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O absurdo e o suicídio e o absurdo no Mito de Sísifo de Albert Camus.

Diego Barbosa de Oliveira

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Resumo: Em seu ensaio O Mito de Sísifo, Camus parte da indagação acerca do sentido da
vida e põe aquela que, segundo ele, é a questão filosófica de maior importância: “Só existe
um problema filosófico realmente sério: suicídio.” Partindo da noção de absurdo, ele busca
extrair dela suas consequência e, desse modo, avaliar se o suicídio é ou não uma resposta a ao
absurdo. Seu intuito é avaliar se o reconhecimento da falta de sentido da vida requer que
escapemos dela ou se, partindo desse pressuposto, ainda seja possível afirmá-la com todo a
sua absurdidade. No presente artigo exploraremos a noção de absurdo e, seguindo a
argumentação de Camus, apresentaremos sua resposta, a saber, que da noção absurdo da
existência não se segue que o suicídio é uma resposta. Para ele é possível pensar uma
consciência trágica, que afirma a vida com toda sua fala de sentido. Em vez do suicídio, ele
aposta na liberdade, na revolta e na paixão como armas pra enfrentar o absurdo.

A morte de Deus e o sentido da vida

Em um dos seus aforismos mais famosos, Nietzsche narra a história de um homem


louco que perambulando pelo mercado com sua lanterna, pergunta sobre o paradeiro de Deus.
Sua pergunta é meramente retórica. O homem louco não quer realmente encontrar Deus, ele
quer anunciar que já não o podemos encontrar, pois Deus está morto.

Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu.
Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos
beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte?
Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora?
Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos
continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções?
Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um
nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele
mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de
manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos
o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está
morto! Deus continua morto! E nós os matamos! (NIETZSCHE, 2002,
p. 147-144)

Embora essa aforismo tenha sido responsável por atribuir a Nietzsche a fama de ser o
assassino de Deus, não parece ser essa a forma mais coerente de entender essa passagem. O
filósofo alemão não reclama pra si a responsabilidade do assassinato divino, ele apenas
anuncia aquilo que o pensamento de seu tempo já realizara. Trata-se uma tentativa de
condensar o espirito cultural de sua época. Foram os cientistas, positivistas, imoralistas,
niilistas e etc que, ao subsistirem a referência divina, enfraqueceram a noção de Deus até
acabar por diluí-la.

Mas, afinal de contas, o que significa dizer que Deus está morto? Seria a reivindicação
ateia que afirma ‘Deus não existe’? Não se trata disso. Ao anunciar a morte de Deus Nietzsche
não está preocupado se ele existe ou não. Dizer que Deus está morto significa anunciar a
derrocada de valores transcendentes. É a descrença na imortalidade, no belo, no bom, no
verdadeiro. É, em suma, a negação de toda teologia, metafísica e religião. O homem
consciente da morte de Deus não mais pode se apegar a esperanças de uma outra vida, ou de
uma outra realidade que justifique a vida em que agora se encontra.

Todo mal, todo sofrimento e angustia encontram conforto na ideia de que essa ralidade
que agora nos oprime não passa de um momento fugido de nossa existência e que, após esse
curto período onde somos oprimidos pela carne logo passará e encontraremos na eternidade
toda a extirpação dos males terrenos. Daí que a morte de Deus é a também a morte da
esperança.

Sob a égide da transcendência a vida ganha seu valor e sentido. Há uma unidade e um
telos que a justifica. Sentimo-nos como partes de um todo e hormonizados com ele. Se
Sócrates e Jesus caminham serenos para a morte, é porque encontram nela uma libertação. É a
ideia libertação do mundo terreno e a esperança de uma outra realidade transcenda e redima a
existência terrena que consola o homem que ainda tem em si um Deus vivo.

Essa unidade, no entanto é perdida com a morte de Deus. Ao reconhecermos a


impossibilidade da transcendência, temos que lidar com o peso da imanência e a falta de
sentido inerente à vida. Doravante não há mais esperanças em uma outra realidade que nos
supera e justifique nosso lugar no mundo. Estamos abandonados. A leveza da esperança de
uma justificação que está para além da própria vida da lugar ao peso do vazio e da ausência de
sentido. Daí as lamentações do homem louco de Nietzsche e seu temor quanto ao modo como
esse fenômeno pode ser encarado:

Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e


sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos
punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos
lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A
grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós
mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve
ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma
história mais elevada que toda a história até então! (NIETZSCHE, 2002, p.
147-144)

A morte de Deus não é uma celebração, é antes de tudo um grito de desespero. O


maior valor já projetado pelo esprito humano, ante o niilismo moderno, despenca. Os
referencias que até então guiavam o homem já não possuem força persuasiva. A consciência
de que não podemos justificar essa existência recorrendo a esperança de uma realidade que a
transcenda, como Deus, a imortalidade, a verdade etc, é, se levada às ultimas consequências,
um fardo pesadíssimo que até então os pensadores ocidentais nunca haviam carregado.
Privado de ilusões, ou mais precisamente, incapaz de se iludir, o homem moderno não
reconhece mais seu vinculo com o mundo e, ante a consciência de que a pátria terrena e a vida
futura nada lhe significam, divorcia-se da vida e testemunha o sentimento do absurdo.

Do sentimento de absurdo surgem questões de importância capital. Afinal, se a vida


não tem sentido, por que haveríamos de vivê-la? Seria o suicídio uma resposta ao absurdo?
Esse é o tema do ensaio de Camus. Antes de passarmos à resposta por ele oferecida, é preciso
que nos detenhamos um pouco na noção de absurdo.

A noção do absurdo

Para compreendermos a noção de absurdo em Camus temos que levar em


consideração dois pressupostos de sua argumentação. A primeira consiste na afirmação de que
o ser humano, enquanto ser racional, possui um apetite por clareza. Trata-se do desejo de
conhecer o mundo e atribuir sentido às coisas, de submetê-las às nossas categorias racionais e
assim unificá-lo em um todo apaziguador. Desse modo, o homem deseja reduzir o mundo a si
e assim familiarizar-se com ele: “compreender o mundo, par um homem, é reduzi-lo ao
humano, marcá-lo dom seu selo.(…) Essa nostalgia de unidade, esse apetite de absoluto
ilustra o movimento essencial do drama humano”. (CAMUS, 2010, p. 31)

A segunda premissa consiste na irracionabilidade do mundo. Trata-se do pressuposto


de que por mais que tentemos sistematizá-lo, nunca poderíamos alcançar a sua verdade
ultima. Há, em Camus, uma clara desconfiança dos poderes da razão: “com exceção dos
racionalistas profissionais, desistimos hoje do verdadeiro conhecimento” (CAMUS, 2010,
p.32) Ele não pode acreditar que possamos de algum modo alcançar a verdade tomada em seu
sentido mais forte. A ciência, que frequentemente reclama pra si a capacidade de um real
conhecimento das coisas, é vista com desconfiança. Não é que ele a negue, mas todas suas
hipóteses estão longe de satisfazer o apetite humano pelo absoluto. “Explicam-me o mundo
com uma imagem. Então percebo que vocês chegaram à poesia: nunca poderei conhecer.”
(CAMUS, 2010, p.33)

Estabelecidas essas duas premissas, podemos entender como Camus apresenta a noção
de absurdo. Trata-se de um estado resultante da comparação entre nossa nostalgia de unidade
e incapacidade do mundo de satisfazê-la. Eis então o estado absurdo que se encontra o
homem: por um lado seu profundo anseio por respostas, e por outro o silêncio irracional do
mundo.
Não é que o mundo seja em si absurdo. O que se pode dizer a seu respeito é que ele é
irracionável. O absurdo surge da confrontação dos anseios de unidade do homem e a falta de
resposta do mundo. É um estado que necessita do confronto entre esse dois termos:

Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Este mundo não é
razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é
o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo
ressoa o mais profundo do homem. Por ora é o único laço entre os dois”
(CAMUS, 2010 .34)

Essas são as três certezas das quais parte a investigação de Camus: o que homem quer
(sua nostalgia), o que o mundo oferece (o irracionalismo) e o absurdo ( o estado de espirito
que surge da comparação entre o que o homem quer e o que o mundo oferece).

Camus não foi o primeiro a salientar a absurdidade da vida. Há uma “tradição do


pensamento humilhado” que já levara a cabo essa investigação. Por esse motivo, ele examina
alguns desses pensadores com o intuito de avaliar se eles se mantém fiéis e, desse modo,
extrair as consequências que se pode extrair de uma filosofia que parte da não significação da
vida.

Seu exame se direciona às filosofias da tradição existencialista, como Chestov,


Jaspers e Kierkegard, mas também a Husserl e aos fenomenólogos. Para Camus, todas as
filosofias existencialistas, sem exceção, propões a evasão. Essas filosofias partem do absurdo
e da ruína da razão e “num universo fechado e limitado ao humano, elas divinizam aquilo que
oprime e encontram uma razão para ter esperanças dentro do as desguarnece. Essa esperanças
forçada tem, em todos eles, uma essência religiosa” ( CAMUS, 2010, p. 43)

O suicídio filosòfico

Para entendermos suas criticas aos existencialistas e preciso que nos foquemos no
modo como ela julga que os existencialistas realizam esse salto.

Segundo Camus, Karl Japers parte do absurdo que manifesta na impotência da razão
humana em adentrar na realidade da experiência e de realizar a transcendência. Sua filosofia
nega possibilidade de um ontologia e afirma a impotência do pensamento. No entanto, esse
fracasso do pensamento não desemboca no nada ou no vazio, mas sim, de modo paradoxal,
no próprio ser da transcendência. Essa passagem do nada para a transcendência é o que
Camus chama de salto.

Chestov, do mesmo modo opera um salto. Ele parte da condição humana humilhada
mas em vez de conformar-se com ela, ele vê nela uma prerrogativa parar afirmar a realidade
de Deus como saída. “Chestov descobre o absurdo fundamental de toda existência, ele não
diz: ‘eis o absurdo’, mas sim ‘eis Deus’.(CAMUS, 2010, p.44) Ele parte do absurdo, mas
somente para dissipá-lo mediante uma especie de ato de fé.

Portanto, para Camus, Jaspers e Chestov, embora partam do absurdo em suas


filosofias, não se mantêm fiéis a ele. É certo que eles tomam o absurdo como uma verdade
primeira, mas o fazem isso apenas para saltá-lo mediante uma esperança no eterno. Com isso
aniquilam aquilo que é próprio do absurdo, que é a oposição, o dilaceramento e o divórcio

Coisa semelhante ocorre em Kierkegard. Ele também opera um salto. Seu salto
consiste em um sacrifício do intelecto em prol do cristianismo como um modo de escapar a
absurdo. O absurdo aparece em Kierkegard não é entendido como um fato, mas como um
estado de desespero e é o próprio estado de pecado. Por isso Kierkegard busca fugir ao
desespero. Todas as filosofias existenciais tem em comum esse salto, donde tentam superar o
absurdo. Essa atitude é o que Camus designa por suicídio filosófico.

“o movimento pelo qual um pensamento nega a sim mesmo e tende a supera-


se no que diz respeito à sua negação. A negação é o Deus dos existencialistas
(…) Elas sempre aspiram ao eterno, e sò nisso são o salto” ( CAMUS,
2010 p. 50)

Camus não se interessa pela atitude racional que parte do pressuposto de que a razão
pode explicar o mundo, O que ele quer é “esclarecer o procedimento mental que, partindo de
uma filosofia da não significação do mundo acaba encontrando um sentido e uma
profundidade.” ( CAMUS, 2010, p. 46) É nesse sentido que Camus resgata Husserl e os
fenomenólogos “a fenomenologia se nega a descrever o mundo, quer simplesmente ser uma
descrição do vivido”(CAMUS, 2010 p.51) Para a fenomenologia não há uma verdade, mas a
verdades. O que interessa a ele é principalmente o conceito de intencionalidade de Husserl. A
partir desse conceito reconhecemos as várias facetas que o mundo apresenta à consciência
intencional. Mas há, mesmo em um Husserl, um salto. Ele o faz por meio de uma metafísica
da consolação. Mas diferentemente dos existencialistas, ele não busca superar o absurdo
suprimindo a razão e apostando em uma esperança futura, o que ele faz é tentar suprimir o
irracionalismo do mundo apostando em essências extratemporais. Esse empreendimento tem a
mesma roupagem das atitudes existencialistas : a tentativa de superação do absurdo pela
eliminação do paradoxo que surge entre a nostalgia do absoluto e irracional do mundo “A
razão e o irracional levam à mesma predicação”. (CAMUS, 2010, p. 52)

Camus quer se afastar dos extremos. Ele não pretende dar o braço a torcer nem pela
extrema racionalização do mundo ou pela a negação da razão. Embora critique a atitude
racionalista e seu otimismo em relação a possibilidade de se alcançar o conhecimento
verdadeiro, ele reconhece a razão como parte integrante da atividade humana e que, portanto,
não pode ser suprimida. O homem absurdo não nega razão, ele apenas toma consciência de
seu limitado alcance. “O absurdo é a razão que reconhece seus limites”( CAMUS, 2010, p.
56)

Daí que nenhuma das filosofias analisadas por ele se mantém féis ao absurdo. O
divórcio entre o espirito que deseja e o mundo que decepciona, a nostalgia de unidade e o
universo disperso e a contradição que une o homem ao mundo desaparece mediante o salto.
Esses filósofos colocam o uma espécie de suicídio como resposta ao absurdo: o suicídio
filosófico. Todavia, Camus não quer saltar o absurdo suprimindo um dos termos da
contradição, pois o absurdo consiste justamente nesse equilíbrio paradoxal.

Todos esse autores, de um modo ou de outro, não permanecem no absurdo. A ideia de


uma vida sem sentido parece demasiadamente pesada para ser afirmada, por isso todos
buscam saltá-lo mediante um suicídio filosófico. Diferentemente dessas filosofias, a proposta
de Camus é manter-se fiel ao absurdo com a clara consciência sua situação.

O suicídio físico

O suicídio filosófico é apenas um aspecto do problema. O que mais interessa a Camus


é o suicídio físico. Trata-se, tal como no suicídio filosófico, de uma espécie salto que busca
superar o absurdo. Todavia, diferente do suicídio filosófico, não se trata da morte do
pensamento, mas da morte da carne. Aqui chegamos ao ponto principal do ensaio. Será que o
suicídio é a consequência lógica do absurdo?

Para Camus, não há nada que nos assevere que a falta de sentido leva necessariamente
ao suicídio “na verdade não há nenhuma medida obrigatória entre esses dois juízos”. Ainda
que o pensamento reconheça a nulidade da vida e postule a morte como uma solução, a carne
manifesta sua força persuasiva contra a tendencia ao nada

No apego de um homem à sua vida há algo mais forte do que todas as


misérias do mundo. O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e
o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de
adquirir o de pensar ( CAMUS, 2010, p. 23)

Os que morrem por suas própriias mãos estão convencidos da falta de sentido da vida
e que o único modo de encarar o absurdo é esquivando-se dele. Todavia, essa não é, para
Camus, uma consequência do absurdo.

O absurdo nos pões alguma opções: a morrer, escapar pelo salto ou manter a aposta
dilacerante e maravilhosa no absurdo. É essa terceira opção que cativa o filósofo e escritor
franco-argelino.
Para Camus “aceitar a absurdidade de tudo que nos cerca é uma etapa necessária. A
falta de sentido da vida, em vez de ser um convite à morte é, antes de tudo, um estímulo à
vida”. Sua aposta é em manter a vida diante do absurdo. É preciso fazer viver a absurdidade,
ou seja, viver é fazer que o absurdo viva, e é nisso que consiste a grandeza do homem.
Abdicar do absurdo por meio do salto ou pelo suicídio é recuar diante da única verdade que o
ser humano possui.

Portanto, na perspectiva camusiana, o suicídio não é a resposta ao absurdo, é apenas a


fuga. O que ele deseja é mostrar que, apesar do absurdo, a vida vale a pena ser vivida.

Se considero verdadeiro esse absurdo que rege minhas relações com a vida se
me deixo penetrar pelo sentimento que me invade diante do espetáculo do
mundo, pela clarividência que impõe a busca de uma ciência, devo sacrificar
tudo a tais certezas e encará-las de frente para poder mantê-las. Sobretudo,
devo pautar nelas minha conduta e persegui-las em todas as suas
consequências . (CAMUS, 2010, p. 21)

Camus parte de uma regra metalógica segundo a qual aquilo que é verdadeiro deve ser
mantido. Logo, o absurdo, na medida em que se apresenta como uma primeira evidência,
precisa que seja preservado. O suicídio, nessa perspectiva, não pode oferecer uma resposta
adequada, porque ele visa eliminar o absurdo.

Não pode haver absurdo fora do espirito humano. Por isso absurdo acaba,
como todas as coisas, com a morte, Mas tampouco pode haver absurdo fora
deste mundo. E por esse critério julgo que a noção do absurdo é essencial e
pode configurar como a a primeira de minhas verdades ( CAMUS, 2010, p.
63)

Uma vez que o absurdo requer para existir tanto o homem quanto o mundo e sua
relação, suprimir um dos termos dessa trindade seria ir contra aquela única certeza que Camus
alcançou e, portanto, é ir contra a regra metodológica que ensina a preservar aquilo que
consideramos verdadeiro.

Daí que a consequência lógica do abudos não é o suicídio, mas a revolta “uma
confrontarão e uma luta sem tréguas”. A revolta é um ato de protesto contra a condição
absurda da vida. É a manutenção do conflito que perpassa a vida. Trata-se da consciência
lúcida que ciente de seus limites, encara a vida com toda a sua falta de sentido e a afirma.
Essa é a primeira consequência do absurdo.

Para fazer com que o absurdo viva, é preciso liberdade. No entanto, não se trata de
uma liberdade metafísica, é apenas o despertar de uma consciência lúcida que, ao reconhecer
a sua situação, toma as rédeas de sua vida sem o consolo de um esperança futura. A verdadeira
liberdade começa com a descoberta do absurdo, diz Camus. É o despertar da vida maquinal.
Antes do absurdo, essa vida maquinal era o que impedia o homem de ser livre, na medida em
que “ele imaginava uma meta pra sua vida, ele se conformava com as exigências da meta a ser
atingida”. Agora, no entanto, ao se reconhecer que não há sentido pra vida, que não há um
Deus que me garanta o livre arbítrio e a vida futura, a perspectiva da ação concreta “se o
absurdo aniquila todas minhas possibilidades de liberdade eterna, ele, em contrapartida,
devolve-me e exalta a minha liberdade de ação”. Eis que a liberdade é a segunda
consequência do absurdo.

A terceira consequência do absurdo é a paixão pela vida. Trata-se de afirmar a vida


apaixonadamente excluindo toda e qualquer divindade ou valor eterno que sirva como norte.
Ao abandonar a perspectiva da eternidade, o homem insere-se no tempo e faz nele seu campo
de ação. Daí que a ética absurda substitui a qualidade das experiências pela quantidade. É
preciso viver o máximo possível. É nisso que consiste a paixão absurda.

Desse modo, vemos que embora afirma a falta de sentido da vida, Camus não acredita
no suicídio como uma alternativa para absudo. Em vez disso ele propõe a liberdade, a revolta
e paixão como armas para encarar a guerra fastigante que a consicência efrenta ao despertar
para o absurdo.

Referências

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia da Letras, 2002.

CAMUS, Albert. O mito de sísifo. Rio de janeiro, Edições BestBolso, 2010.