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PEDAGOGIA WALDORF ANTROPOMÚSICA – 4 TEMPERAMENTOS

A palavra temperamento, por si só, já nos dá uma ideia do seu significado. Ela remete a
tempero. Algo que dá um gosto, um sabor peculiar à comida.

A pedagogia Waldorf acrescenta através da avaliação dos temperamentos de seus alunos


um grande diferencial às aulas de música. Estas visam estimular e harmonizar o
temperamento do indivíduo, proporcionando assim, não só um aprendizado mais
individualizado, mas também um estado de maior saúde para o ser.
Na pedagogia Waldorf, alunos com o mesmo temperamento são colocados juntos a fim
de desenvolver os aspectos opostos de seu temperamento, capaz de assim equilibrá- lo.
Seguindo a mesma lei para aplicação da homeopatia de Hanneman, através da
convivência com os alunos o professor utiliza o conceito “semelhante cura semelhante”,
onde o processo a ser desenvolvido deve se adequar ao temperamento e não o
temperamento se adequar ao processo.
Focados, por exemplo, os problemas mais comuns relacionados a cada
Temperamento:

Melancólico: depressão
Colérico: violência
Sanguíneo: inconstância
Fleumático: desinteresse

Através da música surgem alternativas para desenvolver as potencialidades que


equilibram o individuo. Através da relação de cada temperamento com as famílias dos
instrumentos musicais o professor proporciona vivências aos alunos com instrumentos
musicais a fim de trabalhar esses temperamentos:

Melancólico: O problema a ser trabalhado nesse temperamento é a tendência à


depressão, por possuir um comportamento pessimista e ter dificuldade de mudanças
(teimoso, inflexível, planeja tudo, não lida com imprevistos, sofre calado). Nesse caso
pegamos esta força que quer se interiorizar e puxamos para fora. Ele gosta de melodias
menores. Vivência de melodias faz o melancólico sair de dentro de si para fora.
Podemos também fazê- lo ver que lá fora também há dor, inspirando a compaixão. O
uso da Corda de arco (A família das cordas friccionadas) e o canto são vivências a
serem estimuladas
nesse temperamento.

Colérico: O problema a ser trabalhado nesse temperamento é a falta de controle


emocional, o que pode levar a violência, obsessão. Precisamos inspirar o respeito e a
admiração. Dar desafios que exijam esforço. Trabalhos físicos para o gasto de energia.
Tonalidades maiores, harmonia forte, ritmos são fatores a serem exercitados. A família
da percussão: tambores, tantam, tímpano e a família de sopros de metais.

Sanguíneo: O problema a ser trabalhado nesse temperamento é a tendência à


pessoa volúvel, inconstante que se interessa por tudo e não se apega a nada. Geralmente
tem a fala rápida, muita modulada. É preciso estabelecer um contato amoroso com uma
pessoa. Por amor a essa pessoa ele consegue aprofundar seu interesse. Geralmente os
sanguíneos carregam a classe musicalmente. Adoram cantar. Tem muito ritmo e
entusiasmo. É importante o treino da memória musical. A família dos sopros de madeira
são os instrumentos indicados.

Fleumático: Nesse temperamento, geralmente pelo mundo imaginat ivo que a


pessoa se coloca, o resultado é um ritmo de desenvolver atividades próprio, na maioria
das vezes mais lento que o grupo o que dificulta o acompanhamento das atividades. É
importante o contato com outras pessoas como uma maneira de tirá- lo de seu próprio
mundo. Metalofones, acordeon, pianos são seus instrumentos, pois o som já está pronto.

‘’Conscientemente, mas geralmente inconscientemente, o homem escolhe o


instrumento que é pertencente à sua essência. Ele não sabe muito bem, mas ele se
sente uno, se identifica. Esta identificação já começa bastante cedo. Na Escola
Waldorf, definimos esta identificação por volta dos oito ou nove anos. Que é
quando a criança começa a ter uma vida interior e não está só no mundo,
imitando, seguindo. Executar, tocar um instrumento exige algo que liga o ser
humano ao instrumento musical. Por que uma pessoa gosta muito de cantar? Por
que ela escolhe uma flauta transversal? É um mistério. Mas, se existe uma ligação
é por conta desta questão. Os instrumentos musicais, uma vez sendo a ressonância
do universo aqui na terra, são também o intermediário ou o objeto intermediário
entre o ser humano e este universo.’’

Todo temperamento unilateral denota algum desequilíbrio, que na escola pode ser
tratado pedagogicamente. Este desequilíbrio é, na verdade, um tipo de força que a
criança tem demais, e que ela precisa “gastar”. Assim, o professor precisa aprender a
atuar com cada criança de acordo com as características de seu temperamento, e não
simplesmente tentar forçá-la a mudá-lo, aplicando castigos etc. Steiner afirma que o
temperamento está fundamentado na natureza mais íntima do homem e devemos levar
em consideração que só conseguiremos amenizá-lo de forma pedagógica. Só a partir da
exercitação dirigida do próprio temperamento é que ele cria forças para transformar-se.
“Sendo assim, não contamos com o que a criança não tem, mas com o que ela tem”.(4)
Steiner indica algumas estratégias básicas para lidarmos com as crianças de acordo com
seu temperamento predominante:

Sanguíneo

Mais do que qualquer outra, a criança sanguínea precisa desenvolver o amor pelo
professor. Para educá-la, devemos fazer-nos amar por ela. “Amor é a palavra mágica. É
por esse caminho indireto do afeto por uma determinada personalidade que toda a
educação da criança sanguínea precisa passar”. Esta criança caracteriza-se por não
conseguir manter algum interesse duradouro. Precisamos então tentar descobrir o que
pode interessá-la mais, e escolher atividades com as quais ela possa ser sanguínea.
Steiner afirma:

“Precisamos tratar de cercar a criança com toda sorte de coisas pelas quais ela nutre
um interesse mais profundo. Então ocuparemos a criança com tais coisas, por espaços
de tempo determinados, coisas em que um interesse passageiro é justificado, junto às
quais ela, por assim dizer, pode ser sanguínea, coisas que não merecem que a pessoa
mantenha interesse por elas. Devemos deixar que estas coisas falem à sanguinidade,
devemos deixar que elas atuem sobre a criança; e então devemos tirá-las dela, para
que a criança as deseje novamente e elas tornem a ser-lhes dadas. Devemos, assim,
deixar que elas atuem sobre a criança”.(5) Rudolf Steiner

Colérico

Ao contrário do sanguíneo, o colérico não conseguirá facilmente sentir amor pelo


professor, mas existe um outro caminho indireto para ajudar em sua educação: respeito
e admiração por uma autoridade. Steiner nos esclarece que “para a criança colérica
temos, sinceramente, de ser dignos de respeito e estima, no mais elevado sentido da
palavra. Não se trata, no caso, de nos tornarmos queridos por nossas qualidades
pessoais, como no caso da criança sanguínea; o que importa é a criança colérica sempre
poder acreditar que o educador sabe o que faz […] Devemos cuidar para ter nas mãos as
rédeas firmes da autoridade, nunca demonstrando ignorar como agir.”

O colérico tem um grande ímpeto de liderar e realizar coisas. Para controlar este ímpeto
em sala de aula, o professor sempre lhe deve propor o que é difícil de realizar, sendo
importante, inclusive, que ele não consiga vencer todos os obstáculos. “Devemos criar
obstáculos, de forma que o temperamento colérico não seja reprimido, mas possa
justamente expressar-se através do confronto com determinadas dificuldades que ela [a
criança] tem que superar […] devemos organizar o ambiente de modo que esse
temperamento colérico possa esgotar-se ao ter de superar obstáculos.”

Assim, quando um colérico tem seu ataque de fúria, por exemplo, em vez de tentarmos
reprimi-lo na hora, o que costuma ser impossível, o remédio é dar-lhe logo uma
atividade difícil, para esgotar sua cólera, e comentar o motivo da cólera só depois que
ela houver passado.(6)

Melancólico

A criança melancólica tem a característica de achar que o mundo está contra ela, que
tudo acontece para feri-la, e apega-se profundamente aos obstáculos. A via de acesso do
educador para o melancólico são as dificuldades e sofrimentos que o próprio professor
teve de viver. A criança precisa sentir que o professor já passou por sofrimentos. Steiner
sustenta que “a criança melancólica é predisposta ao sofrimento; ela tem capacidade
para sentir dor, desengano; isso está arraigado em seu íntimo, não podendo ser extinto à
força – porém pode ser desviado […] Uma pessoa que, com sua narrativa, pode fazer
com que o melancólico chegue a sentir como ela foi provada pelo destino, essa traz um
grande benefício a esse tipo de criança”.(7)

De nada adianta tentar alegrar ou consolar um melancólico, a não ser fazer com que sua
melancolia piore ainda mais. É preciso que ele vivencie dores justificadas, que ele saiba
que sofrimentos existem, e como os homens podem triunfar sobre eles. E é importante
demonstrar que respeitamos os sacrifícios que ele faz e os obstáculos que supera. O
aluno melancólico precisa sentir que o professor tem uma atenção especial para ele, e
não devemos dar-lhe qualquer tarefa. Ele precisa sentir que está fazendo algo por
alguém, um sacrifício pelo professor, por ele ou pela classe; aí ele faz um bom trabalho.

Fleumático
A criança fleumática tem dificuldades para se envolver com o que acontece ao seu
redor. Seu ponto negativo é esta falta de interesse. Para conseguir seu interesse o melhor
caminho é promover sua integração com outras crianças, para que conviva com os
interesses de seus colegas. No entender de Steiner, não são as coisas por si mesmas que
atuam sobre o fleumático. Não é através de um assunto da tarefa escolar ou doméstica
que conseguiremos interessar o pequeno fleumático, e sim através do caminho indireto,
passando pelos interesses de outras crianças da mesma idade. É justamente quando as
coisas se refletem em outras pessoas que estes interesses se refletem na alma da criança
fleumática.(8)

Também é importante, como nos outros temperamentos, aproveitar e valorizar suas


características para envolvê-los no aprendizado. Fleumáticos aprendem devagar, mas
têm ótima memória e são bons planejadores. O autor sugere que “procuremos propiciar
acontecimentos em que a fleuma seja oportuna. Devemos dirigir a fleuma para os
objetos certos, diante das quais se possa ser fleumático. Com isso podem ser obtidos,
por vezes, magníficos resultados junto à criança pequena”.

Os temperamentos na sala de aula

Além de estudar como atuar individualmente no temperamento da criança, é preciso


saber como administrá-los melhor na sala de aula. Os alunos devem ser agrupados por
temperamento predominante. Ao contrário do que imaginamos inicialmente, os
sanguíneos, por exemplo, não falam mais por ficarem juntos. Desta forma eles
desgastam entre si os seus excessos. Os sanguíneos tendem a se cansar de sua agitação,
os fleumáticos de sua imobilidade, e assim por diante. Os coléricos conversarão menos
entre si do que sentados ao lado dos outros.

Os coléricos são aqueles aos quais o professor vai pedir mais ajuda. Segundo afirma a
professora Celina Targa, para lidar com a energia do colérico é importante dar sempre
atividade para ele, inventar coisas para ele fazer! “Vai buscar na secretaria uma
apostila.” Ou então: “Faz favor! Abre a porta aqui pra mim que está calor.” “Abre a
janela.” “Apaga a lousa.” Devemos dar atividade para ele, que é disso que ele gosta e
ajuda a desanuviar.”(9)

Os fleumáticos devem ficar separados dos coléricos e perto do professor, pois tendem a
querer ser mais espectadores do que participantes da aula. Os fleumáticos não gostam de
muita agitação. Targa afirma que “então eles precisam ficar próximos do professor por
que daí a gente pode acompanhá-los melhor. […] Onde eles se sintam cercados diante
de um palco. Então as primeiras fileiras são um lugar muito bom, pois senão eles ficam
esquecidos”. Já os sanguíneos, como gostam muito das novidades, ajudam o professor a
disseminar o assunto entre os colegas. Podem ficar entre os coléricos e os fleumáticos.
Os alunos com maior potencial de tumultuar os trabalhos devem ficar nos extremos da
primeira fileira, e nunca no cento da sala. Os melancólicos, segundo Targa, “precisam
de calma. Eles não gostam dessa turbulência do colérico. Isso faz mal para o
melancólico. Então uma região mais acolhedora, quente, em geral perto das janelas num
cantinho”. De tempos em tempos o professor pode ir fazendo pequenas mudanças e
variações mas sempre sem perder de vista a harmonia da classe. Para atuar
positivamente sobre os temperamentos de seus alunos, é fundamental que o professor
trabalhe seu próprio temperamento. Esta disposição anímica é, segundo Steiner, de
suma importância, pois a criança é educada ‘de alma para alma’.
É incrível o que se passa nos fios subterrâneos que vão de uma alma à outra. Muita
coisa acontece quando os senhores permanecem impassíveis diante de uma criança
colérica, ou quando se interessam intimamente pelo que se passa numa criança
fleumática. Aí a própria disposição anímica terá, no plano suprassensível, um efeito
educativo sobre a criança. A educação se realiza pelo que os senhores são, […] em meio
às crianças. Nunca percam, realmente, isso de vista.(10)

Algumas regras valiosas para lidar com as crianças de acordo com os


temperamentos

COLÉRICO SANGUÍNEO FLEUMÁTICO MELANCÓLICO


Usar táticas de
choque, de
Para Explicar como os
Lançar um Pedir um favor ataque. Falar
estimular outros sofrerão se
desafio pessoal diretamente, indo
a atividade ele não conseguir.
ao ponto
principal.
Recordar a má
ação Chamar a atenção
Ter uma palavra
No caso de posteriormente Ter ação logo para as
amigável
repreensão e debater, imediata. conseqüências
imediatamente.
examinar e posteriores.
discutir.
Fornecer
estórias ou Fornecer Contar estórias ou
descrições onde estórias vivas descrições de
Contar estórias
a temeridade com descrições acontecimentos
indiferentes de
torna-se excitantes, com tristes para mostrar
um modo apático.
perigosa ou quadros como o espírito
Gerais Dar uma tarefa e
ridícula. Dar contínuos e humano às vezes
determinar que dê
várias coisas variados. Dar triunfa. Interessar-se
continuidade a
diferentes, bastante coisas pela tristeza e pedir
ela.
fazendo com diferentes para que ajude alguém
que representem fazer. menos capaz.
um desafio.

Bibliografia

1. Apud CARLGREN, Frans e KLINGBORG, Arne. Educação para a Liberdade –


a Pedagogia de Rudolf Steiner. 2006, p. 69.
2. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. 15.
3. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. div.
4. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. div.
5. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. div.
6. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. div.
7. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. 48.
8. STEINER, Rudolf. O Mistério dos Temperamentos. 2002, p. 51.
9. TARGA, Celina A. N. Aula do projeto Dom da Palavra (gravada em vídeo).
2008.
10. STEINER, Rudolf. A Arte da Educação III: Discussões Pedagógicas. 1999, p.
18.