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DOI: 10.4025/4cih.pphuem.

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RECAMPENIZAÇÃO E IMPÉRIOS ALIMENTARES: CONCEITOS E CASOS NO


BRASIL ATUAL

André Souza Martinello∗

O inimigo mais temeroso que ameaça


a independência do pequeno proprietário
não é o grande proprietário fundiário, seu vizinho,
é o industrial ou o negociante que domina o mercado
sobre o qual os agricultores devem escoar seus produtos.
O capitalismo é comerciante antes de ser produtor.
Marc Bloch1

Introdução
Segundo Jan Douwe Van der Ploeg, na Euroupa o desenvolvimento rural se manifesta
como uma recampenização, que passa pela reconstituição da organização camponesa. Este é
um trabalho que apresenta alguns temas e abordagens do sociólogo rural holandês Jan Douwe
Van der Ploeg. Aborda as reformulações conceituais, teóricas e debates acerca do espaço
rural, problematizados pelo pesquisador holandês. Apresenta a noção de novos impérios
alimentares (temática associada à globalização), para em seguida exemplificar casos
brasileiros, do processo recente (História do tempo presente), denominado de
Recampenização.
A pesquisa foca em um primeiro momento, o domínio exercido por grandes empresas
e corporações, que através de práticas de poderes em escalas locais e mundiais, exercem
organização e gestão do território em que se instalam. Além de inseridas em um domínio
através do mercado, as grandes marcas e empresas (brasileiras ou não) atuam conforme
racionalização que impacta negativamente o entorno no qual estão localizadas, ou mais
propriamente, no espaço em que se inserem, criam barreiras para outras dinâmicas de uso,
acesso e concepção da terra e de práticas de agriculturas e de organização rural não
propriamente agroindustrializadas. O segundo momento do artigo aponta ainda como reação
ou não aos impérios alimentares, ocorre também migrações de pessoas buscando fixarem e


André Souza Martinello, Historiador pela UFSC, licenciado em Geografia pela UDESC. Bolsista Capes,
mestrando no Programa Multidisciplinar em Desenvolvimento Rural/PGDR na Faculdade de Economia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Vinculado ao laboratório de Imigração, Migração e
História Ambiental/LABIMHA na UFSC: http://www.labimha.ufsc.br/
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estabelecerem padrões de sociabilidade e formas de vida ligadas à produção da terra, a


Recampenização, está, portanto, em forte diálogo com as migrações do urbano ao rural, assim
como às novas ruralidades emergentes, que também se inserem nos movimentos sócio-
ambientais e da busca da melhoria da qualidade de vida no campo, ao mesmo tempo que,
auxiliam na própria reprodução do campesinato e, por isso, movimento legitimadamente
denominado de Recampenização. O tema da re-emergência do campo, do espaço rural e da
sugestão d’O modo de produção camponês revisitado2, parece fazer cada vez mais sentido
também no Brasil.
A proposta desse trabalho, a partir de algumas análises de Van der Ploeg, segue na
intenção de apresentar maneiras das grandes agro-indústrias e marcas de produtos agrícolas de
maneira geral, exercerem controle de produção, circulação e consumo. Em oposição, aborda-
se o processo e escolhas que desencadeiam a Recampenização, associadas algumas vezes, à
noção do fazer local (fair trade). Utilizando observações realizadas por Van de Ploeg, de que a
Recampenização é um processo crescente e importante na Europa, principalmente como
possibilidade de fuga ou maneira de escapar parcialmente de condições adversas, algumas
delas causadas pelas grandes corporações de atuação que passa por micro e macro escalas,
apresenta-se situações no Brasil em que novos meios de vidas colocados em prática, por
organizações e pessoas que buscam melhores condições sócio-ambientais para si mesmas
(com apelos natural-ambientalistas), tornam-se exemplos e expressões do fenômeno da
Recampenização, mesmo que ainda timidamente, são formas e possibilidades de distanciar-se
das práticas e tentáculos dos impérios alimentares.
Em anexo ao trabalho, duas reportagens de revistas de circulação nacional, utilizadas
nessa pesquisa como fontes para análise e exemplificação, de maneira a tornar mais claro,
aspectos e realidades tratadas ao longo do texto.

Impérios Alimentares e outros domínios territoriais e de mercado


Na epígrafe do presente trabalho, o historiador francês Marc Bloch nos transmite e
apresenta um “tipo” de capitalista inimigo principal dos pequenos proprietários rurais, é a
oposição do comerciante ao produtor. Segundo Bloch, o grande proprietário, dono de vastas
áreas e latifundiário, não é o inimigo número um dos pequenos proprietários, mas,
principalmente o comercial, o industrial e demais negociantes que em tese obrigam certo tipo
de organização econômica e são os responsáveis pela maneira com que os pequenos
produtores (e também pequenos proprietários de terra) comercializam e circulam a produção,
até chegar ao consumidor. Essa é também, uma forma e noção de interpretar e encarar o
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capitalismo e que foi adotado por importante seguidor de Marc Bloch, o também historiador,
Fernand Braudel. Há quem sugira, inclusive, interpretando Braudel, o renomado historiador
da longa duração:

O capitalismo, acredita ele [Braudel], não surge na produção, mas na circulação.


Existe capitalismo a partir do momento em que entre compradores e vendedores
imediatos interpõe-se um terceiro, o comerciante; e isso é mais especialmente
verdadeiro quando o terceiro é um intermediário financeiro, um comerciante de
dinheiro – um banqueiro. O lucro capitalista seria, portanto, por natureza, de ordem
especulativa. Muito longe de inscrever-se (como pensava Marx) no jogo das
equivalências comerciais, ele resulta da capacidade do intermediário capitalista de
falsear as regras da troca em seu benefício. Suprima os intermediários, parece dizer
Braudel, e você estará suprimindo o capitalismo para deixar apenas o justo mercado.
Ou ainda, o verdadeiro mercado só existiria com a ausência dos comerciantes! 3

Assim como Bloch, Braudel é da escola em que o peso do capital (leia-se capitalismo) é
identificado nas trocas e comércios os mais variados.
Trazendo à tona a afirmação de Bloch que abre esse trabalho, e lançando a seguinte
questão: quando os industriais, negociantes e comerciantes de modo geral são também
proprietários de grandes extensões de terras e produzem muitas vezes, ao lado das pequenas
parcelas de terras de sitiantes, camponeses e lavradores? Talvez no capitalismo do tempo de
Bloch, os vizinhos dos pequenos agricultores, eram apenas os grandes proprietários, contudo,
na atualidade, estamos diante de diagnósticos que apresentam aprofundamentos da
concentração da propriedade da terra, e do poder do capital. Quase sempre grandes
corporações que produzem, cultivam a matéria-prima, dominam (por monopólio ou não)
quase totalmente o processo de fabricação (e criação) dos produtos e ainda controlam o acesso
ao mercado consumidor através de diferentes redes que as sustentam e mantém intensa
relação e contato. Ou seja, pode-se falar inclusive de uma concentração e união via capital, do
que antes parecia separado: grandes proprietários de terras e o domínio dos mercados.
Possivelmente, diferente da época em que escreveu Bloch, hoje a principal ameaça aos
pequenos proprietários, são as grandes corporações que podem também dominar vastas
extensões de terras, não se satisfazendo nem só como dominadoras dos mercados, nem como
apenas proprietárias de grandes extensões de terras, mas associando as duas condições. São
esses também que podem ser os “novos vizinhos” dos pequenos proprietários, em uma
“junção” do que para Bloch era separado ou representado por diferentes atores: o dono de
grandes extensões de terra e os grandes negociantes.
O Squeeze on Agriculture4 apresenta os aumentos dos custos da agricultura como valor
total, ou melhor, os custos para que se realize a agricultura vem aumentando no seu valor total
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da produção ou da cadeira produtiva. Esse aumento está relacionado a vários fatores, entre
eles, liberalização excessiva (neoliberalismo) em vários setores da economia, incluso o
agrícola, aumento dos impostos e outros encargos etc. O aumento da dificuldade para
realização da agricultura e seu paralelo aumento de custo de produção, facilitaram e
possibilitaram o aumento de poder e controle dos impérios alimentares. Esses impérios são
mais que agroindústrias, mais que os hipermercados, são formas de ordenamento do mundo.
Não são apenas empresas, mas redes monolíticas, ou redes de monopólio que controlam
fluxos e cadeias de produção, circulação e distribuição de alimentos.
Essas redes de monopólios se expandiram muito rapidamente e com grande
centralização de controle formam os impérios que em última instância, atuam na busca da
expansão das formas e maneiras de lucratividade, causando conseqüências dramáticas. Esses
impérios também são algumas vezes, depositários de certas fragilidades, como o exemplo da
Parmalat. Os impérios alimentares organizam e controlam os fluxos, de maneira a possibilitar
grandes lucratividades. Definem e colocam regras de consumo, antes controlam fluxos e
conseqüentemente controlam: Produção, Comércio e Consumo. É controlando o fluxo que
ocorre o controle das demais áreas e setores do domínio imperialista dos alimentos. É preciso
ressaltar que esses impérios não possuem processo de acumulação clássica ou normal, ou
processo de acumulação capitalista, muito pelo contrário, são capitais adquiridos através de
financiamentos, grande parte do crédito disponível no mercado. Controlam também o modo
de organização do mundo: controle denso e rígido para ser aplicado na sua lógica, de maneira
a possibilitar que grande parte do mundo, de diversos setores, áreas e lógicas sejam
racionalizados em beneficiamento aos seus interesses.
Características que devem ser ressaltadas desses impérios: possuem dinâmicas e ações
parasitárias, que se contrapõem à lógica do comércio honesto ou comércio justo: fair trade.
Em segundo, pelas suas ações, buscam eliminar a autonomia do camponês. O esquema
sintetiza e apresenta o que poderia ser configurado como uma relação de centro => periferia
ou metrópole=> colônia, mas que pode estar presente em um mesmo espaço, ou seja, dentro
de uma mesma nação, de uma mesma região, país ou até local e que efetivamente colocado
em prática pelas corporações que se constituíram como impérios alimentares. A representação
abaixo sintetiza essa ação do imperialismo alimentar, das transferências realizadas de capital,
riqueza, exploração, entre outros:
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Espaço de
Riqueza

Espaço de
Pobreza

Pode-se afirmar que a agricultura para possuir uma relação mínima bastante
satisfatória e se realizar de uma maneira expressiva ou bem sucedida, precisa estar articulada
em relações de equilíbrio em forma de uma tripla articulação (a Produção Agrícola para se
realizar necessita): Sociedade (ambiente social); Ecossistema (natureza ou ambiente
biológico) e Atores envolvidos no Processo (formas de produzir). A representação dessa tripla
articulação é:
SOCIEDADE

PRODUÇÃO
AGRÍCOLA

NATUREZA ATORES

Para que a produção agrícola se efetue da melhor maneira possível é necessário então
um relação entre esses processos envolvidos na produção: a sociedade, os atores e a natureza.
Sendo os atores, importantes contribuintes e configurantes das novas relações sociais com a
natureza, muitas vezes realizada pela inovação de produção agrícola visando maior ética e
respeito ambiental. Assim, a Recampenização torna-se cada vez mais um aspecto do processo
social e características do rural identificado como parte dos novos movimentos sócio-
ambientais de preservação ambiental.
No Brasil não foi difícil perceber, com maior força a partir da década de 1990, a forte
presença de grandes empresas em determinadas regiões e localidades rurais, atuando no
mercado nacional com produção originária das pequenas propriedades. A Parmalat, por
exemplo, instalou pontos ou postos de recolhimento de leite em vários Estados do País.
Muitas vezes, leite originado da agricultura familiar, e das pequenas propriedades produtoras.
No caso do Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, em determinadas regiões, havia
recolhimento nas proximidades de áreas produtoras do campesinato e dessas bacias leiteiras,
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para depois serem levados para sede de processamento do leite. Carazinho e região de Passo
Fundo eram bancos de processamento e recebimento dos demais pontos de recolhimento de
leite feito pela corporação ou empresa de origem italiana, no Norte do Rio Grande do Sul.
Esse caso é ilustrativo desse aspecto de uma grande marca de alimentos (agro-indústria)
adquirir a produção de pequenos produtores (e produzir efetivamente a marca) de maneira
muito próxima e semelhante ao processo de “integração” que as “multinacionais brasileiras”,
como agora as unificadas Sadia e Perdigão, implantaram desde a década de 1970 no sul do
País, e ainda se percebe com produtores de Fumo, caso da Souza Cruz, por exemplo.
Mas exemplos de grandes marcas e empresas proprietárias de vastas áreas de terras e
dominadoras de mercados consumidores, poderíamos também referir, frigoríficos diversos,
bem como, indústrias dos citros, especializadas em laranja, como ocorre no interior do Estado
de São Paulo, assim como em outras regiões do país, as indústrias de congelados e pecuária
de corte. Porém, um exemplo nosso mais próximo, encontra-se no meio-oeste do Estado de
Santa Catarina. Estado que a partir das décadas de 1960, 1970 e principalmente 1980, torna-se
pujante produtor de maçã no Brasil. As grandes fazendas e latifúndios monocultores de maçã
localizam-se no município de Fraiburgo, principalmente, sendo suas marcas as que dominam
fatias importantes e consideráveis do mercado nacional dessa fruta, bem como exportam na
entressafra européia algumas variedades e suco da maçã in natura. Destacam-se das gigantes,
entre outras, Fischer, Agropel, Renar.
Alguns pequenos e médios proprietários na região, inclusive produtores assentados em
lotes de reforma agrária realizada pelo governo federal, organizam-se em cooperativas e
filiam-se em associações de maneira a não permanecerem totalmente dependentes e atrelados
aos preços das grandes firmas da maçã locais (sejam elas brasileiras ou trans-nacionais),
podendo optar pela venda do que produzem às grandes empresas ou em suas cooperativas,
escolhendo assim o preço de mercado que mais lhes convém. Não significa que essa estratégia
ainda não livre os pequenos produtores (muitas vezes chamados de fruticultores) da condição
de subordina ao mercado, de que aponta como inimigo da independência do pequeno
proprietário Marc Bloch, na epígrafe que abre esse trabalho.

Recampenização
Quando aborda o tema, Van der Ploeg5 afirma na nota número 43 que o processo de
Recampenização se apresenta no Brasil e no México de maneira modesta. Afirma antes disso,
porém, que o MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais sem Terra) brasileiro é um ótimo
exemplo de Recampenização, na medida em que aumenta quantitativamente o número de
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camponeses com acesso – mesmo que precário – a terra. Nesse conceito elaborado por Plog,
Recampenização é em síntese: o fluxo de pessoas para a vida camponesa, vindos de outras
organizações sociais e condições de trabalho, tornam-se camponeses quando fixados no
espaço rural para adquirirem ou produzirem alimentos, seja para auto-consumo ou
comercialização. Qualitativamente novas identidades e personagens passam a ser
identificados como camponeses; quantitativamente: ocorre o aumento do número desses
camponeses. Segundo Ploeg:

Evidentemente, o processo de recampenização a que me refiro não se confunde, de


forma alguma, com um mero “retorno ao passado”. Trata-se, ao contrário, de uma
ativa reconstituição de relações e elementos (velhos e novos, materiais e simbólicos)
que ajudam a encarar o mundo moderno, mas em muitos aspectos grosseiro e cruel,
de forma mais adequada e atrativa.6

Parece ser um pouco mais complexo e difícil tentar encontrar o momento e tempo
histórico em que nasce, ou melhor, renasce e emerge a vida rural nas condições que podem
ser inscritas no processo de Recampenização. Não é intenção desse trabalho historicizar ou
encontrar as origens desse movimento no Brasil. Mas sim, a partir de noticias de revistas de
circulação nacional – uma reportagem referente a jovens que largaram a vida na cidade em
direção ao campo (ver anexo) – tentar apontar elementos que possam caracterizar e identificar
elementos de uma Recampenização.
Na edição de 10 de novembro de 1980, a revista Visão trazia na sua seção
comportamento, uma reportagem de duas páginas assim intitulada: “Comunidades. Migração
às avessas. Cansados da vida na cidade, jovens profissionais vão ao campo”. Essa notícia
veiculada mais de duas décadas atrás, apresentava situações quase pontuais e isoladas (mais
que pareciam pipocar pelo Brasil afora) de corajosos jovens que retornavam ao campo com
objetivos, entre outros, de produzir seus próprios alimentos de maneira saudável: “O grande
apelo das 66 comunidades rurais que já funcionam no Brasil – repetindo fenômeno
semelhante dos anos 60 e 70 nos EUA e Europa – é a vida saudável do campo.”7 (negritos
meus) A revista também afirmava que, embora entre os novos jovens rurais houvesse apego à
natureza e aos valores místicos que o faziam optar pela vida campestre, “ao que parecem os
principais argumentos que justificam a troca [cidade p/ campo] são de ordens econômicas.”8
Quais os perfis, o que diziam e quem eram as pessoas apontadas ou descritas pela
reportagem que retornavam ao campo, formando inclusive novas comunidades e maneiras de
viver (e consumir) a ruralidade? Que atores atuavam (de que maneira?) na reconstituição das
relações que permitem relacionar ao que afirmou Plog sobre a Recampenização. Aponta a
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reportagem publicada em 1980 os seguintes perfis: seguidores da dieta macrobiótica;


praticantes de terapias alternativas; universitários ou ex-estudantes; agrônomos em busca da
prática da agricultura orgânica; pessoas dispostas a viver e vivenciar o cotidiano em
comunidade e de modo geral, quem estivesse disposto a puxar a enxada.
Naquele atual longínquo início de década, que seria chamada de década perdida, a
reportagem entendia o “retorno” ao campo, ou melhor, a ida pela primeira vez à moradia no
espaço rural por gerações nascidas urbanas, como também resultado de certa facilidade pelo
baixo preço da terra que caracterizava o período de então: “Há também a considerar que o
êxodo rural deixou terras relativamente baratas para serem adquiridas. E provocou a falta de
braços para a lavoura.”9 Em certo sentido, aquela Recampenização que se iniciava na década
de 1980, ou pelo menos parecia tornar-se mais visível por essa época, configurava ruptura e
contraste a forte descampenização das décadas anteriores, particularmente a de 1970 no
Brasil. Se a cidade parecia ser vista pelas pessoas que agora a abandonavam, como sinônimo
de caos, urbano como sendo: lugar nervoso, tempo corrido da vida agitada, quando se mudam
para o campo as preocupações da cidade alteram-se e surgem outras, apontava a revista Visão:
“A grande preocupação de todos é com a horta, adubada com esterco, e uma pequena
plantação de arroz, feijão e milho, fertilizada com calcário.”10 É possível dizer então, que é
também a possibilidade e momento em que as energias e preocupações estão voltadas para
questões que não estavam necessariamente presentes em outros espaços (como o urbano),
conseqüências de que a reportagem da revista de circulação nacional denominou de
“Migrações às avessas” referência ao forte êxodo rural no Brasil na segunda metade do século
XX.
Vale lembrar aqui, o paralelo com a Holanda. Segundo Ploeg, jovens tem se deslocado
da cidade para tornarem-se protetores da paisagem, essa migração e Recampenização parece
configurar-se na Holanda como uma questão ambiental, de proteção à natureza, ênfase ou
problemática muito mais forte do que tem ocorrido no Brasil. As ocupações rurais não
agrícolas (ORNA), bem como outros elementos do novo rural brasileiro parecem estar
associados e bastante próximos à Recampenização no Brasil, o que pode diferenciar da
Holanda, pois em nosso País, o [trabalho] rural não agrícola torna-se também possibilidade,
medida e forma de evitar a pobreza rural, bem como condições baixas de reprodução social. O
que nos países da Europa pode parecer opção de vida e mesmo prática de consciência
ambiental é muitas vezes no Brasil, uma necessidade e maneira de integrar e inserir-se na
organização produtiva. Casos como a multifuncionalidade e pluriatividade do meio rural,
podem ser formas importantes de obter-se renda não disponíveis apenas na limitada produção
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agrícola, ou seja, na prática significa a existência de trabalho e emprego no rural, não


necessariamente agrícola. A pobreza rural e até mesmo a fome não parecem ser temas tão
graves em se tratando de Países não subdesenvolvidos ou emergentes, como no caso da
Holanda. Com isso, quer-se apenas enfatizar que em termos conceituais, parece mesmo
importante diferenciar a Recampenização pelas condições sociais e sócio-econômicas dos
diferentes países, assim como a própria formação social particular, o que diferencia o Brasil
da Holanda.
E internamente, no que se refere às pessoas que foram morar no campo, segundo a
reportem descrita de novembro de 1980, parece ser uma classe média não totalmente excluída
das condições sociais (e de origem urbano inclusive), que caracterizam parte dos segmentos
do mais recente processo de Recampenização, caso do MST, por exemplo.
As teorias mais recentes que buscam interpretar as mudanças do que vem ocorrendo
no mundo (espaço) rural ainda se encontram em estado de gestação, ou nas palavras de Ploeg,
em plena construção. Contudo, não se deve esquecer nem abrir mão de conceitos e
formulações teóricas já realizadas, inclusive, clássicas no que se refere à Sociologia,
particularmente a Sociologia Rural. Campesinato, por exemplo, há possibilidades de re-
localizar o conceito, principalmente devido às novos problemas e questões emergentes que re-
atualizam a sua importância. Por que permanece ou deve-se reavaliar maneiras de utilização
do conceito de camponês? Diz Ploeg, principalmente pela emergência de uma resposta de
autonomia por parte do agricultor, necessidade de manter-se autônomo, torna um grupo social
bastante identificado e relacionado à categoria e noção de camponês.
Pode parecer uma mentira, afirma Van der Ploeg, ou um exagero constatar a
emergência e permanência de camponeses na globalização da modernidade do início do
século XXI, mas a presença e justamente existência de camponeses significa uma resposta aos
processos mais gerais que ocorrem na atualidade. É em resposta aos domínios do que Ploeg
chama de impérios alimentares, que se percebe a retomada da força do campesinato e das
existências do camponês, sob uma nova roupagem. Na modernidade mundo ou na Pós-
modernidade, há ainda muitos mais camponeses do que se imagina e pensa, é não apenas uma
falácia, mas um mito considerar que no coração do capitalismo não exista mais camponeses,
assim como novas dinâmicas sócio-demográficas apontam fenômenos recentes de novos
habitantes e produtores no espaço rural, também em nações na periferia do sistema capitalista,
caso do Brasil.
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Considerações finais

Na década de 1990, o impulso da Recampenização e mesmo consolidação da geração


que iniciou o retorno do urbano ao rural, tornou mais visível com a ampliação de
consumidores na busca por produtos e alimentos ecológicos. Em reportagem de 02 de agosto
de 1995, a Istoé, revista de circulação nacional, apontava exemplo que se tornava bem
sucedido no Rio Grande do Sul, em reportagem sobre “Alternativos”, intitulada: “Gaúchos
naturebas. Feira de produtos naturais, dieta macrobiótica e agricultores ecológicos na terra do
churrasco”.
O texto da revista, apontava o final da década de 1970 como momento de organização
e implementação da criação de cooperativa de produtores de alimentos orgânicos, anunciando
existência de uma recente tradição ecológica: “Esta curiosa vocação gaúcha para o
naturalismo se materializou em 1978 em uma cooperativa de produtores de alimentos que
dispensam o uso de agrotóxicos e outras substâncias que não sejam religiosamente naturais –
por exemplo, açúcar refinado.”11 Continua o texto jornalístico de Istoé, demonstrando as
peculiaridades e o surgimento da cooperativa gaúcha: “Misturando o conceito espontâneo de
preservação ambiental com alimentação sadia, a Coolméia – nome original de batismo da
instituição – conta com entreposto, lanchonete e restaurante no tradicional bairro do
Bonfim.”12
Talvez se poderia argumentar, a respeito da análise da organização para surgimento
dessa feira agroecológica, tratar-se de um exemplo ou constatação do caráter urbano da
comercialização desses alimentos, afinal, aponta a revista em 1995: “Para materializar o
conceito difundido desde o início da cooperativa, a Coolméia faz realizar aos sábados, diante
de sua sede, uma feira de legumes e verduras absolutamente sem agrotóxicos.” Isso significa
que o urbano contribui de certa maneira também para a existência e reprodução do
campesinato produtor ecológico; afinal origem e procedência do que é comercializado nessa
feira está em um rural que se pretende orgânico. Ainda segundo a revista Istoé, encontra-se
uma dinâmica de agricultura e consumo que escapa frontalmente ao que denominaríamos
impérios alimentares, assim como também resignifica e fortalece a Recampenização, basta
enfatizar o sucesso da feira, o crescimento do número de produtores participantes e também
do consumo: “No início, em 1989, eram apenas dez produtores. Em seis anos, os participantes
se multiplicaram para 200. O sucesso é tanto que a feira já deu até cria: no mesmo dia, mais
uma centena de barracas orgânicas é montada no bairro do Menino Deus.”13
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Uma das primeiras conclusões que se deve tirar está em apontar que mesmo a estrutura
não sendo favorável e até mesmo hostil a presença e reprodução do campesinato, os impérios
alimentares tem seu poder limitado e afetado quando consumidores resolvem o que, como e
quando consomem, decidindo sobre diferentes maneiras de acessar os alimentos que
consideram mais saudáveis. A aproximação e união de consumidores e produtores, tende a
fortalecer a ambos. Sem esquecer que nesse processo, consumidor e produtor de alimentos
orgânicos pode ser por vezes, o mesmo ator. Trata-se também de uma agricultura de
subsistência.
A segunda constatação é de que não se trata de pensar uma possível eliminação do
rural ou da vida e da produção no campo. Justamente pelo contrário, a agricultura e o espaço
rural não devem receber análises pelo espelho retrovisor de um carro em alta velocidade,
como se fossem condições passadas ou que estão em caminho de extinção. Já apontou José
Eli da Veiga “[...] a visão de uma inelutável marcha para a urbanização como única via de
desenvolvimento do campo só pode ser considerada plausível por quem desconhece a imensa
diversidade que caracteriza as relações entre espaços rurais e urbanos dos países que mais se
desenvolveram.”14
Assim, a capacidade de agenciamento de pequenos produtores, camponeses ou da
pequena agricultura não deve ser subestimada, assim como o desempenho que possam resultar
das escolhas que as pessoas fazem enquanto consumidoras. A transição para uma sociedade
ecológica de cunho sócio-ambiental sustentável, é cada vez mais colocada em prática por
consumidores que optam por minimizarem seus impactos ambientais e que possuem
consciência de proteção ambiental, associado a isso e também a emergência de uma vida no
campo e de produção agrícola também menos predatória do ambiente natural. Ainda que visto
como algo exótico e revestido com preconceitos, o retorno ao rural não deve ser desprezado
ou estereotipado. As vontades de jovens constituírem comunidades e implementarem formas
de vida e trabalho simultaneamente praticando à proteção ambiental, devem não ser apenas
estímulos por parte de cientistas, de governos e planejadores, diminuindo o espaço hostil que
causa, entre outros, os impérios alimentares, para essa re-emergência do rural.
A Recampenização não é o retorno romântico a vida no campo, afinal, como
historiadores muito bem enfatizam, a volta ao passado é apenas um mito, estamos diante de
um novo processo e para compreendê-lo deve se estender as concepções que se tem do rural,
de camponeses e da própria agricultura. Para exemplificar esse caráter que para nós é exemplo
denso da Recampenização, finaliza-se esse artigo, com reportagem da Revista Istoé, no qual
descreve parte do processo de constituição de uma feira agroecológica e a produção de
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alimentos por agricultores ecológicos. Nesse encontro do consumidor que busca alimentos
ecológicos e do produtor rural ecologista, os impérios alimentares não tem vez:

A idéia de plantar sem veneno partiu de um grupo de agricultores da região de


Antônio Prado e Ipê, na serra gaúcha. “Muita gente ficava doente e nós não
sabíamos muito bem o por quê”, explica Itair Vigolo, um dos pioneiros da
agricultura ecológica no Estado. Como coordenador da pastoral local, começou a
promover discussões sobre o tema e concluiu, junto com os vizinhos, que o
problema estava sendo causado pelo abuso de agrotóxicos. Foi o primeiro passo para
a fundação da Associação dos Agricultores Ecologistas de Ipê e Antônio Prado. O
custo da agricultura ecológica é de 50% inferior ao da convencional. “Não gasto
com veneno e quase não tenho refugo”, exulta o engenheiro agrônomo Floriano
Isolan. Os consumidores também aplaudem. “A verdura daqui é mais gostosa”,
afirma a dona de casa Ingracia Santos.15

Notas
1
BLOCH, Marc. A terra e seus homens: Agricultura e vida rural nos séculos XVII e XVIII. Tradução de Ikla
Stern Cohen. Bauru (SP): EDUSC, 2001. p.430.
2
Título do capítulo de autoria de PLOEG, Jan Douwe Van der. No livro: SCHNEIDER, Sérgio. A diversidade
da agricultura familiar. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. pp. 13-54.
3
CAILLÉ, Alain. “A dominância do mercado”. In: AYMARD, Maurice [el. Al]. Ler Braudel. Tradução Beatriz
Sidou. Campinas(SP): Papirus, 1989. pp.97-135. [citação pp.102-103].
4
“[...] a população agrícola é confrontada com um squeeze da agricultura cada vez maior. Os preços estagnam,
os custos disparam e muitas famílias agrícolas são empurradas para uma condição de marginalidade. É
intrigante, pelo menos à primeira vista, que nesse panorama segmentos cada vez maiores da população agrícola
na Europa estejam se reconstruindo como camponeses. Esses grupos enfrentam e lutam contra a condição de
marginalidade que lhes é imposta por meio da criação de novas respostas, as quais diferem claramente das
prescrições e da lógica do Império.” PLOEG, Jan Douwe Van der. Camponeses e impérios alimentares: lutas
por autonomia e sustentabilidade na era da globalização. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008. p.08.
5
PLOEG, Jan Douwe Van der. “O modo de produção camponês revisitado”. In: SCHNEIDER, Sérgio. A
diversidade da agricultura familiar. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. pp. 13-54. citação pág. 45.
6
PLOEG, Jan Douwe Van der. “O modo de produção camponês revisitado”. Op.cit, p.47.
7
Revista Visão, 10 de novembro de 1980 p.44 e 45 (comportamento). “Comunidades. Migração às avessas.
Cansados da vida na cidade, jovens profissionais vão ao campo.”
8
Ibidem.
9
Ibidem
10
Ibidem.
11
Revista Istoé, 02 de agosto de 1995 (nº1348), p.83 (alternativos). “Gaúchos naturebas. Feira de produtos
naturais, dieta macrobiótica e agricultores ecológicos na terra do churrasco.”
12
Ibidem.
13
Ibidem.
14
VEIGA, José Eli da. A face rural do desenvolvimento: natureza, território e agricultura. Porto Alegre:
Editora Universidade/UFRGS, 2000. p.160.
15
Revista Istoé, 02 de agosto de 1995 (nº1348), p.83 (alternativos). Op.cit.
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Referências

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