Você está na página 1de 5

AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR.

JORGE AUGUSTO CORREIA


Direção de Serviços da Região do Algarve
ES/3EB Dr. Jorge A. Correia; EB 2,3 D. Paio Peres Correia; EB1/JI Horta do Carmo; EB1/JI Conceição; EB1 Cabanas

Ensino Profissional/Vocacional/CEF de Nível Secundário/Básico – 2016/2017


Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos – 11º TGPSI
PORTUGUÊS – MÓDULO 6

FICHA DE AVALIAÇÃO N.º 1


Nome: ______________________________________________ N.º____ Data: ____/___/_____
Classificação: _____________________________________ A prof.ª: ____________________
GRUPO I

Parte A
Lê atentamente o texto. De seguida, responde às questões formuladas.

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as
vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que
me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a
circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem
5 os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes,
bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não
bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho:
[…] Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem
uns aos outros. […] Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste
10 escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e
abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não
é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a
Cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior
açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo
15 aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as
calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem
buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer.
Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-
no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores;
20 comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o Médico, que o curou ou
ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má
vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que
lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não
comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. […]
25 […] Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas
cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo,
senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais
pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na República, estes são os comidos. E
não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant.
30 Porque os grandes que têm o mando das Cidades e das Províncias, não se contenta a sua fome
de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos
inteiros. […] E de que modo os devoram e comem? […] não como os outros comeres, senão como
pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e
Pág. 1
para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de
35 todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São
o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo
são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem,
em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem:
Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
40 Parece-vos bem isto, peixes? […]
Padre António Vieira, Sermão de Santo António, Col. Textos Literários, 2.ª ed., Ed. Comunicação, 1982

1. Neste excerto, Vieira vai censurar os peixes pelos seus “vícios”.

1.1. Identifica a razão que está na origem da primeira repreensão que lhes é dirigida. (10
pontos)

2. Demonstra, por palavras tuas, que a atitude do Padre António Vieira é oposta àquela que teve
Santo Agostinho. (15 pontos)

3. “Vós virais os olhos para os matos e para o Sertão? Para cá, para cá; para a Cidade é que
haveis de olhar.” (ll. 12-13)

3.1. Explica por palavras tuas a ordem que Vieira dá aos peixes neste excerto. (10 pontos)

3.2. Assinala as razões que estiveram na origem dessa ordem do pregador. (10 pontos)

4. Seleciona, no excerto, um exemplo de cada um dos seguintes recursos: (15 pontos)

a. apóstrofe.

b. metáfora.

c. enumeração

Parte B

Lê atentamente o excerto que se segue.


“Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois
pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos
vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos,
que experimentá-las depois de mortos.”
Capítulo II, Sermão de Santo António aos Peixes

1. Seleciona um dos peixes criticados por Vieira no Capítulo V do Sermão de Santo António
aos Peixes, caracterizando o tipo de pessoas que esse peixe simboliza. (20 pontos)

Pág. 2
2. Seleciona a resposta correta para cada afirmação. (20 pontos)

2.1 O sermão é um texto…


a) informativo.
b) argumentativo.

2.2 O principal objetivo de um texto argumentativo é….


a) convencer o destinatário da validade da tese defendida e levá-lo a agir.
b) transmitir informações objetivas acerca de um determinado facto.

2.3 A última parte de um texto argumentativo – a conclusão – no sermão toma o nome de…
a) peroração.
b) exórdio.

2.4 No sermão, os argumentos e os exemplos aparecem….


a) na confirmação.
b) no exórdio.

GRUPO II

Lê o texto de Maria de Lourdes Pintasilgo, proferido no final da década de 1990.

A revolta da Natureza
Não há hoje dúvida de que a maior parte dos factos são irreversíveis. Não é só a experiência
vivida que o diz quando, mesmo ao longo da nossa vida, pudemos ver “desaparecer” as terras de
cultivo ou as florestas perto de nós. É a própria Física, pela voz, entre outros, do prémio Nobel Ilya
Prygogine, que nos vem dizer que Lavoisier está definitivamente enterrado: não é verdade que nada
5 se cria nem se perde. As perdas dos fenómenos físicos, químicos, biológicos, não têm retorno –
quando muito estarão fugindo, sob forma de energia dissipativa, para qualquer buraco negro do
universo!
Não é possível, por isso, hoje elaborar qualquer política económica ou social sem ter em linha
de conta esta nova realidade. Deve determinar a localização de autoestradas e caminhos de ferro,
10 conduzir à escolha preferencial de meios de transporte, pôr condições de implantação e de
funcionamento à indústria, intervir na regulamentação do espaço urbano.
A “revolta da natureza” politiza hoje, de forma explícita, todas as escolhas técnicas e obriga a pôr
limites concretos ao domínio dos homens sobre a natureza. É que a revolta da natureza não se
manifesta só num lugar.
15 O ar, na sua vagabundagem exterior aos países e continentes, transporta, como já sabíamos
com Chernobyl, a radioatividade para zonas a milhares de quilómetros de distância; inunda de
gases tóxicos todo o Sudeste Asiático com os incêndios das florestas da Indonésia ou de Sarawak;
cobre países inteiros com os gases tóxicos (especialmente CO2) que resultam dos combustíveis
Pág. 3
fósseis usados nos transportes, na vida doméstica e na indústria.
20 A água, quer dos rios quer dos oceanos, perdeu a sua magia de frescura e pureza. Por
exemplo, a Bélgica não tem uma única nascente não poluída: os nitratos dos adubos poluíram toda
a água. Os oceanos estão seguindo a mesma rota. Na margem europeia do Atlântico a situação é
desastrosa […].
A terra é atingida por secas e inundações que tornam as condições de sustento dos humanos
25 cada vez mais problemáticas.
A esta revolta da natureza emprestaram voz os ecologistas. Mas a sua causa não pode ser mais
a de um punhado de gente considerada “idealista”. Hoje é a base mesma da cidadania que é
convocada para fazer face ao que se pode converter na impossibilidade de vida humana no planeta.
E quem está erguendo a voz para essa convocação? É, para espanto de muitos, o Banco Mundial,
30 que, no seu relatório deste ano, constata que “começa a emergir a preocupação de que só uma
enorme catástrofe ecológica será capaz de incitar os países a uma ação concertada”.
Cabe aos cidadãos relembrar alguns princípios da ética governativa.
Em primeiro lugar, nem tudo o que é científica e tecnicamente possível é aceitável humana e
socialmente. Estamos já numa civilização que inclui os limites como condição da existência humana.
35 Em segundo lugar, a penalização não destrói os seus efeitos; é na origem que importa estancar
os fatores que tornarão o planeta inabitável.
E aqui se mostra a incoerência do princípio vigente – “o poluidor paga” – ou a total imoralidade
da proposta americana para Kyoto ao pretender abrir mundialmente “um mercado de licenças de
poluição”.
PINTASILGO, Maria de Lourdes (2012). Para um Novo Paradigma: Um Mundo Assente no Cuidado. Lisboa: Colibri [pp. 318-319, com
supressões]

Responde, agora, às seguintes questões, selecionando a opção correta. (30 pontos)

1.1. Este texto apresenta como marcas específicas


a. o carácter persuasivo e a eloquência.
b. a explicitação de um ponto de vista e a subjetividade.
c. a descrição sucinta de um objeto, acompanhada de comentário crítico.

1.2. Ao referir Ilya Prygogine, a autora visa


a. corroborar a validade das descobertas de Lavoisier.
b. demonstrar o carácter obsoleto das descobertas de Lavoisier.
c. introduzir o subtema que será abordado de seguida – a energia dissipativa.

1.3. Para a autora, a “revolta da natureza”


a. é um fenómeno natural, independente da ação humana.
Pág. 4
b. é condicionada fortemente pela ação dos ecologistas.
c. resulta da falta de ética governativa humana.

1.4. Os parágrafos 4, 5 e 6 baseiam-se em


a. argumentos.
b. contra-argumentos.
c. provas.

1.5. Em “E quem está erguendo a voz para essa convocação?” (l. 29), recorre-se à interrogação para
demonstrar
a. entusiasmo.
b. concordância.
c. incredulidade.

1.6. No último parágrafo do texto (ll. 37-.39) destaca-se uma intenção predominantemente
a. didática.
b. estética.
c. crítica.

2. Indica os referentes dos seguintes elementos: (10 pontos)


a) “sua” (linha 20)
b) “que” (linha 24);

3. Indica o valor dos articuladores de discurso destacados. (10 pontos)

a) “Em primeiro lugar, nem tudo o que é científica e tecnicamente possível (…) Em segundo lugar, a
penalização não destrói (…)” (linhas 33-35)

b) “E aqui se mostra a incoerência do princípio vigente – “o poluidor paga” – ou a total imoralidade da


proposta americana para Kyoto (…)” (linhas 37-38)

Grupo III (50 pontos)

Para uns, a pesca está na origem da extinção das espécies marinhas; para outros, a pesca é
uma forma de desenvolvimento económico. Para outros, ainda, é um modo de vida.
Escreve um texto de opinião bem estruturado sobre este tema, com um mínimo de cem e um
máximo de duzentas palavras, em que explicites o teu ponto de vista relativamente a este assunto.
Podes abordar os seguintes tópicos:
• importância da pesca para a economia (fonte de subsistência);
• consequências da pesca a nível ambiental (espécies de peixes em vias de extinção).

Pág. 5