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A Série Divergente: Insurgente

Insurgent

A Série Divergente: Insurgente

Dirigido por Robert Schwentke. Roteiro de Brian Duffield, Mark Bomback e Akiva Goldsman. Com: Shailene
Woodley, Theo James, Kate Winslet, Miles Teller, Ansel Elgort, Octavia Spencer, Zoë Kravitz, Jai Courtney, Tony
Goldwyn, Ashley Judd, Ray Stevenson, Maggie Q, Daniel Dae Kim e Naomi Watts.

Já estou chegando a um ponto no qual as distopias protagonizadas por jovens heróis e heroínas “escolhidos” para
salvar suas nações estão começando a se misturar em minha mente em função das tramas, personagens e mesmo
estéticas similares empregados nas várias franquias baseadas na literatura voltada para jovens adultos. Jogos
Vorazes, O Doador de Memórias, Divergente, Os Instrumentos Mortais e Maze Runner, entre outros, podem até
representar filmes díspares em qualidade e detalhes temáticos, mas é difícil negar que, em maior ou menor grau,
todos buscam emular a série Harry Potter até mesmo no que tinha de pior: a ideia irritante de dividir o último livro
em duas partes para explorar mais seu potencial nas bilheterias (e digo isso mesmo tendo gostado das duas partes
finais daquele projeto). Sim, comparar a Katniss Everdeen de Jogos Vorazes com a Tris Prior de Divergente pode soar
injusto, já que a primeira protagonizou filmes bem melhores até agora, mas é também inevitável – principalmente
se considerarmos que até obras falhas como O Doador de Memórias conseguiram ao menos criar uma lógica visual
interessante, o que não ocorre aqui.

Adaptado pelo estreante Brian Duffield e pelos veteranos Mark Bomback e Akiva Goldsman (cujas carreiras trazem
mais desastres do que bons resultados artísticos), este Insurgente começa exatamente a partir do ponto em que o
anterior se encerrou, usando, para isso, um recurso de exposição até eficiente (um pronunciamento da implacável
Jeanine, personagem de Kate Winslet). Reencontramos, então, a jovem divergente Tris (Woodley) e seus
companheiros de fuga e revolução: o namorado Quatro (James), o irmão Caleb (Elgort) e o pé-no-saco Peter (Teller).
Enquanto tentam evitar a captura, eles acabam encontrando uma líder revolucionária (Watts) e descobrem que
Jeanine está tentando abrir uma caixa misteriosa que aparentemente traz uma mensagem dos fundadores daquela
civilização pós-apocalíptica – uma tarefa que, claro, só pode ser executada por um divergente (hum... quem seria?,
me pergunto).

O fato de esta heroína ser vivida por Shailene Woodley, uma atriz carismática e competente, é um consolo, mas
nem mesmo seu talento consegue despistar a maneira unidimensional com que Tris é concebida pelo roteiro, que
consegue, no máximo, criar um conflito óbvio envolvendo a dor que a garota experimenta por sentir-se culpada por
tantas mortes. Ainda assim, Tris é um poço de complexidade se comparada ao aborrecido Quatro (vivido pelo
aborrecido Theo James) e ao inexpressivo Caleb (vivido pelo inexpressivo Ansel Elgort). Sim, aqui e ali Kate Winslet
surge apropriadamente fria e cruel, mas também frustrantemente caricatural – e é só mesmo quando Miles Teller
aparece como Peter que o filme ganha alguma vida, já que, mesmo encarnando o tipo traiçoeiro que já esperamos
de longas como este, o rapaz traz vitalidade às suas cenas.

E se o roteiro praticamente se limita a diálogos repletos de clichês sobre a “necessidade de se perdoar”, a direção
frágil de Robert Schwentke mostra-se igualmente sem imaginação, concentrando-se em primeiros planos televisivos
e demonstrando uma falta de cuidado assustadora com a lógica visual da narrativa – e depois de usar uma câmera
área em plongé sobre uma floresta em uma sequência de sonho, o cineasta usa exatamente a mesma abordagem
numa sequência que ocorre logo depois e é ambientada no mundo real, o que parece sugerir uma preguiça
alarmante e mesmo pouco caso para com o espectador e o próprio projeto.
Além disso, a trama em si é recheada de momentos que não fazem o menor sentido: em certo instante, por
exemplo, Quatro se envolve numa briga que poderia ter resultado em tragédia apenas para, depois, interrompê-la
com uma informação que a teria evitado completamente. E por que diabos os “soldados” (na falta de termo
melhor) de Jeanine insistem em obedecê-la mesmo quando já fica claro que as ordens desta não fazem o menor
sentido? (Não revelarei, claro, por que não fazem sentido, mas você entenderão ao ver o filme.) Da mesma maneira,
Schwentke escancara seu desmazelo como diretor numa cena em que a heroína, depois de tentar atirar em outra
pessoa e ser frustrada por uma parede de vidro, vê um sujeito que estava ao seu lado ir até a sala adjacente em
meio segundo e nem tenta segui-lo, permanecendo parada (e frustrada) em vez de dar alguns passos e disparar
novamente sem obstáculo algum que a impeça.

Empregando qualquer desculpa para tentar incluir sequências de ação em um projeto repleto de falatório
desinteressante, os roteiristas apelam não só para as já citadas cenas envolvendo sonhos como ainda investem um
longo tempo em incidentes grandiosos que ocorrem apenas dentro de uma simulação – e mesmo que estes sejam
eficazes em seus efeitos visuais, a verdade é que se torna difícil criar algum impacto emocional quando sabemos
que tudo (incluindo conversas dramáticas sem qualquer lógica) está ocorrendo apenas na mente da heroína.

Mas lógica não é mesmo o forte de Insurgente, como comprovam os dez minutos finais repletos de revelações
absurdas que só despertam mais dúvidas (e não leia o restante deste parágrafo caso ainda não tenha assistido a
esta continuação): por que os pais de Tris escondiam a tal caixa? Como o tal “experimento” funcionava? Como
podia comprovar a importância dos divergentes? Por que os “ancestrais” julgaram que aquele experimento saído
diretamente de A Vila teria alguma chance de funcionar – tanto ao dividirem a sociedade em cinco castas quanto ao
apostarem tudo no surgimento de “divergentes”? E por que eles faziam testes para determinar a “vocação” de cada
um se bastava apontar uma versão futurística do Medidor de Energia Psicocinética dos Caça-Fantasmas para
determinar não só a “classe” do cidadão, mas também a porcentagem de divergenzice nele contida?

Porém, o mais decepcionante em Insurgente é constatar como adiciona, à sua narrativa tola, uma mensagem
desumana e preocupante, trazendo não apenas um, mas dois momentos nos quais personagens são friamente
executados mesmo depois de desarmados e imobilizados – cenas nas quais a execução tem claramente o propósito
de inspirar a celebração do público. E o fato de que os carrascos são teoricamente “mocinhos” é algo com grande
potencial para plantar ideias pouco nobres nas mentes do jovem público-alvo da franquia.

Isto é: caso ele ainda esteja acordado.

20 de Março de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema
em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e
colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é
professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
A Série Divergente: Convergente
The Divergent Series: Allegiant

A Série Divergente: Convergente

Dirigido por Robert Schwentke. Roteiro de Noah Oppenheim, Adam Cooper e Bill Collage. Com: Shailene
Woodley, Theo James, Miles Teller, Zoë Kravitz, Ansel Elgort, Maggie Q, Xander Berkeley, Bill Skarsgård, Jonny
Weston, Nadia Hilker, Rebecca Pidgeon, Naomi Watts e Jeff Daniels.

A cada novo capítulo da série, Divergente comprova ser pouco mais do que um sub-Jogos Vorazes; uma narrativa
juvenil que usa uma distopia, com suas metrópoles destruídas e líderes autoritários, como pano de fundo para uma
aventura clichê e tola. Aliás, devo um pedido de desculpas à saga protagonizada por Jennifer Lawrence por fazer
esta comparação, já que os dois projetos estão tão distantes um do outro quanto Marlon Brando estaria de Theo
James.

Retomando a trama a partir da descoberta feita ao final de Insurgente, este novo capítulo traz a divergente Tris
(Woodley) determinada a atravessar os muros de Chicago a fim de descobrir quem são os responsáveis pela
mensagem deixada no aparato que serviu de centro ao filme anterior. Apoiada por Quatro (James), a garota
percebe que a nova líder da cidade, Evelyn (Watts), está se transformando numa nova versão da vilã anterior,
Jeanine – algo que o filme sutilmente indica ao trazer a seguinte fala: “Ela não demorou a cometer os mesmos erros
que Jeanine” – e também ao incluir uma cena na qual Quatro aponta para a mãe que esta vem se transformando
em uma cópia da líder deposta. Assim, Tris e o namorado escapam de Chicago ao lado de Caleb (Elgort), Peter
(Teller) e Christina (Kravitz), sendo resgatados pelos habitantes/soldados de um mundo com tecnologia bastante
superior e liderado por David (Daniels), que não demora a explicar a Tris que esta pode ajudá-lo em sua pesquisa
genética envolvendo os “puros” e os “danificados”.

Neste momento, claro, Tris deveria interromper a explicação do sujeito e dizer algo como “Peraí, sr. Hitler. Como é
que é?!”. Porém, como Caleb não sabe nem o que é um “aeroporto”, a possibilidade de Tris conhecer a história do
nazismo é mínima – o que não a impediria de perceber a natureza de seu novo amigo de forma bem mais rápida.
Aliás, este é um dos problemas da série: se Jogos Vorazes mantinha coesão em suas alegorias sobre autoritarismo e
propaganda midiática, Divergente prefere atirar para todos lados, substituindo o comentário metafórico sobre
segregação racial/sexual/ideológica por uma discussão óbvia (e, de modo geral, anacrônica) sobre pureza racial que
só chocará aqueles que ainda encaram a Ku Klux Klan como algo relevante. Fora isso, o roteiro de Noah Oppenheim,
Adam Cooper e Bill Collage não faz o menor sentido – dos grandes eventos (como David espera “limpar o genoma”
da população, mesmo?) aos menores (como Tris sabia que precisaria de seis equipamentos para escalar o muro se
não podia antecipar que Caleb e Peter se uniriam a eles?).

Os problemas no roteiro, contudo, são insignificantes se comparados à direção amadora de Robert Schwentke, que
chega a tentar plagiar Mad Max: Estrada da Fúria ao incluir um plano em câmera lenta no qual vemos um carro
saltando num deserto (e nem preciso apontar que a comparação aqui também não é favorável a Convergente).
Cineasta sem imaginação que chega a telegrafar para o espectador a morte de determinado(a) personagem de tal
maneira que qualquer impacto que esta poderia provocar é sabotado, Schwentke parece não ter ideia do conceito
de “linguagem cinematográfica”, levando sua câmera a agitar-se durante uma conversa passageira entre Quatro e
Evelyn, mas não em outros momentos nos quais o quadro móvel poderia ressaltar a tensão dos acontecimentos.
Sem dominar também a mise-en-scène ao conceber sequências de ação confusas e nada empolgantes, o diretor
chega a demonstrar verdadeira preguiça ao coordenar passagens importantes como aquela na qual um subalterno
de Evelyn percebe a fuga de dois personagens – que basicamente caminham no meio de uma multidão sem serem
percebidos. (E não consigo nem tentar explicar o momento no qual Christina olha pelo binóculo e diz que a “costa
está limpa” embora tenhamos acabado de ver um plano subjetivo que trazia um carro dos inimigos passando diante
do muro.) Como se não bastasse, a narrativa ainda é prejudicada pelo (aparentemente) baixo orçamento do projeto,
já que os efeitos visuais são geralmente medíocres, soando como versões iniciais enviadas pelos técnicos que
acabaram sendo aprovadas por engano pelos realizadores.

E o que dizer dos diálogos? Quando os heróis escapam de Chicago e se deparam com um terreno desértico (o que
aconteceu com a área verde vista cercando Chicago no primeiro filme?), Caleb logo avista uma cratera e, do alto de
sua posição como “Erudito”, proclama: “Este buraco parece radioativo”, o que, para todos os efeitos, o converte em
um contador Geiger humano. Já em outro instante, para salientar o descontrole sedento de sangue da turba que
segue Evelyn, podemos ouvir gritos de “Vamos executar mais alguns!”, o que, confesso, provocou meu riso, não
choque. Esta obviedade dos diálogos, vale apontar, é acompanhada pela do design de produção: a escada na sala de
David é helicoidal (percebem? Ele faz manipulação genética!), Tris passa a usar preto ao decidir agir depois de vestir
branco o filme inteiro e, claro, os uniformes dos soldados comandados pelo personagem de Jeff Daniel são
vermelhos (embora, neste caso, haja também uma justificativa diegética, já que é a melhor camuflagem no terreno
devastado do planeta).

Já o elenco, coitado, faz o que pode com os personagens esquemáticos: Jeff Daniels muda de comportamento
segundo as necessidades de cada momento, Miles Teller continua a se divertir com o egocentrismo de Peter, Ansel
Elgort usa o autismo de Caleb como desculpa para sua inexpressividade e Theo James faz cara de bravinho o tempo
todo. Já Shailene Woodley, uma atriz tão promissora, continua a desperdiçar um tempo precioso de sua carreira
com uma franquia que simplesmente não justifica seu esforço e que tem conseguido apenas convertê-la em uma
intérprete apagada e inexpressiva.

Habitado por indivíduos aparentemente imunes a quedas brutais de naves em alta velocidade, Convergente ao
menos representa algo inédito em minha carreira, já que, depois de quase 22 anos, esta é a primeira vez em que
incluo numa crítica o nome de um assistente de direção (John Wildermuth) e a observação de jamais ter visto
figurantes tão ruins (responsabilidade do tal assistente): seguindo marcações de cena que não fazem o menor
sentido nas sequências em que devem demonstrar pânico, os figurantes riem em cenas dramáticas e chegam
a caminhar de forma artificial, o que deve representar algum novo tipo de recorde.

E, ainda assim, observá-los em sua falta de talento representou provavelmente o aspecto mais divertido de assistir a
este longa.

11 de Março de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site


Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994
e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é
professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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