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Fichamento de leitura

Livro: Comunicação, cultura e fronteiras


Vera Lucia Spacil Raddatz
Karla Maria Müller

RADDATZ, Vera (Org.). Comunicação, cultura e fronteiras. Ijuí: Ed. Unijuí, 2015.

Texto: As fronteiras das águas do Brasil meridional


P.21
Autor: Tau Golin

Texto: Línguas e imaginário na fronteira platina


P.39
Autor(es): Andréa Weber e Eliana Sturza

Na Região Platina, quando a fronteira é tida como lugar de fim, de limite entre
Estados, as línguas espanhola, portuguesa e guarani, por serem línguas dos Estados
nacionais que a integram, também significam a divisão, a diferenciação ente povos e
territórios; já quando a fronteira é vivida como lugar de continuidade, de vizinhança entre
Estados, essas línguas, por serem línguas do Mercosul e também locais-fronteiriças,
significam o encontro entre as comunidades dos países limítrofes, as suas semelhanças
culturais, sua proximidade social.

As áreas fronteiriças platinas, historicamente, mostraram-se permeáveis no


domínio social, cultural, linguístico e comercial, em relação às colônias/países vizinhos,
funcionando, muitas vezes, como espaços de “continuidade”.

Isso porque a fronteira platina desenvolveu relações mais intensas com os vizinhos
hispânicos do que qualquer outro ponto da fronteira brasileira, por razões como os
conflitos bélicos, a identificação com um modo de vida baseado na agropecuária de corte,
o comércio legal e ilegal, a formação das chamadas cidades-gêmeas ao longo da linha
divisória, as raízes culturais comuns (Colvero,2004).

Segundo os autores, as políticas de Estado usam o guarani como símbolo da


identidade correntina, de modo que essa significação permeia os discursos oficiais locais.
Por outro lado, no cotidiano social ainda predomina um discurso de proibição de uso do
guarani, resultado de políticas anteriores que consideravam o bilinguismo espanhol-
guarani incorreto, levando muitos pais a não transmitirem a língua a seus filhos, de modo
que, hoje, as zonas de fala predominantemente guarani são afastadas das cidades e
habitadas por pessoas de baixo poder aquisitivo. (Zamborain; Bengonchea; Sartori,
[2012])

A língua aparece como um importante critério para o reconhecimento nacional e


como um importante critério para o reconhecimento nacional e como um fator de
superação da identificação “racial”. Nesse ambiente de disputas e tentativas de
legitimação de identidades nacionais, os imigrantes “brancos e loiros” são praticamente
reconhecidos como nacionais se falarem o guarani (Albuquerque, 2006, p.12).

Hibridismo linguístico

Texto: Brasil e Haiti – redesenhando fronteiras e alteridades nas interações entre mídia e
imigração Haitiana
P. 64
Autor: Denise Cogo

Augé (2006) evoca, em sua reflexão, a existência de uma diversidade de


fronteiras: naturais (montanhas, rios, estreiros), linguísticas, culturais ou políticas. Como
fenômenos socioculturais, plurais e dinâmicos, Albuquerque (2005) lembra que as
fronteiras não são estáticas, mas estão em constante movimento de redefinição e
negociação, comportando dinâmicas singulares de interação, hibridismo cultural e
também exclusões. Augé (2006) adverte também que embora se reafirmem em
modalidades rígidas que atuam como proibições e comportam exclusões, as fronteiras
nunca são eliminadas mas sim redesenhadas.

As próprias fronteiras entre países são espaços de trocas e de fragmentações


culturais, lugares de porosidade e experimentações, de intensos cruzamentos e hibridismo
cultural e que se constituem ao mesmo tempo em espaços de conflitos e barreiras quando
dizem respeito a fenômenos como o das migrações (Albuquerque, 2005).

As fronteiras nacionais são demarcações e delimitações produzidas pela


intervenção humana que decorrem de processos de disputas e ocupação militar,
demográfica, econômica, política e cultural. Albuquerque (2005, p. 48) retoma Bourdieu
para lembrar que as fronteiras são produtos de atos jurídicos artificiais, de disputas de
poder em que a vontade política é capaz de construir diferenças culturais em contextos
históricos similares. A existência de uma relação recíproca entre política e cultura na
definição das fronteiras territoriais dos Estados nacionais assegura que, com o suporte da
educação escolar, da cidadania, das línguas nacionais e de outros sistemas de
comunicação, a ação política consiga criar as diferenças culturais em um determinado
espaço fronteiriço no qual predominam semelhanças no estilo de vida da população local.
As fronteiras geográficas são preenchidas com significados políticos e culturais e
funcional como “campos de luta pela delimitação legítima”.

Texto: “Queremos construir pontes, não cercas”: Jornalismo Internacional, conflito e


território
P. 92
Autor: Angela Zamin

Devido à carga geopolítica que existe na sua representação, a fronteira é


caracterizada como limite. Limite e fronteira, contudo, são conceitos antinômicos:
enquanto o limite está orientado para dentro, a fronteira implica aquilo que está na frente.
O limite é um fator de separação que fixa e separa o território de distintas unidades
políticas. A fronteira, a um só tempo, é um espaço de encontro e desencontro com o outro,
de intercâmbio ou de bloqueio. Ela é real, resultado de interações sociais processadas em
diferentes períodos históricos.

As fronteiras aparecem aí como espaços de sobreposição do território e do conflito


– mesmo quando este é identificado desde modo somente pelo Jornalismo -; variantes
importantes no trabalho jornalístico, porque seus temas, percursos e objetos delineiam-se
no interior de um espaço que toca espaços outros, de uma parte, e reivindica
territorialidade, de outra. Metaforicamente ou não, o Jornalismo Internacional volta-se
para e pelas fronteiras, demarcando sua posição diante dos conflitos da atualidade. Assim,
apresenta um mapa do mundo conformado por tantos lugares, acontecimentos e temáticas
quanto o interesse e as possibilidades de cada meio permite acessar.

É por uma simbiose entre ordenação e reconhecimento, apropriação e


reconversão, que o Jornalismo, por meio do seu discurso, atribui sentidos às ocorrências
do mundo, fala dos espaços da vida nos quais se estabelecem as relações, as negociações
e os confrontos do tempo presente. Do mesmo modo que conta o que vai pelos cantos do
mundo, especialmente na editoria de Internacional, reunindo “aconteceres” e trazendo
“dizeres”, o Jornalismo revela ao mundo o que nele é o acontecido.

Texto: Mídia local fronteiriça: do impresso ao on-line


P. 117
Autor: Karla M. Müller

Cabe destacar que a expressão que utilizávamos no início estava singular,


entretanto as análises levaram-nos a considerar não só as fronteiras nacionais, mas
também as fronteiras culturais. Hoje, temos a compreensão de que, assim como tratamos
dos veículos de comunicação de forma plural, também as fronteiras devem ser vistas deste
modo: nacionais e culturais. Ambas andam lado a lado e assim devem ser consideradas.

Hermenêutica de Profundidade (HP)

Também optamos pela Hermenêutica de Profundidade de Thompson pelo aporte


teórico indicado neste referencial. Isto é, as reflexões partem de conceitos que embasam
as discussões sobre cultura, ideologia e meios de comunicação, de modo imbricado, em
contextos sociais estruturados, considerando o analista um re-interpretante dos
fenômenos midiáticos, tendo em vista que as informações noticiadas pelos meios de
comunicação já partiram por um processo de interpretação da realidade.

Por vezes, o emprego de formas simbólicas (Thompson, 1995) pendia para a


articulação entre o eu e o outro, resultando em um nós; outras tantas carregavam a ideia
de soma, mas com elementos claramente distintos; outras ainda destacavam aspectos de
exclusão, de repulsa ou de distanciamento entre os sujeitos. Ficaram evidenciados
também elementos ligados à cultura e a transcendências do local (para o nacional,
regional e até meio internacional).
Com relação à economia e ao comércio local, percebe-se que o espaço fronteiriço
é frágil. Em decorrência de as cidades que compõem o recorte geográfico definido para
fins de pesquisa estarem situadas nas margens do território nacional e serem afetadas
pelas oscilações moeda e do câmbio, as questões ligadas às trocas de mercadorias, bens e
serviços na região são tratadas constantemente como tema relevante para a comunidade
local. Por consequência, também presentes nos tetos dos periódicos ali produzidos. Como
nestas regiões existem zonas de free shops, um dos principais atrativos e situação que
convida os visitantes para as cidades fronteiriças, movimentando o comércio local, é a
possibilidade de aquisição de mercadorias importadas, provenientes de diferentes partes
do mundo, a preços mais convidativos, sem a incidência de importação.

O tema segurança pública direciona para o tensionamento que a fronteira causa na


comunidade: se por u lado, demonstra a importância de os grupos locais atuarem de modo
integrado e articulado para poder sobreviver às mazelas da vida da fronteira, o que pode
ser visto como positivo, por outro as implicações de o espaço fronteiriço ser suscetível a
ações ilegais, como o tráfico de drogas, contrabando, abigeato e ações identificadas como
de descaminho, representam conotação negativa para os sujeitos e instituições locais.

Como não é raro acontecer, as pequenas empresas, em especial as do interior, têm


mais dificuldades de sobrevivência que outras tantas organizações. A dependência de uma
mão de obra especializada, do fornecimento de matéria-prima e manutenção de
maquinário, a oscilação nas verbas que os anunciantes direciona para publicidade e
propaganda, são alguns dos motivos que provocam o fechamento de muitas das
organizações midiáticas. Várias delas se mantêm graças aos editais de empresas públicas
e órgãos governamentais, mas isto nem sempre é suficiente a ponto de garantir longa vida
a estas companhias. Há uma exigência constante com relação à atualização de softwares
e manuseio de novos programas de computadores que agilizam a forma de produzir e
colocar em circulação as informações. Além disso, a Internet estabeleceu uma
concorrência nunca antes vista: todos são produtores de informação e a disponibilizam
quase que em tempo real para quem estiver conectado.

Para enfrentar o momento atual, verificamos que as empresas jornalísticas do


interior buscaram evoluir e acompanhar o que está sendo solicitado pelo leitor/internauta
e até seus anunciantes. Muitas delas substituíram seus equipamentos, capacitaram seu
pessoal, firmaram convênios com agências nacionais de notícias, ampliaram o espectro
de produtos, mantem a versão impressa de seus jornais e criando mais uma versão, agora
on-line.

Mesmo lançando mão de novos recursos, no entanto, percebe-se que a mídia local
fronteiriça ainda engatinha no que diz respeito ao emprego das possibilidades que a Web
oferece. Em relação à agilidade da Internet, os meios de comunicação deixam a desejar.
As trocas entre leitor/internauta e produtores da informação são pequenas. De modo geral,
os portais, sites e blogs que analisamos são bastante estáticos. Muitos deles representam
mais um repositório de dados, composto por edições anteriores dos periódicos, do que um
canal de atualização constante que pode ser buscado pelos interessados para que tenham
informações sobre os acontecimentos em tempo real.
Outra questão observada é a falta de compromisso dessas organizações em
manterem as informações disponíveis. Sem o menor constrangimento, ou por displicência
mesmo, edições e notícias são retiradas do ar ou substituídas sem que o leitor possa
recuperar informações que estavam na versão digital do veículo. Em muitos casos, os
veículos não designam uma pessoa específica para alimentar a versão digital, chegando
várias vezes a ser uma iniciativa pessoal. Ou seja, quando o funcionário que esteja
responsável por atualizar os dados do veículo na Internet sai da empresa, as notícias
deixam de ser disponibilizadas na Web. Esta estagnação perdura até que outra pessoa
sinta-se motivadas a fazê-lo. Tal movimento demonstra o amadorismo com que as
organizações midiáticas tratam a relação com seus clientes, sejam eles leitores/internautas
ou até mesmo anunciantes.

Pode-se destacar que, na medida em que os periódicos locais falam da fronteira e


seus sujeitos, auxiliam a desmitificar para o mundo que todas as fronteiras nacionais são
perigosas e marginais. Ao apresentar os fatos cotidianos, demonstram a vida do
fronteiriço como ela se desenvolve no dia a dia. Não nega a existência dos problemas
ligados aos crimes típicos daqueles espaços, mas mostra os exercícios que o homem do
lugar põe em prática para superar as adversidades presentes na região; enfrenta os desafios
de estar distante dos centros de decisão nacionais, tendo de encarar seus problemas e
dificuldades de frene e encontrar soluções possíveis.

Acompanhamos a mídia local fronteiriça em um momento de transição: do


impresso para o digital. Mesmo assim, muitas empresas ainda mantêm as duas versões –
impressa e digital – dos periódicos. Em parte este procedimento representa a preocupação
das empresas em continuar oferecendo para seus (antigos e novos) clientes mais de uma
possibilidade de acesso a suas informações e notícias. Pressupõe-se também que esta
prática tornou-se um novo modo de sustentação das empresas, podendo obter
lucrativamente com mais de um anunciante para a divulgação de uma mesma notícia, um
para a versão impressa e outro para a versão on-line/ não raras vezes, o texto é igual em
ambos os suportes. E isto não deixa de ser importante e proveitoso para a organização,
pois o grupo que produz as notícias o faz de modo a abastecer o veículo nos dois suportes,
prática comum em diversas empresas de comunicação, sejam elas interioranas ou não.

Podemos afirmar que existe uma cultura e identidade fronteiriça plural, viva e em
constante movimento. Há elementos que são comuns às comunidades que habitam os
espaços de fronteiras nacionais. O fronteiriço tem consciência de possuir uma identidade
nacional que necessita ser reforçada a todo instante para garantir a diferença na relação
com o vizinho. Ao mesmo tempo, devido ao contato constante e intenso com esse outro,
acaba por engendrar outras características que passam a ser comuns entre ele e o outro,
reproduzidas nas expressões idiomáticas, nos gestos, nos afazeres cotidianos que, por sua
vez, são muito peculiares (quase que exclusivos) dos moradores do lugar. Como não
poderia deixar de ser, para garantir sua identidade local, este sujeito reproduz e reforça,
por meio de suas ações, características ligadas aos costumes da fronteira, ou seja, existe
uma duplicidade de pertencimento, pois simultaneamente a este exercício há a afirmação
de sua nacionalidade – brasileira, uruguaia, argentina, paraguaia ou boliviana.
Assim é a cultura fronteiriça: rica em elementos resultantes de um contato
permanente e diário entre sujeitos de nacionalidades distintas, ativa e intensa. Esta cultura
se desenvolve em regiões de bordas, com múltiplas definições – híbridas, ambíguas,
ambivalentes, mestiças, polissêmicas.

Com relação às empresas midiáticas locais, vemos estas instituições como uma
das responsáveis por reafirmar a cultura e a identidade fronteiriças. Ao posicionar-se
como sujeitos, mostrando-se como agentes do lugar, incorporadas ao contexto, auxiliam
a reforçar as práticas socioculturais como protagonistas. Incluem-se na comunidade e
participam efetivamente dos acontecimentos. Mais do que meio de divulgação, colaboram
na construção de uma imagem positiva da fronteira.

Diferentemente da mídia nacional, que salienta as questões negativas das zonas


fronteiriças, a mídia local leva em conta que esses espaços, no caso do Brasil com países
vizinho, representam exemplos peculiares de reconhecimento da alteridade. É ali que se
constata a união da população nas trocas culturais e humanas.

Ao trabalhar numa perspectiva de reconhecimento das identidades culturais e


sociais que permeiam a realidade de países separados por uma faixa geográfica, mas tão
próximos pela rotina e experiências de sua população, mostra-se o espaço de fronteiras
nacionais como lugar que merece ser observado como atenção e seus agentes serem vistos
como sujeitos que vivem uma realidade distinta, na qual o respeito e a consideração pelo
outro está presente nas ações, gestos, nas práticas socioculturais cotidianas e que, embora
ocorram momentos de tensão, como em qualquer outra comunidade, o destaque fica para
as relações que estimulam a fraternidade entre os vizinhos, sinalizando para uma
convivência harmônica entre irmãos/hermanos.

Texto: Televisões fronteiriças: comunicações compartilhadas


P. 140
Autor: Marcelo Vicente Cancio Soares

Analisar aspectos de comunicação em um território fronteiriço é um trabalho


árduo. Atua-se em um universo vasto e, por isso, é necessário entender, da melhor forma
possível, a realidade social desse ambiente para extrair fragmentos deste contexto repleto
de significados.

Ao relacionarmos fronteira e comunicação percebe-se que esta sim ultrapassou as


divisas internacionais com mais amplitude e rapidez apoiada nas transmissões televisivas
por satélite, com auxílio da Internet e da digitalização. É preciso entender, porém, que a
comunicação dita global não acabou com os processos regionais e locais de transmissão
de informações. É o que acontece, por exemplo, com os meios de comunicação existentes
em cidades de fronteira. Eles se tornam agentes importantes no processo de relacionar e
informar comunidades que convivem juntas apesar de possuírem idiomas, costumes,
culturas e legislações diferentes. As televisões locais fronteiriças cumprem um papel
fundamental ao proporcionar um compartilhamento de informações que possibilitam
trocas sociais importantes
Para Foucher (2007, p.178), “El concepto de frontera se refiere a los limites
políticos entre dos Estados contíguos: esta discontinuidad es uma institución estabelecida
por decisiones políticas y se rige por textos jurídicos” Falar de fronteira, contudo, é falar
de territórios antigos e atuais. As regiões fronteiriças surgem a partir dos inúmeros
agrupamentos humanos que foram se constituindo em diferentes áreas territoriais. Mattos
(1990, p.13) lembra que “os povos primitivos não tinham necessidade de fronteiras. Eram
núcloes geo-históricos esparsos pela superfície do planeta”. O aumento gradativo da
população, a concentração de pessoas em determinadas regiões, a conquista e a expansão
dos territórios vão alterando as relações sociais e provocam conflitos e interesses na
definição de áreas que viriam a se constituir nas linhas de fronteira. É justamente no
período pós-Revolução Francesa, com o aparecimento do conceito de nação, que as
fronteiras passam a ter uma importância mais significativa do ponto de vista da formação
dos Estados-Nações e da definição de territórios. Para Raffestin (1993, p.166), “a
fronteira se insere numa categoria particular, pois os Estados-Nações a tomaram como
um sinal no sentido pleno e próprio do termo. Como tal, a fronteira é manipulada como
um instrumento para comunicar uma ideologia”. Nesse sentido, as fronteiras surgem
como delimitação de espaços geográficos. O termo, no entanto, foi adquirindo muitos
outros significados, além da demarcação de um território. De acordo com Osório (1995,
p. 110), “as fronteiras podem ser culturais, tecnológicas, agrárias. Possuem diferentes
funções nos diferentes modos de produção: enfim, só adquirem significado quando
referenciadas às sociedades que as produziram”. O conceito de fronteira dá margem para
múltiplas interpretações, articulando-se com outros áreas de estudo. Antropólogos,
sociólogos, filósofos, historiadores, arquitetos e jornalistas também procuram entender e
conceituar sobre o tema. Quando se relaciona aspectos comunicacionais com espaços
fronteiriços aparecem novos conceitos, Grimson (2000) lembra o sentido contemporâneo
das questões de identidade e comunicação em uma região de fronteira. Para o autor (2000,
p.9), “Los médios de comunicación actuales se encargan de contar esta historia a ambos
lados de las orillas, instituyéndolo como um hito de integración fundamental de las
localidades”.

No território fronteiriço a convivência diária, os hábitos culturais, as integrações


e os conflitos cotidianos geram uma constante troca de informações. Os aspectos
históricos, sociais, políticos, econômicos podem ser expostos periodicamente pelos
veículos locais de comunicação. Um processo permanente de comunicação transmitido
por meio de jornais, sites, emissoras de rádio e televisão existentes nos dois lados da
fronteira. Uma situação que mescla notícias veiculadas em idiomas diferentes. As
localidades fronteiriças produzem continuamente acontecimentos que se entrelaçam e as
informações produzidas nesse ambiente são, ao mesmo tempo, locais e internacionais.

Os veículos de comunicação fronteiriços que publica ou transmitem edições


jornalísticas constituem-se em engrenagens importantes dentro deste contexto. Muller
(2003, p.68), fazendo referência à mídia local, feita em comunidades fronteiriças, lembra
que ela “torna-se palco e, ao mesmo tempo, agente dos acontecimentos devido sua
proximidade com a população e com as instituições sociais do local onde está inserida”.

As televisões existentes em regiões de fronteira possuem características


semelhantes às de outras emissoras, mas com diferenças marcantes. São veículos que
transmitem suas programações para populações de países vizinhos e seus conteúdos têm
uma dualidade que não ocorre em outros lugares. Estas emissoras podem desempenhar
um papel fundamental no momento de transmitir notícias que servem a um território
comum. O noticiário local fundamento o conhecimento do que ocorre simultaneamente
nos dois lados da fronteira. Televisões com estas características existem em regiões
fronteiriças de várias partes do mundo. Este trabalho menciona algumas estações de TV
situadas na divisa de países.

A região fronteiriça possui características próprias delimitadas pela organização


das cidades, a convivência dos povos e as relações socioeconômicas que se estabelecem.
A massificação das informações nacionais e globais recebidas pelos fronteiriços é
compensada e equilibrada, em parte, pelas emissoras locais de televisão, que por estarem
mais próximas da região, da cultura local e dos acontecimentos fronteiriços têm, por isso
mesmo, maior facilidade de retratar esse cotidiano. Dessa maneira os temas da fronteira
tornam-se mais constantes e passam a fazer parte da pauta dessa televisão de proximidade.
No momento da veiculação desses assuntos constata-se que a fronteira não é apenas um
local em que a televisão está presente, mas é a fronteira com sua cultura e raízes que está
presente na tela da televisão.

(...) As pautas confirmam a variedade de temas que podem ser explorados pelas
televisões fronteiriças. Os mais frequentes referem-se à saúde, educação, trabalho, meio
ambiente, polícia, segurança, comércio, economia, trânsito, esporte e problemas sociais.
Estes assuntos fazem parte mais constante das pautas jornalísticas porque refletem as
necessidades diárias enfrentadas pelas populações dos dois lados. Os povos da fronteira
conhecem suas deficiências e problemas. Desse modo, os temas que estão mais próximo
e relacionados com a região fronteiriça acabam sendo tratados pelas mídias locais. Já as
mídias nacionais exploram exaustivamente temas como contrabando, falsificação, tráfico
de drogas e armas. Embora estes assuntos também estejam presentes no cotidiano
fronteiriço, os outros fazem parte da rotina diária das populações e são mais importantes
do ponto de vista social e jornalístico.

As emissoras fronteiriças também podem possibilitar trocar sociais cotidianas. Por


meio de seus noticiários colaboram na divulgação de leis que são diferentes em casa lado
da fronteira. (...) Informações sobre a coleta de lixo e projetos urbanísticos na linha da
fronteira, atendimento nos hospitais, câmbios de moedas, relações comerciais, serviços
de profissionais liberais, publicidade de empresas.

Televisão e fronteira são duas palavras que parecem interagir, tal a reciprocidade
que carregam. A fronteira é uma região rica para a televisão porque congrega muitos
aspectos culturais, trocas, interações, rivalidades a serem exploradas pelo veículo. A
fronteira gera acontecimentos, a televisão os exibe. Este processo é permanente neste
ambiente porque as relações de conflito e integração estão embutidas no espaço territorial
e fazem parte do cotidiano conjunto das cidades.

Texto: Implicações (i)legais da radiodifusão na fronteira São Borja (BRA) e Santo Tomé
(ARG)
P. 161
Autor(es): Joel Felipe Guindani e Tiago Costa Martins

Não obstante, na crescente informatização e digitalização proporcionada pela


Internet, o rádio atualiza-se e se complexifica, atuando como um fundamental meio de
comunicação acessível a público cada vez mais amplo – agora também virtual -, mas,
sobretudo, acessível a um público em que a oralidade é privilegiada, devido ao não acesso
às redes digitais, como é a situação de muitas regiões consideradas rurais e como é o caso
de regiões fronteiriças, distantes das capitais.

Nesses contextos, o rádio exerceu e ainda exerce profundos e variados efeitos na


organização social, política, econômica e cultural. Na medida de sua produção e recepção,
o rádio não se efetivou, apenas, como um aparelho transmissor, mas como ferramenta
apropriada e ressignificada pelas mãos e ouvidos do povo.

Numa perspectiva histórica e complexa, o rádio deve ser analisado não como um
simples instrumento de comunicação, mas como um instrumento social, político e
cultural; com linguagem e outras regras técnicas historicamente definidas, as quais
legitimam informações, constroem a credibilidade, como a própria cidadania.

Para uma reflexão ou mesmo uma possível compreensão das implicações (i)legais
da radiodifusão na fronteira também cremos ser importante um debate acerca das
transformações no tempo-espaço causados pela prática radiofônica. Observamos,
sociologicamente, que por meio do rádio, os acontecimentos e as relações sociais que os
constituem podem ser deslocados de seus contextos e reestruturados “[...] através de
extensões indefinidas de tempo-espaço” (Giddens, 1991, p.29).

(...) a globalização também é outro aspecto que se soma a esses casos de


comunicação radiofônica que excedem um espaço-tempo definido. Noções como
comunidade, local, regional e mesmo nacional, remodelarams-se com as novas
possibilidades de locomoção e comunicação, oriundos da sociedade globalizada (Santos,
2002).

Em tempo de globalização, a comunicação radiofônica ainda se vincula a sua


praticidade tecnológica. Trata-se deum veículo de comunicação de fácil produção e
recepção. Por esses motivos o rádio é um meio de comunicação que se ajusta ao ouvinte
e que se deixa reger pela cotidianidade de seus receptores (Mata, 2006), bem como aos
novos produtores, principalmente quando o observamos a partir dos dispositivos
eletrônicos de produção/recepção, como o computador, o celular, o Ipad, dentre outros

Desde o contexto social regido pela ditadura militar, a comunicação comunitária


apresenta-se como alternativa capaz de revitalizar os novos rumos da democracia. É desde
este período que entra em cena a prática radiofônica aliada à cidadania, ou seja, à ação
social contestatória, que busca nos meios de comunicação formas alternativas de
conquista de direitos e da prática de deveres.

Texto: Radiojornalismo na fronteira


P. 181
Autor: Daniela Ota

OTA, Daniela. Radiojornalismo na fronteira: Especificidade na Produção e


Disseminação do Conteúdo Jornalístico. In: RADDATZ, Vera (Org.). Comunicação,
cultura e fronteiras. Ijuí: Ed. Unijuí, 2015.

Ao falarmos de fronteira, estamos discorrendo sobre linha divisória, a parte


limítrofe de uma área, região ou país. Pensar no conceito de fronteira automaticamente
nos remete a uma visão de separação, e, de fato, esta consideração é pertinente quando
construída sob a perspectiva de nação, de soberania.

Ainda na visão de Padrós (1994), as fronteiras vivam manifestam uma integração


informal que sobrevive à conjunturas políticas. O intercâmbio é constante nestas regiões,
o que nos leva a afirmar que o homem fronteiriço tem uma mentalidade tendente à
integração, pois para ele as noções de espaço e nacionalidade muitas vezes são tão
abstratas quando a ideia da existência de uma linha demarcatória que o separa de outro
país.

Em âmbito nacional ou até mesmo regional, no entanto, quando os municípios


fronteiriços, os sul mato-grossenses, por exemplo, são divulgados, podemos afirmar que,
com relação aos conteúdos jornalísticos, há um estigma. Quase sempre as cidades são
retratadas como lugares ermos, marginais e com alta incidência de crimes. Podemos
relatar também que a mídia nacional estimula um discurso preconceituoso com relação
aos países vizinhos.

Conforme defendem Traquina (2005) e Sousa (2002), os jornalistas não são


observadores passivos, mas participantes ativos no processo de construção da realidade.
As notícias são resultados de um processo de produção definido como a percepção,
seleção e transformação de uma matéria-prima (os acontecimentos) num produto (as
notícias).

Outro ponto crucial é o espaço. Em um momento em que as distâncias entre o


global e o local estão cada vez menores, as empresas jornalísticas, conforme observa
Tuchman (1978) para cobrirem um maior número de acontecimentos, utilizam três
estratégias: a territorialidade geográfica – dividem o mundo em áreas de responsabilidade
territorial-; a especialização organizacional – estabelecendo “sentinelas” em certas
organizações que, do ponto de vista jornalístico, produzem acontecimentos noticiáveis-;
e a especialização em termos de temas – autodividindo-se por seções, no caso dos
impressos, e em programas segmentados, no dos meios eletrônicos.

Conforme verificamos, o processo de produção da notícia encontra barreiras em


todas as suas etapas o que reflete inexoravelmente no resultado final, ou seja, nas notícias
que ouvimos, lemos ou assistimos diariamente.

(...) Recorrendo-se às funções clássicas da comunicação – informar, formar e


entreter - pode-se afirmar que a mídia regional e local deveria também assumir a
responsabilidade pelas trocas de informações que podem integrar e reintegrar os membros
da comunidade. Segundo Camponez (2002) essa função simbólica de informação é
fundamental, pois é ela que aguça o sentimento de pertença e estreita laços de identidade

Camponez (2002, p.128) adverte que o conceito de proximidade resulta de uma


geometria variável, cujo enfoque está em uma “geometria da identidade, com tudo o que
isso implica de criação e recriação, do que em uma identidade geográfica propriamente
dita”.

Outro empecilho é a falta de estrutura organizacional e empresarial no campo


jornalístico. A maior parte dos investimentos está ligada a iniciativas isoladas de
empresários, muitos com aspirações políticas, que já nascem fadadas ao insucesso devido
à ausência de sustentabilidade econômica. Aliados a isso, verifica-se a falta de formação
e da capacitação dos profissionais que trabalham nas emissoras de rádio. Muitas vezes
observamos o desconhecimento das práticas de produção jornalística e até mesmo
confusão com relação ao conceito de prestação de serviço. O gênero serviço ganha
conotação comercial, por meio de anúncios de promoções do comércio local, e, por vezes,
resume-se a sorteios de cestas básicas e de aparelhos eletrônicos, como celulares e tablets
para os ouvintes.

Texto: Fronteiras culturais: o papel do rádio fronteiriço


P. 201
Autor: Vera Lucia Spacil Raddatz

Num primeiro olhar sobre a fronteira, são sempre as linhas geográficas que
aparecem como limites ou até mesmo obstáculos. Ultrapassar esses muros representa
ingressar em outra cultura e estender os laços, ampliar a visão sobre a região para poder
perceber as diferenças que separam e as afinidades que aproximam.

O jornal, a revista, o cinema, o rádio, a televisão e a internet ativam sentidos e


constroem concepções sobre a fronteira que vão influir de alguma maneira sobre a
bagagem que já se carrega sobre ela, podemos despertar novas sensações, alterar pontos
de vista e criar expectativas a respeito do que se pode encontrar ao adentrar em outro país,
por exemplo.

Para Ratzel (1993) não há Estado se não houver fronteiras Fantim (2008, p2)
sintetiza a fronteira como um cenário em que se combinam desafios e oportunidades e
onde é gerado um duplo processo cultural, caracterizado na atualidade como
transnacional: “um doble processo cultural com la permanencia de determinados
componentes tradicionales de la cultura de origen y la incorporación de elementos y
modos de vida del outro”.

Chegamos a três pontos para esclarecer o entendimento que temos sobre o que é
a fronteira, a partir dos fenômenos e movimentos que observamos no seus interior e no
seu cotidiano. São eles: uma fronteira não é igual à outra; a fronteira está em permanente
construção; a fronteira alimenta-se de si mesma e do conteúdo de quem a atravessa.
A fronteira é o resultado de todas as ações políticas, econômicas e socioculturais
que determinado espaço físico sofre no decorrer de sua história. Essas ações são fruto das
mãos dos homens – fronteiriços e não fronteiriços – e das intenções dos Estados que
influem sobre seu modo de ser e se expressar como fronteira de duas nações. Não existem
fronteiras iguais porque não há história ou cultura igual.

Por ser zona de contato, carrega um conjunto de denominações como um lugar de


descoberta, curiosidade, medo, surpresa, novas possibilidades, espera, busca, separação e
proximidade, que ajudam a construir o seu sentido e também a ressignificar o espaço. São
os sujeitos, os cidadãos e não as normas que definem a essência desses lugares. É um
território inacabado e um lugar com muitas portas para receber o estranho e decifrar os
seus códigos.

O principal elemento que define a fronteira é ela própria, a partir de todos os traços
que produz e dos conteúdos que a atravessam, considerando o lado de cá e o lado de lá.
Quando entram ou saem de um ou outro território, as falas, a linguagem, os ritmos e os
cantos, a música, os modos de vida, os valores, os comportamentos, os anseios, as
propostas, os contrapontos, gostos e desgostos, ritos e promessas, encantos e desencantos
vão se alojando nas fendas encontradas pelo caminho, ou seja, nas fendas humanas que
aparecem toda vez que houver algum tipo de contato entre uma cultura e outra.

Grimson (2009, p.13), ao se refeir às fronteiras e à cidadania, afirma que “quando


alguém se sente estranho ‘em casa’ não se trata de uma questão jurídica, mas simbólica:
o pertencimento”.

Tanto no mundo midiatizado como nos espaços geopolíticos, podemos encontrar


aquilo que entendemos como fronteiras culturais, ou seja, um conjunto de representações
que correspondem às falas, aos modos de vida e a tudo aquilo que dá sentido à existência
dos sujeitos daquele lugar. A uma fronteira geopolítica correspondem muitas fronteiras
culturais, com todas as ambiguidades oriundas de suas práticas no tempo e no espaço.

(...) a noção de fronteira cultural nos leva a entender as identidades fronteiriças,


dela oriundas. Ou seja, as identidades fronteiriças estão no âmbito das fronteiras culturais,
porque são os inúmeros traços e feições que vão se desenhando no jeito de ser fronteiriço,
na imbricação entre o nós e os outros.

O papel do rádio de fronteira é atuar predominantemente nas questões locais


fronteiriças, não apenas no sentido de informar, mas de articular temas de interesse
comum, de forma que a fronteira possa ser olhada como um território de unidade,
respeitadas as suas diferenças.

As características próprias do veículo, como a oralidade, a instantaneidade e a


mobilidade propiciam que o rádio faça uma cobertura abrangente dos fatos e penetre em
lugares distantes dos centros urbanos, como no interior das fazendas ou nas regiões rurais
ou pantaneiras mais afastadas, constituindo muitas vezes o principal meio de informação
dos poucos habitantes desses lugares. Apesar de todas as possibilidades que as
tecnologias apresentam hoje, como celular, Internet e satélite, ainda é o rádio que oferece
conteúdo predominantemente local e trata das questões que dizem respeito à lógica da
vida do fronteiriço, como avisos de utilidade pública, o câmbio da moeda naquele dia, o
movimento na aduana, a segurança pública loca e a movimentação da população destes
lugares.

O rádio de identidade fronteiriça precisaria evoluir para uma perspectiva de


expressão das experiências vitais para a região, a fim de que possa de fato intervir na sua
realidade, contribuindo para a formação de uma imagem mais positiva da fronteira. Hoje,
a tecnologia permite a propagação dos sons e das vozes da fronteira por seus próprios
meios e, por isso, é necessário potencializar e mostrar os aspectos da fronteira para além
de si mesma, com os mesmos recursos que geralmente outros meios de comunicação –
fora deste território – utilizam para comunicar o inverso. A maior parte das notícias sobre
a fronteira na mídia que está fora dela apresenta uma carga pejorativa, pois menciona
principalmente dois aspectos: o tráfico e a violência. Estes termos não definem a fronteira,
ao contrário, empobrecem-na. A mídia radiofônica de fronteira, dentro de uma proposta
de intervenção, poderia funcionar como um forte contraponto a essa visão, formando uma
barreira argumentativa contra os preconceitos a respeito deste território. Muitas vezes,
entretanto, vimos que esta visão é reforçada, posto que a maior parte das notícias nas
emissoras fronteiriças é sobre o gênero policial.