidade de vida
pareciam feitas para ocultar as secretas operações da graça, sempre que o conhecimento
destas não servisse para proveito do próximo.
De qualquer modo, os casos de levitação e irradiações luminosas não reforçariam a
hipótese de que nem sequer estas visões de ordem superior lhe faltaram?
Em 1879, o Servo de Deus, quando celebrava Missa, na sua capela privada, foi visto

150
em três dias diferentes irradiar da face uma luz que iluminava todo o Oratório, e depois
desprender-se totalmente do supedâneo, elevando-se pouco a pouco e ficar suspenso no
ar, durante dez minutos. O Pe. Lemoyne viu durante três noites seguidas o rosto do
Santo acender-se gradualmente até adquirir uma transparência luminosa; toda a face
emanava um esplendor forte e suave. O Reitor-Mor, Pe. Rinaldi, contou ao autor que viu
imprevistamente em três encontros, aos dez, aos vinte e dois e aos trinta anos,
iluminarem-se os olhos de D. Bosco e irradiarem luz e depois esta luminosidade
estender-se a toda a pessoa de D. Bosco, formando-lhe uma auréola fulgurante, que
vencia a luz natural e que brilhava pelo modo do nimbo dos santos. A agilidade e o
esplendor são dois belos dotes reservados aos corpos gloriosos. Se cá na terra se
descobrem antecipações admiráveis destes dotes em corpos vivos, não será permitido
pensar que tais fenómenos aconteçam, quando as almas, quase beatificadas, gozam de
uma visão, semelhante, pelo menos de longe, à futura e intuitiva visão beatífica?
Taumaturgo
A notícia destes últimos favores celestes não teve tanta ressonância, como a fama de
taumaturgo, que acompanhou o seu nome e foi aumentando até à morte. Sobre o dom
dos milagres não é nossa intenção demorar-nos: entretanto, uma alusão fugaz, que
corresponda ao nosso escopo, não parecerá certamente deslocada antes de acabar este
capítulo.
De um Memorial que D. Bosco já velho, em 1884, foi escrevendo com mão cansada
e coração aberto, para avisos aos seus filhos, recortaremos alguns períodos que vêm ao
nosso caso. O bom Pai exprime nele sentimentos de cuja existência, mesmo que nada
dissesse, estavam mais do que convencidos todos aqueles que tinham vivido a seu lado;
mas para nós hoje, à distância, essas declarações são utilíssimas para bem conhecer os
seus pensamentos íntimos na plenitude dos dons sobrenaturais que lhe inundavam o
espírito e transbordavam, ​fazendo-o ​aclamar como grande taumaturgo. Com todo o
candor ele escreve assim:
«Recomendo insistentemente a todos os meus filhos que estejam vigilantes quanto ao
escrever como ao falar; que não afirmem que D. Bosco obteve graças extraordinárias de
Deus e tenha, de qualquer modo, feito milagres. Quem o fizesse cometeria um erro
prejudicial; embora a bondade de Deus tenha sido generosa comigo, contudo eu nunca
tive a pretensão de conhecer ou operar coisas sobrenaturais. Nada mais fiz do que rezar
e pedir a almas boas que rezassem também. Sempre senti a eficácia da oração comum
dos nossos jovens, e Deus e sua santíssima Mãe piedosamente vieram sempre em nosso
socorro nas necessidades. Isto verificou-se de modo especial, sempre que precisávamos
de acudir aos nossos jovens pobres e abandonados e, mais ainda, quando as suas almas
corriam perigo».
Concluiremos fazendo nossa a observação do advogado da Causa de que o dom dos
milagres confirma luminosamente a sobrenaturalidade das comunicações185.

151
Capítulo XVIII
O DOM DA ORAÇÃO
Os fenómenos extraordinários, que até agora descrevemos, são admiráveis sinais
exteriores, que manifestam a presença de Deus na alma. Deus vive em nós, quando
estamos unidos a Ele pela graça; mas, em certas almas, Ele manifesta-se de modo
inefável, que chega à própria essência do espírito, segundo uma expressão usada pelos
místicos. Então acontece isto: enquanto as forças superiores da inteligência e da vontade
ficam como que absorvidas pela luz e pelas operações divinas, os sentidos fraquejam e
não ficam em condições de operar, como precisamente acontece nos êxtases.
Nada disto se verificava na humanidade de Jesus e Maria durante a sua vida terrena;
porque, embora gozassem habitualmente a perceção experimental da vida sobrenatural,
por motivo da sua perfeita integridade, que envolvia a plena sujeição dos sentidos à
razão, não sofriam o fraquejar das potências inferiores.
Dom Bosco místico?
Agora perguntamos: sendo verdade que em D. Bosco se verificaram manifestações
externas que costumam acompanhar a vida mística186, poder-se-á, sem mais, afirmar
que ele foi elevado à união mística? E em que grau? Por outras palavras, como isto se
atua mediante a contemplação infusa, será possível chegar a descobrir se e em que
medida este dom da contemplação infusa adornou a alma excelsa de D. Bosco?
A priori, sobre a realização do caso, não parecerá temerário responder
afirmativamente. Com efeito, Bento XIV187, baseando-se na história, julgou poder
afirmar que «quase todos os santos e especialmente os Fundadores de Ordens religiosas
receberam visões e revelações divinas» e acrescentou: «Sem dúvida, Deus fala
familiarmente com os seus amigos e favorece sobretudo aqueles que escolheu para
grandes obras».
Poulain188, depois de ter afirmado que, de ordinário, os Santos canonizados, que
chegaram portanto à heroicidade da virtude, foram favorecidos pela união mística,
observa que, mesmo quando algum parece não a ter tido, não se pode provar que houve
verdadeira privação, mas devemos antes lamentar que faltam documentos para a sua
prova histórica.
Felizmente, as precauções de D. Bosco não conseguiram subtrair-nos, como já vimos,
todas as manifestações exteriores da sua vida mística, embora nos faltem argumentos a
posteriori.
Em que grau?
Gostaríamos, porém, de ter igual certeza e segurança para poder determinar o grau da

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sua união mística com Deus. Depois de cuidadoso exame, prescindindo de especiais
momentos, em que a intimidade pôde ser maior, julgamos poder demonstrar-se que
possuiu habitualmente aquela graça de oração que é chamada por S. Teresa «união
completa» e por Poulain «união plena», e por outros, especialmente italianos, como
Scaramelli e S. Afonso de Ligório, «união simples».
S. Afonso descreve-a assim189: «Na união simples, as potências estão suspensas, mas
não os sentidos corpóreos, embora estes estejam muito impedidos nas suas operações».
Por consequência, este dom de oração apresenta duas caraterísticas: a alma está
completamente absorvida no objeto divino, sem que outro pensamento a distraia; não
tem, numa palavra, distorções; os sentidos, porém, continuam mais ou menos em
condições de agir, não sendo privados de comunicar com o mundo exterior, de modo que
pode agir, ver, ouvir, falar, caminhar e, por consequência, sair livremente do estado de
oração.
Autorizados escritores místicos190, recolhendo em S. Tomás as noções fundamentais
sobre esta delicada matéria, enumeram e descrevem sete efeitos da união simples; nós,
para não nos alongar, vamos passá-los em resenha, verificando a sua presença, no caso
de D. Bosco.
Efeitos da união simples em Dom Bosco
A natureza do assunto aconselha-nos a não avançar mais, sem estabelecer um
conceito que o leitor já poderia ter formado por si, pelo menos vagamente, por aquilo
que temos vindo expondo.
A alma de D. Bosco gozava, digamos sem rodeios, de uma união contínua com Deus;
parece, com efeito, ter sido este o seu dom: nunca se distrair do pensamento amoroso de
Deus, por muitas, graves e contínuas que fossem as suas ocupações e preocupações.
Vejamos no Summarium da Positio super virtutibus o título VII De heroica caritate
in Deum, respigando as expressões mais salientes, sobre este tema, de uns quinze
testemunhos, todos de grande peso, porque são de pessoas que, falando de D. Bosco,
têm o direito de se apropriar do comovente prólogo de S. João: Quod fuit ab initio, quod
audivimus, quod vidimus oculis ​nostris, quod perspeximus et manus nostrae
contrectaverunt..., et testamur et annuntiamus.
Dizem seus sucessores
Os primeiros que nos dão o seu testemunho são os três sucessores imediatos de D.
Bosco. O Pe. Rua, cujo processo de beatificação está em curso: «Aquilo que pude
continuamente descobrir foi a sua contínua união com Deus... Os sentimentos de amor
de Deus eram manifestados por ele com tanta espontaneidade, que se via que nasciam de
uma mente e de um coração sempre mergulhados na contemplação de Deus e dos seus
atributos».
O Pe. Paulo Albera191: «Era tão grande a união do Venerável com Deus, que parecia

153
receber d’Ele os conselhos e encorajamentos que dava aos seus Filhos».
O Pe. Filipe Rinaldi192: «É minha íntima convicção que o Venerável foi precisamente
um homem de Deus, continuamente unido a Ele pela oração».
Ao lado dos três Reitores-Mores fale o Pe. João Francesia: «Sempre vi que o
Venerável tinha grande facilidade de se recolher no Senhor».
Ouçamos agora sete Salesianos, notáveis por virtudes religiosas, por cultura, pelos
cargos ou até pelas três coisas ao mesmo tempo. Os seus depoimentos dizem-nos que a
vida de D. Bosco deu sempre a impressão de «uma constante união com Deus», de
modo que, «em qualquer circunstância ou momento que se interrogasse, mesmo no meio
dos assuntos mais áridos e distrativos, respondia sempre como um homem absorto na
meditação»; «a caridade para com Deus resplandecia na sua união com Ele»; «vivia
sempre na presença de Deus» e «os seus pensamentos estavam sempre dirigidos para
Ele»; «O Venerável sempre mostrou um verdadeiro e profundo espírito de oração e de
união com Deus, como era possível verificar sempre que alguém se aproximava dele»;
«que tinha uma perfeita união de espírito com Deus».
E dizem dois prelados
Falem agora dois Prelados. Mons. Tasso, dos Sacerdotes das Missões, Bispo de
Aosta, aluno de D. Bosco de 1861 a 1865, afirma: «O Venerável ardia sempre na maior
caridade para com Deus, e estou convencido de que vivia em contínua união com Deus.
Lembro-me de que entre nós, rapazes, esta era a persuasão geral; todos pensavam que o
Venerável falava diretamente com o Senhor, especialmente quando nos dava conselhos
sobre o nosso futuro».
O Cardeal Cagliero afirma: «O amor divino... transparecia-lhe do rosto, de toda a
pessoa, de todas as palavras, que saíam do seu coração, quando falava no púlpito, no
confessionário, em conferências públicas ou particulares, como nos colóquios familiares.
Este amor foi o único desejo, a respiração, a ambição de toda a sua vida. Milhares de
vezes o ouvi repetir: — Seja tudo pelo Senhor e pela sua glória! — ...Estava sempre em
íntima união com Deus, quando dava audiência, quando estava sentado à sua
escrivaninha, atento ao trabalho, quando se entretinha conosco no recreio, quando rezava
com o fervor de anjo diante do Sacramento do Altar, quando celebrava...
Fosse qual fosse o momento em que nos aproximássemos dele, sempre nos acolhia
com requintada caridade e com serena amabilidade, como se saísse da mais ardente
oração ou da presença divina...
Volto a repetir o que me disse o Cardeal Alimonda, que D. Bosco estava sempre em
íntima união com Deus». Quantos «sempre» encontramos nestes depoimentos!
O eloquente purpurado que, eleito arcebispo de Turim, tanto consolou os últimos seis
anos de D. Bosco, repetiu o conceito expresso a Cagliero no seu discurso fúnebre para a
solene comemoração do trigésimo dia, dizendo sem mais que D. Bosco era «a união
contínua com Deus».

154
… e Pio XI
Coroemos estes testemunhos com uma autorizadíssima observação de Pio XI. O
grande Pontífice, que gostava de recordar publicamente e com viva complacência que
tinha convivido com D. Bosco, afirmou193 ter notado «em todas as suas ações mesmo
insignificantes um espírito admirável de recolhimento verdadeiro, de tranquilidade e
calma, que não era apenas calma de silêncio, mas a que é acompanhada do verdadeiro
espírito de união com Deus, de modo a deixar adivinhar uma contínua atenção a
qualquer coisa que a sua alma via, com a qual o seu coração se ocupava: a presença de
Deus, a união com Deus».
Em conclusão
Para terminar, decalcaremos a afirmação do antigo cronista que a respeito de S.
Boaventura diz que fazia de cada verdade dos seus escritos uma oração; do mesmo
modo, podemos dizer isto de todos os atos da vida de D. Bosco: fizesse o que fizesse,
era uma oração o que fazia.
Este longo desfilar de testemunhos abrevia-nos muito o restante caminho; à
sagacidade dos leitores não será difícil encontrar oportunas confirmações segundo iremos
delineando os sete efeitos da união simples, a que acima aludimos.
A liquefação
O primeiro efeito da oração de união simples é o único cujas provas são quase
inatingíveis. Podemos designá-lo pelo nome de liquefação, vocábulo sugerido pela frase
bíblica194: A alma liquefez-se logo que o Dileto falou. Poder-se-á dizer uma fusão do
coração por causa do ardentíssimo fogo da caridade ou, sem metáfora, um dulcíssimo
sentimento de amor divino, que enche a alma de alegria inexprimível até produzir no
corpo um místico langor, que por vezes faz desmaiar.

Teve momentos desses?


Verificaram-se fenómenos sensíveis desta natureza em D. Bosco? Vamos responder
com duas observações de caráter geral e com três factos especiais.
A primeira observação é a seguinte: entre os frutos da contemplação, um dos
principais é a humildade. O contemplativo que conhece melhor do que qualquer outro a
grandeza de Deus, tem maior sentimento do dom divino, tem quase medo de que o ar o
saiba, e sem impulsiva necessidade de pedir conselho, não se abre com ninguém, e
emprega todos os meios para conter dentro de si esta inundação de amor. Mas a sua
vontade não pode tudo e o temperamento tem também a sua parte. A graça age sobre a
natureza sem a suprimir. Já dissemos o que se passava com Comollo depois da
Comunhão. Se não desse escape à abundância dos seus sentimentos, rebentaria.
D. Bosco, pelo contrário, conseguia reprimir o ímpeto do seu fervor, e queria que o
amigo fizesse o mesmo; mas a resistência física do amigo não era a sua.

155
Vejamos agora a segunda observação: D. Bosco era senhor dos seus nervos; tinha
uma têmpera de aço e para o dizer com linguagem menos profana, D. Bosco era homem
a quem se podiam aplicar as palavras do Salmista195: Anima mea in manibus meis
semper, tinha ao serviço da sua humildade uma vontade dominadora das energias
inferiores e, portanto, capaz de comprimir a veemência dos seus sentimentos, de modo
que se não exteriorizassem. Por isso, a única ausência de fenómenos externos, como
aqueles a que acima aludimos, não são argumento decisivo para lhe negar o dom da
contemplação infusa.
Três factos dizem que sim
Por outro lado, como se explica que uma pessoa, trespassada frequentemente por
dores capazes de fazer sangrar qualquer coração, se mostre precisamente então mais
alegre do que de costume? Podem as aflições produzir alegria? A dor nos corações
elevados à contemplação transforma-se misticamente em amor, e o amor é que dilata os
corações. Este o primeiro dos três factos.
O segundo é que, nos últimos anos, D. Bosco, depois de ter passado a manhã a
receber visitantes, costumava, onde quer que se encontrasse, estar pelo menos, uma hora
da parte de tarde no seu quarto, onde os íntimos o surpreendiam sempre sentado à
escrivaninha, de tronco direito, mãos juntas, em atitude de grande doçura, todo absorto
na consideração das coisas celestes196. Foi precisamente nessa hora que o viu extasiado
a irmã de quem falámos há pouco, no capítulo anterior.
Igualmente nos últimos anos, – estamos no terceiro facto –, quando pela falta de
forças o sentimento o dominava, ao celebrar, umas vezes enternecia-se visivelmente em
todo o seu ser, ou era invadido por um verdadeiro frémito, sobretudo no momento da
elevação197.
Confirmação
Vem a propósito referir aqui, para confirmação e melhor compreensão, um
testemunho do Pe. Cerruti, no processo informativo. Falando dos dois últimos anos do
nosso Santo, ele depôs198:
«Quando as dores de cabeça, a opressão do peito e os olhos quase cegos lhe não
permitiam já ocupar-se, era doloroso e ao mesmo tempo reconfortante vê-lo passar
longas horas sentado no seu pobre sofá, num lugar a meia-luz, porque os seus olhos não
suportavam a claridade, mas sempre tranquilo e sorridente, com o terço na mão, os
lábios articulando jaculatórias e as mãos que se levantavam, de tempos a tempos, para
manifestar na sua muda linguagem aquela união e inteira conformidade com a vontade de
Deus, que, pelo grande cansaço, não podia exteriorizar por palavras.
Quanto a mim, estou intimamente persuadido que a sua vida, nos últimos anos
sobretudo, foi uma oração e união contínua com Deus. Desta mesma opinião são outras
pessoas. Sempre que se entrava no seu quarto para lhe falar, sempre se encontrava como

156
quem está entregue à mais profunda meditação, embora sem dar nenhum sinal exterior,
pois o seu rosto estava sempre sereno e alegre e eram sempre de fé, paz e caridade as
palavras que saíam da sua boca».

O dom de lágrimas
O segundo efeito da oração passiva é uma suave necessidade de lágrimas. Na íntima
união da alma com Deus, o amoroso conhecimento da vontade divina acorda doces e
vivas emoções do coração, que, não cabendo em si, pede desafogo aos olhos, segundo
uma imagem de Santa Catarina de Sena199.
D. Bosco teve o dom das lágrimas, que muitas vezes não conseguia conter. Na sua
última viagem a Roma, ao celebrar na igreja do Sagrado Coração, mais de quinze vezes
irrompeu em pranto, de modo que o sacerdote que o assistia procurava distraí-lo, para
que pudesse terminar. O pranto invadiu-o de novo depois, com extraordinária emoção
dos muitos que o circundavam.
Durante toda a sua vida sacerdotal, pregando sobre certos temas, para evitar as
lágrimas, pensava de propósito em coisas ridículas, mas era debalde200. Estas suas
lágrimas, porém, faziam muito bem a quem as testemunhava, motivo que não devia ser
estranho aos desígnios da Providência, concedendo-lhas tão difíceis de conter. Já demos
noutro lugar mais ampla notícia sobre este dom201; não vale a pena repetir agora o que
dissemos.
A presença de Deus
O terceiro efeito é sentir a presença de Deus com uma certeza que exclui até a
possibilidade de dúvida. S. Teresa202 descreve esse efeito nestes termos: «Deus vem ao
íntimo da alma de tal modo que ela, reentrando em si, não pode de nenhum modo
duvidar de que está em Deus e de que Deus está nela; esta verdade parece tão
solidamente impressa, que mesmo que passassem anos, sem ser de novo elevada àquele
estado, não seria possível nem esquecer o favor recebido, nem duvidar da sua
realidade».
D. Bosco estava cheio do pensamento de Deus: demonstrá-lo aqui seria repetir coisas
já ditas. Daqui derivava a fascinação de que fala Mons. Tasso203, quando diz:
«Bastava estar um pouco com ele, para descobrir que ele era verdadeiramente o homo
Dei; o sobrenatural transparecia de todas as suas palavras e de toda a sua pessoa. Isto ​-
verifiquei-o eu por experiência».
O sofrer por Deus
Quarto efeito: força, coragem, inalterável paciência em tudo sofrer por amor de Deus.
Estas almas são de tal modo inflamadas no amor divino, que ardem de desejo de sofrer
pelo Senhor; este desejo vai sempre crescendo, juntamente com o desejo de ser sempre

157
suas.
D. Bosco foi destas almas. É verdade que muitas das precedentes páginas cantam a
sua magnanimidade sobre-humana, no meio dos sofrimentos: todavia, dois novos
testemunhos queremos arquivar. O primeiro refere-se às dores morais. O Venerável Pe.
Rua204, enumerando-as, prossegue:
«Foi sempre admirável a sua paciência, a sua resignação, a sua coragem. Parecia que
as dificuldades e tribulações lhe infundiam forças de tal modo que, embora magoado,
sobretudo se as dificuldades lhe vinham das autoridades eclesiásticas, contudo não perdia
nunca a serenidade; parecia até que precisamente naqueles tempos de tribulação, adquiria
maior coragem; pois era mais alegre e engraçado nessas circunstâncias do que
habitualmente».
Relativamente às dores físicas, já por nós descritas e muito graves, o historiador Pe.
Lemoyne atesta205: «Nunca pedia a sua cura e deste modo tornavam-se voluntários os
seus sofrimentos. Nunca se lamentou ou se impacientou e continuava a ​trabalhar».
O honrar a Deus
O quinto efeito é um desejo ardente de louvar a Deus. A alma, inflamada de amor
divino, quereria ser toda voz para louvar ao Senhor; quereria que Ele fosse conhecido,
louvado e glorificado universalmente.
Sabe perfeitamente que Deus é maior omni laude; entretanto, pensando na sua
imensa grandeza e bondade, nada o alegra tanto como honrar, adorar e agradecer ao
Senhor.
O grande serafim de Assis, para apagar este desejo ardente, chamava em seu auxílio,
com ímpetos de caridade inflamada, todas as criaturas, mesmo as irracionais, as
inanimadas, as imaginárias, para que todas se unissem e com ele louvassem ao Senhor,
seu Criador. Mas na Igreja, a unidade anda junta com a variedade, como diz S. Francisco
de Sales206. Sobre o infalível fundo de ouro da caridade – «tudo é amor, no amor, pelo
amor e de amor no seio da Igreja» – se desenvolve a policromia admirável dos Santos.
D. Bosco, alma tão enamorada de Deus, tinha três modos seus de convidar e incitar
os seus a louvar a Deus: punha a mais escrupulosa diligência em tudo o que dizia respeito
ao decoro do culto, falava com unção de Deus e das coisas divinas a todos aqueles que
mesmo de fugida se aproximassem dele, e sacrificava-se com zelo invencível em
promover a glória divina.
Estas três coisas, especialmente a última, que tudo abraça, deram-nos tão copiosa
matéria que, se se quisesse prescindir dela, bem pouco ficaria do presente trabalho.
Contudo, o que dissemos até agora perante um largo tratado histórico não passa de um
pobre e informe esboço ao lado do quadro.
O amor ao próximo

158
O sexto efeito é o grande desejo de ajudar o próximo. A alma que vive em Deus,
consegue muitas vezes ser útil ao ​próximo sem dar por isso, porque no ato de acolher,
consolar ou socorrer, – que são, segundo S. Tomás207, os três modos de socorrer os
necessitados – recebe misteriosamente do Alto auxílios que lhe tornam a ação eficaz.
Dizer D. Bosco é dizer caridade: caridade inexaurível em tratar com o próximo,
caridade inefável em aliviar os aflitos e confortar os moribundos, caridade heroica em
procurar os meios de fazer caridade. Por isso, o mundo ama D. Bosco: nos credidimus
caritati 208.
É agradável sobre esta caridade ler o pensamento sintético daquele que foi o alter-ego
de D. Bosco e que com ele suportou longos anos pondus diei et aestus: «A sua vida foi
gasta no exercício da caridade. A sua caridade, em parte, pode dizer-se que o procedeu
como dom especial da divina vontade e depois foi crescendo e aperfeiçoando-se à
medida que avançavam os anos... Ele via no seu próximo a obra de Deus e o próprio
Deus no próximo, via em cada homem um irmão de Jesus Cristo, e por isso amava os
homens por amor de Deus e empregava todas as suas solicitudes sem se poupar para
atrair todos para Deus. Não era simplesmente natural simpatia, era amor de Deus, a
caridade de Jesus Cristo, que o estimulava a dar-se todo ao próximo» 209.
A prática das virtudes
O sétimo e último efeito da oração de união simples, e o mais admirável num pobre
filho de Adão é a prática habitual das virtudes teologais, cardiais e morais em grau
heroico, numa medida que por intensidade e constância excede os limites comummente
próprios dos homens virtuosos.
Deus, descendo a tão grande largueza de dons para com uma alma, ao enriquecê-la de
todas as virtudes, quer que toda a Igreja aproveite, recebendo edificação e honra; o que
se segue como consequência do heroísmo no exercício das virtudes ​cristãs.
Em semelhante estado, pela chuva superabundante de graças celestes, a alma nada
mais tem que fazer senão cooperar mediante o simples consentimento. Nem há perigo de
que a alma se orgulhe com isto, quase esquecida do seu ser; antes, quanto mais se eleva
no conhecimento amoroso de Deus, tanto mais se humilha e aprofunda no próprio nada.
Deste modo, crescendo em humildade, cresce em graça e cresce ao mesmo tempo no
impulso entusiástico e visibilíssimo para todas as virtudes, sem exceção de nenhuma.
Sobre isto, há uma observação notável de Poulain, que escreve210: «Deus não vem
só, à alma. A sua ação santificadora é tanto maior e mais sensível, quanto mais alta a
oração da alma. Esta, impregnando-se de Deus na união mística, sente-se ao mesmo
tempo, sem saber como, cumulada de amor, de humildade e de espírito de sacrifício... O
próprio Deus lhe dá ocasião de exercitar-se, mandando-lhe as suas provas: tentações,
doenças, maus resultados, injustiças, desprezo».
Provas de amor

159
Empreender agora uma discussão sobre a heroicidade das virtudes de D. Bosco,
depois de a Igreja se ter pronunciado, seria chover no molhado. Uma nota, porém,
merece ser posta em relevo: flui espontânea do último período acima citado. A vida
inteira de D. Bosco sofreu a variada e ininterrupta ação da intervenção divina, que o
autor nos assinala. Atentemos agora nos ensinamentos de S. Paulo, quando escreve211:
O Senhor usa a vara com todo o filho que reconhece como seu. Esta linguagem, dura e
incompreensível para os mundanos, significa que as tribulações, sendo meios utilizados
por Deus, para purificar e levar as almas pelo caminho da perfeição, constituem, só por
si, uma prova de amor de Deus.
Estas provas de amor não faltaram a D. Bosco toda a sua vida; outras tantas provas
de amor ele deu a Deus, praticando heroicamente, no meio das cruzes que Deus lhe
enviava, todas as virtudes durante toda a sua carreira mortal. A sua vida está diante dos
nossos olhos numa claridade diáfana, em que nada se subtrai ao nosso olhar
perscrutador; pois bem, nada descobrimos que não seja santidade. Diz o Cardeal
Cagliero212, e com as suas palavras vamos concluir:
«O heroísmo das suas virtudes, praticadas na meninice e na juventude, foi-me muitas
vezes confirmado pelos meus conterrâneos; como sacerdote, diretor do Oratório e
Superior da Congregação, podem atestá-lo comigo todos os irmãos que foram
testemunhas da sua vida... Ao regressar da América, encontrei o Servo de Deus mais
sensível e mais ardente na sua caridade, mais unido a Deus e mais cheio de bondade
espiritual; vi até, se o amor filial me não engana, as suas venerandas cãs rodeadas de
uma espécie de celeste auréola e de angélico aspeto e, de algum modo, já quase
glorificada a sua vida, toda gasta no sacrifício de si pela glória de Deus e pela salvação
das almas».
Dom Bosco, um místico?
Uma observação mais. Mas foi então D. Bosco também um místico? Bem sabemos
que a muitos esta ideia vai parecer, para não dizer pior, pelo menos peregrina; mas a
culpa não é evidentemente da mística.
Duas falsas ideias desorientam os espíritos dos profanos. Acreditam que mística se
opõe a real, quando apenas se opõe a físico, quer dizer, a natural. Místico é aquilo que
constitui uma realidade sobrenatural. Além disso, imaginam que os homens chamados
místicos vivem absortos na sua contemplação, de modo que nada veem e nada
compreendem das coisas deste mundo.
Ora, muito pelo contrário, o autor clássico213 nesta matéria traça, deste modo, a
figura dos místicos.
«Os verdadeiros místicos são pessoas de prática e de ação, não de raciocínios e
teorias. Têm o sentido da organização, o dom da liderança e manifestam-se como ótimos
administradores. As obras que estabelecem têm condições de vida duradoura; na

160
conceção e direção dos seus empreendimentos, provam a sua prudência e mostram
ousadia e aquele sentido do real e do possível, que carateriza o bom senso. Parece até
que o bom senso é a sua qualidade predominante: um bom senso não perturbado nem
por exaltações doentias, nem por imaginação desordenada, mas unido à rara faculdade do
discernimento». Aqui está, se não nos enganamos, um vivo retrato de D. Bosco, em
quem a contemplação dirigia e iluminava a ação.
Donoso Cortés dizia que, se tivesse de tratar com qualquer diplomata a questão mais
espinhosa, teria procurado como conselheiro e guia o homem mais místico que
conhecesse.
Quem mais místico do que S. Bernardo? Pois bem, ele ocupou-se de tudo e de todos,
de tal modo que se não pode escrever a história da sua vida, sem escrever a história do
seu tempo. E santa Teresa e tantos outros?
Pode aplicar-se a D. Bosco o que foi dito de S. Bernardo, sempre ocupado com tantos
assuntos214: «A periferia daquela vida não prejudicava o centro, e o centro não
prejudicava a periferia». A periferia era a atividade exterior; o centro, o místico
recolhimento interior.
A afirmação de que as almas puras e iluminadas para nada servem é uma invenção
moderna.

Capítulo XIX
O PLÁCIDO OCASO
Depois de uma vida desbordante de dons sobrenaturais, tal como foi a vida de D.
Bosco, quem sabe quantos teriam esperado que, ao aproximar-se o fim, devessem
refulgir relâmpagos extraordinários, prelúdio dos fulgores eternos; mas nada disso
aconteceu e tudo se passou da forma habitual e nas costumadas condições de quem se
prepara para uma morte precedida de longa e dolorosa enfermidade: se é que se não deve
considerar extraordinário o modo como D. Bosco suportou até ao fim os seus males. A
santidade cresce até ao último momento da vida; então, vê-se, até melhor do que antes,
quem é verdadeiramente santo.
Morte de desprendimento
«A morte de um santo, escreve Fáber215, é uma obra de arte divina, uma obra-prima
sobrenatural, toda resplandecente de eterna beleza. Não há duas que se pareçam, mas
todas são admiráveis».
O mesmo autor, enumerando as mortes mais preciosas aos olhos de Deus, coloca
entre elas uma a que chama «morte de desprendimento». Tem esta morte aquele que
nada tem a sacrificar, nada que deixar ou de que se despoje, porque a sua alma nunca se
prendeu à terra ou se desprendeu há muito da terra, de modo que a morte espiritual

161
precedeu muito a morte física.
«Semelhante morte, diz, é puramente um ato de amor. Poderia dizer-se a execução de
um rito sagrado, mais do que um castigo. O homem desprendido não é já filho da terra,
mas um anjo preso pelos vínculos da carne» 216.
Sem exterioridades
Sob tal aspeto se nos apresenta D. Bosco durante os quarenta e dois dias, nos quais se
preparou para deixar a terra pelo céu: homem não já deste mundo, mas todo arrebatado e
confiante nos bens futuros. O Senhor dispôs que, no breve período da doença, nos
edificasse no seu leito de dor com a sua heroica paciência, com o seu inextinguível ardor
pelo bem das almas e com a sua fervorosa piedade.
Tríplice efeito daquela sua contínua união com Deus, que o fazia sofrer por amor de
Deus, amar com amor sobrenatural o próximo e olhar com filial ternura o Senhor. A estas
três emanações da sua união com Deus pode juntar-se também a sua incondicional
devoção ao Vigário de Jesus Cristo.
D. Bosco, porém, é sempre D. Bosco: não esperemos exterioridades impressionantes:
os seus sentimentos adivinham-se sempre através de manifestações comedidas e
tranquilas. Não é possível que aos olhos de um bom observador fique escondida a vida
interior daqueles homens cuja vida abscondita est cum Christo in Deo217.
Com paciência
Passemos, portanto, a considerar uma por uma as particularidades acima indicadas.
Nunca faltou paciência a D. Bosco, em todos os penosos estados do mal que o afligiu,
porque o sustentavam as três virtudes teologais.
A fé fazia-lhe ver na doença um meio enviado por Deus para o bem da sua alma; a
esperança infundia-lhe imperturbável calma de espírito, na confiante espera dos auxílios
divinos, para suportar todos os incómodos da enfermidade; a caridade inspirava-lhe uma
conformidade perfeita com a vontade divina, de modo que sofria por puro amor divino.
Esta humilde paciência era exercitada por palavras, obras e pensamentos.
Sem lamentações
Ninguém, em quarenta e dois dias, ouviu dos lábios de D. Bosco um lamento sequer,
nem pela doença e seus sofrimentos, nem do serviço e tratamento.
Mas, mesmo sem isto, é coisa tão normal nos doentes falarem dos seus males! É um
desabafo da natureza. Gozam ao contar tudo o que lhes acontece, querem que todos
saibam como passaram o dia e a noite, descrevem os progressos da doença e
prognosticam o que vai acontecer. Quando não procuram deliberadamente comover pelo
que sofrem, gostam, pelo menos, de ver que são objeto de compaixão espontaneamente
por quem os visita, sobretudo se se mostra admirar a sua coragem em suportar os males
que os afligem.

162
Nada de parecido vemos em D. Bosco. O coadjutor, que o assistiu durante quarenta
noites, pintou com simplicidade o modo como se comportava a este respeito, dizendo:
«Punha em prática a sua divisa que muitas vezes repetia enquanto teve saúde: «Fazer,
sofrer, calar». Não podendo já fazer, sofria e calava».
Calava, quer dizer, sobre o seu sofrimento, pois nunca deixou de falar enquanto pôde
e sempre para fazer bem. Uma só vez, durante os dois dias antes de morrer, ele disse:
– «Meu caro, quanto sofro!»
Mas imediatamente juntou uma expressão de humildade:
– Se assim continua mais um pouco, não sei se conseguirei resistir.
Depois reanimou-se, levantou os olhos ao céu e exclamou com grande fé:
– Seja feita a vontade de Deus em tudo!
Muitas vezes, segundo o seu costume, dissimulava o seu sofrimento com ditos
espirituosos, que distraíam a atenção dos presentes, como quando foi submetido à
operação de que já falámos. Poucos minutos depois, quando lhe perguntaram como
estava:
– Fizeram-me um corte de mestre, – respondeu.
E a outro que disse: – Pobre D. Bosco! como deve ter sofrido! – ele respondeu:
– Parece-me que aquele bocadito de carne que me tiraram não sentiu nada.
Uma noite, o Ecónomo Geral, Pe. Sala, perguntou:
– D. Bosco, sente-se muito mal, não é verdade?
– Eh! sim, – respondeu modestamente – mas tudo passa; isto também há de passar.
Ao ouvir isto, o Pe. Sala perguntou-lhe o que poderia fazer para o aliviar um pouco.
– Reza! – foi a sua resposta.
Depois, ele próprio, juntando as mãos, se recolheu em oração. A todos os que lhe
dirigiam palavras de compaixão, respondia:
– O Senhor sofreu muito mais.
Abandonado nas mãos de médicos e enfermeiros
Em todas as suas ações mostrou-se sempre paciente. A doença foi longa e dura. A
experiência ensina que, em semelhantes casos, até os temperamentos mais sólidos têm os
seus ímpetos de impaciência: o nervosismo excita-os.
D. Bosco sempre se abandonou nas mãos dos médicos que o tratavam e das pessoas
que lhe assistiam. Pode bem ​imaginar-se quantos e quais foram os cuidados destas.
O doente, esquecido de si, mostrava quanto lhe pesava todo o incómodo que lhes
causava; e como, quando se mexia, a mielite lhe provocava espasmos e as pessoas se
davam conta disso, para as distrair, tinha sempre qualquer gracejo. Que problema quando

163
era preciso mudá-lo de um leito para o outro! Embora se procurasse fazê-lo com infinitos
cuidados, os graves sofrimentos eram inevitáveis, mesmo porque faltavam os meios
adequados e os ajudantes não tinham a competência dos enfermeiros profissionais. O
pobre paciente, sempre calmo, deixava-se tratar como um autómato, dizendo de vez em
quando qualquer graça. E dizer que esta manobra tinha de se repetir quase todos os dias.
Uma noite, quis beber mas teve de lhe ser negado, por causa da frequência dos
vómitos; não se irritou:
– É preciso, disse, aprender a viver e a morrer; uma e outra coisa.
De exigências suas para ter qualquer conforto ou coisa especial é inútil falar: uma vez,
todo se alarmou porque lhe pareceu que havia qualquer coisa de especial. Quando, nas
últimas semanas, foi acometido por uma sede ardente que nem a água nem o gelo
conseguiam apagar, recorreu-se à água de seltz. Esta deu-lhe algum alívio, mas ele,
pensando tratar-se de uma bebida custosa, recusou-se absolutamente a servir-se dela.
Para tranquilizá-lo, foi preciso mostrar-lhe que custava sete cêntimos cada garrafa.
Vem aqui mesmo a talho de foice uma observação de Faber. «Não há caraterística
mais universal nos Santos do que o seu horror por dispensas e concessões especiais e o
aumento deste horror é proporcionado ao maior direito que precisamente podem ter a um
tratamento especial».
Sua resignação
Quais eram os pensamentos que lhe enchiam a mente, poderemos vê-lo à medida que
formos procedendo no nosso trabalho. Aqui, quanto a paciência, basta aludir à sua
perfeita resignação à vontade de Deus.
Depois de uma vida ativa como a sua, poderia parecer vir-lhe a ideia do bem que
faria, recuperando a saúde. Os doentes gostam de acarinhar, sem remorsos, esta ideia ou
suposição, imaginando só desejar a cura para servir a Deus. Mas as almas
verdadeiramente santas sabem que a melhor maneira de servir a Deus é servi-l’O como
Ele quer e que, portanto, se Deus quer a enfermidade, assim deve ser! Este sentimento
de perfeita resignação não abandonou um só momento D. Bosco. Todas as testemunhas
oculares unanimemente o proclamam.
Com efeito, continuamente quer um quer outro superior o incitavam a pedir a sua
cura, persuadidos como todos estavam de que, se ele pedisse, conseguiria a graça. Ele
nunca em tal consentiu; e sempre repetia:
– Seja feita em mim a santa vontade de Deus.
Houve até quem, sugerindo jaculatórias, tentasse inserir, quase sub-repticiamente,
entre as outras:
– Maria Auxiliadora, curai-me.
Mas D. Bosco calou-se. Para exprimir a sua resignação, costumava levantar os braços
para o céu, juntando a seguir as mãos. Tendo-se-lhe quase paralisado o lado direito,

164
levantava constantemente o esquerdo, dizendo:
– Seja feita a vossa santa vontade.
Quando, finalmente, perdeu a palavra, levantava da mesma maneira a mão,
renovando, no seu gesto mudo, a secreta oferta da sua vida ao Senhor.
Suas palavras
D. Bosco, que durante tantos anos tinha posto em prática a máxima de um autor de
ascética218: «Uma conversa sacerdotal deve sempre sugerir um Sursum corda», não
podia esquecer-se dela nos seus últimos dias.
Só por si o vê-lo assim tão cheio de sofrimentos, mas ao mesmo tempo tão calmo e
resignado, a todos enchia de edificação; tinha, porém, sempre palavras que faziam bem
aos presentes e estimulavam a beneficiar os ausentes. Palavras poucas podia dizer; mas o
seu coração, unido a Jesus, punha-lhe na voz tal vibração, que suscitava salutares
emoções.
Com aqueles que estavam mais assiduamente junto dele, como o coadjutor e o seu
jovem secretário, Pe. Viglietti, não tinha apenas afetuosas expressões de agradecimento
ou amáveis bons modos, mas exortava-os a prestar os habituais serviços por motivos
sobrenaturais. Ao primeiro dizia por exemplo:
– Recorda-te, meu caro, que no fim da vida recolheremos o fruto das boas obras que
tivermos feito. Procura trabalhar pela glória de Deus, e o Senhor te pagará bem.
– Diz à tua mãe que me recomendo, – dizia ao segundo, com bondade paterna, – que
procure fazer crescer a família cristãmente e que reze por ti, para que sejas um bom
sacerdote e salves muitas almas.
Salvar almas, eis a sua recomendação mais frequente. Disse um dia ao então Mons.
Cagliero:
– Uma só coisa peço ao Senhor: que possa salvar a minha pobre alma. Recomendo-te
que digas a todos os Salesianos que trabalhem com zelo. Trabalho! Trabalho! Procurai,
sem desânimo, salvar almas.
À Superiora Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, depois de a ter abençoado:
– Salvai muitas almas.
Outra vez a Cagliero, cinco dias antes da morte, murmurou muito a custo:
– Salvai muitas almas nas missões.
O trabalho
Cagliero sempre gostou de insistir e comentar animadamente a calorosa recomendação
do querido Pai relativamente ao trabalho. Por alguma razão, D. Bosco a fez naquela
situação extrema de preferência a muitas outras. A laboriosidade é uma das mais
genuínas tradições salesianas.

165
Pode aplicar-se também aos Filhos de D. Bosco o que D. Marmion diz dos Filhos de
S. Bento219. A Regra salesiana, como a beneditina, não prescreve penitências
extraordinárias, como cilícios, disciplinas e coisas semelhantes; mas o trabalho constitui
em ambas as famílias religiosas a forma de penitência que lhes foi destinada. Todos vão
para a vida religiosa para procurar a Deus.
Ora as duas Regras impõem que Ele se deve procurar não só pela oração, mas
também pelo trabalho: ora et labora, e encontrarás a Deus, tanto mais, quanto mais lhe
deres glória e O glorificares com o livre uso das tuas forças, todas empregues em seguir a
vontade de Deus pela obediência. É este o fundo do pensamento que pôs nos lábios de
D. Bosco este premente apelo.
Suas Congregações
As duas Congregações que fundou exigiam naturalmente a sua paterna atenção; os
últimos conselhos foram para a santificação dos seus membros, para a sua conservação e
fecunda atividade para o bem das almas.
Tendo-lhe sido pedida uma recordação para as Filhas de Maria Auxiliadora:
«Obediência, respondeu. Praticá-la e fazer que se pratique».
Quando faltavam apenas três dias para a sua morte, disse ao Pe. Bonetti:
«Ouve. Diz às irmãs que observem a Regra e terão assegurada a salvação».
No dia anterior e com um fio de voz, tinha dito a Mons. Cagliero:
«A Congregação nada tem que temer. Tem homens formados. Toma-a a peito. Ajuda
os outros Superiores em tudo o que puderes».
Naquela noite, o Pe. Sala, encontrando-o um pouco repousado, como para o animar,
disse:
«D. Bosco deve agora estar contente, ao pensar que, depois de tantos anos de fadigas,
conseguiu fundar Casas quase por toda a parte do mundo e estabelecer solidamente a
Congregação Salesiana».
«É verdade, respondeu. Tudo o que fiz, fi-lo pelo Senhor, mas poderia ter feito muito
mais. Hão de fazê-lo os meus Filhos. A nossa Congregação é guiada por Deus e
protegida por Maria Auxiliadora».
Seu amor ao Papa
Não é de admirar que façamos agora uma alusão à devoção de D. Bosco para com o
Vigário de Jesus Cristo, manifestada sobre o seu leito de moribundo. Não pensava e não
ensinava ele que o Sumo Pontífice é o elo que une os homens a Deus? O Papa Pio XI
prestou-lhe um magnífico testemunho, quando afirmou saber por ciência própria que D.
Bosco punha acima de toda e qualquer glória o ser fiel servo tanto de Jesus Cristo e da
sua Igreja, como do seu Vigário220.

166
Pois bem, durante a sua doença, quando entre tantas dores podia abrir o coração aos
nobres sentimentos que sempre albergara toda a sua vida, fez a este propósito a Mons.
Cagliero uma revelação. Disse-lhe que aquilo tinha sido mantido secreto até então. O
cioso segredo consistia nisto:
«A Congregação e os Salesianos têm por escopo principal defender a autoridade da
Santa Sé, onde quer que se encontrem ou trabalhem».
Quem conhece os tempos em que viveu, compreende perfeitamente por que foi
ocultado aos olhos do público este artigo do seu programa de ação. Voltou ao assunto
numa afetuosa visita que lhe fez o Cardeal Alimonda, Arcebispo de Turim. Não aludiu já
a revelar um mistério, mas exprimiu um desejo, e foram solenes as suas palavras:
– Vivi em tempos difíceis, Eminência. Mas a autoridade do Papa... a autoridade do
Papa... Já o disse a Mons. Cagliero: os Salesianos são para defender a autoridade do
Papa onde quer que estejam, onde quer que trabalhem. Lembre-se, Eminência, de o
comunicar ao Santo Padre.
O Cardeal, dois meses depois, na solene comemoração do defunto, narrando esta
visita e referindo estas palavras, continuava: «Naquelas palavras, o Homem de Deus
abria-me o seu testamento. Que digo eu: abria? Toda a sua vida particular e pública é
conhecida por todos como um testamento papal».
E quando o Sucessor de D. Bosco, na primeira audiência que Leão XIII lhe concedeu,
recordou estes sentimentos do saudoso Pai, o Papa exclamou:
– Bem se vê que D. Bosco era um Santo semelhante a S. Francisco de Assis, que
morreu recomendando aos seus ​religiosos que fossem sempre filhos devotos e defensores
da Igreja Romana e do seu Chefe. Ponde em prática esta recomendação do vosso
Fundador, que o Senhor não deixará de vos abençoar.
Sem a menor dúvida, aquele que procurar estudar a devoção de D. Bosco ao Vigário
de Jesus Cristo, encontrará abundante matéria para demonstrar que esta devoção era
feita de veneração profunda e de obediência absoluta.
Sua piedade
Resta-nos falar da piedade, manifestada e alimentada, como sempre, pela oração,
pelas duas principais devoções do Santo e pelos Sacramentos.
«Orava quase continuamente», atesta o referido coadjutor nos processos.
«Continuamente estava absorto em Deus», continua o seu secretário. «Isto via-se,
continua, pela sua atitude humilde e devota, os seus olhares ardentes para o crucifixo, os
beijos ao escapulário e às medalhas da Virgem, as numerosas e frequentes jaculatórias
que lhe saíam aos lábios».
O escapulário era o do Carmo, que vestira durante a doença por intermédio de um
Salesiano que tinha as faculdades. Quanto ao Crucifixo, além daquele que trazia
habitualmente ao pescoço, tinha recebido nos últimos dias um que beijava com
satisfação, pois tinha anexa uma indulgência plenária por cada vez que se beijasse.

167
Quando, vendo-o sofrer mais do que o costume, alguém lhe sugeriu que pensasse nos
sofrimentos de Jesus, respondeu:
– É o que sempre faço.
Apesar das doenças que o afligiam, quis que o secretário rezasse todas as manhãs com
ele as orações, lhe lesse a meditação e lhe fizesse outras leituras piedosas. Todas as
manhãs, até à festa de S. Francisco de Sales, assistiu devotamente à santa Missa,
apoiado sobre almofadas; era celebrada pelo seu secretário, na capela contígua ao seu
quartinho. Em janeiro, sentindo um esvaimento de cabeça, disse:
«Parece-me rezar sempre, mas não tenho a certeza. Ajuda-me tu».
Não só rezava, mas fazia rezar. A princípio, recomendava que rezassem todos e
fizessem rezar, para que morresse na graça de Deus, pois era o seu único desejo.
Na tarde de 24 de janeiro, estando muito mal, mandou chamar o jovem sacristão
Palestrino, que ele muito apreciava e mandou dizer-lhe que rezasse a Jesus e a Maria
todo o tempo que tivesse livre, para que, enquanto esperava a sua hora, tivesse uma fé
viva. Depois, o mesmo foi introduzido junto dele e Dom Bosco, muito comovido, repetiu
a mesma coisa, abençoando-o em seguida. À noite, ao contrário do que geralmente
acontece aos doentes, sentia-se mais aliviado, o que, como observa o Pe. Lemoyne, era
uma graça obtida pelas orações daquele bom jovem. Mais tarde, tendo aumentado a
dificuldade de falar, recomendou-se aos presentes e pediu-lhes que lhe sugerissem
jaculatórias devotas.
Quantas mais provas deu da sua constante e fervorosa devoção à Virgem Santíssima e
a Jesus Sacramentado! Gostava de receber muitas vezes a bênção de Maria Auxiliadora,
segundo uma fórmula aprovada pela Sagrada Congregação dos Ritos. Tinha
habitualmente na mão o terço. Uma vez, beijando a medalha, exclamou:
– Sempre tive muita confiança na Santíssima Virgem.
Mas, mesmo que o não dissesse, quem o visse beijar a medalha teria pensado a
mesma coisa. Em fins de dezembro, disse a alguns Superiores:
– Recomendo aos Salesianos a devoção a Maria Auxiliadora e a Comunhão frequente.
O Pe. Rua achou que seria um ótimo Lema para enviar a todas as Casas, no princípio
do ano, e falou-lhe nisso.
– Seja para toda a vida, – respondeu. Depois consentiu neste desejo.
Pouco depois, voltando-se para Mons. Cagliero, disse-lhe:
– Propaguem a devoção a Maria Santíssima na Terra do Fogo. Se soubesses quantas
almas Maria Auxiliadora quer ganhar para o céu, por intermédio dos Salesianos!
Ainda outra vez disse-lhe:
– Aqueles que desejam graças de Maria Auxiliadora, ajudem as nossas Missões e
podem estar certos de que as obterão.

168
Melhoria
Nos primeiros dias de janeiro, quando todos estavam receosos pela iminência da
catástrofe, surgiu uma repentina e progressiva melhoria do seu estado. Todos viram nisto
uma graça particular, obtida por tantas orações que se faziam de todos os lados. Na noite
de 7, ditou ao seu secretário uma mensagem para o Pe. Lemoyne que dizia:
«Como se pode explicar que uma pessoa, depois de vinte e um dias de cama e quase
sem comer, com a mente extremamente enfraquecida, de repente tenha voltado a si,
compreenda tudo, sinta forças e quase seja capaz de se levantar, escrever e trabalhar? É
verdade, sinto-me são nestes momentos, como se nunca tivesse estado doente. A quem
perguntasse como isto era possível, podia responder desta maneira: Quod Deus imperio,
tu prece, Virgo potes».
Foi indescritível a alegria que invadiu o Oratório com tão inesperada e boa notícia.
Nos pontos mais frequentados da Casa, pendurados das paredes, apareceram cartazes
exaltando a omnipotência suplicante de Maria.
Almas… Maria!
Durante a vida tinha suplicado, sabe Deus quantas vezes, à Virgem Santíssima que o
ajudasse a salvar os seus jovens e a bem dirigir a Congregação. A recordação de tantas
invocações, em momentos de entorpecimento, suscitava-lhe a representação de cenas
que tinha visto muitas vezes, em que tinha recorrido espontânea e fervorosamente a
Maria.
Um dia, como despertado de repente, bateu as mãos, ​gritando:
– Depressa, depressa, salvai aqueles jovens! Maria Santíssima, ajudai-os!... Mãe,
mãe!
Outro dia, foi ouvido exclamar a dormitar:
– São enganados!... Coragem, coragem... Mãe, Mãe!
Repetiu umas vinte vezes esta terna invocação. Um pouco mais tarde, estando
plenamente consciente, juntou as mãos e com ardor replicou três vezes:
– Ó Maria, ó Maria, ó Maria!
Enquanto lhe durou o conhecimento e a fala, tornou-se cada vez mais frequente este
invocar a Virgem, com sentimento filial.
A Eucaristia
O seu seráfico ardor para com Jesus Sacramentado transparecia-lhe do rosto quando
recebia a Comunhão. Todas as manhãs, com exceção das poucas vezes que não pôde
permanecer em jejum, comungava e parecia-lhe que nunca estava suficientemente
preparado; por isso, quase todos os dias, quando o seu confessor vinha visitá-lo, queria
reconciliar-se.
Comungou até ao dia 29 de janeiro, festa de S. Francisco de Sales. Naquela manhã,

169
alguns pensavam que se lhe não devia dar a comunhão, porque parecia não estar
consciente; prevaleceu a opinião contrária. Pensou-se que no momento preciso teria
vindo a si. Assim foi. Avisado de que daí a pouco viria o Senhor, não deu nenhum sinal.
Mas logo que o celebrante se aproximou com a sagrada Hóstia e disse: Corpus Domini
nostri Jesu Christi, o enfermo mexeu-se, abriu os olhos, fixou a Hóstia, juntou as mãos
e, depois de receber o Senhor, ficou recolhido, repetindo as palavras de ação de graças
que lhe sugeria o Superior que lhe assistia.
Esta foi a sua última Comunhão; mas não esperara tanto para pedir o Viático. Estava
há três dias de cama, quando disse ao secretário:
– Prepara tudo para o santo Viático. Somos cristãos, nada custa oferecer a vida ao
Senhor.
O tom foi tão resoluto, que nenhum Superior quis assumir a responsabilidade de
diferir; por isso, foi decidido ministrá-lo no dia seguinte, véspera do Natal. Quando tudo
estava pronto, avisaram-no. Então, todo preocupado, disse aos presentes:
– Ajudai-me, ajudai-me vós a receber Jesus. Sinto-me confuso. In manus tuas,
Domine, commendo spiritum meum.
A procissão, formada por todos os meninos do coro e por todos os sacerdotes e
clérigos que puderam tomar parte, aproximou-se. Ao ouvir os cânticos, enterneceu-se;
mas, quando viu chegar o Santíssimo, trazido por Mons. Cagliero, rompeu em pranto.
Revestido com a estola, «parecia um anjo», nota o diário. Falando desta Comunhão no
processo, Mons. Cagliero disse que lhe parecera ver o S. Jerónimo do Domeniquino.
Nem para os Santos Óleos quis demoras. Por sua insistência, foi-lhe ministrado este
Sacramento na noite daquele mesmo dia. Antes, o enfermo tinha exprimido o desejo de
que se pedisse para ele a bênção apostólica, o que foi executado com a maior prontidão.
Depois de recebidos os Sacramentos, só falava da eternidade e de coisas espirituais.
Sua serenidade até ao fim
A todos encantava a serenidade que transparecia continuamente do seu rosto e das
suas palavras. Esta serenidade manteve-a até ao fim; ficou-lhe impressa no rosto, depois
de entrar em coma.
Não quero deixar de acrescentar que, tendo-o visto naquela última noite, me parece
ter ainda diante dos olhos aquela suave imagem. Apoiado nas almofadas, apresentava as
feições tão suavemente compostas, que não parecia estar no estado pré-agónico. Dava
vontade de ficar a contemplá-lo muito tempo. Mesmo depois de morto, a vista da sua
face infundia uma sensação de doce paz, que fazia exclamar: Como é bela aos olhos de
Deus e dos homens a morte dos Santos!
Já aludi à visita que fez ao enfermo o Cardeal Alimonda. Para ele foi uma grande
alegria e uma obrigação visitá-lo. Ficou admirado vendo-o tão tranquilo e tão cheio do
pensamento de Deus; ao sair, voltando-se para Mons. Cagliero, que o acompanhava,
disse:

170
– D. Bosco está sempre com Deus, na união mais íntima com Ele.
Os sinais do divino contacto habitual, nem o aproximar-se da morte, nem a própria
morte conseguiu apagá-los.

Capítulo XX
GEMMA SACERDOTUM
Genial descrição de Joergensen
O autor dinamarquês de uma vida de D. Bosco, estudando o Santo, experimentou a
impressão que todos os biógrafos anteriores devem ter sentido, mas que só ele conseguiu
exprimir de modo genial221. Ele escreve: «D. Bosco é um dos homens mais completos e
mais absolutos que conheci na terra. Na maior parte das criaturas que a Igreja coroou
com a auréola de Santos, há sempre alguma coisa de humano e, tantas vezes, como em
S. Ambrósio, até de muito humano (...). Na vida de D. Bosco não há nada ou quase
nada disto. Nele tudo é luz sem sombras, o que, do ponto de vista artístico, constitui uma
dificuldade. Todo o quadro tem de ser executado em branco: branco sobre branco, luz
sobre luz. Os justos, diz o Evangelho, resplandecerão como o sol. Quem pode pintar o
sol?».
Pois bem, sobre este fundo de cândida inocência, D. Bosco vem erigindo o edifício da
sua santidade sacerdotal. É este o caráter da santidade de D. Bosco; porque, mesmo
antes de ser sacerdote, anelava vir a sê-lo e esta aspiração deu, pode dizer-se, todo o tom
à sua vida, dos cinco aos vinte e seis anos.
Sacerdote sempre
Quando surgiu no seu espírito não é coisa fácil de determinar: parece que quase
nasceu com ele e o manifestou logo que as circunstâncias lhe permitiram perceber o que
eram e o que faziam os padres. Desde aquele momento, o ideal do sacerdócio apoderou-
se dele de tal modo, que imprimiu à sua conduta uma diretiva sacerdotal.
Deixemos de lado o mimetismo das cerimónias litúrgicas, fenómeno frequente nas
crianças cristãs; falo, porém, daquele apostolado que começou a exercer desde menino,
nas formas próprias do zelo sacerdotal. São coisas sabidas. Depois da sua investidura
como clérigo, pôs todo o empenho em despojar-se de tudo o que pudesse ter sequer a
aparência de mundanidade, renunciando a ir à caça, a ler os clássicos profanos, a tocar
violino, seu instrumento preferido, e dedicando-se completamente aos estudos sacros, ao
ensino do catecismo, à participação nas funções do culto.
De modo que, quando recebeu o presbiterado, a sua alma era, há muito tempo,
sacerdotal, alma que depois do Sacramento vibrou ainda mais do que antes para
quaecumque sunt vera, quaecumque sunt pudica, quaecumque sunt justa, quaecumque

171
sunt sancta, quaecumque sunt amabilia, como se diz, com palavras do Apóstolo222, na
Missa em sua honra. D. Bosco quis ser e foi essencialmente sacerdote pelo exemplo, pela
palavra, pela ação e pela oração.

Sempre sacerdote
A exemplaridade sacerdotal de D. Bosco não é preciso procurá-la aqui na prática das
virtudes: a canonização garante-nos, sem a menor dúvida, que as exercitou em grau
heroico. Por isso, nos contentaremos em pôr em evidência quanto foi exemplar no
conceito que tinha da dignidade sacerdotal.
Deu-o a entender de uma forma, diremos única, em 1866. Quando o Governo da
nova Itália estava ainda em Florença, o presidente do Conselho pediu-lhe que aceitasse a
parte de intermediário oficioso perante Pio IX, para a solução de negócios espinhosos. O
Santo, com a esperança de prestar um grande serviço à Igreja, aceitou o convite; mas, ao
apresentar-se ao Ministro, sabendo com quem tinha de tratar, antes de começar, quis
fazer esta declaração perentória:
– Excelência, quero que V. Ex.a fique a saber que D. Bosco é padre no altar, no
confessionário, padre no meio dos seus jovens; padre em Turim, como em Florença;
padre na casa dos pobres, como no Palácio do Rei e no dos seus Ministros.
Parece-nos estarmos a vê-lo e a ouvi-lo! Era costume seu falar devagar, com doce
gravidade, dando peso a todas as palavras; assim deve ter falado aquela vez e podemos
imaginar facilmente a surpresa do Ministro que, entretanto, se apressou a dar-lhe as mais
amplas garantias. Se ele se tivesse mostrado chocado, D. Bosco dir-lhe-ia como fez a
outros:
– Parece-lhe nova e estranha a minha linguagem? É porque ainda não teve
oportunidade de falar com um sacerdote católico.
O sacerdote, segundo um axioma repetido muitas vezes por D. Bosco, é sempre
sacerdote e como tal deve manifestar-se em toda a parte. Seis anos depois da ordenação
sacerdotal, entre as recordações dos exercícios espirituais, transcrevera as palavras de S.
João Crisóstomo: «O sacerdote é soldado de Cristo». Precisamente o soldado é sempre
soldado, quer dizer, em atividade de serviço.
O sacerdote, um anjo
O alto conceito que D. Bosco tinha do sacerdócio, torna-se manifesto em outras suas
manifestações. Ele, sempre tão humilde, apreciava os sinais de honra que recebia em
tantos lados, mesmo de populações inteiras, durante as suas viagens. Porquê? Ele próprio
o dizia: não considerava estas manifestações como dirigidas à sua pessoa, mas ao seu
caráter sacerdotal e como consequência, à Igreja e à fé.
Um dia, sendo hóspede de uma nobre família de Turim, ouvindo que lhe dirigiam
grandes elogios, deixou dizer e depois respondeu:
– Muito me alegra que tenham tanta consideração pelo caráter sacerdotal; por mais

172
que se diga bem do sacerdote, quer dizer, da sua dignidade e das virtudes de que deve
ser adornado, nunca será demais.
Outra vez, deu livre desafogo ao sentimento por uma forma inesperada e viva. Ao
entrar num instituto feminino com um sacerdote, seu amigo, depois de ter murmurado
interiormente a oração: Fac, Domine, ut servem cor et corpus meum immaculatum tibi,
ut non confundar, disse ao companheiro:
– Vê, meu caro, um sacerdote fiel à sua vocação, é um anjo e aquele que o não é que
coisa é? Torna-se num objeto de compaixão e desprezo para todos.
Posto isto, era natural que honrasse nos outros o caráter sacerdotal. Com efeito,
cumulava os sacerdotes de sinais de estima e de respeito e, se algum deles não respeitava
o seu caráter, afligia-se até às lágrimas e queria escondê-lo dos olhos de todos. Com
quanta caridade se empregava em reabilitar os infelizes que lhe recomendavam os
Bispos! Mas disso ainda falaremos.
Seu melhor título, sacerdote
É pena que se não tenham conservado todas as suas prédicas a sacerdotes em
exercícios espirituais. Concluindo pelo pouco que nos ficou, adivinhamos a eficácia dessa
pregação, pois falava ex abundantia cordis.
– Quanto me sinto feliz por ser sacerdote! – exclamou uma vez, falando com um
padre.
Dizia-o, porque humildemente pensava que só o facto de ter sido sacerdote o tivesse,
em tempos difíceis, preservado das vertigens de certas cabeças quentes223; mas o ser
sacerdote foi sempre a sua mais íntima satisfação, como era o seu maior título de honra,
de tal modo que nunca deixou de anteceder o seu nome da designação de sacerdote (em
italiano Don), tanto nos livros como nas cartas, coisa que no seu tempo se não usava.
Era sal e luz
Quem terá sido mais sacerdote do que ele no falar? Podemos ter a certeza moral que
D. Bosco não deu contas a Deus de nenhuma palavra ociosa. Já falámos bastante de D.
Bosco, pregador, no capítulo XII; de outras suas manifestações verbais ocupámo-nos
também nos capítulos XIII e XVI; mas o amor sacerdotal das almas, que animava a sua
palavra no púlpito, no quarto ou no pátio, nunca o abandonava. Em casa ou fora,
tratasse de negócios ou participasse em alegres conversas, os presentes sentiam sempre a
presença do sacerdote, habituado ao pensamento constante de Deus e da eternidade,
porque, no devido tempo e lugar, sabia ser sal e luz224.
Gomo o compreendeu, em França, aquele marquês, que num aristocrático círculo não
pôde deixar de exclamar: «D. Bosco está sempre a pregar!».
Como compreendiam o valor das suas palavras aqueles clérigos e sacerdotes do
Oratório, que não só as aproveitavam, mas as recolhiam fielmente nos seus cadernos,

173
alguns dos quais chegaram até nós.
Sacerdote dos jovens
Muito já dissemos também da sua ação sacerdotal; mas vale ainda a pena fazer uma
que outra observação. Para tal nos dá pretexto a declaração referida no princípio. «Padre
no altar». Vimo-lo celebrar como um serafim. «Padre no confessionário». Sentia que era
sacerdote, sobretudo para regenerar as almas pela graça; o que nele conseguia operar este
sentimento, ​dizem-no suficientemente as poucas páginas do capí​tulo X. «Padre no meio
dos seus jovens». Amava tantos os seus rapazes! «Basta que sejais jovens, para que vos
ame», confessa ele no Jovem Instruído. Amava-os como sacerdote. «Dificilmente
podereis encontrar quem vos ame mais do que eu em Jesus Cristo».
Provava-o como sacerdote, não se poupando a fadigas, penas e sacrifícios de todo o
género, para bem das suas almas. Lidava com eles como sacerdote.
Foi esta uma das suas máximas constantes, não só pregada mas praticada: «nunca saia
de junto de nós um jovem descontente conosco». Falava-lhes como sacerdote. A
salvação da alma era a substância dos seus discursos aos jovens em público e em
particular. Esta a primeira palavra, quando recebia o aluno, a última na despedida, a
palavra de sempre quando, mais tarde, os encontrava homens feitos.
Sacerdote em todo o lado
«Padre em Florença, padre em Turim», quer dizer, sacerdote em toda a parte.
Durante as suas viagens à França, à Espanha e pela Itália, a veneração geral pelo
taumaturgo não diminuía nem suprimia a veneração pelo sacerdote santo, tal como o
viam todos aqueles que dele se aproximavam; daí aquele acorrer para ouvir a sua Missa,
para escutar a sua palavra, para lhe abrir a consciência. De regresso de Paris, em 1883,
disse que tivera de resolver uma quantidade de casos, cada um dos quais justificava a
viagem.

Com os pobres
«Sacerdote com os pobres». À semelhança de Jesus, os pobres constituíram sempre
os seus prediletos e entre os filhos do povo procurava os seus discípulos. Quem não
conhece a sua ação em favor da juventude pobre? Ao contar que nunca nenhum
necessitado a ele recorria sem obter socorro, o biógrafo conclui com uma luminosa
expressão: «Pobre como era, D. Bosco era generoso como um rei».
O Messias entre os carateres distintivos da sua missão indicou o pauperes
evangelizantur de Isaías; o padre é tanto mais padre, quanto mais reproduz o divino
modelo no evangelizare pauperibus225.
Com os grandes
Sacerdote com os grandes. Assim resumimos a frase que vem depois dos pobres na
declaração de Florença para poder incluir naquilo que ele exprimiu, aquilo que

174
certamente queria dizer. Não era aquele o caso de tudo especificar. Mas entre os pobres
e o rei não estavam só os ministros; há lugar para outras categorias de pessoas, como por
exemplo, as ricas e as instruídas. D. Bosco teve contactos frequentíssimos com homens
ricos de fortuna e de saber. Bateu à porta dos ricos e bateu sem trégua. Recebeu com
abundância. Era profunda a sua gratidão, mas gratidão de sacerdote, que desconhecia
toda a forma de servilismo. Partia deste princípio:
– Prestamos um grande serviço aos ricos e uma grande caridade, ajudando-os a
observar o preceito divino do quod superest, date eleemosynam226.
Com os ricos
Aos ricos escravos das riquezas dava também preciosas esmolas espirituais. Até um
judeu abastado, que tinha grande desejo de o conhecer e a quem ele satisfizera o desejo,
saiu do Oratório dizendo que se em todas as cidades houvesse um D. Bosco, todo o
mundo se converteria.
Outro judeu riquíssimo e para mais rabino dizia que fora duas vezes procurar D.
Bosco, mas que não voltaria a terceira, pois se sentiria constrangido a ficar com ele.
Por estas palavras é fácil ver que eles viram nele não só o hábito mas a alma
espiritual.
Perante os sábios
Se com os ricos não se dobrava, com os doutos não se sentia diminuído. Possuía
também a sua ciência, aquela que a Escritura declara ser o depósito sagrado dos
ministros de Deus227, e dispensava-a volentibus et nolentibus.
Um advogado estrangeiro de grande fama, defensor muito procurado dos direitos
eclesiásticos, depois de ter conversado com D. Bosco acerca da sua atividade em favor
da Igreja, ouviu esta pergunta que o Santo lhe dirigiu à queima-roupa.
– E o senhor pratica esta religião que tão bem sabe defender?
O outro, desconcertado, procurou ainda mudar de assunto; mas D. Bosco, tendo as
mãos dele entre as suas, continuava a insistir.
– Não me largue, responda: pratica esta religião que sabe defender tão bem?
Foi o toque da graça para o interlocutor, que tinha chegado ao ponto de nem sequer
acreditar na Confissão.
Ao despedir-se de uma nobre família, depois de se levantar da mesa, D. Bosco dissera
a cada um uma boa palavra, com exceção de um general que era hóspede, como ele.
Homem instruído, mas indiferente em matéria religiosa, o velho soldado pediu-lhe
também uma palavra, para conservar como recordação daquele feliz encontro.
– Reze por mim, senhor general, replicou.
– Eu rezar por si? Sugira-me antes outro conselho.

175
D. Bosco, calando-se um instante, como quem se concentra, respondeu com firmeza:
– Pense que tem ainda uma batalha a travar; se a vencer, será feliz... A batalha para a
salvação da sua alma.
Os presentes entreolharam-se, estupefactos; mas o general exclamou que só D. Bosco
seria capaz de ser tão franco.
É comovedor um colóquio com o conde Cibrario, velho de setenta anos, historiador
liberal de certa nomeada e ministro de Estado. O diálogo encerrou-se com estas palavras,
altamente sacerdotais:
– Senhor conde, o senhor sabe que sou muito amigo de V. Ex.a e que o tenho em
muita consideração. Se, como diz, a sua vida não pode já ser muito longa, lembre-se de
que, antes de ​morrer, tem qualquer coisa que pôr em ordem com a santa Igreja.
Em Paris, tendo sido visitado por Paul Bert, antigo ministro da Instrução, encaminhou
a conversa sobre a vida eterna e pouco a pouco convenceu-o à revisão imediata de um
livro seu, de moral para as escolas, sobre o qual tinham corrido rios de tinta.
Igualmente em Paris, como foi dramática a sua conversa com Vítor Hugo! Temos o
texto desse encontro, redigido sobre informações dadas por D. Bosco e retocado pelo seu
punho. O famoso romancista, que chegara cheio de fumos, saiu pensativo, por causa do
mistério do Além-túmulo.
Perante as autoridades
Muito teve D. Bosco de tratar com pessoas de categoria. Respeitando a sua
autoridade, mas tratando com elas, não deixava fora da porta a sua autoridade sacerdotal.
Um daqueles que experimentou o que acabamos de afirmar foi o ministro Urbano
Rattazzi que uma vez lhe perguntou se teria incorrido em excomunhão pelos seus atos de
governo; daí a três dias, recebia a seguinte resposta:
– Examinei a questão, estudei-a e gostaria de dizer-lhe que não; mas é impossível.
O orgulhoso liberal mostrou-se reconhecido por estas palavras, declarando-lhe que se
dirigira a ele por conhecer a sua franqueza.
Em 1874, em Roma, ao sair do gabinete do ministro do Interior, confiou a uma pessoa
íntima ter dito das boas a sua Excelência, e com fruto.
Dois anos mais tarde, em Lanzo Torinese, por ocasião da inauguração do caminho-de-
ferro, o Colégio Salesiano foi escolhido para receber as autoridades. Estavam presentes
três ministros famosos, com todo o séquito de autoridades, senadores e deputados, todos
eles liberalões de quatro costados. D. Bosco também compareceu. Durante a agradável e
longa receção, tornou-se pouco a pouco o centro das conversações; escusado será dizer
que aproveitou a ocasião para encaminhar as conversas daqueles senhores para reflexões
úteis e assuntos religiosos, coisas de que alguns não ouviam falar, sabe Deus há quanto
tempo.
Mas até às cabeças coroadas e ex-coroadas D. Bosco tinha sabido dizer algumas

176
verdades salutares. Aos ex-reis de Nápoles, exilados em Roma, soube recordar as
injustiças cometidas contra a Igreja, aconselhando a resignação porque os desígnios da
Providência não eram evidentemente o que eles desejavam.
Antes ainda, a sua devoção e afeto pelos seus reis de Sabóia não o tinha impedido de
protestar nem procurar evitar maus passos ao Soberano. Não conseguiu o seu intento,
mas mais tarde, Vítor Manuel II mostrou que soubera apreciar a sua franqueza
sacerdotal, dizendo ao Arcebispo de Génova que fora seu preceptor na Corte, que D.
Bosco era, sem a menor dúvida, um santo sacerdote.
Deste modo, D. Bosco obedecia ao preceito do Apóstolo: Reddite omnibus debita...
cui honorem, honorem228 e por consequência nunca pronunciava uma palavra
irreverente, nem queria que os seus o fizessem a respeito das autoridades constituídas;
mas por mais críticos que os tempos corressem, manteve sempre alto o decoro
sacerdotal.
Sacerdote com seus superiores e irmãos
Se D. Bosco foi sacerdote sempre e com todos, foi-o igualmente com os superiores e
confrades no sacerdócio. Foi sacerdote com o Papa. A sua conduta com o Vigário de
Cristo não podia ser mais retilínea.
Traçara o programa por estas palavras:
– Tudo com o Papa, pelo Papa, amando o Papa.
Destas premissas não era difícil tirar corolários. Aqui temos um para os seus jovens:
– Quando virdes que um autor escreve mal ou pouco respeitosamente sobre o Papa,
ficai a saber que o seu livro não deve ser lido.
Aqui temos outro para aqueles que o interrogavam sobre a anexação das províncias
romanas:
– Como cidadão, estou pronto a defender a pátria com a vida, se preciso for; mas,
como cristão e como sacerdote, nunca poderei aprovar estas coisas.
Alguém que o conheceu muito bem, o Bispo Manacorda de Fossano, afirmou no
elogio fúnebre:
«Ninguém que dele se aproximasse ouviu nunca uma palavra que não fosse marcada
pela docilidade de um menino inocente» em relação ao Papa.
Ouvimos as suas declarações, no leito de morte.
Com os bispos
Sacerdote, com os Bispos. Venerava neles e fazia venerar a plenitude do sacerdócio.
Provas sublimes da sua dedicação aos Pastores da Igreja, receberam-nas os gloriosos
perseguidos políticos: O arcebispo Fransoni de Turim, durante a sua prisão e exílio; o
bispo de Fermo, card. De Angelis, e o bispo Rota de Guastalla, condenados a domicílio

177
fixo, em Turim.
Receber e hospedar um Bispo no Oratório era considerado por D. Bosco grande
honra. Anunciava a sua vinda e ​esperava-o à porta e apresentava-o aos seus rapazes,
rodeando-o de mil atenções.
No Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes, há uma alusão às dificuldades tidas
com o arcebispo Gastaldi: a história conserva até que ponto e em que inverosímeis
circunstâncias D. Bosco soube mostrar-se sacerdote com o seu Bispo.
Com os sacerdotes
Sacerdote com os outros sacerdotes. O caráter sacerdotal, que tanto respeitava em si,
merecia-lhe grande reverência nos outros. Quanta cordialidade encontravam sempre os
sacerdotes no Oratório! Mas, apesar disso, D. Bosco nunca se esquecia de ser sacerdote
com eles também, não perdendo, por isso, de vista as suas almas. Vinham-lhe aos lábios,
já uma já outra das suas máximas:
– O sacerdote deve tratar de salvar almas, mas, antes de mais nada, deve salvar a
sua... Um sacerdote nunca vai só para o paraíso ou para o inferno... Salve, salvando,
salva-te.
Quanta deferência nas suas relações com os párocos! Que desgosto não sentia sempre
que ouvia dizer que qualquer sacerdote desonrava o seu caráter! Mas nem por isso se
perdia em estéreis lamentações. Com respeitosa caridade, já por própria iniciativa, já por
recomendação dos Bispos, fazia quanto podia para os chamar ao bom caminho,
exortando-os, tendo com eles longas conversas, ajudando-os financeiramente,
hospedando-os junto de si algum tempo.
Dava uma santa caça a sacerdotes secularizados, políticos e antipapistas, no único
intento de os levar ao arrependimento.
O célebre ex-jesuíta e grande teólogo Passaglia, apesar de laicizado, declarou que D.
Bosco possuía todos os carismas do Espírito Santo e que evitava encontrá-lo, com medo
de ser convencido229.
Ele procurou e teve até esperanças de conquistar o famoso ex-cónego Gioberti.
Visitou-o na companhia do teólogo Borel, sondou-lhe a alma, entrando no tema
candente; mas a sua caridosa tentativa naufragou contra o orgulho daquele homem230.
Reconduziu, contudo, grande número de sacerdotes transviados ao redil.
Sobre o seu zelo em criar sacerdotes já falámos.
Sua delicadeza sacerdotal
Quem quer que pense no conceito que D. Bosco tinha do seu sacerdócio e do dos
outros não se escandalizará ao saber a dolorosa impressão que lhe causava o D.
Abbondio de I Promessi Sposi. Nada lhe importava que se tratasse de uma obra-prima,
quando via aquele pobre padre a divertir em todo o livro os leitores com fraquezas bem

178
pouco dignas de um ministro de Deus. Numa das visitas que lhe fez o autor, não deixou
de lhe dirigir uma delicada queixa.
Pertence também à sua ação sacerdotal a sua atividade como escritor. Foi o tema do
capítulo XII. Deixo agora aqui um seu cânone literário, que nos faz tocar de perto como
era delicada a sua consciência sacerdotal como escritor. Falando com os Salesianos sobre
a sua História Eclesiástica, disse:
– Eu não escrevo para os doutos, mas para o povo e para os jovens. Se, contando um
facto pouco honroso ou controverso, perturbasse a fé de uma alma simples, não seria o
mesmo que induzi-la em erro? Se exponho a uma mente rude o defeito de um membro
duma Congregação, não irei suscitar-lhe dúvidas sobre toda a comunidade? Só quem tem
sob os olhos toda a história de 2000 anos, pode compreender que as culpas, mesmo de
homens eminentíssimos, não ofuscam, de modo algum, a santidade da santa Igreja, mas
são até uma prova da sua divindade... As más impressões recebidas em tenra idade, por
palavras imprudentes, trazem por vezes lamentáveis consequências para a fé e para os
bons costumes».
Dom Bosco, sempre unido a Cristo
Fra Angélico dizia que quem faz as coisas de Cristo deve estar sempre com Cristo.
Ótimo cânone de arte religiosa, sem dúvida alguma; mas será ainda mais lei fundamental
de ministério sacerdotal: que aquele que pretende formar o próprio Cristo nas almas viva
habitualmente de Cristo231. D. Bosco seria, na verdade, um grande enigma, se
pudéssemos, por um só momento, duvidar de que a sua portentosa eficácia no ministério
sacerdotal tivesse qualquer outra origem que não fosse a sua intensa vida de união com
Jesus Cristo, de quem sempre quis ser e foi ministro e nada mais nada menos do que
ministro fiel.
Quando deixava de rezar Dom Bosco?
Houve quem, impressionado pelo grande trabalho que D. Bosco realizava
continuamente, perguntasse, diante de Pio XI, como poderia dispor de tempo para se
recolher com Deus na oração; o Papa, que conhecia bem D. Bosco, respondeu ​-
argutamente que seria sobretudo melhor procurar saber quando D. Bosco não rezava, em
vez de procurar saber quando rezava.
Se se pretende dizer que ele não consagrava longo tempo à meditação, como outros
Santos faziam, isto é verdade; mas também é verdade que Santa Teresa adverte232:
«Acreditai que não é o longo tempo consagrado à oração que faz progredir a alma; se
gastar muitas horas em boas obras por caridade ou por obediência, o seu amor inflama-se
mais rapidamente em poucos minutos, do que durante muitas horas de meditação. Tudo
deve vir das mãos de Deus».
Aqui seria o momento de tratar da oração, mas já se disse tanto sobre esta matéria no
presente volume. Contudo, quero insistir na particularidade, várias vezes recordada, do

179
seu modo de rezar. Esta particularidade não era tão sua que não entrasse já na doutrina e
na prática antiga. É já pensamento de S. Gregório Magno que a contemplação deve
andar estreitamente unida com o amor ativo; sobre isto ele escreveu algumas páginas
bastante profundas. Há um período que vem precisamente a propósito para o nosso
caso.
«A nossa caridade deve ser inflamada do amor de Deus e do próximo, de modo que,
pela tranquilidade da contemplação e do amor de Deus, a nossa mente não deixe a
caridade para com o próximo e também que não queira ocupar-se tanto do serviço do
próximo, que deixe apagar em si a chama deste amor eterno» 233.
Assim viveu precisamente D. Bosco. Houve nele uma férvida ação, acompanhada de
intensa contemplação.
Realizava desta maneira em si o programa descrito por S. Bernardo, quando inculcava
que a contemplação deve formar aquele reservatório de ideias, de amor e de energia, que
pela sobreabundância transborda na ação. Concorda com isto o juízo de um escritor atual
de ascética que vê em D. Bosco «a perfeita unificação da ação e da contemplação, de
modo que ele pode classificar-se como um contemplativo operante» 234.
Gema sacerdotal
O pensamento da santidade sacerdotal de D. Bosco dominava a mente de Pio XI,
quando, falando a um numeroso grupo de seminaristas, começou por dizer:
«Fechou-se o Ano Santo com a figura de um grande sacerdote, que teve a verdadeira
e real consciência de ser o instrumento da Redenção, especialmente para a juventude, tão
rodeada de ciladas, tão exposta a perigos, tão necessitada».
Depois desenvolvia a sua ideia, explicando como o novo Santo devia ser proposto
como modelo dos futuros sacerdotes, como aqueles que o ouviam235. Deste modo, D.
Bosco é e será modelo dos sacerdotes que gastam quotidianamente as suas forças
promovendo a glória de Deus e procurando salvar almas; pois ele é verdadeiramente
gemma sacerdotum, como a Igreja chama, no ofício divino, a S. Martinho de Tours.
Se D. Bosco foi a pérola dos sacerdotes, isto não quer dizer que só aos sacerdotes
sirva de modelo. O Papa de D. Bosco236, em numerosas audiências públicas, depois da
beatificação e da canonização, dirigindo a palavra e distribuindo a medalha do novo
Beato e do novo Santo às mais diversas categorias de pessoas, encontrava sempre nele
qualquer lado especial oportuno para apresentar à sua imitação. Podia fazê-lo sem
esforços dialéticos, apenas com observações óbvias e naturais, fundadas sobretudo na
realidade.
Depois de ter lido as relações destas audiências, acabamos por pensar que a santidade
de D. Bosco é uma santidade enciclopédica; quer dizer, com caráter universal. Isto foi
demonstrado pelo entusiasmo universal que saudou a sua elevação às honras dos altares
e prova-o ainda o seu culto, difundido entre toda a classe de pessoas, e a devoção

180
espalhada por todo o mundo. Ele surge-nos verdadeiramente como o Santo de todos.
1 Faillon «Vie de M. Olier», T. 1, pág. 136. O Papa Pio XI, no discurso sobre a heroicidade das virtudes de
D. Bosco, dizia ter admirado pessoalmente nele «a imensa humildade», notando como ele «suscitador de tudo»,
girava pela casa «como o último chegado, como o último dos hóspedes».
2 Gal 2, 19.
3 Gal 2, 20.
4 Fil 3, 20.
5 No sentido mais geral, a oração é para S. João Damasceno (De fide orth., III, 24) ascensus mentis in Deum,
e para S. Agostinho (Serm., IX, 2) mentis ad Deum affectuosa intentio.
6 Prat, Théologie de St. Paul, vol. II, 1. VI, 3, 5. Beauchesne, Paris.
7 Lemmens, Vita di S. Bonaventura, p. XXV. Soc. «Vita e pensien»., Milão, 1921.
8 Cf. D. Eusébio Vismara, Don Bosco, il Santo dei tempi moderni, in «Virtù e glorie di S. G. Bosco», discorsi
raccolti da D. G. Favini, Turim, S. E. I., 1934; pág. 328. É uma exposição esquemática, mas completa e sólida
sobre o argumento.
9 At 1, 1.
100 In Cant., Serm. XVIII, 3: Si sapis, concham te exhibebis et non ​canalem.
11 Lc 18, 1.
12 Zac 12, 10.
13 Ef 3, 16.
14 Gal 5, 19-25.
15 Jo 12, 36; Lc 16, 8.
16 Fil 2, 15.
17 2 Cor 3, 16.
18 Sl 83, 6.
19 Mt 13, 43.
20 2 Rs 8, 27.
21 Jo 3, 8.
22 Editadas em 1946 (S. E. I., Turim).
23 Tanquerey, Abrégé de Théologie ascétique, pág. 1348.
24 Eccli., 51, 13-15.
25 Gal 5, 24-25.
26 Vida de S. Domingos Sávio, c. VII.
270 1Tim 2, 1.
280 1Tes 5, 17.
290 1 Jo 14, 23.
30 «Quando se permanece fielmente no sulco da divina vontade, sem mesmo que se dê por isso, reza-se no
profundo da alma» (D. Marmion, numa carta citada por Thibaut: «L’unione con Dio», trad. it. pág. 19 - Ed.
Fior.).
31 Ibid.
32 I Tim 5, 8.
33 Jo 1, 9.
34 Sl 99, 1.
35 Gen 5, 24.
36 Mt 12, 34.
37 2 Cor 1, 3-4.

181
38 Conv 1, 3, 5.
39 Cf. G. Caviglioni, Doctor salutis (Acerca de S. Afonso M. de Ligório) em «Scuola Cattolica», nov. 1929,
pág. 342.
40 1 Cor 2, 16.
41 Col 4, 6.
42 Can. 124: Clerici debent sanctiorem prae laicis vitam interiorem et exteriorem ducere eisque virtute et recte
factis in exemplum excellere.
43 Mt 19, 14.
44 Ne 8, 9.
45 1 Ped 2, 5.
46 In Comm. dedic., eccl, vesp.
47 Cón. Tiago Colombero, Don Giuseppe Cafasso. Fr. Canonica, Turim, 1895.
48 G. B. Lemoyne, Memorie Biografiche di D. Giov. Bosco, vol. II, pág. 191.
49 Heb 5, 1.
50 Hoje, por disposição governativa, o nome de «Refúgio», considerado termo humilhante, foi substituído
pelo de «Instituto».
51 Mt 19, 16; Mc 10, 17.
52 At 6, 15.
53 Gen 2, 7.
54 Fil 3, 20.
55 Que os místicos não riem parece-nos coisa incontestável. A impressão que recebem no seu contacto com
Deus, não se apaga no seu espírito, mas conserva-os sempre ligados ao pensamento da divina presença. Quando,
portanto, sorriem ao próximo, o seu sorriso que não tem frémitos, não altera a compostura fisionómica produzida
pelo habitual recolhimento ​interior. Quando revia estas provas para a primeira edição, recolhi da boca do Pe.
Francesia as seguintes palavras: — D. Bosco infundia alegria nos outros; mas ele para si trazia a face com a
expressão que se vê nas pessoas tristes. — O salesiano Pe. Vismara dizia, com feliz expressão, que o sorriso de
D. Bosco se via mas não se sentia.
56 G. B. Francesia, II Ven. D. Giovanni Bosco amico delle anime, p. Sc. Tip. Sal., S. Benigno Canavese.
1908.
57 Ant. Redier, A verdadeira vida de S. Vicente de Paulo, ed. ital., Morcelliana, 1928, págs. 242-243.
58 Lemmens, L. c., c. VIII (pág. 263).
59 Lemoyne, L. c., vol. IV, pp. 307-308.
60 Epist., LXXXVII, 7.
61 Direttorio ascetico, trat. I, n.º 22.
62 2 Cor 3, 2-3: Epistola nostra vos estis, scripta in cordibus nostris, quae scitur et legitur ab omnibus
hominibus; manifestati quod epistola estis Christi, ministrata a nobis et scripta non atramento, sed spiritu Dei
vivi; non in tabulis lapidis, sed in tabulis cordis carnalibus.
63 In Sl 146, 2.
64 Lib. III, 34, 1.
65 No Católico Instruído, escrito sob a inspiração de D. Bosco, lê-se entre as resoluções que se devem tomar
no dia da comunhão: «Procurai não perder a calma de espírito, sem a qual nada se faz bem. Para a conservar, é
preciso estar estreitamente unidos a Deus» (pág. 507, ed. de 1888). Um conhecidíssimo autor moderno observa
muito bem: «Dificilmente as almas se abrem com quem se mostra constantemente preocupado ou muito
absorvido pelos negócios». (R. Plus: Irradiare il Cristo. Marietti, Turim, pág. 29).
66 Ep. CXXX, 19: Beatam vitam semper a Domino desiderando, semper orabis.
67 Cf. Mt 4, 16.
68 De sex alis Seraphim, 12-14.

182
69 Falando aos religiosos que viviam na própria cela, o santo Doutor dirigia-se aqui aos superiores, os únicos
que se ocupavam de negócios.
700 I Cor 10, 31.
71 Lc 19, 10.
72 De cael. hier., 3.
73 Sl 125, 6.
74 Tanquerey, Comp. di teol. ascetica e mistica, n.º Desclée, Roma.
75 At 17, 16.
76 Ia , IIae , q. XXVIII, a IV, corp.
77 S. Bernardo, Hom. II super Missus est, 17.
78 L. c. Apend. II.
79 Sl 120, 1.
80 Iud., VITI, 23.
81 Heb 12, 2.
82 Sl 104, 1.
83 Ioris-Karl Huysmans, D. Bosco, Patronage St. Pierre, Nice, pág. 13.
84 Is 40, 31.
85 Sl 141, 2.
86 Rom 12, id.
87 Cf. 2 Cor 7, 5.
88 Dr. João Arbertotti, «Chi era D. Bosco». Biografia fisiopsico-patológica. Génova, Fratelli Pala, 1934, pág.
83.
89 Sl 67, 36.
90 Institutiones, 13.
91 Lc 22, 42.
92 Lc 10, 41-42.
93 1 Cor 6, 17.
94 L. c. VII, 2: Devotio pium et affectuosum facit. Assim fala da sexta asa do superior, a oração.
95 Rom 1, 14.
96 L. c. ibid.
97 III Reg., XIX, 11.
98 Ne 2, 4-8.
99 Tg 5, 13: Tristatur aliquis vestrum? Oret.
100 Lc 6, 19.
101 L. c., pág. 161.
102 L. c., págs. 136-137.
103 G. B. Francesia, D. Bosco amigo das almas, 1908, pág. 222.
104 2 Cor 2, 17.
105 Lc 1, 77.
106 Lc 24, 32.
107 Supra pectus Domini recumbens Evangelii fluenta de ipso sacro Dominici pectoris fonte potavit et verbi
Dei gratiam in toto terrarum orbe diffundit.
108 Contra lovin., I: Quem fides Christi virginem reperat, virgo permansit, et ideo plus amatur a Domino et
recumbit super pectus Iesus.
109 2 Cor 5, 20.

183
110 1 Cor 13, 1.
111 Heb 4, 12.
112 Is 24, 16.
113 Filoteia, Introd.
114 Obras, vol. XIV. Carta ao Duque de Belgarde.
115 S. Boaventura, De regula novitiorum, I.
116 Carta de Mons. Eugénio Galletti, Bispo de Alba, 3 set. de 1874.
117 Carta do Pe. Marenco ao Pe. Gusmão, Roma, 21 de maio de 1908.
118 Júlio Salvadori quando publicou os versos «A uma poetisa» (Ricordi dell’umile Italia).
119 At 6, 4.
120 La Civ. Cattolica. A. IV. s. II, v. IH, p. 112.
1210 A. Alfani, Battaglie e Vittorie, VIII.
122 Mt 5, 8.
123 J. B. Lemoyne, Memórias Biográficas de D. Bosco. vol. V, pág. 157.
124 Lemoyne, 1. c., vol. V, pág. 609.
125 Atos do Cap. Superior, n.º 26, pág. 314, 1925.
126 S. João Bosco e a Escola, em Virtudes e glórias de S. J. B. (discursos), págs. 207-208.
127 Memórias Biográficas, vol. X, pág. 1018.
128 F. Cerruti, As ideias de D. Bosco sobre a educação e sobre o ensino e a missão atual da escola. S.
Benigno Canavese, 1886.
129 Cf. Mem. Biogr., vol. XIX, págs. 71 e 274.
130 L. cit., pág. 207.
131 M. B., vol. XVI, pág. 169.
132 De uma carta do salesiano D. Bonavia ao Pe. Lemoyne, 12 de junho de 1903.
133 Carta a Pio IX, 4 de abril de 1875.
134 Cf. Barberis, Cronachetta (inédita); 27 nov. de 1878.
135 Marmion, L. c., pág. 166.
136 Vida, c. XVIII.
137 Mem. Biogr., vol. V, pág. 713.
138 Ibid.
139 Prov 15, 15.
140 Proc. dioc. Summ., pág. 62 (test. do Pe. Barberis).
141 Mem. Biogr., vol. II, pág. 26.
142 L. c., vol. X, pág. 90.
143 Ibid., pág. 42.
144 L. c., vol. VIII, pág. 977; vol. XVIII, pág. 587.
145 Sob este título o Salesiano Pe. Terrone publicou um grosso volume de anedotas dispostas segundo certo
desígnio (L. I. E. C, Turim).
146 Cf. Mem. Biogr., vol. VI, pág. 381.
147 Summarium, pág. 362 (test. Mons. Anfossi).
148 Rom 10, 17.
149 Carta do Conde Arborio Mella à filha. O original pertence à marquesa de Terzi em Sciolze (Turim).
150 L. c., pág. 1.
151 Mem. Biogr., vol. XIX, pág. 282.
152 I.ª, II. ae c. CLXI, a 2 ad 2: Est quaedam disposito ad liberum accessum hominis in spiritualia et divina

184
dona.
153 Discurso para o Tuto (3 de dez. de 1933).
154 Mem. Biogr., vol. IV, pág. 748.
155 Mem. Biogr., vol. XI, pág. 403.
1565 Ibid., vol. XVII, pág. 273.
157 Regulamentos da Congregação Salesiana, art.º 291 § 4.°.
158 Fil 4, 4.
159 C. X. Acerca da Modéstia, art.º 6.
160 1 Jo 4, 18.
161 1 Rs 4, 29; Rom 4, 18.
162 Cf. S. Theol., III. q. XXVII, a. 4.
163 Mgr. Landrieux, Le Divin Meconnu, pág. 163.
164 Adv. C. Bianchetti, Discurso lido na comemoração de D. Bosco, em 24 de junho de 1903.
165 Regras das Casas da Sociedade Salesiana, art.º 763.
166 Prov 25, 12.
167 Mem. Biogr., vol. VI, pág. 417.
168 L. cit., pág. 416.
169 Carta do Pároco D. E. Sacco ao Pe. Rua (1888).
1700 Lemoyne, 1 c, vol. VI, pág. 441.
171 Francesia, 1. C., pág. 6.
172 Relatório do Dr. J. Turchi que é classificado por Lemoyne como homem cauteloso no acreditar, crítico
severo. L. c. VI, pág. 453.
173 Zelle, S. J. A Confissão, segundo os grandes mestres (1896) (Tip. Sales. S. Pier d’Arena), pág. 9.
174 Francesia, L. cit., pág. 84.
175 Francesia, L. cit., pág. 80. Lemoyne conta o caso impessoalmente. O Pe. Francesia diz-nos que era ele o
tal clérigo, acrescentando à minuciosa narrativa este comentário: «Estou velho e na minha idade nem a brincar se
mente».
176 Cf. art. do teól. Vaudagnotti, prof. de História Eclesiástica no Seminário arquiep. de Turim, no «Corriere
d’Italia» de 22 de maio de 1929.
177 S. Th., IIa , IIae , q. 1174, a 1, ad 3.
178 At 2, 17.
179 Lemoyne, L. cit., vol. IX, pág. 11.
180 Cón. J. Ballesio, Vida íntima de D. Bosco. Discurso comemorativo.
181 J. Lindovorsky. S. I. Manual de psicologia experimental. ed. it., Milão, págs. 111-112 e 318-319.
182 At 10, 10-16.
183 Sobre os sonhos de D. Bosco, cf. Mem. Biogr., vol. XVII, págs. 7-13.
184 A. Poulain, S. J., Des grâces d’oraison, Paris, 1922, XXIV, 71.
185 Resp. ad animadversiones, pág. 27.
186 Definiremos a vida mística, servindo-nos da autoridade de mestres insignes: «a perceção imediata e
amorosa do mundo da fé, em particular da presença eminentemente ativa de Deus na alma». Cf. La Civiltà
Cattolica, 18-5-1929, pág. 324.
187 De can. Sanct. III, 52, 3.
188 L. c. XXVIII, 15.
189 Homo apost., App. I, 17.
190 Th. A. Vallgornera, Mystica Theologia D. Thomae., Q. IV, disp. 2, 42, mn. 1-8.

185
191 Não vem nos textos; mas as suas palavras são referidas pela testemunha Pe. Amadei no seu
interrogatório.
192 Carta ao Card. Pref. da Congregação dos Ritos, 27 set. 1926, in Apend. documentorum da Desponsio
para uma Nova positio super virtutibus (1926).
193 Discurso depois do Decreto sobre a heroicidade das virtudes do Ven. Domingos Sávio (Mem. Biogr., vol.
XIX, pág. 2200).
194 Cant 5, 6.
195 Sl 118, 10.
196 Cf. carta já citada do Pe. Rinaldi.
197 Positio super virtutibus, pág. 972, § 1.°.
198 Summ., X, 39.
199 Diálogos, LXXXIX, 6.
200 Positio super virtutibus, pág. 589, § 183.°.
201 C., VI, págs. 93-95.
202 Castelo interior. Quinta mansão, s. I.
203 Positio super virtutibus, págs. 416-417, § 384.°.
204 L. c., pág. 788, § 29.°.
205 L. c., págs. 793-794, § 47.°.
206 Teótimo, Pref., 3.° parágrafo.
207 IIa , IIae , q. 91, a 1, ad I.
208 1 Jo 4, 16.
209 Positio super virtutibus, pág. 592, § 3.°.
210 L. c., XII, págs. 1-2.
211 Heb 2, 6.
212 Positio super virtutibus, pág. 319, §§ 52.° e 55.°.
213 De Montamorand, cit. por L. Tanquerey em Précis de Théol. ascet. et mist., n.º 43. (Desclée, 1924).
214 Hello, Physionomies de Saints. St. Bernard.
215 Conferências espirituais, ed. ital., S. E. I., pág. 13.
216 Ibidem
217 Col 3, 3.
2184 Tanquerey, l. c, n.º 615.
219 D. C. Marmion, Cristo ideale del monaco, Antoniana, pág. 84.
220 Discurso na audiência de 25 de junho de 1922 aos Alunos e Salesianos da Casa do «Sagrado Coração» de
Roma.
221 J. Joergensen, D. Bosco, ed. ital., S. E. I., 1929, pág. 8.
222 Fil 4, 18.
223 Mem. Biogr., vol. III, pág. 278.
224 Mt 5, 13-14.
225 Mt 11, 5; Lc 4, 18.
226 Lc 11, 41.
227 Mal 2, 8.
228 Rom 13, 7.
229 Mem. Biogr., vol. VII, pág. 175.
230 Ibid., vol. III, págs. 423 e 526.
231 Gal 4, 19; Fil 1, 21; Gal 2, 20.

186
232 Obras Completas, ed. Franc., (Carmelitas de Paris), T. III, pág. 109.
233 Mor., VI, 37 (M. P. L., LXXV, 761).
234 Pe. Portaluppi, A Espiritualidade de D. Bosco em «Scuola Cattolica», jan. 1930.
235 Osservatore Romano, 15 de abril de 1934.
236 Quando o Papa Pio XI se dirigia na sédia gestatória para o trono erigido diante da Confissão, para a
grande audiência de 3 de abril de 1934, ecoaram na Basílica aclamações como esta: Viva o Papa de D. Bosco.
O Papa, no seu discurso, recolheu com agrado a saudação, dizendo: «Foi com íntima alegria que ouvimos a
saudação que se erguia à nossa roda: Viva o Papa de D. Bosco».

187
Índice
Capítulo I 16
NA FAMÍLIA 16
A sua precoce ideia sobre a piedade 16
No lar 17
Seu zelo infantil 18
Primeiras penitências 18
Primeira Comunhão 19
Duras provas 19
Piedade vivida 19
Devoção a Maria 20
A oração contínua 21
Capítulo II 21
NA ESCOLA 21
Num mundo novo 21
Tem por guia a piedade 22
Um confessor fixo 22
Sociedade da Alegria 23
Apostolado precoce 23
Amizade com Comollo 24
Crise vocacional? 25
Franciscano? 26
Recebe a batina 27
Seu regulamento de vida 27
A piedade salesiana 27
Capítulo III 28
NO SEMINÁRIO 28
A comunhão 28
Sua devoção a Nossa Senhora 28
No púlpito 29
Sempre pregando 30
Os dois amigos 31
Sua vida de intimidade 31
Seu tipo de piedade 32

188
Nas férias 32
Espírito eclesiástico 33
Subdiaconado 33
Presbiterado 34
Seu plano de vida sacerdotal 34
Capítulo IV 35
NOS PRINCÍPIOS DA SUA MISSÃO 35
Ordinário no extraordinário 35
O Oratório festivo 36
Fecunda Ave-Maria 37
A residência sacerdotal 37
Ao estilo de um codicilo 38
Capítulo V 39
NA SEGUNDA FASE 39
DA SUA MISSÃO 39
O teólogo Borel 39
Primeiros contrastes 40
Serenidade de Dom Bosco 41
Bastava vê-lo 41
Durante a semana 42
Fontes de inspiração 43
Sílvio Pellico 43
Capítulo VI 44
NA SEDE ESTÁVEL 44
DA SUA MISSÃO 44
Porque se chama Oratório 44
Havia algo estranho nele 45
Um espírito sereno 46
Uma simplicidade evangélica 46
A paz no seu rosto 47
Os exercícios espirituais 47
Seus propósitos 48
Dom Bosco chorava 48
Amor eucarístico de Dom Bosco 49
Como celebrava a santa Missa 50

189
Apóstolo da Eucaristia 50
No confessionário 51
Capítulo VII 52
NO PERÍODO DAS GRANDES FUNDAÇÕES 52
Dom Bosco, um mistério 52
Dom Bosco, um santo 53
O espírito de oração na sua escola 53
Seu breviário, praticar o bem 54
Sua tranquilidade de espírito 55
Como falava de Deus 55
Como falava do Céu 56
Sempre uma boa palavra 57
«Parecia Nosso Senhor» 58
Dom Bosco, instrumento de Deus 58
A mente fixa em Deus 59
Sempre sacerdote 60
Inexorável em relação ao pecado 61
Sabia impedi-lo 61
Dom Bosco ardia de amor a Deus 63
Uma síntese da sua devoção 64
Devoção a Maria 64
Poesia da sua piedade 65
Seu coração e sua mente, com Maria 66
Capítulo VIII 67
NAS TRIBULAÇÕES DA VIDA 67
Espinhos e cruzes 67
A arte de sofrer 68
Chorando 68
Na tribulação 69
Atentados e mais atentados 69
Dom Bosco não cede 70
Mas os credores… 70
… e o inesperado 71
Grande tribulação 72
Na doença 73

190
Sua grande oração 74
Capítulo IX 75
NOS CONTRATEMPOS 75
DE VÁRIO GÉNERO 75
Construções que desmoronam 75
Um raio 76
Cai uma abóbada 77
Um incêndio 77
As contrariedades das viagens 77
Os contratempos com pessoas simples 78
E com os grandes 79
Com os jornais 80
Com as autoridades escolares 81
Com as autoridades eclesiásticas 81
E um dia… 83
Capítulo X 84
CONFESSOR 84
Dom Bosco e a confissão 84
Na infância 84
Como estudante 84
Como sacerdote 84
Durante as viagens 85
Nos seus escritos 85
Nas suas conferências 86
Nas suas aulas e nas suas pregações 86
Como confessava 87
Sempre disposto a confessar 88
Nunca se cansava 89
Capítulo XI 89
PREGADOR 89
Sua preparação 90
Sua eficácia 90
Inspirado em Deus 91
Sua ideia predominante 91
Direto ao essencial 92

191
Uma ocasião para dar nas vistas 93
Capítulo XII 94
ESCRITOR 94
Por sua condição sacerdotal 94
Sempre boa imprensa 95
Sacerdote da palavra 96
E da palavra escrita 96
… e simples 97
Angelical sacerdote 97
O candor na sua História Sagrada 97
Seu amor à Igreja 98
Espírito das suas cartas 99
Capítulo XIII 99
EDUCADOR 100
Educador da juventude 100
Seu futuro 100
Um sonho 100
O sonho repete-se 102
Sessenta e dois anos mais tarde 103
Como entendeu a educação 103
Uma educação integral 104
E desde o primeiro instante 104
A escola, como meio 105
Como fazer 105
Não há educação sem religião 105
Seu segredo educativo 106
Como o fazia Dom Bosco 106
Com bondade sacerdotal 106
As “boas-noites” 108
No escritório 108
Ao encontrá-los 108
Com os doentes 108
A suavidade do azeite 109
Seu sistema 109
Cagliero 109

192
Um anglicano 110
A piedade 110
Seu tipo de piedade 111
E alegria 111
Capítulo XIV 112
HOMEM DE FÉ 112
Fé vivida 112
Fé desde criança 113
Fé nos superiores 114
Seus desejos de fé 114
E da glória de Deus 115
Fé que o unia a Deus 115
Olhando para trás 116
Sua fé e as almas 117
Sua consciência sacerdotal 117
Sua defesa da fé 118
As vocações eclesiásticas 119
Os Filhos de Maria 120
O culto divino 120
O Pequeno Clero 121
Dom Bosco, homem de fé 121
Capítulo XV 121
APÓSTOLO DA CARIDADE 121
Missão específica de Dom Bosco 122
Humilde 122
Mestra, Maria 123
Caridade universal 123
Vida de trabalho 123
Trabalho pelas almas 123
O trabalho, na Congregação Salesiana 124
Perigo do trabalho 125
Trabalho espiritualizado 126
Um trabalho alegre 126
A comunhão, fonte de alegria 127
Cordialidade alegre 128

193
Caridade independente 128
Caridade, sem aceção de pessoas 128
Sem preocupações 129
Firme perante a contradição 129
Fundador contra todo o obstáculo 130
E obstáculos políticos 130
Vence dificuldades com a caridade 131
Capítulo XVI 131
O DOM DO CONSELHO 131
Luz no ocaso 132
Dom Bosco, superdotado 132
Dom do conselho 132
As gentes recorrem a ele 133
As audiências 133
Carisma pessoal 134
Carisma da sua palavra 134
Como fazia 135
Seus efeitos 135
Recordação do autor 136
Dom de conselho no confessionário 136
Descobria pecados ocultos 138
Lia no rosto 139
Sabia coisas de longe 140
Uma noite de 1886… 141
Capítulo XVII 141
SONHOS, VISÕES, ÊXTASES 141
Os sonhos de Dom Bosco 141
Que pensava ele desses sonhos 142
Contava-os com simplicidade 143
E com humildade 144
Porém não dizia tudo 145
Efeitos dos sonhos 145
Caráter psicofísico dos mesmos 146
Atividade da fantasia 146
Seu caráter profético 147

194
Guerra do demónio 148
Falemos um pouco de coisas extraordinárias 149
Visões corpóreas 150
Visões intelectuais 150
Taumaturgo 151
Capítulo XVIII 152
O DOM DA ORAÇÃO 152
Dom Bosco místico? 152
Em que grau? 152
Efeitos da união simples em Dom Bosco 153
Dizem seus sucessores 153
E dizem dois prelados 154
… e Pio XI 155
Em conclusão 155
A liquefação 155
Teve momentos desses? 155
Três factos dizem que sim 156
Confirmação 156
O dom de lágrimas 157
A presença de Deus 157
O sofrer por Deus 157
O honrar a Deus 158
O amor ao próximo 158
A prática das virtudes 159
Provas de amor 159
Dom Bosco, um místico? 160
Capítulo XIX 161
O PLÁCIDO OCASO 161
Morte de desprendimento 161
Sem exterioridades 162
Com paciência 162
Sem lamentações 162
Abandonado nas mãos de médicos e enfermeiros 163
Sua resignação 164
Suas palavras 165

195
O trabalho 165
Suas Congregações 166
Seu amor ao Papa 166
Sua piedade 167
Melhoria 169
Almas… Maria! 169
A Eucaristia 169
Sua serenidade até ao fim 170
Capítulo XX 171
GEMMA SACERDOTUM 171
Genial descrição de Joergensen 171
Sacerdote sempre 171
Sempre sacerdote 172
O sacerdote, um anjo 172
Seu melhor título, sacerdote 173
Era sal e luz 173
Sacerdote dos jovens 174
Sacerdote em todo o lado 174
Com os pobres 174
Com os grandes 174
Com os ricos 175
Perante os sábios 175
Perante as autoridades 176
Sacerdote com seus superiores e irmãos 177
Com os bispos 177
Com os sacerdotes 178
Sua delicadeza sacerdotal 178
Dom Bosco, sempre unido a Cristo 179
Quando deixava de rezar Dom Bosco? 179
Gema sacerdotal 180

196

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