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A entrevista se inicia com Jean Piaget se definindo como um estruturalista, e

afirmando que o estruturalismo que ele acredita é aquele no qual as estruturas se constroem
por interação entre as atividades do indivíduo e as reações do objeto. Portanto, as estruturas
não são a priori, ou acrescentadas antecipadamente. Piaget ainda afirma que há fases tanto
nas estruturas orgânicas (como, por exemplo, na embriogênese) como na mente (como, por
exemplo, no desenvolvimento das funções cognitivas da inteligência do pensamento), e, cada
fase corresponde a um conjunto de estruturas. O uso do termo “fase” implica em sequência,
ou seja, o próximo passo é dependente do anterior e é necessário para o seguinte. No entanto,
é importante ressaltar que para Piaget o lado orgânico (embriogênese), diferentemente do
pensamento, é pré-determinado, pois tem uma programação hereditária, porém ele não é
completamente, visto que há interações com o meio que podem alterar o embrião em
desenvolvimento.

O entrevistado ainda afirma que os fetos, tanto de humanos como de animais, não se
desenvolvem da mesma maneira, justamente por ter interações com o meio que podem
alterar a forma como ele será ao nascer. No entanto, há sim programações genéticas que são
responsáveis por fatores em comum entre os seres, mas estas estão submetidas a
acomodação individual. Nos animais, as condutas estão fortemente relacionadas com o grupo,
ou seja, a função do macho é correlacionada com a função da fêmea em uma espécie, já nos
seres humanos as condutas são individuais, ou seja, a adaptação ao meio depende muito mais
da própria interação do indivíduo com o ambiente.

Uma importante afirmação ao longo entrevista é a de que não dá para saber


exatamente o que é hereditário e o que não é hereditário. Essa afirmação reforça a ideia de
que Piaget se afasta do inatismo e do pré-determinismo biológico, e aproxima-se do
construtivismo, partindo da ideia de que ele acredita em uma criação contínua do
conhecimento.

Piaget diz que a gênese é a formação de uma estrutura, e esta, por sua vez, é um
sistema de transformações que vai do mais simples ao mais complexo. Ou seja, uma estrutura
simples vai para uma estrutura mais complexa. É importante ressaltar que a gênese não
constitui um começo absoluto, mas parte sempre de uma estrutura mais simples. Além disso,
ele fala de uma necessidade de uma estrutura, ou seja, uma criança que em nível pré-
operatório não é capaz de relacionar alguns objetos, tem uma necessidade de estruturas.
Assim sendo, a necessidade é um critério do encerramento de uma estrutura. No entanto, já
há estruturas de ação (surgem a partir dos 6 meses), no nível sensório-motor, que antecede a
capacidade da criança de fazer relações/operações. Portanto a criança é capaz de realizar
deslocamentos de objetos. Posteriormente, ela poderá ir mais longe e interiorizar suas ações
sensório-motoras e novas estruturas que serão estruturas do pensamento. Isso dará início a:
classificações, seriações, número inteiro, grupos de deslocamento no espaço limitado,
estruturas geométricas.

Piaget afirma que a inteligência é uma adaptação às situações novas, e, portanto, é


uma construção contínua das estruturas. Consequentemente, a construção de estruturas é
algo contínuo, pois o indivíduo está sempre sendo apresentado a situações novas.

Frente a situações novas, é preciso assimilar e acomodar. Assimilação é um conceito


biológico que diz que o fato de que um estímulo sempre modificará uma conduta integrado a
estruturas anteriores. Quando absorvemos algo do ambiente, isto está subordinado à
estrutura interna (por exemplo, quando um coelho como uma couve é a couve que se
transforma em coelho e não o contrário). Acomodação é a necessidade de modificar uma
assimilação em função das circunstâncias particulares às quais o esquema deve ser aplicado
(por exemplo, um bebê que pega um objeto que precisa de uma mão só e depois pega um
objeto que precisa das duas mãos, ele modifica o esquema de apropriação). Portanto,
acomodação é o ajustamento do esquema à situação particular, ou seja, adaptação à
necessidade. Para Piaget: “a acomodação é determinada pelo objeto, enquanto que a
assimilação é determinada pelo indivíduo”. Portanto, que a acomodação é sempre de algo que
já foi assimilado a um esquema de conduta qualquer, e o esquema de assimilação sempre
precisa ser acomodado às situações particulares. Pode-se acrescentar que Piaget prefere o uso
dos termos assimilação e acomodação ao invés de adaptação, pois esta última dá a ideia de
algo ser determinado pelo objeto somente, mostrando só o pólo objeto-acomodação, mas há
também o pólo indivíduo-assimilação.

Há uma equilibração (não equilíbrio, visto que é um processo), pois a assimilação e a


acomodação se ajudam mutuamente, e, assim, há uma auto-regulação que controla os
excessos e os erros tornando um processo dinâmico. Esse processo de equilibração é jamais
chega num fim, pois há sempre coisas que precisam ser assimiladas.

Para Piaget, a construção intelectual se dá de forma lenta, no entanto a compreensão


terminal no momento da conclusão da estrutura é brusco. Assim sendo, a tomada de
consciência é algo brusco, mas não a construção.

No decorrer da entrevista, ele afirma seu amor pelas crianças e como sempre se
surpreende quando conhece mais sobre elas. Além disso, diz que quando vai interroga-las para
analisar suas respostas é necessário que estas perguntadas não estejam condicionadas.

Em um determinado momento, o entrevistador questiona-o se é possível que haja


regressão, ou seja, que quando uma etapa aparece na consciência da criança, há uma
destruição parcial das estruturas precedentes. Ele responde que não há uma destruição, mas
sim um desequilíbrio, que pode conduzira a regressões momentâneas. Elas ocorrem quando
não há uma reequilibração rápida, e assim, há um novo começo. Esta reequilibração pode
implicar em abandonar certas estruturas ou não.

A entrevista se encerra com Piaget relacionando a inteligência de uma criança se


relaciona com o progresso humano: nem sempre há coisas que são esquecidas, elas podem ser
incrementadas a novas situações.